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Tereza Batista, não tão cansada

Marcel Fernando da Silva

O objetivo do presente ensaio é abordar duas relações existentes entre o poema


épico Ilíada (séc. VIII), de Homero e o romance Tereza Batista cansada de guerra (1972),
de Jorge Amado. É possível observar uma proximidade entre os dois textos no que se
refere ao heroísmo e a influência sobrenatural que permeiam os enredos.

A Ilíada narra variados acontecimentos ocorridos durante o último ano da guerra


de Tróia. Aquiles, o mirmidão, é o personagem que escolhi para relacionar com a
protagonista amadiana. Ambos são figuras heroicas, cada qual a seu modo.

Ainda que distante da forma como o texto épico fora construído, podemos
perceber similaridades temáticas que aproximam a protagonista de Jorge Amado das
façanhas do campeão homérico. Essas peculiaridades, aliadas à intervenção dos deuses
africanos, criam um paralelo entre os dois heróis.

Tereza Batista cansada de guerra é um romance escrito por Jorge Amado e


lançado em 1972. A obra traz uma narrativa sobre as mulheres. Uma mulher em
específico. Uma heroína. A estrutura literária revela digressões, demonstrando que o
narrador onisciente tem muitas lembranças sobre a vida de Tereza, que se transformam
em vários cordéis.

Essa estratégia leva o leitor a crer que a história seja verdadeira. Talvez não seja,
mas Tereza representa a essência de algumas mulheres e é um símbolo da luta feminina
no nordeste brasileiro. A personagem conhecida, internacionalmente, é homenageada em
1977 pelo Clube Feminista Italiano, situado em Milão e que adotou o nome de “Casa de
Tereza Batista”.

Tereza tornou-se órfã ainda criança e a pobreza foi o fator determinante para que
sua tia Felipa a vendesse para o Capitão Justiniano Duarte da Rosa – o Capitão Justo ⎼
que a transformaria em escrava sexual, após estuprá-la. No decorrer da trama, a jovem se
apaixona por Daniel, mas o romance é descoberto pelo seu algoz. Eles são confrontados
pela fúria do Capitão e, para defender seu amante, Tereza mata Justiniano. Daniel se
exime de qualquer responsabilidade e a abandona.

Ela acaba sendo presa, mas graças a Emiliano Guedes, um homem rico da região,
é liberta. Com ele viverá uma relação íntima, repleta de gratidão, que durará seis anos,
até Emiliano morrer, deixando-a novamente, em uma situação de vulnerabilidade. A
partir de então, a protagonista decide que não se entregaria a um relacionamento, se não
fosse por amor.

Tereza viaja, então, para Sergipe e a prostituição torna-se sua forma de sustento.
Em dado momento do enredo, ela lidera uma campanha contra a varíola no interior do
Estado, quando até os médicos fogem da doença. Em Aracaju, conhece o pescador
Januário Gereba – Janu – por quem se apaixonou e viveu uma história de amor. No
entanto, ele era casado e não poderia seguir com Tereza, retornando para a Bahia, onde
vivia sua mulher doente.

Com a partida de Janu, ela passa por novos percalços e vai para Salvador. Nesta
localidade, lidera um movimento de prostitutas, a Greve do Balaio Fechado. Depois de
algum tempo, conhece um homem com quem decide se casar, mas Januário Gereba a
reencontra, dando o desfecho da narrativa.

Jorge Amado retrata o submundo onde Tereza e seus amigos viviam. No universo
dos excluídos, as prostitutas têm lugar de destaque, bem como, os artistas sem fama e os
trabalhadores braçais. Em suma, um recorte da classe pobre do Brasil. A valorização
desses tipos sociais é uma característica marcante nas obras do autor.

Não há uma linearidade cronológica, comum em outros romances, pois o narrador


heterodiegético salta no tempo por meio de suas memórias, para compor as cinco partes
da narrativa. Esse narrador busca informações com os demais personagens, que por sua
vez, assumem o papel de narradores secundários. Tais personagens contam as histórias
que viveram ou ouviram falar a respeito de Tereza Batista, tentando atestar os fatos como
sendo verídicos, criando um efeito real. Eles entram na consciência dela, revelando assim,
uma capacidade de entender cada pensamento, sentimento ou desejo da personagem,
ainda que seja a partir de suas próprias perspectivas e vozes.

As duas obras relacionadas oferecem material análogo para crítica literária e


observação dos universos retratados num aspecto diacrônico. Compara-se, então, não
com o objetivo de selecionar elementos bons ou ruins presentes nos textos, mas, antes de
tudo, para reconhecer as estratégias de (re)construção de estruturas e temáticas. Tânia
Carvalhal elucida em seu livro Literatura Comparada (2006, p. 54-55) que as produções
atuais têm um caráter inovador e reconstrutivo baseado em obras anteriores:

Modernamente o conceito de imitação ou cópia perde seu caráter pejorativo,


diluindo a noção de dívida antes firmada na identificação de influências. Além
disso, sabemos que a repetição (de um texto por outro, de um fragmento em
um texto, etc.) nunca é inocente. Nem a colagem, nem a alusão e, muitos
menos, a paródia. Toda repetição está carregada de uma intencionalidade certa:
quer dar continuidade ou quer modificar, quer subverter, enfim, quer atuar com
relação ao texto antecessor. A verdade é que a repetição, quando acontece,
sacode a poeira do texto anterior, atualiza-o, renova-o e (por que não dizê-lo?)
o reinventa.

Alguns processos de recriação sofrem um deslocamento, como no caso da heroína


de Jorge Amado. De um lado temos Aquiles ⎼ homem, rico, livre, o eleito dos deuses ⎼
tendo seu destino traçado. O personagem encerra em si as características que o fazem um
ideal de homem grego. De outro lado temos Tereza Batista, multiplamente excluída ⎼
pobre, mulher, mestiça e presa à sua condição social. Porém, em dado momento da obra,
ela segura as rédeas da própria vida e passa a protagonizar sua história. Essa mudança de
estado a leva ao front das batalhas junto dos outros segregados. Sua liderança, agora, é
natural, espontânea e fruto de suas escolhas.

O autor desenha os contornos de uma mulher forte e determinada que apesar de


ter passado por situações cruéis, prefere arriscar sua segurança a viver submissa como o
patriarcado deseja. Suas iniciativas tornam-se uma força propulsora para os demais
personagens. Amado elabora uma guerreira valente, nascida na miséria e na dor, mas
incapaz de ficar indiferente ao sofrimento alheio.

No enredo, uma grande parte do povo brasileiro pode se ver representada. Suas
lutas estão descritas, seu cotidiano é simbolizado e a maneira como vivem é reverenciada
pelo autor. Suas vozes, finalmente, são ouvidas. Modernista, o literato utiliza a linguagem
coloquial, repleta de regionalismos e livre da Gramática Normativa, nas páginas de seus
livros, promovendo assim, uma interação entre a arte literária e a realidade vivida.

Também é possível compreender como Amado compôs uma personagem que


serviria de modelo para o povo. Baseando-se em conceitos advindos da cultura africana,
o autor enaltece a força da mulher nordestina que é representada como um arquétipo
humano a ser reverenciado. No excerto abaixo, a personagem é descrita como uma típica
heroína:

Mas, para tratar bexigoso, enfrentando fedor e o choro, as ruas


apodrecidas do lazareto, não basta a coragem desses valentes de
araque: além de culhões, é preciso ter estômago e coração, e só as
mulheres perdidas possuem tamanho competência, ganha no
exercer duro do ofício. Nas moléstias do mundo se acostumam ao
pus, no desprezo dos virtuosos, dos amargos e dos bem postos
aprendem quão pouco vale a vida e o muito que ela vale; têm a
pele curtida e um travo na boca, ainda assim não são áridas e
secas, indiferente ao sofrimento alheio ⎼ são valentes de
desmedida coragem, mulheres da vida, o nome diz tudo. Macho
naqueles dias virou maricas, levou sumiço; machidão só elas
tiveram, as putas, a velha e a menina. Se o povo de Muricapeba
dispusesse de dinheiro e de poder, ergueria na praça de Buquim
monumento a Tereza Batista e as mulheres à toa (...)quem se
levantou e fez frente a peste foi Tereza Batista ⎼ e a coragem dos
orixás, a beleza dos anjos e arcanjos, a bondade de Deus e a
maldade do Cão não serão por acaso somente reflexo da coragem,
da beleza, da bondade e da maldade da gente? (AMADO, 1972,
p. 200)

Em diversas passagens da narrativa, pode-se notar a presença constante dos deuses


africanos. Exu, Ogun, Oxóssi, Yansã, Yemanjá ou Oxalá atuam em defesa de seus fiéis.
Ao menos, é no que os devotos acreditam. O literato utiliza esse argumento na construção
da narrativa para destacar o modo como os descendentes dos africanos no Brasil entendem
a heroicização/divinização de seus ancestrais, que são, antes de mais nada, modelos de
conduta.
Os feitos dessas divindades atravessam o Atlântico durante a diáspora e fixam-se
no corpo social por meio das religiões de matriz africana. Esses seres divinos (ancestrais
divinizados) recebem títulos na África, referentes a sua atuação, qualidades ou
participação em determinados acontecimentos. Jorge Amado faz uso dessa lógica quando
dá a Tereza diversas alcunhas, pelas quais ela fica conhecida. Tereza Boa de Briga, Tereza
Acabou o Medo, Tereza Favo de Mel, Tereza de Omolu, Tereza Cansada de Guerra são
algumas das denominações pelas quais a protagonista é identificada.

Um desses epítetos -– Tereza de Omolu – refere-se a uma passagem do livro que


conta como a mesma enfrentara a bexiga negra (varíola), quando os médicos, com medo,
abandonaram a cidade de Buquim, onde ela estava. Os personagens religiosos afirmam
que Omolu a protegera:

Não estava Omolu montado no lombo de Tereza na cidade de


Buquim durante a epidemia de bexiga negra? Não foi ele quem
mastigou a peste com o dente de ouro e a pôs em fuga? Não a
designou Tereza de Omolu na festa dos macumbeiros de
Muricapeba? E então? Omolu veio brabo, aberto em chagas,
reclamar o seu cavalo. (AMADO, 1972, p. 346)

A personagem é constantemente associada com a Deusa dos ventos – Yansã – que


é, antes de tudo, uma guerreira. Suas histórias mantêm uma similitude. Yansã fora atacada
por seu tio, um homem muito mais velho, quando criança. No território Tepa (Tapa) ela
foi uma princesa e seus poderes sobrenaturais se manifestaram logo após o ocorrido. Ao
fugir para uma floresta, é perseguida pelo tio que desejava estuprá-la, porém aquele
homem é impedido no seu intento, quando um búfalo vermelho surge em seu caminho,
afugentando-o. O búfalo selvagem e colérico era Yansã, transfigurada na forma do animal
que se tornaria um de seus símbolos.

Talvez as histórias dessa Deusa tenham sofrido alterações ao longo dos séculos e
aquilo que hoje é tido como um fato sobrenatural, seja a forma que os povos daquela
região africana, encontraram para descrever sua protetora. A oralidade pode dar contornos
fantásticos à cenas inusitadas, tais quais a de uma menina que assume uma posição
ofensiva e feroz para se defender de um agressor. Podemos imaginar como seria fácil a
associação de tal feito com a transfiguração que é assumida no contexto religioso. Ainda
assim, Yansã continua sendo um exemplo para as mulheres daquela região e a
personagem Tereza encarna esse papel.

A protagonista amadiana ocupa um lugar semelhante ao das Deusas africanas.


Essas divindades mantêm uma função superior e instrutiva que promove o
empoderamento feminino, por serem arquétipos de força, consciência e respeitabilidade.
Tereza traduz essas qualidades em ações que lhe conferem proteção divina, a exemplo
dos campeões épicos. Ela e Aquiles são os eleitos dos deuses.

Os seres divinos atuam em seu favor, para que a mesma supere suas mazelas e
sirva de exemplo aos menos favorecidos, principalmente às mulheres. Assim como
Yansã, a Deusa guerreira, Tereza possui diversas características que a tornam fonte de
inspiração. Ela é valente, indômita e ferrenha em sua atuação. Jamais recua diante das
adversidades e influencia todos a sua volta a se rebelarem contra um sistema opressor,
que prima pela desigualdade.

Os yorubás (ou nagôs), uma das etnias africanas, por exemplo, vivem a
religiosidade no seu cotidiano, estabelecendo conexões com as divindades e
compreendendo o mundo segundo sua cosmogonia. Esse entendimento chega ao Brasil
com as pessoas que foram escravizadas e se enraíza no inconsciente da população. A
presença dos deuses e suas consequentes ações no mundo material têm lugar constante
no ideário local, principalmente na Bahia. Assim, na tentativa de retratar esse espaço,
Jorge Amado explora a crença dos personagens em seu romance.

O mesmo ocorre em a Ilíada, pois os deuses gregos envolvem-se na Guerra de


Tróia, escolhendo lados e interferindo no desfecho dos acontecimentos. Desde o embate
promovido por Éris, que incita Hera, Afrodite e Atena a lutarem pelo título de “Mais
Bela” – inscrição do pomo da discórdia – até passagens que envolvem batalhas em campo,
a presença divina se faz constante e suas ações são decisivas no transcorrer da epopeia.

Sacerdotes servem de ligação entre os mundos, contudo, os deuses também se


comunicam com as pessoas, seja em forma de sonhos, ou inspirações. Zeus, por exemplo,
em certo momento, envia a Agamenon, através de Oniros (filho de Nyx) o ensejo para
atacar Tróia que não contava com a presença de Aquiles.

O próprio Aquiles recorre a sua mãe, Tétis, para que a mesma interceda junto a
Zeus, favorecendo os troianos, de modo que os gregos solicitem que o guerreiro retorne
à luta, alcançando assim, enorme honra. Zeus atende o pedido. Nos excertos abaixo,
podemos observar essa passagem:

Foi quando sobreveio a décima segunda aurora

que para o Olimpo regressaram os deuses que são para sempre,

todos juntos, e foi Zeus a liderá-los. Não olvidou Tétis

os pedidos de seu filho, mas emergiu de manhã cedo

da onda do mar e subiu ao rasgado céu, ao Olimpo.

Encontrou Zeus que vê ao longe sentado longe dos outros,

no píncaro mais elevado do Olimpo de muitos cumes.

Sentou-se junto dele e com a mão esquerda lhe agarrou

os joelhos, enquanto com a direita o segurava sob o queixo.

Em tom de súplica dirigiu a palavra a Zeus Crônida soberano:

“Zeus pai, se entre os imortais alguma vez te auxiliei


com palavras ou atos, faz que se cumpra esta minha prece:

honra o meu filho, aquele que acima de todos os outros

está destinado a vida curta. Pois agora Agamêmnon, soberano

dos homens, o desonrou, tirando-lhe o prêmio pela arrogância.

Mas mostra-lhe tu a recompensa, ó conselheiro Zeus Olímpio!

Concede a primazia aos Troianos, até que os Aqueus

honrem o meu filho e lhe paguem com honraria devida. (HOMERO. Canto I,
2013, p.99)

Aquiles era o líder do seu povo, os mirmidões, contudo, o desenvolvimento de sua


personalidade durante o poema traz novas perspectivas e decisões que são moldadas
conforme os acontecimentos. Movido por sua paixão e pelo desejo de vingança em razão
da morte de Pátroclo, ele anseia que seu nome fique registrado na história, configurando,
assim, um modelo de veneração para o povo grego.

Ao considerarmos o argumento de Joseph Campbell, em seu livro O Herói de Mil


Faces (1997), a construção dos heróis literários segue uma estrutura comum – a partida,
a iniciação e o retorno – que pode ter variações de adaptação, dependendo da obra.
Seguindo esse raciocínio podemos examinar essas etapas no romance amadiano.

Quando Tereza é vendida ao capitão Justo, o narrador desenvolve na trama, a


partida da heroína do seu mundo conhecido. Ela era uma criança e sofreria com o
barbarismo daquele homem, até submeter-se às suas vontades. A inocência da
personagem é perdida e a partir de então, os revezes a transformariam em alguém
totalmente diferente.

A narrativa inicia com a estreia da protagonista no Cabaré de Aracaju, onde ela


tentará viver como cantora de samba. Nesse ponto, uma parte do processo da iniciação
heroica da personagem é revelado.

Ela testemunha uma briga de casal no cabaré, onde um homem usa de violência
contra sua companheira. Tal fato a faz pensar nas crueldades que sofreu, por isso Tereza
parte em defesa da mulher brutalizada. Ela não pensa nas consequências, e logo, se vê
envolvida num combate corpo a corpo com o agressor. Como resultado, Tereza tem um
dente quebrado e sua estreia precisa ser adiada.

A figura heroica descrita por Campbell (1997) pode ser percebida quando Tereza
assume para si o papel de defensora dos oprimidos, relacionado com a coragem daqueles
que já viveram os mais diversos conflitos e sofreram com a brutalidade de homens
covardes. Tais façanhas não ficam restritas ao terreno físico, pois sua desenvoltura chama
a atenção das divindades yorubás, presentes no Candomblé, e, consequentemente, na vida
da personagem dentro do espaço diegético.
Esses deuses desejam se fazer presentes na vida de Tereza. A seguir, o narrador
insere uma das mais conhecidas Iyalorixás da Bahia em sua obra ⎼ Iyá Nassô, do axé Opô
Ofonjá ⎼ citando o dia em que a personagem consulta os búzios para descobrir qual era
seu orixá:

Mas se tratando de Tereza deixe que lhe diga haver motivo de


sobra para confusão; até quem muito sabe, nesse caso se atrapalha
na leitura dos búzios sobre a mesa. Muita gente andou vendo por
aí e não houve acordo. Os mais antigos falaram em Yansã, os mais
recentes em Yemanjá. A si disseram Oxalá, Xangô, Oxóssi, não é
verdade? Euá e Oxumaré, ainda mais? Não se esqueça de Ogum
e de Nanã, tampouco de Omolu. Também eu fiz o jogo e olhei no
fundo. Vou lhe contar: nunca vi uma coisa assim e há mais de
cinquenta anos sou feita neste peji e há mais de vinte zelo por
Xangô. Quem se apresentou na frente com o alfanje rutilante foi
Yansã, dizendo: ela é valente e boa de peleja, a mim pertence, sou
a dona da cabeça e ai de quem lhe faça mal! Logo atrás
compareceram Oxóssi e Yemanjá. Com Oxóssi Tereza veio mata
espessa, do agreste ralo da caatinga seca, do sertão ardido e
desolado. Sob o manto de Yemanjá cruzou o golfo para acender a
aurora no Recôncavo, depois de guerrear por ceca e meca. Vida
de combate de começo ao fim, para ajudá-la na briga feia e crua,
além de Yansã, a primeira e principal, vieram Xangô e Oxumarê,
Euá e Nanã, Ossain trazendo as folhas. Com o paxorô da
sabedoria, Oxolufã, Oxalá velho, meu pai, abriu o caminho certo
onde passar. (AMADO, 1972, p. 346).

A cultura oral é difundida entre os iniciados das religiões de matriz africana,


quando os mesmos passam pelo processo iniciático. Durante vinte e um dias,
aproximadamente, os neófitos escutam dos sacerdotes mais antigos, as histórias que
configuram o entendimento sociocultural, trazidas da África.

Esse entendimento constitui-se de mitos e lendas que perpassam gerações até os


dias atuais, tendo como objetivo, inspirar e educar os aspirantes ao sacerdócio. Mesmo
quem não é iniciado conhece algo das tradições alusivas às religiões de matriz africana.
Os religiosos e devotos percebem, com clareza, a simbolização de suas vidas na obra de
Amado.

Assim, como os deuses gregos escolhem lados na Guerra de Tróia e ajudam seus
protegidos, os deuses africanos fazem o mesmo nessa narrativa amadiana. Suas presenças
são sentidas pelos personagens que, ora rogam por sua intervenção, ora pressentem que
algo de sobrenatural se passa no enredo, relacionando tais ocorrências aos ancestrais
divinos.

O racismo que se institucionalizou no Brasil, produziu um tom pejorativo,


depreciando e estigmatizando as manifestações culturais advindas dos povos negros. A
segregação pretende esquecer as qualidades oriundas das populações negras que
contribuíram com a construção desse país.
O contexto histórico explica essa situação de exclusão. A libertação dos escravos
não foi algo bem-vindo pelos seus antigos proprietários. As pessoas escravizadas tinham
na sociedade, um status de sub-humanidade e eram vistas, exclusivamente, como bens,
afinal de contas, foram compradas e, como tal, deveriam comportar-se como objetos. Até
mesmo a Igreja Católica, norteadora espiritual da época, fazia vistas grossas ao processo
escravagista, dando a entender que tal prática era aceitável.

Desde sua chegada ao Brasil, até os dias de hoje, podemos notar a inferiorização
dos povos africanos que já foram considerados seres sem alma, por exemplo, justificando
assim, a barbárie da escravidão. Sua história sofre um apagamento ao longo do tempo.
Se seus corpos eram objetos de consumo e trabalho por parte de quem os comprava, o
que lhes restaria culturalmente?

Aníbal Quijano discorre sobre a subalternidade imposta às populações


colonizadas e escravizadas na América, esclarecendo os motivos pelos quais esses e
outros povos, inclusive os africanos, são considerados inferiores pelo homem europeu
(branco, heterossexual, livre, cristão, etc.). Em seu artigo Colonialidad del poder,
eurocentrismo y América Latina (1992) podemos observar uma das reflexões que o autor
faz a respeito das consequências da colonização:

Ese resultado de la historia del poder colonial tuvo dos


implicaciones decisivas. La primera es obvia: todos aquellos
pueblos fueron despojados de sus propias y singulares identidades
históricas. La segunda es, quizás, menos obvia, pero no es menos
decisiva: su nueva identidad racial, colonial y negativa, implicaba
el despojo de su lugar en la historia de la producción cultural de
la humanidad. En adelante no eran sino razas inferiores, capaces
sólo de producir culturas inferiores. Implicaba también su
reubicación en el nuevo tiempo histórico constituido con América
primero y con Europa después: en adelante eran el pasado. En
otros términos, el patrón de poder fundado en la colonialidad
implicaba también un patrón cognitivo, una nueva perspectiva de
conocimiento dentro de la cual lo no-europeo era el pasado y de
ese modo inferior, siempre primitivo.

No artigo citado acima, o autor desvela a força de trabalho desses povos na


edificação das Américas. Entre outras coisas, Quijano cita o capitalismo como fonte de
segregação, deixando claro como os povos autóctones contribuíram para o
desenvolvimento dos continentes americano e europeu, ainda que estivessem sob o jugo
dos colonizadores. Tereza é uma síntese do povo colonizado, contudo, na obra de Amado,
sua posição é redefinida, tornando-se uma figura destacada em seu meio.

A personagem é o resultado da interpretação social e quando se torna prostituta


passa a sofrer outro tipo de preconceito. O narrador faz uma explanação sobre o cotidiano
das profissionais do sexo, explicando como elas são vistas:
Quem não sabe, fique sabendo de uma vez para sempre: puta não
tem direito algum, puta é para dar gozo aos homens, receber a
paga tabelada e se acabou. Fora disso, apanha. Do cafetão, do
gigolô, do tira, do guarda, do soldado, do delinquente e da
autoridade. Do vício e da virtude, renegada. Por tolice apanha, dá
com os costados na cadeia, quem quiser pode lhe escarrar na cara.
Impunemente. (AMADO, 1972, p. 368).

Tereza sabe o quanto a violência acompanha a vida dessas mulheres. Quando os


homens ricos da região decidem que o centro da cidade deve ser revitalizado para servir
de atrativo turístico, as prostitutas precisam procurar outro lugar para exercer sua
profissão. Elas recebem uma ordem de mudança para uma região da cidade sem as
mínimas condições de habitação, e a protagonista, sabendo dos interesses envolvidos
nessa realocação forçada, promove a Greve do Balaio Fechado.

Ao abordar a prostituição, Jorge Amado propicia uma reflexão sobre os papéis


sociais, seus valores e, obviamente, a inversão daquilo que é imaginado e esperado de
uma profissional do sexo. Essa personagem supera qualquer expectativa e se constrói
como um protótipo humano a ser admirado, tal qual Aquiles.

As meretrizes não iriam trabalhar até que a contenda envolvendo policiais,


políticos e demais homens poderosos da cidade fosse resolvida. Nesse ponto, sob a
perspectiva de Campbell (1997), podemos observar o retorno do herói. Tereza, já passou
por diversas situações que testaram e desenvolveram suas habilidades, e então, provida
de argumentos e conhecimento, regressa à polis, transformando a sociedade em que está
reinserida.

Durante a greve, a presença dos deuses africanos é ainda maior. Exu – Deus dos
caminhos e do caos – se decide em favor de Tereza e ameaça com a morte, as prostitutas
que abandonassem a greve:

ai daquela rapariga que receber homem antes da aleluia romper


na Barroquinha! Ai da dona de pensão, do dono de bordel, da
casteleira que permanecer de porta aberta e quiser violar a
fechadura dos balaios! [...] Lembranças para a moça (Tereza),
estou mandando, piso em seus passos. Ai daquela que não fechar
o balaio. De cima do tridente, arrematou: ai daquela! (AMADO,
1972, p. 404)

Tereza liderou esse movimento, colocando-se à frente de todos para defendê-los


da truculência policial. Dona Paulina, amiga de Tereza e cafetina da região procura
conselhos em relação à greve, com sua mãe-de-santo:

E a moça Tereza, merece confiança? Foi categórico: absoluta.


Guerreira, filha de Yansã, por detrás dela Ogun Peixe Marinho
avista um velho de bordão e barbas brancas, o próprio Lemba di
Lê, dito Oxalá pelos nagôs. (AMADO, 1972, p. 395).
Em meio às contendas da greve, Tereza enfrenta um dos mais violentos policiais
e seu desafeto declarado – Peixe Cação – aplicando-lhe um chute nos testículos. Mesmo
cercada por soldados que tentam prendê-la, consegue escapar e corre para a Igreja do
Rosário dos Negros. A porta se abre repentinamente e ela avista, [...] “desaparecendo
atrás de um altar, imponente velho de barbas e bordão. Quem sabe um sacristão, um
sacerdote, um santo?” (AMADO, 1972, p. 432) A profecia da sacerdotisa, descrita na
citação anterior, se cumprira. Dentro do templo católico ela estava protegida.

Após a Greve do Balaio Fechado, Tereza se cansa de tantos conflitos e,


contrariando suas aspirações de amor verdadeiro, decide se casar com Almério, um
homem bom e honesto, presente em suas relações. As tratativas do casamento envolvem
a todos os seus amigos e conhecidos, que desejam que a personagem, construída na forja
das batalhas da vida, encontre a felicidade, afinal.

Entretanto, no decorrer dos preparativos do matrimônio, Janu ressurge à procura


de sua amada. Sua esposa morrera e a dívida de gratidão que tinha com ela, fora quitada.
Ele cuidou da companheira doente, até sua morte, pois a mesma o ajudara, trabalhando
muito, de modo que o pescador pudesse ter independência financeira.

Nesse momento, podemos observar a liberdade de escolha que a heroína


conquistou. Tereza permite-se abandonar o noivo e seguir ao lado de Januário. Juntos,
seguem em um saveiro, navegando pelo mar da Bahia e a personagem, num ato simbólico,
descarrega no oceano, todas as dores que trazia até o momento. Mesmo cansada, depois
de tantas batalhas, ela encontra forças para continuar, seguindo por caminhos que não
conhecia, junto de seu companheiro. Essa promessa de felicidade, lhe renovou o ânimo.

Um final feliz, muito esperado por quem aprecia os romances e ainda assim,
reflexivo por rememorar as amarguras da protagonista. Tal qual Aquiles que se tornou
um símbolo para seu povo, Tereza é amada e respeitada, detendo as qualidades de uma
líder nata, de uma guerreira sem par, uma autoridade entre os seus.

Suas desventuras compuseram a paladina que se tornou. O percurso que fez pode
sugerir ponderações nos leitores da obra, e, sobretudo, demonstra por meio da literatura,
que a mulher brasileira é resistente, valorosa e adaptável diante das intempéries da vida,
sobrevivendo às dificuldades, com uma disposição que, por vezes, somente pode ser
explicada como atos de heroísmo ou de fé.

REFERÊNCIAS

AMADO, Jorge. Tereza Batista cansada de guerra. Ed. Martins, São Paulo, 1972.

CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. Ed. Pensamento Ltda., Tradução Adail
Ubirajara Sobral. São Paulo, 1997.
CARVALHAL, Tânia Franco. Literatura comparada. 4a ed. revisada e ampliada.
Ática, São Paulo, 2006.

HOMERO. Ilíada. Penguin, Companhia das Letras. Tradução e prefácio Frederico


Lourenço. São Paulo, 2013.

PRANDI, Reginaldo. Religião e Sincretismo em Jorge Amado. Companhia das


Letras, Salvador, 1975.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder, eurocentrismo y América Latina.


Disponível em: <https://www.decolonialtranslation.com/espanol/quijano-colonialidad-
del-poder.pdf> Acesso: 11/11/2019.

SILVA, Diana Medianeira Gomes, PERKOSKI, Norberto. A influência dos orixás na


construção da personagem Tereza Batista, de Jorge Amado. Disponível em:
<https://online.unisc.br/acadnet/anais/index.php/salao_ensino_extensao/article/view/153
12>. Acesso: 14/out/2019.

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