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CURSO FORMAÇÃO DE

mediadores de leitura

Espaços e
Ambiências
PARA MEDIAÇÃO
DA LEITURA
Cleudene de Oliveira Aragão

Gra
tui
to!

10
FASCÍCULO
O futuro de um leitor é tramado nos
lares e nas salas de aula, nas bibliotecas
O QUE, COMO E
públicas e escolares, na imprensa e na ONDE LEMOS?
rede social da internet.
Você já parou para pensar qual seria o Portanto, os objetivos desse módulo
Juan Mata (2008)
melhor lugar para ler? Em casa, na escola, são: (a) apresentar os tipos de leitores e a
na praça ou em uma biblioteca? E onde sua relação com os objetos de leitura; (b)
será que liam os nossos avós? Havia esco- refletir sobre o letramento literário e a me-
las suficientes? Existiam bibliotecas onde diação de leitura; (c) descobrir espaços e
eles moravam? ambiências em que as práticas de leitura se
E se entrássemos em uma máquina do processam em nossos dias; (d) refletir sobre
tempo e pudéssemos voltar à Idade Média? como podemos ocupar ou criar espaços
Onde as pessoas liam? Poderíamos entrar para a mediação da leitura.
juntos em um mosteiro na Península Ibérica Temos a certeza de que se você já che-
e ver os livros sendo copiados à mão e de- gou até aqui, é porque esse assunto lhe in-
pois, na hora do almoço, veríamos um dos teressa demais. Juntos, poderemos chegar
monges lendo para os colegas, mas depois mais longe ainda. Não deixe de acessar a
descobriríamos que a maioria da população sua sala de aula virtual, o nosso Ambiente
não tinha acesso à leitura, ou porque não Virtual de Aprendizagem (AVA), use e abuse
sabia ler ou porque os livros, em relação aos do que preparamos para você e depois é só
dias atuais, eram poucos, muito raros e qua- cair em campo. Fique com a gente:
se impossíveis de se adquirir.
Voltando aos nossos dias, o que, como ava.fdr.org.br
e onde as pessoas estão lendo? Para refle-
tirmos aqui sobre espaços e ambiências
leitura, precisamos pensar
propícios à leitura
também sobre que tipo de leitores so-
mos hoje e que espaços de leitura esta-
ocupando.
mos ocupando

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1.
LEMOS DA MESMA
MANEIRA COMO
LÍAMOS NO
PASSADO?
Não somos hoje o mesmo tipo de
leitores que aqueles monges medie-
vais que acabamos de visitar na ima-
ginação. A vida frenética que experi-
mentamos nos oferece uma grande
diversidade de materiais e ocasiões
para a leitura, conforme demonstra
Lucia Santaella (2014), que defende
a existência de quatro tipos de lei-
tores, de acordo com seus modos de
ler, seus objetos de leitura e os espaços
onde realizam a leitura: o leitor con-
templativo, o leitor movente, o leitor
imersivo e o leitor ubíquo. Vamos conhe-
cê-los melhor?
• O Leitor Contemplativo é aquele da
leitura “individual, solitária, silencio-
sa”. O leitor que se dedica a um livro
de maneira concentrada, ou que con-
templa um quadro na solidão, num
espaço de recolhimento: “Esse tipo
de leitor tem diante de si objetos e
signos duráveis, imóveis, localizáveis,
manuseáveis: livros, pinturas, gravu-
ras, mapas, partituras. É o mundo do
papel e do tecido da tela.”

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• O Leitor Movente é aquele “leitor O fato de que muitos de nós hoje nos
fugaz, novidadeiro, de memória comportemos como leitores ubíquos não
curta, mas ágil”. É o leitor de sinais e exclui nossa atuação como cada um dos
imagens da cidade, de letreiros, das leitores anteriores, pois ainda lemos livros
páginas dos jornais e revistas, das de maneira solitária, ainda ativamos nos-
imagens da fotografia, mas tam- sa percepção dos textos e das imagens
bém das imagens em movimento em movimento, ainda mergulhamos nas
do cinema: “leitor de formas, volu- navegações virtuais nos computadores e
mes, massas, interações de forças, lemos em qualquer circunstância com os
movimentos; leitor de direções, smartphones. E ainda mais, nossa atuação
traços, cores; leitor de luzes que se nas redes sociais passa a ser mais ativa, pro-
acendem e se apagam...” dutiva, pró-ativa, o que leva a autora, Lucia
• O Leitor Imersivo inaugura um Santaella, a esboçar um novo conceito de
novo modo de ler, pois tem agora à Leitor Prossumidor: “produtor e consumi-
sua disposição uma rede de informa- dor de textos multimídia”.
ções trazidas pelos computadores, Diante dessas novas facetas leitoras e de
potencializada, sobretudo, pelo pessoas que agora são também produto-
advento da internet e da na- ras de textos verbais e multimodais, como
vegação por seus conteúdos fazer a mediação? O mediador pode atuar
múltiplos: “...esse leitor co- apenas como um apresentador de livros?
necta-se entre nós e nexos, Balestrini apresenta um dos caminhos: “É
seguindo roteiros multilineares, provável que, do ponto de vista educativo,
multissequenciais e labirínticos mediar, na era das tecnologias digitais,
que ele próprio ajuda a construir ao implique enfrentar o desafio de se mover
interagir com os nós que transitam com engenhosidade entre a palavra e a
entre textos, imagens, documenta- imagem, entre o livro e os dispositivos di-
ção, músicas, vídeo etc.” gitais...” (BALESTRINI, 2010, p. 35 Apud SAN-
• O Leitor Ubíquo é aquele que lê TAELLA, 2014, p.36)
em qualquer tempo e em qualquer
lugar, devido à portabilidade dos
novos dispositivos móveis, prin-
smartphones, que
cipalmente os smartphones
permitem acessar os materiais de
leitura (de todo tipo) em qualquer
circunstância: “Ao leve toque do seu
dedo no celular, em quaisquer cir-
cunstâncias, ele pode penetrar no
ciberespaço informacional...”

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2.
PRÁTICAS DE
PUXANDO LETRAMENTO,
PROSA LETRAMENTO
Essas reflexões nos levam a
LITERÁRIO E MEDIAÇÃO
pensar como se dão as práticas DE LEITURA
letradas em nossos dias? E o que Para começar, precisamos falar sobre uma
são mesmo as práticas letradas palavra muito importante hoje para os estu-
ou práticas de letramento? dos da leitura: o letramento.. O que enten-
Vamos descobrir juntos? demos por letramento?
O termo letramento, tradução da pala-
vra inglesa literacy, surge no Brasil, em mea-
dos dos anos de 1980, para dar conta de
fenômenos e processos de leitura e escrita
que iam além do processo de alfabetização
(tal como era entendida naquele momen-
to). Magda Soares, em uma das discussões
sobre a dificuldade de definir de maneira
precisa o termo letramento, apresenta a
seguinte formulação: “... o desenvolvimento
das habilidades que possibilitam ler e es-
crever de forma adequada e eficiente, nas
diversas situações pessoais, sociais e esco-
lares em que precisamos ou queremos ler
ou escrever diferentes gêneros e tipos de
textos, em diferentes suportes, para diferen-
tes objetivos, em interação com diferentes
interlocutores, para diferentes funções.”
(SOARES, 2014, p.181)

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A discussão sobre Letramento, ou sobre
a necessidade de falar de letramentoS, no
plural, ou ainda sobre MULTIletramentos, é
bastante profunda e complexa, já que os le-
tramentos estão necessariamente vincula-
dos às mais diversificadas e complexas prá-
ticas sociais mediadas pela escrita em que
todos estamos envolvidos em nossa vida
cotidiana (em casa, na escola, no trabalho,
na igreja, na associação de moradores, no
clube de leitura etc.).
Na escola, as chamadas práticas de lei-
tura são aquelas que buscam recriar, em
sala de aula, situações reais de leitura ten-
do em vista os seus usos sociais. (BATISTA,
2014, P.257-258)
De todos os letramentos, interessa-nos
especialmente o letramento literário,
que seria “o processo de apropriação da
literatura enquanto construção literária de
sentidos” (PAULINO; COSSON, 2009, p.67),
o que significa que devemos nos apropriar
dos textos literários, fazer deles nosso pa-
trimônio, inclui-los em nosso repertório de
vida e de leituras e dar a eles sentidos cons-
truídos por nós mesmos, nessa íntima rela-
ção de interação com os textos. (COSSON,
2014, p.25).
O conceito de letramento literário pre-
tende rever uma ideia de que a literatura na
escola apenas pode ser “ensinada”, substi-
tuindo gradativamente essa prática mais
“conteudística” pela busca de uma vivência,
sempre pessoal e significativa, no encontro
do estudante com os textos literários.

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PUXANDO
PROSA E o que é exatamente a mediação de sem necessariamente fins didáticos; e o
leitura? segundo, quando se dá no âmbito da edu-
Para que o letramento literário
Poderíamos dizer que a mediação de cação formal, tem por objetivo desenvolver
aconteça, não pode faltar o contato
leitura é a ação de promover o encontro a competência leitora, com fins didáticos
direto do leitor com a obra, a
entre o leitor e o livro para que, a partir e, em geral, com conteúdos passíveis de
construção de uma comunidade de
desse encontro, haja a escuta do leitor e a avaliação. Nos dois casos, no entanto, de-
leitores, a ampliação do repertório
conversa entre os livros, os leitores e o me- vemos buscar a transformação do indi-
literário e a realização de atividades
diador com o propósito de que cada um víduo, para que seja capaz de refletir so-
sistematizadas e contínuas
dos participantes e todos juntos construam bre si mesmo e sobre a própria realidade,
(COSSON, 2014, P.185-186).
os mais diversos sentidos para o texto: como afirmava Paulo Freire: “... a leitura da
O letramento literário não começa
“Para aqueles que são mediadores entre os palavra não é apenas precedida pela leitu-
nem termina na escola.
leitores e os textos, é enriquecedor pensar ra do mundo, mas por uma certa forma de
Essa apropriação que fazemos dos
como leitura esse momento do bate-papo ‘escrevê-lo’ ou de ‘reescrevê-lo’, quer dizer,
textos literários nos acompanha
sobre o lido, o intercâmbio acerca dos sen- de transformá-lo através de nossa prática
durante toda a nossa trajetória vital.
tidos que um texto desencadeia em nós.” consciente.” (FREIRE, 2000, p.20)
Em famílias com certa formação
(BAJOUR, 2012, P.23).
leitora e condições de acesso a livros,
É importante entendermos que a me-
esse processo pode começar desde
diação de leitura é diferente do ensino Mediador de Leitura
o nascimento da criança, que ouve Usamos o termo mediador de
de leitura: embora ambos visem à for-
histórias antes de dormir ou tem leitura “para designar a pessoa que
mação do leitor e o desenvolvimento do
acesso a livrinhos no banho. se interpõe entre o texto e o receptor,
seu letramento, a primeira tem por fina-
Os pais, nesses casos, são os tendo em vista facilitar sua recepção.”
lidade promover a aproximação do leitor
primeiros mediadores de leitura. (BAJARD, 2014, p.45)
aos textos literários ou não, para fruição,

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Em geral, esperamos do professor que cumpra na sala de aula leituras possíveis, mencionar as conexões que se pode estabele-
as duas funções, o que vai requerer dele certas competências e o cer com outros textos e outras linguagens. O mediador é alguém
planejamento de momentos específicos. No entanto, a mediação que sabe provocar os leitores, sabe relacionar os textos literá-
de leitura também pode ser feita por outros profissionais e nos am- rios com a vida, sabe instigar viagens imaginárias: “no que
bientes mais diversos: por bibliotecário(a)s, contadore(a)s de his- diz respeito à leitura de textos literários, o trabalho do mediador
tórias, escritore(a)s, agentes de leitura, artistas em geral, dirigentes precisa visar, para além da compreensão, a imaginação de outros
comunitário(a)s, dirigentes religioso(a)s, coordenadore(a)s de clu- mundos possíveis e a transformação do leitor e de sua realidade”
bes de leitura, dono(a)s de bares, cabeleireiro(a)s, açougueiro(a)s... (FERNANDES, 2011, p. 329).
Entendemos que ser mediador requer saber falar sobre a li- A mediação de leitura pode ser realizada nos mais diversos
teratura e os livros, debater os temas, conectá-los com diversas espaços e situações, mas isso você vai saber daqui a pouco.

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3.
ESPAÇOS E
AMBIÊNCIAS PARA A
MEDIAÇÃO DE LEITURA
A ambiência de leitura (NÓBREGA, 2002) tem
a ver com a necessidade de criar ambientes
convidativos para que o leitor se sinta con-
fortável em seu contato com a leitura. No en-
tanto, o ambiente de leitura propício não é
somente uma questão de lugar: “Também é
uma questão de ter os livros que queremos,
de com qual humor estamos, com quanto
tempo contamos e se seremos ou não in-
terrompidos.” Também depende de nossa
disposição para a leitura, se gostamos dela
ou não e como lemos naquele momento, se
por obrigação ou prazer (CHAMBERS, 2007,
p.13. Tradução nossa).
Começamos esse fascículo perguntan-
do: O que, como e onde lemos? Vimos
que somos vários leitores em um só, que
temos modos de ler que variam do “solitá-
rio” ao “solidário” (YUNES, 2009, p.71), que
participamos de várias práticas letradas em
casa, na escola, na igreja, no trabalho, na
associação de moradores, no clube de lei-
tura e nos mais improváveis espaços onde
haja livros ou demais textos.

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PUXANDO
PROSA
Em um país em que muitas vezes os
pais não conseguem ofertar a seus
filhos nem o alimento suficiente,
A escola é, segundo Angela Kleiman isso pode parecer uma utopia. No
(2007), a principal agência de letramen- entanto, os pais que podem garantir
to de nossa sociedade. Em geral, está mais o direito à leitura a seus filhos
voltada para as questões de aquisição da (sonho de todos nós), devem levar
tecnologia da leitura e escrita, mas acre- em consideração o seguinte: “[...]
ditamos que pode e deve também atuar crianças leitoras nascem, e crescem,
como a principal agência de letramento li- e vivem, e criam em ambientes em
terário. É cada vez mais comum escolas em que a leitura desimpedida ocorra
que a mediação de leitura é planejada com espontânea e frequentemente:
cuidado, de várias maneiras: na otimização ambientes com muitos e bons
do espaço da biblioteca escolar e realiza- livros, com muitas e boas histórias
ção ali de atividades de leitura; na criação e poemas, com muitas palavras e
de projetos de leitura que envolvem toda a desafiadoras frases desajustadas,
escola, como academias literárias e produ- novidadeiras, voadoras,
ção de livros com textos dos alunos; seja na atrapalhadas, consoladoras,
Devido ao fato de que a leitura não mais
criação de cantinhos da leitura dentro da brincalhonas... Palavras mudas e
se dá apenas no ambiente escolar e muito
sala (que devem deixar os livros disponíveis tagarelas. (BRITTO, 2015, p.58)
menos tendo apenas livros ou materiais im-
para livre escolha dos alunos); na prepa-
pressos como objetos de leitura ou suportes
ração dos espaços comuns da escola com
para os textos, vamos falar aqui de alguns
exibição de temas literários, textos, autores,
espaços e ambiências em que a mediação
temas que estão sendo lidos; na preparação
de leitura é possível.
de eventos literários de homenagens a au-
Em seu livro Manual de reflexões sobre

PUXANDO
tores locais (contemporâneos ou não); ou
boas práticas de leitura, Eliana Yunes (2012)
ainda na preparação dos alunos para par-
e demais autoras apresentam alguns “espa-

PROSA
ticiparem de bienais do livro, com leitura
ços privilegiados de promoção da leitura”:
prévia dos autores presentes.
família, escola, biblioteca, outros espaços
e mediadores, acervos itinerantes. Vamos
chamar aqui os três primeiros de espaços
“convencionais” de mediação de leitura. Há muitos caminhos para
A família (ou a casa) poderia ser o pri- promover a leitura literária na
meiro espaço de mediação – e em muitos escola. Você já pensou em
casos é –, no entanto, isso depende de con- tentar também?
dições materiais e de tempo, além da pre-
disposição dos pais.

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Por fim, a biblioteca, tratada aqui como
um dos espaços convencionais de media-
ção de leitura, também vem se reinventan-
do ao longo dos anos. As bibliotecas esco-
lares ainda carecem de melhor tratamento
por parte dos gestores, mas receberam, ao
longo dos anos (através de políticas públi-
cas, hoje, infelizmente, descontinuadas),
excelentes acervos de literatura, cuja sele-
ção ficava a cargo de instituições de grande
prestígio no campo literário. No entanto,
ainda temos que “tirar os livros da caixa”
(PAIVA, 2012) e transformar essas bibliote-
cas em espaços de deleite e não de castigo,
além da necessidade de contratar profissio-
nais qualificados para a função.
Quanto às bibliotecas públicas, que
podem ser municipais, estaduais ou fede-
rais e são mantidas por órgãos governa-
mentais, vemos que passaram de espaço
sagrado para “salvamento e esconderijo”
de livros intocáveis como eram no passado
e têm assumido papel de centros culturais
e de mediação de leitura abertos à comuni-
dade. Muitas bibliotecas, além de sua fun-
ção primordial de oferecer livros e opções
de leitura e pesquisa, também propiciam a
seus frequentadores o contato com a cria-
ção literária de nossos dias, com a presença
de escritores e contadores de histórias. Os
bibliotecários, por exemplo, exercem esse
papel de sedução para a leitura.

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PUXANDO
PROSA
Você conhece as bibliotecas
públicas da sua cidade?
Qual a sua biblioteca favorita?
O que acontece por lá?
Ela tem algum valor especial
para você?

Vamos agora tratar de alguns espaços e As universidades, embora possam ser

DESAFIO
propostas para a mediação de leitura que consideradas como espaços convencionais
chamaremos aqui de “não convencionais”. de fomento à leitura, vêm criando projetos
Quais você indicaria? de leitura junto à comunidade, na qual são
O primeiro deles seriam as bibliote- organizados cursinhos populares, saraus de
No Ceará existem alguns exemplos cas comunitárias ou populares, que resistência para jovens, contação de histó-
de bibliotecas comunitárias: Plebeu são projetos sociais que nascem do es- rias pra crianças, além de fomentar projetos
Gabinete de Leitura, Biblioteca forço conjunto de pessoas de uma mesma de incentivo à leitura literária em praças ou
Comunitária Viva Barroso, comunidade, sem vínculo governamen- escolas com apoio governamental ou não.
Biblioteca Comunitária Livro Livre tal, “com o objetivo comum de ampliar o (Exemplos: o projeto de extensão “Viva a Pa-
Curió, Rede de Leitura Jangada acesso da comunidade à informação, à lavra” da Universidade Estadual do Ceará;
Literária e o Livro Livre Ceará, um leitura e ao livro, com vistas a sua emanci- o Projeto premiado “Leituras na Praça”, da
movimento de incentivo à leitura e pação social.” (MACHADO, 2008, p.64). Es- Profa. Inês Cardoso, da UFC; a “Bebeteca”
ao compartilhamento de livros. E ses espaços vêm sendo responsáveis por e “Mala de Leitura”, ambas da Universidade
no seu município ou estado, você uma grande revolução cultural em comu- Federal de Minas Gerais; o projeto “Articula-
conhece atividades de bibliotecas nidades habitualmente desprovidas de dores de Leitura”, do Ceale/UFMG com a rede
comunitárias? Caso não saiba, outros equipamentos ou programações municipal de Belo Horizonte), entre outros. As
procure conhecer e as divulgue em culturais. Nelas a população tem acesso organizações da sociedade civil também são
nosso Grupo de Facebook do curso de a livros e a outros materiais, participa de grandes promotoras de leitura, com projetos
extensão Formação de Mediadores de saraus, realiza-se contação de histórias, de mediação ou ainda de garantia de acesso
Leitura. Apresente-as para nós. visitas de escritores, batalhas de poesia a acervos de leitura literária. (Exemplo: Casa
(slams) e toda sorte de oferta cultural. do Conto e o “Baú de Leituras”- Enel).

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CURIOSIDADE
As livrarias e cafés também têm se torna-
Gostaríamos de encerrar os exemplos
do centros culturais e palcos de mediação
E você, já pensou em promover a de mediação de leitura em espaços e am-
de leitura, acolhendo diversos clubes de lei-
leitura em um açougue da sua cidade? biências não convencionais, voltando ao
tura, saraus, lançamentos de livros e perfor-
Isso mesmo, em um açougue! Em primeiro espaço de formação de leitores:
mances poéticas para todos os públicos. Na
Brasília, o Açougue Cultural T-Bone a nossa casa. Porém dessa vez não falare-
organização de círculos de leitura, a coor-
é uma referência na promoção da mos da atuação dos pais, mas de agentes
denação deve ficar a cargo de um “leitor-
leitura: “O projeto teve início em 1994, externos, mediadores que vão às casas das
-guia, figura que mobiliza, provoca, costura
quando (Luiz Amorim) conseguiu pessoas para levarem um sopro de leitura
as demais falas, sem fazer prevalecer a sua
comprar o açougue onde trabalhava. literária e de vida: os Agentes de Leitura.
própria.” (YUNES, 2009, p.80).
No começo, a biblioteca era apenas São jovens de comunidades em situação
Gostaríamos de mencionar também os
uma prateleira com dez livros para de vulnerabilidade social, que atendem a
eventos literários como propulsores de me-
emprestar aos clientes, enquanto cerca de 20 famílias da região onde vivem,
diação de leitura, pois, na maioria deles, o
aguardavam a mercadoria.” O projeto levando um acervo de livros literários e
principal objetivo é a formação de leitores
foi batizado de Estação Cultural e lendo com eles e para eles. As famílias es-
literários e o contato desses leitores con-
ampliou sua atuação instalando peram ansiosas a visita dos agentes, jovens
quistados (ou por conquistar) com a produ-
bibliotecas também em paradas de mediadores de leitura. O programa teve
ção literária regional, nacional e internacio-
ônibus e estações de Brasília. Para origem no Ceará, idealizado por Fabiano
nal. Nas Bienais do Livro e Festas Literárias
saber mais sobre essa iniciativa visite o dos Santos, mas se estendeu a vários ou-
de todo o país atuam diversos mediadores:
site: http://www.t-bone.com.br/index. tros estados brasileiros.
educadores, escritores, contadores de his-
php/t-bone-cultural/
tórias, cordelistas, entre outros.

CURSO FORMAÇÃO DE mediadores de leitura 157


Michèle Petit nos revela o que os media-
dores de livros e histórias tentam transmitir
às crianças que vivem em espaços de crise,
de conflito e em situações de sofrimento, e
4.
PROJETOS DE 4. QUEM? “Quem vai cuidar da literatura
nesse espaço?” (Quem cuidará do projeto
para as quais a literatura é o único bálsamo:
“a literatura não é uma experiência separa-
MEDIAÇÃO DA de leitura nesse espaço: mediador, bibliote-
cário, professores, alunos, moradores);
da da vida; a literatura, a poesia e a arte es- LEITURA LITERÁRIA 5. ONDE? “Em que espaços a literatura es-
tão também na vida; é preciso prestar aten- A seguir, algumas questões prévias para tará presente nesse lugar?” (Locais, salas e
ção.” (PETIT, 2009, p.292) quem deseja criar um projeto de mediação espaços a serem ocupados com o projeto);
Para concluir, vamos refletir com Teresa de leitura literária, lembrando-se que: A
Colomer sobre o caráter solidário e sociali- 6. QUANDO? “Em que momentos e a partir
mediação da leitura recria mundos pos-
zador da mediação de leitura: de quando pretendemos reavivar a literatura
síveis e imaginários!
Compartilhar as obras com outras pes- na nesse espaço?” (Cronograma de implanta-
soas é importante porque torna possível ção e horários de funcionamento do projeto);
beneficiar-se da competência dos outros 1. O QUE TEMOS? “Como a literatura apa- 7. COM O QUÊ? “De que precisaremos
para construir o sentido e obter o pra- rece nesse lugar?” (Diagnóstico do que exis- para ter a literatura viva nesse espaço?” (O
zer de entender mais e melhor os livros. te atualmente); que já têm: materiais, acervos e recursos
Também porque permite experimentar
2. PARA QUÊ? “O que pretendemos alcan- necessários para o projeto/orçamento);
a literatura em sua dimensão socializa-
dora, fazendo com que a pessoa se sinta çar com a presença da literatura nesse espa- 8. O QUE FAREMOS? Como a literatura
parte de uma comunidade de leitores ço?” (Objetivos do projeto de leitura literária); estará presente nesse espaço? (Ações pre-
com referências e cumplicidades mú- 3. PARA QUEM? “Para quem a literatura será tendidas para o projeto de leitura, a curto,
tuas. (COLOMER, 2007, p.143) oferecida?” (Público estratégico do projeto); médio e longo prazo.)

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REFERÊNCIAS
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comunidade, escola, sindicato, igreja Letras, 2011. para educadores. Belo Horizonte: UFMG/ Facul-
ou até em casa mesmo? Já tentou FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler – dade de Educação, 2014.
algo assim na sua casa? E na escola, em três artigos que se completam. São Paulo: YUNES, Eliana. Tecendo um leitor: uma rede
já viveu alguma experiência de Cortez, 2000. de fios cruzados. Curitiba: Aymará, 2009.
mediação de leitura? Vamos tentar? KLEIMAN, Angela. Letramento e suas implica- _____________. Manual de reflexões sobre
ções para o ensino de língua materna. Signo, boas práticas de leitura. São Paulo: Edições
Santa Cruz do Sul, v. 32, n. 53, p. 1-25, dez. 2007. Loyola, 2012.

CURSO FORMAÇÃO DE mediadores de leitura 159


Cleudene de Oliveira Aragão (Autora)
Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Ceará (Uece), mestre em Letras pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e doutora
em Filología Hispánica pela Universitad de Barcelona. Atualmente é professora de língua e literatura espanholas no curso de Letras e no
Programa de Pós-graduação em Linguística Aplicada da Universidade Estadual do Ceará (Uece), onde atua em pesquisas sobre letramento
literário e educação literária. Também é líder do Grupo de Pesquisa GPLEER - Literatura: Estudo, Ensino e (Re)Leitura do Mundo.

Rafael Limaverde (ilustrador)


É ilustrador, chargista e cartunista (premiado internacionalmente) e xilogravurista. Formado em Artes Visuais pelo Instituto Federal de Edu-
cação, Ciências e Tecnologia do Ceará (IFCE). Escreve e possui livros ilustrados nas principais editoras do Ceará e em editoras paulistas.

Este fascículo é parte integrante do Programa Fortaleza Criativa, em decorrência do Termo de Fomento celebrado entre a Fundação Demócrito Rocha e a Secretaria Municipal da Cultura
de Fortaleza, sob o nº 05/2018.
Todos os direitos desta edição reservados à: EXPEDIENTE: FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA (FDR) João Dummar Neto Presidente André Avelino de
Azevedo Diretor Administrativo-Financeiro Raymundo Netto Gestor de Projetos Emanuela Fernandes
Analista de Projetos Tainá Aquino Estagiária UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE Viviane Pereira
Fundação Demócrito Rocha Gerente Pedagógica Luciola Vitorino Analista Pedagógica CURSO FORMAÇÃO DE MEDIADORES DE LEITURA
Av. Aguanambi, 282/A - Joaquim Távora Raymundo Netto Coordenador Geral e Editorial Lidia Eugenia Cavalcante Coordenadora de Conteúdo
Cep 60.055-402 - Fortaleza-Ceará Emanuela Fernandes Assistente Editorial Amaurício Cortez Editor de Design e Projeto Gráfico Marisa
Tel.: (85) 3255.6037 - 3255.6148 - Fax (85) 3255.6271 Marques de Melo Diagramadora Rafael Limaverde Ilustrador
fdr.org.br ISBN: 978-85-7529-893-0 (Coleção)
fundacao@fdr.org.br ISBN: 978-85-7529-903-6 (Fascículo 10)

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