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Fundamento da teologia

católica
Direito
Universidade Católica de Moçambique (UCM)
53 pag.

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ÍNDICE

INTRODUÇÃO……………...……………………………………………………………………4

CAPÍTULO I: A FÉ CATÓLICA……...………...…………………….………………………….6

1.1. Conceito de Fé…………………...……………………………………………………...6


1.1.1. Crenças…………………………………………………………………………...6
1.1.2. Teologia Ciência e Fé……………………………………………………………..6
1.2. Breve Historial da Teologia …………………………………………………………….6
1.2.1. Um pouco de História do Termo Teologia……………………………………….6
1.2.2. Diferentes estilos de reflexão teológica…………………………………………...8
1.2.3. Síntese da Teologia da Época Patrística………………………………………...10
1.2.4. A Teologia escolástica mediável……………………………………………..…11
1.2.5. Teologia anti-moderna da idade média até Vaticano II Cinco (5) séculos………12
1.3. A teologia hoje………………………………………………………………………...13
1.4. Revelação……………………………………………………………………………...13
1.4.1. Conceito de revelação …………………………………………………………..13
1.4.2. Conteúdos da revelação……………………………………………………...….13
1.4.3. Etapas da revelação……………………………………………………………...14
1.5. Deus se revela na Criação……………………………………………………………...14
1.5.1. Conceito de Criação……………………………………………………………..14
1.5.2. Deus é o criador…………………………………………………………………15
1.5.3. Cristo princípio, centro e fim da criação………………………………………....15
1.5.4. Dificuldades e objecções………………………………………………………...15
1.6. A dimensão trinitária da criação………………………………………………………16
1.7. A Revelação em Abraão, Moisés e Profetas……………………………………….….17
1.7.1. Transmissão da Revelação divina……………………………………………….18
1.7.2. A atitude do homem para com a revelação divina………………………………18
1.8. Evento Cristo ………………………………...………………………………………..19
1.8.1. Quem é Jesus…………………………………………………………………...19
1.8.2. Algumas respostas da época patrística………………………………………….20
1.8.3. Respostas Correctas sobre a identidade de Jesus……………………………….22
CAPÍTULO II: A IGREJA……………………………………………………………………….24

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2.1. Conceito de Igreja………………………………...…………………………………...24


2.1.1. Terminologia e etimologia……………………………………………………..24
2.2. Mistério da Igreja……………………………………………………………………...24
2.2.1. Pressupostos da Eclesiologia do Vaticano II………………………………...…24
2.2.2. Eclesiologia da Lumem Gentium…………………………………………………..…25
2.2.3. Maria, figura da Igreja………………………………………………………….27
2.3. Os sacramentos na Igreja…………………………………………………………..29
2.3.1. Conceito………………………………………………………………………..29
2.3.2. Divisão dos sacramentos……………………………………………………….29
2.4. Inculturação da Evangelho nas culturas dos povos evangelizados……………………30
2.4.1. Conceitos……………………………………………………………………….30
2.4.2. Necessidade…………………………………………………………………….30
2.4.3. Exigências……………………………………………………………...………31
2.4.4. Competências…………………………………………………………………..31
CAPÍITULO III: A PESSOA HUMANA À LUZ DA FÉ CRISTÃ……………………………...32

3.1. Conceito……......……………………………………………………………………..32
3.1.1. O protótipo do ser humano é Jesus Cristo………………………………………32
3.1.2. O laço biológico da vida humana…………………………………………….…33
3.1.3. O laço social como lugar cultural……………………………………………….34
3.1.4. O laço social como laço ético…………………………………………………...34
3.1.5. O laço social como laço simbólico e laço religioso………………………..……34
3.2. O homem é um ser com dignidade……………………………...…………………….34
3.2.1. Conceito da Dignidade…………………………………………………………34
3.3. O homem é um ser consciência……………………………...………………………..35
3.3.1. Conceito………………………………………………………………………..35
3.3.2. A consciência é uma faculdade moral…………………………………………..35
3.3.3. A consciência pode ser recta ou errónea………………………………………..36
3.3.4. Consciência certa ou duvidosa…………………………………………………36
3.3.5. A primazia da consciência…………………………………………………...…36
3.3.6. A formação da consciência……………………………………………………..37
3.3.7. O homem é um ser responsável e imputável……………………………………37
3.3.8. Imputabilidade…………………………………………………………………37
3.3.9. Factores que afectam a imputibilidade…………………………………………37

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3

3.4. O homem é susceptível ao pecado………………………...…………………………..39


3.5. O pecado original……………...……………………………………………………...39
CAPÍTULO IV: O PENSAMENTO DA IGREJA CATÓLICA EM QUESTÕES DE
BIOÉTICA……………………………………………………………………………………….40

4.1. Conceito………………...……………………………………………...……………..40
4.2. A vida humana………………………...…………………………………………...…40
4.2.1. O início da vida humana………………………………………………………..40
4.2.2. Sexualidade Humana…………………………………………………………...40
4.2.3. Desvios Sexuais………………………………………………………………..42
4.2.4. Pecados de natureza sexual……………………………………………………..42
4.3. Actos contra a vida humana……...………………………………………………...…43
4.3.1. A Contracepção………………………………………………………………...43
4.3.2. Reprodução assistida…………………………………………………………...43
4.3.3. Reprodução assistida…………………………………………………………...43
4.3.4. O aborto………………………………………………………………………...44
CAPÍTULO V: PENSAMENTO SOCIAL DA IGREJA CATÓLICA……………………..……45

5.1. A Justiça…………………..…………………………………………………….……45
5.1.1. A caridade……………………………………………………………………...45
5.1.2. Bem comum……………………………………………………………………46
5.1.3. Subsidiariedade…………………………………………………………….…..47
5.1.4. Solidariedade…………………………………………………………………...48
5.1.5. Boa governação………………………………………………………………...48
5.1.6. A Paz: fruto da justiça e da caridade……………………………………………49
5.1.7. Defesa da cultura……………………………………………………………….50
5.1.8. A família………………………………………………………………………..50
BIBLIOGRAFIA………………………………………………………………………………...51

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INTRODUÇÃO

A Constituição apostólica Ex Corde Ecclesiae sobre as Universidades Católicas prescreve que «Os
Bispos têm a responsabilidade particular de promover as Universidades Católicas e, especialmente,
de segui-las e assisti-las na sustentação e na consolidação da sua identidade católica também no
confronto com as autoridades civis» (João Paulo II, 1990). Foi no âmbito desta orientação e no
exercício do seu Munus docendi1que a Conferência Episcopal de Moçambique (CEM), iluminada
pela luz do Espirito Santo, desejando ver o carácter católico da Universidade Católica de
Moçambique (UCM) aprofundado e a consolidar-se cada vez mais, decidiu, sabiamente, introduzir
uma cadeira que oferecesse a comunidade académica da UCM, em particular aos seus estudantes,
a oportunidade de um contacto com o pensamento e posicionamento católico em algumas áreas do
saber e conduta.

Para o efeito, a CEM constituiu uma equipa para a concretização do projecto. A equipa constituída
assumiu o empreendimento e teve como primeira tarefa a concepção do título da cadeira que
reflectisse o projecto almejado. Concluiu que o título adequado da matéria a ser ministrada seria:
Fundamentos de Teologia Católica. Após a concepção do título, seguiu-se a fase da composição
do respectivo Manual para assegurar a harmonização dos conteúdos a serem oferecidos durante a
leccionação da cadeira nas diferentes Unidades Básicas da UCM.

De salientar que não é propósito do manual esgotar toda a reflexão teológica, mas dar, de maneira
sucinta, uma ideia de alguns fundamentos do pensamento e posicionamento católico sobre as
principais áreas teológicas. O mesmo, procura, igualmente, abrir caminhos para posteriores
aprofundamentos dos assuntos abordados e outros a eles conexos, para além daqueles que a
discussão teológica durante a lecionação poderá suscitar.

Com efeito, o Manual proposto tem a seguinte estrutura: O primeiro capítulo é um tratado sobre a
Fé católica, o conceito e história de teologia, a revelação que culmina com a Pessoa de Cristo. O
segundo capítulo é uma abordagem eclesiológica, isto é, o mistério da Igreja, a figura de Maria,
modelo dos crentes, enquanto a Igreja é assembleia dos crentes, e os Sacramentos. Por sua vez, o
terceiro capítulo debruça-se sobre a Pessoa humana à luz da fé, procura reflectir sobre a pessoa
humana nas suas variadas dimensões, enquanto o quarto capítulo ocupa-se das problemáticas
relacionadas com a Bioética, mormente aquelas questões que desafiam a consciência como é o
caso do aborto. O quinto e último capítulo apresenta o pensamento social da Igreja, a Igreja

1 Tarefa de ensinar.

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intervindo nas questões sociais em favor do homem, porque o homem é o caminho da Igreja, como
defende João Paulo II na sua Encíclica programática Redemptor hominis, no início do seu
pontificado.

Auspicia-se que esta cadeira suscite nos destinatários um interesse em matérias de natureza
religiosa e dê uma resposta do sentido último da vida humana que, para os cristãos católicos
encontra a sua reposta em Deus. Exclui-se das perspectivas deste projecto, o fomento do
proselitismo, isto é, a conversão de todos ao catolicismo.

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CAPÍTULO I: A FÉ CATÓLICA

1.1. Conceito de FÉ:

Entende-se por fé a convicção, confiança e abandono, que uma pessoa alimenta na sua relação com
Deus. A fé é sempre uma resposta positiva à iniciativa reveladora de Deus. Diante dos sinais
reveladores da sua presença do ser humano, este é convidado a responder por uma relação de
confiança e fé neste Deus que se dá a conhecer. A fé consiste no escutar a palavra da pregação e
para conduzir á obediência; vice-versa, a obediência é escuta.

1.1.1. Crenças

Chama-se crença a convicção ou a lógica de pensamento, a filosofia que sustenta uma cosmovisão
e os valores apresentados por uma determinada cultura.As crenças representam sempre um sistema
de valores adquiridos, assimilados e proclamados como absolutos em si mesmos e por isso mesmo
inegociáveis. A crença é uma convicção arraigada na pessoa que orienta as atitudes e influencia a
interpretação do real.

1.1.2. Teologia ciência da fé

Os termos:

Teologia = teo + logia⇒θєōs, Deus + λοΥiα = discurso sobre Deus; arte de dirigir o espírito
na investigação da verdade do discurso sobre Deus.

O dicionário de teologia define a Teologia como a ciência das coisas divinas.

1.2. Breve historial de Teologia

1.2.1. Um pouco de história do termo Teologia

Na antiguidade a teologia era entendida como um hino, onde Deus era glorificado mais que do
que explicado pelo espírito humano. Era o ato mesmo de louvar a Deus. Não se tratava de explicar
Deus, que é inexplicável, mas de o Louvar sem cessar, pela sua grandeza.

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Este sentido continua muito vivo nos escritos dos padres da Igreja2, mesmo os que como Origines
farão mais uso instrumental de noções tiradas da filosofia grega ou os que como os grandes
teólogos ditos da Capadócia (São Basílio de Cesareia, São Gregório de Nazianzo e São Gregório
de Nice) se servem das noções teológicas para lutar contra os erros resultantes de uma ilusão
racionalista sobre a nossa capacidade de clarificar os mistérios divinos.

9 Para o pseudo- Dionísio3, a teologia mística é a única teologia plenamente digna desse
nome, ultrapassando as analogias insuficientes numa experiência que se proclama ela
mesma inexprimível.
9 Até antes da Idade Média latina a teologia era concebida, particularmente na ordem
monástica, não como uma ciência propriamente dita das coisas divinas, mas como
meditação dos mistérios. A Teologia nessa altura é considerada importante apenas pelo
apelo que faz à razão para afastar as falsas interpretações preparar a contemplação onde a
razão é simplesmente ultrapassada.
9 Santo Anselmo 4um dos primeiros a fazer o mais rigoroso uso do pensamento dialético5
em teologia.
9 Pedro Abelardo, no século XII - Tende a racionalizar completamente a teologia, ao
mesmo tempo que suscita em São Bernardo de Claraval, por exemplo, uma recusa
apaixonada. Provoca noutros pensadores, mesmo próximos deste último como Guilherme
de Saint-Thierry, um esforço para utilizar mais sistematicamente uma crítica racional dos

2Padres da Igreja, Santos Padres ou Pais da Igreja foram influentes teólogos, professores e mestres cristãos e
importantes bispos. Seus trabalhos académicos foram utilizados como precedentes doutrinários para séculos
vindouros. Os padres da Igreja são classificados entre o século II e VII.O estudo dos escritos dos Padres da Igreja é
denominado Patrística.
3Pseudo-Dionísio, o Areopagita ou simplesmente Pseudo-Dionísio é o nome pelo qual é conhecido o autor de um
conjunto de textos (Corpus Areopagiticum) que exerceram, segundo os historiadores da filosofia e da arte, uma forte
influência em toda a mística cristã ocidental na Idade Média. Até o século XVI, os textos tinham valor quase
apostólico, já que Dionísio fora o primeiro discípulo de Paulo de Tarso. Nessa época surgiram as primeiras
controvérsias a respeito da sua autenticidade. Argumentava-se que os textos continham marcada influência
de Proclo, da escola neoplatônica de Atenas, e portanto não poderiam ser anteriores ao século V. Mas somente
a partir do século XIX essa tese foi aceita e o autor desconhecido passou e ser chamado Pseudo-Dionísio. Apesar
disso, por sua linguagem poética e pela coerente exposição de ideias, o Corpus permanece considerado como
expressão autêntica do neoplatonismo ateniense e da tradição mística cristã.
4Anselmo escreveu uma obra sobre a fé que busca a razão. É considerado um dos iniciadores da tradição escolástica.
"Não só a habilidade dialética fez de Anselmo o precursor da Escolástica, como também o princípio teológico
fundamental que adotou: fidesquarensintelectum "a fé em busca da inteligência". Foi ele também quem forjou uma
nova orientação à teoria dos universais e que reverteu em grande proveito para os intuitos da Teologia racional".
5 Dialética conjunto dos meios postos em obra na discussão em vista a demonstrar ou refutar. Ex.: tese e anti- tese +
resolução em síntese.

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conceitos e uma construção racionalmente ajustada das verdades da fé num sistema


ordenado.
9 S. Alberto Magno no século XIII e S. Tomás de Aquino definem a Teologia como a
ciência sagrada, que coloca o conjunto das verdades da fé num sistema racional, à partir de
um reconhecimento mais claro das verdades propriamente sobrenaturais, e como tais
recebidas da revelação unicamente, por oposição às verdades sobre Deus que podem ser
atingidas pela razão sozinha.

Sustentam que a teologia é a ciência é ciência da fé. E como tal não pode prosseguir e se
desenvolver senão na luz da fé. Esta teologia exige que o rigor racional do pensamento dialético
seja constantemente associado a uma exploração não somente alargada mas também penetrante de
todo o dado revelado e tradicional, sob a salvaguarda do magistério vivo da Igreja e num espírito
de uma fé viva e vivida.

Como Ciência Sagrada, a Teologia tomista não alimenta a pretensão temerária e fútil de se
substituir a Palavra de Deus confiada à Igreja, em particular nas Santas Escrituras, mas alimenta
somente a esperança de explorar respeitosamente as profundidades, não esvaziando o mistério mas
permitindo-nos de melhor o situar em relação aos nossos conhecimentos simplesmente naturais.

É uma teologia sistemática e por isso é reflexiva e crítica. Alimenta se constantemente da teologia
positiva, que se contenta de fazer o inventário e a exegese da palavra de Deus nos documentos
autênticos. Deve guardar e cultivar o contacto com os desenvolvimentos do pensamento
simplesmente humano, mas permanecendo sempre na escola viva da Igreja em profunda comunhão
de fé com ela.

Assim se compreende a Teologia como um discurso sistemático, reflexivo e crítico, sobre Deus e
tudo o que a Ele se refere. Uma Teologia que se alimenta da revelação divina contida na Palavra
de Deus, proclamada e anunciada pela Igreja em seu Magistério. Um discurso aberto ao
pensamento humano e capaz de iluminar a razão e se deixar interpelar por ela.

1.2.2. Diferentes estilos de reflexão teológica

Existem diferentes estilos de reflexão teológica, tanto no que se refere ao conteúdo, como ao
género literário. Assim, podemos distinguir diferentes estilos de acordo com a época.

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No primeiro século do cristianismo podemos encontrar 3 estilos principais: a Teologia narrativa


dos evangelhos, a literatura epistolar e a apocalíptica. Em seu núcleo conjugam-se facto e
interpretação, compreensão e anúncio, sob notório influxo do judaísmo. Lentamente a comunidade
de fé se desprega da religião de Israel mas esta permanece o ponto de referência básica, mesmo
para os grupos advindos da genialidade. Esta teologia é:

• Pneumática (embebida pelo espírito que suscita a continuidade dos seguidores de Jesus)
• Eclesial, nascida no seio de uma comunidade

• Missionária, destinada a transmitir e recriar fé crista

• Vivencial, repleta de sentimentos, conotações afectivas e força convocatória, proveniente


da experiência do seguimento do ressuscitado

• Contextualizada na história da comunidade em que foi elaborada. Não retrata desejo


explícito de fazer reflexão única e universal, válida igualmente para todos como anamnese
da palavra, torna presente o dado revelado emdiversas situações.

• Aberta ao futuro estimulando assim interpretações enriquecedoras, novas releituras


situadas.

Na época patrística que abarca o período de seis séculos, compreendendo desde a geração
imediatamente posterior aos apóstolos até a dos que prepararam a teologia medieval, encontramos
um outro estilo de teologia devido ao objectivo do discurso: esclarecer a identidade da fé cristã no
seu encontro com as culturas, helénica, romana e mesmo a judaica.

O cristianismo vê-se às voltas com o imenso desafio de traduzir para a cultura helénica, a sua boa
nova. Necessita também justificar-se diante daqueles que, utilizando a filosofia grega, consideram
o cristianismo e a fé cristã algo secundário ou de pouco valor. Após o período das perseguições,
com o reconhecimento do império romano a Igreja corre dois riscos helenizar a sua doutrina (por
uma união entre fé e pensamento grego) e secularizar-se (entrando nas estruturas do império pelo
caminho das honras, privilégios, apoio do poder político).

a) Helenizar a doutrina

A teologia grega tem sede de explicar a unicidade do universo, explicar como tudo tem um
fundamento uma αρχή, uma unidade, uma λοΥiα que dá sentido ao múltiplo. Por isso a fé carrega

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a marca da preocupação do fundamento, e anuncia que em Cristo se recapitulam todas as coisas, e


particularmente tudo o que e verdadeiro, bom e belo. (ciência, moral e estática).

Da cultura grega, a reflexão teológica leva como empréstimo os valores, os instrumentos e


desenvolve a questão da relação entre o humano e o divino.

A adoção de expressões de fé, categorias e esquemas mentais da teologia e filosofia grega leva a
imprecisões e dúvidas. Surgem grupos radicais que com o seu radicalismo ferem a identidade
trazida na mensagem cristã e assim nascem as primeiras heresias.

A tentativa de responder a estas heresias estimula e permite o avanço da teologia porque obriga a
uma reflexão mais precisa e mais fiel ainda que criativa, à Sagrada Escritura.

Temos assim vários concílios ecuménicos ao serviço da verdade que deve ser proclamada (Niceia,
Éfeso, Calcedônia, Constantinopla) regionais (Elvira, Orange).

O princípio patrístico é: “crer para entender, e entender para crer”intellige ut credas, crede ut
intellegas (Agostinho in Sermão 43,7,9).

Não separa inteligência e fé: a fé nos torna inteligentes!

b) Secularização
Quando no ano 313 foi proclamado o Edito de Milão pelo imperador Constantino, o
cristianismo se tornou “Religião de Estado”, no Império Romano. Assim foram adoptados
progressivamente, maneiras e princípios seculares que contrariavam a simplicidade do
Evangelho. Nasce a hierarquização da Igreja sob o modelo do Império, a liturgia é
fortemente influenciada pelo culto pagão. Esta situação se arrastou até à reforma trazida
pelo Concílio Vaticano II.

1.2.3. Síntese da Teologia da época Patrística:

` Ponto de partida a experiência intensa do mistério proclamado, celebrado e vivido,


exercitada na leitura do texto sagrado e das realidades mundanas.

` Quem faz teologia? – Bispos, sacerdotes e leigos (homilias, textos litúrgicos, comentários
de textos de escritura, catequese...). no inicio do século III, formam-se “escolas teológicas”.

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As mais conhecidas foram Antioquia (exegese literal de Escritura), Alexandria (exegese


espiritual “sentido”).

Características teológicas: teologia bíblica, litúrgica, Cristológica, eclesial, inculturada e plural

Foi um tempo de verdadeiro esforço de inculturação da fé. As escolas teológicas testemunham de


um pluralismo teológico sadio, que contribui para o aprofundamento da verdade revelada.

A liturgia é o berço da teologia patrística, e mostra como se deve articular o pensar e o celebrar a
fé.

Limites pouca atenção ao concreto histórico fraco traço profético devido ao compromisso com o
poder temporal, progressiva des-escatologização e des-historização da teologia; Deficiência do
instrumento teológico utilizado (o seu dualismo neoplatônico, o rigor ético de outras correntes
como por exemplo os epicureus, ...e cépticos.

1.2.4. A teologia escolástica medieval

A teologia escolástica medieval atravessou oito (8) séculos, três (3) fases importantes: A dialéctica
(Sto. Anselmo) a grande escolástica e a escolástica tardia.

1) Fase – A teologia se limita a leitura e comentário da Palavra de Deus. Pouco a pouco (VIII – X)
esta maneira de fazer teologia é influenciada pelas mudanças significativas verificadas na
sociedade e na igreja.

O surgimento de associações, corporações, ordens religiosas, movimento das ordens mendicantes


e também universidades vai influenciar positivamente a maneira de fazer teologia.

Do século X – XII, mas concretamente de 1120-1160, o pensamento de Aristóteles é redescoberto


e sua metodologia é posta em relevo – usa-se a sua dialéctica (“Sicet nom”) = recolhem-se
argumentos aparentemente contraditórios, discute-se a questão e depois se tiram conclusões. Santo
Anselmo (1033- 1109) une a teologia monástica agostiniana, favorável a absoluta suficiência de
fé, ao pensamento especulativo dialéctico. Trabalha para transformar a verdade criada em verdade
sabida, pensada e expressa. A fé em busca da inteligência (fides quarens intellectum) conclusões
deduzíveis.

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Em 1054, temos o primeiro grande cisma Ocidente/ Oriente com Miguel Cerulário. A teologia
Oriental não assimila a dialética, ela conserva o aspeto contemplativo e simbólico, privilegiando a
dimensão apofática, misteriosa, o silêncio da teologia.

A figura mais alta da escolástica é Tomás de Aquino combina rigor teórico, criatividade e ousadia.
Desenvolve uma teologia obediente à revelação que responde às exigências da epistemologia de
Aristóteles e por conseguinte ela é chamada ciência. A suma teologia durante séculos foi texto
base da elaboração teológica.

Com Tomás de Aquino saímos do credere- crer para compreender (da patrística) e passamos ao
crer e compreender. A elaboração sistematizante do pensamento é feito por via da relação
afirmação, negação e síntese – o movimento de pensamento é uma elipse e não um círculo. Temos
um duplo foco da teologia: ciência que Deus comunica e ciência que o homem alcança pela
reflexão autónoma, ela conjuga o ponto de vista de Deus e o ponto de vista do homem, concilia fé
e razão.

1.2.5. Teologia anti- moderna – da Idade Média até Vaticano II cinco (5) séculos

Época de mudanças sócias rápidas e profundas, capitalismo mercantil, trocas culturais, a formação
da supremacia da razão e do individualismo racional, desenvolvimento da arte e do humanismo.
Crescente separação entre império e papado, entre a Igreja e a política.

É uma Teologia de defesa cujo ponto mais alto é a celebração do Concílio Vaticano I com a
proclamação do dogma do primado e da infalibilidade papal. A teologia recusa-se a dialogar com
o mundo moderno.

Para quem é feita a teologia nesta época? Para o clérigo religioso ou diocesano. O Concilio de
Trento decretou a criação de seminários para a formação do clero.

Três áreas de desenvolvimento da teologia são identificadas: Fundamental, Moral e Dogmática

9 A área da Teologia Fundamental ocupa-se da Apologética (suscitar e testemunhar a fé)

9 A Teologia Moral oferece estrutura da vida humana a partir da lei (divina, natural e positiva)

9 A Teologia Dogmática, graças ao seu método regre apresenta os pilares da fé Cristã. A partir
de uma tese, busca argumentos racionais que iluminados pela Sagrada Escritura permitem
justificar e fundamentar a fé cristã. É uma Teologia rigorosa, conceptual, objetiva e uniforme.

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1.3. A teologia hoje

A teologia mais do que um discurso sobre Deus torna-se um discurso sobre a Palavra de Deus,
cujo objetivo é compreender, aprofundar o seu sentido valendo-se de instrumentos de compreensão
de que o homem dispõe. Mas dado que tais instrumentos mudam de uma época para a outra, de
um continente para o outro segue-se logicamente a formação de uma grande variedade de discursos
sobre Deus, isto é de teologias.

Nos nossos dias a Teologia tem em conta um marco importante na Igreja Católica: o Concílio
ecuménico Vaticano II (11/10/1962 – 8/12/1965). A Teologia, valoriza os esforços, aquisições e
orientações deste Concílio, que concebe a fé como dom recebido e orienta o estudo das realidades
divinas à luz da fé, soba orientação do Magistério, fazendo da Sagrada Escritura a alma da
Teologia.

1.4. Revelação
1.4.1. Conceito de revelação
Entende-se por revelação o acto de tirar o véu que cobre uma realidade, o acto de tornar
acessível uma verdade até então velada ou oculta. Este conceito é usado para indicar a
realidade ampla que constitui o dado de fé que nos é oferecido no Evento Jesus Cristo.

1.4.2. Conteúdos da revelação

A Constituição Dogmática sobre a Revelação divina no seu número dois condensa o conteúdo da
Revelação na Economia da Salvação6 nos seguintes termos: “Aprouve a Deus, na sua bondade e
sabedoria, revelar-se a si mesmo e tornar conhecido o mistério da sua vontade, por meio do qual
os homens, através de Cristo, Verbo Incarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e n’Ele se
tornam participantes da natureza divina” (Concílio Vaticano II, Dei Verbum, 2) Está claro que é
livre iniciativa de Deus o acto de se revelar. O movente da tal liberdade é a sua bondade e
sabedoria. Era natural que Deus que é suma bondade não permanecesse fechado em si mesmo
eternamente. E a sabedoria sempre move para o bem. A intenção do acto é salvífica, porque é para
que os homens tenham acesso ao Pai pelo Espírito. Deus faz-se conhecer para o homem entrar no
mundo de Deus.

6Chamamos Economia da Salvação ao processo de revelação da Verdade sobre Deus ao longo da história da
humanidade, tal como se revelou na História de Israel atingindo o seu ápice em Jesus Cristo.

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A revelação divina concretiza-se por meio de palavras e acções intimamente ligadas entre si ao
longo da história da salvação. Mas a revelação plena acontece na pessoa de Cristo que é o mediador
e o agente do projecto de revelação do Pai. Ele é o mediador porque é o enviado, é o agente porque
Ele mesmo é Deus em acção.

1.4.3. Etapas da revelação

Chamamos etapas da Revelação os diferentes momentos nos quais as verdades sobre Deus foram
reveladas à humanidade.

1.5. Deus se revela na Criação

Um dos aspectos nos quais Deus se revelou ao homem é como o Deus criador. Este aspecto da
revelação é comum às três grandes religiões: o judaísmo, o cristianismo e o Islão.

1.5.1. Conceito de Criação

O termo «criação» é um conceito propriamente teológico de fé judaico-cristão e trata do


conjunto de todos os seres com o sinónimo de criaturas. A criação é «o fundamento de todos os
divinos desígnios salvíficos, e manifesta o amor omnipotente e sapiente de Deus; é o primeiro
passo para a aliança do único Deus com o seu povo; é o início da história da salvação que culmina
em Cristo; é a primeira resposta às interrogações fundamentais do homem acerca da própria origem
e do próprio fim» (cfr. CIC 279-289 315).

O termo criar, assim designa uma actividade própria e exclusiva de Deus, uma actividade diferente
de fabricação humana. Não se trata, portanto, de um mero fazer teórico e instrumental que exige
provas científicas, mas sim um agir que envolve a intencionalidade do agente (Deus) pela própria
iniciativa como seu projecto por Ele iniciado e que envolve o homem através do seu convite a ser
co-criador.

Para designar a acção criadora de Deus, se emprega o verbo hebraico

barã (criar), da tradição sacerdotal, para designar a criação de Deus. Ele significa a criação – não
condicionada e livre de requisitos – como marco histórico da natureza e do espírito. O que não
existia passa a existir nesse momento (Ex 34,10; Nm 16,30; Sl 51,12, etc.). Esta actividade divina
carece de analogias (Conte, 1994, p. 237).

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Distingue –se assim o “criar” (barã) e “fazer” (asâh). O verbo barã designa a totalidade da criação
e é empregado exclusivamente quando se fala de Deus, na sua acção criadora, ou seja, na criação:
«No princípio, Deus criou o céu e a terra» (Gn 1,1). Diferentemente, o verbo asâh, inicia no
versículo 2 e é concluído com o dia de descanso, indica a realização consequente de uma obra, a
função determinada de uma obra. Somente o fazer, na medida em que é uma configuração e
produção, é modelo do trabalho manual. Mas a actividade criadora divina e a actividade humana
não têm nada em comum.

1.5.2. Deus é o Criador

A omnipotência de Deus tem como última consequência a sua actividade criadora, ou mais
exactamente, a criação do nada.

O evento da criação é apresentado como criação mediante a palavra: Ele cria pela sua palavra
(Bauer, 1988, p. 233).

A ideia da criação do nada, ou seja, do nada tudo proveio, vem da expressão Creatioexnihil,
expressão que se encontra na boca da mãe dos filhos Macabeus (cf. 2Mac 7,28).

Deus cria livremente, sem necessidade alguma, sem coação alguma. No entanto, a expressão
creatio ex nihil indica um limite. O nihil é limite “do nada”, i. é.do puro nada (La Peña, 1986, pp.
134-139). A preposição “de” não aponta para algo preexistente, mas exclui toda matéria.

1.5.3. Cristo princípio, centro e fim da criação

A história iniciada com a criação tem o seu ponto culminante naquele constituído por Deus pela
ressurreição, Cristo, Palavra que ultimamente Deus falou (Hb1,1) e inclui em si a palavra sobre a
natureza da criação. Cristo é identificado como salvador e posteriormente inserido na dimensão
cósmico-criadora e, a Criação que já havia recebido a função histórico-salvífica passa a uma
conotação cristológica: Cristo é, «ao mesmo tempo, como princípio, o centro e o fim da criação»
(Cl1,15-20). Com a Sua presença, a Criação assume novas dimensões da nova criação.

1.5.4. Dificuldades e objecções

A doutrina da criação suscitou sempre grandes dificuldades e objecções no decurso do tempo no


âmbito do seu desenvolvimento. Foi negada a criação como obra de Deus. Para além do ateísmo
científico que a partir da teoria da explosão primordial diz o mundo ter um longínquo começo em

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que todas as radiações e toda a matéria estavam numa bola primordial de fogo, e do materialismo
dialéctico, encontramos outros escolhos (o dualismo, o panteísmo e o problema do mal) contra os
quais sempre embate a reflexão da Igreja, no que toca à doutrina da criação.

Santo Irineu afirmou que a criação é uma iniciativa do Pai: “A vontade de Deus Pai é o
substrato de todas as coisas” (Irineu, p.44). O Deus criador é o Pai de Jesus Cristo e toda a Trindade
opera na criação. Para ele, há somente um Deus em quem tudo tem origem. A economia salvífica
una de Deus se estende da criação até a sua consumação final, e a chave para ela é o Filho eterno,
o Verbo que se fez carne e por sua encarnação, resume em si toda a humanidade e até o universo.
O Filho, Logos de Deus é o ápice de toda a revelação, corporalmente humano em Jesus Cristo nele
se experimenta a salvação de Deus a vida em liberdade, amor e Imortalidade.

Hoje, a teologia no seu dever, apresenta-nos a criação no quadro dos escritos


neotestamentários, que também são a base dos ensinamentos do concílio Vaticano II.
Substancialmente, a criação se nos apresenta com significação da história da salvação cujo centro
é mistério da Incarnação. Segundo as Escrituras, Cristo é a perfeita «imagem de Deus invisível, o
primogénito de toda a criatura» (Cl 1, 15.18). Ele foi predestinado por Deus antes da criação
mundo, para recapitular consigo todas as coisas, as do céu e da terra (Cf. Ef 1,3.10). Isto quer dizer
que no plano de Deus, a criação e a salvação estão entrelaçadas de modo que se identificam. Assim,
a protologia tem na escatologia a sua concretização. Estes são os elementos teológicos na definição
da criação que nos levam a entender a criação como um mistério da fé em torno da qual ocorrem
discussões sobre a sua relação com a conservação, pois, «depois da criação, Deus não abandona
as coisas e as pessoas ao seu destino, sem se preocupar mais com elas» (Frosini, 2011, p.121). Esta
relação nunca se pode interromper.

1.6. A dimensão trinitária da criação

Na concepção cristã, a criação do mundo é um acontecimento trinitário: o Pai cria pelo


Filho e no Espírito santo. Durante muito tempo, a tradição teológica compreendeu a criação como
obra do Pai, Senhor de sua criação (monoteísmo).Posteriormente, desenvolveu-se uma doutrina
especificamente cristológica da criação, com ênfase na criação através da Palavra. Diz o CIC 229
«Insinuada no Antigo Testamento, revelada na Nova Aliança, a acção criadora do Filho e do
Espírito Santo, inseparavelmente unida à do Pai, é claramente afirmada pela regra de fé da Igreja
“existe um só Deus. Ele é o Pai, o Criador, o Autor, o Organizador. Ele fez todas as coisas por Si

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próprio, quer dizer, pelo seu Verbo e pela sua Sabedoria, pelo Filho e pelo Espírito Santo” “que
são como as suas mãos” (Santo Ireneu). A Criação é a obra comum da Santíssima Trindade»
(Frosini, 2011, p.124).

1.7. A Revelação em Abraão, Moisés e profetas

O projecto da revelação obedeceu um plano. “A seu tempo Deus chamou Abraão, para fazer dele
um grande povo, povo esse que depois dos Patriarcas, ensinou por meio de Moisés e dos Profetas
para que O reconhecessem como único Deus, vivo e verdadeiro, Pai providente e justo juiz, e para
que esperassem o Salvador prometido” (Concílio Vaticano II, O.C, 3). Como se pode depreender
do texto conciliar, Deus se revelou primeiro a Abraão, em seguida a Moisés, sucessivamente aos
profetas e quando chegou a plenitude dos tempos, depois de ter falado muitas vezes e de muitos
modos falou por meio do seu Filho, Jesus Cristo (Heb 1,1-2), o profeta por excelência. Neste
projecto estão envolvidos a palavra, o encontro, a experiência num percurso histórico. Os padres
conciliares não deixam margens para dúvidas que “a economia cristã, como nova e definitiva
aliança, jamais passará, e não se há-de esperar outra revelação pública antes da gloriosa
manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo” (Concílio Vaticano II, O.C, 4).

Abraão respondeu à chamada de Deus e obedeceu ao seu projecto partindo sem saber para onde
ia (Gen 12). Confiou-se aos desígnios de Deus. O resultado dessa sua confiante abertura é ser pai
de um grande povo. É nosso pai na fé. É patriarca, isto é, arquétipo da fé. O Deus que se revela
em Abraão é o Deus da promessa. Um Deus que promete e cumpre a sua promessa de salvação.

Deus revelou se a Moisés oferecendo a libertação ao povo escravo no Egipto. O Seu nome “ Sou
Aquele que Sou” revela uma solicitude de liberdade para o ser humano. Por isso o Deus de Moisés
é o Deus Libertador.

Os Profetas foram um momento importante na revelação de Deus. Eles testemunham o cuidado


de Deus pela justiça no seio da humanidade. Eles aparecem como os defensores dos pobres e dos
vulneráveis da sociedade. Assim se revela um Deus que toma partido dos pobres e injustiçados.

Nos últimos tempos Deus se revelou em Jesus Cristo como o centro e o ponto definitivo da história
de Salvação (Fisichella, 2002, p. 81). A Lei e os profetas são orientados a ele e somente nele
encontram pleno cumprimento.

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De facto toda a vida de Jesus foi marcada por eventos que revelam algo transcendente. O seu
Baptismo, a sua pregação, os milagres, a sua morte por amor e finalmente a sua gloriosa
Ressurreição só podem ser revelação de Deus.

Os Sinópticos descrevem a actividade reveladora de Jesus com os verbos pregar e ensinar. Jesus
pregou o reino de Deus e testemunhou com a sua própria vida: “Convertei-vos porque o reino de
Deus está próximo” (Mt 4, 17).

No Evangelho de São João Jesus é o Logos como sinónimo de Palavra de Deus. Deus não fez ouvir
a sua voz mas a sua palavra que se pode reconhecer somente em Cristo (Jo 5, 37-38). A
invisibilidade do Pai torna-se visível na glória do Filho, pois este é o unigénito, isto é, o único que
possui a vida mesma do Pai, o único que pode revelar o Pai dada a sua preexistência junto de Deus
(Jo 1,1-2).

Com S. Paulo pode se afirmar que quando chegou a plenitude dos tempos Deus enviou o seu Filho
nascido duma mulher […] para resgatar aqueles que estavam sob o domínio da Lei, para que
recebessem a adopção de filhos (Gal 4,4-5). Paulo identifica o tempo último esperado com o tempo
e a história de Cristo.

Na carta aos Hebreus Deus que tinha já falado nos tempos antigos muitas vezes e de muitos modos
aos pais por meio dos profetas, ultimamente, nestes dias, falou a nós por meio do Filho que
constitui herdeiro de todas as coisas e por meio do qual fez também o mundo (Heb 1, 1-2).

1.7.1. Transmissão da Revelação divina

Cristo mandou os Apóstolos que pregassem a todos os homens o Evangelho, prometido pelos
profetas e por ele cumprido e promulgado pela sua própria boca, como fonte de toda a verdade
salvadora e de toda a disciplina de costumes, comunicando-lhes assim os dons divinos (Concílio
Vaticano II, Dei Verbum, 7). Os Apóstolos foram fiéis ao mandato e anunciaram o Evangelho
com palavras e a própria vida.

Para que o Evangelho permanecesse para sempre integro e vivo na Igreja, os Apóstolos deixaram
os Bispos como seus sucessores, “entregando-lhe o seu próprio magistério” (Irineu, III,3).
Portanto, a sagrada Tradição e a Sagrada Escritura de ambos os Testamentos são como que um
espelho, no qual a Igreja, peregrinando na terra contempla a Deus, de quem tudo recebe, até chegar

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a vê-lo face a face, tal qual Ele é (1Jo 3,2).Assim a sucessão Apostólica ininterrupta ou a sagrada
Tradição é a garantia da integridade do depositum fidei.

No ensinamento dos padres conciliares, a sagrada Tradição e a sagrada Escritura, estão


intimamente unidas e aglutinadas entre si; porque brotando ambas da mesma fonte divina, reúnem-
se num mesmo caudal e tendem para o mesmo fim. A Sagrada Escritura é a Palavra enquanto
redigida sob a inspiração do Espírito Santo; a sagrada Tradição, por sua vez, transmite
integralmente aos sucessores dos Apóstolos a Palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e o
Espírito Santo aos Apóstolos para que eles com a luz do Espírito de verdade, a guardem, exponham
e difundam fielmente na sua pregação (Concílio Vaticano II; O.c.,9).

1.7.2. A atitude do homem para com a revelação divina

O homem na qualidade de destinatário da revelação tem uma atitude a tomar. Este pode-se abrir
ou permanecer indiferente. Mas como a finalidade da revelação é a salvação do homem, no sentido
que é para que o homem tenha acesso a Deus, Deus espera do homem a obediência da fé (Rom 16,
26), isto é adesão ao projecto divino.

O encontro entre Deus e a pessoa humana acontece no coração e uma vez aberto o coração
professa-se com a boca o que se crê. Paulo atesta: “Acredita-se com o coração e, com a boca, faz-
se a profissão de fé” (Rom 10,10). A abertura do coração é manifestada pelo testemunho público.
Pois a fé não é um acto privado. Porque o encontro com Deus é renovador. Deus comunica-se para
nos introduzir no seu mundo. Esse toque do coração é um acto de graça. Os Actos dos Apóstolos
descrevem muito bem esse movimento na cena de Lídia onde encontramos explicitamente
afirmado que “O Senhor abriu-lhe o coração para aderir ao que Paulo dizia” (Act 16,14).

O que Deus espera do homem perante a sua revelação, ou por outra qual deve ser a atitude do
homem perante a iniciativa salvífica de Deus? Resposta positiva, abertura a Deus, abandonar-se
a ele. É esta resposta positiva que se chama fé.

1.8. Evento Cristo


1.8.1. Quem é Jesus

Na história da humanidade foram várias e diferentes as respostas dadas a esta pergunta. Ainda
Jesus vivia e esta pergunta foi feita por Ele aos seus discípulos. As respostas dos discípulos foram

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várias: «E aconteceu que, estando ele só, orando, estavam com ele os discípulos; e perguntou-lhes,
dizendo: Quem diz a multidão que eu sou?

E, respondendo eles, disseram: João o Batista; outros, Elias, e outros que um dos antigos profetas
ressuscitou. E disse-lhes: E vós, quem dizeis que eu sou? E, respondendo Pedro, disse: O Cristo
de Deus.» (Luc 9, 18-21)

Depois da morte e da ressurreição de Jesus a pergunta sobre a identidade de Jesus contínua


pertinente. Um olhar sobre as respostas dadas ao longo da história, é útil para a compreensão do
mistério que encerra a figura de Jesus.

1.8.2. Algumas respostas da época patrística

Uma das características da fé da época patrística é o monoteísmo radical e o gnosticismo. O


Monoteísmo radical afirma a unidade de Deus e vê na afirmação da Trindade um grave risco para
a unicidade de Deus. E o Gnosticismo: movimento religioso sincretista – oferece a salvação por
meio do conhecimento. Buscando submeter à razão, o Mistério revelado. A preocupação excessiva
pelo monoteísmo radical, gerou respostas erróneas chamadas heresias. São assim chamadas pelo
Magistério da Igreja para distingui-las das respostas correctas sobre a identidade de Jesus.

Descrição de algumas heresias:

a) Gnosticismo (séc I-II)

É uma corrente de pensamento dualista: preocupa-se com a redenção e salvação entendidos como
libertação da existência material e corpórea. Rejeita tudo o que tem relação com o corpo e com a
sexualidade – dimensões que pertencem ao mundo decaído, segundo os gnósticos. Este
pensamento não admite a ideia de encarnação de Deus em Jesus Cristo.

b) Docetismo (séc II)

Este corrente de pensamento não reconhece o corpo real de Jesus nem a sua humanidade. Os
expoentes deste pensamento falam de Jesus como tendo um corpo aparente ou apenas espiritual.
Eles também negam a possibilidade da encarnação do Verbo e fazem do sofrimento na cruz uma
ilusão.

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c) Adocionismo (séc II)

Corrente que prega ia que Jesus é filho adoptivo de Deus. Cristo é visto como um simples homem
sobre o qual desceu o Espírito de Deus. Sustentam que até o seu baptismo Jesus viveu a vida de
um homem ordinário embora supremamente virtuoso. Os milagres por ele praticados seriam a
prova de que o Espírito Santo ou o Cristo desceram sobre ele sem que ele seja divino.

d) Monarquismo (séc III)

Teoria que reivindica a unidade absoluta de Deus. (um só princípio). Duas correntes principais:
Patripassionistas ou modalistas – afirmam que é o Pai que sofre na cruz. Jesus é chamado filho
apenas para significar em Deus esta modalidade segundo a qual ele encarna, sofre e morre.

e) Arianismo (séc IV, 318)

Dizia que Jesus era inferior ao Pai e ensinava que Jesus era “semelhante” ao Pai, e não Deus como
o Pai, pois Cristo havia dito: ” O Pai é maior do que eu” (Jo 14, 28), referindo-se à sua condição
humana, como “servidor” do Pai na Redenção da humanidade. Portanto Jesus é uma criatura, e
não Deus, como o Pai Criador.

f) Apolinarismo:

Dizia que Jesus não tinha alma humana, a pessoa divina do Filho de Deus supria a falta de uma
alma humana em Jesus Cristo. Esta posição se justificava pelo facto de pensar que a alma humana
era pecaminosa. E Jesus, por ser filho de Deus, não podia ter alma humana. Esta viria a “manchar”
a divindade de Cristo.

g) Nestorianismo

Partindo do princípio de que Jesus tem duas naturezas (humana e divina), em Cristo há também
duas pessoas: uma Pessoa humana unida à Pessoa divina. Assim umas coisas eram feitas por Jesus-
Deus e outras por Jesus-Homem. Maria não seria Mãe de Deus, mas apenas Mãe de Jesus-Homem.
O erro estava nisto: Jesus tem duas naturezas, mas uma só pessoa. A natureza humana é assumida
pela Pessoa Divina do Filho de Deus. Essa união chama-se união “hipostática”. O sujeito ou agente
da acção é a pessoa, não a natureza.

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h) Monofisimo

Dizia que, em Cristo, havia uma só natureza. A natureza divina “absorvia a natureza humana. Era
como se Jesus tivesse só a natureza divina. Sua heresia chamou-se monofisismo, que significa uma
só natureza.

i) Monotelismo

Ensina que em Cristo havia uma só vontade divina. Desaparecia, assim, o “querer humano” de
Jesus. Em 681, com o terceiro concílio de Constantinopla, foi encerrada a questão: Ficou definido
que Jesus tem vontade divina e vontade humana.

1.8.3. Respostas correctas sobre a identidade de Jesus

Local e Duração do
Temas Principais
Designação Concílio

Jesus é: Deus; Deus verdadeiro do Deus


20 de Maio a 25 de Julho
Niceia I verdadeiro, gerado e não criado,
de 325
Consubstancial ao Pai…

Jesus foi concebido pelo poder do Espírito


22 de Junho a 17 de Julho Santo no seio da virgem Maria. Maria é
Éfeso
de 431 mãe do Filho de Deus: Maternidade divina
de Maria.

Condenação do monofisismo. A
8 de Outubro a 1 de existência em Jesus Cristo de duas
Calcedónia
Novembro de 451 naturezas completas e perfeitas na unidade
da pessoa, que é divina.

Constantinopla 7 de Novembro de 680 a


Condenação do monotelismo.
III 16 de Setembro de 681

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Na Sagrada Escritura encontramos a resposta sobre a identidade de Jesus:

No prólogo de João encontramos a resposta: Jesus é o Verbo incarnado, é a Palavra feita carne (Jo
1,14). Jesus é o Filho, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade.Sendo Jesus a segunda Pessoa da
Trindade Santíssima é, logicamente, Deus. É assim que ele é verdadeiramente Deus e
verdadeiramente homem. Jesus é o Filho de Deus que tomou a carne humana no seio da Virgem
Maria pelo poder do Espírito Santo (Lc 1,35). É a única pessoa da Santíssima Trindade que se
incarnou por nós homens e para a nossa salvação. É Deus feito homem. É Deus mesmo que desceu
dos Céus, veio entre nós, para caminhar connosco. Porque o Deus dos cristãos é um Deus próximo,
é um Deus que caminha com o seu povo. Depois da sua morte na cruz, ressuscitou. Ele venceu a
morte. É um combate que durou três dias. Período que para os Judeus, transcorrido, não havia mais
esperança (cf. Jo 10,39).

Enquanto o Pai, a primeira Pessoa da Santíssima Trindade é não gerada, é a fonte é origem de tudo
(agenetos), o Filho, a segunda Pessoa é gerada (genetos) e por sua vez o Espírito Santo, a terceira
Pessoa da Trindade procede do Pai e do Filho. Portanto, enquanto o Filho provem por via da
geração o Espírito Santo é por via da processão.

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CAPÍTULO 2: A IGREJA

2.1. Conceito de Igreja

2.1.1. Terminologia e etimologia

O termo “Igreja” deriva do termo latino “ecclesia”, e este, por sua vez deriva do verbo grego
“καλεο” que significa “chamar, convocar”. Designa a assembleia do povo geralmente de carácter
religioso.

O termo grego “κυριακα” do qual derivam os termos “church”, “kirchie” significa “pertencente
ao Senhor”. Em hebraico, Igreja diz-se “qahal”.

Na linguagem cristã, “Igreja” designa a assembleia litúrgica, mas também a comunidade local ou
toda a comunidade universal dos crentes.Igreja é o povo que Deus reúne no mundo inteiro.Igreja
é o povo de Deus. Cristo é a cabeça deste povo que é o seu corpo.

2.2. Mistério da Igreja


2.2.1. Pressupostos da Eclesiologia do Vaticano II

A concepção da Igreja, predominante na teologia católica anterior ao Vaticano II, caracteriza-se


por uma atenção privilegiada aos aspectos cristológicos, e portanto, à sua dimensão institucional e
visível.

Os estudos bíblicos e patrísticos, lidos no seu contexto histórico, ajudaram na redescoberta da


interioridade da Igreja em Cristo e no Espírito. Repensa-se a comunidade eclesial como realidade
histórica. A Igreja passa a ser vista como ‘sacramento’, como ‘povo de Deus’, como ‘comunhão’
de pessoas e de igrejas. O Vaticano II rejeitará o exclusivismo da realidade espiritual ou da
realidade simplesmente visível, para propor o seu ‘mistério’ de comunhão, que brota da Trindade
e para ela tende (Forte, 1992).

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O Vaticano II caraterizou-se desde o início como Concilio da Igreja. Como se pode ler nestas
palavras do Cardeal Suenens: O Concílio há-de ser um Concílio ‘de Ecclesia’ e há-de articular-se
sobre dois pilares: ‘de Ecclesia ad intra’ e de Ecclesia ad extra’. Que é Igreja? Que é que a Igreja
faz? (Suenens, 1962).

Sobre o que é Igreja, responderá a Lumen Gentium e o que ela faz? Responderá a Constituição
Pastoral Gaudium et Spes.

2.2.2. Eclesiologia da Lumem Gentium

Este capítulo apresenta o Mistério da Igreja à luz de Cristo e do seu mistério. A Igreja como
sacramento da realização do sinal salvífico da Trindade. A Igreja é o povo reunido na unidade do
Pai, do Filho e do Espírito Santo (LG, 4, extraído de De domenica oratione, 23 de Cipriano).

Apresentando a Igreja como mistério, fruto da leitura dos textos de S. Paulo, supera-se a visão
puramente visibilista da Igreja que concebia a Igreja como Sociedade perfecta inequalis.

A Igreja é sacramento enquanto é expressão da vontade salvífica de Cristo, uma salvação universal.

A Igreja é como um sacramento ou sinal da íntima união com Deus e da unidade de todo o género
humano. É também um instrumento para o alcance de tal união e unidade (LG 1). «A Igreja que
compreende no seu seio os pecadores, santa ao mesmo tempo e sempre necessitada de purificação,
incessantemente se aplica na penitência e no seu renovamento» (LG 8).

O Concílio esclareceu que não há coincidência entre o Reino de Deus e a Igreja. A Igreja é o seu
gérmen e início.

O Concílio também esclareceu que não há conflito entre a Igreja peregrina e Igreja celeste, portanto
entre a Igreja visível e invisível, ponto de muita controvérsia, auxiliando-se da analogia do mistério
da Incarnação do Verbo, pois constituem uma realidade única e complexa. E afirma claramente
que esta é a única Igreja de Cristo e tal subsiste na Igreja Católica, governada pelo sucessor de
Pedro e pelos bispos em comunhão com ele, ainda que fora do seu corpo se encontrem realmente
vários elementos de santificação e de verdade, elementos que, na sua qualidade de dons próprios
da Igreja de Cristo, conduzem para a unidade católica (LG 8). O emprego do verbo subsist em vez
de simplesmente est é sem dúvidas uma renovação.

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Existe uma continuidade histórica radical na sucessão apostólica entre a Igreja que Cristo fundou
e a Igreja católica.

O termo subsist é, porém, matéria de muita discussão, pois há quem não acha muita distância e
mesmo diferença com o termo est que era usado anteriormente. Urgia um esclarecimento. O
documento Dominus Iesus apresenta o seguinte esclarecimento. Usando o verbo “subsistir”, o
Vaticano II queria afirmar duas verdades (Decl. Dominus Iesus, 16-17):

A Igreja de Cristo, não obstante as divisões dos cristãos, continua a existir plenamente só na Igreja
católica.

Por outro lado, existem numerosos elementos de santidade e de verdade fora da sua composição,
nas igrejas e comunidades eclesiais que ainda não vivem em plena comunhão com a Igreja católica.

As comunidades que não conservam um válido episcopado e a genuína e integra substância do


mistério eucarístico, não são igrejas em sentido próprio. Os que, porém, foram baptizados nestas
comunidades estão, pelo Baptismo, incorporados em Cristo e, portanto, vivem numa certa, se bem
que imperfeita, comunhão com a Igreja (UR, 3)

Essas comunidades não são Igreja porque os elementos desta Igreja já realizada existem reunidos
na sua plenitude na Igreja católica e sem essa plenitude nas demais comunidades. Porém, o Espírito
não se recusa a servir-se delas como instrumentos de salvação (UR, 3; Ut Unum sint, 14). Esta
admissão é uma grande novidade.

A eclesiologia do Vaticano é centrada na Eucaristia. Há um nexo entre a Eucaristia e a Igreja


enquanto é a Eucaristia que faz a Igreja e a Igreja celebra a Eucaristia.

A Igreja segundo o Vaticano II está radicada no mistério de Deus uno e trino e nas missões do
Filho e do Espírito Santo. O Vaticano II superando todos os reducionismos na visão da Igreja, no
I capítulo da Lumen gentium faz uma leitura de índole trinitária da Igreja. Na visão da Lumen
gentium a Igreja vem da Trindade, é estruturada à imagem da Trindade e vai em direcção do
cumprimento trinitário da história. Vindo do alto, oriens ex alto, como o seu Senhor (Lc 1, 78),
plasmada do alto e em caminho em direcção ao alto, enquanto é o regnum Christi iam praesens in
mysterio (LG 5).

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2.2.3. Maria, figura da Igreja

No seio do povo de Israel Deus suscitou uma mulher, serva humilde do Senhor para que depois de
ter falado muitas vezes e de muitos modos pudesse falar pelo seu próprio Filho. Maria depois de
um diálogo com o anjo, decidiu obedecer e colaborar no projecto de Deus (Lc 1, 26-38).Concebeu
a Palavra e teve lugar a Incarnação do Verbo.

A Igreja ao logo da sua história formulou algumas verdades dogmáticas sobre Maria mãe de Jesus.

Apresentamos as mais importantes:

a) Maternidade divina de Maria (Éfeso-431)

A formulação da verdade sobre a maternidade divina de Maria foi definida no Concílio de Éfeso,
sob o título de sugere o título theotókos. Éfeso assumiu a ideia da maioria conciliar de matriz
alexandrina que defendia que Maria é geradora de Deus. Maria gerou segundo a carne o Verbo de
Deus que se fez carne (DS, 525). Para Éfeso, Jesus tem duas naturezas: humana e divina, unidas
sem distinção nem separação mútua, união hipostática.“Se alguém não confessar que o Emanuel é
Deus no verdadeiro sentido da Palavra, e que, por isso, a santa virgem é geradora de Deus porque
gerou segundo a carne o Verbo de Deus feito carne seja anátema” (DS, 252).

b) Virgindade de Maria

A virgindade é a consagração do coração e do corpo a Deus. Ela tem como finalidade acolher
plenamente o amor de Deus. O Vaticano II reafirmou o símbolo niceno-constantinopolitano
segundo o qual “por nós homens e para a nossa salvação desceu dos céus, e incarnou pelo Espírito
Santo no seio da virgem Maria” (LG, 52). Maria foi sempre virgem corporal e moralmente. A
afirmação da virgindade de Maria permite-nos falar da concepção virginal de Jesus pela força do
Espírito Santo.

c) Imaculada Conceição

A doutrina sobre a Imaculada Conceição pretende afirmar que Maria foi preservada do pecado
original, como preparação para a sua maternidade divina. No projecto de redenção que Deus traçou
para a humanidade era necessário que a Mãe do Filho de Deus fosse preservada de todo o contacto
com o pecado. Pio IX declarou oficialmente esta doutrina na encíclica Ineffabilis Deus a 8 de
Dezembro de 1854. Declarámos que “no primeiro momento da concepção, a bem aventurada

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28

virgem Maria foi pela graça singular e o privilégio de Deus em vista dos méritos de Jesus Cristo,
Salvador do género humano, preservada, intacta de toda a mancha do pecado original” (DS, 2803).

Ela foi chamada por Deus na qualidade de primeira redimida a contribuir no plano salvífico de
Cristo (LG, 8).

O discurso sobre a Imaculada Conceição não é um discurso de natureza ética, mas é um testemunho
de fé em favor da possibilidade humana de se abrir à vontade de Deus.

d) Assunção de Nossa Senhora-15 de Agosto

A Escritura não dá nenhuma informação específica sobre a assunção de Maria. Em Jerusalém, há


dois textos que se referem à assunção de Maria. Um em siríaco e outro do evangelho apócrifo de
Tiago. O primeiro diz que Maria morreu (dormiu), mas quando a sepultavam, uma nuvem
envolveu o seu corpo e desapareceu. O outro texto diz que Maria foi enterrada, mas ao terceiro dia
o seu corpo já não estava no túmulo.

Os cristãos acreditam que se Maria teve uma concepção e uma vida excepcionais, também pode
ter tido um fim excepcional. Assim, foram levados a acreditar na assunção de Maria.

O mais antigo exame da morte de Maria está nos escritos de Epifânio (+403). Ele apresenta duas
possibilidades: que Maria morreu ou não morreu e confessa que não sabe qual é a verdadeira.

Já no séc V havia uma forte convicção de que o corpo de Maria não se decompôs no túmulo, mas
que tinha sido elevado logo depois da sua morte, reunido à sua alma e transformado pelo poder do
Espírito.

Logo cedo em muitas igrejas orientais começou a ser celebrada a festa da dormitio de Maria que
só chegou a Roma no século VI, embora persistissem as dúvidas, como no caso de São Beda
(+735).

A assunção de Nossa Senhora foi declarada dogma por Pio XII em 1950 na encíclica
Munificentissimus Deus, onde se afirma: “proclamamos (...) e definimos ser um dogma revelado
por Deus que quando a etapa de sua vida terrena terminou a imaculada mãe de Deus e sempre
virgem Maria foi elevada de corpo e alma à glória do seu Filho” (DS, 3903).

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29

Era apropriado que o corpo de Maria não fosse deixado à sorte da terra. Proclamar a assunção de
Maria dogma de fé é afirmar que ela participa da plenitude da ressurreição que Deus prometeu a
todos os povos quando ressuscitou Jesus.

A doutrina da assunção do corpo e da ama de Maria significa que toda a pessoa é salva. Nesse
ínterim, a mãe de Jesus tal como está no céu já glorificada de corpo e alma é imagem do começo
da Igreja como deverá ser consumada no tempo futuro. Assim, também brilha aqui na terra como
sinal de esperança segura e de conforto para o povo de Deus em peregrinação até que chegue o dia
do Senhor (LG, 66).

2.4. Os Sacramentos na Igreja

2.4.1. Conceito

Sacramentos são sinais visíveis e eficazes da graça de Deus instituídos por Cristo.

2.4.2. Divisão dos Sacramentos

Os sacramentos estão divididos de acordo com a sua natureza e graça em três grupos: Sacramentos
de Iniciação cristã: Baptismo, Confirmação e Eucaristia. Estes introduzem o ser humano na vida
cristã. O Baptismo nos configura com Cristo na sua morte e ressurreição, é a porta de entrada, a
Confirmação vem selar o Baptismo e nos torna testemunhas de Cristo e por sua vez a Eucaristia é
o alimento de que sem configurou com Cristo de modo que não seja mais ele quem vive mas Cristo
que vive nele (Gl 2,20). Eucaristia é o Sacramento central da vida da Igreja. Segundo o Papa Bento
XVI existe um influxo causal da Eucaristia nas próprias origens da Igreja. Pelo facto que “a
Eucaristia é Cristo que se dá a nós, edificando-nos continuamente como seu corpo. Portanto, na
sugestiva circularidade entre a Eucaristia que edifica a Igreja e a própria Igreja que faz a Eucaristia,
a causalidade primária está expressa na primeira fórmula: a igreja pode celebrar e adorar o mistério
de Cristo presente na Eucaristia, precisamente porque o próprio Cristo se deu a ela no sacrifício da
Cruz” (Bento XVI, 2007, 14).

Os sacramentos da cura: Penitência ou Reconciliação e Unção dos Enfermos também conhecido


por Santa unção. Tempos houve que este sacramento foi chamado Extrema-unção. Estes nos curam
da ferida ou doença causada pelo pecado.

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30

Sacramentos da Comunhão ou da Missão: Ordem e matrimónio. O matrimónio tem a missão de


garantir as gerações, cooperar com o Criador na geração de seres humanos. Executando o mandato
“crescei e multiplicai-vos” (Gn 1,28) e é comunhão entre marido e mulher que não são dois mas
uma só carne. O sacramento da ordem tem a missão de transformar os seres humanos gerados no
matrimónio em filhos de Deus administrando os sacramentos da iniciação cristã e outros
sacramentos. A comunhão neste sacramento é com Cristo, uma vez que o Sacerdote configura-se
com Cristo Sacerdote, aliás ele é alter Christus. E dada a indissolubilidade esponsal entre Cristo e
sua Igreja, também é comunhão com a Igreja.

2.5. Inculturação do Evangelho nas culturas dos povos evangelizados

2.5.1. Conceito

É a incarnação do Evangelho nas culturas e ao mesmo tempo introdução dessas culturas na vida
da Igreja. Inculturação significa uma íntima transformação dos autênticos valores culturais através
da sua integração no cristianismo e o enraizamento do cristianismo nas diversas culturas
(Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, CCDDS, 4).

2.5.2. Necessidade

De uma parte, a penetração do Evangelho num dado ambiente socio-cultural fecunda como de
dentro, fortifica, completa e restaura em Cristo as qualidades do espírito e os dotes de cada povo.
Doutra parte, a Igreja assimila esses valores, no caso que os mesmos sejam compatíveis com o
Evangelho, para aprofundar o anúncio de Cristo e para melhor exprimi-lo na celebração litúrgica
e na vida multiforme da comunidade dos fiéis.

O fim principal da Inculturação é de ajudar o povo a acolher e a viver melhor a mensagem


evangélica. Percebe-la com as suas categorias mentais. De modo que o Evangelho continuando
uma Novidade (Boa Nova) não uma novidade estranha o que abre espaço à duplicidade ou
incoerência. É igualmente para participar com mais envolvimento nos actos litúrgicos.

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31

2.5.3. Exigências

Evite-se o perigo que a introdução de elementos culturais não pareça aos fiéis como retorno ao um
estado anterior à Evangelização (CCDDS, 32). Inculturação não se deve confundir com sincretismo
religioso

2.5.4. Competências

Todo o movimento de inculturação, depende unicamente da autoridade da Igreja. Tal autoridade


compete à Sé Apostólica que a exerce através da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina
dos Sacramentos; compete também nos limites previstos pelo Direito, às Conferências episcopais
e ao Bispo diocesano. Nenhum outro, absolutamente, mesmo se é sacerdote, acrescente, tire ou
mude algo de sua iniciativa, em matéria litúrgica. A inculturação não é portanto, deixada à
iniciativa pessoal dos celebrantes, nem à iniciativa colectiva da assembleia (CCDDS, 37). A nível
de uma nação, o processo da Inculturação Litúrgica é da responsabilidade da Conferência
Episcopal a qual apoiando-se de peritos em diversas áreas, como é a da Bíblia, Liturgia e Teologia
e expoentes das religiões não cristãs, pode discernir, avaliar e legitimar, em consonância com a
Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos,uma dada experiência de
inculturação ou o que deve modificado nas celebrações litúrgicas de acordo com as tradições e da
mentalidade do povo (CCDDS, 30, 62-66).

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32

CAPÍTULO III: A PESSOA HUMANA À LUZ DA FÉ CRISTÃO

3.1. Conceito

A pessoa humana é uma criatura de Deus, justificada por Jesus Cristo e prometida à divinização.

A visão cristã do ser humano supõe uma estrutura própria de quem crê, espera e ama.

Crer, esperar e amar são 3 operações reunidas que têm uma significação religiosa e designam a
verdadeira relação ao Deus verdadeiro, o Deus de Jesus Cristo.

Ora a relação dos homens a Deus é sempre de ordem activa, da classe do fazer e introduz sempre
uma dinâmica.

Esta visão do ser humano, não deve ser confundida com outras maneiras de abordar a questão do
homem. Trata-se do que o cristianismo confessa e compreende do comportamento humano quando
ele considera que a maneira de ser homem não é sem relação a Deus. O cristianismo confessa que
a condição humana é, como tal, vocação a crer, esperar e amar.

3.1.1. O protótipo do ser humano é Jesus Cristo

a) ECCE HOMO – Eis o Homem

O cristianismo aprende a olhar a Jesus Cristo e descobrir quem é o ser humano e o que está
chamado a ser. É agora e aqui que em Jesus Cristo aprendemos o que significa “tornar-se homem”.

Quando nós dizemos de Jesus “Eis O Homem” confessamos e afirmamos que Ele é aquele em
quem o sentido tem sentido, o homem novo que dá à humanidade sua razão de ser.

Jesus Cristo é alguém que pertenceu à história dos homens, que pertenceu a nossa história, que é
um dos nossos. Porquê Jesus?

A resposta é que na história humana Jesus é o único homem, o único verdadeiro, que foi sempre
verdadeiro com a sua humanidade. Jesus foi desde a sua encarnação – do princípio ao fim de sua
vida – totalmente homem e verdadeiro com a sua humanidade. Jesus não brincou com a nossa
humanidade, não fez de contas que era homem; ele foi até ao fim, até as consequências do seu ser
Homem.

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33

No seu caminho de humanidade Jesus é aquele em quem se manifesta a graça da criação que
consiste em ser Filho de Deus, vivendo a dependência a Deus e a autonomia da responsabilidade
pessoal.

Ele reconhece e aceita a sua condição de filho e não quer de modo algum tomar o lugar do Pai.

É analisando o comportamento de Jesus que nós chegaremos a conhecer nele o HOMEM: “EIS O
HOMEM”. O justo sem pecado – o homem, o verdadeiro sem pecado, aquele que soube guardar a
todo custo a sua relação filial absolutamente plena de humanidade – a excepção que confirma a
regra porque todos os homens são pecadores. Ele é o único de entre todos, Ele é o único por todos,
ele não é o solitário mas o solidário.

b) O Homem, é Jesus Tentado

(Uma leitura de Lc 4,1-13)

Podemos afirmar que Jesus Cristo é protótipo do Homem justamente no momento em que é
tentado. O texto de Lucas deixa claro que Jesus é tentado na sua qualidade de «filho» e que as
tentações sugerem que um «filho» pode encontrar a sua felicidade abandonando a sua condição de
filho, alguém dependente do seu progenitor, e tomando a condição de «Pai». As três tentações
apresentam três falsos apelos que levam ao uso de um poder sobre as coisas, sobre os outros e
sobre Deus. Tal poder só é possível quando a pessoa deixa de ocupar o seu lugar na sua relação
com as coisas, com os outros e com Deus.

Jesus permanece homem, permanece filho na sua relação com Deus e nos mostra que ser homem
é ocupar o seu lugar na criação sem jamais se cansar de ser filho e de se relacionar correctamente
de modo a compor com o universo e com os outros.

Na primeira tentação S. Lucas coloca em evidência que ser humano é respeitar uma estrutura
antropológica que diz que ninguém é humano sozinho. O ser humano faz-se por via da relação
saudável com os outros. Não se pode ser só. Ao falar do pão, o texto sublinha:

3.1.2. O Laço biológico da vida humana

O homem tem necessidade de pão para viver mas ele pode também morrer quando come demais
(excesso de pão).

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34

3.1.3. O Laço social como lugar cultural

O pão é um alimento transformado e não bruto, por isso evoca a realidade do homem em sociedade
e sempre em cultura. O homem é um animal bio-cultural.

3.1.4. O Laço social como laço ético

O pão evoca uma situação política, onde a justiça impõe o dar a cada um o necessário para viver e
subsistir a justiça social. As necessidades que fazem o homem são as mesmas que fazem a história:
comer, beber, vestir – condições de justiça elementar (Cfr. Mt 25 e Karl Marx).

3.1.5. O Laço social como laço simbólico e laço religioso

A nossa relação a Deus passa sempre pela relação aos outros. O laço religioso é interno ao laço
social. Ele permite uma abertura ilimitada ao outro. Nesta resposta de Jesus há uma espécie de lei,
princípio:

NÃO ...SEM; NÃO há laço religioso SEM laço biológico-social; NÃO há justiça para mim SEM
justiça para meu irmão.

A segunda tentação deixa um recado sobre a relação humana e humanizadora entre as pessoas.
Quando o tentador diz que viver é dominar os outros, é exercer violência sobre os outros, é ser
totalitário, dominando e subjugando, Jesus responde que ser homem é aceitar que viver é entrar
em comunhão, é estar ao serviço da comunhão e da paz enquanto renúncia á dominação e á
violência.

A terceira tentação sugere que ser plenamente humano é viver sem Deus, é recusar assumir as
limitações humanas, é recusar a morte. Jesus diz-nos que ser homem é consentir a viver como
homens que conhecem a dor, o sofrimento e a morte.

3.2. O homem é um ser com dignidade


3.2.1. Conceito da Dignidade

A dignidade da pessoa humana radica na noção de criação a imagem e semelhança de Deus.


Perante Deus, cada indivíduo representa a dignidade de género humano. A motivação mais
profunda da dignidade da pessoa humana está na revelação oferecida pelo Verbo encarnado. Jesus

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veio revelar que o pai ama todos os homens independentemente das suas condições sociais (Mt.
16,26; Lc 12,23). Por isso a igreja ensina que: O homem imagem vivente de Deus vale por si
mesmo, não por aquilo que sabe, produz ou que possui. É a sua dignidade de pessoa que confere
valor aos bens que ele usa para se exprimir e realizar-se7.

O homem atinge esta dignidade quando, libertando-se da escravidão das paixões, tende
para o fim pela livre escolha do bem e procura a sério e com diligente iniciativa os meios
convenientes (Gs. nº 17).

3.3. O homem é um ser de Consciência


3.3.1. Conceito

A consciência é o núcleo mais secreto e o santuário da pessoa. Ela não é uma função, mas é a
estrutura do ser humano e pode ser identificada com a essência do ser humano. Ela revela, de modo
admirável, a lei do imperativo categórico 8, que se cumpre pelo amor a Deus e ao próximo (GS,
16).“Na intimidade da sua consciência, a pessoa humana descobre uma lei que ela não impõe a si
mesma, mas a qual se vê obrigada a obedecer. Chamado a amar o bem e a evitar o mal, a voz da
consciência pode, quando necessário, falar-lhe ao coração mais especificamente: faz isto, evita
aquilo. Isto porque o homem tem no seu coração uma lei escrita por Deus. Obedecer a ela constitui
a verdadeira dignidade da pessoa, que será julgada de acordo com tal lei (Cfr. Rm. 2,15-16).

3.3.2. A consciência é uma faculdade moral.

A consciência é elemento que “manifesta aos homens as suas obrigações morais e os impele a
cumpri-las”9.A pessoa humana é receptora de normas que deve executar na intimidade da sua
consciência onde descobre uma lei que lhe é imposta. É importante sublinhar a individualidade da

7
.CEI=CONFERENZA EPISCOPALE ITALIANA, La Verita vi fara Liberi, Catechismo degli adulti; Ed.Città del
Vaticano Roma 1995, pp 486. Cf: Gn. 2,9 «Iahweh Deus fez crescer do solo toda espécie de árvores formosas de ver
e boas de comer, e a àrvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal».Cf.Gn. 3,9-13
«Iahweh Deus chamou o homem: onde estas?…respondeu o homem, tive medo porque estou nu, e me escondi, Ele
retorquiu e quem ti fez saber que estas nu? O homem respondeu, a mulher que puseste junto de mim…Deus disse a
mulher que fizeste? a mulher respondeu a serpente me seduziu e eu comi».
8
O imperative categórico foi formulado por Kant quando diz “age de modo a que a tua acção possa ser elevada a lei
universal”, ou por outra faz o bem e evita o mal
9
2 K.H.Peschke, Ética Cristiana 1 UrbanianaUniversityPress, Roma 1986, 275.

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36

pessoa humana na descoberta e execução da tal lei o que concorre para a explicação da
responsabilidade pessoal do sujeito ao cometer qualquer acto humano.

3.3.3. A Consciência pode ser recta ou errónea

Quando a consciência se encontra de acordo com a norma moral objectiva chama-se consciência
certa; no caso contrário chama-se consciência errónea. A existência de doutrinas e correntes
filosóficas que deturpam a verdade sobre o ser humano, pode influenciar a rectidão de uma
consciência. A formação errada da consciência designa-se ignorância invencível e o mal cometido
por causa da ignorância invencível, é um mal, embora não possa ser imputado á pessoa que o
comete.

3.3.4. Consciência certa ou duvidosa

A consciência é certa quando é capaz de formular um juízo moral sem medo de se enganar.
Quando, porém, existe alguma possibilidade de se enganar no juízo que se emite, então está-se
perante uma situação de consciência duvidosa.

É importante ter presente que a certeza não coincide com a rectidão; isto aplicado a nossa reflexão,
quer dizer que nem sempre a consciência certa é uma consciência recta. Por outro lado, a
consciência duvidosa não coincide com consciência errónea: consciência recta tem a ver com a
bondade moral do acto que se pratica.

Quando alguém está perante uma consciência duvidosa deve suspender o juízo e recorrer à ajuda
externa.

3.3.5. A Primazia da Consciência

A voz da consciência, por ser a voz de Deus, tem de ser seguida sempre, mesmo que a sua decisão
pareça pouco clara. Na sua primazia a consciência é considerada como a norma subjectiva suprema
e final da moralidade. Mas, porque o juízo prático da consciência depende da razão humana, que
naturalmente não é infalível, pode acontecer que a consciência faça juízos errados. Isso quer dizer
que a consciência, como juízo do acto, não está isenta de erro. Mas, mesmo quando ela erra, por
ignorância invencível, a consciência não perde a sua dignidade (João Paulo II, 1993, 62).

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37

3.3.6. A Formação da consciência

Há uma obrigação absoluta de obedecer a consciência. Por causa disso é importante a formação
da consciência. A consciência é bem formada quando é recta e verídica, quer dizer, quando formula
o seu juízo segundo o bem estabelecido pela sabedoria do criador. Para os crentes, a formação da
sua consciência deve basear-se no ensino diligente da Sagrada Escritura e na doutrina da Igreja,
pois, por Cristo, a Igreja Católica foi constituída mestra da verdade e, por isso, ela tem a missão
de fazer conhecer e ensinar a verdade que é Cristo. Ademais, pela sua autoridade, ela declara e
confirma os princípios morais que dimanam da natureza humana (Concílio Vaticano II, D.H.,14).

3.3.7. O Homem é um ser responsável e imputável

A Responsabilidade é a capacidade que os seres humanos têm de responder pelos seus actos. Os
seres humanos são considerados capazes de agir responsavelmente uma vez que são dotados de
liberdade10.

A responsabilidade implica, que o ser humano pode e deve responder pelos seus actos, que, por
radicarem na sua liberdade, lhe são imputáveis. Ela é a característica do homem adulto e
consciente.

3.3.8. Imputabilidade

A imputabilidade é dever de responder pelos seus actos. Concorrem para a imputabilidade as


seguintes condições:

a) Liberdade de acção

b) Consciência do acto cometido

c) Conhecimento crítico dos seus actos.

3.3.9. Factores que afectam a imputabilidade

a) –A falta de conhecimento crítico por:

10
Designa-se por liberdade a faculdade de agir ou não agir, de fazer isto ou aquilo, de praticar actos deliberados.

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38

9 Ignorância, sobretudo a invencível. A ignorância vencível não exclui a imputabilidade mas


pode diminuir o seu grau;

9 Erro,que consiste no conhecimento falso ou defeituoso que leva à uma avaliação


equivocada ou errada da moralidade de uma determinada acção.

9 Distracção que é uma falta, momentânea, de conhecimento, de percepção ou de


consciência. A não imputabilidade de uma acção depende do grau de distracção que
acompanha essa acção.

c) Factores que impedem o consentimento pleno da vontade:

9 As Paixões enquanto reacções instintivas, internas produzidas pelo bem ou pelo mal
percebidos intuitivamente. Embora sejam factores necessários de integração da pessoa
humana elas diminuem a imputabilidade porque impedem o funcionamento normal da
razão e também a sua atenção; algumas paixões constituem um forte incentivo para acção
e até podem diminuir ou destruir a vontade;

9 O Medo entendido como repressão da vontade por causa de um perigo iminente ou previsto,
o qual pode ser grave ou ligeiro. Em geral o medo não elimina a imputabilidade, mas a
diminui. Só não existe imputabilidade quando o medo endurece pois paralisa
completamente a vontade;

9 Violência que é a força compulsiva física ou psíquica extrínseca à vontade.

9 Alguns hábitos, disposições inatas, e motivações inconscientes As disposições são


inclinações de uma pessoa sobre uma determinada coisa, dependendo da história da pessoa
(infância) e a situação hereditária. Por seu turno, o hábito é a segunda etapa em que há a
repetição de uma acção, de maneira que ela fica estabelecida; se o hábito for positivo leva
à virtude, e se for mau ao vício, que deve ser combatido.

9 As sugestões de massas (meios de comunicação e publicidade).

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3.4. O homem é susceptível ao pecado

3.4.1. Conceito do pecado.

O conceito de “pecado” é eminentemente teológico e designa, no sentido estrito da palavra, um


acto voluntário de ruptura com Deus. O ser humano não geneticamente determinado e isso abre a
possibilidade de se construir paulatinamente. Quando há uma recusa de viver segundo o melhor
das suas possibilidades biológicas, psíquicas e amorosas há recusa da própria humanização e da
humanização dos demais.

Assim o pecado não é uma fatalidade. Não tem necessariamente que acontecer, ele é uma
possibilidade inscrita no plano da criação – porque o homem é vocacionado a ser livre (à
liberdade), consciente, responsável, único e irrepetível. A possibilidade de pecado é fundamental
para que o projecto de Deus acerca do homem seja bom e o ser humano seja livre de suas decisões.

3.4.2. O pecado Original

Chama-se pecado original à condição natural ou inata, na qual todo o ser humano nasce. O ser
humano nasce numa condição marcada pelo pecado, enquanto ruptura da relação com Deus.O
pecado original procura designar uma espécie de estrutura condicionante do homem em sociedade,
um modelo colectivo do “pecado”, de alienação humana. Estado agravado incessantemente, pelos
actos pecaminosos dos indivíduos de determinada comunidade ou sociedade. É estado natural do
ser humano e não ruptura realizada (um acto) por uma colectividade em determinado momento de
sua história.

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40

CAPÍTULO IV: PENSAMENTO DA IGREJA

CATÓLICA EM QUESTÕES DE BIOÉTICA

4.1. Conceito

A bioética é o estudo sistemático da conduta humana, no âmbito das ciências da vida e da saúde,
considerada á luz de valores e de princípios morais.

O âmbito das ciências da vida e da saúde compreende a consideração da biosfera para além da
medicina.

A bioética é a orientação que diz respeito às intervenções sobre a vida, entendida em sentido
extensivo que deve compreender também as intervenções sobre a vida e saúde do homem.

4.2. A vida humana

4.2.1. O início da vida humana

A - Reprodução natural

O ser humano começa a existir quando no acto sexual o óvulo que sempre tem o cromossoma X
fica fecundado pelo espermatozóide que tem ou cromossoma X ou Y, resultando numa menina -
XX, ou num rapaz -XY, dependendo do tipo de espermatozóide que fecunda o óvulo.

4.2.2. Sexualidade Humana

Conceito

A regulamentação da sexualidade humana é firmemente radicada na carne e no sangue e toca um


conjunto de factores:

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1. Sexo cromossómico: depende da constituição genética que distingue cromossomas


sexuais diferentes, XX na mulher e XY no homem. Essa fórmula preside todas as diferenciações
ulteriores11.

2. Sexo gonádico: distingue na mulher órgãos genitais do tipo feminino, os ovários, e no


homem, os testículos, órgãos do tipo masculino. Nesse contexto, distingue-se também o sexo
enzimático, isto é, a existência de substâncias químicas provenientes dos ganes que provocam as
determinações gonádicas que aparecem no crescimento do indivíduo (Laversin, 755).

3. Sexo endócrino: concerne as secreções hormonais das glândulas endócrinas que ficam
derramadas directamente no sangue do indivíduo para permear todo o organismo. O sexo
endócrino é essencialmente mas não unicamente relacionado as gônatas e determina o aspecto
exterior do indivíduo (Laversin, 755).

4. Sexo morfológico: concerne as características sexuais secundárias exteriores – órgãos


genitais externos, estatura, abundância, disposição do pêlo, o tom da voz etc. Trata-se do sexo do
estado civil (Laversin, 755).

5. Sexo psicológico: constituído pelas características afectivas e intelectuais de cada sexo


(Laversin, 755).

6. Sexo funcional: toca o papel do indivíduo de realizar um acto sexual seguido ou não por
procriação (Laversin, 756).

7. Sexo social: refere à vida na sociedade, segundo o papel de cada sexo fora do acto sexual,
por exemplo, na vida familiar, no campo profissional12.

11de LAVERSIN, “I Fondamenti Sacridell’ Ordinedella Creazionenel Matrimonio Naturale”, p. 755. – A Santa

Sé publicou dois documentos importantes sobre a Educação Sexual: SACRA CONGREGAZIONE PER
L’EDUCAZIONE CATTOLICA, “Orientamenti Educativisull’ Amore Umano, Lineamentidi Educazione
Sessuale”, Roma, 1 Novembre 1983, in Enchiridion Vaticanum, Documenti Ufficialidella Santa Sede, 1983-
1985, Vol. 9, Edizione Dehoniane, Bologna, Art. No. 417-530.
PONTIFICIO CONSIGLIO PER LA FAMIGLIA, “Sessualità Umana: Verità e Significato, Orientamenti
Educativi in Famiglia”, Cittàdel Vaticano, 8 Dicembre 1995, in Enchiridion Vaticanum, Documenti
Ufficialidella Santa Sede, 1994-1995, Vol. 14, EdizioneDehoniane, Bologna, Art. No. 3344-3533 .

12de LAVERSIN, “I FondamentiSacridell’OrdinedellaCreazionenel Matrimonio Naturale”, p. 756. – BOTERO faz

as observações seguintes: “Uomo e donna sono profondamenteuguali; sono complementari; però, conun tipo
dicomplementarità reciproca, non statica ma dinamica, non soltantomatrimoniale-procreativa ma anchesociale”
(Citando Guzzetti), p. 103. – Il sesso relazionaleèdunqueungiustorapportouomo-donna, ungiustorapportodi me conil
mio prossimo; ungiustorapportoio-tu che comporta non tanto la negazione e la scomparsadell’io e del tu ma la

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42

4.2.3. Desvios sexuais

São considerados desvios sexuais todas as condutas sexuais contrárias às normas


comummente estabelecidas numa determinada sociedade.

a) Homossexualidade: Atracção erótica predominante e persistente entre pessoas do mesmo


sexo. Os actos homossexuais são intrinsecamente uma desordem por falta de uma união
sexual genuína com a parte unitiva e ou procriativa.

b) Pederastia ou Pedofilia actividade sexual entre um(a) adulto(a) e um(a) menor (Peschke,
1989, 454).

c) Zoofilia – coito com um animal

d) Sadismo – prazer sexual conseguido mediante crueldade exercida sobre o outro.

e) Masoquismo – prazer sexual conseguido mediante suporte da crueldade e humilhação.

4.2.4. Pecados de natureza sexual

a) Prostituição – é a prática do acto sexual como moeda de comércio.

b) Adultério – é a prática do acto sexual fora do matrimónio. Ele ofende a justiça, e a


fidelidade (Peschke, 1989, 444).

c) Violação – é a prática do acto sexual com uma pessoa contra a sua vontade. O violador
usa a força física, e o engano ou busca uma pessoa sem o uso da razão.

d) Incesto – prática sexual entre pessoas com afinidade de parentesco.

e) Fornicação – toda a relação sexual fora do quadro social do matrimónio ou do


casamento.

negazione dell’egoismodell’io e l’affermazione della creatività, l’inventiva, la comparsa dellanovità (Citando


Masellis), p. 104.
Lo stomacofunziona da solo, e lo stessoaccadeconaltriorgani ...; gliorganisessualiinvece,
hannobisognodiunpartner, per il loro funzionamentoadeguato: anzi, l’attoconiugale non
soltantocoinvolgegliorganigenitali ma richiedeanchel’accompagnamentodialtrigesti, qualicarezze, parole, baci,
sguardi ...p. 105-106.
È la dimensione relazionalechedàil senso pienodellasessualità, in quanto mette in risalto la “convenzione”
delmaschio e dellafemmina a formarel’uomointegrale - p. 107: See - BOTERO, EticaConiugale, Per
unRinnovamentodellaMoraleMatrimoniale, p. 102-108.

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43

f) Concubinato é o estado do homem e da mulher que vivem como cônjuges sem contrair
o matrimónio cristão.

4.3. Actos contra a vida Humana

4.3.1. A Contracepção

É o mecanismo de interferência no processo natural da fecundação. Esta pode ser preventiva,


impedindo a fecundação, ou abortivo, impedindo o desenvolvimento do óvulo fecundado.

4.3.2. Reprodução assistida

Consiste na assistência médica do processo de reprodução humana. Existem várias técnicas de


assistência de acordo com os motivos da necessidade da assistência.

a) Inseminação artificial

Consiste na colocação do esperma na vagina ou numa outra parte do aparelho reprodutivo


feminino13 por meios artificiais. Este método é usado para responder à questões ligadas à
esterilidade ou impotência masculina. Em princípio, esta prática não apresenta dificuldades morais
quando o esperma provém do cônjuge.

Quando por outras razões o esperma é de um doador, há dificuldade de manutenção dos princípios
matrimoniais, ou seja, a unidade matrimonial, a dignidade dos cônjuges, a vocação dos pais de
ficar pai e mãe exclusivamente através um do outro e o direito do filho de ser concebido e nascer
no matrimónio e através do matrimónio14.

b) Fecundação in vitro e transferência de embriões

Esta técnica consiste em colocar O esperma (do marido ou do doador) e os óvulos em contacto
num vaso para realizar a fecundação, em um laboratório. Este processo responde a questões de

13 O lugar da colocação do espermatozóide [vagina, cervix, útero, trompas] depende dos resultados do exame médico
na mulher. As causas da impotência ou esterilidade masculina ou feminina têm que serem conhecidas. A inseminação
artificial fica exigida só quando tentativas de eliminação dessas causas não dão resultados bons. Il problema etico da
chiarire è il seguente: fino a che punto l’atto medico, l’intervento del medico o biologo che sia, ha carattere di aiuto
terapeutico oppure diventa atto sostitutivo o manipulatorio?: See - SGRECCIA, Manuale di Bioetica I, p. 505.
14 SGRECCIA, ManualediBioetica, p. 520; CONGREGAZIONE PER LA DOTTRINA DELLA FEDE, Domum

Vitae, II, 6. CONGREGAZIONE PER LA DOTTRINA DELLA FEDE, Domum Vitae, II, 2.

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esterilidade feminina ou em ambos os cônjuges. Esta técnica coloca um problema de base que é o
do futuro dos embriões já fecundados e não alocados a uma mãe. Por isso a Igreja desencoraja esta
técnica.

c) Maternidade substitutiva

Trata-se de uma prática de contratação de mulheres que com pagamento assumem a gestão de
embriões fecundados in vitro com óvulos e espermatozóides de outras pessoas ou dos bancos de
embriões (Screccia, 2007, p, 552). Esta técnica é igualmente desencorajada pela Igreja.

4.3.3. O Aborto

O aborto é a interrupção da gestação que pode ser espontânea ou provocada.

O aborto espontâneo é aquele que acontece sem a concorrência humana.

O aborto provocado pode ser terapêutico ou por outros motivos. O aborto terapêutico é interrupção
da gravidez para salvar a vida salvável da mãe ou da criança, trata-se daqueles casos em que se
deve escolher entre deixar as duas vidas morrer ou salvar uma das duas vidas (Häring, 1982, p.
32). A Igreja apenas condena o aborto provocado por outros motivos que não sejam a questão
terapêutica.

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CAPÍTULO V: PENSAMENTO SOCIAL DA IGREJA CATÓLICA

Os princípios permanentes da doutrina social da Igreja constituem os verdadeiros pilares do


ensinamento social católico. Eles radicam no princípio da dignidade da pessoa humana e podem
ser desenvolvidos em temas referentes à vida em sociedade.

5.1. A Justiça

A justiça consiste na constante e firme vontade de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido.
Ela se traduz na atitude determinada pela vontade de reconhecer o outro como pessoa com direitos
e deveres. A justiça social representa um verdadeiro desenvolvimento da justiça geral, reguladora
das relações sociais com base no critério da observância da lei. A justiça social, exigência conexa
com a questão social, diz respeito aos aspectos sociais, políticos e económicos e, sobretudo, à
dimensão estrutural dos problemas e das respectivas soluções.

A justiça mostra-se particularmente importante no contexto actual, em que o valor da pessoa, da


sua dignidade e dos seus direitos, a despeito das proclamações de intentos, é seriamente ameaçado
pela generalizada tendência a recorrer exclusivamente aos critérios da utilidade e do ter. Também
a justiça, com base nestes critérios, é considerada de modo redutivo, ao passo que adquire um
significado mais pleno e autêntico na antropologia cristã. A justiça, com efeito, não é uma simples
convenção humana, porque o que é «justo» não é originariamente determinado pela lei, mas pela
identidade profunda do ser humano.

A plena verdade sobre o homem permite superar a visão contratualista da justiça, que é visão
limitada, e abrir também para a justiça o horizonte da solidariedade e do amor: «A justiça sozinha
não basta; e pode mesmo chegar a negar-se a si própria, se não se abrir àquela força mais profunda
que é o amor». Ao valor da justiça a doutrina social da Igreja acosta o da solidariedade, enquanto
via privilegiada da paz.

5.1.1. A Caridade

Entre as virtudes no seu conjunto e, em particular, entre virtudes, valores sociais e a caridade,
subsiste um profundo liame, que deve ser cada vez mais acuradamente reconhecido. A caridade,
não raro confinada ao âmbito das relações de proximidade, ou limitada aos aspectos somente
subjectivos do agir para o outro, deve ser reconsiderada no seu autêntico valor de critério supremo

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e universal de toda a ética social. Dentre todos os caminhos, mesmo os procurados e percorridos
para enfrentar as formas sempre novas da actual questão social, o «mais excelente de todos» (1
Cor 12,31) é a via traçada pela caridade.

Os valores da verdade, da justiça, do amor e da liberdade nascem e se desenvolvem do manancial


interior da caridade: a convivência humana é ordenada, fecunda de bens e condizente com a
dignidade do homem, quando se funda na verdade; realiza-se segundo a justiça, ou seja, no respeito
efectivo pelos direitos e no leal cumprimento dos respectivos deveres; é realizada na liberdade que
condiz com a dignidade dos homens, levados pela sua mesma natureza racional a assumir a
responsabilidade pelo próprio agir; é vivificada pelo amor, que faz sentir como próprias as
carências e as exigências alheias e torna sempre mais intensas a comunhão dos valores espirituais
e a solicitude pelas necessidades materiais. Estes valores constituem pilares dos quais recebe
solidez e consistência o edifício do viver e do agir: são valores que determinam a qualidade de
toda a acção e instituição social.

A caridade pressupõe e transcende a justiça: esta última «deve ser completada pela caridade». Se
a justiça «é, em si mesma, apta para “servir de árbitro” entre os homens na recíproca repartição
justa dos bens materiais, o amor, pelo contrário, e somente o amor (e portanto também o amor
benevolente que chamamos “misericórdia”), é capaz de restituir o homem a si próprio».Não se
podem regular as relações humanas unicamente com a medida da justiça: «A experiência do
passado e do nosso tempo demonstra que a justiça, por si só, não basta e que pode até levar à
negação e ao aniquilamento de si própria, se não se permitir àquela força mais profunda, que é o
amor plasmar a vida humana nas suas várias dimensões.

5.1.2. Bem comum

O bem comum é a dimensão social e comunitária do bem moral. Ele não consiste na simples soma
dos bens particulares de cada sujeito do corpo social. Sendo de todos e de cada um, é e permanece
comum, porque indivisível e porque somente juntos é possível alcançá-lo, aumentá-lo e conservá-
lo, também em vista do futuro. Assim como o agir moral do indivíduo se realiza fazendo o bem,
assim o agir social alcança a plenitude realizando o bem comum.

Uma sociedade que, em todos os níveis, quer intencionalmente estar ao serviço do ser humano é a
que se propõe como meta prioritária o bem comum, enquanto bem de todos os homens e do homem
todo.

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As exigências do bem comum derivam das condições sociais de cada época e estão estreitamente
conexas com o respeito e com a promoção integral da pessoa e dos seus direitos fundamentais.
Essas exigências referem-se, antes de mais, ao empenho pela paz, à organização dos poderes do
Estado, a uma sólida ordem jurídica, à salvaguarda do ambiente, à prestação dos serviços
essenciais às pessoas, alguns dos quais são, ao mesmo tempo, direitos do homem: alimentação,
morada, trabalho, educação e acesso à cultura, saúde, transportes, livre circulação das informações
e tutela da liberdade religiosa.

O bem comum empenha todos os membros da sociedade: ninguém está escusado de colaborar, de
acordo com as próprias possibilidades, na sua busca e no seu desenvolvimento.

A responsabilidade de perseguir o bem comum compete, não só às pessoas consideradas


individualmente, mas também ao Estado, pois que o bem comum é a razão de ser da autoridade
política. Na verdade, o Estado deve garantir coesão, unidade e organização à sociedade civil da
qual é expressão, de modo que o bem comum possa ser conseguido com o contributo de todos os
cidadãos.

O bem comum da sociedade não é um fim isolado em si mesmo; ele tem valor somente em
referência à obtenção dos fins últimos da pessoa e ao bem comum universal de toda a criação.
Deus é o fim último de suas criaturas e por motivo algum se pode privar o bem comum da sua
dimensão transcendente, que excede, mas também dá cumprimento à dimensão histórica.

5.1.3. Subsidiariedade

É o princípio que preconiza a entreajuda entre as pessoas, instituições e sociedades salvaguardando


a autonomia que lhes é devida. A subsidiariedade entendida em sentido positivo, como ajuda
económica, institucional, legislativa oferecida às entidades sociais menores, corresponde uma série
de implicações em negativo, que impõem ao Estado abster-se de tudo o que, de fato, restringir o
espaço vital das células menores e essenciais da sociedade. Não se deve suplantar a sua iniciativa,
liberdade e responsabilidade.

O princípio de subsidiariedade protege as pessoas dos abusos das instâncias sociais superiores e
solicita estas últimas a ajudar os indivíduos e os corpos intermédios a desempenhar as próprias
funções. Este princípio impõe-se porque cada pessoa, família e corpo intermédio tem algo de
original para oferecer à comunidade. A experiência revela que a negação da subsidiariedade, ou a

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sua limitação em nome de uma pretensa democratização ou igualdade de todos na sociedade, limita
e, às vezes, também anula, o espírito de liberdade e de iniciativa.

Com o princípio de subsidiariedade estão em contraste formas de centralização, de burocratização,


de assistencialismo, de presença injustificada e excessiva do Estado e do aparato público.

5.1.4. Solidariedade

A solidariedade confere particular relevo à intrínseca sociabilidade da pessoa humana, à igualdade


de todos em dignidade e direitos, ao caminho comum dos homens e dos povos para uma unidade
cada vez mais convicta.

A solidariedade se apresenta sob dois aspectos complementares: o de princípio social e o de virtude


moral

A solidariedade deve ser tomada antes de mais nada, no seu valor de princípio social ordenador
das instituições, em base ao qual devem ser superadas as «estruturas de pecado», que dominam os
relações entre as pessoas e os povos, devem ser superadas e transformadas em estruturas de
solidariedade, mediante a criação ou a oportuna modificação de leis, regras do mercado,
ordenamentos.

A solidariedade é também uma virtude moral, não um sentimento de compaixão vaga ou de


enternecimento superficial pelos males sofridos por tantas pessoas próximas ou distantes. Pelo
contrário, é a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum; ou seja, pelo
bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todo

O termo «solidariedade» exprime em síntese a exigência de reconhecer, no conjunto dos laços


que unem os homens e os grupos sociais entre si, o espaço oferecido à liberdade humana para
prover ao crescimento comum, de que todos partilhem.

5.1.5. Boa governação

Esta caracteriza-se pela capacidade de ter um projecto, orientado a favorecer uma convivência
social mais livre e mais justa, em que vários grupos de cidadãos, mobilizando-se para elaborar e
exprimir as próprias orientações, para fazer frente às suas necessidades fundamentais, para
defender legítimos interesses.

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A comunidade política e a sociedade civil, embora reciprocamente ligadas e interdependentes, não


são iguais na hierarquia dos fins. A comunidade política está essencialmente ao serviço da
sociedade civil e, em última análise, das pessoas e dos grupos que a compõem. A sociedade civil,
portanto, não pode ser considerada um apêndice ou uma variável da comunidade política: antes,
ela tem a preeminência, porque justifica radicalmente a existência da comunidade política.

O Estado deve fornecer um quadro jurídico adequado ao livre exercício das actividades dos sujeitos
sociais e estar pronto a intervir, sempre que for necessário, e respeitando o princípio de
subsidiariedade, para orientar para o bem comum a dialéctica entre as livres associações activas
na vida democrática. A sociedade civil é heterogénea e articulada, não desprovida de ambiguidades
e de contradições: é também lugar de embate entre interesses diversos, com o risco de que o mais
forte prevaleça sobre o mais indefeso.

5.1.6. A Paz: fruto da justiça e da caridade

A paz é um valore um dever universal e encontra o seu fundamento na ordem racional e moral da
sociedade que tem as suas raízes no próprio Deus, fonte primária do ser, verdade essencial e bem
supremo. A paz não é simplesmente ausência de guerra e tampouco um equilíbrio estável entre
forças adversárias, mas se funda sobre uma correcta concepção da pessoa humana e exige a
edificação de uma ordem segundo a justiça e a caridade.

A paz é fruto da justiça (cf. Is 32,17), entendida em sentido amplo como o respeito ao equilíbrio
de todas as dimensões da pessoa humana. A paz está em perigo quando ao homem não é
reconhecido aquilo que lhe é devido enquanto homem, quando não é respeitada a sua dignidade e
quando a convivência não é orientada em direcção para o bem comum.

Para a construção de uma sociedade pacífica e para o desenvolvimento integral dos indivíduos,
povos e nações, é necessária a defesa e a promoção dos direitos humanos. A paz é fruto também
do amor.

A Igreja proclama, com a convicção da sua fé em Cristo e com a consciência de sua missão, que a
violência é um mal, que a violência é inaceitável como solução para os problemas, que a violência
não é digna do homem. A violência é mentira, pois que se opõe à verdade da nossa fé, à verdade
da nossa humanidade. A violência destrói o que ambiciona defender: a dignidade, a vida, a
liberdade dos seres humanos.

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5.1.7. Defesa da cultura

A palavra «cultura» indica, em geral, todas as coisas por meio das quais o homem apura e
desenvolve as múltiplas capacidades do seu espírito e do seu corpo; se esforça por dominar,
pelo estudo e pelo trabalho, o próprio mundo; torna mais humana, com o progresso dos
costumes e das instituições, a vida social, quer na família quer na comunidade civil; e,
finalmente, no decorrer do tempo, exprime, comunica aos outros e conserva nas suas obras,
para que sejam de proveito a muitos e até à inteira humanidade, as suas grandes experiências
espirituais e as suas aspirações (GS, 53).

Daqui se segue que a cultura humana implica necessariamente um aspecto histórico e social e
que o termo «cultura» assume frequentemente um sentido sociológico e etnológico. É neste
sentido que se fala da pluralidade das culturas.

5.1.8. A Família

A íntima comunidade da vida e do amor conjugal, fundada pelo Criador e dotada de leis próprias,
é instituída por meio da aliança matrimonial, ou seja pelo irrevogável consentimento pessoal. Deste
modo, por meio do acto humano com o qual os cônjuges mutuamente se dão e recebem um ao
outro, nasce uma instituição também à face da sociedade, confirmada pela lei divina. Em vista do
bem tanto dos esposos e da prole como da sociedade, este sagrado vínculo não está ao arbítrio da
vontade humana. O próprio Deus é o autor do matrimónio, o qual possui diversos bens e fins, todos
eles da máxima importância, quer para a propagação do género humano, quer para o proveito
pessoal e sorte eterna de cada um dos membros da família, quer mesmo, finalmente, para a
dignidade, estabilidade, paz e prosperidade de toda a família humana. Por sua própria índole, a
instituição matrimonial e o amor conjugal estão ordenados para a procriação e educação da prole,
que constituem como que a sua coroa. O homem e a mulher, que, pela aliança conjugal «já não
são dois, mas uma só carne» (Mt. 19, 6), prestam-se recíproca ajuda e serviço com a íntima união
das suas pessoas e actividades, tomam consciência da própria unidade e cada vez mais a realizam.
Esta união íntima, já que é o dom recíproco de duas pessoas, exige, do mesmo modo que o bem
dos filhos, a inteira fidelidade dos cônjuges e a indissolubilidade da sua união (GS, 48).

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