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do divóreio não me afeta pes -oaJm n e, peis não s
divorciQdo. M eJc · ui um -·é t.op ob ema paro
o·s sos igr:ejos. e d v.ep~amo ter a eonogem ·de e ca~á-la
com um estudo comple o e ·m . _o' c.
... Estude o~ · fatos . .te.i ~a pense volte a ler~ Ê · possJv,e]
que se sur-_r - end~a o o que p:rende á . i'

-
Cal x.a Pos1al 1Gl - 30. 00 \lenda Nóva MG
'Indice

Introdução ............................... 7
Prefácio.................................. 9
1. Definição de propósitos .................... 11
2. A lei do divórcio formulada ................. 19
3. A carta de divórcio dos judeus .............. 29
4. "Repudiar" significa
dissolução do casamento? .................. 36
Título do original em inglês:
Divorce and Remarriage S. "Exceto em caso de adultério ... " ............ 42
Copyright © 1%7, Bethany Feliowship, Inc.
Minneapolis, Minnesota, E.U.A. 6. O significado de adultério .................. 48
7. A lei de Cristo de Mateus 19.9 .............. 58
Segunda edição- 1979
Tradução de Myrian Talitha Lins 8. São genuinas as passagens de exceção? ....... 67
Todos os direitos reservados pela 9. Por que Mateus registra as exceções
Editora Betânia SIC acerca do adultério ....................... 71
Caixa Postal 10
30.000 Venda Nova, MG 10. O significado de Romanos 7.1-4 ............. 77

E proibida a reprodução total ou parcial sem 11. O significado de 1 Coríntios 7.10-15 .......... 85
permissão, por escrito. dos editores. 12. A posição dos pais da Igreja com relação
Composto e impresso nas oficinas da a divórcio e novo casamento ............... 103
Editora Betânia SIC
Rua Padre Pedro Pinto. 2435 13. Réplicas às objeções ...................... 112
Belo Hori?.onte (Venda Nova), MG 14. Resumo das evidências ................... 120
Printed in Brazil Apêndice: oito regras de interpretação ...... 135
Introdução

Este livro resulta de um cuidadoso estudo de


muitos anos, levado a efeito pelo autor a respeito da
controvertida questão do 9..ivórcio e do novo casamen·
to. Seu livro de texto foi a Bíblia. É possível que nem
todos concordem com sua interpretação das Escritu-
ras. mas. mesmo assim. ele fornece bases para o
estudo do assunto. tanto para as pessoas com casa-
mentos desfeitos, como para os conselheiros matri-
• •
moma1s.
Sabemos que os cristãos genuínos farão tudo
que puderem para corrigir os erros e pecados do
passado. mas. em certos casos. esses erros não podem
ser corrigidos. O que se deve fazer então? Um casa-
mento pode ser totalmente desfeito de forma a permi-
• A ' ' ' A '
t1r que os conJuges contratam novo matrmlOmo. com o
apoio das Escrituras'! E quanto àqueles que se divor-
ciaram e se casaram de novo. mas agora questionam a
validade de tal relacionamento? Muitas pessoas en-
contram-se hoje sob este senso de condenação. E há
alguns. também. que não estudaram o assunto devi-
damente. c se põem a condenar os outros com certa
pn:cipiHu:üo e com muita facilidade, embora eles
próprios núo possuam amplos conhecimentos do pro-
blema.

7
Se este livro levar os leitores a examinar as Escri-
turas, em humilde dependência da orientação e ensino
de Deus, sentiremos que esta obra atingiu seus objeti-
vos. Ela é entregue ao público, portanto, com a espe-
rança de que o matrimônio será honrado e a santidade
do lar preservada. Esperamos também que aqueles
que jfl lutam com o problema de um casamento
desfeito possam receber inspiração quanto ao que
devem fazer para se certificarem de que possuem a
paz de Deus e seu favor.

T. A. Hegre
Prefácio

"Responder antes de ouvir é estultícia e vergo-


nha." (Pv 18.13.1
No sentido correto do termo. todos os intérpretes
da Bíblia são preconceituados. isto é, orientam-se
por certos principias que já possuíam antes de
encetar a interpretação. (Standard Bible Interna-
tional Encyclopedia.)
Aquele que julga sem infOrmar-se exaustivamente
acerca do assunto, não merece desculpas, se julgar
erradamente. (John Locke.)

Meus agradecimentos aos detentores dos direitos


das citações acima pela permissão gentilmente cedida,
e a todos os editores que bondosamente me autoriza-
ram a citar seu material. Tais editores são mencio-
nados junto à citação. Recebi auxílio também das
muitas outras fontes que pesquisei nos quatorze anos
em que trabalhei no assunto.
Quero dar uma palavra de agradecimento também
ao Prof. John Murray, do Seminário Westminster de
Filadélfia, que gentilmente me concedeu licença para
citar sua obra sobre o divórcio.

8 9
O Sr. Elmer Miller, membro antigo da corte de
justiça de Nova Y ork, e diligente estudioso da Biblia,
deu-me orientação valiosa por ocasião da publicação
de meu primeiro livro acerca do divórcio, a qual foi
aproveitada também na nova edição.
Durante muitos anos tenho tido o prazer de
discutir o significado do Novo Testamento grego com
o Pastor Demosthenes Vlahakis, de Brooklyn, Nova
1
York. Também ele forneceu-me valiosas informações
a respeito de pontos importantes.
Mary K ibbe. de Point of Rocks, em Maryland,
datilografou o manuscrito final, o que muito agrade·
cem os.
Definição de Propósitos
Guy Duty

A controvérsia acerca do divórcio no mundo cris-


tão tem sido interminável. Centenas de escritores têm
se expressado a respeito, e ele tem sido debatido em
concílios e convenções denominacionais há séculos,
mas nosso povo ainda continua sem entendê-lo bem.
Durante mais de vinte anos. defendi a idéia que
proíbe o novo casamento do divorciado comprovada-
mente inocente no caso. Estava tão dominado por essa
idéia, que considerava quase como heréticos aqueles
que discordavam de mim.
Certo dia, há cerca de quatorze anos, um pastor
ligou-me para indagar minha opinião sobre se o
divorciado inocente teria o direito de casar-se de novo.
Esse pastor tinha em sua igreja alguns jovens que se
haviam divorciado, e estava convencido de que eles
eram realmente inocentes. Mas, nossa denominação
não concede a tais pessoas o direito de um novo
. ' .
matrtmonto.
Mais ou menos na mesma época em que esse
amigo me telefonou, eu chegara à conclusão de que os
versículos acerca do divórcio poden"am ser interpreta-
dos no sentido de que, em casos de adultério, o outro
cônjuge teria direito a um novo casamento, mas eu
não saberia dar nenhuma prova disso. E foi assim que

10 li
iniciei um estudo do assunto, que durou quatorze to para o meu primeiro livro sobre divórcio, o qual foi
anos. publicado há dez anos.
Parece-me que devemos às pessoas divorciadas um Alguns líderes de minha denominação escreve-
estudo mais acurado da questão. Muitos se apressam ram-me espontaneamente manifestando sua aprova-
a fazer afirmações dogmáticas, sem nunca haverem ção após a leitura dele, e algumas de nossas escolas
empreendido um estudo detalhado do assunto. Con- solicitaram exemplares para sua bib1ioteca. Recebi
denam a parte comprovadamente inocente que se casa também entusiásticas cartas de apoio por parte de
de novo. sem qualquer prova para reforçar sua posi- pastores de várias denominações, e de editores, dire-
ção. tores de escolas bíblicas e de advogados crentes. Até
Algumas semanas após haver iniciado o estudo, onde estou ciente, todos os advogados crentes que
submeti a um colega pastor vários argumentos que leram a obra, concordam em que eu realmente conse-
defendiam o direito de um novo casamento para a gui provar minha tese, e alguns deles são excelentes
parte ofendida. Ele se convenceu de que eu estava com conhecedores da Bíblia.
a razão. Então arranjou para que eu apresentasse o A questão do divórcio não me afeta pessoalmente,
assunto a um grupo de pastores. pois não sou divorciado. Mas ela se constitui um sério
Senti certa apreensão em fazer isso, por causa do problema para nossas igrejas, e deveríamos ter a
que poderia acontecer-me no seio da denominação, coragem de encará~lo com um estudo completo e
mas acabei me convencendo de que a verdade é imparcial. Muitas pessoas parecem receosas de pro-
verdade, e deve sempre ter primazia em minhas ceder a uma investigação da verdade.
considerações. Há muitos líderes e pastores que crêem O divórcio não escriturístico é um dos grandes
como eu, mas estão receosos de manifestar-se. Dei- perigos de nossos dias. Muitas das igrejas modernas
xam seus irmãos divorciados sofrerem o erro, ao invés são tão lassas em sua aceitação do divórcio como o
de defendê· los. foram os fariseus dos dias de Jesus, que permitiam a
Quando falei ao grupo de ministros, preparara separação por "qualquer motivo". Rejeitamos e de-
uma tese. que eles aprovaram sem um voto de dissen- testamos este tipo de divórcio "hollywoodiano".
ção. Pedi que apresentassem contestações, mas ne- Acredito que devemos estabelecer princípios rígi-
nhum deles o fez. dos contra o abuso do divórcio, e devemos ater-nos às
Depois disso, resolvi submeter meu trabalho a um Escrituras, permitindo apenas aquilo que elas permi-
teste completo. Enviei cópias a muitos pastores de tem. Muitos líderes eclesiásticos são bem meticulosos
vários lugares, a líderes eclesiásticos, professores de na formulação de sua preceituação do divórcio, e não
teologia. a advogados crentes que conhecem a Bíblia. lhes tiramos a razão. Eles não têm sido mais exigentes
Pedi-lhes que contestassem as argumentações, e outra do que nós mesmos.
vez a reação foi melhor do que eu esperava. Eu orava Digna de observação é a prática de certas deno-
a Deus no sentido de que, se estivesse enganado, que minações que não permitem a seus pastores celebra-
ele me revelasse. pois meu espírito tremia de pavor rem o casamento de divorciados comprovadamente
ante o pensamento de que pudesse conduzir alguém inocentes, mas recebem tais pessoas em seu rol de
ao pecado. membros, se um ministro de denominação diferente
Foi-me sugerido, então, que a tese fosse impressa, realizar a cerimônia.
e assim. no pouco tempo que me restava como pastor Um pastor conhecido tinha em sua igreja um casal
de uma igreja de cidade grande, preparei o manuscri- que desejava casar-se. Um deles era divorciado, e o

12 13
pastor estava convencido de que a pessoa era real- são por demais profundas, e já pode ser muito tarde
mente inocente. Disse-lhes que não poderia casá-los par~ se tentar arrancá-Ias; mas já que recebem na
devido à posição adotada por sua denominação, mas tgreJa estas pessoas divorciadas e casadas de novo
enviou-os a outro ministro para oficiar o casamento, e deviam recebê-las na comunhão plena, e não deixá-la~
disse-lhes que gostaria que voltassem para a igreja e sob a sutil suspeita de adultério. Se Deus as aceita
continuassem como membros dela. E esse pastor c~mpletamente no corpo de Cristo (Ef 4.12), por que
comentou comigo: "Foi o único ato de hipocrisia que nao de~enam ser acettas no corpo da igreja?
pratiquei." Muttas vezes. uma pessoa se encontra atirada de
Aqueles que estão a par das coisas, sabem que lado para outro a braços com um dilema. Deveria ela
acontecem muitos desses fatos em tais denominações. acompanhar sua denominação ou defender uma tese
E, em muitos casos, quando essas pessoas divorciadas que sabe ser verdade. e que pode provar? Deveria ela
são as mais qualificadas para desempenhar certos desconsiderar uma questão moral que ateta milhares
cargos dentro da igreja, o fato de que são divorciadas de filhos de Deus. comprovadamente inocentes num
é mantido em sigilo. Eu me surpreendi algumas vezes caso de divórcio, mas acusadas de adultério por
com a freqüência em que isto ocorre. Muitos dos haverem se casado de novo? O que fazer quando uma
pastores que assim procedem reconhecem que sua denominação proíbe seus pastores de efetuarem o
atitude é mais que incoerente. mas estão presos à casamento de uma pessoa assim. mas aceita-a em seu
tradição denominacional. Admitem que se sentem rol de membros. desde que outro pastor oficie a
como hipócritas nesta situação, mas não querem cerimônia'?
"envolver-se" em problemas. Rogo aos irmãos que creiam que me dei a este
Quando meu primeiro livro foi publicado, recebeu lon~~ e lab?rioso estudo somente com o propósito de
certa resistência oficial, mas após uma troca de cor- auxtltar os Interessados. Longe de mim promover luta
respondência, estabeleceu-se que outras publicações e diss~nção. Se ~lguém puder refutar aquilo que
dele ficariam a meu critério. escrevi, abençoarei a mão que me corrigir e de bom
Parecia-me estranho que esses líderes fizessem grado escreverei uma retratação.
objeções à minha defesa dos divorciados comprovada- Desde que meu primeiro livro foi escrito há dez
mente inocentes que se casavam de novo, a quem eles anos, sei de apenas dois homens que tentaram refutá-
incluíam no seu rol de membros e cujas contribuições lo. Tais pessoas eram consideradas como possuidoras
recebiam de bom grado. de extraordinário conhecimento das Escrituras. Em
Muitas pessoas divorciadas e casadas de novo meu debate com elas, constantemente, procuravam
sofrem. nessas igrejas, interminável crueldade moral. evadir às dificuldades que cercam sua tese. Recusa-
São aceitas no rol de membros. participam da Ceia do ram-se a responder perguntas justas que teriam de-
Senhor, mas sofrem a penalidade moral de não pode- rn?nstrado seus erros. Ficaram em silêncio, quando
rem cantar no coro, ensinar na escola dominical, nem fo~ P. .rov.ado o absurdo de seu arrazoado. Ignoraram a
realizar quaisquer outros trabalhos na igreja, que os evtdencta de fatos comprovados, e se outras doutrinas
conserva sob as sombras do adultério. São meio- bí?licas ti~essern que ser defendidas pelo mesmo
santos, meio-adúlteros. metodo de mterpretação que empregaram para defen-
Não é meu objetivo tentar modificar a posição d~r, a ~mpos:ibi1idade d.e um ~ovo casamento após o
oficial dessas denominações que admitem o divórcio, dtvorcto, entao as doutrmas crtstãs estariam em maus
mas não um novo casamento. As raízes da tradição lençóis.

14 15
O divórcio anula completamente o casamento? Novo Testamento é bem restritiva. Comparada com as
Esta é a questão principal. Se o divórcio por adultério trinta razões para o divórcio que há na legislação dos
significa a dissolução do casamento, então não pode cinqüenta estados de nosso país, ela é bastante limita-
haver dúvidas acerca do direito do divorciado de da. Os antigos judeus permitiam o divórcio e novo
contrair novas núpcias. Se não significa, então deve casamento por "qualquer motivo". Nos Estados Uni-
ser negado a tais pessoas o direito de um novo dos, a situação é quase a mesma - vai desde porta-
• A
matrtmomo.

menta de lepra, no Havaí, a vadiagem, no MiSsouri,
Algumas pessoas indagam por que a Bíblia não é até incompatibilidade no Alasca e crueldade mental
mais explícita acerca do direito de um novo casamento na Califórnia e outros estados.
após o divórcio por adultério, e a resposta é simples. Por que o legislador do Novo Testamento rejeitou
Na Bíblia, o direito de divórcio já carrega consigo o todos os motivos, menos o da fornicação? Por que a
direito de um novo matrimônio. Jesus aprovou o severidade de tal lei? Que filosofia de lei inspirou uma
divórcio judaico que permitia novo casamento, mas alteração tão drástica e marcante?
restringiu a lei a uma causa apenas - adultério. Nos tempos do Velho Testamento. era permitido
Este livro apresenta evidências provando que o aos homens possuir inúmeras esposas, e concubinas, e
divórcio bíblico significa a dissolução do casamento. alguns dos maiores santos nasceram de casamentos
Os que se opõem a este ponto-de-vista alegam que o polígamos. Mas, pela lei do Novo Testamento, cada
divórcio não implica em dissolução do vinculo matri- homem pode possuir apenas uma esposa. e se ela
monial. Mas que ele implica apenas em separação, ou adulterar e divorciar~se dele, então, se estiverem certos
indissolução. Desde a época dos pais da igreja do os nossos amigos defensores da indissolubilidade, ele
século IV, esta indissolução tem sido mencionada não pode ter nem urna.
como sendo uma "separação de corpos e bens". A Mas ao Hmitar o divórcio a uma única causa, Jesus
questão, portanto, é entre dissolução e indissolução. como que aprisiona homens e mulheres a um casa-
Eu tomo a posição de que o divórcio por adultério, mento infeliz? Como não há o caso de adultério para
como Jesus ensinou, significa um rompimento com- dissolver a união, por que ele exige que continuem
pleto do vínculo conjugal. Após tal divórcio, o casa- numa existência miserável, para toda a vida, e deixa-
mento está anulado, sem efeito, e terminado. I:: como os, no dizer do poeta Milton, como "duas carcassas
se o cônjuge adúltero houvesse morrido. Se a tese da acorrentadas. de forma desnatural"? Que razão a lei
dissolução puder ser provada, então não há dúvidas moral apresenta para exigir isso das pessoas .

quanto ao direito de um novo casamento, pots nossos Estas e outras perguntas e problemas relacionados
oponentes negam esse direito apenas com base na com o divórcio poderiam constituir-se interessantes
indissolu bilidade. pontos de discussão, mas não é nosso objetivo escrever
• • • • a esse respeito. Apreciaremos a lei do divórcio e novo
O divórcio com força dtssolutlVa era o umco
reconhecido pelos judeus, e Jesus não deu a menor casamento exposta no Novo Testamento, consideran-
indicação de que pudesse existir outro tipo. Era do-a de acordo com as evidências que reunimos.
também o único tipo reconhecido pelos gregos e Vamos partir então da premissa que, nos casos de
romanos. O divórcio com sentido apenas de separação pecados sexuais. Jesus aprovou o divórcio judeu que
não foi introduzido senão alguns séculos depois de permitia o novo casamento.
Cristo, por monges latinos. Ao debatermos com algumas pessoas acerca desse
A lei do divórcio e novo casamento apresentada no assunto, aprendemos que certos pontos requerem

16 17
repetição constante, e precisaremos repassá-los várias
e várias vezes. O que pode ser redundância para uns,
não o é para outros. Temos que lançar luz sobre o
assunto partindo de vários ângulos. Esperamos com 2
isso não ofender a inteligência dos mais cultos, pedin-
do-lhes. então, que sejam pacientes com algo que
talvez seja necessário para outros, conquanto não
para eles.
Não podemos abordar todos os problemas e ques- A Lei do Divórcio Formulada
tões de alguns casos de divórcio. O objetivo deste livro
são os casos onde há provas claras de culpa e inocência
(e existem milhares de casos assim).
Cortei grande parte do material que consegui
reunir originalmente, deixando apenas os fatos essen- Tambémfoi dito: Aquele que repudiar sua mulher,
ciais, condensando-os e organizando-os de forma a dê-lhe carta de divórcio.
tornar-se mais simples para o leitor acompanhar a Eu. porém. vos digo: Qualquer que repudiar sua
linha do pensamento. Estude os fatos. Leia, pense, mulher, exceto em caso de adultén'o, a expõe a
volte a ler. Você poderá surpreender-se com o que tornar-se adúltera: e aquele que casar com a
aprenderá. repudiada, comete adultério.
Peço a cada leitor que guarde consigo seu veredito
até chegar ao fim do volume. Neste livro, freqüente- Jesus refere-se aqui à lei oficial de Israel acerca do
mente faço referência às regras de interpretação, e, no divórcio, já em uso pelos judeus havia quatorze sécu-
fim dele, apresento-as num apêndice, de forma resu- los. Para entender esta questão do divórcio no Novo
mida. Agora, portanto, tome assento na bancada de Testamento, precisamos conhecer o histórico dele no
jurados, e eu lhe apresentarei as provas em favor da Velho Testamento. Devemos estudar o assunto à luz
dissolubilidade do matrimônio. de suas origens. f: necessário conhecer a conjuntura
social em meio à qual a questão foi criada. Todas as
autoridades em interpretação tanto da lei como da
teologia afirmam que devemos começar do início.
Façamos isto, então.
No tempo de Moisés, assim como em outros
tempos. muitos judeus eram cruéis com suas esposas,
e por causa dessa crueldade e dureza de coração,
Deus permitiu o divórcio. Esses judeus cruéis divorci-
avam-se de suas esposas "por qualquer motivo" (Mt
19.3). Divorciavam-se por questões as mais fúteis -
como, por exemplo, se elas queimavam o pão, ou não
temperavam a comida adequadamente, ou se não
gostavam de suas maneiras, ou se não era boa dona de
casa, "se ela estragava um prato ao prepará-lo", e

18 19
"até se encontrasse outra mais bela que ela". O explicou que tal era devido à dureza de seus corações
repúdio à mercê dos caprichos deles e a seu bel-prazer (Mt 19.3-9). Em caso de imoralidade por parte da
dominava a regulamentação do divórcio entre os mulher. Jesus não diria que o divórcio era devido à
judeus (Ta/mude; Jos~fo). dureza de coração. Isto é provado pelo fato de que o
Tudo que um judeu precisava fazer, se desejava Senhor permitiu o divórcio quando a causa fosse forni~
divorciar~se da esposa, era dar~ lhe carta de divórcio, cação (Mt 5.32; 19. 9). Os te61ogos judeus com quem
em presença de duas testemunhas. O casamento me correspondi nada replicam a este argumento.
estaria então legalmente dissolvido, e ambas as partes O Dr. A lfred Edershein disse que esse conceito de
eram livres para contrair novo matrimônio. Esta impureza "abrangia quaisquer atitudes impróprias,
"carta de divórcio" está registrada em Deuteronômio tais como andar com o cabelo solto, girar na rua,
24.1.2. conversar com outros homens com demasiada família·
Se um homem tomar uma mulher e se casar com ridade, maltratar os pais do marido em presença
deste, gritar, isto é, "falar com o marido em voz tão
ela. e se ela não for agradável aos seus olhos, por
alta, que o morador da casa vizinha a escute" (Chetub
ter ele achado causa indecente nela, e se ele lhe
6.6), reputação má em geral, ou a descoberta de
lavrar um termo de divórcio, e lho der na mão e a
despedir de casa: e se, saindo da sua casa, for, e se fraude anterior ao casamento". (Sketches of Jewish
casar com outro homem. Li(e.)
Mas aqui estamos interessados principalmente no
Alguns gramáticos hebreus mostrarn~se incertos fato de que o divórcio dissolvia o casamento e a
quanto ao significado da palavra "indecente" neste mulher podia "se casar com outro homem". Se o
verso. O vocábulo hebraico é ervah~dover, que tinha segundo marido se divorciasse dela, então o segundo
diversas interpretações no Talmude judeu, variando casamento também poderia ser desfeito. e ela estaria
de um século para outro e de um país para outro. J:: 1ivre para casar·se pela terceira vez; mas Deus especi~
traduzida como "obnóxio" e "indecoroso" no Torá ticava que ela não podia voltar ao "primeiro marido"
judeu e no TextoMassorético. A palavra hebraica que (Dt 24.3,4). Quando a mulher se casava pela segunda
se traduziu por "contaminada" no verso 4 significa vez, ela não tinha dois maridos, pois Deus falava do
"incapacitada". e implica numa desabilitação ritual e antigo marido como "primeiro marido".
não moral. Se o divórcio não significasse a dissolução comple~
(Mantive interessante correspondência com teólo~ ta do matrimônio, não consigo ver outra explicação
gos judeus acerca do significado de tais vocábulos. nesse caso para o fato de que Deus aprovaria o
Um desses homens era membro do comitê oficial de adultério e também a ilegitimidade dos filhos que
traduções para os judeus, nos Estados Unidos e outro nascessem dessas segundas núpcias.
era perito em lei rabínica.) Se a lei de divórcio aprovada por Deus fala apenas
Algumas pessoas argumentam que "indecente" em "separação", por que não ordenou ele que esta
referia-se a imoralidades, mas isso não poderia ser mulher permanecesse sem casar, ao invés de dizer que
verdade, pois a judia infiel era apedrejada até a ela poderia casar~se de novo?
morte. Quando os teólogos judeus levaram a questão Nossos oponentes irão relembrar~nos que tal di-
do divórcio a Jesus. mencionaram, baseados na lei do vórcio só foi permitido por causa da "dureza do
Deuteronômio, que o divórcio era permitido "por coração". É verdade, mas Deus não poderia ter
qualquer motivo". Jesus concordou com isso, mas pennitido um casamento adúltero, fosse qual fosse a

20 21
causa do divórcio. Portanto. aqui nas próprias origens escritos, o juiz que os interpretar deve estar o mais
do divórcio está clara e fortemente provado que o próximo possível da situação vivida pelo autor.
divórcio bíblico implicava na dissolução total do (Encyclopedia Britannica- interpretação de do-
casamento. com direito a novo casamento. cumentos.)
Na época em que Jesus pronunciou aquelas pala-
vras promulgando sua nova lei do divórcio em Mateus V árias autoridades têm escrito acerca da disputa
5.32. o problema do divórcio estava aceso na Palestina. entre Hillel e Shammai. Westermarck, por exemplo,
Na história judaica. essa questão é conhecida como a foi autoridade de tão elevada posição que é citado na
disputa de Hillel e Shammai. Hillel e Shammai eram Encyclopedia Britannica, em seu verbete sobre casa-
dois famosos rabis, líderes de duas escolas rabínicas mento. Ele escreveu:
de Jerusalém. Viveram cerca de uma geração antes de
Cristo. Hillel conquistou fama como autoridade na lei Como Shammai e sua escola, Cristo ensinou ... que
mosaica. Shammai também chegou à proeminência um homem pode repudiar sua esposa por causa de
como mestre da lei. adultério, mas por nenhuma outra razão. (The
Hillel ensinava que um judeu poderia divorciar-se History qf Human Marriage.)
da esposa por qualquer motivo. Shammai defendia a Duas opiniões opostas foram sustentadas pelos
idéia de que o divórcio só era legal por causa de sucessores de Hillel e Shammai, os cabeças das
fornicação. A disputa, debatida de norte a sul naquela duas escolas antagônicas ... E era entre estes dois
terra. revolvia em torno do qualquer motivo de Hillel e partidos opostos que os fariseus queriam que Jesus
do motivo único de Shammai. Lembremo-nos de uma fizesse sua escolha. (Mt 19.3.) (Pulpit Commen-
coisa! Não se tratava de uma disputa sobre a possibili- tary.)
dade ou na o de um novo casamento, mas somente das Com esta condição, (exceto no caso de adultério) o
legítimas causas do divórcio, que permitiam novas ensino do Senhor torna-se semelhante à mais
nu• petas.

restritiva escola dos intérpretes judeus (Shammai).
A impossibilidade de novo casamento após o Portanto, implicitamente, ele toma partido com a
divórcio era problema desconhecido dos judeus. mais severa escola de interpretação. (Dictionary of
O Dr. Allred Edersheim. mundialmente conhecida Christ and the Gospels.)
autoridade sobre o Novo Testamento. escreveu o A prova (Mt 19. 9) centraliza-se na disputa que
seguinte: dividia as duas grandes escolas rabínicas, das
quais um (Hille]) defendia a idéia de que o homem
Acerca da questão: que motivos constituiriam as poderia divorciar-se de sua esposa por qualquer
bases legítimas para o divórcio? as escolas se motivo ... e a outra (Shammai) que o divórcio só
dividem. Todos defendem a idéia de que o divórcio poderia ser concedido em caso de infidelidade.
é legítimo. questionando-se apenas suas motiva- Os inquisitores de Cristo estavam ansiosos por
ções. (The Life and Time qf'Jesus the Messiah.) saber que lado ele iria esposar. (Word Studies in
Se o leitor examinar este assunto à luz do contexto the New Testament.) Mas o principal objetivo
histórico. a névoa da incerteza se dissipará. deles (fariseus) evidentemente era atrair Cristo
para uma controvérsia com uma das escolas rabí-
O princípio é que, se a maioria dos documentos nicas. (Mt 19.3.) (The Life and Times of Jesus the
relaciona-se com as circunstâncias nas quais foram Messiah. Altred Edersheim.)

22 23
A disputa Hillel-Shammai está registrada em mui- resultava incidentalmente que o peso da autoridade
tas fontes importantes. De grande interesse é o co- divina caía para o lado de um dos contendores.
mentário feito pelo grande estudioso do Novo Testa- Jesus, sendo a Divina Corte de Apelações, dava
mento, Prof. A. T. Robertson, que cita McNeile: decisões simples e claras às questões morais que lhe
eram encaminhadas. Elas careciam de esclarecimen-
Não se pode supor que Mateus desejasse apresen- tos e era do interesse do Estado judaico que o Messias
tar Jesus tomando partido ao lado da escola de assim fizesse.
Shammai. O pagamento dos tributos a César, por exemplo,
era outra questão debatida em Israel com certo
E o Prof. Robertson replica: nervosismo. Os fariseus e herodianos estavam dividi-
Por que não. se Shammai nesse ponto concordou dos na matéria. Os fariseus afirmavam que os judeus
com Jesus? Aqueles que negam o registro de Ma- nlio deviam pagar o tributo a Roma, mas os herodianos
teus, são os que se opõem a um novo casamento. diziam o contrário. Quando o problema foi levado a
Por inferência, em Mateus 5.31, Jesus permite um Cristo, sua decisão foi favorável aos herodianos. Os
novo casamento à parte inocente. (Word Studies fariseus estavam errados. (Mt 22.17-21.)
in the New Testament.) A questão da ressurreição dos mortos era motivo
de contenda entre os fariseus e saduceus. Estes ensi-
Os teólogos judeus concordam com os teólogos navam que não havia ressurreição. Os fariseus ensi-
gentios neste ponto. Eles citam Mateus 5.32 e 19.9 navam que havia. Os saduceus levaram a questão a
como tendo o mesmo pensamento de Shammai. Ver Jesus, e a sua resposta apoiou o ensino dos fariseus.
Universal Jewish Encyclopedia e Jewish Encyclope- Nesse caso, os saduceus estavam errados.
dia.) Também os teólogos católicos romanos roncor- Em cada uma dessas questões, Jesus conduziu a
dam com isso. (Ver Catholic Encyclopedia.) disputa para um plano mais elevado, mas suas respos-
Estes fatos históricos apóiam nossa interpretação tas, indiretamente, apoiavam um ou outro lado. Isto
do divórcio, isto é, implicando na total dissolução do aconteceu também no caso da disputa Hillel-Sham-
casamento. Não existe nas circunstâncias históricas a mai. O Legislador do Novo Testamento disse que o
menor evidência que apóie o ensino de que o divórcio judeu não poderia divorciar-se da esposa a não ser em
bíblico seja apenas "separação de corpos e bens". Isto caso de fornicação, e era isso que Shammai ensinava.
não é um termo bíblico. Não é encontrado na Bíblia. .. Jesus não ultrapassou o princípio estabelecido por
Todos os livros que li, cujos autores defendem a Shammai." (Lange.)
tese da indissolução do casamento (somente em uma Quando Cristo pronunciou as palavras de Mateus
biblioteca, trinta e cinco deles) ignoravam estes fatos 5.32, o div6rcio era praticado por todos na Palestina,
históricos, e isso é suficiente para justificar de nossa pois a opinião de Hillel prevalecera. A mulher de João
parte uma rejeição de seu ensino. 4.1-30 não era um caso isolado. Ela se casara com
Podemos concluir, então, que Jesus ao decidir a cinco homens, e aquele com quem vivia no momento
questão do divórcio, indiretamente, resolveu a disputa não era seu marido. Jesus parecia haver dado reco-
entre aqueles grupos opostos. Nas disputas sérias que nhecimento ao fato de que a mulher tivera cinco
eram levadas a Jesus para se obter-se sua decisão, seu maridos, mas o homem com quem vivia não era seu
propósito principal não era julgar as controvérsias de "marido" (v. 18). Esta situação era claramente distin-
facções contendoras, mas, ao fazer suas afirmações ta do estado de casada.

24 25
Casamentos múltiplos era coisa comum na Palesti- dera motivo justo para repudiá-la. Cristo enfatiza o
na. Isto acontecia também entre os judeus que mora- erro do marido em relação à esposa. expondo-a ao
vam nas cidades do império. Fosse uma corte romana perigo de cometer adultério com outro homem.
ou grega, o divórcio era de fácil obtenção. Em sua lei de divórcio, Jesus usou uma expressão
Tenho me perguntado muitas vezes como o Senhor decisiva- "exceto em caso de adultério". A questão
resolveria alguns casos mais complicados. Muitos do divórcio c novo casamento gira em torno dessas
pensadores crêem saber o que ele fez no caso da palavras. O que significam elas? Como devemos inter-
mulher que tivera cinco maridos, mas tudo não passa pretá-las? Existe apenas uma forma segura e certa-
de especulação- e talvez insensata. Nos pontos em aplicarmos aqui as mesmas regras de interpretação
que as Escrituras se omitem, será que não devíamos que empregamos para outras leis.
nos calar também? Será que o silêncio da Bíblia Johann Bengel, professor do Seminário Denken-
acerca de determinados assuntos não têm certo signi- drof (] 713-41) foi o autor de notável obra 'obre o
ficado? grego Gnomon of the New Testamen (Conhecimento
Agora que já obtivemos as informações históricas do Novo Testamento) que tem sido de "grande in-
necessárias, voltemos à interpretação do Mestre da lei fluência na exposição do Novo Testamento até os dias
do divórcio, enunciada em Mateus 5.32. atuais." Acerca do significado de "causa", Bengel
escreveu o seguinte:
Nesse caso de Mateus 5.32, o Senhor ensina que o
homem que se divorciar da esposa por qualquer outro O adultério é um motivo válido para o divórcio
motivo que não seja adultério, leva-a a cometer adul- pois que, em si, já implica na verdadeira rutura do
tério ao contrair novo matrimônio. O Senhor assume a vínculo matrimonial. As palavras exceto em caso
suposição de que ela vai casar-se de novo. A razão de adultén'o, aplica-se também à segunda cláusu-
pela qual ela comete adultério é que se envolverá em la: e aquele que casar com a repudiada. comete
relacionamento sexual com um homem, enquanto adultério.
ainda é a esposa de outro, que se divorciou dela. Tal Por esta causa, Jogos. uma causa, razão por que
divórcio não significou a dissolução do casamento. Ela tudo o mais que se faz é correto. (Gnomon q( the
ainda era a esposa dele. e ele ainda era seu marido. A New Testament.)
mulher não tinha o direito de casar-se de novo, e nem
o marido. Ambos pecam se se casam de novo ou O emprego do vocábulo "causa" (Iogas, no origi-
mantêm relações sexuais com outra pessoa. Neste nal)- pela qual alguma coisa pode ser feita com justi-
caso, está claro que o casamento não foi dissolvido. ça- tem o mesmo significado no passado e no presen-
A pesar do divórcio, o casal ainda permanece casado. te. Os gregos ainda usam este mesmo vocábulo quando
1\ questão da dissolução é o ponto central de todo o crêem possuir uma razão justa para levar alguém à bar-
problema. ra do tribunal. Citamos abaixo autoridades que confir-
mam a definição de "causa" dada por Bengel.
Se o marido expulsa a esposa por causa de adulté-
rio. então o caso é diferente. O casamento está The Vocabulary q( the Greek New Testament
dissolvido. e o homem não é afetado pelo pecado que a A Greek-English Lexicon of the New Testament
mulher cometeu. A ênfase nesse caso recai sobre o Theyer's Greek-Eng/ish Lexicon o.f the New Tes-
erro que o marido comete para com a esposa inocente, tament
r•om sua injusta ação de divórcio. A esposa não lhe The New Testament in Greek

26 27
O Messin"i ensinou aos judeus que não poderiam
divorciar-se da esposa por questões fúteis como quei-
marem a torrada ou salgarem demais a sopa. Ele
anulou todas as outras causas. com exceção do adulté-
rio. Mas Cristo não aboliu o divórcio totalmente,
como alegam alguns. 3
Os divulgadores da indissoluçào argumentam que
Ma teus 5.32 é um texto isolado e deve ser interpretado
à luz de Romanos 7.1-.l. o que não é certo. pois o
trecho de Romanos foi escrito vinte e cinco anos
depois. É pouco provável que aquelas pessoas tives· A Carta de Divórcio dos Judeus
sem ouvido Cristo falar acerca do divórcio em outra
ocasião. E nào seria necessário que ele se manifestasse
novamente sobre o assunto. Pois sua lei acerca do
divórcio, ao ser dada. foi completa.
Quando Cristo despediu as multidões de Mateus Também foi dito: Aquele que repudiar sua mu-
5.1 e 7.28 que ouviram o Sermão do Monte, qualquer lher, dê-lhe carta de divórcio. Eu, porém, vos digo:
judeu daquele grupo tinha liberdade, naquele mesmo Qualquer que repudiar sua mulher (como?), exce·
dia. de dirigir-se a um tribunal judaico e repudiar a to em caso de adultério, a expõe a tornar·se adúl-
esposa adúltera. dando-lhe carta de divórcio. (Neste tera; e aquele que casar com a repudiada (com que
mesmo sermão. Jesus reconheceu a jurisdição das carta de divórcio) comete adultério. (Mt 5.31,32.)
cortes judaicas - Mt 5.25; Lc 12.58.) Faz-se necessário que aprendamos algumas coisas
Vemos então que o Senhor, declarando esse "exce- acerca desta carta de divórcio. pois está intimamente
to em caso de adultério". estabeleceu uma lei de relacionada com a regulamentação do divórcio na
direito para a dissolução do casamento. A fornicação Bíblia. O que Jesus ensinou acerca do divórcio e novo
era uma causa justa t> certa para a dissolução. Será casamento está relacionado com esta carta de divórcio
que Jesus daria direito a um homem de divorciar-se de o.ficial dos judeus.
uma esposa adúltera. e depois iria considerar errado o Já vimos que, pelo termo de divórcio mosaico. o
fato de ele casar-se de novo? Que tipo de lei seria esta vínculo matrimonial era completamente rompido, de
que estabelece um direito, mas coloca o castigo da forma que a mulher podia sair e tornar-se esposa de
proibição de um novo casamento sobre aquele que faz outro homem.
valer este direito?
Cristo não deixou o povo confuso ao enunciar sua Se ele lhe lavrar um termo de divórcio, e lho der na
lei de divórcio. Tampouco deixou a lei na obscuridade, mão e a despedir de casa; e se, saindo da sua casa.
para ser ampliada e esclarecida por Paulo vinte e for. e se casar com outro homem ... (Dt 24. 1,2.)
cinco anos depois. Para o caso de adultério, o Messias
A divorciada. então, de posse de carta de divórcio.
aprovou o divórcio judaico que dava direito a novo
tinha todo o direito de contrair novo matrimônio. O
matrimônio. Deixo com o leitor agora julgar se isso
termo de divórcio era sua "carta de liberdade" -
ficou provado ou não.
"documento de emancipação"- que lhe permitia um

28
29
nn\'n ca~amento. Nào existia nenhum laço conjugal Nos tribunais, um documento original ou um-a
L'lltrc a~ duas partes. Era como se nunca houvessem se cópia autenticada é a "melhor evidência" que pod<
l'<l'><tdO. haver, pois auxilia a estabelecer a veracidade dos
As regra~ de interpretnçàn requerem que analise- fatos, e elimina quaisquer dúvidas e interpretações
mos esta lei de divórcio à luz do contexto histórico. errôneas. (McCormick on Evidence.)
Durante quatorze séculos, de Moisés a Cristo, esta
O signiticacto literal de uma palavra ou expressão
carta de divórcio que permitia o novo casamento era o
somente pode ser determinado por um exame da
único tipo de divórcio que os judeus conheciam.
cultura dn povo que empregou ... A revela~·ão
Foi a essa carta que Jesus se referiu em Mateus
divina cstú inserida num contexto histórico ... Te-
5.31,32. O Dr. Edersheim diz que ela "tinha que ser
mos que recorrer à História. Talvez argumente-
enunciada em termos bem explícitos" (Sketches of
mo'> que isso c aquilo eram uma prática comum
Jewish Life.) "Eles eram bem cuidadosos em fazer a
dos judeu'>. ao tempo de Cristo, como nos decla-
carta na forma devida para que a mulher pudesse
ram os escritos rabínicos.
exibir a prova de que estava livre para casar-se de
Todas as interpretações que não se harmonizarem
novo." (Expositor's Greek Testament.) O divórcio
com este critério devem ser rejeitadas ou pelo
meramente oral era praticado por nações pagãs.
menos olhadas com suspeita. fProtestant Bib/ical
A importância dessa carta é claramente revelada
f111 e rpre I at ion s.)
na seguinte cópia dela:
O Dr. Wilbur Smith, mundialmente conhecida
autoridade em literatura cristã, disse (ver prefácio) No ... dia da semana; no dia... do mês ... , no ano ... ,
que o livro do Dr. Ramm sobre interpretação era a eu, que também sou chamado filho de ... , da
mais satisfatória obra sobre o assunto publicada neste cidade de ... , junto ao rio ... , por esse documento,
país. nos últimos quarenta anos. E previa que ela seria consinto, de vontade própria, não sofrendo coação
aceita como texto para os estudos de hermenêutica alguma, eu libero, repudio, e afasto a ti, minha
nas escolas e seminários conservadores dos Estados esposa ... , que também é chamada filha de ... , que
Unidos. (Eu poderia citar centenas de 1ivros acerca de neste dia, na cidade de ... , junto ao rio ... , e que foi
interpretação tanto de autores bíblicos como jurídicos, minha esposa durante algum tempo. E assim eu a
que insistem no emprego dos mesmos princípios libero e a mando embora, e a afasto para que
interpretativos apresentados pelo Dr. Ramm.) possa estar desobrigada a ter domínio sobre si
Talvez fosse interessante vermos os termos dessa mesma, para ir e casar-se com o homem que
carta de divórcio. O famoso rabi Maimonides e outras desejar; e nenhum homem pode impedi-la, deste
autoridades judaicas a registraram. E era um docu- dia em diante, e não está obrigada a nenhum
mento bem antigo quando ele a copiou para registro. homem; e isso será para você, de minha parte, um
(Século XII.) A carta de divórcio era definida com tal termo de dispensa, um documento de emancipa-
clareza e precisão, que continha até o nome do rio ção, uma carta de liberação, de acordo com a lei
mais próximo ao loca] onde residiam as partes interes- de Moisés e Israel.
sadas. E os judeus eram tão meticulosos em manter Testemunha .......... filho de ........ ..
tudo dentro dos limites judaicos, que se fosse prepa- Testemunha .......... filho de ........ ..
rada num tribunal gentio, estava automaticamente Esta evidência documentária é outro e!o de nossa
invalidada. cadeia de provas. Ela mostra que Jesus falava do

30 31
casamento como tendo possibilidade de ser dissolvido séculos, homens justos (retos) usaram esta carta para
pelo divórcio, e não apenas pela morte. dissolver o casamento com esposas infiéis.
O divórcio secreto era uma provisão de misericór-
Esta carta ou termo de divórcio inferia que não se dia. para poupar à esposa adúltera a vergonha e a
tratava de uma mera separação de corpos e bens, desgraça de um julgamento público nos tribunais
como querem defini-lo alguns, mas de um comple- judaicos. Quando um judeu colocava a carta na mão
to rompimento do laço conjugal. <Pulpit Commen- da esposa em presença de duas testemunhas, a união
tary.) era ali oficialmente reconhecida como estando des-
É fato comprovado que Jesus aprovou o divórcio feita.
por causa do adultério. O que desejamos saber é: que O compromisso judaico era mais sério que o nosso
tipo de divórcio ele aprovou? Considerando-se todos noivado (Gn 24.53-62). "Entre os árabes, hoje, ele é a
os fatos e circunstâncias do caso, só pode haver uma única cerimônia legal relacionada com o casamento."
resposta: Jesus aprovou o divórcio judaico, por causa O texto diz que José era "esposo" de Maria, e o anjo
de fornicação. referiu-se a ela como "mulher" de José. Escrevendo
O Senhor não introduziu um novo tipo de divórcio. acerca do compromisso judeu, Edersheim diz o se-
Ele não aboliu todo e qualquer divórcio. Ele corrigiu guninte:
os abusos do privilégio do divórcio, mas aprovou o "Daquele momento em diante. Maria era a esposa
direito de se fazer uso dele. Se ele tinha intenção de prometida de José; seu relacionamento era tão
transformar o termo de divórcio num termo de sepa- sagrado, como se já estivessem casados. Qualquer
ração, por que não explicou essa mudança? Os parti- violação do compromisso seria considerado adul-
dários da separação basearam sua idéia no contexto tério: e a união tão pouco poderia ser dissolvida, a
histórico, e isso é um erro de grandes conseqüências. não ser, como no caso do casamento, pela promul-
O significado dado por quem prepara um docu- gação do divórcio. t.L{f"e and Times ofJesus th(•
mento deve ser retirado do que está contido nele Messiah.)
mesmo, e também do que se pode inferir, com Um judeu comprometido estava proibido de casar-
justiça, com base em costumes ou coisas seme- se com outra mulher enquanto o compromisso não
lhantes. (Encyclopedia Americana.) fosse dissolvido pela carta de divórcio. Se ele viesse a
Para se considerar questões de fato, depois de falecer durante o período do noivado, a esposa herda-
haver transcorrido considerável lapso de tempo, va seus bens.
deve-se conceder maior peso à evidência documen- Sob a lei mosaica. o casamento era considerado
tária do que à oral. (Teologia Sistemática, de tão sagrado, que tanto a noiva como a esposa que
Strong.) cometesse adultério eram sentenciadas à morte. por
sua infidelidade. E a razão da sentença de morte era:
A Intenção de José de Usar a Carta de Divórcio "Eliminarás o mal do meio de ti" (Dt 22.24.)
Algum tempo depois da era de Moisés, alguns
Mas José. seu esposo, sendo justo e não a querendo judeus compassivos aboliram a pena de morte e a
infamar, resolveu deixá-la secretamente. (Mt 1.19.)
substituíram pelo termo de divórcio. O divórcio era
Veremos agora uma ilustração do que quero dizer uma medida mais branda para com os adúlteros e
com o uso correto da carta de divórcio. Durante vários adúlteras, que no tempo de Moisés eram mortos.

32 33
Fiz algumas tentativas no sentido de determinar a esse assunto, encontrei muitos teólogos que aberta-
época exata da história judaica em que a pena de mente reconheciam suas dúvidas com relação ao
morte fora abolida e substituída pelo termo de divór· significado da lei do divórcio de Cristo, incluindo
cio, mas não consegui, nem mesmo tendo obtido o au · alguns católicos romanos. E eles continuarão em
xílio do bibliotecário chefe da seção judaica da Biblio- dúvida, a menos que entendam como entenderam os
teca Pública de Nova Yorque. O Ta/mude judeu afir- judeus que ouviram o Senhor pronunciar estas pala-
ma que a pena de morte foi abolida "quarenta anos vras. Será que o leitor aceitará esta regra que afirma:
antes da destruição do templo" (70 A. O.), mas existem ''Podemos afirmar que isso e aquilo era costume entre
fatos bíblicos que atestam que ela foi removida bem os judeus no tempo de Cristo, como dão testemunho
antes disso. os escritos rabínicos"? Se não, por que não?
Quando José descobriu que Maria estava grávida, Citei aqui várias fontes que apóiam as regras de
pensou que ela lhe fora infiel, e planejou deixá-la interpretação pelas quais analisamos estes textos acer-
dando-lhe carta de divórcio, e o Espírito Santo diz que ca do divórcio. e ainda citaremos outras, à medida que
ele era "homem justo" neste propósito. Ele não era avançarmos. Meu propósito nisso tudo é utilizar um
um judeu "duro de coração", como aqueles que foram grande número de autoridades. Tal prática implicará
testar Jesus com suas perguntas acerca do divórcio em repetição, mas, se eu deixar de fazê-lo, alguns, sem
"por qualquer motivo" (Mt 19.9). dúvida, poderão dizer que escolhi somente algumas
Vemos, então, uma prova de que o termo de fontes, as que favoreciam minha tese. Minha experi-
divórcio poderia ter sido usado com toda justiça. José, ência em tais questões ensinou-me que sou obrigado a
um homem justo, tencionava usar a carta mosaica. E fazer assim, por isso. peço ao leitor que tenha um
o Espírito Santo no Novo Testamento a._jirma que José pouco de paciência.
era um homem justo. quando tencionava recorrer ao
expediente da carta de divórcio para dissolver sua
união com Maria.
E uma atitude justa em Mateus 1.19 não pode ser
injusta em Mateus 5.32 e 19.9. Essa ação que os
homens justos haviam tomado, havia séculos, tanto
em casos de casamento como de noivado, continuava
a ser justa.
Dean Farrar trabalhou vinte anos na preparação
de seu livro The History of/nterpretation (A história
da interpretação). Ele escreveu (Prefácio) que todas as
interpretações que contrariavam o método histórico-
gramatical da hermenêutica consituíam-se "manipu-
lações autocráticas" e uma "fraude exegética".
Apliquemos nesse caso a lei dos costumes, e a
névoa teológica que o cerca desaparecerá. "Os costu-
mes fazem as leis." (Citado em Black's Law Dictiona-
ry.)
Enquanto realizava o trabalho de pesquisa para

34 35
rompimento. Isto pode ser contirmado nos seguintes
volumes:
Genesius Hebrew and Cha/dee Lexicon
4 Studcnts Hehrew Lexicon
H ehn'H' andE ng/ish Lexicon q(Thc O ld Testament
Bagster's Anal\'ticul Hehrew and Clwldee Lexicon
Stron~·.\. Concordwrce
You11g 's A nalwicul Concordance
"Repudiar" Significa i\ palavra grega que traduzimos por divórcio no
Novo Testamento é a poluo. Trat::1-sc de um equivalen-
Dissolução do Casamento? te exato do vof>ábulo hebraico kerithuth. e tem o
mesmo sentido precbo de absoluta dissolução. Ela
signitica:
'
"Libertar: soltar: liberar: dissolver radicalmente:
Aquele que repudiar sua mulher... (Mt 5.32, 19. 9.) desamarrar, como se solta um navio lançado ao
mar: desligar, como no caso de um soldado que dá
Esse .. repudiar" significa dissolução ou separação? baixa do exército: desfazer um laço: seccionar:
O termo de conotação jurídica "repudiar" tinha uma cessar qualquer obrigação e responsabilidade: se-
origem gramatical que sempre significava a dissolução parar: libertar, como se liberta um cativo, isto é.
absoluta do casamento, com o implícito direito a um !!.Oltar-lhc as cadeias que o prendem para que
novo matrimônio. A idéia de uma simples separação tenha liberdade de sair." Ver:
nunca esteve associada a ela. Desejo relembrar ao A Manual Greek-Lexicon of the New Testament
leitor que nas cortes de justiça, os dicionários e The New Testament in Greek, Lexicon
concordâncias são considerados evidências de supre- Vine 's Expository Dictionary of the New Testa-
ma importância. Por isso. relaciono abaixo doze fon-
mcnt Words
tes do hebraico e do grego que provam a detinição de
A Grcek Enf?lish Lexicon
"repudiar". Tlte Vucubu/ary of the Greek New Testament
Lcia·se qualquer livro de autores que têm um
ponto de vista oposto na questão do divórcio. e verá Entre os primeiro pais da igreja, "repudiar" (apo-
que nenhum deles cita uma autoridade do grego ou do luo) era usado no sentido de "libertar, liberar da
hebraico para indicar que divórcio significa "separa- morte". "livrar·se de", "romper". "desligar-se de".
ção de corpos e bens". Não há uma sequer. Todos os O significado mais básico do vocábulo grego apo-
dicionários que examinei dão o mesmo significado de /uo é libertar. Um exemplo disso encontra-se em
dissolução do vínculo. Marcos 15.6-15. "Havia um (preso) chamado Barra·
Em toda a história judaica, o divórcio sempre foi bás", numa prisão romana mas "Pilatos, querendo
chamado de "um rompimento". O decreto mosaico contentar a multidão, soltou-lhe (apelusen) Barra-
acerca do divórcio era chamado pelos judeus de bás ... " Esta idéia de libertação de uma cadeia é a
"termo de rompimento". A palavra hebraica que se mesma de divórcio do casamento expresso pela pala-
traduz por divórcio (repúdio) é kerithuth. e significa vra "repudiar". Pela autoridade do governador roma-

36 37
no. Barrabás foi libertado. As portas da prisão abri- a forma original e o significado básico de cada
ram-se e o prisioneiro saiu livre. O mesmo se dá com o palavra. (A Grammar qfthe Greek NtoW Testament
casamento e divórcio. Num divórcio segundo Cristo, o in the Light qf Historical Research.)
laço conjugal é rompido e o cônjuge cativo é liberto. A
lei matrimonial não tem mais direitos sobre a pessoa Lutero, um dos maiores intérpretes das Escrituras,
libertada assim como a lei romana não teve mais sabia, assim como o sabem todos os que estudam
direitos sobre Barrabás. história doutrinária, que os erros perigosos da igreja
foram as distorções de termos bíblicos. Isto se verifi-
As provas léxicas em favor da dissolução são
unânimes e convincentes. As definições dos termos cou desde o Concílio de Nicéia (324 A.D.) até o
Concílio de Trento (1545-1563), quando os grandes
bíblicos têm importância bem ampla, pois muitas
debates doutrinários foram apenas uma "luta a pro-
doutrinas bíblicas são expressas por uma simples
pósito de palavras". Disse Lutero:
palavra ou termo. Se alguém modificar o significado
da palavra, mudará o da doutrina também. Muitas "Já observei o seguinte: todas as heresias e erros
doutrinas falsas surgem justamente do fato de os brotam .... de uma negligência das palavras simples
mestres modificarem o sentido de palavras como das Escrituras. (Citado em History of Interpreta·
"pecado", "arrependimento", fé. salvação, graça, re- tion.)
denção, condenação, etc. Mary Baker Edy mudou o
significado da palavra "pecado": Fosdick mudou o Quando se entende a importância da história dos
significado de "condenação", e um proeminente bispo termos, vê-se que não estou enfatizando este ponto
episcopal mudou o sentido de "foi gerado ... do Espíri- demasiadamente. Os mais funestos erros do cristianis-
to Santo" (Mt 1.201. mo foram cometidos por homens que modificaram o
Se nossos opositores tiverem permissão de modifi- sentido de termos tais como "nascer de novo" e "Filho
car o sentido do termo ··repudiar", então "não pode- de Deus". Ao estabelecer sua doutrina de Cristo,
remos negar o mesmo privilégio a outros que talvez Paulo baseou-a na diferença entre as formas singular
distorçam outras passagens da mesma forma". E se e plural de uma palavra. (Gl 3.16.)
tal permissão for concedida. onde terminará tudo É digno de nota o fato de que os autores do Novo
isso? E quem irá decidir o que pode ser modificado e Testamento e o próprio Jesus não tenham hesitado,
o que não pode? em algumas ocasiões, em basear toda a sua argu·
mentaçào em uma única palavra do Velho Testa·
A modificação do sentido de uma única palavra ... menta. (Revelation qf" the Bib/e.)
muitas vezes confere um sentido inteiramente
novo às Escrituras. (Young 's Literal Translation o.f Ao enunciar sua lei de divórcio, Jesus não nos
the Bihle.) deixou em dúvidas com um enigma moral para deci-
frar. Ele não nos deu uma opção entre- dois possíveis
O Prof. A. T. Robertson, o mais eminente conhe- significados da palavra. Se o sentido que ele deu fosse
cedor do grego nos tempos atuais, passou doze anos duvidoso, como poderia ele "julgar o mundo com
preparando a sua maior obra, da qual trancrevo o justiça" (At 17.31)?
~cguinte:
As palavras dúbias serão mais fortemente usadas
Não poderíamos fazer uma observação mais valio- contra aqueles que as empregam. (Black 's Law
sa que ... insistir na importância de o estudante ver Dictionary.)

38 39
No apêndice, cito Dean Alford: "Não devemos de dissolução. como o direito a um novo casamento.
contrariar o uso mais comum de uma palavra, substi- O Arcebispo R. C. Trench, da Inglaterra (1807·
tuindo-o por outro que não tem nenhum precedente." 1886). famoso por seus estudos cientHicos de línguas.
Todos os usos da palavra divórcio na Bíblia dão seu disse que o erro na distinção no significado das
significado corno sendo dissolução do casamento. A palavras era "a gera triz de todos os erros". Escreveu
concordância coloca o divórcio com o mesmo signifi- também acerca "das falsidades do diabo que se escon·
cado de dissolução em Deuteronômio 24.1, Mateus dem em palavras". (Trench on Words. de Suplee.) O
1.19; 5.32 e 19.9. inglês. Jeremy Bentham. grande autoridade em direi·
A Suprema Corte dos Estados Unidos tem tomado to. disse que "uma única palavra pode conter muitos
decisões Históricas baseadas apenas no significado de enganos". E aqui está outra citação de The World (~(
uma ou duas palavras da constituição. (Ver Handbook Law (0 mundo da lei): "Uma simples palavra ... pode
on The Law o(Evidence.) Companhias de seguro já derrubar todo um edifício".
aprenderam a colocar em suas apólices um parágrafo O que significou então esse termo "repudiar" para
COT)l definições de termos, com o fim de evitar quais- Mateus'! O que significou ele para os leitores de seu
quer mal-entendidos a respeito de como a linguagem e Evangelho no primeiro século?
a apólice devem ser interpretadas.
Mas o objetivo da interpretação é obter o sentido
Jesus não teria usado a palavra "repudiar" se
exato dado pela pessoa que escreveu o documento.
pretendesse dizer apenas "separação". Ele empregou
Para ela, suas palavras não são ambíguas: pois ela
o mesmo termo da lei. "repudiar". que Moisés empre-
atribuiu um significado definido a tais palavras. e
gou na regulamentação do divórcio. e incorporou-o à
a tarefa daquele que interpreta é descobrir qual é
legislação do Novo Testamento. Jesus sempre usava de
esse significado. ( Wi,~nw11e o11 E1'idence - grifo
toda clareza em questões morais. Estivesse ele apre-
sentando um novo significado para o termo "repu· do autor.)
diar", e teria explicado cuidadosamente este ponto de Por que todas essas argumentações e repetições
tanta importância. Qualquer legislador sábio teria em torno de palavras? Porque tal é o ponto crucial de
feito o mesmo. toda a questão.
Ademais. argumenta-se que, quando o Senhor
Jesus falou acerca do divórcio, ele devia ter em
mente o rompimento completo dos laços conjugais,
já que esse seria o único significado que seus ou-
vintes poderiam dar à palavra. lEncyc/opedia q(
Religion and Ethics.)
Doze dos principais dicionários de hebraico e
grego definem "repudiar" como dissolução do casa·
mento. Nem uma só autoridade pode ser citada que
favoreça a idéia de que o sentido certo é separação.
Concluímos então que é correto afirmar que o
leitor no Novo Testamento, do primeiro século, enten-
dia a palavra "repudiar" com o significado absoluto

40 41
A palavra "exceto" tem o mesmo sentido no
português e no grego. Nosso termo vem do latim ex
mais capere, que significa "retirar". Os principais
dicionários concordam entre si numa definição. Cita-
remos três delas.
5 "Exceto. Com exclusão de; afora; salvo; menos."
(Novo Dicionário Aurélio.)
"Exceto. Fora, menos, salvo. fora. excluindo, a
não ser, a exceção de." (Dicionário de Sinônimos e
Antônimos.)
"Exceto em Caso de Adultério... " Exceto: retirar ou excluir de uma quantidade ou
todo. (Webster's Third New lnternational Dictionary.)
t da maior importância observar que este dicioná-
rio inglês detine "exceto" como sendo uma exclusão
"de uma quantidade ou de um todo". Tal é o seu
Qualquer que repudiar sua mulher, exceto em significado no. grego. As principais fontes em questões
caso de adultério ... (Mt 5.32.) jurldicas dão a mesma definição.
A enciclopédia da lei, Words and Phrases (Pala-
Já estabelecemos a definição bíblica de "repudiar" vras e frases), uma obra monumental de cento e um
na lei acerca do divórcio enunciada por Cristo. Agora volumes, oferece o sentido jurídico da palavra exceto
iremos fazer o mesmo com o vocábulo "exceto".
universalmente aceito.
Uma importância ainda maior é atribuída ao
significado de "exceto". O problema do novo casa- O objetivo de uma exceção ... é excluir a operação
mento apóia-se nele. Será que essa palavra dá margem de certas palavras que de outro modo estariam
ao divórcio, mas não a um novo casamento? Os incluídas entre elas ... O vocábulo "exceto" signifi-
teólogos têm debatid.:> esta questão desde os tempos ca excluir algo de uma enumeração, do corpo de
de Agostinho, que viveu no século V. uma afirmação ou decreto ... deixar fora de consi-
A palavra grega que traduzimos por "exceto" é deração, não levar em conta.
"parektos". Um equivalente de parektos (ei me) é
empregado em Mateus 19.9. Ela significa: Os editores desta enciclopédia, em nota anexa,
falam da crescente importância das definições de
"Retirar; fora de; excluir; deixar de fora; à parte termos em decisões de tribunais. Dedicam três pági-
d e. " nas ao significado de "exceto", com inúmeras citações
A Greek-English Lexicon qf' the New Testament. legais, para demonstrar que as decisões judiciais são
The Vocabulary of the Greek New Testament baseadas no significado acima citado. Outras autori-
Expository Vocabulary of the New Testament dades no assunto que concordam com ela são:
Thayer's Greek-English Lexicon ofthe New Testa-
ment American Jurisprudence
A Greek Lexicon of the Roman and Buzantine Cyclopedic Law Dictionary
Periods Black's Law Dictionary

42 43
Já vimos então que as autoridades do grego, '
nenhuma pessoa que se casasse de novo apos um
português e inglês, e em leis concordam entre si divórcio por causa de adultério.
unanimemente em que "exceto" significa "excluir de
uma quantidade ou de um todo uma parcela" - Em caso de dúvida de interpretação, a dúvida
"deixar de fora de um certo número em consideração, deve favorecer o acusado. (The Theory ofJustice.)
um item qualquer"- "excluir algo de uma enumera~ As palavras de exceção devem ser interpretadas
ção. do corpo de uma afirmação ou decreto". Ela tem em favor do beneficiado. (Pope Legal Dejinitions.)
o mesmo sentido na linguagem empregada nos apócri- No inverno de 1965, um noticiário da imprensa
fos, clássicos e nos papiros.
informava que um problema a ser levado perante a
O Prof. M. M. Bryant, da Universidade de Co! um·
suprema corte dos Estados Unidos era se um segmen-
bia, em Nova York, fez um estudo para ver como a
to de certo ato do congresso poderia ser considerado
palavra "exceto"' e outros vocábulos são interpretados
"nulo por causa de imprecisão".
nas cortes de justiça ao transmitir as decisões legais. O Jesus foi um mestre na arte da • palavra. Possuía
Prof. Bryant expõe os resultados deste estudo em um • • •
maravilhosa capacidade de enunctar um prtnctpiO
livro do qual retirei a seguinte citação: numa declaração breve. Ninguém o superou nas scn-
"Quando se ouve a palavra "exceto", imediata~ tcn~as curtas: a clareza e força de suas leis são
mente se pensa em "não inclusão". Supõe~se que modelos de precisão.
aquilo que foi excetuado é deixado de fora ... a Seria intenção dele que a cláusula restritiva "exce·
mente faz uma imagem mental deste significado. to em caso de adultério" incluísse o novo casamento?
f: isso que chega à tona da consciência." <English Ou a exceção permite apenas o divórcio? Se se provar
in the Law Courts.) que esta exceção cobre tanto o divórcio como um novo
casamento. teremos resolvido uma grande questão.
O autor relaciona muitas citações para demonstrar Examinemos novamente esta lei.
como uma pequena palavra muitas vezes constitui o
fator determinante nas interpretações judiciais de Eu. porém, vos digo: qualquer que repudiar sua
escrituras, testamentos, contratos, ou quaisquer ou- mulher. exceto em caso de adultério. a expõe a
tornar~se adúltera; e aquele que casar com a
tros documentos. "Jesus observou pequenos detalhes
de linguagem." (Robertson.) repudiada comete adultério.
... todos os teólogos honestos, quer liberais, quer O argumento dos intérpretes contrários ao novo
ortodoxos, devem tratar cada palavra com toda casamento é que a exceção não se estende à cláusula:
seriedade, se é que desejam considerar as Escritu~ "e aquele que casar com a repudiada comete adulté-
ras de maneira justa. (Revelation '!f'the Bible.) rio". Vou tentar provar que sim.
Tanto no grego como em nosso idioma, não impor·
Não é verdade que muitas vezes não compreende- ta a posição da exceção na sentença. Ela pode estar no
mos uma declaração, enquanto não esclarecemos o começo, no meio ou no fim. e o signigicado da lei
significado de certo vocábulo nela contido? permanece inalterado. Mas no grego, a exceção soa
O legislador do Novo Testamento sabia dos peri- melhor no meio da sentença, que é a posição certa
gos de um mal~entendido, e das dificuldades de um para ela. A Exceção pode ser retirada de sua posição e
significado incerto. Se houvesse alguma dúvida acerca colocada em qualquer outro ponto da sentença, sem
de sua lei do divórcio, então ele não poderia condenar alterar sua aplicação nas duas cláusulas.

44 45
Passamos a demonstrar agora o significado de agravado, para contrair novo matrimônio. (Dictio-
exceto. narv
. of'
. Christ and the Gospels.J
a. Qualquer que repudiar sua mulher, exceto em
caso de adultério, a expõe a tornar·se adúltera; e As evidências que apresentamos do hebraico e do
aquele que casar com a repudiada coinete adu1té- grego. bem como de fontes ligadas aos meios jurídicos

riO.
são consideradas "alta evidência". Precisamos inter-
b. Exceto em caso de adul!ério, qualquer que pretar as leis de divórcio do Novo Testamento pelas
repudiar sua mulher, a expõe a tornar-se adúltera; regras que regem a interpretação de qualquer lei. Um
e aquele que casar com a repudiada comete adul- exame da concordância mostrará que centenas de
tério. vezes Deus fala de seus mandamentos como sendo
c. Qualquer que repudiar sua mulher a expõe a "leis".
tornar-se adúltera; e aquele que casar com a Já apresentamos provas suticientes para chegar-
repudiada comete adultério, exceto em caso de mos a uma conclusão de que tanto o divórcio como o
adultério. novo casamento são afetados pela exceção do adulté-
rio. A respeitada versão inglesa Weymouth traduz
Entre os conhecedores do grego, o Prof. A. T. esse verso de Mateus 5.32 da seguinte maneira:
Robertson é considerado "o príncipe dos modernos
gramáticos gregos", e ele defendia a tese de que a Mas eu vos digo que todo homem que repudiar sua
exceção apresentada na lei de divórcio formulada por esposa, exceto por causa de adultério, leva-a a
Cristo. falava tanto de um divórcio como de um novo cometer adultério; e quem se casar com tal divor-
casamento. (Words Pictures in the New Testament} ciada comete adultério.
Muitos entendidos no grego, tanto antigos como Esta versão nos dá o verdadeiro sentido da lei de
modernos. defendem o mesmo ponto de vista do Dr. divórcio promulgada por Cristo. Jesus disse que um
Robertson. Bengel ensinava que a exceção aplicava-se novo casamento de uma mulher divorciada seria
tanto ao divórcio quanto ao novo casamento. (Gnomon adultério, a não ser em caso de fornicação.
of the New Testament.)
Eis uma citação de uma obra encontrada na
secção de consultas de uma de nossas principais
bibliotecas.
Alguém pode argumentar também que a palavras
"exceto em caso de adultério" afetam a primeira
cláusula apenas, e que um novo casamento, mesmo
no caso de adultério é proibido por essa lei. Mt
19.9. Mas. se tal fosse a intenção de Cristo, ele a te-
ria declarado explicitamente, e não a deixaria para
uma dedução posterior. E tal ensino pareceria
ilógico, porque, se apoiamos a tese de que o adul-
tério significa o rompimento dos laços conjugais
de maneira tal que justifique um divórcio, deve-
mos crer também que ele deixaria livre o marido

46 47
são sinônimos, e muitas vezes são empregados alter·
nadamente. O mesmo se dá com outros termos bíbli-
cos tais como "alma" e "espírito", "reino de Deus" e
"reino dos céus". O significado específico é muitas
vezes determinado pelo contexto.
No hebraico e no grego, a palavra fornicação
abrange incesto, sodomia, prostituição, perversão e
6 todos os pecados sexuais, cometidos antes como de-
pois do casamento. Não estamos preocupados basica-
mente com a definição de adultério na linguagem
moderna.
O vocábulo fornicação deriva do latim fornix que
significa "bordel''. Literalmente, designava "alcova'',
O Significado de Adultério ou "cela", onde as prostitutas romanas habitavam.
Nossos principais dicionários reconhecem o significa-
do hebraico e grego da palavra fornicação. O termo
hebraico é zanah. t usado para referir~se a: "mulher
Eu, porém, vos digo: Quem repudiar sua mulher, casada que cometa adultério. Jr 3.1."' !Studente He-
não sendo por causa de adultério, e casar com brew Lexicon.)
outra, comete adultério. (Mt 19.9.) Em A mós 7.17. uma mulher casada é chamada de
prostituta - zanah. (Y oung "s Analytical Concor~
Alguns professores ensinam que a palavra "adul- dance.!
tério" mencionada em Mateus 5.32 e 19.9 refere-se a "Fornicação- do hebraico zanah, cometer adul-
"pecado pré-conjugal". Ensinam que uma pessoa tério. Todas as formas de impureza são abarcadas
pode divorciar-se de seu cônjuge apenas por pecado pelo sentido de "adultério". Mt 5.32." (The Inter·
sexual cometido antes do casamento, mas não pelo national Standard Bible Encyclopedia.)
pecado cometido após o casamento. Como de costu-
me, tais pessoas não apresentam nenhuma prova para Todas as principais autoridades concordam entre
essa declaração dogmática. Quando um homem tem si quanto a essa definição da palavra hebraica zanah.
provas, ele não precisa ser dogmático. Tudo que tem a O termo grego que se traduz por adultério é
fazer é apresentar essas evidências. porneia ... Ela significa:
Muitas pessoas fazem grande celeuma em torno Em Mateus 5.32; 19.9. ele tem o sentido de adul-
do significado do termo adultério, portanto faz-se tério. (Expository Dictionary ofthe New Testament
necessário que o examinemos detalhadamente. Hã Words.i
dois pregadores nos Estados Unidos, conhecidos em Fornicação. "Prostituição; impureza, qualquer ti-
toda a nação, que ensinam que adultério significa po de relação sexual ilícita ... o adultério aparece
apenas pecado pré-conjugal, e muita dificuldade tem como sendo fornicação. A infidelidade sexual de
sido criada por uma declaração tão sem fundamento. uma mulher casada. Mt 5.32 IA Greek-English
Qual é a verdade acerca do termo adultério? Lexicon of the New Testament)
Nas Escrituras, os termos fornicação e adultério "A fornicação deve ser entendida com o significa-

48 49
do de pecado cometido não apenas antes do casa~ adu1tério escrito por Mateus como abrangendo todos
menta, mas também após ele, em sentido mais os tipos de impurezas sexuais, e estavam bem abaliza~
amplo, incluindo também a idéia de adultério." dos para reconhecer o uso dessa palavra entre os
fThe New Testament for English Readers.) antigos.
"Porneia identifica qualquer ato sexual ilícito, em Em Israel, havia pena de morte para os judeus que
geral. Quaisquer outras interpretações do termo ... cometessem atos de fornicação, tanto antes como
devem ser rejeitadas." (Thayer's Greek~English depois do casamento. A pena de morte fora imposta
Lexicon.) aos judeus casados para o caso de incesto, sodomia,
violência sexual e qualquer ato sexual proibido. (Lv
A obra Expositor's Greek Testament (0 Testa~ 20.11-21.) Todas estas coisas estavam incluídas no
ment~ grego para expositores) é uma das principais sentido do termo "fornicação", como estava escrito
autortdades: em grego, preparada por dezessete erudi~ em seu código de leis. E foi nesse sentido que Jesus
tos famosos. Acerca do significado do vocábulo "adul~ empregou o termo adultério, quando enunciou sua lei
tério", lemos o seguinte: de divórcio para os judeus. Como ele não deu a menor
indicação de que alterara o sentido que a palavra
"O que significa porneia (fornicação)? Schanz, um tinha no Velho Testamento, esse era o único sentido
~es~r_e como c?nvém a um católico ... conclui que que poderiam dar ao termo. A idéia de um pecado
stgmftca adulterio cometido por mulher casada. apenas pré~conjugal nunca foi vinculada ao termo.
~lg~ns, ~ncluind~ Dollinger, pensam que significa 1': possível que muitos desconheçam o fato de que o
formcaçao cometida antes do matrimônio. A posi~ Dr. R. H. Charles, da Inglaterra, foi um dos mais
ção mais relevante, tanto no passado como nos profundos teólogos não somente do século XX, mas
tempos modernos, é a adotada por Schanz." também de toda a cristandade. Suas monumentais
.. 0 termo porneia deve ser entendido em seu obras fazem parte das secções de consu1ta das prin·
sentido certo, e não deve ser restringido a certa cipais bibliotecas do país. Até autoridades no grego
forma em particular." apelam para seus conhecimentos.
Poderiam ser citadas aqui inúmeras outras autori~ Seu livro acerca do divórcio, The Teaching of the
dades, que concordam com as que mencionei. Talvez New Testament Divorce (A doutrina do divórcio no
bastem apenas uma ou duas mais. A Word Studies in Novo Testamento) é uma das mais eruditas exposições
t~e N_ev.:. Testament de Vicent aplica a palavra "for~ no assunto. Ele diz: "O Senhor tomou o lado dos
mca~ao a homens casados. Os estudiosos do grego shamitas ... " e Shammai certamente não ensinou que
consideram o The Vocabulary of the Greek New o adultério tinha o sentido exclusivo de pecado pré~
Testament (0 Vocabulário do Novo Testamento gre~ conjugal. O Dr. Charles diz também:
go) como sendo a "suprema corte de apelações",
P_?tque ele demonstra, a partir dos papiros e inseri· Nunca chegou ao meu conhecimento que se ha~
çoes. como os termos bíblicos eram usados à época ja investigado o emprego do termo porneia (for~
dos autores _bíblicos. Acerca do significado de porneia, nicação) nos escritos judaicos. Tampouco, foram
esta obra dtz o seguinte: reconhecidos seus inúmeros significados. O uso
" ... aplicava~se a qualquer relação sexual ilícita em peculiar do termo pomeia se faz mais evidente nos
geral". escritos judaicos e cristãos, mas no grego clássico a
Os principais pais da igreja interpretavam o termo palavra era usada para designar diversos pecados

50 51
sexuais. E corno esta questão é de vital importân- vezes usados para descrever tal culto, e este tipo de
cia. dediquei-lhe um capítulo especial. Nesse capí- adoração não era limitado aos homens casados.
tulo, chegamos à inevitável conclusão de que o ter- Heródoto diz que os ritos dos cultos idólatras
mo pomeia poderia ser usado para designar peca- estavam relacionados com infames excessos sexuais.
do sexual num senso genérico, ou qualquer outro Veja-se Apocalipse 2.20 onde Cristo fala de Jezebel e
pecado sexual. seu culto idólatra, e de haver ela levado seus servos a
"praticarem a prostituição". Aqui novamente Cristo
Grande parte da informação que damos a seguir usa a palavra "prostituição" (fornicação) em relação a
nos provém do Dr. Charles. pessoas casadas.
Dos 23 mil israelitas que cometeram pecado se- Em Oséias 2.5, a palavra fornicação é aplicada à
xual com as tilhas de Moabe, segundo registro de esposa de Oséias. "Prostituir" é zanah. As abomina-
Números 25.1,2, nem todos eram casados. E seu ções sexuais praticadas por pessoas casadas em Soda-
pecado é designado pelo vocábulo zanah (fornicação). ma e Gomorra são mencionadas em Judas 7, e a
Em I Coríntios 10.8, Paulo diz: "E não pratique- palavra usada é "prostituição".
mos (nós} imoralidade. como alguns deles o fizeram, e Nos apócrifos judaicos, a palavra pomeia e seus
caíram num só dia vinte e três mil." O apóstolo sinônimos tornam-se termos genéricos para designar
refere-se aos israelitas casados que cometeram forni- práticas sexuais, e são usadas para especificar vícios

cação, e diz aos coríntios que eram casados: .. E não sexua1s.
pratiquemos imoralidade". Será que ao usar a primei- A palavra porneia (fornicação) é usada para desig-
ra pessoa do plural ele dirige-se apenas aos solteiros? nar adultério em Siraque 23.23; Testamento de Judá
Em Apocalipse 2.14, Cristo menciona o mesmo 18.2; Testamento de Dã 5.6; Testamento de Issacar
acontecimento dos judeus casados que cometeram 7.2; Testamento de José 3.8. No Testamento de Levi
pecado sexual com as filhas de Moabe, e diz que 14.6, os sumos sacerdotes, quase que sem exceção,
co~1eteram "prostituição". Portanto, nesta passagem, eram homens casados, e a palavra fornicação era
Cnsto que usara a palavra "adultério" em Mateus aplicado para designar as transgressões tanto dos
5.32 e 19. 9, emprega-a também ao mencionar o solteiros como dos casados. No Testamento de Aser
pecado sexual dos casados. 2.8, a mesma associação de pecado sexual é descrita
Em Amós 7.1 7. adultério (zanahJ designa o pecado com o termo pomeia.
sexual de uma mulher casada. Isto se harmoniza com Na literatura do início da era cristã, o termo
o relato de Dio Cassino acerca de Messalina. Na era pomeia e seus cognatos eram usados para designar os
clássica, o termo adultério abrangia o pecado sexual pecados sexuais em geral.
de uma mulher casada. (Ver também 2 Rs 9.22.)
O termo porneia e seus cognatos são usados em Hermes usa a palavra porneia aplicando-a a mu-
relação com o culto idólatra em Gênesis 34.16; 2 lheres casadas. Tácio também aplica o termo por-
Crônicas 21.11.13; Isaías 1.21; Jeremias 3.8; e fre- neia à mulher casada. Heráclito cita Orígenes u-
qüentemente nos capítulos 16 e 23 de Ezequiel. A sando o termo porneia ao falar da mulher de Sa-
relação entre Deus e Israel muitas vezes é representa- maria. Orígenes também enxerga o termo ponteia
da pela figura do matrimônio. E a linguagem simbó- em Ma teus 14.7. Do mesmo modo, o Atos de Tomé.
lica tem que harmonizar-se com a literal. Em Ezequiel Basílio, em suas Epístolas, usa porneia falando de
23. o vocábulo pomeia e seus cognatos são muitas casados. Crisóstomo (e não há dúvida de que ele

52 53
Ele realizou um estudo do divórcio, e escreveu o
conhecia o grego) emprega porneia falando da
seguinte em seu M emorandum acerca da fornicação
esposa de alguém.
Gregócio Naziancio usou o termo pomos aplican- de Atos 15.20 e 29:
do-o a uma esposa adúltera, e também usa pomos Seria ridículo supor que no primeiro século A.D.,
designando um marido adúltero. quando relações sexuais ilícitas eram comuns en-
Justino Mártir usou pomeia para designar soda- tre os gentios, a palavra pomeia fosse usada so-

ruJa. mente para designar relações ilícitas entre pessoas
solteiras. Se esse fosse o verdadeiro sentido no qual
Inúmeras referências em favor desta idéia de for- a palavra teria sido empregada nestes dois versos,
nicação são apresentadas na valiosa obra léxica A então teríamos o primeiro concílio da Igreja indi-
Patristic Greek Lexicon (Um dicionário grego patrís- retamente permitindo relações sexuais ilícitas en-
tico). Este dicionário afirma o seguinte: "Fornicação tre casados.
- ato sexual ilícito praticado por pessoas casadas, e
por tal razão inclui a idéia de adultério. Mt 5.32, 19.9. O Dr. Charles resumiu suas conclusões acerca da
Porneia é adultério." O Baker's Dictionary ofTheolo- palavra fornicação com a seguinte declaração:
gy (Dicionário teológico do Baker) concordam plena- Desde os tempos clássicos, a palavra fornicação
mente com esta definição de fornicação. tem tido o significado de pecado sexual cometido
A fornicação e seus cognatos são empregados com por mulher casada. Aplicava-se aos pecados se-
o mesmo sentido no Novo Testamento. Ali o homem xuais como um todo. O contexto no qual ela
casado culpado de pecado sexual é chamado de adúl- aparece detennina o sentido que se pretendia
tero e a mulher casada de adúltera. Em 1 Coríntios dar-lhe. Segue-se que, na Grécia, desde o século
S. I. Paulo diz que o adultério era prática freqüente IV A.C. e no ano 200 A.C. entre os judeus de fala
entre os coríntios, e incesto é mencionado especifica- grega, até o ano 96 A.D., o tenno porneia e seus
mente. Quem poder dizer que apenas os homens casa- cognatos eram empregados não somente com o
dos eram culpados disso? Em 2 Coríntios 12.21, o sentido de fornicação, mas da prática de qualquer
apóstolo diz que ele choraria por muitos que "peca- outro pecado especifico, assim como de todos os
ram e não se arrependeram da impureza, prostituição pecados sexuais considerados englobada~ente.
e lascívia que cometeram". Serã que entre todos estes (The Teaching ofThe New Testament on D1vorce.J
pecadores contavam-se apenas homens casados? Em
1 Coríntios 5.9-11, Paulo ordena aos coríntios "que Isto foi interpretado assim pelos maiores entendi-
não vos associásseis com os impuros". Será que eles dos do assunto e tradutores da cristandade, a saber:
poderiam associar-se com adúlteros, então? Dessas
referências podemos depreender que Paulo, um erudi- Agostinho, Latâncio, Clemente tradutores do Ara-
to sábio judeu, usou o vocábulo "prostituição-fornica- maico, Lutero, Calvino, Grocio, os pais da Igreja
ção" pelo seu significado estabelecido. E assim tam- de após o concilio de Nicéia, Gesenios, Edersheim,
bém agiram os outros apóstolos. Rotherham, Vicent, Morgan, Robertson, Strong,
Em Atos 15.20,29, os apóstolos escreveram aos Knox. Williams, Phillips, Moffat, Weymouth,
gentios que se abstivessem da "incontinência". Elmer West, Montgomery, Goodspeed, versão ampliada,
Miller, veterano membro da corte da Nova York, é um Abott-Smith, Westcot-Hort, Driver, a versão
advogado com amplo conhecimento das Escrituras. Douay, Wesley-Hastings, Cruden e Liddle-Scott.

54 55
Eu poderia facilmente citar muitos outros, tanto De todas as evidências apresentadas, concluímos o
do passado como dos tempos atuais. Nossos principais seguinte: quem repudiar sua esposa, exceto em
dicionários modernos reconhecem o sentido bíblico de caso de pecado sexual. e se casar com outra.
fOrnicação. comete adultério.
O vocábulo adultério, aqui. designa o pecado
"Fornicação. Na Bíblia, qualquer ato sexual ilíci- cometido ao se contrair novo matrimônio. E existe
to. incluindo adultério." IWesbter's New 20th mais informações nas Escrituras acerca de fornicação
Centurv•
Dictionary.)
• c adultério. mas nosso objetivo foi apenas demonstrar
"Fornicação. Algumas vezes, principalmente na que na regulamentação do divórcio feita por Cristo, o
Bíblia. esta palavra é empregada para designar termo adultério não se refere somente ao pecado
todo tipo de relação sexual, a exceção do relacio- cometido antes do casamento.
namento entre marido e mulher." (Webster's Third Nosso conceito de fornicação é plenamente apoia-
New lnternational Dictionary.) do por evidências do Velho e do Novo Testamen~o. de
léxicos hebraicos e gregos, apócrifos judeus, da litera-
Os principais comentaristas e críticos gregos con- tura cristã mais antiga. dos clássicos gregos, dos
cordam entre si acerca do sentido de fornicação acima escritos rabínicos, dos papiros, dos pais da igreja,
citado, como o das Escrituras. tanto orientais como ocidentais. das revisões e outras
Muitas vezes pessoas casadas são acusadas de cri- fontes oficialmente reconhecidas. A idéia de pecado
mes sexuais tão chocantes, que a imprensa e o público pré-conjugal não tem o apoio das maiores autorida-
são proibidos de entrar nos tribunais. São crimes para des.
os quais Deus determinou a pena de morte, na lei de
Moisés. Será que Deus, agora, pede que seus santos
sejam "uma só carne" com tais criminosos? Será que
; . . -
tais ofensores, apos cumprtrem pena numa prtsao por
causa de crimes sexuais, podem voltar e reiniciar seu
relacionamento com o cônjuge inocente, sendo com
ele uma só carne. simplesmente porque. de acordo
com a interpretação pré-conjugal. estão proibidos de
divorciar-se deles?
Os defensores deste ponto-de~vista dizem que se
estes crimes houvessem sido cometidos antes do casa-
mento. então a parte inocente poderia divorciar-se do
cônjuge, mas. sendo cometido depois, o inocente deve
permanecer junto ao outro até o fim de sua vida.
Um dos defensores desta tese, com quem debati o
. . igniticado da palavra fornicação. reconhece que a lei
de divórcio formulada por Cristo exige que a parte
inocente se torna "uma só carne" com pessoas acusa-
das de crimes sexuais. Ele teve que reconhecer isto por
uma questão de coerência.

56 57
Conservemos em mente que o ponto que estamos
considerando nessa passagem é a legitimidade da
regulamentação do divórcio feita por Moisés.
7 Os principais defensores da tese do divórcio como
sendo apenas uma separação aplicam a regra do
assunto em debate em outras questões bíblicas, e
portanto seguiremos seu exemplo, e iremos aplicá-la
neste estudo.
No Apêndice, cito Carlos Finney, ao dar as regras
A Lei de Cristo de Mateus 19.9 de interpretação. Ele era teólogo e advogado e aplicou
na interpretação das Escrituras as mesmas regras
que estou usando. Ele escreveu o seguinte:
A linguagem deve ser interpretada de acordo com
Vieram a ele alguns fàn"seus. e o experimentaram, o assunto em debate. (Teologia Sistemática.)
perguntando: 11 licito ao marido repudiar a sua
A palavra "assunto" significa objeto ou matéria
mulher por qualquer motivo?
apresentada para consideração; ponto em discussão.
Analisaremos agora a questão do divórcio em um (Biack's Law Dictionary.)
cenário diferente. Na Bíblia há uma considerável Analisaremos então o assunto que foi apresenta-
repetição acerca de vários assuntos. Nesta passagem, do a Cristo para consideração, e veremos como ele
o autor divino apresenta o mesmo problema em cir- definiu a questão em discussão. Abaixo damos, em
cunstâncias diferentes. Quando uma questão é repe- colunas separadas, os textos de Mateus e Marcos, e o
tida. e novas informações são acrescentadas a ela, isto leitor verá por que os principais entendidos na ques-
é chamado lei da repetição. Embora o assunto seja tão, como Edersheim, Vicent, Alford, e muitos outros
repetido. nós o veremos de um novo ângulo, e perce- dizem que Mateus contém o "registro mais comple-
beremos novos detalhes. to", e que ele ocupa o "mais elevado plano das
Nesse verso. Cristo está debatendo com os teólogos narrativas", enquanto que o registro de Marcos é feito
judeus acerca da questão do divórcio. Como já vimos, em forma mais condensada. Colocamos em grifo, as
o problema era acirradamente discutido entre as frases de Mateus que são omitidas em Marcos.
escolas rabínicas rivais de Hillel e Shammai.
O ponto básico desse verso era a legitimidade ou
não da lei mosaica do divórcio "por qualquer motivo". Mateus !9 Marcos 10
Esses sábios judeus eram homens capazes e inteligen- 2. E aproximando-se al-
3. Vieram a ele alguns
tes. Queriam saber se era lícito para um judeu divor- guns fariseus o experi-
fariseus, e o experimenta-
ciar-se de sua esposa por qualquer motivo, pelos mentaram. perguntando-
ram, perguntando: É líci-
motivos triviais que o famoso rabi Hillel apresentara. lhe: É lícito ao marido
to ao marido repudiar a
Eles não mencionaram a hipótese de um novo casa· repudiar sua mulher?
sua mulher por qualquer
menta, pois tal não era o ponto em questão. Não havia
motivo? 3. Ele lhes respondeu:
nenhuma dúvida a esse respeito. Ele era permitido
tanto por Hillel como por Shammai. 4. Então respondeu ele: Que vos ordenou Moisés?

58 59
Não tendes lido que o 4. Tornaram eles: Moisés aptos para receber este

Criador desde o princí- permitiu lavrar carta de concezto, mas apenas a-
pio os fez homem e mu- divórcio e repudiar. queles a quem é dado.
lher,
:;, Mas Jesus lhes disse: 12. Porque há eunucos de
S. e que disse: Por esta Por causa da dureza do na,scença: h á outros a
causa deixará o homem vosso coração ele vos dei- quem os homens jizeram
pai e mãe, e se unirá à xou escrito esse manda- tais: e há outros que a si
sua mulher, tornando-se mento; mesmos se .fizeram eunu-
os dois uma só carne? cos. por causa do reino
6. porém, desde o princí-
6. De modo que já não pio da criação, Deus os dos céus. Quem é apto
são mais dois, porém u- fez homem e mulher. para o admitir, admita.
ma só carne. Portanto, o
que Deus ajuntou não o 7. Por isso deixará o ho- Primeiramente. devemos notar que Cristo e os
separe o homem. mem a seu pai e mãe. judeus que o queriam testar interpretavam o termo
8. e, com sua mulher, se- "lícito'' da mesma forma. Muitas vezes. Jesus. os
7. Por que então Moisés
rão os dois uma só carne. judeus e os apóstolos discutiam pontos da lei judaica,
mandou dar carta de di-
sempre usando o mesmo vocabulário. Em outra ocasi-
vércio e repudiar'! 9. Portanto, o que Deus ão em que se usou o termo "lícito", tanto Jesus como
8. Respondeu-lhes Jesus: ajuntou, não o separe o os fariseus deram a ele o mesmo significado. Pergun-
Por causa da dureza do homem. taram a Jesus: "É lícito curar no sábado?" E Jesus
vosso coração é que Moi- 10. Em casa, voltaram os respondeu: "É lícito fazer bem aos sábados." (Mt
sés vos permitiu repudiar discípulos a interrogá-lo 12.10,12.) Numa outra oportunidade indagaram-lhe:
vossas mulheres: entre- sobre este assunto. "É lícito pagar tributo a César. ou não?" (Me 10.14.)
tanto. não foi assim desde Em cada um destes casos, a questão em foco era uma
. ' pto.
o prtnct . 11. E ele lhes disse: lei judaica. Isto se deu, também, no diálogo havido
Quem repudiar sua mu- entre Jesus e os fariseus, quando eles lhe indagaram:
9. Eu, porém, vos digo: lher. e casar com outra, "~ lícito ao marido repudiar a sua mulher por
Quem repudiar sua mu- comete adultério contra qualquer motivo?" (V. 3.) Havia concordância entre
lher, não sendo por causa aquela. eles quanto ao sentido das palavras "lícito", "repu-
de adultério. e casar com diar", "exceto" e "adultério".
outra, comete adultério. 12. E se ela repudiar seu
Consideremos o assunto em questão, ponto por
marido e casar com outro,
10. Disseram-lhe os discí- ponto, para vermos a ordem de pensamento lógica, do
comete adultério.
pulos: Se essa é a condi- verso 3 ao 9.
ção do homem relativa- No verso 3, os fariseus, com estratégia bem planifi-
mente à sua mulher. não cada, apresentaram ao Senhor sua pergunta-teste
'
convem casar. acerca da legitimidade da lei de Moisés que permitia a
dissolução do casamento por qualquer motivo. Como
11. Jesus. porém, lhes res- já observamos, ela aplicava-se à mulher que fosse má
pondeu: Nem todos são cozinheira ou dona de casa, ou ao caso de o homem

60 61
desejar casar-se com outra mulher mais bonita, ou a Nos versos 4 a 6, não está em vista o divórcio por
qualquer outra razão. adultério. Este só entra em cena depois do versículo 9.
Nos versos 4 a 6, Jesus ultrapassa a lei deuteronô- O Messias determinou que aquilo que Deus "ajun-
mica, que era a base do argumento farisaico, e leva-os tou" os judeus não deveriam "separar··. Este termo
à primeira lei matrimonial. Ao apelar para a lei "separar'' prova que Jesus fala do divórcio como
original, Jesus ensinou que as bases do casamento tendo efeito de dissolução. "Separar" significa "cor-
achavam-se no ideal do Criador, de que homem e tar, seccionar, romper". O divórcio deuteronômico
mulher fossem uma só carne. A natureza constitutiva era um rompimento do vínculo matrimonial. e Cristo
do homem exigia que ele tivesse uma companheira reconheceu-o como tal. Separar não significa absolu-
que fosse de natureza semelhante à dele. Um comple- tamente "separação de corpos e bens".
tava o outro.
Existe um contraste entre "ajuntar" e "separar".
"Não foi assim desde o princípio." Os teólogos O casal "ajuntado", quando é separado, não está
católicos e anglicanos já argumentaram exaustiva- mais "ajuntado".
mente acerca dessas palavras para apoiar sua doutri-
É verdade que no início os homens não se divorcia-
na de divórcio sem outro casamento. Seu conceito
pode ser resumido em três pontos: vam de suas esposas. Mas também é verdade - com
veremos mais tarde- que no princípio eles executa-
I. Ao chamar atenção para a instituição original vam esposas adúlteras. Não havia necessidade do
do matrimônio. Jesus ensinou que a união conju- divórcio. quando as esposas eram executadas. (Lv
gal é indissolúvel. 20.10.)
2. O novo casamento da parte inocente, enquanto No verso 7, os teólogos judeus lançaram seu
o outro cônjuge estiver vivo, é moralmente errado. ataque mais forte: por que Moisés permitiu dar carta
3. Somente a morte pode romper o vínculo matri- de divórcio e repudiar a esposa? O precedente mosaico
monial. era a dissolução do matrimônio com a permissão de
Já desprovamos estes argumentos, demonstran- um novo casamento - e Jesus concordou com isso.
do que a lei mosaica permitia a dissolução da união, mas disse que tal fora concedido por causa da dureza
e dava direito à mulher de tornar-se esposa de outro do coração dos homens.
homem. O Senhor não disse nada contra a lei mosaica que
Ao apelar para a lei original. Jesus faz a reafirma- prescrevia pena de morte para o adúltero. E a procla-
ção do intento do Criador e do objetivo do casamento. mação de morte também constava dos regulamentos
O ideal divino na lei do Novo Testamento tem suas judaicos. Jesus reconheceu o fato e fez referência a ele.
bases no original. Mas ao apontar para o primeiro (Mt 15.4; Jo 8.3·7.) Ver também Jo 19.7.
casamento, Jesus revelou também a perfeição do Devemos observar de passagem. que no início
Éden. Adão não era adúltero; tampouco o era Eva. também não havia uma separação de corpos e bens.
Havia apenas um homem e uma mulher no mundo. Se No verso 9, Jesus dá, com uma sentença, um
tivesse havido outro homem e Eva tivesse ido viver sumário da questão toda. Quem repudiar a esposa -
com ele em adultério. seria o propósito do Criador que separar-se- exceto em caso de adultério, e se casar
Adão vivesse numa condição a respeito da qual ele com outra, comete adultério. Os fariseus receberam a
mesmo disse: "Não é bom que o homem esteja só" resposta de Jesus para sua pergunta. como a apresen-
(Gn 2.18)? taram e como a entendiam.

62 63
Nos versos 3 a 9, o termo legal "repudiar" foi quebramos este princípio, passamos a vagar num mar
usado quatro vezes na discussão - duas vezes pelos de incertezas e conjecturas. {f[ermenêutica Bfblica, de
fariseus e duas por Jesus. Nos versos. 3, 7 e 8, Terry.)
aparecem três vezes- empregado por ambos os lados A última parte do verso 8 é um dos mais fortes
-este termo tinha o sentido de dissolução. E então, argumentos de nossos oponentes: " ... não foi assim
por que recurso de magia essa palavra se transformou desde o princípio." Mas logo depois destas palavras
em "separação" no verso 9? Jesus não fazia uso de Jesus acrescenta: "Quem repudiar sua mulher, não
linguagem dúbia. O significado da palavra não variou sendo por causa de adultério ... '"
de dissolução para separação no decurso de uma E assim, no verso 9, Jesus permite o divórcio, que
mesma disputa. no verso 8 ele afirma não ser a situação original.
O Prof. John H. Wigmore, autoridade em leis, Por que teria ele permitido o divórcio quando tal
adverte·nos contra os intérpretes que emprestam às não existia no começo?
palavras significados que lhes interessam. Ele os Por que não disse ele: "Não foi assim desde o
chama de "magos das palavras". Disse que, quando princípio, e não será assim agora"?
tais pessoas se achavam diante de uma palavra que Existe apenas uma resposta plausível. O adultério
queriam modificar, diziam: "Pronto! Altere-se!" E é era uma exceção para a doutrina de Jesus acerca do
isso que muitas pessoas fazem com esta questão em casamento e divórcio. Tudo que já expusemos a
Mateus 19.9. respeito do termo "exceto" volta à baila novamente.
Elas chegam ao verso 9, e sem a menor orientação Poderíamos entregar-nos a um complicado debate
da parte de Cristo, pronto! um termo juridico que gramatical acerca da aplicação da exceção a ambas as
durante quatorze séculos significou dissolução, repen-
tina e misteriosamente passa a ser "separação de
cláusulas.
., ...
mas não será necessário. Basta lembrar,
_,.
como Ja provamos antertormente, que exceçao stg-
corpos e bens". O que acontece quando se faz isso nitica "excluir algo do todo de uma afirmação ou
com outros termos bíblicos? O resultado é Ciência proclamação"- "excluir parte de um todo de consi-
Cristã, Unitarismo, e outros ismos que destroem o deração". Do seguinte modo:
significado da Palavra de Deus.
Os defensores da tese da separação ignoram e con- I. O propósito original do casamento para o
tradizem o contexto, introduzindo pensamentos estra- homem e a mulher continuava o mesmo, a não ser
nhos a esta passagem. A idéia de dissolução está pro- em caso de adultério.
fundamente entranhada no contexto, e o "contexto é a 2. O homem deve abandonar pai e mãe e unir-se à
suprema corte de apelações". (A Manual Grammar of sua mulher exceto em caso de adultério.
the New Testament.) Tentar encaixar a idéia de 3. O que Deus ajuntou, o homem não deve separar.
separação nesta passagem seria o mesmo que tentar a não ser em caso de adultério.
abrir urna fechadura com a chave errada. 4. Para o judeu. seria dureza de coração divorciar-
Os dois lados discutiam a dissolução do casamento se da esposa. exceto em caso de adultério.
pelo divórcio e não pela morte. S. O judeu não deveria conceder termo de divór-
Um dos princípios fundamentais na exposição cio, exceto em caso de fornicação.
gramatical e histórica é o de que as palavras e Podemos concluir, então, que a lei de divórcio
sentenças devem ter um único e mesmo significado enunciada por Cristo no verso 9 anula a posição da
dentro de um mesmo contexto. No momento em que mulher como esposa de seu marido. Uma "separação

64 65
de corpos e bens" não era o assunto em questão.
O casamento pode ser anulado pela violação do
propósito de Deus para o casamento de que os dois
sejam uma só carne. Ele pode ser dissolvido pela
violação do ato que o constitui. O Pulpit Commentary,
desde há muito altamente respeitado, afirma o seguin-
te: "O Senhor não diz que o novo casamento de 8
pessoas divorciadas era adúltero em todos os casos."
Nas colunas paralelas dos textos de Mateus e
Marcos vimos que Marcos expõe a lei do casamento
em geral, enquanto que Mateus apresenta, além dela,
a exceção. Não existe qualquer Contradição entre os São Genuínas
dois Evangelhos. as Passagens de Exceção?
Portanto. a conclusão é que não há contradição, e
que Mateus 19.9 concede ao cônjuge inocente o direito
de um novo casamento. (}Jaker"s Dictionary of Theo-
logy.)
Lutero apoiava a mesma idéia, pois, em seu ser- Iremos examinar agora as contestações de que as
mão acerca do casamento, em Wittenberg, 1525, ele passagens de Mateus apresentando as exceções de
afirma que "Mateus 19.9 é um texto claro, direto, adultério são forjadas. Algumas pessoas alegam que
simples ... " as palavras "exceto em caso de adultério" não se
O Dr. Campbell Morgan, há muito considerado "o encontram nos manuscritos mais antigos, e não são
maior expositor bíblico do século passado", defendia a autênticas. A importância dessas exceções é compro-
tese de que o casamento poderia ser dissolvido por vada pelas inúmeras tentativas para se invalidá-las.
causa de pecado sexual. Ele escreve que o casamento é Se fossem cortados da Bíblia todos os textos que os
"indissolúvel... a não ser por um e único pecado." críticos consideram fraudulentos, o que teríamos de
(The Gospe/ According to Mathew.) resto seria uma Versão Mutilada. Não somente versos
(0 leitor poderá considerar outra interessante e passagens inteiras têm sido tachados de espúrios,
informação acerca da questão do divórcio apresentada mas todos os livros do Novo Testamento têm sido
nos versos 10 a 12. Quando Jesus enunciou sua nova contestados por uma ou outra pessoa.
lei do divórcio, os discípulos a acharam tão rigorosa, Existem fortes evidências de que as exceções são
que disseram que seria melhor que o homem não se autênticas, podendo portanto ocupar seu lugar em
casasse. mas Jesus corrige seu erro, e menciona o ambos os textos de Mateus 5.32 e 19. 9. Elas foram
exemplo dos eunucos.) aceitas como sendo genuínas pela maioria dos enten-
didos do Novo Testamento, durante dezenove séculos.
Os grandes pais da Igreja, tanto orientais como
ocidentais. aceitaram-nas. Um variado número de
comentários e enciclopédias e tradutores rigorosos
aceitou-as. Os revisores da Versão do Rei Jaime, da
Inglaterra, e todos os comitês de revisores havidos

66 67
desde 1611 aceitaram-nas. O texto da Westcott-Hort Eis aqui outras provas da lnternational Standard
as reproduz. O texto de Nestle também. Bihle Encyclopedia:
Alguns dos mais capazes e mais citados teólogos
que negam a autenticidade das exceções afirmam que, Isto podemos afirmar: o relato de Ma teus subsiste
se elas fossem genuínas, dariam o direito de um novo pela autoridade dos velhos manuscritos. pelo grego
casamento a um divorciado por causa de adultério. O e também pelas versões. E. nesse ponto. devemos
Bispo Charles Gore, de Londres, foi um dos principais notar que o testemunho dos manuscritos é anterior
contestadores. Em seu livro The Question ofDivorce ao dn~ revisores modernos. c eles reafirmam o
(A questão do divórcio), que é amplamente citado, ele texto de 1611. e contirmam a exceção da lei
afirma- mas não fornece provas- que as exceções formulada por Cristo nas duas referências, Ma teus
não são genuínas. Ele recoriheceu que se fossem genuí- 5.32 e 19. 9. Isto torna esta questão uma causa res
nas. teriam que aplicar-se tanto ao divórcio como ao acUucata, ao nível máximo possível ao raciocínio
novo casamento. Ele diz que a exceção de Mateus humano. (" R.es wUucata"" signil'ica "uma questão
19.9: resolvida de forma oticial c decisiva.)
Temos que entender que. se as exceções com
" ... não deixa dúvidas de que o divórcio é usado relação ao adultério são falsas. então a lei original
nesse sentido. porque dá direito a um novo casa- "serão ambos uma só carne" toma caráter obrigatório.
mento."
A lei original do casamento, citada em Marcos 10.3~9
Este culto bispo foi suficientemente sábio para e Lucas 16.18 é absoluta - não há exceções para
enxergar isto. mas iludiu-se com um raciocínio enga- nada. nem mesmo para a "separação de corpos e
noso em sua tentativa de negar a autenticidade das bens". Em Marcos e Lucas não se abrem exceções
-
exceçoes. para adultério, incesto, sodomia, prostituição, ou
Os teólogos católicos afirmam que as exceções têm qualquer outro crime sexual.
lhes trazido muitas dificuldades, mas concordam A lei original do casamento ordena ao homem "se
quanto à autenticidade delas. Eles dizem o seguinte unirá a sua mulher. tornando-se os dois uma só
em sua obra de aceit~ção internacional: carne··. Se é verdade que não existem exceções para
esta lei absoluta, então, se a esposa de um homem é
Algumas pessoas têm tentado solucionar o proble- prostituta. ele deve unir-se a ela. Quem se casa com
ma lançando dúvidas sobre a autenticidade de um maníaco sexual, tem que ser uma só carne com tal
toda a frase de Ma teus 19.9 (a não ser em caso de pessoa, a não ser que se encontre a exceção à regra.
adultério), mas essas palavras já tiveram sua au- O texto de Hebreus 7.22 e 8.6 alirma que Cristo
tenticidade comprovada pelos mais fidedignos có- deu à humanidade uma "aliança superior" à de
dices (manuscritos). (Catholic Encyclopedia.) Moisés; contudo, Moisés, tendo uma aliança inferior,
executava adúlteros e criminosos sexuais. e libertava o
Aqueles que afirmam que as exceções são meras cônjuge inocente para casar-se de novo. Portanto. se a
fraudes poderão conseguir um ponto para sua causa
se conseguirem rebater esta afirmação católica: "pie· ..
aliança superior exige que o inocente se torne "uma só
. . . -
carne com crtmtnosos sexuats, entao nos parece que
na mente comprovada pelos mais .fidedignos códices." Moisés ofereceu ao cônjuge inocente uma situação
Se não puderem refutá-la, então ela se constitui uma mais justa.
forte e convincente evidência contra eles. Se as exceções são realmente falsas, será que o

68 69
Divino autor do Novo Testamento não poderia evitar
que um erro de tais proporções fosse inserido em sua
Palavra?
Apenas em nossa geração, milhares e milhões de
exemplares do Novo Testamento têm sido distribuídos.
Então, se as exceções são falsas, isso constitui enorme
9
erro para milhões de cristãos nestes vinte séculos.
Os pais da igreja, tanto orientais como ocidentais
aceitavam as exceções. Os revisores da Versão do Rei
Jaime e todos os comitês havidos desde então as Por que Mateus Registra
aceitam. Os textos de Westcott-Hort e Nestle as
contêm. Os teólogos católicos dizem que elas são as Exceções Acerca do Adultério
"comprovadas pelos mais fidedignos códices". Isso
tudo é mais que suficiente para contentar uma mente
normal.

Mateus registra as exceções de adultério duas


vezes. Marcos e Lucas não as mencionam. Alguns dos
divulgadores da idéia de que nao é permitido novo
casamento a um divorciado. criaram grande celeuma
em torno desta aparente contradição, mas esses mes-
mos não se perturbam com outras discrepâncias nos
registros evangélicos sobre outros assuntos. e tais são
importantes.
Os críticos modernos nunca cessam de atacar a
Bíblia a propósito de suas supostas contradições, e
inúmeros estudiosos bíblicos têm escrito diversos livros
para defendê-la de tais acusações. Por que, então,
existem aparentes discrepâncias nos Evangelhos. acer-
ca da questão do divórcio e de outros assuntos impor-
tantes? Por que um evangelista registra detalhes que
outros não relatam? Por que somente Mateus apre-
senta as exceções da lei do divórcio? Indaguemos aos
mais abalizados teólogos.
Acaso não devíamos saber ... que aquilo que a nós
parecem estranhas omissões. e que quando com-
parado à narrativa dos outros Evangelhos parece
conter discrepâncias, talvez pudessem apresentar
uma explicação plenamente satisfatória, se conhe-
cêssemos todos os detalhes?

70 71
Os relatos dos três Evangelhos sinóticos devem ser naturalmente, pensaram que aquilo era óbvio, e
cuidadosamente reunidos. Ver-se-á então que so- não o registraram. (McClintock-Strong Encyclope-
mente assim podem ser entendidos ... Marcos, que dia.) A doutrina do divórcio nas Escrituras é muito
nos fornece apenas uma versão condensada dos simples. Está contida em Mateus 19.3-12... Em
fatos, omite esta cláusula (exceto em caso de Mateus temos o relato mais completo, contendo
divórcio); mas nos círculos judaicos a controvérsia tudo que é registrado nos outros relatos e mais
toda girava em torno deste ponto. Todos criam uma ou duas observações importantes que os
que o divórcio era lícito. e a única dúvida era outros escritores não incluíram em sua narrativa.
quanto às causas. (The L(f'e and Times of Jesus Lucas -dá apenas um verso acerca de um assunto
The Messiah.) que Ma teus relata em dez. O verso de Lucas não
tem necessariamente conexão com o contexto ...
Dean Alford, eminente conhecedor do Novo Testa- Parece-me que estaremos certos ao dizer então que
mento, diz que nos Evangelhos existem "incontáveis toda a doutrina das Escrituras referente ao divór-
variações" e "espantosas discrepâncias" para as quais cio está contida na integra em Mateus 19... Ali o
ainda não se encontrou solução" (The Greek New assunto é exposto com tanta clareza que "quem
Testament for English Readers). quer que caminhe por ele não errará". Unternatio-
Calvino diz o seguinte: "Deus nos deu quatro nal Standard Bible Encyclopedia.)
Evangelhos para que enxergássemos os fatos de quatro Mateus, Marcos e Lucas devem ser estudados em
pontos-de-vista.... Certamente o divino autor não conjunto. Se tal não for observado, surgirão contradi-
está em desacordo consigo mesmo." Se cada Evange-
ções aparentes em muitos assuntos. Esses três Evange-
lho contivesse todos os detalhes, não haveria necessi- lhos são chamados "sinóticos". O termo "sinótico"
dade de haver quatro deles. O Pulpit Commentary
(sin, junto, mais opsis, estudo) significa "examinar em
contém valiosas informações acerca de contradições.
conjunto". Dean Alford diz:
omissões e discrepâncias dos Evangelhos.
Todos os expositores e estudantes da Biblia deviam
Cada um dos evangelistas registra certas palavras adotar como regra a verdade de que as Escrituras
e ações do Senhor que são peculiares ao próprio representam um todo, e ela ou cai ou subsiste
escritor ... somente Mateus preservou textos gran- corno um todo. (The New Testament .for English
des, com instruções especiais. e eventos. Sem os Readers.)
fatos e testemunhos dos outros três Evangelhos,
Os entendidos em leis concordam com as autori-
cada um deles seria confuso e indistinto.
dades bíblicas nessa regra de unidade. Se um processo
(Existem) extraordinárias discrepâncias e omissões
jurídico envolve uma questão acerca de urna transação
difíceis. para as quais não há explicação ... Os
que foi negociada por meio de vários termos e docu-
parágrafos de Mateus que contêm matéria peculi-
mentos, o tribunal deverá fazer a ap1icação desta
ar são em número de nada menos que sessenta e
regra se quiser dar-lhe uma interpretação justa. Cita-
dois. (Pulpit Commentary.)
mos abaixo um comentário de certa autoridade britâ-
Uma harmonia clara entre os textos (de divórcio)
nica que estudou Direito nos Estados Unidos:
pode ser encontrada no principio de que uma
exceção citada num relato mais amplo deve apli- Todas as partes (devem ser) reunidas e trazidas
car-se também no mais curto ... Marcos e Lucas, para a ação ... (Devemos) obter do todo um sentido

72 73
completa ... " (Edersheim.) Existem "imensas porções
uniforme e consistente. (Pdnciples on Legal Inter- de assuntos que são peculiares a Mateus." (Revelation
pretation.)
and the Bible.)
Interpretar as leis e uni-las de modo a se harmoni- Qualquer afirmação clara da Palavra de Deus
zarem é o melhor código de edificação. (Corpus
basta para solucionar qualquer questão. Jesus provou
Juris Secundum.)
a veracidade da ressurreiçao dos mortos para os
Quando desejamos saber o que Cristo ensinou a saduceus fazendo uma inferência de um único verso
respeito de determinada questão, não podemos limi- b{b/ico. (Mt 22.32.)
tar-nos ao estudo de apenas um Evangelho, mas As autoridades em interpretação bíblica dizem-
devemos examinar os demais para vermos que outros nos para acompanharmos os cientistas, e usarmos
detalhes eles apresentam. Somente agindo dessa for- seus métodos de interpretação. E os cientistas dizem:
ma poderemos estar certos de que o assunto se nos Uma exceção derruba uma hipótese com a mesma
apresenta harmonicamente. Isto se aplica a muitas força científica com que o fariam mil delas.
matérias dos Evangelhos. Por exemplo: a transcrição
de Mateus do Sermão do Monte contém 111 versos, Simon Greenleaf, professor de direito da Universi-
enquanto que Lucas o faz em apenas 29. Se dispusés- dade de Harvard (1833-48), foi uma das principais
semos apenas da narrativa de Lucas, teríamos um autoridades em leis de seus dias. Era também um
sermão incompleto. hábil conhecedor das Escrituras, e produziu uma
O registro de Mateus do Sermão Profético consiste valiosa obra acerca dos Evangelhos, na qual aborda a
consiste em noventa e sete versículos; o de Marcos tem questão das discrepâncias.
apenas trinta e sete. Como faríamos sem o relato de As discrepâncias que ocorrem entre as narrativas
Mateus do grande Sermão Profético do Senh0r? Por dos vários evange1istas, quando examinadas deta-
que então nossos prezados oponentes preferem a lhadamente, não contêm peso suficiente para inva-
"versão condensada" de Marcos acerca do divórcio, lidar seu testemunho. Muitas das aparentes con-
quando preferem o relato "mais amplo" de Mateus no tradições, depois de um escrutínio mais acurado,
que se refere a outros assuntos? revelarão achar-se em substancial harmonia entre
Se o raciocínio de certos intérpretes das diferenças si. Se a evidência dos evangelistas devesse ser rejei-
contidas nos Evangelhos fosse válido, então pelo tada por causa de algumas discrepâncias encon-
mesmo raciocínio poderíamos argumentar que exis- tradas entre eles, seríamos obrigados a nos descar-
tem "quatro crucificações e quatro ressurreições, to- tarmos de muitas das histórias contemporâneas,
das divergindo entre si". (Alford.) A Bíblia seria um nas quais nos acostumamos a confiar totalmente.
testemunho indigno de crédito para o mundo, se A lei considera genuínos todos os documentos
contivesse tantas contradições. aparentemente antigos ... e que não apresentem
Muitas das autoridades em assuntos do Novo marcas de contrafação, e transfere à parte oponen-
Testamento concordam entre si que Mateus apresenta te o encargo de provar o contrário. (Testimony of
o mais elevado plano de narrativa entre os registros the Evangelists Examined by Evidence Administe-
evangélicos. "Enquanto Mateus registra os sermões red in Courts ofLaw.)
do Senhor na íntegra... Marcos (os) reproduz em
forma condensada ... Um Evangelho completa o ou· Qualquer argumento contrário às exceções de
tro." (Vincent.) "Mateus registra as palavras de forma Mateus resultaria numa contra-explosão, pois, se a

74 75
discrepância invalida as exceções de Mateus, o que
acontece à sua "separação de corpos e bens"? E eles
não têm outra fonte a que recorrer em busca de uma
exceção, a não ser este Evangelho.
Porém, alguns argumentam: "Mas como é possí-
10
vel que cinco palavras (exceto em caso de adultério)
modifiquem tudo que Jesus ensinou a respeito do
casamento, e permitam a dissolução do matrimônio?"
E nós respondemos: do mesmo modo que cinco
palavras podem alterar tudo que ele ensinou acerca do
O Significado de Romanos 7.1-4
casamento, e permitir uma separação.
Cinco palavras podem modificar mil, ou dez mil.
Elas podem modificar - e modificam - parágrafos 1. Porventura ignorais, irmãos, pois .fàlo aos que
ou capítulos inteiros de uma lei ou documento. conhecem a lei, que a lei tem domínio sobre o
Já fiz referência a Elmer Miller, advogado e pro- homem toda a sua vida?
fundo conhecedor da Biblia. Ele respondeu a esta 2. Ora, a mulher casada está ligada pela lei ao
obje<;ão observando que Deus colocou algumas de marido, enquanto ele vive; mas, se o mesmo
suas leis em quatro ou cinco palavras: morrer, desobrigada .ficará da lei conjugal.
Não matarás. 3. De sorte que será considerada adúltera se,
Não furtarás. vivendo ainda o marido, unir-se com outro ho-
Não cobiçarás. mem; porém. se morrer o marido. estará livre da
Não adulterarás. lei. e não será adúltera se contrair novas núpcias.
Isto deve bastar para aqueles que nos denominam 4. Assim, meus irmãos, também vós morrestes
a "Escola das cinco palavras". relativamente à lei, por meio do corpo de Cristo,
Concluímos que cada Evangelho contém impor- para pertencerdes a outro. a saber, aquele que
tantes informações qu€' os outros não relacionam. De ressuscitou dentre os mortos, e deste modo fruti-
Mateus constam detalhes que Marcos e Lucas não _fiquemos para Deus.
possuem. E Marcos e Lucas têm muitos pontos que
Mateus não registra. Os defensores do ponto-de-vista contrário ao nosso
Se o relato de Mateus for rejeitado com base nos tomam estes versos e repetem seus argumentos de que
detalhes que somente ele registra, não devemos então somente a morte pode dissolver o casamento. Vamos
rejeitar os detalhes que apenas Marcos e Lucas regis- segui-los e aplicar-lhes as mesmas regras e argumen-
tram? tos que aplicamos nos capítulos anteriores, e veremos
que esses versos não ensinam que somente a morte
Mateus nos fornece a informação acerca das duas pode romper com o vínculo matrimonial.
exceções feitas pelo Senhor neste assunto, de que o O divórcio por causa de adultério não se encontra
homem pode repudiar a esposa, e quando o faz, em discussão neste texto. Ele enuncia a lei geral do
pode casar-se com outra. casamento, mas que é modificada pela exceção apre-
sentada em Mateus, para o caso do adultério. Marcos
e Lucas também apresentam a lei básica. mas já vimos

76 77
que ali também ela é modificada pela exceção de aquele que exercia essa lei. Para Paulo, é fato funda-
Ma teus. mental que: "Onde não há lei, também não há trans-
Veremos no próximo capítulo que 1 Coríntios 7.15 gressão." (Rm 4.15.) E quando o casamento é dissol-
apresenta uma exceção para Romanos 7.2. Apelamos vido pelo ato de adultério, a "lei" do marido não mais

novamente para a regra de unidade. Veremos que nos extste.
casos de divórcio de 1 Coríntios 7.15, Paulo diz: "Em No versículo 1. o apóstolo diz que se dirigia a
tais casos não fica sujeito à servidão, nem o irmão, pessoas que conheciam a lei, tanto a judaica quanto
. -
nem a trma.
.. a romana. Eles conheciam a lei do casamento e a do
A lei geral determina aqui que a mulher esteja divórcio deuteronômico que "libertava" a mulher da
ligada ao marido. Mas quando Paulo se refere aos lei do marido, e essa libertação era tão completa, que
"tais casos" de 1 Coríntios 7.15, ele disse que a ela poderia ir e ''casar com outro homem'', e não seria
mulher não era sujeita ao marido. Esses casos eram considerada adúltera, nesse segundo casamento, e
exceção à lei do casamento. nem num terceiro, se se divorciasse do segundo.
Nos versos de 1 a 4, Paulo usa a ilustração de Todo Israel respeitava a carta de divórcio. Nin-
casamento com o objetivo de ensinar que qualquer guém se atrevia a tachar de adúltera uina mulher
autoridade ou potestade que foi cancelada torna-se divorciada que se casasse enquanto ainda vivesse seu
nula. Estamos mortos "relativamente à lei por meio primeiro marido.
do corpo de Cristo" a fim de que possamos "pertencer A lei judaica revogava a lei do marido. E o mesmo
a outro". fazia a lei de Cristo, de Mateus 5.32; 19.9. Fosse o
No capítulo 6, Paulo apresentara a doutrina de casamento dissolvido por Moisés, por Cristo ou pela
que a morte de Cristo nos liberta da lei, e que estamos morte, a natureza e efeito dessa dissolução eram os
livres dela. O assunto desse capítulo é retomado no mesmos. Todos os três libertaram a mulher da lei.
sétimo. e, ao prosseguir em sua argumentação, ele Os judeus entendem que a mulher "é libertada da
necessitou de uma ilustração. Para isso ele lançou lei do marido" somente por duas coisas: a morte e
mão da lei geral do casamento, que cabia na questão. a carta de divórcio; daí o texto de Romanos 7.2,3.
O Prof. John Murray, do Seminário Westminster, (Sketches of Jewish L(f'e- Edersheim.)
em Filadélfia, Estados Unidos, escreveu que a refe-
rência de Paulo à lei do casamento foi "incidental ao A lei do casamento enunciada em Romanos é abso-
objetivo principal de Paulo", e também: luta. A morte é a única exceção admitida. Por força
. desta lei, sem alterações, a esposa acha-se amarrada
Não devemos cometer o erro de emprestar a esta a um marido adúltero durante toda a vida. Não abre
ilustração um significado maior que o cabível, em exceção para uma "separação de corpos e bens".
vista do contexto. (Divorce.) A "lei do marido" não permite separação; proíbe-
Paulo disse que a mulher estava livre da "lei do a. Não é absolutamente contrário a essa lei conceder
marido", quando este morresse. O homem, de acordo à esposa uma separação daquilo a que ela está ligada?
com a lei do casamento, governava sua esposa, pelo Se não há exceções para esta lei, não está a esposa
poder de que fora investido. Ela estava em sujeição à forçosamente ligada a um criminoso sexual ou a um
autoridade conjugal do marido. A morte dele liberta- adúltero "enquanto viver"?
va-a dessa autoridade, e a ligação, por lei, estava Como o livro de Romanos foi escrito cerca de vinte
rompida. O domínio da lei cessava quando morria e cinco anos após Cristo haver enunciado sua lei de

78 79
divórcio em Mateus 5.32, 19.9, é necessário que enten- mais antigos livros da Biblia. Nesse texto, Jó declara
damos Paulo através de Cristo. que o. adultério é "um crime hediondo, delito à puni-
O Arcebispo R. C. Trench escreveu o seguinte: ção de juízes".
3. Números 5.12-31- quando um judeu suspei-
... outra regra de interpretação, e também de bom tava de que sua esposa cometera adultério, mas não
senso, ensina que não devemos esperar que todas tinha provas, ele a levava perante o sacerdote que a
as passagens contenham toda a verdade cristã, e compelia a beber água misturada com pó do assoalho
que nada é provado pela ausência, num texto, de do Tabernáculo. E ela era obrigada a fazer um jura-
certa doutrina, que está c1aramente demonstrada mento.
em outros.
(Algumas pessoas) não se aproximam das Escritu- Mas, se te desviaste. quando sob o domínio de teu
ras para... aprender sua linguagem, mas para ver marido, e te contaminaste. e algum homem, que
se conseguem enquadrá-la na delas, sem nenhum não é teu marido, se deitou contigo ... O Senhor te
desejo de retirar da Bíblia o significado correto, ponha por maldição ... e esta água amaldiçoante
mas querendo instilar nela sua própria interpre- penetre nas tuas entranhas, para te fazer inchar o
tação (grifos do autor). (Notes on the Parables.) ventre, e te fazer descair a coxa. Então a mulher
dirá: Amém, amémi! O homem será livre da ini-
Como Era a Lei do Casamento Desde o Início qüidade, porém a mulher levará sua iniqüidade.
(Nm 5.20-22, 31.)
Paulo afirma que os romanos conheciam tanto a
lei civil como a divina. Sabiam que a lei de Deus e a do Ao trazer a esposa adúltera perante o sacerdote, o
homem impunham severas punições ao adultério, marido estava livre da iniqüidade, na maldição de
desde o tempo do Gênesis. Alguns fatos da hist6ria Deus que sobreviria a ela. Sua ação não era motivada
bíblica mostram que a infidelidade à aliança conjugal pela dureza de coração. Deus não exigia de um judeu
era sempre uma Ofensa de grande vulto na vida da que se "unisse" e "fosse uma só carne" com uma
família e no contexto da nação, e que tanto Deus esposa adúltera, cujo corpo inchava e apodrecia após
como o homem a julgavam com o mesmo grau de a maldição. Ele poderia divorciar-se dela e casar-se de
severidade. Notaremos cinco pontos. novo. e ainda assim era inocente, mesmo que a esposa
1. Gênesis 38.24- durante o período pré-mosai- ainda vivesse. naquele corpo amaldiçoado por Deus.
co, as esposas adúlteras eram condenadas à morte. 4. Levítico 20.10 e Deuteronômio 22.22 - ''Será
Judá. não sabendo que fora apanhado pelo seu pr6- morto o adúltero e a adúltera." "Assim eliminarás o
prio pecado, disse, referindo-se à adúltera Tamar: mal de IsraeL"
"Tirai-a fora para que seja queimada." A história No Estado Hebreu, o adultério era um ato imper-
judaica revela que o pai e marido hebreu era senhor doável, de conseqüências fatais. Desse modo, o ino-
absoluto de sua casa, e - antes de Moisés- possuía cente não poderia perdoar o culpado e poupá-lo. A
o poder indiscutível de ordenar a morte de qualquer execução era obrigatória. Tratava-se de um "pecado
membro do sexo feminino, que fosse culpado de adul- para morte". "Sem misericórdia morre pelo depoi-
, '
terto. mento de duas ou três testemunhas quem tiver rejeita-
2. 16 31.9-11- as autoridades em Velho Testa- do a lei de Moisés." (Hb 10.28.) O divórcio teria sido
mento concordam entre si no fato de que Jó é um dos um ato de misericórdia.

80 81
"Eliminar o mal de Israel." O adultério era olhado
com tal horror, que fora colocado na categoria de ..
S. Em I Corintios S. 9-11, Paulo diz à Igreja de
., . .
Corinto para que não vos assoctassets com os tmpu-
crime capital. Era um crime contra o Estado Hebreu, ros" e "com esse tal nem ainda com ais". E no verso 5,
e também contra a lei divina. A condenação oficial do o adúltero devia ser "entregue a Satanás para a des-
adultério não significava uma vingança pessoal. nem truição da carne... "
dureza de coração. Era um crime contra os interesses Paulo dá grande ênfase à ofensa do adúltero de
morais da comunidade israelita. A relação do homem Corinto, e exige sua expulsão com base na lei deut~­
para com o universo moral exige por parte dele a ronômica. (Expositors of the Greek Testament)_ E Já
observância das leis morais.
que Deus baniu os fornicadores da comunhão da
A punição do adultério era uma necessidade mo- Igreja, será que ele exige que seus santos sejam "uma
ral, como também uma medida preventiva. Muitas só carne'' com eles?
A • ' '
vezes o conJuge mocente era contagtado por doenças
O divórcio por causa de adultério era compulsório
venéreas. por um companheiro adúltero. Os filhos
entre os judeus. E, na antiga Atenas, o cidadão que se
nasciam cegos ou portando outras deficiências físicas.
recusasse a divorciar-se da esposa adúltera perderia
Mulheres prostitutas tinham filhas prostitutas, e ho-
seus direitos civis. Paulo faz menção também da
mens adúlteros exerciam péssima influência sobre os
prática que havia naquele tempo, de raspar-se a
filhos. Tais perigos sociais deviam ser evitados no
cabeça da adúltera e expulsá-la de casa (I Co 11.6).
Estado de Israel. As abominações sexuais das nações
pagãs vizinhas não podiam fiCar impunes no seio da Durante o período da ascendência de Cromwell na
nação judaica. Inglaterra, o adultério era punido com a mort~. Em
Moisés punia o culpado, liberando o inocente para países onde os judeus atingiam posição de autort~ade,
casar-se de novo. Ele não "amarrava" a virtude com 0 adultério era castigado com flagelações e pnsão.
as cadeias da dissipação. E na lei de divórcio e novo Nos Estados Unidos, já há bastante tempo, tem
casamento apresentada no Novo Testamento, um só havido casos de maridos ou esposas que matam o
golpe da espada divina liberta o inocente do culpado. cônjuge infiel, e depois apelam para a "lei . não
Cristo não aboliu o direito de "eliminar o mal" em um escrita", e os doze concidadãos o absolvem, e o ltber-
casamento adúltero. tam para casar-se com outra pessoa. .
Os romanos sabiam que as civilizações antigas Sim, os romanos conheciam a lei. Conheciam a let
puniam adúlteros cortando o nariz e orelhas do infiel romana que serviu de base para toda a legislação
à aliança conjugal. Esta mutilação do corpo era infli- moderna. Sabiam que a lei deuteronômica permitia à
gida também pelos caldeus e egípcios. Deus ameaçou mulher divorciada tornar-se esposa de outro homem,
a prostituta Israel com o mesmo castigo. Ele diz que sem por isso ser tachada de adúltera.
em seus "ciúmes", ele enviaria os inimigos da nação Conheciam os códigos de leis das nações antigas
contra ela, e "cortar-te-ão o nariz e as orelhas, e o que que infligiam um severo castigo aos adúlteros. O
restar cairá à espada" (f:x 23.19-25). famoso código de Hamurabi (2.000 A.C.) dispunha
que fosse aplicada a pena de morte por afogamento às
··o adultério, portanto, se totalmente comprova- mulheres adúlteras. Os códigos babilônico e assirio,
do, deve ser punido com a morte, como sendo uma anteriores ao de Hamurabi, eram igualmente severos.
prática subversiva de todo o desígnio da constitui- . -
Havia similaridades marcantes entre as pumçoes para
ção teocrática." (The Typology o.f the Scriptures.) todos os tipos de crimes no código deuteronômico e

82 83
nos códigos de outras nações. (Ver lsrael"s Laws
Legal Precedentes.)
Os defensores da tese contrária a um novo casa-
mento para o divorciado apóiam sua doutrina, em
grande parte, nos versos de Romanos 7. Estes se
11
constituem urna fortaleza para o seu ensino de que
somente a morte pode dissolver o vínculo matrimo-
nial. Mas há evidências decisivas de que a idéia de um
divórcio motivado por adultério e um novo casamento
não se encontrava nos pensamentos de Paulo, ao O Significado de
escrever estes versos. 1 Coríntios 7.10-15

Ora, aos casados, ordeno, não eu mas o Senhor,


que a mulher não se separe do marido.
(Se porém ela vier a separar-se. que não se case, ou
que se reconcilie com seu marido); e que o marido
não se aparte de sua mulher.
Alguns mestres baseiam nestes versos o argumento
de que o divórcio não dissolve o matrimônio, pois a
mulher mencionada no verso 11 recebe a ordem de
não se casar de novo. A palavra "separar" nos versos
10 e 11 significa divórcio. Os dicionários gregos bási-
cos definem "separar" (Chorizo) como sendo:
"Deixar o marido ou esposa: divorciar. 1 Co
7.11.15. (Thayer's Greek Eng/ish Lexicon of the
New Testament.)
Separar (Chorizo), divorciar. "Mencionado em
contratos matrimoniais dos papiros. 1 Co 7.1, 11,
15."
O divórcio escriturístico separava o casal, no sen-
tido em que "dividia-o", e dissolvia a união. É erro
crasso dizer que o divórcio escriturístico era uma
separação que não dissolvia o casamento.
A mulher em questão no verso 11 obtivera o
divórcio de acordo com a lei grega, um divórcio facil-
mente conseguido, mas Paulo recusava-se a reco-

84 85
nhecer a validade dele. O fato de que ela obtivera o estabelecida de uma vez por todas. Por que num
div6rcio é indicado pela ordem do apóstolo de não se determinado caso de divórcio o Senhor foi tão cuida-
casar. Ela deveria permanecer sem casar ou então doso em especificar que a pessoa permanecesse sem
reconciliar-se com o marido, pois aquele divórcio não casa~ se. mas não o foi em outro? Não seria porque
tinha força de dissolução do matrimônio. Ela ainda num caso ele reconhecia a dissolução do casamento
era a esposa do homem de quem se divorciara. Com pelo divórcio, mas no outro não?
tal divórcio, o casamento ainda era válido, como no Será que o Senhor teria ordenado à mulher do
caso de Mateus 5.32. Agora, se ela houvesse se verso 11 que se reconciliasse com o marido, se ela
divorciado do marido por causa de adultério, a situa- houvesse se divorciado dele por causa de adultério?
ção teria sido diferente. Certamente, Jesus não concederia à mulher o direito
Um estudo do capítulo 7 nos revelará que em de "repudiar" o marido adúltero. e depois lhe orde-
Corinto surgira um forte movimento contrário ao ca- naria que se "reconciliasse" com ele.
samento. Alguns criam que as relações sexuais eram Se a mulher mencionada no verso 11 houvesse se
um ato impuro, e que, praticando a abstinência, divorciado do marido- nos termos do divórcio grego,
atingiriam um plano superior na vida espiritual. Essa que significa dissolução do matrimônio - com base
idéia aparece com freqüência na Igreja Cristã. no fato de ser ele um pervertido sexual, será que o
Essa crença asceta perdura na igreja desde os Senhor mandaria que ela voltasse ao convívio dele?
primeiros tempos da Igreja, até nossos dias. Houve Quando apresentamos tais questões aos defensores da
uma "crise de celibato" entre alguns dos primeiros tese da indissolução, ou eles respondem vagamente ou
cristãos e pais da Igreja. Ocorreu também entre se calam.
alguns dos grupos religiosos místicos existentes antes No verso 11, o Senhor ordena também o seguinte:
de Cristo. É verdade, infelizmente, que hoje em dia, "E que o marido não se aparte de sua mulher." (Mas
muitas pessoas, crendo serem pecaminosas as relações ele poderia repudiá-la se cometesse adultério.) Esta
sexuais conjugais, desfizeram o lar, _e assim fazendo, ordem, se não for modificada, não abre exceção para
forçaram os cônjuges ao adultério. nada. Se não houvesse a exceção, então, o marido
Os monges da Irreja ocidental possuíam forte estaria obrigado, pela lei original. a ser uma só carne
aversão ao casamento, e este espírito de celibato com uma adúltera.
exerceu enorme influência sobre sua interpretação do Os defensores da tese da indissolução do casamen~
divórcio nas Escrituras, bem como sobre a legislação to torceram o sentido dos versos 10 e 11. Os principais
civil acerca do mesmo nos países onde detinham posi- mestres conservadores concordam em que Paulo, nes·
ção de proeminência. ses versos, não falava de um divórcio por causa de
Não está claro se a mulher citada no verso 11 era adultério.
membro deste partido do celibato, de Corinto, mas
Os romanistas deduziram, deste texto ... ignorando
qualquer que tivessem sido suas razões divorciar-se do
Mateus 5.32, que até mesmo em caso de adultério
marido, não eram válidas.
o vínculo conjugal ainda continua válido para a
t':: da máxima importância notar que, quando
parte ofendida, mas a verdade é que esta questão
Jesus deu seu mandamento sobre o divórcio em
não está sendo levada em conta aqui. (Expositor's
Mateus 5.32 e 19.9, ele não mencionou este ponto de
Greek Testament.)
maior relevância acerca de não casar-se de novo.
Tivesse ele feito isso, e a questão do divórcio teria sido Aqueles que citam os versos 10 e 11 evadem à

86 87
exceção do verso 15, onde o apóstolo menciona outros mento, está em contradição com Mateus 5.32; 19.9,
casos de divórcio, e diz que aqueles cristãos que onde o único motivo para a dissolução do casamento é
haviam sido abandonados e estavam divorciados, não o adultério. Muitas autoridades importantes dizem
se achavam "sujeitos à servidão" para com os casa- que não há contradição. O Dr. C. I. Scotield escreveu
dos. O marido e a mulher no caso do verso 11 estavam - o seguinte:
em servidão para com seu casamento, mas os do verso
15 não estavam mais. Por quê? O que causou essa Longe de negar a inspiração do texto, o apóstolo
diferença? Consideraremos então esta exceção. identifica seu ensino com o do Senhor. Quando o
evangelho começou a ultrapassar as limitações
"Mas, se o descrente quiser apartar-se, que se judaicas (ver 12-16), surgiram casos que não
aparte; em tais casos não fica sujeito à servidão." estavam esclarecidos nas palavras de Jesus (Mt
5.32; 19.5-9), e que eram uma orientação destina-
Os expositores bíblicos estão divididos quanto à da primordialmente a Israel. Impunha-se uma
interpretação deste texto. Alguns dizem que ele insti· legislação de caráter oficial para essas novas situa-
tui a dissolução do casamento, mas outros negam tal ções, e somente as palavras inspiradas de um após-
fato. Que facção está com a razão? Que grupo pode tolo poderiam fornecê-la. (The Scqfield Bible- I
provar que está certo? As provas que damos a seguir Co 7.15.)
defendem nosso ponto de vista pró-dissolução.
A questão toda gira em torno do significado das O termo grego que traduzimos por "apartar"
palavras "não fica sujeito à servidão". Aqui, outra (chorizo) no verso 15, significa divórcio, como no verso
vez. entra em cena a importância da regra de de_fini- 11. Quatro dos principais dicionários gregos já foram
-
çao. citados previamente provando isso.
O verso 15 trata de um novo problema que surgira Quando o Novo Testamento foi escrito em grego e
em Corinto. Quando os coríntios se tornavam crentes, enviado às cidades do Império, a "carta de divórcio"
em alguns casos. o marido ou esposa incrédulo aban- (biblion apostasion) era universalmente aceita como
donava ou divorciava-se do crente. por causa de sua fé tendo sentido de dissolução. Este termo era emprega-
em Cristo. Que devetiam fazer os crentes "em tais do também em transações comerciais, e em documen-
casos"? Escreveram a Paulo, solicitando-lhe uma tos oficiais e jurídicos.
solução. para este novo problema, e ele respondt:ju: O grego era a língua mais precisa do mundo, e o
Espírito Santo escolheu-a para escrever o Novo Testa-
"Se algum irmão tem mulher incrédula, e esta mento (apesar de algumas partes dele terem sido
consente em morar com ele, não a abandone. escritas originalmente em aramaico).
E a mulher que tem marido incrédulo, e este Para mostrar o tipo de divórcio que os incrédulos
consente em viver com ela, não deixe o marido. obtinham quando se divorciavam de seus cônjuges
Mas, se o descrente quiser apartar-se, que se cristãos, veremos agora o testemunho da mais alta
aparte: em tais casos não fica sujeito à servidão, autoridade em Novo Testamento.
nem o irmão. nem a irmã: Deus vos tem chamado
Termo de Divórcio (apostasion)
à paz."
'' ... apostasion, termo jurídico encontrado em auto-
Nossos oponentes têm argumentado que se "não res tão antigos quanto Lusias, Hipérides ... e De-
tica sujeito à servidão" significar a dissolução do casa- móstenes, e com freqüência nos papiros... no

88 89
sentido de entrega de uma propriedade após sua apóstolo refere~se a um casamento em que um dos
venda, abandono, etc. A conseqüente desistência cônjuges é crente e o outro incrédulo, e não é o crente
de uma pretensão explica o significado que a quem repudia, mas é repudiado.
palavra adquiriu nos circulos judaicos (Jr 3.8): dar No caso do verso 15. o crente não se divorcia do
(à esposa) carta de divórcio. Mt 19.7 ... com o incrédulo, mas o incrédulo se divorcia do crente. No
mesmo sentido de Mateus 5.31." (A Greek·English caso de 10 e 11, o Senhor não reconhece o divórcio
Lexicon ofthe New Testament and Early Christian como tendo força de dissolução do casamento, mas no
Literature.) caso do verso 15, ele o faz. Não é interessante?
Os mestres gregos recorrem ao Vocabulary o( the É bom notar, também, que a palavra "separar"
Greek New Testament (Vocabulário do Novo Testa- (chorizo) significa "repudiar". E é a mesma palavra
mento Grego), que consideram a "suprema corte" que Jesus empregou em Mateus 19.6 onde ele diz:
em questões do Novo Testamento, pois ele fornece "Não o separe o homem" (chorizo). Embora o Senhor
ilustrações dos vocábulos do Novo Te_stamento, dos tenha dito em Mateus "Não o separe o homem", ele
papiros e de outras fontes não literárias. Eis o que ele aceita o divórcio grego como sendo uma dissolução
contém acerca da Carta de Divórcio. válida, nos casos em que o incrédulo divorciar~se do
crente. mencionados em 1 Coríntios 7.15.
Apostasion - contrato de desistência ... contrato (Uma interessante situação paralela é que, sob a
de renúncia ... renúncia a direitos de propriedade ... legislação mosaica, o .judeu que tentasse induzir ou-
certificado de divórcio. tros membros de sua família à idolatria era apedreja~
do até a morte. (Dt 18.6-10.) E o Dr. Edersheim
Nossa evidência prova que o divórcio obtido pelo
escreveu o seguinte: "Uma das situações em que o di~
incrédulo era uma desistência do casamento, uma
vórcio tomava caráter obrigatório era quando um dos
renúncia dos direitos conjugais. E o Senhor reconhe~
cônjuges se tornava herético ou deixasse de professar
ceu este tipo de divórcio que dissolvia o casamento.
o judaísmo. Sketches ofJewish Li(e.)
Westermarck, autoridade responsável pelos verbe~
Voltamos agora nossa atenção para o termo "não
tes de casamentodaEncyclopediaBritannica, escreveu fica sujeito à servidão'', do versículo 15. A chave que
o seguinte em sua obra Short History of Marn·age
lança luz sobre o problema é a definição original de
(Breve histórico do casamento): "servidão" (douloo). Esta palavra significa "escravi-
O divórcio parece ter sido quase desconhecido dão".
entre os gregos no período homérico, mas depois "Fazer alguém de escravo" ... "manter cativo por
se tornou um evento diário na Grécia. De acordo força de lei por alguma necessidade. I Co 7.15."
com a lei da Atica, o marido podia repudiar a "Tornar alguém escravo" ... "Ser acorrentado
esposa sempre que quisesse e sem dar quaisquer (como escravo) 1 Co 7.15", escravizar, colocar em
razões, mas era obrigado a mandá~la de volta para cativeiro."' (Do Thayer·s Greek·Eng/ish Lexicon ~(
a casa do pai, com o dote. A esposa poderia exigir the New Testament e várias outras obras.)
o divórcio. fazendo requerimento ao governador, e
expondo os motivos de tal petição. "Mas, se o descrente quiser apartar~se, que se
aparte; em tais casos, não fica sujeito à servidão, nem
Em I Coríntios 7.10. li a referência é feita a um o irmão, nem a irmã; Deus vos tem chamado à paz."
casal, em que ambos são crentes. Mas no verso 15, o Isto significa, em substância e de fato, que, se o

90 91
cônjuge incrédulo obteve o divórcio, deixasse que ele o caso dos versos 10, 11, e 12, mas não no caso do verso
desfrutasse. O crente não devia contestar a ação de 15? Por que não teria o Senhor especificado em
divórcio por quaisquer meios, ou usar de quaisquer Mateus 5.32 e 19.9 que "não se case". Nas quatro
medidas para impedi·lo. Deus chamou·nos para a vezes em que o Senhor trata da questão do divórcio
paz. A amargura e a disputa deviam ser evitadas. (Mt 5.32, 19.9; 1 Co 7.10, 11; 7.15), ele define a
O único meio pelo qual o crente podia evitar o situação dizendo "Não se case", em uma das vezes,
divórcio era negar o Senhor Jesus Cristo. E esta mas não nas outras três. Por que ele faz uma distinção
situação prevalece em nações pagãs ainda hoje. Acon· tão clara em um caso?
tece na América, em nossos dias. Muitos crentes "Sujeito à servidão" e "Não fica sujeito à servidão"
acham· se a braços com o mesmo dilema. São obriga· eram termos legais relacionados ao tráfico de escravos.
dos a decidir entre Cristo e um cônjuge incrédulo. Os O leitor poderá ver, pelas citações que fizemos, que
judeus e muçulmanos que se convertem sofrem ação esses termos -vinham sendo usados havia muito tempo
de divórcio por parte de seus cônjuges. em conexão com negócios e questões jurídicas.
Quando um incrédulo obtinha o divórcio por esta Quando um senhor de escravos comprava um
razão, qual era o estado civil do crente? Deveria ele cativo, este era sujeito ao jugo de servir continuamente
deixar a "porta aberta" para o incrédulo retornar a ao seu proprietário. Paulo enviou Onésimo de volta ao
qualquer momento. voltando das orgias sexuais da seu amo, por reconhecer a obrigatoriedade da sujeição
depravada cidade de Corinto, e reiniciar o relaciona· do escravo ao seu dono. Mas quando Filemon desse
menta de "uma só carne" com o crente? Paulo liberdade a Onésimo, como Paulo sugeriu que fizesse,
respondeu a essa pergunta com um Não decisivo e então ele estaria livre. E Filemom não teria mais
enfático. O casamento era dissolvido- tanto pela lei direitos sobre ele. Onésimo era tão livre quanto os
civil quanto pela lei do Novo Testamento. O crente escravos americanos que o Presidente Lincoln alfor-
não era mais um escravo do casamento. Ele ou ela •
rtou.
estava livre para casar-se de novo. Se não pudesse Se um escravo fugisse, seu proprietário poderia
casar-se, certamente ainda estaria sujeito à servidão, prendê· lo e conduzi-lo de volta ao seu lugar. Mas se o
não estaria? mesmo houvesse sido declarado "livre da servidão",
A que os crentes divorciados não estavam mais seu antigo amo não teria nenhum direito sobre ele. A
sujeitos? De acordo com todas as regras, pode haver alforria do cativo era um ''contrato de desistência'', ou
apenas uma resposta: não estavam mais em servidão um "contrato de renúncia" (apostasion). A carta de
ao casamento. Antes do divórcio, estavam sujeitos à divórcio tem exatamente o mesmo efeito sobre o
servidão do casamento. Após o divórcio, eles não esta- casamento, no caso de I Corintios 7.15.
vam mais sujeitos à servidão do casamento. Se, após o As mais proeminentes autoridades em Novo Tes-
divórcio, ainda se achavam em servidão, a que esta- tamento defendem o ponto-de-vista de que "não fica
vam eles sujeitos? sujeito à servidão" significa dissolução do casamento.
Em Romanos 7.2, Paulo diz que a esposa estava
"ligada pela lei ao marido, enquanto ele vive", mas no Não fica sujeito à servidão (ou dedou/otai). f: um
caso de Coríntios o mesmo apóstolo diz que ela não termo forte que indica que o cristianismo não
estava. Estaria Paulo em conflito consigo mesmo? tornou o casamento uma condição de escravidão
Certamente que não. para os crentes. Compare-se isto com dedetai (está
Por que a ordem de não se casar é formalizada no ligada- v. 39), um termo bem mais brando. Está

92 93
claro que o significado é: uma deserção voluntária
Esta passagem (7.15) geralmente é apresentada
por parte do cônjuge incrédulo liberta o outro.
como a base bíblica em favor do ponto de vista de
Tais casos não haviam sido afetados pelas palavras
que a deserção voluntária é motivo suficiente para
de Cristo. (Word Studies in the New Testament.)
uma ação de divórcio. Essa deserção constitui o
Os comentaristas protestantes dos séculos XVI e
verdadeiro rompimento do casamento, e situa-se
XVll, ou pelo menos a maioria deles, deduzem das
no mesmo plano de adultério. (Pulpit Commenta-
palavras de Paulo em I Coríntios 7.15, ensinar ele
ry.)
que. após a deserção de um cônjuge, o outro tem
1 Coríntios 7.15 permite o novo casamento para o
liberdade para casar-se. (Theodore W oolsey cita os
crente abandonado pelo cônjuge incrédulo. (Inter-
nomes de alguns destes comentadores e teólogos,
national Standard Bible Encyc/opedia; Hastings
situando entre eles Beza e Calisto.) <Essay on
Dictionary qf' the Bib/e) ... se o incrédulo desejar
Divorce and Divorce Legislation.)
dissolver a união, poderá fazê-lo. (The New Testa-
I Co 7 .I S. "Ela não é obrigada a ficar sem casar e
ment for English Readers.)
a esperar uma reconciliação, nem mesmo procu-
1 Co 7.15. O crente· não está tão escravizado por
rá-la." (Grotius- citado por Woolsey.)
tal aliança que não possa ser libertado. (Notes of
Johann Neander (1789-1850), proeminente teólogo the Epistles o_f' Paul.) O cônjuge que foi abando-
alemão e professor de Eclesiologia em Berlim em nado parece ser deixado mais livre ... para casar-se
t813. escreveu o seguinte: com outra pessoa. Não parece razoável que eles
devam estar presos... Em tal caso, o casamento
A exegese protestante tem interpretado o apóstolo seria verdadeira escravidão. (M atthew H enry Com-
no sentido de que em tal caso, I Coríntios 7.15, o mentary.)
cônjuge crente teria autorização para contrair
novo matrimônio. (Citado por Woolsey.) A obra A Companion to the Bible (Um auxílio ao
estudo da Bíblia), preparada por trinta e seis mestres,
A Igreja Católica Romana permite o casamento aborda o significado dos mais importantes termos
com base na autoridade de I Coríntios 7.15. Quem bíblicos. Ela comenta o seguinte acerca de 1 Coríntios
desejar ver suas exceções à indissolubilidade do casa- 7.15:
mento, faça uma consulta sobre o assunto na Enciclo-
pedia Católica, 1933. Este divórcio ... ao que parece, autoriza um novo
O novo casamento após o divórcio era permitido casamento. já que o crente deixa de estar sujeito à
pelos líderes da Igreja nos primeiros séculos de sua e- escravidão (I Co 7.12-16); o casamento anterior
xistência, com base nas exceções de Mateus 5.32; 19.9; tornou-se sem efeito.
I Co 7.15. Orígenes, que viveu em 185 a 254 A. O., é
geralmente considerado o principal dos pais da igreja. O Expositor's Greek Testament. uma obra de
Ele e Agostinho são reputados como os dois maiores. dezessete teólogos conhecedores do grego, comenta:
Orígenes escreveu que "alguns bispos de seu tempo O irmão ou irmã, em tais circunstâncias não é
permitiam a algumas mulheres casarem-se enquanto mantido em servidão; comparar com o verso 39-
seus maridos ainda estavam vivos." (Homílias 7 - podemos inferir, do verbo mais forte da passagem,
acerca de Ma teus 2) (Citado em The Antiquities ofthe
que se o cônjuge repudiado continuasse ligado ao
Christian Church).
que o repudiara, isso seria considerado servidão.

94 95
Se o repudiador contrai novo casamento, destruin- E aqui está um pensamento do Arcebispo da
do assim toda a esperança de uma restauração, Cantuária que poderá surpreender ao leitor. Pelo
parece então que o caso passa a enquadrar-se na menos a mim surpreendeu.
exceção de Mateus 5.32.
Em tais casos, o irmão ou irmã crente não está I Co 7.15- "Mas está claro que o sentido dado
"amarrado" ao casamento (Versão de Moffat.) por São Paulo é que um casamento válido pode ser
Nem os irmãos nem as irmãs estão na posição de anulado desse modo, de forma a permitir um novo
escravo ... numa união indissolúvel em casos tais casamento." (Problems of Diverce Remarriage.)
como estes. (Versão de W uest.) A opinião oficial dos anglicanos com respeito à
O Baker's Dictionary of Theology é obra ampla- exceção de Mateus tem, de há muito, estado dividida,
mente aceita. preparada por 138 mestres de todas as variando entre uma e outra opção. A conferência de
partes do mundo. Nele lemos o seguinte: Lambeth de 1888:
Nos versos 12 e 15, Paulo oferece aos crentes " ... observou que sempre existiu na Igreja uma
ligados a incrédulos por casamentos mistos uma divergência de opiniões quanto à questão se o
nova provisão, que Cristo não levara em considera- Senhor proibiu o novo casamento ao cônjuge
ção quando falara aos judeus, isto é, se o cônjuge .
mocente. "
incrédulo deseja romper o laço conjugal e abando-
A conferência de Lambeth de 1908 concluiu que
na o crente, este último não está mais sujeito ao
era "indesejável que o cônjuge inocente se casasse
laço, mas está livre para casar-se.
com as bênçãos da Igreja". ,Esta posição foi adotada
Talvez o leitor gostasse de conhecer a opinião das após uma votação onde ela venceu com uma margem
seguintes pessoas: de três votos num total de 171. A igreja Anglicana não
celebra o casamento de pessoas divorciadas. mas dá
Lutero 1 Co 7.15. "Aqui o apóstolo determina que sua bênção ao ato; se for oficiado por um ministro de
o incrédulo que abandona a esposa deve sofrer •
outra denominação, e. aceita no seu corpo pessoas
ação de divórcio por parte dela, e declara que o divorciadas que se casaram de novo. (Ver Encyclope-
crente está livre para casar-se com outro." (Ref'or- dia B dtannica.)
mation Writings of Martin Luther.) · Leiamos agora os versos 15 e 39 juntos. Aplique-
Os Pais da Igreja. "Os Pais da Igreja, até certo mos a regra de unidade nestes versos. A lei geral do
ponto, tanto católicos como protestantes, interpre- casamento é enunciada no verso 39, assim como em
tavam o texto de 7.15 como dando liberdade ao Romanos 7.2.
conjuge para contrair novo casamento." (McClin-
A ' '

A mulher está ligada enquanto vive o marido:


tock Strong Encyclopedia.) contudo. se falecer o marido, fica llvre para casar
Muitos pastores profundamente espirituais crêem com quem quiser, mas somente no Senhor.
que o adultério ou um abandono voluntário e
duradouro significam a dissolução do casamento, Mas. no verso 15 ele abre uma exceção para esta
da mesma forma que seria o cônjuge estivesse no regra geraL Temos aqui então a regra geral e a exce-
túmulo. (Twentieth Century Encyclopedia of' Re/i- ção para ela, inseridas no mesmo capítulo. Nos Evan-
gious K nowledge.) · gelhos a regra é dada em Marcos e Lucas, mas a exce-

96 97
ção da regra é dada duas vezes em Mateus. Portanto, Não procures separar-te. ... "Não buscar liberta-
em Mateus 5.32 e 19.9 e I Coríntios 7.!5, temos três ção" do laço conjugal... (Word Pictures in the New
exceções da regra geral. Temos então as duas ou três Testament.)
testemunhas exigidas pela Lei de Moisés. Livre. que em I Coríntios 7.27 é empregado com
referência à libertação dos laços conjugais. é co-
Na regra geral (v. 39), a esposa está ligada ao
mum·ente usado como referência a "perdão'' de
mando por toda a v1da. Na exceção (v. 15). já não está
ma1s. dívidas e "cancelamento" de obrigações. (The Vo-
~~rvidão e liberdade são palavras fortes no voca-
cabulary of the New Testament.)
bulano de Paulo e constituem um constraste bem Livre (de Homero em diante). uma libertação de
m~r~a~.te em suas epístolas. Quando ele diz "não está
qualquer laço, como o do casamento; daí ser
SUJeita . empregava uma das mais fortes expressões usado no Novo Testamento com referência ao
da língua mais exata do mundo. Paulo era grande- divórcio. I Co 7.27. (Thayer's Greek English Lexi-
mente versado em leis e lógica. ''Seus escritos revelam con.)
um amplo conhecimento das leis gregas e romanas e "Estás ligado a uma esposa?" Não procures livrar-
suas instituições", e ele pode ser "considerado 'como te. Estás livre de mulher'? Não procures uma
um grande mestre da linguagem". Por que então ele esposa." <Ampli/ied New Testament.)
~mpreg~u um decisivo termo jurídico que significava Por que reunimos todas estas evidências com
hbe1iaçao completa de um escravo de sob a influência relação a apenas uma palavra? Porque tudo depende
de _seu senhor, e a amancipação total e decisiva do de sua definição. O termo "servidão" fala de uma
cativeiro do matrimônio? escravização total. Livre expressa total libertação.
Vejamos agora como os l{ersos !5, 27. 28 e 39 O arcebispo R.C. Trench escreveu o seguinte:
propõem um contraste.
Estudar a língua de um povo significa estudar um
Estás casado? não procures separar-te; estás livre povo, e estudá-lo do melhor ponto-de-vista.
de mulher? não procures casamento. Mas, se te Muitas vezes basta o exame de um único vocábulo
casares, com isto não pecas ...
e o emprego que o povo lhe dá, para se ter uma
Paulo fala aqui em separar, libertar-se dos laços melhor compreensão de suas reais condi<;ões, hábi-
do casamento pelo divórcio. "Estás casado? não pro- tos de pensamento e sentimentos do que se lêsse-
~ures separar-te", como faziam alguns sem causa mos volumes escritos com a expressa intenção de
JUSta, nos versos 10 e 11. comunicar tal realidade. (Trench on Words.)
O s~gnitic:do. de "separar" aqui se reveste de
O apóstolo diz ao homem que se libertou do laço
g~ande 1mportanc1a. Esta palavra aplica-se ao divór-
do casamento através do divórcio bíblico: "Mas, se te
cio. ~s fontes de referência mais observadas dizem 0
segumte: casares, com isto não pecas" (v. 28).
Por que Paulo não ordenou a este homem livre que
Separar- uma libertação. I Co 7.27. Trata-se de "não se casasse"? Por que não ordenou que se
divórci~ e é traduzido como "ser liberto", "solto". reconciliasse com a esposa de quem se divorciara? (0
(Exf!OSltory Dicti?nary of the New Testament.) termo lusis (livre) ainda é empregado pelos gregos na
Estas casado? L1gado pelos laços matrimoniais questão do divórcio e no cancelamento de obrigações
como se diz em Romanos 7.2. e dívidas.)

98 99
O prof. Robertson dedicou seu livro Word Pictures O Prof. Deissman diz que qualquer pessoa que
in the New Testament ao Dr. Adolf Deissman • de não leva em consideração o contexto histórico das
Berlim, com as seguintes palavras: "Que tanto tem palavras e dos sentidos dados a elas por Paulo, está

trabalhado no sentido de fazer as palavras do Novo arrancando o apóstolo de seu contexto grego, e o
Testamento brilharem com uma nova vida". Os estu- evangelho de sua hist6ria, e fechando as portas do
dantes do assunto conhecem a famosa obra de Deiss- Novo Testamento às luzes do exame.
man Light from the Ancient East (Luz do Antigo Do que foi aqui exposto, concluímos que a expres-
Oriente). Ele nos fornece a maioria das provas que são "não está sujeita à servidão" significava uma
agora temos acerca do significado dos termos e expres- libertação total dos laços conjugais, e que a carta de
sões do Novo Testamento. Ele ensinou o seguinte: divórcio dos gregos, a Biblion apostasion, continha o
mesmo sentido jurídico da dissolução completa, ex-
Se quisermos obter a certeza dessa questão, tere- presso na carta hebraica. A Biblion apostasion ainda
• • • •
mos que exammar os paptros e manuscrttos, pots consta dos compêndios jurídicos da Grécia.
são eles que nos fornecem a versão mais próxima Se esta prova não bastar para convencer uma
da verdade. mente sensata, então chegamos ao fim de todo sentido
Antes da descoberta dos papiros, não havia prati- da linguagem e devemos desistir de provar qualquer
camente nenhum documento que ilustrasse esta •
cmsa.
fase da língua grega que estivesse ao nosso alcance Para aqueles que objetam à nossa interpretação de
na Versão dos Setenta e no Novo Testamento. que 1 Coríntios 7.15 acrescenta outra exceção à regra
(Citado em A Grammar qf the Greek New Testa- de Cristo, observamos que algumas denominações
ment in the Light qf the Historical Research.) contrárias ao novo casamento do divorciado permitem
O Prof. Deissman (1~66-1937) provou, a partir dos uma anulação do casamento por causa de "fraude".
papiros e manuscritos, que o apóstolo Paulo empregou Na lei civil, os estatutos que regem essa questão de
linguagem jurídica em suas cartas. Ele escreveu o fraude prevêem a anulação do casamento com direito
seguinte em sua obra: a novo casamento. As denominações que defendem a
proibição de um novo casamento para os divorciados
Paulo tinha certa "predileção pelas expressões aceitam este decreto jurídico, e permitem uma anula-
jurídicas" e tais expressões constituem a "lingua- ção do casamento com direito a novo casamento. Isto
gem dos documentos". Paulo era fortemente influ- faz com que a lei de Cristo passe a ser assim: "exceto
encidado por conceitos jurídicos e pela lei popular em caso de adultério e fraude".
do mundo em que viveu. A prop6sitoda questão da O raciocínio em que se apóiam estes estatutos é
libertação do cativeiro, Paulo "tomou posição que a ocultação de um fato material, que a pessoa é
definida com relação a este costume do mundo moralmente obrigada a revelar anteriormente ao casa-
antigo". mento, justifica a anulação do matrimônio e concede
A carta de alforria dos escravos continha a expres- permissão à parte lesada de contrair novo matrimônio.
são ''livre sob terra e céus" ... Estes fatos materiais são: impotência sexual, esterili-
O Novo Testamento emprega termos técnicos da dade, epilepsia, tendência para a insanidade, ou
lei constitucional contemporânea ... qualquer outro fato omitido com a intenção de enga-
, .
Paulo fez uso "de termos da linguagem da lei nar o conJuge.
constituicional contemporânea... " A supressão de algum fato ou circunstância pelo

100 101
silêncio ou engano, que implique em ofensa ou priva-
ção de direitos ao cônjuge, é motivo suficiente para
uma anulação do casamento. Uma pretensa normali-
dade onde existe anormalidade resulta num rompi- 12
mento da aliança conjugal, na qual cada um deve
entrar de boa fé. Ademais, se os dois encontravam-se
em estado de embriaguês por ocasião da celebração
do casamento, isso é suficiente para que se anule o
ato. (Algumas denominações só concordam com a A Posição dos Pais da Igreja
anulação, se o casamento não foi sexualmente consu- com Relação ao Divórcio e Novo
mado.)
Casamento

Alguns intérpretes que defendem a indissolubili-


dade do casamento afirmam que não existem evidên-
cias de que os pais da Igreja cressem que a lei do
divórcio expressa no Novo Testamento permitisse o
novo casamento. Alegam que durante os primeiros
quinhentos anos da Igreja Cristã todos os Pais se
achavam de seu lado na questão do divórcio. Isso não
é verdade. Mas ainda que fosse, uma doutrina bíblica
não pode ser determinada pelos Pais. A autoridade
máxima na questão é a Palavra de Deus.
Muitos dos Pais da Igreja criam que os três textos
de exceção - Mt 5.32; 19.9 e 1 Co 7.15 - dão
permissão ao divorciado para contrair novo casamen-
to.
A obra Dictionary of Christ and the Gospels
(Dicionário de Cristo e dos Evangelhos) é um texto de
consulta largamente utilizado. Dela eu cito:
Em todos os períodos da história da doutrina
cristã tem havido divergência de opinião dentro da
Igreja com relação à aplicação prática das palavras
de Jesus acerca do adultério, divórcio e novo
casamento. Essas divergências tomaram uma for-
ma fixa nos ramos Oriental e Ocidental da Igreja
Católica. O primeiro adota a tese mais branda, e

102 103
orientais, em geral, foram melhores teólogos e acha-
permite novo casamento da parte inocente ... (0
vam-se mais abalizados na matéria que os ocidentais.
segunto nega-o.)
Por outro lado, o consenso geral da opinião teoló- Os Pais ocidentais eram, como um todo, bem
gica entre os teólogos de fala inglesa depois da inferiores aos orientais na exposição das Escritu-
Reforma, tem-se inclinado em direção à posição ras. Uma das principais razões disso era seu
tomada pelo ramo oriental. relativo desconhecimento das línguas originais da
Bíblia. (Biblical Hermeneutics.)
O livro A Companion to the Bible (Um auxiliar ao
estudo bíblico) é uma nova obra de consulta prepara- Outro ponto que desqualificava a opinião dos
da por trinta e seis teólogos. Ele afirma: ocidentais quanto aos textos de exceção era sua forte
aversão ao casamento. Acreditavam eles que as rela-
... a Igreja Oriental, consistentemente, via no adul- ções sexuais eram pecaminosas, por causa do prazer
tério uma causa justa para o divórcio, que permite
sensual. As crianças "nasciam em pecado" como
o novo casamento ao divorciado, e entendia que,
conseqüência da impureza do ato sexual.
no Concílio de Trento. a Igreja de Roma deixou de A mania de celibato que grassou entre os pais
condenar a posição on'ental nessa questão. (Grifo
ocidentais influenciou seu conceito de que o divórcio
meu.)
era a "mensa et toro" (separação de corpos e bens).
Os estudiosos da Bíblia conhecem o valor do Com uma inclinação tão acentuada, como poderi-
d!cionário A Patristic Greek Lexicon, que fornece am eles ser intérpretes imparciais das exceções de
inúmeras referências para demonstrar como termos Mateus? (Acerca da mania de celibato que houve na
bíblicos eram interpretados e empregados pelos pri- Igreja primitiva e da crença de que as crianças
meiros pais da Igreja. Nessa obra, lemos o seguinte: nasciam em pecado por causa da lascívia do ato
sexual, consulte-se The History ofDoctrines, Reinhold
"A fornicação (era) associada com o adultério Seiberg; The History o( Sacerdotal Celibacy in the
como causa para o divórcio, após o qual um novo Christian Church, Henry Lea.)
casamento era permissível."
A Encyclopedia Britannica cita a obra History of
Acerca da questão do novo casamento após o Human Marriage de E. A. Westermarck, como sua
divórcio causado por adultério, o comentário de fonte de referência na questão do casamento e do
Jarnieson, Fausset e Brown observa o seguinte: divórcio. E em seu livro. Westermarck escreve que a
tese de "separação de corpos e bens" para interpreta-
A Igreja de Roma diz Não; mas as igrejas grega e ção do divórcio foi rejeitada
protestante o permitem. Mt 5.32.
A Igreja Oriental e a maioria das protestantes por quase todos os reformadores ingleses do século
afirmam que o caso excetuado, tanto o marido XVI. por ser considerada invenção do papa.
corno a esposa podem contrair novo matrimônio. A doutrina canônica de que o casamento é um
(Pulpit Commentarv.) sacramento e portanto indissolúvel a não ser em
Poucas pessoas estão a par dos fatos históricos caso de morte, também foi rejeitada pelos refor-
acerca desta questão do divórcio. Algumas fazem madores. Todos concordam em que o divórcio,
afirmações dogmáticas a respeito, sem haverem estu- com liberdade para o cônjuge inocente casar-se de
dado o assunto devidamente. Não sabem que os Pais novo, deve ser concedido em caso de adultério, e a

104 105
maioria deles considerava um abandono maldoso citado por Eusébio, de Justino, e pelo exemplo de
como uma segunda causa legítima para a dissolu- Fabiola. (Essay on Divorce and Divorce Legisla-
ção do casamento. tion.)
Os cinco parágrafos transcritos abaixo foram en- Agostinho geralmente é considerado o maior teó-
contrados para mim pelo serviço de pesquisas da logo entre os Pais latinos. Durante quinze séculos sua
Encyclopedia Britannica. Os pesquisadores citam o influência foi grandemente sentida por todo o mundo
Dr. T. D. Woolsey que presidiu o comitê americano da teologia cristã. No inicio, ele de;endeu .a tese da
do Novo Testamento para a revisão da versão inglesa proibiç·ão do novo casamento, tambem ap01ado pelos
da Biblia (1871-81). Ele lecionou lingua e literatura monges ocidentais. Mas, após toda uma vida de
grega na Universidade de Yale, e também presidiu estudos e reflexão, começou a ter dúvidas acerca da
essa Universidade (1846-71). interpretação dos ocidentais. E depois Agostinho mu-
A controvérsia entre os Pais da Igreja com respeito dou de opinião, e produziu o seu Writ of Doubt
às causas pelas quais o divórcio poderia ser conce- (Escritura de dúvida), admitindo que a exceção de
dido era constante e sempre havia mudança. A Mateus poderia dar margem a um novo casamento
causa universalmente aceita era a de adultério por após um divórcio motivado por adultério. Ele escreveu
parte da esposa. o seguinte:
A pesar da aversão de Jerônimo pelo casamento, E nas expressões da Palavra divina não está
ele reconheceu abertamente, como fizeram outros, claro se, aquele que tem o inquestionável direito
que casamentos sucessivos, qualquer que fosse o de repudiar uma esposa adúltera, deve ser consi:
número deles, não eram ilegítimos. derado adúltero por tomar outra esposa. e. ate
Alguns dos Pais olharam com certa indulgência o onde. entendo, nesse caso, qualquer pessoa pode
novo casamento da parte inocente. cometer um engano perdoável (venialiter ibi quis-
Não devemos supor que a opinião da Igreja Oci-
que fallatur).
dental com relação à legitimidade do novo casa-
mento após o divórcio seguia sempre a mesma Dean Alford, profundo conhecedor do Novo Tes-
linha. Os "lideres da Igreja", a quem Origenes faz tamento, citando a opinião de Agostinho, escreveu o
referência, criam que a parte inocente poderia seguinte:
casar-se de novo, quando o divórcio tinha como
causa o adultério da esposa ou do marido. Latân- Nós podemos deixar em dúvida uma questão da
zio parece ter sido da mesma opinião ... Assim qual Agostinho disse ser tão obscura, que um erro
também pensava o amigo de Agostinho, Polêncio. de qualquer lado seria perdoável. (The New Testa-
A mesma coisa foi ensinada por Ambrósio, como ment for English Readers.)
foi chamado, e que se crê ser Hilário, o diácono. Se Agostinho tivesse interpretado a questão do
Um documento de 1535, assinado por Lutero, divórcio pelas mesmas regras que estabeleceu para a
Cruciger, Major e Melanchton, permitia a uma interpretação de outras doutrinas, não t~ria havi~o
mulher de Nordhausen, cujo marido fugira havia nenhuma dúvida em sua mente. Isto se aphca tambem
vários anos, que se casasse de novo, de acordo com a Dean Alford. Posso citar cinqüenta referências de
a decisão de Paulo e com a prática antiga da sua obra de 1942 páginas, nas quais ele insiste em
cristandade, como um caso semelhante que foi empregar para outras doutrinas os princípios inter-

106 107
p~e!at~vos exatos ~ue aplicamos à interpretação do lugar daquela que repudiou. (RefOrmation Writ~
dJVorcto nas Escrtturas. Seria lógico empregar tais ings q(Martin Luther.)
regras em algumas doutrinas, mas não aplicá~las em
outras? Isto corrobora a afirmação de Lutero no sermão
~ justo exigir~se que o intérprete seja coerente acerca do casamento, pronunciado em Wittenberg,
consigo mesmo, m~s é difícil encontrar um que seja. 1525, de que "Mateus 19.9 é um texto direto, claro e
O valor de Calvmo como teólogo é reconhecido até simples ... "
pelos anticalvinistas. Até mesmo seus adversários Melanchton foi outro teólogo e reformador que
admitiam que ele era uma brilhante teólogo. Calvino rejeitou a preceituação papista da indissolubilidade.
ensmou que a proibição de Cristo com relação ao novo Ele teve papel preponderante na formulação doutri-
casamento não se aplicava ao matrimônio dissolvido nária do período da Reforma. Foi superior a Lutero
pelo adultério. como teólogo escolástico, e este o respeitava profunda·
mente.
Embora Cristo considerasse adúltero o homem A Igreja Católica Romana tn~.ta os textos relativos
que se casasse com uma mulher divorciada, isto se ao divórcio ao seu bel·prazer. As vezes estes textos
restringia apenas aos casos de divórcio frívolo ou significam indissolução, e às vezes não. Os pesquisa~
ilegítimo. (Grifo meu.) Uma esposa adúltera "cor- dores da Encyclopedia Britannica também dizem o
ta sua ligação do casamento. da mesma forma que seguinte:
um membro apodrecido cai por si mesmo". 1::
"responsabilidade do marido purificar seu lar de ... Mesmo estando sob as reguras mais restritivas
da Igreja Católica Romana que não permitia o di~
toda infâmia". "Ao praticar o adultério, ele (o
vórcio, alguns encontraram uma forma de escape.
marido) dissolveu o matrimônio, e a esposa foi
Determinou~se que o casamento era indissolúvel
posta em liberdade." (Harmony q(theEvangelists.)
desde que tivesse sido contratado e consumado por
meios "válidos". Tudo dependia, então, da inter~
A Reforma constituiu para os reformadores um
pretação do vocábulo "válido". Desse modo, em~
livran;ento não somente dos pecados de Roma, mas
hora o divórcio não fosse permitido, concedia-se o
ta~ bem de sua teologia não escriturística. Os teólogos
direito de anular~ se o casamento. E esta prática se
reformadores unanimemente rejeitaram o preceito
romano que proibia o novo casamento. Martinho tornou tão universal e freqüente, que podemos
encontrar até dezesseis razões pelas quais um
Lutero aboliu esta "invenção papal" e escreveu:
casamento poderia ser anulado, embora ao mesmo
tempo se mantenha intata sua aparência de indis~
Mas eu me espanto ainda mais do fato de os
solubilidade. (Esta informação foi obtida de seu
romanistas não permitirem o novo casamento a
verbete sobre o Divórcio.)
um homem separado da esposa por causa de
adultério, e o obrigarem a permanecer solteiro. Encontrei a seguinte declaração na obra de Phillip
Cristo permitiu o divórcio em caso de adultério, e Schaff Creeds of Christenson (crenças da cristanda-
não obrigou ninguém a permanecer solteiro: e de):
~a~lo disse preferir que nos casássemos a que
v1vessemos abrasados. e parece disposto a conce~ Pela lei da natureza, o laço conjugal não é indisso~
der que o homem se case com outra mulher, no lúvel. (Papal Syllabus ofErrors.)

108 109
Parece-me também que o Arcebispo da Cantuária casar-se de novo. (A Compend o.f Wesley's Theolo-
opera nos dois sentidos. Anteriormente, já menciona- gy.)
mos sua opinião favorável à dissolução do matrimônio E aqui está o testemunho de Carlos Spurgeon:
e novo casamento, com base no texto de 1 Coríntios
7.15. Agora vejam mais esta: O casamento é para toda a vida e não pode ser
rompido a não ser pela prática do grande crime
Quero dizer francamente que, em alguns dos casos que corta esse laço ... a mulher divorciada por
em que um primeiro casamento haja terminado qualquer motivo que não adultério, se se casar de
em tragédia, um segundo casamento tem sido novo, comete adultério perante Deus. A fornicação
abundantemente abençoado, segundo todos os torna o ofensor passível de um divórcio justo e
testes da presença do Espírito Santo que pudemos legítimo: pois em si ela já constitui um rompimen-
reconhecer. Por esta razão, não me considero em to prático do laço conjugal. Em caso de fornicação,
condições de proibir as boas pessoas que recorrem mediante provas claras, o laço pode ser rompido .
a mim pedindo conselhos, de que tentem um ... as pessoas que se casam estão, perante Deus,
segundo casamento. (Grifo do autor.) lProblems o.f casadas para o resto da vida, com apenas uma
Marn'age and Divorce.) exceção: a do adultério comprovado. (Spurgeon 's
O adultério e a fornicação implicam na dissolução Popular Exposition ofMatthew.)
do casamento, e a parte inocente tem o direito de
casar-se com outrem, como o faria se o ofensor Concluímos, então, que estão errados aqueles que
estivesse morto. (Conjissão de Westminster. The afirmam que nos primeiros cinco séculos da Igreja
Creeds o.f Christendom.) da Igreja Cristã nenhum dos Pais permitia novo
A existência dessa especificação ("exceto em caso casamento após o divórcio por adultério.
de adultério") no livro de Mateus, indica que na Desde os bispos, que Orígenes menciona no tercei-
ro século, durante a Idade Média, até Lutero, Calvino,
Igreja primitiva era permitido à parte inocente
casar-se de novo. <Dictionary of the Apostolic Wesley e Spurgeon, uma longa e importante lista de
Church.) nomes dos grandes homens da Cristandade criam que
o divórcio motivado pela infidelidade dissolvia o casa-
mento e concedia às partes interessadas o direito de
Muitas denominações protestantes, embora espo- um novo casamento.
sando o conceito de santidade do casamento como a
unidade básica da sociedade, seguiram os reformado-
res no CJ_t.Ie diz respeito à dissolução do casamento e
novas núpcias, em casos de adultério comprovado.
(Ver Encyclopedia Britannica.)
João Wesley, professor de lógica e fundador da
Igreja Metodista, escreveu o seguinte:

Será adultério para qualquer homem casar-se de


novo ... a não ser que o divórcio tenha sido motiva-
do por adultério; somente neste caso não existe
qualquer passagem da Bíblia que o proíba de

111
110
Porque o Senhor Deus de Israel diz que odeia o
repúdio. (Versos 14 e 16.)
O leitor pode ver que o que Deus detestava aqui
13 era a deslealdade dos judeus ao se divorciarem de
esposas inocentes. Não se está considerando nesse
texto o divórcio por adultério. Foi a isto que Jesus se
referiu. quando falou de dureza de coração. Nos
versos 14 a 16. Deus fala três vezes na sua deslealdade
ou infidelidade ao divorciarem-se das esposas: mas
Réplicas às Objeções não seria deslealdade divorciarem-se de urna esposa
adúltera.
Durante muitos séculos, em Israel. homens "jus-
tos" vinham-se divorciando de esposas prostitutas, e
casando-se novamente. e Deus não detestava um
Objeção n. 0 I divórcio motivado por adultério ou perversão sexual.
Sob a legislação de Moisés, determinava-se que tais
Procurarei responder a algumas das objeções mais
pessoas fossem condenadas à morte. Também Jesus
tOrtes sobre as quais se apóiam aqueles que negam o
abominou o divórcio por deslealdade e dureza de
direito de um novo casamento após o divórcio. Eis
coração, mas não detesta o divórcio causado por
uma delas.
adultério.
Porque o Senhor Deus de Israel diz que odeia o
repúdio. (Ml 2.16.)
Obiq·iio n. 0 2
Estas palavras são apresentadas para demonstrar
Não te é lícito possuir a mulher de teu irmão.
que Deus se opõe a todo tipo de divórcio, e que ele (Me 6.18.)
odeia qualquer divórcio. Esta objeção constitui u-
ma distorção. Ela quebra não somente a regra do Este verso também é usado como argumento
contexto, mas também a regra do texto. Até exposito- contra todo e qualquer divórcio. mas trata-se de outra
res importantes têm retirado este verso do todo da distorç~w. pois a razão da indissolubilidade do casa-
passagem. manobrando-a de molde a ajustar-se ao mento foi claramente indicada por João- "a mulher
seu conceito. O restante do verso diz o seguinte: de teu irmão". João disse: "Não te é lícito". Pela lei de
Moisés. isso era proibido enquanto o irmão vivesse (Lv
... e também aquele que cobre de violência as suas
18.16; 20.21). A versão inglesa Amplified New Tes-
vestes. diz o Senhor dos Exércitos: portanto cuidai tament menciona estas duas referências em conexão
de vbs mesmos e não sejais infiéis. com este casamento {Mt 14.4). Também o fazem os
E o contexto diz: principais comentários. A questão do divórcio e novo
casamento por motivo de adultério não está em
Porque o Senhorfoi testemunha da aliança entre ti consideração neste texto. Nesse caso, também, o pro-
e a mulher da tua mocidade, com a qual tu foste blema do divórcio e novo casamento era uma questão
desleal. de legitimidade da constituição judaica.

112 113
Objeção n. 0 3 Nos divórcios da lei mosaica, o laço conjugal era
dissolvido completamente, tanto que a mulher era
t; necessário, portanto, que o bispo seja irrepreen- proibida de voltar ao primeiro marido, se o segundo
sível, esposo de uma só mulher. (I Tm 3.2.) ou terceiro se divorciassem dela. (Dt 24.4.)
Alguns dos divulgadores da proibição de um novo
casamento defendem sua posição com base neste
texto. Mas, novamente, o texto não trata do divórcio Objeção n. 0 4
por causa de adultério. O assunto em questão é
bigamia. Este também é o ponto de vista dos te61ogos Convertei·vos, ó .filhos rebeldes, diz o Senhor;
gregos e da Igreja primitiva. porque eu sou vosso esposo. (Jr 3.14.)
O que se proíbe aqui é a bigamia sob qualquer
pretexto. Argumenta-se, com base neste texto, que o divór-
cio não significava a dissolução do casamento, porque
Este ponto de vista é apoiado pelo quadro geral Deus dera a Israel uma carta de divórcio (3.8). mas o
das qualidades exigidas de um bispo ... e pela divórcio não implicara na dissolução da união.
prática da Igreja primitiva. (Autores da Igreja O verso I refuta este argumento. Uma mulher
primitiva citados pelo Expositor's Greek Testa- judia que se divorciasse do segundo marido, não
ment: Word Pictures in the New Testament.)
poderia voltar ao primeiro. O rompimento do primei-
A opinião de que o texto se refere à bigamia pre- ro casamento era total e definitivo.
domina entre os principais te6logos. Alguns dos Pais, Em Hebreus 8. 9, o apóstolo faz referência à alian-
com seu desprezo monástico pelo casamento, inter- ça existente entre Deus e Israel, em Jeremias 31.32, e

pretavam este texto como tendo significado de que, escreve o segumte:
quando a esposa de um homem morria, ele não
... pois eles não continuaram na minha aliança. e
poderia casar-se de novo. Se o fizesse, então, ele seria
eu não atentei para eles. (Hb 8.9.)
marido de duas mulheres. É estranho que homens
esclarecidos pudessem crer em tal absurdo, mas isso "Pecado voluntário no qual se permanece significa
vem demonstrar mais uma vez os males que um apostasia, repúdio da aliança.·· (Expositor's Greek
preconceito pode causar à mente humana. Testament.) "Esse povo que quebrava a aliança não
Já vimos que em Deuteronômio 24.1-4, quando poderia mais ser regido pela aliança da misericórdia
uma mulher judia se casava de novo, embora seu de Deus." (Delitzch - Commentant on Hebrews.)
primeiro marido ainda vivesse, Deus falava dele como "Os israelitas romperam a a1iança, e Deus a anulou.
o "antigo marido". Isto mostra que Deus a considera- A aliança foi tornada sem efeito quando eles a viola-
va esposa de um só homem, embora o primeiro ainda ram." (Word Studies, de Robertson.)

vtvesse. A aliança do matrimônio de Jeová foi anulada e
Além disso, nos divórcios gregos que o Senhor tornada sem efeito para todos os israelitas que não
apóia em 1 Coríntios 7.15, o irmão que se casasse de cumpriram suas condições. A maioria dos judeus com
novo. mesmo estando viva a primeira esposa, era que Deus firmara esta aliança estará perdida para
marido de uma só mulher, tanto para o Senhor como sempre. Prova disso é:
para os tribunais gregos, pois ambos reconheciam que Em Romanos 9.27, Paulo cita Isaías referindo-se à
o divórcio dissolvia o primeiro casamento. nação da aliança:

114 115
A inda que o número dos .filhos de Israel seja como existe um só tribunal ou legislàtivo na América que
a areia do mar, o remanescente é que será salvo. deseje aboli-la.
Jesus ensinou que nem todas as pessoas da aliança Por que é que as igrejas que esposam a tese da
seriam salvas. Ele disse: "Os filhos do reino serão indissolubilidade retiram as trancas e recebem em
lançados para fora, nas trevas" (Mt 8.12). Isto signifi- seu seio pessoas divorciadas e casadas de novo, se um
ca trevas eternas. "Para eles está reservada a negridão ministro de outra denominação oficiar a cerimônia? E
das trevas" (2 Pe 2.17). E Judas 6 diz: "Ele tem por que retiram as trancas para receber dízimos e
guardado sob trevas, em algemas eternas". ofertas dessas mesmas pessoas? Por que retiram as
Jeová jurou em sua ira que aqueles israelitas que trancas para conceder-lhe o direito à Ceia do Senhor?
romperam a aliança do matrimônio com ele, nunca "A coerência não é somente uma jóia; é uma gema
entrariam "no descanso" (Hb 3.11, 18; 4.1-11). O rara. "
casamento está dissolvido para sempre e existe um
grande abismo. de modo que ninguém pode atraves-
sá-lo. (Lc 16.26.) Objeção n. 0 6
Certa vez perguntei a um defensor da indissolubi-
lidade, que levantou o argumento de Jeremias 3.8-14: Um editor de uma publicadora denominacional,
"Deus estava casado com aqueles judeus que não que leu meu primeiro livro acerca do divórcio, escre-
voltaram para ele?" E ele não soube o que responder. veu-me nOs seguintes termos:
Sob minha insistência, ele reconheceu seu erro. Quem Creio que você conseguiu, com toda justiça, provar
ler todo o livro de Jeremias verá que Deus dissolveu a tese a que se propôs. Mas não deu nenhum
sua relação da aliança com os israelitas incrédulos, esclarecimento de como se poderá determinar a
pelo cativeiro e morte às mãos dos babilônicos. Mas parte inocente. Não há dúvida de que tal existe,
houve um "remanescente" (uma minoria) de fiéis atra- mas, provavelmente, na maioria dos rompimentos
vés dos quais Deus manteve a aliança. conjugais. houve erio dos dois lados.
Não temos obrigação de acreditar em todos que
declaram sua inocência em questões de divórcio.
Objeção n. 0 S Seriamos tolos se o fizéssemos. Alguns se declaram
inocentes, quando realmente são a parte culpada.
"Se concordarmos com isso e abrirmos as portas, Quando não existem provas claras. temos que deixar

haverá muito abuso desse direito a um novo casa- asstm.
mento.'' Deus acreditava que havia pessoas inocentes. nos
Esta objeção assume a posiçãÇI de que é bíblico tempos do Velho Testamento. Vimos em Números
trazer as portas trancadas. As Escrituras devem ser 5.12-31 que quando ele amaldiçoava ·a esposa culpa·
examinadas com base no que significam, e não com da, cujo marido suspeitava de adultério, o marido era
base na possibilidade de virem a sofrer abusos. Que considerado inocente. Jó disse que o adultério era um
doutrina ou privilégio bíblico não tem sofrido abusos? crime horrendo, que devia ser punido por juízes.
O privilégio concedido pela famosa Quinta Emen- Moisés cria que havia partes inocentes, porque man-
da da Constituição dos Estados Unidos tem sido dava executar o culpado e libertar o inocente. O
muito abusado por pistoleiros e comunistas, mas não Espírito Santo afirmou que José era um "homem

116 117
justo" quando tencionava dissotv:r seu laço_ conj~~al mas quando uma parte errada comete adultério con-
com Maria, como os homens JUstos havtam fetto
tra outra parte errada. então o caso toma aspectos
durante séculos em Israel. depois que a pena de morte diferentes.
para o adultério foi abolida. Paulo cria que~os _crentes, Aqueles que perguntam ceticamente: "Quem é a
nos casos de divórcio examinados em 1 Cormttos 7.15, parte inocente?" podem ser juízes imparciais? Con-
eram partes inocentes. . . .. . cedamos a qualquer crente que se declarar inocente
Jesus também deve ter acreditado na extstencta de num caso de divórcio a chance de prová-lo. Não deve
inocentes, senão não teria apresentado a exceção do haver um "julgamento de preconceitos". "Acaso a
adultério. Certamente, ele não iria dar-nos uma lei nossa lei julga um homem sem primeiro ouvi-lo?" (Jo
impraticável. embora nem sempre seja fácil determi- 7.51.) Em nosso trabalho de aconselhamento matri-
nar quem é a parte inocente. . . . . monial, aconselhamos à parte ofendida perdoar o
Nos casos de divórcio nos tnbunats de justiça. a culpado e tentar refazer o relacionamento conjugal.

evidência a favor do mocente e• muttas
• •
vezes convin- Deus nos perdoa os pecados, e nós devemos perdoar
cente. E freqüentemente, ao contrário da prática aos outros. Mas quando o ofensor despreza todos os
comum, o tribunal concede a custódia dos filhos a_o oferecimentos de perdão e se casa com outrem, sera'
pai. E acontece muitas vezes que, em caso de ~ssasst­ que aquele que ofereceu o perdão não deve ser
nato por adultério, o tribunal liberta o assasstno ou considerado inocente?

assassma. Mas o ponto principal de toda a questão é saber Sl!
Será que os crentes que se declaram inocentes não a lei do divórcio formulada por C ris lo signUica disso-
têm o direito de serem ouvidos perante um tribunal lução; se assim for, então ele acreditava haver pessoas
imparcial de irmãos crentes? Paulo disse o seguinte à inocentes, pois não nos daria uma lei impraticável.
Igreja de Corinto:
Não sabeis que havemos de julgar os próprios
m{ios: ·quanto mais as causas desta vida? (1 Co
6. 3.)
Em tais casos. em que os crentes estão diretamente
interessados e sua comunhão com a igreja é afetada,
não podem eles apelar para o privilégio de Mateus
18. 17 e dizê-lo "à igreja"? O Espírito Santo dá sabe-
doria e discernimento ao corpo de Cristo para tais
casos (I Co 12.8-10).
Os pastores em geral, depois de um longo tempo
de convívio com seu povo, sabem que é a parte
inocente no divórcio, principalmente quando esta já
perdoou um cônjuge _adúltero várias~ v~ rias ve~es. e
decidiu manter a untào. Quando o conjuge adultero
rejeita todas as ofertas de perdão e resolve casar~se
com outro, então o caso é diferente. Nos problemas
matrimoniais quase sempre existe erro dos dois lados;

118 119
vimos que depois que uma mulher se divorciava,
ela poderia sair e "casar~se com outro homem". E
se ela se divorciasse do segundo, poderia casar-se
com um terceiro- sem ser considerada adúltera.
Deus referia-se ao primeiro e segundo maridos
como o "antigo marido". Se o divórcio não impli-
14 ca na dissolução do casamento como querem
nossos oponentes, então Deus aprovou uma uni-
ão adulterina e a ilegitimidade dos filhos nasci-
dos deste novo casamento. Mas, como é impossí-
vel crer que Deus permitisse o adultério, temos
que concluir, forçosamente, que o divórcio signifi-
Resumo das Evidências cava o rompimento total da união. Este fato
derruba o argumento de que somente a morte
pode dissolver completamente o casamento.
4. Cristo aprovou o divórcio judaico motivado por
1. Com o objetivo de expor a base histórica da ques· adultério. Ele disse: "Qualquer que repudiar sua
tão do divórcio, citamos nove das principais fon· mulher, exceto em caso de adultério ... " A palavra
tes de referências acerca da disputa Hillel-Sham- empregada no texto grego Iogas (causa) significa
mai. São as seguintes: Edersheim, Pulpit Com· "razão pela qual um ato pode ser realizado com
mentary, Hastings, Robertson, Jewish Encyclope- toda justica". Citamos as maiores autoridades no
dia. Lange, Vicent, Westermarck, autoridade da grego com relação a esta definição - Bengel,
Encyclopedia Britannica. A questão do divórcio Thayer, Moulton e Mulligan, Arndt e Gringrich,
envolvia uma disputa entre duas facções rivais, Westcott e Hort. O caso era questão de causa
assim como também era a questão do pagamento justa.
de tributo a César. Não era do propósito de Cristo Cristo não daria ao judeu -como de fato não
tomar partido nessas disputas; mas, ao responder deu - uma causa justa para divorciar-se de uma
às perguntas acerca do divórcio, do pagamento de esposa adúltera, para depois considerar errado
tributos, ele apoiou um ou outro lado, incidental- que ele se casasse de novo; ele não vinculou a
mente. penalidade vitalícia de "não se casar" à lei da
2. Citamos Edersheim, Terry e outros autores para justa causa.
demonstrar que o Velho Testamento contém a S. As multidões que ouviram o pronunciamento de
chave para a interpretação do Novo. Cristo acerca do divórcio não precisaram de ou-
3. Durante quatorze séculos, o divórcio, tanto para a tras explicações. As pessoas às vezes indagam:
nação judaica como para os gentios, tinha um "Por que Jesus não falou com maior clareza
único significado, o de dissolução, com o direito a acerca do divórcio e novo casamento?" Responde~
novo casamento. Um divórcio com valor apenas mos: entenda-se esta lei do divórcio do mesmo
de separação era desconhecido. Recorremos à modo que os judeus a entenderam, e o assunto
origem da questão em Deuteronômio 24.1 A. Ali ficará bem claro.

120 121
Nossos oponentes referem-se a Mateus 5.32 8. É distorção modificar o significado de um termo
como um "texto isolado", mas o fato é que ele foi bíblico dando~lhe um sentido que as Escrituras
pronunciado perante milhares de pessoas comuns não lhe dão.
e, pela lei das probabilidades, elas nunca mais o
ouviram falar sobre o assunto. E não haveria 9. Se Cristo deixou alguma dúvida acerca do que
necessidade disso. pois sua enunciação em Ma teus quis dizer com a palavra "repudiar", poderia ele
5.32 foi completa. Não foi deixada para que Paulo censurar aqueles que estão incertos quanto ao seu
a esclarecesse vinte e cinco anos depois. em significado? O Black's Law Dictionary é o "prin-
Romanos 7. O judeu que ouviu Cristo proferir cipal dicionário jurídico da nação". Muitas auto-
este texto isolado poderia ter se divorciado de ridades concordam com esta obra que diz: "As
uma esposa infiel, casado de novo, e morrido palavras com sentido duvidoso pesarão mais con-
antes que o Saulo, adversário de Cristo, se conver~ tra a parte que as emprega."
tesse. 10. Ao discutir a frase "exceto em caso ele adultério",
Cristo aprovou o divórcio judeu causado por provamos que o termo "exceto" significa "reti-
adultério. Se todos os que estão confusos acerca rar; excluir algo de uma enumeração, ou do todo
desta questão aceitassem este fato assim, veriam de uma afirmação ou promulgação. Com referên-
que não mais teriam um mistério para elucidar. cia a isso, citamos dicionários gregos e ingleses e
as mais elevadas fontes de referência que apresen-
6. O termo jurídico "repudiar" estava sendo usado tam centenas de citações demonstrando que a
havia quatorze séculos com um sentido gramatical palavra exceto é entendida nos tribunais com
e sempre com o mesmo significado de dissolução e esse sentido. Citamos o Prof. A. T. Robertson que
novo casamento. A carta de divórcio era chamada apóia o mesmo sentido do termo. Bengel, autori-
Termo de Rompimento. Citamos seis dicionários dade em grego. também foi lembrado.
hebraicos e concordâncias que apóiam totalmente Tanto o divórcio como o novo casamento são
esta definição. Os que ensinam a tese da indisso- exceções à lei que proíbe o repúdio. Quer a
lubilidade não fornecem nem ao menos uma para exceção esteja inserida no início, no meio ou no
apoiar sua idéia de que o divórcio significa apenas fim da cláusula, o significado dela continua inal-
separação. Não existe nenhuma obra que possa terado.
ser citada nesse sentido.
11. Provamos que o termo "fornicação" não designa
7. O termo grego que se traduz por divórcio é apenas o pecado pré-conjugal. Desde Agostinho
exatamente o mesmo empregado no Velho Testa- até a versão Amp/(lled New Testament, demons-
mento. Seu significado básico é "libertar". Cita- tramos que fornicação tem o mesmo sentido de
mos seis fontes de referências do grego que apói- impureza ou pecado sexual em geral. Para apoiar
am este sentido da palavra. Provamos, citando esta definição citamos vários dos principais dicio-
Moulton e Mulligan, que tal era seu sentido nos nários hebraicos e gregos, e citamos Moulton e
Papiros. Os outros não apresentam sequer um Mulligan para demonstrar que, nos papiros, o
dicionário grego para apoiar este significado de termo "fornicação" é empregado para designar
separação, pois não existe nenhum que possa ser "quaisquer relações sexuais ilícitas". Se há uma
citado. coisa que pode ser afirmada com certeza é a

122 123
linguagem dos papiros. Era propósito de Deus outro não apresenta. Se cada um deles desse todos
dar o Novo Testamento não somente ao povo que os detalhes dos outros, não haveria necessidade de
• •
viveu no primeiro século, mas também a todas as ex1st1rem os quatro.
gerações futuras. E quando ele fosse transmitido Edersheim, Vincent, Alford e vários outros
aos futuros povos do mundo seria com o sentido teólogos concordam em que "os três Evangelhos
original natural do mundo mediterrâneo, onde ele sinóticos devem ser considerados em conjunto .

surgtu. Ver-se-á então que somente assim podem ser
Fornecemos várias referências do Velho Tes- compreendidos." "Uma exceção encontrada num
tamento para provar que o termo fornicação era relato mais amplo deve ser aplicada ao mais
aplicado aos pecados sexuais das pessoas casadas. curto." "Os parágrafos que contêm matéria
Inúmeras referências foram apresentadas, tam- peculiar a Mateus são em número de nada me-
bém. dos apócrifos judeus e da literatura cristã nos que sessenta e dois." Mateus apresenta
mais antiga, e muitas traduções, versões e revi- "grandes segmentos de matéria" que são peculia-
sões. além de vários dicionários de nossa língua e res ao seu livro. "Mateus faz relatos mais comple-
dicionários bíblicos, acompanhados de referências tos." "Ma teus ocupa o mais elevado nível de
do Novo Testamento. Não existe uma única prova narrativa." O leitor poderá verificar isso no con-
que apóie o ensino de que fornicação refere-se ao fronto que fizemos dos relatos paralelos de Ma-
pecado pré-conjugal somente. teus e Marcos.
Como estávamos interpretando uma lei. de-
12. Todas as tentativas para se provar que as exceções monstrando a partir d'ê autoridades em leis que
de adultério não são genuínas falharam. Citamos uma regra semelhante é aplicada nos tribunais.
a Encyclopedia Catholica que afirma: "As pala- "Interpretar e conciliar as leis de maneira que
vras ("exceto em caso de adultério") são, em elas se harmonizem, é o melhor método de racio-
geral. comprovadas pelos mais fidedignos códi- cínio." "É preciso obter do todo um sentido
ces". O registro de Ma teus apóia-se na autoridade uniforme e consistente." Se este princípio não for
elos mais antigos manuscritos. aplicado à interpretação das Escrituras, como
Todos os comitês de revisão mantiveram as responderemos aos críticos que indagam: "A
exceções. Quando os revisores ingleses e america- Bíblia se contradiz?"
nos tiveram que encarar a questão, confirmaram
a tradução de 1611. e conservaram as exceções de 14. Nossos oponentes perguntam: "Como é que tudo
Mateus nos dois versos. Alguns dos teólogos que que Jesus ensinou acerca do casamento pode ser
negam a autenticidade das exceções reconhecem modificado por cinco palavras (exceto em caso
que, se elas fossem genuínas, não haveria "nenhu- de adultério)?" E nós respondemos: como é que
ma dúvida de que o divórcio concede ao interessa- tudo que Jesus ensinou acerca do casamento pode
do a permissão de contrair novo matrimônio". Os ser modificado para permitir a separação?
textos de Westcott e Hort contêm as exceções de Cinco palavras podem modificar outras mil.
Mateus nos dois lugares. Elas podem modificar- e modificam- todo um
13. Não existe nenhuma contradição nos Evangelhos parágrafo ou capítulo de uma lei ou documento.
simplesmente porque apenas Mateus apresenta as Todo um conceito de lei pode ser baseado em
exceções. Um Evangelho contém detalhes que o quatro ou cinco palavras. tais como: exceto em

124 125
caso de adultério, Não matarás, Não furtarás. 17. Jesus não deixaria incompleta sua regulamentação
Não adulterarás, Não cobiçarás. do casamento para ser esclarecida pelo apóstolo
1:;. Quando Cristo debateu com os fariseus a questão Paulo vinte e cinco anos depois. em Romanos
do divórcio em Mateus 19, ele respondeu à per- 7.1-.l.
gunta· teste deles acerca da legitimidade do divór- 18. O divórcio por adultério não está em jogo no texto
cio. A questão em foco era a lei mosaica preceden- de Romanos 7.1-3. Os romanos. a quem Paulo
te. Cristo não negou a validade da dissolução escrevia. conheciam a lei que prescrevia que
proposta pelo preceito deuteronômico, mas res- quando um judeu se divorciava da esposa, ela
tringiu-o a apenas um motivo. Ele era lícito por poderia tornar-se a esposa de outro homem, sem
qualquer motivo: agora era lícito apenas por um ser tachada de adúltera. O Dr. Edersheim escre-
motivo. veu o seguinte: "Os judeus crêem que uma mulher
16. Jesus levou os inquiridores de volta ao preceito somente pode 'separar-se do marido' por dois
original do casamento e demonstrou o propósito motivos: morte ou carta de divórcio: daí o texto de
original do Criador de serem os dois uma só carne Romanos 7.2,.1." Quer ela fosse libertada pela
no casamento. Mas não vemos casos de adultério morte. quer o fosse pelo divórcio, o casamento
no princípio. Adào não era adúltero: tampouco o estaria invalidado e sem efeito, "morto".
era Eva. O que Cristo falou aos fariseus acerca do 19. Jesus não disse nada contra a pena de morte
casamento no princípio foi em resposta à sua para o adultério. E quando a catia de divórcio
indagação da legitimidade do divórcio "por qual- substituiu a pena de morte, tambérn não disse
quer motivo'', e não se aplica ao divórcio motivado nada contrário a isso. É verdade que no início não
por ad ui tério. havia divórcio. Mas é verdade também que na
Jesus e os teólogos judeus estavam discutindo época do Gênesis os homens executavam as espo-
um casamento dissolvido pelo divórcio e não pela sas adúlteras. Não havia necessidade de divórcio,
morte. já que elas morriam. O divórcio foi uma medida
Nesta passagem de Mateus 19.3-9, o termo de misericórdia. A lei de Cristo manteve o direito
"repudiar" foi empregado quatro vezes: duas de "eliminar o mar·.
pelos fariseus e duas por Jesus. Para as autorida-
des jurídicas e bíblicas é fundamental a uma 20. A carta de divórcio mosaica era o termo de
interpretação correta a aplicação da regra que diz divórcio oficial da nação. Homens "justos", como
que "cada palavra podé ter apenas um significado José. a haviam utilizado durante séculos para
dentro do mesmo contexto". Algumas doutrinas dissolver seu casamento com mulheres adúlteras.
falsas são conseqüências da violação desse regra. tanto na época do noivado como depois de consu-
No verso 9 desta passagem, Jesus permitiu o mado o casamento. Jesus nada disse contra esta
divórcio. que no verso 3 ele declara não existir prática. Qualquer judeu poderia lançar mão da
desde o princípio. Isso prova que o adultério era carta de divórcio para separar-se de uma esposa
uma exceção para tudo que ele ensinou com intiel. e depois casar-se de novo, e ainda ser um
relação ao casamento. "Exceto" significa "excluir homem justo.
algo do todo de um pronunciamento" -"Excluir 21. Apresentamos fortes provas técnicas para de-
parte de uma enumeração em consideração". monstrar que o termo '"separar'" de 1 Coríntios

126 127
7.10, 11 e 15 designava o div6rcio obtido nos muçulmano se torna cristão e o cônjuge incrédulo
tribunais gregos. Aos crentes dos versos 10 e 11 se divorcia dele por causa de sua fé em Cristo.
era ordenado que não se divorciassem dos seus Para evitar o divórcio, o crente teria que renunciar
cônjuges: se o fizessem, deviam permanecer "sem a Cristo.
casar" ou então deviam "reconciliar-se", pois não
tinha havido uma causa justa para o divórcio, e 22. Nos casos em que há bases legítimas para a ação
este não dissolvia o matrimônio, à vista de Deus. de divórcio, o casamento está dissolvido para as
Mas a expressão "que não se case" prova que ele duas partes. Não percebi isso senão depois que me
fora dissolvido legalmente, e era assim reconheci- foi' mostrado pelo Sr. Elmer Miller, o advogado de
do pelos tribunais gregos. Nova York a quem já fiz referência. Ele efetuou
Mas no caso de divórcio apresentado pelo um estudo da questão do divórcio. e concluiu que
verso 15, onde o incrédulo se divorciava do crente, o divórcio por adultério liberta as duas partes. Ele
a situação era diferente. Aqui Paulo não ordenava próprio só compreendeu isso quando fez este
ao crente que permanecesse sem casar-se, ou que estudo. Percebi a lógica do fato imediatamente. O
se reconciliasse. O crente não ficava "sujeito à divórcio não poderia dissolver a união para uma
servidão" com relação ao casamento. O Senhor pessoa sem dissolvê-lo para a outra. Mas a parte
reconhecia a validade do divórcio grego nestes culpada. perante Deus, leva a culpa pela dissolu-
casos, como aceitara a validade do mosaico, quan- ção do matrimônio.
do motivado por adultério. Em 1 Coríntios 7.1~. a
dissolução está decisivamente expressa no termo 23. No verso 27. Paulo menciona aqueles que se
"não tica sujeito à servidão". libertaram do casamento pelo divórcio. Citamos
as autoridades principais, para apoiar este fato, e
A lei grega prescrevia o mesmo rompimento
qualquer fato tem a força das evidências sobre as
do laço matrimonial que a judaica. Citamos os
quais ele é estabelecido. Paulo disse então àqueles
principais dicionários gregos para demonstrar
que haviam sido libertos Uusis) do casamento pelo
isso. '"Não tica sujeito à servidão'" significa que a
divórcio: "Mas, se te casares, com isto não pe-
parte divorciada não estava mais presa au casa-
cas ... " Pessoas que não estava "sujeitas" à lei do
mento, como um escravo. Esta tese é sustentada
por referências em textos de Thayer, Arndt, casamento, achavam-se libertas dela. Um escravo
livre não se achava mais em servidão para com
Gingrich. Vine. Abott Smith, Westcott e Hort.
seu antigo amo.
A expressão "que não se case" do verso 11 não
é repetida no verso 15, e aquilo que não é 24. Alguns dos oponentes alegam que não há apoio
espec(licado não é exigido. Para esta tese. damos entre os Pais da Igreja para com a tese da dissolu-
outros testemunhos de Vicent. Grotius, comen- ção do casamento, mas nós provamos a falsidade
tadores e reformadores dos séculos XVI e XVII. o dessa asserção citando Agostinho. Orígenes, Eu-
Pulpit Commentary, Hastings, Alford, Lightfoot. sébio, Polêncio, Ambrósio e Latânzio. Também
Matthew Henry. Expositor"s Greek Testament, os citamos Lutero, Calvino, Melanchton, Wesley e
Pais da Igreja. Lutero. o Arcebispo da Cantuária Spurgeon. E entre Agostinho e Spurgeon existem
e as versões de Moffat c Wuest. muitos outros. Citamos Hastings, Jamieson,
O problema suscitado pelo versiculo 15 ainda Faussett e Brown, Encyclopedia Britannica e
é o mesmo hoje, como quando um judeu ou McCiintock e Strong. A Igreja oriental consisten-

128 129
temente via no adultério uma causa lícita para o
divórcio e novo casamento. Citamos que " ... no cria que os crentes abandonados por cônjuges
Concílio de Trento a Igreja de Roma evitou con~ incrédulos eram inocentes em questões de divór~
denar a posição da Igreja Oriental nesta questão". cio. Evidentemente, as pessoas estavam plena~

25. Em nossas réplicas às objeções, observamos que


.
mente satisf'eitas com o casamento até que o
. . . ~

conJuge se convertw e se tornava cnstao, e por


uma das principais objeções é a do verso de Mala· essa causa se divorciavam. Os tribunais não acei~
guias, onde Deus diz: "que odeia o repúdio". Mas tam a tese de que não existem pessoas inocentes
demonstramos pelo texto e contexto que Deus em casos de casamento desfeito. Em muitos casos,
falava aqui dos judeus que se divorciavam da há erro em ambas as partes; mas quando ocorre
esposa deslealmente. O divórcio por adultério não que uma parte errada comete adultério contra
se acha em consideração nesta passagem. Nunca outra parte errada, o caso toma aspectos diferen~
conheci um só oponente que citasse este texto de tes.
maneira justa. Não é deslealdade divorciar~se de
uma esposa adó1tera, ou uma mulher divorciar-se 29. A tese de divórcio sem novo casamento é apenas
de um marido adóltero. uma evasão do problema. Não existe nenhuma
26. Alguns argumentam contrariamente ao divórcio prova que ap6ie a tese da indissolubilidade. Está
citando 1 Timóteo 3.2: "É necessário, portanto, carregada de pressuposições e não subsiste quan-
que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só do confrontada com o teste dos fatos comprova~
mulher." Demonstramos também que este texto dos. Ela evita uma contestação lógica. Nao existe
proibia a bigamia. Apresentamos várias citações nela nada que constitua uma base de prova. Ela
do Expositor's Greek Testament para mostrar quebra todas as boas regras de interpretação, e, se
que na Igreja primitiva este texto era interpretado o mesmo método fosse aplicado a outras doutri-
como uma referência à bigamia, e que esta tese nas, poder-se~ia fazer com que a Bíblia tomasse
ainda predomina entre os teólogos conservadores. qualquer significado.
É, além do mais, uma doutrina incoerente.
27. Outra objeção está baseada em Jeremias 3.14: Algumas denominações que esposam esta idéia
"Convertei·vos. 6 tilhos rebeldes, diz o Senhor; não permitem que seus pastores celebrem o casa~
porque eu sou o vosso esposo.'' O restante do livro menta de pessoas divorciadas, mas as recebem no
de Jeremias mostra que, como aqueles judeus seu rol de membros, se um pastor de outra
transgressores da aliança de Deus não voltaram denominação oticiar a cerimônia.
para Jeová, ele os entregou ao cativeiro e à morte. Os pastores dessas denominações estão proibi-
' dos de celebrar casamentos de "quaisquer pessoas
28 A pergunta: "Quem é a parte inocente?" respon~ que tenham um cônjuge ainda vivo". Eis uma
demos com várias referências nos dois testamen~ ilustração disso. Acontece, muitas vezes, que um
tos para indicar quem Deus considerava inocente homem ou mulher mata um cônjuge adúltero.
num casamento maculado pelo adultério. As pes- Levado ao julgamento. eles apelam para a lei não
soas adúlteras eram condenadas à morte pela lei escrita, e os doze jurados o libertam, de modo que
de Moisés. Homens "justos" faziam uso da carta pode casar-se com outra pessoa. Estes pastores,
de divórcio para dis~olver um casamento com então, podem celebrar o novo casamento destes
uma esposa adúltera. Em I Coríntios 7.15, Paulo assassinos. pois quando fazem a pergunta de

130 131
praxe: .. Você ainda tem um antigo cônjuge vivo?" 3. Na questão do divórcio, abordada em 1
eles podem responder: "Não'" Mas quando apa- Coríntios 7.11. Paulo disse à mulher divor-
nharam o cônjuge no ato de adultério. se houves· ciada "que não se case".
sem se divorciado dele. ao invés de matá·lo. não Possuímos muitas provas para demonstrar
teriam direito de se casarem de novo- pois ainda que todos os três pontos são distorções de versos.
tinham um cônjuge vivo. Em Mateus 5.32, 19.9 e 1 Coríntios, damos três
exceções para estas três passagens apontadas por
30. O leitor deve estar familiarizado com o que se nossos oponentes, e estes são os argumentos mais
chama, na lei civil de Lei da Dúvida Plausível. fOrtes que eles possuem. Enfatizam a lei geral do
Uma dúvida plausível não é especulação. Ela casamento. mas ignoram as exceções à lei geral.
apresenta uma base plausível para a incerteza. A prova da culpa também deve ser bem
Pode haver fatos numa evidência que se não convincente de forma a não deixar a mínima
forem refutados, poderão levar pessoas de racio· dúvida. Nossos irmãos e irmãs inocentes que se
cínio justo a recusar· se a condenar um acusado. A divorciaram foram julgados e condenados por
ausência de provas suficientes constitui·se uma esta tese da indissolubilidade, que não tem o
base para incertezas. e estas incertezas farão com menor vestígio de verdade; são considerados cri·
que pessoas mais justas venham a hesitar. "Uma ruinosos morais, e seus filhos, ilegítimos. por uma
dúvida plausível é aquela para a qual se pode doutrina de indissolubilidade que nunca foi real·
apresentar uma razão." mente comprovada.
A tese da indissolubilidade deve ser rejeitada, Peço ao leitor que examine as evidências e
não somente por insuficiência de provas, mas analise os fatos. "Um fato do qual se pode
também pela total ausência delas. Poderia o retirar uma inferência consltui·se uma evidência."
leitor, após examinar as evidências, acusar de Removamos, então, o estigma da crueldade e da
adultério a parte comprovadamente inocente que desgraça que muitos de nossos irmãos e irmãs
se casa de novo- sem ter uma certa dúvida? suportam por causa deste ensino não bíblico.
Através dos séculos, a Igreja Católica tem sido Muitos líderes e pastores denominacionais permi·
o principal defensor desta ideologia contrária ao tem que os divorciados sejam recebidos no rol de
novo casamento. Mas para atingir seus objetivos suas igrejas. mas não os defendem contra a sutil
de chegar ao ecumenismo, eles têm feito modifi· acusação de adultério que continuamente paira
cações surpreendentes. É bem provável que modi· sobre eles. Será que não deveríamos agir para
fiquem também a tese da indissolução. Sempre com eles como gostaríamos que agissem conosco,
adotaram várias exceções a esta regra. se nossas posições estivessem invertidas? Que
Após muito estudo dos autores favoráveis à Deus nos livre de "pecar pela omissão do silên·
indissolubilidade, posso resumir seus argumentos . "
ClO .
em três pontos: Existem outros problemas e questões acerca
1. Jesus disse: "Não foi assim desde o princí- do divórcio além dos que abordamos, mas exami·
pio" (Mt 19.8). namos o assunto apenas até onde encontramos
2. Paulo disse: "Ora. a mulher casada está bases escriturísticas e provas para fazê·lo. Exis·
ligada pela lei ao marido, enquarlto ele tem certos casos de divórcio de que não podemos
vive." (Rm 7.2.) tratar por não se enquadrarem nas exceções de

132 133
Mateus 5.32; 19.9, e 1 Corintios 7.15. Muitas
vezes. as pessoas nos dirigem perguntas acerca de
casos de divórcio que não podemos responder.
E_st; li_vro não pretende abordar todos os tipos de
dtvorc10, mas apenas as exceções que Jesus e
Paulo apresentaram. Além desses limites não
podemos passar.
Nossa tese baseia-se nas evidências apresenta-
das. O divórcio bíblico implica na dissolução do Apêndice
laço matrimonial. Vamos encerrar como começa-
mos, citando a frase do notável Bentham:
"A evidência é a base da justiça."

Oito Regras de Interpretação


Apresentaremos estas regras de forma resumida
para que o leitor possa tê·Ias todas juntas. Elas
constituem o centro de toda interpretação gramaticaL
Foram formuladas por especialistas da "ciência do
significado" durante 2.500 anos; de Sócrates até os
dias atuais. t impossivel efetuar-se uma análise crítica
sem elas. Os doutores em interpretação as adotam.
Jesus e os apóstolos empregaram estas regras. e
também muitos dos mais proeminentes Pais da Igreja,
bem como os principais teólogos da Idade Média, até
Lutero, Wesley, Calvino, embora alguns deles não
tenham sido persistentes no uso delas.
Quando os imperadores Constantino e Justiniano
tentaram resolver as disputas doutrinárias de seu
tempo. descobriram que as "guerras de palavras" dos
teólogos eram extremamente difíceis de enfrentar,
pois cada um daqueles "guerreiros" estava decidido a
fazer as palavras tomarem o sentido que eles deseja-
vam.
Isto se aplica também à confusa massa de caos
doutrinário do cristianismo atual. Todas essas falsas
doutrinas. ou quase todas. resultam de distorções de
termos bíblicos. "O Concílio de Trento evitou uma
definição clara de termos."
"Deus não é de confusão." (I Co 14.33.) Quem,

134 135
então, é o autor desta confusão acerca dos textos de AQUI
-
ESTAO AS OITO REGRAS:
divórcio que já dura séculos? Quem são os autores de
todas as confusões doutrinárias acerca de outros I. R eRra de Dt~/iui('àO de Termos
textos?
A Bíblia é um documento jurídico e por toda ela Qualquer estudo das Escrituras ... deve iniciar-se
encontr~mos termos e ilustrações de cunho jurídico, com um estudo de seus termos. (Protes/l.mt Bih!ical
aos quats se confere enorme importância. A palavra lnterpretation.) Defina-se bem os termos, e depois
Testamento é um termo jurídico, e centenas de vezes atenha·se aos termos definidos. (The Stmcturul
Deus se refere aos seus mandamentos como sendo leis. Principies f?( the Bihle.)
Por que, então, nossa interpretação deve ser tachada Em última análise. nossa teologia encontra funda·
de "legalística", sabendo-se que os autores bíblicos mcnto sólido somente no sentido gramatical das
emp~ega~am nela o linguajar jurídico do mundo Escrituras. O intérprete deve observar conscienci-
medlterraneo? osamente o sentido claro das palavras. (Principies
_O apóstolo Pedro escreveu: "Temos assim tanto q(Biblica/lnterpretation.) Os autores bíblicos não
mats confirmada a palavra profética ... " e disse tam- poderiam cunhar palavras novas, já que elas não
bém_: "Nenhuma profecia da Escritura provém de seriam entendidas pelos leitores. e. portanto, tive-
particular elucidação." (2 Pe 1.19,20.) Nunca Podemos ram que empregar os termos que se achavam em
ter uma definição segura do significado das Escrituras uso na linguagem corrente. O conteúdo do signifi-
ou de qualquer outra obra, a menos que tenhamos um cado destas palavras não é determinado pelos
método certo para interpretar as suas palavras. Lem- intérpretes, individualmente. Isto seria um método
bremo-nos sempre de que Satanás enganou a Eva com de interpretação dos mais errados. (Studies in the
palavras. Vocabulal1' . o(
. rhe Greek New Tcstament.) (Q
. Quando dois intérpretes apresentam dois sentidos autor) limita as definições estritamente à sua força
dtversos para um mesmo texto, deve-se aceitar aquele literal ou idiomática; o que, no final das contas,
que melhor se harmonizar com todos os aspectos do constituiria a melhor. se não n única, base sólida e
ca~o. Quando tod?s os fatos de uma interpretação segura para deduções teológicas de qualquer tipo.
estiverem em perfetto acordo entre si, eles apresentam (Y ouug ·s A na lvtica/ Coucordancc.)
um _todo harmônico, como as notas de um acorde
mustcal.
2. R egru do Uso
A interpretação bíblica não implica apenas em
conhecer um conJunto de regras, mas ela não pode A bíblia toda deve ser considerada como tendo
subsistir sem ~s regras. Portanto, aprendamos as sido escrita "primeiro. para o judeu", e seus
regras. e as aphquemos de maneira correta e assim termos e expressões devem ser interpretados de
poderemos desconsiderar o que disse JerÔnimo 0 acordo com o emprego feito pelos hebreus. (Syno·
sábio padre latino da Idade Média: "Que tolas sã~ as nims qf the 0/d TPstament.)
pessoas! Todas pensam que sabem interpretar a B'1- Cristo. então, empregou as palavras com o sentido
blia ... que encontrou em uso. Ele não as alterou. (Pulpit
Salomão disse: Com men tary.)
Ouça o sábio e cresça em prudência ... para enten- Jesus de Nazaré era judeu: falou aos judeus da
der provérbios e parábolas. (Pv 1.5,6.) Palestina: viveu entre eles. Falou primeiramente e

136 137
pouco de conhecimento da vida e sociedade dos
diretamente aos judeus, e suas palavras devem ter judeus daquela época é necessário para um bo~
sido inteligíveis aos ouvidos deles. Era absoluta- entendimento da história do evangelho. IThe Ltfe
mente necessário entender sua vida e ensino dentro and Times ofJesus the Messiah.)
do círculo do lugar, sociedade e vida popular. Isto No momento em que o estudante consegue captar
seria não apenas a moldura no centro da qual mentalmente aquilo que o autor ou a~t?res dos
colocaríamos o retrato de Cristo, mas também o livros bíblicos tinham em mente, ele tera mterpre-
próprio pano de fundo desse retrato. (The L{f"e and
Times of"Jesus the Messiah.)
tado o pensamento das Escr}tu~as. s: el,e ~cres~en­
tar qualquer coisa de seu propr1o raciOC!tllO, det~a­
Na interpretação de muitas frases e histórias do rá de ser exegese. {/nternational Standard Bihle
Novo Testamento, não tem muito valor o que Encyc/opedia.)
pensamos delas. por nossas próprias noções, mas A interpretação teológica nunca pode separar-se da
sim o sentido que aquelas coisas tinham para os investigação histórica ... Um sério escrutínio ~ist~­
ouvintes e espectadores, segundo o costume geral e rico é disciplina indispensável a tOOa ,teolog1~ bt-
o idioma popular da nação. (Bispo Ligh(f'oot, blica. IA Theo/ogical Word Book of the Btble.)
citado em The Vocabu!my of the Greek New Já argumentei muito para demonstrar o papel que
Testament.)
0 estudo da História forçosamente tem num estudo
inteligente da lei como é hoje ... Nosso único motiv_o
3. Regra do Contexto de interessar-nos pelo passado reside no esclareci-
Muitas passagens das Escrituras não poderão mento que ele proporciona ao conheci~ento do
absolutamente ser compreendidas sem o apoio do presente. (Oliver Wendcll Hol.mes Jr:, Jutz da Su-
contexto, pois muitas sentenças retiram toda a sua prema Corte dos Estados Untdos, cttado em The
força e argumentação do contexto no qual se World '!f" the Law.)
situam. (Biblica/ Hermeneutics, de Terry.) Os ter-
mos bíblicos devem ser interpretados de acordo S. A Regra da Lógica
com as exigências do contexto. (Thayer"s Greek
English Lexicon; of the New TestamentJ A interpretação é meramente um raciocínio lógico.
Cada palavra que lemos deve ser interpretada à (Encvclopedia Americana.)
luz das palavras que a precedem ou a seguem. Dev~mos empregar o raciocínio na interpretação
(How to Make Sense.) (Termos bíblicos) quando das Escrituras - isto está amplamente demons-
retirados do contexto podem provar quase qual- trado. A Bíblia chega até nós sob a forma de
quer coisa. (Alguns intérpretes) torcem o sentido linguagem humana, e ela apela à n~ssa razão ...
natural dando-lhes um sentido forçado. Orineu. convida à investigação, e deve ser mterpretada
Pai da Igreja, do século 11, citado em lnspiration como interpretamos qualquer outro livro. com uma
and I nterpretation.) aplicação séria das mesmas leis de linguagem ~ a
O sentido deve ser fornecido pelo contexto. (Enc.v- mesma análise gramatical. (Bib/ical Hermeneut~cs,
c/opedia B ritannica.) Terry.) Qual é o critério que usamos para ,dest~u!r. a
falsa especulação teológica? Certamente e o cnteno
4. Regra do Cenário Histórico da lógica e da evidência ... os intérpretes que não
passaram pela depuradora experiência da lógica ...
Mesmo o leitor comum deve estar ciente de que um

139
138
talvez tenham formado noções inexatas de impli- primeira coisa que ele (o juiz) faz é comparar o caso
cações e evidências. Freqüentemente tais pessoas que se encontra diante dele com os precedent:s ...
empregam uma base de raciocínio que constitui Nos casos precedentes encontram-se os conceltos
• • •
uma clara violação das leis da lógica e da evidência. básicos que constituem os postulados do racwcmiO
(Protestanr B iblical I nterpretation.) jurídico. e também os hábitos de vida, instituições
Um dos princípios de lei mais firmemente estabele- da sociedade, nas quais estes conceitos tiveram sua
cidos na Inglaterra e nos Estados Unidos é "a lei origem ... Os precedentes cobrem terreno ta o am-
significa exatamente aquilo que diz, deve ser inter- pio. que estabelecem um ponto de partida para _o
pretada e observada exatamente como está escri- trabalho do juiz. Quase invariavelmente. seu prt-
ta." Este princípio aplica-se tanto à interpretação meiro passo é examiná-los e compará-los. Trata-se
da lei como à da Bíblia. (The lmportance and de um processo de busca. comparação, ou pouco
V alue of'Proper Bible Study.l mais que isso. (Benjamim Cardozo, Juiz da Supre-
ma Corte dos Estados Unidos- The Nature (~r the
Carlos Finney, advogado e teólogo, é por muitos Judicial Process, citado em The World (~(thc Law.)
considerado o maior teólogo e mais bem sucedido
avivalista, depois dos tempos apostólicos. Muitas ve- 7. Regra da Unidade
zes ele se viu em sérios conflitos com os teólogos de
É essencial a uma boa interpretação das Escrituras
seus dias, pois estes não observavam as regras de
que as partes de um documento ou instrumento
interpretação. Finney disse que interpretava as passa-
sejam formuladas com base no significado do todo.
gens bíbllcas do mesmo modo como "interpretava a
(Dean A bott- Commentan on Muthew.) Quando
mesma passagem ou uma semelhante num compêndio
de leis ... !Autobiografia.) uma transação é efetuad~ por meio de vários
documentos de modo que, reunidos, formem parte
Finney enfatizava a necessidade de definições e
de um todo único, estes documentos são considera-
lógica na Teologia, e disse que a Bíblia deve ser com-
dos como sendo um só. (Eles devem ser lidos)
preendida através de "princípios justos de interpre-
tação como os que seriam reconhecidos numa corte de obedecendo-se a uma interpretação que os torne
justiça." (Teologia Sistemática.) mais consistentes. (fnterpretation of Documents.)

8. Regra da Inferência
6. Regra do Precedente
Na lei das evidências. uma inferência é um fato
Não devemos contrariar um uso estabelecido de racionalmente deduzido de outro fato. É uma con-
uma palavra. usando outra interpretação para a seqüência lógica. É um processo de raciocínio. É
qual não há precedente (The Greek New Testa- tirar uma conclusão de um fato ou premissa esta-
ment for English Readers). belecidos. f: a dedução de uma proposição, a
A habilidade protissional dos advogados em deba- partir de outra. É uma conclusão retirada de evi-
ter uma questão de lei, e dos juízes ao decidi-la. dências. Um fato ou proposição inferida, embora
portanto. ocupa-se principalmente com um estudo não tenha sido apresentada expressamente. é sufi-
crítico dos casos antecedentes, a fim de determinar ciente para ter força de lei. Este princípio é adotado
se o caso anterior apoiava realmente uma doutrina pelas cortes de justiça. (Jesus provou a ressurreição
indicada. (/ntroduction to the Study of Law.) A dos mortos para os incrédulos saduceus, fazendo

140 141
uma aplicação desta regra. (Mt 22.31,32.) (Ency-
clopedia Bn'tannica e Back's Law Dictionary.)
A proposição de um fato é provada quando sua
veracidade é estabelecida por evidências legais e
satisfatórias. Por evidência legal entende-se a evi-
dência admitida pelo fato a ser comprovado. Por
evidência satisfatória entende-se o volume de pro-
vas que comumente satisfazem plenamente uma
pessoa com isenção de mente. Os fatos das Escri-
turas ficam, portanto, provados quando são esta-
belecidos por um tipo e grau de evidências que nos
O Autor
casos normais da vida satisfariam a mente e a cons-
ciência de um homem comum. Quando estamos de
posse deste tipo e grau de evidência é absurdo
exigir-se mais. (Teologia Sistemática, de Strong.)
O Rev. Guy Duty nasceu em Alexandria, Virgínia, a
Seria fácil citar muitas outras autoridades bíblicas 10 de março de 1907. Foi ordenado pastor em 1931, e
e jurídicas na questão da interpretação e evidências, tem exercido seu ministério pastoral e magistério nos
mas isso implicaria em repetições desnecessárias. estados de Virgínia, Carolina do Norte. Maryland.
Nova Jersey e Nova York. Seu trabalho tem encontra-
do ampla aceitação em igrejas de várias denomina-
-
çoes.
O Rev. Duty tem dedicado a vida ao estudo da Bíblia e
ciências correlatas. Seus escritos se caracterizam pela
clareza de um professor habilidoso, pela meticulosi-
dade de um advogado e a visão de um profeta.

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