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CIRCUITO FECHADO: UM OLHAR SEMIÓTICO


Camila de Araújo Beraldo Ludovice
Professora dos cursos de Letras e Ciências Contábeis da Universidade
de Franca (Unifran).
Coordenadora da Especialização em Estudos Linguísticos da Universidade
de Franca (Unifran).
Aluna do Programa de Pós-graduação (Doutorado) da Universidade
Estadual Paulista (Unesp), Araraquara.
Juliana Spirlandeli Batista
Professora dos cursos de Letras, Tradutor e Intérprete, Ciências Contábeis
e Gastronomia da Unifran.
Aluna do Programa de Pós-graduação (Doutorado) da Universidade
Estadual Paulista (Unesp), Araraquara.

RESUMO
O objetivo deste artigo é mostrar a aplicação da teoria semiótica
francesa no texto “Circuito Fechado”, de Ricardo Ramos, e construir,
a partir dos estudos semióticos de base greimasiana, os sentidos do
texto em pauta. Esta teoria foi fundada por Algirdas Julien Greimas
e tem como fundamento analisar o que o texto diz e como ele faz para
dizer o que diz, utilizando como um dos mecanismos básicos para
desvendar os sentidos do texto o percurso gerativo de sentido que o
desdobra em três níveis (fundamental, narrativo e discursivo).
Palavras-chave: semiótica greimasiana; construção de sentido; conto; ações diárias.

ABSTRACT
The aim of this paper is to show the application of the French se-
miotics theory in the text “Circuito Fechado” by Ricardo Ramos and
to build, on the basis of the greimasian semiotics studies, the senses
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of the referred text. This theory was founded by Algirdas Julien


Greimas and its main goal is to analyse what the text says and how
it does to say what it says, making use of the sense generative path
as a main tool to reveal the senses of the text, which can be found in
three different levels (fundamental, narrative and discursive).
Keywords: greimasian semiotics; sense building; tale; everyday actions.

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INTRODUÇÃO
O presente artigo tem como proposta inicial analisar o conto “Cir-
cuito fechado” (Anexo 1) de Ricardo Ramos que, à primeira leitura,
parece apenas uma série de palavras justapostas, que nem mesmo
chegam a formar frases completas devido à ausência de elementos
coesivos. No entanto, ao observar o texto de maneira mais cuidadosa,
é possível estabelecer relações semânticas entre os vocábulos encade-
ados e perceber, por meio da organização vocabular, aparentemente
caótica, a coerência do texto, mesmo estando ausentes os elementos
coesivos. Tal fato ocorre porque a associação dos mecanismos internos
com os fatores contextuais e sócio-históricos ajuda na construção da
significação desse texto, já que faz parte da memória um conjunto de
ações diárias relativas às situações descritas no texto, como acordar,
fazer a higiene pessoal, vestir-se para o trabalho, tomar o café da
manhã, dentre outras. Dessa maneira, esse aglomerado de substan-
tivos passa a fazer sentido e torna o texto coerente.
Ante o exposto, o objetivo do artigo em questão é explicar o que o
conto diz e como faz para dizer o que diz, examinando os procedi-
mentos de organização textual, bem como os mecanismos de recepção
e produção do texto. Para isso, a metodologia de pesquisa terá como
suporte a teoria semiótica francesa, principalmente os estudos de A.
J. Greimas e seus discípulos, centrando-se no percurso gerativo de
sentido.
Inicialmente, a teoria semiótica apresenta-se como uma teoria da
significação e sua primeira preocupação é explicitar as condições de
apreensão e da produção do sentido. Pode-se dizer, portanto, que
o objeto da semiótica é o sentido, porém devido ao vasto domínio
que o conjunto das disciplinas que constituem as ciências humanas
ocupa, logo de início uma restrição é imposta: à semiótica interessa
o parecer do sentido, apreendido “por meio das formas da linguagem

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e, mais concretamente, dos discursos que o manifestam, tornando-o


comunicável e partilhável, ainda que parcialmente” (BERTRAND,
2003, p. 11). Dessa forma, as preocupações da semiótica traduzem-
se na explicitação do modo pelo qual o sentido se constitui, ou seja,
busca-se o quê, mas por intermédio do como; não o sentido verda-
deiro, mas o parecer verdadeiro do sentido, isto é, o simulacro; não
a fragmentação do sentido, mas sua totalidade, deduzida da unidade
textual. Tais preocupações resultam na descrição do sentido que se
apresenta por meio de um percurso gerativo, que compreende um
nível fundamental de organização do sentido, um nível narrativo e
um nível discursivo, que dão conta dessa explicação do sentido. Dessa
maneira, a semiótica não se ocupa apenas da descrição frasal, mas
filia-se às abordagens semânticas que rompem a barreira da frase e
atingem o texto, inserindo-se, portanto, no quadro das teorias que
se ocupam do texto.
O sentido, para a semiótica, citando Floch (2001), decorre da fusão
de dois planos que toda linguagem possui, seja na fala, na escrita, no
gesto ou no desenho, o plano da expressão e o plano do conteúdo. O
plano da expressão é o local onde as qualidades sensíveis que possui
uma linguagem para se manifestar são selecionadas e articuladas
por variações diferenciais. O plano de conteúdo, por sua vez, é onde
a significação brota das variações diferenciais graças às quais, cada
cultura, para refletir o mundo, ordena e encadeia ideias e discurso.
De acordo com Floch (2001), a semiótica, na definição de sentido,
assume que o referente não é um elemento constitutivo da linguagem,
mas é representado pelo mundo real para alguns e, para outros, pelo
contexto de comunicação. No entanto, a pressuposição metafísica de
uma correspondência termo a termo entre a linguagem e o universo
referencial é recusada pela tradição saussuriana, assumindo, dessa
forma, duas consequências por essa recusa, uma mais prática, outra

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mais teórica. A semiótica, como disciplina autônoma, estuda os fatos


da linguagem, não dependendo de outra ciência real, como a física,
a sociologia, entre outras. Também não se concebe, em semiótica,
que determinadas linguagens, por exemplo, as visuais, sejam mais
fiéis à realidade que outras, pois um desenho, afirma Floch (2001),
mesmo figurativo, é tão arbitrário quanto uma palavra. A partir disso,
o empenho da semiótica é analisar crenças, sentimentos e atitudes
que cada sociedade adota frente às suas linguagens.
A fim de construir o sentido do texto, a semiótica concebe seu
plano de conteúdo sob a forma de um percurso gerativo. Tal percurso
gerativo da significação é a representação dinâmica da produção de
sentido, ou seja, “é a disposição ordenada das etapas sucessivas pelas
quais passa a significação para se enriquecer e, de simples e abstrata,
tornar-se complexa e concreta” (FLOCH, 2001, p.15).
Greimas (1975), no texto intitulado Sobre o sentido, pondera que para
o homem o sentido é colocado, ele se impõe como uma evidência,
como um sentimento de compreensão absolutamente natural. Tendo
em vista que toda interrogação é metalinguística, não seria possível
interrogar-se sobre o sentido num universo em que a linguagem fosse
pura denotação das coisas e dos gestos. Assim, nos dois extremos
do canal da comunicação aparecem metáforas antropomórficas, por
meio das quais o homem procura questionar ingenuamente o sentido,
como se as palavras realmente quisessem dizer alguma coisa, como
se o sentido pudesse ser ouvido, apenas apurando-se os ouvidos. No
entanto, as respostas dadas são sempre paráfrases, que acarretam
equívocos, ou seja, são traduções mais ou menos inexatas de palavras
e de enunciados por outras palavras e outros enunciados.
Greimas (2002) conseguiu proporcionar um contato com as relações
sensíveis do mundo que se mistura com a realidade da vivência real
e da vivência mostrada por meio da figuratividade. A cada análise é

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possível, através dos textos, perceber o mundo ou perceber o sujeito


que o percebe e esta vivência do sensível opera muitas transformações
e cria e recria estereótipos e simulacros construídos e pré-construídos.
Dessa forma, aparecem novas formas de sentido e se concebem outras
maneiras do parecer do sentido.
É Greimas quem chama a atenção de todos para a relevância do
dia a dia e para a construção de seus sentidos e valores. Nessa cons-
trução do parecer, a figuratividade tem um papel importante, é ela
que constrói o suporte do parecer e cria condições para surgir o
sentido. E, moldurado pelas concepções de Greimas, o parecer vai
se mostrar sempre imperfeito pela própria condição de imperfeito
do ser humano. “Todo parecer é imperfeito; oculta o ser; é a partir
dele que se constroem um querer-ser e um dever-ser, o que já é um
desvio do sentido. Somente o parecer, enquanto o que pode ser – a
possibilidade – é vivível” (GREIMAS, 2002, p. 19).
A enunciação pode ser vista como um ato e, como o próprio Greimas
sugeriu, para apreender a construção dos sentidos e de significação
dos textos é necessário entrar nas “profundezas do texto”, ou seja,
colocar-se em posição de muita intimidade com o texto; e, acima
de tudo, perceber que o sentido está sempre presente, faz parte da
realidade permanente do cotidiano.
Enfim, observa Greimas (1975) que os progressos da semiótica
consistem essencialmente na maior exploração das possibilidades
estratégicas da apreensão da significação. Sem se saber mais sobre
a natureza do sentido, aprende-se a conhecer melhor onde ele se
manifesta e como se transforma. Ao lado de uma semiótica inter-
pretativa, define-se cada vez mais a possibilidade de uma semiótica
formal que daria conta apenas das articulações das manipulações de
quaisquer conteúdos. Determinar as múltiplas formas de presença do
sentido e os modos de sua existência, interpretá-los como instâncias

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horizontais e níveis verticais da significação, descrever os percursos


das transposições e transformações de conteúdos já não são tarefas
irrealizáveis, pois apenas uma semiótica de formas poderá surgir
como a linguagem que permite falar do sentido, visto que a forma
semiótica é exatamente o sentido do sentido.
Para Fiorin (2005, p. 31), “o primeiro sentido de enunciação é o
ato produtor do enunciado”. O sujeito, por um ato, gera o sentido e é
criado pelo enunciado. Trata-se, então, de uma entidade semiótica.
Quando o enunciado e a enunciação são um fazer ser, podem ser
considerados como uma performance. Quando se estabelece uma
relação de implicação entre enunciado e enunciação, a enunciação é
considerada como uma instância linguística qualquer. No segundo
ponto, as marcas da enunciação presentes no enunciado permitem
reconstituir um ato enunciativo.
Para Fiorin (2005, p. 36), tem-se dois conjuntos no texto-objeto:
“a enunciação enunciada, que é o conjunto de marcas, identificáveis
no texto, que remetem à instância de enunciação; e o enunciado
enunciado, que é a sequência enunciada desprovida de marcas de
enunciação”.
Na concepção de Bertrand (2003, p. 83), “quanto ao sujeito da enun-
ciação ‘real’, o da cena intersubjetiva da comunicação, autor ou locutor,
ele é sempre inevitavelmente relegado a uma posição implícita: ele é
visto na cadeia recursiva do ‘eu digo que digo que digo’, e permanece
em si mesmo inacessível”. Assim, o sujeito só se manifesta através
de simulacros linguísticos de enunciações enunciadas (digo, penso,
parece-me) que dependem de análises para serem compreendidas.
Dessa forma, o sujeito do discurso é sempre concebido como uma
instância em construção, parcial, incompleta e transformável, que só
pode ser apreendido através dos fragmentos de discurso realizado.

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O texto “Circuito fechado”, de Ricardo Ramos, palco para análise,


parece à primeira leitura um simples aglomerado de palavras. Entre-
tanto, uma observação mais cuidadosa permite ao leitor estabelecer
relações semânticas entre os vários grupos de vocábulos encadeados,
revelando, a partir dessa organização vocabular, a coerência do tex-
to e evidenciando a possibilidade de um texto ser coerente mesmo
com a ausência de elementos coesivos. E não são apenas as relações
semânticas que estabelecem o sentido, mas também a associação dos
mecanismos internos com os fatores contextuais e sócio-históricos
ajuda a construir a significação desse texto.
A semiótica é uma teoria que dá conta de explicar essa construção
do sentido e se interessa em reconhecer o objeto de estudo e, ao
mesmo tempo, tratá-lo de um modo científico. Pode-se dizer que a
semiótica busca o parecer do sentido, um simulacro, verificando o
que o texto quer dizer e como o diz. A fim de explicar o que o tex-
to diz e como o diz, a semiótica busca examinar os procedimentos
da organização textual, bem como os mecanismos enunciativos de
produção e recepção do texto.
Assim, a teoria semiótica investiga a enunciação enquanto instância
pressuposta pelo discurso, em que deixa marcas ou pistas que per-
mitem recuperá-la. Dessa forma, por meio do discurso, é possível
chegar-se ao sujeito e, por meio da análise interna do texto, recons-
truir a enunciação, visto que certos procedimentos do texto marcam
a relação entre o discurso e a enunciação pressuposta nos diferentes
níveis do percurso gerativo.
Entretanto, vale ressaltar que é sobretudo no nível das estruturas
discursivas que a enunciação é mais fortemente revelada, seja nas proje-
ções da sintaxe do discurso, seja nos procedimentos de argumentação,
ou ainda na escolha dos temas e figuras, sustentadas por formações

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ideológicas. Esses aspectos são apreendidos pela análise interna do


texto, que evidencia que as escolhas feitas e os efeitos de sentido obtidos
decorrem da direção que a enunciação imprime ao texto.
No texto em questão, o sujeito da enunciação manifesta-se numa
espécie de “ele” universal, de uma não pessoa, o que na terminologia
semiótica pode ser chamado de debreagem enunciva, pois projeta,
no momento do ato de linguagem ou do seu simulacro no interior do
discurso, actantes do enunciado. Esse é um típico caso das formas
do enunciado enunciado, ou objetivado, pois no texto sob análise, a
narração apresenta um sujeito qualquer, ou como já foi dito, um sujeito
universal. Não se trata especificamente de uma narrativa em terceira
pessoa, pois não tem verbos nem construções sintáticas próprias da
estrutura gramatical, mas subentende-se um ele, especificamente
do sexo masculino, que participa dos acontecimentos enumerados
no seu cotidiano, o que pode ser comprovado em vários excertos
do texto: “Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme
dental, água, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água...”;
“Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó”. Essa
debreagem enunciva produz o efeito de sentido de distanciamento da
enunciação e, também, os efeitos de objetividade e neutralidade.
Além desses componentes do nível discursivo, é possível depreender
também como os componentes semânticos podem ser detectados
na configuração temática e figurativa do discurso expresso no/pelo
texto. O texto pode ser compreendido como uma representação do
comportamento de um homem ou de vários homens que vivem na
cidade e trabalham durante todo o dia com serviços burocráticos.
Pode-se dizer, mais especificamente, que o texto retrata o dia de
um homem desde o seu despertar até a hora de ir dormir, relatando
por meio de palavras soltas, mas que, juntas no contexto, remetem
ao cotidiano. O sentido de cotidiano e até corriqueiro é dado pela

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própria construção textual, não existe um ator definido e as ações,


por sua vez, não remetem a um único ator.
A organização temática e figurativa do texto conduz a um conjunto
de ações diárias, que remetem ao tema da cotidianidade e que podem
ser divididas em vários atos, como o ato de acordar, fazer a higiene
pessoal e vestir-se para o trabalho, corroborado pelo texto: “Chinelos,
vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma,
creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria,
água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoadu-
ras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos,
caneta, chaves, lenço, relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos”. O ato
de tomar café da manhã acompanhado pela leitura do jornal: “Jor-
nal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapo”. As
ações realizadas para sair de casa e as percepções resgatadas por esse
ato são revestidas pelas seguintes figuras apresentadas pelo texto:
“Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo”. O ato de chegar ao trabalho,
um possível escritório, e começar a trabalhar; as pausas para o café e
o cigarro também permitem organizar uma leitura das figuras que se
seguem: “Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, telefone, agenda, copo
com lápis, canetas, bloco de notas, espátula, pastas, caixas de entrada, de
saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara
pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales,
cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, cavalete,
cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel,
caneta, projetor de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-
negro, giz, papel ”. No meio do dia, a pausa para o almoço seguido de
um café e cigarros e, novamente, a higiene pessoal básica: “Mictório,
pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa,
guardanapo, xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes,
pasta, água”. O retorno ao trabalho e toda a rotina com pausas para

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fumar e tomar café: “Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de


papel, cigarro, fósforo, telefone interno, externo, papéis, prova de anún-
cio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta,
telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro,
fósforo, papel e caneta”. No fim do dia, a volta para casa, o descanso, os
momentos de relaxar, ler, assistir TV, o jantar e, finalmente, a hora
de dormir: “Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata.
Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras, pratos, talheres, copos,
guardanapos. Xícaras. Cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo.
Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias,
calça, cueca, pijama, chinelos. Vaso, descarga, pia, água, escova, creme
dental, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro”.
O componente narrativo do discurso, no texto “Circuito fecha-
do”, pode servir para se fazer a descrição e ilustração de fenômenos
semióticos. O modelo narrativo deste texto pode ser construído da
seguinte forma: a narração do texto só é compreendida se integrada
ao conjunto de significados do senso comum, de um simulacro de
cotidiano; não é possível identificar o narrador nem um ator, mas
supõe-se a presença de um ator; cada bloco de palavras e sua con-
sequente construção de sentido se integram dentro de um modelo
maior e, a partir daí, constrói-se o sentido geral do texto.
Para entender melhor cada segmento, pode-se fazer o modelo nar-
rativo, separadamente, da seguinte forma: programa narrativo (PN)
1 “de acordar e se preparar para sair” é expresso na primeira parte do
texto: “Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme den-
tal, água, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina,
sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca,
camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó. Carteira, ní-
queis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço de cigarros, caixa de
fósforos”. Este bloco comporta um enunciado narrativo que dá início

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às ações de começar o dia e a partir dessas ações descritas, ou melhor,


subentendidas, presume-se a continuação das ações diárias.
O PN 2 “tomar café e sair para o trabalho” é descrito pelo bloco
que se segue: “Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talhe-
res, guardanapo. Quadros. Pasta, carro”. Nesse trecho há um discurso
englobante que revela a saída do homem de seu ambiente doméstico,
mas de forma quase mecânica. O PN 3 “iniciar o trabalho diário”,
conforme ilustra o trecho seguinte: “Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona,
cadeira, cinzeiro, papéis, telefone, agenda, copo com lápis, canetas, bloco
de notas, espátula, pastas, caixas de entrada, de saída, vaso com plantas,
quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fós-
foro. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos,
bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços
de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetor de filmes,
xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz, papel”. Esta parte
do texto ilustra a ação de começar a trabalhar que é sempre seguida
de um momento para fumar e tomar um café; neste trecho o ator
desenvolve suas tarefas e ficam também registradas as impressões do
ambiente relatadas pelas palavras “vaso com plantas, quadros”.
No trecho a seguir é possível perceber que no meio do dia o ator
faz uma pausa e sai de seu local de trabalho de táxi para almoçar,
o que pode ser denominado de PN 4 “o ato de almoçar”: “Mictório,
pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa,
guardanapo, xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes,
pasta, água”. E logo após retorna ao seu ambiente de trabalho nova-
mente o que pode ser denominado de PN 5 “o retorno do almoço”.
Após essa pausa para o almoço percebe-se a volta à rotina de trabalho,
com todas as burocracias, papéis, canetas, telefonemas e, logicamente,
pausas para café e cigarro: “Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista,
copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, externo, papéis, prova

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de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e


caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal,
cigarro, fósforo, papel e caneta”.
O PN 6 “volta para casa” narra a sequência de fatos do retorno
para casa após um dia de trabalho, os momentos de descanso e de
relaxamento, as pausas para leitura e TV, o jantar na mesma mesa do
café da manhã e a higiene pessoal antes de se deitar para dormir e,
então finalizar o dia. “Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Paletó,
gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras, pratos, talheres,
copos, guardanapos. Xícaras. Cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e
fósforo. Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos,
meias, calça, cueca, pijama, chinelos. Vaso, descarga, pia, água, escova,
creme dental, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro.”
Examinadas as estruturas discursivas e narrativas, conforme Barros
(2005) passa-se ao estudo das estruturas fundamentais do texto, que
é a primeira etapa do percurso de geração de sentido de um discurso,
como propõe a teoria semiótica. É nesse nível das estruturas fun-
damentais que se determina o mínimo de sentido a partir do qual
o discurso se constrói. O modo de existência da significação como
estrutura elementar é explicado nesse nível do percurso gerativo de
sentido como uma estrutura em que a rede de relações se reduz a uma
única relação, que é a relação de oposição ou diferença entre dois ter-
mos, no mesmo eixo semântico que os engloba. Dessa maneira, para
que essa estrutura elementar se torne operatória é necessário que ela
seja representada por um modelo lógico, o do quadrado semiótico.
A seguir eis a forma que toma o quadrado semiótico, a partir das
categorias semânticas extraídas do texto em análise:

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Em suma, nas palavras de Barros (2005) é no nível das estruturas


fundamentais que se constrói o mínimo de sentido que o texto gera.
Construídas dessa forma, as estruturas fundamentais são convertidas
em estruturas narrativas; a narrativa, por sua vez, torna-se discurso;
o plano da expressão casa-se com o do conteúdo e faz o texto, que
dialoga com outros textos e, dessa forma, situa-se na sociedade e na
história.

REFERÊNCIAS
BARROS, D.L.P. Teoria semiótica do texto. 4. ed. São Paulo: Ática, 2005.
BERTRAND, D. Caminhos da semiótica literária. São Paulo: EDUSC, 2003.
FIORIN, J. L. As astúcias da enunciação: as categorias de pessoa, espaço e tempo.
São Paulo: Ática, 2005.
FLOCH, J.-M. Alguns conceitos fundamentais em semiótica geral. São Paulo: Centro
de Pesquisas Sociossemióticas, 2001.
GREIMAS, A. J. Sobre o sentido. In: . Sobre o sentido. Ensaios se-
mióticos. Trad. de Ana Cristina Cruz Cezar et al. Petrópolis: Vozes, 1975. p.
126-143.
. O jogo das restrições semióticas. In: . Sobre o sentido. Ensaios

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semióticos. Trad. de Ana Cristina Cruz Cezar et al. Petrópolis: Vozes, 1975.
p. 126-143.
. Da imperfeição. Trad. de Ana Cláudia de Oliveira. São Paulo: Hacker
Editores, 2002.

ANEXO 1

TEXTO- Circuito Fechado


Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental,
água, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina,
sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente.
Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó.
Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço
de cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires,
prato, bule, talheres, guardanapo. Quadros. Pasta, carro. Cigarro,
fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, telefone, agenda,
copo com lápis, canetas, bloco de notas, espátula, pastas, caixas de
entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo.
Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios,
cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis.
Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos,
cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetor de filmes, xícara,
cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz, papel. Mictório, pia,
água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa,
guardanapo, xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de
dentes, pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo
de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, externo, papéis, prova de
anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel
e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara,
jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço de cigarros, caixa
de fósforos. Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa,

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cadeiras, pratos, talheres, copos, guardanapos. Xícaras. Cigarro e


fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor, poltrona. Cigarro
e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça, cueca, pijama,
chinelos. Vaso, descarga, pia, água, escova, creme dental, espuma,
água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro.
(RAMOS, R. Circuito fechado. In: LADEIRA, J. de G. (Org.). Contos brasileiros contemporâneos. São Paulo: Moderna, 1994.)

Diálogos Pertinentes – Revista Científica de Letras • Franca(SP) • v. 5 • n. 5 • p. 43-58 • jan./dez. 2009