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Homoerotismo

William Cesar Castilho Pereira


William Cesar Castilho Pereira

Psicólogo Clínico. Professor do Curso de Mestrado em Psico-


logia - PUC-MG e do Instituto Santo Tomás de Aquino - ISTA
e Instituto Santo Inácio - ISI. Membro da Equipe de Reflexão
Psicológica da CRB. Analista Institucional. Doutor pela UFRJ.
RESUMO

O texto tem por objetivo discutir o conceito de homossexualidade, a


partir de uma leitura biológica, sócio-histórica e psicanalítica situando
essa reflexão em meio às transformações sociais, econômicas e políticas
do mundo contemporâneo.

pALAVRAS-CHAVE

Homoerotismo; Psicanálise; Sexualidade; Movimentos sociais.

AbSTRACT

The text has the goal of discussing the concept of homosexuality, from
a biological, social-historical and psychoanalytical point of view. It takes
into consideration the social, economic and political changes of the
contemporary world.

KEyWORDS
Homoerotismo; Psychoanalysis; Sexuality; Social movements.

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INTRODUÇÃO
O uso do termo “homoerotismo” para designar a escolha ob-
jetal por sujeitos do mesmo sexo vem se tornando cada vez mais
comum. Vinculada a uma abordagem fenomenológica, tal escolha
é sustentada por diversos autores (COSTA, 1992; TREVISAN, 2000;
LEERS, 2002) por razões éticas, históricas, culturais e religiosas. Essa
denominação vem como alternativa ao termo “homossexualismo”,
conceito que, desde seu surgimento, esteve associado a uma idéia
depreciativa de desvio, tendo permanecido no paradigma médico,
por muitos anos, como patologia (KOLB, 1971).

As questões psíquicas envolvendo o homoerotismo têm recebido


notável atenção nas últimas décadas, o que é causa e conseqüência,
a um só tempo, dos movimentos políticos desse grupo em busca de
direitos e aceitação. Vivemos, hoje, um tempo de revisões de códi-
gos jurídicos e científicos, além de uma mudança ética por parte de
instituições familiares, educacionais, eclesiais e de grupos sociais no
que diz respeito a esse tema.

Até o final do século XIX, já eram muitas as crenças e teorias


que pretendiam explicar o homoerotismo e esclarecer os fatores
determinantes dessa escolha de objeto. As concepções fundamentais
giravam em torno de causas biológicas, psicossociais e culturais.

Do ponto de vista biológico, o comportamento homossexual é


encontrado com freqüência entre animais, ainda que, nesse campo,
a homossexualidade exclusiva seja rara (YOUNG, 2004) . Seguindo o
paradigma biológico, no ser humano a embriologia também mostra
sua constituição bissexual: indivíduos de ambos os sexos apresentam
vestígios do aparelho do sexo oposto, que persistem como órgãos
rudimentares ou modificam-se para tomar outras funções. Logo, a
biologia não é suficiente para explicar o masculino e o feminino.

Por esse motivo, é necessário ampliar a idéia de partição sexual


para o conceito de gênero, que introduz algo mais amplo a respei-
to do sexo. Para além das funções biológicas, o gênero diz de uma
construção social. A partir de aspectos inconscientes e conscientes
da linguagem, da cultura e de várias determinações históricas, eco-
nômicas e religiosas, o ser humano reestruturou sua sexualidade,

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radicalizando a relação entre o sujeito e o outro.

Entre esses pólos, portanto, a sexualidade como tal não é marcada


por um cego impulso à união dos sexos para que a insuficiência de cada
um seja mutuamente completada, como exigiria o metabolismo orgâ-
nico, ou para atender à mera reprodução da espécie. A questão sexual
localiza-se, para mais além, no âmbito do desejo, abrindo espaço para
a construção de múltiplas subjetividades que marcam a maneira de ser
masculina e feminina.

O sujeito masculino ou feminino resulta do que cada passagem


de época e cada singularidade consegue fazer da matéria-prima que
a cultura organizou e continuará reorganizando ao longo dos tempos.
Diferentes fatores sociais marcam de forma distinta a estrutura das rela-
ções subjetivas e das escolhas afetivo-sexuais. Cada novo tempo produz
suas próprias leis e desejos.

A sexualidade na linha do tempo

Nas sociedades primitivas, cada tribo tinha sua própria concepção


de vida afetivo-sexual, o que influenciava a maneira como homens e
mulheres de grupos diferentes construíam mitos sobre nascimento,
procriação, práticas sexuais. Assim, as noções de corpo, fertilidade, re-
produção, feminino, masculino e sexualidade eram tecidas a partir dos
modelos simbólicos, do contato com a natureza, dos rituais sagrados,
dos desejos e interdições e das construções sócio-econômicas.

Em “Homossexualidade: uma história”, Spencer (1999) demonstra


o peso da cultura na concepção de masculinidade nas tribos Marind e
Kiman, em Papua - Nova Guiné. Todo menino, para se tornar homem forte
e guerreiro, deveria passar por ritual oral, de felação, que simbolizava a
introjeção do significante do poder, da força e da estratégia de guerra.
Além disso, passada a infância, o jovem era tirado da mãe para dormir
com o pai na casa dos homens. Aos primeiros sinais de puberdade, o tio
materno era designado para penetrar o menino analmente, fornecendo-
lhe o esperma que o tornaria forte (SPENCER, 1999, p.20).

Para as meninas, o ritual de iniciação sexual era diferente:

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as meninas Marind também eram submetidas a estágios de
iniciação, nos quais eram confiadas a um tio materno; este,
com a ajuda da esposa, estabelecia uma relação especial
de tutor com a menina, mas sem relacionamento sexual
(SPENCER, 1999, p.20).

A partir de dados colhidos por Kosnik (1982, p.86) entre tribos


indígenas americanas, constatou-se que 53% dos indivíduos aceitam a
homossexualidade masculina, e 17% a feminina. Em tribos da África, por
sua vez, haveria uma referência especial em torno do sêmen e, conse-
qüentemente, as relações entre gêneros seriam altamente polarizadas,
com rigorosa divisão do trabalho entre homens e mulheres.

Com o surgimento das cidades na Antigüidade, a coletividade


tornou-se mais forte, mais apta a resistir a crises naturais e aumentar
sua população. Além disso, o cultivo e o pastoreio provocaram o nasci-
mento de diferentes atividades entre pessoas da mesma comunidade.
Esse processo de divisão do trabalho introduziu conflitos de interesses
na coletividade, antes tão simples.

Particularmente nas cidades gregas e em Roma, a exaltação da viri-


lidade, da feminilidade e do culto ao corpo não deixam dúvidas quanto
às múltiplas possibilidades de escolhas amorosas. A cultura, a religião, a
sexualidade e a fertilidade da natureza estavam entrelaçadas. As mulheres
de Atenas eram mantidas no interior de suas casas, proibidas de aparecer
em público, enquanto os homens proprietários eram cidadãos livres,
podiam votar e participar da vida pública. Os gregos reverenciavam o
pênis como símbolo da força e da vida, símbolo de proteção, segurança,
poder, fertilidade e completude.

Especificamente sobre a bissexualidade é que se costuma voltar o


olhar para a Grécia Antiga, sobretudo em certos períodos, quando as
práticas homoeróticas não causavam estranheza, e o amor entre dois
homens ocorria freqüentemente, reflexo da “natureza bissexual” que
Freud (1997, p. 23) descreve:

nos gregos, entre os quais os homens mais viris figuravam


entre os invertidos, está claro que o que inflamava o amor
do homem não era o caráter masculino do efebo, mas sua
semelhança física com a mulher, bem como seus atributos

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anímicos femininos: a timidez, o recato e a necessidade
de ensinamentos e assistência. Mal se tornava homem, o
efebo deixava de ser um objeto sexual para o homem, e
talvez ele próprio se transformasse num amante de efebos.
Nesses casos, portanto, como em muitos outros, o objeto
sexual não é do mesmo sexo, mas uma conjugação dos
caracteres de ambos os sexos, como que um compromisso
entre uma moção que anseia pelo homem e outra que
anseia pela mulher, com a condição imprescindível da
masculinidade do corpo (da genitália): é, por assim dizer,
o reflexo especular da própria natureza bissexual.

Na Idade Média, com o surgimento do feudalismo impulsionado pela


Igreja Católica, o campo passa a ser propriedade particular, denominado
feudo. Quem se apropriasse, para si ou para seu grupo familiar, de um
pedaço de terra defendido pela força, poderia explorar o trabalho de
quem não tivesse terra aproveitável. A sociedade era governada por uma
estratificação social: reis, nobres, clero, vassalos e servos. Isso irá marcar
o perfil sócio-econômico da época, trazendo mais tarde o acúmulo indi-
vidual de riqueza e o desenvolvimento do comércio.

Nesse período, novas subjetividades em torno da afetividade/sexu-


alidade foram elaboradas, com clara tendência a desprezar o corpo e a
sexualidade. A vida matrimonial cristã ganhou destaque especial a partir
de novas matrizes institucionais. O enfoque era primordialmente a união
afetivo/sexual entre homem e mulher, seguida do desejo de gerar filhos
e da visão do casamento como saída preventiva contra os pecados da
incontinência. Essa vida matrimonial casta não chegou ao extremo de
exigir abstinência sexual, mas apontava que as relações estavam unica-
mente a serviço da procriação dos filhos e em favor do reino de Deus.

Os tempos medievais são considerados agitados e ambivalentes,


momento de desenfreada luta pelo poder e ambição expansionista po-
lítica e econômica por parte de diversas instituições, principalmente o
Estado e a Igreja Católica. De um lado, o nexo íntimo entre procriação
e matrimônio era muito forte. De outro, no próprio seio da Igreja o
modelo único e estável acabou encontrando interstícios para deixar fluir
múltiplas subjetividades. Surgem mosteiros em vários locais da Europa,
sinal de oposição ao mundo de costumes morais padronizados. Grupos
de monges, teimosa e pacientemente, copiavam textos da antiga cultu-

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ra grega e romana. Graças a esse exercício histórico, fez-se florescer o
reencontro da cultura européia com a clássica, ponto de interseção que
significou a salvação da civilização ocidental.

Na Idade Média a diversidade de quadros culturais oci-


dentais e a seqüência das épocas não fazem esperar
uniformidade estável dos costumes em redor do sexo
e vida casada. Enquanto a literatura clerical demonstra
uma continuação bastante segura das mesmas normas,
proibições e argumentos, o ‘ethos’ popular, conjunto de
padrões de conduta sexual dos povos, apresenta uma ima-
gem bem mais complexa e variada de tabus e tolerâncias
sociais (LEERS, 2002, p.86).

No coração da Igreja, nos conventos, as reações contra o padrão


único de relacionamento afetivo encontrou abrigo:

a vida religiosa celibatária oferecia às mulheres um modo


de escapar das conseqüências do casamento – por exem-
plo, ter de dormir com o marido e ter filhos – que poderiam
ser não só indesejáveis como até mesmo ameaçadoras à
vida. Ela proporcionava a ambos os sexos um meio de evitar
papéis sexuais estereotipados. As mulheres podiam exercer
o poder em comunidades religiosas, entre outras mulheres,
sem serem subordinadas ao chefe masculino da família. Os
homens podiam ser padres de uma comunidade de iguais,
todos homens, sem as responsabilidades da paternidade
ou de administrar um lar, ou podiam exercitar, por meio do
sacerdócio, habilidades de cuidar e servir que, em outras
circunstâncias, estavam associadas às mulheres e eram
consideradas vergonhosas para os homens. Os homens
podiam evitar obrigações de guerra e devotar-se ao estudo:
as mulheres podiam tornar-se letradas e instruídas, uma
oportunidade rara para seu sexo fora das comunidades
religiosas do declínio de Roma. É razoável, sob essas cir-
cunstâncias, acreditar que o sacerdócio e as comunidades
religiosas teriam exercido uma atração particular sobre os
homossexuais... de fato, lésbicas e gays nem precisariam
de uma motivação espiritual para se associar a uma comu-
nidade unissexual de iguais (COZZENS, 2001, p.138).

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Com a Renascença, teve início uma mudança radical na mentalidade
da sociedade ocidental, a partir das revoluções artística, religiosa, polí-
tica, científica. Estabeleceram-se a Reforma Protestante, o positivismo e
o modelo econômico industrial. Entre os séculos XVII e XIX, consolidou-
se gradativamente o projeto da Modernidade, tendo como objetivo a
produção de mercadorias para o desenvolvimento e o progresso social.
A civilização moderna rompeu com a arbitrariedade das determinações
naturais, com a irracionalidade do mito, da religião, da superstição e,
principalmente, com o uso arbitrário do poder. A idéia era de que o
homem, liberto do império das idéias religiosas e do sistema feudal,
encontrava-se mais apto a transformar a si mesmo e à natureza de for-
ma racional. Esse processo cria o homem universal e estabelece a razão
como meio de desenvolver a ciência, visando à liberdade, ao progresso
e à organização social. A matriz moderna ganha corpo com os novos
padrões racionalistas e empiristas: o êxodo do campo para a cidade; as
novas formas de utilização do corpo nas relações de trabalho; o predo-
mínio da ideologia burguesa.

A ascensão do capitalismo, o endurecimento das doutrinas calvinis-


tas sobre a moral sexual e a visão positivista da ciência moderna engessa-
ram os papéis masculino e feminino. Os homens partiram para o mundo
dos negócios e fizeram fortuna, enquanto as mulheres permaneceram
em casa. A necessidade de obtenção de lucros na economia e a divisão
entre burgueses e operários inibiram os corpos, transformando-os em
máquinas.

Foi através do especialista em higiene que o Estado imis-


cuiu-se no interior das famílias. Com livre trânsito nesse
espaço outrora impenetrável à ciência, o médico-higienista
acabou impondo sua autoridade em vários níveis. Além do
corpo, também as emoções e a sexualidade dos cidadãos
passaram a sofrer interferências desse especialista, cujos
padrões higiênicos visavam a melhorar a raça e, assim,
engrandecer a pátria. A partir da idéia de corpo saudável,
fiel aos ideais de superioridade racial da burguesia branca,
criavam-se rigorosos modelos de boa conduta moral, atra-
vés da imposição de uma sexualidade higienizada, dentro
da família. Acreditava-se que a libertinagem enfraquecia
as nações (TREVISAN, 2000, p.172).

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Dá-se o endurecimento do que já era um ódio implacável ao homo-
erotismo, numa espécie de “onda homofóbica”, respaldada pela ciência
e confirmada pelo Estado. É nesse cenário que, no século XIX, psiquiatras
positivistas enquadram a sexualidade no suporte biológico, buscando
na constituição genética a determinação das inclinações homossexuais.
Somente em 1973 a Associação Americana de Psiquiatria retirou a ho-
mossexualidade da lista da Classificação de Transtornos Mentais e de
Comportamento, ou Classificação Internacional das Doenças Mentais
(CAETANO, 1993), ainda assim sob protesto.

No final da década de 70 e início dos anos 80, irrompe o surto de


“idéias novas”, abrangendo comportamentos, práticas culturais e prin-
cípios político-econômicos. Essas idéias traduzem o abalo das propostas
iluministas – a crise da razão ocidental e dos paradigmas das ciências.
Abre-se um novo conceito de razão, superando o reducionismo através
de outra concepção de ciência. A sociedade pós-moderna faz coexistirem
diversas subjetividades, numa espécie de arquipélago que se combina e
recombina sob múltiplas circunstâncias (SANTOS, 1996).

No entanto, a situação presente é ambivalente, complexa e pre-


ocupante. De um lado, visões globalizantes esfacelam-se, deixando o
indivíduo desprotegido e entregue a si mesmo, numa orfandade com
perdas políticas substantivas. De outro lado, vê-se à frente a uma nova
ordem simbólica, marcada pelo consumo; uma cultura da imagem, do
”parecer” em lugar do “ter” ou “ser”.

Durante a década de 60, a liberação provocou uma explo-


siva comercialização do sexo. Ao lado da multiplicação de
bares, cinemas e saunas, observa-se o desenvolvimento da
imprensa homossexual, da pornografia e de uma indústria
de gadgets e acessórios sexuais que vão dos brinquedos de
couro, anéis de sexo e cremes, aos poppers (vasodilatado-
res usados como afrodisíacos). Dá vontade de perguntar
aos militantes dos primeiros Gay Lib: ‘será que fizemos a
revolução só para ter o direito de abrir mais 700 bares de
entendidos?’ (apud TREVISAN, 2000).

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O homossexualismo na psicanálise
Para a psicanálise, a vida sexual é uma relação entre o que é
permitido e proibido: o desejo e a lei. Não existe moldura sagrada
ou profana, do senso comum ou científica, mítica ou estética, que dê
conta de esgotar a questão das escolhas objetais amorosas. Não há
sexualidade humana estável, natural ou adequada a essa ou àquela
cultura. Freud observou múltiplos fatores que refletem a diversidade
das condutas sexuais humanas. Essa construção subjetiva é tecida
pelo sujeito e pelos suportes simbólicos do masculino e do feminino,
próprios de cada sociedade.

A pulsão de que nos fala a psicanálise é uma carga energética


e dinâmica, cujo objetivo é suprimir o estado de tensão que reina
em sua fonte. Enquanto o instinto, nos animais, busca um objeto
fixo, nos seres humanos o objeto da pulsão é variável. Além disso,
se nos animais o instinto é regido pela necessidade, que pode ser
satisfeita completamente, no homem a pulsão busca a realização
do desejo através da coreografia das fantasias, mas a satisfação
nunca é total.

Os objetos de desejo não são inatos, têm de ser “encontrados”,


numa busca infinita. A pulsão não visa, exclusivamente, um alvo: ela
pode ser dirigida para diferentes objetos, masculinos ou femininos,
como também para o próprio eu. Desse modo, o gênero é, inicial-
mente, irrelevante na busca do objeto.

Existe apenas uma libido, que tanto serve às funções


sexuais masculinas, como às femininas. À libido como
tal não podemos atribuir nenhum sexo. Se, consoante
à convencional equação “atividade e masculinidade”,
nos inclinamos a qualificá-la como masculina, devemos
não esquecer que ela também engloba tendências com
uma finalidade passiva. Mesmo assim, a justaposição
‘libido feminina’ não tem qualquer justificação (FREUD,
1976, p.161).

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A questão do homossexualismo
na sociedade atual

Como em toda a história, a sexualidade é, nos dias de hoje, excelente


analisador das questões sociais, anunciando o triunfo do múltiplo sobre
o uno e da desordem sobre a ordem.

As novas configurações sociais abriram espaço para que os homos-


sexuais passassem a integrar a lista de movimentos sociais que eclodiram
na modernidade. Houve fases distintas na luta pelos direitos desses
grupos. Dois momentos de inflexão podem ser percebidos, nitidamente,
nessa trajetória.

O primeiro iniciou-se a partir dos anos 60. O saldo dos “novos mo-
vimentos sociais”, desse período até meados dos anos 80, foi expressi-
vo, tanto nos aspectos específicos dos direitos das minorias como nas
formas de políticas públicas da família, de trabalho e renda, da saúde,
reforma agrária e urbana, de manifestações culturais e artísticas. Grupos
marginalizados fortalecem-se, produzindo dispositivos de desconstrução
e novas subjetivações. Um dos traços marcantes de tais movimentos
foi sua independência em relação ao Estado e às instituições em geral.
Era a fase “expressivo-disruptiva”, da negação à institucionalização por
movimentos considerados marginais e subversivos do contexto vigente
e hegemônico.

Contemporaneamente, no segundo momento de inflexão, assistimos


uma postura contrária desses movimentos: a fase “integrativo-corpo-
rativa”, marcada pelo desejo de integrar-se às constituições sociais, ao
Estado de Direito, adquirindo o sentimento de pertença às instituições
da família, da Igreja, aos centros de trabalho, ou seja, à sociedade.

Alguns dos objetivos da agenda política específica do homoerotismo


foram a luta para eliminar, na linguagem da imprensa e da literatura
didática, termos de caráter pejorativo e discriminatório, a busca pelo
reconhecimento jurídico da questão homossexual e o estabelecimento
de bases para conter a violência social contra homossexuais. Em síntese,
os movimentos reivindicam o reconhecimento da existência dos ho-
mossexuais e de sua dignidade e liberdade, a rejeição da violência real
e simbólica e a afirmação do direito à proteção jurídica e a necessidade
de estruturas de apoio para evitar o isolamento social.

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Os resultados mais nítidos dessas lutas ocorreram no plano das
relações entre homossexuais e o Estado. Principalmente nos países de-
senvolvidos, leis foram mudadas em função dessas questões, e a justiça
começou analisá-las, tendo como base o direito formal ou material, e
não a condição moral do sujeito frente à comunidade (RIO GRANDE DO
SUL, 2002).

Qual será o futuro dos segmentos marginalizados? Por aqueles que


vêem seu império ameaçado, destruído e dissolvido, a entrada dos mes-
mos nas instituições será, novamente, criticada. Por outro lado, aqueles
que não temem os “bárbaros” e que desejam que a instituição seja, mais
uma vez, reinventada, procurarão elaborar melhor as diferenças.

ReferênciaS

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