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X Simpósio Ítalo-Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental

V-013 – A RESPONSABILIDADE SOCIAL DA ENGENHARIA SANITÁRIA


E AMBIENTAL

Údson Renan dos Santos Silva(1)


Graduando em Engenharia Sanitária e Ambiental (EP/UFBA); Bolsista do Programa Permanecer (EP/UFBA).
Luiz Roberto Santos Moraes
Engenheiro Civil (EP/UFBA) e Sanitarista (FSP/USP); M.Sc. em Engenharia Sanitária (IHE/Delft University
of Technology); Ph.D. em Saúde Ambiental (LSHTM/University of London); Professor Titular em
Saneamento do Departamento de Engenharia Ambiental da Escola Politécnica da Universidade Federal da
Bahia.

Endereço(1): Rua Caetano Moura, 118 – Federação – Salvador - BA - CEP: 40210-341 - Brasil - Tel: +55 (75)
3434 2278 – e-mail: udson_renan@hotmail.com

RESUMO
No decorrer dos séculos a sociedade sofreu, e ainda sofre, transformações resultantes dos modos de
organização dos homens e pela busca desacelerada do lucro e poder. A demanda na solução e minimização das
conseqüências negativas geradas chegou ao status de que somente ações governamentais são insuficientes, e
em alguns casos deficientes, afim de promover a resolução dos mesmos. Por isso que a atuação de empresas e
profissionais socialmente responsáveis é imprescindível neste cenário em que vivemos (SOUZA, 2006).
Com o ritmo veloz que novos projetos e tecnologias estão sendo desenvolvidas e aplicados pela Engenharia
Sanitária e Ambiental, a demanda de problemas sociais gerados têm exigido desta Engenharia, além da
responsabilidade técnica e legal, a responsabilidade social. O objetivo do presente trabalho é a investigação
das concepções e tipos de responsabilidade social que estão presentes nas ações de tal Engenharia e as
principais motivações e dificuldades encontradas para a adoção da mesma. A proposta para melhorar a adoção
de finalidades sociais nesses projetos é a elaboração de uma avaliação da responsabilidade social da
Engenharia Sanitária e Ambiental. Esta avaliação identifica quais as relações entre o homem, o meio ambiente
e a tecnologia estão sendo estabelecidas nesses projetos. Contudo, com a revisão dos modelos teóricos de
responsabilidade social do Instituto Ethos (2009), de Carroll (1979) e Curado (2002) foi possível elaborar uma
avaliação que norteia a concepção dos projetos, a comunidade envolvida, a preservação do meio ambiente, a
integridade da saúde e a transparência política e financeira, que poderá ser aplicada para a identificação do
nível de responsabilidade social de um projeto.

PALAVRAS–CHAVE: Engenharia Sanitária e Ambiental, Saneamento Ambiental, Águas e Meio Ambiente,


Responsabilidade Social, Avaliação.

INTRODUÇÃO
Ao longo dos séculos o homem gerou intervenções no meio em que vive que refletem-se em todos os setores
da sociedade: social, econômico, urbanístico e político. Tais intervenções estão associadas à um
desenvolvimento desacelerado que gera discrepâncias, principalmente sociais, e que resultam em implicações
negativas para os setores menos favorecidos da sociedade. Com o aumento na demanda de soluções e
minimização dos problemas, as ações governamentais tornam-se insuficientes ou deficientes para tais,
necessitando dessa forma um florescimento quanto à responsabilidade, ou melhor, quanto ao compromisso
social de empresas, profissionais e cidadãos comuns para a melhoria da vida em sociedade.

Nesse contexto, a Engenharia Sanitária e Ambiental defronta-se com o desafio de transceder as atitudes
técnicas afim de que possa envolver nas suas ações, programas e projetos o senso humanístico. Devido à crise
gerada pelo excesso da exploração ambiental e da aplicação de políticas públicas deficientes, a integridade e
futuro dos recursos naturais, como água, solo e ar vêem-se ameaçados, o que implicará diretamente na
salubridade do ambiente e no bem-estar físico, mental e social do homem. O maior problema norteador desta
discussão está na injustiça social que será agravada, pois, segundo Boff (2005), “20% da humanidade detêm
83% dos meios de vida e os 20% mais pobres tem que se contentar com apenas 1,4% dos recursos”.

A Engenharia Sanitária e Ambiental avança em relação ao campo de atuação das outras engenharias pois lida
diretamente com a promoção da melhoria da qualidade de vida através de projetos de saneamento e

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ambientais, que previnem e controlam fatores que afetam o ambiente, a saúde e o homem como um todo. Para
a sociedade em geral, as ações são de suma importância e podem ser comprovadas por inúmeras pesquisas
realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE, uma vez que reduzem a marginalização
tornando mais digno o meio em que se vive, melhoram consideravelmente a saúde pública através de sistemas
de esgotamento sanitário, tratamento de água e controle de vetores etiológicos, além de promover a
preservação e o uso racional dos recursos naturais.

Os maiores desafios para a inserção da responsabilidade social nos projetos de saneamento, águas e meio
ambiente não estão somente na concepção, problemática e resolução dos problemas ou necessidades, mas no
exercício ético e na formação dos profissionais desta área, que na maioria das vezes, possuem carência de
senso crítico, responsabilidade social e respeito às diferentes culturas e tradições. Segundo Gomes (1995),
“políticas de saneamento produzem impacto numa determinada comunidade quando há um trabalho de
conscientização e educação da mesma.” Apesar de tais deficiências, o fio condutor das ações desses
profissionais já é ressaltado no Código de Ética Profissional do Engenheiro, do Arquiteto e do Agrônomo,
instituído pela Resolução nº 1.002, de 26 de novembro de 2002, emanada do CONFEA (Conselho Federal de
Engenharia, Arquitetura e Agronomia), na forma prevista na alínea "n" do artigo 27 da Lei nº 5.194, de 24 de
dezembro de 1966; e no artigo 1o. já enuncia: “Interessar-se pelo bem público e com tal finalidade contribuir
com seus conhecimentos, capacidade e experiência para melhor servir à humanidade”.

Frente a essas considerações, este trabalho busca analisar e questionar os principais desafios que dificultam a
inserção de atitudes sociais na Engenharia Sanitária e Ambiental, na tentativa de buscar um modelo ideal de
responsabilidade social para projetos de saneamento, águas e meio ambiente. Para tanto investigou-se algumas
vertentes teóricas de responsabilidade social ou compromisso social, dentre elas a do Instituto Ethos (2009),
Carroll (1979) e Curado (2002), os quais forneceram subsídios para a elaboração de uma proposta de avaliação
da responsabilidade social dos projetos pertinentes a esta área. A proposta apresentada avança quanto aos
critérios de avaliação pois busca envolver tantos os critérios técnicos, como aqueles direcionados ao público
envolvido direto e indiretamente, além das conseqüências ou benefícios futuros.

METODOLOGIA
O desenvolvimento do trabalho envolveu uma revisão crítica da bibliografia e pesquisa documental. Buscou-se
informações em livros, revistas, jornais, sites e todo tipo de publicação especializada relacionada ao tema,
tanto impressa como virtual, dentre eles indicadores sociais divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) e pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, os quais foram de suma
importância para a base teórica do trabalho. Inicialmente, realizou-se um levantamento de publicações de
diversos autores sobre o tema abordado em diferentes bibliotecas e sites.

Após a revisão crítica da literatura sobre pesquisas e teses desenvolvidas sobre o tema, buscou-se analisar e
questionar a responsabilidade social na Engenharia Sanitária e Ambiental, com base nos modelos teóricos,
propondo, como contribuição, uma forma inovadora de avaliação quanto ao mesmo, como benefício à
melhoria das ações promovidas por esta área.

O COMPROMISSO SOCIAL DA ENGENHARIA SANITÁRIA E AMBIENTAL


Durante séculos, o homem desenvolveu técnicas empíricas que evoluíram, a fim de solucionar problemas que
dificultavam a vida humana ou como forma de melhorar as condições de bem-estar. O fato é que com o
engrandecimento e aperfeiçoamento da racionalidade humana, a Engenharia cresceu norteada por inúmeras
tecnologias, lançando-as na sociedade de forma inconsciente.

Desta forma, entender, julgar e agir quanto a real relação entre Engenharia e sociedade é importantíssimo, no
intuito de que a engenharia seja aperfeiçoada, não tecnicamente, mas que adquira uma face humanística
(FERRAZ, 1983). Nessa relação estão em jogo relações humanas e atitudes culturais que podem ser
fragilizadas ou extintas, a minimização de problemas gerados pela diferenciação das classes sociais e a
integridade do ambiente, ou melhor, da biosfera.

O compromisso de qualquer área seja ela econômica, científica, social ou outra, para com a comunidade deve
existir sempre, pois é no meio dela que as interferências são feitas e as conseqüências são refletidas. O
compromisso não deve ser visto como uma obrigação, mas como parte imprescindível de uma atividade, ou

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um sentido para a mesma, que esteja sendo realizada tanto por um profissional como por uma empresa. Assim,
como existe o compromisso econômico de uma empresa em melhorar a economia de uma localidade ou do
próprio país, há o compromisso ambiental, que norteia a atuação das pessoas, empresas e comunidade em prol
da preservação da natureza, ou uma interação equilibrada com a mesma.

O compromisso social assume dimensões gigantescas quando relacionada às atividades humanas, pois os
reflexos positivos são visivelmente notados, seja na melhoria da qualidade de vida das pessoas como também
na minimização dos problemas sociais.

A Engenharia por si só é uma arte, e quem a pratica é um artista, pois deve atuar, mediar e sempre fazer
intervenções novas na comunidade (FERREIRA, 2001). Entretanto, a questão está nas intervenções, ou
melhor, nas realizações da Engenharia, para que a mesma não gere erros que aumentem as discrepâncias
sociais de uma localidade. É interessante notar, que na maioria das vezes a Engenharia assume diversos
compromissos, seja ele econômico e político, mas ausenta-se do compromisso maior que é o social. Isso pode
ser justificado num país subdesenvolvido como o nosso, pois o interesse do mesmo é aumentar o número de
projetos de grande porte, com grande valor econômico envolvido na execução, num limitado intervalo de
tempo, mas que não influem no meio social diretamente (BOOF, 2009).

A Engenharia Sanitária e Ambiental avança num sentido social maior que as outras engenharias pelo fato de
estar intimamente relacionada à “melhoria” do bem-estar físico, mental e social das pessoas através de projetos
ambientais e de saúde pública. Mesmo assim, como qualquer outra área, ela corre sempre o risco de ser
inadimplente com a comunidade, mas é claro que isso dependerá de quem detêm os meios transformantes,
sejam eles privados ou públicos.

Quando nos referimos à comunidade, há sempre quem associe com um meio, onde vivem pessoas de baixa
renda, sem expectativas e com as mínimas condições de vida. Contudo, o termo comunidade, induz a
sinônimos como comunhão, união e participação. É pouco usual, ao contrário do termo sociedade, que
amplamente citado, e tem uma origem mais voltada às correntes sociológicas. No geral, o que nos interessa
aqui é ver a comunidade, não como carente, mas como um meio em que as pessoas convivem umas em prol
das outras, onde há a participação, o diálogo e a discussão afim de que haja sempre melhoria no modo de viver
dos mesmos. Partindo desse conceito de comunidade podemos investigar qual a verdadeira relação, ou que
deveria se estabelecer com a Engenharia Sanitária e Ambiental.

Assim, como nas outras engenharias, a Engenharia Sanitária e Ambiental possui um pacote de tecnologias,
oriundas de inúmeras pesquisas científicas que contribuem para a caracterização da mesma. O que é realmente
instigante é como esses recursos são utilizados para solucionarem os problemas de uma comunidade como
abastecimento e qualidade da água, tratamento de esgoto e resíduos sólidos, controle de doenças e preservação
de recursos naturais. Será que tais tecnologias estão sendo usados conscientemente e são úteis?; será que a
comunidade está satisfeita ou as decisões tomadas foram debatidas com a mesma?; são indagações como essas
que fazem parte na análise do compromisso social da Engenharia Sanitária e Ambiental.

Segundo o Código de Ética Profissional do Engenheiro, do Arquiteto e do Agrônomo, estabelecido pelo


Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia é responsabilidade do engenheiro promover o bem-
estar físico, social e mental da comunidade, respeitando as diferenças culturais e sendo receptivo à mesma
(CONFEA, 2002). Para que isso realmente aconteça, os engenheiros devem ser receptivos ao diálogo com as
pessoas que convivem numa comunidade, para que assim conheçam a realidade da mesma, as necessidades e
os interesses. Dessa forma, uma ação de Engenharia Sanitária e Ambiental poderá ser construída tendo-se a
garantia de que os resultados positivos serão maiores, não só em termos de ambiente e saúde, mas um
decréscimo em problemas inter-relacionados a este, como marginalização, analfabetismo ambiental e
desemprego. Ações com compromisso social, produzidas por tal Engenharia, tornam o ambiente salubre e
agradável de viver, incita os moradores a buscarem novas fontes de renda ambientalmente corretas e
impulsiona a busca pelo conhecimento.

DESAFIOS PARA ATITUDES SOCIAIS NA ENGENHARIA SANITÁRIA E AMBIENTAL


O complexo emaranhado de necessidades e problemas a serem formulados e solucionados que contorna os
vários segmentos da sociedade implica em desafios para as diversas áreas profissionais de atuação humana.
Hoje o principal tema norteador que dificulta atitudes sociais na Engenharia Sanitária e Ambiental são as
indagações e contradições quanto à definição e aplicação do termo desenvolvimento sustentável. Segundo

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Ferreira (2001), “desenvolvimento sustentável é o processo de desenvolvimento econômico em que se procura


preservar o meio ambiente levando-se em conta os interesses das futuras gerações”. Uma outra formulação é
sugerida por Boff (2005), quanto a tal tipo de desenvolvimento: “capacidade que um ecossistema possui de
incluir a todos, de manter um equilíbrio dinâmico que permita a subsistência da maior biodiversidade possível,
sem explorar ninguém”. Por isso que a utilização do termo desenvolvimento sustentável pode torna-se uma
armadilha dentro do campo de atuação da Engenharia Sanitária e Ambiental. Assim, a escolha por seguir a
concepção de um ou outro autor, poderá definir realmente o tipo de Engenharia que se pretende trilhar, uma
que propõe equilíbrio e inclusão da coletividade ou outra que condiz com as diretrizes do sistema econômico
atual.

Quanto às ações na área ambiental os maiores desafios serão a utilização dos recursos hídricos, solo e ar de
forma equilibrada, a ampliação, conservação e manutenção de áreas de preservação ambiental, a proposição de
novos tratados, acordos e leis ambientais, a utilização de fontes alternativas de energia e educação ambiental.
Contudo, as aplicações destas políticas estão intimamente relacionadas com questões sociais como o aumento
da população que implicará numa maior produção de alimentos e evidentemente num maior uso do solo e
água; o problema do abastecimento e qualidade da água nas regiões semi-áridas; o uso indiscriminado dos
recursos naturais como fonte de subsistência e de renda pela população em geral, fato este favorecido pela
falta de conhecimento ou orientação e a exploração massiva e destrutiva do ambiente por algumas entidades
científicas e empresas, por exemplo.

Para a Engenharia Sanitária e Ambiental, o desafio está nas pesquisas e projetos direcionados às formas de
uso, proteção, revitalização e cuidado com o solo para que ele possa ser adequadamente utilizado, evitando
assim problemas como desgaste e perda de nutrientes essenciais a flora natural, oriundos de ações como a
monocultura e queimadas, ainda muito freqüentes em todo o país e problemas de impermeabilização e
drenagem de águas pluviais. Com vista à alteração climática do planeta o manejo do solo interfere diretamente
na temperatura da biosfera, o que implicará nas condições de bem estar da população em geral.

Apesar de nosso planeta ser coberto por aproximadamente, 71% de água, a água disponível e própria para
consumo e agricultura apresenta porcentagens inferiores a 1% do total de águas do planeta (BARROS, 2002).
Como a água é o principal recurso envolvido nas políticas de saneamento básico, recai o desafio de garantir
água para todos, isso é um compromisso social, por meio do uso de tecnologias que simplesmente não
resolvam o problema, mas que estejam acima de tudo a favor do homem e sejam ambientalmente corretas.
Buscar criar e reformular sistemas de esgotamento sanitário e tratamento de água, para um melhor
reaproveitamento da mesma, com garantia de qualidade, mínimos impactos ambientais e custos é um dos
grandes desafios para o século XXI dentro deste campo da Engenharia Sanitária e Ambiental.

Para tal Engenharia também há o grande desafio em estar conciliando projetos e respeito à legislação
ambiental, que envolve resoluções e normas, critérios, punições e limitações à todo tipo de ação que
prejudique todo o ambiente como um todo. As ações e áreas de atuação da Engenharia Sanitária e Ambiental,
quanto à questão legislativa, devem ser direcionadas principalmente pelo artigo 225 da Constituição Federal
Brasileira (1988): “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, de uso comum do povo e
essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e
preservá-lo para as presentes e futuras gerações” (BRASIL, 1988). Contudo, a legislação ambiental de forma
alguma pode tornar-se estática, sem evolução e novas proposições, caso contrário cairá no desuso e
desrespeito por aqueles que realmente devem gerir seus projetos pautados na mesma. Esta mesma Engenharia
não deve ser somente receptiva ao que é definido pelo Ministério do Meio Ambiente, dentre os seus vários
órgãos, mas têm o desafio de ser incentivadora e moderna na idealização de novas leis ou reformulação das já
existentes; dessa forma, a Engenharia Sanitária e Ambiental estará assumindo a responsabilidade legal, que é
um dos pré-requisitos para alcançar a responsabilidade social como um todo (CARROLL, 1999).

Há ainda o desafio que interliga todas as intervenções propostas e elaboradas por tal Engenharia, que surge
com o intuito de mudar, resgatar e viabilizar o uso dos recursos naturais de forma consciente, reduzindo o
consumo e ampliando responsabilidades: a educação ambiental (SOUZA, 2006). A educação ambiental é
propulsionada por qualquer projeto de saneamento, águas e meio ambiente, de forma direta ou indireta,
quando há a tentativa de educar, informar e propor novas atitudes para aqueles que serão os reais beneficiários
de tal projeto, tornando o resultado do mesmo mais gratificante e com maior êxito. Contudo, a ausência de
metodologias adequadas e atividades propulsoras de sensibilização ambiental, antes, durante e ao final, deixa a
desejar a execução dos reais objetivos dos projetos da Engenharia Sanitária e Ambiental. Assim, torna-se
grande o obstáculo de alcançar o compromisso social, mas não intransponível, uma vez que havendo

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informação, capacitação, senso crítico e interesse pelo bem-estar físico, mental e social de todos, a Engenharia
Sanitária e Ambiental pode ser ainda humanizada.

Atualmente, promover a saúde não significa necessariamente idealizar um ambiente isento de doenças, mas
um ambiente salubre que promova o bem-estar do homem em todos os aspectos, além de proporcionar
garantias de que aquelas boas condições sejam à longo prazo (GOMES, 1995). A Engenharia de Saúde Pública
ou Engenharia Sanitária sempre defrontou-se com esse desafio, mas na maioria das vezes, privilegia nas suas
ações somente a interrupção ou dificultação da proliferação de agentes hospedeiros e etiológicos (agente
biológico causador de doenças), quando refere-se ao controle de vetores; entretanto, somente tais atitudes não
tem valia diante das demandas atuais.

A discrepância existente nas várias regiões do País, quanto aos serviços de saneamento que implicam
diretamente na saúde pública, é descrito em várias pesquisas realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) e que reforçam cada vez mais a necessidade de assumir um maior compromisso social com
as regiões desprivilegiadas. Segundo dados do IBGE (2000), o esgotamento sanitário é menor nas regiões
Norte (9,64%) e Nordeste (25,11%); já em relação a cobertura do abastecimento de água, também nas regiões
Norte e Nordeste tem os menores níveis de cobertura, respectivamente, 48,01% e 66,39%.

Quadro 1 – Domicílios particulares permanentes servidos com abastecimento de água e esgotamento


sanitário no Brasil (ligados à rede geral)
Serviço % Número
Abastecimento de Água 77,82 34.859.393
Esgotamento Sanitário 47,24 21.160.735
Fonte: IBGE, Censo 2000.

As ações de saneamento, definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como “controle de todos os
fatores do meio físico do homem que exercem ou podem exercer efeito deletério (que prejudica) sobre o bem
estar físico, mental e social”, exercem papel preventivo na saúde pública ficando a cargo de órgãos públicos
ou concessionárias estaduais a execução de tais ações (BRASIL, 2004). Os projetos, pesquisas e atividades das
Engenharia Sanitária e Ambiental devem estar principalmente orientados para esta área uma vez que ainda há
deficiências nas políticas de saneamento aplicadas justificado pelo fato de ficarem somente adsorvidas na
problemática, sem adentrar realmente nas causas e origens, e o mais complicado: não lidam corretamente com
as barreiras culturais, que muitas vezes influenciam decisivamente no resultado (GOMES, 1995).

Por fim, e não menos importante é a formação técnica, intelectual e sobretudo social dos engenheiros
sanitaristas e ambientais. Pelo fato de a área de serviços de saneamento está em ascensão na última década,
principalmente impulsionada pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC, 2009) do Governo Federal,
a necessidade de profissionais nesta área, nas diversas especialidades é crescente, o que implica na formação
de inúmeros engenheiros, num limitado intervalo de tempo pelas instituições de ensino (FERRAZ, 1983). Isso
implica numa formação que apresenta profunda carência quanto ao entendimento, estudo, análise e resolução
de questões sociais. Apesar de os preceitos consignados no Código de Ética Profissional, instituído pelo
CONFEA, que regula o exercício ético da profissão, referir-se à responsabilidade técnico-administrativa, civil,
penal ou criminal e trabalhista é necessário expandir o conceito de responsabilidade dentro da formação do
engenheiro para uma visão mais humanística (CONFEA, 2003). As perspectivas só serão positivas quanto às
ações propostas por esses engenheiros, quando houver uma reformulação nos cursos de Engenharia Sanitária e
Ambiental, por meio de estudos que tentem integralizar o senso humanístico e o compromisso social nos
componentes que caracterizam o curso em si. Caso contrário, políticas ineficientes serão constantemente
aplicadas por profissionais sem compromisso social e incapazes de inter-relacionar sua área em prol dos
interesses da sociedade.

CARACTERÍSTICAS DOS PROJETOS DE SANEAMENTO, ÁGUAS E MEIO AMBIENTE


Todas as ações que visam buscar interferências e modificações sejam elas na sociedade ou no meio ambiente,
em que os beneficiários serão o coletivo ou empresas privadas em que os beneficiários serão um grupo
minoritário, envolve projetos. Entende-se por projeto a realização de um trabalho dinâmico, que envolve
conhecimentos técnicos e científicos, os quais quando, bem estruturados e organizados resultam na solução de
um problema (BAZZO; PEREIRA, 2000).

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Na Engenharia Sanitária e Ambiental, os projetos são norteados por questões ambientais ou de saúde pública,
ou seja, problemas que envolvem saneamento ambiental. O princípio básico para a concepção de um projeto
na Engenharia é a busca de resolver a insatisfação de um grupo quanto a algo que se tornou obsoleto ou que
esteja trazendo prejuízos para o mesmo; ou melhor, buscar identificar uma necessidade e resolve-la (BAZZO;
PEREIRA, 2000).

Quanto à área de saneamento e ambiental, as necessidades mais norteadas por esta é a busca de soluções para
Abastecimento de água, Esgotamento sanitário, Limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos, Manejo de
águas pluviais, Controle de vetores e Qualidade do solo e do ar. Nota-se assim que a elaboração de um projeto
necessita de etapas cuidadosamente trabalhadas, discutidas e reformuladas constantemente, afim de obter-se a
solução mais equilibrada e satisfatória para uma necessidade.

Segundo Bazzo e Pereira (2000), “não existe um padrão único e absoluto para o processo de projeto e nem
uma seqüência de passos aceita universalmente”. Contudo, segundo os mesmos autores o ideal seria:
1 Identificação de uma necessidade:
Definição do problema.
• Coleta de informações.
• Concepção.
• Avaliação.
• Especificação da solução.
2 Comunicação do projeto.

Todo projeto deve resultar em algo, que pode ser um produto, sistema, processo ou serviço, que possua
viabilidade comercial, caso o beneficiado seja uma entidade privada, ou que possua uma relação
custo/benefício, caso seja uma entidade pública (BAZZO; PEREIRA, 2000).

Deve-se ressaltar contudo que o processo de elaboração à conclusão de um projeto, envolve inúmeras partes
(seres vivos e meio ambiente) que poderão ser prejudicados direta ou indiretamente, durante o andamento do
mesmo. Assim, durante um trabalho de Engenharia Sanitária e Ambiental, tais conseqüências poderão ser
minimizadas ou inexistentes quando Estudos de Impacto Ambiental (EIA) e Relatórios de Impacto Ambiental
(RIMA) são realizados pautados na Ética, de acordo com a legislação ambiental vigente.

Após a identificação da necessidade é imprescindível definir o problema, que é mais específico e que guiará
todas as etapas do projeto. Esta fase é bastante importante, pois nela são definidos os objetivos, as idéias são
lançadas, analisadas e reavaliadas e onde os interesses estarão em jogo. A formulação do problema com sua
possível solução devem ser bem formulados, a fim de se evitar um trabalho inútil, que resulte em desperdício
de tempo, de verbas e que fuga de sua real finalidade.

Um fato intrigante e que é importante ressaltar, pois foge dos princípios éticos na Engenharia Sanitária e
Ambiental é quando a delimitação do problema é proposta afim de beneficiar empresas (empreiteiras e
construtoras, por exemplo), superfaturando o projeto através de soluções que não são socialmente corretas.
Desta forma, ocorre um surpreendente desperdício de verbas, que muitas vezes em projetos públicos causam
déficit nas contas públicas.

Podemos comentar superficialmente, quanto ao Projeto de Integração da Bacia do São Francisco, que está
incluído no Programa do PAC e que envolve investimentos de R$ 6,6 bilhões, segundo dados do Ministério da
Integração Nacional (BRASIL, 2009). Segundo as diretrizes básicas para a elaboração de um projeto, proposta
por Bazzo e Pereira (2000), nota-se que a solução proposta para o problema de abastecimento de água na
região semi-árida nordestina não é simples. É de grande importância, mas envolve tempo e disponibilidade de
recursos gigantescos para a viabilização da obra, que pode tornar-se insatisfatória quanto ao resultado final.
Como todo projeto envolve um processo de maturação, a participação de todos que serão afetados direta ou
indiretamente é necessário, a fim de fazer-se constantes reavaliações, proposição de idéias mais simples,
minimização de erros, gastos e danos principalmente ao meio ambiente e a sociedade.

Em órgãos municipais, estatais e federais, a responsabilidade maior dos projetos que envolvem intervenções
no meio ambiente e saúde pública recai nos profissionais que comandam estas áreas, e em alguns casos são
pautados por interesses políticos. Assim, os engenheiros sanitaristas e ambientais que trabalham nesses órgãos
devem ser responsáveis socialmente com a profissão que exercem, pois recai sobre estes a função de planejar,
fiscalizar e educar a coletividade, propondo políticas simples, úteis, tecnológicas e acima de tudo humanas.

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Já em empresas privadas, o engenheiro sanitarista e ambiental tem campo de atuação limitado dependendo da
hierarquia a que estes se incluem na empresa em que trabalham. Esse fato contribui negativamente para a
sociedade, pois os engenheiros que são responsáveis pelo projeto não participam da estruturação e formulação
dos objetivos e etapas do mesmo. Isso contribui para que no projeto inexista responsabilidade social, ou seja,
preocupação com os impactos às pessoas e ao meio ambiente.

OS MODELOS TEÓRICOS DE RESPONSABILIDADE SOCIAL


A dinâmica da sociedade evoluiu bastante quanto à todas formas de desenvolvimento, tanto no âmbito
econômico e empresarial, quanto ao social. Entretanto, o regime capitalista, que regula as atividades da
sociedade, prioriza o crescimento financeiro e melhora o bem estar físico, mental e material de uma minoria
detentora dos meios de produção. A discrepância que foi gerada entre pobres e ricos, gerou desigualdades
alarmantes como pobreza, miséria e fome que deterioram a qualidade de vida dos menos favorecidos.

A demanda de problemas gerados tornou-se crescente ao longo das décadas e as soluções para os mesmos
tornaram-se de grandes proporções ao ponto de serem insustentáveis para os Estado. Nesse contexto, os
geradores diretos e indiretos dos problemas pertinentes à sociedade recomeçaram a rever suas atitudes, quanto
a minimização dos efeitos de suas ações, que refletiam-se negativamente na vida humana. Em meados da
década de 70 a 80, ocorreu a ascensão de um termo, que hoje tornou-se comum para qualquer empresa ou
profissional, independente da área de atuação: responsabilidade social (SOUZA, 2006).

Segundo Ferreira (2001), o termo responsabilidade moral significa situação de um agente consciente com
relação aos atos que ele pratica voluntariamente, assemelha-se com o termo responsabilidade social, que é
usualmente mais citado. Entretanto, a definição deste termo não é limitada, pois hoje há inúmeros modelos
teóricos propostos, com linhas de argumentação distintas e que tentam explicar os fundamentos da
responsabilidade social, a quem ela deve envolver, de que forma, quando e aonde, para que o mesmo seja
caracterizado como tal. Contudo, deve-se ressaltar que a aplicação do termo responsabilidade social não é
restrito somente a empresas, mas deve ser aplicado a qualquer profissional ou cidadão, afim de realizar uma
atividade restrita ou de grande interesse para a coletividade quanto aos resultados.

Segundo o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social (2009), organização não governamental
com a missão de mobilizar, sensibilizar e ajudar as empresas a gerir seus negócios de forma socialmente
responsável, a responsabilidade social empresarial pode ser definida da seguinte forma: “forma de gestão que
se define pela relação ética e transparente de uma empresa com todos os públicos com as quais ele se relaciona
e pelo estabelecimento de metas empresariais que impulsionam o desenvolvimento sustentável da sociedade,
preservando recursos ambientais e culturais para as gerações futuras, respeitando a diversidade e promovendo
a redução das desigualdades sociais”. Esse conceito empresarial tem sido bastante discutido e tornou-se o fio
mediador de inúmeras empresas na adição de ações sociais no cronograma de atividades da mesma.

Entretanto é importante citar duas vertentes teóricas bastante atuais, mas que a todo momento sofrem
reformulações, são distintas, contudo tem sido utilizadas na elaboração dos critérios de responsabilidade
social, tanto de profissionais como das empresas.

O modelo teórico proposto por Carroll (1979), apresenta a responsabilidade social subdividida em vários
outros tipos de responsabilidade, mas quando aplicada torna-se una e indiferenciável. De acordo com Carroll
(1979), os tipos de responsabilidade social são:
1. Responsabilidade Econômica.
2. Responsabilidade Legal.
3. Responsabilidade Ética.
4. Responsabilidade Filantrópica.

A responsabilidade econômica refere-se à capacidade de a empresa ser sempre lucrativa ou quanto ao


profissional a capacidade de tomar as decisões mais sensatas em relação à melhoria no crescimento da
produção ou na escolha de materiais de baixo custo, ambientalmente corretos e de boa qualidade, por exemplo.
Na responsabilidade legal, deve haver respeito mútuo aos imperativos morais que condizem com a legislação
social, ambiental e ético-profissional; a responsabilidade ética, refere-se a seguir as orientações definidas pelo
Código de Ética-Profissional do engenheiro, arquiteto e agrônomo, caso contrário o indivíduo estará sujeito as
penalidades previstas na Lei n. 5.194/66, que estabelece em seus vários artigos os procedimentos que deverão
ser assumidos para a fiscalização e julgamento das infrações à tal Código; e, por fim, na responsabilidade

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filantrópica deve haver a contribuição para a comunidade e na qualidade de vida.

Já o modelo teórico proposto por Curado (2002), a atuação socialmente responsável segue três padrões: a
responsabilidade social como IMAGEM, onde a preocupação dos gestores está focada no marketing e no
público externo; a responsabilidade social como NEGÓCIO, que foca os ambientes interno e externo e na
estratégia e a responsabilidade social como CIDADANIA, onde a preocupação da empresa extrapola a atuação
direta e indireta da empresa e engaja em movimentos sociais.

Todos os modelos teóricos propostos mostram concepções e diretrizes distintas para a responsabilidade social
e possuem fundamentações interessantes que auxiliam na identificação de interesses ou não de um profissional
ou empresa numa ação social.

PROPOSTA DE AVALIAÇÃO DA RESPONSABILIDADE SOCIAL DA ENGENHARIA


SANITÁRIA E AMBIENTAL
A avaliação é parte imprescindível no processo de concepção, elaboração e execução de uma idéia ou projeto
colocado em prática. Ela deve ser realizada no intuito de identificar os aspectos positivos e negativos ocorridos
antes, durante e depois da execução de uma proposta a fim de que todas as análises, questionamentos e
reformulações necessárias sejam feitas para aperfeiçoá-lo.

Na maioria das vezes, os projetos de Engenharia privilegiam em suas avaliações somente os critérios técnicos,
com a finalidade de identificar as possíveis falhas e erros nas estruturas, materiais utilizados e cálculos feitos.
Entretanto, a proposta apresentada propõe uma avaliação não simplesmente técnica, mas que envolva os
aspectos sociais, políticos e culturais no qual o projeto está imbricado.

A proposta para avaliação da responsabilidade social na Engenharia Sanitária e Ambiental se baseia nas
vertentes teóricas de Carroll (1979). Nesse modelo a responsabilidade social não é considerada como uma
idéia central no planejamento estratégico de um projeto, empresa ou profissional, mas como uma forma de
compromisso social voluntária interligada à todas as etapas do mesmo. Segundo Carroll (1979), existem vários
tipos de responsabilidade social: econômica, legal, ética e filantrópica, que quando exercidas de forma una,
idealizam o tipo de responsabilidade social que almeja a igualdade e o bem estar físico e mental de todos.

Para a avaliação são propostos critérios que envolvem desde o projeto, o público envolvido direto e
indiretamente, o meio ambiente, a saúde, o governo e a transparência, baseados nos critérios indicadores de
responsabilidade social utilizados pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social (2009).

1. O PROJETO
⎫ A identificação da necessidade (o que será solucionado) envolve estudo detalhado,
quanto ao meio que será interferido e as tecnologias que serão empregadas?
A definição do problema está limitada a soluções superficiais, que resolvem o problema
temporariamente ou extingue os fatores que causam insatisfação?
A concepção do projeto envolve busca por informações, sejam elas entrevistas, revisão
bibliográfica, estudos de caso e participação da comunidade?
A solução proposta em termos técnicos é viável, duradoura, envolve custos consideráveis e em
termos sociais é de interesse ou coloca em risco a comunidade?
A divulgação do projeto realizada utilizando meios de comunicação adequados para a
comunidade, receptiva, agradável e satisfatória para todos que serão afetados?
O projeto beneficia e valoriza a preservação e manutenção do ambiente e a promoção da saúde
pública?
Há adoção de métodos, técnicas e processos que considerem as peculiaridades locais e
regionais no qual está sendo executado o projeto?
2. PÚBLICO INTERNO
As pessoas envolvidas com a mão-de-obra do projeto são aptas para o exercício da
atividade, têm direitos garantidos pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e possuem
ligação com os sindicatos de suas respectivas categorias?
Os trabalhadores receberam treinamento e orientação específicos quanto à manutenção da saúde,
segurança e gestão ambiental?
Há respeito mútuo e solidário entre os envolvidos direto e indiretamente, independente da

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hierarquia profissional, dentro da estrutura do projeto?


O pessoal interno é incentivado a melhorar sua formação através de especializações dentro da
área de atuação do projeto e a alfabetização dos que não tiveram oportunidade de cursar as séries
fundamentais?
3. COMUNIDADE
A comunidade é a principal beneficiada pelo projeto por meio da resolução de
problemas e insatisfações pertinentes à mesma, relacionado à questões ambientais e de saúde
pública?
Os impactos gerados à comunidade com relação à aplicação do projeto são de baixo impacto em
relação aos objetivos finais do mesmo, como desapropriação de áreas, poluição sonora, resíduos
gerados, riscos à vida, dentre outros?
A comunidade participou de todas as etapas de execução do projeto, desde a concepção até a
avaliação dos resultados finais assim como prevê a Lei n. 11.445/2007, que trata do controle
social dos serviços públicos de saneamento básico?
A comunidade foi corretamente comunicada por meio de meios de comunicação e linguagem,
tanto verbal e oral, adequados à mesma?
A comunidade é valorizada no sentido da utilização da mão-de-obra da mesma ou incentivada a
buscar fontes de renda com os benefícios que o projeto há de proporcionar?
Há livre acesso da comunidade às informações sobre os serviços prestados, de direitos e deveres
que a que pode estar sujeito e ainda acesso ao relatório periódico sobre a qualidade da prestação
dos serviços?
4. MEIO AMBIENTE E SAÚDE PÚBLICA
O projeto envolve gestão ambiental (minimização da geração, reaproveitamento e
reciclagem de resíduos; uso eficiente a reuso de águas; reaproveitamento de materiais;
preocupação e medidas de prevenção e controle da qualidade do ar, excesso de ruídos e emissões
atmosféricas; manejo e cuidado com os recursos naturais disponíveis, dentre outros)?
Todas as atividades realizadas são pautadas na legislação ambiental, de forma a garantir a
integridade da fauna e flora e preservação de recursos naturais (recursos hídricos e vegetação
nativa)?
Há a existência de Estudos de Impacto Ambiental (EIA), Relatórios de Impacto Ambiental
(RIMA) e licenças ambientais realizadas ou emitidas de forma amplificada e pautados na ética?
A destinação final dos resíduos gerados durante a execução e logo após a conclusão do projeto
coloca em risco a comunidade, com a proliferação de vetores causadores de doenças?
Existe no projeto algum programa específico quanto à saúde pública, informando e contribuindo
para a educação da comunidade sobre as possíveis doenças que podem ser geradas se mantidas a
insalubridade do ambiente e formas de prevenção?
Os sistemas de saneamento básico (abastecimento de água, esgotamento sanitário, drenagem de
águas pluviais e de resíduos sólidos) são condizentes com as necessidades da comunidade e
consideram a cultura local?
5. GOVERNO E TRANSPARÊNCIA
Há parcerias junto ao governo, instituições de ensino ou pesquisa quanto a apoio
financeiro e às pesquisas que contribuam com o desenvolvimento ou melhoria da área?
Há transparência junto ao governo quanto à impostos, licitações, licenças e relatórios que
permitem a execução do projeto de saneamento básico?
O projeto, caso tenha sido aprovado numa licitação para prestação de serviços públicos de
saneamento básico, está utilizando os métodos, técnicas e processos informados na apresentação
do mesmo?

CONCLUSÃO
A implementação e avaliação da responsabilidade social na Engenharia Sanitária e Ambiental mostra-se
imprescindível diante das necessidades atuais e futuras da sociedade em suprir as lacunas humanísticas dos
projetos. Assim, em vista da promoção da qualidade de vida, a proposta apresentada no trabalho torna-se uma
contribuição quanto a este aspecto. Caso não haja uma linha de pesquisa voltada para o estudo das relações
sociais nos projetos e do ser humano em si, de que forma as intervenções tecnológicas o ajudam ou
prejudicam, o campo de atuação da engenharia tornará-se estagnado em vista de supervalorizar a técnica.
Apesar de ser uma área que envolve estudos de caráter exato, os projetos de saneamento ambiental são
concebidos por seres humanos e em prol dos mesmos. Por isso, que a elaboração de um projeto ou as ações de

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um engenheiro não deve envolver somente a responsabilidade técnica, pois os impactos gerados pelas
intervenções da Engenharia Sanitária e Ambiental são de grandes dimensões.

O ideal seria a aplicação da avaliação a ser realizada, desde a fase inicial à fase final, em projetos de
saneamento básico, águas e meio ambiente em execução, com o objetivo de que todas as modificações,
adições e exclusões de critérios e tecnologias necessárias sejam feitas no decorrer do processo e para que se
obtenha um resultado satisfatório. Pode-se ampliar a proposta da avaliação por meio de estudos de caso
específicos em diferentes cidades e regiões ou em empresas estatais e concessionárias prestadoras de serviços
de saneamento ambiental, por exemplo, sempre respeitando o contexto e as diferenças socioculturais,
econômicas e ambientais de cada local e da sua população. Pode-se ter ainda em vista estudos para a inserção
da Responsabilidade Social nos currículos dos cursos superiores de Engenharia, em especial a Sanitária e
Ambiental, de forma interdisciplinar e que complete todos os componentes que caracterizem o curso; como
também estudos para a criação de uma certificação dos projetos, como uma forma de incentivo para a inclusão
da responsabilidade social nos mesmos.

Conclui-se, portanto, que a engenharia historicamente, além de aplicar conhecimentos científicos e empíricos,
tende a evoluir, transceder e ampliar suas ações, afim de manter-se atual e condizente com o real perfil e
necessidades da sociedade. Assim, além de criar estruturas, dispositivos e processos, ela vê-se desafiada a
encontrar meios de humanizar, incentivar e promover ações com compromisso social que ajudam a minimizar
as discrepâncias que geram injustiças e desigualdades entre os vários setores da sociedade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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