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LIÇÃO 6- A RAZÃO DA NOSSA ESPERANÇA

INTRODUÇÃO

Chegamos a sexta lição do trimestre, isso significa que caminhamos rumo a segunda etapa do
percurso. Até aqui, aprendemos muito diante desta tão preciosa carta, a Carta de Pedro. Na lição
desta semana continuaremos enfocando os escritos petrinos e destacaremos: a importância da
qualidade da vida cristã, a questão do sofrimento no caminhar do crente e a defesa da nossa. São
pontos que por si só já falam muito a todos os cristãos. Portanto, é de suma importância que o leitor,
em especial aqueles que laboram com a docência cristã, se esmerem na apresentação do conteúdo
da lição, indo sempre além daquilo que é obvio.

I. AS QUALIDADES DA VIDA CRISTÃ.

É sabido que a convivência nunca foi tarefa fácil entre seres humanos. Cada um de nós temos uma
matriz de formação. Cada um tem um modo distinto de falar, de reagir as frustrações, bem como,
tem uma forma peculiar de expressamos a alegria. Como diz certo palestrante: “cada um de nós
temos as nossas mochilas de experiências pessoais que levamos para cada relacionamento que
estabelecemos”. Diante disso, a convivência cristã é um desafio, pois não basta estar ao lado, é
preciso ir mais além; é preciso suportar em amor (EF 4.3).

Jesus ao chamar seus discípulos já conhecia as limitações de cada um deles. Jesus escolheu
pescadores, coletores de impostos, mulheres ricas, outras de procedência moral duvidosa; homens
coléricos e outros mais calmos. Na verdade, olhando através de nossas lentes humanas esse grupo
tinha tudo para dar errado. Não obstante, Jesus é Deus e sabe o que faz! Ao chamar pessoas de
origens variadas Jesus está nos convidando a crescer através da troca de experiências mutuas e
diversificadas. Ninguém é uma ilha, ninguém aprende só. Precisamos um dos outros para que
possamos melhorar nossas limitações.

Os apóstolos entenderam bem o valor da lição repassada por Jesus, é por isso que vemos nas cartas
de Paulo (1 Co 12), Pedro (1 Pe 3.9) e Tiago tanta ênfase dada a boa convivência e a suportar as
limitações dos irmãos. Pedro deixa o caminho para um viver harmônico entre os crentes (1 Pe 3.
8,9), vejamos: a) possuir um mesmo sentimento (unidade); b) misericordiosos e amáveis; c)
retornando o mal com o bem através do perdão; d) ter cuidado com sua língua.

Quanto ao cuidado da língua, deixo uma prudente observação que fiz em meu primeiro livro:
“Agora me pergunto quantos irmãos têm levado outros a morte espiritual porque não vigia a sua
própria língua? Tiago afirma que um pequeno foco de incêndio pode queimar toda uma floresta (Tg
3.5), fazendo uma nítida comparação com os danos que a língua pode causar na vida de um cristão.
Ao nos ensinar sobre um comportamento cristão adequado o Senhor Jesus nos ensinou a não julgar
levianamente (Mt 7.1-6), não fazer acusações injustas enquanto nós mesmos estamos cheios de
mazelas. Este tem sido um grande problema de convivência em nossas igrejas, muitos estão prontos
a observar no cisco que está no olho do irmão enquanto não vêem a enorme viga que está em seu
próprio olho, e portanto, tornando-o ainda mais cego do que seu irmão acusado. Jesus chama tais
pessoas de hipócritas, e de sepulcro pintado (Mt 23.27), que por fora aparenta ser belo mais
interiormente está cheio de morte e podridão!1”

II. O PROBLEMA DO SOFRIMENTO

“Por que comigo SENHOR?!!!” Quantos de nós já nos pegamos fazendo esta pergunta. Parece
inconcebível que num mundo governado por um Deus justo e bom pessoas que aparentemente são
boas venham a sofrer. O problema do sofrimento humano é um dos pontos mais controversos dentro
da doutrina cristã. Contudo, mesmo sendo difícil de compreender é impossível negar a existência do
sofrimento. Bastar olhar para os desastres naturais onde vidas são ceifadas, ou para a quantidade de
crimes hediondos que vemos nas grandes cidades, ou pior ainda, para o número de pessoas que
vivem de modo honesto mas que mesmo assim padecem com uma enfermidade terminal. Nossa
pequena mente humana não consegue digerir tais coisas e diante disso somos impulsionados a
questionar a ação do criador.

Em tais situações somos tentados a questionar a existência de Deus, bem como sua bondade. É por
isso que antes de mais nada é preciso entender que Deus, de fato, é a essência da bondade. No
Senhor Deus podemos encontrar todos os padrões necessários para que possamos entender o que de
fato é ser bom. Rejeitamos a ideia de que o que para justiça humana é considerado
irremediavelmente má venha a ser considerado bom aos olhos de Deus. Faço essa afirmação com
base no conceito de que aquilo que nos resta de entendimento sobre o que é bom ou justo é
resquício do ideal plantado pelo próprio Deus em nossa mente. Portanto, ainda que distorcido pelo
pecado, temos um padrão de bondade que emana do próprio Deus. Nas palavras do grande escritor
C.S.Lewis é semelhante a uma criança que tenta desenhar um círculo e não o faz com perfeição até
que atinja as habilidades necessárias para tal. Contudo, ainda que informe, aquele círculo feito pela
criança apresentará as características de um círculo. De igual modo, o homem pecador terá a ideia
do que é bom, mesmo não podendo atingir o padrão de bondade ideial requerida pelo SENHOR.

A metáfora acima citada serve para defender que Deus em hipótese nenhuma pode ser considerado
autor do mal como já foi sugerido por alguns teólogos fatalistas. Para o escritor arminiano Roger
1
RODRIGUES, 2012, p.104
Olson, “[...] embora Deus tenha o direito e o poder de fazer o que lhe aprouver com qualquer
criatura, o caráter de Deus como amor e justiça supremos tornam certos atos de Deus inconcebíveis.
Entre estes estaria a preordenação do pecado e do mal 2”. Neste ponto, podemos fazer coro com as
Escrituras que afirmam categoricamente: “Deus é amor” (1 Jo 4.8). Ora, se Deus é amor, então por
que ele permite o sofrimento humano?

Para responder a esta questão quero me ater a duas situações: a amor de Deus e a responsabilidade
humana. Em primeiro lugar é preciso entender que o amor de Deus não é a liberdade para que o ser
humano seja feliz no sentido hedonista, ou seja, na satisfação imediata do seu prazer pecaminoso.
Para começarmos esta questão é preciso esclarecer inicialmente a ideia geral do que é o Amor de
Deus. Na verdade, quando amamos de verdade alguém, como por exemplo um filho, não
permitimos que ele ou ela seja feliz no sentido hedonista. Sempre dizemos não, sempre impedimos
que eles prossigam em direção a um precipício que venha os ferir. Para aquele que está tendo suas
vontades no momento cerceadas parece que não há amor em proibir que se alcance o prazer pleno.
Isso de algum modo pode causar um sofrimento momentâneo. Não obstante, o fim desta ação é
sempre o bem real daqueles que são amados. Neste sentido é imprescindível ouvirmos mais uma
vez a voz de C.S. Lewis sobre o tema: “O problema de reconciliar o sofrimento humano com a
existência de um Deus que ama só é insolúvel enquanto associarmos um significado trivial à
palavra "amor" e considerarmos as coisas como se o homem fosse o centro delas. O homem não é o
centro. Deus não existe por causa do homem. O homem não existe por sua própria causa. ‘Porque
todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas’" (Ap
4.11)3.

Deste modo, o amor de Deus não pode ser visto como permissividade. Outrossim, o Amor de Deus
também impõe limites e faz com que os homens sejam limitados em suas vontades e em razão de
sermos limitados e temporais não compreendemos que aquele momento de sofrimento momentâneo
é projeto de Deus a fim de ensinar seus filhos e sua criação sobre algo maior. As vezes oramos por
uma cura, uma solução de problemas ou mesmo um livramento e estes pedidos não são atendidos.
Devemos lembrar que em hipótese nenhuma isto implica retirar o amor Divino da equação. Na
verdade, para aquele que não há limites temporais e que conhece todas as tangenciais do universo, a
pronuncia de um não é um ato de sabedoria e amor que para seres limitados como nós pode parecer
incompreensível no momento, contudo, sem dúvidas esconde um pensamento muito mais alto. Em
tais situações só podemos pedir a Deus para que nossos corações sejam confortados e aceite sua
Santa decisão.

2
OLSON, 2013, p.155
3
LEWIS, 1986, p. 24
Por último, quero falar da responsabilidade humana. Sim, Deus criou homens com liberdade de
decisão. Doutra forma, não poderíamos falar em responsabilidade humana, pois como poderíamos
ser culpados ou responsáveis por algo que não tínhamos outro opção a não ser cumprir “os decretos
ocultos de Deus?”. Infelizmente, a liberdade humana é permeada pela influência do pecado e,
portanto, sempre tenderá a práticas que desagradam o plano original de Deus. Neste caso, quando
olhamos, por exemplo, para uma família que foi vítima de uma enchente em um morro do Brasil e
ali morreu crianças inocentes, podemos perguntar: onde estava Deus neste acidente? Bem, é preciso
entender que há a responsabilidade humana neste caso hipotético (mas muito real). Podemos
responder com as seguintes indagações: quem permitiu que essa casa fosse construída nas encostas
de morros? Por que não foi tomada medidas de segurança antes? A família poderia ter sido livrada
deste acidente pelas ações do poder público?

Da mesma forma encontramos situações similares, ao vermos um trágico homicídio ou acidente de


transporte (terrestre, aéreos ou marítimos). Em tais situações sempre haverá mortes prematuras, dor
e sofrimento. Em tais casos vemos claramente a consequência do pecado e da maldade e ganacia
que invade os corações de homens de perversos. É um ciclo que só será contido quando
definitivamente todas as coisas estiverem sujeitas ao Deus Pai (1 Co 15.28).

Podemos refletir em cima destas questões e afirmar que muitas tragédias como essas citadas
poderiam ser evitadas com ações adequadas dos homens que em razão do pecado, sempre tendem a
atitudes que desagradam ao Pai Celeste. Corroborando com nossa afirmação encontramos a fala do
filosofo norte americano William Lane Graig que diz: “As escrituras indicam que Deus entregou a
raça humana ao pecado, e ela o tem escolhido livremente; Deus não interfere para impedir, mas
deixa a depravação humana seguir seu curso (Rm 1.24, 26, 28). Isso apenas serve para tornar Deus
ainda maior a responsabilidade moral da raça humana perante Deus, assim como a nossa impiedade
e a nossa necessidade de perdão e de pureza moral4”

Outro ponto que é imprencindivel abordar é a forma como devemos nos portar ante o sofrimento de
um povo ou de uma pessoa. Em razão de nossa mente filosófica sempre buscaremos uma razão
explicita para o sofrimento inesperado pelo qual alguém esteja passando. Contudo, em momentos
de dor recomendamos que você guarde suas especulações filosóficas e teológicas para si mesmo.
Nada que dissermos para um pessoa que está com seu coração ferido pela dor irá aliviar o
sofrimento naquele momento. O ideal é que diante do sofrimento alheio saibamos quando nos calar
e apenas orar por aqueles que sofrem. Se possível estendamos nossos braços para ajudar e abraçar
aqueles que estão debaixo do julgo da dor de um sofrimento, ou como diz o pastor Erwin W.
Lutzer: [...] declarações superficiais não ajudam e, de fato, ferem. Às vezes, precisamos apenas nos

4
CRAIG, 2012, p.104
sentar ao lado daqueles que estão sofrendo, permitindo que saibam que nos importamos. Nesses
momentos de choque e dor, nosso silencio, aliado à nossa presença demonstra afeto, acalma muito
mais que ficarmos falando sobre promessas e propósitos de Deus5”. O que o autor enfoca é a
necessidade de deixar discursos teológicos para um momento posterior, devendo no momento focar
em gestos que transmitam amor aquelas vidas que estão sofrendo, demonstrando na prática o amor
ao próximo ensinado por Jesus.

Concluindo este tópico afirmamos: não é simples explicar a razão para existência do mal e do
sofrimento. Não há uma explicação que feche todas as lacunas que surgem diante deste problema.
Contudo, é importante que tenhamos em nossa mente que Deus em seus planos infinitos e
insondáveis estará conosco em nossa dor. É bem provável que ele não responda às suas indagações,
ou o porquê do sofrimento pelo qual você está passando, assim como foi com o personagem bíblico
Jó. Não obstante, ainda que Ele não responda tenha certeza que o Senhor estará com você em todas
as circunstancias. Encerro este ponto citando as palavras do escritor estadunidense Joe Coffey, em
sua obra Defenda sua fé (2012): “Ele é o único Deus que abriu caminho da cruz para a alegria, de
modo que suas lágrimas aqui na terra um dia se transformarão, no céu, em lágrimas de alegria. Um
dia vou sentar com meu irmão mais novo, John, e riremos até que as lágrimas rolem em nosso rosto.
Mas não riremos porque o céu é maravilhoso. Vamos rir porque nossas lágrimas aqui foram
finalmente redimidas6”.

III. A DEFESA DA NOSSA ESPERANÇA

Este último tópico já está muito bem exposto na lição e quero apenas acrescentar alguns pontos que
vejo ser pertinente para que sejam tratados em sala de aula. O primeiro deles é definir que
apologética cristã é um ramo do ensino teológico que visa defender, fazer uma apologia da fé cristã
contra os ataques daqueles que são contrários a nossa fé. Pedro orienta aos seus discípulos a estarem
prontos a defender sua fé. Infelizmente, o que vemos hoje não é uma defesa da fé, antes,
encontramos um número cada vez maior de jovens cristãos (em sua maioria) cheios de si mesmo,
com seus egos inchados pela vaidade e que, usando em geral das mídias sociais, buscam atacar a
todos que discordam de seu posicionamento teológico. Em razão desta postura, eles acabam
tornando uma tarefa em essência nobre numa batalha contra “moinhos de ventos”, pouco ou nada
útil.

Para o teólogo Alan Myat o cristão não deve priorizar a si mesmo, antes ele tem como que falar de
Jesus. Myatt diz que: “[...] a tarefa primaria do cristão é pregar o Evangelho. Não é produzir
argumentos filosóficos, nem mostrar os fatos da história que concordam com a Bíblia. O crente tem

5
LUTZER, 2014, p. 16
6
COFFEY, 2012, p. 46
o desafio de apresentar de uma maneira bem clara o que o Evangelho de Cristo é 7”. Com este
mesmo entendimento encontramos o teólogo pentecostal Claudionor de Andrande afirmar que: “Em
sua primeira epistola exorta-nos Pedro a estarmos sempre preparados a apresentar aos incrédulos a
razão de nossa fé (1 Pe 3.15). Se definirmos apologia cristã de maneira mais ampla, veremos que
ela jamais estará separada da evangelização. Pois quem evangeliza apresenta de maneira racional e
sistemática as razões de sua fé8”.

As orientações de Pedro são claras: é preciso defender com mansidão. Acredito que o ponto
principal é que em meio a tantos debates inúteis, aqueles que se esmeram em defender a verdade
bíblica não pode deixar de exalar o bom perfume de Cristo. Devemos sempre ter palavras que
demonstrem que nosso caráter foi impactado pelo poder de Deus, ou nas palavras de William L.
Craig: “ O cristão está comprometido tanto com a verdade como com a tolerância, porque acredita
naquele que não somente disse “Eu sou a verdade”, como também declarou “amai os vosso
inimigos9”. Que declaração poderosa! Não devemos deixar que nossa luta pela verdade seja
inglória, antes, devemos glorificar ao SENHOR em tudo que fizermos!

REFERENCIAL BIBLIOGRAFICO

ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Dicionário Teológico. 9ª Edição- Rio de Janeiro: CPAD, 2000.
COFFEY, Joe. Defenda sua fé: pondo por terra as gigantescas questões da apologética. 1ª edição. São Paulo: Vida
Nova, 2012.
CRAIG, William Lane. Apologética para questões difíceis da vida. 1ª edição. São Paulo: Vida Nova, 2012.
LEWIS. C. S. Cristianismo puro e simples. São Paulo: Martins Fontes, 2005
___________. O problema do sofrimento humano. 2ª Edição- São Paulo: Vida, 1986.
LUTZER, Erwin W. Um ato de Deus? Respostas difíceis acerca do papel de Deus nos desastres naturais. 1ª Edição-
Rio de Janeiro: CPAD, 2014.
MYATT, Alan. Apologética cristã I. Disponível em :
<http://www.monergismo.com/textos/apologetica/Alan_Myatt_Apologetica1.pdf> acesso em 05/08/2019.
NASCIMENTO, Valmir. A razão da nossa esperança: alegria, crescimento e firmeza nas cartas de Pedro. 1ª edição:
Rio de Janeiro. CPAD, 2019.
OLSON, Roger. Teologia arminiana: mitos e realidades. 1ª Edição- São Paulo. Editora Reflexão, 2013.
RODRIGUES, Jefferson. Lições de Sobrevivências. 1ª edição. Teresina: Editora Filadélfia, 2012.

7
Alan Myatt. Apologética cristã I. Disponível em :
<http://www.monergismo.com/textos/apologetica/Alan_Myatt_Apologetica1.pdf> acesso em 05/08/2019.
8
ANDRADE, 2000, p.48
9
CRAIG, 2012, p. 11