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Keila Grinberg • Lucia Grinberg

Anita Correia Lima de Almeida

PARA CONHECER
MACHADO DE ASSIS
Inclui atividades
SUMÁRIO
1. U J M OVEM E SCRITOR

Para saber mais


A chácara do morro do Livramento
A corte e o Segundo Reinado
Fotografia
Real Gabinete Português de Leitura
As tipografias
A invenção do telefone

2. V INTE A NOS

Para saber mais


O teatro no Rio de Janeiro
Os salões
A imprensa no século XIX
A Assembleia e o Senado
A Guerra do Paraguai para Machado

3. O M UNDO DAS P ALAVRAS

Para saber mais


Contemporâneos de Machado de Assis
Os contos de Machado
Machado cronista
Xadrez
Os móveis da casa nova

4. O B RUXO DO C OSME V ELHO

Para saber mais


O fim da escravidão
A Proclamação da República
Academia Brasileira de Letras
Passeio Público
Esaú e Jacó, o Império e a República

Atividades

Sorvete de maracujá, Organize sua biblioteca, Tipos de impressão, Telefone de lata, Caderno de criação, Um teatro de bonecos, Anúncio de jornal, Andando pelo Rio Antigo, Um poema, A rotina do
escritor, Passeio de bonde, O sobrado de Carolina e Machado, A maquete de um jardim, Inventário,

Biografias

Lista de ruas e praças citadas no texto

Glossário

Referências

Obras de Machado de Assis, Obras sobre Machado de Assis, Museus, Sites,

Créditos das ilustrações

Nota aos pais e professores

Agradecimentos
Para Bárbara,
Tatiana e Carolina,
Paula e Francisco
LINHA DO TEMPO
1 UM JOVEM ESCRITOR

Joaquim Maria respirou fundo e começou a andar. Subia a ladeira que ia dar na capela do morro
do Livramento. Ali tinha sido batizado. Não era grande, mas vista assim, lá em cima, parecia até
bonita. Dali podia ver boa parte da cidade do Rio de Janeiro, a capital do Império do Brasil, com
suas ruas estreitas e sujas. Adiante ficava o mercado do Valongo, onde até pouco tempo atrás
ainda desembarcavam escravos africanos. Mais ao longe estava a baía de Guanabara, cercada por
todas aquelas belezas naturais que tanto encantam os viajantes.
Ele não ligava muito para a natureza; o que lhe interessava era o homem. Por isso ficara tão
entusiasmado quando soubera que a iluminação da cidade passaria a ser feita com lampiões a
gás. Que diferença não faria! Quantas pessoas não sairiam às ruas à noite para se divertir, livres
da penumbra e do cheiro de óleo de peixe que saía dos antigos lampiões!
Mas naquele dia não havia contentamento. Corria o ano de 1854 e fazia um pouco de frio. Há
dias vinha teimando com um pensamento que não o deixava em paz. Precisava tomar uma
decisão. Sua mãe morrera fazia tempo e o pai acabara de se casar de novo. Joaquim Maria
Machado de Assis ia fazer 15 anos e resolveu que já era hora de enfrentar a vida. Não seria
coroinha para sempre.

Joaquim Maria era muito pobre. Sua mãe, Maria Leopoldina, era uma jovem costureira que
trabalhava para a família de dona Maria José de Mendonça Barroso Pereira – senhora de toda a
chácara do Livramento – e nascera na ilha de São Miguel, no arquipélago de Açores. Havia
chegado bem menina ao Brasil. O pai, Francisco José de Assis, nascera escravo, mas havia
conseguido se libertar. Agora trabalhava como pintor em obras. Seus pais sabiam ler e escrever,
o que era bem incomum para a época. Talvez por isso mesmo ele também gostasse tanto de ler e
escrever.
Joaquim Maria havia crescido bem sozinho. Não tinha irmãos. Sua única irmã morrera aos
quatro anos, de sarampo. Assim, sem ter muito que fazer, divertia-se empinando pipas e caçando
lagartixas e ninhos de passarinho. Vivia perambulando pela sede da chácara do morro do
Livramento, a casa grande e velha onde havia trabalhado sua mãe, na qual se misturavam a
família e as visitas, homens livres e escravos, moradores da região e gente que vinha só de vez
em quando ouvir missa aos domingos ou rezar a ladainha aos sábados.
Gostava de observar as pessoas, ver o que elas faziam, como se comportavam, o que diziam.
Todas as pessoas lhe interessavam, não importava quem fosse. Uma vez, quando estava na rua,
viu passar a banda do batalhão dos fuzileiros; eles rufavam seus tambores e marchavam certinhos
no ritmo, batendo bem rápido cada pé, primeiro o da direita, depois o da esquerda. Joaquim
Maria viu a banda passar e não aguentou: foi atrás cantarolando as mesmas músicas que os
fuzileiros tocavam. Quando deu por si, havia andado todo o bairro da Saúde e já estava na praia
da Gamboa, de frente para o mar. Outro dia tinha sido a briga de galos; era comum, ao sair da
igreja, encontrar um grupo de homens em torno de galos que se engalfinhavam. O menino nunca
resistia a dar uma olhadinha. Os galos o atraíam menos que os homens, estes sim, que urravam e
pulavam a cada lance.
Panorama da baía de Guanabara,
c.1893 (Foto Marc Ferrez)

PARA SABER MAIS

A chácara do morro do Livramento

No século , as partes altas das cidades eram muito valorizadas. Na área central da cidade
XIX

do Rio de Janeiro, os principais morros eram áreas militares, como o morro da Conceição.
Em outros, havia construções de ordens religiosas, como no morro do Castelo e na região de
Santa Teresa. Também já haviam sido construídos o mosteiro de São Bento e o convento de
Santo Antônio, em montes com os respectivos nomes de seus santos, existentes até hoje.
As terras do morro do Livramento eram ocupadas pela chácara de propriedade da família
de dona Maria José de Mendonça Barroso Pereira. Naquela época, na cidade do Rio de
Janeiro, havia muitas chácaras – um tipo de residência com amplos jardins e até pomares. O
terreno da chácara do morro do Livramento era extraordinariamente grande, muito mais
extenso que a maioria das chácaras. Em 1818 começou a ser loteado, tão grande que era,
para dar origem à rua Nova do Livramento.
Vários estudiosos da vida de Machado de Assis identificam no seu conto “Casa Velha” a
descrição da casa principal e da capela da chácara do Livramento:
Machado de Assis

A casa, cujo lugar e direção não é preciso dizer, tinha entre o povo o nome de Casa Velha, e era-o realmente: datava do fim do outro século. Era uma edificação sólida e vasta, gosto severo, nua de adornos. Eu, desde criança,
conhecia-lhe a parte exterior, a grande varanda da frente, os dois portões enormes, um especial às pessoas da família e às visitas, e outro destinado ao serviço, às cargas que iam e vinham, às seges, ao gado que saía a pastar. Além
dessas duas entradas, havia, do lado oposto, onde ficava a capela, um caminho que dava acesso às pessoas da vizinhança, que ali iam ouvir missa aos domingos, ou rezar a ladainha aos sábados.

No conto, Machado descreve as pessoas da vizinhança que vinham para a missa, “em
geral pobres, de todas as idades e cores. … Vinham também escravos da casa”. Próximas à
casa principal da chácara, havia outras moradias para os agregados, como os pais de
Machado de Assis, e para os próprios escravos de propriedade da família Barroso Pereira.
Para Machado, aquela casa era “uma espécie de vila ou fazenda”, um “pequeno mundo”
governado pela dona da casa.

O bairro Gamboa no final do século XIX (Foto Marc Ferrez)

Assim era Joaquim Maria, curioso que só ele. Não havia estudado durante muito tempo, mas
adorava aprender. Gostava de frequentar a escola, que ficava num sobrado pequeno, na rua do
Costa. Muitas vezes, no fim da aula, ia brincar no Campo de Santana, um parque enorme, cheio
de capim e burros soltos, tão grande que as lavadeiras tinham espaço para estender seus lençóis
limpos e muito brancos. Isto é, muito brancos até que algum menino como ele viesse correr por
perto, espalhando lama por toda parte com os pés sujos. Depois a correria era para fugir da
bronca das lavadeiras!

PARA SABER MAIS


A corte e o Segundo Reinado

Em 1822, dom Pedro I proclamou a independência do Brasil, que deixava de ser colônia
portuguesa e se tornava monarquia. Em 1824, dom Pedro outorgou a primeira constituição
do país, que definia o território brasileiro como formado pela sede política do Império, a
cidade do Rio de Janeiro, e pelas províncias (como durante muito tempo foram chamados os
atuais estados). O período conhecido como Segundo Reinado corresponde ao governo de
dom Pedro II, da sua ascensão ao trono, quando tinha apenas 14 anos, em 1840, até a
Proclamação da República em 1889, quando o imperador partiu para o exílio na França.
A cidade do Rio de Janeiro era o centro político do país e o local da residência oficial da
família dos soberanos, ficando conhecida como “a corte”. Os principais órgãos da
administração imperial possuíam suas sedes no Rio de Janeiro, assim como as instituições
de representação política, o Senado e a Câmara dos Deputados.
Entre os personagens que sempre aparecem nas histórias de Machado de Assis estão os
rapazes das províncias que vinham estudar ou trabalhar na corte. No final do século , XIX

havia importantes instituições de ensino superior no Rio de Janeiro, tais como a Faculdade
de Medicina, a Faculdade de Direito e a Escola Central de Engenharia, além da Academia
Imperial de Belas-Artes e do Conservatório de Música.

Academia de Belas-Artes, mais tarde Escola Nacional de Belas-Artes (Foto Marc Ferrez)

Mas havia muita coisa que não ensinavam na escola e ele queria aprender. Ou então
ensinavam, mas ele queria saber mais. Queria aprender muitas línguas, francês e grego, conhecer
história e geografia. Queria ler os livros escritos pelos filósofos da Antiguidade e pelos grandes
escritores da Europa. Estas coisas ninguém lhe ensinava; ele estudava sozinho mesmo. E olha
que aprendia.
A vida simples de Joaquim Maria no morro do Livramento não durou muito. Não se sentia à
vontade com Maria Inês da Silva, a segunda mulher de seu pai. Além disso, precisava trabalhar.
O pai, sozinho, não tinha condições de sustentá-lo. Por isso foi ser coroinha na igreja de
Lampadosa. Mas a verdade é que não gostava daquilo. E também nem pensava em ser
comerciante, como seu pai queria. Trabalhava na igreja, mas sonhava com as poesias que
gostaria de escrever. Mesmo depois, quando arrumou um emprego de caixeiro de papel, não
ficou mais feliz. Três dias bastaram para que concluísse que ali não era o seu lugar. Foi então que
Joaquim Maria Machado de Assis, não mais que um garoto de 15 anos, decidiu que estava na
hora de mudar.

A corte do Império do Brasil! Poucos lugares no mundo eram tão bonitos e agitados. Pelo menos
era assim que pensava Joaquim Maria ao passar pelo chafariz do Mestre Valentim, no largo do
Paço. Andava por ali quase todos os dias, depois de fazer o percurso de barca entre São
Cristóvão e o Cais Pharoux. Viajava sempre mergulhado na leitura. Partia de manhã e retornava
à tarde, sem levantar os olhos, indiferente às pessoas, aos incidentes da viagem e à beleza da
baía. A sensação que tinha ao desembarcar na enorme praça, ao ver o grande palácio imperial, a
sede do governo, era sempre a mesma: vibrava de excitação como se lá estivesse pela primeira
vez.

Chafariz do Mestre Valentim, na Praça XV

Naquela manhã o dia estava bonito, a brisa era fresca e a praça estava repleta de gente.
Escravos que vinham buscar água topavam com barbeiros que atendiam seus fregueses ali
mesmo, ao ar livre. Prósperos e bigodudos comerciantes misturavam-se a vendedores ambulantes
que ofereciam refrescos e café torrado.
Além de ser capital do Império e uma das maiores cidades do continente americano da época,
o Rio de Janeiro era um importante centro comercial. Ali podiam ser vistos grandes negociantes
e humildes escravos. Todos davam passagem aos membros da família real, que não raro
deixavam seus palácios e residências para passear na rua do Ouvidor, a mais chique da cidade.
Joaquim Maria não faria diferente. Caminhando lentamente pelo largo, atravessou a rua Direita e
dobrou à esquerda na rua do Ouvidor.
Dizia-se então que o Rio de Janeiro era o Brasil, e que a rua do Ouvidor era o Rio de Janeiro.
Joaquim Maria concordava totalmente. De todas as ruas do Centro, aquela era de longe a que
mais o fascinava. Para ele era um salão ao ar livre, onde, a cada esquina, pequenas multidões se
acotovelavam para falar de política, negócios, teatro, moda e sobretudo da vida alheia. Senhoras
iam escolher joias para usar à noite, enquanto rapazes conversavam horas a fio, principalmente
sobre mulheres.
A rua do Ouvidor tinha de tudo: lojas de seda, chapelarias, perfumarias e livrarias. Ali também
trabalhavam modistas, cabeleireiros, sorveteiros e doceiros. No armarinho Notre-Dame podiam-
se comprar de rendas, lingeries e lenços a grinaldas de flores e enxovais de casamento. Era lá que
o cabeleireiro Desmarais preparava os elaboradíssimos toucados das grandes damas da
sociedade carioca. O visual alto e vistoso fazia a festa das fofoqueiras, que muito propriamente
chamavam o penteado de trepa-moleque, pelo formato inusitado. Era ali também que o francês
Wallerstein tinha sua loja de tecidos, dando-se ao luxo de cobrar muito mais caro que as outras,
só porque vendia para o imperador. E também lá madame Finot vendia os cravos e rosas que ela
mesma cultivava.

Ao lado, a rua do Ouvidor, c.1899 (Foto Marc Ferrez)

Mas o que Joaquim Maria mais gostava mesmo na rua do Ouvidor era que lá ele ficava
sabendo de todas as novidades. Não só dos últimos acontecimentos políticos, mas também de
tudo o que vinha do exterior. Ali viu pela primeira vez a máquina de costura Singer que havia
chegado há poucos anos no Brasil. E também o norte-americano Whitemore tapar dentes furados
com ouro e vender um elixir para curar mau hálito; incrível como era grande sua clientela! Mas
principalmente foi lá que viu os primeiros retratos impressos em papel, no ateliê do português
Insley Pacheco.
Todo esse movimento não impediu, no entanto, que a rua tivesse um calçamento todo
irregular, no qual, depois de cada chuva, poças enormes enlameavam os sapatos de quem se
aventurasse a passar por ali. A iluminação também era paupérrima até pouco tempo. Agora, não.
Com a inauguração da companhia de gás de Mauá tudo iria mudar. Entre as ruas centrais da
cidade escolhidas para serem iluminadas, a rua do Ouvidor vinha justamente em primeiro lugar.
Era por isso que por toda parte se cantava a canção que Joaquim Maria agora cantarolava, ao
cruzar a rua Uruguaiana:
Estamos no século das luzes,
Não podemos duvidar.
Anda gás por toda parte
Para nos alumiar.

E foi assim que, depois de passar pelo largo de São Francisco, Joaquim Maria parou na porta
do Real Gabinete Português de Leitura. Queria pegar um livro emprestado. Ao entrar prendeu a
respiração. Até parecia que nunca tinha estado na biblioteca – que nada, estava ali quase todo
dia! –, tal era o encanto que sentia a cada vez que entrava ali. Também, eram mais de 16.000 mil
volumes… Ele ficava tonto só de imaginar o tanto que havia para ler. Escolheu seu livro e saiu.
Ficou pensando que, no fundo, o que ele realmente precisava era de amigos com quem pudesse
trocar ideias sobre os livros que lia, seu passatempo preferido.

PARA SABER MAIS

Fotografia

Em 1840 chegava ao Brasil a fotografia. Não era a máquina fotográfica como a conhecemos
hoje. Mas um daguerreótipo, máquina que permitia a produção de uma imagem positiva
direta em chapa de cobre, coberta por uma fina camada de prata, cuidadosamente polida e
sensibilizada com vapores de iodo. O resultado, portanto, não eram as imagens em papel,
mas em pequenas chapas de cobre, acondicionadas em estojos de luxo parecidos com os de
maquiagem.
No Segundo Reinado os fotógrafos se especializavam em retratos e fotos de paisagens.
Orientavam as pessoas a posar para seus retratos de maneira semelhante à que posavam para
os pintores. No início era necessário cerca de um minuto e meio para formar a imagem na
chapa de cobre. As chapas eram recortadas em formatos ovalados ou retangulares. Também
as fotos de paisagens pareciam muito com as pinturas paisagísticas. As chapas para essas
fotos eram retangulares, seguindo o padrão dos panoramas.
As possibilidades de fotografar de maneiras diferentes foram descobertas aos poucos, à
medida que a técnica também se desenvolvia. Naquela época havia várias limitações. Não
era possível tirar fotos em movimento ou muito de perto.
O costume de tirar retratos virou moda no final do século . Alguns fotógrafos se
XIX

estabeleciam em lojas, nos centros urbanos, na corte e em algumas capitais das províncias,
como Salvador, Recife, Belo Horizonte e São Paulo. Outros tomavam a estrada, viajavam
pelo interior das províncias, fotografando os interessados.
PARA SABER MAIS

Real Gabinete Português de Leitura

Real Gabinete Português de Leitura

Maior biblioteca de obras portuguesas fora de Portugal, o Real Gabinete Português de


Leitura, criado em 1837 por um grupo de imigrantes portugueses, tem hoje cerca de
350.000 livros. Possui em seu acervo obras valiosíssimas, como uma edição de 1572 de Os
Lusíadas. Como, desde a sua criação, o acervo da biblioteca crescia muito, sua sede foi
mudada várias vezes de lugar. Quando Machado de Assis começou a frequentá-la, ela
situava-se na rua dos Beneditinos. Em 1887, a sede atual foi inaugurada na rua da
Lampadosa (hoje rua Luís de Camões), no centro do Rio de Janeiro. Seu prédio é
considerado uma verdadeira obra de arte. As paredes, altíssimas, estão cobertas de livros do
chão até o teto; não há quem não se impressione ao lá entrar.

Interior do Real Gabinete Português de Leitura

O próximo destino era o largo do Rocio, ou melhor, praça da Constituição. Era assim que o
grande largo se chamava, por causa da Constituição de Portugal de 1821, jurada ali mesmo por
dom Pedro I. Mas o nome nunca pegou. Todos chamavam mesmo era de largo do Rocio, um dos
lugares mais movimentados da cidade, desde que fora escolhido para sediar o primeiro teatro de
verdade do Rio de Janeiro, o Real Teatro de São João, agora chamado de São Pedro de
Alcântara. Até então o lugar não passava de um grande descampado onde estacionavam animais
e carruagens. Aliás, o nome “rocio” vem daí: eram áreas reservadas para carruagens, pastagem
de animais, feiras e leilões.
Naquela época, a casa de comércio mais frequentada era a Taberna do Jacá, na esquina da rua
do Piolho. Com a construção do teatro, no entanto, o ambiente começou a mudar. Novas casas
foram construídas. Numa delas, na esquina da rua do Sacramento, o xá da Pérsia se instalou
quando veio visitar o imperador. Em outra, ali perto, ficava a embaixada do Marrocos. Aos
poucos juristas e deputados começaram a se mudar para lá, transformando totalmente a região.
Agora o largo do Rocio era totalmente diferente. Lá ficava o teatro que Joaquim Maria
adorava. Nos planos que fazia para o futuro, sempre se via escrevendo peças, encenadas para
multidões. Mas o Rocio também era um lugar especial por outra razão. Era lá que, a poucos
passos do teatro, ficava a loja de Francisco de Paula Brito.
Aquele parecia um lugar bem simples à primeira vista. E era mesmo. Funcionando na frente
como casa de chá e no fundo como tipografia, a loja de Paula Brito era conhecida por seus
frequentadores, a começar pelo próprio dono. Francisco de Paula Brito era uma dessas pessoas
que havia nascido para a profissão. De origem humilde, aprendeu o ofício de tipógrafo na
Imprensa Nacional. Mas desde 1831, já poeta, jornalista e editor, mantinha sua própria loja no
coração da cidade, empregando cerca de 60 pessoas e editando um sem-número de livros e
revistas, entre eles a A Marmota Fluminense, sempre lida por Joaquim Maria.

Teatro São Pedro


Fachada da Imprensa Nacional, c.1886 (Foto Marc Ferrez)

PARA SABER MAIS

As tipografias

A publicação de um livro é resultado do trabalho de vários profissionais, cada qual


responsável por etapas diferentes. Os autores escrevem textos e procuram editores
interessados em publicá-los. O editor lê os textos, analisa a qualidade da obra, muitas vezes
solicita opiniões a especialistas. Se ele decide pela publicação, passa a tomar as
providências práticas.
No século , as casas editoriais eram responsáveis por quase todas as etapas da produção
XIX

do livro: da seleção dos textos às vendas dos exemplares. Na maior parte dos casos, não se
chamavam editoras, mas tipografias. Muitas vezes a tipografia ou editora levava o nome do
proprietário ou de sua família. Era comum o negócio passar do pai para os filhos, que
aprendiam o ofício na prática, convivendo e ajudando o patriarca.
Na oficina tipográfica, a partir dos originais (as folhas manuscritas pelo autor), era
realizada a composição com tipos de chumbo. De acordo com o tamanho da folha a ser
usada, as linhas e os parágrafos eram compostos, diagramando-se cada página. O manejo
das prensas era um trabalho bastante especializado, feito apenas pelos “mestres tipógrafos”.
Para ilustrar os livros era usada uma outra técnica de impressão: a litografia. Os gravadores
das oficinas desenhavam sobre pedras bem lisas, passavam tinta na superfície da pedra e
depois aplicavam sobre ela o papel.
Para se chegar ao formato de livro havia ainda o trabalho de encadernação. As folhas
impressas eram unidas e costuradas. Normalmente a impressão era feita em uma folha
grande, aproveitando-se os dois lados, o que equivalia a oito páginas. As folhas grandes
eram dobradas e costuradas. Quando o leitor adquiria o livro, abria as páginas com uma faca
bem pequena, especial para isso, chamada espátula.
Atualmente a publicação de um livro continua envolvendo vários profissionais: o editor,
o programador visual, o revisor. Mas há grandes diferenças. O autor geralmente escreve no
computador e entrega seu texto para o editor já gravado em CD, ou envia mesmo por
correio eletrônico. Todos trabalham no computador, seja para escrever, revisar ou diagramar
as páginas do livro.

Paula Brito não ligava muito para dinheiro; tanto que mais de uma vez o próprio imperador
veio salvá-lo da falência, quando seus negócios iam mal. Porém ele acreditava no que fazia e
gostava de reunir à sua volta pessoas que também davam importância à cultura. Por isso todas as
tardes havia reuniões em sua loja, quando se conversava de literatura, teatro, política. Como se
não bastassem os encontros diários durante a semana, o grupo se juntava aos sábados à tarde, no
mesmo lugar, para continuar as discussões. Eram as reuniões da Sociedade Petalógica,
associação sem diretoria nem estatuto, cuja única função era debater a vida literária, política e
intelectual da corte.
Anos mais tarde Joaquim Maria diria que na loja de Paula Brito “ia toda gente, os políticos, os
poetas, os dramaturgos, os artistas, os viajantes, os simples amadores, amigos e curiosos, onde
se conversava de tudo, desde a retirada de um ministro até a pirueta da dançarina da moda”.
Todo intelectual – ou candidato a intelectual – que se prezasse batia ponto na loja de Paula Brito.
Justamente por isso era para lá que Joaquim Maria se dirigia naquela tarde de 1854.

Joaquim Maria entrou na pequena sala e sentou-se num canto. Muitas vezes tinha passado pela
porta, mas naquele dia pela primeira vez tomara coragem e resolvera entrar. A confusão pairava
no ambiente já embaçado de tanta fumaça saída dos charutos. Todos falavam ao mesmo tempo.
O assunto não podia ser outro: a inauguração da estação inicial da Estrada de Ferro Mauá, a
primeira ferrovia brasileira, poucos meses antes.
— Já viram a “Baronesa”? – alguém perguntava.
“Baronesa” era o apelido da primeira locomotiva, que fazia o trajeto entre a praia da Estrela,
no fundo da baía de Guanabara, e o pé da serra de Petrópolis. Como havia sido o barão de Mauá
quem tinha patrocinado a obra, o trem fora assim chamado em homenagem à esposa dele.
— É um desperdício de dinheiro e energia – esbravejava um homem, já vermelho e suado de
tanto gritar.
— Me digam, para quê importar locomotiva da Inglaterra? Não podemos continuar como
dantes? Ninguém ia a Petrópolis antes do trem?
Paula Brito saiu em defesa da ferrovia. Ele gostava de todas as novas invenções. Sobretudo
gostava do imperador. Gostava tanto de dom Pedro II que até o nome de sua tipografia, Dois de
Dezembro, havia sido dado em homenagem ao aniversário do monarca. E o imperador tinha a
maior simpatia pela nova ferrovia.

PARA SABER MAIS


A invenção do telefone

Algumas grandes invenções datam dos tempos de Machado de Assis. No campo das
comunicações, há um invento formidável: o telefone.
Dom Pedro II conheceu o telefone numa exposição na Filadélfia, nos Estados Unidos. Na
ocasião, Alexander Graham Bell apresentava sua invenção para o mundo. Dom Pedro
entrou para a história das comunicações ao espantar-se: “Grande Deus, isto fala!”. A frase
transformou-se em slogan para as propagandas da nova invenção.
Um cientista é antes de tudo um observador. Em 1876, Alexander Graham Bell (1847-
1922), ao mesmo tempo que trabalhava como instrutor de surdos-mudos, realizava
experiências no campo da acústica. Seu desafio era encontrar uma forma de transmitir sons
à distância, fossem eles notas musicais ou voz humana. Em uma de suas experiências
descobriu o princípio do microfone: transformar as vibrações sonoras em vibrações
elétricas. A descoberta foi um passo fundamental para o sucesso das experiências com o
telefone. No ano seguinte, Graham Bell conseguiu transmitir sons por meio de uma conexão
telefônica. Mas como é possível ouvir pessoas tão distantes de nós?
Quando uma pessoa fala num aparelho de telefone, a conexão permite que aquele
impulso sonoro se transforme em pulso elétrico. O pulso elétrico percorre a distância entre
as pessoas que desejam falar por meio de um fio. Afinal, o aparelho na outra ponta da linha
transforma o pulso elétrico novamente em impulso sonoro. Assim, ouvimos o que foi dito
no outro aparelho de telefone.

— Pois então, se depender de você, andamos de carroça para o resto da vida? É por isso que
os ingleses passam, e nós ficamos!
Joaquim Maria ouvia tudo estupefato. Muito tímido para se intrometer na conversa, não perdia
uma só palavra do que se dizia. Passou a frequentar o local diariamente. Até que um dia sua
presença chamou a atenção de Paula Brito:
— E então, rapaz, o que te atrai tanto em nossa loja?
Joaquim Maria não titubeou:
— Quero publicar meus versos.
Paula Brito não só publicou as poesias de Joaquim Maria em A Marmota Fluminense, como
ainda o empregou em sua tipografia como aprendiz. Naquela época, era comum os jovens
publicarem seus primeiros escritos bem cedo, com 13, 14 anos. Alguns conseguiam ver seus
versos impressos até mais novos, com menos de 12 anos. Ao publicar suas primeiras poesias,
Joaquim Maria nem havia começado tão cedo; com certeza estava longe de ser considerado um
prodígio. Também era muito comum que rapazes como ele trabalhassem em lugares como
aquele. Como não tinham dinheiro para frequentar a Faculdade de Direito em São Paulo ou
Recife, ou a de Medicina na Bahia, o jeito era aprender um ofício – como o de tipógrafo, que
Joaquim Maria estava aprendendo – para poder exercer uma profissão digna mais tarde,
provavelmente mais bem remunerada que a de seus pais. Além disso, para ele a oportunidade era
especial: significava a possibilidade de deixar de vez a casa de seu pai e começar a viver uma
vida independente.
Foi nessa época que começou a viver por conta própria no centro da cidade. Alugou um quarto
num sobrado na rua Matacavalos, de onde ia a pé para o largo do Rocio. Como o salário não
dava para muitos luxos, economizava dividindo o quarto com um amigo.
Aliás, se tinha alguma coisa que Joaquim Maria sabia fazer bem eram novas amizades.
Embora não fosse muito falante, era simpático. Além disso, impressionava a todos por sua
memória prodigiosa. Ele decorava na cabeça trechos inteiros dos livros de que havia gostado. Era
capaz de recitar por horas a fio. Sua simplicidade e aptidão conquistavam as pessoas. Desde que
começou a frequentar a Petalógica, passou a conviver com vários amigos novos, jovens como
ele, que também gostavam de ler. Logo formaram um grupo que se reunia muitas vezes nas
tardes de sábado para conversar sobre literatura, as peças de teatro que estavam em cartaz, as
atrizes que achavam mais bonitas.
Um de seus melhores amigos na época chamava-se Francisco Gonçalves Braga, três anos mais
velho que ele e recém-chegado de Portugal. Outro era Joaquim Manuel de Macedo, seu vizinho
de rua. Isso sem falar em Salvador de Mendonça, que na época ainda estudava na escola; este
seria seu companheiro fiel até a velhice, quando ambos se lembravam dos bons tempos da
juventude. Além destes, Joaquim Maria também tinha uma roda de amigos portugueses, quase
todos trabalhando no comércio, mas nem por isso menos interessados em literatura. E foi assim,
fazendo novas amizades, que passou a fazer parte do mundo das letras e artes da corte imperial,
um mundo muito, mas muito diferente daquele no qual tinha nascido e sido criado.
Apesar do entusiasmo pela nova vida, Joaquim Maria não era um bom tipógrafo. Ao contrário:
todos os amigos que o conheceram por volta de 1856 eram unânimes em afirmar que ele, como
aprendiz, era quase um desastre. Por essa época já trabalhava na Imprensa Nacional, depois de
ter passado um ano na tipografia de Paula Brito. O problema é que, em vez de trabalhar, ficava
lendo pelos cantos. Assim, vivia atrasado. E seu chefe não parava de reclamar. As queixas foram
tantas, que chegaram aos ouvidos do diretor. Joaquim Maria foi chamado para conversar com
ele. Quando lá chegou, deparou com Manuel Antonio de Almeida, o Maneco, célebre autor de
Memórias de um sargento de milícias.

Francisco Otaviano

Maneco logo se reconheceu no rapaz franzino parado à sua frente. Como ele, Maneco também
havia sido pobre, também passara por terríveis dificuldades financeiras. Principalmente, quando
garoto, também tinha sonhado em seguir a carreira literária. Quando viu os bolsos do paletó de
Joaquim Maria cheios de livros desistiu de lhe chamar a atenção. Ficaram amigos. Maneco
apresentou-o ao jornalista Francisco Otaviano, que dirigia o jornal Correio Mercantil.
Otaviano convidou Joaquim Maria para ser revisor de textos. Ao mesmo tempo ele passou a
escrever em pequenos jornais, como O Espelho e Revista dos Teatros. E assim Joaquim Maria
começava a subir na vida. Estava chegando aos 20 anos com a cabeça cheia de ideias. Como
escreveu mais tarde a Salvador de Mendonça, “íamos entrar nos 20 anos, verdes, quentes,
ambiciosos”.
2 VINTE ANOS

Ainda faltava quase meia hora para o espetáculo começar, e o Teatro São Pedro já estava
praticamente lotado. Joaquim Maria não conseguia parar quieto, de tanta excitação. Reparava em
todos os que entravam. Falava com alguns amigos, cumprimentava os muitos conhecidos.
Nenhum detalhe escapava. Também… era ele o autor do libreto da ópera Pipelet, que estreava
naquela noite. Estava ansioso para ver a apresentação da peça. Seria a primeira vez que um texto
seu iria ser levado ao palco. Queria saber o que os amigos iam achar, o que os críticos iam
pensar. Estava na verdade nervosíssimo.
Como crítico teatral, Joaquim Maria sabia muito bem como poderiam ser duras as opiniões de
quem escrevia nos jornais. As avaliações que ele próprio fazia eram sempre cruelmente sinceras.
Mas sobre Pipelet ele mesmo havia feito a propaganda em sua “Crônica Teatral”, escrevendo:
“Abre-se segunda-feira a Ópera Nacional com o Pipelet, ópera em três atos, música de Ferrari e
poesia do senhor Machado de Assis, íntimo amigo a quem tenho muito afeto, mas sobre quem
não posso dar opinião nenhuma.” Precisava mais para dizer que o íntimo amigo era ele próprio?

PARA SABER MAIS

O teatro no Rio de Janeiro

Machado de Assis traduziu algumas peças do francês para o português, como Os


descontentes, de Racine, e O barbeiro de Sevilha, de Rossini. Também escreveu as
comédias O caminho da porta e O protocolo. Mas as peças de Machado nunca foram tão
bem recebidas quanto os contos e romances, sendo encenadas sobretudo em saraus literários
ou salões.
Havia excelentes escritores brasileiros no século , como o próprio Machado; muitos
XIX

deles se dedicavam a escrever peças de teatro. A redação para teatro é muito particular. O
autor precisa construir um texto adequado à encenação. No início, em geral o escritor
descreve o cenário, o ambiente, a cena. Ao longo do texto pode dar outras indicações para o
diretor e os atores montarem a peça. No entanto, o texto mesmo é formado pelos diálogos
entre personagens ou por um monólogo, se a peça tiver um só personagem.
Há vários tipos de peças de teatro, como comédias e dramas, por exemplo. Na segunda
metade do século as pessoas distinguiam as peças entre os gêneros “ligeiro” e “realista”.
XIX

O teatro chamado “ligeiro” era julgado por muitos um mero entretenimento, um gênero
menor. Já as peças “realistas” eram consideradas o verdadeiro teatro, digno e “nobre”.
No século Luís Carlos Martins Pena, que queria formar uma ópera cômica no Brasil,
XIX

foi o maior dramaturgo brasileiro. Já as peças de José de Alencar significaram importante


contribuição para a renovação do teatro brasileiro em direção ao chamado teatro realista, de
origem francesa.
Naquela época cada teatro possuía uma “companhia”. Os empresários contratavam os
atores, selecionavam os textos e organizavam suas companhias. Vários atores portugueses
trabalhavam no Brasil. Muitas companhias europeias, sobretudo francesas, vinham encenar
suas peças por aqui. Mas os intérpretes franceses não sabiam falar português, e os textos
eram falados em francês mesmo. É certo que muitos escritores, advogados, professores e
negociantes conheciam aquela língua, mas nem todos os espectadores a compreendiam.
Provavelmente algumas pessoas assistiam às peças mesmo sem entender o que os atores
estavam falando.

O teatro era a coisa mais importante da vida de Joaquim Maria naquela época. Assistia a todas
as peças em cartaz, não importava onde fosse. Frequentava o São Pedro, o Provisório (construído
para substituir o Teatro São João, destruído por um incêndio anos antes), o Ginásio, o São Luís,
o São Januário. O Rio de Janeiro de 1859 era uma festa permanente para quem gostava de teatro!
E Joaquim Maria adorava. Aliás, não era só o teatro que ele apreciava: também era visto sempre
em todas as festas elegantes, em todos os concertos. Era apaixonado por música. Gostava
particularmente dos saraus, onde se cultivavam a boa música e a boa poesia, e dos bailes, em
que ele fazia sucesso com as jovens senhoritas. Como ele mesmo diria mais tarde, naquela época
tinha “20 anos, um bigode em flor, muito sangue nas veias e um entusiasmo, um entusiasmo
capaz de puxar todos os carros…”.

Joaquim Manuel de Macedo

A verdade é que Joaquim Maria já estava começando a ficar famoso com as críticas que
escrevia sobre as peças em cartaz na cidade. Há pouco tempo havia assistido ao drama Cobé, de
Joaquim Manuel de Macedo, lá mesmo no São Pedro. Ainda estava sob o impacto do espetáculo
que vira. Joaquim Maria ficara impressionado com a história do escravo apaixonado por sua
senhora que chegara a cometer um crime para impedir que ela fosse obrigada a casar contra a
vontade. Gostava especialmente de peças como essas, escritas por autores brasileiros, que
retratavam dramas brasileiros. Achava uma bobagem perder tempo copiando outras sociedades,
outros lugares. Estava interessado na sociedade da corte. Gostava de se divertir, claro! Mas
também prestava atenção a tudo: queria realmente entender de música, pintura, poesia e teatro.
Mais que isso; achava que podia mudar o mundo pelo teatro. Para ele o teatro não era apenas
divertimento, belas artistas, noitadas. Era uma coisa muito séria, em que “a verdade aparece nua
sem demonstração, sem análise”. Joaquim Maria costumava dizer que no teatro “o homem vê,
sente, palpa; está diante de uma sociedade viva, que se move, que se levanta, que fala…”.
Era por isso que, enquanto a alta sociedade da corte ocupava-se com festas, danças, canto,
música, vestidos e modas, distraindo-se nas regatas de Botafogo, nos passeios de barca, em
jantares no Jardim Botânico ou em excursões a cavalo na Tijuca, Joaquim Maria, que não era
rico nem bem-nascido, trabalhava. E o trabalho para ele era estudar e escrever. Já sabia francês o
suficiente para ser um dos tradutores do livro O Brasil pitoresco, best-seller da época escrito pelo
francês Charles Ribeyrolles; já havia lido todos os clássicos portugueses e até gabava-se de ser
íntimo de escritores ingleses como Shakespeare, de cujas obras sabia trechos de cor! Ele se
perguntava se algum dia conseguiria escrever como eles, se ficaria famoso como os escritores
que admirava. Era isso o que queria, no fundo.

A enseada de Botafogo na última década do século XIX (Foto Marc Ferrez)


Entrada do Jardim Botânico em 1880 (Foto Marc Ferrez)

PARA SABER MAIS

Os salões

As crônicas de época registram os salões como locais de encontros amorosos entre os filhos
da boa sociedade. De acordo com o costume, várias pistas indicavam aos memorialistas o
início de um romance: um convite para uma dança, uma troca de olhares ou um abrir-e-
fechar de leques mais apressado. As festas nos salões também proporcionavam outros tipos
de encontros. Muitos diplomatas, altos funcionários da corte, parlamentares, fazendeiros,
comissários, exportadores de café e uma elite enobrecida, sobretudo ao longo do Segundo
Reinado, podiam prolongar seus encontros de negócios nas residências uns dos outros.
No século eram muito comuns na alta sociedade os encontros nas grandes residências.
XIX

Em mansões, solares ou chácaras os anfitriões recebiam seus convidados nos salões, a área
nobre da casa. Ali se encontravam mesinhas, sofás, cadeiras e, sempre, um piano.
Aquelas não eram reuniões casuais, improvisadas. Muito ao contrário, eram eventos
muito bem organizados, dentro dos padrões de etiqueta da época. Diversas reuniões
seguiam quase uma receita. Cedo era oferecido um jantar para os amigos mais próximos.
Mais tarde recebia-se um grupo mais amplo de convidados. Nos salões a etiqueta
compreendia o bom desempenho de várias “artes”: a de receber em um ambiente de
cordialidade, a de cultivar o humour, dançar uma valsa, cantar uma ária, declamar versos,
criticar com graça e sem maledicência, elogiar a beleza feminina, além da representação de
peças de teatro. Nos salões os protagonistas de tais artes eram normalmente músicos
protegidos pelo dono da casa, pelas mulheres da família ou por convidados. Eram
verdadeiras festas. A diferença era a frequência das reuniões: em determinados dias da
semana, todas as semanas ou de 15 em 15 dias.

O ano de 1860 encontrou Joaquim Maria como um dos redatores do jornal liberal Diário do Rio
de Janeiro, um dos mais importantes da cidade, dirigido por seus amigos Saldanha Marinho e
Quintino Bocaiúva. O convite para trabalhar no jornal foi uma surpresa: certa noite, ao sair do
Teatro Ginásio, foi com Quintino tomar chá. Beberam e conversaram de tudo um pouco, até de
política, assunto do qual Joaquim Maria não costumava falar muito. Mas naquela noite parecia
que Quintino queria saber sua opinião sobre tudo. Encheu-o de perguntas! Já tarde da noite se
despediram, combinando um encontro para o dia seguinte, na loja de Paula Brito, que os dois
ainda frequentavam diariamente. Na manhã do outro dia Joaquim Maria encontrou o amigo a
escrever um bilhete. Era o convite para integrar a equipe de redatores do Diário do Rio de
Janeiro, jornal que, depois de um período de decadência, agora voltava a circular.

E foi assim que Joaquim Maria inesperadamente pôs o pé no grande jornalismo carioca, posição
que dez entre dez jovens escritores gostariam de ocupar. Se tivesse alguma ambição política seu
caminho já estaria traçado. Afinal, além da crítica literária, trabalhava sobretudo como
representante do jornal no Senado, de onde todos os dias tirava material para suas reportagens.
Não costumava tomar notas: guardava tudo de cabeça, até mesmo o modo como as pessoas se
vestiam e o lugar onde se sentavam. Depois chegava à redação e escrevia.
Mas como sabia que para a política não tinha vocação – queria mesmo era ser poeta e escritor
–, o jornal para ele significava algo totalmente diferente: o acesso a uma plateia de leitores muito
mais ampla. Só isso, mas para ele era muito. Até porque não possuía outros benefícios, uma vez
que o salário era baixíssimo. Não era raro o dia em que sua única refeição era o clássico
lanchinho de pão torrado e café com leite, tomado no Carceller ou no Café Braguinha.
Mas na época Joaquim Maria não estava muito preocupado com comida: aos 21 anos, magro,
com olhos vivíssimos e luminosos, mãos delicadas e finas, achava que lhe bastava imaginação e
poesia para sobreviver. Conseguia tirar seu ganha-pão daquilo que mais gostava de fazer, e era
isso que importava. A maioria de seus amigos foi empurrada para outros ofícios, principalmente
o comércio, que ele detestava. Um grande sortudo, isto sim é o que ele era.

PARA SABER MAIS

A imprensa no século XIX

No Segundo Reinado eram muitas as revistas literárias. Diversos escritores publicavam


romances nessas revistas, sob a forma de folhetim. O autor escrevia aos poucos, e o leitor
acompanhava a história em capítulos. Vários sucessos de Machado de Assis chegaram ao
público inicialmente como folhetins, como os romances A mão e a luva e Helena,
publicados no jornal O Globo, e Memórias póstumas de Brás Cubas, que apareceu na
Revista Brasileira.
Outros grandes escritores da época também publicavam suas obras primeiro como
folhetins. Só depois a história era editada como livro. Foi assim com O guarani, de José de
Alencar, no Diário do Rio de Janeiro. Gonçalves Dias, Joaquim Manoel de Macedo, Araújo
Porto-Alegre, Gonçalves de Magalhães e Varnhagen publicavam histórias na Revista
Popular.
Além das revistas literárias havia os jornais. No tempo de Machado de Assis, eles eram
profundamente marcados pela orientação política, não só no Brasil como em muitos países
da Europa e da América. Os jornais eram conhecidos por apoiar abertamente determinados
partidos ou questões políticas. Nisso eram muito diferentes dos meios de comunicação de
hoje, que pretendem fazer um jornalismo informativo.
Capa do romance Helena

Os periódicos tinham uma tiragem pequena, cerca de 400 a 500 exemplares. Podiam ser
distribuídos ou vendidos em quiosques, junto com livros, impressos, flores, doces, cafés e
refrescos. A maior parte da população do país era analfabeta. Mas, nos centros urbanos,
mesmo quem não lia as notícias e os comentários publicados nos jornais, em tempos de
questões políticas polêmicas, acompanhava os debates nas ruas ou nos cafés.
Alguns títulos daquela época continuam circulando, como o Jornal do Commercio e o
Correio Brasiliense. O jornalismo político brasileiro ficou marcado por um gênero
difundido nessa época: as caricaturas e as charges. Nessa ocasião começaram a aparecer
publicações ilustradas. Os traços do desenhista italiano Angelo Agostini tornaram-se
extremamente conhecidos. O artista esboçava com suas caricaturas críticas ferozes à política
e à sociedade. Atualmente, mesmo olhando rapidamente os jornais, encontramos sempre
uma charge ou caricatura. O humor transformou-se numa tradição na imprensa, e as charges
ocupam um lugar privilegiado na memória dos leitores e nas primeiras páginas de alguns
jornais.
No fim do século , a imprensa transformou-se em importante espaço de debate sobre
XIX

questões como abolição e república. O jornalismo político possibilitava a discussão de


conflitos de valores, interesses e ideias que envolviam esses verdadeiros desafios à ordem.
Afinal o Império brasileiro era fundado em escravismo e monarquia.

Bem… Nem tanto. Seus planos de investir no teatro haviam sofrido um grande revés. Pouco
tempo atrás tinha mandado para seu amigo Quintino o texto de suas duas mais recentes peças,
Gabriela e O protocolo. A resposta foi uma ducha de água fria. Quintino reconhecia seu talento,
mas dizia que as comédias eram “para serem lidas, e não representadas”. Podiam no máximo
distrair o espírito. Mas “como não têm coração, não podem pretender sensibilizar a ninguém…”.
O golpe foi profundo. Olha que Joaquim Maria se achava capaz de receber críticas, se fossem
sinceras e honestas. E estas eram. Por isso refletiu muito sobre as palavras do amigo e acabou
por se distanciar um pouco do teatro. Jamais deixou de escrever para saraus literários, para
amadores, e até passou a fazer traduções e adaptações. Mas nada que se comparasse a seus
primeiros sonhos de revolução e fama por meio do teatro.
Talvez tenha sido por isso que Joaquim Maria tenha se dedicado com tanto afinco ao
jornalismo a partir de então. É possível que naquela época tenha começado a se interessar por um
gênero literário do qual se tornaria mestre anos mais tarde: a crônica.
Mesmo que a razão tenha sido outra, o fato é que Joaquim Maria começou a gostar de passar
os dias no Senado, observando os políticos e conversando com seus amigos Pedro Luís e
Bernardo Guimarães, representantes do Correio Mercantil e do Jornal do Commercio. Gostavam
de sair juntos pela praça da Aclamação, na época um grande descampado, para jantar num
restaurante na rua dos Latoeiros.

Machado de Assis

Joaquim Maria admirava os políticos mais experientes, aqueles que tinham vivido o Primeiro
Reinado e a Regência, que haviam participado da Maioridade. Pensava nas dificuldades
políticas vividas no Brasil, das quais muitos participaram: o fechamento da Assembleia
Constituinte, a abdicação de dom Pedro I, as revoltas regenciais, o golpe que resultou na
ascensão de dom Pedro II ao trono com apenas 15 anos.
De fato, só aí se dera conta de como a história recente do Brasil era conturbada. Desde a
independência aqueles homens não haviam tido descanso! Muitos anos mais tarde, ao escrever o
conto “O velho Senado”, percebeu que fora justamente naquelas tardes quentes passadas nas
tribunas, ouvindo discursos em companhia de seus amigos, que começara a reparar na “parte do
presente que há no passado e vice-versa”. Tinha descoberto a história.

PARA SABER MAIS

A Assembleia e o Senado

“A propósito de algumas litografias de Sisson, tive há dias uma visão do Senado de 1860.”
Em sua crônica “O velho Senado”, Machado de Assis nos mostra algumas das várias
maneiras de conhecer uma casa legislativa como o Senado ou a Câmara dos Deputados: as
imagens publicadas na imprensa, os jornalistas que frequentam o ambiente, além, é claro,
dos próprios parlamentares.
Machado descreve com gosto a sua rotina de jovem redator trabalhando na cobertura da
política nacional:
Nesse ano entrara eu para a imprensa. … abertas as câmaras, fui para o Senado, como redator do Diário do Rio, não posso esquecer que nesse ou no outro ali estiveram comigo Bernardo Guimarães, representante do Jornal do
Commercio, e Pedro Luís, por parte do Correio Mercantil, nem as horas boas que vivemos os três.

A descrição do ambiente compreende a movimentação dos parlamentares, os seus


embates políticos e o vaivém dos jornalistas. Pelas suas lembranças, Machado mostra que
aquela instituição era formada pelos homens que tomavam o lugar: “Tinham feito ou visto
fazer a história dos tempos iniciais do regime, e eu era um adolescente espantado e curioso.
Achava-lhes uma feição particular, metade militante, metade triunfante, um pouco de
homens, outro pouco de instituição.”
E, um pouco fazendo-se de ingênuo, observava cruelmente o sentido daquela instituição:
“… ao ver os cabos deste partido, risonhos, familiares, gracejando entre si e com os outros,
tomando juntos café e rapé, perguntava a mim mesmo se eram eles que podiam fazer,
desfazer e refazer os elementos e governar com mão de ferro este país.”
No Império, o território nacional era dividido em províncias. Com algumas modificações,
são o que hoje chamamos de estados: São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul etc. A
Câmara dos Deputados era formada pelos deputados provinciais, quer dizer, representantes
de cada província do Império. Seus membros eram eleitos para mandatos temporários. Já
no Senado era diferente. Os membros eram vitalícios e escolhidos pelo imperador a partir
de uma lista. Não havia mulheres na Câmara nem no Senado. As mulheres não possuíam
direitos políticos, quer dizer, não podiam votar, nem ser votadas.

“Era em 1864, fins de novembro. Contava eu então 25 anos de idade… encostei-me à janela da
vida, com os olhos no rio que corria embaixo, o rio do tempo…”. Joaquim Maria sonhava de
olhos abertos. Também não era para menos: estava apaixonado.
Aquele não tinha sido seu primeiro amor. Três anos antes estivera perdidamente apaixonado
por uma moça cuja identidade não revelava. Mas também nem precisava, ela não gostava dele
mesmo. Na época Joaquim Maria curou a dor de cotovelo escrevendo um texto, a sátira “Queda
que as mulheres têm para os tolos”, onde insistia que, “desde a mais remota antiguidade, sempre
as mulheres tiveram uma queda para os tolos”. Para seu orgulho ferido, tolos eram sempre os
outros, aqueles que, ao contrário dele, tinham sucesso com as moças.
Agora não, agora estava sendo correspondido pela mulher que “reúne a terra e o céu”. Dela
também só se sabia que lhe dera o nome de Corina nos versos que publicara em sua homenagem.
Joaquim Maria, apesar dos seus muitos amigos, não gostava muito de conversar sobre sua vida
pessoal. Assim como não falava da família para ninguém, preferia manter segredo sobre seus
relacionamentos amorosos. Ainda mais porque sempre se achara meio feinho, com aquele
corpinho magro e o sorriso melancólico. Mas com Corina parecia que tudo seria diferente. Tanto
que Joaquim Maria nem prestava mais atenção no mundo à sua volta. Quem queria saber do
Senado, quando estava diante de uma grande paixão? A política, que tanto lhe interessava, não
lhe dava o mesmo prazer de antes.
Para falar a verdade não era bem assim. Joaquim Maria estava distraído com os prazeres da
vida, mas não conseguia fechar os olhos ao mundo. Acompanhava diariamente as hostilidades
entre brasileiros e paraguaios no sul do país, bem antes do início do conflito depois conhecido
como Guerra do Paraguai. Seu entusiasmo pela campanha brasileira era tal que, tempos mais
tarde, quando Solano Lopez, presidente do Paraguai, declarou guerra também à Argentina,
depois de meses de disputas com o Brasil, ele escreveu: “Que quer o marechalito?”. Referia-se a
Lopez. E continuava. “Quer perder-se. Perdido estava ele. Bastavam as forças do Império para
mandá-lo passear. As armas do Brasil não carecem de dar novas provas do seu valor e do seu
poder.”
Na realidade, Joaquim Maria misturava a análise à sua própria vontade de ver o Brasil logo
vencedor da guerra. Afinal as coisas não iam tão bem assim. A vitória brasileira, que realmente
aconteceu, não seria tão fácil, e muito menos tão rápida. Desde a apreensão do navio brasileiro
Marquês de Olinda por tropas paraguaias, em fins de 1864, o Paraguai avançava sem parar,
invadindo o Mato Grosso, a província argentina de Corrientes e o próprio Rio Grande. Só depois
a reação brasileira começou a ocorrer.

Machado de Assis em desenho de Raul Pederneiras, revista Fon Fon

PARA SABER MAIS

A Guerra do Paraguai para Machado

Machado de Assis era um entusiasta da atuação brasileira na Guerra do Paraguai. Sobre ela,
publicou poemas, como A cólera do Império, de maio de 1865, no qual cantava as glórias
do exército brasileiro, como no trecho abaixo:
Se o Império é fogo,
Também é luz: abrasa, mas clara.
Onde levar a flama da justiça,
Deixa um raio de nova liberdade.
Não lhe basta escrever uma vitória,
Lá onde a tirania oprime um povo;
Outra, tão grande, lhe desperta os brios;
Vença uma vez no campo, outra nas almas;
Quebra as duras algemas que roxeiam
Pulsos de escravos. Faça-os homens.

Ele também participava de homenagens a dom Pedro II, como a ocorrida em dezembro,
também de 1865. O imperador havia acabado de chegar de Uruguaiana, cidade do sul do
Brasil, e foi recepcionado por uma grande festa na associação Arcádia Fluminense. Quando
o soberano e a esposa entraram no recinto, foram saudados por um coro entoando uma
cantata cuja letra era de Machado de Assis. Aliás, mais tarde dom Pedro se mostraria
agradecido com a dedicação do súdito: em 1867 Machado receberia o título de Cavaleiro da
Ordem da Rosa.
Todo este entusiasmo impedia que o escritor enxergasse o que a realidade mostraria nos
anos seguintes: a fragilidade do exército brasileiro, composto de homens malvestidos e mal-
armados – o que, mesmo sem impedir a vitória brasileira, marcou profundamente a história
do Império do Brasil a partir de então.
Iniciada oficialmente em dezembro de 1864, a Guerra do Paraguai envolveu uma aliança
entre Brasil, Argentina e Uruguai (cujo presidente, Venâncio Flores, havia chegado ao
poder com apoio dos brasileiros) contra o Paraguai, desde 1862 governado por Francisco
Solano Lopez. Os motivos da guerra até hoje são razão de polêmica entre os historiadores.
Costumam ser citados o instável quadro político uruguaio, o desejo de obter livre navegação
e ganhos territoriais na região do rio da Prata por parte do Brasil e da Argentina, e o próprio
desejo de expansão militar do Paraguai.
De qualquer forma, o que se sabe é que Solano Lopez foi bastante ousado ao iniciar a
guerra, confiando em seu poder militar e subestimando o exército brasileiro. A primeira fase
da guerra confirmou as expectativas do ditador paraguaio, mas em meados de 1865 a
situação começou a mudar. Em junho os paraguaios sofreram a primeira grande derrota, na
batalha naval do Riachuelo; logo depois, em setembro, começaram a recuar para defender as
fronteiras do país. A segunda fase da guerra, entre 1866 e 1868, caracterizou-se pela
resistência do exército paraguaio diante do avanço das tropas aliadas. Alguns episódios
ficaram famosos, como a defesa da fortaleza de Humaitá, cuja queda permitiu que as tropas
brasileiras, lideradas pelo então marquês de Caxias, chegassem a Assunção, capital do
Paraguai, em janeiro de 1869. A partir de então Lopez começou a sofrer uma derrota atrás
da outra, até ser morto na batalha de Cerro-Corá, em 1870.
A Guerra do Paraguai deixou evidente o despreparo do exército brasileiro, compensado
pelos batalhões de voluntários da pátria, composto por homens remunerados para lutar na
guerra. Apesar do nome, poucos eram voluntários de verdade; a maioria foi recrutada à
força, ou “no laço”, como se dizia na época. Diversos deles haviam sido escravos (eram
libertos, portanto), tendo que apresentar carta de alforria para se alistar. Apesar da vitória, o
número de combatentes brasileiros mortos foi impressionante. Estima-se que tenham sido
50 mil, num total de cerca de 150 mil soldados.
A situação criou grande desconforto entre os oficiais do exército, que gostariam de ter
mais apoio do imperador. O emprego de escravos na guerra também gerou expectativas em
torno da libertação, não só dos combatentes, como também de todos os escravos do Brasil.
Era o início do movimento abolicionista. O fim da guerra, portanto, marcou o início de uma
nova fase do Império brasileiro, uma etapa de crise e críticas que resultaria na Proclamação
da República em 1889.
Machado percebeu isso. Em uma crônica de 1894, escreveu: “Não há dúvida de que os
relógios, após a morte de Lopez, andam muito mais depressa.”

Enquanto isso, bem mais perto, outros episódios também mereciam a sua atenção. Os
casamentos das princesas Isabel e Leopoldina sacudiram a corte e também a rotina de Joaquim
Maria. Toda a cidade parou para ver a festa, com vários espetáculos. Ele descreveu o casamento
da princesa Isabel em detalhes, encantado pelo céu puro e pelo sol esplêndido que brilhava
naquele dia. Também, pudera! Com o temporal que caíra quatro dias antes, quebrando vidraças e
lampiões, ninguém imaginava que o dia pudesse estar tão lindo como estava. Joaquim Maria
ficara tão impressionado com a chuva, que não parava de falar no assunto; comentava com todos
que, se aquele temporal durasse duas horas, a cidade ficaria “reduzida a um montão de ruínas”.
Mas nem a chuva, nem os casamentos da família real, nem mesmo a guerra do Paraguai
impediram que o ano de 1864 terminasse com uma grande decepção para Joaquim Maria. Ao
contrário do que desejava, seu romance com Corina não foi longe; e isso sem que ninguém
soubesse o motivo. O desenlace teria sido fruto do preconceito, como à época alguns amigos
seus chegaram a pensar? Nem ele mesmo sabia. Provavelmente nunca se conhecerá a razão pela
qual o amor tornou-se impossível. Afinal, quem vai entender os caprichos do coração feminino?
Se nem as mulheres entendem… Mas, nos “Versos a Corina”, Joaquim Maria demonstrou que a
sua mais recente paixão havia provocado mesmo uma grande desilusão.
Guarda estes versos que escrevi chorando
Como um alívio à minha soledade,
Como um dever do meu amor; e quando
Houver em ti um eco de saudade
Beija estes versos que escrevi chorando.

Capa de Crisálidas, livro de poemas

Azar no amor, sorte na profissão. Seus poemas apaixonados tiveram lugar de honra no
primeiro livro de poesias, Crisálidas, que ele conseguiu publicar em setembro daquele ano.
Joaquim Maria dedicou o volume a seus pais, em quem pensava muito naqueles meses. O pai,
Francisco José de Assis, acabara de falecer. Embora nos últimos tempos não tivessem muito
contato, Joaquim Maria sempre pensava nele e em sua mãe, em como havia sido sua vida na
chácara do Livramento, em como agora tudo era muito diferente. Ao mesmo tempo que sentia
saudades dos pais, gostava do rumo que sua vida havia tomado. Mais que isso, sentia orgulho de,
mesmo com dificuldades – e as dificuldades, principalmente financeiras, continuavam sendo
muitas –, conseguia levar adiante seu projeto de viver da escrita.
O livro teve boa repercussão até em Portugal, de onde lhe chegaram vários elogios. Os críticos
saudaram sua primeira obra, não apenas por aqueles poemas, mas sobretudo pelo potencial
literário que Joaquim Maria demonstrava. Um deles disse: “Ninguém se atreverá a dizer até onde
irão os voos de Machado de Assis.” Não podia estar mais certo. Com Crisálidas, Joaquim Maria,
o menino pobre da chácara do Livramento, começava a se transformar no grande escritor
Machado de Assis.
3 O MUNDO DAS PALAVRAS

Os anos passaram rápido para Machado de Assis. Quando deu por si, já estava há sete anos
trabalhando no jornal, tempo de muito trabalho e pouco dinheiro. A vida na redação não o
animava nem um pouco. Gostava de escrever crônicas, críticas literárias e teatrais, mas a rotina
no jornal era um tédio só. A situação piorara quando seus amigos mais próximos deram novo
rumo às suas vidas: um foi morar nos Estados Unidos, o outro foi assumir um cargo em Minas
Gerais. Ele ficou ali, sozinho, combatendo a mesmice do dia a dia publicando crônicas e contos
na Semana Ilustrada e no Jornal das Famílias.
Um belo dia Machado acordou com uma ideia fixa, como tantas outras que já tivera. Era hora
de mudar. Ou ele mudava, ou ficaria naquele tédio a vida inteira, trabalhando demais, sem
receber salário direito e, ainda por cima, sem ter coragem de cobrar o que lhe deviam. O que
podia fazer, se o dono do jornal era seu amigo? Mas também, viver de vento era impossível!
Então Machado tomou coragem e resolveu partir para o caminho seguido por vários de seus
colegas: o serviço público.

Machado aos 35 anos

Só que conseguir ocupar algum posto não era tarefa fácil naquela época. Não havia concurso
público. Para se conseguir um cargo, era preciso ser indicado por alguém. E esse alguém tinha
que ser uma pessoa importante, um deputado, um senador, alguém que tivesse muita influência
entre os ministros. O problema é que, como todos queriam trabalhar para o governo, a disputa
era grande. Cada posto tinha vários candidatos. E o candidato era escolhido, não de acordo com
sua competência, mas pela importância de quem o indicava. Mesmo os ministros, quando
recomendavam alguém a um colega, não tinham certeza absoluta de que a indicação seria aceita.
Machado conseguiu que seu amigo Quintino Bocaiúva o indicasse para Afonso Celso, na
época ministro da Marinha. Ele bem que tentou ajudá-lo, mas os esforços deram em nada. Meses
se passaram sem que Machado recebesse qualquer resposta, e ele ficava cada vez mais ansioso.
Estava começando a desanimar quando veio a boa notícia: conseguira uma nomeação para ser
ajudante do diretor de publicação do Diário Oficial. O lugar era modesto, e o salário, mais ainda.
Mas Machado ficou felicíssimo. Finalmente ia poder dar adeus ao jornal! Pensou até que teria
mais tempo para se dedicar aos seus grandes planos de escrever contos e romances… Mas que
nada! A burocracia deixava pouco espaço para a literatura.

PARA SABER MAIS

Contemporâneos de Machado de Assis

De resto, a livraria era um ponto de conversação e de encontro. Pouco me dei com


Macedo, o mais popular dos nossos autores, pela Moreninha e pelo Fantasma branco,
romance e comédia que fizeram as delícias de uma geração inteira. Com José de Alencar
foi diferente; ali travamos as nossas relações literárias. Sentados os dois em frente à rua,
quantas vezes tratamos daqueles negócios de arte e poesia, de estilo e imaginação que
valem todas as canseiras deste mundo. Muitos outros iam ao mesmo ponto de palestra.
(Garnier, p.654)

No século e até pouco tempo as livrarias eram pontos de encontro entre escritores,
XIX

advogados, professores. Não se frequentava o local apenas para comprar os livros, mas
também para encontrar outros leitores e conversar, principalmente sobre literatura e política.
As livrarias eram pequenas, muitas delas levavam o nome de seus proprietários, assim como
as editoras, aproximando os profissionais do livro e seus clientes. As pessoas tornavam-se
conhecidas dos livreiros, que aos poucos passavam a saber o que elas gostavam de ler, seus
autores e temas preferidos. Hoje a maior parte das livrarias é grande. Algumas possuem
cafeterias ou bares, procurando recuperar aquele espaço de encontro.

José de Alencar

Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar eram escritores contemporâneos de


Machado de Assis. Frequentavam o mesmo ponto de encontro, a livraria Garnier, na rua do
Ouvidor. Entre os escritores de seu tempo podemos destacar também Manuel Antônio de
Almeida e Gonçalves Dias. Da convivência entre artistas muitas vezes surgem tendências
comuns a várias obras. Joaquim Manuel de Macedo inaugurou a linha do romance nacional
a partir de costumes urbanos, no que foi seguido por Manoel Antônio de Almeida, José de
Alencar e Machado de Assis.
É muito comum que os escritores tenham formações e profissões variadas. Poucos
cursam faculdades de letras ou conseguem sobreviver apenas de direitos autorais. No
século , no Brasil, todas as famílias gostariam de ter entre seus filhos alguns doutores
XIX

formados nas faculdades de medicina ou direito. Essas eram as carreiras profissionais mais
prestigiosas. Os escritores do círculo de Machado de Assis seguiam essa tendência.
Todos esses amigos foram homenageados na fundação da Academia Brasileira de Letras,
com a indicação de seus nomes como patronos de cadeiras na instituição.

Para frequentar a Garnier, contudo, Machado de Assis tinha tempo. Não só ele, como todos os
intelectuais da cidade. A livraria Garnier ficava numa casa velha e feia da rua do Ouvidor, cheia
de teias de aranha, cujo chão tremia a cada passo. Lá dentro era tão escuro, que as pessoas mal
conseguiam se ver. No entanto era o lugar para onde todos iam depois do trabalho, e com
Machado não era diferente. Todos os dias, religiosamente, fazia a mesma coisa: saía da
repartição, colocava o chapéu e seguia para a Garnier, da mesma forma que anos antes batia
ponto na tipografia de Paula Brito. Adorava ficar jogando conversa fora com seus velhos e novos
amigos. Um deles era José de Alencar, que havia acabado de conhecer e de quem seria amigo
para sempre. Sentavam-se os dois num banco e falavam de literatura, do tempo, de política, de
mulheres, de tudo. Machado só não falava da vida alheia. Ele se orgulhava de nunca ter tido um
inimigo. E nunca teria, para o resto da vida.
“Se andas muito vadio, meu amigo, aconselho-te a que ames”, um dia lhe escreveu Joaquim
Serra, seu amigo. Machado até que gostou do conselho. Guardou a carta com um sorriso. Seria
bom voltar a viver um grande amor. Mas logo fez uma careta. Amar para quê? Sofrer nova
decepção? Melhor deixar para lá.

Carolina

Mas esse desânimo de Machado com o sexo oposto durou pouco. Quando conheceu Carolina,
irmã de seu amigo Faustino Xavier de Novais, tudo mudou. Não que Carolina fosse
especialmente bonita. Não era. Também não era simpática nem muito nova. Já tinha 34 anos e
ainda era solteira, numa época em que se consideravam velhas as pessoas de 30 anos. E nem
tinha muitos recursos. Mas ela gostava de poesia e literatura, e era uma mulher inteligente.
Machado também causou boa impressão em Carolina. Ela tinha nascido em Portugal e só se
mudara para o Brasil depois que seus pais morreram, em 1868. Numa carta que mandou para
uma amiga, Carolina escreveu que Machado era um “rapaz tão feio quanto inteligente”. Também
não era muito novo e nada rico. Talvez por isso mesmo Machado e Carolina se apaixonaram. Foi
como ele sempre sonhara: o amor nasceu de um minuto. Tanto que, um dia, ao visitar seu amigo
Faustino, conseguiu ficar a sós com Carolina. Levantando-se rapidamente, sentou-se ao lado dela
e, com o coração disparado, pegou sua mão, perguntando:
— Quer casar comigo?
Carolina queria.

PARA SABER MAIS

Os contos de Machado

“Há sempre uma qualidade nos contos que os torna superiores aos grandes romances, se uns
e outros são medíocres: é serem curtos.” Assim pensava Machado de Assis sobre os contos.
Claro que esse não era o seu caso. Seu livro Papéis avulsos, publicado em 1882, é
considerado uma obra-prima do gênero. Um dos mais conhecidos e admirados é “Missa do
galo”, publicado em Páginas recolhidas. Outro era “Conto de escola”, que começa assim:
A escola era na rua do Costa, um sobradinho de grade de pau. O ano era de 1840. Naquele dia – uma segunda-feira do mês de maio – deixei-me estar alguns instantes na rua da Princesa a ver onde iria brincar amanhã. Hesitava entre
o morro de S. Diogo e o Campo de Sant’Ana, que não era então esse parque atual, construção de gentleman, mas um espaço rústico, mais ou menos infinito, alastrado de lavadeiras, capim e burros soltos. Morro ou campo? Tal era
o problema. De repente disse comigo que o melhor era a escola.

E seguia contando as desventuras do personagem na escola. Machado tornou-se mestre


na arte do conto. Escrevia-os sem muita pretensão; achava que eles ajudavam a encher o
tempo, a alegrar as pessoas. Para ele, era “a arte de dizer as coisas sem parecer dizê-las”.

Joaquim Maria Machado de Assis e Carolina Augusta Xavier de Novais casaram-se no dia 12 de
novembro de 1869. Passaram a lua-de-mel na própria casa para onde tinham se mudado, na rua
dos Andradas número 119. Para conseguir dinheiro para se casar, Machado vendeu à Garnier as
edições de três livros que queria escrever. Vendeu-os por um conto e duzentos mil-réis os
direitos de publicação dos livros Ressurreição, Histórias da meia-noite e O manuscrito do
licenciado Gaspar.
Machado ainda levou algum tempo para publicar esses livros. Ainda estava se dedicando a
escrever e publicar poesias. Embora algumas tenham ficado famosas, como “Menina e moça”
(“Entreaberto botão, entrefechada rosa / um pouco de menina, um pouco de mulher”), que
tempos depois passou a constar da abertura de coleções de livros água-com-açúcar para donzelas,
seus livros de poesia não chegaram a fazer tanto sucesso assim. Ainda mais porque na mesma
época em que Machado publicava seu trabalho, outro poeta sacudia a cena literária brasileira:
Castro Alves, que, com o seu Espumas flutuantes, ofuscou tudo o mais que foi publicado no
mundo da poesia.
Castro Alves

Machado ficou um pouco chateado com a falta de entusiasmo que sua obra recebeu, mas não
ligou muito. Trabalhava demais. Trabalhava o tempo todo, principalmente nos primeiros anos de
casado. Sempre acreditara que o trabalho era a única forma adequada para se aperfeiçoar e
vencer na vida. Costumava dizer que o estudo era o melhor dos mestres, e o trabalho, a melhor
das disciplinas. Ele não tinha conversa: quando não estava na repartição ou na Garnier, batendo
papo com os amigos, estava escrevendo. Das poesias foi passando para as crônicas e os
romances. Aliás, depois que começou a escrever em prosa, nunca mais parou. Machado gostava
sobretudo da crônica, que chamava “a mesa dos meninos no banquete dos acontecimentos”.

PARA SABER MAIS

Machado cronista

Machado de Assis adorava escrever crônicas. Por serem textos pequenos, notícias do
cotidiano publicadas em jornais e revistas, dizia que os cronistas faziam a “história
mínima”: “Que conta uma página de crônica em meio às preocupações do momento? …
Evidentemente nenhum. Consolemo-nos; é isto mesmo a vida de uma cidade, uma hora
tétrica, outra frívola, hoje lúgubre, amanhã jovial, quando não são todas as coisas juntas.”
E era disso mesmo que Machado gostava: poder falar sobre o cotidiano, o Rio de Janeiro,
as peças em cartaz, os lugares que frequentava. A crônica é assim: uma arte instantânea.
Machado gostava de conversar com o leitor em suas crônicas, quase como se estivesse
pensando alto. Uma vez, já no finzinho do século , ele escreveu: XIX

Que inveja tenho ao cronista que houver de saudar desta coluna o século XX! Que belas coisas que ele há de dizer, erguendo-se nas pontas dos pés, para crescer com o assunto todo auroras e folhas verdes! Naturalmente maldirá o
século XIX, com as guerras e rebeliões, pampeiros e terremotos, anarquia e despotismo, coisas que não trará consigo o século XX, um século que se respeitará, que amará os homens, dando-lhes a paz antes de tudo, e a ciência que
é ofício dos pacíficos.

Acordava cedíssimo todos os dias para trabalhar. Sua rotina era sempre a mesma: às seis horas
da manhã já estava de pé. Antes de entrar no escritório costumava sair para dar uma olhada nas
rosas que Carolina cultivava e nas borboletas que vinham dançar em seu jardim. Tomava café e
escrevia um pouco. Depois tomava um banho e lia os livros de seus autores preferidos, de pé,
andando. Ele gostava de ler os filósofos (seu preferido era Schopenhauer) e os grandes escritores
franceses, como Balzac e Flaubert, a quem chamava de “santos de seu espírito”. Pendurava
retratos de todos eles nas paredes, junto com os retratos de seus melhores amigos, para ficar
olhando enquanto lia. Só então passava para os jornais. Lia todos, de cabo a rabo, antes do
almoço, durante o almoço e no bonde. Dos jornais tirava ideias para suas crônicas.
Saía de casa todos os dias pontualmente às dez da manhã. Ficava no trabalho até as quatro. Aí
saía para a Garnier, para andar na rua do Ouvidor, para se inteirar das novidades. Ou então ia
jogar xadrez.
O xadrez era o novo hábito cultivado por Machado, agora que havia se tornado um homem
caseiro. Chamava-o “o jogo dos silenciosos”. Também, era tanta a concentração exigida que só
mesmo com muito silêncio. Gostava de jogar sempre com o mesmo adversário, seu amigo Artur
Napoleão. Costumava se encontrar com ele no Clube Fluminense, ponto de encontro dos
aficionados do esporte. O xadrez era tão importante que eles até trocavam correspondência sobre
algumas situações enfrentadas no jogo. Napoleão era um verdadeiro craque, e Machado suava
para ganhar dele. Mas sempre dava o troco. Napoleão iniciou uma seção de xadrez na revista
Ilustração Brasileira, onde lançava desafios e problemas a serem resolvidos pelos leitores. A
cada semana eram publicados os resultados do desafio da semana anterior. Machado fazia de
tudo para solucionar o problema, ficava acordado até altas horas da noite, pensando. Quase
sempre conseguia. Aí mandava a resposta para a revista, só pelo prazer de ver seu nome entre os
solucionadores, para implicar com seu amigo. Realmente adorava enigmas. Divertia-se
escrevendo sobre problemas indecifráveis que sabia que os leitores não conseguiriam resolver.

PARA SABER MAIS

Xadrez

O jogo que seduziu Machado de Assis tem um tabuleiro semelhante ao de damas e é


disputado entre duas pessoas. Cada jogador controla um exército de peças.
Acredita-se que a origem do xadrez tenha sido a chaturanga, um jogo criado na Índia no
século VI, baseado por sua vez num jogo chinês muito mais antigo. Chaturanga é uma
palavra em sânscrito que significa os quatro grupos do exército indiano – elefantes, cavalos,
bigas e infantaria –, de onde vêm os quatro tipos de peças do jogo.
O xadrez ficou conhecido na China, na Coreia e, a partir de lá, no Japão. Virou moda
também na Pérsia, de onde se espalhou em todo o mundo árabe, chegando até a Espanha.
No fim do século X já era jogado em toda a Europa. Atraiu o interesse de reis e filósofos
que – assim como Machado e seus amigos fizeram no Brasil – criavam problemas e
enigmas para serem resolvidos pelos adversários.
Machado de Assis foi iniciado no jogo de xadrez no começo da década de 1860, pelo
amigo Artur Napoleão. Ficou tão encantado, que se tornou um dos maiores enxadristas
amadores do Rio de Janeiro, tendo participado até do primeiro torneio de xadrez do Brasil,
realizado em 1880, na casa do próprio Napoleão.
Jogo de xadrez de Machado

O que mais fascinava Machado no xadrez era o desafio de cada jogo. Não existia uma partida
igual à outra, cada qual era diferente. Para jogar bem, achava que o jogador tinha que ter duas
qualidades: “vista pronta e paciência beneditina”, que, aliás, ele considerava também
“qualidades preciosas na vida, que também é um xadrez, com seus problemas e partidas, umas
ganhas, outras perdidas, outras nulas”.
Em 1876 Machado foi promovido a chefe de seção no Ministério da Agricultura. Era uma
grande novidade! Finalmente, depois de anos e anos de trabalho árduo e salários baixos, seu
esforço seria recompensado. Não que o serviço fosse diminuir; pelo contrário, suas
responsabilidades aumentaram, e muito. Mas a renda aumentou também. Tanto que Machado e
Carolina logo resolveram se mudar do centro da cidade, onde moravam, para a rua das
Laranjeiras.
O bairro de Laranjeiras fica em um vale, por onde passa o rio Carioca. Na época, aquela era
uma região de chácaras e palacetes cortada pela rua das Laranjeiras, que acompanhava o rio.
Moravam ali membros da nobreza carioca, grandes médicos, advogados, engenheiros e
funcionários públicos como Machado. Mas ele morava na parte menos tradicional da rua, longe
das grandes chácaras. Sua casa ficava no número 4, perto do largo do Machado, o coração do
bairro.
O largo do Machado era uma praça enorme. Antes tinha sido o Campo das Pitangueiras,
depois Campo das Laranjeiras. Daí passou a largo do Machado. Ao contrário do que muitos
pensam, o nome não tinha nada a ver com o escritor. Havia um machado de pau enorme em um
açougue que ficava ali, e por isso o lugar ficou famoso como largo do Machado.
No largo há uma grande igreja, a Matriz da Glória, que tinha acabado de ser construída quando
Machado de Assis se mudou para lá. Ele achava a igreja horrorosa. Era parecida com um templo
grego, só que com uma grande torre. Tempos mais tarde escreveu que, quando ali passava,
desviava “sempre os olhos e o pensamento”. Machado não gostava da igreja, mas adorava ouvir
seus sinos repicarem. Podia ouvi-los de casa. Achava tão bonito que um dia foi ver quem era o
sineiro. Descobriu que era um antigo escravo. Chamava-se João. Ele tinha ficado livre há muitos
anos, mas continuava trabalhando ali. As gerações passavam, e ele ficava. Em todos os
acontecimentos importantes estava lá, badalando os sinos. Machado costumava dizer que João
governava a torre da igreja; “dali regia a paróquia e contemplava o mundo”.
Naquele fim de ano de 1876, Machado finalmente tinha encontrado a sua torre, de onde não
pretendia mais sair. Liberto das dificuldades financeiras, feliz no casamento com Carolina,
finalmente podia dedicar-se àquilo que mais queria: contemplar o mundo.
A rua das Laranjeiras na época de Machado de Assis (Foto Marc Ferrez)

O mundo de Machado, embora imenso, era também pequeno: fora breves incursões a Petrópolis,
ele nunca tinha saído do Rio de Janeiro. E olha que não foi por falta de convite. Quintino, dos
Estados Unidos, sempre o convidava; seu cunhado não cansava de chamá-lo para ir a Portugal,
onde morava. Machado sabia da grande vontade de Carolina de retornar à terra natal, mas ainda
assim recusava. Não gostava de viajar. Achava que “viajar é um dos mais tristes prazeres da
vida”. No fundo julgava não ser necessário viajar. Quem, nascido no Rio de Janeiro, precisava
conhecer outros lugares? Ele costumava dizer que “a terra natal, mesmo que seja uma aldeia, é
sempre o paraíso do mundo”.
A verdade é que, desde que começara a escrever romances, Machado não queria saber de outra
coisa. Em poucos anos publicou Ressurreição, A mão e a luva, Helena e Iaiá Garcia. A
repercussão dos romances foi boa. Todos os comentavam na cidade. Mas nada se comparava a
Memórias póstumas de Brás Cubas.
Machado começou a escrever o livro em péssimas condições. Em 1878 teve os primeiros
sinais da epilepsia, doença que o acompanharia pelo resto da vida. Um mal nos olhos também o
atacou, impedindo-o de ler e escrever. Ficou tão fraco que conseguiu uma licença para ir se
recuperar em Nova Friburgo, pequena cidade no alto da serra dos Órgãos.
Na época era muito comum, quando alguém ficava doente, que os médicos receitassem uma
temporada em uma cidade nas montanhas, onde o ar era mais fresco e o clima era mais
agradável, longe do calor e das doenças do Rio. Também se achava que uma vida calma,
dedicada ao repouso, ajudaria na cura.
E foi o que aconteceu com Machado. Nova Friburgo era uma cidadezinha muito agradável,
colonizada por suíços. A paisagem lembrava mesmo os Alpes suíços. Machado encantou-se com
a cidade nos três meses que ficou lá. Mesmo assim não tinha muito o que fazer. Estava
entediado, e Carolina também. Como não conseguia enxergar direito, começou a ditar os
primeiros capítulos de Brás Cubas para a mulher. Foi aí que tudo mudou. Falando, e não
escrevendo, seu estilo tornou-se mais seco, mais limpo. Cada palavra tinha o seu lugar. Machado
gostou da experiência.
De volta ao Rio, mesmo já recuperado, continuou ditando. E Carolina continuou ouvindo e
transcrevendo a história que Machado lhe contava. Só depois ele pegou da pena e começou a
escrever. A escrever e a cortar palavras. Ele sabia, como todo bom escritor, que escrever é a arte
de cortar palavras. E para isso era necessário pôr mãos à obra: quando tinha um assunto, a
inspiração, os episódios, todo o resto só viria com o trabalho. E foi assim, escrevendo e
reescrevendo o que havia ditado, que Machado de Assis terminou sua primeira obra-prima.
Memórias póstumas de Brás Cubas, desde o dia de sua publicação, foi um livro polêmico. Era
um romance? Não era? Se não fosse, era o quê? – perguntavam-se os críticos. O que todos
sabiam é que se tratava de um livro completamente diferente de todos os que já haviam sido
escritos no Brasil. Primeiro porque Brás Cubas, o narrador da história, é um defunto. Não só já
tinha morrido, como já começava dedicando o livro “ao verme que primeiro roeu as frias carnes
do meu cadáver”. Depois, porque a história propriamente dita é contada de trás para adiante.
Começa com Brás Cubas narrando detalhes de seu próprio funeral: “Expirei às duas horas da
tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha 64
anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de 300 contos e fui acompanhado ao cemitério
por 11 amigos. Onze amigos!”. E a partir daí seguia contando sua própria vida, nem sempre na
ordem em que os fatos tinham acontecido.
O mais importante do livro de Machado, contudo, nem era o enredo. O que surpreendia os
leitores eram as reflexões de Brás Cubas sobre a vida, a morte e a sociedade em que vivia.
Machado era irônico e desencantado ao mesmo tempo. Havia conseguido realizar seu sonho de
infância: tinha virado um grande escritor!
A fama não afetou muito a vida de Machado de Assis. Continuava tímido, sem saber o que
falar quando alguém se aproximava dizendo que tinha lido um livro seu! Ainda por cima, não
conseguira se livrar da gagueira. Mas quando estava contente, até piada fazia com sua
dificuldade de se expressar. Uma amiga que conheceu o casal em Petrópolis, dizia que Machado
tinha dias divertidíssimos, gostava de conversar, dançar, contar anedotas. Por essa época,
Machado também passou a frequentar os concertos do Clube Beethoven. Ouvia tudo com
atenção e depois ficava a debater cada trecho da obra, a interpretação de cada músico. Era um
homem de detalhes.
Por isso mesmo ficou tão contente quando encontrou a casa nova para onde iria se mudar. Era
em todos os detalhes exatamente o que ele e Carolina sempre buscaram. Ficava no Cosme Velho,
uma região mais bucólica e mais silenciosa que as Laranjeiras, mas ainda assim perto do
caminho do bonde que o levava para o centro da cidade. A casa era um sobrado de dois andares,
cercada de jardim, algumas árvores, e até um riachinho que corria na frente. No andar de baixo,
ficava a sala de visitas, a sala de jantar e uma varandinha. Em cima, os quartos e seu gabinete de
trabalho.
Bonde puxado a cavalo

Machado ficou feliz com a casa. Sabia que Carolina também estava. Ali os dois viveriam com
tranquilidade pelo resto da vida. Os dois, não, os três! Carolina e Machado tinham uma
cachorrinha branca e felpuda chamada Graziela. Ele sempre lhe trazia biscoitos bem macios
quando chegava do trabalho. Depois do jantar, quando marido e mulher sentavam-se na cadeira
de balanço dupla, de mãos dadas, Graziela se aninhava junto. Machado achava que a casa tinha
tudo a ver com a nova fase de sua vida, agora que havia passado dos quarenta anos. Passara até a
usar barba! Seu rosto, como a sua casa, era a de um homem maduro.

Casa de Machado de Assis no Cosme Velho

PARA SABER MAIS

Os móveis da casa nova


Machado de Assis era um observador dos costumes:
As nossas grandes marcenarias estão cheias de móveis ricos, vários de gosto; não há só cadeiras, mesas, camas, mas toda sorte de trastes de adorno, fielmente copiados dos móveis franceses, alguns de nome original: o bijou de
salon, por exemplo, outros de língua híbrida, como o porta-bibelots. Entra-se nos grandes depósitos, fica-se deslumbrado pela perfeição da obra, pela riqueza da matéria, pela beleza da forma. (Crônica publicada em 16 de agosto de
1895, Rua Cosme Velho, 18, p.39)

Conhecemos aqui um Machado de Assis apreciador de peças de mobiliário.


Reconhecemos também o apreciador de palavras. Nos pequenos detalhes sobre o mobiliário
da época Machado nos dá dicas da influência cultural francesa no Brasil: no vocabulário,
porque os brasileiros continuavam usando palavras da língua francesa para designar as
peças, e nos próprios móveis copiados, indicando uma influência mais geral nos costumes.
O mobiliário daquele tempo era produzido sobretudo em madeira, podendo possuir
também detalhes em metal ou vidro. Alguns móveis da casa em que Machado morou com
Carolina, na rua Cosme Velho, ainda podem ser vistos na Academia Brasileira de Letras, no
Rio de Janeiro. Entre as peças arroladas em seu inventário, havia uma mesa de vieux-chène,
quatro cadeiras de jacarandá, sete cadeiras de vime, uma cômoda de canela, sete guarda-
vestidos de vinhático. Outros materiais também usados na confecção dos móveis eram
mármore, palhinha, ferro e bambu.

Os móveis da casa de Machado e Carolina

Nos séculos e muitas árvores brasileiras foram cortadas e exportadas para outros
XIX XX

países, justamente para produzir móveis em madeiras nobres. Hoje várias espécies
encontram-se em extinção, porque as florestas eram devastadas e ninguém as plantava
novamente. As madeiras tornaram-se caras, sendo substituídas por outros materiais, como o
plástico, por exemplo.
Escrivaninha onde Machado trabalhava

Nas palavras de Machado, no século havia “toda sorte de trastes de adorno”, além dos
XIX

móveis mais comuns. A variedade e as denominações das peças mudam ao longo do tempo,
fazendo o leitor de hoje se perguntar o que seria um lavatório, um canapé, uma secretária,
um aparador, uma otomana.

Pena, tinteiro e pince-nez de Machado


4 O BRUXO DO COSME VELHO

O dia 13 de maio de 1888 foi um marco na vida de Machado de Assis. Durante muito tempo ele
se recordaria daquele domingo de muito sol, quando a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que
aboliu a escravidão no país. Todos saíram à rua para comemorar, até ele, “o mais encolhido dos
caramujos”. Para um caramujo, até que Machado foi ousado: desfilou em carruagem aberta! Mas
a ocasião merecia. Naquele dia “tudo era felicidade, tudo era delírio”. Desde cedo mais de cinco
mil pessoas aguardavam a votação da lei no prédio do Senado. Acompanharam a sessão com
salvas de palmas, vivas, saudações, chuvas de flores e revoadas de pássaros.
Depois da aprovação da lei, todos saíram em cortejo para o Paço, onde a princesa Isabel ia
sancioná-la. Foram acompanhados por duas bandas de música. No caminho podiam ver os
edifícios dos jornais enfeitados com bandeiras, galhardetes e arcos de flores. Quando a princesa
chegou, a multidão, ansiosa, ficou em silêncio. Pois bastou ela completar a assinatura para ecoar
uma explosão de bravos e aplausos. A cidade nunca tinha visto festa igual! Famílias inteiras
choravam de alegria. Inimigos da véspera abraçavam-se pelas ruas. Grupos de abolicionistas
comemoravam, carregando bandeiras, dando vivas e soltando foguetes. Foi o único dia de delírio
público de que Machado se lembrava ter visto.

PARA SABER MAIS

O fim da escravidão

Um dos principais motivos do interesse de Machado de Assis pela escravidão era seu olhar
de jornalista, pois estava ligado às transformações políticas e sociais de seu tempo. Mas o
escritor fazia mais que apenas observar os debates sobre o fim do regime escravista.
A escravidão começou a ser combatida no Brasil em meados do século , por alguns
XIX

políticos, advogados e jornalistas. Mas foi sobretudo questionada pelos próprios escravos e
seus descendentes, que não admitiam mais prosseguir naquela condição. Da atuação de
escravos e grupos abolicionistas resultou, em 1871, a lei conhecida como Ventre Livre, que
considerava livres todos os filhos de escravas nascidos a partir daquela data. Além de
estabelecer que “ninguém mais nasce escravo no Brasil”, como na época comemorou
Nabuco de Araújo, a legislação também instituía outras medidas importantes, como a
necessidade de registro (matrícula) de todos os escravos.
A aprovação de leis é fundamental para determinadas mudanças sociais. Mas sua
aplicação é outro momento extremamente importante. Tanto que muitas vezes, quando
deputados ou senadores não concordam com um projeto de lei, argumentam que ela não vai
pegar.
No caso da Lei do Ventre Livre, o maior desafio era registrar todos os escravos existentes
no Império. Os que não fossem matriculados pelos proprietários no prazo de um ano seriam
considerados livres. Houve uma série de dificuldades nas inscrições. Em alguns municípios,
a administração pública demorou a organizar-se para que os proprietários pudessem fazer o
registro. Em outras localidades sequer iniciou os trabalhos. Diante desses casos, os
proprietários alegavam que não tinham matriculado seus escravos por falha da
administração pública. Mas eram eles mesmos que não tinham interesse em fazer isso,
porque, com o registro, o Estado teria controle sobre os filhos das escravas nascidos livres e
mantidos junto às suas mães (e aos senhores) até a idade de oito anos ou até os 21 (se os
senhores quisessem utilizar os seus serviços).
Uma das funções de Machado de Assis no Ministério da Agricultura, onde estava desde
1876, era justamente acompanhar a aplicação da nova lei sobre a emancipação dos
escravos, ver se ela estava sendo cumprida corretamente nas várias regiões do país, e
principalmente opinar sobre as disputas entre escravos e senhores. Como defendia a
aplicação rigorosa da lei, favoreceu a liberdade de muitos cativos, contrariando os interesses
dos grandes fazendeiros.

As festas continuaram por mais uma semana, e Machado seguia participando de tudo. Foi
orador de uma homenagem que os funcionários do Ministério da Agricultura fizeram a um
conselheiro do imperador. Participou da missa campal oferecida à princesa Isabel. Foi almoçar
na casa de José do Patrocínio. Poucos dias depois, mais um grande cortejo cívico parou a cidade,
com desfile de bandas de música e sociedades recreativas. Naquele dia, poesias impressas em
papel cor-de-rosa foram distribuídas à população. Uma era de Machado. Mas quem festejava
mesmo, com batuques, danças e cantos, eram os próprios escravos! Ou melhor, ex-escravos,
libertos, que agora vinham se juntar aos milhares de africanos e seus descendentes que haviam
conseguido se libertar nas últimas décadas. Eles engrossavam as multidões que comemoravam
nas ruas.
O Paço Imperial no dia da assinatura da Lei Áurea

Machado nunca fora insensível à sorte dos escravos. Nas ruas, gostava de reparar neles quando
trabalhavam para seus senhores, quando se reuniam nas tardes de domingo para cantar e dançar
no Campo de Santana ou então na região do porto, onde trabalhavam como carregadores,
levando sacos de café e açúcar para os navios. No caminho sempre paravam para comer pirão de
farinha de mandioca e angu de fubá vendidos por mulheres africanas. E ali ficavam, conversando
um pouco, fumando um cachimbo, bebendo água, descansando. E sendo observados por
Machado de Assis. Uma vez ele escreveu que “via um amigo em cada escravo e um escravo em
cada amigo”.
A abolição acendeu sua preocupação com o futuro do imperador e do Império do Brasil.
Achava que a República seria inevitável, mas que não viria por agora. Pelos seus cálculos, só
dali a uns 20 anos! Achava impossível que a República fosse proclamada enquanto dom Pedro II
vivesse. Não podia estar mais errado. Pouco mais de um ano depois da abolição, o imperador
trilhava o caminho do exílio. Machado até tinha amigos entre os republicanos, mas não quis se
envolver com o novo regime. A República mal começara, e ele já estava desiludido. O melhor a
fazer era continuar a escrever. Era o que pensava. E tocava a trabalhar.
Tinha acabado de organizar a coletânea Várias histórias. Seu livro Quincas Borba também
fora publicado há pouco tempo. O livro lhe rendera uma boa popularidade. Em Quincas Borba,
Machado conta a história de Rubião, um homem que perde tudo na vida. Perde a fortuna, perde o
amor, perde a razão. É um vencido, a quem só se devota ódio e compaixão. É neste livro que
aparece sua frase mais famosa, dita pelo próprio Rubião: “Ao vencedor, as batatas.” A frase fez
tanto sucesso que apareceu estampada em todos os jornais, em todas as críticas. Machado não
gostou. Ficou resmungando com todos os amigos que encontrava:

PARA SABER MAIS

A Proclamação da República
No final do século , no Brasil, um grupo de militares derrubou a monarquia e proclamou a
XIX

República. Memorialistas e historiadores por muitos anos achavam tão natural que o Brasil
fosse uma República que escreviam sobre essa mudança como se fosse acontecer de
qualquer maneira. Mas novos estudos mostram que a República só foi proclamada porque
um grupo de militares decidiu arriscar-se, planejar um golpe e derrubar o imperador. Isso
poderia ter sido bem-sucedido ou não.
Com a Proclamação da República, o nome do país deixou de ser Império do Brasil e
passou a ser Estados Unidos do Brasil. Apenas em 1967 o país ganhou o nome atual:
República Federativa do Brasil. Mas quais as diferenças entre monarquia e república?
Num regime monárquico, o chefe de Estado (reis ou rainhas, faraós etc.) tem acesso ao
poder por direito hereditário. Quer dizer, apenas pessoas daquela família podem se tornar
chefes de Estado, que têm poder vitalício. Só depois de sua morte os filhos ou outros
membros da linha sucessória assumem seu lugar.
Num regime republicano, pelo menos em tese, o chefe de Estado tem acesso ao poder por
meio de eleições. Quer dizer, a princípio qualquer cidadão pode se candidatar ao cargo, não
importando sua origem familiar, social ou étnica. A república se caracteriza pela
rotatividade dos ocupantes no poder. Em vez de ficar no poder toda a vida, o governante
desempenha essa função durante um mandato temporário. Isso é muito importante, porque
garante ao povo a possibilidade de mudar o governante, caso a maioria considere que ele
não está sendo bom presidente, ou se entender que há um candidato melhor nas eleições
seguintes.

— Pois esta gente não vê que o Rubião teve as batatas e não venceu nada!
Seu mau humor era visível. Não queria que as pessoas o lessem por estar na moda. Muito
menos que o elogiassem sem ter entendido nada. Melhor que não lessem. Machado acabou
engolindo a raiva e passou a trabalhar em outro romance.
Quem estava com pressa para ler seus novos livros tinha mesmo que esperar sentado.
Machado era o tipo do artista paciente, que escrevia muito devagar. Gostava de fazer suas
anotações em folhas de papel pautado, sempre saltando uma linha, deixando espaço para as
correções. E como corrigia o texto! Nunca estava satisfeito. Também não costumava trabalhar
todos os dias. Às vezes deixava intervalos de dias, até de semanas. Alguns achavam que,
enquanto não escrevia, ele não trabalhava. Estavam enganados. Quando não escrevia, Machado
estava compondo os personagens, procurando tipos pela cidade, lendo os jornais à procura de
notícias interessantes.
Capa de Dom Casmurro

Mas Machado também escrevia devagar porque tinha muito trabalho no Ministério. Algum
tempo atrás havia sido promovido para encabeçar a Diretoria de Comércio, o que só lhe
aumentara o serviço. Depois passara a secretário do ministro de Viação. Apesar de já estar há
quase 30 anos trabalhando, continuava pontual como um iniciante. Não faltava por nada. Só em
1900, quando o século já findava, conseguiria acabar seu próximo livro, que veio a se chamar
Dom Casmurro.
Assim como Memórias póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, Dom Casmurro
imediatamente se transformou num dos livros mais importantes de Machado, um verdadeiro
best-seller. Antes mesmo de chegar às livrarias, dois mil exemplares já haviam sido
encomendados e vendidos. E o sucesso correspondeu às expectativas. A história do triângulo
amoroso entre Bentinho, Capitu e Escobar logo começou a ser comentada em toda a cidade. A
trama até que era simples: Bentinho (também conhecido como Dom Casmurro), marido de
Capitu, suspeita que ela o trai com Escobar. Seu ciúme é tamanho que começa a achar seu
próprio filho cada vez mais parecido com o rival.
Mas é aí que Machado dá um golpe em seus leitores: apesar de todos suspeitarem do adultério,
ele não dá pistas sobre o que realmente ocorreu. Capitu teria de fato tido um caso com Escobar?
Ou tudo seria fruto da mente mórbida e desconfiada de Bentinho? Ninguém podia afirmar com
certeza. E nem adiantava perguntar: ele jamais o diria. A graça estava justamente na
ambiguidade.

Machado vinha andando pela rua do Ouvidor quando encontrou um amigo.


— Você sabe de onde venho?
O amigo fez que não.
— Venho do morro do Livramento. Soube que a casa onde nasci estava sendo destruída,
trouxe de lá estas pedrinhas.
E colocando a mão no bolso mostrou as pedrinhas. Machado não sabia bem por quê, mas
achava que tinha que ir lá mais uma vez, onde nascera e passara sua infância. Que estranho, ir
num lugar tão familiar, onde tinha morado tantos anos, mas onde não conhecia mais ninguém!
Sua madrasta Maria Inês era a última personagem de sua adolescência que ainda habitava por
aquelas bandas. Mas até ela já havia morrido.
A destruição da casa lhe deixara uma ponta de tristeza. Pela primeira vez Machado de Assis
realmente sentia o tempo passar. Tudo mudava: as pessoas, as coisas, os hábitos, a cidade. Ele,
por sua vez, estava cada vez mais recolhido à sua casa do Cosme Velho, onde era visto todos os
dias pelos vizinhos às dez da manhã, quando saía, e à noitinha, quando chegava. Depois do
jantar, sempre dava uma volta pelo bairro, de braços dados com Carolina. Iam muito à casa de
Eugênia, uma das melhores amigas de Carolina, casada com o barão Rodolfo Schmidt de
Vasconcelos. Eles adoravam receber visitas. Ficavam lá, ouvindo música, jogando gamão e
xadrez, botando conversa fora. Machado e Carolina também gostavam de ficar conversando com
as meninas, filhas do casal.
Os dois sentiam muito não terem filhos, ainda mais agora que estavam mais velhos. Viviam
confortavelmente, comiam bem, tinham um copeiro e uma cozinheira à disposição. Mas não
tinham filhos.
Seu cotidiano, no entanto, estava sendo sacudido por outra empreitada. Desde que passou a
frequentar os jantares mensais organizados por José Veríssimo, sua mente estava tomada por
uma ideia, sugerida por um dos presentes: criar uma Academia Brasileira de Letras, inspirada na
Academia Francesa. É bem verdade que ele tinha tentado recusar o convite de encabeçar o
movimento, alegando falta de tempo, cansaço, velhice, o que fosse. Mas o fato é que no íntimo
havia se entusiasmado com a ideia.
Há um bom tempo vinha se reunindo com outros intelectuais na sede da Revista Brasileira.
Todos os dias, entre três e cinco da tarde, Machado, Joaquim Nabuco e Taunay iam para lá.
Outros também compareciam, mas aqueles eram presença certa. Assim como durante anos na
tipografia de Paula Brito e na livraria Garnier, lá também se conversava sobre tudo. Entre chá e
biscoitos, misturavam-se monarquistas, republicanos, antigos senadores do Império e militares
da República. Mas havia clima de amizade, e era justamente disso que Machado gostava. No dia
em que meia dúzia de homens não puder trocar duas dúzias de ideias, dizia, tudo está acabado. E
o clima era tão bom que, do chá, logo passaram aos jantares. Tanto numa quanto em outra
ocasião, Machado acabava ocupando o centro da roda, divertindo a todos com suas observações
irônicas.
Por isso, nada mais natural que, quando surgiu a ideia de fundar a Academia, ele fosse
indicado para ser presidente. Afinal, já presidia, mesmo sem querer, as reuniões na Revista
Brasileira e nos jantares mensais. Muitos acharam a ideia totalmente estapafúrdia. Mas as
ideias malucas de hoje são a realidade de amanhã, não é mesmo? Pois foi assim que nasceu a
Academia Brasileira de Letras.
Em 1900, ela foi aos poucos se transformando na grande empolgação de Machado: organizava
as sessões, mandava notícias para os jornais, providenciava sala para as reuniões. Isso porque
durante muito tempo a Academia não tinha sede. As reuniões eram realizadas no escritório de
um dos membros, e depois no Real Gabinete Português de Leitura. Mas Machado não
descansava. Mandava cartas a conhecidos, pedia favores a deputados, tudo em prol da obtenção
de uma casa para a Academia.
Enquanto a sede não vinha, Machado e seu grupo passaram novamente a se reunir na Garnier.
A Revista Brasileira tinha fechado, e só restava a eles a livraria. Não era a mesma de antes,
claro. Com todas aquelas mudanças pelas quais a cidade estava passando, a velha livraria estava
totalmente remodelada. Agora ficava num prédio claro, amplo, limpo. Nada lembrava o lugar
escuro de anos atrás.
Machado ia tanto na Garnier que até cartas e visitas passou a receber ali. Depois do trabalho,
estava sempre lá, num canto à direita de quem entrava. Nem sempre havia muita gente, mas
sempre o suficiente para que se formasse uma roda à sua volta. Quando ele chegava, carregando
seu maço de jornais ingleses, o alvoroço era total. Machado falava com todos, meio tímido, com
o chapéu entre os dedos. Era sempre o último a ir embora. Nunca voltava para casa antes das seis
da tarde, sempre procurando pretextos para subir e descer a rua do Ouvidor.

PARA SABER MAIS

Academia Brasileira de Letras

Em 1897 Machado de Assis e outros intelectuais fundaram a Academia Brasileira de Letras


(ABL). Machado foi seu primeiro presidente, e sua presença parece ter sido tão forte que até
hoje a instituição é conhecida como a “casa de Machado de Assis”.
Entre os fundadores havia escritores, poetas, gramáticos, juristas, historiadores,
dramaturgos e críticos literários. Ali estava a fina flor da intelectualidade brasileira. O
projeto de constituir uma instituição literária tendo como modelo a Academia Francesa
datava já de alguns anos, tendo nascido a partir de encontros entre esses intelectuais,
liderados por Lúcio de Mendonça, na sede da Revista Brasileira.
Em 7 de dezembro de 1897, Machado de Assis traçou o caminho que esperava ser
seguido pela Academia Brasileira de Letras:
A Academia, trabalhando pelo conhecimento, … buscará ser, com o tempo, a guarda da nossa língua. Caber-lhe-á então defendê-la daquilo que não venha das fontes legítimas – o povo e os escritores –, não confundindo a moda,
que perece, com o moderno, que vivifica. Guardar não é impor; nenhum de vós tem para si que a Academia decrete fórmulas. E depois, para guardar uma língua, é preciso que ela se guarde também a si mesma, e o melhor dos
processos é ainda a composição e a conservação de obras clássicas.

A Academia, portanto, deveria atuar como crítica das transformações no uso da língua, e
não para impor regras e fórmulas. Seus fundadores escolheram um patrono para cada uma
das 40 cadeiras, homenageando importantes personalidades do mundo literário brasileiro.
Em 1923 o governo francês doou à Academia um prédio erguido para abrigar o Pavilhão
da França na Exposição do Centenário da Independência, ocorrida no ano anterior. Esse
prédio é uma réplica do palácio Trianon, que fica em Versalhes, na França. Ele se tornou a
sede da Academia e um de seus símbolos. Hoje a Academia Brasileira de Letras também
conta com um prédio anexo, no qual os visitantes podem encontrar uma livraria, um arquivo
e um museu.

Recibo da Livraria Garnier

Um dia chegou à Garnier passando mal. Havia tomado café na repartição, e já sabia: não podia
tomar café que sempre acabava assim. Diante dos olhos espantados dos amigos, contou o que
havia acontecido. Estava na repartição quando chegou um antigo colega, que vinha lhe pedir um
favor. Machado não tinha como atendê-lo. Na mesma hora vinha passando alguém com uma
bandeja; o colega pegou uma xícara de café e ofereceu a outra a Machado, que a aceitou na hora.
Quando todos reclamaram, “então não sabia que não podia tomar café?”, ele respondeu:
— Que querem? Ao homem eu já havia recusado o emprego, não podia, também, recusar-lhe
o café…
Machado ficava particularmente feliz quando apareciam jovens escritores, a quem sempre
incentivava. Para ele, a palavra dos moços era o melhor licor dos idosos. Ele não falava muito,
preferia ouvir. Escutava as anedotas dos amigos, fazendo comentários aqui e ali. A verdade é que
adorava todo tipo de histórias e casos, verdadeiros ou não. Por isso é que sempre dizia, quando
um episódio o divertia muito:
— É tão bom que merece ser inventado.

O Rio de Janeiro estava mesmo de pernas para o ar! Depois de todas as transformações do
prefeito Pereira Passos, a cidade guardava poucas semelhanças com o que era antes. O Centro
estava todo modificado, as ruas alargadas, avenidas construídas.

PARA SABER MAIS

Passeio Público

As cidades transformam-se muito ao longo dos anos. Imagine com o passar dos séculos. Em
1783, o vice-rei dom Luís de Vasconcellos resolveu aterrar a lagoa do Boqueirão da Ajuda,
após uma epidemia de gripe e febre na cidade do Rio de Janeiro. O vice-rei pensava que
assim tornaria a região menos propícia às epidemias.
A lagoa foi aterrada com material proveniente da derrubada de um pequeno morro que
existia ali perto. Naquele momento, a cidade perdia uma lagoa e um morro. Mas ganhava
um jardim. Com a intenção de transformar completamente a região, o vice-rei idealizou um
belo jardim onde antes ficava a lagoa. Para tanto chamou um dos maiores artistas do
período colonial brasileiro: mestre Valentim da Fonseca e Silva.
O lugar ganhou o nome de Passeio Público. É o primeiro parque ajardinado do Brasil. O
Passeio Público era um dos pontos de encontro da população carioca nos séculos e .
XVIII XIX

Em seu interior podia-se contemplar, além de variadas espécies da flora nacional, obras de
arte feitas por mestre Valentim, como chafarizes, esculturas e pirâmides.
A partir do século foram construídos jardins públicos nas grandes cidades da Europa e
XVIII

da América. Os jardins públicos são uma forma especial de urbanização e consolidação dos
espaços urbanos, onde a elite local costumava passear. Diferente das praças, sempre abertas,
os jardins eram locais mais reservados, cercados por belos portões. O Passeio Público
também era um local para apreciar a natureza. Por um lado, a vegetação distribuída
caprichosamente pelo jardim. De outro lado, o mar que batia na murada. A baía de
Guanabara podia ser admirada de um mirante.
Hoje, quem passa pelo Passeio Público não imagina que dali as pessoas olhavam o mar.
Agora, entre o jardim e o mar, há várias pistas para carros construídas em cima de um outro
aterro. O tempo das pessoas também é outro. A maior parte passa por ali de carro ou ônibus,
depressa, sem tempo para apreciar o jardim e a baía.
Passeio Público, c.1890 (Foto Marc Ferrez)

Carolina

Para Machado, a cidade estava como que num conto de fadas. Nem parecia a mesma cidade
onde tinha nascido, crescido e vivido toda a sua vida. Era outra. Seus amigos do exterior lhe
escreviam, querendo saber dos melhoramentos, das maravilhas. Estavam curiosos para saber o
que acontecera com a rua do Ouvidor, se a tinham destruído também. Ele os tranquilizava: com a
rua preferida dos cariocas ninguém havia mexido. Em compensação, o resto estava
irreconhecível. Para quem estava fora, era impossível imaginar a mudança que estava sendo
feita. Depois da abertura da avenida Central, escreveu a um de seus amigos, “mudaram-me a
cidade, ou mudaram-me para outra. Vou deste mundo, mas já não vou da colônia em que nasci e
envelheci, e sim de outra parte para onde me desterraram. É uma metamorfose de surpreender,
mesmo a quem, como eu, viu sair a borboleta”.
Apesar do seu amor pelo Rio de Janeiro, Machado não prestava a atenção que as mudanças da
cidade mereciam. E nem tinha como. Desde que Carolina falecera, em outubro de 1904, fechou-
se em sua casa no Cosme Velho. Não queria sair para nada, não queria ver ninguém. Saía para
trabalhar, e era só. Seus amigos o consolavam, lhe faziam companhia. Mas ele estava muito
triste. Apesar dos anos, nunca deixou de estar apaixonado pela esposa. Por isso não exagerou
quando escreveu a Joaquim Nabuco que “foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou só no
mundo”.
PARA SABER MAIS

Esaú e Jacó, o Império e a República

Machado de Assis publicou o romance Esaú e Jacó em 1904, 15 anos depois da


Proclamação da República. O romance narra a história de Pedro e Paulo, irmãos gêmeos tão
idênticos que até se apaixonam pela mesma mulher, a “inexplicável Flora”. A única e
grande diferença entre eles é que Pedro é monarquista, e Paulo é republicano.
Este romance – como, aliás, todos os outros de Machado – possibilita várias leituras.
Numa delas é possível acompanhar todos os principais acontecimentos da vida política
brasileira, de 1870 até o fim do século . O principal deles é justamente a Proclamação da
XIX

República. Na passagem mais famosa do livro, Machado retrata os acontecimentos do dia


15 de novembro a partir da Confeitaria do Império, cujo letreiro (ou tabuleta) estava sendo
reformado.
Custódio, o dono da confeitaria, estava com pressa para ver a nova tabuleta. Pedira que o
pintor se apressasse, e ele assim o fez: no dia 15 de novembro terminou a pintura. Só que a
república havia acabado de ser proclamada. Custódio correu para a confeitaria, mas nada
adiantou; lá estava a tabuleta pronta, novinha, secando. Alguns republicanos quiseram
apedrejá-la, mas o pintor a protegeu. Custódio não tinha mesmo o que fazer. Ficou furioso
com a mudança do governo. “E afinal que tinha ele com política? Era um simples fabricante
e vendedor de doces, estimado, afreguesado, respeitado e principalmente respeitador da
ordem pública…”. Para Custódio a república não traria nada de novo: apenas o problema do
nome que daria à sua confeitaria.

Machado de Assis pouco antes de morrer

O conselheiro Aires, personagem de outro romance de Machado, também tinha opinião


parecida. Numa conversa com um banqueiro, ele dizia: “Nada se mudaria; o regime sim, era
possível, mas também se muda de roupa sem se trocar de pele.”
Era esta a opinião de Machado sobre a república? Que apenas mudava-se o regime, mas a
vida política continuaria a mesma? Impossível afirmar com certeza. Não podemos correr o
risco de colocar em sua boca frases e opiniões ditas por seus personagens. Mas – e isto se
pode dizer sem medo de errar – o que Machado vivamente retrata é que, na época da
Proclamação da República, muita gente achou que nada ia mudar na política brasileira.

Aos poucos, porém, a arte encheria as horas do artista. Machado não conseguiu parar de
escrever. Tinha publicado Esaú e Jacó, a que antes pensara em dar o nome de O último, quando
Carolina já estava doente. Que último, que nada! Como ele mesmo dizia, quem viveu de letras há
de morrer com elas. Em pouco tempo publicou Relíquias da casa velha e Memorial de Aires. As
críticas positivas fizeram-no voltar a frequentar a Garnier e a Academia. O mundo tornava a lhe
interessar.
Naquele ano de 1908, o grande acontecimento da cidade era a exposição em comemoração ao
centenário da abertura dos portos, instalada na Praia Vermelha. Machado não tinha visto as
construções, mas estava curioso. Ouvia dizer coisas maravilhosas. Mas não chegou a ir visitá-la.
Caiu doente.
Desde que a notícia de sua enfermidade se espalhou, as visitas não paravam de chegar à sua
casa. Todos queriam vê-lo, conversar com ele, confortá-lo. Machado só não quis receber a visita
de um padre. “Seria uma hipocrisia”, como disse na época a uma amiga. Apesar da educação
católica, Machado não acreditava em nada. Não tinha religião.
Mas seus amigos mais próximos estavam sempre presentes. Um dia, estando vários deles lá,
ouviram-se umas tímidas batidas na porta da casa. Ao ser aberta, apareceu um adolescente de 18
anos, no máximo. Como ninguém o conhecia, e ele também não conhecia ninguém, nem
precisou dizer seu nome. Não conhecia nem o dono da casa, disse. Quer dizer: conhecia-o
muitíssimo, da leitura dos seus livros, que o encantavam… Pediu desculpas. Não queria
incomodar; se não lhe deixassem ver Machado enfermo, entenderia. Mas queria saber notícias
sobre seu estado de saúde.

Portão de entrada da Exposição Nacional de 1908

O rapaz foi levado ao quarto de Machado. Quando entrou, não disse nada. Apenas ajoelhou-se,
tomando a mão do mestre entre as suas. Depois de alguns instantes levantou-se e, sempre em
silêncio, saiu. Foi a última visita que recebeu Joaquim Maria Machado de Assis.
Cortejo fúnebre de Machado de Assis
ATIVIDADES

As atividades a seguir foram concebidas para serem realizadas por crianças e jovens de diferentes idades. Como o nível de dificuldade é variado, não indicamos uma série escolar específica para seu uso. Algumas, a depender da
idade das crianças, devem ser feitas com a supervisão de um adulto. O ideal é que sejam realizadas em paralelo à leitura, possibilitando a concretização das ideias apresentadas e fornecendo novos caminhos para a exploração
dos conteúdos abordados. Para atividades especificamente relacionadas ao currículo escolar, ver em www.zahar.com.br

S ORVETE DE M ARACUJÁ

O sorvete chegou ao Brasil em 1834, quando um navio norte-americano vindo de Boston


com algumas toneladas de gelo aportou no Rio de Janeiro. Os comerciantes Deroche e
Lorenzo Fallas compraram o gelo e começaram a servir sorvete de frutas em seus
estabelecimentos, um no largo do Paço (hoje Praça ) e outro na rua do Ouvidor. O gelo XV

precisava ser conservado em serragem e enterrado para não derreter. Rapidamente a


novidade se tornou um grande sucesso!
Veja como o sorvete aparece nesse texto que Machado escreveu em 1894:
A sorte é tudo. … Conheço desde muito o velho Constar, era eu bem menino. … Velho, disse eu! Na idade, era-o; mas na pessoa era um dos mais robustos homens que tenho visto. Alto, forte, pulso grosso, espáduas longas; dir-se-
ia um Atlas. O moral correspondia ao físico. Era afirmativo, autoritário, dogmático. Quando referia um caso, havia de crer-se por força. As próprias histórias da carocha, que contava para divertir-nos, deviam ser aceitas como fatos
autênticos. … Poucos anos depois, tornando a vê-lo, caiu-me a alma aos pés – a alma e o chapéu, porque ia justamente cumprimentá-lo, quando lhe ouvi dizer com a voz trêmula e abafada: “Suponho … ouvi que … dar-se-á que
seja? … Tudo é possível.” … Dei-lhe o braço, e convidei-o a ir tomar café ou sorvete. Hesitou, mas acabou aceitando.

Conversamos cerca de meia hora. Deus de misericórdia! Não era já o dogmático de outro tempo, cujas afirmações, como espadas, cortavam toda discussão. Era um velho tonto, vago, dubitativo, incerto do que via, do que ouvia, do
que bebia. Tomou um sorvete, crendo que era café e achou o café extremamente gelado. Há sorvetes de café, disse eu, para ver se o traria à afirmação antiga; concordou que sim, embora pudesse ser que não. Um cético! Um triste
cético!

Que é isto senão a sorte? A sorte, e só ela, tirou ao velho Constar o gosto das ideias definitivas e dos fatos averiguados. (A Semana, 30 de dezembro de 1894)

Material
½ copo de suco de maracujá
1 copo de iogurte natural
4 colheres de sopa de açúcar

Como fazer
Bata numa tigela todos os ingredientes. Despeje a mistura em um pote com tampa. Ponha o
pote no congelador. De meia em meia hora retire-o e dê uma boa mexida com a colher, para
o sorvete ficar bem cremoso. Quando estiver com a consistência firme, está pronto.
O RGANIZE SUA B IBLIOTECA

Você quer ser um grande leitor? Então precisa ter livros em casa e frequentar as bibliotecas
da sua cidade. Para manter sua biblioteca organizada – e assim facilitar a busca de qualquer
volume –, organize um fichário para seus livros.

Material
caixa de sapatos
fichas com pauta que caibam na caixa
lápis

Como fazer
Você pode organizar seus livros (ou outras coisas) da maneira que preferir; pode separar os
livros de historinha de um lado e os da escola do outro. Ou separar por tamanho e cor os que
têm ilustração, os que não têm etc. Aqui sugerimos uma forma, semelhante à que existe nas
bibliotecas.
Cada um de seus livros precisa ganhar uma ficha. Retire os livros da estante e comece a
classificá-los. Siga o modelo para a elaboração das fichas.
SOBRENOME, Nome do autor. Título do livro. Cidade em que o livro foi publicado: Nome
da editora, data da edição.
Assunto:

Por exemplo:
ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Garnier, 1888.
Assunto: Literatura Brasileira

Copie cuidadosamente as informações dos livros para as fichas. Depois que estiverem
todas prontas, organize-as por ordem alfabética do nome do autor dentro da caixa de sapato.
Recoloque os livros na estante em ordem alfabética do nome do autor. Não esqueça que é
pelo último nome do autor que a gente classifica.
Pronto, agora ficará muito fácil localizar qualquer livro em sua biblioteca.

TIPOS DE I MPRESSÃO

Material
5 ou 6 batatas grandes
1 faca pequena de cozinha
palito
tinta preta
prato pequeno
folha de papel

Como fazer
Descasque as batatas e corte-as em rodelas não muito finas. Em cada rodela entalhe uma
letra do alfabeto, recortando com a faca os contornos da letra.
Espete um palito atrás de cada letra. Espalhe tinta no prato e molhe a letra na tinta. Em
seguida, bata-a sobre o papel, com a face molhada de tinta para baixo, como se fosse um
carimbo (no lugar da folha de papel você pode usar o seu Caderno de Criação. Caso seja
necessário, faça uma leve pressão com os dedos sobre a letra antes de retirá-la do papel,
para a impressão não ficar falhada.

T ELEFONE DE LATA

Em 1667 o físico inglês Robert Hooke propôs o emprego do “fio esticado” para transmitir o
som. Estava “inventado” o telefone de latinha! Construa o seu.

Material
2 latas vazias ou dois copos de plástico (evite latas abertas com abridor, porque elas têm
arestas cortantes)
2,5m de barbante
1 prego
martelo

Como fazer
Com o prego e o martelo (peça a ajuda de um adulto) faça um furo no fundo de cada uma
das latas. Passe a ponta do barbante pelo furo e dê um nó, para prendê-lo. Faça o mesmo
com a outra lata e a outra ponta do barbante.
A brincadeira é assim: cada criança fica com uma lata. Uma delas se afasta da outra, até
que o barbante fique esticado. Agora uma das crianças fala dentro da lata, de um lado,
enquanto a outra escuta, de outro. Depois quem falou ouve, e quem ouviu fala. Pronto,
vocês estão ao telefone!

C ADERNO DE C RIAÇÃO

Você quer ser escritor? Faça um caderno e use-o para anotar suas ideias, escrever esboços
de contos, poemas e crônicas.

Material
20 folhas de papel pautado para fichário, de tamanho pequeno (15 x 22cm, mais ou
menos)
40cm de fita, fio de lã ou barbante
cartolina
régua
lápis
tesoura (Cuidado com a tesoura. Dê preferência a uma tesoura de ponta redonda.)
furador
caneta hidrocor ou tinteiro

Como fazer
Dobre a cartolina ao meio e, com a régua e o lápis, marque o tamanho da capa, usando uma
folha pautada como medida. Faça a marca de cerca de 1cm maior que o papel, porque a
cartolina vai servir de capa.
Corte a cartolina (com a supervisão de um adulto) de maneira a ficar com dois pedaços,
um para o início e outro para o fim do caderno. Use os furos da folha pautada para marcar
na cartolina os lugares onde você vai furar. Fure a cartolina com o furador. Encaixe as
capas, com as folhas pautadas no meio e prenda tudo com a fita, dando um laço na ponta.
Está quase pronto o seu caderno.
Um dos livros de contos de Machado de Assis chama-se Papéis avulsos. Logo no
começo, numa parte que se chama “Advertência ao leitor”, Machado escreveu:

Este título de Papéis avulsos parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor coligiu vários escritos de ordem diversa para o fim de os não perder. A verdade é essa sem ser bem essa. Avulsos são eles, mas não vieram
parar aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma só família, que a obrigação do pai faz sentar à mesma mesa.

Escolha um título bem bonito para o seu caderno. Escreva na capa o título que escolheu e
o seu nome.

U T M EATRO DE B ONECOS

Machado gostava muito de teatro. Além de compor algumas peças, ele mesmo escrevia
sobre teatro. Reproduzimos aqui, para servir de texto para o seu Teatro de Bonecos, uma
história que ele não escreveu originalmente para o teatro, mas que tem sido encenada pelas
crianças brasileiras em várias épocas. É a história da linha e da agulha. Você também pode
escrever sua própria peça ou encenar uma de que goste.

Material
cartolina branca
espetos de salsichão (de madeira) ou canudos
papel-cartão grosso ou papelão
fita-crepe
lápis
canetas hidrocor
tesoura (Cuidado com a tesoura. Dê preferência a uma tesoura de ponta redonda.)

Como fazer
Existem vários tipos de bonecos para teatro, e você já deve ter visto alguns: marionetes,
movidos com vara, feitos de espuma, isopor etc. Este é o chamado teatrinho de bonecos de
figuras planas.
Para montá-lo, em primeiro lugar, desenhe os personagens na cartolina. Depois use as
canetas hidrocor para colori-los. Em seguida, recorte-os e cole atrás, com fita-crepe, o
palitinho de madeira ou o canudo.
Agora, monte o palco. Corte um retângulo no papel-cartão e dobre as laterais, para o
palco ficar de pé. Decore a parte da frente do palco usando as canetas hidrocor.
O teatro deve ficar na ponta de uma mesa, por exemplo, ou de um banco. Assim você e
os outros titeriteiros (assim são chamados os artistas que manipulam os bonecos) podem
ficar meio escondidos atrás da mesa. Apenas os bonecos, que serão manipulados com a
ajuda da vareta, devem aparecer em cena.
Os personagens da nossa história são: a agulha, o novelo de linha e o alfinete; se você
quiser, também pode incluir a costureira e a baronesa. Convide alguns amigos para serem
titeriteiros junto com você, um para cada personagem. Agora é só decorar o texto e…
Senhoras e senhores, o espetáculo vai começar!

Um apólogo
Machado de Assis
Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados…
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando…
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto…
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano,
pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana – para
dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima.
A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta,
calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no
outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E quando compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou
outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de
ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

A NÚNCIO DE J ORNAL

Machado escreveu um conto chamado “Miss Dollar”. Sabe quem era Miss Dollar? Era uma
cadelinha galga. Logo no começo da história ela se perde de casa e seus donos,
desesperados, põem um anúncio no jornal, dizendo: “Desencaminhou-se uma cadelinha
galga, na noite de ontem, 30. Acode ao nome de Miss Dollar. Quem a achou e quiser levar à
rua de Matacavalos nº…, receberá 200 mil-réis de recompensa.”
Machado e Carolina, segundo seus biógrafos, tiveram uma cadela chamada Graziela. Em
1879 Graziela, assim como a Miss Dollar da história, também se perdeu, e um amigo da
família publicou um anúncio no jornal. Graziela voltou para casa. Mais tarde eles tiveram
outro cachorrinho, que se chamava Zero.
Você quer encontrar algo perdido, trocar (um livro por outro, por exemplo), comprar ou
vender alguma coisa? Bole um anúncio. Geralmente os anúncios são cobrados pelo espaço
que ocupam nos classificados dos jornais. Então, vamos imaginar que você tenha dinheiro
para um anúncio de 35 palavras. Agora faça o seu anúncio, dizendo o que precisa e usando
no máximo 35 palavras.

A NDANDO PELO R A IO NTIGO

Machado foi um grande observador da cidade. Descreveu a vida urbana, suas


transformações, sua gente. Na verdade, a partir da observação que fez da vida no Rio de
Janeiro, investigou a vida em geral, as pessoas de qualquer parte e de qualquer tempo.
Uma vez ele escreveu: “A rua do Ouvidor resume o Rio de Janeiro. A certas horas do dia,
pode a fúria celeste destruir a cidade; se conservar a rua do Ouvidor, conserva Noé, a
família e o mais” (“Tempo de crise”).
Desde a época de Machado até hoje, algumas ruas desapareceram e muitas mudaram de
nome. Não foi o caso da rua do Ouvidor, mas de várias outras. Se você tiver um mapa do
Rio Janeiro daquela época, pode refazer na imaginação o percurso do personagem do conto
“Vinte anos! Vinte anos!”, o estudante Gonçalves.
Gonçalves foi por ali afora, rua do Passeio, rua da Ajuda, rua dos Ourives, até a rua do Ouvidor. Depois lembrou-se que a casa do correspondente, na rua do Hospício, ficava entre as da Uruguaiana e a dos Andradas; subiu, pois, a
do Ouvidor para ir tomar a primeira destas.

Depois de refazer o percurso do personagem, compare o mapa do tempo de Machado


com um mapa do centro do Rio nos dias atuais e procure descobrir que ruas mudaram de
nome ou desapareceram e como é esse trecho da cidade hoje.

U P M OEMA

Que tal inaugurar seu Caderno de criação com um poema?


Em janeiro de 1855, quando estava quase com 16 anos, Machado publicou um poema
chamado “Ela”, no jornal A Marmota Fluminense. Aos 25 anos, publicou o primeiro livro
de poemas. Suas poesias não são consideradas tão boas como seus romances, contos e
crônicas. Um outro poeta, e dos grandes, Manuel Bandeira, disse que o que prejudicou a
poesia de Machado foi o fato de ele ser tão bom na prosa; por comparação, a poesia acabou
parecendo ruim. Por isso Manuel Bandeira escreveu: “Machado de Assis poeta tornou-se
uma vítima de Machado de Assis prosador.” Você pode colecionar poemas de que tenha
gostado muito. Ou pode escrever seu próprio poema. Dê uma olhada nesses dois poemas de
Machado e tente escrever uma poesia. Sobre o que eles falam? De que forma?
Agora vamos lá: primeiro pense num tema, depois, numa forma de dizer o você quer em
versos. Mãos à obra.

Livros e flores
Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?

Flores me são teus lábios.


Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?

Quando ela fala


Quando ela fala, parece
Que a voz da brisa se cala;
Talvez um anjo emudece
Quando ela fala.

Meu coração dolorido


As suas mágoas exala.
E volta ao gozo perdido
Quando ela fala.

Pudesse eu eternamente,
Ao lado dela, escutá-la,
Ouvir sua alma inocente
Quando ela fala.

Minh’alma, já semimorta,
Conseguira ao céu alçá-la,
Porque o céu abre uma porta
Quando ela fala.

Obra completa, p.41-2 e 51. “Quando ela fala” também está no livro de Laura Sandroni e
Luiz Raul Machado, Grandes poemas em boca miúda, Rio de Janeiro: Arte Ensaio, 2001.

AR OTINA DO E SCRITOR

Machado acordava cedíssimo. Costumava sair de casa às dez horas, quando tomava o bonde
para a repartição onde trabalhava. Às 16, no fim do expediente, tomava outro bonde e ia
saber das últimas novidades na livraria Garnier, no centro da cidade. E você, como é o seu
dia?
Antes de começar suas atividades, que tal um passeio pelo jardim e algumas reflexões?
É meu velho costume levantar-me cedo e ir ver as belas rosas, frescas murtas, e as borboletas que de todas as partes correm a amar no meu jardim. Tenho particular amor às borboletas. Acho nelas algo das minhas ideias, que vão
com igual presteza, senão com a mesma graça. (A Semana, 19 de fevereiro de 1893)

Descreva a sua rotina, o horário em que levanta da cama, a hora de ir para a escola, o
almoço, as brincadeiras. E não deixe de contar qual é a melhor parte do dia para você.

P ASSEIO DE B ONDE

Em várias das crônicas de Machado os personagens viajam de bonde puxado a burro. E há


até casos em que os personagens são os próprios burros, como na crônica que escreveu para
A Semana em 16 de outubro de 1892, em que dois burros conversam. Machado fotografava
os instantâneos de sua época, os costumes, a política, os modos de agir e pensar, o cotidiano
da cidade, enquanto os personagens deslizavam pelos trilhos.
Os bondes puxados a burro, naquela época, representavam o progresso. Mas Machado
também era um crítico desse progresso. Já existiam vários veículos puxados a burro na
cidade. Em 1868 apareceram finalmente os bondes puxados a burro, mas deslizando sobre
trilhos, o que os tornava mais velozes. Somente em 1892 apareceram os bondes elétricos.
Quando inauguraram a linha para o bairro de Santa Teresa, Machado escreveu numa
crônica: “Agora é que Santa Teresa vai ficar à moda. O que havia pior, enfadonho a mais
não ser, eram as viagens de diligência, nome irônico de todos os veículos do gênero. A
diligência é um meio-termo entre a tartaruga e o boi.”
Que tal fazer o seu próprio bonde?

Material
cartolina
cola
folha de papel-manteiga
lápis preto macio
caneta hidrocor
tesoura (Cuidado com a tesoura. Dê preferência para uma tesoura de ponta redonda.)

Como fazer
Em primeiro lugar, ponha a folha de papel-manteiga sobre o desenho do bonde de Santa
Teresa que está reproduzido no seu livro. Copie o desenho cuidadosamente.

Em seguida, ponha a folha, com o lado riscado para baixo, em cima da cartolina. Agora,
passe o lápis sobre o risco, de maneira que o desenho passe para a cartolina.
Repita a operação em outra parte da cartolina, com o desenho do bonde no outro sentido.
Assim, você terá os dois lados do bonde.
Agora recorte os dois desenhos do bonde. Nas partes mais estreitas do desenho, recorte o
papel com os contornos mais largos, sem seguir as reentrâncias.
Reforce o risco, se for necessário. Corte dois pedaços retangulares de cartolina para fazer
o teto e o chão do bonde. Dobre as beiradas para dentro e cole-os.
Use as canetas hidrocor para colorir.

OS OBRADO DE C
AROLINA E M
ACHADO
Por mais de 20 anos Machado de Assis morou com a mulher Carolina na mesma casa, no
bairro do Cosme Velho, Rio de Janeiro. E todo mundo diz que eles foram muito felizes
juntos. Hoje infelizmente a casa não existe mais, foi demolida. Então, que tal montar uma
maquete da fachada do sobrado, para ter uma ideia de como ela era?

Material
jornal
folha branca de papel
lápis
canetas hidrocor
lápis de cor
borracha macia
papelão
cola
régua
tesoura (Cuidado com a tesoura. Dê preferência a uma tesoura de ponta redonda.)

Como fazer
Você está vendo o desenho da fachada da casa de Machado de Assis, todo quadriculado
(página anterior)? Então pegue a folha branca de papel e quadricule ela no sentido vertical.
Use a régua para medir o tamanho em centímetros de cada quadrado. Como esses riscos vão
ser apagados depois, não risque com força.
Comece a reproduzir agora, quadrado por quadrado, o desenho da fachada.
Depois passe a caneta hidrocor por cima do contorno da fachada, das portas e janelas.
Espere a tinta secar e apague, com a borracha macia, todos os quadrados. Agora você pode
colorir toda a fachada com lápis de cor.
Corte a parte superior do papel acompanhando o desenho do telhado da casa.
Monte um suporte de papelão para o sobrado. Usando o desenho para medir o papelão,
corte-o do tamanho necessário. Mas deixe duas “abas” nele, para servirem de apoio. Cole o
desenho no papelão e dobre as abas para trás. Está pronta a sua fachada.

AM AQUETE DE UM J ARDIM

Em maio de 1895, em A Semana, Machado escreveu:


Nos primeiros tempos do Passeio Público, o povo corria para ele, e o nome de Belas Noites, dado à rua das Marrecas, vinha de serem as noites de luar as escolhidas para as passeatas. Sabeis disso, sabeis também que o povo levava
a guitarra, a viola, a cantiga, e provavelmente o namoro. O namoro devia ser inocente, como a viola e os costumes. Onde irão eles, costumes e instrumentos?

Faça a maquete de um jardim público ou praça de sua cidade, ou crie o seu próprio
jardim.

Material
caixa de papelão grande
1 folha de papelão
tiras de papel (recortadas de revistas antigas)
canudos
lápis de cera ou caneta hidrocor
tesoura (Cuidado com a tesoura. Dê preferência a uma tesoura de ponta redonda.)
cola de isopor
cola branca

Como fazer
Desenhe no papelão a planta do jardim, com traçado das ruas, canteiros, lagos, pedras,
caminhos etc. Com lápis de cera ou caneta hidrocor pinte essas diversas partes. Depois cole
o papelão sobre a tampa ou o fundo da caixa.
Recorte uma das pontas dos canudos e vire-as. Essas abas serão mais tarde fixadas ao
papelão, com a cola de isopor.
Selecione e recorte várias tiras de papel, de cores diversas, principalmente em tons de
verde, marrom e vermelho. Encape os canudos com essas tiras. Eles serão os troncos das
árvores.
Pegue tiras mais largas do mesmo papel e corte franjas nelas, para fazer as copas das
árvores.
Tiras grandes amassadas podem virar moitas; tiras pequenas amassadas podem virar
flores. Você pode fazer um pássaro ou um cisne com dobradura. Daí por diante, use
qualquer tipo de sucata para criar o seu jardim.

I NVENTÁRIO
Um detetive ou um historiador pode descobrir muito sobre alguém lendo a lista de tudo
aquilo que existiu em sua casa. Machado de Assis morreu no dia 29 de setembro de 1908,
quatro anos depois da morte da mulher, Carolina. Depois da morte do escritor, fizeram o seu
testamento e uma avaliação de seus bens. Os móveis da casa foram restaurados e atualmente
estão em exposição na sede da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro.
Veja as fotos dos móveis de Machado restaurados (p.66-7). Tente imaginar a casa do
Cosme Velho mobiliada, com seus moradores dentro.
Agora construa uma lista semelhante de móveis e outros objetos de sua casa. Você pode
usar seu caderno de criação. Essa listagem pode ser uma boa pista para você mesmo, mais
tarde, saber como era sua casa. Não esqueça de anotar a data antes de começar.
BIOGRAFIAS

A ′E
LFREDO D T (1843-99)
SCRAGNOLLE AUNAY

Foi jornalista, escritor, político e historiador. Iniciou sua carreira ao voltar, como herói, da
Guerra do Paraguai, com o livro A retirada da Laguna (1877). Além deste, ficou famoso também
pelos livros Céus e terras do Brasil, Homens e coisas do Império e Inocência. Na década de
1870, foi deputado e presidente da província de Goiás. Logo depois, envolveu-se na luta
abolicionista ao lado de Joaquim Nabuco e André Rebouças. No fim da vida, foi, ao lado de
Machado de Assis, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

F P B (1809-61)
RANCISCO DE AULA RITO

Foi tipógrafo e editor. Imprimiu mais de oitenta periódicos entre 1830 e 1860 e contribuiu para
divulgar as obras de autores como Martins Pena, Gonçalves Dias e o próprio Machado de Assis.
Sua loja era um verdadeiro ponto de encontro de intelectuais, artistas, políticos e viajantes, que lá
se reuniam para discutir política e literatura.

G D (1823-64)
ONÇALVES IAS

Foi escritor e poeta. Ficou conhecido pelo indianismo, retratando os índios tupis como os “bons
selvagens”. Escreveu também o Dicionário da língua tupi (1858).

JOAQUIMM M (1820-82)
ANOEL DE ACEDO

Embora formado em medicina, foi um escritor muito famoso, principalmente pelo romance A
moreninha. Foi também professor, jornalista, censor de peças teatrais e político. Escreveu vários
folhetins nos quais retratava a vida social do Rio de Janeiro no século .
XIX

JOAQUIMN (1849-1910)
ABUCO

Foi um dos principais personagens da vida política e literária brasileira na segunda metade do
século . Filho de José Thomaz Nabuco de Araújo, também importante político do Império, ele
XIX

se formou em direito. Sua atividade profissional, no entanto, sempre foi o jornalismo. A partir da
década de 1870, começou a se dedicar com afinco à causa abolicionista, tanto em escritos como
O abolicionismo quanto como deputado na Assembleia. Depois da Proclamação da República,
escreveu duas obras consideradas clássicas na literatura brasileira: a autobiografia Minha
formação e Um estadista do Império, na qual conta a história do Segundo Reinado por meio da
trajetória política de seu pai.

J A
OSÉ DE (1829-77)
LENCAR

Foi um dos maiores escritores brasileiros do século . Consagrado pelo livro O guarani (1857),
XIX

costumava defender a formação de uma literatura brasileira com temas e costumes locais. Em
seus escritos também abordou a temática da escravidão, tendo sido o primeiro autor a incluir um
personagem negro em uma peça de teatro. Além do sucesso literário, que incluía obras como
Lucíola (1862), Iracema (1865), O tronco do ipê (1871) e Senhora (1875), também era
advogado, jornalista, orador, romancista, teatrólogo e político. Entre 1865 e 1870 dedicou-se
muito à política, tendo ocupado o cargo de ministro da Justiça (entre 1868 e 1870) e escrito
vários panfletos políticos, como Cartas de Erasmo, Sistema representativo e Reforma eleitoral.

M ANUELA A
NTONIO DE(1830-61)
LMEIDA

Escritor e médico, ficou famoso por ter escrito o livro Memórias de um sargento de milícias
(1852), em que conta a história do sargento Leonardo, no Rio de Janeiro da metade do século .XIX

Trabalhou também como funcionário público, jornalista e diretor da Ópera Nacional.

Q B
UINTINO (1836-1912)
OCAIÚVA

Ou Quintino Antônio Ferreira de Souza, foi político e jornalista. Como vários de seus colegas de
geração, Quintino era nacionalista e romântico; por isso adotou a palavra indígena Bocaiúva
como sobrenome. Escreveu nos principais jornais do Rio de Janeiro, como A Tribuna, O Globo e
Diário do Rio de Janeiro. Foi um dos fundadores do movimento republicano e um de seus mais
ativos membros, tendo inclusive sido ministro das Relações Exteriores logo após a Proclamação
da República.
LISTA DE RUAS E PRAÇAS
CITADAS NO TEXTO

Nome antigo Nome Atual


Avenida Central Avenida Rio Branco
Largo do Rocio Praça Tiradentes
Rua Direita Rua Primeiro de Março
Rua do Piolho Rua da Carioca
Rua do Sacramento Avenida Passos
Rua dos Latoeiros Rua Gonçalves Dias
Rua Matacavalos Rua do Riachuelo
Largo do Paço Praça XV de Novembro
GLOSSÁRIO

abdicação: desistência, renúncia. Dom Pedro I abdicou do trono, deixando-o para seu filho,
Pedro de Alcântara (mais tarde dom Pedro II), em 1831.
acervo: conjunto, coleção.
acústica: parte da física que estuda o som.
alforria: liberdade concedida ao escravo.
alumiar: iluminar.
ambiguidade: dúvida, incerteza.
aparador (móvel): móvel de sala de jantar, da mesma altura de uma mesa, é usado para
colocar as travessas com comida durante as refeições.
apólogo: história mais ou menos longa que se conclui com uma lição de moral.
beneditina, paciência: como a dos beneditinos (religiosos da ordem de são Bento, conhecidos
como aplicados e estudiosos).
bucólico: ligado à natureza, que lembra a vida no campo.
caixeiro de papel: empregado responsável pelas vendas em uma loja; encarregado da
contabilidade.
canapé: espécie de sofá.
cético: que duvida de tudo.
coligir: reunir, juntar.
coroinha: menino que ajuda o padre na celebração da missa.
diligência: carruagem puxada a cavalo, que servia para o transporte coletivo de passageiros.
direitos autorais: direito que tem um autor, ou seus descendentes, sobre suas obras; dinheiro
que recebe pela venda das obras.
dramaturgo: escritor de peças de teatro.
dubitativo: que tem dúvida.
elixir: remédio.
emancipação: libertação.
epilepsia: distúrbio do cérebro que provoca crises nas quais a pessoa pode cair no chão, ter
convulsões, ou outros problemas; hoje a doença é tratada com sucesso.
estapafúrdio: esquisito.
flama: chama, labareda.
galhardete: bandeirinha estreita e comprida usada para enfeitar as ruas nos dias de festa.
gentleman: homem educado, de boas maneiras.
hostilidade: ato de tratar alguém como a um inimigo; agressividade.
incidente: episódio, aventura, peripécia.
ladainha: pequenas rezas para Deus, a Virgem ou os santos.
libreto: texto de uma ópera.
maioridade: idade em que uma pessoa passa a ter plenos direitos civis. Em 1831, dom Pedro I
abdicou do trono em favor de seu filho, Pedro de Alcântara (mais tarde dom Pedro II), então um
menino de apenas cinco anos. Em 1840, com 15 anos incompletos, dom Pedro II teve sua
maioridade antecipada, e pôde começar a reinar.
mandato: poderes que os eleitos recebem de seus eleitores.
memorialista: quem escreve relatos, narrativas e memórias.
metamorfose: mudança, transformação.
murta: planta de jardim.
otomana (cadeira): espécie de sofá largo e sem encosto.
outorgar: conceder. Depois de dissolver a Assembleia Constituinte de 1823, dom Pedro I, no
início de 1824, colocou em vigor a Constituição Imperial.
pampeiro: conflito, briga, discussão.
panorama: paisagem, vista.
patrono: defensor, padroeiro; escritor, artista ou cientista já falecido, sob a proteção do qual
estão as diversas cadeiras na Academia Brasileira de Letras e em outras do mesmo gênero.
petalógica, sociedade: nome bem-humorado, criado a partir de “peta”, que significa mentira.
presteza: rapidez.
rapé: fumo em pó para se cheirar.
regata: corrida de barcos.
repartição: escritório de órgão público.
repicar: tocar os sinos.
revés (sofrer um): golpe, insucesso.
sancionar: confirmar, aprovar.
sarau: festa em que há apresentação de textos literários, como poesias ou crônicas, ou de peças
musicais, geralmente em casas particulares.
secretária (móvel): mesa de escritório, escrivaninha.
sege: carruagem.
slogan: frase curta que tenta resumir as características de um produto.
soledade: solidão.
tipo (em tipografia): pequeno pedaço de metal que tem um dos lados gravado com uma letra
ou sinal gráfico.
tipografia: sistema de impressão de textos.
tiragem: número de exemplares impressos de um mesmo jornal, ou de uma mesma obra.
toucado: penteado.
traste: objeto, como móvel, louça ou enfeite, usado nas casas.
urbanização: arte de construir cidades.
viação: conjunto de estradas, caminhos e meios de transporte.
vinhático: árvore brasileira; a madeira dessa árvore.
vitalício: que dura toda a vida.
xá: soberano, na língua persa; título do soberano do Irã (antiga Pérsia).
REFERÊNCIAS

Obras de Machado de Assis

Não foram listadas as coletâneas de textos publicados em jornais, tais como crônicas. Para ter
acesso a uma lista mais completa, consulte o site Machado de Assis da Academia Brasileira de
Letras (ver Museus e sites).

Obras completas, 3 vols., Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1990.

R OMANCE
Ressurreição, Rio de Janeiro, B.L. Garnier, 1872.
A mão e a luva, Rio de Janeiro, E. Gomes de Oliveira, 1874.
Helena, Rio de Janeiro, B.L. Garnier, 1876.
Iaiá Garcia, Rio de Janeiro, G. Vianna, 1878.
Memórias póstumas de Brás Cubas, Rio de Janeiro, Tipografia Nacional, 1881.
Quincas Borba, Rio de Janeiro, B.L. Garnier, 1891.
Dom Casmurro, Rio de Janeiro, H. Garnier, 1899.
Esaú e Jacó, Rio de Janeiro, H. Garnier, 1904.

P OESIA

Crisálidas, Rio de Janeiro, B.L. Garnier, 1864.


Falenas, Rio de Janeiro, B.L. Garnier, 1870.
Americanas, Rio de Janeiro, B.L. Garnier, 1875.
Carolina, Rio de Janeiro, Philobiblion, 1957.
Poesias completas (Crisálidas, Falenas, Americanas, Ocidentais), Rio de Janeiro, H. Garnier, 1901.

C ONTO

Contos fluminenses, Rio de Janeiro, B.L. Garnier, 1870.


Histórias da meia-noite, Rio de Janeiro, B.L. Garnier, 1873.
Histórias sem data, Rio de Janeiro, B.L. Garnier, 1884.
Páginas recolhidas, Rio de Janeiro, H. Garnier Livreiro-Editor, 1899.
Papéis avulsos, Rio de Janeiro, Lombaerts e Cia., 1882.
Relíquias de casa velha, Rio de Janeiro, H. Garnier Livreiro-Editor, 1906.
Várias histórias, Rio de Janeiro, Laemmert & C., 1896.

T EATRO
Desencantos, Rio de Janeiro, Paula Brito Editor, 1861.
Quase ministro, Rio de Janeiro, Tipografia da Escola do Editor Serafim José Alves, 1862.
Teatro, Rio de Janeiro, Tipografia do Diário do Rio de Janeiro, 1863.
Deuses de casaca, Rio de Janeiro, Tipografia do Imperial Instituto Artístico, 1866.
Tu, só tu, puro amor…, Rio de Janeiro, Lombaerts e Cia., 1881.

Obras sobre Machado de Assis

A bibliografia citada refere-se somente às obras consultadas para a realização deste livro. Para ter
acesso a uma bibliografia completa sobre a vida e a obra de Machado de Assis, consulte o site
Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras (ver Museus e sites).
ANDRADE, Gentil (org.). Pensamentos e reflexões de Machado de Assis, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1990.
ANDRADE, Ana Luiza (org.). Machado de Assis – Crônicas de Bond, Chapecó, Argos, 2001.
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira, 3ª ed. São Paulo, Cultrix, 1987.
CAVALCANTE, Berenice (org.). “Literatura e história”, Revista Tempo Brasileiro, nº81, 1985.
CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade, São Paulo, Companhia das Letras, 1990.
CHALHOUB, Sidney. Machado de Assis, historiador, São Paulo, Companhia das Letras, 2003.
GERSON, Brasil. História das ruas do Rio, Rio de Janeiro, Lacerda, 2000.
GLEDSON, J. Machado de Assis: Ficção e história, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1986.
LOPES, L.L.R.P. Machado de A a Z. Um dicionário de citações, São Paulo, 34, 2001.
MAGALHÃES JUNIOR, Raymundo. Vida e obra de Machado de Assis, 4 vols., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1981.
MASSA, Jean-Michel. A juventude de Machado de Assis. 1839-1870, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1971.
MIGUEL PEREIRA, Lúcia. Machado de Assis. Estudo crítico e biográfico, 6ª ed. Revista, Belo Horizonte/São Paulo, Itatiaia/Edusp, 1988.
MIRANDA, José Américo (org.). Maio de 1888, Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras, 1999.
MORALES DE LOS RIOS Filho, Adolfo. O Rio de Janeiro imperial, Rio de Janeiro, Topbooks, 2000.
SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas, São Paulo, Duas Cidades, 1977.
SECCHIN, Antonio Carlos e outros. Machado de Assis: Uma revisão, Rio de Janeiro, In-Fólio, 1998.
TRIGO, Luciano. O viajante imóvel: Machado de Assis e o Rio de Janeiro de seu tempo, Rio de Janeiro, Record, 2001.
VAINFAS, Ronaldo (org.). Dicionário do Brasil imperial, Rio de Janeiro, Objetiva, 2002.
VIANNA FILHO, Luís. A vida de Machado de Assis, Rio de Janeiro, José Ol ympio, 1989.
Museus

E M
SPAÇO A
ACHADO DE SSIS

Espaço localizado no Centro Cultural da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, para
consulta e pesquisa sobre Machado de Assis e sua obra.

ANEXO DAABL – º 2 ANDAR

Av. Presidente Wilson, 203 – Rio de Janeiro


Tel.: (0xx21) 3974-2500 Ramal 2510
E-mail: machado@machadodeassis.org.br

Sites

M A
ACHADO DE SSIS

Página do Espaço Machado de Assis. Nele podem se encontrar informações sobre as obras de
Machado de Assis, livros e artigos escritos sobre ele e obras disponíveis para download.
www.machadodeassis.com.br

N P
ÚCLEO DE I L
ESQUISAS EM L U
NFORMÁTICA, F S C
ITERATURA E INGUÍSTICA DA NIVERSIDADE EDERAL DE ANTA ATARINA

Obra integral de Machado disponível para download. www.cce.ufsc.br/~nupill/litg on Ip Man's


migration to Hong Kong in 1949 as he attempts to propagate his discipline of Wing Chun martial
artseratura/machado.html

A B
CADEMIA L
RASILEIRA DE ETRAS

www.academia.org.br

P P
ASSEIO ÚBLICO

Página sobre a história do Passeio Público do Rio de Janeiro. www.passeiopublico.com.br

A C
LMA ARIOCA

Página sobre a cidade do Rio de Janeiro, com destaque para imagens sobre o Rio Antigo.
www.almacarioca.com.br

R G
EAL P ABINETE L ORTUGUÊS DE EITURA

www.realgabinete.com.br
CRÉDITOS DAS ILUSTRAÇÕES

Arquivo da Academia Brasileira, p.14, 32 35, 40, 42, 45, 49, 52, 53, 54, 56, 58, 65, 66, 67, 74,
79, 82, 83, 86. Fotos: Fausto Fleury.

Arquivo Alberto Cohen, p.18, 23, 25, 85, 86, 90.


Fotos: Fausto Fleury.

Fotos de Marc Ferrez: 12-3, 15, 16, 20, 26, 36, 37, 61, 81.
NOTA AOS PAIS E PROFESSORES

Há muitos pontos obscuros sobre a vida de Machado de Assis, principalmente a infância e


adolescência. Os biógrafos discordam a respeito de detalhes a respeito da formação escolar, das
primeiras ocupações, suas relações com o pai, entre outros assuntos. Neste livro procuramos
seguir as versões mais consolidadas entre os especialistas – ainda que nem sempre existam
comprovações dos episódios descritos.
AGRADECIMENTOS

As autoras agradecem a Andréa Marzano, Daniela Uziel, Ricardo Salles e Maria Almeida pela
leitura de partes do manuscrito.
Copyright © 2005, Keila Grinberg, Lucia Grinberg
e Anita Correia Lima de Almeida
Copyright desta edição © 2005:
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Grafia atualizada respeitando o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
Preparação de texto: Angela Ramalho Vianna
Capa: Miriam Lerner
ISBN: 978-85-378-0244-1
Para conhecer Chica da Silva
Grinberg, Keila
9788537801840
87 páginas

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Chica da Silva é uma das mulheres mais conhecidas na história do Brasil. Contrariando os
padrões da sociedade de sua época, conseguiu libertar-se e acabou por se transformar em senhora
— assim como várias mulheres alforriadas na sociedade mineradora do Brasil Colônia. Em estilo
leve e agradável, usando recursos ficcionais, as historiadoras, também autoras de "Para conhecer
Machado de Assis", narram a vida dessa ex-escrava que passou a ser uma das senhoras mais
ricas e poderosas da sociedade mineira no século XVIII. Ao longo do texto, trechos explicativos
ilustram os eventos históricos da época, as legislações, as formas de escravização, o tráfico de
escravos e o trabalho negro nas minas. E ainda: desenhos, pinturas e mapas da região dos
diamantes; linha do tempo; lista de livros sobre Chica da Silva e sua época; lista de museus e
sites da Internet; glossário explicativo das palavras empregadas.

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Nas folhas do chá
Lins e Silva, Flávia
9788537808191
113 páginas

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Gabriela mora no Rio de Janeiro, tem treze anos e sua avó está doente. He Juhua mora em
Pequim, tem a mesma idade e seu avô também não está nada bem. As duas meninas não se
conheciam até que Gabi decide escrever uma carta endereçada a uma casa de chá chinesa em
busca de ajuda para o mal de sua avó. He Juhua é quem responde e as duas meninas começam a
trocar uma correspondência emocionante e curiosa, substituindo, logo de início, o envelope pela
rapidez do e-mail. As diferenças entre o Brasil e a China, a medicina alopata e a chinesa
tradicional, o namoro na década de 50 e nos dias de hoje são alguns dos temas dessas conversas.
Elas ainda vão descobrir uma misteriosa ligação entre as duas. As autoras deste livro - uma
brasileira e outra chinesa - também não se conheciam quando criaram esta delicada história, ao
longo de intensa troca de e-mails. Nas folhas do chá abre a coleção Quatro Mãos, idealizada por
Flávia Lins e Silva para que nosso jovem leitor possa entrar em contato com escritores e
ambientes de outras culturas. O próximo título fará uma ponte entre Brasil e África. Aguardem!

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