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REA, ano 2, nº 22, março 2003, ISSN 1519.6186 !

A Linguagem Escravizada
Língua, História e Poder

 Florence Carboni & Mário Maestri1  

Sumário: o artigo dissocia-se das visões estruturalistas de linguagem neutra e linguagem única,
enfatizando o caráter social, de ideológico, histórico do signo linguístico. Discute a produção-
determinação performativa da língua pelas classes dominantes através da história e suas funções
integrativas e de ocultação das contradições sociais, de raça, de gênero, etc. Aborda a produção de
linguagem determinada pelas classes dominantes do Brasil, na Colônia e no Império, e seu uso
acrítico pelas ciências sociais - “índio”, “escravo”, “tribo”, “amo”, etc. Propõe a necessidade de
supressão e correção das desigualdades linguísticas e que as ciências sociais de superarem a
“palavra do outro” e expressem novos conteúdos sob novo aparato categorial.
# “A linguagem é tão antiga quanto a consciência – a linguagem é a consciência real, prática,
que existe também para os outros homens, que existe, portanto, também primeiro para mim
mesmo e, exatamente como consciência, a linguagem só aparece com a carência, com a
necessidade dos intercâmbios entre os homens.”
MARX & ENGELS. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1989. p. 26.

#
I. Língua, História e Poder

Afirma-se comumente que a linguagem verbal constitui fenômeno social. O próprio


Curso de lingüística geral, que pretende apresentar a visão de Ferdinand de
Saussure sobre a língua, reitera diversas vezes tal afirmação. Porém, o consenso
entre os cientistas da linguagem interrompe-se quando da definição do alcance,
prioridade e implicações do proposto caráter social da língua.

Dizer que a “língua é um produto social” não impediu que, em um claro paradoxo,
a Lingüística estruturalista transformasse a linguagem humana em objeto abstrato
ideal – langue – e se interessasse nela apenas enquanto sistema sincrônico
homogêneo e rejeitasse suas manifestações concretas – parole –, supostamente
impossíveis de serem apreendidas cientificamente. [SAUSSURE: 1995, 17]
Para Ferdinand de Saussure e os lingüistas estruturalistas, hegemônicos durante
todo o século 20, os signos lingüísticos que conformam a língua – langue – são
associações “ratificadas pelo consentimento coletivo” que têm sua sede no cérebro
de cada um dos falantes dessa língua. [SAUSSURE: 1995, 23.]
Portanto, apesar de ser “social por natureza”, o signo seria um ente arbitrário,
escapando “sempre, em certa medida, à vontade individual ou social, estando
nisso o seu caráter essencial”. [SAUSSURE: 1995, 25] Assim definido, o signo
lingüístico surge como algo essencialmente estranho e autônomo à prática social.

1
! Florence Carboni, talo-belga, é doutora em Liguística pela UCL, Bélgica, e professora do PPGL da
U F R G S , f c a r b o n i @ v i a - r s . n e t ; M á r i o M a e s t r i , b r a s i l e i r o , p r o f e s s o r d o P P G H d a U P F,
maestri1789@gmail.com
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Língua, poder e sociedade
A superação desse paradoxo encontra-se na apreensão do sentido dado por
Saussure e pelos estruturalistas ao adjetivo “social”. Para eles, o conceito tem um
conteúdo vago, genérico, ideal, quase abstrato, que evoca a união harmoniosa de
indivíduos. A língua seria uma espécie de consciência coletiva unificadora dos
indivíduos de uma comunidade lingüística.
A teoria do signo elaborada por Ferdinand de Saussure e seus epígonos opera
uma ocultação permanente dos fatos sociais e ideológicos. Em ruptura com ela, o
lingüista soviético Mikhail Bakhtine e outros estudiosos interpretaram a linguagem
humana como patrimônio comunitário em constante construção, que materializa
conteúdos determinados socialmente no espaço e no tempo. [BAKHTINE: 1977.]
A crítica lingüística de Mikhail Bakhtine dissolveu as propostas sobre o caráter
arbitrário e, portanto, neutro do signo lingüístico. Visão já corroída pelo fato das
línguas, produtos de sociedades heterogêneas e em conflito, não serem nem
patrimônios inteiramente comuns nem espaços neutros de comunicação, mas
meios de interação verbal, atinentes às esferas do exercício do poder.
Mikhail Bakhtine lembra que “todas as linguagens do plurilinguismo [...] são pontos
de vista específicos do mundo, formas de sua interpretação verbal, perspectivas
referenciais, semânticas e axiológicas.” Portanto, a “linguagem não é um meio
neutro”, jamais. [BAKHTINE: 1999, 113-4.]
Os signos lingüísticos forjam-se no contexto de práticas sócio-comunicativas
sempre prenhes de determinações ideológicas, que se manifestam nos próprios
signos. Nesse processo, os signos lingüísticos arrastam consigo as determinações
e conteúdos de sua gênese e de seu devir, em geral mais ou menos
desconhecidos dos locutores que deles se servem. Como não há linguagem
neutra, não há igualmente linguagem única.
Continuidade e ruptura
“A categoria da linguagem única” – lembra Mikhail Bakhtine – “é expressão teórica
dos processos históricos de unificação e de centralização lingüística, forças
centrípetas da linguagem. A linguagem única não é ‘dada’, mas, posé en principe
e, em todos os momentos da vida da linguagem, ela se opõem ao
plurilinguismo.” [BAKHTINE: 1999, 95.] No mesmo sentido, no plano histórico, Eric
J. Hobsbawm lembra que “as linguagem nacionais estandardizadas, sejam
escritas, sejam faladas, não teriam podido impor-se com esta especificidade, antes
da imprensa, da alfabetização em larga escala e, conseqüente, da educação em
massa.” [HOBSBAWM:1991, 12.]
Mais do que fato objetivo e histórico, a linguagem única é projeto social excludente.
“A cada época histórica da vida ideológica e verbal, cada geração, em cada uma
de suas camadas sociais, possui sua linguagem; além disso, cada idade tem seu
‘falar’, seu vocabulário, seu sistema de acentuação particular, que, por sua vez,
variam com a classe social, com o estabelecimento escolar e segundo outros
fatores de estratificação.” [BAKHTINE: 1999, 112.]
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A linguagem é profundamente determinada pelo momento histórico, pelas
contradições sociais e pelos conflitos ideológicos – de classe, de gerações, de
gênero, de grupos étnicos etc. Ela é produto inconsciente, semi-consciente e
consciente dessas contradições. Sua função comunicativa possui também uma
importante instância de integração e de ocultação das contradições sociais.
Domínio da ilusão
O aparente caráter supra-histórico e supra-social do signo lingüístico surge em
grande parte da relação aparentemente unívoca existente entre seu aspecto
sonoro e sua vertente conceitual. Tanto hoje como no momento de sua
estabilização, os signos lingüísticos – por exemplo, homem, morrer e dor –
expressariam conteúdos essencialmente invariáveis, registro neutro da consciência
subjetiva comunitária de realidades objetivas dadas.
Por além das aparências, os signos lingüísticos, profundamente determinados
pelos conteúdos sociais que os engendraram, ao perseverarem através da história,
assumem inevitavelmente novos conteúdos e determinações, permanecendo,
entretanto, mais ou menos prenhes dos sentidos ensejados pelas realidades
sociais que os produziram, mesmo quando estas últimas foram definitivamente
superadas.
A função da linguagem como instância subjetivamente integradora de
comunidades locutoras objetivamente em contradição constrói-se também sobre a
suposta esterilidade-neutralidade ideológico-social de um signo lingüístico,
aparentemente sem gênese datada nem devir histórico condicionado, proposta
pelas leituras estruturalistas da língua.
O processo de compreensão da palavra do “outro” como “nossa” consubstancia a
determinação de nossa consciência pelos conteúdos imanentes a ela. “[...] a
palavra do outro não é uma informação, uma indicação, uma regra, um modelo,
etc., ela procura definir as próprias bases do nosso comportamento e de nossa
atitude diante do mundo [...].”[BAKHTINE: 1999, 161.]
Sexo e língua
A dupla esfera do signo lingüístico materializa-se em contexto sócio-histórico
determinado. Através dos anos, sua instância significante prossegue a jornada,
assumindo e ampliando significados, ao mesmo tempo que mantém conteúdos
mais ou menos latentes, produzidos quando de sua origem e consolidação inicial.
O signo lingüístico possuí espécie de patrimônio genético que resiste a
metamorfosear-se plenamente.
Em uma sociedade patriarcal, a língua assume aparência e conteúdo patriarcal.
Em A origem da família, da propriedade e do Estado, Friedrich Engels lembra que,
antes mesmo da gênese da sociedade classista, a primeira forma de opressão que
surgiu na face da terra foi a do homem sobre a mulher. [ENGELS: 1981]
Apesar do critério sexual ser parte integrante de outras variáveis sociais – classe,
idade, profissão, etc. –, a origem patriarcal da maioria das civilizações humanas
deixou marcas concretas, profundas e multifacetadas na estrutura e no uso da
grande maioria das línguas do mundo.
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Na maioria das línguas, o gênero feminino dissolve-se por detrás do masculino,
expressando ideologicamente a ocultação patriarcal objetiva da mulher pelo
homem. Assim, naturalizado no uso costumeiro, o conceito lingüístico, através do
caráter aparentemente abrangente, sintético e neutro do gênero masculino, impõe
sua essência social, reforçando as relações de dominação patriarcal do mundo
real.
A costela de Adão
Causa de muitas dificuldades e ambigüidades comunicativas, a absorção do
gênero gramatical feminino pelo masculino não constitui fenômeno lingüístico
lógico, natural e universal, ainda que assim se apresente para a consciência da
imensa maioria dos locutores. O caráter quase geral desse fenômeno é apenas um
dos elementos mais visíveis da dominação geral e milenar das mulheres pelos
homens.
O próprio modo como os gramáticos e lexicógrafos explicam o funcionamento das
línguas constitui processo ideológico que reflete a ideologia dominante sexista.
Para Joaquim Mattoso Câmara Jr., “o masculino e o singular se caracterizam pela
ausência das marcas de feminino e de plural, respectivamente [...] ambos [sendo]
assinalados por um morfema gramatical zero”. [CAMARA: 1970, 81.]
Na Gênese [2, 21-25], a mulher formou-se do homem. “O Senhor Deus fez com
que o homem adormecesse [...]. Durante o sono, tirou-lhe uma das costelas [...].
Da costela que tinha tirado [...], o Senhor Deus fez a mulher e apresentou-a ao
homem e este declarou: “[...] aqui está alguém feito dos meus próprios ossos e da
minha própria carne. Vai chamar-se mulher; porque foi formado do homem.”
Do mesmo modo que, no mito bíblico, a mulher se fez dos ossos e da carne do
homem, na narrativa gramatical de Câmara Jr., o masculino confundiria-se com o
radical, essência da língua, que se flexionaria – “curva-se” – para gerar o feminino,
negando-se a este último a possibilidade de estar integrado no estado original da
língua.
Simétricos e assimétricos
A língua evolui mais lentamente que o mundo social. Apesar da discriminação
sexual estar em processo de regressão relativa nas sociedades mais
desenvolvidas, a maioria das línguas continua apresentando as marcas lingüísticas
dessa opressão social e, assim o fazendo, fortalecendo-a inexoravelmente.
Marx e Engels pensavam também nas mulheres ao conclamarem os “Proletários
de todo o mundo” a unirem-se. Se o chamamento fosse “Proletárias e proletários
de todo o mundo, uni-vos!”, certamente exerceria influência mais profunda, por
mínima que fosse, na organização das mulheres e na luta contra o sexismo no
interior e no exterior do mundo do trabalho.
São marcas gritantes do sexismo lingüístico as dissimetrias entre os gêneros
masculino e feminino “que se escondem no sentido de palavras aparentemente
simétricas”. [YAGUELLO: 141 et passim] Em muitas “grandes” línguas – é o caso
do francês –, termos relativos à profissão, funções públicas, cargos, etc. não
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possuem femininos. E quando possuem, em geral masculino e feminino são
conotados diversamente.
Os grandes dicionários do português do Brasil ensinam que a costureira é a
“mulher que costura amadorística ou profissionalmente, especialmente roupas
sociais”, enquanto que o costureiro é “aquele que atua profissionalmente na
costura” ou “que dirige confecção de alta costura, criando roupas e acessórios
exclusivos e originais, expostos por modelos em desfiles, geralmente glamorosos,
cobertos pela imprensa mundial”. A mesma dissimetria envolve a dupla lexical
cozinheira-cozinheiro. [HOUAISS 2001: 855, 860]
Revolucionar a língua
Em muitos casos, a derivação de gênero feminino apresenta mais de uma forma,
para contemplar quer o cargo ocupado por mulher quer a posição de esposa do
homem que ocupa o dito cargo. São freqüentes as ambigüidades provocadas pela
dupla derivação genérica de algumas palavras masculinas, tais como embaixador
ou imperador, por exemplo.
Como ocorre com outros fenômenos sociais e ideológicos, a sociedade organizada
pode e deve intervir para suprimir e corrigir as desigualdades lingüísticas. Em
1994, o Conselho Superior da Língua Francesa da Comunidade Francesa da
Bélgica – país trilingüe: francês, holandês e alemão – feminizaram 1.500 nomes de
profissão. [CARBONI 1994.]
A progressista reforma lingüística não foi acatada pela Academia Francesa, da
França, que a considerou “abusiva e chocante”, sem encontrar contradição em que
se prossiga, no francês padrão daquela nação, denominando-se essencialmente
com termos masculinos profissões crescentemente ocupadas por mulheres –
cirurgião, escritor, médico, professor, sociólogo, etc.
Constituí também vestígio exemplar da contradição social entre homens e
mulheres a falsa simetria entre os próprios conceitos de homem e de mulher. Em
todas as línguas românicas, o termo usado para designar o ser humano de sexo
masculino – vir em latim – passou a ser identificado com o vocábulo que designava
a espécie humana (homo).
Língua e ideologia
Nos dicionários, a palavra “homem”, no sentido de “ser humano do sexo
masculino”, costuma ser conotado com traços humanos fortemente valorizados –
coragem; determinação; vigor sexual; força física e moral, etc. O termo raramente
é associada à união com a mulher. Para tal, a língua dispõe de um outro signo:
“marido”.
Ao contrário, o termo “mulher” é fortemente polissêmico, servindo tanto para
referir-se ao ser biológico – no qual são centrais as características ligadas à
reprodução da espécie –, quanto à “companheira conjugal” ou “amante” do
homem, assumindo parte de sua significação no contexto de relação/dependência
ao seu termo oposto – o homem.
As conotações habituais e os campos semânticos aos quais o vocábulo “mulher” é
associado relacionam-se sobretudo com sexo, beleza física e traços humanos
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pouco valorizados – fraqueza, leviandade, etc. [HOUAISS:1975] Nesse sentido, a
língua encobre o fato de que a mulher foi submetida pelo homem devido à
capacidade produtiva e reprodutiva, e não a uma pretensa inferioridade natural.
[MEILLASSOUX: 1976, 47-60.]
O homem faz sua história tendo consciência quando muito apenas parcial de como
e porque a faz. No mesmo sentido, ele produz a linguagem com um grau de
consciência muito limitado de sua construção e dos sentidos de seu conteúdo. Nos
fatos, se a essência e a aparência dos fenômenos sociais coincidissem, as
ciências sociais seriam desnecessárias. Apenas através da crítica racional e
científica pode-se desvelar, mais e mais, os significados e os conteúdos profundos
dos fenômenos do passado e do presente.
Velho e Novo
No mesmo sentido, o mergulho na língua permite desvelar tendencialmente os
segredos internos de sua formação. Instrumento de expressão da consciência, a
língua é essencial nas ciências sociais, em geral, e na historiografia, em particular.
Na descrição do mundo não importa apenas o que se diz, mas também, e muito,
como se diz. Nos fatos, o próprio dizer encerra e determina, poderosamente, o
dito.
Michel Löwy lembra que “o conjunto do processo de conhecimento científico-social
desde a formulação das hipóteses até a conclusão teórica, passando pela
observação, seleção e estudo dos fatos [...] é atravessado, impregnado, ‘colorido’
por valores, opções ideológicas [...] e visões sociais de mundo.” [LÖWY: 1994, 199,
203]
Nas ciências sociais, as opções ideológicas condicionam a escolha do objeto, a
argumentação científica e o valor cognitivo do discurso. E, como assinalado, língua
e ideologia nutrem-se reciprocamente, em um contexto em que a primeira
representa o principal veículo da segunda, que, a sua vez, se materializa na e se
alimenta incessantemente da língua.
Para além das categorias analíticas criadas especificamente para as necessidades
científicas, muitos dos conceitos essenciais que as ciências sociais em geral e a
historiografia em particular utilizam na análise do mundo social constituem signos
lingüísticos criados no processo histórico que têm ou tiveram ampla difusão e
circulação pré e não-científicas.
O novo e o novo
Forjados em contexto comunicativo determinado, os signos lingüísticos possuem
significados que refletem recortes da realidade. Portanto, encontram-se marcados,
histórica, social e ideologicamente, como já assinalado. É comum que esses
signos registrem arqueologicamente as relações de força existentes nas
sociedades que os geraram.
Referindo-se à interação dialética entre forma e conteúdo na arte, Ernest Fischer
lembrava que o surgimento do novo expressa as tendências e necessidades
emergentes determinadas pela superação do velho. Que o novo não se determina
plenamente enquanto não supera, também, a velha forma.
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"O que chamamos de forma é o relativo estado de equilíbrio de uma determinada
organização, numa determinada disposição da matéria; é a expressão da
tendência fundamental conservadora, da estabilização temporária de condições
materiais.” “O conteúdo incessantemente se transforma: às vezes
imperceptivelmente, às vezes em ação violenta. O conteúdo entra em conflito com
a forma, fá-la explodir, e criar novas formas nas quais o conteúdo transformado
encontra, por sua vez, a nova e temporária expressão estável." [FISCHER: 1967,
143.]
Unidade dialética
No seu ensaio “O problema do conteúdo, do material e da forma na obra literária”,
Mikhail Bakhtine chama a atenção para a unidade e oposição dialética entre forma
e conteúdo, ao propor que “o conteúdo e a forma interpenetram-se e são
inseparáveis”, nem que seja porque a expressão do conteúdo dá-se através da
forma que, por sua vez, objetiva e determina seu conteúdo. [BAKHTINE: 1999,
47.]
Ao descrever novos referentes, com vocábulos prenhes de sons, vozes e
determinações passadas, as ciências sociais velam e consolidam, nem que seja
parcialmente, as contradições sociais que fundiram esses signos lingüísticos, ao
invés de desvelá-las, como é seu papel precípuo.
Com a utilização de signos lingüísticos nascidos das tensões sociais que se quer
criticar, presta-se tributo aos próprios conteúdos criticados. Na interação dialética
entre conteúdo e forma, essência e aparência, significante e significado, novos
conteúdos exigem novos ou mais precisos signos para sua explicitação essencial.
2. O Novo e o Velho: O “Índio” e o “Americano”
As práticas escravizadoras e colonialistas européias ensejaram visões classistas
preconceituosas das sociedades americanas. Mesmo quando dominou a
colaboração relativa, não foi neutro o olhar e, portanto, a produção lingüística
européia sobre o Novo Mundo e suas comunidades.
Os colonizadores lusitanos, espanhóis, franceses, etc. estavam inseridos em
tradição cultural classista, expansionista e mercantilista que fazia tabula rasa das
culturas e civilizações com que entravam em contato. Essa visão do mundo
determinou os signos lingüísticos criados ou determinados na exploração do Novo
Mundo.
A palavra “índio” é exemplo paradigmático. Inicialmente, ela designou o habitante
de territórios considerados erroneamente como as costas extremo-orientais das
Índias. Portanto, nasceu como substantivo pátrio gerado pelos enganos e ilusões
geográficas de Cristóvão Colombo [1451-1506] e de seus companheiros de
travessia.
Os navegantes e colonizadores portugueses jamais participaram dos desatinos
geográficos de Colombo. Sabiam que o navegador genovês não chegara na
América, mesmo quando ainda não sabiam onde havia chegado. Portanto,
inicialmente, não se serviram do termo “índio” para referirem-se aos habitantes do
Novo Mundo. [MAESTRI: 1995, 15-20; 35-40.]
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Índios do Brasil
Na sua célebre carta ao soberano, escrita no litoral do atual Brasil, o escrivão real
Pero Vaz de Caminha utiliza quase exclusivamente os termos “homens” [11] e
“gente” [5] para designar os tupi-guaranis com os quais se deparou. Ao se referir
depreciativamente aos nativos, sugeriu serem “gente bestial e de pouco saber”.
Não havia ainda termo que integrasse ao homem americano a desqualificação que
começava a ser objeto. [GARCIA: 1983, 263.]
Seis décadas mais tarde, a consolidação da ocupação do litoral do atual Brasil e a
produção açucareira, baseadas sobretudo na exploração escravista da mão-de-
obra americana, haviam ensejado uma nova denominação do autóctone pelo
colonizador. O novo denominativo desqualificava o primeiro e elevava o segundo.
O humanista, gramático e latinista Pero de Magalhães de Gândavo viveu no Brasil em
inícios dos anos 1560. Seu Tratado da Província do Brasil foi um esboço à História da
província de Santa Cruz, tida como a primeira obra de cunho historiográfico sobre o
Brasil. Quando de sua possível estada nas capitanias da Bahia, Ilhéus e São Vicente,
dominava ainda indiscutivelmente a escravização dos americanos que, nos anos
seguintes, seria superada, nas mais ricas capitanias açucareiras, pela feitorização de
negro-africanos. [RODRIGUES:1979, 425-433.]
Sem vacilações, no Tratado da Província do Brasil, Gândavo refere-se ao americano
como “índio”, por mais de quarenta vezes. Tão comum parece ter sido a denominação
que, ao servir-se dela, por primeira vez, não se sentiu obrigado a explicar a
significação: “Não há pela terra adentro povoações de portugueses por causa dos
índios que não no consentem [...].” No mesmo livro, “gentio” surge, quatro vezes,
como sinônimo de “índio”. [GÂNDAVO: 1979, 65.]
Escravos por natureza
Em geral, Gândavo descreve o “índio” como possuidor de essência quase
inumana. “Finalmente que são estes índios mui desumanos e cruéis não se
movem a nenhuma piedade. Vivem como brutos animais sem ordem nem conserto
de homens. São mui desonestos e dados à sensualidade e entregam-se aos vícios
como se neles não houvera razão de humanos: [...]. Todos comem carne humana
[...].” [GÂNDAVO: 1979, 208-7]

O mundo feudal cristão de então retomara as visões platônicas e aristotélicas


apologéticas de que as pretensas qualidades sub-humanas de povos incivis – viver
como animas; não ter governo; não ter razão; praticar a antropofagia, etc. –
justificavam sua escravização, devido suas pretensas essências sub-humanas.
Para Gândavo, o feitoramento do americano era questão que não merecia
discussão ou explicação. Como lembrava Marx, naturalização ideológica produzida
pela fortaleza das relações sociais de produção dominantes “São formas de
pensamento socialmente válidas, portanto objetivas, para as relações de produção
deste modo de produção social historicamente determinado [...[.” [MARX: 1994,
108.

Na sua forma erudita, o conceito “escravo”, utilizado por Gândavo em forma


isolada onze vezes, descreve em forma unívoca o americano escravizado. Porém,
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ao utilizar por primeira vez o termo, o autor assinala que se trata de “escravos
índios”. Na época, em Portugal, já dominava a escravização do negro-africano.
Gândavo enfatiza essa realidade, uma outra vez, ao referir-se ao “escravo índio da
terra”. [GÂNDAVO: 1979, 71; 135.]

Seis vezes, o termo cativo é utilizado para assinalar os nativos aprisionados pelas
comunidades tupinambás. Registrando a expansão em curso da escravização de
negro-africanos na América lusitana, o texto refere-se aos “muitos escravos de
Guiné” que o autor propunha serem “mais seguros do que os índios da terra
porque nunca fogem nem tem para onde”. Não há utilização da palavra “negro”
como sinônimo de escravo. [GÂNDAVO: 1975, 133.]
Nome de gente
Gândavo designa os colonizadores europeus pelos nomes próprios – Tomé de
Sousa, Vasco Fernandes Coutinho, etc. –; pela nacionalidade – português –; pelo
status – pobre –; pela função – bispo, capitão, governador, ouvidor geral, padre,
etc. –; por conceitos gerais – “cristão”, “gente”, “homem”, “morador”, “pessoa” e
“vizinhos”, etc. Uma pluralidade de nominações que enriquece a essência do
colonizador referido.
O termo “homem” é utilizado doze vezes para designar o europeu e duas para
nominar o americano. Uma, para realçar o gênero masculino, em oposição ao
feminino – “Algumas índias se acham nestas partes que juram e prometem
castidade e assim não casam nem conhecem homem [...].” –; a outra, segundo
parece, devido a deslize humanizador do autor – “[...] parece cousa estranha ver
dois ou três mil homens nus duma parte e doutra com grandes assobios
[...].” [GÂNDAVO: 1979, 215, 189.]
Vimos que, ao contrário do conceito “homem”, “mulher” não descreve a espécie
humana em geral, mas apenas os seres pertencentes ao gênero feminino,
socialmente subordinado. No texto, o conceito aparece uma vez relacionado à
mulher européia e seis outras, à americana. Na época, raras européias viviam na
costa. [GÂNDAVO: 1979, 67 et passim.]
O conceito “gente” é utilizado dezoito vezes, sobretudo para designar o português,
ainda que surja, aqui e ali, com sentido indeterminado ou como sinônimo de
“índio”. “Estes índios vivem mui descansados, não têm cuidado de cousa alguma
se não de comer e beber e de matar gente [...].” “Gente é esta mui atrevida e que
teme muito pouco a morte [...].” [GÂNDAVO: 1979, 217, 191.]
Brasis gentis
O termo gentio originou-se possivelmente do latim genetîvus ou genitîvus – ‘da
terra’. No século 13, já significava características culturais desprestigiadas ou
condenáveis pelos europeus, como a condição de “selvagem” ou “pagão”.
[HOUAISS 2001] O termo gentio aparece quatro vezes em Tratado da Província do
Brasil.
Os nativos nomeavam e diferenciavam perfeitamente as diversas comunidades do
litoral — tupinambás, tupiniquins, caetés, etc. Porém, a nomeação e diferenciação
eram tidas como atributo dos ‘homem civilizado’. É radical a simplificação
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etnográfica das populações americanas realizada por Gândavo. [NEVES, 1978:
45.]
Para Gândavo, “índio” era sinônimo de tupinambá/tupi-guarani, apesar de jamais
utilizar esses termos. O “aimoré” é a única comunidade singularizada. E isso
porque é apresentada como singularmente desqualificada. “Vivem entre os matos
como brutos animais [...].” “Estes aimorés são mui feros e cruéis, não se pode com
palavras encarecer a dureza desta gente.” [GÂNDAVO: 1979, 95, 101.]
A designação lusitana dos habitantes da costa com termos genéricos europeus –
brasis, índio, gentio, etc. – registrou o desprezo para com as comunidades
autóctones, descritas em geral como formadas por seres humanos incompletos.
Os termos que os colonizadores fundiram ou se serviram no processo colonial
foram profundamente determinados pela ideologia colonizadora.
Ato de criação
No alvorecer da civilização, enquanto vivia ainda o processo de separação plena
entre o sujeito e o objeto, entre o ser e o conceito, o homem confundia o ato de
nomear com o de criar. Herança desse passado, desde a Antigüidade, os
movimentos de expansão colonial realizaram-se no contexto de reorganização
taxionômica dos povos conquistados.
A generalização lingüística européia dissolvia as ricas e incômodas diversidades e
individualidades objetivas das comunidades americanas. Ou seja, reconstruía-se a
realidade, através da linguagem. Essas práticas ideológicas e lingüísticas
apoiaram e contribuíram à luta dos colonizadores pelo controle do litoral brasílico.
Na América, o direito de nomear levou os ingleses a batizarem o povo leni-lenapes
– ‘povo do início’ – como delawere, em honra de um herói britânico, Lord de La
Ware. Da recriação das comunidades americanas, através de sua denominação,
os colonizadores deduziam direitos de posse sobre elas. [CALVET 1988: 81-82]
Paradoxalmente, as categorias “índio”, “selvícola” e “selvagem” foram comumente
retomadas pela historiografia e pelas ciências sociais, mesmo quando procuravam
confrontar e dissolver explicitamente as razões e narrativas que deram origem às
conotações negativas expressas nesses termos.
Civis e incivis
No Brasil, com os anos, os designativos “brasil” e “gentio” caíram em desuso,
ultrapassados pelo conceito “índio”, com o sentido de homem pré-moderno,
atrasado, ingênuo e preguiçoso. Menos comumente, “selvagem” e “selvícola”
foram também utilizados para circunscrever o americano.
Nas últimas décadas, devido a sua conotação explicitamente pejorativa, o termo
“selvagem” caiu em desuso nas ciências sociais como designativo do homem
americano, permanecendo, ao contrário, o uso das categorias “selvícola” e,
sobretudo, “índio”.
“Selvícola” e “selvagem” são termos tardios, gerados pelos habitantes da “urbs” –
civilizado – para designar os “habitantes da selva” – não civilizados. Apesar de
possuir diversa origem, o conceito “índio” absorveu os conteúdos de “selvícola” e
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“selvagem”, já que descreve, sobretudo, o homem vivendo na “floresta” ou na
“selva”.
A categoria “índio” surgiu de equívoco geográfico e homogeneizou a pluralidade e
diversidade das comunidades americanas, como apenas visto. Ela é igualmente
imprópria como designação de comunidades domésticas aldeãs – como as tupis –
nas quais a horticultura possuía caráter dominante. [MEILLASSOUX, 1977: 64.]
Índios europeus
A categoria “índio”, intimamente associada à condição de “selvagem”, ressalta as
práticas caçadoras, guerreiras e nômades do ser abstrato, em detrimento das
atividades horticultoras, e portanto transformadoras da natureza, que dominavam
seres concretos e historicamente determinados como os tupis, pertencentes a
comunidades produtoras de alimentos.
O termo estabelece analogia automática e inconsciente entre os atos humanos dos
“índios” e a agressividade, o padrão de deslocamento e as práticas caçadoras dos
animais predadores. Tanto o “índio” como a “fera” são “selvagens”, ou seja,
habitantes das selvas. É igualmente comum que ao substantivo “índio” agreguem-
se os adjetivos “feroz” e “selvagem”.
Apresentando-se o “tupi” como “índio”, dilui-se igualmente o fato de que ele era,
sobretudo, um morador e um produtor aldeão, portanto, um ser eminentemente
social. Que, como acabamos de assinalar, o ato produtivo consciente era o
principal mediador de suas relações com a natureza e com os seus semelhantes.
Antes do início de nossa era, comunidades germânicas assentaram
essencialmente sua subsistência material em uma horticultura itinerante muito
semelhante à conhecida pelos tupinambás. [CHILDE, 1964: 71.] No entanto, a
historiografia européia escandalizaria-se se tratássemos as populações
horticultoras britânicas, gaulesas, germânicas, etc. como “índios” europeus.
Indignação que, paradoxalmente, não nasceria da evidente incorreção geográfica,
mas da pretensa impropriedade analógica essencial.
Impropriedade conceitual
Com a categoria “índio” nivelou-se indiscriminadamente o homem americano: o
aimoré, o tupi, o mapuche, o inca, etc. Ou seja, o caçador-coletor, o horticultor de
plantação-enxertia e, até mesmo, o agricultor cerealífero que construiu Tenoxtitlan,
de igual nível civilizatório que as comunidades da Antigüidade mediterrânea.
Como já assinalado, as ciências sociais — sobretudo a Antropologia —
apropriaram-se de muitos conceitos fusionados em épocas coloniais e
imperialistas, apesar das determinações inerentes aos mesmos, para construir,
com eles, parte do aparato categorial utilizado no estudo das sociedades
pré-classistas não-européias.

Devido aos seus significados e conteúdos (desvalorativos, o uso de categorias


como “tribo” e “índio” comprometem os próprios conteúdos essenciais das
narrativas contemporâneas sobre as comunidades domésticas aldeãs americanas.
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Nesse sentido, por exemplo, ao designamos genericamente os habitantes nativos
das Américas como “americanos” e não com “índios”, efetuamos importante
deslocamento semântico. Com essa denominação, por um lado, superamos os
conteúdos subjetivos desumanizadores incrustados na categoria “índio”. Por outro,
enfatizamos a unidade histórica do gênero humano, ao diferenciar apenas
geograficamente o “americano” do “europeu”, do “asiático”, etc. E, finalmente,
remarcamos o fato histórico objetivo, que as narrativas coloniais procuraram
enfraquecer, do ser referido ter sido os primeiro habitante da América.

#
3. O Novo e o Velho: o Negro e o Trabalhador Escravizado
Mais comumente, as classes escravistas coloniais auto-denominavam-se de
“amos”, “senhores” ou “proprietários”. Por sua vez, os trabalhadores escravizados
eram chamados de “escravos”, “pretos”, “negros” e “cativos”. Essas denominações
têm sido retomadas acriticamente por praticamente toda a historiografia
contemporânea.
Esse procedimento acrítico é compreensível no caso de historiadores com vínculos
ideológico-culturais com as classes escravizadoras do passado. Ele não o é,
definitivamente, no de cientistas sociais que procuram interpretar as sociedades
escravistas a partir de ótica que permita ultrapassar suas aparências fenomenais.
Como vimos, o processo de desvelamento essencial do passado compromete-se
nem que seja parcialmente com a utilização de categorias prenhes de significações
que se procura superar. A compreensão crescentemente essencial do passado
passa também pela articulação do real através das palavras. [CALVET 1988: 82]
O sentido profundo da palavra “escravo” [oikeus → servus → escravo] plasmou-se
em torno da visão aristotélica da escravidão. No século quarto antes de nossa era,
pensadores como Platão e Aristóteles abordaram a questão servil em suas obras,
sem dedicar nenhum de seus escritos especificamente à questão.
Um escravo é um escravo
Nos fatos, mesmo quando se referiram à instituição, não abordaram a questão do
aspecto moral e social da servidão plena. Numa época em que a escravidão
consolidara-se como uma das bases essenciais das relações de dominação, sua
existência era compreendida como parte da ordem natural das coisas.
Ao explicar a incapacidade de Aristóteles de apreender o valor das mercadorias
como expressão do trabalho humano, Marx lembrava que a incompreensão do
grande pensador não se devia a lapso individual mas sim a barreiras sócio-
históricas, na época intransponível.
Marx assinalava que “a sociedade grega apoiava-se no trabalho servil e portanto
tinha como base natural a desigualdade dos homens e da força-trabalho”. Assim
sendo, as representações senhoriais naturalizavam as desigualdades sócio-
objetivas que sustentavam a sociedade de classes. [MARX: 1994, 92.]
Que um senhor fosse um senhor, e um escravo, um escravo, eram realidades que
não exigiam discussão ou justificativa, no mundo grego escravista. Porém, nos
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limites determinados pela história, mesmo discutindo tangencialmente a
escravidão, Platão e Aristóteles influenciaram profundamente o pensamento
feudal, moderno e contemporâneo sobre a escravidão.
Gregos e bárbaros
Platão [c.428- c.347] olhava com maus olhos a servidão dos helenos e considerava
normal a redução plena do estrangeiro ao escravizador grego. Na sua república
ideal, o liberto – infamado pela escravidão – jamais se tornaria um cidadão.
Deveria, portanto, após algum tempo, abandonar a República. Para ele, a
escravidão de um indivíduo ou de um povo devia-se a incapacidade de auto-
governar-se, por falta de discernimento intelectual, cultural e moral, qualidade que
via como exclusiva do mundo helênico. Porém, Platão jamais se colocou a questão
da origem última da escravidão.
Para Platão, “aqueles que são comprados ou obtidos em forma semelhante,
devemos incontestavelmente chamar-lhes de escravos”. Ou seja, o escravo
legalmente obtido, era propriedade garantida pela lei. [PLATÃO, Politico, 289 d.]
Sobretudo, ele examina a relação do escravizador com o escravizado, que propõe
como necessariamente autoritária. Na República, defende que o homem “educado
perfeitamente despreza seus escravos”. [Platão, Político, I 13.12604-7.]
A teoria platônica da superioridade da alma sobre o corpo já expressava a
proposta da submissão necessária do súdito ao soberano, da mulher ao homem,
do escravizado ao escravizador. A leitura platônica da escravidão alimentava-se da
visão de mundo dos escravistas em uma época em que se explorava cativos
provenientes do mundo bárbaro e, em menor números, do mundo grego periférico.
Sobretudo na Política, Aristóteles [384-322] retomou, desenvolveu, aprofundou e
superou as visões platônicas da escravidão. Sua racionalização das visões dos
escravizadores sobre o fenômeno teria grande impacto cultural, ao ser recuperada
e reelaborada, séculos mais tarde, pelos escravistas da Idade Média e dos Tempos
Modernos. Ela fundou a visão ocidental da escravidão.
Escravo por natureza
Para Aristóteles, os homens associam-se à procura de um bem. Nesse processo, a
reunião de diversas famílias formava um burgo e a associação de diversos
pequenos burgos, a cidade, ou seja, a sociedade política. Tal associação era
determinada pela própria natureza, que compelia a “todos os homens a se
associarem”, na procura do “verdadeiro fim das coisas”. Ou seja, a felicidade.
[ARISTÓTELES: 1957, I 1]
Segundo o filósofo, a família, núcleo de base da ordem social, seria formada,
quando “completa”, por homens livres e por homens escravizados. Porém, para
ele, a escravidão não nasceria da lei, nem a arte do senhor de mandar nos cativos
seria uma “ciência”, como muitos haviam proposto anteriormente. [ARISTÓTELES:
1957, II 1,3]
Aristóteles rompia com a tese platônica da escravidão baseada na lei. Para ele, era
inaceitável que um homem fosse submetido a outro apenas pela força e que a
submissão se mantivesse apenas pela força, conforme a interpretação tradicional
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na Grécia Homérica e presente em sua época. Logicamente, um direito mantido
pela força podia, moral e legalmente, ser questionado, através da força.
Aristóteles reforçou a ideologia escravista ao propor raízes naturais e, portanto,
genético-racial ao escravismo. Segundo ele, a natureza criara as coisas diferentes,
na procura da especialização, já que o melhor “instrumento” era o que serve para
“apenas” um “mister”, e não para muitos. Assim, seres de essências diversas
complementam-se, cada qual desempenhando a função para a qual era criado,
pela natureza, na consecução de fins que lhes eram comuns. Ou seja, a
escravidão garantia a felicidade do amo e do cativo. [ARISTÓTELES: 1957, I 5]
Desigualdade Natural
Portanto, a hierarquização social dos seres nascia e obedecia a natureza. Assim
sendo, os seres naturalmente mais elevados comandavam os natural e
objetivamente menos perfeitos. “A autoridade e a obediência não só são cousas
necessárias, mas ainda [...] úteis. Alguns seres, ao nascer, se vêem destinados a
obedecer; outros, a mandar.” [ARISTÓTELES: 1957, II 8]
Eram determinações da natureza que o pai dominasse o filho, o homem a mulher,
o senhor o escravo. “[...] e a todos os animais é útil viver sob a dependência do
homem. Os animais são machos e fêmeas. O macho é mais perfeito e governa; a
fêmea o é menos, e obedece. A mesma lei se aplica naturalmente a todos os
homens.” [ARISTÓTELES: 1957, II 1 2]
Refutando o direito da servidão nascida da força, em prol da servidão originada na
inferioridade natural do ser escravizado, Aristóteles consolidava poderosamente a
ordem escravista, negando o direito à escravização do grego e a validade do
bárbaro de lançar mão à violência para emancipar-se pela força. O escravo que se
rebelava contra o senhor rebelava-se contra a sua natureza e a ordem das coisas.
Aristóteles racionalizava a escravidão, ao hierarquizar o desenvolvimento humano.
“Há também, por obra da natureza e para a conservação das espécies, um ser que
ordena e um ser que obedece. Porque aquele que possui inteligência capaz de
previsão tem naturalmente autoridade e poder de chefe; o que nada mais possui
além da força física para executar, deve, forçosamente obedecer e servir – e, pois,
o interesse do senhor é o mesmo que o do escravo.” [ARISTÓTELES: 1957, I 4.]
Signori si nasce
A inferioridade dos “animais domésticos”, que serviriam com “sua força física” aos
escravizadores nas “necessidades quotidianas”, materializaria-se nos seus
próprios corpos de brutos. “Há na espécie humana indivíduos tão inferiores a
outros como o corpo o é em relação à alma, ou a fera ao homem; são os homens
nos quais o emprego da força física é o melhor que deles se obtém. [...] tais
indivíduos são destinados à escravidão [...].” [ARISTÓTELES: 1957, II 13]
Para Aristóteles, a natureza escrava, espelho da alma, expressaria-se na natureza
física do cativo: “A própria natureza parece querer dotar de característicos
diferentes os corpos dos homens livres e dos escravos. Uns, com efeito, são fortes
para o trabalho ao qual se destinam; os outros são perfeitamente inúteis para
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serviços semelhantes, mas são úteis para a vida civil, que assim se acha
repartidas entre os trabalhos da guerra e os da paz.” [ARISTÓTELES: 1957, I 12]
Coerente com sua naturalização da dominação, Aristóteles opunha-se a Platão,
para quem a arte de mandar no escravizado era uma “ciência do amo”, que devia
ser aprendida. Para ele, essa arte era inata, já que o “instinto de mando” constituía
a própria essência na natureza senhorial: “O poder do amo não se ensina; é tal
como a natureza o fez [...].”[ARISTÓTELES: 1957, . I,5; II.22]
A escravidão decorria da ordem das coisas. A natureza de homem livre proibia sua
redução à escravidão, mesmo na guerra. Ao contrário, a escravidão era o status
ideal do bárbaro, em geral, naturalmente incapaz de governar-se. Era a natureza, e
não a contingência, que definia o status social do homem que nascia com o
destino de comandar ou ser comandado. [ARISTÓTELES: 1957, I, 5, 1-11]
Guerra justa
Nesse contexto geral, a submissão de homens inferiores justificava a própria
violência, já que enquadrava a desordem social à ordem natural. “[...] porque a arte
da caça é apenas uma das suas partes, aquela da qual se serve o homem contra
as feras ou contra outros homens que, destinados por natureza a obedecer,
recusam submeter-se; assim, a própria natureza desculpa a guerra.” A violência
seria a reposição do equilíbrio natural ameaçado pela existências de homens
vivendo em liberdade sem condições para tal. [ARISTÓTELES: 1957, III 8]
A alta qualidade natural do grego e a baixa qualidade essencial do bárbaro,
transmitidas dos pais aos filhos, reproduzia ad eternam as classes em questão. E
quando a “natureza” não alcançava a impor essa reprodução de qualidades, por
ela desejada, os raros casos desviantes podiam ser solucionados com uma
emancipação do ser escravizado que restabelecia a ordem escravista,
desequilibrada pela exceção à regra.
Aristóteles abria espaço para a contradição singular entre a natureza servil do
homem inferior e o status servil, no qual podia cair um homem superior, ao lembrar
que “as palavras escravidão e escravo” eram “tomadas em sentido diferentes.
Segundo a lei” haveria “escravo e homem reduzido à escravidão”. O primeiro,
seriam cativo por natureza, ou seja, escravo; o segundo, seriam apenas um
homem escravizado, devido à derrota na guerra. [ARISTÓTELES: 1957, II 16]
A interpretação aristotélica da natureza “escrava”, que se apoiava na visão unitária,
mas não igualitária, da espécie humana, assinalada por Marx, expressava a visão
senhorial de sua época. Ela consolidou-se na Idade Média e, sobretudo, nos
Tempos Modernos, quando os escravizadores depararam-se com um homem/
mulher que ‘comprovava’ – na cor, feições, cultura, etc. – sua natural inferior e
destino à escravidão. Esse era, na acepção da palavra, “escravos” e não “homens
escravizados”.
Linguagem senhorial
Não apenas nesse sentido o termo “escravo” é pouco pertinente como categoria
científica, ao denominar um ser de essência servil. Em verdade, essa
denominação, de origem essencialmente senhorial, era também pouco usada
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pelos trabalhadores escravizados que, até onde nós é possível perceber, no
mundo luso-brasileiro, se auto-denominavam, mais comumente, como cativos.
[MAESTRI: 1988, 9-12].
Mesmo que muitas das auto-denominações dos trabalhadores escravizados no
Brasil estejam possivelmente perdidas para sempre, uma pesquisa de suas formas
de auto-nominação certamente desvelará conceitos mais ou menos
desconhecidos, como “pai”, “mãe”, “malungo”, etc., que serviam para os objetos da
escravidão resgatarem-se como sujeitos sociais.
Na escravidão, o termo “pai/mãe” era utilizado comumente para apelidar as
pessoas mais idosas, como é habitual nas sociedades domésticas africanas, onde
esses termos referem-se aos próprios genitores e a todos de sua geração. Os
africanos embarcados na costa angolana chamavam de malungo – camarada,
companheiro, parceiro –, em geral, os companheiros de viagem e, em particular,
aqueles junto aos quais vinham acorrentados.
Esse termo pode estar ligada ao quimbundu ulungu [embarcação]; ou ao
quimbundu maluga [camarada]. Propõe-se também que derive da mescla de
termos bantus: malunga [plural de lunga – ‘homem’, ‘marido’]; malungu [plural de
lungu – ‘sofrimento’] e madungu – ‘pessoa desconhecida’. [HOUAISS 2001]
Palavra nova
A categoria “escravo” é de introdução recente nas línguas européias. Na
Antigüidade romana, o homem e a mulher escravizados eram denominados de
“servus”, “ancilla”, “mancipia”, “criatio”, “homines”. A primeira forma era, de longe, a
dominante.
Na Europa, após a crise do Mundo Antigo, foi tão lenta a metamorfose do
trabalhador escravizado em trabalhador feudal que não se plasmou nova categoria
para descrever a nova forma de subordinação. O produtor direto adstrito à gleba,
gozando de direitos de uso sobre ela e de certos graus de liberdade diante do
explorador, prosseguiu sendo denominado de “servus”. [MAESTRI: 1986, 40-4]
Também não houve modificação no apelativo das classes exploradoras. Na
Antigüidade e nos tempos medievais, elas se auto-denominavam sobretudo de
“senhor” e de “amo”. “Senhor” originou-se de “senĭor”, comparativo de “sĕnex” –
‘velho’. Originariamente, esse substantivo opunha-se a “junĭor” e cunhava a idéia
de autoridade nascida da prevalência e antigüidade nas relações parentais ou
linhageiras.
Vimos que Aristóteles propunha que o poder do pai, sobre os filhos, era um “poder
real”, nascido da autoridade natural do “ser mais velho e mais perfeito” sobre o “ser
incompleto e mais jovem”. [ARISTÓTELES: 1957, iv, 7.] Na Europa, até o século
XI, devido ao peso da língua latina e do direito romano, o trabalhador doméstico
escravizado continuou sendo designado por nomes originados das apelações
latinas, sobretudo de “servus”. O que não deixava de causar graves confusões.
A força da necessidade
Sem grandes variações, os vocábulos de origem latina “amo” e “senhor” também
geraram vocábulos correspondentes nas diversas línguas neolatinas, sem causar
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grandes confusões semânticas, já que significavam, como no passado, posse,
domínio, propriedade, sobre homens e bens materiais. Em fins do século 10, esse
processo de transição realizara-se plenamente.
No ano 1000, as relações escravistas, subordinadas, reforçaram-se, determinando
a falta de denominação que expressasse a subordinação plena do produtor,
descrita no passado com a categoria “servus”, que agora referia o produtor feudal
hegemônico, o “servo”. [DOCKÈS : 1979, 19.]
A chegada, em grande número, nas cidades cristãs do Mediterrâneo, de homens e
mulheres escravizados, capturados ou comprados em países longínquos,
generalizou o uso do nome étnico como termo genérico de designação da
condição de cativo. Mesmo se, por muito tempo, os termos latinos continuassem
sendo utilizados, perpetuando a ambigüidade entre a servidão doméstica medieval
e a servidão plena romana. [HEERS 1981: 16]
Sobretudo nas línguas ibéricas, o fato de que, na maioria dos casos, o “escravo”
fosse um prisioneiro capturado durante uma guerra, determinou que o termo latino
“captiva-captivus” – “catiau” em latim vulgar – foi comumente usado para designar
o homem-mulher sujeito à servidão plena. [HEERS 1981: 24]
Escravos escravizados
Os etnônimos que serviam para designar esses cativos variavam em função da
nacionalidade dos países europeus que praticavam a captura e a submissão de
homens e mulheres através da guerra e da pirataria. Nas penínsulas ibérica, os
muçulmanos escravizados eram chamados de “maurus”, na itálica, de
“sarracenus”.
No entanto, foi uma outra apelação que se consolidou como sinônimo de “servus”
na maioria das línguas. As guerras de Otão I, o Grande [912-973], duque da
Saxônia, inundaram a Europa – a Itália sobretudo e mais especificamente o Vêneto
– com cativos trazidos da Esclavônia [nos Balcãos, nas regiões da Sérvia], com a
denominação étnica de sclavu(m).
Com os anos, o termo sclavu(m) – “escravo” – perdeu o sentido nacional original
e, por antonomásia, passou a denominar todos os seres submetidos à servidão
plena, denominado de “servus” na Antigüidade e na Idade Média.
Na Lusitânia, o uso do designativo “escravo” foi mais tardio que em outros países
da Europa. Para os cristãos ibéricos, o “mouro” era o habitante da Mauritânia, ou
seja, das regiões do Saara Ocidental de onde chegaram grande parte das tropas
que invadiram a Península Ibérica em 711. A seguir, o apelativo foi estendida aos
muçulmanos, originários ou não da África.
Uso tardio
Com a guerra da Reconquista, o homem e a mulher escravizados por “senhores”
ibéricos foram designados de “mouro” e “moura”. Tamanha foi a dominância da
feitorização do “mouro” na península ibérica que o termo passou a descrever
genericamente o ser reduzido ao cativeiro. Essa denominação originou o vocábulo
“mourejar” ou “moirejar” – trabalhar como um “mouro”, isto é, como “cativo”.
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Tamanha foi essa impregnação semântica que o muçulmano livre, alforriado ou
cativo eram designados como “mouro livre”, “mouro forro” e “mouro cativo”. Como
assinalado, sem adjetivo, “mouro” designava sobretudo o indivíduo sujeito ao
cativeiro. Quanto aos primeiros negro-africanos desembarcados em Portugal, eles
foram denominados de “mouros negros”.
Se a impropriedade da designação dos negro-africanos como “mouros negros” era
profunda quando eles chegavam da África Negra não islamizada, ela crescia
quando se convertiam ao cristianismo. Então, eles eram designados de “mouros”,
apesar de serem cristãos, sem jamais terem sido muçulmanos, e de não provirem
da Mauritânia!
Em Portugal, no século 15, “negro” designava “de forma genérica, todos os tipos
raciais de pele morena” Originalmente, também os mouros foram designados de
negros. Designativo que se explica pelo caráter normando – ou pretensamente
normando – de boa parte da aristocracia feudal que participou e se locupletou da
Reconquista. [TINHORÃO: 1997, 47 et seq]
Negros e pretos
Quando multidões de negro-africanos começaram a chegar a Portugal, eles foram
denominados de “homens pretos” e “mulheres pretas” e, a seguir, simplesmente de
“pretos” e “pretas” devido à cor “negra” mais intensa, em relação aos mouros.
Como todos os “pretos” e “pretas” que chegavam a Portugal eram cativos, o
designativo passou a descrever o afro-descendente escravizado.
Ao que tudo parece, até mesmo na península itálica, onde o cativo proveniente da
África negra permaneceu uma exceção, os termos “negro”, “preto” ou “mouro
preto” remetem genericamente à escravidão. Os africanos e afro-descendentes
não sujeitos ao trabalho compulsório eram designados como “preto livre” e “preto
forro”. [TINHORÃO: 1997, 77 et seq].
Versada em linguagem erudita, as Ordenações Afonsinas foram coligidas no reino
de dom Afonso V [1446-1481], quando os negro-africanos escravizados
começavam a ser abundantemente desembarcados em Portugal. Elas legislam
sobre os “mouros” – muçulmanos livres vivendo no Reino – e sobre os “mouros
cativos”. [AFONSINAS: 1984]
Em 1514 e 1525, a substancial ampliação das Ordenações Afonsinas resultou na
copilação das Ordenações Manuelinas que se expandiram com as Leis
estravagantes, até 1569. Nesses livros, num registro da evolução ocorrida em
Portugal no respeito à dominância da mão-de-obra, o negro-africano escravizado é
denominado de “escravo” e a palavra “mouro” volta a ser sinônimo de muçulmano.
[SAUNDERS: 1982, 158.].
Escravos em geral

Com a decrescente importância da escravidão moura, “negro” tornou-se


crescentemente sinônimo de trabalhador escravizado. Assim sendo, nos primeiros
anos após a ocupação territorial da América lusitana, os nativos americanos
escravizados, apesar de sua cor, eram denominados de negros da terra.
[MONTEIRO: 1994.]
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Em Portugal, não houve abrupta ruptura de continuidade ou de qualidade entre o
cativeiro do “mouro” e do “negro-africano”. Ao contrário, por longo tempo, mouro da
península ibérica ou na África e negro-africanos conviveram como trabalhadores
escravizados.
Concluída em meados do século 16, a transição da dominância da escravidão
moura para a negro-africana processou-se devido à maior oferta de negro-
africanos, que começaram a ser trazidos desde as costas ocidentais da África, a
partir de 1444.
Secundariamente, a dominância do cativo “negro-africano” deveu-se à maior
facilidade da submissão relativa. O “mouro” encontrava-se mais próximo dos seus
“territórios nacionais”, para onde costumava fugir, e possuía complexo religioso-
cultural concorrente ao luso-cristão, no qual apoiava sua resistência passiva e
ativa. [BRAGA: 1999.]
A representação e o signo

Ao contrário, o cativo negro-africano encontrava-se longe de sua terra natal e


possuía nível civilizatório relativamente menos desenvolvido. Mais ainda, sua cor
diferenciava-o facilmente do lusitano, facilitando seu controle policial e, sobretudo,
ensejava discursos justificativos sobre sua submissão apoiados no princípio
aristotélico da inferioridade objetiva e na diversidade física do “escravo” por
natureza.
O primeiro registro escrito do termo “escravo” teria ocorrido nos anos 1450. Porém,
por longo tempo, ele constituiria forma erudita. Quando de uso corrente, o termo
“escravo” passaria a significar “apenas posição servil [plena], sem qualquer
conotação religiosa” ou racial. Em oposição aos “escravos pretos” ou “negros”, os
“escravos mouros” passaram também a ser designados de “escravos brancos”.
[PIMENTEL: 20; SOUNDERS: 1994, 13.]
Em 1781, lia-se em documento oficial lusitano: “Eu El-Rei faço saber aos que este
alvará virem que sendo-me presentes os insultos, que no Brasil cometem os
escravos fugidos, a que vulgarmente chamam calhambolas, passando a fazer o
excesso de se juntarem em quilombos, e sendo preciso acudir com remédios que
evitem esta desordem: [...].” [MACHADO FILHO: 1964, X. Destacamos.]
A análise histórica e linguística assinala que as categorias sociais, engendradas
pelos dominadores, nascem prenhes de significados justificativos que se aderem,
em menor ou maior grau, aos respectivos significantes, mesmo quando já se
perdeu a consciência de sua gênese, jamais neutra e pacífica.
Manuel Querino
Ainda que marginal, é antiga a consciência nas ciências sociais brasileiras da
necessidade de superar o conteúdo historicamente determinado da linguagem
categorial para descrever, desvelar e explicar os referentes essenciais que
determinaram o nascimento ou o condicionamento dos signos lingüísticos. Manuel
Querino foi um dos pioneiros dessa investigação.
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Manuel Raimundo Querino nasceu em julho de 1851, na Bahia, morrendo aos 72
anos, em Salvador. Descendente de cativos, foi voluntário na Guerra do Paraguai,
e, entre outras funções, desempenhou-se como pintor de paredes, estudante,
jornalista, professor de desenho geométrico, funcionário público. [CASCUDO: SD,
547]
Em 1918, Manuel Querino, registrou no ensaio O colono preto como fator de
civilização brasileira a impossibilidade de apresentar uma crítica essencial da
realidade histórica, servindo-se de categorias geradas no próprio processo de
exploração que se procura superar teoricamente. [QUERINO: 1954, 12.]
O colono preto como fator de civilização brasileira constitui uma tentativa de
síntese sociológica, em diversos pontos revolucionária, sobre o passado escravista
brasileiro. Nesse breve trabalho, Manuel Querino aponta o luso-brasileiro como um
ser parasitário, desorganizado para o trabalho, vivendo às custas do esforço do
africano escravizado.
À procura do conceito
Seu ensaio constitui um elogio permanente da qualidade laborativa e civilizadora
do africano, apresentado como “herói do trabalho”, verdadeiro construtor da
nacionalidade brasileira. Para o autor, a “confiança no trabalho próprio” teria sido
igualmente o grande caminho seguido pelo cativo para libertar-se, no seio da
própria escravidão.
A análise do escravismo colonial brasileiro de Querino objetiva sobretudo contribuir
ao resgate do afro-descendente de sua época, em geral, e do operário negro, em
especial. O pensador negro voltou-se sobre o negro-africano escravizado com os
olhos fixos no seu descendente, o afro-brasileiro.
No ensaio de Querino, destaca-se a permanente procura, não estabilizada, de
categorias descritivas capazes de desvelarem e circunscreverem a verdadeira
essência do “negro” e do “escravo” enquanto trabalhadores produtivos, criadores
de riquezas, das quais participavam apenas muito parcialmente.
Manuel Querino designa correta e repetidamente o habitante da África como
“africano”, e não se refere a ele anacrônica e ideologicamente como “negro”,
conceito que utiliza apenas cinco vezes em toda a sua obra.
Solução verbal
Poucas décadas antes, o termo “africano” era sinônimos habitual de “escravo”.
Para designar o trabalhador escravizado no Brasil, o autor serve-se comumente da
categoria “africano”, que utiliza, ao todo, quatorze vezes. Ao contrário, usa menos
freqüentemente o conceito “africano escravo” [3] e “africano escravizado” [1].
Manuel Querino lança mão apenas cinco vezes à categoria “escravo”, em forma
isolada, para referir-se ao trabalhador africano ou afro-descendente feitorizado.
Porém, usa normalmente o termo para falar do “escravo” romano e grego. Em
geral, para substituir o termo “escravo”, serve-se da categoria “colono negro” ou
“colono preto” [4] e ainda “herói do trabalho” [3]. Usa também os termos “negro” ou
“preto” [6].
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“Colono preto” é solução pertinente para a antagonização que propõe do produtor
direto africano e afro-descendente ao “parasita” explorador, o “colono branco”.
Possui igual funcionalidade ao aproximar ao trabalho criador do negro-africano
escravizado do colono europeu, objeto da retórica apologética racista da época.
Porém, a categoria “colono preto” possui o handicap negativo de não expressar a
forma historicamente dada da opressão que aquele produtor direto sofria – a
escravização. E, assim o fazendo, permite a confusão entre o trabalhador
escravizado de origem africana com o camponês negro livre, de antes e de após
1888.
Na África não há negros
Criativamente, Manuel Querino serve-se do particípio passado para descrever o
homem e a mulher submetidos à escravidão – “africano escravizado” [3] ou
“escravizado” [7]. Assim fazendo, dilui a natureza servil sugerida pela
substantização ou adjetivação, como ocorre, parcialmente, nas formas aristotélicas
“negro escravo” e “africano escravo” e, plenamente, no palavra “escravo”.
Manuel Querino compreendia que a utilização da categoria “negro” e “preto”
enfatizava a cor “negra” e “preta” da pele dos trabalhadores africanos e afro-
descendentes feitorizados, ideológica e socialmente desvalorizada, em relação a
uma cor “branca”, ideológica e socialmente prestigiada.
Intuía certamente que a forma “negro” obliterava o fato de que, na África, até a
chegada dos europeus, não havia “negros” e “pretos”, mas africanos de múltiplas e
variadas tradições culturais. Os africanos, de múltiplas cores, tornaram-se “negros”
apenas em relação aos europeus dominadores.
Efetivamente, os designativos “negro” e “preto”, para designar o cativo, mostram-
se também pouco funcional ao enfatizarem características étnicas superficiais do
trabalhador escravizado do passado. Ainda que, desde meados do século 18, a
afro-descendência, ainda que distante, fosse condição necessária para que um
homem ou uma mulher vivessem na escravidão, havia multidões de afro-
descendentes livres e, até mesmo, afro-descendentes proprietários de cativos.
Ser ou não ser
Nos fatos, as designações “negro” ou “escravo” dadas ao trabalhador hegemônico
do escravismo colonial dilui sua essência última, ou seja, a de ser um trabalhador
feitorizado, dificultando a compreensão de que seu descendente sociológico atual
é o trabalhador contemporâneo, não importando a cor de sua pele ou sua origem
nacional – japonesa, italiana, portuguesa, africana, etc.
Vimos que a categoria “escravo” não é neutra, pelo sobretudo se comparada ao
designativo “cativo”, segundo parece, auto-designação mais comum do trabalhador
escravizado. Em verdade, as duas categorias pertencem a campos semânticos
diversos. Cativo expressa uma situação transitória, social, nulamente natural. As
pessoas estão cativas, não são cativas. Um ser está no cativeiro e,portanto, pode
sair dele.
Parra que alguém seja cativado, deve haver o agente e o ato de aprisionamento, o
“cativador”. A categoria estabelece relação de desigualdade, nascida de ato fortuito
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e singular. Sobretudo a fundação das relações escravistas na violência arbitrária
do escravizador estabelece a possibilidade e a legalidade antagônicas de sua
dissolução través do ato de violência do escravizado.
Perdida a evocação etimológica original, o termo “escravo” ressemantizou-se,
absorvendo o sentido aristotélico originário dos termos grego e romano. Ou seja,
de um ser submetido à servidão plena devido exclusivamente a sua natureza
diversa e inferior. Uma naturalização das relações escravistas que determina que a
opressão do escravizado pelo escravizador, produto de relações sociais entre
homens, seja apreendida como nascida da natureza do próprio “escravo”,
dissolvendo o “escravizador” como agente ativo do processo de escravização.
Sempre trabalho
Ainda que o termo “cativo” sugira, com mais propriedade, uma condição nascida
da violência social, prossegue sendo categoria alienada e alienante, ao não
expressar a natureza profunda da relação de produção que enseja e justifica a
própria dominação do homem pelo homem.
Ao enfatizar a violência do ato de subordinação plena, a categoria “cativo”
apresenta uma ruptura ontológica entre essa e as formas posteriores de trabalho.
Sugere uma diferença essencial entre o cativo – sem direitos civis – e o
trabalhador livre – com direitos civis –, diluindo a unidade profunda entre os
diversos produtores de riquezas e de sobre-trabalho.
O cativo era essencialmente um produtor direto obrigado a entregar o produto de
seu trabalho a um escravizador. O objetivo essencial da relação social escravista
era a apropriação da força de trabalho para extração de renda escravista, forma
historicamente determinada de produção de sobretrabalho, fenômeno que a
interpretação aristotélica não podia elucidar, sem quebrar, no mundo das
representações, a pedra mestra da sociedade escravista.
O “escravo” era um “trabalhador escravizado”. Essa explicitação categorial da
essência do trabalhador escravizado desnuda igualmente a impertinência das
formas apologéticas de auto-denominação utilizadas pelas classes opressoras no
passado e retomadas pelas ciências sociais no presente.
Escravista & escravizador
As categorias “senhor” e “amo” possuem sentido genérico. Se é “senhor” ou “amo”
no escravismo patriarcal, no escravismo pequeno-mercantil, no escravismo
colonial, etc. Como vimos, essas categorias possuem evocações etimológicas e
sentidos semânticos claramente apologéticos.
O ensaio de Manuel Querino de superar a linguagem herdada da escravidão já
assinalava a função de ocultação ou velamento das contradições sociais
permitidas pelas formas nominais e flexões vocabulares. “Escravizador” é a
denominação que explicita em forma mais perfeita a essência do explorador de
trabalhador escravizado na produção escravista.
Nesse sentido, como os designativo “escravo” e “escravizado”, também as formas
“escravocrata”, “escravista” e “escravizador” possuem diversas insinuações
semânticas. Através do sufixo “ista”, o nominativo “escravista” descreve um ser
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favorável à escravidão, como instituição, e não agente ativo de consecução
daquela ordem, através da submissão violenta e exploração do trabalhador
escravizado.
A substituição de “negro”, “preto”, “escravo” por “trabalhador escravizado”, de
“amo”, “senhor-de-escravos”, “escravista”, etc., por “escravizador”, restabelece
plenamente a conexão histórica entre aquela forma e as formas anteriores e
posteriores do produtor direto e de seu explorador. Recompõe o fio de Ariadne que
une, na diversidade, todas as formas de trabalho e de sua exploração.
4. Conclusão – Desescravizar a linguagem
O caráter social e historicamente determinado da palavra é a base do caráter
contraditório, a principal fonte da riqueza e o motor da transformação da
linguagem. Mikhail Bakhtine lembrava que o sucesso do romancista depende
precisamente de sua capacidade construir sua narrativa através da expressão da
complexa polifonia do mundo social que procura representar.
Este amálgama das diversas vozes “no seio de um mesmo enunciado é um
procedimento literário intencional” que coloca na boca de cada locutor a linguagem
que lhe corresponde, social e historicamente. Processo em contradição com a
“hibridação” involuntária e “inconsciente, “um dos principais modos de existência
histórica e do devir das línguas”. [BAKHTINE: 1999, 176.]
Na medida em que a língua é a consciência real e prática do ser social, este último
assume crescente consciência de suas necessidades históricas através também
através do crescente reconhecimento da determinação histórica e social de sua
voz.
Reconhecimento que se dá, inevitavelmente, no processo de oposição e
diferenciação da voz do ser social em relação às vozes que lhe são
essencialmente idênticas, próximas, diversas e antagônicas. Nesse contexto, a
linguagem do outro deve surgir quando se fala ou se faz o outro falar, e não
através de uma locução que apenas consideramos nossa.
O hoje e o ontem
O confronto lingüístico realiza-se no plano do presente e do passado. “O diálogo
das linguagens não é apenas aquele das forças sociais na estaticidade de sua
coexistência, mas também o diálogo dos tempos, das épocas, dos dias, daquilo
que morre, vive, nasce: neste plano, a coexistência e a evolução são fundidas,
juntas, na unidade concreta e indissolúvel de uma diversidade contraditória em
linguagens diversas.” [BAKHTINE: 1999, 176.]
A superação na esfera lingüística desse “hibridismo” inconsciente, desse “obscuro
e automático amálgama de línguas” não é um momento superior,
cronologicamente conclusivo que concretiza a essência do fenômeno, após sua
penetração, na fundação do novo conceito. A palavra não se funde após o
conceito.
A superação da linguagem escravizada constitui processo solidário à liberação do
próprio conceito, já que o processo de crítica do mundo social e natural dá-se
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através de ampliação da consciência apenas possível de ser organizada,
processada e expressada lingüisticamente.
O processo de descrição de um mundo social e natural que se desencanta diante
da razão crítica exige correspondente e contemporâneo processo de
desencantamento do caráter aparentemente natural da língua que funde os
conteúdos superiores obtidos em linguagem que se supere tendencialmente da
escravidão imposta pelos preconceitos nascidos e gerados pela sociedade de
classes.
 Nota:
* A redação do presente texto recebeu o apoio do bolsista PIBIC CNPq 2000 Cássio Luciano de
Meneses Silva

** Revisto em 05.06.2014
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