Você está na página 1de 31

UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE

CENTRO DE COMUNICAÇÃO E LETRAS

MAYARA RANIERI PASCHOAL

O REALISMO ANIMISTA EM “INUNDAÇÃO”, DE MIA COUTO

SÃO PAULO
2018
0
MAYARA RANIERI PASCHOAL

O REALISMO ANIMISTA EM “INUNDAÇÃO”, DE MIA COUTO

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


ao Centro de Comunicação e Letras da
Universidade Presbiteriana Mackenzie como
parte dos requisitos necessários para a
obtenção do título de Bacharel e Licenciado em
Letras – Português/Inglês.

ORIENTADORA: Profa. Dra. Aurora Gedra Ruiz Alvarez

São Paulo
2018
1
MAYARA RANIERI PASCHOAL

O REALISMO ANIMISTA EM “INUNDAÇÃO”, DE MIA COUTO

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


ao Centro de Comunicação e Letras da
Universidade Presbiteriana Mackenzie como
parte dos requisitos necessários para a
obtenção do título de Bacharel e Licenciada em
Letras – Português/Inglês.

Aprovada em

BANCA EXAMINADORA

________________________________________
Profa. Dra. Aurora Gedra Ruiz Alvarez
Universidade Presbiteriana Mackenzie

________________________________________
Profa. Dra. Maria Luiza Atik
Universidade Presbiteriana Mackenzie

________________________________________
Profa. Ms. Camila Concato
Universidade Presbiteriana Mackenzie

2
À minha mãe, Sylvia, por me
incentivar e ensinar a importância da
educação e do conhecimento.

3
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus, por ter me dado a oportunidade e a força para estudar e iniciar
minha carreira profissional em uma universidade renomada como o Mackenzie.

Agradeço à minha mãe, Sylvia, por ser a inspiração de mulher batalhadora que eu
quero seguir, por não me deixar desistir e por sempre estar ao meu lado, me
apoiando e me fortalecendo. Ao meu pai, Wilson, por sempre facilitar os meus dias e
a minha rotina puxada com seu carinho e cuidado. À minha irmã, Giovanna, por
colorir meus dias nublados. Ao meu namorado, Pedro, por ser um amigo e um
companheiro tão carinhoso e compreensível, por me ajudar a vencer os obstáculos e
por tornar minha vida mais leve. Ao meu tio, Carlinos, por ser um refúgio sempre que
preciso. Eu amo vocês.

Agradeço à minha orientadora, Profa. Dra Aurora Alvarez, por ser tão paciente e
estar sempre disposta a me ensinar e corrigir com muito carinho; sendo um exemplo
que quero seguir na vida acadêmica. À Profa. Dra. Regina Brito, por me dar a
chance de me aproximar um pouco mais da minha área e também pela confiança e
cuidado diários. A todos os professores da graduação e da pós-graduação em
Letras, a quem homenageio pelo nome da Prof Dra. Elaine Prado, pela dedicação e
entrega ao cuidar dos alunos.

Agradeço à Profa. Dra. Maria Cristina e ao Prof Dr Luiz Renato por terem acreditado
em mim e me dado a chance de crescer sempre mais. À Profa Dra. Maria Regina,
à Jaqueline e ao Rafael por terem me ensinado que somos sempre passageiros em
busca de algo melhor. À Daniele, por ter sido uma amiga, companheira e um
exemplo que segui durante meu trajeto profissional no Mackenzie.

Agradeço também a todos que tornaram a minha jornada mais leve, sou grata por
tudo que vivi e aprendi com cada um de vocês: Marcela, Victória, Jéssica Aquino,
Beatriz Rodrigues, Leticia Martinez, Giovanna Prado, Giovana Paduano, Tatiana,
Nathalia Ângelo, Tally, Haim, Vitória Silva, Rodrigo Poit, Leticia Zanussi, Gabriela,
Anderson, Lara, Samuel, Sheila, Cassiano, Naiara, Rosana, Guilherme, Mariana,
Nathalia Martinez e, principalmente, aos meus amigos Vitor Cesar e Pedro Zambon,
pela ajuda na elaboração desse trabalho e ao meu amigo Bruno, por todo o cuidado
e paciência em ouvir minhas ideias: é apenas o início de nossa parceria acadêmica.

Obrigada!
4
Ali me contive a contemplar a casa
como que irrealizada em pintura.
Entendi que por muita que fosse a
estrada eu nunca ficaria longe
daquele lugar (Mia Couto).

5
RESUMO

Na contemplação de uma literatura pós-colonial moçambicana que pretende


consolidar a cultura e a identidade nacional, o presente trabalho se propõe a estudar
a obra “Inundação”, de Mia Couto (2009), sob uma perspectiva animista,
considerando o contexto da cultura e da religiosidade africana na criação literária
local. Durante o exame da narrativa, pôde-se perceber os aspectos dessa filosofia
presentes no texto por meio da materialização de práticas sociais (rituais),
sentimentos e crenças. Considerando a teoria de Harry Garuba (2012), confirmou-se
a hipótese de que o texto estudado se aproxima do que se conceitua como Realismo
Animista, sendo a ideia do animismo, compreendida não só como filosofia de um
povo – a crença da alma atuando sob objetos inanimados –, mas também como
prática discursiva literária que enforma um gênero que se vincula à cultura africana.
Por meio dessa percepção, distanciamos o objeto de estudo moçambicano dos
conceitos europeus de realismo mágico, maravilhoso e estranho, valorizando e
entendendo as diferenças dessa literatura devido a sua origem e cultura nacional
própria. No fim, o que consideramos com esta pesquisa diz respeito à relação entre
literatura, história e sociedade entendendo como as produções literárias e seus
estudos possibilitam e fortalecem a luta moçambicana pelo estabelecimento de sua
identidade.
Palavras-chave: Mia Couto. Cultura. Animismo. Realismo Animista. Identidade.

6
ABSTRACT

Inside the Mozambican post-colonial literature’s perspective, which intends to


stablish both culture and national identity, the final paper aims to analyse the short
story “Inundação”, written by Mia Couto (2009), following the animistic view,
considering the culture and African religiosity contexts in the local literary creation.
During the narrative’s examination, it was possible to recognize the aspects of this
philosophy throughout the text by the materialization of social practices, sentiments
and beliefs. Considering the Harry Garuba’s theory (2012), it was able to corroborate
the Realism Animist theory – which is the belief of souls acting through nonconscious
objects – in the short story. By this perception, we distance the Mozambican study
object of the European concepts of Magical Realism, Miraculous and Fantastical,
recognizing the differences of this literature due to its origin and national own culture.
In the end, what we consider is the relation of literature, history and society –
understanding how the literary production and its studies enable and fortify the
Mozambican conflict by the establishment of its own identity.
Key words: Mia Couto. Culture. Animism. Animist Realism. Identity.

7
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 9

1 – IDENTIDADE, CULTURA E REALISMO ANIMISTA NA LITERATURA

MOÇAMBICANA. ..................................................................................................... 14

1.1 A LITERATURA AFRICANA EM LÍNGUA PORTUGUESA E A CRIAÇÃO DE

UMA IDENTIDADE NACIONAL. ........................................................................... 14

1.2 O ANIMISMO NA CULTURA, NA SOCIEDADE E NA LITERATURA

AFRICANA. ........................................................................................................... 17

2 – ANIMISMO EM “INUNDAÇÃO” ......................................................................... 20

CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 27

REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 29

8
INTRODUÇÃO

O insólito é um fenômeno que apresenta certa complexidade. Este traço


estético se inscreve na literatura para romper com a lógica do estatuto ficcional,
abrindo uma brecha na narrativa para a introdução de um acontecimento que foge
do ordinário. (ALVAREZ; LOPONDO, 2015, p. 52). Refere-se, portanto, “à ocorrência
incomum, ou, até mesmo, a certa situação do cotidiano que, em dado momento,
assume uma dimensão extraordinária para a vivência emocional da personagem”
(ALVAREZ; LOPONDO, 2015, p. 52). Esta manifestação anormal pode apresentar
várias formas de representação na literatura. Tzvetan Todorov (1980) considera a
existência de três modos principais de esse fenômeno se configurar, a partir de três
diferentes gêneros literários: o fantástico, o maravilhoso e o estranho.

O fantástico, segundo Todorov (1980, p. 16), define-se pela “vacilação


experimentada por um ser que não conhece mais que as leis naturais, frente a um
acontecimento aparentemente sobrenatural” (p. 16). Sendo assim, o insólito aqui se
mostra como um episódio que coloca em dúvida os conceitos de realidade ou sonho,
verdade ou ilusão. Diante dessa incerteza, a personagem e o leitor hesitam, não
encontram uma explicação que elucide a origem e a natureza desse evento. Essa
situação conflituosa pode ser encontrada em várias obras da literatura, como
exemplo dessa ocorrência, temos a obra de Lewis Carrol (2002), Alice no país das
maravilhas. Nesta história, apresenta-se como protagonista uma criança comum
(Alice), membro de uma família aristocrata da Inglaterra no século XIX. O primeiro
elemento insólito presente na obra é um coelho vestido de colete que carrega um
relógio de bolso. Ao deparar-se com ele, Alice coloca em dúvida se o que vê é real e
ao segui-lo acaba por cair em um buraco, que a leva para um mundo completamente
diferente, em que a realidade é posta à prova com animais falantes, bebidas que a
fazem aumentar e diminuir de tamanho, entre outros acontecimentos. Durante todas
as peripécias que enfrenta nesse mundo mágico, a personagem questiona a origem
daquilo, não sabendo se realmente existe ou se trata apenas de um sonho infantil.
Mesmo na finalização da obra não é dada uma explicação sobre a natureza de todos
esses eventos. Essa dúvida entre verdade e ilusão é o que caracteriza a narrativa
como fantástica.

9
No entanto, se a história de Lewis Carrol tomasse outra direção, isto é, se
essa situação ambígua fosse decifrada, a narrativa se afastaria do gênero do
fantástico, podendo caminhar pelo universo do maravilhoso ou do estranho.

Se decidir que as leis da realidade ficam intactas e permitem explicar os


fenômenos descritos, dizemos que a obra pertence a outro gênero: o
estranho. Se, pelo contrário, decide que é necessário admitir novas leis da
natureza mediante as quais o fenômeno pode ser explicado, entramos no
gênero do maravilhoso (TODOROV, 1980, p. 24)

Conforme o teórico, esses gêneros apresentam fronteiras que se tocam. O


estranho difere-se do maravilhoso, pois causa uma estranheza na personagem ou
no leitor da obra. Além desse ponto, a diferenciação dos dois conceitos ocorre a
partir do momento em que é, ou não, introduzida uma explicação lógica para o que,
até então, se caracterizava como fantástico. Um dos principais escritores desse
gênero citado por Todorov (1980) é o escritor norte-americano Edgar Allan Poe. Na
maioria de suas obras, Poe introduz o leitor em um mundo com elementos que
causam o horror. Os personagens dessas narrativas passam pela sensação de
estarem diante de situações anormais, até que é apresentada uma situação lógica
que elucida tudo o que foi dito. No conto “A queda da casa de Usher”, o leitor
acompanha uma sequência de situações estranhas que o levam à inquietação, à
suspensão e, por fim, surge o esclarecimento desses sucessos. Uma dessas
ocorrências se dá com a suposta ressuscitação da irmã de Usher, Lady Madeline,
enterrada logo no início do conto. É importante considerar que na narrativa a
personagem é apresentada como tendo uma saúde frágil, sofrendo de epilepsia e
catalepsia. Quando morre, ela não é sepultada no jazigo da família, mas posta em
seu caixão em um lugar privativo para que se aguarde o resultado da crise
cataléptica. São passadas duas semanas, quando não mais se espera a sua
sobrevivência. A aparição da personagem depois desse tempo, no final da narrativa,
seguida de maiores detalhes sobre os sintomas da doença são estratégias decisivas
para inscrever esse conto no gênero estranho.

O que se conclui do exposto é que, no estranho, todos os elementos insólitos


recebem uma explicação racional. Já no maravilhoso, de acordo com Todorov
(1980, p. 30) “os elementos sobrenaturais não provocam nenhuma reação particular
nem nos personagens, nem no leitor implícito.”. Como exemplo desse gênero, as
narrativas mais representativas são os contos de fadas, como os dos Irmãos Grimm,

10
publicados pela primeira vez em 1812. Nessas histórias, os elementos insólitos não
fazem com que a personagem duvide da realidade e nem recebem uma explicação
racional; os fatos apenas acontecem e não são questionados. Aceita-se que os
animais falem, bruxas se transformem em dragões e, como ocorre no conto “A gata
borralheira”, que árvores mágicas transformem vestidos velhos em vestidos de baile.
Essa condição de normalidade perante elementos insólitos deve-se ao fato de que o
universo tratado nesse tipo de narrativa permite esses acontecimentos, que se
caracterizam apenas por sua natureza e não pelas atitudes e reações que os
acompanham.

Além desses conceitos discutidos por Todorov, existem diversas outras


formas de o insólito apresentar-se na literatura, sendo necessário, para sua
identificação, que se leve em conta também o contexto literário da obra estudada.
Com essas considerações, o trabalho que se segue analisará as origens desse
fenômeno dentro da Literatura Africana, tendo como corpus o conto “Inundação” de
Mia Couto (2003).

A obra faz parte de um conjunto de vinte e nove pequenos contos agrupados


no livro O fio das missangas, publicado em 2003. No conto que o nomeia, o
pensamento principal do título é manifesto em uma das falas do personagem
principal: “A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São
sempre tantas, as missangas” (COUTO, 2009, p. 66). Encontra-se, neste
pensamento, uma metáfora, em que o autor faz uma referência às histórias que o
compõem uma vez que, a maioria das narrativas presentes na obra gira em torno do
universo particular feminino que é desvelado. Por meio das personagens, Couto
retrata a voz de mulheres silenciadas que sofrem por serem abandonadas,
esquecidas ou colocadas à margem da sociedade.

Pensando sobre a história de segregação existente na civilização africana de


modo geral, torna-se clara a relevância de estudar um autor pertencente a esse tipo
de literatura, visto que, assim como as personagens da obra, a cultura e a sociedade
africanas são continuamente silenciadas. Na exposição de Doulaye Konaté na
UNESCO, o historiador malinês comentou sobre a importância do conhecimento da
cultura africana, não só para os povos que integraram influências dessa cultura,
como é o caso dos brasileiros, mas também para o próprio africano – um caminho
para “o autoconhecimento em relação ao nosso passado”, afirmou o estudioso
11
(2012, p. 6). O que Konaté defende é a assunção do papel do historiador e dos
escritores africanos de reescreverem a história da África e da sua cultura pela visão
do povo, retratando a verdadeira realidade do colonizado; sendo, então, porta-vozes
de sua nação e etnia.

Entendendo essas diferenças de percepção, observa-se que não há como


compreender essa realidade levando em conta as teorias criadas fora desse
contexto específico. Na literatura, essa dissemelhança implica fortemente no
tratamento dos textos, já que os conceitos de fantasia e realidade dentro da cultura
africana possuem um sentido completamente diferente do que na europeia, por
exemplo. Considerando todas essas questões, o problema deste trabalho
configurou-se em identificar a qual ramificação pertence o insólito dentro desse
cenário literário, o que encaminha este estudo para um lado que se distancia dos
conceitos de Todorov (1980) citados anteriormente e aproxima-se de uma realidade
denominada como animista.

Formula-se, a partir de então, a hipótese de que a obra de Mia Couto, assim


como vários textos pertencentes à literatura africana contemporânea, está
relacionada à Literatura Animista. Sendo este um conceito frequentemente utilizado
para definir a realidade diferenciada do contexto em questão.

De acordo com Harry Garuba (2012, p. 19), o animismo é um pensamento


que “espiritualiza o mundo dos objetos” apresentando, assim, uma nova forma de
aparição do insólito, diferenciando-se do que é designado como maravilhoso,
fantástico ou estranho, pois leva em conta a religiosidade, a crença nos espíritos que
circundam a sociedade e a cultura da África.

Os objetivos desta pesquisa, construídos a partir do problema e da hipótese


de leitura apresentados, foram estabelecidos com o propósito de pôr em exame a
forma como o autor trata o tema principal do conto: a morte, pensando nos
elementos insólitos que são utilizados para materializar os sentimentos e as
sensações que envolvem a narrativa, principalmente no que se refere ao embate
entre a presença e a ausência, e de investigar em quais categorias literárias essas
manifestações insólitas se encaixam, analisando como essas categorias se
relacionam com a cultura africana. No exame dos textos também foram
considerados como a história e o contexto social de Moçambique são neles urdidos.

12
Para amparar teoricamente esta proposta de estudo, foi feita uma pesquisa
bibliográfica percorrendo desde o sentido geral e filosófico do animismo até sua
percepção como um gênero inscrito na literatura, buscando entender como esse
fenômeno se apresenta na obra em questão. O teórico Harry Garuba foi fundamental
para o conhecimento do animismo, seja como uma representação literária, seja
como uma percepção de mundo da cultura africana inscrita na vivência da
personagem. Assim como o teórico Antônio Cândido e o pesquisador da UERJ
Flávio Garcia, tendo sido primordiais para estabelecimento de toda a relação de
animismo, literatura, sociedade e identidade cultural africana.

A organização do trabalho que se segue está constituída pela introdução, aqui


exposta, seguida de um referencial teórico, em que serão examinados os conceitos
de realismo animista e as questões identitárias que percorrem não só esse
fenômeno, mas a literatura moçambicana como um todo. Conceituações
apresentadas, adentra-se a análise do texto “Inundação” (COUTO, 2009) e finaliza-
se com as considerações finais.

13
1 – IDENTIDADE, CULTURA E REALISMO ANIMISTA NA
LITERATURA MOÇAMBICANA

A literatura moçambicana, assim como grande parte da literatura africana,


apresenta um papel importante no que se refere à criação e ao reconhecimento de
uma identidade nacional. Conforme apontado por Rita Chaves (2005), por conta da
estreita relação com a História, entre esses povos, a literatura aparece como um
espelho, retratando os problemas e dilemas sociais.
Nela refletem-se de maneira impressionante os grandes dilemas que
mobilizam a atenção de quem tem a África como objeto de preocupação: a
relação entre a unidade e a diversidade, entre o nacional e o estrangeiro,
entre o passado e o presente, entre a tradição e a modernidade. (CHAVES,
2005, p. 251)

Levando em conta esse pensamento da literatura como agente na criação de


uma identidade que se distancia ao mesmo tempo em que se relaciona com o outro
e entendendo o papel que Mia Couto assume nesse contexto enquanto escritor
moçambicano e teórico dessa dialética identitária – entre o eu e o outro, a tradição e
o moderno, este primeiro capítulo pretende conceituar a relação existente entre
identidade, cultura e literatura moçambicana cingida por uma filosofia animista que
retoma e reforça a tradição em textos desse contexto.

1.1 A LITERATURA AFRICANA EM LÍNGUA PORTUGUESA E A CRIAÇÃO DE


UMA IDENTIDADE NACIONAL

A literatura é, pois, um sistema vivo de obras, agindo umas sobre as outras


e sobre os leitores; e só vive na medida em que estes a vivem, decifrando-
a, aceitando-a, deformando-a. A obra não é produto fixo, unívoco ante
qualquer público; nem este é passivo, homogêneo, registrando
uniformemente o seu efeito (Antonio Candido)1

Tendo em vista o pensamento de Antonio Candido manifesto em epígrafe,


compreendemos que a literatura nasce no seio da sociedade, é portadora dos seus
valores, ao mesmo tempo em que “confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e
combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas”
(CANDIDO, 1989, p. 113). Por esta sua natureza de transformar e de ser

1
Trecho colhido de CANDIDO, Antônio. Literatura e sociedade. São Paulo: Companhia Editora
Nacional, 1976, p. 74.

14
transformada, ela expressa a identidade nacional. Suas histórias desvelam a cultura,
a crença e os costumes de um povo e de uma nação. Na África, devido ao passado
de conflitos e de um longo período de colonização, a literatura assume esse papel
com grande intensidade.

Segundo Macedo e Maquêa:

Na altura da independência, os autores africanos tinham clareza da


necessidade de construir um espaço simbólico, com o máximo de
autonomia possível, que pudesse [...] atualizar “a inteligência africana” e
buscar a matéria das culturas africanas para formar uma “literatura
nacional”, com o direito de se inscrever na modernidade. (2011, p. 17)

Esta autonomia da Europa que se pretendeu estabelecer foi muitas vezes


fundada em uma pretensa ruptura de conceitos e vínculos. Deste entendimento, os
africanos preocuparam-se com a ideia de construção de si, por meio da negação do
outro, no sentido de se diferençar do outro. Em Moçambique, após a independência
em 1975, essa necessidade de se autoafirmar ficou bem evidente. Com a saída do
europeu, era necessário resgatar a identidade moçambicana e marcá-la em seu
território.

Se após a independência de Moçambique, era forte a necessidade de


afirmação de valores nacionais, tal necessidade continua expressa num
debate que ainda não está concluído e que tem atravessado a produção de
muitos escritores moçambicanos. (MACEDO; MAQUÊA, 2011, p. 19)

Como analisado por Macedo e Maquêa, essa necessidade de afirmação do


conhecimento identitário africano continua presente em Moçambique mesmo nos
dias de hoje – o que é comum, se pensarmos na independência recente do país. O
Brasil, por exemplo, “passados cem anos de independência da metrópole
colonizadora, ainda se debatia nessa busca da identidade nacional no campo geral
da cultura, das artes, da literatura [...]” (2011, p. 19).

Para entender esse processo de rompimentos de vínculos com o colonizador,


deve-se entender que a dificuldade acontece, pois, a nação – antiga colônia – foi
moldada pelos costumes e ideais do português. Sergio Buarque de Holanda
expressa esse chamado colonialismo prolongado, quando afirma que

Trazendo de países distantes nossa forma de convívio, nossas instituições,


nossas ideias e timbrando em manter isso muitas vezes em ambiente
desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa própria
terra... Até temos podido representar aquelas formas de convívio,
instituições e ideias de que somos herdeiros. (HOLANDA, 1995, p. 27)

15
Nessa ideia, entende-se o impedimento de se romper todos os vínculos com o
outro, quando tudo o que existe na sociedade tem, em certo ponto, o peso de um
passado de submissão e de dependência.

Dentro desse contexto de autoformação, os escritores africanos enfrentam


diversos embates. No que diz respeito à definição do “fazer literatura”, comparece a
problemática voltada à oralidade e à escrita, visto que, a cultura africana tem por
característica própria a oralidade em suas narrativas, enquanto que a escrita se
relaciona à autoridade e imposição da cultura europeia. Esse entrechoque de
modalidades coloca o escritor no papel de “contrabandista de mundos” – termo
usado por Mia Couto em diversos textos e entrevistas –, pois não representa apenas
um equilíbrio entre voz e palavra, mas também a busca por uma literatura que aceita
as modernizações do mundo global, ao mesmo tempo em que mantém as tradições
nacionais enraizadas.

Mia Couto – que será estudado nesta pesquisa – tem um papel


importantíssimo na literatura moçambicana, não apenas pelo impacto de seus textos
internacionalmente, mas por trabalhar essa problemática identitária em suas obras.
Para o autor “o escritor é um ser que deve estar aberto a viajar por outras
experiências, outras culturas, outras vidas” (2005, apud GARCÍA, 2010, p. 91). No
que se refere à busca identitária, essa “viagem está no propósito de construir uma
identidade, está na reinvenção da cultura” (2013, apud MACEDO; MAQUÊA, 2011,
p. 194).

Um aspecto de grande relevância nessa questão é o idioma. Por mais que se


negue a cultura imposta pelo colonizador, há a necessidade de entender a influência
e o impacto que a língua portuguesa possui nos países africanos colonizados pelos
lusitanos. O português – sendo um dos dez idiomas mais falados no mundo atual –
aparece como uma ponte que une a literatura moçambicana, assim como a de
tantos outros países africanos lusófonos, com o resto do mundo. Retomando e
ampliando a ideia de viagem, exposta acima de acordo com a definição de Mia
Couto, essa transmissão da identidade coletiva, negada a esse povo durante esses
séculos de dominação, é fundamental no processo de fortalecimento da cultura
nacional.

16
Dessa forma, Couto defende que seja recriada a identidade de Moçambique,
com o resgate da cultura nacional, entendendo, contudo, que não há como ignorar a
colonização e todo o processo de hegemonia portuguesa, visto que essa
“dominação colonial inventou grande parte do passado e da tradição africana”
(COUTO, apud GARCÍA, 2010, p. 92).

Esse pensamento de considerar o passado aproxima-se da ideia de revisitar a


história defendida por Saramago (2009) em suas escritas da literatura
contemporânea portuguesa, em que defende a ideia de pensar nos problemas de
um Portugal do passado para a criação de uma nova nação no futuro. Pensando em
Moçambique, a literatura, para afirmar a construção de uma identidade própria,
precisa entender todos os caminhos do país e todas as influências que perpassaram
por eles, percebendo os erros e os acertos anteriores na construção da tão sonhada
nação livre.

Ponderando sobre o que foi discutido até aqui e refletindo sobre a literatura
animista, proposta de estudo que será analisada neste trabalho, entende-se a
problemática apontada na introdução: a dificuldade de conceituar a literatura
africana, partindo de termos pertencentes ao mundo europeu. Para a criação da
identidade moçambicana, é necessário que haja uma reflexão dos conceitos sob a
ótica da cultura, da crença e dos costumes nacionais. É preciso olhar a realidade
distante do eurocentrismo construído nesses séculos de colonização, entendendo,
em particular, a manifestação do elemento insólito inscrito na literatura de
Moçambique segundo a perspectiva animista da cultura africana.

1.2 O ANIMISMO NA CULTURA, NA SOCIEDADE E NA LITERATURA AFRICANA

O desenvolvimento de pesquisas sobre a busca identitária dos povos


africanos, especialmente no que versa sobre o animismo, compreendido
primeiramente como uma filosofia e, em uma segunda instância, como uma crença
religiosa que está na base da cultura do africano, está relacionado ao que foi
exposto no tópico anterior e que alguns teóricos chamam de “retradicionalização
africana”. Como exposto, após a independência e saída dos europeus, houve uma
necessidade de se consolidar e recriar a identidade nacional. Nesse momento, era
preciso recuperar a tradição e ao mesmo tempo absorver os elementos da cultura do
17
outro que lhes fossem interessantes sem que houvesse a necessidade de destruir a
sua cultura vernácula. De acordo com Garuba (2012), essa prática foi notada por
diversos cientistas e estudiosos sociais, tendo percebido que os africanos de modo
geral estavam assimilando aspectos da modernidade europeia, relacionados a
ciências, tecnologias e política, dentro de seus próprios rituais e de suas matrizes
culturais.

Neste sentido, a retradicionalização africana implica dois movimentos


diferentes que podem ser percebidos simultaneamente na África pós-independência,

O primeiro envolve a assimilação das formas modernas nas práticas


tradicionais por uma elite “tradicional”; e o segundo refere-se às práticas das
elites “modernas”. Esse último envolve a recuperação das formas e práticas
tradicionais e sua incorporação nas formas de modernidade Ocidental.
(GARUBA, 2012, p. 237)

Ao mencionar essa assimilação do moderno e a recuperação do tradicional, o


teórico considera que há na África um reencantamento do mundo, fortalecido pela
reemergência de crenças e práticas culturais típicas da religiosidade africana.
Seguindo esse pensamento, Garuba defende exatamente o oposto do que é dito por
Weber (1982) em sua teoria de desencantamento do mundo, pois, nessa teoria se
defende a ideia de que, com o surgimento das inovações e com o crescimento da
ciência, o homem deixa de

[...] recorrer aos meios mágicos para dominar ou implorar aos espíritos,
como fazia o selvagem, para quem esses poderes misteriosos existiam. Os
meios técnicos e os cálculos realizam o serviço. Isto, acima de tudo, é o que
significa a intelectualização. (1982, p. 165)

Ou seja, para Weber, a sociedade deixa de explicar o mundo a partir de uma


visão mágica ou religiosa e passa a racionalizar todos os fatores que a envolvem
com explicações científicas. No entanto, Garuba (2012) defende o pensamento de
que, na África, ocorre um movimento contrário a esse ideal de racionalização, visto
que, para recuperar sua identidade, o povo africano assume suas culturas de
origem, fortalecendo a religiosidade e a crença em um mundo espiritual.

Dentro desse contexto de reencantamento, apresenta-se o animismo, não


apenas como uma religião, mas como um pensamento moldável a quem o usa,
sendo visto muitas vezes como uma incorporação de deuses e espíritos em objetos
e principalmente na natureza: uma hibridização do mundo visível, onde se
encontram os seres vivos e as demais coisas materiais, com o mundo invisível, que

18
se relaciona com os ancestrais e principalmente com o espiritual. Em virtude de seu
cunho religioso, a filosofia animista e esse ideal de “‘aprisionamento’ do espírito
dentro da matéria ou a fusão do material e do metafórico” (GARUBA, 2012, p. 240)
foram incorporados em diversas práticas sociais e culturais das sociedades
africanas.

Tendo como foco desta pesquisa o aspecto literário do animismo, é


necessário entender a relevância que essa concepção alcança nas narrativas. Uma
das funções do animismo é diminuir o impacto da modernidade na tradição, visto
que é muito frequente que se utilize esse conflito em muitas narrativas que
apresentam o confronto entre o resgate da tradição e os elementos do progresso.
“Para a massa de pessoas comuns, o animismo suaviza o movimento em direção à
modernidade, fornecendo certezas culturais, que criam a ilusão de um contínuo.”
(GARUBA, 2012, p. 242). Nessa suavização, ocorre a explicação do moderno com o
uso de elementos mágicos típicos da cultura tradicional.

Ainda levando em conta esse caráter atenuante do animismo, muitos autores


utilizam essa visão como uma estratégia para materializar o que pode ser
configurado apenas como ideias ou estados de espíritos. Trata-se de uma
materialização de ideias abstratas, prática que, de acordo com Garuba (2012), é
comum na cultura tradicional africana.

Aqui, retomando a discussão de terminologias desenvolvidas pela crítica que


se dedica ao estudo da presença de fenômenos insólitos na literatura, poder-se-ia
trazer à tona o termo “realismo mágico”, usado pelos estudiosos da literatura latino-
americana, para expressar essa noção de materialização de ideias e espiritualização
do mundo. Contudo, a concepção proposta pela cultura animista não apresenta a
visão irônica ou urbana – comentada por Garuba (2012) – que pode ser encontrada
nas narrativas do realismo mágico. Sendo assim, o realismo animista difere-se do
realismo mágico principalmente no que diz respeito à questão sociocultural,
tornando sua utilização mais completa quando nos referimos a textos de uma cultura
onde o animismo tem uma presença forte, representativa de uma cultura, como é o
caso do conto de Mia Couto analisado a seguir.

19
2 – ANIMISMO EM “INUNDAÇÃO”

Na mitologia da Grécia antiga, há o mito de Orfeu, considerado um talentoso


poeta e cantor que se apaixonou e casou com a bela Eurídice. Sem a benção
desejada do deus Himeneu, pouco depois do casamento, Eurídice morreu picada
por uma cobra. Inconformado com a morte de sua amada, Orfeu cantou o mais belo
de seus cantos, no mundo dos vivos e no mundo dos mortos, implorando a todos os
deuses que sua recém-esposa fosse trazida de volta. Pela beleza de seus versos,
foi concedido que Orfeu fosse buscar Eurídice no mundo dos mortos, com a
condição de que não olhasse para trás; apenas creria que ela o seguia. Em um
minuto de esquecimento, o gesto de olhar para trás o faz perder sua amada
definitivamente.

Na narrativa mitológica citada, assim como no conto moçambicano, o canto é


apresentado como uma magia poderosa, capaz de unir o mundo dos vivos e dos
mortos, o visível e o invisível.

Em “Inundação”, é narrada a lembrança de um filho que, na sua infância,


presenciou o sofrimento e o desespero de sua mãe ao perder o marido. Na
narrativa, temos elementos insólitos que materializam a ausência pela morte e a
presença pela lembrança e pelo culto. No embate doloroso entre esquecer e
recordar, a mãe, em movimento de insulamento e recolha, faz o trânsito no interior
de si para recuperar o elo com aquele que se foi, que, em distâncias cada vez
maiores, foi apagando sua presença. Este processo da magia do canto é o que
veremos na análise desse corpus.

Pensando na etimologia da palavra cantar, recorremos ao verbo encantar


vindo do latim incanto,a,ãvi,atum,ãre’(in+canto):

cantar em, cantar contra, fazer encantamentos, fascinar, enfeitiçar, que


significa submeter (algo, alguém ou a si mesmo) à ação de encanto, feitiço
ou magia, enfeitiçar (HOUAISS; VILLAR, 2009, p. 746)

Relacionando os sentidos etimológicos da palavra com as duas narrativas


aqui tratadas, colhemos ainda de Virgílio uma citação que nos ajuda a entender
melhor esses significados, mais abaixo.

Do Érebo mais fundo, ao som dos seus cantares, as sombras do sem-luz


subiam-se aos milhares; [...] Que digo! até ao imo aquelas mansões foscas
do desânimo eterno, o Tártaro, as riçadas Euménides irmãs de cobras
azuladas, tudo pasma a escutar! Cérbero as vozes roucas nas gargantas
20
reprime, abertas as três bocas; e a roda de Ixion suspende o remoinho!
(VIRGÍLIO, 1952, p. 96)

Sob a acepção de enfeitiçar e fazer encantamentos, Orfeu, como visto no


trecho acima, por meio do canto, conseguiu permissão para resgatar sua amada no
mundo inferior, enfeitiçando mortais, deuses e demais criaturas que ficaram
paralisadas diante de sua voz e suas palavras.

Na segunda situação, no conto moçambicano, mesmo antes da morte do pai,


o narrador-personagem já cita o poder mágico do canto da mãe, dizendo que
“Bastava que a voz de minha mãe em canto se escutasse para que, no mais lúcido
meio-dia, se fechasse a noite.” (COUTO, 2009, p. 25). De acordo com muitas
religiões e crenças, a noite é um horário onde a ligação entre o mundo dos vivos e
dos mortos fica mais sensível, sendo um período propício para a realização de
rituais e feitiços, motivo pelo qual, podemos relacionar a casa que anoitece com o
canto da mãe, pois, a partir desse fenômeno, os encantamentos acontecem, isto é, a
mãe estabelece contato com os espíritos.

Após a morte do pai, aos poucos, a mãe começa a sentir o distanciamento do


espírito do pai do ambiente familiar. É neste momento que ela volta a cantar com
mais constância. Neste caso, o ato de cantar tem significado distinto do
anteriormente encontrado, o de “cantar contra”, pois a personagem usa o canto para
cantar contra a morte, submetendo à ação do encanto aquele que já estava a
caminho do mundo invisível e fazendo com que ele retorne. “Talvez minha voz seja
um pano; sim, um pano que limpa o tempo.” (COUTO, 2009, p. 27).

Em uma entrevista concedida a TV Univesp em 2009, Jeanne Marie


Gagnebin, em meio as suas reflexões sobre a memória e a lembrança, discute sobre
a existência de dois tipos de memória, aquela que é automática – ou seja, mesmo
sem a intenção ou o desejo, suas imagens permanecem em nosso consciente – e
aquela que nós desejamos lembrar e estimulamo-nos a isso. Ao longo de
“Inundação”, vemos a mãe que sofre em ter que deixar o pai ir para o invisível. Por
isso, afirma que precisa sentir saudade e pensar nele, pois a lembrança e o
sentimento de falta são as únicas coisas que restam e que de certa forma ajudam a
manter viva sua presença.

- Durma na cama, mãe.


- Não quero. Que a cama é engolidora de saudade.

21
E ela queria guardar aquela saudade. Como se aquela ausência fosse o
único troféu de sua vida. (COUTO, 2009, p. 26).

Esse apego à lembrança que pode ser percebido na personagem do livro é


uma prática comum em várias culturas tradicionais africanas, principalmente em
Angola e Moçambique. “Entre antigos povos de origem bantu, esses cultos aos
mortos se iniciavam com os funerais, nos quais, frequentemente, havia muita
comida, bebida e música para que os falecidos fossem bem recebidos pelos
antepassados.” (SECCO, 2012, p. 68). Acredita-se, seguindo os preceitos da cultura
bantu, que a morte deve ser cultuada e celebrada para que o morto consiga realizar
sua passagem de forma tranquila e bem-sucedida. De acordo com essa cultura, a
morte é vista apenas como outra modalidade de existência. Não há, como nas
culturas de religião cristã, o pesar e a ideia de que a morte é um fim. Para essa
religião, é continuidade, um ciclo que se reinicia de forma diferente.

Além da necessidade de celebração como forma de auxiliar na passagem,


também há a crença de que o culto aos antepassados permite que eles
permaneçam presentes, ajudando e abençoando a vida de seus descendentes.
Desse modo, para que suas almas sobrevivam no mundo invisível, é necessário que
sejam celebrados e cultuados no mundo visível.

Essa crença presente na cultura bantu assemelha-se com a mitologia


mexicana de celebração do dia de los muertos, em que se acredita ser necessário
cultuar a alma daquele que se foi, lembrar-se dele, para que sua memória e sua
alma permaneçam presentes. Em uma recente animação da Disney, Viva – A vida é
uma festa (2017), retrata-se a história de uma família que por mágoas do passado
deixa de cultuar e de lembrar-se de seu ancestral fazendo com que sua alma corra o
risco de desaparecer no mundo dos mortos. No caso desse filme, a única pessoa
viva que se lembra dele é sua filha, que, por já estar em uma idade avançada,
começa a se esquecer do pai. A partir de então sua alma, assim como os objetos em
“Inundação”, desfazem-se e deixam de existir também no mundo dos mortos.
Novamente semelhante à “Inundação”, o protagonista da história, Coco, faz com que
sua avó tenha sua memória reacendida através da música, cantando uma das
canções que o ancestral escreveu, despertando a memória e fazendo com que a
alma volte a existir no mundo dos mortos, podendo enfim abençoar a família
também no mundo dos vivos.

22
Em todas essas narrativas apresentadas, tanto no corpus principal desta
pesquisa, quanto nas comparações a outras mitologias – grega e mexicana – a
temática da morte é aludida sob olhares que se assemelham, mas que também
evidenciam especificidades próprias de cada cultura. No caso de Orfeu, temos a
interseção dos deuses, que guiam e determinam todo o caminhar do destino. Em A
vida é uma festa (2017), temos o dia de los muertos, sendo uma celebração típica
da cultura mexicana, com todos os rituais que lhe cabem. Em “Inundação” (2012),
temos os símbolos da tradição africana, principalmente moçambicana, marcados em
diversos pontos da narrativa.

Na narrativa do conto, discute-se a relação entre o visível e o invisível, a


necessidade de manter presente aquele que se foi. Esses sentimentos de presença
e ausência são marcados materialmente através do desaparecimento e
reaparecimento dos objetos associados à memória do pai, como cartas, vestidos etc.

– Vosso pai já não é meu.


Apontou o armário e pediu que o abríssemos. A nossos olhos, bem para
além do espanto, se revelaram os vestidos envelhecidos que meu pai há
muito lhe ofertara. Bastou, porém, a brisa da porta se abrindo para que os
vestidos se desfizessem em pó e, como cinzas, se enevoassem pelo chão.
Apenas os cabides balançavam, esqueletos sem corpo. (COUTO, 2009, p.
25-26)

Nesse trecho, temos um dos momentos insólitos mais representativos do


animismo no conto. De acordo com Garuba:

A grande estratégia adotada por esses escritores é dar um aspecto material


ou uma existência material ao que talvez sejam somente ideias ou estados
de espírito na maneira através da qual o animismo impõe uma dimensão
espiritual a objetos materiais. (2012, p. 244).

Nesse momento da narrativa, na decomposição dos elementos apresenta-se


a materialização do afastamento do pai daquele ambiente familiar, o que provoca
uma manifestação material do sentimento de falta expresso pela mãe, pelo filho e
pelos demais personagens da cena e a representação da ausência espiritual, pois
assim como aponta Garuba na citação acima, Couto também impõe essa dimensão
espiritual aos objetos deixados e assim que o espirito se afasta, os objetos
desaparecem.

Após o canto persistente da mãe, não só a personagem ganha vida, mas


também tudo o que havia se desfeito se refaz.

23
No dia seguinte, a mãe cumpria a vontade de domingo, comparecida na
igreja, seu magro joelho cumprimentando a terra. [...]. A surpresa me
abalou: de novo se enfunavam os vestidos, cheios de formas e cores. De
imediato, me virei a espreitar a caixa onde se guardavam as lembranças de
namoro de meus pais. A tinta regressara ao papel, as cartas de meu velho
pai se haviam recomposto? Mas não abri. Tive medo. Porque eu,
secretamente, sabia a resposta. (COUTO, 2009, p. 27)

A materialização da presença e da ausência presente também nesse


momento expressa que, após o culto da mãe, representado através do canto, foi
possível que o pai pudesse dar continuidade a sua existência no mundo invisível,
sua alma permanecia viva e atuando sobre o mundo visível, devolvendo vida a tudo
o que tinha se desfeito.

Além desse elemento, é interessante perceber a valoração final do narrador-


personagem acerca desses acontecimentos. O ponto de vista refletido na narração é
do filho, que conta a história. Logo no primeiro parágrafo do conto ele afirma que
não crê nas tradições e nas crenças típicas de seu povo, acreditando apenas por
respeito. “Acredito sim, por educação. Mas não creio” (COUTO, 2009, p. 25). Ao
contar o momento de descoberta dessa recomposição dos objetos perdidos, essa
visão cética é confirmada em diversos momentos na textualidade: “a surpresa me
abalou [...] as cartas de meu velho pai se haviam recomposto? [...] Tive medo.
Porque eu, secretamente, sabia a resposta.” (COUTO, 2009, p. 27, grifos nossos). O
medo e a surpresa são sentimentos presentes nessa nova geração que, por conta
de um contato maior com a cultura do colonizador e pelo abafamento das crenças
tradicionais, não estabelece familiaridade com as crenças de seu povo, as quais são
alimentadas pela espiritualidade. Este apagamento da cultura vai de encontro à
racionalidade dominante na sociedade moderna, orientada pelo olhar da ciência. A
mãe, por outro lado, em sua religiosidade mantém viva a tradição e a crença típica
dessa cultura, ao mesmo tempo em que também se mostra afetada pela imposição
de cultura colonizadora, como o hábito de ir à missa, ritual típico do catolicismo,
cumprindo, conforme as palavras do narrador, a vontade de domingo.

Como foi discutido no primeiro capítulo, à vista do embate entre o eu e o outro


no processo colonizador, algumas das culturas africanas tornaram-se híbridas,
assim como as suas identidades, condição em que duas matrizes culturais se
fundiram. Em outras, como a que se encena no caso da personagem mãe,
apreende-se uma copresença de duas culturas, pois, na sua vivência, as práticas

24
religiosas de suas origens têm prevalência sobre às do colonizador, uma vez que no
momento crucial do drama vivido pelo afastamento do espírito do pai, a mãe se
socorre primeiro dos rituais de sua cultura, isto é, canta para invocar a presença da
alma do marido na casa e nos seus objetos. Depois de a harmonia do lar e a de si
terem sido recompostas, ela cumpre o ritual cristão.

Retomando o conceito de insólito trabalhado no primeiro capítulo, em que “se


apresenta como um componente narrativo” que rompe com o estatuto ficcional com
a interseção de uma “ocorrência incomum, ou, pode até mesmo ser, certa situação
do cotidiano que, em dado momento, assume uma dimensão extraordinária para a
vivência emocional da personagem e desencadeia um autoquestionamento”
(ALVAREZ; LOPONDO, 2015, p. 52), podemos afirmar que o insólito incide no conto
aos olhos do narrador, que vê as manifestações mencionadas acima como um
rompimento do estatuto narrativo que tecia uma situação de aparente ritmo de vida
na casa materna. Avançando mais nessa reflexão, podemos dizer que esse evento
se mostra insólito apenas ao narrador ancorado na racionalidade, que se assombra
com as manifestações acima mencionadas e se indaga, para a mãe, no entanto,
esse fenômeno tem pronta explicação: “– Vosso pai já não é meu” (COUTO, 2009,
p. 25). Com os pés enraizados em sua cultura, a mãe compreende o que sucede e
mobiliza-se para fazer com que sua vida retorne à ordem. E é o que ocorre na
narrativa.

A diegese em si é um ato de rememoração. Um recorte da vida desse filho,


que já não é mais a criança daquele momento. A imagem “Há um rio que atravessa
a casa” dá início ao conto que resgata a metáfora “rio”, usada pelo filósofo Heráclito
(circa 535 a.C. - 475 a.C.), para figurar o passar do tempo. Em “Inundação”, a imagem
da água que invade a casa – a morada da lembrança – representa o tempo que
passou e levou consigo aquele momento, aquelas recordações. “Foi quando vi a
casa esmorecer, engolida por um rio que tudo inundava.” (COUTO, 2009, p. 27).

Ao final do conto, o narrador, pouco antes de ver a casa “esmorecer” e sua


memória ser levada pela correnteza do rio do tempo, faz uma referência a essa
casa, “Ali me contive a contemplar a casa como que irrealizada em pintura. Entendi
que por muita que fosse a estrada eu nunca ficaria longe daquele lugar.” (COUTO,
2009, p. 27). A casa, nessa cultura, possui uma simbologia identitária muito forte,
pois se relaciona com a memória dos que nela viveram. De acordo com essa crença,
25
o espírito dos ancestrais permanece no local, pulsando nas paredes e mantendo
viva a história daquela família. Gagnebin (2009) pontua em sua pesquisa que a
forma como narramos a nossa história, e a importância que damos a ela, interfere
diretamente em quem somos. Sendo assim, quando o narrador afirma que a
despeito do tempo e da distância, nunca ficará longe daquele lugar, é porque aquela
casa, aquela história e aquela família viverão em si, sendo sempre reatualizados
pela memória e definindo sua identidade, as suas raízes culturais. Esse peixe-
memória que nada contra a correnteza do rio-tempo da narrativa estará nele sempre
presente.

26
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Do estudado neste trabalho, podemos alinhar as principais reflexões


desenvolvidas. No primeiro capítulo, foram retratadas noções a respeito da tradição
e da identidade moçambicana, reforçando a ideia de relevância das tradições
próprias para a criação de uma nação independente. Pensando na estrutura do
conto que gira em torno da rememoração, do tempo e da tradição dos rituais,
podemos relacionar esse universo cultural com a necessidade de o povo
moçambicano manter vivo o seu passado. De acordo com o conceito de
encantamento do mundo, examinado por Garuba (2012) como o fortalecimento da
espiritualidade e das crenças tradicionais como forma de restabelecer e consolidar a
identidade nacional perdida com a colonização, percebe-se a presença do resgate
da cultura no conto, não só por trabalhar com a questão de crença e religiosidade,
mas por mostrar uma tradição que é passada pelas gerações e se mantém viva. O
animismo, nesse contexto, não aparece como um modo de atenuar a chegada da
modernização, mas para amenizar a passagem do tempo e a ideia de morte. A ideia
de que o que morreu se foi para sempre é quebrada pela explicação da cultura
bantu de que a morte é apenas uma outra modalidade de existência; assim, por
meio do realismo animista, a personagem mãe do conto pode sentir e perceber a
volta do espirito do amado.

Considerando ainda outros aspectos da filosofia animista, esta aparece nesse


conto também como um modo de concretizar ideias abstratas relacionadas à morte,
à presença e à ausência dos espíritos, ao tempo e à recordação. O rio que
atravessa a casa com peixes nadando contra a corrente, causando uma inundação
de lembranças e sentimentos, os vestidos que se desfazem como cinzas, as cartas
que se desbotam, o dia que vira noite, todos esses elementos insólitos comparecem
como uma materialização de crenças, ideias e sentimentos das personagens
inscritas na narrativa. Pode-se dizer, desse modo, que essa concretização existe
como consolidação da tradição da cultura africana que foi abafada durante a
colonização.

O animismo pode ser ainda compreendido na narrativa enquanto gênero


literário, como visto nas teorias de Garuba (2012), uma vez que se configura como
uma percepção de mundo de um dado contexto cultural, expressa mediante uma

27
materialização de ideias e sentimentos e pela inserção de uma espiritualidade
apreendida em objetos até então inanimados. Verificando e ampliando esse conceito
em todas as suas possibilidades, trabalhamos por atender o objetivo deste estudo,
que foi o de identificar os elementos insólitos que consolidam o realismo animista no
conto “Inundação” (2009) de Mia Couto, ao tratar o tema da morte no contexto
sociocultural de Moçambique.

Ao longo da análise, pôde-se perceber que elementos referentes ao animismo


se mostram presentes, confirmando a hipótese de o texto pertencer ao Realismo
Animista, por representar materialmente conceitos abstratos. Couto, na construção
de uma realidade própria africana, torna cotidiana a magia e a religiosidade inscrita
nos objetos e na natureza.

Essa naturalidade com que se apresenta a alma, o espírito e a magia na


cultura africana reforça a problemática apontada na introdução, dizendo respeito à
análise da obra moçambicana distante dos olhares e gêneros criados pelo outro, que
se situa alheio a esse contexto. A importância de ler uma obra considerando sua
própria cultura desvela o respeito a ela, assim como reforça e valoriza a identidade
que os moçambicanos, angolanos, nigerianos etc. lutam dia após dia para
consolidar, principalmente após séculos de dominação, silenciamento e opressão.

28
REFERÊNCIAS

ALVAREZ, Aurora Gedra Ruiz; LOPONDO, Lílian. O eu e o outro: simples troca de


chapéus? In: TREVISAN, Ana Lúcia; PEREIRA, Helena Bonito Couto; ATIK, Maria
Luiza Guarnieri. Linguagens e saberes: estudos literários. São Paulo:
Annablume/Mack Pesquisa, 2015, p. 49-63.

CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. São Paulo: Companhia editora nacional,


1976.

_________. O direito à literatura. In: Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades,
1989.

CARROL, Lewis. As aventuras de Alice no País das Maravilhas. Rio de Janeiro:


Jorge Zahar Ed., 2002.

COUTO, Mia. Inundação. In: O fio das missangas. São Paulo: Companhia das
Letras, 2009.

_________. O fio das missangas. In: O fio das missangas. São Paulo: Companhia
das Letras, 2009.

CHAVES, Rita. Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários.


Cotia: Ateliê Editorial, 2005.

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Série Ética – parte V: Entrevista sobre a memória. Tv


Univesp: 29 jul. 2010. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=b_v0-
t2vnWY> Acesso em: 18 de out. 2018.

GARCÍA, Flávio. Fantástico: a manifestação do insólito ficcional entre modo


discursivo e gênero literário – literaturas comparadas de língua portuguesa em
diálogo com as tradições teórica, crítica e ficcional. In: XII Congresso Internacional
da ABRALIC Centro, Centros – Ética, Estética, 2011, Curitiba. Anais... Curitiba:
UFPR, 2011. Disponível em:
<http://www.abralic.org.br/eventos/cong2011/AnaisOnline/resumos/TC0010-1.pdf>.
Acesso em: 15 de out. 2018.

_________. Questões de identidade em artigo de opinião do moçambicano Mia


Couto. Nonada Letras em Revista. Porto Alegre: Editora UniRitter, ano 13, n. 15, p.
89-101, 2010. Disponível em:
<https://seer.uniritter.edu.br/index.php?journal=nonada&page=article&op=view&path
%5B%5D=269> Acesso em: 06 ago. 2018.

GARUBA, Harry. Explorações no realismo animista: notas sobre a leitura e a escrita


da literatura, cultura e sociedade africana. Tradução Elisângela da Silva Tarouco.
29
Nonada Letras em Revista, Porto Alegre, v. 2, n. 19, p. 235-256, 2012. Disponível
em:
<https://seer.uniritter.edu.br/index.php?journal=nonada&page=article&op=view&path
%5B%5D=610>. Acesso em: 16 abr. 2018.

GRIMM, Jacob; GRIMM, Wilhelm. Contos maravilhosos infantis e domésticos.


Tradução Christinne Rohrig. São Paulo: Cosac Naify, 2012, p. 116-127.

HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da língua


portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

KONATÉ, Doulaye. História, cultura e legado civilizatório africano. In: Brasil-África:


História, historiografia e a produção de saberes na África e na diáspora. Documento
Da UNESCO. Brasília: UNESCO, 2012, p. 6-7. Disponível em: <
http://unesdoc.unesco.org/images/0021/002169/216951por.pdf >. Acesso em 21 mai.
2018.

MACEDO, Tânia; MAQUÊA, Vera. Literaturas de Língua Portuguesa: marcos e


marcas – Moçambique. São Paulo: Arte & Ciência, 2011.

POE, Edgar Allan. Contos de imaginação e mistério. Tradução Cássio de Arantes


Leite. São Paulo: Tordesilhas, 2012, p. 221-241.

SARAMAGO, José. Contar a vida de todos e de cada um. In: Fundação José
Saramago, 2009. Disponível em: < https://www.josesaramago.org/contar-a-vida-de-
todos-e-de-cada-um/ >. Acesso em 15 jun. 2018.

SECCO, Carmen Lucia Tindó Ribeiro. Travessias e margens da existência:


representações da morte em textos literários de Angola e Moçambique.
Navegações. Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 68-72, jan./jun. 2012. Disponível em:
<https://core.ac.uk/download/pdf/25529356.pdf>. Acesso em: 10 de out. 2018.

TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. Tradução Maria Clara Correa


Castello. São Paulo: Perspectiva, 1980, p. 15-32.

VIRGILIO. As Geórgicas; Eneida. Rio de Janeiro: W. M. Jackson Inc., 1952.

WEBER, M. A ciência como vocação: In: Ensaios de sociologia. 5. ed. Rio de


Janeiro: Zahar, 1982. p. 154-183.

30

Você também pode gostar