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Para Victoria Ávalos e Lautaro Bolaño

Qual estrela cai sem que ninguém a veja?


William Faulkner
Sumário

1.
2.
3.
4.
5.
6.
7.
8.
9.
10.
No último capítulo de meu romance La literatura nazi en América,
narrava-se de modo talvez esquemático demais (não passavam de vinte
páginas) a história do tenente Ramírez Hoffman, da FACH. Essa história me
foi contada pelo meu compatriota Arturo B, veterano das guerras floridas e
candidato a suicida na África, que não ficou satisfeito com o resultado final.
O último capítulo da Literatura nazi servia como um contraponto, ou talvez
como anticlímax, para todo o conteúdo literário grotesco que o precedia, e
Arturo queria uma história mais longa, não como um reflexo ou um
resultado da explosão de outras histórias, e sim como reflexo e explosão em
si mesma. Portanto, isolamo-nos durante um mês e meio em minha casa de
Blanes e, a partir do último capítulo, ao embalo de seus sonhos e pesadelos,
compusemos o romance que o leitor tem em mãos agora. Minha função
limitou-se a preparar bebidas, consultar alguns livros e discutir, com ele e
com o fantasma cada vez mais vivo de Pierre Menard, a pertinência da
repetição de vários parágrafos.
1.

A primeira vez que vi Carlos Wieder foi em 1971 ou talvez 1972, quando
Salvador Allende era presidente do Chile.
Dizia chamar-se Alberto Ruiz-Tagle e às vezes aparecia na oficina de
poesia de Juan Stein, em Concepción, a chamada capital do Sul. Não posso
dizer que o conhecia bem. Via-o uma vez por semana, ou duas, quando ia à
oficina. Não falava muito. Eu sim. A maioria de nós que íamos ali falava
muito: não só de poesia, mas de política, de viagens (naquela ocasião,
ninguém imaginava que viriam a ser aquilo que foram depois), pintura,
arquitetura, fotografia, revolução e luta armada; a luta armada que nos traria
uma nova vida e uma nova época, mas que para a maioria de nós era como um
sonho ou, mais propriamente, como a chave que nos abriria a porta dos
sonhos, os únicos pelos quais valia a pena viver. E embora soubéssemos
vagamente que os sonhos muitas vezes se transformam em pesadelos, isso não
importava. Tínhamos entre dezessete e vinte e três anos (eu tinha dezoito), e
quase todos nós estudávamos na Faculdade de Letras, menos as irmãs
Garmendia, que cursavam sociologia e psicologia, e Alberto Ruiz-Tagle, que,
segundo ele mesmo afirmou certa vez, era autodidata. Muita coisa poderia ser
dita sobre ser um autodidata no Chile daqueles dias que antecederam 1973. A
verdade é que ele não parecia um autodidata. Quero dizer: exteriormente, não
parecia um autodidata. Estes, no Chile, no começo dos anos 70, na cidade de
Concepción, não se vestiam da maneira como Ruiz-Tagle se vestia. Os
autodidatas eram pobres. Falava como um autodidata, isso sim. Falava como
eu suponho que todos nós falamos agora, aqueles que ainda estamos vivos
(falava como se vivesse no meio de uma nuvem), mas se vestia bem demais
para quem não tinha sequer pisado numa universidade. Não quero dizer que
fosse elegante — embora o fosse, sim, à sua maneira — nem que se vestisse
de uma forma determinada; seu gosto era eclético: às vezes aparecia de terno e
gravata, outras vezes com roupas esportivas, e não desdenhava do jeans nem
de camisetas. Mas, qualquer que fosse o traje, Ruiz-Tagle sempre usava
roupas caras, de grife. Em resumo, Ruiz-Tagle era elegante, e eu, naquela
época, não achava que os autodidatas chilenos, sempre entre os manicômios e
o desespero, fossem elegantes. Certa vez disse que seu pai ou seu avô tinha
sido dono de umas terras na região de Puerto Montt. Ele contava (ou o
ouvimos contar a Verónica Garmendia) que decidiu largar os estudos aos
quinze anos para se dedicar ao trabalho no campo e à leitura da biblioteca
paterna. Nós, da oficina de Juan Stein, dávamos como certo que ele era um
bom cavaleiro. Não sei por quê, já que nunca o vimos montando nenhum
cavalo. Na realidade, todas as suposições que podíamos estabelecer a
respeito de Ruiz-Tagle eram predeterminadas pelo nosso ciúme, ou talvez por
nossa inveja. Ruiz-Tagle era alto e magro, forte e de belas feições. Segundo
Bibiano O’Ryan, era um sujeito de feições excessivamente frias para serem
belas, mas, claro, Bibiano disse isso bem mais tarde, e assim não vale. Por
que tínhamos ciúme de Ruiz-Tagle? O plural, aqui, é exagerado. Quem tinha
ciúme era eu. Talvez Bibiano compartilhasse dele. O motivo, claro, eram as
irmãs Garmendia, gêmeas univitelinas e estrelas incontestáveis da oficina de
poesia. Tanto que às vezes tínhamos a sensação (Bibiano e eu) de que Stein
dirigia toda a oficina em função apenas das duas. Eram, admito, as melhores.
Verónica e Angélica Garmendia eram tão iguais em certos dias que ficava
impossível distinguir uma da outra, e tão diferentes em outros dias (sobretudo
em outras noites) que pareciam duas desconhecidas, quando não inimigas uma
da outra. Stein as adorava. Além de Ruiz-Tagle, era o único que sempre sabia
quem era Verónica e quem era Angélica. Mal consigo falar sobre elas. Às
vezes aparecem nos meus pesadelos. Têm a mesma idade que eu, talvez um
ano a mais, e são altas, magras, de pele morena e cabelos pretos compridos,
como acredito que fosse moda naquela época.
As irmãs Garmendia ficaram amigas de Ruiz-Tagle quase de imediato. Ele
ingressou na oficina de Stein em 71 ou 72. Ninguém o havia visto antes, nem
na universidade nem em parte alguma. Stein não lhe perguntou de onde vinha.
Pediu que lesse três poemas e disse que não eram ruins. (Stein só elogiava
abertamente os poemas das irmãs Garmendia.) E ficou conosco. No começo,
não lhe dávamos bola. Mas, quando vimos que as Garmendia começaram a
ficar amigas dele, também ficamos amigos de Ruiz-Tagle. Até então, seu
comportamento era de uma cordialidade distante. Era abertamente simpático,
cheio de delicadeza e atencioso apenas com as Garmendia (e nisso se parecia
com Stein). Quanto aos outros, como já disse, tratava-nos com uma
“cordialidade distante”, quer dizer, cumprimentava-nos, sorria, era discreto e
ponderado em sua avaliação crítica quando líamos nossos poemas, nunca
defendia seus textos contra nossos ataques (costumávamos ser demolidores) e
nos escutava, quando lhe falávamos alguma coisa, com algo que hoje eu jamais
me atreveria a chamar de atenção, mas que na época assim nos parecia.
As diferenças entre Ruiz-Tagle e os demais eram evidentes. Falávamos em
gíria ou com um jargão marxista-mandraqueiro (a maioria de nós era membro
ou simpatizante do mir ou de partidos trotskistas, embora um ou outro, creio,
militasse nas Juventudes Socialistas ou no Partido Comunista ou, ainda, em um
dos partidos da esquerda católica). Ruiz-Tagle falava em espanhol. Aquele
espanhol de certos lugares do Chile (lugares mais mentais do que físicos)
onde o tempo parece que não passa. Morávamos com nossos pais (os de
Concepción) ou em pensões estudantis baratas. Ruiz-Tagle morava sozinho, em
um apartamento próximo do centro, com quatro quartos com as cortinas
permanentemente fechadas, que nunca visitei mas sobre o qual Bibiano e a
Gorda Posadas me contaram coisas, muitos anos depois (coisas contaminadas,
já, pela lenda maldita de Wieder), que não sei se são verdadeiras ou se devem
ser atribuídas à imaginação de meu ex-colega. Quase nunca tínhamos grana (é
engraçado escrever agora a palavra grana: brilha como um olho na
escuridão);* quanto a Ruiz-Tagle, dinheiro nunca lhe faltou.
O que Bibiano me contou sobre a casa de Ruiz-Tagle? Falou principalmente
de seu despojamento; teve a sensação de que a casa estava preparada. Esteve
ali sozinho uma única vez. Passava por perto e decidiu (Bibiano é assim
mesmo) convidar Ruiz-Tagle para ir ao cinema. Passava um filme de Bergman,
não me lembro qual. Bibiano já tinha estado na casa duas vezes, sempre
acompanhando uma das Garmendia, e nas duas oportunidades a visita era,
digamos, de alguma maneira aguardada. Então, naquelas visitas com as
Garmendia, a casa lhe pareceu preparada, arrumada para o olhar de quem ali
chegasse, vazia demais, com espaços onde nitidamente faltava alguma coisa.
Na carta em que me contou essas coisas (escrita muitos anos depois), Bibiano
dizia que tinha se sentido como Mia Farrow em O bebê de Rosemary, quando
vai pela primeira vez, com John Cassavettes, à casa de seus vizinhos. Faltava
alguma coisa. Na casa do filme de Polanski, o que faltava eram os quadros,
preventivamente retirados para não assustar Mia e Cassavettes. Na casa de
Ruiz-Tagle, o que faltava era alguma coisa inominável (ou que Bibiano, anos
depois e já ciente da história ou de boa parte da história, considerou
inominável porém presente, tangível), como se o anfitrião tivesse amputado
pedaços de sua moradia. Ou como se esta fosse um brinquedo de armar que se
adaptava às expectativas e particularidades de cada visitante. Essa sensação
se acentuou quando ele foi sozinho à casa. Ruiz-Tagle, evidentemente, não o
aguardava. Demorou a abrir a porta. Quando o fez, pareceu não reconhecer
Bibiano, embora este me garanta que Ruiz-Tagle abriu a porta com um sorriso
e que em nenhum momento parou de sorrir. Não havia muita luz, como ele
próprio admite, portanto não sei até que ponto meu amigo está próximo da
verdade. De qualquer maneira, Ruiz-Tagle abriu a porta e, depois de uma troca
de palavras mais ou menos sem sentido (demorou a entender que Bibiano
estava ali para convidá-lo a ir ao cinema), fechou-a novamente, não sem antes
pedir que esperasse um pouco, e depois de alguns segundos abriu-a de novo e
convidou-o a entrar. A casa estava na penumbra. O cheiro era denso, como se
Ruiz-Tagle tivesse preparado na noite anterior alguma comida muito forte,
cheia de gordura e especiarias. Por um momento Bibiano acreditou ter ouvido
um ruído vindo de um dos quartos e supôs que Ruiz-Tagle estivesse com uma
mulher. Quando ia se desculpar e dar o fora, Ruiz-Tagle perguntou que filme
estava pensando em ver. Bibiano disse que era um de Bergman, no Teatro
Lautaro. Ruiz-Tagle voltou a sorrir, com aquele mesmo sorriso que para
Bibiano parecia enigmático e que eu achava arrogante, quando não
explicitamente exagerado. Pediu desculpas, disse que já tinha um encontro
marcado com Verónica Garmendia e que, além disso, segundo explicou, não
gostava dos filmes de Bergman. Naquele momento, Bibiano estava convencido
de que havia outra pessoa na casa, alguém imóvel e que ouvia atrás da porta
sua conversa com Ruiz-Tagle. Considerou que devia ser justamente Verónica,
pois, do contrário, como explicar que Ruiz-Tagle, normalmente tão discreto, a
tinha mencionado? Contudo, por mais que se esforçasse, não conseguiu
imaginar nossa poeta numa situação como aquela. Nem Verónica nem Angélica
Garmendia eram de ficar ouvindo conversas atrás da porta. Quem seria, então?
Bibiano não sabe. Naquela hora, provavelmente, a única coisa que ele sabia é
que queria sair dali, despedir-se de Ruiz-Tagle e nunca mais voltar àquela
casa vazia e sangrada. Palavras dele. Embora, de acordo com sua descrição, a
casa não tivesse como exibir aspecto mais asséptico. Paredes limpas, livros
ordenados numa estante de metal, as poltronas cobertas com ponchos sulinos.
Sobre um pequeno banco de madeira, a Leika de Ruiz-Tagle, a mesma que ele
usou certa tarde para tirar fotos de todos os integrantes da oficina de poesia. A
cozinha, que Bibiano enxergou através de uma porta semiaberta, de aparência
normal, sem o acúmulo de panelas e pratos sujos típico da casa de um
estudante que mora sozinho (mas Ruiz-Tagle não era um estudante). Enfim,
nada que fugisse do normal, a não ser aquele barulho, que bem podia ter vindo
do apartamento vizinho. Segundo Bibiano, enquanto Ruiz-Tagle falava ele teve
a sensação de que este não queria que ele se fosse, de que falava justamente
para retê-lo ali. Essa sensação, sem nenhuma base concreta, contribuiu para
elevar o nervosismo de meu amigo a níveis, segundo ele, intoleráveis. O mais
curioso é que Ruiz-Tagle parecia desfrutar a situação: percebia que Bibiano
estava cada vez mais pálido ou mais suado e continuava falando (de Bergman,
suponho) e sorrindo. A casa permanecia num silêncio que as palavras de Ruiz-
Tagle só faziam acentuar, sem chegar em nenhum momento a interrompê-lo.
De que falava ele?, pergunta-se Bibiano. Seria importante, escreve em sua
carta, que se lembrasse, mas, por mais que me esforce, é impossível. O fato é
que Bibiano aguentou o máximo que pôde, depois se despediu de uma forma
mais ou menos atropelada e foi embora. Na escada, pouco antes de chegar à
saída, cruzou com Verónica Garmendia, que lhe perguntou se estava
acontecendo alguma coisa com ele. O que pode estar acontecendo?, disse
Bibiano. Não sei, respondeu Verónica, mas você está branco que nem papel.
Nunca esquecerei estas palavras, diz Bibiano em sua carta: branco que nem
uma folha de papel. Nem o rosto de Verónica Garmendia. Rosto de uma
mulher apaixonada.
É triste ter de admiti-lo, mas é isso mesmo. Verónica estava apaixonada por
Ruiz-Tagle. E pode até ser que Angélica também estivesse apaixonada por ele.
Certa vez Bibiano e eu conversamos sobre isso, faz muito tempo. Imagino que
o que mais nos doía era que nenhuma das Garmendia estivesse apaixonada ou
ao menos interessada por nós. Bibiano gostava de Verónica. Eu gostava de
Angélica. Nunca nos atrevemos a lhes dizer nenhuma palavra a respeito,
embora eu acredite que nosso interesse por elas fosse publicamente
conhecido. Coisa em que não nos diferenciávamos do restante dos
participantes masculinos da oficina, todos, uns mais, outros menos,
apaixonados pelas irmãs Garmendia. Mas elas (ou pelo menos uma delas)
tornaram-se presas do charme incomum do poeta autodidata.
Autodidata, sim, mas preocupado em aprender, como constatamos Bibiano e
eu quando o vimos aparecer na oficina de poesia de Diego Soto, a outra
oficina de vanguarda da Universidade de Concepción, que rivalizava,
digamos, na ética e na estética, com a oficina de Juan Stein, embora Stein e
Soto fossem o que na época se chamava, e suponho que ainda se chama,
amigos do peito. A oficina de Soto se realizava na Faculdade de Medicina,
não sei por que motivo, em uma sala mal ventilada e mal mobiliada, separada
apenas por um corredor do anfiteatro onde os estudantes dissecavam
cadáveres nas aulas de anatomia. O anfiteatro, é claro, recendia a formol. O
corredor, às vezes, também recendia a formol. E em algumas noites, pois a
oficina de Soto se realizava todas as sextas-feiras das oito às dez, embora
geralmente costumasse acabar depois da meia-noite, a sala se impregnava de
um cheiro de formol que tentávamos em vão mitigar acendendo um cigarro
atrás do outro. Os frequentadores da oficina de Stein não iam à de Soto e vice-
versa, com exceção de Bibiano O’Ryan e eu, que na verdade compensávamos
nossa ausência crônica nas aulas comparecendo não só às oficinas, mas
também a todos os recitais ou reuniões culturais ou políticas realizadas na
cidade. Por isso, ver Ruiz-Tagle aparecer por ali certa noite foi uma surpresa.
Sua atitude foi mais ou menos a mesma que mantinha na oficina de Stein.
Ouvia, fazia críticas ponderadas, breves e sempre num tom cordial e educado,
lia seus próprios trabalhos com desprendimento e certa distância e aceitava
sem replicar até mesmo os piores comentários, como se os poemas que
submetia à nossa crítica não fossem dele. Isso foi percebido não só por nós,
Bibiano e eu; uma noite, Diego Soto lhe disse que ele escrevia com
distanciamento e frieza. Não parecem poemas seus, observou ele. Ruiz-Tagle
reconheceu isso sem se alterar. Estou tateando, respondeu.
Na oficina da Faculdade de Medicina, Ruiz-Tagle conheceu Carmen
Villagrán, e os dois ficaram amigos. Carmen era uma boa poeta, embora não
tão boa como as irmãs Garmendia. (Os melhores poetas ou candidatos a
poetas estavam na oficina de Juan Stein.) Também conheceu e fez amizade com
Marta Posadas, conhecida como a Gorda Posadas, única estudante de
medicina da oficina da Faculdade de Medicina, uma garota muito pálida,
muito gorda e muito triste que escrevia poemas em prosa e que queria acima
de tudo, pelo menos naquela época, tornar-se uma espécie de Marta Harnecker
da crítica literária.
Não fez amizade com nenhum dos homens. Cumprimentava-nos, a Bibiano e
a mim, educadamente, mas sem exteriorizar o menor sinal de familiaridade,
apesar de estarmos juntos, contando a oficina de Stein e a de Soto, umas oito
ou noves horas por semana. Parecia não ter o menor interesse pelos homens.
Morava sozinho, em sua casa havia alguma coisa estranha (segundo Bibiano),
carecia do orgulho infantil que os demais poetas costumavam ter de sua
própria obra, era amigo não só das garotas mais bonitas da minha época (as
irmãs Garmendia), como também havia conquistado as mulheres da oficina de
Diego Soto. Numa palavra, era o alvo da inveja de Bibiano O’Ryan e da
minha também.
E ninguém o conhecia.
Juan Stein e Diego Soto, que eram, para mim e para Bibiano, as pessoas
mais inteligentes de Concepción, não perceberam nada. As irmãs Garmendia
tampouco; ao contrário, em duas ocasiões Angélica elogiou para mim as
qualidades de Ruiz-Tagle: sério, formal, uma mente organizada, com grande
capacidade de ouvir os outros. Bibiano e eu o odiávamos, mas também não
percebemos nada. Somente a Gorda Posadas captou alguma coisa daquilo que
se movia por trás de Ruiz-Tagle. Lembro-me da noite em que falamos sobre
isso. Tínhamos ido ao cinema e depois do filme fomos a um restaurante no
centro. Bibiano estava com uma pasta com textos do pessoal das oficinas de
Stein e de Soto para a sua décima primeira antologia de jovens poetas de
Concepción que nenhum periódico publicaria. A Gorda Posadas e eu nos
pusemos a bisbilhotar a papelada. Quem vai estar na antologia?, perguntei,
sabendo que eu era um dos selecionados. (Não fosse assim, minha amizade
com Bibiano estaria rompida no dia seguinte.) Você, disse Bibiano, Martita (a
Gorda), Verónica e Angélica, é claro, Carmen, e em seguida disse o nome de
dois poetas, um da oficina de Stein e outro da oficina de Soto, e finalmente
pronunciou o nome de Ruiz-Tagle. Lembro-me de que a Gorda ficou calada
por alguns instantes enquanto seus dedos (permanentemente manchados de tinta
e com as unhas sujas, coisa que parecia estranha para uma estudante de
medicina, embora, quando falasse de sua carreira, a Gorda o fazia em termos
tão frouxos que ninguém tinha dúvidas de que jamais obteria o diploma)
percorriam a papelada até encontrarem as três quadrinhas de Ruiz-Tagle. Não
o inclua, disse subitamente. Ruiz-Tagle?, perguntei, sem acreditar no que
ouvia, pois a Gorda era devota admiradora dele. Bibiano, ao contrário, não
disse nada. Os três poemas eram curtos, nenhum deles tinha mais que dez
versos: um falava de uma paisagem, descrevia uma paisagem, árvores, um
caminho de terra, uma casa afastada desse caminho, cercas de madeira,
colinas, nuvens; segundo Bibiano, era “bem japonês”; na minha opinião, era
como se tivesse sido escrito por Jorge Teillier depois de ter sofrido uma
comoção cerebral. O segundo poema falava do ar (chamava-se “Ar”) que se
infiltrava pelas junturas de uma casa de pedra. (Nesse caso, era como se
Teillier tivesse ficado afásico mas insistisse em seu labor literário, o que não
deveria ter sido estranho para mim, pois, já então, em 73, pelo menos metade
dos filhos bastardos de Teillier já tinham ficado afásicos mas persistiam.)
Quanto ao último, esqueci completamente. Lembro apenas que em algum
momento, sem mais nem menos (assim me pareceu), surgia uma faca.
Por que você acha que não devo incluí-lo?, perguntou Bibiano, um braço
estendido sobre a mesa e a cabeça apoiada nele, como se o braço fosse a
almofada e a mesa fosse a cama do seu quarto. Pensei que vocês fossem
amigos, eu disse. E somos, respondeu a Gorda, mas, mesmo assim, não o
incluiria. Por quê?, insistiu Bibiano. A Gorda deu de ombros. É como se os
poemas não fossem dele, disse depois. Dele mesmo, não sei se estou sendo
clara. Explique-se, pediu Bibiano. A Gorda fitou-me nos olhos (eu estava de
frente para ela e Bibiano, ao seu lado, parecia adormecido) e disse: Alberto é
um bom poeta, mas ainda não pôs para fora. Quer dizer que é virgem?,
perguntou Bibiano, mas nem eu nem a Gorda lhe demos bola. Já leu outras
coisas dele?, eu quis saber. O que ele escreve? Como ele escreve? A Gorda
sorriu para dentro, como se ela mesma não acreditasse naquilo que nos
contaria a seguir. Alberto, disse ela, vai revolucionar a poesia chilena. Mas
você leu alguma coisa ou está falando de uma intuição que tem? A Gorda
emitiu um som com o nariz e ficou calada. Outro dia, disse ela subitamente, fui
à casa dele. Não dissemos nada, mas vi que Bibiano, espalhado sobre a mesa,
sorria e a encarava com ternura. Não tinha avisado que ia, é claro, esclareceu
a Gorda. Já sei o que você quer dizer, falou Bibiano. Alberto se abriu comigo,
disse a Gorda. Não consigo imaginar Ruiz-Tagle se abrindo com alguém,
observou Bibiano. Todo mundo acha que ele está apaixonado pela Verónica
Garmendia, afirmou a Gorda, mas não é verdade. Ele mesmo disse isso?,
perguntou Bibiano. A Gorda sorriu como se tivesse de posse de um grande
segredo. Não gosto dessa mulher, eu me lembro de ter pensado então. Deve ter
talento, deve ser inteligente, é uma companheira, mas não gosto dela. Não, não
foi ele que me disse, respondeu a Gorda, embora ele me fale sobre coisas que
não fala com os outros. Você quer dizer outras, disse Bibiano. Isso mesmo,
com as outras, concordou a Gorda. E sobre que coisas ele fala com você? A
Gorda pensou um pouco antes de responder. Sobre a nova poesia, ora, de que
mais poderia ser? A poesia que ele pensa em escrever?, perguntou Bibiano
com ceticismo. A poesia que ele vai fazer, disse a Gorda. E sabem por que
estou tão segura disso? Por causa da vontade dele. Durante alguns instantes,
aguardou que perguntássemos mais alguma coisa. Ele tem uma vontade de
ferro, acrescentou, vocês não o conhecem. Já era tarde. Bibiano olhou para a
Gorda e se levantou para pagar a conta. Se você tem tanta fé nele, por que não
quer que Bibiano o inclua na antologia?, perguntei. Enrolamos nossos
cachecóis no pescoço (nunca mais usei cachecóis tão compridos como naquela
época) e saímos para o frio da rua. Por que não são poemas dele, disse a
Gorda. E como você sabe disso?, perguntei exasperado. Porque eu conheço as
pessoas, respondeu a Gorda com uma voz triste, olhando para a rua deserta.
Pareceu-me o cúmulo da presunção. Bibiano, saindo de trás de nós, disse:
Martita, há poucas coisas de que tenho certeza, e uma delas é que Ruiz-Tagle
não vai revolucionar a poesia chilena. Parece-me que ele nem sequer é de
esquerda, acrescentei. Surpreendentemente, a Gorda me deu razão. Não, ele
não é de esquerda, admitiu, com uma voz cada vez mais triste. Por um
momento cheguei a achar que ela ia começar a chorar e tentei mudar de
assunto. Bibiano riu. Com amigas como você, Martita, ninguém precisa de
inimigos. É claro que Bibiano estava brincando, mas a Gorda não entendeu
assim e quis ir embora imediatamente. Nós a acompanhamos até sua casa.
Durante a viagem de ônibus, falamos sobre o filme e sobre a situação política.
Antes da despedida, olhou-nos fixamente e disse que precisava pedir que
fizéssemos uma promessa. O que é?, perguntou Bibiano. Não fale para Alberto
nada sobre o que conversamos. Tudo bem, disse Bibiano, está prometido, não
lhe contaremos que você me pediu para excluí-lo da minha antologia. Pois
talvez nem sequer a publiquem, observou a Gorda. Isso é bem provável,
concordou Bibiano. Obrigada, Bibi, disse a Gorda (só ela chamava Bibiano
dessa maneira), e deu-lhe um beijo na bochecha. Juro que não lhe contaremos
nada, disse eu. Obrigada, obrigada, obrigada, exclamou a Gorda. Pensei que
estivesse brincando. Não contem nada também para Verónica, pediu, pois ela
pode contar alguma coisa para Alberto, e aí vocês sabem. Não, não
contaremos. Isso tudo fica entre nós três, disse a Gorda. Prometido?
Prometido, dissemos. Finalmente a Gorda nos deu as costas, abriu a porta do
seu prédio e a vimos entrando no elevador. Antes de desaparecer, ela nos fez
um último aceno de mão. Que mulher mais esquisita, disse Bibiano. Eu ri.
Voltamos a pé para as nossas respectivas moradas, Bibiano para a pensão
onde vivia e eu para a casa de meus pais. A poesia chilena, disse Bibiano
naquela noite, só vai mudar no dia em que lermos Enrique Lihn corretamente,
não antes disso. Ou seja, ainda falta muito tempo.
Poucos dias depois, veio o golpe e, com ele, a debandada.
Uma noite, telefonei para as irmãs Garmendia, sem nenhum motivo em
especial, apenas para saber como estavam. Vamos embora, disse Verónica.
Com um nó no estômago, perguntei quando. Amanhã. Apesar do toque de
recolher, insisti em vê-las ainda naquela noite. O apartamento onde as duas
irmãs viviam sozinhas não ficava muito longe da minha casa, e, além disso,
não era a primeira vez que eu burlava o toque de recolher. Eram dez da noite
quando cheguei ali. As Garmendia, surpreendentemente, tomavam chá e liam
(acho que esperava encontrá-las em meio a uma confusão de malas e planos de
fuga). Contaram-me que estavam de partida, não para o exterior e sim para
Nacimiento, um vilarejo a poucos quilômetros de Concepción, para a casa dos
pais. Que alívio, eu disse, pensei que fossem para a Suécia ou algo assim.
Bem que eu gostaria, observou Angélica. Em seguida, falamos sobre os
amigos que não víamos havia vários dias, fazendo as especulações
características daquele momento, os que certamente estavam presos, os que
tinham possivelmente passado para a clandestinidade, os que estavam sendo
procurados. As Garmendia não tinham medo (não havia motivo para tanto,
pois eram apenas estudantes e seus vínculos com os chamados “extremistas”
se limitavam à amizade pessoal com alguns militantes, principalmente da
Faculdade de Sociologia), mas partiam para Nacimiento porque Concepción
tinha ficado impossível e porque sempre, admitiram, voltavam para a casa dos
pais quando a “vida real” adquiria traços de certa feiura e certa brutalidade
profundamente desagradáveis. Então vocês devem partir mesmo de imediato,
disse eu, porque me parece que estamos entrando no campeonato mundial de
feiura e brutalidade. Elas riram e falaram que eu devia ir embora. Insisti para
ficar um pouco mais. Lembro dessa noite como sendo uma das mais felizes de
minha vida. À uma da manhã, Verónica disse que seria melhor eu ficar e
dormir por ali. Nenhum de nós tinha jantado, de modo que nos enfiamos os três
na cozinha e preparamos ovos com cebola, pão caseiro e chá. De repente me
senti feliz, imensamente feliz, capaz de fazer qualquer coisa, embora soubesse
que naqueles instantes tudo aquilo em que eu acreditava ia ladeira abaixo para
sempre e que muita gente, inclusive vários amigos, estava sendo perseguida ou
torturada. Mas eu sentia vontade de cantar e dançar e as más notícias (ou as
especulações sobre as más notícias) só contribuíam para jogar lenha na
fogueira da minha alegria, se me permitem a expressão, mais cafona
impossível (esnobe, teríamos dito então), mas que expressa meu estado de
ânimo, e me atreveria até mesmo a afirmar que o estado de ânimo também das
Garmendia e o estado de ânimo de muitos daqueles que em 1973 tinham vinte
anos ou menos.
Às cinco da manhã, adormeci no sofá. Fui acordado por Angélica, quatro
horas depois. Tomamos café da manhã na cozinha, em silêncio. Ao meio-dia,
elas enfiaram duas malas no seu carro, uma Citroneta 1968 verde limão, e
partiram para Nacimiento. Nunca mais as vi.
Seus pais, um casal de pintores, tinham morrido antes de as gêmeas
completarem quinze anos, creio que num acidente de trânsito. Vi, uma vez, uma
foto deles: ele era moreno e enxuto, as maçãs do rosto salientes e com uma
expressão de tristeza e perplexidade que só se veem nos nascidos ao sul do
Bío-Bío; ela era ou parecia ser mais alta que ele, meio gordinha, com um
sorriso doce e ingênuo.
Com a morte, deixaram-lhes a casa de Nacimiento, uma casa de pedra e
madeira com três andares — sendo o último deles uma grande sala de teto
inclinado que lhes servia como ateliê —, na periferia do vilarejo, e algumas
terras perto de Mulchén que lhes possibilitavam viver sem muito aperto. As
Garmendia costumavam falar bastante dos pais (segundo elas, Julián
Garmendia era um dos melhores pintores de sua geração, embora eu nunca
tenha ouvido falar no seu nome em lugar algum) e não era raro que
aparecessem, em seus poemas, pintores perdidos no sul do Chile, sugados por
uma obra desesperada e por um amor desesperado. Julián Garmendia amava
desesperadamente María Oyarzún? Custa-me acreditar, quando rememoro
aquela foto. Mas não tenho nenhuma dificuldade para acreditar que na década
de 60, no Chile, havia pessoas que amavam a outras pessoas
desesperadamente. Parece-me estranho. Parece-me como um filme perdido
numa estante esquecida de uma grande cinemateca. Mas dou isso como certo.
A partir daqui, meu relato se alimentará basicamente de conjecturas. As
Garmendia partiram para Nacimiento, para aquela grande casa de sua periferia
onde viviam apenas uma tia, uma tal Ema Oyarzún, irmã mais velha da
falecida mãe, e uma velha empregada chamada Amalia Maluenda.
Partiram, portanto, para Nacimiento e se fecharam na casa até que um belo
dia, digamos que duas semanas ou um mês depois (embora não creio que tenha
se passado tanto tempo), Alberto Ruiz-Tagle aparece por ali.
Só pode ter sido assim. Em um fim de tarde, um desses entardeceres
vigorosos mas ao mesmo tempo melancólicos do Sul, um automóvel avança
pela estradinha de terra, mas as Garmendia não o escutam porque estão
tocando piano ou então cuidando da horta ou ainda carregando lenha na parte
de trás da casa junto com a tia e a empregada. Alguém bate na porta. Depois
de várias batidas, a empregada atende e depara com Ruiz-Tagle. Ele pergunta
pelas Garmendia. A empregada não o deixa passar e diz que vai avisar as
meninas. Ruiz-Tagle aguarda pacientemente sentado numa poltrona de vime na
varanda ampla. As Garmendia, ao vê-lo, cumprimentam-no com efusão e
repreendem a empregada por não tê-lo deixado entrar. Durante a primeira
meia hora, cobrem Ruiz-Tagle de perguntas. Aos olhos da tia, certamente
parece um jovem simpático, de boa aparência, educado. As Garmendia estão
felizes. Logicamente Ruiz-Tagle é convidado a ficar para o jantar, e preparam
uma refeição caprichada em sua homenagem. Não quero imaginar o que eles
terão comido. Talvez torta de milho, talvez empanadas, não, que nada, com
certeza comeram outras coisas. Logicamente o convidam para passar a noite
ali. Ruiz-Tagle aceita com humildade. Durante a sobremesa, que se prolonga
até altas horas, as Garmendia leem poemas diante do assombro da tia e do
silêncio cúmplice de Ruiz-Tagle. Ele, logicamente, não lê nada, pede
desculpas, diz que diante daqueles poemas os seus não valem nada, a tia
insiste, por favor, Alberto, leia algum poema seu para nós, mas ele continua
inflexível, diz que está prestes a concluir algo novo que até não ser finalizado
e corrigido prefere não divulgar, sorri, dá de ombros, diz que não, sinto muito,
não, não, não, e as Garmendia aquiescem, tia, não seja insistente, acreditam
compreender, inocentes, não entendem nada (a “nova poesia chilena” está
prestes a nascer), mas acreditam compreender e leem seus poemas, seus
maravilhosos poemas, ante a expressão de prazer de Ruiz-Tagle (que
certamente fecha os olhos para ouvir melhor) e o rosto em alguns momentos
aborrecido de sua tia, como você consegue escrever essa barbaridade,
Angélica, ou então Verónica, minha menina, não estou entendendo nada,
Alberto, será que você pode me explicar o que essa metáfora significa?, e
Ruiz-Tagle, solícito, falando de significado e significante, de Joyce Mansour,
Sylvia Plath, Alejandra Pizarnik (embora as Garmendia digam não, não
gostamos de Pizarnik, querendo dizer, na verdade, que elas não escrevem
como Pizarnik), e Ruiz-Tagle vai falando, e a tia escuta e assente, de Violeta e
Nicanor Parra (eu conheci Violeta, em sua tenda, sim, diz a pobre Ema
Oyarzún), e depois fala de Enrique Lihn e da poesia civil e se as Garmendia
estivessem mais atentas teriam visto um brilho irônico nos olhos de Ruiz-
Tagle, poesia civil, vou lhes mostrar o que é poesia civil, e finalmente, já mais
solto, fala de Jorge Cáceres, o surrealista chileno morto em 1949 aos vinte e
seis anos de idade.
E as Garmendia então se levantam, ou talvez só Verónica se levanta, e
procura algo na grande biblioteca do pai e volta com um livro de Cáceres, Por
el camino de la gran pirámide polar, publicado quando o poeta tinha apenas
vinte anos; as Garmendia, talvez só Angélica, em algum momento tinham
falado em reeditar a obra completa de Cáceres, um dos mitos da nossa
geração, por isso não é de estranhar que Ruiz-Tagle o tenha mencionado
(embora a poesia de Cáceres não tenha nada a ver com a poesia das
Garmendia; Violeta Parra sim, Nicanor sim, mas não Cáceres). E também
menciona Anne Sexton e Elizabeth Bishop e Denise Levertov (poetas
admirados pelas Garmendia, que em algum momento os traduziram e leram na
oficina, para visível satisfação de Juan Stein) e depois todos riem da tia que
não entende nada e comem biscoitos caseiros e tocam violão e alguém observa
a empregada, que também os observa, de pé, na parte escura do corredor mas
sem se atrever a entrar, e a tia diz venha para cá, Amalia, não seja ridícula, e a
empregada, atraída pela música e por toda aquela farra, dá dois passos, mas
nenhum a mais, e logo chega a noite, encerra-se o sarau.
Algumas horas mais tarde, Alberto Ruiz-Tagle, embora eu já devesse
começar a chamá-lo de Carlos Wieder, se levanta.
Todos dormem. Ele, provavelmente, transou com Verónica Garmendia. Não
tem importância. (Quero dizer: agora não tem importância, embora naquele
momento, sem dúvida, para o nosso infortúnio, teve.) O fato é que Carlos
Wieder se levanta com a segurança de um sonâmbulo e percorre a casa em
silêncio. Procura o quarto da tia. Sua sombra atravessa os corredores onde
estão pendurados os quadros de Julián Garmendia e María Oyarzún ao lado de
pratos e de cerâmicas da região. (Nacimiento é conhecida, creio, por suas
louças ou cerâmicas.) Wieder, em todo caso, abre uma porta atrás da outra
com grande cautela. Finalmente encontra o quarto da tia, no térreo, ao lado da
cozinha. Em frente com certeza está o quarto da empregada. No exato instante
em que entra no quarto, escuta o som de um automóvel que se aproxima da
casa. Wieder sorri e acelera os movimentos. Num salto se põe junto à
cabeceira. Traz na mão direita uma faca. Ema Oyarzún dorme placidamente.
Wieder lhe tira o travesseiro e tampa com ele seu rosto. Em seguida, num
único golpe, rasga-lhe o pescoço. Nesse instante, o carro para na frente da
casa. Wieder já saiu do quarto e agora entra no da empregada. Mas a cama
está vazia. Por um momento, Wieder fica sem saber o que fazer: sente vontade
de acabar com a cama a pontapés ou destruir a cômoda de madeira toda
despedaçada onde se amontoam as roupas de Amalia Maluenda. Mas é apenas
por um segundo. Pouco depois já está na porta, abrindo-a para que os quatro
homens recém-chegados possam entrar. Saúdam-no com um movimento de
cabeça (que ao mesmo tempo exprime respeito) e observam com olhares
obscenos o interior da casa na penumbra, os tapetes, as cortinas, como se
desde o primeiro momento procurassem e avaliassem os lugares mais seguros
para se esconder. Mas não são eles que irão se esconder. Eles são os que
procuram os que se escondem.
E junto com eles entra a noite na casa das irmãs Garmendia. E quinze
minutos depois, talvez dez, quando se retiram, a noite volta a sair, subitamente
a noite entrava e saía, eficaz e veloz. E os cadáveres jamais serão
encontrados, ou sim, há um cadáver, apenas um cadáver que aparecerá anos
depois numa fossa comum, o de Angélica Garmendia, minha adorável, minha
incomparável Angélica Garmendia, mas somente esse, como que para provar
que Carlos Wieder é um homem, e não um deus.

* O autor faz um jogo com a palavra plata, que na gíria significa dinheiro mas que é também prata, daí a ideia de brilho
na escuridão. (N. T.)
2.

Naqueles dias, enquanto os últimos botes salva-vidas da Unidade Popular


se afundavam, fui preso. As circunstâncias de minha detenção são banais, se
não grotescas, mas o fato de estar ali, e não na rua ou num café ou trancado no
meu quarto sem querer sair da cama (e esta era a possibilidade maior),
permitiu-me presenciar o primeiro ato poético de Carlos Wieder, embora na
ocasião eu ainda não soubesse quem era Carlos Wieder nem qual tinha sido o
destino das irmãs Garmendia.
Aconteceu num final de tarde — Wieder adorava os crepúsculos —,
enquanto, junto com outros detentos, umas sessenta pessoas, matávamos o
tédio no Centro La Peña, um lugar de transição na periferia de Concepción,
quase já em Talcahuano, jogando xadrez no pátio ou simplesmente
conversando.
O céu, meia hora antes totalmente azul, começava a empurrar alguns
pedacinhos de nuvens para o leste; essas nuvens, com formatos semelhantes a
alfinetes e cigarros, eram cinzentas no começo, quando ainda planavam sobre
a costa, para em seguida, ao dirigir seu itinerário para a cidade, ficarem
rosadas e por fim, quando se enfiavam rio acima, transmudar sua cor para um
vermelhão brilhante.
Naquele momento, não sei por quê, eu tinha a sensação de ser o único preso
que estava olhando para o céu. Provavelmente era porque tinha dezenove anos.
Lento, entre as nuvens, apareceu o avião. No começo era uma mancha não
maior que um mosquito. Calculei que vinha de uma base aérea daquelas
cercanias e que regressava à sua base depois de um périplo aéreo pela costa.
Pouco a pouco, mas sem dificuldade, como se planasse no ar, foi se
aproximando da cidade, confundindo-se entre as nuvens cilíndricas, que
flutuavam em alturas muito elevadas, e as nuvens em formato de agulha que
eram arrastadas pelo vento quase roçando os telhados.
Dava a impressão de avançar tão devagar quanto as nuvens, mas não tardei
a perceber que aquilo era apenas ilusão de ótica. Quando passou por cima do
Centro La Peña, o barulho que fez foi como o de uma máquina de lavar
quebrada. Dali de onde estava pude ver a figura do piloto e por um momento
achei que ele levantava a mão e nos saudava. Logo subiu o bico, ganhou altura
e já voava sobre o centro de Concepción.
E ali, naquelas alturas, começou a escrever um poema no céu. No início
achei que o piloto tinha ficado louco e isso não me pareceu estranho. A
loucura não era algo excepcional naqueles dias. Pensei que girava no ar
ofuscado pelo desespero e que logo se estatelaria contra algum edifício ou
alguma praça da cidade. Mas logo depois, como se saíssem do próprio céu,
apareceram as letras. Letras de fumaça cinza-escuro traçadas à perfeição
sobre a enorme tela de céu azul-rosado e que congelavam os olhos de quem as
observava. in principio... creavit deus... coelum et terram, eu li, como se
estivesse dormindo. Tive a impressão — e esperava que fosse isso mesmo —
de que se tratava de uma campanha publicitária. Ri sozinho. O avião então
voltou em nossa direção, para o oeste, e logo tornou a girar e fez outra
evolução. Dessa vez o verso foi bem mais longo e estendeu-se até os
subúrbios do sul. terra autem erat inanis... et vacua... et tenebrae erant... super
faciem abyssi... et spiritus dei... ferebatur super aquas...
Por um momento parecia que o avião iria se perder no horizonte, rumo à
cordilheira da Costa ou à cordilheira dos Andes, juro que não sei, rumo ao sul,
rumo às grandes florestas, mas ele voltou.
Nessa hora já quase todos no Centro La Penã olhavam para o céu.
Um dos presos, chamado Norberto, que estava ficando louco (pelo menos
era esse o diagnóstico feito por outro detento, um psiquiatra socialista que
logo depois foi fuzilado, segundo me contaram, em pleno domínio de suas
faculdades psíquicas e emocionais), tentou subir na cerca que separava o pátio
dos homens do pátio das mulheres e começou a gritar é um Messerschmitt 109,
um caça Messerschmitt da Luftwaffe, o melhor caça de 1940. Olhei para ele
fixamente, para ele e em seguida para os demais detentos, e tudo me pareceu
envolto por uma cor cinza transparente, como se o Centro La Peña estivesse
desaparecendo no tempo.
Na porta de entrada do ginásio onde à noite dormíamos no chão, dois
carcereiros tinham parado de falar e olhavam para o céu. Todos os presos, de
pé, olhavam para o céu, abandonadas as partidas de xadrez, a contagem dos
dias que supostamente nos aguardavam, as confidências. Agarrado à cerca
como um macaco, o louco Norberto ria e dizia que a Segunda Guerra Mundial
estava de volta à Terra, os da Terceira, dizia, se enganaram, é a Segunda que
está voltando, voltando, voltando. Coube a nós, os chilenos, que povo mais
abençoado, recebê-la, dar-lhe as boas-vindas, dizia, e a saliva, uma saliva
muito branca que contrastava com o tom cinza predominante, escorria-lhe pelo
queixo, molhava o colarinho da camisa e terminava, numa espécie de grande
mancha úmida, no peito.
O avião inclinou-se sobre uma das asas e voltou para o centro de
Concepción. dixitque deus... fiat lux... et facta est lux, li com dificuldade, ou
talvez imaginei ou sonhei. No outro lado da cerca, fazendo viseiras com as
mãos, as mulheres também acompanhavam atentamente as evoluções do avião
com uma quietude de apertar o coração. Por um instante pensei que se
Norberto quisesse fugir ninguém o teria segurado. Todos, menos ele, estavam
perdidos na imobilidade, detentos e guardas, os rostos voltados para o céu.
Até aquele momento eu nunca havia visto tanta tristeza junta (ou pelo menos
foi no que acreditei naquele momento; agora algumas manhãs de minha
infância me parecem mais tristes que aquele entardecer perdido de 1973).
E o avião tornou a passar sobre nós. Traçou um círculo sobre o mar, subiu e
voltou para Concepción. Que piloto, dizia Norberto, nem mesmo Galland ou
Rudy Rudler fariam melhor, nem Hanna Reitsch, nem Anton Vogel, nem Karl
Heinz Schwarz, nem o Lobo de Bremen de Talca, nem o Águia de Stuttgart de
Curicó, nem mesmo Hans Marseille reencarnado. Depois disso Norberto me
olhou e piscou um olho. Estava com o rosto congestionado.
No céu de Concepción ficaram as seguintes palavras: et vidit deus... lucem
quod... esset bona... et divisit... lucem a tenebris. As últimas letras se perdiam
na direção do leste entre as nuvens em forma de agulha que subiam pelo Bío-
Bío. O mesmo avião, num determinado momento, pegou a vertical e se perdeu,
desapareceu do céu completamente. Como se tudo aquilo não tivesse passado
de ilusão ou de um pesadelo. O que dizia, companheiro?, ouvi um mineiro de
Lota perguntar. Metade dos presos (homens e mulheres) do Centro La Peña era
formada por gente de Lota. Não faço ideia, responderam, mas parece
importante. Outra voz disse: só bobagem, mas num tom em que se percebia
temor e deslumbre. Os policiais na porta do ginásio tinham se multiplicado,
agora eram seis e cochichavam entre si. Norberto, à minha frente, as mãos
enganchadas na cerca e sem deixar de mover os pés, como se quisesse fazer
um buraco no chão, sussurrou: é o ressurgimento da Blitzkrieg ou então estou
ficando louco varrido. Fique tranquilo, disse eu. Mais tranquilo do que estou é
impossível, estou flutuando numa nuvem, disse. Em seguida, suspirou
profundamente e parecia, com efeito, tranquilo.
Nesse instante, precedido por um estranho rangido, como se alguém tivesse
esmagado um inseto muito grande ou uma torrada muito pequena, o avião
reapareceu. Vinha novamente do mar. Vi as mãos que se erguiam apontando
para ele, as mangas sujas que se elevavam indicando sua rota, ouvi vozes mas
era apenas o ar. Na verdade, ninguém se atrevia a falar. Norberto fechou os
olhos com força e depois os abriu, fora de órbita. Santo céu, disse, pai nosso,
perdoai-nos pelos pecados de nossos irmãos e perdoai-nos por nossos
pecados. Somos apenas chilenos, senhor, disse, inocentes, inocentes. Disse de
modo forte e claro, sem estremecer a voz. Todos, obviamente, ouvíamos.
Alguns riam. Escutei às minhas costas algumas expressões jocosas em que se
misturavam blasfêmia e gozação. Virei e busquei com os olhos quem tinha
falado. Os rostos dos presos e dos policiais giravam como numa roda da
fortuna, pálidos, definhados. O rosto de Norberto, ao contrário, permanecia
fixo em seu eixo. Era uma cara simpática que se afundava na terra. Um corpo
que às vezes dava saltinhos como um profeta desafortunado que assiste à
chegada do messias amplamente anunciado e temido. O avião passou rugindo
por cima de nossas cabeças. Norberto apertou os cotovelos como se estivesse
morrendo de frio.
Consegui enxergar o piloto. Dessa vez, evitou a saudação. Parecia uma
estátua de pedra trancada na carlinga. O céu escurecia, a noite não demoraria a
cobri-lo por inteiro, as nuvens já não estavam rosadas mas sim escuras, com
filamentos vermelhos. Quando sobrevoou Concepción, sua figura simétrica se
assemelhava a uma mancha de Rorschach.
Dessa vez escreveu apenas uma palavra, maior que as anteriores, ali onde
calculei que fosse exatamente o centro da cidade: aprendam. Depois o avião
pareceu vacilar, perder altura, prestes a cair sobre o telhado de algum
edifício, como se o piloto tivesse desligado o motor e desse o primeiro
exemplo do aprendizado a que se referia ou a que nos instava a nos
submetermos. Mas isso durou apenas um instante, o tempo suficiente para que
a noite e o vento desfizessem as letras da última palavra. Depois disso, o
avião desapareceu.
Durante alguns segundos, ninguém disse nada. No outro lado da cerca, ouvi
o choro de uma mulher. Norberto, com o semblante apaziguado, como se nada
tivesse acontecido, falava com duas presas muito jovens. Tive a impressão de
que lhe pediam algum conselho. Meu Deus, estão pedindo conselho a um
maluco. Ouvi atrás de mim alguns comentários ininteligíveis. Alguma coisa
tinha acontecido, mas na verdade não tinha acontecido nada. Dois professores
falavam de uma campanha publicitária da Igreja. De qual Igreja?, perguntei.
De qual poderia ser, disseram, dando-me as costas. Não gostava deles. Depois
disso os policiais acordaram e nos enfileiraram no pátio para a última
contagem. No pátio das mulheres, outras vozes mandavam que se
enfileirassem. Gostou?, perguntou-me Norberto. Dei de ombros, só sei que
nunca mais esquecerei, eu disse. Percebeu que era um Messerschmitt ? Se
você está dizendo, acredito, disse eu. Era um Messerschmitt, disse Norberto, e
penso que ele veio de outro mundo. Dei-lhe um tapinha nas costas e disse que
certamente era isso mesmo. A fila começou a se mover, voltávamos para
dentro do ginásio. E escrevia em latim, disse Norberto. É, disse eu, mas não
entendi nada. Eu sim, disse Norberto, não é por acaso que fui mestre tipógrafo
por alguns anos, falava sobre o começo do mundo, da vontade, da luz e das
trevas. Lux é luz. Tenebrae é trevas. Fiat é faça-se. Faça-se a luz, entende?
Para mim Fiat soa a carro italiano, eu disse. Pois não é nada disso,
companheiro. E ao final, desejava boa sorte para todos nós. Acha mesmo?,
perguntei. Sim, para todos, sem exceção. Um poeta, eu disse. Uma pessoa
educada, isso sim, disse Norberto.
3.

Aquela primeira aparição poética nos céus de Concepción granjeou a


Carlos Wieder a admiração imediata de algumas mentes inquietas do Chile.
Não demorou muito para que o convidassem a realizar outras exibições de
escrita aérea. No início timidamente, mas depois com a franqueza típica dos
soldados e dos cavaleiros que sabem reconhecer uma obra de arte quando a
veem, embora sem entendê-la, a presença de Wieder se multiplicou em atos e
comemorações. Para um público composto por altos oficiais e homens de
negócios acompanhados de suas respectivas famílias — as filhas solteiras
morriam de amores por Wieder e as já casadas morriam de tristeza —, ele
desenhou sobre o aeródromo de Las Tencas, minutos antes de a noite encobri-
lo por inteiro, uma estrela, a estrela da nossa bandeira, reluzente e solitária
sobre o horizonte implacável. Poucos dias depois, perante um público variado
e democrático que ia para lá e para cá em clima de quermesse sob os toldos
armados para eventos festivos no aeroporto militar de El Cóndor, escreveu um
poema que um espectador curioso e experiente qualificou de sagaz. (Mais
precisamente: com um começo que Isidore Isou não desaprovaria e um final
inédito digno de um saranguaco.)* Num de seus versos, falava de forma velada
das irmãs Garmendia. Chamava-as de “as gêmeas”, falava de um furacão e de
certos lábios. E embora logo a seguir se contradissesse, quem o lesse com
todas as linhas já podia dá-las como mortas.
Em outro poema, falava de uma certa Patricia e de uma tal Carmen. Esta
última era, provavelmente, a poeta Carmen Villagrán, que desapareceu nos
primeiros dias de dezembro. Disse à mãe, segundo depoimento desta a uma
comissão de investigação da Igreja, que tinha marcado um encontro com um
amigo e nunca mais voltou. A mãe chegou a perguntar quem era esse amigo. Da
porta, Carmen respondeu que era um poeta. Anos mais tarde, Bibiano O’Ryan
conferiu a identidade de Patricia; tratava-se, segundo ele, de Patricia Méndez,
de dezessete anos, participante de uma oficina de literatura mantida pelas
Juventudes Comunistas e desaparecida no mesmo período que Carmen
Villagrán. A diferença entre as duas era evidente, Carmen lia Michel Leiris em
francês e pertencia a uma família de classe média; Patricia Méndez, além de
ser mais jovem, era devota de Pablo Neruda e tinha origem proletária. Não
estudava na universidade, como Carmen, embora aspirasse algum dia cursar
pedagogia; trabalhava, enquanto isso, numa loja de eletrodomésticos. Bibiano
visitou sua mãe e pôde ler, num velho caderno de caligrafia, alguns poemas de
Patricia. Eram ruins, segundo Bibiano, na linha do pior Neruda, uma espécie
de mistura entre Vinte poemas de amor e Incitação ao nixonicídio, mas, nas
entrelinhas, podia-se vislumbrar alguma coisa. Frescor, admiração, vontade de
viver. De qualquer maneira, concluía Bibiano em sua carta, não se mata
ninguém por escrever mal, ainda mais se não tiver chegado aos vinte anos de
idade.
Em sua exibição aérea de El Cóndor, Wieder dizia: aprendizes do fogo. Os
generais que o observavam da tribuna de honra da pista pensaram, suponho
que legitimamente, tratar-se de uma menção a suas namoradas, amigas ou
talvez do apelido de algumas putas de Talcahuano. Alguns dos seus
conhecidos mais íntimos, porém, sabiam que Wieder estava mencionando e
invocando mulheres mortas. Mas estes últimos não entendiam nada de poesia.
Ou pelo menos achavam isso. (Wieder, é claro, dizia-lhes que sabiam, sim,
que conheciam mais do que muita gente, poetas e professores, por exemplo, o
pessoal dos oásis ou dos miseráveis desertos imaculados, mas os rufiões não
o compreendiam ou, no melhor dos casos, pensavam com indulgência que o
tenente lhes dizia isso apenas de gozação.) Para eles, o que Wieder fazia a
bordo do avião não passava de uma exibição perigosa, perigosa em todos os
sentidos, mas não poesia.
Naquele mesmo período, participou de mais duas exibições aéreas, uma em
Santiago, onde voltou a escrever versículos da Bíblia e versos do “Renacer
Chileno”, e a outra em Los Ángeles (província de Bío-Bío), onde dividiu o
céu com outros dois pilotos que, diferentemente de Wieder, eram civis, e além
disso bem mais velhos que ele e com longa trajetória como publicitários do ar,
e com os quais desenhou, em conjunto, uma grande (e em alguns momentos
vacilante) bandeira chilena no céu.
Dele se disse (em alguns jornais, na rádio) que era capaz das maiores
façanhas. Nada podia segurá-lo. Seu instrutor na Academia declarou que se
tratava de um piloto nato, experimentado, instintivo, capaz de pilotar caças e
caça-bombardeiros sem a menor dificuldade. Um colega em cujo sítio havia
passado algumas férias na adolescência admitiu que Wieder, diante do susto e
posterior aborrecimento de seus pais, havia pilotado sem autorização um
velho Piper todo desmantelado que depois fez aterrissar numa estradinha
vicinal estreita e esburacada. Aquele verão, que se supõe que seja o de 1968
(o verão meridional que precedeu em alguns meses a criação, numa modesta
portaria de Paris, da Escrita Bárbara, movimento literário que terá
importância decisiva para ele nos seus últimos anos de vida), Wieder passou
sem os pais, adolescente intrépido e tímido (segundo seu colega) de quem se
podia esperar de tudo, qualquer extravagância, qualquer explosão, mas que ao
mesmo tempo era querido pelas pessoas que o rodeavam. Minha mãe e minha
avó o adoravam (diz seu colega), para elas Wieder sempre parecia estar
chegando de um temporal, indefeso, molhado até os ossos pela chuva, mas ao
mesmo tempo encantador.
Não obstante, havia alguns pontos negros em sua vida social: as más
companhias, uma gente obscura, parasitas de delegacias de polícia ou da
vadiagem com quem Wieder saía algumas vezes, sempre de noite, para beber
ou para se fechar em locais de má reputação. Mas, vistos bem de perto, esses
pontos não eram mais do que isso mesmo: pontos negros, imperceptíveis, que
não afetavam em nada seu caráter nem seus modos, muito menos seus hábitos.
Algo inclusive imprescindível, como alguns chegaram a conjecturar, para a
sua carreira literária, que aspirava ao conhecimento e ao absoluto.
Uma carreira que, naquela época, o tempo das exibições aéreas, recebeu o
respaldo de um dos mais influentes críticos literários do Chile (coisa que
literariamente falando não quer dizer quase nada, mas que no Chile, desde os
tempos de Alone, significa muito), um certo Nicasio Ibacache, antiquário e
católico de ir à missa todos os dias, embora amigo de Neruda e, antes, de
Huidobro e correspondente de Gabriela Mistral, alvo predileto de Pablo de
Rokha e descobridor (segundo ele) de Nicanor Parra, enfim, um sujeito que
sabia inglês e francês e que morreu no final dos anos 70 de um ataque no
coração. Em sua coluna semanal no El Mercurio, Ibacache abordou a poesia
singular de Wieder. O texto dizia que estávamos (os leitores do Chile) diante
do grande poeta dos novos tempos. Depois, como era de seu costume,
dedicava-se a dar publicamente alguns conselhos a Wieder e se estendia em
comentários críticos e às vezes incoerentes sobre diferentes edições da Bíblia
— foi daí que soubemos que Wieder usou em sua primeira aparição nos céus
de Concepción e do Centro La Peña a Vulgata Latina traduzida para o
espanhol, “segundo o sentido definido pelos santos padres e expositores”,
pelo Ilmo. Sr. D. Felipe Scio de S. Miguel e publicada em vários tomos por
Gaspar y Roig Editores, em Madri, em 1852, tal como lhe confidenciara, dizia
Ibacache, o próprio Wieder durante uma longa conversa telefônica noturna na
qual lhe perguntou por que não utilizara a tradução do reverendo padre Scio e
a resposta de Wieder foi: porque o latim se incrustava melhor no céu; embora
na verdade Wieder deva ter empregado a palavra “embutir ”, o latim se
embute melhor no céu, o que por outro lado não o impediu de utilizar o
espanhol nas aparições seguintes — fazendo referência, como se ainda fosse
preciso, a várias Bíblias mencionadas por Borges e inclusive à Bíblia de
Jerusalém traduzida para o espanhol por Raimundo Pellegrí e publicada em
Valparaíso em 1875, edição maldita que segundo Ibacache pressagiava e
antecipava a Guerra do Pacífico que poucos anos depois oporia o Chile à
Aliança Peruano-Boliviana. No que se refere aos conselhos, alertava o jovem
poeta para os perigos de uma “glória excessivamente precoce”, para os
inconvenientes da vanguarda literária “que pode gerar confusão nas fronteiras
que separam a poesia da pintura e do teatro ou, melhor dizendo, do evento
plástico e do evento teatral”, para a necessidade de não abrir mão de uma
formação contínua, quer dizer, em palavras claras, Ibacache aconselhava
Wieder a não deixar nunca de ler. Leia, meu jovem, parecia dizer, leia os
poetas ingleses, os poetas franceses, os poetas chilenos e Octavio Paz.
A apologia de Ibacache, a única que o prolífico crítico escreveu sobre
Wieder, vinha ilustrada com duas fotografias. Na primeira, vê-se um avião, ou
talvez seja um teco-teco, e seu piloto no meio de uma pista que se percebe ser
simples e supostamente militar. A foto foi tirada a certa distância, razão pela
qual os traços de Wieder não são nítidos. Veste uma jaqueta de couro com
colarinho de pele, uma boina achatada das Forças Aéreas Chilenas, calça
jeans e botas combinando com a calça. A legenda da foto informa: O tenente
Carlos Wieder no aeródromo de Los Muleros. Na segunda foto, é possível ler,
mais com força de vontade do que com nitidez, alguns dos versos que o poeta
havia escrito nos céus de Los Ángeles depois da grandiosa composição da
bandeira chilena.
Pouco antes eu tinha deixado o Centro La Peña, posto em liberdade sem
nenhuma acusação formal, como a maior parte dos que haviam passado por
ali. Nos primeiros dias não saí de casa, a ponto de provocar preocupação em
meu pai e em minha mãe e gozações de meus dois irmãos menores, que, com
toda a razão do mundo, me chamavam de covarde. Depois de uma semana,
recebi uma visita de Bibiano O’Ryan. Quando ficamos a sós no quarto, ele
disse que tinha duas notícias, uma boa e uma ruim. A boa era que tínhamos
sido expulsos da universidade. A ruim é que quase todos os nossos amigos
tinham desaparecido. Disse-lhe que eles provavelmente estavam presos ou
tinham dado o fora, como as irmãs Garmendia, para alguma casa de campo.
Não, disse Bibiano, as gêmeas também desapareceram. Assim que pronunciou
“gêmeas”, sua voz falhou. O que aconteceu depois é difícil explicar (embora
nesta história tudo seja difícil explicar), Bibiano se jogou nos meus braços
(literalmente), eu estava sentado ao pé da cama, e começou a chorar
inconsolavelmente sobre meu peito. No começo pensei que estivesse sofrendo
algum tipo de ataque. Mas logo percebi, sem a menor sombra de dúvida, que
nunca mais veríamos as irmãs Garmendia. Bibiano depois se levantou,
aproximou-se da janela e logo se recompôs. Está tudo no campo das
especulações, disse ele de costas para mim. Sim, assenti, sem saber a quê se
referia. Há uma terceira notícia, disse Bibiano, como se precisássemos de
mais. Boa ou ruim?, perguntei. Impressionante, respondeu Bibiano. Pode falar,
eu disse, mas logo acrescentei: não, espere, deixe-me respirar, que era como
se dissesse deixe-me ver meu quarto, minha casa e o rosto dos meus pais pela
última vez.
Naquela noite, fui com Bibiano visitar a Gorda Posadas. À primeira vista,
parecia a mesma de sempre, até melhor, mais animada. Hiperativa, não parava
de se mover de um lado para o outro, o que com o tempo deixava exasperado
quem quer que estivesse com ela. Não tinha sido expulsa da universidade. A
vida continuava. Era preciso fazer coisas (qualquer coisa, como mudar um
vaso de flores de lugar cinco vezes em meia hora, para não ficar louca) e ver o
lado positivo de cada situação, ou seja, enfrentar as situações uma a uma e não
todas ao mesmo tempo, como costumava fazer até então. E amadurecer. Mas
logo percebemos que a questão da Gorda era o medo. Estava mais assustada
do que nunca havia estado em toda a sua vida. Estive com Alberto, ela me
disse. Bibiano assentiu com a cabeça, ele já conhecia a história e tive a
sensação de que duvidava da veracidade de algumas passagens. Ele me
telefonou, disse a Gorda, queria que eu fosse visitá-lo na casa dele. Eu falei
que ele nunca estava em casa. Ele me perguntou como eu sabia disso e deu
uma risada. Senti na voz um tom meio velado, mas Alberto sempre foi meio
misterioso e não dei importância para aquilo. Fui visitá-lo. Marcamos à uma
hora. Cheguei pontualmente. A casa estava vazia. Ruiz-Tagle não estava lá?
Sim, mas a casa estava vazia, não havia nenhum móvel. Está de mudança,
Alberto?, perguntei. Sim, gordinha, ele me disse, dá para perceber? Eu estava
muito nervosa, mas me controlei e comentei que ultimamente todo mundo
estava se mudando. Ele me perguntou todo mundo quem. Diego Soto, eu lhe
disse, saiu de Concepción. E também Carmen Villagrán. E mencionei você
(eu), que eu então não sabia onde estava, e as irmãs Garmendia. A mim você
não mencionou, disse Bibiano, sobre mim você não disse nada. Não, não falei
nada sobre você. E o que Alberto disse? A Gorda me olhou e só então me dei
conta de como ela era não apenas inteligente mas também forte, e que sofria
muito (mas não por questões políticas, a Gorda sofria porque pesava mais de
oitenta quilos e porque contemplava o espetáculo, o espetáculo do sexo e o do
sangue, assim como o do amor, numa plateia sem acesso ao palco,
incomunicável, blindada). Disse que os ratos sempre fogem. Não consegui
acreditar no que ouvia e então lhe perguntei, o que foi que você disse? Aí
Alberto se virou e me olhou com um enorme sorriso na cara. Isso tudo acabou,
gordinha, ele disse. Então senti medo e pedi que parasse com aqueles
mistérios e me contasse algo mais divertido. Pare de falar besteira, caralho, e
me responda quando falo. Nunca na vida tinha sido tão vulgar, disse a Gorda.
Alberto parecia uma serpente. Não: parecia um faraó egípcio. Apenas sorriu e
continuou a me olhar, embora em alguns momentos eu tenha tido a impressão
de que se movia pelo apartamento vazio. Mas como poderia se mover se
estava quieto? As Garmendia estão mortas, disse ele. A Villagrán também.
Não acredito, eu disse. Por que estariam mortas? Está querendo me assustar,
bobão? Todas as poetisas estão mortas, disse ele. Essa é a verdade, gordinha,
e você faria melhor se acreditasse em mim. Estávamos sentados no chão. Eu
num canto e ele no centro da sala. Juro que pensei que ele fosse me pegar, que
de repente, de surpresa, começaria a me encher de socos. Por um momento
achei que fosse me mijar toda ali mesmo. Alberto não tirava os olhos de cima
de mim. Quis lhe perguntar o que ia acontecer comigo, mas a voz não saía.
Chega dessas histórias, sussurrei. Alberto não me ouviu. Parecia esperar pela
chegada de mais alguém. Ficamos sem falar nada durante um bom tempo. Sem
querer, eu tinha fechado os olhos. Quando os abri, Alberto estava de pé
apoiado na porta da cozinha, olhando para mim. Você dormiu, Gorda, ele
disse. Estava roncando?, perguntei. Sim, ele disse, estava. Só então me dei
conta de que Alberto estava resfriado. Trazia na mão um enorme lenço
amarelo em que assoou duas vezes o nariz. Está com gripe, eu disse, e sorri.
Como você é má, Gorda, censurou ele, estou apenas de nariz entupido. Era a
hora certa para cair fora, então me levantei e disse que já o tinha incomodado
demais. Você nunca é um incômodo para mim, ele disse. É uma das poucas que
me entendem, Gorda, e isso merece gratidão. Mas hoje eu não tenho chá nem
vinho nem uísque nem nada. Como você vê, estou de mudança. Claro, eu disse.
Despedi-me com um aceno de mão, coisa que não costumo fazer em ambientes
internos mas apenas ao ar livre, e saí.
E o que aconteceu com as irmãs Garmendia?, perguntei. Não sei, disse a
Gorda, saindo de seu estado de sonho, como é que vou saber? Por que ele não
fez nada com você?, perguntou Bibiano. Suponho que seja porque éramos
amigos de verdade, disse a Gorda.
Continuamos conversando por bastante tempo. Wieder, segundo nos contou
Bibiano, significava “outra vez”, “de novo”, “novamente”, “pela segunda
vez”, “de volta”, em alguns contextos “uma e outra vez”, e “a próxima vez” em
frases que apontam para o futuro. E de acordo com o que lhe dissera seu amigo
Anselmo Sanjuán, ex-estudante de filologia alemã na Universidade de
Concepción, somente a partir do século xvii o advérbio Wieder e a preposição
no acusativo Wider passaram a ser grafados de modo diferente para se
distinguir melhor seu significado. Wider, que é Widar ou Widari no alemão
antigo, significa “contra”, “frente a”, às vezes “para com”. E lançava
exemplos no ar: Widerchrist, “anticristo”; Widerhaken, “gancho”, “croque”;
Widerraten, “dissuasão”; Widerlegung, “apologia”, “refutação”; Widerlage,
“esporão”; Widerklage, “contra-acusação”, “contradenúncia”;
Widernatürlichkeit, “monstruosidade” e “aberração”. Palavras que lhe
pareciam, todas elas, altamente reveladoras. Inclusive, tendo se aprofundado
no assunto, dizia que Weide significava “salgueiro chorão”, e que Weïden
queria dizer “pastar ”, “apascentar ”, “cuidar de animais que pastam”, o que o
levava a pensar no poema de Silvia Acevedo “Lobos e ovelhas” e no caráter
profético que algumas pessoas queriam enxergar nele. Weïden também queria
dizer deleitar-se morbidamente na contemplação de um objeto que estimula
nossa sexualidade e/ou nossas tendências sádicas. E Bibiano então olhava
para nós e abria bastante os olhos e nós olhávamos para ele, os três em
silêncio, com as mãos juntas, como se estivéssemos meditando ou orando. E
depois voltava a Wieder, extenuado, aterrorizado, como se o tempo estivesse
passando junto a nós como um terremoto, e indicava a possibilidade de que o
avô do piloto Wieder tivesse se chamado Weider e que nos escritórios de
emigração do começo do século um erro tivesse transformado Weider em
Wieder. Isso, caso não se chamasse Bieder, “probo”, “educado”, considerando
que a labiodental W e a bilabial B confundem facilmente o ouvido. E também
lembrava que o substantivo Widder significa “carneiro” e “áries”, e disso se
podia tirar todas as conclusões que se quisesse.
Dois dias depois a Gorda ligou para Bibiano e disse que Alberto Ruiz-
Tagle era Carlos Wieder. Tinha-o reconhecido pela foto do Mercurio. Coisa
muito improvável, como me fez ver Bibiano semanas ou meses depois, já que
a imagem da foto era enevoada e pouco confiável. Em quê a Gorda se baseava
para fazer a identificação? Em algum sétimo sentido, eu acho, disse Bibiano,
ela acredita ter reconhecido Ruiz-Tagle pela postura. De qualquer maneira,
naquele período Ruiz-Tagle desaparecera para sempre e só tínhamos Wieder
para dar algum sentido aos nossos dias miseráveis.
Bibiano começou a trabalhar naquela ocasião como atendente numa
sapataria. A loja não era nem boa nem ruim e ficava num bairro próximo do
centro, entre alguns sebos que aos poucos iam fechando suas portas,
restaurantes de segunda categoria cujos garçons caçavam clientes na calçada
com convites fantásticos e um tanto enganosos e lojas de roupas maiores ou
menores com iluminação precária. Logicamente, nunca mais voltamos a pôr os
pés em alguma oficina literária. Às vezes Bibiano me contava de seus
projetos: queria escrever em inglês fábulas que se passariam em campinas
irlandesas, queria aprender francês, pelo menos para poder ler Stendhal no
original, sonhava em se fechar dentro de Stendhal e deixar os anos passarem
(embora ele mesmo, já se contradizendo, dissesse que isso era possível com
Chateaubriand, o Octavio Paz do século xix, e não com Stendhal, jamais com
Stendhal), queria, por fim, escrever um livro, uma antologia da literatura
nazista americana. Um livro grandioso, dizia ele quando eu o buscava na saída
do trabalho na sapataria, que conteria todas as manifestações da literatura
nazista no nosso continente, desde o Canadá (onde os quebequenses podiam
render muito) até o Chile, onde certamente encontraria tendências para todos
os gostos. Enquanto isso, não esquecia Carlos Wieder, e reunia tudo que
aparecia sobre ele ou sua obra com a paixão e a dedicação de um filatelista.
Corria o ano de 1974, se não me falha a memória. Um dia a imprensa
noticiou que Carlos Wieder, com o patrocínio de várias empresas privadas,
voaria para o polo Sul. A viagem foi difícil, cheia de escalas, mas ele
escrevia seus poemas no céu em todos os lugares onde aterrissava. Eram os
poemas de uma nova idade do ferro para a raça chilena, diziam seus
admiradores. Bibiano acompanhou a viagem passo a passo. Eu, na verdade, já
não tinha nenhum interesse pelo que aquele tenente da Força Aérea fazia ou
deixava de fazer. Uma vez Bibiano me mostrou uma foto: essa era bem melhor
do que aquela em que a Gorda acreditou reconhecer Ruiz-Tagle. Com efeito,
Wieder e Ruiz-Tagle eram parecidos, mas naquele momento a única coisa em
que eu pensava era em deixar o país. O fato é que tanto nas fotos quanto nas
declarações já não restara nada daquele Ruiz-Tagle tão ponderado, tão
comedido, tão charmosamente inseguro (até mesmo tão autodidata). Wieder
era a segurança e a audácia em pessoa. Falava de poesia (não da poesia
chilena ou da poesia latino-americana, mas de poesia e ponto final) com uma
autoridade que desarmava qualquer interlocutor (embora deva dizer que seus
interlocutores de então eram jornalistas aliados ao novo regime, incapazes de
contrariar um oficial da nossa Força Aérea) e, embora pela transcrição de
suas palavras fosse possível perceber um discurso cheio de neologismos e
certa torpeza, algo natural em nossa complicada língua, também se adivinhava
a força desse discurso, a pureza e a limpidez cabal desse discurso, reflexo de
uma vontade intacta.
Antes de cumprir o último trecho (de Punta Arenas até a base antártica de
Arturo Prat), ofereceram-lhe um jantar-homenagem em um restaurante da
cidade. Wieder, segundo os relatos, bebeu além da conta e esbofeteou um
marinheiro que faltou com o devido respeito a uma senhora; várias versões
circulam sobre essa mulher; todas coincidem em que os organizadores não a
haviam convidado e que nenhum dos presentes a conhecia; a única explicação
plausível para a sua presença ali é que ela entrara às escondidas ou então tinha
vindo com Wieder. Este se referia a ela como “minha dama” ou “minha
donzela”. A mulher tinha cerca de vinte e cinco anos, era alta, de cabelos
pretos e corpo bem constituído. A certa altura do jantar-homenagem, talvez no
final, ela gritou para Wieder: Carlos, amanhã você vai morrer! Todos acharam
aquilo de péssimo gosto. Depois disso se deu o incidente com o marinheiro.
Vieram em seguida os discursos e na manhã seguinte, depois de dormir três ou
quatro horas, Wieder voou até o polo Sul. A viagem foi pródiga em incidentes
e em mais de uma oportunidade esteve prestes a se cumprir o prognóstico da
mulher desconhecida, a qual com certeza nenhum convidado tornou a ver. De
volta a Punta Arenas, Wieder declarou que o perigo maior havia sido o
silêncio. Perante o estupor simulado ou autêntico dos jornalistas, afirmou que
o silêncio eram as ondas do cabo de Hornos estendendo suas línguas até a
barriga do avião, ondas que eram como descomunais baleias melvilleanas ou
como mãos cortadas que tentaram tocá-lo durante todo o trajeto, mas
silenciosas, amordaçadas, como se naquelas paragens o som fosse matéria
exclusiva dos homens. O silêncio é como a lepra, afirmou Wieder, o silêncio é
como o comunismo, o silêncio é como uma tela branca que precisa ser
preenchida. Se você a preenche, nada de ruim pode lhe acontecer. Se você é
puro, nada de ruim pode lhe acontecer. Se não tem medo, nada de ruim pode
lhe acontecer. Segundo Bibiano, aquela era a descrição de um anjo. Um anjo
demasiadamente humano?, perguntei. Não, babaca, respondeu Bibiano, o anjo
do nosso infortúnio.
No céu límpido sobre a base de Arturo Prat, Wieder escreveu a antártida é
o chile, e isso foi filmado e fotografado. Escreveu também outros versos,
versos sobre a cor branca e a cor preta, sobre o gelo, sobre o oculto, sobre o
sorriso da Pátria, um sorriso franco, fino, desenhado nitidamente, um sorriso
parecido com um olho e que, com efeito, olha para nós, e depois voltou para
Concepción e mais tarde foi a Santiago, onde apareceu na televisão (vi o
programa à força: não havia tevê na pensão onde Bibiano morava e ele foi ver
na minha casa) e, sim, Carlos Wieder era Ruiz-Tagle (que cara de pau se
chamar Ruiz-Tagle, disse Bibiano, o sujeito foi buscar um belo sobrenome),
mas era como se não o fosse, assim me pareceu, a tevê dos meus pais era em
preto e branco (meus pais estavam contentes com a presença de Bibiano ali,
vendo televisão e jantando conosco, como se pressentissem que eu ia partir e
que não voltaria a ter um amigo como ele) e a palidez de Carlos Wieder (uma
palidez fotogênica) tornava-o semelhante não só à sombra que Ruiz-Tagle
havia sido mas também a muitas outras sombras, a outros rostos, a outros
pilotos fantasmagóricos que também voavam do Chile para a Antártida e da
Antártida para o Chile a bordo de aviões que o louco Norberto, do fundo de
sua noite, dizia serem caças Messerschmitt, esquadrilhas de Messerschmitt
que sobraram da Segunda Guerra Mundial. Mas Wieder, nós sabíamos, não
voava em esquadrilha. Wieder voava num pequeno avião, e voava sozinho.

* Referência ao poema “Saranguaco”, de Nicanor Parra. (N. T.)


4.

A história de Juan Stein, o diretor da nossa oficina de literatura, é


desmedida como o Chile daqueles anos.
Nascido em 1945, por ocasião do golpe tinha dois livros publicados, um em
Concepción (quinhentos exemplares) e outro em Santiago (quinhentos
exemplares), que juntos não somavam mais de cinquenta páginas. Seus poemas
eram curtos, com influência, em partes iguais, de Nicanor Parra e Ernesto
Cardenal, como a maioria dos poetas de sua geração, e da poesia lárica de
Jorge Teillier, embora Stein nos recomendasse ler mais Lihn do que Teillier.
Suas preferências eram muitas vezes diferentes e até mesmo opostas às nossas:
não gostava de Jorge Cáceres (o surrealista chileno por quem sentíamos
verdadeira adoração), nem de Rosamel del Valle, nem de Anguita. Gostava de
Pezoa Véliz (de quem sabia alguns poemas de cor), de Magallanes Moure
(uma frivolidade que compensávamos lendo a poesia do terrível Braulio
Arenas), dos poemas geográficos e gastronômicos de Pablo de Rokha (que nós
— e quando digo nós, percebo agora, creio que me refiro apenas a Bibiano
O’Ryan e a mim, quanto aos demais esqueci até suas filiações e fobias
literárias — evitávamos como quem evita um fosso fundo demais e porque
sempre é preferível ler Rabelais), da poesia amorosa de Neruda e Residência
na Terra (que em nós, que sofríamos de nerudite desde a mais tenra infância,
dava alergia e eczema na pele). Coincidíamos quanto aos já mencionados
Parra, Lihn e Teillier, embora com diferenças de tom e reservas em relação a
parte de sua obra (o lançamento de Artefactos, que nos agradou, levou Stein a
escrever, entre indignado e perplexo, uma carta ao velho Nicanor criticando
algumas brincadeiras que ele se permitira fazer naquele momento crucial da
luta revolucionária na América Latina; Parra lhe respondeu no verso de um
convite de Artefactos dizendo para não se preocupar, que ninguém, nem na
direita nem na esquerda, lia nada, e Stein, ao que me consta, guardou o convite
com carinho), e também gostávamos de Armando Uribe Arce, Gonzalo Rojas e
alguns poetas da geração de Stein, ou seja, os nascidos na década de 40, os
quais líamos mais pela proximidade física do que por afinidade estética, mas
que foram provavelmente os que mais nos influenciaram. Juan Luis Martínez
(que nos parecia uma pequena bússola perdida no país), Oscar Hahn (que
nasceu no final dos anos 30, mas dava na mesma), Gonzalo Millán (que
participou em duas oportunidades da oficina lendo seus poemas para nós,
todos curtos, mas muitíssimos poemas), Claudio Bertoni (que era quase como
se fosse da nossa geração, os nascidos na década de 50), Jaime Quezada (que
um dia se embriagou conosco e começou a rezar uma novena de joelhos e a
plenos pulmões), Waldo Rojas (que foi um dos primeiros a se distanciar de
certa “poesia fácil” que fez furor naqueles tempos, as sobras de Parra e
Cardenal) e, é claro, Diego Soto, que para Stein era o melhor poeta de sua
geração e, para nós, um dos melhores. O outro era Stein.
Bibiano e eu fomos várias vezes à casa dele, uma casinha pequena perto da
estação que Stein alugava desde seus tempos de estudante na Universidade de
Concepción e que, mesmo depois, já professor da mesma universidade, ainda
mantinha. A casa, mais do que livros, era cheia de mapas. Foi a primeira coisa
que chamou nossa atenção, a minha e a de Bibiano, isso de encontrar ali tão
poucos livros (em comparação a ela, a casa de Diego Soto parecia uma
biblioteca) e tantos mapas. Mapas do Chile, da Argentina, do Peru, mapas da
cordilheira dos Andes, um mapa rodoviário da América Central que nunca
mais vi igual, editado por uma Igreja protestante norte-americana, mapas do
México, mapas da Conquista do México, mapas da Revolução Mexicana,
mapas da França, da Espanha, da Alemanha, da Itália, um mapa das estradas
de ferro inglesas e um mapa das viagens de trem da literatura inglesa, mapas
da Grécia e do Egito, de Israel e do Oriente Próximo, da cidade de Jerusalém
antiga e moderna, da Índia e do Paquistão, da Birmânia, do Camboja, um mapa
das montanhas e dos rios da China e um dos templos xintoístas do Japão, um
mapa do deserto australiano e um da Micronésia, uma mapa da ilha de Páscoa
e um mapa da cidade de Puerto Montt, no sul do Chile.
Tinha muitos mapas, como costumam ter aqueles que desejam
ardorosamente viajar e que nunca, ainda, saíram de seu país.
Ao lado dos mapas, emolduradas e penduradas na parede, havia duas
fotografias. As duas em branco e preto. Numa delas via-se um homem e uma
mulher sentados na porta de sua casa. O homem se parecia com Juan Stein, o
cabelo loiro cor de palha e os olhos azuis circundados por olheiras profundas.
Eram, disse-nos ele, seus pais. A outra era o retrato — um retrato oficial — de
um general do Exército Vermelho chamado Ivan Cherniakóvski. Segundo Stein,
aquele havia sido o melhor general da Segunda Guerra Mundial. Bibiano, que
entendia dessas coisas, mencionou Zhukov, Koniev, Rokossóvski, Vatutin e
Malonóvski, mas Stein se manteve firme: Zhukov tinha sido brilhante e frio,
Koniev era duro, provavelmente um filho da puta, Rokossóvski tinha talento e
tinha Zhukov, Vatutin era um bom general mas não era melhor do que os
generais alemães que teve de enfrentar, sobre Malinóvski podia-se dizer quase
o mesmo, nenhum deles se comparava a Cherniakóvski (talvez se reunissem
numa única pessoa Zhukov, Vassiliévski e os três melhores comandantes de
tropas blindadas). Cherniakóvski possuía um talento natural (se é que isso é
possível na arte da guerra), era amado por seus homens (até onde pode chegar
o apego dos soldados por um general) e além disso era jovem, o mais jovem
dos generais no comando de um exército (chamados de “frentes” na União
Soviética) e um dos poucos chefes morto na linha de frente, em 1945, quando a
guerra já estava ganha, aos trinta e nove anos de idade.
Logo percebemos que entre Stein e Cherniakóvski havia mais do que uma
admiração pelos dotes do general soviético em matéria de tática e estratégia.
Uma tarde, falando de política, perguntamos como era possível que ele, um
trotskista, se rebaixasse a pedir uma foto do general à embaixada soviética.
Falávamos de gozação, mas Stein não entendeu assim e confessou
inocentemente que a foto tinha sido um presente de sua mãe, que era prima de
primeiro grau de Ivan Cherniakóvski. Foi ela quem a pediu à embaixada,
muitos anos antes, como parente direta do herói. Quando ele saiu de casa para
vir estudar em Concepción, a mãe lhe deu a foto sem dizer nada. Depois falou
dos Cherniakóvski da União Soviética, judeus ucranianos muito pobres, e dos
destinos díspares que os haviam espalhado pelo mundo. Logicamente
entendemos que o pai de sua mãe era irmão do pai do general, o que o tornava
sobrinho dele. Já admirávamos Stein, diria que incondicionalmente, mas a
partir daquela revelação nossa admiração cresceu até o infinito. Com o passar
dos anos, soubemos mais coisas sobre Cherniakóvski: foi chefe de uma
divisão blindada nos primeiros meses da guerra, a Vigésima Oitava Divisão
de tanques, combateu, sempre retrocedendo, nos países bálticos e na zona de
Novgorod, depois ficou sem destino certo até que lhe deram o comando de um
corpo (que na terminologia militar soviética equivale a uma divisão) na região
de Voronesh, subordinado ao comando do Sexagésimo Exército (que na
terminologia militar soviética equivale a um corpo), até que durante a ofensiva
nazista de 42 o comandante do Sexagésimo Exército foi destituído e o posto
foi oferecido a ele, o oficial mais jovem, provocando inveja e rancor, que
ficou sob as ordens de Vatutin (na ocasião sob o comando da frente de
Voronesh, que na terminologia militar soviética equivale a um exército, mas
acho que eu já disse isso), a quem respeitava e admirava, que transformou o
Sexagésimo Exército numa máquina de guerra invicta, que avançou e avançou
pelas terras da Rússia e depois pelas terras da Ucrânia sem que ninguém
conseguisse detê-la, que em 1944 foi promovido ao comando de uma frente, a
Terceira Frente da Bielorrússia, que durante a ofensiva de 1944 é a ele que se
deve a destruição do Grupo de Exércitos Centro, que compreendia quatro
exércitos alemães e que provavelmente se constituiu no maior de todos os
golpes sofridos pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, pior que o
Cerco de Stalingrado ou que o Desembarque na Normandia, pior que a
Operação Cobra ou que a travessia do Dnieper (onde ele esteve), pior que a
contraofensiva das Ardenas ou que a batalha de Kursk (onde ele esteve).
Soubemos também que, dos exércitos russos que participaram da Operação
Bagration (a destruição do Grupo de Exércitos Centro), o que mais se
distinguiu, de longe, foi a Terceira Frente da Bielorrússia, que seu avanço foi
irrefreável e com uma velocidade e uma profundidade antes nunca vista, que
foi o primeiro a chegar à Prússia Oriental, que perdeu os pais quando era
adolescente, que viveu como agregado em casas que não eram sua casa e com
famílias que não eram sua família, que sofreu o escárnio e as humilhações que
os judeus sofriam, que demonstrou àqueles que o menosprezavam que não era
apenas igual, mas também muito melhor que eles, que durante a infância
testemunhou como os seguidores de Petliura (nacionalistas ucranianos)
torturaram e depois tentaram assassinar seu pai na aldeia de Vérbovo (onde as
casinhas brancas se espalham pelas encostas suaves das colinas), que sua
adolescência foi uma mistura de Dickens com Makarenko, que durante a guerra
perdeu seu irmão Alexander e que a notícia foi escondida dele durante uma
tarde e uma noite inteiras porque Ivan Cherniakóvski estava dirigindo mais
uma de suas ofensivas, que morreu sozinho no meio de uma estrada, que foi
duas vezes Herói da União Soviética, que recebeu a Ordem de Lênin, quatro
ordens da Bandeira Vermelha, duas ordens de Suvórov de Primeiro Grau, a
Ordem de Kutúzov de Primeiro Grau, a Ordem de Bogdan Jmelnitzki de
Primeiro Grau e várias, inúmeras medalhas, que por iniciativa do governo e
do partido ergueram-se estátuas suas em Vilnius e em Vinnitsa (a de Vilnius
com certeza já não existe mais e a de Vinnitsa provavelmente também já foi
derrubada), que a cidade de Insterburg na antiga Prússia Oriental se chama
agora, em sua homenagem, Cherniajovsk, que o colcoz da aldeia de Vérbovo
no distrito de Tomashpolsky também leva seu nome (hoje os colcozes nem
existem mais), e que na aldeia de Oksámino, no distrito de Umanski da região
de Cherkassi, ergueu-se um busto de bronze para celebrar o grande general
(aposto o salário de um mês inteiro que o busto de bronze foi substituído; hoje
o herói é Petliura; amanhã, quem sabe). Enfim, como disse Bibiano citando
Parra: assim se vai a glória do mundo, sem glória, sem mundo, sem um
miserável sanduíche de mortadela.
Mas o fato é que o retrato de Cherniakóvski, emoldurado com certa
afetação, estava ali, na casa de Juan Stein, e isso provavelmente era muito
mais importante (ousaria dizer que infinitamente mais importante) que os
bustos e as cidades com seu nome e as inúmeras ruas Cherniakóvski
esburacadas da Ucrânia, Bielorrússia, Lituânia e Rússia. Não sei por que fico
com essa foto, disse-nos Stein, certamente porque é o único general judeu de
certa importância da Segunda Guerra Mundial e porque teve um destino
trágico. Embora o mais provável seja que a conservo por ter sido um presente
de minha mãe quando saí de casa, como uma espécie de enigma: minha mãe
não me disse nada, só me deu o retrato, o que ela queria me dizer com esse
gesto? O presente da foto era uma declaração ou o início de um diálogo?
Etcetera, etcetera. As irmãs Garmendia achavam a foto de Cherniakóvski
horrível e teriam preferido ver pendurado no seu lugar o retrato de Blok, que
lhes parecia realmente um bom jovem, ou um de Maiakóvski, o amante ideal.
O que faz um sobrinho de Cherniakóvski ensinando literatura no sul do Chile?,
perguntava-se Stein de vez em quando, de preferência bêbado. Em outras
oportunidades dizia que aproveitaria a moldura para pôr uma fotografia que
ele tinha de William Carlos Williams com seus apetrechos de médico de
vilarejo, ou seja, uma maleta preta, o estetoscópio que se destaca como uma
serpente bicéfala e quase cai do bolso de um velho casaco puído pelos anos
de uso mas confortável e eficiente contra o frio, caminhando por uma calçada
longa e tranquila ladeada por grades de madeira pintadas de branco ou verde
ou vermelho, por trás das quais se adivinha a presença de pequenos quintais
ou pequenas áreas de gramado — e algum cortador de grama largado no meio
do trabalho —, com um chapéu de aba estreita, de cor escura, e os óculos
muito limpos, quase brilhantes, mas com um brilho que não convida a excessos
nem a extremos, nem muito feliz nem muito triste e no entanto contente (talvez
porque esteja bem quentinho dentro de seu casaco, talvez por saber que o
paciente a quem visita não irá morrer), caminhando sereno, digamos, às seis
da tarde de um dia de inverno.
Mas Stein nunca trocou o retrato de Cherniakóvski pela foto, preferida, de
William Carlos Williams. Quanto à autenticidade desta última, alguns
integrantes da oficina e às vezes o próprio Stein tínhamos algumas reservas.
Para as irmãs Garmendia, mais do que William Carlos Williams, o sujeito
parecia o presidente Truman disfarçado de alguma coisa, não necessariamente
de médico, caminhando anônimo pelas ruas de seu vilarejo. Para Bibiano,
tratava-se de uma fotomontagem feita com habilidade: o rosto era de Williams,
o corpo era de outra pessoa, talvez realmente um médico de vilarejo, e o fundo
era composto por diversos pedaços: as cercas de madeira, de um lado, o
gramado e o cortador de grama de outro, os passarinhos sobre as cercas e
inclusive sobre o guidão do cortador de grama, o céu cinza claro do
entardecer, tudo isso se originava de oito ou nove fotos diferentes. Stein não
sabia o que dizer, embora admitisse todas as possibilidades. De qualquer
forma, chamava-a de “a foto do doutor Williams” e não se desfazia dela (às
vezes chamava-a de a foto do doutor Norman Rockwell ou a foto do doutor
William Rockwell). Era, sem dúvida, um de seus objetos mais valiosos, o que
não deve surpreender ninguém, pois Stein era pobre e tinha poucas coisas.
Certo dia (discutíamos sobre a beleza e a verdade), Verónica Garmendia
perguntou-lhe o que ele via na foto de Williams se sabia quase com toda
certeza que aquele não era Williams. Gosto da foto, admitiu Stein, gosto de
acreditar que se trata de William Carlos Williams. Mas, acima de tudo,
acrescentou depois de algum tempo, quando já estávamos enfiados em
Gramsci, gosto da tranquilidade da foto, da certeza de saber que Williams está
fazendo seu trabalho, que está a caminho do trabalho, a pé, por uma trilha
aprazível, sem pressa. E depois, ainda mais tarde, quando falávamos sobre os
poetas e sobre a Comuna de Paris, ele disse: não sei, quase sussurrando, e
acho que ninguém o escutou.
Depois do golpe, Stein desapareceu, e durante muito tempo Bibiano e eu o
demos por morto.
Na verdade, todo mundo o deu por morto, parecia normal, para todos, que
tivessem matado o canalha judeu bolchevique. Uma tarde, Bibiano e eu nos
aproximamos de sua casa. Temíamos bater à porta porque, em nossa paranoia,
imaginávamos que a casa podia estar sendo vigiada e que inclusive quem a
abrisse poderia ser um policial, que nos convidaria a entrar e não nos deixaria
sair nunca mais. Passamos, assim, pela frente da casa três ou quatro vezes, não
vimos nenhuma luz acesa e fomos nos afastando com uma opressiva sensação
de vergonha, mas também com um alívio secreto. Uma semana depois, sem
trocar palavra alguma, voltamos a passar pela casa de Stein. Ninguém atendeu.
Uma mulher nos olhou de modo fugaz de uma janela da casa ao lado, e a cena,
além de trazer à nossa lembrança momentos indeterminados de vários filmes,
conseguiu incrementar ainda mais a sensação de solidão e abandono que em
nós produziam não só a casa de Stein, mas a rua inteira. Na terceira vez em
que fomos, abriu-nos a porta uma mulher jovem, atrás da qual vinham dois
meninos com não mais do que três anos de idade: um já andava, o outro
engatinhava. Disse-nos que agora ela e o marido é que moravam ali, que não
chegou a conhecer o inquilino anterior, que se quiséssemos saber alguma coisa
deveríamos falar com a locadora. Era uma mulher simpática. Convidou-nos a
entrar e ofereceu-nos uma xícara de chá, que Bibiano e eu recusamos. Não
queremos incomodar, dissemos. Os mapas e a foto do general Cherniakóvski
haviam desaparecido das paredes. Era um amigo muito querido e que partiu de
repente, sem avisar?, perguntou a mulher com um sorriso. Sim, dissemos, uma
coisa assim.
Pouco depois, deixei o Chile definitivamente.
Não me recordo se morava no México ou na França quando recebi uma
carta muito curta de Bibiano, em estilo telegráfico, quase como uma charada
ou um nonsense (mas em que pelo menos se sentia um Bibiano feliz),
acompanhada de um recorte de jornal, provavelmente de um diário de
Santiago. O recorte aludia a vários “terroristas chilenos” que tinham entrado
na Nicarágua pela Costa Rica com as tropas da Frente Sandinista. Um deles
era Juan Stein.
A partir desse momento, não faltavam notícias sobre Stein. Aparecia e
desaparecia como um fantasma em todos os lugares onde havia conflito, em
todos os lugares onde os latino-americanos, desesperados, generosos,
enlouquecidos, valentes, abomináveis, destruíam e reconstruíam e voltavam a
destruir a realidade numa última tentativa fadada ao fracasso. Vi-o em um
documentário sobre a tomada de Rivas, cidade do sul da Nicarágua, com o
cabelo mal cortado, mais magro que antes, vestido metade como militar
metade como professor de uma universidade de verão, fumando cachimbo, os
óculos quebrados e remendados com arame. Bibiano me mandou um recorte no
qual se dizia que Stein e mais cinco antigos militantes do mir tinham
combatido em Angola contra os sul-africanos. Mais tarde recebi duas páginas
fotocopiadas de uma revista mexicana (nessa ocasião tenho certeza de que
estava em Paris) em que se fazia uma referência a divergências existentes
entre os cubanos em Angola e alguns grupos de internacionalistas, entre eles
dois aventureiros chilenos, únicos sobreviventes (segundo eles, e a conversa
com o jornalista imagino que aconteceu em um bar de Luanda, razão pela qual
também imagino que estivessem bêbados) de um grupo chamado Os Chilenos
Voadores, nome que levou a evocar o do circo As Águias Humanas e suas
infindáveis turnês anuais pelo sul do Chile. Stein, é claro, era um dos miristas
sobreviventes. Dali, suponho, partiu para a Nicarágua. Na Nicarágua, por
alguns momentos, perde-se a pista dele. É um dos lugares-tenentes de um
sacerdote chefe de guerrilha que morre na tomada de Rivas. Depois disso,
comanda um batalhão ou uma brigada ou é o subchefe de alguma coisa ou
passa para a retaguarda a fim de treinar jovens recém-alistados. Não participa
da entrada triunfal em Manágua. Durante algum tempo, some outra vez.
Afirma-se que ele é um dos membros do comando que assassina Somoza no
Paraguai. Afirma-se que está na guerrilha colombiana. Afirma-se, inclusive,
que voltou para a África, que está em Angola ou Moçambique ou, ainda, com a
guerrilha da Namíbia. Vive no limite, e, como acontece nos filmes de faroeste,
ainda não foi construída a bala que conseguirá matá-lo. Mas regressa à
América e, durante algum tempo, fixa-se em Manágua. Segundo Bibiano, um
poeta argentino, correspondente dele, conta-lhe que durante um recital de
poesia argentina, uruguaia e chilena organizado por esse poeta (um certo Di
Angeli) no Centro Cultural de Manágua, um dos espectadores, “um sujeito
loiro e alto, de óculos”, fez várias observações sobre a poesia chilena, sobre
o critério de seleção dos textos lidos (os organizadores, entre eles o próprio
Di Angeli, tinham vetado por motivos políticos a inclusão de poemas de
Nicanor Parra e Enrique Lihn), em uma palavra, caiu de pau em cima dos
realizadores da apresentação, pelo menos no que se refere à parte da lírica
chilena, mas tudo isso com muita calma, sem ser agressivo, eu diria — dizia
Di Angeli — que com muita ironia e certa tristeza ou cansaço, vá saber. (Entre
parênteses, o tal Di Angeli era, entre as incontáveis antenas epistolares que
Bibiano tinha conectado com o mundo a partir de sua sapataria de Concepción,
um dos mais desavergonhados, cínicos e divertidos; típico arrivista de
esquerda, dispunha-se no entanto a pedir desculpas por suas omissões e
excessos de todo tipo; suas trapalhadas, segundo Bibiano, eram antológicas e
sua vida triste, na época de Stálin, sem dúvida teria servido de modelo para
um grande romance picaresco, embora na América Latina dos anos 70 não
passasse disso, uma vida triste, repleta de pequenas mesquinharias, algumas
produzidas até mesmo sem má intenção. Teria se dado melhor, dizia Bibiano,
na direita, mas, mistério, os Di Angeli formavam uma legião nas hostes da
esquerda; pelo menos, dizia ele, ainda não se dedicara à crítica literária, mas
chegaria lá. Com efeito, durante a terrível década de 80 folheei algumas
revistas mexicanas e argentinas e encontrei vários textos críticos de Di Angeli.
Acho que tinha feito carreira. Nos anos 90, não voltei a me deparar com sua
pena, mas é que a cada dia leio menos revistas.) O fato é que Stein estava de
volta à América. E era, segundo Bibiano, o mesmo Juan Stein de Concepción,
o mesmo sobrinho de Ivan Cherniakóvski. Durante algum tempo, o tempo de
um suspiro excessivamente longo, ele pôde ser visto em lugares como a já
mencionada leitura de poetas do Cone Sul, em exposições de pintura, na
companhia de Ernesto Cardenal (duas vezes), numa apresentação teatral.
Depois disso, ele some e nunca mais volta a ser visto na Nicarágua. Não foi
para muito longe. Há quem diga que está com a guerrilha guatemalteca, outros
garantem que combate sob a bandeira da Frente Farabundo Martí. Bibiano e eu
coincidimos em que uma guerrilha com esse nome merecia ter Stein ao seu
lado. Embora Stein provavelmente tivesse matado com as próprias mãos (à
distância, sua ferocidade e sua implacabilidade se agigantavam e se
distorciam, como as de um personagem de um filme de Hollywood) os
responsáveis pela morte de Roque Dalton. Como conciliar num único sonho ou
num único pesadelo o sobrinho de Cherniakóvski, o judeu bolchevique das
florestas do sul do Chile, com os filhos da puta que mataram Roque Dalton em
pleno sono, para encerrar a discussão e em nome da revolução? Impossível.
Mas o fato é que Stein está ali. E toma parte em várias ofensivas e golpes de
mão e um belo dia desaparece, desta vez para sempre. Nessa ocasião eu já
morava na Espanha, vivendo de trabalhos ingratos, não tinha televisão e
tampouco comprava jornal com frequência. Segundo Bibiano, Juan Stein foi
morto durante a última ofensiva da fmln, que chegou a conquistar alguns
bairros de San Salvador e que recebeu ampla cobertura jornalística. Lembro
de ter visto retalhos dessa guerra distante em bares de Barcelona onde comia
ou entrava para beber, mas, embora as pessoas olhassem para a tevê, o
barulho das conversas ou do entrechocar de pratos que iam para lá e para cá
impediam que se ouvisse qualquer coisa. Até mesmo as imagens que trago na
memória (as imagens captadas por aqueles correspondentes de guerra) são
indistintas e fragmentadas. Recordo com absoluta clareza apenas duas coisas:
as barricadas das ruas de San Salvador, barricadas miseráveis, mais barracas
de tiro do que barricadas, e a figura miúda, morena e vigorosa de um dos
comandantes da fmln. Era chamado de comandante Aquiles ou comandante
Ulisses e sei que o mataram pouco depois de ele ter falado à televisão.
Segundo Bibiano, todos os comandantes daquela ofensiva desesperada usavam
nomes de heróis e semideuses gregos. Qual seria o de Stein? Comandante
Pátroclo? Comandante Heitor? Comandante Páris? Não sei. Eneias
certamente não, Ulisses também não. Ao final da batalha, no recolhimento dos
cadáveres, apareceu um sujeito loiro e alto. Nos arquivos da polícia registra-
se uma descrição superficial: cicatrizes nos braços e nas pernas, feridas
antigas, tatuagem de um leão rampante no braço direito. A tatuagem é de boa
qualidade. Trabalho de artesão, que, a bem da verdade, não se encontra em El
Salvador. Na Seção de Informação da polícia, o loiro desconhecido aparece
com o nome de Jacobo Sabotinski, cidadão argentino, ex-integrante do erp.
Muitos anos depois, Bibiano foi a Puerto Montt e procurou pela casa dos
pais de Juan Stein. Não encontrou ninguém com esse sobrenome. Havia um
Stone e dois Steiner e três Steen da mesma família. O Stone o despachou de
imediato. Visitou os dois Steiner e os três Steen. Estes últimos pouca coisa
tinham para lhe dizer, não eram judeus, nada sabiam sobre alguma família
Stein ou Cherniakóvski, perguntaram a Bibiano se ele era judeu ou se havia
algum dinheiro envolvido no caso. Naquela época, suponho, Puerto Montt
participava totalmente do crescimento econômico. Os Steiner, sim, eram
judeus, mas a família provinha da Polônia e não da Ucrânia. O primeiro
Steiner, um engenheiro agrônomo alto e obeso, não serviu de grande ajuda. A
segunda Steiner, tia dele e professora de piano no Liceu, lembrava-se de uma
viúva Stein que em 1974 se mudara para Llanquihue. Mas essa senhora,
declarou a pianista, não era judia. Um tanto confuso, Bibiano viajou a
Llanquihue. Certamente, pensou, a professora de piano se confundia em
relação à viúva Stein por causa do judaísmo não praticante desta última.
Conhecendo Juan Stein e seus antecedentes familiares (o tio general do
Exército Vermelho), não era de estranhar que fossem ateus.
Em Llanquihue, não foi difícil encontrar a casa da viúva Stein. Uma casinha
de madeira pintada de verde, na periferia do vilarejo. Quando passou pela
cerca, foi recebido por um cachorro amistoso, branco com manchas pretas
como uma vaca em miniatura, e depois de algum tempo, após tocar uma
campainha que soava como um sino ou que talvez fosse mesmo um sino, abriu-
lhe a porta uma mulher de seus trinta e cinco anos, uma das mulheres mais
bonitas que Bibiano jamais havia visto.
Perguntou se ali morava a viúva Stein. Morava, sim, mas isso fazia vários
anos, respondeu a mulher alegremente. Que pena, disse Bibiano, estou à
procura dela há dez dias e logo terei de voltar para Concepción. A mulher
então o convidou a entrar, disse que ia mesmo tomar um lanche e perguntou se
não queria acompanhá-la, Bibiano disse que sim, é claro, e depois a mulher
lhe confessou que já fazia três anos que a viúva Stein havia morrido.
Subitamente, a mulher pareceu entristecer-se e Bibiano disse que era tudo
culpa dele. A mulher havia conhecido a viúva Stein e, embora nunca tivessem
sido amigas, tinha boa imagem dela: uma mulher um pouco autoritária, dessas
alemãs quadradonas, mas, no fundo, uma boa pessoa. Não a conheci, disse
Bibiano, estava à procura dela para dar a notícia de que seu filho morreu, mas
talvez seja melhor assim, é terrível anunciar a alguém a morte de um filho. Isso
é impossível, disse a mulher. Ela só tinha um filho, e ele estava vivo quando
ela morreu, e dele sim posso dizer que fui amiga. Bibiano sentiu que o pão
com abacate lhe caía mal. Um filho só? Sim, um solteirão muito bom rapaz,
não sei por que nunca se casou, suponho que fosse muito tímido. Então devo
ter me confundido mais uma vez, disse Bibiano, devemos estar falando de duas
famílias Stein diferentes. O filho da viúva não mora mais em Llanquihue?
Morreu no ano passado em um hospital de Valdivia, disseram-me, éramos
amigos mas nunca fui visitá-lo no hospital, não era uma amizade tão grande
assim. Morreu do quê? Creio que foi de câncer, disse a mulher olhando para
as mãos de Bibiano. Era de esquerda, não?, perguntou Bibiano num fiapo de
voz. Pode ser, disse a mulher, subitamente alegre de novo, seus olhos
brilhavam, disse Bibiano, como nunca vi brilharem os olhos de alguém, era de
esquerda mas não militava, era da esquerda silenciosa, como tantos chilenos
desde 1973. Não era judeu, era? Não, disse a mulher, apesar de que, quem
sabe, as questões de religião não me interessam, mas não, acho que não eram
judeus, eram alemães. Como ele se chamava? Juan Stein. Juanito Stein. E o
que fazia? Era professor, embora sua paixão fosse consertar motores, de
tratores, de colheitadeiras, de poços, qualquer motor, um verdadeiro gênio dos
motores. E tirava um bom dinheiro com isso além do salário. Às vezes ele
mesmo fabricava as peças de reposição. Juanito Stein. Está enterrado em
Valdivia? Parece-me que sim, disse a mulher, voltando a ficar triste.
Assim, Bibiano foi ao cemitério de Valdivia e durante um dia inteiro,
acompanhado de um dos encarregados a quem ofereceu uma boa gorjeta,
procurou pelo túmulo daquele Juan Stein, alto, loiro, mas que nunca tinha
saído do Chile, e, por mais que o tenha procurado, não o encontrou.
5.

Quem também desapareceu nos últimos dias de 1973 ou nos primeiros de


1974 foi Diego Soto, o grande amigo e concorrente de Juan Stein.
Andavam sempre juntos (embora nunca tenhamos visto um na oficina do
outro), sempre conversando sobre poesia, mesmo que o céu do Chile estivesse
caindo aos pedaços, Stein alto e loiro, Soto baixinho e moreno, Stein atlético e
forte, Soto de ossatura delicada, com um corpo em que já se podiam intuir
gordurinhas e flacidez no futuro, Stein na órbita da poesia latino-americana e
Diego Soto traduzindo poetas franceses que ninguém no Chile conhecia (e que,
temo, continuam sem conhecer). E isso, como é natural, deixava muita gente
irada. Como era possível que aquele índio baixote e feioso não só traduzisse
como também se correspondesse com Alain Jouffroy, Denis Roche, Marcelin
Pleynet ? Quem eram, meu Deus, Michel Bulteau, Matthieu Messagier, Claude
Pelieu, Franck Venaille, Pierre Tilman, Daniel Biga? Que qualidades tinha
aquele tal de Georges Perec, cujos livros publicados pela Denoël o babaca
pretensioso do Soto carregava de um lado para o outro? No dia em que
deixaram de vê-lo perambulando pelas ruas de Concepción, com seus livros
debaixo do braço, sempre bem-vestido (ao contrário de Stein, que se vestia
como um mendigo), a caminho da Faculdade de Medicina ou na fila de algum
teatro ou cinema, quando ele evaporou no ar, ninguém lamentou. Muitos teriam
se alegrado com sua morte. Não por razões estritamente políticas (Soto era
simpatizante do Partido Socialista, mas apenas isso, simpatizante, nem sequer
eleitor fiel, eu diria que se tratava de um esquerdista pessimista), mas por
razões de caráter estético, pelo prazer de ver morto alguém que é mais
inteligente e mais culto que você e que não tem a astúcia social de ocultá-lo.
Escrever tudo isso agora parece mentira. Mas era assim mesmo. Os inimigos
de Soto teriam sido capazes de lhe perdoar até sua mordacidade; o que jamais
perdoaram, porém, foi sua indiferença. Sua indiferença e sua inteligência.
Mas Soto, assim como Stein (a quem evidentemente nunca mais voltou a
ver), reapareceu, exilado na Europa. Primeiro esteve na rda, de onde saiu na
primeira oportunidade depois de vários eventos desagradáveis. Conta-se no
triste folclore do exílio — em que mais da metade das histórias são
deturpadas ou constituem apenas uma sombra da história real — que certa
noite um outro chileno lhe deu uma surra mortal que acabou com Soto em um
hospital de Berlim com traumatismo craniano e duas costelas quebradas.
Mudou depois para a França, onde sobreviveu dando aulas de espanhol e de
inglês e fazendo traduções para edições não vendáveis de alguns escritores
peculiares da América Latina, quase todos do começo do século, cultores do
fantástico ou do pornográfico, dentre os quais se encontrava o esquecido
romancista de Valparaíso Pedro Pereda, que era ao mesmo tempo fantástico e
pornográfico, autor de um relato impressionante de uma mulher em quem vão
crescendo ou, mais precisamente, se abrindo sexos e ânus em todas as partes
de sua anatomia, para o espanto compreensível de seus familiares (o relato se
dá nos anos 20, mas imagino que a surpresa seria a mesma nos anos 70 ou nos
90), e que acaba reclusa num bordel do norte, um bordel para mineiros,
trancafiada no bordel e, dentro do bordel, num quarto sem janelas, até que, ao
final, se transforma numa grande entrada-e-saída disforme e selvagem e acaba
com o velho proxeneta que gerencia o bordel e com as outras putas e com os
clientes apavorados e depois sai para o quintal e avança deserto adentro
(andando ou voando, Pereda não deixa claro) até ser tragada pelos ares.
Também tentou traduzir Sophie Podolski, a jovem poeta belga que se
suicidou aos vinte e um anos de idade (não conseguiu), Pierre Guyotat, autor
de Eden, Eden, Eden e Prostitution (também não conseguiu), e La
Disparition, de Georges Perec, um romance policial todo escrito sem a letra e
e que Soto tentou (e só conseguiu pela metade) transpor para o espanhol
baseando-se no que Jardiel Poncela havia feito meio século antes em um relato
onde a mencionada vogal primava pela ausência. Mas uma coisa é escrever
sem o e e outra coisa, bem diferente, é traduzir sem o e.
Nunca estive com Soto no período em que ambos vivíamos em Paris.
Naquele tempo, eu não tinha disposição para encontrar velhos amigos. Além
disso, segundo ouvira, a situação econômica de Soto estava cada vez melhor,
tendo casado com uma francesa, depois soube que tinham tido um filho (na
ocasião eu estava na Espanha, se é que esse esclarecimento tem alguma
utilidade), participava regularmente dos encontros de escritores chilenos em
Amsterdã, publicava em revistas de poesia do México, da Argentina e do
Chile, creio que inclusive chegou a sair um livro dele em Buenos Aires ou em
Madri, depois fiquei sabendo por uma amiga que ele dava aulas na
universidade, o que lhe proporcionava estabilidade econômica e tempo para
se dedicar à leitura e à pesquisa, e que já tinha dois filhos, um menino e uma
menina. Não abrigava nenhuma esperança de voltar para o Chile. Era, eu
supus, um homem feliz, razoavelmente feliz. Não me era difícil imaginá-lo em
um confortável apartamento em Paris ou talvez numa casa de algum vilarejo
nos arredores, lendo no silêncio de seu estúdio à prova de som enquanto os
filhos viam tevê e a mulher cozinhava ou passava roupa, pois alguém tinha de
cozinhar, não é?, ou talvez, melhor, quem passava a roupa era uma empregada,
portuguesa ou africana, e Soto podia, assim, ler no seu estúdio à prova de som
ou talvez escrever, embora nunca tenha sido daqueles que escrevem muito,
sem aborrecimentos domésticos, enquanto sua mulher ficava em seu próprio
estúdio, colado ao quarto das crianças, ou sobre uma mesinha do século xix
num canto da sala, a corrigir provas ou planejar as férias do verão ou lendo
distraidamente a programação de cinema para escolher o filme que veriam
naquela noite.
Segundo Bibiano (que mantinha com ele um intercâmbio epistolar
relativamente azeitado), não é que Soto tivesse se aburguesado: ele sempre
fora assim. O trato com os livros exige certo sedentarismo, certo nível
indispensável de aburguesamento, se não basta olhar para mim, dizia Bibiano,
que, numa outra escala — trabalho na sapataria, que fica cada vez mais
repugnante e ao mesmo tempo me faz mais falta, não sei direito, e moro na
mesma pensão —, faço (ou me permito fazer) mais ou menos a mesma coisa
que Soto faz.
Em resumo: Soto era feliz. Acreditava ter escapado da maldição (ou pelo
menos nós achávamos isso, pois Soto, parece-me, nunca acreditou em
maldições).
Foi então que recebeu um convite para participar de um colóquio sobre
Literatura e Crítica Hispano-americana que se realizou em Alicante.
Era inverno. Soto odiava viajar de avião, só tinha tomado um avião uma
única vez na vida, para a viagem que fez, no final de 1973, de Santiago a
Berlim. Viajou, então, de trem, chegando a Alicante após uma noite de
percurso. O colóquio durou dois dias, um fim de semana, mas Soto, em vez de
voltar para Paris no domingo à noite, ficou uma noite a mais em Alicante. Os
motivos desse retardamento são desconhecidos. Na segunda-feira de manhã,
comprou um bilhete de trem para Perpignan. A viagem transcorreu sem
incidentes. Ao chegar, na estação de Perpignan, informou-se a respeito dos
trens que partiriam naquela noite para Paris e comprou passagem para o da
uma da manhã. Dedicou o resto da tarde a passear pela cidade, entrou em
bares, visitou uma livraria de livros antigos onde comprou uma obra de
Guerau de Carrera, um poeta vanguardista franco-catalão morto durante a
Segunda Guerra Mundial, mas passou o tempo livre lendo um romance policial
de bolso que havia adquirido naquela mesma manhã em Alicante (Vázquez
Montalbán, Juan Madrid?) e que não chegou a terminar, uma folha dobrada
indicava que tinha parado na página 155, apesar de ter se entregado à leitura,
durante o trajeto Alicante-Perpignan, com a voracidade de um adolescente.
Em Perpignan, comeu numa pizzaria. É estranho que não tenha ido a um bom
restaurante para provar da célebre cozinha do Rousillon, mas o fato é que
comeu numa pizzaria. O relatório do médico-legista é explícito e não deixa
nenhuma margem para dúvidas. Soto jantou salada verde, um prato abundante
de canelone, uma enorme (realmente enorme) quantidade de sorvete de
chocolate, morango, baunilha e banana e duas xícaras de café. Consumiu,
ainda, uma garrafa de vinho tinto italiano (um vinho talvez inadequado para o
canelone, mas eu não entendo nada de vinhos). Durante o jantar, alternou a
leitura do romance policial com o Le Monde. Deixou a pizzaria por volta das
dez da noite.
Segundo diversos depoimentos, chegou à estação por volta da meia-noite.
Tinha ainda uma hora para a partida de seu trem. Tomou um café no balcão do
bar da estação. Levava a sacola de viagem e, na outra mão, o livro de Carrera,
o romance policial e o exemplar do Le Monde. Segundo o garçom que lhe
serviu o café, estava sóbrio.
Não ficou no bar por mais de dez minutos. Um funcionário o viu caminhar
pelas plataformas, lentamente mas com passo firme e seguro — de maneira
nenhuma bêbado. Supõe-se que tenha se perdido por aqueles labirintos abertos
de que falava Dalí. Supõe-se que era justamente isso que ele queria. Perder-se
durante uma hora na magnificência soberana da estação de Perpignan. Refazer
o itinerário (matemático, astronômico, mítico?) que Dalí sonhou que se
ocultava sem se ocultar nos limites da estação. Na verdade, como um turista.
Como o turista que Soto sempre foi desde que deixou Concepción. Um turista
latino-americano, tão perplexo quanto desesperado (Gómez Carrillo é nosso
Virgílio), mas, ao fim e ao cabo, turista.
O que ocorreu a partir daí é vago. Soto se perde na catedral ou na grande
antena que é a estação ferroviária de Perpignan. O horário e o frio — é
inverno — fazem com que a estação esteja quase deserta, apesar da
proximidade da partida do trem da uma da manhã com destino a Paris. A
maioria das pessoas está no bar ou no salão principal de espera. Soto, não se
sabe como, talvez atraído pelas vozes, avança até uma sala mais afastada. Ali
ele vê três jovens neonazistas e um vulto no chão. Os jovens espancam o corpo
com determinação. Soto permanece imóvel sob o umbral até perceber que o
corpo está se movendo, que do meio dos farrapos se ergue uma mão, um braço
incrivelmente sujo. A mendiga — pois se trata de uma mulher — grita, me
soltem. Ninguém escuta esse grito, a não ser o escritor chileno. Talvez nessa
hora os olhos de Soto tenham se enchido de lágrimas, lágrimas de
autopiedade, pois ele intui ter encontrado seu destino. Entre a Tel Quel e o
oulipo, a vida decidiu e optou pelas páginas policiais. De um jeito ou de
outro, ele deixa a bolsa de viagem cair no chão, assim como os livros, e
avança em direção aos jovens. Antes de o combate se travar, xinga-os em
espanhol. O espanhol complicado do sul do Chile. Os jovens esfaqueiam Soto
e fogem.
A notícia saiu nos jornais da Catalunha, um registro muito curto, mas eu
soube do fato por uma carta de Bibiano, muito longa, quase um relatório de
detetive, a última que recebi dele.
No começo incomodei-me com o fato de não mais receber cartas de
Bibiano, mas depois, considerando que eu raramente lhe respondia, pareceu-
me normal e não guardei em relação a ele nenhum rancor. Anos depois, soube
de uma história que teria gostado de contar a Bibiano, embora na ocasião já
não soubesse para onde lhe escrever. É a história de Petra, e de alguma
maneira corresponde no caso de Soto ao que a história do duplo de Juan Stein
representa para o nosso Juan Stein. A história de Petra merecia ser contada
como um conto: era uma vez um menino pobre do Chile... O menino se
chamava Lorenzo, creio, não tenho certeza, e esqueci o sobrenome, mas outros
o lembrarão, e gostava de brincar e de subir nas árvores e nos postes de alta-
tensão. Um dia ele subiu num desses postes e recebeu um choque tão forte que
perdeu os dois braços. Tiveram de amputá-los quase na altura dos ombros.
Assim, Lorenzo cresceu no Chile e sem braços, o que por si só já o deixava
numa situação bastante desvantajosa, mas ainda por cima ele cresceu no Chile
de Pinochet, o que transformava qualquer situação desvantajosa em
desesperadora. Mas isso ainda não era tudo, pois ele logo descobriu que era
homossexual, o que transformava a situação desesperadora em inconcebível e
inenarrável.
Com todas essas condicionantes, não era de estranhar que Lorenzo virasse
artista. (Que mais poderia ser?) Mas é difícil ser artista no Terceiro Mundo
quando se é pobre, sem braços e ainda por cima veado. Por isso Lorenzo se
dedicou, durante algum tempo, a outras coisas. Estudava e aprendia. Cantava
nas ruas. E se apaixonava, pois era um romântico incurável. Suas desilusões
(para não falar das humilhações, dos desprezos, das ofensas) foram terríveis, e
um dia — dia riscado com pedra — decidiu se suicidar. Numa tarde de verão
especialmente triste, quando o sol se escondia no oceano Pacífico, Lorenzo
saltou para o mar de uma rocha usada exclusivamente por suicidas (coisa que
existe em qualquer trecho do litoral chileno que se preze). Afundou como uma
pedra, com os olhos abertos, e viu a água ficando cada vez mais escura e as
borbulhas que saíam de sua boca e depois, com um movimento de pernas
involuntário, voltou à tona. As ondas não permitiram que visse a praia, tão
somente as rochas e à distância os mastros de algumas embarcações de
passeio ou de pesca. Depois voltou a afundar. Nesse momento também não
fechou os olhos: moveu a cabeça com calma (a calma de um anestesiado) e
buscou com os olhos alguma coisa, qualquer que fosse, mas que fosse bela,
para retê-la no momento final. Mas o negror vendava qualquer objeto que
pudesse descer junto com seu corpo até as profundezas, e ele nada viu. Então,
sua vida, como se costuma dizer, desfilou diante de seus olhos como num
filme. Alguns trechos eram em branco e preto e outros em cores. O amor de
sua pobre mãe, o orgulho de sua pobre mãe, a exaustão de sua pobre mãe ao
abraçá-lo à noite, quando tudo nos vilarejos pobres do Chile parece estar por
um fio (em branco e preto), os tremores, as noites em que urinava na cama, os
hospitais, os olhares, o zoológico dos olhares (em cores), os amigos que
compartilham o pouco que têm, a música que nos consola, a maconha, a beleza
revelada em locais inverossímeis (em branco e preto), o amor perfeito e breve
como um soneto de Góngora, a certeza fatal (mas cheia de raiva dentro da
fatalidade) de que só se vive uma vez. Tomado de uma súbita coragem,
decidiu que não ia morrer. Conta-se que disse é agora ou nunca, e voltou à
superfície. A subida lhe parecia interminável; manter-se à tona, quase
insuportável, mas conseguiu. Naquela tarde, ele aprendeu a nadar sem braços,
como uma enguia ou uma serpente. Matar-se, disse, nessa conjuntura
sociopolítica, é absurdo e redundante. Melhor se tornar um poeta secreto.
A partir de então, começou a pintar (com a boca e os pés), começou a
dançar, começou a escrever poemas e cartas de amor, começou a tocar
instrumentos e a compor canções (uma foto nos mostra Lorenzo tocando piano
com os dedos dos pés; o artista olha para a câmera e sorri), começou a poupar
dinheiro para deixar o Chile.
Foi trabalhoso, mas finalmente conseguiu partir. A vida na Europa, é claro,
não foi muito mais fácil. Durante algum tempo, talvez alguns anos (embora
Lorenzo, mais novo que eu e Bibiano e bem mais novo que Soto e Stein, tenha
saído do Chile quando a avalanche do exílio já havia cedido), ganhou a vida
como músico e dançarino de rua em cidades da Holanda (que adorava), da
Alemanha e da Itália. Vivia em pensões, nas áreas da cidade onde vivem os
imigrantes magrebinos ou turcos ou africanos, com algumas temporadas felizes
em casas de amantes a quem acabava abandonando ou vice-versa, e depois de
cada jornada de trabalho na rua, depois das bebedeiras em bares gays ou das
sessões contínuas nas cinematecas, Lorenzo (ou Lorenza, como também
gostava de ser chamado) se fechava no seu quarto e se dedicava a pintar ou
escrever. Durante muitos períodos de sua vida, morou sozinho. Algumas
pessoas se referiam a ele como a acrobata ermitã. Os amigos lhe perguntavam
como ele fazia para limpar a bunda depois de cagar, como pagava o fruteiro,
como guardava o dinheiro, como cozinhava. Como, meu Deus, conseguia viver
sozinho. Lorenzo respondia todas as perguntas e a resposta, quase sempre, era
criatividade. Com criatividade qualquer um consegue fazer qualquer coisa. Se
Blaise Cendrars, para dar um exemplo, conseguia com apenas um braço
derrotar no boxe um adversário mais experiente, por que ele não seria capaz
de limpar —e muito bem — a bunda depois de fazer cocô?
Na Alemanha, terra curiosa mas que costumava provocar calafrios,
comprou duas próteses. Pareciam braços de verdade e agradaram-lhe acima
de tudo pela sensação de ficção científica, de robótica, de se sentir um ciborg
quando andava com elas. Visto de longe, avançando, por exemplo, ao encontro
de um amigo num horizonte violeta, parecia que tinha braços de verdade. Mas
tirava-os quando trabalhava na rua, e a seus amantes, aqueles que não sabiam
que se tratava de próteses, a primeira coisa que dizia era que lhe faltavam os
braços. Alguns até gostavam mais assim, sem braços.
Pouco antes da grandiosa Olimpíada de Barcelona, um ator ou uma atriz
catalã ou um grupo de atores catalães de passagem pela Alemanha o viram
atuar na rua, talvez num pequeno teatro, e informaram ao encarregado de
procurar alguém que pudesse encarnar Petra, personagem de Mariscal e
mascote, ou talvez mais adequadamente, emblema das provas paraolímpicas
que se realizariam logo depois. Dizem que quando Mariscal o viu enfiado na
fantasia de Petra, fazendo maravilhas com as pernas como um bailarino
esquizofrênico do Bolshoi, disse: é a Petra dos meus sonhos. (Dizem que
Mariscal é assim mesmo, conciso.) Depois disso, quando se conheceram, um
Mariscal fascinado ofereceu a Lorenzo seu estúdio para que fosse a Barcelona
pintar, escrever, o que fosse. (Dizem que é assim, generoso.) Na verdade,
Lorenzo ou Lorenza não precisava do estúdio de Mariscal para ser mais feliz
do que foi durante a celebração dos Jogos Paraolímpicos. Desde o primeiro
dia, tornou-se o favorito da imprensa, choviam entrevistas com ele, parecia
que Petra estava eclipsando até mesmo Coby. Naquela ocasião, eu estava
internado no Hospital Valle Hebron de Barcelona com o fígado arruinado e me
inteirava de suas vitórias, de suas piadas, de suas histórias, lendo dois ou três
jornais todos os dias. Às vezes, lendo suas entrevistas, tinha ataques de riso.
Outras vezes chorava. Também o vi na televisão. Fazia muito bem seu papel.
Três anos depois soube que ele tinha morrido de aids. A pessoa que me
contou não sabia se havia sido na Alemanha ou na América do Sul (não sabia
que ele era chileno).
Às vezes, quando penso em Stein e em Soto, não consigo deixar de pensar
também em Lorenzo.
Às vezes acho que Lorenzo foi melhor poeta do que Stein e Soto. Mas
normalmente, quando penso neles, vejo-os juntos.
Embora a única coisa que os una seja a circunstância de terem nascido no
Chile. E também um livro que talvez Stein tenha lido, que Soto com certeza leu
(fala sobre ele em um longo artigo sobre o exílio e a errância publicado no
México) e que também foi lido, com entusiasmo, como quase sempre que lia
alguma coisa (como virava as páginas? Com a língua, como todos nós
deveríamos fazer!), por Lorenzo. O livro se intitula Ma gestalt-thérapie e seu
autor é o doutor Frederick Perls, psiquiatra, refugiado da Alemanha nazista e
que vagabundeou por três continentes. Que eu saiba, não foi traduzido na
Espanha.
6.

Mas, voltemos ao começo de tudo, voltemos a Carlos Wieder e ao ano da


graça de 1974.
Naquele momento Wieder estava na crista da onda. Depois de suas façanhas
na Antártida e nos céus de tantas cidades chilenas, convidaram-no a fazer
alguma coisa de impacto na capital, algo espetacular que demonstrasse para o
mundo que não havia atritos entre o novo regime e a arte de vanguarda, muito
pelo contrário.
Wieder ficou encantado com o convite. Em Santiago, alojou-se em
Providencia, no apartamento de um ex-colega de turma, e enquanto durante o
dia treinava no aeródromo Capitán Lindstrom e fazia sua vida social em
clubes militares ou visitava as casas dos pais de seus amigos onde conhecia
(ou faziam-no conhecer, nisso sempre havia um toque forçado) as irmãs,
primas e amigas que ficavam maravilhadas com seu porte e com sua educação
e sua aparente timidez, mas também com sua frieza, com a distância que se
percebia nos seus olhos ou, como disse Pía Valle: como se por trás de seus
olhos existisse um outro par de olhos, durante a noite, finalmente livre,
dedicava-se a preparar, por sua própria conta, no apartamento, nas paredes do
quarto de hóspedes, uma exposição de fotografias cuja inauguração fez
coincidir com sua exibição de poesia aérea.
O dono do apartamento declararia anos depois que até o último momento
ele próprio não havia visto as fotos que Wieder pretendia expor. Sua primeira
reação ao projeto de Wieder foi, naturalmente, oferecer-lhe a sala e a casa
toda para espalhar as fotos, mas Wieder rechaçou a proposta. Argumentou que
as fotos precisavam de uma moldura limitada e bem demarcada, como o quarto
em que estava seu autor. Disse que depois da escrita no céu seria apropriado
— e além disso charmosamente paradoxal — que o epílogo da poesia aérea se
circunscrevesse ao covil do poeta. Quanto à natureza das fotos, o dono do
apartamento disse que Wieder queria guardar surpresa e que lhe adiantou
apenas que se tratava de poesia visual, experimental, refinada, arte pura, algo
que divertiria a todos. Fez com que prometesse, além disso, que nem ele nem
ninguém entraria no quarto até a noite da inauguração. O dono do apartamento
lhe disse que, se Carlos quisesse, poderia procurar em algum armário a chave
daquele quarto para ele se sentir mais seguro. Wieder disse que não era
preciso, que sua palavra de oficial era suficiente. O dono do apartamento deu-
lhe a palavra de honra, solenemente.
Os convites para a festa em Providencia foram, é claro, limitados e
seletivos: alguns pilotos, alguns militares jovens (o mais velho não chegava a
ser comandante) e cultos ou pelo menos com a suposição consistente de sê-lo,
um trio de jornalistas, dois artistas plásticos, um velho poeta de direita que
tinha sido vanguardista e que depois do golpe de Estado parecia ter
recuperado o ímpeto juvenil, alguma senhora jovem e distinta (ao que se sabe
somente uma mulher, Tatiana von Beck Iraola, compareceu à exposição) e o
pai de Carlos Wieder, que morava em Viña del Mar e tinha saúde frágil.
Tudo começou mal. O dia da exibição aérea amanheceu com grandes
cúmulos de nuvens negras e robustas que desciam pelo vale rumo ao sul.
Alguns chefes o desaconselharam a voar. Wieder ignorou os maus presságios e
dizem que chegou a discutir com alguém num canto escuro de um hangar.
Depois disso, seu avião subiu e os espectadores assistiram, mais apreensivos
que admirados, a algumas piruetas preliminares. Empreendeu um voo rasante,
deu um looping, fez um parafuso invertido. Mas nada de fumaça. Os homens do
Exército e suas mulheres estavam felizes, embora alguns superiores da Força
Aérea se perguntassem o que estava realmente acontecendo. Então o avião
ganhou altura e desapareceu no ventre de uma imensa nuvem cinza que se
deslocava lentamente sobre a cidade como se guiasse as nuvens negras da
tempestade.
Wieder viajou no interior da nuvem como Jonas dentro da baleia. Durante
algum tempo, os espectadores da exibição aérea aguardaram pela sua
reaparição retumbante. Alguns se sentiram incomodados, como se o piloto os
tivesse plantado de propósito, ali, sentados nas tribunas improvisadas do
Capitán Lindstrom, a observar um céu que só iria presenteá-los com chuva e
nada de poesia. Outros, a maioria, aproveitaram o intervalo para se levantar
de seus assentos, desentorpecer os velhos ossos, estender as pernas,
cumprimentar pessoas, participar das rodinhas que se formavam e se
desmanchavam rapidamente, deixando sempre alguém falando sozinho, em que
se discutiam os rumores mais recentes, novos cargos e nomeações, e os
problemas mais prementes que o país enfrentava. Os mais jovens e mais
entusiasmados dedicaram-se a comentar as últimas traições e os noivados
mais recentes. Até mesmo os fãs incondicionais de Wieder, em vez de
aguardar em silêncio o ressurgimento do avião ou interpretar de mil formas
diferentes aquele terrível céu vazio, embrenharam-se em comentários práticos
sobre a vida cotidiana que só muito tangencialmente aludiam à poesia chilena,
à arte chilena.
Wieder apareceu então longe do aeródromo, sobre um bairro periférico de
Santiago. E ali escreveu o primeiro verso: a morte é amizade. Depois planou
sobre alguns armazéns ferroviários e sobre o que pareciam ser algumas
fábricas abandonadas, embora tenha podido ver, nas ruas, pessoas empurrando
caixas de papelão, meninos trepados em muros, cachorros. À esquerda, na
posição das nove horas, reconheceu as imensas favelas delimitadas pela linha
de trem. Escreveu o segundo verso: a morte é o chile. Girou em seguida para
as três horas e se direcionou para o centro. Logo apareceram as avenidas, a
rede de espadas ou serpentes de cores apagadas, o rio de verdade, o
zoológico, os edifícios que eram o orgulho de pobre dos santiaguenses. A vista
aérea de uma cidade, como registrou o próprio Wieder em algum lugar, é como
uma foto rasgada cujos fragmentos, ao contrário do que se acredita, tendem a
se separar: máscara desconexa, máscara móvel. Sobre o palácio de La
Moneda, escreveu o terceiro verso: a morte é responsabilidade. Alguns
pedestres o viram, um escaravelho escuro recortado sobre um céu negro e
ameaçador. Muito poucos decifraram suas palavras: o vento as desmanchava
em questão de segundos. Em algum momento alguém tentou se comunicar com
ele por rádio. Wieder não respondeu à chamada. No horizonte, às onze horas,
viu as silhuetas de dois helicópteros que iam ao seu encontro. Voou em
círculos até que se aproximaram e depois se livrou deles num piscar de olhos.
No caminho de volta para o aeródromo, escreveu o quarto e o quinto versos: a
morte é amor e a morte é crescimento. Ao avistar o aeródromo, escreveu: a
morte é comunhão, mas nenhum dos generais ou das mulheres dos generais ou
dos filhos dos generais ou dos superiores ou das autoridades militares, civis,
eclesiásticas e culturais conseguiu ler suas palavras. Formava-se no céu uma
tempestade cheia de raios. Da torre de controle, um coronel pediu que
acelerasse tudo e pousasse. Wieder disse positivo e voltou a ganhar altura. Por
um momento, os que estavam embaixo pensaram que ele ia se enfiar
novamente numa nuvem. Um capitão, que não estava na tribuna de honra,
comentou que no Chile todos os atos poéticos acabavam em tragédia. A
maioria, disse, são apenas tragédias individuais ou familiares, mas alguns
acabam sendo tragédias nacionais. Então, na outra ponta de Santiago mas
perfeitamente visível das tribunas instaladas no Capitán Lindstrom, caiu o
primeiro raio e Carlos Wieder escreveu: a morte é limpeza, mas escreveu-o
tão mal, as condições meteorológicas estavam tão desfavoráveis, que
pouquíssimos dos espectadores, que já começavam a se levantar de seus
assentos e a abrir os primeiros guarda-chuvas, entenderam o que estava
escrito. Sobravam no céu alguns farrapos negros, uma escrita cuneiforme,
hieróglifos, garatujas infantis. Embora alguns, sim, tenham entendido, e
acharam que Carlos Wieder tinha ficado louco. Começou a chover e a
debandada foi geral. Num dos hangares, fora improvisado um coquetel, e
àquela hora e com todo aquele toró, todo mundo estava com fome e sede. Os
canapés se esgotaram em menos de quinze minutos. Os garçons, recrutas da
Intendência, iam e vinham numa velocidade espantosa e com uma agilidade
que causou inveja em algumas senhoras. Alguns oficiais comentaram como
aquele piloto poeta era estranho, mas a maioria dos convidados falava e se
preocupava com assuntos de relevância nacional (e também internacional).
Enquanto isso, Carlos Wieder continuava no céu, lutando contra a natureza.
Somente um grupinho de amigos e dois jornalistas que em seu tempo livre
escreviam poemas surrealistas (ou super-realistas, como eles costumavam
dizer, usando um espanholismo meio idiota) acompanharam da pista reluzente
de chuva, numa cena que parecia tirada de um filme sobre a Segunda Guerra
Mundial, as evoluções do aviãozinho sob a tempestade. Quanto a Wieder,
talvez não tivesse se dado conta de que seu público tinha ficado tão pequeno.
Escreveu, ou pensou que estivesse escrevendo: a morte é meu coração. E
depois: pegue meu coração. E depois seu nome: carlos wieder, sem medo da
chuva nem dos relâmpagos. Sem medo, sobretudo, da incoerência.
Depois disso já não tinha mais fumaça para escrever (desde algum tempo
antes a fumaça que saía da fuselagem já vinha dando a sensação de um
incêndio, mais do que de uma escrita, um incêndio que se misturava com a
chuva), mas escreveu: a morte é ressurreição, e os fiéis que continuavam lá
embaixo não entenderam nada, mas entenderam que Wieder estava escrevendo
alguma coisa, compreenderam ou acreditaram compreender a intenção do
piloto, sabendo que, embora não tivessem entendido nada, estavam assistindo
a um acontecimento único, a um evento importante para a arte do futuro.
Depois disso Carlos Wieder aterrissou sem nenhum problema (quem o viu
garante que ele suava como se tivesse acabado de sair de uma sauna), levou
uma reprimenda do oficial da torre de controle e de alguns superiores que
ainda perambulavam entre os restos do coquetel e, depois de beber, em pé,
uma cerveja (não falou com ninguém, respondendo com monossílabos às
perguntas que lhe faziam), foi embora para o apartamento de Providencia a fim
de preparar o segundo ato de sua noite de gala santiaguense.
Tudo que se relatou talvez tenha sido assim mesmo. Talvez não. Pode ser
que os generais da Força Aérea Chilena não tenham levado suas mulheres.
Pode ser que o aeródromo Capitán Lindstrom jamais tenha sido cenário de um
recital de poesia aérea. Talvez Wieder tenha escrito seu poema nos céus de
Santiago sem pedir autorização a ninguém, sem avisar ninguém, embora isso
seja menos provável. Talvez naquele dia nem tenha chovido sobre Santiago,
embora haja testemunhas (gente ociosa que olhava para o céu num banco de
praça, solitários debruçados numa janela) que ainda se lembram das palavras
no céu e, depois, da chuva purificadora. Mas talvez tudo tenha ocorrido de
outra maneira. Em 1974, as alucinações não eram pouco frequentes.
A exposição fotográfica no apartamento, porém, aconteceu exatamente como
se conta a seguir.
Os primeiros convidados chegaram às nove da noite. Eram, na maioria,
amigos desde a adolescência e fazia tempo que não se reuniam. Às onze havia
ali umas vinte pessoas, todas razoavelmente embriagadas. Ninguém ainda tinha
entrado no quarto de hóspedes onde Wieder dormia e em cujas paredes
pensava em expor as fotos à apreciação dos amigos. O tenente Julio César
Muñoz Cano, que anos depois publicaria o livro Com a corda no pescoço,
uma espécie de relato autobiográfico e autoprovocativo sobre sua atuação
durante os primeiros anos do governo golpista, escreve que Carlos Wieder se
comportava de um modo normal (ou talvez anormal: estava muito mais
tranquilo que de costume, inclusive humilde, com o rosto que o tempo todo
parecia que acabara de ser lavado), atendia aos convidados como se a casa
fosse dele (a camaradagem era absoluta, boa demais, ideal demais, escreve
Muñoz Cano), cumprimentava com carinho os companheiros de turma que não
via fazia muitos anos, admitia comentar os incidentes daquela manhã no
aeródromo sem lhes dar e sem dar a si mesmo maior importância, suportava
de bom grado as brincadeiras de sempre (às vezes pesadas, às vezes
abertamente de mau gosto) nesse tipo de encontro. De vez em quando sumia,
fechava-se no quarto (e nesses momentos, sim, o quarto ficava trancado a
chave), mas suas ausências nunca duravam muito tempo.
Por fim, à meia-noite em ponto, em pé sobre uma cadeira no meio da sala,
pediu silêncio e disse ( literalmente, segundo Muñoz Cano) que chegara a hora
de se embeber um pouco na nova arte. Agora era o Wieder de sempre,
dominante, seguro, os olhos como que separados do corpo, como se olhassem
a partir de outro planeta. Em seguida, foi abrindo caminho até a porta de seu
quarto, deixando passar um convidado de cada vez. Um de cada vez, senhores,
a arte chilena não admite aglomerações. Quando disse isso (segundo Muñoz
Cano), Wieder utilizou um tom jocoso e olhou para o pai, a quem dirigiu uma
piscadela com o olho esquerdo e depois outra com o direito. Como se tivesse
de novo doze anos de idade e lhe desse um sinal secreto. O pai exibia um
rosto tranquilo e sorriu para o filho.
A primeira a entrar foi Tatiana von Beck Iraola, como seria lógico, dada sua
condição de mulher e sua personalidade impulsiva e caprichosa. Tatiana,
escreve Muñoz Cano, era neta, filha e irmã de militares e, com seu jeito um
tanto amalucado, uma mulher independente, que sempre fazia o que queria,
saía com quem lhe desse na telha e tinha opiniões esdrúxulas, muitas vezes
contraditórias, mas frequentemente originais. Anos depois, casou-se com um
pediatra; foram morar em La Serena e tiveram seis filhos. A Tatiana daquela
noite, lembra Muñoz Cano com uma melancolia levemente marcada pelo
horror, era uma garota bonita e segura de si, que entrou no quarto com a
expectativa de encontrar, ali, retratos de heróis ou fotografias entediantes dos
céus do Chile.
O quarto estava iluminado de forma comum. Nenhuma lâmpada a mais ou
refletor extra que realçasse a visão das fotos. O aposento não devia parecer
uma galeria de arte e sim justamente um quarto, um cômodo emprestado, a
habitação transitória de um jovem. Logicamente, não houve luzes coloridas
como alguém chegou a dizer, nem música de tambores saindo de um
radiogravador escondido debaixo da cama. O ambiente tinha de ser informal,
normal, sem chamar a atenção.
Fora dali a festa continuava. Os jovens bebiam como jovens, como
vencedores, e além disso aguentavam quantidades de bebida como autênticos
chilenos. As risadas eram contagiosas, lembra Muñoz Cano, alheias a
qualquer ameaça, a qualquer sombra. Em algum lugar um trio começou a
cantar, abraçados, acompanhados pelo violão de um deles. Apoiados nas
paredes, em grupos de dois ou de três, alguns falavam sobre o futuro ou sobre
o amor. Todos estavam felizes por estar ali, na festa do piloto poeta; estavam
felizes por serem o que eram e por serem, além disso, amigos de Carlos
Wieder, embora não o compreendessem totalmente, embora sentissem haver
uma diferença entre eles e ele. No corredor a fila se desmanchava a todo
instante; alguns iam buscar mais bebida, outros se enroscavam em
reafirmações de amizade e de lealdade eternas que os levavam, como uma
onda protetora, de volta para a sala, de onde logo voltavam, enjoados, com as
bochechas coradas, para retomar seu lugar na fila. A fumaceira, sobretudo no
corredor, era considerável. Wieder permanecia de pé no gonzo da porta. Dois
tenentes discutiam e se empurravam (mas suavemente) no banheiro ao fundo
do corredor. O pai de Wieder era um dos poucos que permaneciam sérios e
firmes na fila. Muñoz Cano se movimentava, segundo sua própria confissão,
para cima e para baixo, nervoso e tomado por pressentimentos obscuros. Os
dois repórteres surrealistas (ou super-realistas) conversavam com o dono da
casa. Numa de suas idas e vindas, Muñoz Cano conseguiu ouvir algumas
palavras: falavam de viagens, o Mediterrâneo, Miami, praias quentes, barcos
de pescadores, mulheres exuberantes.
Não se passara um minuto quando Tatiana von Beck saiu. Estava pálida e
desconcertada. Todos a viram. Olhou para Wieder — parecia querer dizer-lhe
alguma coisa mas não encontrava as palavras — e logo se encaminhou para o
banheiro. Não deu tempo. Vomitou no próprio corredor e depois, cambaleante,
deixou o apartamento ajudada por um oficial que se ofereceu galantemente a
acompanhá-la até em casa, apesar dos protestos de Von Beck, que preferia ir
embora sozinha.
O segundo a entrar foi um capitão que tinha sido professor de Wieder na
Academia. Não saiu mais. Wieder, ao lado da porta fechada (o capitão, ao
entrar, deixou-a entreaberta mas ele tornou a fechá-la), sorria cada vez mais
satisfeito. Na sala, alguns se perguntavam o que tinha dado em Tatiana. Está
bêbada, ora, disse uma voz que Muñoz Cano não reconheceu. Alguém pôs um
disco do Pink Floyd. Alguém comentou que não se podia dançar entre homens,
isso aqui está parecendo um encontro de canhões giratórios, disse uma voz.
Responderam-lhe que a música de Pink Floyd era para ouvir, não para dançar.
Os repórteres surrealistas cochichavam um com o outro. Um tenente propôs
que saíssem dali imediatamente atrás de algumas putas. Muñoz Cano escreve
que naquele momento teve a sensação de que estavam todos ao ar livre, sob a
noite escura, a céu aberto, ao menos as vozes soavam dessa maneira. No
corredor, o clima gerado era pior. Quase ninguém falava nada, como na
antessala de um dentista. Mas onde já se viu uma antessala de dentista onde os
dentes-podres (sic) aguardam de pé?, pergunta Muñoz Cano.
O pai de Wieder rompeu o encanto. Abriu caminho educadamente,
chamando os oficias que estavam à sua frente na fila pelo nome de batismo, e
entrou no quarto. Atrás dele foi o dono do apartamento. Quase de imediato,
este saiu e encarou Wieder; por um momento, parecia que ia golpeá-lo, tê-lo-
ia agarrado pelas lapelas, mas logo lhe deu as costas e avançou para a sala em
busca de algo para beber. A partir desse instante, todos, inclusive Muñoz
Cano, quiseram entrar no dormitório. Ali, sentado sobre a cama, encontraram
o capitão. Fumava e lia umas anotações escritas a máquina que tinha arrancado
pouco antes de uma parede. Parecia calmo, embora a cinza de seu cigarro
estivesse esparramada sobre uma de suas pernas. O pai de Wieder
contemplava algumas das centenas de fotos que decoravam as paredes e uma
parte do teto do quarto. Um cadete, cuja presença ali ninguém consegue
explicar, talvez fosse o irmão caçula de um dos oficiais, começou a chorar e a
xingar; tiveram de arrastá-lo para fora. Os repórteres surrealistas faziam sinais
de desagrado mas mantiveram a pose. Segundo Muñoz Cano, em algumas das
fotos ele reconheceu as irmãs Garmendia e outros desaparecidos. Eram, na
maioria, mulheres. O cenário das fotos quase não variava de uma para outra,
deduzindo-se, daí, que todas foram feitas no mesmo lugar. As mulheres
parecem manequins, em alguns casos manequins sem membros, destroçados,
embora Muñoz Cano não descarte que em cerca de trinta por cento dos casos
elas ainda estivessem vivas no momento da realização da foto. As imagens, em
geral (segundo Muñoz Cano), são de má qualidade, embora a sensação que
provocam em quem as observa seja extremamente forte. A ordem em que
foram expostas não é fortuita: seguem uma linha determinada, uma
argumentação, um roteiro, uma história (cronológica, espiritual...), um plano.
As que estão presas no teto são todas semelhantes (segundo Muñoz Cano) ao
inferno, mas um inferno vazio. As que estão pregadas (com percevejos) nos
quatro cantos lembram uma celebração. Uma celebração da loucura. Em outros
grupos de fotos predomina um tom elegíaco (mas como é possível haver
nostalgia e melancolia nessas fotos?, pergunta-se Muñoz Cano). Os símbolos
são raros porém eloquentes. A foto da capa de um livro de François-Xavier de
Maistre (o irmão caçula de Joseph de Maistre): As noites de São Petersburgo.
A foto da foto de uma jovem loira que parece se desvanecer no ar. A foto de
um dedo cortado, largado num piso cinza, poroso, de cimento.
Depois do estrondo inicial, de repente todos silenciaram. Era como se uma
corrente de alta voltagem tivesse passado pela casa deixando-nos alterados,
afirma Muñoz Cano em um dos poucos momentos de lucidez de seu livro.
Olhávamos uns aos outros e nos reconhecíamos, mas na verdade era como se
não nos reconhecêssemos, parecíamos diferentes, parecíamos iguais,
odiávamos nossos rostos, nossos gestos eram típicos de sonâmbulos ou
retardados mentais. Enquanto alguns partiam sem se despedir, pairava no ar
uma estranha sensação de fraternidade entre os que preferiram ficar. Como um
registro curioso, Muñoz Cano acrescenta que naquele momento especialmente
delicado o telefone começou a tocar. Diante da passividade do dono da casa,
ele próprio atendeu a chamada. Uma voz de velho perguntou por um tal de
Lucho Álvarez. Alô? Alô? Lucho Álvarez está, por favor? Muñoz Cano, sem
responder, passou o fone para o dono da casa. Alguém conhece algum Lucho
Álvarez?, perguntou este, depois de um intervalo de tempo excessivamente
longo. O velho, deduziu Muñoz Cano, provavelmente falava de outras coisas,
fazia outras perguntas talvez relativas a Lucho Álvarez. Ninguém o conhecia.
Alguns riram; foram risadas nervosas que soaram inoportunamente altas. Essa
pessoa não mora aqui, disse o dono da casa depois de escutar mais um pouco
em silêncio, e desligou.
No quarto das fotos já não havia ninguém, à exceção de Wieder e do
capitão, e no apartamento, segundo Muñoz Cano, não mais que oito pessoas
tinham ficado, entre elas o pai de Wieder, que não parecia particularmente
afetado (sua atitude era a de quem está participando — talvez
involuntariamente — de uma festa de cadetes que por um motivo que lhe
escapava ou que não lhe dizia respeito tinha fracassado). O dono da casa, a
quem conhecia desde que era adolescente, procurava não olhar para ele. Os
demais sobreviventes da festa falavam ou cochichavam entre si, mas
silenciavam quando ele se aproximava. Um silêncio incômodo que o pai de
Wieder procurou contornar oferecendo uns tragos, bebidas quentes e
sanduíches que preparava na cozinha, sozinho e calmo. Não se preocupe,
senhor José, disse um dos oficiais olhando para o chão. Não estou
preocupado, Javierito, disse o pai de Wieder. Isso tudo, na carreira de Carlos,
disse outro, é apenas um tropeço sem importância. O pai fitou-o como se não
entendesse do que estava falando. Era condescendente conosco, lembra Muñoz
Cano, estava à beira do abismo e não sabia ou então não dava importância
para isso ou dissimulava com rara perfeição.
Depois Wieder saiu do quarto e ficou falando com o pai na cozinha, sem
que ninguém os escutasse. Porém não mais que cinco minutos. Ao saírem dali,
ambos traziam copos de bebida nas mãos. O capitão também saiu para beber
alguma coisa e depois voltou a se fechar no quarto das fotos, advertindo os
demais para que ninguém entrasse ali. Um dos tenentes, a pedido do capitão,
produziu uma lista com os nomes de todos os que tinham comparecido à festa.
Alguém lembrou um juramento, outro começou a falar sobre a discrição e a
honra dos cavaleiros. A honra da cavalaria, disse um sujeito que até esse
momento parecia adormecido. E houve quem protestasse dizendo que não era
dos soldados que se devia desconfiar e sim dos civis, aludindo à dupla de
repórteres surrealistas. Esses senhores, respondeu o capitão, sabem o que lhes
convém. Os surrealistas logo lhe deram razão e afirmaram que, no fundo, nada
tinha acontecido ali, entre gente mundana, já se sabe como é. Depois alguém
preparou café e bem mais tarde, embora ainda faltasse bastante para o
amanhecer, apareceram três militares e um civil que se identificaram como
sendo da Inteligência. O pessoal que estava no apartamento de Providencia
permitiu-lhes a entrada imaginando que fossem prender Wieder. No começo a
chegada do pessoal da Inteligência foi recebida com respeito e certo temor
(principalmente por parte da dupla de repórteres), mas ao final de alguns
minutos em que nada acontecia e diante de seu mutismo, entregues de corpo e
alma que estavam ao seu trabalho, os sobreviventes da festa deixaram de lhes
prestar atenção, como se se tratasse de empregados que tivessem chegado no
momento inoportuno para fazer a faxina. Durante um tempo que a todos
pareceu excessivamente longo, o pessoal da Inteligência e o capitão
permaneceram fechados com Wieder no quarto (um dos amigos de Wieder quis
entrar para lhe “prestar apoio moral”, mas o sujeito que estava à paisana lhe
disse para não se fazer de idiota e deixá-los trabalhar em paz); em seguida,
através da porta fechada, ouviram imprecações, a palavra insensato sendo
repetida várias vezes e depois apenas o silêncio. Mais tarde o pessoal da
Inteligência se retirou, tão silenciosamente como havia chegado, com três
caixas de sapato, que lhes tinham sido arranjadas pelo dono do apartamento,
carregadas com as fotos da exposição. Muito bem, senhores, disse o capitão
antes de acompanhá-los, é melhor que todos durmam um pouco e esqueçam
tudo o que aconteceu esta noite. Uma dupla de tenentes bateu continência, mas
os outros estavam cansados demais para seguir normas ou rituais de qualquer
tipo e nem sequer lhe deram boa-noite (ou bom-dia, pois já amanhecia).
Exatamente na hora em que o capitão se retirava batendo a porta com força,
detalhe humorístico que ninguém soube usufruir, Wieder saiu do quarto e
atravessou a sala sem olhar para ninguém até chegar à janela. Abriu as
cortinas (ainda estava escuro do lado de fora, mas ao fundo, na direção da
cordilheira, via-se uma frágil claridade) e acendeu um cigarro. Carlos, o que
houve?, perguntou o pai de Wieder. Este não respondeu. Por um momento,
parecia que ninguém falaria nada (que todos adormeceriam de imediato, sem
conseguir desviar o olhar da figura de Wieder). O living, lembra Muñoz Cano,
parecia a sala de espera de um hospital. Você está preso?, perguntou
finalmente o dono do apartamento. Suponho que sim, disse Wieder, de costas
para todos, olhando as luzes de Santiago, as poucas luzes de Santiago. Seu pai
aproximou-se com uma lentidão exasperante, como se não se atrevesse a fazer
aquilo que acabaria fazendo, e por fim o abraçou. Um abraço rápido a que
Wieder não correspondeu. As pessoas são exageradas, disse um dos
repórteres surrealistas. Calado, disse o dono do apartamento. E agora, o que
vamos fazer?, perguntou um tenente. Curar a ressaca, disse o dono do
apartamento.
Muñoz Cano nunca mais viu Wieder. A última imagem que guarda dele,
porém, é indelével: uma sala grande e bagunçada, garrafas, pratos, cinzeiros
cheios, um grupo de pessoas pálidas e cansadas, e Carlos Wieder junto à
janela, em perfeito estado, segurando um copo de uísque numa mão que
certamente não tremia e olhando a paisagem noturna.
7.

Dessa noite em diante as notícias sobre Carlos Wieder são confusas,


contraditórias, sua figura aparece e desaparece na antologia móvel da
literatura chilena envolta por uma névoa, especula-se a respeito de sua
expulsão da Força Aérea decidida em um julgamento noturno e secreto ao qual
ele teria comparecido com o uniforme oficial, embora seus fãs incondicionais
preferissem imaginá-lo com um capote preto de cossaco, de monóculo e
fumando com uma longa piteira de marfim. As mentes mais desvairadas de sua
geração o veem vagando por Santiago, Valparaíso e Concepción exercendo
ofícios os mais diversos e participando de iniciativas artísticas esquisitas.
Muda de nome e o vincula a revistas literárias de vida efêmera em que publica
propostas de happenings que nunca realizará ou que, pior ainda, realizará
secretamente. Numa revista de teatro, publica-se uma pequena peça em um ato
assinada por um certo Octavio Pacheco, de quem nada se sabe. A peça é
radicalmente singular: acontece em um mundo de irmãos siameses onde
sadismo e masoquismo viram brincadeira de criança. Apenas a morte é
criminalizada nesse mundo, e é sobre ela — sobre o não ser, sobre o nada,
sobre a vida depois da vida — que os irmãos discorrem ao longo da obra.
Cada um se dedica a torturar seu siamês durante certo tempo (ou um ciclo,
como alerta o autor), depois do qual o torturador se transforma em torturado e
vice-versa. Mas, para que isso aconteça, “é preciso ir fundo”. A peça não
poupa o leitor, como é fácil imaginar, de nenhum tipo de crueldade. Sua ação
se passa na casa dos siameses e no estacionamento de um supermercado onde
eles se cruzam com outros siameses que exibem uma gama variada de
cicatrizes e queloides. A peça, ao contrário do que era de se esperar, não se
encerra com a morte de um dos siameses e sim com o início de um novo ciclo
de dor. Sua tese talvez peque pela simplicidade: somente a dor nos atrela à
vida, somente a dor é capaz de revelá-la. Numa revista universitária, publica-
se um poema intitulado “A boca zero”; o poema, com a aparência de um
arremedo provinciano de Klebnikhov, é acompanhado de três desenhos do
autor que ilustram o “momento boca zero” (quer dizer, o ato de desenhar com a
boca aberta ao máximo possível um zero ou um o). A assinatura, mais uma vez,
é de Octavio Pacheco, mas Bibiano O’Ryan descobre por acaso nos arquivos
da Biblioteca Nacional uma pasta de autor em que se reúnem as poesias
aéreas de Wieder, a obra de teatro de Pacheco e textos assinados por outros
três ou quatro nomes e publicados em revistas de circulação restrita, algumas
marginais, editadas com poucos recursos, e outras de luxo, com papel
excelente, uma profusão de fotos (numa delas, reproduz-se quase toda a poesia
aérea de Wieder, com uma cronologia de cada ação) e diagramação razoável.
São várias as procedências das revistas: Argentina, Uruguai, Brasil, México,
Colômbia e Chile. Seus nomes, mais que objetivos, indicam estratégias:
Hibernia, Germania, Tormenta, El Cuarto Reich Argentino, Cruz de Hierro,
Basta de Hipérboles! (um fanzine portenho), Diptongos y Sinalefas, Odín,
Des Sängers Fluch (com oitenta por cento das colaborações em língua alemã
e onde se publica, no número 4, do segundo trimestre de 1975, uma entrevista
“político-artística” com um certo K. W., autor chileno de ficção científica,
em que este adianta parte do enredo de seu próximo, e primeiro, romance),
Ataques Selectivos, La Cofradía, Poesía Pastoril & Poesia Urbana
(colombiana, e a única com alguma coisa mais interessante: selvagem,
demolidora, poesia de jovens motoristas de classe média que brincam com os
símbolos das ss, com a droga, com o crime e com a métrica e a cenografia de
certa poesia beat), Playas de Marte, El Ejército Blanco, Don Perico... A
surpresa de Bibiano é enorme: entre as revistas, depara-se com pelo menos
sete chilenas surgidas entre 1973 e 1980 cuja existência ele, que se achava
conhecedor de tudo aquilo que acontecia na cena literária chilena, ignorava.
Numa delas, Girasoles de Carne, no número 1, de abril de 1979, Wieder, sob
o pseudônimo de Masanobu (que não evoca, como se poderia pensar, um
guerreiro samurai, mas sim o pintor japonês Okumura Masanobu, 1686-1764),
fala sobre humor, sobre o sentido do ridículo, sobre as piadas cruentas e
incruentas da literatura, todas elas atrozes, sobre o grotesco privado e público,
sobre o risível, sobre o descomedimento inútil, e conclui que ninguém,
absolutamente ninguém, pode se erigir como juiz dessa literatura menor que
nasce da galhofa, que se desenvolve na galhofa, que morre na galhofa. Todos
os escritores são grotescos, escreve Wieder. Todos os escritores são
miseráveis, inclusive aqueles que nascem no seio de família abastadas,
inclusive os que ganham o prêmio Nobel. Acha também um livro fininho, com
capa marrom, brochura, intitulado Entrevista com Juan Sauer. O livro traz o
selo da editora El Cuarto Reich Argentino, mas não tem nenhum endereço nem
o ano de publicação. Logo percebe que Juan Sauer, que na entrevista responde
a perguntas sobre fotografia e poesia, é Carlos Wieder. Nas respostas, longos
monólogos divagantes, esboça-se sua teoria da arte. Segundo Bibiano,
decepcionante, como se Wieder estivesse passando por um mau momento e
sentisse saudades de uma normalidade que ele jamais conhecera, de uma
condição de poeta chileno “protegido pelo Estado, que assim protege a
cultura”. Algo de causar vômito, como que levando a acreditar naqueles que
diziam ter visto Wieder vendendo cuecas e gravatas em Valparaíso.
Durante algum tempo, sempre que pode e com a mais absoluta discrição,
Bibiano volta àquela pasta perdida da biblioteca. Não demora a constatar que
a pasta cresce com novos (embora frequentemente decepcionantes) aportes.
Por alguns dias Bibiano se sente em posse da chave capaz de lhe permitir
encontrar o fugidio Carlos Wieder, mas (confessa a mim numa carta) sente
medo e seus passos são tão cautelosos e tímidos que poderiam facilmente ser
confundidos com a imobilidade. Quer encontrar Wieder, quer vê-lo, mas não
quer que Wieder o veja, e seu maior pesadelo é que Wieder, numa noite
qualquer, venha ao seu encontro. Bibiano por fim supera o medo e passa a ir
diariamente à biblioteca. Wieder não aparece. Bibiano decide consultar um
funcionário, um velhinho cuja maior diversão consiste em se inteirar da vida e
dos feitos de todos os escritores chilenos, éditos ou inéditos. Este revela a
Bibiano que quem alimenta, com irregularidade, o arquivo de Wieder é,
supostamente, seu pai, um aposentado de Viña del Mar a quem o autor envia
pelo correio todos os seus trabalhos. À luz dessa revelação, Bibiano volta a
bisbilhotar na papelada de Wieder e chega à conclusão de que alguns autores
que de início considerara como heterônimos de Wieder não o são, de modo
algum: trata-se de escritores verdadeiros, ou de heterônimos, mas de outra
pessoa, não de Wieder; e de que ou este vinha enganando o pai com uma
produção que não era dele ou que o pai vinha enganando a si mesmo com a
obra de um estranho. A conclusão (provisória, de modo algum definitiva,
esclarece Bibiano) lhe parece triste e sinistra e, daí em diante, para preservar
seu equilíbrio emocional e sua integridade física, procura acompanhar a
carreira de Wieder mas mantendo-se afastado, sem nunca mais tentar uma
aproximação pessoal.
Não lhe faltam oportunidades. A lenda em torno de Wieder cresce como
espuma em alguns círculos literários. Diz-se que virou rosa-cruz, que um
grupo de seguidores de Joseph Peladan tentou entrar em contato com ele, que
uma leitura cifrada de algumas páginas do Amphithéâtre des sciences mortes
anuncia ou profetiza seu aparecimento “na arte e na política de um país do Sul
distante”. Diz-se que vive refugiado no sítio de uma mulher mais velha que
ele, dedicando-se à leitura e à fotografia. Diz-se que comparece de vez em
quando (e sem avisar) ao salão de Rebeca Vivar Vivanco, mais conhecida
como madame vv, pintora e ultradireitista (para ela, Pinochet e os militares
são uns molengas que acabarão entregando a República para a Democracia
Cristã), impulsora de comunidades de artistas e soldados na província de
Aysén, dilapidadora de uma das fortunas familiares mais antigas do Chile e
finalmente internada num manicômio em meados da década de 80 (entre suas
obras exóticas destaca-se o desenho dos novos uniformes das Forças Armadas
e a composição de um poema musical de vinte minutos de duração que os
adolescentes de quinze anos deveriam entoar em um ritual de iniciação à vida
adulta que se realizaria, segundo madame vv, nos desertos do Norte, na neve
das cordilheiras ou nas escuras florestas do Sul, dependendo de sua data de
nascimento, da localização dos planetas etc.). No final de 1977, sai um jogo
(um wargame de estratégia) sobre a Guerra do Pacífico que, apesar de uma
campanha publicitária mais que discreta, passa totalmente despercebido pelo
incipiente mercado nacional. Seu autor, segundo os especialistas (e Bibiano
O’Ryan não os desmente), é Carlos Wieder. O wargame, que abrange em
períodos quinzenais a totalidade da guerra que desde 1879 opôs o Chile à
Aliança Peruano-Boliviana, é apresentado ao público como um jogo mais
divertido que o Banco Imobiliário, embora os jogadores logo percebam estar
diante de um jogo de dupla ou tripla leitura. A primeira, árdua, cheia de
tabelas, é de um wargame clássico. A segunda incide magicamente sobre a
personalidade e o caráter dos oficiais que combateram durante a guerra:
pergunta-se, por exemplo (acrescentando-se fotos da época), se Arturo Prat
poderia encarnar Jesus (e a foto de Prat, com efeito, guarda muita semelhança
com algumas representações do Cristo) e em seguida se Arturo-Prat-Jesus era
uma casualidade, um símbolo ou uma profecia. (Na continuação, pergunta-se
qual o significado real do ataque ao Huáscar, qual o significado real do nome
da corveta de Prat, Esmeralda, qual o significado real do fato de os dois
contendores, o chileno Prat e o peruano Grau, serem catalães.) A terceira gira
em torno das pessoas comuns que engrossaram o vitorioso exército do Chile
que chegaria invicto a Lima e à fundação, em Lima, numa reunião secreta
realizada numa pequena igreja subterrânea dos tempos da colônia, daquilo que
vários autores resolveram chamar, com maior ou menor felicidade mas com o
mesmo sentido de ridículo, de a Raça Chilena. Para o criador do jogo
(provavelmente Wieder), a raça chilena foi fundada numa noite nublada de
1882, sendo Patrício Lynch o general do exército de ocupação. (Também há
fotos de Lynch e uma série de perguntas que vão desde o significado de seu
nome até as razões ocultas de algumas de suas campanhas — por que os
chineses adoravam Lynch? — antes e depois de ele ter sido general.) O jogo,
que conseguiu passar não se sabe como pela censura e ser comercializado, não
obteve certamente o sucesso esperado e deixou em ruínas os donos da editora,
que se declararam quebrados apesar de terem anunciado outros dois jogos do
mesmo criador, um sobre a luta contra os araucanos e o outro, que não era um
wargame, ambientado numa cidade em que se reconhecia vagamente Santiago
mas que também podia ser Buenos Aires (de uma forma ou de outra, uma Mega
Santiago ou uma Mega Buenos Aires), de temática detetivesca mas onde não
faltavam ingredientes espirituais, uma espécie de Fuga de Colditz da alma e
do mistério da condição humana.
Bibiano O’Ryan ficou por algum tempo obcecado com esses dois jogos que
nunca chegaram a ser lançados. Antes de parar de me escrever, informou-me
que havia feito contato com a maior ludoteca particular dos Estados Unidos a
fim de saber se eles tinham sido comercializados ali. Recebeu de volta, pelo
correio, um catálogo de trinta páginas com todos os jogos do gênero wargame
lançados nos Estados Unidos nos cinco anos precedentes. O jogo não constava
ali. Quanto ao jogo de detetives de Mega Santiago, que se encaixava numa
classificação mais ampla e ao mesmo tempo menos precisa, nenhuma palavra.
As buscas de Bibiano nos Estados Unidos, por outro lado, não se limitaram
ao universo dos jogos. Eu soube por um amigo (embora não saiba se a história
é verdadeira) que Bibiano entrou em contato com um colecionador de
raridades literárias, para chamá-lo de alguma forma, da Philip K. Dick
Society, de Glen Ellen, Califórnia. Bibiano, ao que parece, contou a esse
colecionador, com quem se correspondia e que era um sujeito especializado
em “mensagens secretas da literatura, da pintura, do teatro e do cinema”, a
história de Carlos Wieder e o norte-americano considerou que um espécime
daquele quilate cedo ou tarde acabaria chegando aos Estados Unidos. O
sujeito se chamava Graham Greenwood e acreditava, à maneira norte-
americana, decidida e militante, na existência do mal, o mal absoluto. Em sua
teologia pessoal, o inferno era uma rede ou uma cadeia de casualidades.
Explicava os assassinatos em série como uma “explosão do acaso”.
Interpretava as mortes dos inocentes (tudo aquilo que nossa mente se negava a
aceitar) como sendo a linguagem desse acaso liberado. A casa do diabo, dizia,
era o Destino, a Sorte. Aparecia em programas locais de televisão, em
pequenas emissoras de rádio da Costa Oeste ou dos estados do Novo México,
Arizona e Texas divulgando sua visão sobre o crime. Para lutar contra o mal,
recomendava o aprendizado da leitura, uma leitura que compreendia os
números, as cores, os sinais e a disposição dos objetos minúsculos, os
programas noturnos ou matutinos de televisão, os filmes esquecidos. Não
acreditava, porém, em vingança: era contrário à pena de morte e favorável a
uma reforma radical do sistema prisional. Andava sempre armado e defendia o
direito dos cidadãos ao porte de armas, como único meio de evitar a
fascistização do Estado. Não circunscrevia a luta contra o mal aos limites do
planeta Terra, que em sua cosmologia se assemelhava às vezes a uma colônia
penal: em alguns lugares fora da Terra, dizia, há zonas liberadas onde o acaso
não penetra e onde a única fonte de dor é a memória; seus habitantes são
chamados de anjos, e seus exércitos, legiões. De uma maneira menos literária
porém mais radical que Bibiano, passava a vida indo atrás de tudo que fosse
bizarro. Suas amizades eram variadas: detetives, militantes dos direitos das
minorias, feministas exiladas em motéis do Oeste, produtores e diretores de
cinema que jamais realizariam um único filme e que viviam uma vida tão
impetuosa e solitária como a dele. Os membros da Philip K. Dick Society,
pessoas normalmente discretas apesar de entusiastas, viam-no como um louco,
mas um louco inofensivo e de boa índole, além de ser um estudioso notável
das obras de Dick. Durante algum tempo, pois, Graham Greenwood ficou à
espera, mantendo-se atento a qualquer sinal que Wieder pudesse deixar de sua
passagem pelos Estados Unidos, mas sem sucesso.
Os sinais que ele deixa na antologia móvel da poesia chilena, por outro
lado, são cada vez mais tênues. Um poema assinado com o pseudônimo de El
Piloto, publicado numa revista de vida efêmera e que à primeira vista parece
um plágio descarado de um poema de Octavio Paz. Outro poema, mais
comprido, publicado numa revista argentina de certo prestígio, sobre uma
velha empregada indígena que foge aterrorizada de uma casa, do olhar de um
poeta, de uma nova forma de amar e que segundo Bibiano, incansável em suas
interpretações, refere-se a Amalia Maluenda, a índia mapuche empregada das
irmãs Garmendia que desapareceu na noite de seu sequestro e que alguns
colaboradores da Igreja Católica, que investiga os desaparecimentos, juram
ter visto nas proximidades de Mulchén ou de Santa Bárbara, vivendo em
ranchos nos sopés da cordilheira, protegida por seus sobrinhos e com o firme
propósito de nunca mais falar com nenhum chileno. O poema (Bibiano me
mandou uma fotocópia) é curioso, mas não prova nada, sendo possível,
inclusive, que Wieder não tenha sido seu autor.
Tudo leva a crer que ele renunciou à literatura.
Sua obra, porém, permanece no desespero (como ele talvez tivesse
gostado), mas permanece. Alguns jovens o leem, reinventam-no, seguem-no,
mas como seguir alguém que não se mexe, alguém que tenta, aparentemente
com êxito, tornar-se invisível?
Por fim Wieder abandona o Chile, abandona as revistas minoritárias em que
sob suas iniciais ou sob pseudônimos inverossímeis haviam saído suas últimas
obras, trabalhos realizados sem ímpeto, imitações cujo sentido escapa ao
leitor, e desaparece, embora sua ausência física (na verdade, sempre foi uma
figura ausente) não encerre as especulações, as leituras díspares e
apaixonadas que sua obra suscita.
Em 1986, no círculo que se reunia em torno das cinzas do falecido crítico
Ibacache, divulga-se a existência de uma carta (e a notícia logo se torna
pública) supostamente enviada por um amigo de Wieder em que se comunica
sua morte. A carta fala confusamente de inventariantes literários, mas os
membros do círculo de Ibacache, interessados em manter seus nomes limpos,
bem como o de seu mestre, fecham-se em copas e optam por não responder.
Segundo Bibiano, a notícia é falsa, provavelmente inventada pelos próprios
seguidores do falecido crítico que, à semelhança do mestre, já estão caducos.
Pouco tempo depois, no entanto, surge um livro póstumo de Ibacache
intitulado As leituras de minhas leituras, em que Wieder é citado. O livro,
uma amostra e coleta de casos possivelmente apócrifo e pretensamente leve,
inofensivo, empenha-se em registrar as leituras principais dos autores que
Ibacache havia resenhado com fervor ou complacência ao longo de seu
extenso percurso como crítico. Assim, comentam-se as leituras — e a
biblioteca — de Huidobro (surpreendentes), de Neruda (previsíveis), de
Nicanor Parra (Wittgenstein e a poesia popular chilena!, provavelmente uma
brincadeira de Parra com o ingênuo Ibacache ou uma brincadeira de Ibacache
com seus futuros leitores), de Rosamel del Valle, de Díaz Casanueva e outros,
em que se exclui Enrique Lihn, inimigo jurado do antiquário apologista. O
mais jovem entre os jovens é Wieder (o que demonstra a fé que Ibacache havia
depositado nele), e é no trecho sobre suas leituras que a prosa de Ibacache,
normalmente cheia de floreios ou generalidades, típicas do resenhista de
jornal um tanto afetado que no fundo ele sempre foi, se retrai, abandona pouco
a pouco (mas sem nenhum intervalo!) o tom festivo-familiar com que trata o
restante de seus ídolos, amigos ou seguidores. Na solidão de seu estúdio,
Ibacache tenta fixar a imagem de Wieder. Tenta compreender, com um tour de
force de sua memória, a voz, o espírito de Wieder, seu rosto entrevisto numa
longa noite de conversa telefônica, mas fracassa, e o fracasso, além de tudo, é
estrondoso e se faz notar em suas anotações, em sua prosa, que passa de
espirituosa a doutoral (coisa comum nos articulistas latino-americanos) e de
doutoral a melancólica, perplexa. As leituras que Ibacache atribui a Wieder
são variadas e provavelmente seguem mais a arbitrariedade do crítico, sua
descolocação, do que a realidade: Heráclito, Empédocles, Ésquilo, Eurípides,
Simônides, Anacreonte, Calímaco, Honesto de Corinto. Permite-se fazer uma
troça à custa de Wieder registrando que as duas antologias de cabeceira deste
eram a Antologia palatina e a Antologia da poesia chilena (embora,
pensando bem, talvez não seja brincadeira). Destaca que Wieder — aquele
Wieder cuja voz do outro lado da linha telefônica soava como a chuva, como a
intempérie, e isso, vindo de um antiquário, deve ser tomado ao pé da letra —
conhece o Diálogo de um desesperado com sua alma e também leu
atentamente Pena que ela seja uma prostituta, de John Ford, em cujas obras
completas, inclusive as escritas em colaboração, fez anotações minuciosas.
(Segundo Bibiano, um cético por natureza, o mais provável era que Wieder
tivesse apenas visto o filme italiano baseado na peça de Ford, que estreou na
América Latina em 1973 e cujo maior, e talvez único, mérito seja a
participação de uma jovem e perturbadora Charlotte Rampling.)
O trecho referente às leituras do “promissor poeta Carlos Wieder ” é
interrompido subitamente, como se Ibacache tivesse se dado conta, de repente,
de que caminhava no vazio.
Porém, há mais: em um artigo sobre cemitérios marinhos do litoral do
Pacífico, texto empolado e afetado reeditado em um volume intitulado Águas-
fortes e aquarelas, Ibacache, sem mais nem menos, entre um cemitério
próximo de Las Ventanas e outro nas proximidades de Valparaíso, descreve um
anoitecer em um vilarejo sem nome, uma praça vazia onde vibram sombras
alongadas e vacilantes, e uma silhueta, de um homem jovem, com capa escura
e um lenço ou cachecol em torno do pescoço cobrindo parte do rosto. Ibacache
conversa com o desconhecido, mas entre eles forma-se uma faixa, um
retângulo criado pela luz de um poste, que nenhum dos dois se anima a
atravessar. Suas vozes, apesar da distância que os separa, são nítidas. O
desconhecido, em alguns momentos, emprega um linguajar cheio de gírias e
agressivo que destoa da voz bem equilibrada, mas, de modo geral, os dois se
expressam em termos adequados. O encontro, que requer uma intimidade
absoluta, conclui-se com o surgimento, na praça noturna, de um casal de
namorados seguidos por um cachorro. A interrupção, que tem a duração de um
suspiro ou de um piscar de olhos, deixa Ibacache sozinho, apoiado em sua
bengala, meditando sobre a estranheza e o destino. O encontro, em termos
práticos, também se encerrou com a chegada de uma dupla de policiais. Entre
a vegetação abandonada da praça, entre suas sombras, o desconhecido
desaparece. Terá sido Wieder? Terá sido uma alucinação do crítico? Quem
sabe.
Os anos e as notícias negativas ou a falta de notícias, ao contrário do que
costuma acontecer, afirmam a estatura mítica de Wieder, reforçam suas
propostas hipotéticas. Alguns fãs saem pelo mundo dispostos a encontrá-lo e,
se não a trazê-lo de volta ao Chile, pelo menos a tirar uma foto com ele. Tudo
em vão. As pistas de Wieder se perdem na África do Sul, na Alemanha, na
Itália... Depois de uma longa peregrinação, que alguns chamariam de viagem
turística de um, dois ou três meses, os jovens que saíram em sua busca voltam
derrotados e sem dinheiro.
O pai de Carlos Wieder, supostamente a única pessoa a conhecer seu
paradeiro, morre em 1990. Seu túmulo, que ninguém visita, fica num dos
setores mais humildes do cemitério municipal de Valparaíso.
Pouco a pouco, começa a ganhar espaço no meio literário chileno a ideia,
no fundo bastante tranquilizadora já que os tempos começam a mudar, de que
Carlos Wieder, com efeito, também está morto.
Em 1992, seu nome surge em destaque num inquérito policial sobre torturas
e desaparecimentos. É a primeira vez que ele aparece publicamente ligado a
temas extraliterários. Em 1993, vinculam-no a um grupo operacional
independente responsável pela morte de vários estudantes na região de
Concepción e em Santiago. Em 1994, sai um livro de um grupo de jornalistas
chilenos sobre os desaparecimentos em que ele volta a ser mencionado.
Também sai o livro de Muñoz Cano, que deixou a Força Aérea, com um
capítulo em que ele narra pormenorizadamente (embora a prosa de Muñoz
Cano peque em alguns momentos de um fervor excessivo, com os nervos à flor
da pele) a noite das fotos no apartamento de Providencia. Alguns anos antes
Bibiano O’Ryan publica O novo regresso dos bruxos por uma pequena editora
especializada em livros de poesia em formato reduzido. O livro é um sucesso
e catapulta a editora a tiragens até então inimagináveis. O novo regresso dos
bruxos é um ensaio agradável de ler (e os romances policiais que Bibiano e eu
consumimos em nossos anos de Concepción não são alheios ao seu estilo)
sobre os movimentos literários fascistas do Cone Sul de 1972 a 1989. Não
faltam personagens enigmáticos ou extravagantes, mas a figura principal,
aquela que se ergue isoladamente entre a vertigem e o balbucio da década
maldita, é sem dúvida Carlos Wieder. Sua figura, como se costuma dizer
tristemente na América Latina, brilha com luz própria. O capítulo dedicado
por Bibiano a Wieder (o maior do livro) intitula-se “A exploração dos
limites”; nele, distanciando-se de um tom normalmente objetivo e comedido,
Bibiano fala justamente sobre o brilho; dir-se-ia que está contando um filme
de terror. A certa altura, sem muita felicidade, compara-o ao Vathek de
William Beckford. E cita as palavras de Borges a respeito dele: “Afirmo que
se trata do primeiro Inferno realmente atroz da literatura”. Sua descrição, as
reflexões que a poética de Wieder suscita nele são hesitantes, como se sua
presença o turvasse ou o fizesse perder o rumo. Com efeito, Bibiano, ao
mesmo tempo que ri descaradamente dos torturadores argentinos ou
brasileiros, trava-se ao lidar com Wieder, usa adjetivos de forma
despropositada, abusa da coprolalia, tenta não piscar os olhos para que seu
personagem (o piloto Carlos Wieder, o autodidata Ruiz-Tagle) não lhe escape
na linha do horizonte, mas ninguém, muito menos na literatura, consegue ficar
sem piscar durante muito tempo, e Wieder sempre escapa.
Somente três velhos companheiros de farda saem em sua defesa. Os três são
reformados; os três são guiados pelo amor à verdade e por um altruísmo
desinteressado. O primeiro, major do Exército, afirma que Wieder era um
homem sensível e culto, muito mais uma vítima, à sua maneira, é claro, dos
anos de ferro em que o destino da República esteve em jogo. O segundo, um
sargento da Inteligência militar, prende-se mais em comentários do cotidiano;
sua imagem de Wieder é de um jovem enérgico, brincalhão, trabalhador, e olhe
que havia oficiais que não faziam nada, respeitoso com seus subordinados, aos
quais tratava não diria como se fossem filhos porque a maioria de nós éramos
mais velhos que ele, mas como irmãos mais novos, meus irmãozinhos, dizia-
lhes Wieder, às vezes até mesmo sem mais nem menos, com um grande sorriso
de felicidade — mas feliz por quê? — atravessando-lhe o rosto. O terceiro,
um oficial que o acompanhou em algumas missões em Santiago — poucas,
como se preocupou em deixar claro —, afirma que o tenente da Força Aérea
não fez mais do que aquilo que todos os chilenos tiveram de fazer, deveriam
ter feito ou quiseram mas não puderam fazer. Nas guerras internas os
prisioneiros são um estorvo. Esse era o lema que Wieder e alguns outros
seguiram, e quem, no meio do terremoto da história, poderia culpá-lo por ter
se excedido no cumprimento do dever? Às vezes, acrescentava pensativo, um
tiro de misericórdia se torna mais um consolo do que um último castigo:
Carlitos Wieder via o mundo como se estivesse sobre um vulcão, senhor, via
todos vocês e a si próprio como se estivesse muito distante, e todos,
desculpe a franqueza, parecíamos para ele uns animais miseráveis; ele era
assim; em seu livro de história a Natureza não tinha uma postura passiva,
muito pelo contrário, movia-se e nos fustigava, embora nós, pobres
ignorantes, costumemos atribuir esses golpes ao azar ou ao destino...
Ao final, um juiz pessimista e corajoso o inscreve como réu em um
processo de instrução que não irá adiante. Wieder, evidentemente, não se
apresenta. Outro juiz, dessa vez de Concepción, cita-o como principal suspeito
no processo do assassinato de Angélica Garmendia e do desaparecimento de
sua irmã e de sua tia. Amalia Maluenda, a empregada mapuche das
Garmendia, apresenta-se de surpresa como testemunha e durante uma semana
sua presença se torna um prato cheio para os jornalistas. A passagem do tempo
parece ter desmanchado o castelhano de Amalia. Suas intervenções são cheias
de expressões mapuches que dois jovens religiosos católicos que atuam como
seus guarda-costas e que não a deixam sozinha por um minuto sequer se
encarregam de traduzir. A noite do crime, em sua lembrança, fundiu-se numa
longa história de homicídios e injustiças. Sua história se encadeia em um
verso heroico (épos), cíclico, que aqueles que a ouvem, assombrados,
entendem que se trata em parte de sua história, a história da cidadã Amalia
Maluenda, ex-empregada das Garmendia, e em parte a história do Chile. Uma
história de terror. Assim, quando fala de Wieder, o tenente parece ser muitas
pessoas ao mesmo tempo: um intruso, um apaixonado, um guerreiro, um
demônio. Quando fala das irmãs Garmendia, compara-as com o ar, com as
plantas boas, com filhotes de cachorros. Quando recorda a noite aziaga do
crime, diz que escutou uma música de espanhóis. Instada a explicar a
expressão “música de espanhóis”, responde: pura raiva, senhor, pura
inutilidade.
Nenhum dos processos vai adiante. São muitos os problemas do país para
que se interesse pela figura cada vez mais nebulosa de um assassino em série
há muito desaparecido.
O Chile o esquece.
8.

É então que entra em cena Abel Romero e que eu volto a aparecer em cena.
O Chile também se esqueceu de nós.
Romero foi um dos policiais mais famosos da época de Allende. Agora é
um homem de mais de cinquenta anos, baixo, moreno, excessivamente magro e
com o cabelo preto penteado com gomalina ou fixador. Sua fama, sua pequena
lenda estava relacionada a dois episódios delituosos que no seu tempo
deixaram de cabelos em pé, como se costuma dizer, os leitores das páginas
policiais do Chile. O primeiro foi um assassinato (um quebra-cabeças, dizia
Romero) cometido em Valparaíso, no quarto de uma pensão da rua Ugalde. A
vítima foi encontrada com um tiro na testa e a porta do quarto estava com o
ferrolho trancado e travada com uma cadeira. As janelas estavam fechadas por
dentro; qualquer um que tivesse saído por ali, além disso, seria visto da rua. A
arma do crime foi encontrada ao lado do morto, razão pela qual, no início, a
sentença foi inequívoca: suicídio. Mas com as primeiras amostras colhidas a
polícia científica demonstrou que a vítima não tinha disparado um único tiro.
O morto se chamava Pizarro e não tinha nenhum inimigo conhecido; levava
uma vida controlada, solitária e não tinha nenhuma profissão ou meio de
ganhar a vida, embora logo se tenha comprovado que seus pais, de uma família
sulina sem problemas financeiros, mandavam-lhe uma mesada. O caso
despertou a curiosidade da imprensa: como o assassino tinha saído do quarto
da vítima? Fechar o ferrolho por fora, como observaram em outros quartos da
mesma pensão, era quase impossível. Passar o ferrolho e ainda por cima
travar a porta posicionando uma cadeira sobre a maçaneta da fechadura era
impensável. Investigaram as janelas: em apenas uma de cada dez vezes em que
eram fechadas a partir de fora com um golpe seco e preciso, o trinco ficava
enganchado. Mas, para fugir por ali, era preciso ser um equilibrista e que
ninguém na rua, e o assassinato se deu numa hora em que ela costumava estar
com bastante trânsito de pessoas, tivesse o azar de erguer os olhos e descobrir
você. Ao final, diante da inviabilidade de alternativas, a polícia chegou à
conclusão de que o assassino tinha escapado pela janela, e ele passou a ser
chamado pela imprensa de o equilibrista. Romero foi então enviado de
Santiago para lá e elucidou o crime em vinte e quatro horas (mais oito de
interrogatório, do qual ele não participou, bastaram para que o assassino
assinasse uma confissão que não se afastava muito da linha de investigação
seguida). Os fatos, tal como Romero me contou posteriormente, ocorreram da
seguinte forma: a vítima, Pizarro, tinha algum tipo de trato com o filho da dona
da pensão, um tal de Enrique Martínez Corrales, conhecido como Enriquito ou
Henry, frequentador do hipódromo de Viña del Mar, onde sempre acabam se
reunindo, segundo Romero, as pessoas de vida indecente ou aqueles que têm a
sorte negra, como escreveu Victor Hugo, cuja obra Os miseráveis é a única
“joia universal da literatura” que Romero confessa ter lido na juventude,
embora infelizmente, com o passar dos anos, a tenha esquecido totalmente,
com exceção do suicídio de Javert (sobre Os miseráveis, volto a falar mais
adiante); o tal Enriquito, ao que tudo indicava, estava atolado em dívidas e
envolveu Pizarro de alguma maneira nos seus negócios. Por algum tempo,
equivalente ao mau momento por que passa Enriquito, os dois amigos
compartilham aventuras que são bancadas à distância pelos pais da vítima.
Mas um dia as coisas começam a melhorar para o filho da dona da pensão e
ele se esquiva de Pizarro, que se considera trapaceado. Os dois brigam,
trocam ameaças, até que um dia, ao meio-dia, Enriquito entra no quarto de
Pizarro armado com um revólver. Sua intenção é pregar-lhe um susto, não
matá-lo, mas, em meio à encenação, quando Enriquito aponta o cano da arma
para a cabeça de Pizarro, o revólver dispara acidentalmente. Que fazer? É
então que Enriquito, vivendo o pior de seus pesadelos, tem o único sinal de
inteligência de toda a sua vida. Sabe que, se fugir, sem mais nem menos, as
suspeitas logo recairão sobre ele. Sabe que se o assassinato de Pizarro for
apresentado sem nenhuma ornamentação, as suspeitas logo recairão sobre ele.
Precisa, portanto, revestir o crime com as roupagens de algo fantasioso e
inverossímil. Fecha a porta por dentro, põe a cadeira reforçando o travamento,
põe o revólver na mão do morto, tranca as janelas e, quando considera estar
bem armado todo o cenário para um suicídio, enfia-se no guarda-roupa e fica à
espera. Conhece a mãe e os demais pensionistas, que nessa hora comem ou
veem tevê na sala, e sabe, confia em que arrombarão a porta sem esperar pela
chegada da polícia. Com efeito, a porta é derrubada, e Enriquito, que nem se
dera o trabalho de fechar o guarda-roupa, se une tranquilamente ao restante
das pessoas da pensão, que contemplam horrorizadas o corpo de Pizarro. O
caso era muito simples, disse Romero, mas me acarretou uma fama imerecida
pela qual, depois, paguei muito caro.
Maior notoriedade ainda lhe deu a resolução do sequestro de Las Cármenes,
um sítio próximo a Rancagua, poucos meses antes do fim da democracia. O
caso foi protagonizado por Cristóbal Sánchez Grande, um dos empresários
mais ricos do país, que desapareceu supostamente em mãos de uma
organização esquerdista que para libertá-lo exigia uma quantia de dinheiro
exorbitante que devia ser paga pelo governo. Durante semanas a polícia não
sabia o que fazer. Romero, no comando de um dos três grupos operacionais
que procuravam por Sánchez Grande, considerou a possibilidade de que ele
tivesse forjado o próprio sequestro. Seguiram durante vários dias um jovem
do grupo Patria y Libertad, até que este, ingenuamente, levou-os ao sítio Las
Cármenes. Ali, enquanto metade de seus homens cercava a casa principal,
Romero dispôs os três que lhe restavam como atiradores e, com um revólver
em cada mão e acompanhado por um investigador muito jovem chamado
Contreras, que era o mais corajoso de todos, entrou na casa e capturou
Sánchez Grande. No embate que se seguiu, dois guarda-costas de Patria y
Libertad que protegiam o empresário foram mortos; Romero e um dos homens
que guardavam a parte de trás da casa ficaram feridos. Por essa ação, recebeu
a Medalha de Coragem das mãos de Allende, a maior satisfação profissional
de sua vida, uma vida repleta de amarguras, mais do que alegrias, segundo
suas próprias palavras.
Eu lembrava seu nome, é claro. Tinha sido uma celebridade. Costumava
aparecer nas páginas policiais dos jornais, antes ou depois das páginas de
esportes?, junto com os nomes de lugares que então considerávamos
ignominiosos (ainda não sabíamos o que era realmente a ignomínia), um
cenário do crime no Terceiro Mundo, nos anos 60 e 70: casas pobres, terrenos
baldios, casas de campo mal iluminadas. E tinha recebido a Medalha de
Coragem das mãos de Allende. A medalha eu perdi, disse ele com tristeza, e já
não tenho nenhuma foto que o comprove, mas me lembro como se fosse hoje
do dia em que me deram. Ainda parecia um policial.
Com o golpe, passou três anos na cadeia e depois se foi para Paris, onde
vivia à custa de trabalhos eventuais. Nunca me disse nada sobre a natureza
desses trabalhos, mas em seus primeiros anos em Paris havia feito de tudo,
desde colar cartazes até encerar pisos de escritórios, trabalho que se faz à
noite, quando os prédios estão fechados, e que possibilita pensar bastante. O
mistério dos edifícios de Paris. Assim ele chamava os prédios de escritórios,
quando é noite e todos os andares estão às escuras, menos um, e depois este
também se apaga e outro se acende, e depois este se apaga e assim
sucessivamente. Vez por outra, se o transeunte noturno ou o homem que
trabalhava colando cartazes se aquietasse durante algum tempo, podia ver uma
pessoa que aparecia na janela de um daqueles prédios vazios e permanecia ali
durante algum tempo, fumando ou contemplando a cidade com as mãos na
cintura. Era um homem ou uma mulher do serviço noturno de limpeza.
Romero era casado e tinha um filho, e planejava voltar para o Chile e
começar uma nova vida.
Quando lhe perguntei o que queria (mas já o deixara entrar na minha casa e
pusera água para ferver para tomarmos um chá), disse que buscava alguma
pista de Carlos Wieder. Bibiano O’Ryan tinha lhe passado meu endereço em
Barcelona. Conhece Bibiano? Ele disse que não o conhecia. Pelo menos não
pessoalmente. Escrevi-lhe uma carta, ele respondeu, depois falamos por
telefone. Bem típico de Bibiano, eu disse, e tentei calcular há quanto tempo
não o via: quase vinte anos. Seu amigo é uma boa pessoa, disse Romero, e
parece conhecer o senhor Wieder muito bem, mas acha que você o conhece
melhor ainda. Não é verdade, disse eu. Tem dinheiro nessa jogada, disse
Romero, se me ajudar a encontrá-lo. Ao dizer isso, olhava para a minha casa
como se pesasse a quantia exata necessária para me comprar. Raciocinei que
ele não se atreveria a continuar nessa trilha, por isso decidi ficar calado e
esperar. Servi-lhe o chá. Gostava de tomá-lo com leite, e parecia saboreá-lo.
Sentado à minha mesa, parecia bem menor e mais magro do que realmente era.
Posso lhe oferecer duzentas mil pesetas, disse. Aceito, mas em quê eu poderia
ajudar?
Em questões de poesia, disse ele. Wieder era poeta, eu era poeta, ele não
era poeta, logo, para encontrar um poeta ele precisava da ajuda de outro poeta.
Eu disse que para mim Carlos Wieder era um criminoso, não um poeta.
Bem, bem, disse Romero, não sejamos intolerantes, talvez para Wieder ou
para um outro qualquer você não seja um poeta ou seja um poeta ruim e ele ou
eles sim, tudo depende da lente com que se olha, como dizia Lope de Vega,
não acha? Duzentas mil redondas, imediatamente?, perguntei. Duzentas mil
pesetas na lata, disse ele com força, mas lembre-se de que a partir de agora
você trabalha para mim, e quero resultados. Quanto estão pagando para você?
Muito, disse ele, a pessoa que me contratou tem muita grana.
No dia seguinte, apareceu em casa com um envelope contendo cinquenta mil
pesetas e uma maleta cheia de revistas de literatura. O resto eu lhe dou quando
me passarem o dinheiro, disse. Perguntei por que ele achava que Carlos
Wieder estava vivo. Romero sorriu (tinha um sorriso de fuinha, de rato do
campo) e disse que seu cliente é que achava que ele estava vivo. E o que o
leva a acreditar que ele esteja na Europa e não na América ou na Austrália?
Formei para mim mesmo uma ideia desse homem, disse ele. Depois disso,
convidou-me a almoçar num restaurante da rua Tallers, onde eu morava (ele se
hospedara numa pensão discreta e decente da rua Hospital, a poucos metros de
minha casa), e a conversa enveredou pelos seus anos no Chile, pelo país de
que nós dois nos recordávamos, sobre a polícia chilena, que Romero (para o
meu espanto) situava entre as melhores do mundo. Você é um fanático e um
patrioteiro, disse eu enquanto comíamos a sobremesa. Garanto que não, disse,
nos meus tempos de Brigada não havia caso de assassinato que não fosse
solucionado. E os meninos que entravam para o setor de Investigações eram
dos mais preparados, com boas notas no curso de humanidades e mais três
anos de academia com excelentes professores. Lembro que o criminologista
González Zavala, que descanse em paz o doutor González Zavala, dizia que as
duas melhores polícias do mundo, pelo menos no que diz respeito ao
Departamento de Homicídios, eram a inglesa e a chilena. Não me faça rir, eu
disse.
Saímos dali às quatro da tarde, depois de comer e de esvaziar duas garrafas
de vinho. Vinho espanhol e estamos conversados, disse Romero, melhor que o
francês. Perguntei-lhe se tinha alguma coisa contra os franceses. Seu rosto
pareceu se ensombrecer, e ele disse que queria ir embora, só isso, já são
muitos anos.
Tomamos um café no bar Céntrico e falamos sobre Os miseráveis. Romero
considerava Jean Valjean, que depois virou Madeleine e mais tarde
Fauchelevent, um personagem comum, encontrável nas heterogêneas cidades
latino-americanas. Javert, ao contrário, lhe parecia excepcional. Esse homem,
disse ele, é como uma sessão de psicanálise. Não foi difícil perceber que
Romero nunca tinha passado por uma psicanálise, embora para ele essa
atividade carregasse em si todo o prestígio do mundo. Javert, o policial de
Victor Hugo, de quem se compadecia e a quem admirava, era para ele, nesse
sentido, um luxo, uma “comodidade de que só de vez em quando podemos
gozar ”. Perguntei-lhe se tinha visto o filme, um francês, bem antigo. Não,
disse ele; sei que existe um musical passando em Londres, mas também não vi,
deve ser uma espécie de La pérgola de las flores.* Como eu já disse, não me
lembrava de nada do romance, mas apenas que Javert comete suicídio. Tinha
minhas dúvidas. Talvez no filme ele não o fizesse. (Ao recordá-lo, vêm-me à
mente apenas duas imagens: as barricadas de 1832, agitadas por estudantes
revolucionários e por vagabundos, e a figura de Javert, depois de ser salvo
por Valjean, em pé na boca de uma galeria de águas, o olhar perdido no
horizonte e o som, como o de uma cachoeira, majestoso na verdade, do esgoto
caindo nas águas do Sena. Embora seja mais provável que eu esteja
confundindo ou misturando um filme com outro.) Hoje em dia, disse Romero
saboreando as últimas gotas de um carajillo,** pelo menos nos filmes norte-
americanos, os policiais só se divorciam. Javert, em vez disso, se suicida.
Percebe a diferença?
Depois subiu comigo os cinco andares até minha casa, abriu a maleta e
depositou as revistas em cima da mesa. Leia com calma, disse, que enquanto
isso farei um pouco de turismo. Que museus você me recomenda? Lembro de
ter lhe indicado vagamente como ir até o Museu Picasso e de lá até a Sagrada
Família, e então Romero partiu.
Voltei a vê-lo depois de três dias.
As revistas que ele deixara comigo eram todas europeias. Da Espanha, da
França, de Portugal, da Itália, da Inglaterra, da Suíça, da Alemanha. Havia
também uma da Polônia, duas da Romênia e uma da Rússia. A maioria eram
fanzines de pequena tiragem. Os tipos de impressão, à exceção de algumas
francesas, alemãs e italianas que se percebia serem mais profissionalizadas e
com suporte financeiro sólido, iam desde a fotocópia até o mimeógrafo (uma
das romenas) e o resultado saltava aos olhos, a qualidade defeituosa, o papel
barato e a diagramação malfeita expressavam uma literatura porca. Folheei
todas. Segundo Romero, em alguma delas teria de haver uma colaboração de
Wieder, com outro nome, é claro. Não eram revistas literárias de direita
comuns: quatro delas eram publicadas por grupos de skinheads, duas eram
publicações irregulares de torcidas de futebol, pelo menos sete dedicavam
mais da metade de suas páginas à ficção científica, três eram de clubes de
wargames, quatro se dedicavam ao ocultismo (duas italianas e duas
francesas), dentre elas uma (italiana) dedicada à adoração do diabo, pelo
menos quinze eram declaradamente nazistas, umas seis podiam se inscrever na
corrente pseudo-histórica do “revisionismo” (três francesas, duas italianas e
uma suíça de língua francesa), uma, a russa, era uma mistura caótica de tudo
isso, ao menos foi a essa conclusão que cheguei pelas caricaturas (em grande
número, como se de repente seus potenciais leitores russos tivessem virado
analfabetos, mas algo providencial para mim, que não sei russo), quase todas
eram racistas e antissemitas.
No segundo dia de leitura, comecei a me interessar de verdade. Morava
sozinho, não tinha dinheiro, minha saúde deixava bastante a desejar, não
publicava nada em lugar algum fazia um bom tempo, ultimamente nem sequer
escrevia. Meu destino me parecia miserável. Acho que tinha começado a me
acostumar com a autocompaixão. As revistas de Romero, todas reunidas sobre
minha mesa (decidi comer de pé na cozinha para não tirá-las dali), em pilhas
de acordo com a nacionalidade, as datas de publicação, a tendência política
ou o gênero literário em que trafegavam, provocaram em mim os efeitos de um
antídoto. No segundo dia de leitura, senti-me mal fisicamente mas logo percebi
que o mal-estar se devia à minha falta de sono e à alimentação ruim, por isso
decidi descer para a rua, comprar um pouco de queijo e depois dormir.
Quando acordei, seis horas depois, estava renovado e descansado e com
vontade de continuar a ler ou reler (ou adivinhar, conforme o idioma da
revista), cada vez mais envolvido na história de Wieder, que era a história de
alguma coisa a mais, embora, na ocasião, eu não soubesse do quê. Uma noite
cheguei até mesmo a sonhar com isso. Sonhei que estava em um grande barco
de madeira, talvez um galeão, e que íamos pelo Pacífico. Eu estava numa festa
na cobertura da popa e escrevia um poema, ou talvez uma página de um diário,
enquanto olhava o mar. Alguém, um velho, começava então a gritar um
tornado!, um tornado!, mas não a bordo do galeão e sim a bordo de um iate ou
de pé num molhe. Exatamente como uma cena de O bebê de Rosemary, de
Polanski. Nesse instante o galeão começava a afundar e todos os
sobreviventes acabaram como náufragos. No mar, eu conseguia ver Carlos
Wieder, flutuando agarrado a um barril de aguardente. Eu me aferrava a uma
tábua de madeira podre. Enquanto as ondas nos afastavam, eu compreendia
que Carlos Wieder e eu tínhamos viajado no mesmo barco, só que ele tinha
contribuído para afundá-lo e eu não tinha feito nada, ou quase nada, para evitá-
lo. Por isso, quando Romero voltou, depois de três dias, recebi-o quase como
a um amigo.
Não tinha ido ao Museu Picasso nem à Sagrada Família, mas visitara o
museu do Camp Nou e o novo aquário. Nunca na minha vida, disse ele, tinha
visto um tubarão tão de perto, uma coisa impressionante, eu juro. Quando
perguntei sua opinião sobre o Camp Nou, ele disse que sempre achou que
aquele era o melhor estádio da Europa. Pena que o Barcelona perdeu no ano
passado para o Paris Saint-Germain. Romero, não vá me dizer que você é
culé. Não conhecia a palavra. Expliquei o que significava, e ele a achou
engraçada.*** Durante algum tempo permaneceu como que ausente. Sou um
culé transitório, disse. Na Europa gosto do Barcelona, mas no fundo meu
coração é do Colo-Colo. Que se pode fazer, acrescentou com tristeza e
orgulho.
Naquela tarde, depois de almoçarmos juntos num boteco da Barceloneta, ele
me perguntou se tinha lido as revistas. Estou mergulhado nisso, eu disse. No
dia seguinte, apareceu com uma televisão e um aparelho de vídeo. São para
você, faça de conta que é um presente do meu cliente. Não assisto tevê, eu
disse. Pois faz muito mal, não sabe quanta coisa interessante está perdendo.
Odeio os concursos, expliquei. Alguns são muito interessantes, disse Romero.
São pessoas simples, autodidatas enfrentando todo mundo. Lembrei-me de
que, nos seus velhos tempos de Concepción, Wieder era ou fingia ser um
autodidata. Eu leio livros, Romero, disse, e agora revistas, e às vezes escrevo.
Dá para perceber, observou Romero, e logo acrescentou: não me leve a mal,
sempre respeitei os padres e os escritores que não têm nada. Lembro de um
filme com Paul Newman, disse ele, era um escritor, deram-lhe o prêmio Nobel
e o homem admitiu que durante todos aqueles anos tinha ganho a vida
escrevendo sob pseudônimo romances policiais. Respeito esse tipo de
escritor, disse ele. Não deve ter conhecido muitos, disse eu, debochando.
Romero não notou. Você é o primeiro, disse. Depois me contou que não seria
conveniente instalar a tevê na pensão onde ele morava e que eu precisava ver
três vídeos que ele tinha trazido. Acho que dei uma risada, de puro medo.
Exclamei: não vá me dizer que Wieder aparece aí. Nos três filmes, sim senhor,
disse Romero.
Instalamos a tevê, e antes de ligar o vídeo Romero tentou ver se conseguia
captar algum canal, mas foi impossível. Vai ter de comprar uma antena, disse.
Em seguida, pôs a primeira fita de vídeo. Não me levantei do meu lugar na
mesa, ao lado das revistas. Romero se sentou na única poltrona da sala.
Eram filmes pornográficos de orçamento barato. Na metade do primeiro
(Romero trouxera uma garrafa de uísque e via o filme bebendo pequenos
goles), confessei-lhe que eu seria incapaz de ver três filmes pornôs seguidos.
Romero esperou pelo fim e depois desligou o vídeo. Veja-os esta noite,
sozinho, sem pressa, disse ele, guardando a garrafa de uísque num canto
qualquer da cozinha. Tenho de reconhecer Wieder entre os atores?, perguntei,
antes que ele se fosse. Romero sorriu enigmaticamente. O importante são as
revistas, os filmes são uma ideia minha, trabalho rotineiro.
Naquela noite vi os dois filmes que faltavam, depois vi o primeiro de novo
e voltei a ver os outros dois. Wieder não aparecia em nenhum deles. Nem
Romero voltou a aparecer no dia seguinte. Considerei que a coisa dos filmes
era uma brincadeira de Romero. A presença de Wieder entre as paredes de
minha casa, porém, fazia-se cada vez mais intensa, como se os filmes, de
alguma forma, o estivessem conjurando. Não precisa exagerar, disse-me
Romero numa ocasião. Mas eu sentia que minha vida estava indo por água
abaixo.
Quando Romero voltou, vestia um terno novo, recém-comprado, e me trazia
um presente. Desejei ardentemente que não fosse alguma coisa de vestir. Abri
o pacote: era um romance de García Márquez — que eu já havia lido, mas não
disse nada — e um par de sapatos. Experimente, disse ele, espero que o
tamanho esteja certo, os sapatos espanhóis são muito admirados na França.
Surpreso, constatei que os sapatos me serviam perfeitamente.
Explique-me esse enigma dos filmes pornográficos, pedi. Não percebeu
nada estranho, fora do normal, alguma coisa que tenha chamado sua atenção?,
perguntou Romero. Por sua expressão, percebi que os filmes, as revistas, tudo
aquilo, com exceção talvez de sua planejada volta, com a família, para o
Chile, não tinha a menor importância para ele. A única coisa que tenho a
registrar é que estou cada dia mais obcecado com a besta do Wieder, eu disse.
E isso é bom ou ruim? Não brinque, disse eu. Bem, vou lhe contar uma
história, disse Romero, o tenente está em todos esses filmes, só que por trás
das câmeras. Wieder é o diretor desses filmes? Não, disse Romero, é o
fotógrafo.
Contou-me então a história de um grupo que fazia cinema pornô numa casa
de campo no golfo de Tarento. Uma manhã, e isso já fazia dois anos,
apareceram todos mortos. Eram, no total, seis pessoas: três atrizes, dois atores
e o câmera. Suspeitou-se do diretor e produtor, que foi detido. Também
prenderam o dono da casa, um advogado de Corigliano ligado ao hard-core do
crime, ou seja, a filmes pornôs que continham crimes não simulados. Como
todos apresentaram algum álibi, foram postos em liberdade. Depois de algum
tempo o caso foi arquivado. Onde Carlos Wieder entrava na história? Havia
outro câmera. Um tal R. P. English. E a polícia italiana nunca conseguiu
localizá-lo.
English era Wieder? Quando começou sua investigação, Romero achava que
sim, e durante algum tempo percorreu a Itália em busca de pessoas que
tivessem conhecido English, às quais exibia uma velha foto de Wieder (aquele
em que ele posa junto a um avião), mas não encontrou ninguém que se
lembrasse do câmera, como se ele não tivesse existido ou não tivesse um rosto
para ser lembrado. Por fim, numa clínica de Nimes, encontrou uma atriz que
havia trabalhado com English e que se lembrava de como ele era. A atriz se
chamava Joanna Silvestri e era uma preciosidade, disse Romero, a mulher
mais bonita, eu juro, que vi em toda a minha vida. Mais bonita que sua
esposa?, perguntei para provocá-lo um pouco. Rapaz, minha mulher já está um
pouco passada e não conta, disse Romero. E eu também, acrescentou quase em
seguida. O fato é que aquela era a mulher mais bonita que já tinha visto.
Falando com mais precisão: a mais bem formada. Uma mulher de se tirar o
chapéu, pode acreditar. Perguntei-lhe como ela era. Loira, alta, com um olhar
que fazia você voltar à infância. Um olhar aveludado, com lampejos de tristeza
e determinação. Além disso tinha ossos esplendorosos e uma pele muito
branca, com aquele tom oliva que se vê em abundância no Mediterrâneo. Uma
mulher de sonhar acordado, mas também para viver junto e compartilhar
dificuldades e maus momentos. Prova disso, disse Romero, eram seus ossos,
sua pele, seu olhar sábio. Nunca a vi de pé, mas imagino que seria como uma
rainha. A clínica não era de luxo, mas tinha um pequeno jardim que à tarde
ficava cheio de pacientes, em sua maioria franceses e italianos. Da última vez,
que foi quando ficamos mais tempo juntos, convidei-a a descer (talvez com
medo de que se irritasse comigo estando a sós no quarto). Disse-me que não
podia. Falávamos em francês, mas de vez em quando ela intercalava algumas
expressões em italiano. Isso ela me disse em italiano, meu amigo, olhando-me
bem nos olhos, e eu me senti o homem mais impotente ou fodido ou
desgraçado do mundo. Não sei como explicar: teria chorado ali mesmo. Mas
me controlei e tratei de continuar conversando sobre coisas que se
relacionavam ao assunto que me levara até ali. Ela achava graça no fato de eu
ser chileno e de estar atrás do tal English. O detetive chileno, dizia ela,
sorrindo. Parecia uma gata, na cama, com os braços cruzados e vários
travesseiros nas costas. A forma de suas pernas sob as cobertas já era, em si,
como que um milagre: mas não desses milagres que o deixam confuso, e sim
desses que passam como o vento, deixando-o tranquilo, mais tranquilo que
antes, quero dizer. Nossa, como era linda, disse Romero de repente. Estava
doente? Estava morrendo, disse Romero, e mais solitária que uma cadela, pelo
menos foi essa a terrível conclusão a que cheguei depois das duas tardes que
passei na clínica, e, apesar de tudo, mantinha-se serena e lúcida. Gostava de
falar, percebia-se que ficava animada com as visitas (não devia ter muitas,
embora na verdade eu não saiba direito), estava sempre lendo ou escrevendo
cartas ou vendo televisão com fones de ouvido. Lia revistas de atualidades,
revistas femininas. Seu quarto estava sempre bem-arrumado e cheirava bem.
Ela e o quarto. Suponho que passava uma escova no cabelo e água de colônia
ou perfume no pescoço e nas mãos antes de receber as visitas. É o que
imagino. A última vez em que a vi, antes de nos despedirmos, ligou a tevê e
procurou um canal italiano em que passava não sei o quê. Temi que fosse um
filme dela. Juro que aí é que eu não saberia o que fazer e que minha vida
inteira teria dado uma virada. Mas era um programa de entrevistas em que
aparecia um velho amigo dela. Apertei sua mão e fui embora. Ao chegar à
porta, não consegui me segurar e voltei a olhá-la. Já tinha encaixado os fones
nas orelhas e exibia, veja que curioso, um aspecto marcial, não sei classificar
de outro modo, como se o quarto da paciente fosse uma sala de comando de
uma nave espacial e ela a dirigisse com mão firme. No fim das contas, o que
aconteceu?, perguntei, já sem vontade de gozar de Romero. Não aconteceu
nada, ela lembrava de English e o descreveu muito bem, mas essa descrição
corresponde a milhares de pessoas na Europa, e não conseguiu reconhecê-lo
na velha foto de aviador, é lógico, são mais de vinte anos passados, meu
amigo. Não, eu disse, pergunto o que aconteceu com Joanna Silvestri. Morreu,
disse Romero. Quando? Alguns meses depois que a vi, li a notícia em Paris,
na seção de mortes do Libération. E nunca viu um filme dela?, perguntei. De
Joanna Silvestri? Não, rapaz, como é que você pode pensar uma coisa dessas,
nunca. Nem mesmo por curiosidade? Nem pensar, sou um homem casado e
meio velhinho, disse Romero.
Naquela noite, foi minha vez de convidá-lo para jantar. Comemos na rua
Riera, em um restaurante barato e familiar, e depois ficamos caminhando à toa
pelo bairro. Ao passar por uma videolocadora aberta, disse a Romero que me
seguisse. Não está pensando em alugar um vídeo dela, ouvia sua voz às minhas
costas. Não confio na sua descrição, quero ver como era o rosto dela. Os
filmes pornôs ocupavam três estantes ao fundo. Acho que só uma vez eu havia
entrado numa videolocadora. Fazia tempo que não me sentia tão bem, embora
estivesse fervendo por dentro. Romero procurou durante algum tempo. Via-o
passar as mãos, mãos escuras e nodosas, pelas capas dos vídeos, e só isso já
fazia com que me sentisse bem. É esta, disse. Tinha razão, era uma mulher
muito bonita. Quando saímos, dei-me conta de que a videolocadora era a única
loja do bairro que ainda estava aberta.
No dia seguinte, quando Romero passou em casa, eu lhe disse que achava
ter identificado Carlos Wieder. Se voltasse a vê-lo, conseguiria reconhecê-lo?
Não sei, respondi.

* Clássica comédia musical chilena de 1960. (N. T.)


** Café com licor, geralmente de anis. (N. T.)
*** Culé é como são chamados na gíria os torcedores do Futebol Clube Barcelona. (N. T.)
9.

Esta é a minha última transmissão a partir do planeta dos monstros. Não


mergulharei nunca mais no mar de merda da literatura. De agora em diante,
escreverei meus poemas com humildade e trabalharei para não morrer de fome
e não tentarei publicar nada.
Da coleção de revistas que fui amontoando em minha mesa, duas me
chamaram mais a atenção. Com as outras era possível compor uma
amostragem variada de psicopatas e esquizofrênicos, mas só essas duas tinham
o elã, a singularidade de empreendimento que atraía Carlos Wieder. Ambas
eram francesas: o primeiro número da Gazeta Literária de Evreaux e o
número 3 da Revista dos Vigias Noturnos de Arras. Nas duas encontrei um
texto crítico de um tal de Jules Defoe, embora a Gazeta adotasse a forma,
meramente circunstancial, do verso. Mas primeiro preciso falar de Raoul
Delorme e da seita dos escritores bárbaros.
Nascido em 1935, Raoul Delorme foi soldado e vendedor na central de
abastecimento antes de conseguir um posto fixo (e mais adequado para uma
leve doença nas vértebras contraída na Legião) de zelador de um edifício no
centro de Paris. Em 1968, enquanto os estudantes erguiam barricadas e os
futuros romancistas da França quebravam com tijolos as janelas de suas
escolas ou faziam amor pela primeira vez, ele decidiu fundar a seita ou o
movimento dos Escritores Bárbaros. Assim, enquanto alguns intelectuais
saíam de suas casas para ocupar as ruas, o ex-legionário se fechou em seu
cubículo de zelador da rue Des Eaux e começou a dar forma à sua nova
literatura. A aprendizagem se fazia em dois passos aparentemente simples. O
confinamento e a leitura. Para a primeira etapa era preciso comprar comida
suficiente para uma semana, ou então ficar em jejum. Também se devia, para
evitar visitas inoportunas, avisar as pessoas que não se estava disponível para
nada ou que se tinha saído uma semana em viagem ou contraído alguma doença
contagiosa. O segundo passo era mais complicado. Segundo Delorme, era
preciso se fundir com as obras-primas. Isso se obtinha de uma forma bastante
curiosa: defecando sobre as páginas de Stendhal, assoando o nariz com as
páginas de Victor Hugo, masturbando-se e espalhando o esperma sobre as
páginas de Gautier ou Banville, vomitando nas páginas de Daudet, urinando
sobre as páginas de Lamartine, cortando-se com lâminas de barbear e fazendo
respingar o sangue nas páginas de Balzac ou Maupassant, submetendo os
livros, enfim, a um processo de degradação que Delorme chamava de
humanização. O resultado, depois de uma semana de ritual bárbaro, era um
apartamento ou um quarto cheio de livros destroçados, sujeira e mau cheiro
onde o aprendiz de escritor se punha a boquear relaxadamente, nu ou de shorts,
sujo e convulso como um recém-nascido ou, mais precisamente, como o
primeiro peixe a ter decidido dar um salto e viver fora da água. Segundo
Delorme, o escritor bárbaro saía fortalecido da experiência e, o que
realmente importava, com certa formação na arte da escrita, uma sabedoria
adquirida mediante a “aproximação real”, a “assimilação real” (como dizia
Delorme) dos clássicos, uma aproximação corporal que rompia com todas as
barreiras impostas pela cultura, a academia e a técnica.
Não se sabe como, mas não demorou a reunir alguns seguidores. Era gente
como ele, sem estudo e de condição social inferior. A partir de maio de 68,
trancavam-se duas vezes por ano, sozinhos ou em grupos de duas, três, até
quatro pessoas, em espeluncas minúsculas, cubículos de zeladores, quartos de
hotel, casinhas de subúrbio, fundos de lojas ou de armazéns e preparavam o
advento da nova literatura, uma literatura que poderia ser de todos, segundo
Delorme, mas que na prática seria apenas daqueles que fossem capazes de
atravessar a ponte de fogo. Enquanto isso, contentavam-se em publicar
fanzines que eles mesmos vendiam em barraquinhas mambembes em qualquer
espaço improvisado nas inúmeras feirinhas de livros usados e revistas que
pipocavam nas ruas e praças da França. A maioria dos bárbaros, obviamente,
era composta de poetas, embora alguns escrevessem contos e outros se
arriscassem com pequenas peças de teatro. Suas revistas tinham nomes
anódinos ou fantasiosos (a Gazeta Literária de Evreaux trazia uma lista das
publicações do movimento): Mares interiores, Boletim Literário Provençal,
Revista das Artes e das Letras de Toulon, Nova Escola Literária etc. A
Revista dos Vigias Noturnos de Arras (publicada, efetivamente, por uma
organização de vigias noturnos de Arras) trazia uma antologia bárbara
bastante ilustrativa e minuciosa; com o título “Quando a paixão se torna
profissão”, apareciam poemas de Delorme, Sabrina Martin, Ilse Kraunitz, M.
Poul, Antoine Dubacq e Antoine Madrid; cada um estava representado por um
poema, à exceção de Delorme e de Dubacq, com três e dois poemas
respectivamente. Como para enfatizar o nível de paixão dos poetas, sob seus
nomes e ao lado de fotos curiosas do tipo 3 5 4, entre parênteses, informava-se
ao leitor sua ocupação cotidiana e, assim, ficava-se sabendo que Kraunitz era
auxiliar de enfermagem numa clínica geriátrica de Estrasburgo, que Sabrina
Martin prestava serviços domésticos em várias casas de Paris, que M. Poul
era açougueiro e que Antoine Madrid e Antoine Dubacq ganhavam seus
francos como jornaleiros, ambos no mesmo bulevar no centro parisiense. As
fotos de Delorme e de sua turma tinham alguma coisa que chamava a atenção
imperceptivelmente: em primeiro lugar, todos olhavam fixo para a câmera e
portanto para os olhos do leitor, como se estivessem envolvidos numa
tentativa infantil (ou pelo menos vã) de hipnose; em segundo, todos, sem
exceção, pareciam autoconfiantes e seguros, principalmente seguros, no
extremo oposto do ridículo e da hesitação, coisa que, pensando bem, talvez
não fosse incomum em se tratando de literatos franceses. A diferença de idade
era visível, o que excluía a hipótese de uma afinidade geracional entre os
escritores bárbaros. Entre Delorme, que completara (embora não parecesse)
sessenta anos, e Antoine Madrid, que certamente ainda não chegara aos vinte e
dois, encaixavam-se pelo menos duas gerações. Os textos, tanto numa revista
como na outra, eram precedidos de uma “História da Escrita Bárbara”, de um
certo Xavier Rouberg, e por uma espécie de manifesto do próprio Delorme
intitulado “A paixão de escrever ”. Nos dois, informava-se, com pedantismo e
indelicadeza no texto de Delorme, mas, surpreendentemente, com agilidade e
elegância no de Rouberg (a quem uma pequena nota biográfica, provavelmente
escrita por ele mesmo, apresentava como ex-surrealista, ex-comunista, ex-
fascista, autor de um livro sobre “seu amigo” Salvador Dalí intitulado Dalí
contra e a favor da Ópera do Mundo, e atualmente aposentado em Poitou),
sobre as origens da escrita bárbara e alguns marcos que balizaram sua
subterrânea e nem sempre tranquila trajetória. Não fossem as notas de Rouberg
e Delorme, seria fácil tomá-los como participantes ativos (ou, talvez, mais
voluntariosos que ativos) de uma oficina literária de algum bairro operário da
periferia. Seus rostos eram vulgares: Sabrina Martin parecia rondar os trinta
anos e a tristeza, Antoine Madrid tinha um arzinho meio convencido,
reservado e discreto, daqueles que costumam manter distância, Antoine
Dubacq era calvo, míope e quarentão, Kraunitz, por trás da aparência de
participante de oficinas com idade indefinida, parecia ocultar uma quantidade
enorme de energia instável, M. Poul era uma caveira, com o rosto fusiforme,
cabelo escovinha, nariz comprido e ossudo, orelhas grudadas no crânio, o
pomo de adão pronunciado, uns cinquenta anos, e Delorme, o líder, parecia
exatamente o que era, um ex-legionário e um sujeito com muita energia. (Mas
como pôde ocorrer a esse homem que profanando livros seria possível
melhorar o francês falado e escrito? Em que momento de sua vida ele definiu
as linhas mestras de seu ritual ?) Ao lado dos textos de Rouberg (a quem o
editor da Revista dos Vigias Noturnos de Arras chamava de João Batista do
novo movimento literário), encontravam-se os textos de Jules Defoe. Na
Revista era um ensaio e na Gazeta, um poema. O primeiro pregava, em um
estilo entrecortado e selvagem, uma literatura escrita por gente alheia à
literatura (assim como a política, tal como vinha acontecendo e o autor se
regozijava com isso, devia ser feita por gente alheia à política). A revolução
ainda pendente da literatura, afirmava Defoe, significará, de alguma forma, sua
própria abolição. Quando a Poesia for feita por não poetas e lida por não
leitores. Qualquer um poderia ter escrito isso, pensei, inclusive o próprio
Rouberg (mas seu estilo era o oposto, Rouberg, notava-se, era velho, era
irônico, era venenoso, fora antes elegante, era europeu, a literatura, para ele,
tinha a forma de um rio navegável, com um leito acidentado, sem dúvida, mas
um rio e não um furacão contemplado à distância na Terra imensa) ou o
próprio Delorme (supondo-se que este, depois de estripar centenas de livros
da literatura francesa do século xix, aprendesse finalmente a escrever em
prosa, o que era esperar demais), qualquer um que tivesse ganas de acabar
com o mundo, mas tive o pressentimento de que aquele líder do ex-porteiro
parisiense era Carlos Wieder.
Sobre o poema (um poema narrativo que me fez lembrar, Deus me perdoe,
trechos do diário poético de John Cage misturados com versos que soavam a
Julián del Casal ou Magallanes Moure traduzidos para o francês por um
japonês enfurecido), não há muito o que dizer. Era o humor de Carlos Wieder
em fase terminal. Era a seriedade de Carlos Wieder.
10.

Só voltei a ver Romero dois meses mais tarde.


Quando regressou a Barcelona, estava mais magro. Localizei Jules Defoe,
disse ele. Esteve o tempo todo por aqui ao lado, junto a nós, disse. Parece
mentira, não é? O sorriso de Romero me assustou.
Estava mais magro e parecia um cachorro. Vamos, ordenou, na mesma tarde
em que chegara. Deixou a maleta em minha casa e, antes de sair, certificou-se
de ter trancado a porta a chave. Não esperava que tudo fosse tão rápido,
consegui dizer. Romero me olhou do corredor e disse prepare-se, temos de
fazer uma pequena viagem, eu lhe conto no caminho. Nós o encontramos
mesmo?, perguntei. Não sei por que usei o plural. Encontramos Jules Defoe,
disse ele, movendo a cabeça num gesto ambíguo que podia significar muitas
coisas. Segui-o como um sonâmbulo.
Acho que fazia meses, talvez anos, que não saía de Barcelona, e a estação
da Plaza Cataluña (a poucos metros de minha casa) me pareceu totalmente
estranha, iluminada, cheia de novas engenhocas cuja utilidade me escapava.
Seria incapaz de me virar sozinho com a excelência e a rapidez com que
Romero o fazia, e ele se deu conta disso ou imaginou antecipadamente minha
previsível falta de jeito como viajante e se encarregou de me abrir a passagem
pelas máquinas que vedavam o acesso às plataformas. Em seguida, depois de
aguardar alguns minutos em silêncio, pegamos um trem interurbano e
costeamos o Maresme até o começo da Costa Brava, Blanes, passando o rio
Tordera. Enquanto saíamos de Barcelona, perguntei-lhe quem o estava
pagando. Um compatriota, disse Romero. Passamos por duas estações de
metrô e logo chegamos ao subúrbio. De repente apareceu o mar. Um sol fraco
iluminava as praias que se sucediam como contas de um colar fora de qualquer
pescoço, suspenso no vazio. Um compatriota? E qual é o interesse dele nisso
tudo? Melhor você não saber, disse Romero, mas imagine. Paga muito? (Se
paga muito, pensei, é porque o resultado final desta investigação só pode ser
um.) Bastante. É um compatriota que enriqueceu muito nos últimos anos,
suspirou, mas não no exterior e sim no Chile mesmo, veja o que é a vida,
parece que há muita gente no Chile ficando rica. Foi o que ouvi, disse eu num
tom que pretendia ser sarcástico mas que foi apenas triste. E o que você fará
com o dinheiro? Continua pensando em voltar? Sim, vou voltar, disse Romero.
Depois de algum tempo, acrescentou: tenho um plano, um negócio que não tem
como falhar, estudei-o em Paris e não pode falhar. E que plano é esse?,
perguntei. Um negócio, disse ele. Vou abrir meu próprio negócio. Pela janela
do trem vi uma casa muito bonita, de arquitetura modernista, com uma alta
palmeira no jardim. Serei empresário no setor de serviços fúnebres, disse
Romero, começarei com uma coisa bem pequena, mas acredito que posso
crescer. Achei que ele estava brincando. Está tirando um sarro da minha cara,
eu disse. Estou falando sério: o segredo está em proporcionar um enterro
digno às pessoas de poucos recursos, inclusive com alguma elegância (nisso
os franceses, acredite, são campeões), um funeral de burgueses para a pequena
burguesia e um funeral de pequenos-burgueses para o proletariado, esse é o
segredo de tudo, não só das empresas funerárias, mas da vida em geral! Tratar
bem os parentes, explicou depois, fazê-los perceber a cordialidade, a classe e
a superioridade moral de qualquer presunto. No começo, disse ele quando o
trem deixou Barcelona para trás e eu comecei a achar que o que iríamos fazer
era de verdade, era inexorável, eu me viro com três salas bem organizadas,
uma para a oficina e para retocar os cadáveres, outra para servir de velório e
a última como sala de espera, com cadeiras e cinzeiros. O ideal seria alugar
um sobrado perto do centro, a parte de cima para morar e embaixo para a
funerária. Seria um negócio familiar, minha esposa e meu filho podem me dar
uma mãozinha (embora no caso de meu filho eu não esteja tão seguro), mas
também conviria contratar uma secretária, jovem e discreta, além de
trabalhadora, você sabe o quanto faz bem num velório ou num enterro a
proximidade física da juventude. Logicamente, a cada dois em três casos o
empresário precisa sair (ou, na sua ausência, qualquer auxiliar) oferecendo
aguardente ou outra bebida qualquer aos familiares e amigos do defunto. Isso
tem de ser feito com simpatia e delicadeza. Sem atuar como se o morto fosse
também um parente seu, mas deixando claro que o processo todo não é alheio
à sua própria experiência. Deve-se falar à meia-voz, deve-se evitar os
exageros, deve-se dar a mão e com a esquerda apertar o cotovelo, deve-se
saber a quem abraçar e em qual momento, deve-se mediar as discussões,
sejam sobre política, futebol, sobre a vida de modo geral ou sobre os sete
pecados capitais, mas sem tomar partido, como um bom juiz aposentado. Nos
caixões, o lucro pode chegar a trezentos por cento. Tenho um colega dos
tempos de Brigada em Santiago que fabrica cadeiras. Falei com ele ao
telefone sobre o assunto outro dia e ele disse que é muito fácil passar das
cadeiras para os caixões. Com um furgãozinho preto eu me arranjo no primeiro
ano. O trabalho, não resta nenhuma dúvida, mais do que suor, exige saber lidar
com gente. E se a pessoa viveu tantos anos no exterior e tem coisas para
contar... No Chile se dá muita importância a isso.
Mas eu já não ouvia o que Romero dizia. Pensava em Bibiano O’Ryan, na
Gorda Posadas, no mar que estava diante do meu nariz. Por um momento
imaginei a Gorda trabalhando em um hospital de Concepción, casada,
razoavelmente feliz. Tinha sido, contra sua vontade, confidente do diabo, mas
estava viva. Imaginei-a até mesmo com filhos e transformada numa leitora
prudente e equilibrada. Depois enxerguei Bibiano O’Ryan, que ficou no Chile
e acompanhou os passos de Wieder, vi-o trabalhando na sapataria, enfiando os
pés de meninos indefesos ou de mulheres de meia-idade indecisas em sapatos
de salto, a calçadeira numa das mãos e uma caixa de sapatos baratos Bata na
outra, sorrindo mas com a cabeça em outro lugar, até os trinta e três anos,
como Jesus, nem mais nem menos, e depois o enxerguei publicando livros de
sucesso e autografando exemplares na Feira do Livro de Santiago (que não sei
se existe) e passando temporadas como professor convidado de universidades
norte-americanas, dissertando, num acesso de frivolidade, sobre a nova poesia
chilena ou sobre a atual poesia chilena (digo frivolidade porque o certo seria
falar sobre os romances) e mencionando-me, ainda que entre os últimos da
lista, por pura lealdade ou por pura piedade: um poeta extraordinário, perdido
nas fábricas da Europa...; vi-o, como dizia, avançando como um xerpa rumo ao
topo de sua carreira, cada vez mais respeitado, cada vez mais conhecido e
cada vez com mais dinheiro, na situação ideal para ajustar as contas com o
passado. Não sei se foi um ataque de melancolia, de nostalgia ou de inveja
saudável (algo que no Chile, de resto, é sinônimo da inveja mais cruel), mas
por um momento considerei que Bibiano podia estar por trás de Romero.
Disse isso a ele. Seu amigo não me contratou, disse Romero, não teria
dinheiro nem para que eu pudesse começar. Meu cliente, diminuiu a voz para
lhe conferir um tom confidencial que no entanto soava falso, tem dinheiro
mesmo, entende? Sim, eu disse, como é triste a literatura. Romero sorriu. Veja
o mar, disse ele, veja o campo, que lindos. Olhei pela janela, de um lado o
mar parecia uma imensa poça de azeite, do outro, nas plantações do Maresme,
gente trabalhava.
O trem parou em Blanes. Romero disse alguma coisa que não entendi e
descemos. Sentia as pernas como que adormecidas. Do lado de fora da
estação, numa pequena praça quadrada mas que parecia redonda, havia dois
ônibus estacionados, um vermelho e um amarelo. Romero comprou chicletes e,
ao observar meu semblante murcho, suponho que para me animar me perguntou
qual dos dois ônibus eu achava que iríamos pegar. O vermelho, eu disse.
Acertou, disse Romero.
O ônibus nos deixou em Lloret. Estávamos bem na metade de uma
primavera seca e não se viam muitos turistas. Descemos uma ladeira e depois
subimos por duas ruas íngremes rumo a um bairro de apartamentos de
veraneio, a maioria desocupada. Havia um silêncio estranho: ouviam-se, ao
longe, sons de animais, como se estivéssemos próximos de algum pasto para
cavalos ou uma granja. Num daqueles prédios sem graça morava Carlos
Wieder.
Como cheguei até aqui?, pensei. Por quantas ruas tive de caminhar para
chegar até esta rua?
No trem, perguntei a Romero se havia sido muito difícil localizar Delorme.
Ele disse que não, que tinha sido simples. Ainda trabalhava em Paris, como
porteiro, e para ele todas as visitas eram uma fonte de publicidade. Fingi que
era jornalista, disse Romero. E ele acreditou? Claro que acreditou. Disse a ele
que ia publicar em um jornal da Colômbia a história completa dos escritores
bárbaros. Delorme esteve em Lloret no verão passado, disse. Na verdade, o
apartamento ocupado por Defoe é de um dos escritores do movimento. Pobre
Defoe, eu disse. Romero me olhou como se eu tivesse acabado de falar uma
besteira. Não tenho pena dessa gente, disse ele. Agora o prédio estava ali: era
alto, amplo, vulgar, a típica construção dos anos de crescimento turístico, com
varandas vazias e uma fachada anônima e descuidada. Certamente ninguém
morava ali, concluí, náufragos do último verão e pouco mais que isso. Insisti
em saber o que aconteceria com Wieder. Romero não respondeu. Não quero
sangue, sussurrei, como se alguém pudesse me ouvir, sendo que nós éramos as
únicas pessoas naquela rua. Nesse momento, evitava olhar para Romero e para
o prédio de Wieder e me sentia como num pesadelo recorrente. Quando
acordar, pensei, minha mãe vai me preparar um sanduíche de mortadela e eu
irei para a escola. Mas eu não ia acordar. Ele mora aqui, disse Romero. O
prédio e o bairro inteiro estavam vazios, à espera do começo da próxima
temporada turística. Por um instante pensei que fôssemos entrar e fiz um gesto
de me deter, de cruzar o saguão de entrada da casa de Wieder. Continue
andando, disse Romero. Sua voz soava tranquila, como a voz de um homem
que sabe que a vida sempre acaba mal e que não vale a pena se exaltar. Senti
que sua mão roçava meu cotovelo. Siga em frente, disse ele, sem olhar para
trás. Imagino que formávamos uma dupla esquisita.
O prédio se assemelhava a um pássaro fossilizado. Por um instante tive a
sensação de que os olhos de Carlos Wieder me encaravam de todas as janelas.
Estou cada vez mais nervoso, disse a Romero, dá para perceber? Não, meu
amigo, disse Romero, está se comportando muito bem. Romero estava
tranquilo e isso ajudou a que me acalmasse. Paramos algumas ruas adiante, na
frente de um bar. Parecia ser o único estabelecimento aberto no bairro. O bar
tinha um nome andaluz e seu interior procurava reproduzir, mais com
melancolia do que com eficiência, o ambiente típico de uma taberna sevilhana.
Romero me acompanhou até a porta. Olhou para o seu relógio. Daqui a pouco,
não sei bem quanto tempo, ele vai aparecer aqui para tomar um café. E se não
vier? Ele vem todos os dias, disse Romero, isso é certo, e hoje virá. Mas e se
ele hoje faltar? Nesse caso faremos tudo de novo amanhã, disse Romero, mas
ele virá, não há dúvida. Assenti com a cabeça. Observe-o com atenção e
depois me diga. Fique sentado aí e não se mexa. Vai ser difícil não me mexer,
eu disse. Tente. Sorri para ele: só estava brincando, expliquei. Devem ser os
nervos, disse Romero. Volto para pegá-lo quando escurecer. Meio
estupidamente, trocamos um forte aperto de mão. Trouxe algum livro para ler?
Sim, eu disse. Qual livro? Mostrei-o. Não sei se é uma boa ideia, disse
Romero, subitamente indeciso. Seria melhor uma revista ou o jornal. Não se
preocupe, eu disse, é um escritor de que gosto muito. Romero me olhou pela
última vez e disse: até mais tarde, então, e não esqueça que se passaram vinte
anos.
Pelas vidraças do bar podiam-se ver o mar e o céu bastante azul e alguns
poucos barcos com pescadores trabalhando perto da costa. Pedi um café com
leite e tentei me acalmar: o coração parecia querer pular para fora do corpo.
O bar estava quase vazio. Uma mulher lia uma revista sentada a uma mesa e
dois homens conversavam ou discutiam com o atendente do balcão. Abri o
livro, as Obras completas de Bruno Schulz traduzidas por Juan Carlos Vidal,
e tentei começar a ler. Depois de várias páginas me dei conta de que não
entendia nada. Lia, mas as palavras passavam pelos meus olhos como
escaravelhos incompreensíveis, atarefados, num mundo enigmático. Voltei a
pensar em Bibiano e na Gorda. Não queria pensar nas irmãs Garmendia, já tão
distantes, nem nas outras mulheres, mas também pensei nelas.
Ninguém entrava no bar, ninguém se movia, o tempo parecia ter parado.
Comecei a me sentir mal: no mar, os barcos de pesca se transformaram em
veleiros (portanto, raciocinei, deve estar ventando), a linha da costa estava
cinzenta e uniforme, e muito de vez em quando eu via alguém caminhando ou
alguns ciclistas que optavam por pedalar pela grande calçada deserta.
Calculei que, a pé, eu levaria cinco minutos para chegar à praia. O caminho
era todo em declive.
Mal se viam nuvens no céu. O céu ideal, pensei.
Então Carlos Wieder chegou e se sentou junto à janela, a três mesas de mim.
Por um instante (no qual senti que desmaiava), enxerguei a mim mesmo quase
colado nele, olhando por cima de seu ombro, um horrendo irmão siamês, o
livro que acabava de abrir (um livro científico, um livro sobre o aquecimento
global, um livro sobre a origem do universo) tão perto dele que era impossível
que ele não percebesse, mas, tal como Romero tinha previsto, Wieder não me
reconheceu.
Estava envelhecido. Tanto quanto eu, certamente. Mas não. Ele tinha
envelhecido muito mais. Estava mais gordo, mais enrugado, parecia ter pelo
menos uns dez anos a mais do que eu, sendo que na verdade era apenas dois ou
três anos mais velho. Olhava o mar e fumava e de vez em quando dava uma
olhada no seu livro. Igual a mim, percebi alarmado, e apaguei o cigarro e
procurei mergulhar nas páginas do meu livro. As palavras de Bruno Schulz
adquiriram por um momento uma dimensão monstruosa, quase insuportável.
Senti que os olhos apagados de Wieder me escrutinavam e ao mesmo tempo,
nas páginas que virava (talvez depressa demais), os escaravelhos que as letras
eram antes se transformavam em olhos, nos olhos de Bruno Schulz, abriam-se
e fechavam-se seguidamente, olhos claros como o céu, brilhantes como a
superfície do mar, que se abriam e piscavam, seguidamente, em meio à
escuridão total. Não, total não, em meio a uma escuridão leitosa, como no
interior de uma nuvem negra.
Quando olhei novamente para Carlos Wieder, ele estava de perfil. Pensei
que parecia um sujeito duro, duro como só podem ser — e apenas depois dos
quarenta — alguns latino-americanos. Uma dureza muito diferente da dos
europeus ou norte-americanos. Uma dureza triste e irremediável. Mas Wieder
(aquele Wieder que fora amado por pelo menos uma das irmãs Garmendia)
não parecia triste, e era justamente nisso que radicava a tristeza infinita.
Parecia adulto. Mas não era adulto, percebi de imediato. Parecia dono de si
mesmo. E à sua maneira e dentro de suas leis, quaisquer que fossem, era mais
dono de si do que todos que estávamos naquele bar silencioso. Era mais dono
de si mesmo do que muitos que naquele momento caminhavam na calçada da
praia ou trabalhavam, invisíveis, preparando a iminente temporada turística.
Era duro e não tinha nada, ou tinha muito pouco, e não parecia dar muita
importância a isso. Parecia estar passando por dificuldades. Tinha o rosto dos
homens que sabem esperar sem perder o controle dos nervos ou começar a
sonhar, perdendo a compostura. Não parecia um poeta. Não parecia um ex-
oficial da Força Aérea Chilena. Não parecia um assassino contumaz. Não
parecia aquele sujeito que tinha voado até a Antártida para escrever um poema
no céu. Nem de longe.
Foi embora quando começou a anoitecer. Procurou uma moeda no bolso da
calça e a depositou sobre a mesa, como uma gorjeta minguada. Quando senti
que a porta às minhas costas se fechava, não soube se começava a rir ou a
chorar. Respirei aliviado. Era tão intensa a sensação de liberdade, de
problema resolvido, que temi despertar a curiosidade dos outros que estavam
no bar. Os dois homens continuavam junto ao balcão conversando a meia-voz
(não era, de modo algum, uma discussão), com todo o tempo do mundo à
disposição. O garçom trazia um cigarro entre os lábios e observava a mulher,
que de vez em quando tirava os olhos da revista e sorria para ele. A mulher
andava perto dos trinta e tinha um belo perfil. Parecia uma grega pensativa. Ou
uma grega renegada. Senti-me, de repente, faminto e feliz. Fiz um sinal ao
garçom. Pedi um sanduíche de presunto cru e uma cerveja. Quando ele me
serviu, trocamos algumas palavras. Depois tentei continuar a ler, mas não
conseguia, de modo que decidi aguardar por Romero comendo e bebendo e
olhando o mar pela janela.
Romero chegou pouco depois e partimos. No começo parecia que nos
afastávamos do prédio de Wieder, mas, na verdade, apenas andávamos em
círculo. É ele?, perguntou Romero. Sim, eu disse. Sem nenhuma dúvida? Sem
nenhuma dúvida. Ia acrescentar alguma coisa, algumas considerações éticas e
estéticas sobre a passagem do tempo (uma estupidez, pois o tempo, no que se
referia a Wieder, era como uma rocha), mas Romero acelerou o passo. Está
trabalhando, pensei. Estamos trabalhando, pensei horrorizado. Circulamos por
ruas e vielas, sempre em silêncio, até que o prédio de Wieder surgiu recortado
contra o céu iluminado pela lua. Singular, diferente dos outros prédios, que
pareciam se encolher ou se esfumar diante da sua presença, tocado por uma
varinha mágica ou por uma solidão mais poderosa que a do resto.
De repente, entramos em um parque, pequeno e frondoso como um jardim
botânico. Romero indicou um banco quase encoberto por ramos de árvores.
Espere-me aqui, disse ele. De início, sentei-me obediente. Depois procurei
seu rosto na penumbra. Vai matá-lo?, murmurei. Romero fez um gesto que não
consegui enxergar. Espere-me aqui ou vá para a estação de Blanes e pegue o
primeiro trem. Nós nos vemos mais tarde em Barcelona. É melhor não matá-
lo, eu disse. Isso pode nos arruinar, a mim e a você, e além disso é inútil, esse
sujeito já não vai fazer mal a ninguém. A mim não vai arruinar, pelo contrário,
vai me valorizar. Quanto a ele não poder fazer mal a ninguém, o que posso
dizer, a verdade é que não sabemos, não temos como saber, nem eu nem você
somos Deus, fazemos aquilo que podemos fazer. Nada além disso. Não
conseguia ver seu rosto, mas pela voz (uma voz que saía de um corpo
totalmente imóvel) percebi que se esforçava para ser convincente. Não vale a
pena, insisti, está tudo acabado. Ninguém fará mais mal a ninguém. Romero
deu-me um tapinha no ombro. É melhor você não se meter nisso, disse ele.
Volto logo.
Fiquei sentado observando os arbustos escuros e os galhos que se
entrelaçavam e se cruzavam traçando um desenho ao sabor do vento enquanto
ouvia os passos de Romero, que se afastava. Acendi um cigarro e pus-me a
pensar em coisas sem importância. Sobre o tempo, por exemplo. O
aquecimento global. As estrelas cada vez mais distantes.
Tentei pensar em Wieder, tentei imaginá-lo sozinho em seu apartamento, que
em minha mente era bastante impessoal, no quarto andar de um edifício de oito
andares vazio, vendo televisão ou sentado numa poltrona, bebendo, enquanto a
sombra de Romero deslizava sem hesitar em sua direção. Tentei imaginar
Wieder, eu digo, mas não consegui. Ou não quis.
Meia hora depois Romero estava de volta. Trazia sob o braço uma pasta
cheia de papéis, dessas usadas por estudantes, que se fecham com elásticos.
Havia bastante papel ali, mas não demais. A pasta era verde, como os arbustos
do parque, e estava bem desgastada. Apenas isso. Romero não parecia
diferente. Não parecia nem melhor nem pior que antes. Respirava sem
dificuldade. Quando olhei para ele, parecia-me idêntico a Edward G.
Robinson. Como se Edward G. Robinson tivesse entrado numa máquina de
moer carne e saído dela transformado: mais magro, a pele mais escura, mais
cabelos, mas os mesmos lábios, o mesmo nariz e principalmente os mesmos
olhos. Olhos que conhecem. Olhos que acreditam em todas as possibilidades
mas que ao mesmo tempo sabem que nada pode ser remediado. Vamos
embora, disse ele.
Pegamos o ônibus que faz a ligação de Lloret com a estação de Blanes e em
seguida o trem para Barcelona. Durante a viagem, em dois momentos Romero
tentou falar alguma coisa. No primeiro, elogiou a estética “abertamente
moderna” dos trens espanhóis. No outro, disse que era uma pena, mas não
poderia ir a um jogo do Barcelona no Camp Nou. Não falei nada, ou respondi
com monossílabos. Não estava para muita conversa. Lembro que a noite, vista
pela janela do trem, estava bonita e calma. Em algumas estações embarcavam
rapazes e moças que desciam no bairro seguinte, como se estivessem
brincando. Provavelmente iam a discotecas próximas, atraídos pelo preço e
pela proximidade. Todos eram menores de idade e alguns tinham pinta de
herói. Pareciam felizes. O trem parou depois numa estação maior, onde
embarcou um grupo de trabalhadores que bem podiam ser seus pais. Mais
tarde, mas não sei quando, atravessamos vários túneis e alguém deu um grito,
uma adolescente, quando as luzes do vagão se apagaram. Olhei então para o
rosto de Romero, que permanecia imutável. Finalmente, quando chegamos à
estação da Plaza Cataluña, pudemos conversar. Perguntei como tinha sido. Foi
como essas coisas são, disse Romero, difíceis.
Fomos a pé até minha casa. Ele abriu a maleta, tirou e me estendeu um
envelope. Ali dentro havia trezentas mil pesetas. Não preciso de tanto
dinheiro, eu disse depois de contá-lo. É seu, disse Romero enquanto guardava
a pasta junto de sua roupa e fechava de novo a maleta. Você o conquistou. Não
conquistei nada, eu disse. Romero não replicou, entrou na cozinha e pôs água
para ferver. Para onde você vai?, perguntei. Para Paris, disse ele, tenho um
voo à meia-noite. Esta noite quero dormir na minha cama. Bebemos um último
chá e o acompanhei até a rua. Ficamos um tempo esperando que passasse um
táxi, de pé no meio-fio, sem saber o que dizer um para o outro. Nunca tinha
acontecido comigo uma coisa dessas, confessei. Não é verdade, disse Romero
suavemente, já nos aconteceram coisas piores, pense bem. Pode ser, admiti,
mas esse caso foi particularmente espantoso. Espantoso, repetiu Romero,
como se saboreasse a palavra. Depois riu reservadamente, um riso de coelho,
e disse claro, como poderia não ser espantoso? Eu não tinha vontade de rir,
mas também ri. Romero olhava o céu, as luzes dos prédios, os faróis dos
carros, os anúncios luminosos, e parecia pequeno e cansado. Dali a pouco
tempo, imaginei, ele completaria sessenta anos. Eu já tinha passado dos
quarenta. Um táxi parou à nossa frente. Cuide-se, meu amigo, disse ele, e
partiu.
ANNA OSWALDO-CRUZ LEHNER 1998

Roberto Bolaño nasceu em 1953, no Chile, e é considerado um dos grandes nomes da literatura latino-
americana contemporânea. Romancista, contista, ensaísta e poeta, passou a adolescência no México,
voltando ao seu país pouco antes do golpe que depôs Salvador Allende. Conseguiu se exilar e começou a
publicar na Espanha, quando já tinha quarenta anos. Morreu em Barcelona, em 2003, supostamente de
insuficiência hepática. De sua autoria, a Companhia das Letras lançou 2666, Amuleto, Os detetives selvagens,
Estrela distante, Noturno do Chile, A pista de gelo, Putas assassinas e O Terceiro Reich.
Copyright © 1996 by Roberto Bolaño

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em
2009.

Título original
Estrella distante

Capa
warrakloureiro

Foto de capa
Sem título (1998), óleo sobre tela de Rodrigo Andrade, 190 x 220 cm.

Preparação
Silvia Massimini Felix

Revisão
Ana Maria Barbosa
Huendel Viana

ISBN 978-85-438-1105-5

Todos os direitos desta edição reservados à


editora schwarcz ltda.
Rua Bandeira Paulista 702 cj. 32
04532-002 — São Paulo — sp
Telefone (11) 3707-3500
Fax (11) 3707-3501
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