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I – Francisco escritor.

Visão de conjunto dos seus escritos


1. Francisco se autodenominava “ignorante e iletrado”. No entanto, dele se conservam muitos
escritos. De seu contemporâneo, com curso universitário, também fundador da Ordem dos
Frades Pregadores (dominicanos), São Domingos de Gusmão, se conservam apenas uma
herança de três cartas. Segundo Atílio Bartoli Langeli, Francisco é um “iletrado alfabetizado”.
Era apenas possuidor de uma escolarização de base. Ele tinha apenas os conhecimentos
fundamentais da língua latina (a língua da escrita). Escrevia no “latim de cozinha”, inclusive com
erros de gramática. Não dominava absolutamente esta arte. Para escrever lhe era sacrificoso.
Sua caligrafia era disforme e nada harmônica. Escrever não “era sua praia”, como se diria na
gíria.
Quando jovem, mesmo pertencendo à alta burguesia, aprendeu apenas os conhecimentos
básicos para poder ler, fazer os cálculos e anotações comerciais. Foram os cônegos de São
Jorge seus mestres. Como costumava acontecer com todos, os manuais de alfabetização eram
os livros dos salmos. Foi assim que ele aprendeu concomitantemente os rudimentos da língua
latina, pois na sua cidade se falava o umbro da região. É bem verdade que ele conhecia
também, talvez tanto quanto ou menos do latim, o francês (provençal). De que forma? Nós
simpatizamos com a opinião daqueles que afirmam que sua mãe era da região da Picardia,
França. E Francisco, primogênito, teria nascido antes de sua mãe aprender o umbro. Então sua
primeira língua teria sido o francês, da mãe, já que o pai estava muito ausente devido aos
negócios. Entende-se assim o porquê ele canta em francês nos momentos de maior carga
emotiva. Outra opinião é de que teria aprendido nas viagens comerciais que fez com seu pai e
lendo as histórias das bravuras dos “cavaleiros da távola redonda”.

2. Se Francisco não tem vocação de escritor, o que o leva a escrever, mesmo se com grande
dificuldade e não por gosto? Uma resposta simplória certamente não contemplará a verdade.
As razões são várias. Em primeiro lugar, alguns escritos tiveram origem no desejo de conservar
orações que ele mesmo compôs. Entre estes escritos podem ser citadas praticamente todas as
orações: a da conversão, conhecida como oração diante do crucifixo de São Damião, os louvores
para serem ditos a todas as horas, os salmos do chamado “Ofício da Paixão” num total de
quinze, etc. Uma oração que não teve esta razão para ser escrita é a dos “Louvores ao Deus
altíssimo” que Francisco compôs poucos dias após a experiência mística do Alverne e que ficou
como gesto de carinho para com seu amigo Frei Leão.
Em segundo lugar Francisco escreve cartas para muitos destinatários. Envia-as a alguns para
que as multipliquem ou as endereça a todos, indistintamente. É o recurso que ele encontrou
para poder fazer chegar sua mensagem sobre o sacramento do Corpo e Sangue do Senhor a
muitas pessoas de muitos lugares. Entre estas citamos: Carta aos Governantes, Cartas aos
Custódios, Carta aos Clérigos, as duas redações das Cartas aos Fieis, etc.
Em terceiro lugar, Francisco escreve para ajudar os confrades a “seguir a doutrina e as pegadas
de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Ele sabe da dificuldade para discernir o caminho real do
seguimento de Cristo. Aqui podem ser incluídos a Carta a toda a Ordem, as Regras Bulada e não
Bulada, o Testamento. Mesmo se de caráter diferente, mas com o mesmo objetivo, temos
também as 28 Admoestações.
Em quarto lugar, há ainda motivos particulares ou específicos. Por exemplo a Carta a Frei Leão
para aconselhá-lo a respeito da obediência, a Carta a Frei Antônio autorizando-o a lecionar
teologia, o Cântico do irmão sol como hino de louvor da criação, o Testamento de Sena para
deixar registrados seus últimos desejos. Enfim, há uma gama enorme de razões que levaram o
“iletrado alfabetizado” a sentir-se forçado a pôr as palavras em pergaminhos.

3. Modos de escrever. Na Idade Média o “contexto gráfico” era muito diverso de hoje. Hoje
temos o papel e mais ainda o sistema digital que nos facilita muito no preço, no tempo e nas
correções. No tempo de Francisco, nem papel havia. Usava-se geralmente couro de coelho ou
de ovelha, bem curtidos e trabalhados, e como instrumento a pena ou um estilete especial.
Tudo era muito caro. Por isso havia toda uma metodologia de abreviações para economizar
tinta e pergamiho.
Como Francisco era pouco afeito ao escrever, a maioria escritos foram ditados a alguém que
registrava em pergaminho. Isso era muito comum na Idade Média. Segundo Luigi Pellegrini a
grande maioria dos seus escritos foram ditados em umbro. O amanuense ou o secretário
traduzia para o latim ao mesmo tempo que escrevia. O Testamento é um exemplo claro desse
costume, por um italianismo palpável no versículo 20.
Outra maneira de escrever de Francisco é fazer registrar o que foi decidido conjuntamente.
Sobretudo a Regra não Bulada com os seus 24 capítulos é quase toda redação das decisões
tomadas nas suas frequentes assembleias (são exceção os capítulos 16, 22 e 23). A Regra
Bulada teve o debate entre os frades e depois acréscimos da Cúria de Roma.
Uma terceira maneira usada para escrever por Francisco é reunir citações da Escritura em
orações, às vezes com leves modificações ou acréscimos. O Ofício da Paixão e os Louvores a
serem ditos em todas as horas canônicas são exemplos fáceis de perceber desta modalidade de
redação. Mesmo nestes, a identidade ou a personalidade de Francisco se deixa transparecer.

4. Tipos de escritos. Se o leitor tomar as Fontes Franciscanas brasileiras verá que os escritos de
Francisco se encontram distribuídos em ordem alfabética. Em algumas línguas, porém, os
escritos vêm classificados em três grupos: textos legislativos1, cartas (essas são fáceis de
perceber) e orações. O primeiro e o terceiro grupos, criam dificuldades por duas razões: há
orações em outros escritos, por ex. o capítulo 23 na RnB é todo ele uma oração de louvor e ação
de graças, o final da Carta a Toda a Ordem (vv 50-52) é uma bela oração, etc. Doutro lado, há
textos que não enquadram perfeitamente neste grupo de textos legislativos (nem nas orações)
como a Saudação às Virtudes, as Admoestações e a Última Vontade escrita para Santa Clara,

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Neste grupo costumam inserir as Admoestações. No entanto elas tem outro caráter e estilo que o das Regras.
etc. Por isso os estudiosos acham conveniente mantê-los simplesmente na sequência
alfabética2. Olhemos rapidamente para cada grupo.
4.1 - Os textos legislativos. São muitos: Regra Bulada, Regra não Bulada, Regra para os
Eremitérios, Forma da vida para Santa Clara, três Fragmentos da Regra, Testamento,
Testamento de Sena e, para alguns, as Admoestações. Cada escrito tem sua importância
específica, mas poderíamos dizer que a Regra não Bulada é o escrito mais significativo de todos
estes, seguido pelas Admoestações. Por que razão? Porque é um texto escrito ao longo de
mais de dez anos e é fruto de debates e decisões dos capítulos (assembleias) e não só da pessoa
de Francisco. Desta forma ele é a chave para se entender a história do Movimento Franciscano
(D. Flood). Mas também porque ele é como o “tonus firmus”, quer dizer, a melodia chave ao
redor da qual se desenvolve a sinfonia dos seus escritos. E seu tonus firmus é o seguimento – o
mais radical possível – da doutrina e das pegadas de Nosso Senhor Jesus Cristo. Diante de cada
nova situação, o grupo se perguntava: “como ser fiel ao Evangelho de Jesus Cristo neste
contexto concreto”. Como veremos no próximo capítulo há, porém, três capítulos de autoria
exclusiva de Francisco. A elaboração da Regra não Bulada foi um processo que perdurou do
começo do Movimento, (1209) até 1221.
Neste ano, estando Francisco de retorno à Itália, procedente do Egito, foi começado o processo
que desencadearia na aprovação, não sem conflitos, da Regra que recebeu a bula do Papa, a
Regra Bulada que os três ramos de Frades Menores seguem ainda hoje. Mas o processo não
termina aí. Vai antes até os últimos dias de vida de Francisco quando elabora o Testamento no
qual retoma vários pontos da Regra, como que fazendo retroceder à regra anterior, a ponto de
que o Papa teve de intervir com a encíclica Quo elongati (1230) dizendo que o Testamento não
era texto legislativo e, portanto, não obrigatório.
Francisco escreve também por razões específicas. Logo depois de acolher Clara em seu
Movimento lhe escreve uma “firma vitae” (forma de vida), incentivando Clara e suas irmãs a
viver a “perfeição do Evangelho”, sempre na comunhão trinitária. Certamente depois de 1217,
Francisco escreve uma Regra para os Frades que desejarem passar temporadas - até de anos -
em eremitérios. Nesta Regra propõe um clima de muita oração e familiaridade, o mesmo que
existe entre uma mãe e seus filhos.
4.2 - As cartas. São 11 cartas escritas por Francisco, praticamente todas nos últimos seus cinco
anos de vida. É grande a diversidade de destinatários: cartas a frades individuais (Carta a Frei
Antônio, a Frei Leão e a um Ministro), cartas a grupos de frades (Cartas aos Custódios I e II,
Cartas aos Clérigos I e II), carta a todos os frades (Carta a toda a Ordem), carta a uma categoria
de pessoas (Carta aos Governantes dos povos) e cartas a todo o povo (Carta aos Fiéis i e II).
É grande também a diversidade de motivos: o zelo pela Eucaristia (razão exclusiva para as cartas
aos custódios e aos clérigos), motivos pessoais diversos (as cartas a Antônio, a Leão e a um

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Observe-se que tanto a Carta aos Governantes quanto a Paráfrase ao Pai-nosso parecem deslocadas na ordem
alfabética. Esses dois escritos obedecem à ordem do título no original latino Lettera ad Regitores Populi e Exortatio
in Pater Noster.
Ministro), cartas-regra de vida (Cartas aos Fiéis I e II), são cartas como orientação prática de
vida, incluindo orientações a respeito da Eucaristia (Carta a toda a Ordem e Carta aos
Governantes).
Grande é também a diversidade de circunstâncias. Aquelas que têm sua centralidade na
Eucaristia (5, considerando a dos Governantes) são eco da campanha que a Igreja vinha fazendo
para que houvesse maior reverência para com o Corpo de Cristo. Francisco assume esta
campanha (imprimindo-lhe, porém, um cunho diferente), porque vê na Eucaristia o melhor
modo de Deus expressar seu modo de ser. As duas Cartas aos Fiéis e a toda a Ordem são
orientações práticas em vista da fidelidade ao Evangelho (fazer penitência) que Francisco deseja
que toda a pessoa assuma. Já as cartas a frades individuais respondem cada uma delas à sua
circunstância concreta de cada um deles.
4.3 – As orações. As orações ocupam certamente mais de uma terça parte de seus escritos. Se o
tonus firmus de seus escritos é a preocupação de favorecer o “seguimento da doutrina e das
pegadas de Nosso Senhor Jesus Cristo” as orações, por seu lado, revelam o alto grau de
comunhão vivido por Francisco com a Trindade, com a Virgem Maria e com Cristo, de quem ele
de modo mais intenso ainda que os demais frades queria “seguir essas mesmas pegadas”3 etc.
São as orações que permitem conhecer, em grande parte, a sua alma, porque são a expressão
do que habitava seu coração ordinariamente. Poucas pessoas, e mesmo poucos santos, criaram
tantas orações como o Santo de Assis, e cada uma delas com sua beleza e profundidade. No
capítulo quarto desta disciplina aprofundaremos estes aspectos que aqui apenas enunciados.
As orações, mais que os demais escritos, permitem também dar-se conta da caminhada
espiritual de Francisco. Por exemplo, na sua primeira oração, originada em sua juventude,
mesmo se com desejo sincero de converter-se, está totalmente preocupado consigo mesmo. Já
no “Cântico do Irmão Sol”, no seu último ano de vida, a pessoa de Francisco não é
absolutamente mencionada. Está todo voltado para o “Altíssimo, onipotente e bom Senhor”
como para dizer que o autocentramento nele foi totalmente superado.
Há grande variedade de orações em Francisco em relação ao modo de criá-las. A oração da
conversão e os “Louvores ao Deus altíssimo” são um conjunto de pedidos feitos com linguajar
totalmente próprio, brotado de sua experiência. No lado oposto a estas, podemos reparar que
os “Louvores a serem ditos a todas as horas” e o “Ofício da Paixão” com seus 15 salmos são
praticamente citações bíblicas às quais acrescenta palavras esparsas cá e lá.

Francisco, diz Tomás de Celano, não era apenas pessoa de oração, mas a oração personificada
ou, nas palavras do biógrafo: “transformado não só em orante, mas em oração” (2Cel 95,5).
Estava sempre rezando: criou salmos que acrescentava aos salmos do Ofício Divino em todas
horas canônicas, fazia três quaresmas anuais retirado em eremitérios, inseriu uma longa oração
na Regra não Bulada (RnB 23, 1- 10) – com que objetivo? – conclui a Carta a toda a Ordem com
uma bela oração. Escreveu um longo comentário ao Pai Nosso. No tempo de sua maturidade

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Aliás, esta frase do “seguimento das pegadas de Jesus Cristo” vem repetida seis vezes nos seus escritos: RnB 1,1;
22,2; CtLeão 3; Ct Ordem 51; IFrag 1,1 e 2Fi 13, o que mostra ser quase uma ideia fixa.
passava noites repetindo “Meu Deus e tudo” ou “Quem sois vós e quem sou eu”? e assim por
diante. De modo que é impossível pensar em Francisco desligado da oração.