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HENRI MICHEL

OS FASCISMOS
Traduzido do francês por Álvaro de Figueiredo

PUBLICAÇÕES DOM QUIXOTE

LISBOA
1977
FICHA:

1977, Presses Universitaires de France, Paris.

Título original: Les Fascismes.

Editor original: Presses Universitaires de France.

Tradutor: Álvaro de Figueiredo

Capa e orientação gráfica: Fernando Felgueiras.

Edição: 59 Q 536

Todos os direitos para Portugal reservados por Publicações Dom Quixote, Rua Luciano Cordeiro, 119 - Lisboa
Composto e impresso em Editorial Império Lda., - Outubro de 1977
INDICE
PREFÁCIO ................................................................................................................................................................... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ...9

I -Que é o fascismo? ......................................................................................... ... ... ... ... ... ... ...13
As rejeições do fascismo .............................................................................................................................................13
As afirmações do fascismo ..................................................................................................................... ... ... ... ... ... 15
Antecedentes e génese do fascismo .................................................................................................................... ... ... 20
Fascismo e reacção .....................................................................................................................................................24
Fascismo e bolchevismo, ........................................................................................................................ ... ... ... ... ... 27
A evolução do fascismo ..................................................................................................................... .... ... ... ... ... ... 30
Os fascismos ........................................................................................................................... ... ... ... ... ... ... ... ... ...32

II - O fascismo italiano ....................................................................................................................... ... ... ... ... ... ...35

Antecedentes e advento .......................................................................................................................... ... ... ... ... ... 37


Benito Mussolini ....................................................................................................................... ... ... ... ... ... ... ... ....41
A evolução do fascismo ..................................................................................................................... ... ... ... ... ....43
O fascismo e a sociedade italiana ................................................................................................................... ... ... ....48

III - O nacional-socialismo ............................................................................................................ .. ... ... ... ... ... ....57


O advento do nazismo .................................................................................................................................................59
Adolfo Hitler ........................................................................................................................................ ... ... ... ... ....62
O partido nacional-socialista .......................................................................................................................................65
As SS .........................................................................................................................................................................70
O Estado nacional-socialista .......................................................................................................................................74
O nacional-socialismo e a sociedade alemã..................................................................................................................76
A “cultura” nacional-socialista ....................................................................................................................................82
O racismo hitleriano ...................................................................................................................................................87
O espaço vital ...........................................................................................................................................................90
IV -Os fascismos franceses ..........................................................................................................................................95

Os
antecedentes.....................................................................................................................................................................................................9
6
As ligas e a tentação do
fascismo........................................................................................................................................................................99
A colaboração ou a fascinação do
nazismo......................................................................................................................................................103
Vichy ou a reacção triunfante e fascizante
.....................................................................................................................................................110

V -A Europa fascista
..........................................................................................................................................................................................115

Os fascismos
clericais........................................................................................................................................................................................116
Falangismo e caudilhismo espanhóis
..............................................................................................................................................................119
As ditaduras militares fascizantes
...................................................................................................................................................................121
Hitler e o fascismo europeu
.............................................................................................................................................................................124
A fascização da europa
ocidental.....................................................................................................................................................................125 Os fascismos da
europa central ......................................................................................................................................................................129

VI -O fascismo fora da Europa


.......................................................................................................................................................................135

O fascismo japonês
...........................................................................................................................................................................................135
O fascismo sul-amerícano
................................................................................................................................................................................138
África: nasserismo e «apartheid»
...................................................................................................................................................................141
Os Estados Unidos e o fascismo
......................................................................................................................................................................144

VII - Tentativa de explicação


...........................................................................................................................................................................147
Fascismo e capitalismo
.....................................................................................................................................................................................150
Algumas observações
.......................................................................................................................................................................................155

Bibliografia sumária
.........................................................................................................................................................................................159

PREFÁCIO

Quando Valéry Giscard d'Estaing foi à Argélia, uma juvenil «cooperante» disse na televisão
francesa que «não iria ouvir esse fascista».Falando a uma Assembleia parlamentar, Poniatowski
disse que os comunistas eram «fascizantes». Os comunistas, por sua vez, dizem que certos
esquerdistas são fascistas; ao mesmo tempo que os Chineses, alvo da mesma injúria por parte dos
Soviéticos, lhes devolvem imediatamente o epíteto. Na Enciclopédia Soviética, o general De Gaulle
foi durante muito tempo considerado «general fascista.». Atingiu-se o cume da confusão na
Primavera de 1968, com o estribilho CRS = SS, que irritava e ofendia tanto os polícias franceses
como os homens que tinham estado na Resisttência. Hoje em dia, boa parte da juventude considera
fascista qualquer manifestação de autoridade, venha ela do pai, do professor ou do patrão. Pode
avaliar-se assim a profundidade e a amplitude do sulco que o fascismo gravou na consciência
colectiva; nos nossos dias e numa palavra, cada um é o fascista de outro. É verdade que os crimes
abomináveis dos nazis explicam esta condenação geral.
Mas o fascismo abrange mais de vinte anos da história da Europa. Foi o terceiro grande
acontecimento de entre as duas guerras, juntamente com o declínio da de-

9
OS FASCISMOS

mocrada liberal e a revolução bolchevique. Em 1942, poderia crer-se que a Europa, conquistada
pelo fascismo, lhe serviria de trampolim para conquistar o mundo; este encontrava-se então dividido
entre fascistas e antifascistas, como está hoje entre comunistas e anticomunistas. A derrota das
potências do Eixo foi fatal para o fascismo; o opróbio que o atinge provém, em grande parte, do
receio de que venha um dia,a renascer; é que o fascismo, de 1945 para cá, tem tido de facto
saudosistas e imitadores.

Nas poucas páginas que se seguem, não temos a pretensão de escrever a história do
fascismo. O nosso objectivo é apenas tentar uma clarificação. Procuraremos deduzir os caracteres
comuns principais do fenómeno, tanto na sua ideologia como na sua prática. Tentaremos descobrir
as suas causas, as suas ligações com o passado e a sua novidade na História. Claro que não
poderemos relatar a actividade de todos os movimentos que se disseram ou dizem fascistas, ontem e
hoje; mas tentaremos deduzir a especificidade dos mais importantes e avaliar o seu efeito de choque
na sociedade dos seus paises respectivos. O nosso estudo procurará responder a um conjunto de
perguntas: -o fascismo é único ou múltiplo, é uma reacção ou uma revolução, ou ambas as coisas
sucessiva ou parcialmente? Em que condições o fascismo venceu, ou falhou, e que forças político-
económicas o sustentaram? Por outras palavras, quais foram as suas relações com os partidos
tradicionais, o capitalismo, a classe operária? O fascismo evoluiu, em que sentido e por que razões?
O fascismo não atingiu os seus

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PREFÁCIO

objectivos, ou alcançou-os em parte, e em que parte? Numa palavra, procuraremos descobrir,


caracterizar, e, se for possível, explicar a complexidade do fenómeno em todas as suas facetas, com
as suas contradições.

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I
QUE É O FASCISMO?
Não existe uma Bíblia do fascismo - o Mein Kampf é apenas o Antigo Testamento do nazismo. O fenómeno
histórico fascista não foi precedido e preparado por uma geração de teóricos - como a Revolução Francesa o foi pelos
«filósofos»; contam-se pelos dedos os «pensadores». fascistas. A bem dizer, a própria palavra fascismo (1) indica bem a
natureza do fenómeno histórico: uma reunião de forças diversas, cuja unidade, se não a própria ideia, resultam do facto
consumado. Os ditadores fascistas foram empíricos; o «chefe» elevou-se acima da massa, o seu acto fez-se verbo e a sua
palavra revelou, a verdade. Mas o certo é que os fascistas em toda a parte se afirmaram censurando e combatendo
adversários, reais ou míticos, que indicaram pelo nome; a sua luta começou por ser uma rejeição. Ao mesmo tempo,
prosseguiram certos objectivos, definiram um programa, elaboraram um pensamento mais ou menos coerente. Existe,
portanto, um fundo fascista comum, uma mistura de rejeições e proposições, uma espécie de «limiar mínimo» de um
conjunto complexo, no qual se enxertam variantes.

As rejeições do fascismo

O que o fascismo rejeita a priori totalmente é a sociedade liberal do século XIX, inspirada pela «filosofia
_____________________
(1) Vem de «feixe»: reunião das espingardas no repouso, ou: atributo do lictor na Roma antiga.

13
OS FASCISMOS

das luzes», transposta politicamente na Revolução Francesa. O fascismo não crê que os homens sejam iguais,
nem que o homem seja naturalmente bom. Põe de, lado Descartes, Kant, Rousseau, e, com estes, o
positivismo, gerador do cientismo e da esperança num progresso contínuo. Esta condenação global dá origem
a algumas rejeições:

Regeição da democracia, considerada «podre» porque, sendo um regime de fraqueza dominado pelos
grupos de pressão, é incapaz de salvaguardar o interesse nacional; o sistema parlamentar não passa de um
jogo estéril de um verbalismo alheio às realidades da nação; o pluralismo dos partidos apenas gera divisões e
discussões inúteis; a escolha dos dirigentes políticos pelo povo é uma nociva quimera:

Rejeição por conseguinte do individualismo, dos direitos do homem, da «dignidade da pessoa


humana»; porque o indivíduo não tem nenhum direito; apenas existe pela comunidade na qual se integra;
precisa de ser enquadrado e comandado;

Rejeição da sociedade liberal, porque a liberdade degenera em licença, e a licença em


enfraquecimento da coesão do grupo; o grupo tem o direito de punir aqueles que recusam agregar-se-lhe; a
justiça não tem como objecto defender o indivíduo, mas sim velar pela integridade do grupo, aplicando
sanções àqueles que a prejudicam;

Rejeição dum comportamento comandado, pela razão, que abafa o impulso vital; o fascismo é uma
reacção anti-intelectualista, uma desforra do instinto; prega o culto da acção, proclama a virtude da violência.

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QUE É O FASCISMO?

Ao mesmo tempo, o fascismo combate o «socialismo marxista», Porque este é fundado na


luta de classes e conduz à divisão e enfraquecimento do grupo social; não crê no esquema marxista
do carácter irreversível da História. Censura também a liberdade económica, o «laissez faire», que
permite aos fortes esmagar os fracos, em detrimento da colectividade, e muitas vezes esconde o
domínio de um povo pobre por outro mais rico. Às internacionais comunista e capitalista, o
fascismo procura contrapor o seu «socialismo nacional».

As afirmações do fascismo

Estas críticas não constituem novidade; o fascismo não fez mais do que popularizá-las;
completa-as, em antítese, com afirmações e proposições, que só assumem alguma originalidade pela
sua conjunção; foi assim que se elaborou a pouco e pouco, ao correr da acção, uma doutrina quase
coerente.

O fascismo é em primeiro lugar um nacionalismo exacerbado. A nação, sagrada é o bem supremo.


O seu interesse exige uma tripla coesão interna, política, social e étnica, e exige também a supressão
dos antagonismos que a dividem e enfraquecem. O fascismo repudia a época que o precedeu -
proclama-se revolucionário - e procura os seus modelos num passado da nação mais ou menos
mítico - a germanidade, a latinidade, a hispanidade, o helenismo, a francidade, etc. Nesta idade de
ouro, a nação era pura de qualquer elemento alheio; para a purificar de novo, o fascismo é
xenófobo, racista,

15
OS FASCISMOS

e, ao fim e ao cabo, anti-semita. Povo, Nação, Raça exprimem então a mesma realidade histórica.

O nacionalismo fascista é altivo e ambicioso; não há fronteira que não pretenda violar; há
sempre um tratado qualquer que quer rever e algum território que pretende recuperar; no passado,
encontra com facilidade um período de grandeza que pretende igualar. Apoiado pelo exército,
escorado nos antigos combatentes, procurando a cooperação dos compatriotas exilados, o fascismo
vai acabar naturalmente no imperialismo. Ridiculariza o «pacifismo dos balidos», a começar pela
Sociedade das Nações; exalta a aventura, o soldado, a luta; às soluções negociadas, prefere o
«diktat» da vitória. Contém em si a guerra, como a nuvem negra contém o raio.

Para que a nação tenha a certeza de poder viver e prosperar, o Estado deve ser forte e
autoritário. A centralização suprimirá os particularismos locais; o Estado fará prevalecer o intersse
colectivo sobre os dos indivíduos, dos grupos profissionais ou das classes, sociais. A ditadura que
vai ser instituída confundirá os aparelhos do Estado e da ideologia partidária, à custa duma
legalidade que suplantará, a noção de Salvação Pública.
O Estado será policial e a Justiça estará às suas ordens; as funções de advogados, acusadores, juízes,
serão amalgamadas, porque o acusado será julgado pelas suas intenções e «moralidade, política»,
mais do que pelos seus actos; como outrora a Inquisição para os heréticos, o tribunal fascista
esconjurará as impurezas nacionais. Este Estado forte incarna-se num chefe, providencial, guia e
salvador da nação, erguido da massa pelo impulso
16

QUE É O FASCISMO?

da sua personalidade; a sua palavra é lei e é também a verdade. As paredes de Roma proclamavam
que “Mussolini tinha sempre razão», e as multidões nazis gritavam o seu êxtase perante o «génio do
Führer. Não há grupo fascista que não faça sacrifício ao culto do chefe; aliás, o führer-prinzip deve
afirmar-se em todos os escalões da sociedade, tanto na economia como na administração.

Entre o chefe e o povo, o intermediário, a correia de transmissão é o partido único; este


deve reunir um escol e, por meio de um movimento juvenil único, deve também promover a sua
renovação. A socieade urdida pelo fascismo é hierarquizada; uns comandam, os outros crêem e
obedecem mas o poder vem sempre de cima; os fascistas travam a sua primeira batalha na rua,
contra os seus adversários; passado isto, «reina a ordem» e a população é enquadrada, territorial e
profissionalmente, em organismos destinados a modificar o Estado.
Assim irá surgindo, a pouco e pouco, uma nova classe dirigente.
Esta sujeição da populacão é justificada pelo fascismo como a defesa nacional e com a vontade de
instituir uma sociedade mais justa; é isto o socialismo nacional, considerado a melhor arma contra o
comunismo. É necessário ultrapassar a luta de classes e substituí-la pela sua cooperação. Não se
trata de colectivização, nem de supressão do proletariado, e ainda menos de autogestão. Mas o
Estado, por um lado, submeterá os interesses dos poderosos à lei comum, e, por outro, promulgará
leis sociais destinadas a melhorar a condição operária. Regra geral, estas disposições serão um tanto
esquecidas

17
OS FASCISMOS

pelos partidos fascistas uma vez alcançado o poder; mas contribuirão para os tornar ditaduras
populares.

Para promover o «socialismo nacional», as forças de produção são associadas numa


economia corporativa. O fascismo pretende ultrapassar as tensões da sociedade industrial; daqui
resultam organismos de cooperação em todas as profissões, as corporações, onde os patrões,
operários e representantes do Estado têm assento, teoricamente, em pé de igualdade. Por um lado, a
organização permite que o Estado tome até certo ponto à sua conta a economia nacional; facilita a
direcção planificada da produção e permite a realização da autarcia; por outro lado, o Estado
desempenha o papel de medianeiro nos conflitos de trabalho; de facto, com a supressão dos
sindicatos e a proibição das greves, o sistema consolida o desequilíbrio social em proveito dos
possidentes.

Para o fascismo, este conjunto de medidas deve permitir a formação e desenvolvimento de


um tipo de homem novo. Este homem novo deve ser viril - o fascismo menospreza a mulher -, apto
para o comando, duro para si próprio e para os outros. As suas qualidades dominantes serão a
coragem, o espírito de disciplina, o sentido da solidariedade. Mais do que as qualidades intelectuais,
os fascistas pretendem desenvolver as «qualidades animais» do homem; desconfiam do espírito
crítico, que consideram dissolvente; o fascista contenta-se com «crer, obedecer, combater». O ideal
seria que o homem se tornasse um autómato perfeito, totalmente destituído de sensibilidade,
despojado de qualquer sentido humanitário, capaz apenas de executar, sem discussão, todas

18

QUE É O FASCISMO?

as ordens que recebe. Este tipo de homem novo foi quase realizado na SS itleriana.

Os educadores e os artistas devem dedicar-se a formar este novo tipo de homem. A cultura
fascista recusa o universalismo do humanismo; substitui-o pela petença à nação,a solidariedade
gregária, a ligação ao solo, à língua e ao torrão natal (ao sangue, dirão os nazis), numa palavra, uma
maneira de sentir e de pensamento comandada pela acção, na qual o irracionaldomina, com um
dogmatismo exaltado, uma esquematização dos problemas, uma falta completa do sentido do humor
e da compreensão dos matizes, um abuso dos estribilhos repisados pela propaganda.
Estas características do fascismo são comuns a todos os grupos que se dizem fascistas, com
variantes na intensidade ou no tempo. Para as exprimir, todos os fascistas utilizam o mesmo ritual -
que impressionou muito os seus contemporâneos. O culto do chefe traduz-se pela difusão ilimitada
da sua imagem nas paredes ou no cinema, nas montras, nos lugares públicos e nas casas, umas
vezes sorridente, amistoso e protector, outras com ar duro e tenso, o mais das vezes fardado. É
saudado levantando o braço, aclamado freneticamente antes de ser escutado religiosamente. O
partido é uma «ordem », com as suas vestes, a sua hierarquia, os seus regulamentos, os seus
pendões, as suas insígnias e paradas. A população é reunida em manifestações enormes, em que o
espírito colectivo se exprime pelo canto, em desfiles infindáveis em que cada um está envolvido e
protegido pela massa. A propaganda repete infatigavelmente os mesmos temas por meio do cartaz,
o jornal, a rádio,

19
OS FASCISMOS

o filme. Sobre todos os opositores, e até sobre os “tíbios”, paira a ameaça das agressões, da prisão,
da destituição,do internamento ou da expropriação; o fascismo domina por meio de generalização
do terror - neste ponto faz inovação.
Assim, rejeitando o capitalismo e o bolchevismo, recusando a democracia liberal, o
fascismo propõe uma terceira solução de cooperação, uma nação dirigida pelo chefe, uniformizada
pela arregimentação e propaganda, preparadapara guerras em que se farão valer os seus direitos e se
afirmará a sua força. Durante cerca vinte anos, tev um êxito incontestavelmente enorme. é um
fénomeno mundial.

Antecedentes e génese do fascismo


De onde vem o fascismo? No fim do século XIX, o capitalismo liberal evolui para a formação de trusts e
cartéis, nos quais se realizava a fusão entre o capital industrial e o capital bancário.Foi esta uma das causas do
grande aumento da produção de bens de todas as espécies. Mas a concentração das empresas em organizações
enormes teve também a consequência de aprofundar as diferenças entre as imensas riquezas de uns e a miséria
da maioria; o desenraizamento das populações rurais atraídas pela cidade, o seu amontoamento em bairros
que não tinham condições para os receber, as próprias condições do emprego, pela generalização do
taylorismo, contribuíram para desumanizar as relações do homem com o seu trabalho, e abalaram
profundamente as relações tradicionais entre as classes.
Em particular, as classes médias nem sempre tiravam proveito da mutação económica. O
desenvolvimento da grande indústria e do grande comércio, a produção em série de mercadorias mais baratas
ameaçavam a expropriação e proletarização muitos

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QUE É O FASCISMO?

artífices, pequenos comerciantes, pequenos proprietários. Estas classes médias recusavam, em geral, juntar-se
ao proletariado na luta deste contra ocapital, porque teriam o sentimento de uma degradação; o seu
anticapitalismo era reaccionário; tinham saudades de uma economia pouco dinâmica, rotineira, se não mesmo
entorpecida; não imginavam outra forma de propriedade que não a privada e recusavam qualquer
colectivização que lhes tiraria a personalidade; condenando a luta de classes, da qual temiam ser as vítimas,
sonhavam com um Estado acima das classes: os poucos bens que possuíam e não queriam perder levaram-nos
a recear qualquer perigo que ameaçasse a pátria, coma qual se identificavam. Se houver uma crise grave e
duradoura, esta massa amorfa pode levedar com o apelo de um agitador que saiba insuflar-lhe o fermento que
lhe convém.
A aceleração dos progressos científicos, por outro lado, embora fizesse nascer grandes esperanças,
embora melhorasse as condições de vida, provocou também uma grande perturbação perante a descoberta de
um mundo ilimitado e temível, um medo cada vez mais intenso perante uma mudança de ritmo da vida e da
instabilidade crescente da produção e da sociedade. As descobertas científicas de Einstein, de L. de Broglie,
que abalaram as concepções do tempo, do espaço e da matéria, aumentaram a inquietação metafísica; Freud e
a psicánalise descobriram profundezas psicológicas insuspeitadas. A filosofia pôs de novo em questão a fé na
ciência; Bergson reabilitou o instinto; observou-se um recrudescimento religioso, ou, mais amplamente,
místico. Esta reacção do irracional teve a sua exprassão mais forte em Nietzsche; para este, o pensamento
raciocinante é um empobrecimento; à moral resignada do rebanho opôs a do “Super-homem” criador; exaltou
a vontade de poder, a vida perigosa, o heroismo que vai até o sacrifício.
É verdade que as classes médias não foram arregimentadas unanimamente sob o pendão de um chefe
infalível; o seu comportamento foi diversificado. Os filósofos e os sábios que abalaram as noções adquiridas
não eram de maneira nenhuma pré-fascistas, muitos deles até eram o contrário,e, aliás, os chefes do fascismo

21

OS FASCISMOS

não os leram (1). O fascismo não estava necessariamente inscrito na mutação por que passaram a economia, a
sociedade e o pensamcnto; aliás, o fascismo não triunfou em toda a parte ao mesmo tempo; mas as mutações
em curso criaram um contexto geral que o favoreceu e permite aperceber as causas do seu triunfo.

De facto, observa-se que o fascismo toma o impulso inicial num ambiente de crise - o
fascismo italiano nasceu da crise provocada pela primeira guerra mundial; o nacional-socialismo
alemão desenvolveu-se, a partir da crise mundial dos «anos Trinta». O fascismo alimenta-se
com a irritação provocada pelo mau funcionamento do sistema parlamentar e com a revelação, dos
«escândalos» - como o «caso Stavisky» que deu origem ao golpe de 6 de Fevereiro de 1934.
Aumenta de intensidade quando há uma humilhação nacional, quer seja uma derrota militar
(Alemanha), quer o sentimento de frustração resultante duma vitória incompleta (Itália e Japão).
Nasce do sentimento de opressão duma minoria - Eslovacos em relação aos Checos, Croatas perante
os Sérvios, Flamengos contra os Valões, etc. Mas convém notar que são numerosas as excepções a
estas causas gerais: a crise económica não se sentiu em parte nenhuma mais intensamente que nos
Estados Unidos, e, no entanto, nenhuma semente fascista aí germinou; o fascismo nasceu na
Polónia e na Roménia, apesar duma vitória incontestável; não venceu em França, apesar de
_______________
(1) Com excepção talvez de Nietzsche, cuja obra Hitler se gabava de ter devorado, mas a propósito da qual o ditador alemão acumulava
manifestações de ignorância nas conversas que tinha com os seus íntimos; quando o Führer quis oferecer um presente bonito ao seu
amigo Mussolini, mandou-lhe as obras completas de Nietzsche.

22

QUE É O FASCISMO?
todas as dificuldades da III República; o sentido de opressão de uma minoria pode conduzi-la para a
extrema-esquerda, como o regionalismo catalão, etc.
Portanto o fascismo, em regra geral, nasce num clima de tensão social e política violente.
Ora a primeira guerra mundial foi duma brutalidade sangrenta sem precedentes; mostrou que a
ciência e a técnica podiam ser mais mortíferas que benéficas; reabilitou a violência, e isso com o
empenhamento de milhões de homens. Na verdade, nunca os exércitos em luta tinham sido tão
numerosos - a nação em armas. Ora, no combate, as categorias sociais tinham-se misturado,
surgiram élites novas; constituiu-se uma espécie de massa humana, homogeneizada e maleável.
Depois da guerra, nos países beligerantes não conseguiram voltar a inserir-se na sociedade muitos
antigos combatentes, mesmo dos mais valentes; muitos deles sentiam a impressão de terem baixado
de categoria social, e em muitos casos pertenciam às classes médias, ameaçadas pela mutação
económica e social. Verificavam que na retaguarda, livres do perigo, outros tinham enriquecido.
Acumulava-se neles uma onda de cólera contra as oligarquias, os políticos com a saudade da
fraternidade da frente de combate e a convicção de que lhes cabia uma missão purificadora (1).
No Leste da Europa, na Rússia, a revolução bolchevique fez surgir um grande clarão; este
ameaçava abrasar o Ocidente, onde os partidários do bolchevismo aumentavam; ora a revolução
bolchevique surgia como
_____________
(1) Mas o fascismo também se desenvolveu em países que não tinham tomado parte na guerra, que não tinham antigos combatentes (na
América do Sul, por exemplo).

23
OS FASCISMOS

uma revolução integral, uma transformação completa da sociedade e da economia, um perigo


mortal para todo um sistema de valores; as classes dirigentes e as classes médias sentiam o perigo
de maneira igual, procurando uma política, de combate que as democracias em declínio não
proporcionavam.

À superfície, a crise demorada e grave dos «anos Trinta,» provocou inflação, desemprego e
miséria; os operários foram sem dúvida os mais atingidos; mas as classes, médias também sofriam
as consequências do desastre geral. Como não se havia de procurar responsáveis no regime político
existente, no estrangeiro inimigo, ou descobrir elementos patogénicos do corpo nacional? Que
remédios se havia de ministrar, que não fossem um reforço dos laços nacionais e a promoção duma
autoridade protectora, paternal, a autoridade dum chefe? O fascismo utilizou estes rancores e estes
receios.

Fascismo e reacção

Não há nenhum elemento da «doutrina» fascista que o fascismo, não tenha ido buscar a um
pensador da direita dos séculos XIX e XX; a análise dos diversos fascismos nacionais mostrará isto
melhor, no seguimento deste trabalho. Por isso houve fundamento, para dizer que o fascismo, de
facto, era uma «reacção disfarçada».

De facto, verifica-se que o fascismo, e havemos de voltar a este ponto, chegou ao poder, na
Itália e na Alemanha, com a ajuda dos meios dirigentes e do Estado que os representava. Verifica-se
também que em Espanha, em Portugal e na Grécia, a direita tradicional se

24
QUE É O FASCISMO?

entendeu bem, com o fascismo, no equilíbrio de forças instituído pela ditadura. Finalmente, é claro
que as duas tendências combateram os mesmos inimigos - comunistas, democratas, estrangeiro
inimigo; comungavam num nacinalismo idêntico. Durante a guerra, quando teria podido impor
regimes inspirados no nacional-socialismo, em toda a Europa conquistada, Hitler preferiu
frequentemente apoiar-se em elementos conservadores - durante muito tempo preferiu Antonesco
em vez de Horia Sima, Horthy em vez de Szalassy, Pétain em vez de Doriot (1).

E no entanto, apesar desta cumplicidade evidente e desta comunidade de interesses, há


grandes diferenças entre a «reacção» e o fascismo. Em primeiro lugar a reacção, como o próprio
nome indica, coloca o seu ideal num passado mais ou menos mítico, uma «idade de ouro» á qua1
aspira regressar - a monarquia absoluta para Maurras. O fascismo, pelo contrário, embora louve este
ou aquele período da história da nação, volta-se para o futuro; proclama-se revolucionário. Aos
dirigentes tradicionais, aliás, o fascismo afigura-se revolucionário na medida em que se diz
socialista, ou, pelo menos verbalmente, pretende modificar as estruturas sociais. Aliás, não será
fascismo uma metamorfose da execrável democracia, quando se afirma detentor da soberania
nacional e pretende exercer o poder em nome de uma massa plebeia por ele fanatizada (2)?
______
(1) Cf. a nossa Seconde guerre mondiale, t. I, p. 275 e sgs
(2) É isto que diferencia o fascismo das ditaduras militares, que exercem o poder com o apoio dos quadros dirigentes e são impopulares
.

25
OS FASCISMOS

O contraste é sobretudo grande na composição dos círculos dirigentes. A extrema-direita


coloca à sua frente aristocratas e grandes burgueses; as élite do fascismo (com excepção de José
António Primo de Rivera) não são as do nascimento, da fortuna, da promoção por concurso;
formaram-se na guerra mundial, na luta de ruas, na actividade do partido, na dedicação ao chefe -
alguns vêm da «esquerda». Por isso mesmo é raro surgirem simpatias pessoais entre homens com
características, tão diferentes; a aristocracia italiana - escarnecia de Mussolini, e os generais da
Wehrmacht troçavam dos seus inferiores que preenchiam as fileiras das secções de assalto. No
limite, este contraste vai até ao conflito; os nazis austríacos assassinaram Dollfuss, e uma
conspiração de elementos das classes superiores quiserem assassinar Hitler.

No entanto, temos de verificar que só uma pequena arte das forças conservadoras se opôs
ao fascismo, e sempre tarde demais, quando outras forças já o tinham enfraquecido muito ou até -
abatido - como o rei de Itália, que mandou prender Mussolini quando este já tinha sido destituído
pelo Grande Conselho fascista; aliás, um aristocrata como o príncipe Borghese foi fiel a Mussolini
até ao fim (1). Os dirigentes tradicionais, conforme veremos melhor mais adiante, elevaram o
fascismo até ao poder para que este aplicasse os planos que eles não podiam pôr em execução, com
a esperança de o domar e dominar - como Thiers quando disse que seria capaz
(1) Para não falar dos aristocratas alemães que entraram para a SS, como o príncipe de Hohenlohe, agente de Himmler na Suíça.

26

QUE É O FASCISMO?

de levar Napoleão III pelo beiço. Na realidade, os dirigentes tradicionais foram arrastados para uma
aventura que nem sempre tinham desejado - generais e diplomatas fizeram algumas tímidas
observações a Hitler - mas que aceitaram e das quais aproveitaram abundantemente. Pode dizer-se
que, ao fim e ao cabo, o fascismo assimilou a maior parte dos dirigentes tradicionais. Hoje em dia,
em França, grupos como Aspects de la France e Nouvelle Action Française rejeitam, não há dúvida,
qualquer rótulo fascista; mas se é verdade que a Action Française de antes de 1939 morreu de vez,
ninguém afirmaria que o fascismo não renascerá. Identificar completamente extrema-direita e
fascismo é fazer propaganda eleitoral; mas a História mostra que as duas se foram associando
progressivamente, e até se integram, entre 1920 e 1945.

Fascismo e bolchevismo

O bolchvismo e o fascismo nasceram ambos da crise da Europa, que provocou a primeira guerra
mundial mas não se resolveu com esta - sendo o fascismo uma reacçãocontra o bolchevismo. Por
isso, alguns sociólogos consideram-nos irmãos gémeos. Por exemplo Hannah Arendt (1), que os
considera as duas faces dum fenómeno único, o totalitarismo. Este é o resultado da formação das
“massas”, consequência da atomização da sociedade - na Alemanha em virtude da derrota e da crise

_________
(1) Elemente und Ursprunge totalitarer Herrschft, Francoforte, 1965

27
OS FASCISMOS

económica, na Rússia em virtude do desastre czarista e da revolução. As “massas” são constituídas


por indivíduos sem laços que os unam; sentem-se inorgânicas, frustradas, humilhadas. Os
totalitários propõem-lhes uma ideologia, um grande apelo à imaginação que as desvia das
realidades; descontentes com o presente sem terem verdadeiramente um passado, receosas do
futuro, as “massas”, uma vez dentro do mundo da ficção totalitário, aderem a este e estão dispostas
a todos os sacrifícios exigidos pelos chefes omniscientes perante os quais ajoelham em adoração.

É certo que comunistas e fascistas, uma vez ou outra, chegaram a um acordo e até às vezes
se tornaram “aliados objectivos” contra um inimigo comum - a democracia liberal; os irmãos
Strasser preconizavam um entendimento duradouro entre a Alemanha hitleriana e a U.R.S.S.
bolchevique, entendimento que Hitler e Estaline, por táctica, fizeram vigorar durante algum tempo
com o pacto de não agressão de Agosto de 1939 (1). Hitler, que algumas vezes elogiou Estaline, foi
até mais longe quando propôs à U.R.S.S. tomar parte numa partilha do mundo com as potências do
Eixo (2). É também incontestável que as semelhanças entre fascismo e estalinismo são
impressionantes, quando vistas do exterior: incompreensão desdenhosa e altaneira para com os
outros; omnipotência do Estado, com idêntica confusão dos poderes em proveito do partido único;
liquidação dos
(1) Segundo Ribbentrop, os nazis antigos sentiam grande surpresa quando descobriam que tinham semelhanças com os antigos
bolcheviques.
(1) Cf. a nossa Seconde guerre mondiale, t. I, p. 228-230

28
QUE É O FASCISMO?

opositores pelo terror - os campos de concentração da Alemanha têm equivalente no “Gulag


soviético”; polícia toda-poderosa; identico nacionalismo, sustentado por um exército muito forte; o
mesmo culto do chefe, etc (1). Até se escreveu que Estaline era mais totalitário que Hitler - no
nazismo não há nada que se possa equiparar à “liquidação” dos kulaks e seus milhões de mortos, e
deixou continuar a viver a aristocracia, a Igreja e as estruturas industriais.
Na realidade, as diferenças entre o nazismo e o paroxismo do bolchevismo que foi o
estalinismo são fundamentais. A União Soviética procedeu a uma transformação total da socidade e
da economia, transformação que o nazismo apenas preconizou. O fascismo rejeita a “ditadura” do
proletariado; pretende eliminar a luta de classes, fazendo com que estas colaborem; sendo certo que
provém das massas, procura dominá-las, e não quer que se desencadeiem; as condições em que o
bolchevismo triunfou na Rússia, com uma situação de desordem e anarquia em que teoricamente se
exprimia a “vontade das massas”, são condenadas pelo fascismo; para os fascistas, o bolchevismo,
que atribui à base uma infalibilidade eu esta não tem, embora, uma vez triunfante, não lhe permite
que continue a exprimir-se, é a conclusãológica da democracia. Por isso mesmo, uma das ideias
fixas de Hitler - com o racismo - era que o comunismo provinha de uma Ásia bárbara e era preciso
repeli-lo

_______

(1) Alguns dos atributos de Estaline: guia imortal da Humanidade, pai dos povos, a nossa luz, o gigante do pensamento e da acção, o
maior titã de todos os tempos, a águia da montanha e da revolução, etc.

29
OS FASCISMOS

para a Ásia. Nazismo e bolchevismo, ambos com tendência para a universalidade, excluíam-se de
facto um ao outro, e estes irmãos desavindos lutaram selvaticamente un contra o outro para se
exterminarem.

A evolução do fascismo

Portanto, o fascismo, visto em conjunto, é um fenómeno original. Enquanto não está no


poder, limita-se à luta contra os seus inimigos internos, e como que se mantém imobilizado nessa
luta. Quando chega ao poder, é apanhado pela engrenagem dos negócios públicos; representa a
partir daí o Estado e a Nação, e opera num contexto internacional; tem então de ter em conta a
conjuntura, e, por vezes, tem de inflectir o seu programa inicial. No seu excelente livro La liberté en
question, le fascisme au XXe siècle (1), P. Milza e M. Benteli, procurando «recolocar o fascismo no
seu tempo», distinguiram três fases na sua evolução:

O primeiro fascismo «desenvolve-se, num contexto de crise de movimentos extremistas oriundos da


classe média, que lutam ao mesmo tempo contra as forças revolucionárias e contra o capital». É uma «reacção
irracional» das classes médias contra uma proletarização que as «radicaliza num sentido reaccionário», com o
apoio do «escol de substituição» constituído pelos antigos combatentes; chegou a falar-se de «socialismo de
desclassificados».

O segundo fascismo define-se pela «aliança do primeiro com o grande capital industrial e agrário».
Para chegar até ao poder, o fascismo precisa de facto da ajuda - dinheiro, cumplicidades -
________________
(1) Edições Richelieu, 1973, pp. 87-109.

30
QUE É O FASCISMO?

das classes dirigentes e do aparelho do Estado. Esta ajuda é dada se as classes dirigentes têm consciência de
que existe uma crise muito grave e uma ameaça revolucionária - geralmente depois de uma primeira tentativa
revolucionária ter sido dominada, e para evitar que essa tentativa se repita. É assim que se forma o
«bloco do poder», com duas alas que só se associam contra um inimigo comum; pode dizer-se que uma das
alas é conservadora e a outra revolucionária.

A terceira fase é a do fascismo no poder. As classes dirigentes têm de fazer um entendimento com
ele; são obrigadas a aceitar algumas restrições; mas, no conjunto, mantêm a sua hegemonia e consolidam as
estruturas existentes em seu favor, e acumulam honras e proveitos. A pequena burguesia é assim sacrificada
aos «grandes interesses». A conciliação nacional faz-se numa política de grandeza e prestígio, acompanhada
por uma promoção social destinada a «integrar as massas» com um conjunto de medidas sociais.

De facto, assim que a guerra começa, ideologia, política e economia são submetidas às exigências da
luta e da eficiência. Pode assim distinguir-se, acrescentamos nós, uma quarta fase em que, com Speer na
Alemanha, por exemplo, se abrandam as restrições do partido e o poder económico é devolvido aos
industriais, mesmo nas empresas do Estado. Com a queda de Mussolini (Setembro de 1943) e o atentado
contra Hitler (Julho de 1944), fascismo e nazismo regressam à dureza dos primeiros dias, ao seu “socialismo”
primitivo, contra os meios conservadores; este é um quinto período.

Esta análise parece-nos exacta com duas correcções: o nacionalismo afigura-se-nos


completamente afirmado logo no primeiro fascismo, e o apoio de meios populares foi-lhe concedido
logo de início, em virtude da crise dos anos Trinta. Por outro lado, a análise só é válida para a Itália
fascista e a Alemanha nazi. Para além destes dois países, são muitos os exemplos de excepções: não
há «fascismo» de esquerda no Japão, nem na Grécia de Metaxás; na Noruega, Quisling foi rejeitado
pelos notá-

31
OS FASCISMOS.

veis; Os fascistas «colaboradores» franceses manifestavam um nacionalismo singular, porque


preconizavam uma aliança com o vencedor; no «peronismo» e no «nasserismo» a base foi sempre
mais ampla que a pequena burguesia, etc.

Os fascismos

Na verdade, embora o fascismo tenha sido um fenómeno internacional, que lutou para alcançar o
domínio do mundo, embora houvesse um «fundo comum» para todos os grupos ou regimes que se
dizem fascistas, a ponto de ser lícito perguntar, e havemos de voltar a este ponto, se o fascismo não
constituiu uma nova «internacional», quando pretendia combater todas as internacionais, o facto é
que a doutrina se desenvolveu e a prática se integrou em meios diferentes - nacionais, sociais,
étnicos.

Portanto, há ao mesmo tempo um fascismo e vários fascismos. O nacionalismo que os


inspira a todos também os pode opor uns aos outros - sem a autoridade de Hitler, os nazis húngaros
e romenos teriam lutado por causa da Transilvânia; a Itália fascista e a Alemanha nazi foram hostis
durante anos, rivais na Áustria, e na bacia do Danúbio; no fascismo francês, as diversas tendências
nunca se uniram; Mussolini atacou na Grécia um regime fascista, etc. .

O fascismo não chegou ao poder da mesma maneira, embora quase sempre tenha tido os
mesmos apoios; os traços comuns que o caracterizam não têm a mesma importância em todos - o
anti-semitismo italiano foi tar-

32

QUE É O FASCISMO?

dio, e como que importado da Alemanha, para ficarmos agora por um só exemplo. É esta variedade
de fascismos que vamos procurar examinar (1).
_______________
(1) Falta-nos espaço para apurar porquê o fascismo não triunfou em toda a parte; falhou em especial nos países anglo-saxões; mais
exactamente, nesses países apenas se manifestou em grupúsculos insignificantes; sucedeu a mesma coisa em França. As causas deste
insucesso, são várias: antiguidade, solidez e bom funcionamento das instituições democráticas (Estados Unidos, Inglaterra e Domínios),
ou oposição eficaz dos partidos políticos proletários (Frente Popular em França, mas a explicação perde validade após a derrota de 1940).
Também se pode observar que as nações protestantes foram terreno mais estéril que as católicas (pode até falar-se num fascismo clerical
na Áustria, Croácia, Espanha, Portugal).

33
II

O FASCISMO ITALIANO

O fascismo nasceu na Itália; o fascio, com o significado da reunião em feixe de vontades


convergentes, foi emblema de camponeses revoltados da Itália do Sul, no fim do século XIX; o
termo foi aproveitado pela propaganda governamental quando da entrada da Itália na guerra, e, na
altura do desastre de Caporetto, no sentido ampliado de uma união estreita de todas as energias da
nação italiana. Portanto, Mussolini não o inventou quando reuniu em Milão, em 1919, alguns
antigos combatentes, e, em 23 de Março, iniciou o movimento dos «feixes italianos de combate».
Na altura, ninguém suspeitava a importância que iria tomar este agrupamento, que teve um
nascimento difícil e uma ascensão longe de irresistível.

Na verdade, o fascismo italiano veio a revelar-se um iniciador, e, embora a força e os


crimes da Alemanha nazi o tenham relegado mais tarde para segundo plano, embora a identificação
dos dois movimentos não seja completa, foi o fascismo italiano, com a autoridade que lhe dava a
posse do poder, o primeiro que repudiou de maneira espectacular o humanismo liberal, com os seus
35
OS FASCISMOS

corolários, democracia política, regime parlamentar, pluralidade dos partidos políticos, repúdio que
até então só tinha partido de intelectuais sem grande audiência. «O fascismo», disse Mussolini,
«nega que a maioria, pelo simples facto de ser maioria, seja capaz de dirigir a sociedade
humana. Afirma que a desigualdade da humanidade é imutável, benéfica e fecunda.»
Sem modificar a Constituição, por simples delegação do rei, instituiu-se uma ditadura
ilimitada tanto nos seus poderes como na sua duração, a favor do chefe do Governo. Assim,
personificado, o poder apoiou-se num partido único. O estribilho passou a ser: «Tudo no Estado,
nada fora do Estado, nada contra o Estado.» Assim se retirava à política todo o sentido moral, assim
o interesse do Estado nacional passava a ser a justificação da acção.

Criou-se então um ambiente de violência generalizada; umas vezes, os opositores eram


imolestados por grupos de desordeiros, «os esquadristas», outras vezes presos sem julgamento ou
apresentados a um tribunal especial que tinha como lema: «As leis devem ser intrepretadas segundo
o espírito do regime.» Em consequência disto, suprimiram-se as liberdades fundamentais de
Imprensa, reunião, expressão do pensamento, associação, e criou-se uma polícia secreta, a OVRA,
encarregada de acossar os opositores por meio de uma técnica de delação generalizada.

Rejeitando «o mito da felicidade e do progresso indefinido», propondo como ideal dos


italianos o combate pela relização das suas «aspirações nacionais», ridicularizou as instituições
internacionais que tinham nascido do horror da guerra; educou a juventude em

36
O FASCISMO ITALIANO

espírito militar,duplicou o exército regular com uma «milícia» partdária, amplificou os


armamentos.Deu ânimo às reivindicações dos países que se consideravam lesados pelos tratados, e
facilitou o desenvolvimento de movimentos fascistas nas democracias ocidentais.

A ideologia do fascismo italiano foi uma «ideologia da negação»: rejeição do liberalismo,


da democracia e do marxismo. Na medida em que conseguiu elaborar uma doutrina, esta foi a
princípio essencialmente de inspiração rural, com os mitos do soldado camponês, da batalha do
trigo, da beneficiação das terras (1). A vontade de ser forte levou-o a um grande esforço de
industrialização e à procura duma autarcia, numa economia organizada de maneira corporativa. São
estas as características principais do fascismo italiano. Como é que este conseguiu alcançar o
poder?

Antecedentes e advento
Cinquenta anos depois da sua unidade, a nação italiana ainda não era um facto consumado. De facto,
havia divergências graves nos planos geográfico, social, cultural e económico. Ao Norte urbano e
industrializado, opunha-se o Sul, atrasado, camponês, com um cristianismo pagão, destinado à emigração para
o Norte, para a França, para a América (2). Uma classe dirigente cultivada e poderosa, constituída por grandes
proprietários latifundiários e industriais, governava uma massa de operários e camponeses pobres e
analfabetos. Destes desequilíbrios resultava uma democratização insuficiente; só em Junho de 1912 foi
concedido o direito de voto a todos os italianos maiores de 21 anos, para os
__________________
(1) Cf. Léo Valiani, La resistenza italiana, Storia e politica, Janeiro-Junho 1975.
(2) P. Guichonnet, Mussolini et le fascisme, PUF, 1966.

37
OS FASCISMOS

que sabiam ler, e aos analfabetos maiores de 30 anos; o método de governação, herdado de Cavour, era
moldado num autoritarismo maleável, no qual o Parlamento tinha audiência e responsabilidade restritas.

Para remediar esta crise permanente, Crispi sugeriu uma política de expansão colonial, seguindo-se,
em 1915, um nacionalimo antiaustríaco que conduziu à inversão das alianças e à entrada na guerra ao lado dos
Aliados. A guerra provocou um grande entusiasmo nacional e deu ensejo a um grande desenvolvimento
industrial, principalmente na indústria siderúrgica. Mas, quando a luta terminou, as desilusões acumularam-se.

A pequena burguesia tinha sido muito atingida pela depreciação monetária; os camponeses, de onde
tinham saído a maior parte dos combatentes, e a quem tinham prometido a distribuição das terras, depois do
desastre de Caporetto, voltaram de facto a uma situação ainda mais miserável. Muitíssimos antigos
combatentes dificilmente encontravam trabalho, sentiam-se indignados com o dinheiro ganho pelos que se
aproveitaram do conflito, consideravam-se muitas vezes despromovidos em relação ao lugar que tinham tido
no exército. Uma inflação desordenada produzia maléficos efeitos nos preços e salários. Além disso, no plano
nacional, havia uma grande irritação contra os Aliados, que recusaram entregar à Itália todas as terras
«irredentas» que lhes tinham prometido em segredo, quando os italianos se lhes tinham juntado na guerra.

Daqui resultou uma explosão de violência. Ao mesmo tempo que os socialistas julgavam ter chegado
o momento para proceder a transformações «de fundo», as massas operárias e camponesas, entusiasmadas
com a revolução bolchevique, passaram à acção directa e deixaram de acatar a autoridade dos dirigentes
políticos e sindicais. Grupos de camponeses apoderaram-se dos latifúndios, cujos proprietários viviam nas
cidades, e organizaram cooperativas de exploração e consumo; grupos de operários ocuparam as fábricas e
tentaram dirigi-las. O que impressionou os contemporâneos foi o carácter desordenado e selvático deste
movimento; além de que as desordens eram frequentemente sangrentas, a Itália ia caindo a pouco e pouco
num estado de desordem generali-

38
O FASCISMO ITALIANO

zada, em virtude de greves infindáveis, absentismo e desorganização do sistema de produção. Como se


haveria de resolver a crise?

Giolitti tentou contemporizar. Na esperança de que as operários, desiludidos com as suas


experiências de acção directa, aceitassem um compromisso, propôs desenvolver as cooperativas,
instituir um controlo operário na administração das fábricas, tornar os títulos nominativos para
poder tributar de melhor maneira os rendimentos e tributar a herança. Mas deparou-se-lhe a
oposição dos círculos dirigentes, que tinham criado grupos de autodefesa, e que, uma vez passada a
parte mais perigosa do temporal, pretendiam primeiro que tudo impedir que o vendaval regressasse
com a mesma violência.

D'Annunzio apontou outro caminho, a ultrapassagem do conflito pelo nacionalismo. Este


poeta tinha sempre preconizado o gesto perigoso, tinha sempre sentido desprezo pela vida fácil.
Colocando-se à frente de um corpo de voluntários, ocupou Fiume, que os Aliados não queriam
ceder à Itália; renovou desta maneira a odisseia garibaldina e fez nascer um movimento de unânime
entusiasmo, obtendo o apoio dos conservadores e dos sindicalistas revolucionários; e durante
algum tempo, quis instaurar em Trieste uma república comunista.

Foi neste contexto que nasceu o fascismo de Mussolini (1) . A princípio, os seus objectivos
não eram claros. É certo que pretendia que a Itália obtivesse Fiume e a Dalmacia, como todos os
italianos; mas o fascismo dizia também ser «aristocrata e democrata, conservador e pro-
________________
(1) Nino Valeri, Da Giolitti a Mussolini, Florença, 1956; Salvatorelli e Mira, Storia d’Italia nel periodo fascista, Einaudi, 1961; F.
Catalano, L’Italia dalla dittatura alla democrazia, Milão, Lericr, 1962.

39
OS FASCISMOS

gressista, reaccionário e revolucionário, conforme as circunstâncias de tempo, meio e lugar». Em


seguida apresentou-se como defensor da ordem e dos mais altos valores da Pátria. Despertou então
o interesse dos industriais e agrários, que começaram a subsidiá-lo. Os fascistas organizaram
expedições punitivas contra bolsas de trabalho,e fizeram cercos a sindicatos e câmaras municipais
esquerdistas;atacavam osadversários à mocada ou obrigavam-nos a beber óleo de rícino. Mas os
começos do fascismo foram difíceis; foram esmagados nas eleições de 1920 e só conseguiram ter
31 deputados em 1921, entre eles Mussolini. O movimento transformou-se então em partido
político; organizou os seus próprios sindicatos e juntou 300 000 membros no fim de 1922; nesse
mesmo ano, anulou uma greve por meios violentos e expulsou os conselhos municipais socialistas
em Ancona, Génova, Livorno e Milão. Esta vivacidade, esta combatividade contrastam com a
apatia do Parlamento, onde um demorado interregno privou o país de Governo durante muito
tempo, e só terminou com um compromisso que não satisfez ninguém.

Em 27 de Outubro de 1922, Mussolini decidiu fazer a «marcha para Roma», com 40 000
«camisas negras» decididos,esfaimados, que o exército teria podido dispersar sem dificuldade - o
próprio Mussolini chegou de comboio. A expedição nada teve de gloriosa, tão fraca foi a oposição e
tantas foram as cooperações para colocar Mussolini no poder. O presidente do Conselho, Facta, e o
velho Giolitti tinham a esperança de poderem servir-se de Mussolini. O rei Vítor Manuel III,
reservado e sem envergadura, convocou Mussolini para o encarregar de formar Governo; os liberais
aliaram-se com Salandra,

40

0 FASCISMO ITALIANO

que aceitou representar o fascismo na Sociedade das Nações; o exército tinha fornecido à milícia os
seus primeiros oficiais, e alguns generais, como o ilustre Cadona, eram mais ou menos
declaradamente simpatizantes do fascismo; o partido democrata-cristão aceitou colaborar e tomou
quatro pastas no novo Governo; muitos franco-mações aderiram ao partido(1); intelectuais célebres,
como Benedetto Croce, aderiram também; só os socialistas se mostraram contrários, mas
cometeram muitos erros de táctica, primeiro quando recusaram assumir o poder, depois quando
impediram Giolitti de voltar atrás, contribuindo assim para criar uma situação sem saída. .A vitória
do fascismo não resultou necessariamente da crise italiana, mas sim dum conjunto favorável de
cooperações valiosas - as classes dirigentes e o Estado - e dos erros e divisões dos seus adversários.

Benito Mussofini

O fascismo ficou a dever muito, sem dúvida, ao seu chefe. Nascido na Romanha, robusto,
com 39 anos em 1922, Mussolini foi desertor, agitador, socialista revolucionário, um passado
turbulento que o levou à prisão e ao exílio, e lhe valeu também, segundo parece, a simpatia de
Lenine. Professor primário, jornalista, foi um socialista intransigente, contrário a qualquer
colaboração com a burguesia. Depois, em 1915, deu a primeira reviravolta política, ao preconizar a
intervenção na
_________
(1) Antes de a franco-maçonaria ser dissolvida, Mussolini recebeu da loja de Palermo as insígnias do 33.º grau, conferidas como
homenagem natural.

41
OS FASCISMOS

guerra contra as potências centrais; tornou-se nacionalista, talvez apenas para que falassem dele.

Mussolini teve uma personalidade complexa, foi um extrovertido com gosto pelo
exibicionismo, e um cabotino com habilidade para causar ilusão sobre a sua realidade profunda.
Ambicioso, desmedido, alguns admiraram-no pelo seu gosto pela acção e a sua predilecção pela
violência, a outros afigurou-se indeciso e até pusilânime. De facto, com pouca cultura, polémico,
era bom orador mas não um pensador; com pouca instrução, autodidacta, admira-se a si próprio ao
subir no poder, aprecia o convívio com os grandes do mundo e coloca sobre a face plebeia a
máscara do chefe forjado na firmeza inabalável das suas convicções, seguro de si próprio e do seu
futuro.

Despreza o homem, esse «esterco da história», e mostra desprezo pelo povo italiano, «povo,
de carneiros, raça medíocre». Procura no passado de Roma a grandeza que a época em que vive não
tem. E diz: «Gosto de César», e, em 1920, exclama: «Roma, verbo mágico que preencheu toda a
história durante vinte séculos»; endureceu o perfil, imitando o de um busto antigo e regalou-se com
o retrato em que o pintor polaco J. Stycka o representou vestido de imperador romano, coroado de
louros (1) . Pensou em mandar construir um colosso no género do de Rodes, com as suas feições.

Em que medida a sua formação de homem da esquerda perdurou em Mussolini? E. Nolte


(2) pensa que no seu declínio, em Salo, Mussolini voltou a sentir uma
____________
(1) O que levou Paul-Boncour a chamar-lhe «César carnavalesco».
(2) E. Nolte, op. cit., t. II: Le fascisme italien.

42
O FASCISMO ITALIANO

inspiração socialista que nunca o tinha abandonado. Na verdade, afigura-se que Mussolini, por
oportunismo ou convicção, deu a sua reviravolta política em 1922. Passou para a direita porque,
segundo disse, «o mundo deseja ordem, disciplina, trabalho». Pensou então que «a guerra liquidou o
século da democracia; o igualitarismo democrático está a ponto de morrer, nascem aristocracias
novas e a revolução está nesta reacção... O socialismo acumula ruínas sobre ruínas; o capitalismo
vai mostrar-se mais dinâmico e mais histórico» (1).

Tal como era, pretensioso e ridículo, megalómano e cheio de arrogância, este individualista
descomedido captou a simpatia e admiração do povo italiano. Foi tal o seu ascendente que, na sua
ausência, os seus ministros não se atreviam a tomar qualquer decisão, os casos mais simples
ficavam em suspenso. Quando chegou aos cinquenta anos, estava barrigudo, com a saúde abalada, a
inteligência diminuída, a energia enfraquecida. Sem dúvida que a sua personalidade marcou o
fascismo; a decadência do regime coincidiu com a sua.

A evolução do fascismo (2)

O fascismo não saiu todo feito da cabeça de Mussolini, da mesma maneira que não resultou
inteiramente de contexto em que se gerou. Evoluiu, não segundo uma linha fixa prevista pelo seu
fundador, mas sacudido pelos acontecimentos, colocado muitas vezes na defensiva, quando não em
situação aflitiva.
_______________
(1) G. Vaccarino, «Mussolini devant ses biographies». Revue d’histoire de la deuxième guerre mondiale, Abril de 1957
(2) Max Gallo, L'Italie de Mussolini, Perrin, 1964.

43
OS FASCISMOS

A primeira fase do fascismo (1922-1925) foi assinalada pela prudência e incerteza.


Mussolini formou um governo com militares conhecidos, conservadores, democratas-cristãos, e
apenas quatro fascistas (segundo Togliatti, só a pressão do Vaticano o teria impedido de a ampliar
até aos socialistas) (1); o programa do Governo assemelhava-se ao de Nitti em 1919. O fascismo
ainda não tinha então saído por completo da via democrática, embora a tivesse viciado - a lei
eleitoral de Giacono Acerbo foi aprovada pela Câmara dos Deputados por 178 votos contra 158;
deu dois terços dos deputados à lista que tivesse 25 % dos votos. Mas a campanha eleitoral de 6 de
Abril de 1924 foi falseada com violências e tácticas de intimidação aplicadas pelos fascistas; e por
isso obtiveram 356 lugares. No entanto, na Ligúria, no Piemonte, na Lombardia, na Venécia, as
listas fascistas só tiveram 1 194 000 votos contra 1 317 000 para os antifascistas. Estes, portanto,
não perderam a partida, sobretudo depois do assassínio do deputado socialista Matteoti, em Junho
de 1924, executado por 4 «esquadristas» zelosos demais, o que provocou uma verdadeira crise de
regime. Muitos simpatizantes - Benedetto Croce, a ala esquerda da democracia-cristã - romperam
com Mussolini. Mas os 127 deputados da oposição, em vez de amplificarem a sua luta, retiraram
para o Aventino, numa inactividade que permitiu a Mussolini reparar os estragos.
Mussolini consolidou a pouco e pouco o seu poder, depois desta crise. Suprimiu a liberdade
de Imprensa

_____________
(1) Curso sobre o fascismo dado em Moscovo em 1935, in Recherches internationales à la recherche du marxisme, 3.º trim., 1971.

44

O FASCISMO ITALIANO

procedeu à depuração do funcionalismo público e fez desaparecer assim todo o obstáculo à


propaganda governamental. Algum êxito económico, traduzido em recuperação da produção e
diminuição do desemprego, permitiu a Mussolini dar início a grandes obras públicas - as primeiras
auto-estradas da Europa, a electrificação dos caminhos de ferro, a «bonificão» das terras - , que lhe
deram um grande prestígio na Itália de fora desta. Foi neste momento que houve uma primeira
emigração de opositores; é certo que nunca estes opositores deixaram de lutar, mas, partindo do
estrangeiro, a sua actuação sobre a opinão pública italiana tornou-se menos forte. Mussolini
aproveitou-se disto para aumentar os seus poderes: todas as leis tinham de ser-lhe submetidas antes
de serem apresentadas, e passou a poder actuar por meio de decretos-leis; diminuiu as liberdades
municipais, aumentando as dos governadores civis; leis de excepção permitiram privar de emprego
qualquer elemento suspeito. A lei eleitoral de 1928 criou «listas de confiança» para a Câmara dos
Deputados; a «lista nacional», elaborada pelo Grande Conselho Fascista, foi submetida ao corpo
eleitoral num plebiscito em que só se podia votar sim ou não - as eleições passaram a ser meras
formalidades. Foi esta a segunda fase da implantação progressiva do fascismo.

Paradoxalmente, Mussolini saboreou o seu triunfo com a crise mundial dos anos Trinta.
Esta atingiu duramente a Itália, cuja produção industrial diminuiu um terço, e o número de
desempregados passou de 1200 000. Foi então que Mussolini, para debelar a crise num impulso de
nacionalismo, revelou as suas ambições expan-

45
OS FASCISMOS

sionistas; lançou o estribilho das nações proletárias a quem as nações ricas tiram o pão da boca, e
exigiu uma repartição das riquezas do mundo mais equitativa. Da criação de um império colonial,
espera obter matérias-primas que a Itália é obrigada a importar, e uma válvula de escape para o
excedente populacional. As democracias ocidentais e a Alemanha nazi pretendem que Mussolini
seja seu aliado; o dirigente italiano desempenha papel de primeiro plano na Conferência de Stresa,
e, quando enviou tropas para Brenner, deu a impressão de deter o avanço nazi na Áustria. Na
conquista da Etiópia, Mussolini teve uma vitória completa; a hostilidade que lhe foi declarada na
Sociedade das Nações reuniu o povo italiano em volta de Mussolini, com a Igreja à frente, a partir
do momento em que passou a haver harmonia com O Vaticano, mediante a assinatura de uma
Concordata. Nessa altura, o culto do chefe atingiu o paroxismo - a imagem marcial do Duce, de
capacete, afirma nas paredes de Roma que Mussolini tem sempre razão. No interior, Mussolini
procura obter a unanimidade - o plebiscito de 1934 mostrou 0,15% de opositores apurados. O
Partido fascista passou de 1 milhão para 2 milhões de aderentes; com a admissãodos dos
desempregados na Milícia, esta ampliou a sua base popular. O partido deixou de ser um movimento
burguês; tornou-se incontestavelmente um movimento de massa. Foi esta a fase totalitária.

Na verdade, a guerra - foi este o quarto período - pôs impiedosamente a nu o carácter


fictício, quase verbal, de um êxito aparente que ocultava a grande fraqueza da Itália fascista.
Mussolini tentou fazer no Mediterrâneo

46

O FASCISMO ITALIANO

a sua «guerra paralela»; mas as derrotas militares - na Africa e na Grécia - depressa o colocaram a
reboque de Hitler. A adopção do passo de ganso, a proclamação de um racismo italiano até ali
inexistente foram, no interior do país, os indícios desta imitação. Os reveses, as tensões provocadas
pelo conflito, fizeram surgir uma crise que veio a ser mortal para o fascisrno. De facto, o esforço de
guerra foi financiado pela inflação; a situação dos trabalhadores piorou em salários reais, devido ao
aumento do custo da vida - 300 % de 1943 a 1944; as compras de alimentos, que absorviam 25 %
de um salário em 1933, exigiam 75 % do mesmo salário em 1943. Por falta de mão-de-obra, a
produção de trigo diminuiu; os rendimentos fixos depreciaram-se e o mercado negro espalhou-se
como praga. A partir daí, sofreu grande abalo a unanimidade entusiástica que envolvia o Duce. As
pequenas e médias empresas, seu apoio fundamental, eram as que sofriam maiores dificuldades; os
operários da Itália do Norte entraram em amplas greves em Março de 1943; de nada serviu
processar 1800 pessoas em Maio-Junho de 1943; as classes possidentes, a aristocracia, o grande
capital perderam toda a coragem. Este «bloco do poder» pediu protecção aos anglo-americanos
contra o bolchevismo. Mussolini caiu, renegado pelo Grande Conselho Fascista, preso pelo mesmo
rei que, na
véspera lhe tinha garantido a amizade; ninguém tentou defendê-lo, nem sequer a divisão blindada
da Milícia. Assim se revelou a fragilidade do castelo de cartas erguido pelo fascismo. De novo em
liberdade, refugiado em Salo, Mussolini afirma que regressa ao socialismo da sua juventude; já não
passa de um satélite da Alemanha,

47
OS FASCISMOS

e poucos o acompanham. Voltou a ser preso, abandonado por todos, mataram-no, e o seu cadáver,
pendurado pelos pés, foi exposto às vaias da mesma multidão que o tinha incensado (1) .

O fascismo e a sociedade italiana (2)

O fascismo penetrou todas as classes da sociedade italiana; tal como o antifascismo, foi um
fenómeno interclasses; mas os elementos componentes dos dois complexos estavam em proporção
contrária. O quadro em que o fascismo queria inserir a Sociedade italiana era o nacionalismo. O
fascismo praticou uma política de expansão no Mediterrâneo - retomando assim uma tradição
italiana que vinha da Idade Média foi prosseguida pelos impérios de Génova e Veneza. Em 1932,
Mussolini incluiu explicitamente a guerra na «doutrina do fascismo», a guerra que «leva até ao
máximo de tensão as energias humanas e dá um cunho de nobreza aos povos que têm a coragem de
lhe fazer frente». O Duce, depois de ter dito que «o fascismo não é artigo de exportação», tentou
impô-lo aos italianos emigrados e em seguida aos territórios conquistados durante a segunda guerra
mundial (3). Desta maneira, reagrupou toda a nação com a conquista da Etiópia; mas a entrada no
segundo conflito
__________
(1) Cf. Gallerano, A Frente Interna, número especial da Revue d’histoire de la deuxième guerre mondiale, acerca da Itália, Outubro de
1973.
(2) Guido Quazza e outros, Fascismo e societá italiana, Turim, Einaudi, 1973.
(3) Y. Vujosevic, «A ocupação italiana» (na Jugoslávia), Revue d’histoire de la deuxième guerre mondiale, Julho de 1972.

48

O FASCISMO ITALIANO

mundial não teve apoio popular, e a sujeição aos «tedescos» foi frontalmente impopular.

Os seus melhores apoios teve-os o fascismo nas classes médias e nos camponeses - que
constituíam a maior parte dos antigos combatentes. F. Catalano mostrou que sempre que os laços
entre o regime e a pequena burguesia se tornaram tensos, o regime esteve perante dificuldades: em
1924 e 1926, com a inflação monetária, em 1932-34 com a crise económica e o rearmamento.
Quanto aos rurais, a protecção aduaneira aos cereais, a «bonificação completa» das terras por
drenagem, irrigação e repovoamento florestal (pântanos pontinos, campina romana), a propaganda
para a batalha do trigo, os gestos espectaculares de Mussolini ao trabalhar pessoalmente na ceifa,
tudo isto foram atenções que os camponeses nunca tinham tido. E. Nolte tem razão em dizer que o
entusiasmo não era fictício quando Mussolini proclamava: «Numa Itália toda aproveitada, quer
dizer, fascista, ainda há lugar e pão para mais 10 milhões de habitantes.»

A aprovação da Igreja, aliás, assegurava a adesão do Sul. Pio XI desautorizou Dom Sturno,
chefe da democracia-cristã, adversário do fascismo depois do assassínio de Matteoti; em 1924, a
revista dos Jesuítas colocou-se contra a liberdade de Imprensa e elogiou o fascismo. Na Concordata,
a Igreja obteve que o Estado aceitasse os princípios católicos quanto ao casamento e ao ensino
religioso; o ateu Mussolini torna-se «homem da Providência». Para o clero italiano, a guerra da
Etiópia foi uma cruzada. Pio XI manifestou o desejo de que « as esperanças, as exigências, as
necessidades de um povo bom

49
OS FASCISMOS

e grande sejam satisfeitas, que os seus direitos sejam garantidos». Em 1937, ao inaugurar as lições
de «mística fascista», o cardeal Schuster comparou Augusto e Mussolini, «salvadores do Estado,
fundadores do Império». Aliás, uma parte dos democratas-cristãos tinham aderido ao fascismo. O
apoio da Igreja nunca faltou ao fascismo, e, neste ponto, Mussolini foi especialmente tradicionalista
(1).

Mas sem os subsídios dos industriais e dos agrários, o fascismo, conforme vimos, não teria
vingado. Os seus protectores não desperdiçaram os seus benefícios com um ingrato. Passou-se uma
esponja por sobre os lucros ilícitos da primeira guerra mundial, o imposto sucessório, teve reduções
e suprimiu-se o controlo dos preços e alugueres. Os seguros, ao contrário do que se tinha
projectado, não foram nacionalizados, e a indústria dos fósforos e a rede de energia eléctrica foram
devolvidas ao sector privado. Mais tarde, quando da crise, o Estado deu ajuda aos bancos que
tinham dificuldades; facilitou os agrupamentos e fusões, comprando as acções que os bancos tinham
em seu poder. É certo que o Estado fascista, desejoso de estabelecer a autarcia económica,
intervinha na economia e assumiu cada vez mais intensamente a sua orientação; reforçou o seu
controlo do aparelho de produção companhias de navegação, construções navais, siderurgia, etc.
Mas não modificou as suas estruturas; manteve a propriedade privada e a economia de mercado;
privatizou os lucros e socializou os prejuízos.
___________
(1) F. Magri, La democrazia cristiana in Italia, t. I, Milão 1954

50

O FASCISMO ITALIANO

Por conseguinte, o fascismo, embora sustentado pela pequena burguesia, não foi o regime desta;
não só não proporcionou à classe da pequena burguesia o papel de classe dirigente, como promoveu
concentrações de empresas que prejudicaram a pequena burguesia. Deste ponto de vista, o fascismo
prosseguiu a política da Itália liberal; aumentou até a ajuda ao capitalismo, reprimindo os sindicatos
e proibindo a greve.

Quer isto dizer que o «socialismo fascista», como afirma Guido Quazza, é apenas um
«revolucionarismo verbal»? É verdade que o Estado Corporativo, insitituído em 1927 pela Carta do
Trabalho, criou um sindicalismo, oficial e dócil (1) ; em princípio, subordinou os interesses
privados ao interesse nacional; de facto, decretando uma igualdade teórica entre os «parceiros
sociais», confirmou a desigualdade a favor do patronato. O fascismo, portanto, só foi «socialismo,»,
que no fim de contas não passou do papel,na República de Salo em 1944-1945, quando o programa
de Verona previu nacionalizações, e até expropriações, na altura impossíveis. Mas não teria tido
adesão, entre os operários se não tivesse sido, no início, um «regime social» - ao passo que o
Risorgimento, burguês e liberal, deixou a Itália destituída de leis sociais. Embora o «dopolavoro»,
instituição de recreio e aculturação para os operários fora das horas de trabalho, se destinasse
sobretudo à propaganda, as caixas mútuas de seguros foram reagrupadas por sectores e federadas
num
(1) 0 debate do regime corporativo foi uma das poucas discussões livres do fascismo; uma ala esquerda, com Ugo Spirito, queria que as
corporações substituíssem os proprietários.

51
OS FASCISMOS

Instituto Nacional do Seguro contra a Doença; criaram-se outros organismos para os subsídios
muito pequenos (1). Neste aspecto o fascismo, capitalista e social, assemelhou-se ao Segundo
Império.

Consciente das dificuldades que se lhe deparavam para ser aceite pelos adultos, o fascismo
pôs muitas esperanças nos jovens, por ele formados para «colocar a vida nacional - como dizia
Mussolini, com alguma futilidade - ao nível do Império». O poeta futurista Marinetti louvava,
censurando «a vida em pantufas», o «homem novo» de que Mussolini era o protótipo, e preconizava
a ética espartana da dedicação, disciplina e sacrifício, o «homem integral, o fascista», acrescentava
o ministro Bottai. Adoptou-se um livro único para a instrução primária - os professores primários, a
partir de 1931, passaram a ser obrigados a dar as aulas com o uniforme fascista; as crianças dos 8
aos 18 anos estavam alistados nos «Balilas» (2) , e os estudantes universitários eram militantes de
«grupos universitários fascistas». A ginástica, o desporto, a preparação militar constituíam o
essencial da instrução pública. Todos os anos, para comemorar a «marcha para Roma», se
organizava uma grande marcha que terminava com um desfile de dezenas de milhares de jovens,
para mostrar o «orgulho gruerreiro». A «cultura fascista» foi definida por um discípulo de
Benedetto, Croce, Gentile, como «a moral e estilo que

__________
(1) Capoferri, Venti anni con fascismo et con i sindicati, Milão, Gastaldi, 1957.
(2) Em memória do apelido da criança que teria dado o sinal de uma revolta antíaustriaca em Génova, em 1746.

52

O FASCISMO ITALIANO

permitem ao indivíduo realizar-se por meio de uma adesão sem reservas à colectividade»; e o
historiador Volpe demonstrou que o fascismo correspondia ao gênio e perpetuava o passado da
Itália. O facto é que Gentile, com um ensino humanista, baseado na filosofia e na história,
consolidava os «valores» elitistas da burguesia. Nas universidades manteve-se alguma latitude de
expressão, tanto mais que os antifascistas desorganizavam os grupos fascistas pelo processo da
«infiltração». De modo geral, a partir de 1925, os intelectuais italianos contrariaram o fascismo,
embora a maior parte deles, como os universitários, não o tivessem combatido; e no entanto, foi no
campo da cultura que o fascismo sofreu uma quase-derrota (1). Mas este semi-revés, não oculta a
adesão quase geral ao fascismo, pelo menos até aos primeiros reveses militares na Grécia, em
Outubro de 1940. O que mostra a força e a coesão do fascismo, é a fraqueza da oposição; os
exilados quase não tiveram influência na opinião pública; no interior, a resistência foi quase
inexistente até 1943; o fascismo não foi derrubado pela oposição.

Em vinte e cinco anos, o fascismo nasceu, cresceu e morreu; desta maneira, toda uma
geração de italianos sofreu a sua influência. A evolução do fascismo foi hesitante, desordenada e
mais oportunista do que verdadeiramente dirigida; a sua «doutrina» foi elaborada empiricamente. A
sua originalidade não é contestável, mas, no seu momento de maior força, consolidou mais do que
_________
(1) M. Ostenc, «A Juventude Italiana e o Pascismo», Revue d’histoire de la deuxième guerre mondiale, Abril de 1974.

63
OS FASCISMOS

dominou as classes dirigentes - principalmente depois de o parido ter deixado de desempenhar papel
autónomo para se adaptar ao Estado tradicional. O fascismo, portanto, foi um movimento de
tendência conservadora, mas não reaccionário; diferentemente dos grupos de extrema-direita, nos
quais às vezes se inspirava, conseguiu, pelo menos durante um tempo, identificar-se com a nação e
obter a adesão do povo.

O período fascista coincidiu com a transição da Itália de uma economia agrária para uma
economia industrializada. Em virtude da sua grande duração, não podia deixar de ter consequências
que R. Tannenbaum enumera da maneira seguinte (1): Os «acordos de Latrão», os códigos de leis
criminais e civis, a ideia do aval do Governo ao desenvolvimento económico, a política de grandes
obras públicas. Não foi completamente totalitário, porque deixou subsistir as antigas oligarquias, o
rei, a corte, a aristocracia, porque não exterminou os seus adversários, e porque a sua propaganda
foi verdadeiramente benigna, quando comparada com a de um Dr. Goebbels.

Mas o crescimento económico foi mais lento que o da polícia; as diferenças de níveis de
vida entre o Sul e o Norte da Itália não evoluíram; as relações de classe não se modificaram; o
sistema económico continuou a ser o mesmo. Mas foi sobretudo ao tratar o povo italiano como de
menor idade, ao condenar esse povo à inércia, que
_________________
(1) E. R. Tannenbaum, The fascist experience, Italian Society and culture, New york, 1972.

54

O FASCISMO ITALIANO

O fascismo travou o seu desenvolvimento cívico e cultural (1) .


____________
(1) O Movimento Socialista Italiano (MSI), criado em Dezembro de 1946, agrupou a princípio antigos fascistas com fins de auxílio
mútuo; em 1948, apenas teve 520 000 votos, ou seja, 2 % dos sufrágios; em 1953 teve 1582 000, ou seja 5 %; a partir daí, tem mantido as
suas posições. O seu programa, inspirado no da República de Salo, diz ser «social e revoluc1onário». Está dividido em «tendências», uma
que defende o racismo e anti-semitismo nazis - tardios e fracos no fascismo de Mussolini; mas também voltou aos métodos activistas dos
«esquadristas» o desordens de rua.

55
III
O NACIONAL-SOCIALISMO

Embora o fascismo tivesse sido anterior ao nacional-socialismo, e este tenha imitado alguns
ritos daquele, e se bem que Hitler tenha sempre admirado Mussolini, a verdade é que o nacional-
socialismo, salvo o exemplo, pouca coisa ficou a dever ao fascismo italiano; este só se tornou anti-
semita muito tardiamente; criou campos de internamento, mas não de concentração; não criou nada
que se parecesse com a SS e não tentou submeter a Igreja. Aliás, os dois Estados totalitários,
embora unidos na mesma hostilidade à democracia e ao marxismo, e se bem que lutassem ambos
por uma revisão do Tratado de Versalhes, foram hostis durante muito tempo em particular quanto à
Áustria - antes de se tornarem aliados; a sua aliança foi frequentemente agitada, e ao fim e ao cabo,
o nazismo alemão acabou por colocar inteiramente ao seu serviço a República de Salo, sequela, do
fascismo, que o mesmo nazismo alemão auxiliou e depois votou ao desprezo.

A razão disto está no facto de o nacional-socialismo ter sido um movimento profundamente alemão. Sem
recuar até aos Ger-

57
OS FASCISMOS

manos, indissoluvelmente ligados aos seus chefes, nem à Sociedade de Tule que pretendeu criar uma «Ordem
dos Germanos» antes da primeira guerra mundial (1), é forçoso notar que pensadores completamente
diferentes uns dos outros, como Fichte, Hegel e o socialista Lassalle ensinaram os Alemães a venerar o
Estado. Max Weber proclamou a necessidade da dedicação total ao chefe, ao herói; Fichte queria um ditador,
e os românticos sonhavam com o Santo Império Germânico, ao mesmo tempo que pretendiam um Direito
Inspirado no «espírito alemão». Os precursores imediatos foram Dietrich Eckart, que desejava encontrar um
chefe nascido do povo que soubesse falar ao povo, e Moeller Van den Bruck, autor do famoso livro O III
Reich e grande depreciador da Revolução Francesa; Stefan George sonhava com uma «guerra, santa» que
«salvasse a civilização», e clamava pelo «único», pelo «salvador»; Spengler proclamou que «o homem é um
animal de presa» e que «os Estados se fizeram para a guerra»; o próprio Thornas Mann opôs a cultura
germânica ao Ocidente (2).

Havia nisto tudo os elementos dispersos de uma doutrina e um comportamento. Por isso o historiador
Meinecke, põe em destaque, no espírito alemão, uma tendência irresistível para passar das realidades para um
mundo metafísico, no qual espera uma espécie de redenção. Com o nazismo, este absoluto é colocado na
própria realidade terrestre e física. O Estado confunde-se com a força; pensa-se em coesão pela coesão, no
Reich pelo Reich (3). Passou-se do universalismo idealista de Goethe para um nacionalismo limitado, em
nome do realismo.

No plano das instituições, o exército prussiano, foi instruído tendo em vista o rendimento máximo
com um verdadeiro adestramento - descrito por E. von Salomon em Les Cadetts -, obediên -
______________
(1) Claude David, Hitler et le nazisme,PUF, 1969; René Alleau, Hitler et les sociétés sécrètes, Grasset, 1969.
(2) Mosse, The crisis of German ideology, Intellectual origins of the third Reich, New York, 1964.
(3) E. Vermeil, «As Ideias de Meinecke sobre as Origens da Catástrofe», Revue d’histoire de la deuxième guerre mondiale, Outubro de
1951.

58
O NACIONAL-SOCIALISMO

cia rigorosa, pedantismo na execução; tinha-se esquecido que o exército e a guerra não são fins em si
mesmos. A Liga Pan-Germânica, portadora do pensamento oficial a partir de Guilherme II, usava a palavra
povo para designar o conjunto dos homens da mesma origem. A partir de 1912, esta Liga chamou por um
Führer; apontou a guerra como um acontecimento providencial; atacou os perigos do sufrágio universal e
ensinou que a força do Estado provém dum campesinato saudável e fecundo. Para resolver os problemas
sociais, devia ampliar-se o espaço vital alemão - a Liga enumerava as anexações de território com prejuízo
para a França. Deveria instituir-se uma ordem nova, para dar pureza à raça alemã e força ao Estado(1).

Todos estes precursores e antecedentes não significavam que a Alemanha estava


necessariamente destinada a ser nacional-socialista; ao fim e ao cabo, o pensamento contra-
revolucionário francês não impediu a França de ser uma República centenária - com excepção dos
quatro anos de «Vichy». Mas os fermentos eram muitos à disposição de agitadores hábeis,
fermentos que circunstâncias favoráveis podiam fazer germinar.

O advento do nazismo

Os acontecimentos favoráveis foram a derrota de 1918 e a «grande crise dos anos Trinta»; o
agitador hábil foi Adolfo Hitler. A bem dizer, já existiam causas anteriores. A unidade do povo
alemão tardia, mas rápida e violenta, a sua industrialização recente; mas a ritmo rá-
____________
(1) A. Kruck, Geschichte des Alldeutschen Verbandes, Wiesbaden, 1954.

59
OS FASCISMOS

pido, desenvolveram no povo alemão, com o culto da eficiência e do rendimento, a saudade do


passado, a necessidade duma comunidade nacional muito fortemente estruturada; um espírito de
conquista e poder desenvolveu-se assim num fundo de misticismo. A derrota de 1918, atribuída à
traição dos socialistas e dos judeus, a humilhação nacional provocada pela perda de territórios,
suscitaram uma vaga de nacionalismo - «corpos francos» de voluntários procuraram atrasar a
aplição dos tratados, especialmente na Alta Silésia - e deram origem a um desejo de desforra contra
os traidores e os vencedores. A crise económica originada pela derrota, com a inflação galopante
que a acompanhou, voltou a corroer a economia nacional com a crise mundial dos anos Trinta; a
Alemanha tinha 1500 000 desempregados em 1929, cerca de 6 000 000 em 1932; a produção
desceu para 50 %, e depois para 30% da de 1929; a ruína das classes médias, a miséria do
proletariado, «atomizavam» a sociedade alemã.

O Partido Operário Nacional-Socialista nasceu em 1921, surgindo como um entre muitos grupos
nacionalistas que não aceitavam a democracia nem a derrota. Em 1922 organizou o seu primeiro congresso e
começou a publicar o seu jornal, o , Hitler assumiu a direcção do partido, depois de ter eliminado o seu
fundador, DrexIer; em 1923, o partido tentou um golpe em Munique, mas a tentativa falhou e o partido teve
16 Mortos; Hitler foi então preso; em 1924, o partido apenas teve 6,6% dos votos nas eleições; em 1928, esta
percentagem de votantes desceu para 3,5 %. 0 partido continuou a ser fraco, mas bem estruturado, com
secções de assalto (as SA), os chefes regionais (os gauleiters), as secções de segurança (as SS), as filiais de
juventude, estudantes. A crise económica proporcionou-

60

O NACIONAL-SOCIALISMO

-lhe os seus eleitores - a partir de 1929 o número de desempregados aumentou proporcionalmente ao número
de votos que o partido teve: em Setembro de 1930, 18 % dos votantes e com isto 107 deputados.

Os conservadores, os industriais, o exército começaram a sentir então um forte interesse por este
grupo. O presidente Hindenburgo recebeu Hitler; o chanceler Bruning propôs-lhe a entrada para o Governo;
houve subsídios de magnates da indústria. Embora Hitler tivesse sido batido por Hindenburgo na eleição
presidencial de 13 de Março de 1932, poucos meses depois 37 % dos eleitores votaram nos candidatos do
partido. Quando Bruning, vou Papen, von Schleisher governaram por decretos-leis contra o Parlamento,
convidar Hitler para formar o Governo pode afigurar-se democrático; concedendo apenas quatro pastas ao
partido, os conservadores esperavam confiná-lo numa posição subalterna. Mas Hitler dissolveu o Reichstag, e,
em eleições em que as irregularidades foram muitas e as pressões foram muito fortes, o partido passou para 44
% dos votos; em 5 de Março de 1933, Hitler assinou uma Concordata com a Igreja Católica e saiu da
Sociedade das Nações - os seus dois primeiros êxitos no exterior. Dissolveu o partido comunista depois do
incêndio do Reichstag, organizado por Goering, proclamou o partido nacional-socialista como partido único,
e, em 23 de Março de 1933, com a maioria constitucional de dois terços, obteve para si plenos poderes - o
executivo e o legislativo ficaram daí em diante nas suas mãos.

Em poucas semanas, o hitlerismo colocou a Alemanha sob o seu domínio, mantendo


aparências de legalidade. Na verdade, tinha começado por fazer reinar o terror nas ruas - por meio
de desordens e expedições punitivas. Os plenos poderes só foram concedidos com a exclusão de
80 deputados comunistas e com as SA e as SS a ocupar a sala das sessões. Em 1933 o partido
manifestou fadiga, causada por lutas internas e dificuldades financeiras; perdeu dois milhões de
votos em relação às eleições de

61
OS FASCISMOS

1932, foi então reanimado pela grande indústria, Thyssen, Krupp, I. G. Farben, magnates da
Imprensa (Hugenberg), financeiros (Schroeder e Schacht), e foi apoiado pela generalidade dos
conservadores, receosos da revolução social depois de uma greve dos transportes em Berlim e
quando se afigurava que ia começar a recuperação económica. Por outro lado, os socialistas e os
comunistas não se uniram para combater o hitlerismo; em nada ajudaram Bruning e o Centro
Democrático. Desta maneira, Hitler não chegou ao poder desacompanhado; os conservadores
facilitaram-lhe a subida, e a divisão dos seus adversários também facilitou esta ascensão. Conforme
disse Brecht, a elevação de Hitler ao Poder era perfeitamente «resistível» (1)

Adolfo Hitler

A personalidade de Hitler fascinou o povo alemão, antes de intrigar muitos historiadores


(2). Os crimes horríveis que ordenou ou permitiu que se cometessem fizeram com que fosse
apodado de louco sanguinário. A autópsia do seu cadáver revelou que tinha uma deformação sexual
congénita, geradora de apatia e aspiração à grandeza; era um psiconevrótico, na fronteira da esqui-
_____________
(1) G. Castellan, «Forças de Oposição ao Advento do II Reich», Revue d’histoire de la deuxième guerre mondiale, Outubro de 1959;
Bracher ete., Die nazionalsozialistische Machtergreifung, Colónia, 1960.
(2) W. Gorlitz, H. Quint, Adolf Hitler, eine biographie, Stuttgart, 1952; Max Dornarus, Hitler, reden und proklamationen, Warzburgo,
1962; W. C. Langer, The mind of Adolf Hitler, New York, 1972; E. Jaeckel, Hitler idéologue, Calmann-Lévy, 1973.

62

O NACIONAL-SOCIALISMO

zefrenia; mas, embora a nevrose se tivesse agravado com as derrotas, era perfeitamente capaz de
lógica e eficiência. Mantém-se na sombra todo o período da sua formação, embora tivesse escrito
muitos pormenores a seu respeito no Mein Kampf; nunca escreveu cartas nem elaborou qualquer
diário; tem de recorrer-se aos seus disscursos, directrizes, «conversas à mesa», relações humanas
para se ter uma ideia desta personalidade. É provável que tivesse tido uma infância ao mesmo
tempo fácil e difícil, entre um pai autoritário e uma mãe excessivamente protectora. Artista falhado,
boémio, adquiriu no exército alemão - tomou parte na guerra de 1914-18, embora fosse austríaco - o
sentido da hierarquia e da disciplina.

Gabou-se sempre da enorme quantidade das suas leituras - Nietzsche, Schopenhauer,


Mommsen..., «às centenas de quilos» - mas a sua biblioteca apenas tinha 1500 volumes, e nem um
só destes era realmente clássico ou científico. No entanto, com memória excelente, surpreendia às
vezes os convidados com uma erudição súbita no meio da salsada monótona dos seus intermináveis
monólogos. Mostrou ter uma inteligência doutrinária e simplificadora. Manhoso, hábil, muito forte
na arte da mentra e da dissimulação, era às vezes lento na tomada de decisões, depois de
intermináveis consultas com os seus íntimos; mas também era capaz de decisões súbitas, devidas a
uma espécie de alucinação - mostrou ser um completo oportunista ao aproveitar as ocasiões, que se
lhe deparavam. Manifestou a mais completa indiferença para com os sofrimentos que infligia aos
seus semelhantes, mas preoeupava-se muito com a sua segurança pes-

63
OS FASCISMOS

soal e as suas próprias ninharias, e mostrava-se muito bondoso para o cão. Este cinismo
misantrópico destruiu nele todo o calor humano; Speer observou que Hitler, fascinado pela
eternidade de monumentos colossais, não manifestava o mínimo interesse pelas zonas de
urbanização. Mas o facto é que um magnetismo surpreendente e uma aparente confiança completa
na sua missão, tornavam histéricas as multidões às quais pregava. «No começo do III Reich não era
o Verbo», escreveu Herbert Luthy, «mas sim um grito saído do mundo zoológico». Todavia, Hitler
tinha qualidades de chefia incontestáveis; sabia impor a sua autoridade aos recalcitrantes,
desorganizar e oposição, intimidar e neutralizar os adversários. Por isso mesmo cada vez mais se foi
convencendo, da própria infalibilidade.

Hitler, primeiro que tudo, foi um patriota alemão; a sua ambição, significava a inteira
dedicação à pátria; quem atacasse a Alemanha injuriava-o pessoalmente. Considerava-se um
ideólogo, que ao mesmo tempo era profeta. Na verdade, a sua «doutrina» constituía uma manta de
trapos feita de bocados apanhados aqui e acolá, sem originalidade nem coerência. Manta que servia
para cobrir um oportunismo natural levado até ao niilismo, até ao jogo do «tudo ou nada». Mas
depressa formulou objectivos políticos precisos, que não sofreram nenhuma variação e cujos três
temas principais eram os seguintes: anti-semitismo, antibolchevismo, expansionismo. Jaeckel fala
«de um espírito consequente orientado para a autodestruição. O que tornou Hitler uma personagem
histórica com dimensão excepcional foi o facto de a sua «doutrina» e o seu comportamento se terem

64

O NACIONAL-SOCIALISMO

entranhado num terreno bem preparado, psicológica e socialmente. Hitler orquestrou para as massas
certos temas dos quais não era o autor, mas formavam o fundo do nacionalismo alemão, e aos quais
as circustâncias davam uma força persuasiva singular, que na excitação oratória entrava em transes
de epiléptico, foi também um estadista, um «génio sombrio» corno lhe chamou De Gaulle.
Colocado no poder por uma minoria forte, os seu êxitos identificaram-no com a nação alemã (1);
sem Hitler, o nacional-socialismo não teria sido aquilo que foi.

O partido nacional-socialista

De 1929 até 1933, o número de filiados no partido nacional-socialista passou de 400 000
para 1300 000; o partido não parou de crescer depois de 1933, em virtude das pressões exercidas
sobre os funcionários e da obrigação de ser membro do partido para ter acesso a lugares de chefia
nas organizações profissionais. A maior parte dos membros do partido pertenciam às classes
médias; mas os operários constituíam um terço do total; a implantação era mais forte nas cidades
que nos campos, e os camponeses, principalmente nas regiões católicas, eram os menos
representados (2). Sigmann distinguiu três espécies de filiados: os alte Kampfer (os pioneiros de
antes de 1933), as grandes formações dos anos 35, 37 e 40, onde eram numerosos os oportunistas
que entra-
__________________________
(1) Baldur von Schirach, nas Suas Memórias, escreveu que «só pode haver Hitler num povo que deseja e quer ter um Hitler».
(2) W. Schaefer, NSDAP, Frankfurt, 1958.

65
OS FASCISMOS

ram para o partido em vagas sucessivas, e as inscrições feitas nos intervalos entre estas datas, para
as quais se exigiram garantias de ortodoxia política (1). Geograficamente, as zonas favoráveis ao
nazismo foram as de predominância luterana, se bem que também tenha sido nestas zonas que os
marxistas tiveram mais votos nas eleições (2). O número de quadros dirigentes de todas as espécies
era notável, cerca de 500 000. Os postos inferiores não eram retribuídos, mas os «kreisleiters» e os
«gauleiters» tinham retribuição e eram todos nazis fanáticos. Pôs-se frequentemente em destaque o
baixo nível intelectual destes dirigentes; no entanto, uma grande parte das élites aderiu, visto que,
das 4000 personalidades do regime, 670 pertenciam à aristocracia, 1050 tinham títulos de doutor e
330 eram professores universitários. Por conseguinte, o partido representava quase toda a sociedade
alemã.

O partido estava hierarquizado numa divisão territorial, cabendo-lhe o papel de enquadrar


toda a população; o bairro, a cidade e o distrito tinham chefes responsáveis, as organizações
profissionais também. As mulheres voluntárias entravam para a NS Frauenschaft. Foram
dissolvidos todos os movimentos juvenis, sendo os jovens agrupados em organizações do partido,
conforme a idade; a adesão, de começo deixada em princípio à decisão dos país, passou a ser
obrigatória em 1936; em 1939, os contraventores foram considerados traidores: «Toda a juventude -
decretou Hitler - receberá, fora do lar e
_____________
(1) J. Sigmann, Qu’est-ce-qu’un nazi?, Friburgo, 1948.
(2) G. Castellan, op. cit.

66

O NACIONAL-SOCIALISMO

da escola, uma educação moral para servir a comunidade segundo o espírito nacional-socialista.»
No entanto, o partido não tinha a dirigi-lo uma organização com poderes efectivos, e o Parteileitung
não passava de uma constelação de chefes. Isso resultou de Hitler não ter sido capaz de escolher
entre duas concepções; Robert Ley, com a sua Frente do Trabalho, que reunia todos os
trabalhadores, pretendia um partido de massas e dava relevo à grandes manifestações de propaganda
e à acção social, numa palavra, identificava o partido com a nação; outros, como Rudolf Hess e
Martin Bormann, pelo contrário, pretendiam um corpo de dirigentes escolhidos, encarregado de
missões de fiscalização e direcção (1).

Desta maneira, não se suprimiu a dualidade, partido-administração, corrente; no concelho,


no distrito, esta dualidade manifestava-se em conflitos entre dois homens, embora os funcionários,
de modo geral, tenham sido fiéis. No escalão regional, os 31 gauleiters do partido dirigiam
circunscrições diferentes dos 17 Estados do Reich, e as suas atribuições estavam mal definidas:
tinham uma burocracia, uma Imprensa, dinheiro, e no momento do perigo, foram encarregados dos
problemas;da defesa; mas consideravam-se dependentes directamente de Hitler e tiveram conflitos
com o ministro do Interior, Frick, e em seguida com, Himmler, este último inimigo pessoal de
Rudolf Hess, que representava Hitler no partido. Embora, em princípio, tudo fosse hierarquizado
pela genelalização do Pührer-prinzip, a organização manteve-se de facto caótica, incompleta, com
multas baronias autóno-
___________
(1) D. Orlow, The history of the nazi party, Pittsburg, 1973.

67
OS FASCISMOS

ma; a imcompetência, a avidez, as ambições, o número de dignitários do partido davam mais uma
nota suplementar de anarquia (1). É possível que Hitler, ao fim e ao cabo, tenha sido enleado pelo
partido quando se tornou senhor do Estado. Mas todos se lhe declaram fiéis, e, entre os dirigentes
nazis, os que tiveram os papéis mais importantes foram os que com Hitler privaram mais de perto e
com maior regularidade.

O próprio Hitler tomava em geral as decisões; entre os seus colaboradores directos, apenas
cinco exerceram influência pessoal. Goering, oficial aviador, combatente brilhante em 1914-18,
acumulava títulos, honras e proveitos: fundador da Gestapo e dos campos de concentração, criador
da Luftwaffe, ditador da economia, era também coleccionador, mecenas e larápio; era um vaidoso,
uma mistura de bonomia e crueldade, encanto e ferocidade, chefe e salteador, e também um
toxicómano (2). O Dr. Goebbels, fraco, orador disposto a defender todas as causas, comediante
consumado, organizou a propaganda do regime, utilizando da melhor maneira, pela primeira vez na
História, a rádio e o cinema. Foi ele quem lançou a «marca Hitler», dando de um agitadorzito de
cervejaria a imagem de um profeta, salvador do povo; eudeusou, o Führer, lançou o «Heil Hitler»,
convencendo a pouco e pouco os Alemães da essência sobrenatural de Hitler, mas renovando
também
____________
(1) D. Orlow escreve: «A história do partido nazi constitui a lenda de revolucionários destruídos pela lógica incoerente dos seus
próprios valores.»
(2) R. ManwelI, EI. Fraenkel, Hermann Goering, Londres, Heinemann, 1962.

68

O NACIONAL-SOCIALISMO

periodicamente o ciclotímico entusiasmo do próprio Hitler (1). Rosenberg, oriundo do Báltico, era o
ideólogo do regime, com um livro muito vendido mas confuso, O Mito do Século XX. Foi ele quem
lançou o mito da superioridade da raça nórdica - no qual Hitler não tinha fé nenhuma - e, proclamou
o direito dos senhores ao espaço vital e ao domínio sobre as raças inferiores; demonstrou que o
cristianismo é alheio à germanidade; director da Hohe Schule, centro de estudos ideológicos e
pedagógicos nacional-socialistas, foi nomeado por Hitler para o cargo de «comissàrio para a
conservação da concepção do mundo nacional-socialista». O mais influente dos colaboradores
íntimos, no entanto, foi Martin Bormann, porque, privando muito com o Führer - era ele quem
geria, os bens de Hitler - tinha com o chefe os contactos mais numerosos, visto ser chanceler do
partido; nazi fanático, anti-semita feroz, tinha na mão os gauleiters e afirmava constantemente a sua
fé no Reich eterno, incarnado pelo Führer, «o maior homem da humanidade» (2). Mas o mais
temível era o aparentemente insignificante H. HimmIer, engenheiro agrónomo; este não pretendia
as satisfações do poder, nem os êxitos pessoais, fossem de que espécie fossem. Levava uma vida
muito simples, tinha desprezo pelo dinheiro, era desumano por fanatismo e dedicou a vida à
formação do escol nazi, a SS (3).
______________
(1) Id., Goiebbels, ibid, 1960.
(2) H. R. Trevor-Ropper, The Borman letters, Londres, 1954; J. Wulf, Martin Bormann, Hifiers-Schatten, Güterhsloh, 1962.
(3) E. Vermell, «Himmler», Revue d’histoire de la deuxième guerre mondiale, Janeiro de 1955; é mais difícil de avaliar a in-

69
OS FASCISMOS

As SS

Para sua protecção pessoal, Hitler constituiu uma guarda que foi denominada, em 1925, Schutz-Staffel -
secção de protecção. Mas a milícia do partido, comparável com a milícia fascista italiana, era constituída
pelas Secções de Assalto (SA), comandadas por R. Rõhm, antigo oficial. Quando Himmler assumiu o
comando das SS, em 1930, aumentou as actividades destas: protecção das personalidades principais do
partido, serviço de espionagem e contra-espionagem, que se transformou no SD (Sicherheitdienst), entregue a
Reinhard Heydrich; ao mesmo tempo, criaram-se «comandos de intervençãe» em muitas cidades - em
1933, as SS já tinham 50000 homens. Passaram então a ser rivais das SA, que frequentemente manifestaram
insubordinação e pretendiam formar um novo exército «popular», ideia que causava preocupação à Wehrn-
iacht. Convencido, por meio de documentos falsos preparados por Heydrich, de que Rõhm conspirava contra
ele, Hitler livra-se deste e de numerosos adversários, reais ou imaginários, na noite de 30 de Junho de 1934,
«a noite dos facalhões». Himmler passou a ter daí por diante funções novas, cada vez mais importantes. Em
1936, por Heydrich, passou a ser o chefe de todas as polícias do Reich, apesar da oposição de Goering; mais
tarde deitou a mão aos serviços especiais do exército, a Abwehr.

Segundo Himmler, e Hitler - que lhes entregou a «Blutfahne», a bandeira impregnada do sangue
dos «mártires» do golpe de 1923 - as SS deviam constituir uma ordem ao serviço do partido e do
Estado. HimmIer disse a este respeito: «Só sangue nórdico deve ser tido em consideração. . . o
nosso sangue confere-nos um génio inventivo muito superior ao das outras nações... As dé-
_______
fluência, que de facto existiu, de Otto Meissner, na Chancelaria presidencial, que Hitler manteve, e de Lammers, na Chancelaria do
Reich, que pretendeu ser um superministro.

70

O NACIONAL-SOCIALISMO

cadas futuras verão o extermínio dos seres inferiores que lutam contra a Alemanha, berço da raça
nórdica, porta-voz da civilização.» Para manter a pureza racial do escol, todos os meios eram bons:
bigamia, procriação fora do casamento, roubos de crianças. O recruta SS era ensinado a obedecer,
sem fazer perguntas, fosse a que ordem fosse, por mais dura que pudesse ser; o extermínio - dos
inimigos do Reich era a sua razão de ser; a decisão fanática e a falta de piedade eram as condições
do êxito; a camaradagem, os laços pessoais dos homens com os seu chefes instituíam uma espécie
de devoção reIigiosa (1).

Em 1936, criaram-se unidades SS «com caveira», encarregadas da vigilância e depois da


direcção dos campos de concentração, até essa altura entregues às SA; nestes campos, os nazis
metiam os adversários - primeiro alemães contrários ao regime, misturados com criminosos e
associais, depois os «resistentes» dos países ocupados, por fim, e sobretudo, judeus, condenados ao
extermínio. Uma massa humana, destituída de qualquer protecção jurídica, enfraquecida pelas suas,
divisões internas - estiveram ali representadas mais de vinte nações - indefinidamente renovável,
ficou assim entregue ao arbítrio de um exéricito de carrascos, cujo comportamento ia do sadismo
puro e simples até experiências médicas em cobaias humanas. Mas esta massa humana também
proporcionava à SS uma multidão de trabalhadores que podiam ser explorados até ao último
___________
(1) Dr. E. Neusüss-Hunkel, Die SS, Hannover e Frankfurt, 1956; G. Reitlinger, The SS, alibi of a nation, Londres, 1956.

71
OS FASCISMOS

limite das suas forças. A SS tornou-se assim um grande industrial que explorava fábricas de tijolos,
pedreiras, indústrias de madeira, têxteis, couro, borracha sintética e armas secretas. As suas
empresas tinham uma estrutura paradoxal; eram sociedades privadas - de responsabilidade limitada,
mas dirigidas inteiramente pela administração central da SS. Durante a guerra, o principal proveito
era o aprovisionamento da própria SS em objectos de equipamento. Himmler encontrou a oposição
de Speer quando pretendeu, sem êxito, deslocar as fábricas de armamento para os campos de
concentração. Mas a conquista da Europa abriu à SS perspectivas grandiosas: foi encarregada de
colonizar o espaço conquistado e criar raízes nestes territórios. A sua primeira missão de defender o
regime juntou-se assim a tarefa de preparar a economia da Europa nazificada (1).

A SS juntou a isto a constituição de um exército livre de qualquer sequela da época


imperial. A partir de 1940, unidades de Waffen SS tomaram parte na campanha da França. Essas
unidades multiplicaram-se e fizeram recrutamentos em toda a Europa, com a guerra contra a U. R.
S. S.; a sua importância foi aumentando sempre, porque Hitler tinha pouca confiança nos seus
generais e para explorar o capital de entusiasmo e fanatismo da juventude. Himmler, quando não o
fazia o próprio, Hitler, ocupava-se pessoalmente dos fornecimentos de material, escolha de chefes,
lugares de recruta-
_________
(1) J. Billig, L’hitlérisme et te système concentrationnaire, Paris, PUP, 1967.

72

O NACIONAL-SOCIALISMO

mento (1). Os homens eram treinados numa disciplina draconiana, havia exercícios de combate
constantemente e as sessões de doutrinação política eram intermináveis; os chefes eram muitas
vezes cadastrados, falhados ou semiloucos (Eicke, comandante da divisão Totenkopf, foi recrutado
por Himmler num asilo psiquiátrico). As Waffen SS comportaram-se de maneira criminosa nos
territórios conquistados, incendiando aldeias (uma delas Oradour, em França), assassinando
prisioneiros ou resistentes detidos, exterminando colectividades judaicas, matando os feridos - e
cometeram também pilhagens individuais, violações, que eram proibidas em princípio mas
raramente davam lugar a penalidades. As Waffen SS foram a princípio desprezadas, pelo exército,
que procurava distinguir-se delas; em seguida, o exército sentiu ciúmes das Waffen SS, em virtude
da retumbância que a propaganda dava aos feitos destas; por fim, o exército utilizou as Waffen SS,
com prioridade, nos combates difíceis e admirados (a divisão SS Hitlerjugend teve 20 % de mortos
e 40 % de feridos e desaparecidos na Normandia, de 16 de Junho a 11 de Julho de 1944).

Para o fim, a SS tornou-se um Estado dentro do Estado; em 1944, Himmler acumulou a


direcção das SS com a da Polícia, o Ministério do Interior, a politica racial, o comando de 34
divisões SS e dos exércitos do centro. Nesta posição, julgou que poderia adoptar uma política
pessoal, estabelecendo contactos com a Suécia para desempenhar um papel diplomático,
entabulando
______________
(1) C. W. Sydnor, «A Divisão SS Totenkopf», in Revue d`histoire de la deuxième guerre mondiale, Abril de 1975.

73
OS FASCISMOS

negociações na Itália com os Aliados para circunscrever o conflito à guerra contra a U.R.S.S.,
tentando trocar o destino dos concentracionários por uma protecção anglo-americana para ele e os
seus homens, tendo até alguns contactos indirectos com o grupo dos conspiradores contra Hitler, e
aspirando a tomar o lugar deste em 1945 - mas acabou por se envenenar quando os Americanos o
capturaram e identificaram.

O Estado nacional-socialista

Hitler nunca aboliu a constituição de Weimar; não elaborou uma Constituição nova, e não parece que
se tenha preocupado com o assunto. O regime nacional-socialista foi sempre, portanto, um regime de
excepção, de facto, desejoso de não ter embaraços com qualquer restrição de ordem jurídica, um regime no
qual a administração e a polícia estavam acima do Direito. Era um Führerstaat, isto é, um Estado a mercê do
seu chefe, cuja palavra cria a lei, cuja vontade não está sujeita a nenhuma restrição e cujo comportamento não
admite nenhuma crítica. Mas, de facto, é difícil determinar o papel de Hitler fora dos seus dois domínios
reservados, a diplomacia e a guerra, suas principais preocupações, mas a sua autoridade era completa. Quanto
ao mais, há poucas decisões claras escritas pelo seu punho, ao passo que se vê constantemente a assinatura de
Lammers, que lia e separava a correspondência, anotava os documentos submetidos ao Führer. Houve quem
dissesse que Hitler, no exercício rotineiro do poder, era «o homem que não decidia»(1); mas é provável que
os seus colaboradores directos nunca tivessem tentado iludi-lo ou actuar contra a maneira de pensar do chefe,
pelo menos enquanto este teve êxitos.

Hitler criou instituições especializadas, que se desenvolveram paralelamente à administração normal


- os gauleiters, a

_________
(1) E.N. Peterson, The limits of Hitler power, Princeton, 1969

74
O NACIONAL-SOCIALISMO

Frente do Trabalho, a Organização Todt das obras públicas, o plano de quatro anos, o gabinete de estudos de
Ribbentrop (que durante algum tempo duplicou a Wilhelmstrasse), a missão de Rosenberg, sem esquecer,
claro, as SS. Pôde assim tomar as decisões fundamentais- a eutanásia, o genocídio dos Judeus - sem ter em
conta a autoridade competente. M. Broszat chama a este regime «policracia», um regime com instituições
rivais que se interpenetram, instituições com competências estatais, semi-estatais e partidárias - sendo difusas
as fronteiras entre o Estado, a Sociedade e o Partido(1). Daqui resultou, com o condicionalismo
uniformizador, uma permanência de comportamentos diversos nas grandes cidades, nas cidades pequenas e
nos campos.
Psicologicamente, o regime apoiou-se na propaganda e na angústia colectiva, que Hitler denominava
o «terror do espírito»; a miséria e o medo privam o indivíduo de qualquer pensamento pessoal; exercem-se
pressõesnas famílias; as torturas, a execução ou a morte lenta nos campos de concentração eram o destino dos
opositores. Havia uma completa indiferença para com o ser humano e as suas possibilidades intelectuais; a
educação dos homens passou a ser uma espécie de criação de gado, e o fanatismo tornou-se a principal
inspiração do nazi na acção (2). É certo que o código das leis não foi transformado nos seus princípios
essenciais, mas o Estado de facto instituído dá a justiça um papel meramente secundário; os julgamentos eram
raros; o que predominava era a prática da detenção e internamento, sem julgamento; em 1942, o ministro da
Justiça, Thierack, «legalizou» este comportamento, proclamando que o juíz não é guardião da lei, mas sim
auxiliar do governo.

Conforme mostrou J. Billig (3), o que Hitler admirava acima de tudo era o engenheiro-
empresário, cujo saber e vontade edificam a força e o poderio. Quis fundar
_______
(1) M. Brozsat, Der Staat Hitlers, Munique, 1969
(2) De 31 gauleiters, 8 não quiseram sobreviver a Hitler.
(3) Op. cit.

75
OS FASCISMOS

um império «milenário», racialmente puro, que ampliasse o seu «espaço vital» com conquistas em
prejuízo das raças inferiores, destinadas à escravatura ou ao extermínio. Esta obra exigia a
perenidade da dura exploração do homem pelo homem; pressupunha a submissão de todos,
voluntariamente ou à força, aos objectivos da comunidade. Instituía de modo permanente um tipo
de sociedade militar; imitando Clausewitz, E. Nolte escreveu que o nacional-socialismo seguiu
«uma política que continuava a guerra com os mesmos meios». É evidente que um regime como
este foi muito mais totalitário que o fascismo italiano. Mas foi, no entanto, este regime o
«totalitarismo»? Um autor como Heinz Höhne (1) põe isso em dúvida, porque, segundo escreveu,
Hitler permitiu que se mantivessem certas instituições tradicionais muito veneráveis e poderosas
como o exército, a Igreja, a administração, o corpo diplomático, as estruturas industriais. Temos de
tentar avaliar o domínio do hitlerismo na sociedade alemã.

O nacional-socialismo e a sociedade alemã

O programa do partido, elaborado por Feder antes do acesso ao poder, pretendia libertar a Alemanha
da «tirania do juro»; propunha a nacionalização dos trusts, a expropriação das grandes propriedades agrícolas
sem indemnização, a participação dos operários nos lucros
_____________
(1) L’ordre noir, histoire de la SS, Casterman, 1968.

76

O NACIONAL-SOCIALISMO

das empresas. O teórico «esquerdista» do partido, G. Strasser, proclamou que «o capital não cria o
trabalho, mas sim é o trabalho que cria o capital», e atacou «o domínio exercido pelos bancos». Mas
Gregor Strasser também atacou o marxismo e o pacifismo. Para ele, o socialismo alemão realizava-
se «nas antigas cidades do Império, com as suas corporações, as suas fortes muralhas, a imponente
câmara municipal, os hospícios e os hospitais, o socialismo da prática..., o prussianismo realizado
nos factos». Em 1928, Hitler já tinha reduzido um tanto o alcance dos postulados de Feder,
limitando, as nacionalizações às «sociedades sem personalidade», o que não tinha significado
nenhum, e restringindo as expropriações «às sociedades judaicas de especulação fundiária» - era
mais necessário abater o judeu do que o capitalismo. No fim de contas, embora o nacional-soci-
alismo, tivesse sido acompanhado por transformações sociais, não foi verdadeiramente um
socialismo; é verdade que homens de modesta condição, chegaram aos lugares superiores do partido
e do Estado, e que se esboçou uma classe política nova; também é verdade que os nazis
desprezavam a aristocracia e a burguesia, e que muitos deles aspiravam a um socialismo mal
definido. Mas as propriedades continuaram nas mãos dos proprietários; a sociedade continuou a ser
hierarquizada, como antes, a única modificação fez-se no partido e a única novidade em matéria
social foi a escravatura dos operários estrangeiros e dos presos em campos de concentração.

Nestas condições, a palavra trabalhador não tinha para os nazis qualquer conteúdo
revolucionário; o operário era primeiro que tudo um membro da comunidade

77
OS FASCISMOS

nacional (1). Os sindicatos operários aderiram em parte ao novo regime nos primeiros meses a
seguir ao acesso ao poder - havia uma corrente «nacional»; nem por isso deixaram de ser
suprimidos e os trabalhadores foram reagrupados na Frente do Trabalho, que dirigia os seguros
sociais, as cooperativas, os bancos de crédito operário. O pessoal delegava «homens de confiança»
para junto da direcção, indivíduos que não participavam na direcção mas fiscalizavam as medidas
sociais. Desta maneira se esbateu a luta de classes, com os operários e os patrões associados numa
obra comum, e com a «honra do trabalho» a proibir que os operários fizessem greve. No entanto, as
leis sociais foram numerosas e reais; férias baratas, cruzeiros no estrangeiro - com uma publicidade
desproporcionada em relação à importância real da operação - habitação decente para os operários;
os serviços de assistência, entre estes o Socorro de Inverno, eram financiados por colectas
praticamente obrigatórias; acima de tudo, o rearmamento e o alistamento dos desempregados na
enorme administração do partido, acabaram com o desemprego; 5,6 milhões de desempregados em
1932, apenas 38 000 em 1939; o recomeço da actividade económica e o racionamento
proporcionaram o mínimo a cada um (2).

Esta tranquilidade nas relações sociais beneficiava, como é evidente, os industriais e os


banqueiros, de quem Hitler era devedor em dois sentidos. É certo que a eco-
________________
(1) David Schoenbaum, Hitler’s social class and status in nazi Germany, New York, 1967.
(2) H. J. Winkler,. Legenden um Hitler, Berlim, 1961.

78

O NACIONAL-SOCIALISMO

nomia foi planificada e os produtores tinham de submeter-se a um dirigismo que diminuía a sua
liberdade de acção. Aconteceu até as suas relações com o partido azedarem - um decreto de Março
de 1942, assinado por Hitler, ameaçava com a pena de morte os industriais que armazenassem
stocks excessivos ou exigissem mão-de-obra em excesso; este decreto não foi aplicado. Também é
certo que a economia de Estado da SS prejudicava as empresas privadas; mas mantinha-se
marginal, e os bancos, a indústria pesada, a indústria química, etc., continuaram nas mãos dos
proprietários; os salários horários aumentaram menos que os preços por grosso; os industriais
continuaram a ter o controlo da mão-de-obra; melhor ainda, com Speer no Ministério dos
Armamentos, foram integrados nas fábricas do Estado; este sustentou bancos em situação difícil, e
entregou-lhes a seguir as suas participações; além disso, as receitas brutas das grandes sociedades
aumentaram muito, o Estado tomou a seu cargo as empresas pouco seguras - por exemplo no ramo
do tratamento de minérios pobres - e «privatizou» as empresas prósperas (1). Só quando chegou o
desastre militar os industriais pensaram em romper com Hitler - comom com Mussolini na Itália.

O nazismo quis deter o êxodo rural para a cidade, fixar os camponeses na terra, garantir o
abastecimento do pais. Para o teórico nazi Walter Darré, os camponeses eram o escol duma nação;
os camponeses constituíam
______________
(1) H. E. Kannapin, Wirtschaft unter Zwang, Colónia, 1966; G. Badia, Histoire de l'
Allemagne contemporaine, Edições Sociais, t. II,
1962.

79
OS FASCISMOS

«uma comunidade sem classes de camaradas de trabalho»; Os grandes proprietários constituíam a


«nova, nobreza do sangue e da terra»; aos pequenos proprietários fazia-se entrever a miragem da
colonização no Leste e a remissão das dividas. Elaboraram-se leis que instituíram o «domínio
hereditário», declarando indivisíveis as propriedades com menos de 125 hectares, devendo cada
propriedade ser transmitida a um só dos filhos, a escolher pelo pai. O «Reichnährstand» reuniu
obrigatoriamente todos os produtores agrícolas e florestais, com as empresas de tratamento dos
produtos agrícolas; esta «corporação alimentar» estabelecia os preços dos produtos, fixava
contingentes de produção, exercia o monopólio dos mercados interno e externo. Praticamente, os
dirigentes desta organização foram os grandes proprietérios; estavam autorizados a aplicar multas
ao pessoal, e até castigos corporais no caso de os operários serem polacos.

O general von Seeckt, o verdadeiro criador da Reichswehr, manteve-a alheada da política,


quer dizer, à margem da República. Salvo poucas excepções - como o general Groener - o corpo de
oficiais generais era a favor de Hitler, embora nenhum papel tenha desempenhado no acesso de
Hitler ao poder. Mais tarde, o rearmamento, a luta contra o Tratado de Versalhes, a destruição da
SA encheram os oficiais de satisfação. Hitler aproveitou-se disso, depois da morte de Hindenburgo,
para impor ao exército um juramento de obediência à sua pessoa (1), exigência que não provocou
nenhum pro-
(1) Até então a fórmula do juramento era: «Servir o povo

80

0 NACIONAL-SOCIALISMO

testo; Hitler disse então que, «sem o apoio do exército, não estaria no poder». Mais tarde, salvo
alguns protestos tímidos, o exército apoiou o Führer em todas as suas iniciativas; foram raros os
generais que protestaram contra os crimes das SS; foram muitos os generais que colaboraram nestes
crimes, como o general que mandou afogar em Rodes os judeus que não pôde retirar da ilha. Os
desastres militares foram a causa da oposição do grupo de oficiais que tentaram assassinar Hitler em
20 de Julho de 1944; estavam isolados - Guderian disse na altura que «qualquer oficial de estado-
maior devia ser um bom nacional-socialista». Hitler aproveitou o caso para se livrar tanto quanto
possível de uma casta que detestava; houve muitas prisões e demissões; entregaram-se comandos
importantes a elementos da SS; nomearam-se comissários políticos para fazer a educação dos
oficiais (1).

A. Rosenberg, nas suas Teses Filosóficas, pôs em destaque as origens orientais do


cristianismo, as analogias do culto cristão com as práticas africanas; o nacional-socialismo tinha a
missão de substituir o cristianismo. Os nazis não atacaram directamente a Igreja Católica, mas sim
os movimentos juvenis e as ordens religiosas; tiveram adeptos no alto clero, como o bispo Hudal,
que tentou provar que o catolicismo tinha influenciado o nacional-socialismo. Outros protestaram
contra o neo-paganismo - como o cardeal Faulhaber e monsenhor Galen; mas respeitavam a
legitimidade do regime, negavam que «fizessem política», e concluíam as suas
__________
e a pátria»; passou a ser: «Jurar obediência absoluta a Adolfo Hitler.»
(1) G. Buchheit, Soldatentum und rebellion, Rastatt-Baden, 1961; T. Taylor, Sword and Swastika, Nova Iorque, 1952.

81
OS FASCISMOS

homílias orando «pela pátria e pelo Führer». A penetração nazi foi mais profunda entre os
protestantes, que desde Lutero estavam habituados, a obedecer rigorosamente à autoridade civil. Por
isso mesmo, «os cristãos alemães» afirmavam que «Cristo veio até nós por Adolfo Hitler». Uma
associação privada, que se denominava «a Igreja confessante», lutava contra esta tendência, mas
aceitava o controlo do poder sobre a Igreja; foram poucos os teólogos que, como Karl Barth,
condenaram o nazismo; entre 17 000 pastores, apenas algumas centenas foram processados - 42
foram mandados para campos de concentração. As maiores perseguições foram as movidas contra
as seitas religiosas - «Testemunhas de Jeová», «Quakers», «Menonitas» - em virtude das suas
ligações com o estrangeiro; de 6000 «testemunhas de Jeová», 5900 foram presas e 2000 morreram
de morte violenta (1).

Hitler não introduziu o socialismo na Alemanha; mas empreendeu uma profunda


transformação da sociedade, sem que tivesse tido tempo para a concluir; fez essa transformação
num ambiente de adesão quase geral, pelo menos até aos desastres militares de 1943-1944.

A «cultura» nacional-socialista

A cultura individual, a procura do belo pelo belo, a predilecção pelo conhecimento desinteressado,
foram noções alheias ao nazismo.
__________
(1) G. Zahn, German catholics and Hitler’s war, Londres, 1963; Th. Wurm, Erinnerungen aus meinen Leben, Estugarda, 1953.

82
O NACIONAL-SOCIALISMO

«A massa», disse Hitler a Rauschnig, «é como um animal que obedece aos seus instintos ... Fanatizei as
massas para fazer delas o instrumento da política ... Desperto nelas sentimentos que lhes convêm, obedecem
imediatamente às directrizes que lhes dou. Numa assembleia de massa, deixa de haver lugar para o
pensamento.» Passando à aplicação, Goebbels acrescentava: «Precisamos de satisfazer os instintos primários
das massas.» O nacional-socialismo deveu uma boa parte dos seus êxitos à propaganda; foi o primeiro regime
que criou um Ministério da Propaganda. Goebbels, em princípio, era senhor da Imprensa, cinema, rádio,
música e literatura. Mas, também neste campo, proliferavam a anarquia e as rivalidades; a Wilhelmstrasse
tinha a seu cargo a propaganda no estrangeiro, o Dr. Dietrich dirigia a Imprensa, sendo Max Amman o
responsável pelos jornais do partido! Mas GoebbeIs acabou por ser o verdadeiro responsável pela manutenção
do moral do povo alemão. Nos seus discursos, usou linguagem popular; conhecia a virtude dos estribilhos e o
efeito da sua repetição nas multidões(1).

Goebbels, não sem cinismo, afirmava que «a Imprensa não deve apenas informar, mas também
instruir... É um teclado em que o Governo pode tocar... Os jornalistas têm uma função, não têm opinião».
GoebbeIs dava instruções precisas em conferências diárias que duravam meia hora. Para se ser jornalista era
preciso ser-se licenciado; não havia qualquer censura prévia, mas tinha de haver autocensura, e as
extravagâncias eram julgadas num tribunal corporativo e estavam sujeitas a sanções policiais. De 4073 diários
e semanários existentes em 1932 passou-se para 2208 em 1937 e para 500 em 1944. Os nazis foram
eliminando a pouco e pouco os jornais dos seus adversários e aliados destes, pagando-lhes indemnizações
(Hugenberg foi pago com instalações de siderurgia e laminagem!). Depois disto, os nazis formaram um
autêntico trust, o Eher Verlag, que agrupava 150 empresas e empregava 35 000 pessoas (2). GoebbeIs
conseguiu ter a direcção
____________
(1) E. K. Bramstead, Goebbels and national-socialist propaganda, Imprensa da Universidade do Estado de Michigan, 1965.
(2) Oron. J. Hale, The captive press in the third Reich, Princeton, 1964; Z. A. B. Zennan, Nazi propaganda, Londres, 1965.

83
OS FASCISMOS

da rádio, em compita com Goering; imediatamente tomou a significativa decisão de substituir nas emissões
literárias a palavra Kritik por Betrachtung (consideração). As emissões radiofónicas, as retransmissões de
discursos em comícios multipilicaram-se, quando se observou que a propaganda nazi se difundia melhor pela
via oral que pela escrita. Em particular, criaram-se muitas emissões para o estrangeiro - onze horas por dia
para os Estados Unidos, oito horas para a Africa. O cinema, dirigido por uma câmara corporativa,
subvencionado por um banco especial, difundiu filmes anti-semitas (O Judeu Suss), enalteceu a beleza do
esforço físico (Jogos Olímpicos), recordou as glórias do passado (Kolberg) (1).

Para os nazis, a literatura era uma fonte de «energia nacional »; numerosas comissões
passavam a pente fino todos os escritores, distribuíam incitamentos, ameaças e castigos. Para
publicar, era preciso ser-se membro da «câmara dos escritores», que apontava as obras suspeitas; as
bibliotecas foram expurgadas, e as obras «malfazejas» deram ocasião para cerimónias histéricas de
autos-de-fé. Os temas recomendados eram: «o sangue e o solo», o passado nacional, as virtudes da
raça nórdica; criaram-se inúmeras bibliotecas, compostas por livros «sãos», para serem utilizadas
por jovens, operários e soldados. O teatro foi ligado à velha instituição germânica do Thing,
assembleia de homens livres; perante auditórios enormes, ao ar livre, representaram-se peças
adaptadas para a propaganda - por exemplo, «a paixão alemã de 1933» foi concebida para
substituir, mas não teve êxito, a célebre paixão de Oberammergau. Exiliram-se cerca de 300
escritores, os mais conhecidos; alguns
_____________
(1) R. E. Herzstein, «Hitler e o Mito Histórico pelo Filme», in Revue d’histoire de la deuxième guerre mondiale, Janeiro de 1976.

84

O NACIONAL-SOCIALISMO

escritores ilustres, como G. Hauptmann, M. Heidegger, H. Carossa, serviram o regime; a maior


parte deles submeteram-se, depois de às vezes terem protestado contra as imposições das
instituições culturais de Goebbels e Rosenberg, aliás rivais. Muitos refugiaram-se na literatura de
evasão, no lirismo, nas histórias de aventuras (1).

Baldur von Schirach disse a certa altura que «o critério estético só acessoriamente interessava os
nazis». De facto, as preocupações artísticas dos nazis resultavam das suas concepções racistas e ideológicas.
Hitler entendia que os Judeus e os Negros eram responsáveis pela degenerescência da arte. Rosenberg criou a
«união de combate a favor da cultura alemã», que atacava pintores como Klee e Kadinsky, músicos como
Hindemith e Stravinsky; retirou-se dos museus muitos quadros - o que não impediu que Goebbels e Goering
viessem a arrebanhar quadros semelhantes na Europa Ocupada. Hitler, arquitecto falhado - também o eram,
convém notá-lo, vários diligentes nazis - pretendia deixar testemunhos arquitecturais da sua glória. Sonhava
com um neoclassicismo que «ultrapassasse o quotidiano e as suas exigências», capaz de «estabelecer a ordem
nova». Procedendo desta maneira, inspirava-se mais na arte antiga do que na «arte nórdica», embora também
admirasse as categorias góticas e o barroco vienense; é certo que a mitologia nazi via Arianos nos Gregos.
Monumentos colossais deveriam assinalar as vitórias: Somme, Volga, Termópilas, etc. (2).

Num sistema como este, embora a propaganda celebre as virtudes familiares, e existam
obras como «a mãe e o filho», está tudo previsto para fazer passar a juventude pelo molde do
partido. Os livros escolares foram revistos,
__________
(1) D. Strothman, Nationalsozialistisch Literatur, Bonn, 1968.
(2) H. Brenner, Die Kuntspolitik des National Sozialismus, Hamburgo, 1963.

85
OS FASCISMOS

os estudantes foram agrupados na Studenschaft, os professores foram colocados sob a vigilância dos
seus organismos corporativos. Enquanto as «Adolf Hitler Schulen» forneciam ao partido os seus
militantes de escol, os futuros quadros dirigentes da nação eram formados nas napola (1). Nestes
institutos, em que todos os alunos tinham de ser racialmente puros e ter qualidades físicas e
intelectuais superiores à média, e para onde entravam sobretudo os filhos de membros do partido,
manteve-se o ensino tradicional mas baniu-se por completo o espírito crítico e ensinou-se a
submissão à comunidade, com o estribilho «Tu não és nada, o teu povo é tudo», e a aceitação do
sacrifício. Quando se fazia a entrega solene das baionetas, uma espécie de distribuição de prémios, a
fórmula era: «A espada é o direito e a verdade. »

Hitler disse um dia a Rauschnigg: «Quero uma juventude brutal, imperiosa, impávida e
cruel.» O fascismo considera a juventude como uma entidade, com as suas características, os seus
direitos, as suas aspirações próprias. Instituí-se uma demagogia: «O diabo leve os velhos, só o
jovem eterno deve ter a sua pátria na Alemanha.» Von Schirach avisou os pais de «que tinham
entregue as suas prerrogativas ao partido». Os jovens eram educados segundo o mito do chefe, que
era também, dizia von Schirach, «o professor e o sacerdote». Punha-se em destaque a ideia
darwiniana da «luta pela vida que nos é imposta pela Natureza» (2) . A «alegria da luta» era
considerada um enriquecimento; a libertação, dos
_________________
(1) Nationalpolitische Erziehungsanstalten.
(2) W. Klose, Generation im Gleichschritt, Hamburgo, 1964. Na verdade, a crença nazi no imobilismo das raças contraria a teoria
darwiniana da evolução.

86

0 NACIONAL-SOCIALISMO

instintos, a importância da Natureza, eram exaltadas numa espécie de romantismo irracional, no


qual desmpenhavam os seus papéis as forças primitivas do fogo, da noite e da montanha; daqui
resultaram as cerimónias do solstício, os acampamentos em tendas, os cantos colectivos e brutais e
a preponderância dos cursos de educação política, onde constantemente se celebravam a vida, a
personalidade e a obra do Führer. Os cursos de história baseavam-se nos exemplo, dos heróis
germânicos, Arminius, Widukind, Frederico o Grande, Frederico Barba-Roxa, Andreas Hofer. Ao
mesmo tempo ensinava-se o ódio aos destruidores do Reich, o judeu, o comunista, o inimigo
estrangeiro. Os nazis souberam explorar a fundo as qualidades da juventude, a generosidade e a
dedicação, com a ideia de «Quem tem a juventude tem o futuro». A educação da juventude devia
prepará-la para a guerra «pelo Reich milenário». Os resultados são convincentes: na segunda guerra
mundial, todos os quadros dirigentes da Hitler-Jugend se tornaram oficiais do exército ou da SS. Se
a derrota não lhe tivesse tirado o tempo necessário, é provável que tivesse sido este o domínio em
que Hitler viria a ter os maiores êxitos e dessa realidade ao sonho de todos os condutores de povos
que pretendem ser revolucionários: moldar um homem novo.

O racismo hitleriano

O racismo era o fundamento do nazismo. Para proteger a «raça alemã», tomaram-se diversas
medidas. W. Darré pretendia classificar as raparigas: umas poderiam casar e ter filhos; as outras,
indignas de tal honra,

87
OS FASCISMOS

ficariam proibidas de uma coisa e outra. Himmler decretou em 1931 que qualquer membro da SS
que quisesse casar teria de pedir uma licença, «que seria concedida ou recusada de acordo com os
princípios da saúde racial e hereditária». Em contrapartida, as raparigas não teriam o direito de se
recusar aos SS, que eram autênticos garanhões para a criação de «uma ordem sagrada, herdeira dos
Vickings e dos cavaleiros teutónicos». Himmler, aprovado por Rosenberg, fundou a organização
Lebensborn (fonte da vida), na qual seriam educadas as crianças com vestígios de «sangue
nórdico», mesmo que tivessem nascido fora da Alemanha.

Não é absolutamente seguro que todos os dirigentes nazis tenham aprovado toda esta
salsada - Goebbels achava isto ridículo. Mas todos entendiam que era necessário purificar a
Alemanha de qualquer influência judaica. A mensagem de Gobineau, que define uma hierarquia
entre as raças e condena a mestiçagem, foi vulgarizada pelo «mestre de coro da raça ariana»,
Chamberlain, genro de Wagner. No fim do século XIX, já havia 16 deputados anti-semitas no
Reichstag. O estereótipo judeu corrupto e corruptor era frequente na literatura popular. Quando
rapaz, Hitler leu em Viena o falso Protocolo dos Sábios de Sião, que atribuía aos Judeus a ambição
de dominar o mundo; sem dúvida que era profundamente anti-semita, embora tenha dito a
Rauchsnigg que «se o Judeu não existisse, teria sido preciso inventá-lo». Dizia Hitler que «só
um anti-semita pode ser um verdadeiro anticomunista». Para ele, o judeu era inassimilável; a sua
presença impedia o regresso aos valores salvadores da germanidade; o seu internacionalismo - pela
sua dispersão, mas também porque era a base das

88

O NACIONAL-SOCIALISMO

internacionais capitalista e comunista - era um suicídio para os povos entre os quais vivia; era a
«anti-raça» (1) .

Nestas condições, os Judeus foram postos de parte, eliminados da administração pública, do


foro, da banca, da edição; em 1935, as leis de Nuremberga retiraram-lhes os direitos cívicos -
passaram a ser estrangeiros no seu país; os lugares públicos passaram a ser proibidos aos judeus, e
proibida ficou qualquer relação sexual com os «Arianos». A princípio foi-lhes permitido emigrar, a
troco de perderem parte das suas fortunas; em seguida, Hitler pensou em exportá-los em massa para
Madagáscar. A guerra deu ensejo para aplicar a solução final do problema judaico», isto é, o
extermínio dos Judeus, decidido em Wansee em 1942, arrebanhados em toda a Europa, amontoados
em bairros fechados, às vezes chacinados ali mesmo ou reduzidos à indigência, acabaram por serem
mortos em câmaras de gás e incinerados em campos de concentração, com Birkenau a ocupar o
primeiro lugar. Crime abominável, que causou a morte de seis milhões de pessoas infelizes, sem
que o seu desaparecimento tivesse tido qualquer relação com o conflito ou tivesse tido neste uma
influência qualquer; foi o mais monstruoso dos crimes gratuitos (2).
.
No entanto, os nazis tiveram de acomodar este fanatismo racista com as exigências da sua
política externa, em particular na altura da sua aliança com os Japoneses ou no seu apoio aos
Árabes. Hitler deitou água na fervura e disse que «o Japão também era ameaçado pelo Judeu,
___________
(1) D. Bracher, Die Deutsche díktatur-Entstechung Struktur, Folgen des nationalsozialismus, Colónia, 1972.
(2) O. Wormser, Le système concentrationnaire nazi, PUF 1968.

89
OS FASCISMOS

que não se lhe podia adaptaR». Indo mais longe, Rosenberg admitiu que os Japoneses, visto não
estarem classificados entre os não Arianos, poderiam, casar com alemãs sem «poluir o sangue
nazi». Finalmente, o professor de antropologia Hans Gunther explicou que «os Nórdicos figuravam
entre os antepassados dos Japoneses» (1). O anti-semitismo nazi, sem fundamento científico, sem
nenhuma necessidade - apenas 0,75% dos Alemães eram judeus e todos queriam assimilar-se -
transformou-se assim numa farsa e veio a acabar numa tragédia.

O espaço vital

Hitler censurava a República de Weimar pela «sua fascinação por litígios fronteiriços de
pouca importância». O programa do partido, redigido por Feder, previa a supressão dos tratados, o
regresso às fronteiras anteriores, a constituição de um grande Reich que agrupasse todos os
Alemães. No Mein Kampf e no seu «segundo livro», Hitler acrescentou a isto a noção de «espaço
vital», tirada da geopolítica de Haushofer, segundo a qual a extensão territorial de um país é
determinada por caracteres geográficos, históricos e económicos idênticos, de maneira a estabelecer
«um equilíbrio entre a importância numérica do povo e a qualidade e extensão do território que
ocupa» (2). Hitler nunca pensou numa
______________
(1) E. Presseisen, «O Racismo e os Japoneses», Revue d’histoire de la deuxième guerre mondiale, Julho de 1963.
(2) K. Jonca, «Nas Origens Jurídicas da Grande Alemanha», Revue d’histoire de la deuxième guerre mondiale, Outubro de 1974.

90

O NACIONAL-SOCIALISMO

solução por meio da extensão da ciência e da técnica, e ainda menos por meio do maltusianismo -
pelo contrário, alegrava-se com o impulso demográfico do Reich. Adoptou a ideia de Mussolini a
respeito das nações pobres, condenadas a conquistar às nações ricas os seus meios de existência.

Os objectivos da política hitleriana foram definidos no Mein Kampf. Nesse livro, Hitler
previu um acordo a longo prazo com a Inglaterra, sem que o Reich renunciasse completamente à
sua vocação marítima e colonial, a exclusão da França da sua posição de grande potência, e em
seguida «a conquista da gleba», a Leste, contra a U. R. S. S. É verdade que nas suas variações
tácticas, a
política de Hitler esteve cheia de contradições - designadamente com a assinatura do pacto
germano-soviético e a guerra contra a Inglaterra; isto resultou de que Hitler era ao mesmo tempo
um ideólogo fanático e um aventureiro oportunista, para quem o que primeiro contava era a ocasião
e o êxito imediato; mas embora parecesse indeciso na prática, os seus objectivos foram sempre os
mesmos e chamavam-se U. R. S. S. Na U. R. S. S. e na Polónia, Hitler reencontrava a via dos
cavaleiros teutónicos, descobria o espaço enorme para colonizar, e tinha lá o foco do comunismo
que era preciso destruir, e ainda grandes massas de judeus para exterminar. Pensava que a U. R. S.
S. era o «flagelo da humanidade», por causa dos Judeus, para quem a U. R. S. S. «era o paraíso».
Em Julho de, 1941, Hitler colocou na U. R. S. S. o centro da experiência político-racial que deveria
dar à Alemanha a supremacia na Europa; na mesma altura foi prevista a expulsão da população
russa, com o esboço de um «plano oriental de conjunto» que Hitler considerava que viria

91
OS FASCISMOS

a ser «a maior das suas realizações históricas». No seu testamento de 1945, antes de se suicidar,
Hitler ainda convidou a nação a «opor-se impiedosamente, primeiro que tudo, aos envenenadores da
humanidade, a judiaria internacional». Judeu, comunista e russo eram sinónimos (1).

Uma vez alcançado esse grande desígnio, se fosse possível com o acordo da Inglaterra, mas
contra esta se fosse necessário, adquirir-se-ia territórios coloniais em África e criar-se-ia o poderio
naval suficiente para combater contra os Estados Unidos, à frente da Europa, na luta final para o
domínio do mundo. Hitler deixava esta última fase aos seus sucessores. Assim, no Mein Kampf, já o
imperialismo alemão estava enleado nesta alternativa: tudo ou nada, vitória ou desastre completo;
ou o povo alemão realizaria o seu destino, impondo ao mundo uma imutável uniformidade racial
que afirmaria a sua superioridade, ou desapareceria. Havia alguma coerência nesta loucura, de
ambição desmedida, cujo primeiro resultado seria o desencadear da segunda guerra mundial, a
morte de dezenas de milhões de homens, e, para o povo alemão, enormíssimas destruições materiais
e morais.

Os êxitos que teve, a hegemonia momentânea que exerceu, as dedicações fanáticas que
suscitou, fazem com que o nazismo ainda hoje tenha quem lhe teça louvores (1). Quem assim faz
tem em pouca conta o poderio
______________
(1) K. Hildebrandt, O Programa de Hitler, ibid., Outubro de 1971; Norman Rich, Hitler’s war aims: ideology, the nazi state and the
cause of expansion, Nova Iorque, Norton, 1973.
(2) Cf. Bardèche, op. cit., pp. 52-53. «O fanatismo tornado princípio de salvação», dizia Thomas Mann, «com o entusiasmo a degenerar
em êxtase epiléptico, a política transformada em estupefaciente para as massas.»

92

O NACIONAL-SOCIALISMO

alemão e dá valor excessivo aos regimes e dirigentes de um país. As vitórias militares da Alemanha
nazi foram ganhas pelo exército alemão tradicional - os generais SS só tiveram derrotas; a eficiência
económica duradoura, foram obra dos engenheiros e industriais alemães - Speer teve de usar os
serviços destes em 1944, contra os nazis. A contribuição dada pelo nazismo foi o desprezo da
pessoa humana, o endeusamento do chefe, o terror generalizado, a vontade ilimitada de conquista,
os campos de concentração, o genocídio, dos Judeus, etc. Numa palavra, o nazismo transformou o
crime em instituição.

93
IV

OS FASCISMOS FRANCESES

Os historiadores não contestam, claro, que os fascistas francese tenham sido numerosos e precoces;
mas não concordam uns com os outros quanto à existência de um autêntico fascismo. Para René Rémond, «a
França apenas teve as aparências de fascismo»; mas, para Cl. Willard, pelo contrário, houve um fascismo
francês específico, e, se não alcançou o poder, isso sucedeu porque os antifascistas o impediram de se
apoderar dele (1). Talvez que o desacordo não seja tão profundo como parece, se se tiverem em conta as
diversas fases do fenómeno, nacionais e internacionais, ou ainda a sua diversidade; assim, para E. Nolte, a
Action Française foi o primeiro agrupamento fascista da história - muito anterior à primeira guerra mundial,
portanto; D. Wolf, pela sua parte, distingue em França: um «espírito fascista» literário, um fascismo forjado
pela esquerda para a sua propaganda, e um fascismo «normal», agrupado politicamente.
No entanto, toda a gente reconhece que os precursores do fascismo em França, foram numerosos e
antigos, a começar pelo bonapartismo - no qual sociólogos americanos vêem o
_________
(1) René Rémond, «Ya-t-il un fascisme français?», Terre humain, Julho de 1952; J. Plumyène e R. Lasierra, Les fascismes français,
1923-1963, Le Seuil, 1963; Cl. Willard, Le Front populaire, la France, 1934-1939, Editions Sociales, 1973.

95
OS FASCISMOS

antepassado, do fascismo. Também é geralmente observado que o fascismo, além de não ter chegado ao poder
em França, não conseguiu unificar-se. Pela nossa parte, distinguiremos três partes. Antes da segunda guerra
mundial, a oposição à III República - com excepção do partido comunista e de uma parte do partido socialista
- exprimia-se de maneira filosófico-agressiva na Action Française, e, de maneira mais militarizada, nas
«Ligas»: foi o período da tentação fascista. Durante os primeiros meses da segunda guerra mundial, esta
oposição acalmou na aparência, mas a derrota de 1940 deu-lhe ensejo para se expandir nos agrupamentos de
colaboração da zona ocupada: foi a fase da fascinação do nazismo. Finalmente, na zona provisoriamente não
ocupada, instalou-se o regime de Vichy, que pode ser considerado a expressão da reacção triunfante e
fascizante.

Os antecedentes

Napoleão I e Napoleão III abriram caminho ao fascismo, com a ditadura, o culto de grande
homem, a busca do apoio popular pelo plebiscito, a restruturação do corpo social - com uma nova
nobreza ou a promoção duma classe de negociantes. Na verdade, o bonapartismo exprimia tanto a
revolução francesa como o nacionalismo de inspiração jacobina. No século XX, tinha perdido toda
a implantação autêntica, salvo na Córsega, onde se mantinha de maneira mais folclórica que
política; a sua úitima incarnação foi o «boulangismo», que nenhum fascista francês jamais invocou;
se houve antepassado, estava esquecido por completo.

O bonapartismo, aliás, era recusado pela Action Française, que o considerava republicano.
E. Nolte pôs em desstaque os caracteres fascistas desta tendência polí-

96

OS FASCISMOS FRANCESES

tica (1) : favorável à autoridade, à hierarquia, à disciplina; contrário ao individualismo, à


democracia e à República parlamentar. Para a AF, como lhe chamavam, o princípio supremo era a
Pátria, incarnada no Estado, em nome do «nacionalismo integral»; a AF exaltava a violência, a
subversão; tinha os seus grupos de choque - Os «bufarinheiros do rei » - que castigavam os mal
pensantes e eram numerosos entre os estudantes; insultáva e emporcalhava os seus adversários, de
maneira nojenta (2) ; era responsável pelo assassínio de Jaurès. Asfatava-se bastante do
monarquismo tradicional de um Bonald ou de um Maistre, e eram muitos os fascistas comprovados
que tinham sido seus adeptos. No entanto, a Action Française, embora admirasse Mussolini, não o
imitava. No seu entender, a ditadura devia ser muito provisória, para permitir o restabelecimento da
monarquia hereditária; pretendia que era necessário regressar ao estado de coisas anterior a 1789, e
desta maneira se afirmava profundamente reaccionária. Preconizava a ordem, a razão contra o
instinto, o
classicismo contra o romantismo. O Estado não devia ser centralizador, mas sim regionalista; devia
apoiar-se nas élites tradicionais: a Igreja, o Exército, a antiga aristocracia, os proprietários
fundiários, numa palavra, os notáveis. Aliás, Léon Daudet rejeitava qualquer analogia com o
fascismo italiano. Assustada com «as massas», que não podiam ser senão o povo de Paris de 1793
ou da Comuna, desprezando-as, a Action Française era
_________
(1) L’Action Française, Julliard, 1970.
(2) Maurras chamava constantemente a Léon Blum «triplo cão, chacal, camelo» e Daudet ameaçava-o com «a faca da cozinha»

97
OS FASCISMOS

talvez um degrau para o fascismo, mas não era o fascismo (1).

Aconteceu ainda que a guerra, em França como na Itália, trouxe de novo ao primeiro plano
as ideias de eficiência, hierarquia e sentimento nacional; os antigos combatentes lamentavam as
querelas e inoprância dos partidos políticos que tinham «desonrado» a vitória. Havia muitos grupos
com fins eleitorais, que pretendiam «agrupar os amigos da ordem» contra a subversão social; alguns
destes grupos, como as «Juventudes Patrióticas», tinham uniforme e preconizavam um reforço da
autoridade, com uma carta social. O feixe de G. Valois inspirava-se directamente em Mussolini.
Operário da indústria do livro, de inspiração proudhoniana e anarco-sindicalista, Valois foi seduzido
pelo primeiro fascismo italiano (29. Quis reunir «socialismo e nacionalismo, o estado dos
combatentes e o dos produtores». Preconizou um socialismo hierarquizado à maneira de Saint-
Simon; pretendeu uma ditadura nacional, uma assembleia de ofícios e outra de chefes de família,
um sistema corporativo.
Embora valois não tivesse êxito popular - os efectivos do seu movimento político foram
sempre esqueléticos - foi uma das expressões da intensa fermentação que agitou os intelectuais
franceses por alturas dos anos Trinta. Multiplicaram-se então os semanários e os inquéritos, em
busca de uma terceira via entre socialismo e capitalismo (3), mais ou menos directamente
subsidiados por negociantes - Lemaigre-Dubreuil, Coty - ou pelo consulado italiano em Paris. O
mais virulento destes grupos foi o do jornal Je suis partout (Gaxotte, Brasillach, Bardèche), anti-
bolchevique e anti-semita, que preconizava a violência (4). Os
_________
(1) Cf. E. Weber, L’Action Française, Stock, 1953, pp. 156-158
(2) Cf. P. Milza, M. Benteli, op. cit., pp. 173-174
(3) Cf. o excelente livro de Ph. Machefer, Ligues et Fascisme en France, 1918-1939, PUF, 1974.
(4) Relatando uma «História da França», na qual Albert Bayer punha em relevo o papel desempenhado pelo povo, Brasillach ofereceu-
se como voluntário para manter o autor num campo de concentração!

98
OS FASCISMOS FRANCESES

intelectuais, principalmente os novos, entram portanto no combate político contra a República; mantêm-se
frequentemente influenciados pelo antigermanismo da Action Française e simpatizam mais com o fascismo
italiano - uma petição contra as sanções que a SDN aplicou à Itália teve centenas de assinaturas de jornalistas,
escritores, artistas...(1).
Esta fermentação atingiu aliás a esquerda socialista, sindicalista ou radical. Em Front Commun e em
La Flèche, Bergery e G. Izard diziam ser adversários do sistema parlamentar, adeptos de uma ampla união
dos trabalhadores organizados em sindicatos e cooperativas; opunham-se simultaneamente aos trusts e à
ditadura de classe. A renovação italiana, o poderio recuperado na Alemanha, atraíam estes intelectuais,
perturbados pelo nacionalismo afirmado pelos comunistas a partir de 1935 e assustados com a ideia de uma
segunda guerra mundial; a decadência da democracia afigurava-se-lhe irremediável. Esta oposição de ideias
contribuiu para desacreditar os partidos políticos tradicionais; tendeu para esbater as fronteiras entre a direita
e a esquerda; não foi ter por complete ao fascismo, mas facilitou a sua eclosão, designadamente e em primeiro
lugar nas «Ligas».

As ligas e a tentação do fascismo

A crise económica atingiu a França mais tarde e de maneira menos profunda que as outras
democracias liberais, as suas consequênciais sociais foram menos acentuadas, e, por conseguinte, a
inclinação para a solução fascista foi menos escorregadia. Mas a instabilidade política, os
escândalos financeiros, suscitaram uma crítica violenta contra o regime republicano, provocaram
uma bipolarização, com uma união dos partidos da esquerda na Frente Popular e uma radicalização
da extrema-direita nas «ligas facciosas», apodadas de fascistas pelos eus adversários.
__________
(1) A maior parte dos signatários apareceram em Vichy

99
OS FASCISMOS

A mais forte das ligas foi a das Cruzes de Fogo. Este agrupamento de antigos combatentes
da guerra exaltava a fraternidade das trincheiras, a reconciliação nacional, a primazia do espírito e
dos valores morais. Tinha um ar fascizante, porque seguia o chefe - o coronel La Rocque - ,
promovia reuniões motorizadas e tinha um serviço de ordem. Pronunciava-se contra o capitalismo
anónimo, o marxismo, o jogo estéril dos partidos; preconizava a associação de «operários de
confiança» ao destino da empresa, a dispersão das empresas pelo país para promover o «regresso à
terra», o «culto da pátria», e o «amor pela ordem francês». No imediato, recomendava que se
reforçasse o Estado, se ampliassem os poderes do presidente da República, se garantisse nas
fronteiras a segurança do país. Este movimento de massas chegou a ter 400 000 filiados. A sua
força causou preocupações aos poderes públicos. Dissolvido, o agrupamento transformou-se em
partido político - o Partido Social Francês - sem alterar a sua doutrina mas dando maior acentuação
ao antibolchevismo. A sua estruturação dava ao partido a esperança de conseguir cem deputados no
caso de eleições legislativas; de facto, o partido jogava o jogo republicano; queria reformar, mas
não destruir; rejeitava o fascismo, por patriotismo, porque o fascismo se identificava em os dois
inimigos potenciais da França - a Itália e a Alemanha. Este movimento, o mais temido pelos
«republicanos», era na realidade um dos menos temíveis. Aliás, o seu chefe previa que uma vez
terminada a sua tarefa, o partido se dissolveria automaticamente, incorporando-se na França (1).
_____________
(1) Depois da derrota, o partido não colaborou; embora fosse afastado do poder em Vichy, não se identificou com o regime;

100

OS FASCISMOS FRANCESES

Foi muito diferente o fascimo verde de Henri d'Halluin, por alcunha Dorgères, grande
admirador de Mussolini e Hitler. Este agitador organizou uma autêntica insurreição anti -
republicana. Pedia apenas a adesão dos camponeses e preconizava a ditadura, porque «a ditadura,
em toda a parte onde se instalou, colocou o camponês no primeiro plano». Não tinha fraseologia
revolunária; fez campanha contra a lei das quarenta horas de trabalho por semana na agricu1tura,
contra o Estado burocrático, contra o professorado primário que ensinava subversão, contra a
instrução obrigatória até aos 14 anos . É certo que Dorgères se inspirava também na doutrina social
católica de La Tour du Pin e de Le Play; pregava o regresso à terra, o voto familiar, preconizava um
Estado corporativo. Mas também organizou expedições punitivas contra camponeses grevistas, era
anti-semita; este autêntico fascista só não teve mais êxito - mesmo assim, chegou aos 200 000
filiados em 1938 - porque a base social do seu movimento, os pequenos e médios proprietários
rurais, era muito restrita.

O Partido Popular Francês, fundado em 1936, procurava a adesão de uma clientela


completamente diferente. Depois de ter preconizado um «comunismo nacional» e ter sido renegado
por Thorez, J. Doriot saiu do do comunista; arrastou com ele alguns militantes, e passou daí por
diante a desabafar o seu antibolchevismo virulento, o que lhe deu o apoio financeiro de banqueiros
e industriais importantes. O seu agru-
________
mas muitos dos seus membros desligaram-se dele e aderiram à Resistência. Cf. Ph. Machefer, Os aspectos da acção do coronel de La
Rocque, Revue d’histoire de la deuxième guerre mondiale, Abril de 1965.

101
OS FASCISMOS

pamento político foi o único que recrutou operários - 65 % dos seus filiados, segundo o jornal
L’Emancipation Nationale, num total de cerca de 300 000. Doriot rejeitava o liberalismo
económico, propunha a supressão progressiva do proletariado pela participação nos lucros e o
acesso à propriedade. Ao mesmo tempo, pretendia «manter a existência das classes médias, da
pequena e média produção, do artesanato, do comércio, das profissões liberais». Era evidente, e o
futuro veio a confirmar isso mesmo, que Doriot era um fascista puro e o mais perigoso de todos,
porque foi capaz de constituir um autêntico partido, recrutar e formar militantes e grande número e
influenciar as massas. No entanto, entre as duas guerras, Doriot não disse que era fascista; falava de
reformas, não falava em revolução. Embora se pronunciasse contra o Tratado de Versalhes,
«condenado pelos factos», embora verberasse a excitação antialemã «que vem de Moscovo» e era
difundida pelo partido comunista francês, Doriot não mostrou ser um admirador de Hitler e
Mussolini, de quem se manteve alheio até certa altura (1).

Não sucedeu assim com Bucard, que tinha sido um combatente muito brilhante, fundador
do Francismo, subsidiado pelo consulado italiano em Paris, e definiu o seu movimento dizendo que
«estava para a França como o fascismo estava para a Itália». A sua «doutrina» era uma repetição,da
ideologia transalpina, mas nem assim captou grande número de aderentes. Também, não sucedeu
assim com o movimento da Cogula, que preparou
____________
(1) Cf. D. Wolf, Doriot, du communisme à la collaboration, A. Fayard, 1969.

102

OS FASCISMOS PRANCESES

uma conspiracão militar para colocar no poder um chefe prestigioso, Pétain ou Franchet d'Esperey,
e para fazer abortar a revolução «social-comunista», mas restringiu o recrutamento dos seus
membros a círculos restritos, para manter mais seguro o segredo da conspiração.

Desta maneira os agrupamentos fascizantes e os declaradamente fascistas, antes da guerra,


foram muitos e diversfficados em França; também foram rivais uns dos outros. No entanto, há
desertores que vão de um grupo para outro, os inimigos a abater são os mesmos para todos e as suas
«doutrinas» têm muitos pontos comuns. Cada um procurava chegar a uma clientela determinada,
para acabar por atingir toda a sociedade: antigos combatentes com os «Cruzes de Fogo» e o
«Fascismo», camponeses com Dorgères, operários e quadros com Doriot, exército com a «Cogula»,
como se um chefe de orquestra tivesse organizado os naipes; é lastimável que as fontes financeiras
destes grupos, talvez comuns, não fossem mais conhecidas; a derrota e a ocupação iriam esclarecer
muitos pontos.

A colaboração ou a fascinação do nazismo

De facto, na metade ocupada da França, os grupos políticos tolerados pelo ocupante, ou por
este criados, uns e outros pagos pelos seus serviços, foram simultaneamente colaboradores e
fascistas - quer dizer que aprovavam inteiramente a doutrina nacional-socialista (1) e desejariam
que esta fosse aplicada em toda a França.
_________
(1) Salvo Je suis partout, que continuou a admirar Mussolini.

103
OS FASCISMOS

Foi isso que os opôs ao regime de Vichy, com o qual acabaram por se unir ao fim de diversas
jigajogas (1). As rivalidades entre os seus chefes, as clientelas diferentes que procuravam,
impediram estes agrupamentos de se reunirem; aliás, o ocupante também não os incitou a isso,
convencido de que o fascismo fortifica as nações e os vencidos devem manter-se fracos.

Na verdade, os diversos grupos tinham efectivos muito escassos; os mesmos fanáticos


aderiam a diversos agrupamentos, e viam-se sempre as mesmas caras nas manifestações,
exposições, paradas e colóquios. Na Côte d’Or, quatro grupos tinham menos de 800 aderentes,
sendo 80 % na cidade de Dijon, o que representava 0,33 % da população (2), e mesmo assim, uma
boa terça parte aderiu por terem sido constrangidos a isso. A colaboração continuou a ser um
fenómeno urbano e marginal. Pode distinguir-se na colaboração três correntes principais: os antigos
extremistas da direita (Je suis partout, Deloncle); Doriot e o «Partido Popular Francês»; antigos
esquerdistas (o socialista Spinasse, o radical Chateau, e, principalmente, o neo-socialista Déat) .
Estes homens censuravam uns aos outros as respectivas origens, e nem sempre estavam de acordo.
Mas estiveram todos de acordo para aprovar a capitulação de Munique, condenar a decleração
de guerra e repudiar os partidos políticos.

Dos seus temas comuns a todos, pode citar-se os três principais: a colaboração, o anti-
semitismo, o «so-
______
(1) Por exemplo, Doriot foi marechalista até 1942, e Déat andou muito ligado com P. Laval até se incompatibilizar com este.
(2) Cf. Gounand «Les groupements de collaboration dans une ville occupé», Revue d’histoire de la deuxième guerre mondiale, Julho de
1973.

104
OS FASCISMOS FRANCESES

cialismo» - tiveram uma audiência ampliada porque a maior parte das suas ideias eram difundidas
pela Imprensa denominada de «informação».
Para estes agrupamentos políticos, o nacional-socialismo realizou uma síntese harmoniosa entre as
forças do passado e as exigências do futuro; conseguiu conciliar as tradições e a revolução. Representa o
espírito da juventude, da renovação; é a virilidade afirmada; gera «o homem novo, o homem do século XX»;
é uma maneira heroica de conceber a vida, dura e pura, sempre em busca da grandeza; além disso, é eficiente.
Um homem incarna este conjunto de valores, Hitler, «Prometeu dos tempos modernos»; de origem popular,
Hitler é o próprio símbolo da autoridade; conforme escreveu Marcel Déat, Hitler soube «manter a própria
essência do germanismo e projectar no futuro a velha Alemanha».

Acima de tudo, Hitler protegeu o Ocidente contra o judeu-bolchevismo. Para os colaboradores, o


judeu era o mal incarnado. Le Pilori via no judeu «a vilania, a duplicidade, a manha, a usura, a demagogia,
tudo quanto é falso, feio, sujo, repugnante, negróide» Esta condenação era racial e histórica. O judeu, diziam
os colaboradores, não tem país nem pátria; por conseguinte, só pensa no dinheiro, vive apenas para ganhar
dinheiro; o seu intelectualismo é dissolvente para uma nação, tanto mais quanto ele consegue sempre deitar
mão à Imprensa, às editoras, ao cinema, à rádio. Sendo assim, é preciso eliminar completamente o judeu da
vida francesa, e obrigá-lo a trabalhar para a colectividade nacional; não se falava em campos de concentração
ou genocídio, embora não faltasse quem pedisse o assassínio.

Tivessem vindo da esquerda ou da direita, fossem antigos comunistas, socialistas ou corporativistas,


os colaboradores diziam todos que eram socialistas nacionais. Este socialismo era primeiro que tudo francês;
rejeitava Marx, aceitava Proudhon, «o teórico do grupo social», admirava Fourier, «o grande visionário», e,
sobretudo, prestava homenagem a Saint-Simon, que previu «a integração do trabalho na nação em base
hierárquica». Este «socialismo é vontade de concórdia nacional; implica o desaparecimento da luta de classes
e há-de realizar-se pelo corporativismo, reunindo

105
OS FASCISMOS

o trabalho francês - patrões, artífices, técnicos, operários». Este «socialismo», finalmente, sob o báculo da
Alemanha, conduzirá a uma Europa pacificada, a uma colaboração dos povos, e não dos trusts (1).

Os dois grupos de colaboração mais importantes, o Partido Popular Francês de Jacques


Doriot, e a União Nacional Popular, de Marcel Déat, exprimiam estas ideias cemuns, com
pequenas variantes, tendo em vista clientelas diferentes. Doriot, ainda antialemão, pelo menos em
palavras, em 1939, e «marechalista» em 1940, foi arrastado pelo seu antibolchevismo depois de
Junho de 1941; elevou à categoria de doutrina as suas rixas pessoais com o partido comunista. Na
verdade, houve dois PPF. O de Doriot tem amor aos comícios - Doriot é um orador enérgico -, gosta
da acção e da luta (Doriot foi um dos promotores da «Legião dos Voluntários Franceses contra o
Comunismo», foi para a U. R. S. S. combater e morreu na Alemanha, atingido pelo fogo de um
avião britânico). Sobre esta matéria bruta, os intelectuais do P. P. F. - Drieu La Rochelle, A.
Bonnard, Ramon Fernandez - lançam um manto de ideias que surpreenderam o «chefe» primeiro
que ninguém. Os intelectuais diziam pretender um «Estado, novo, moderno, autoritário, popular e
corporativo; um Estado totalitário, uma força independente que domine todas as outras». Neste
nacional-socialismo francês, Drieu La Rochelle prega uma bordadura de esteta. Celebra «o soldado
da velha guarda nazi, que regenera o homem»; admira «o homem hitleriano», que é uma
combinação dos gangsters
____________
(1) Cf. Michèle Cotta, La collaboration, Armand Colin, 1964.

106

OS FASCISMOS PRANCESES

americanos, da legião estrangeira, da aviação, um homem que só acredita nos actos».


Antes da guerra, o PPF tinha tentado aliciar as massas rivalizando com os comunistas em demagogia.
Depois de 1940, tentou atrair a clientela dos pequenos burgueses, acompanhando-os nas suas queixas contra
as grandes empresas; procurou também captar a herança de Dorgères, atacando a vida corrompida das cidades
- nas quais Doriot, grande folgazão, se diverte à larga - e defendendo a pequena propriedade camponesa. Mas
o PPF, de facto, não propunha nada que fosse positivo. A «revolução corporal» de Drieu La Rochelle -
generalização dos desportos, natularismo, férias - podia ser combinada com uma doutrina da produção e da
sociedade; não fazia, no entanto, as suas vezes. Talvez isto explique a diminuição do número dos seus
aderentes, apesar de ter mais recursos que anteriormente; este grupo não chegou provavelmente a ter 100 000
filiados. Em 1942, tinha 50 a 60 grandes secções e 150 a 200 grupos locais; em Novembro do mesmo o seu
«Congresso do Poder» reuniu 7200 delegados; mas em 1943 houve um enfraquecimento considerável; só no
fim de 1944, em Sigmaringen, Doriot, o fascista francês preferido por Hitler, depois de ter sido o comunista
francês preferido por Estaline, teve acesso ao poder num pseudogoverno de emigrados (1).

O facto de Marcel Déat, rival de Doriot, ter passado a fascista depois de ter pertencido à
Frente Popular, só a primeira vista pode causar surpresa. Na verdade, esta transaferência foi a
conclusão de um contínuo deslizar. A partir de 1930, Déat convenceu-se da incapacidade do
socialismo parlamentar para vingar; a partir daí, passou bater a tecla da organização da economia.
Como o socialista belga Henri de Man, Marcel Déat considerava
_________
(1) Cf. D. Wolf, op. cit; G, Soucy, «Le fascisme de Drieu La Rochelle», Revue d’histoire de la deuxième guerre Mondiale, Abril de
1967.

107
OS FASCISMOS

necessárias uma direcção e uma planificação da economia que só poderiam ser conduzidas, não por
parlamentares incompetentes, mas sim por «grupos de técnicos» - ainda não se usava o termo
tecnocrata. Este fi1ósofo foi influenciado pelas ciências sociais, que então começavam a formar-se;
apercebeu-se das características do neocapitalismo, de cartéis, ao qual deveria corresponder um
«neo-socialismo,». Foi influenciado pela reacção geral contra o intelectualismo e o cientismo, dos
quais o marxismo era a ponta de lança política; a organização autoritária dos fascistas fascinou-o;
em 1939, foi eleito depu tado numa lista anticomunista (1).

Marcel Déat acreditava na necessidade de um partido que atacasse o Estado por dentro, preparando
élites novas e elaborando uma moral nova; desta maneira foi conduzido à ideia de um Estado-partido nacional
que se dirigia aos instintos das massas. Uma República autoritária e um partido único - eram os dois pilares de
uma França integrada na Europa. Mas Déat, continuava a ter um «sotaque da esquerda» que lhe tinha ficado
do passado; não censurava a Revolução de 1789; pretendia que se distinguisse entre os franco-mações
«defensores da guerra» e os que eram «pacifistas»; dizia que a supressão do proletariado não poderia deixar
de ser acompanhada pela do capitalismo, e é pouco provável que tenha recebido, antes da guerra, os mesmos
subsídios que Doriot. O que não se explica é que este homem culto, que não era nada racista antes da guerra,
se tornasse anti-semita depois da derrota, afirmando que «a raça exalta a tomada de consciência das
diferenças». A União Nacional Popular procurava adeptos nos círculos pacifistas, entre o professorado
primário, no centro-esquerda. Mas debalde multiplicou as suas filiais, com a ideia de estender a sua rede a
toda a sociedade francesa (juventude, docentes, famílias de prisioneiros de guerra, trabalhadores
________________
(1) Y. Durand, Bohbot, «La Collaboration politique dans les pays de la Loire moyenne», Ibid., n.º 91, Julho de 1973.

108 1

OS FASCISMOS FRANCESES

velhos, camponeses, etc); nunca juntou multidões, e com certeza que o número dos seus aderentes nunca
excedeu 50 000 (1).

Enquanto a Legião dos Voluntários Franceses contra o Comunismo (LVF) foi a ponta de
lança dos colaboradores no exterior contra o inimigo comum - a União Soviética -, guarda avançada
que não congregou mais de alguns milhares de voluntários, quando se esperava que fossem 100 000
(2) - a Milícia foi o exército de todos contra o inimigo do interior, a Resistência; esta Milícia, criada
na zona Sul por Laval, autorizada a fazer recrutamento e lutar na zona Norte, em Junho de 1943,
veio a acabar por aceitar Hitler como chefe, com o seu comandante Darnand transformado em
Waffen SS. A organização teve origem no «Serviço de Ordem da Legião dos Combatentes», mas a
clivagem entre os agrupamentos de colaboradores e o regime de Vichy pode ser observada no facto
de pouco mais de metade dos membros do SOL se terem inscrito na Milícia, apesar de o chefe dos
dois agrupamentos ser o mesmo homem.

Os chefes da Milícia provinham da «Cogula»; os quadros pertenciam à extrema-direita;


muitos deles eram titulares e condecorados; eram notabilidades - médicos, advogados, proprietários
agrícolas, pequenos industriais. As praças eram recrutadas entre operários, empregados, pequenos
funcionários, e também no subproletariado,
____________
(1) A surpreendente evolução dos espíritos pode ser observado no caso de M. Déat: expulso do partido socialista por ter votado a favor
das verbas militares, veio a ser derrotista; em contrapartida, entraram para a Resistência muitos socialistas que tinham votado contra
as verbas militares.
(2) Cl.-J. Delarue, Trafics et crimes sous l’occupation, Fayard, 1968.

109
OS FASCISMOS

quando não entre cadastrados e também entre a juventude -, alguns alistaram-se para se furtarem ao
Serviço de Trabalho obrigatório. A Milícia nunca teve mais de 15 000 homens, e, em 1944, perdeu
metade dos seus elementos; em cada departamento, juntamente com os simpatizantes, apenas
juntava escassas centenas de aderentes. O seu elemento combativo era a «Franc-Garde» e o seu
serviço de informações trabalha em ligação estreita com as polícias alemãs (1).

Foram estes os «grandes» agrupamentos de colaboração. Outros ainda tiveram menos êxito, embora
vivessem com os mesmos subsídios e tivessem os mesmos objectivos. Esses grupos foram os seguintes:
«Partido Francês Nacional Colectivista», de Pierre Clementi; a «Frente Franca», de Jean Boissel, ao qual só
se podia aderir provando ter ascendência rigorosamente «ariana» até aos avós inclusive; a «Liga Francesa»,
criada por um antigo aviador, Constantini, que foi declarado irresponsável após a Libertação; o «Movimento
Social Revolucionário», de Deloncle, um dos chefes da «Cogula»; um pouco mais importante foi o
«Francismo», de Bucard, o qual, no entanto, nunca foi além de 30000 aderentes nas duas zonas (2).

Vichy ou a reacção triunfante e fascizante (3)

A existência do Governo de Vichy na metade da França não ocupada, depois do desastre da França,
foi
______
(1) J. Delperrie de Bayac, Histoire de la Milice, Fayard, 1969; M. Luirard, «La Milice française dans la Loire», in Revue d’histoire de
la deuxième guerre Mondiale, Julho de 1973.
(2) Cf. ibid., número especial, «Visages de fascistes français», Janeiro de 1975.
(3) Esta designação parece-nos preferível ao horroroso «fascistóide», geralmente adoptado.

110

OS FASCISMOS FRANCESES

uma decisão tomada pelo vencedor para não ferir de maneira violenta os sentimentos dos Franceses;
mas o vencedor ficou na posse de meios de pressão irresistíveis para assegurar a servidão do
pseudogoverno livre instalado provisoriamente (1) (subsídio de ocupação, linha de demarcação,
prisioneiros de guerra). Em vez de se limitar a administrar a França, o marechal Pétain, novo chefe
de Estado, pretendeu aproveitar a derrota para regenerar a França através de uma Revolução
Nacional.

O marechal proclamou que não imitava ninguém, e que o seu projecto assentava na tradição
nacional. De facto, um dos seus primeiros actos foi não consentir que instituísse um partido único e,
mais tarde, um movimento de juventude único. A Revolução Nacional, que se inspirava na doutrina
social da Igreja, no socialismo de Proudhon, e, sobretudo, nas ideias da - os adeptos desta
desempenhavam papel importante entre os que privavam com o marechal - tinha o objectivo de
reconduzir a França à era pré-industrial duma economia rural e artesanal (2). Pretendia consolidar,
ou restabelecer, os quadros tradicionais da sociedade: a família, a profissão, a região. A sua divisa
era «Trabalho, Família, Pátria». Hostil em princípio ao capitalismo, mas ainda mais hostil ao
socialismo marxista, o regime de Vichy queria descentralizar a administração, dar ao Estado o papel
de árbitro e agente de polícia, conciliar operários e patrões por meio de uma «Carta
____________
(1) Cf. o nosso Vichy, année 40, Robert Laffont, 1966.
(2) O «melhor operário da França», galardoado em Vichy em 1942, recebeu o prémio por ter construído por si só uma locomotiva.

111
OS FASCISMOS

do Trabalho», numa organização corporativa, substituir o individualismo pela solidariedade de


grupo.

Nos seus fundamentos, portanto, este regime não era de modo nenhum revolucionário, mas
sim profundamente reaccionário - «o outro nome da contra-revolução», escreveu René Rémond.
Mas era também uma ditadura que suprimia partidos políticos e sindicatos, restringia as liberdades
individuais, fazia prisões arbitrárias, criava categorias de párias que eram excluídos em princípio e
em bloco da comunidade nacional - comunistas, judeus, franco-mações - utilizava uma polícia
política paralela (grupos de autodefesa, serviço de ordem da legião, milícia), instituía uma censura
rigorosa e a prática da delação.

Embora o fascismo fosse oficialmente rejeitado, a sua atracção era muito forte. O culto do
marechal Pétain, pela amplitude, como pelo infantilismo, em nada ficava atrás do de Mussolini;
constituiu-se um sucedâneo de partido único com a «Legião Francesa dos Combatentes ». Em
Vichy voltam a aparecer, como em qualquer fascismo: o nacionalismo integral, a organização
hierárquica do corpo social, a liberdade definida pelas obrigações para com o Estado, uma
intervenção da autoridade politica em todas as actividades da nação, a eliminação dos «parasitas
sociais», a fraseologia revolucionária, a afirrnação da existência de uma terceira via entre
capitalismo e comunismo, uma radicalização da sociedade francesa (1).
__________
(1) Cf. R. Bouderon, «Le régime de Vichy était-il fasciste?», Revue d’histoire de la deuxième guerre mondiale, n.º 91, Julho de 1973.

112

OS FASCISMOS FRANCESES

Esta fascização latente tornou-se efectiva depois da ocupação da zona Sul, em Novembro
de 1942. Colaboradores notórios da zona Norte (Déat, A. Bonnard) entraram para o Governo; e
sobretudo, a criação da Milícia, comandada por Darnand, promovido ao cargo de responsável pela
ordem no Governo, avermelhou o regime de Vichy com uma mancha de sangue, as violências de
toda a espécie, a tortura, os fuzilamentos; é verdade que o marechal Pétain censurou estes excessos,
mas tarde demais e sem nunca os reprimir; começou por aceitar que fossem praticados em seu
nome. Esta era uma consequência inelutável da decisão de colocar a França, pela colaboração com
o seu vencedor, na Europa que este pretendia.

113
V
A EUROPA FASCISTA

Cada um dos dois grandes países fascistas - a Itália e a Alemanha - teve os seus adeptos
fora das suas fronteiras. O exemplo inicialmente seguido foi o da Itália, pioneira do fascismo; mas,
a partir de Setembro de 1939, a Alemanha nazi arrastou todos os fascistas europeus. Com as suas
vitórias militares, o fascismo dominou em países que se tornaram satélites da Alemanha.
Acrescentando a isto que a Alemanha e a Itália se uniram, para o melhor e para o pior, no eixo
«Roma-Berlim», e com o Japão no «pacto tripartido», tem-se a impressão que se constitui uma
autêntica internacional fascista, com tendência para o universalismo. Na verdade, todos os fascistas
estavam unidos na mesma luta contra os mesmos inimigos: o comunismo (apesar do pacto
germano-soviético), a democracia, os regimes liberais, os «metecos», e mais especialmente os
Judeus. No entanto, cada fascista na sua área geográfica exprime-se numa ração num momento
dado a sua história, com o seu passado, os seus problemas internos e externos, os seus interesses e
objectivos. significa isto que os fascistas,
115

OS FASCISMOS

embora todos se inspirem nos mesmos modelos e procurem a inspiração, e frequentemente os


subsídios de que vivem, em Roma ou Berlim, não são todos vazados no mesmo molde. Cada um
conserva um mínimo de caracteres específicos. Além disto há querelas velhas, o mais das vezes
questões de fronteiras, que opõem uns aos outros os Estados fascistas - a Roménia e a Hungria por
causa da Transilvânia, regime de Vichy e República de Salo -, o que leva a concluir que não houve
verdadeiramente uma internacional, com as suas instituições, uma direcção aceite por todos, uma
união real num só combate foram numerosos os atritos, e por vezes bastante ásperos, mesmo entre
a Itália de Mussolini e a Alemanha de Hitler (1).

Os fascismos clericais

Parece-nos que se podem classificar assim os regimes que se instituíram, na Áustria de


Dollfus, antes de se inserir no Reich alemão, e, mais duradouramente, em Portugal com Salazar,
mais tarde na Croácia e na Eslováquia depois de 1940. O que diferencia estes regimes do da
Alemanha nazi é o papel primordial que neles desempenhou a Igreja Católica e os valores que esta
defende.
Na Áustria, que, depois da guerra de 1914-18, ficou como que uma cabeça sem corpo, arruinada pela inflação
e até ameaçada pela fome, monsenhor Seipel instituiu um regime, sem dú-
________
(1) Não falando do racismo hitleriano em relação aos Japoneses.

116
A EUROPA FASCIS7A

vida parlamentar, mas muito conservador e baseado num corporativismo inspirada na encíclica Quadragesimo Anno e na
colaboração de classes. Em seguida, o chanceler Dollfus avançou ainda mais no mesmo caminho; destitui o Parlamento,
amordaçou a Imprensa, esmagou uma revolta de operários em 1934, proibiu as greves e apoiou-se num só partido - o
partido cristão-social. Foi urna ditadura branda, na qual os opositores conhecidos, internados mas depois postos em
liberdade, circulavam à vontade, sem que nada de mau lhes acontecesse, em que a Imprensa socialista, em princípio
clandestina, era distribuída quase às claras. A esta ditadura deparou-se dois adversários - a Heimwehr e os nazis.

A Heimwehr do príncipe Stahrenberg tinha como adeptos os pequenos proprietários, os antigos oficiais e
funcionários da Áustria-Hungria desaparecida. Este movimento, apoiado por Mussolini, era de carácter rural, provincial e
católico, opunha-se à «Viena Vermelha» e tinha como ideal urna sociedade pré-industrial; os industriais subsidiaram este
Movimento, por ser anti-socialista, o exército deu-lhes armas e o clero tomou parte em missas ao ar livre por ele
organizadas, nas quais se juntavam grandes multidões. Dollfuss e o seu sucessor, Schuschnigg, umas vezes combatem a
Heimwehr - que Schuschnigg dissolveu em 1936 - outras vezes servem-se dela, como milícia, quer contra os socialistas
quer contra os nacionais-socialistas austríacos que, dirigidos e sustentados por Berlim, obtiveram grande adesão à ideia da
ligação da Áustria ao Reich alemão. Os nacionais-socialistas austríacos assassinaram Dollfuss; contra eles, Schuschnigg
tentou em vão formar uma união nacional, integrando os operários em sindicatos oficiais, proclamando urna amnistia
geral; a sua base social manteve-se sempre muito restrita; foi vítima, sobretudo, do abandono da Áustria por Mussolini,
depois da guerra da Etiópia e das sanções contra a Itália. Desta maneira, o fascismo clerical austríaco foi vítima da
vontade de expansão hitleriana, que pouca oposição teve na Áustria - o episcopado e até o socialista Karl Renner,
chanceler em 1919, aprovaram o Anschluss de 1938.

O fascismo português, que beneficiou de circunstâncias mais favoráveis, manteve-se


durante cerca de cin-
117
OS FASCISMOS

quenta anos (1). Quando o Prof. Salazar entrou para o Governo, em 1928, foi a isso chamado como
financista de renome, com a missão de tratar um país muito doente por causa do abuso das
revoluções e da crise económica e financeira. Os êxitos que Salazar obteve, nestas funções,
transformaram-no a pouco e pouco num «homem providencial» e os seus poderes foram
aumentando constantemente, sem golpes de Estado embora não sem violência. O regime instituído
por Salazar foi fascista porque apresentava as seguintes características: rejeição do
parlamentarismo, adopção dum sistema corporativo, proibição da greve, enquadramento dos
indivíduos, internamentos de carácter administrativo; glorificava o chefe, o Salvador, difundia os
mitos nacionalistas, proclamava a vocação colonizadora de Portugal - o Acto Colonial de 1933
fundou a unidade de Portugal e suas possessões ultramarinas. O regime rejeitava a luta de classes e
procurava a união da nação num corpo social hierarquizado; aliás, o regime sucedeu a uma ditadura
militar.

Mas Salazar rejeitava o totalitarismo, «que subordinaria tudo à nação e à raça»; os


Portugueses fazem mestiçagem com facilidade. Salazar manteve o Estado clássico; sonhava um
Portugal voltado para o passado, imóvel, agrícola, pouco instruído, dirigido pelos notáveis, guiado
pelos padres na via dos valores familiares e morais cristãos. Assustavam-no as perspectivas
proporcionadas pela sociedade industrial, para a qual se orientavam os fascistas italianos e os nazis
alemães; apoiava-se nos grandes proprietários, mais do que na burguesia
____________
(1) Cf. Christian Rudel, Salazar, Mercure de France, 1969, 276 pp.

118

A EUROPA FASCISTA

industrial, aliás mais liberal que os agrários. Nestas condicões, o regime era tanto tradicionalista
como fascista, embora, a partir de 1936, tentasse reunir as massas, e agrupar a juventude. Apesar do
seu anticomunismo, Salazar, durante a segunda guerra mundial manteve-se neutral entre os dois
campos, até que a vitória dos Aliados fez com que se inclinasse a favor destes.

Falangismo e caudilhismo espanhóis

Para Maurice Bardèche, saudosista do fascismo, o fundador da Falange espanhola, José


António Primo de Rivera, é «um anjo que exprimiu o sonho do fascismo», de certa maneira o
fascista puro(1). No entender de Primo de Rivera, o Estado democrático não orienta o destino da
nação; assiste aos conflitos sociais e aceita o esmagamento dos fracos; além disso, o capitalismo
liberal conduz forçosamente ao comunismo; passa-se então para uma nova forma de escravatura,
«no triunfo do sentido materialista da vida e da história». Ora, cada nação tem uma missão histórica
a cumprir, e o papel do Estado é realizar este destino nacional; cada homem , realiza o seu próprio
destino participando no da nação, ao serviço da qual deve colocar-se, e a isto chamava José António
«o sentido ascético e militar da vida».

Na realidade, a Falange foi uma reacção contra o movimento operário espanhol, em 1934;
tomou parte na repressão da insurreição operária das Astúrias. Havia
____________
(1) M. Bardèche, Qu'
est-ce que le fascisme? «Les Sept Couleurs», 1970, pp 62-70

119
A EUROPA FASCISTA

nela duas tendências; uma, com primo de Rivera, admirador de Mussolini, defendia um program
bastante moderado de reforma agrária, intervenção do Estado na vida económica, nacionalização do
crédito; a outra inspirava-se no anarco-sindicalismo espanhol e preconizava a supressão da
propriedade privada. Esta dualidade, análoga à que opôs os irmãos Strasser a Hitler, teve o mesmo
final na Alemanha : a ala esquerda foi eliminada. A Falange tomou a sua parte na luta contra os
republicanos; de todas as forças que se colocaram junto do general Franco, a Falange era a única
que tinha uma doutrina. Mas não teve de a aplicar. Primo de Rivera morreu na guerra civil;
segundo, diz M. Bardèche, «valeu mais ele não ter entrado na terra prometida, onde começam as
partilhas, os arranjos, as arbitragens e os descontentamentos».

Isto porque o general Franco, uma vez ganha a guerra, soube utilizar-se da Falange mas
manteve-a afastada do poder. Na guerra civil, Franco foi apoiado por uma coligação de
proprietários agrários, militares do Antigo Regime, negociantes e monárquicos tradicionalistas, com
a benção da Igreja. Tornou-se depois da vitória o chefe, o Salvador, o condutor (o Caudilho), na
linhagem dos ditadores que se sucederam uns aos outros no poder na Península Ibérica e na
América Latina. Manteve o partido único, mas assumiu pessoalmente a direcção deste, e evitou que
o partido se instalasse em todos os postos do poder.

O regime instituído por Franco baseava-se na aliança dos militares com as classes
dirigentes, e, mais tarde, com os tecnocratas. É verdade que a actividade era vigiada em todos os
escalões e em todos os momentos, quer se
120
A EUROPA FASCISTA

tratasse da educação familiar, dos costumes e das profissões. Mas não houve um partido fanatizado
por uma mística; foi uma ditadura profundamente reaccionária; Franco pretendeu imobilizar a
sociedade espanhola, tal como Salazar em relação à sociedade portuguesa; a Espanha voltou-se
sobre si própria, buscando a via do seu futuro nas lições do passado. O regime, a principio muito
desconfiado em relação à sociedade industrial, que edifica cidades desumanas e faz germinar a
revolta nas massas operárias, foi saindo a pouco e pouco, obrigado pela necessidade, do
maltusianismo económico empobrecedor em que se tinha confinado, e entrou no caminho de um
crescimento progressivo e equilibrado. Mas esta evolução, que favoreceu o capitalismo liberal, não
foi acompanha por uma liberalização política; os partidos e os sindicatos continuaram proibidos, os
movimentos autonomistas continuaram a ser reprimidos, as greves continuaram a ser punidas. No
exterior, o anticomunismo de Franco induziu-o a enviar uma divisão para combater na U. R. S. S.,
mas o nacionalismo espanhol e a evidência da debilidade do país, no fim da guerra civil, levaram-no
a manter uma grande prudência entre os dois campos em luta na segunda guerra mundial, o que lhe
evitou cair juntamente com o fascismo e o nazismo em 1945. O franquismo foi um regime
autoritário com um chefe que administrou, da maneira mais favorável para os interesses dos
vencedores, os êxitos da contra-revolução.

As ditaduras militares fascizantes

Nos Estados que surgiram depois da primeira guerra mundial, ou abalados por este
conflito, o exército desem-

121
OS FASCISMOS

penhou papel importante para garantir ou manter a unidade nacional; instituiu-se frequentemente
ditaduras militares depois de experiências parlamentares desagradáveis, às vezes de acordo com as
classes dirigentes, mas, outras vezes, em conflito com estas e sem deixarem de sofrer a influência
da corrente fascista, então em pleno crescimento.

Na Turquia, Mustafá Kemal pretendeu a princípio instituir no seu país uma democracia de estilo europeu;
mudou de orientação ao verificar até que ponto a falta de educação política das massas camponesas
analfabetas dificultava a aplicação dos seus planos de reforma. Na verdade, a sua intenção era romper
completamente com o passado, retirar todo o poder temporal ao «Comendador dos Crentes» (o Sultão),
laicizar o Estado e modernizá-lo - um tanto ou quanto de acordo com as ideias dos «Jovens Turcos». Exerceu
então a ditadura, apoiado pelo partido único que se denominou «partido do povo»; os seus adversários foram
declarados traidores da nação; o Parlamento foi dissolvido e uma assembleia nova, mais dócil, elegeu-o por
unanimidade para o cargo de presidente da República. O instrumento do poder era o exército, que servia de
elo de ligação entre as massas populares, de onde saíam os seus soldados, e a burguesia, que lhe
proporcionava os oficiais. Pode falar-se neste caso de «fascismo de esquerda», na medida em que se fizeram
distribuições de terras e se promulgaram leis de nacionalização; mas o socialismo foi proibido e os
comunistas foram perseguidos. No fim de contas, o regime favoreceu o capitalismo que começava a surgir no
país, embora tivesse uma ampla base popular.

Na Polónia, país essencialmente rural, onde a Igreja e a aristocracia desempenhavam o principal


papel, ameaçada no interior por uma tendência crónica para a indisciplina e pelo grande número de habitantes
de origem estranha, e ameaçada do exterior por uma U. R. S. S. comunista e pelas reivindicações de uma
Alemanha ainda não nazificada, o general Pilsudski tornou-se um heroi nacional, e, como antigo socialista,
paladino da revolução. Efectivamente, quando o general Pilsudski marchou para Varsóvia,
122
A EUROPA FASCISTA

Em Maio de 1926, repetindo a marcha de Mussolini para Roma, mas agora à custa de combates sangrentos,
foi apoiado pelos socialistas e por greves operárias. Tornou-se então um autêntico ditador, embora fosse
apenas o «primeiro marechal da Polónia» e inspector-geral do exército. Mas o seu carisma foi suficientemente
forte para poder fazer e desfazer os ministérios, até morrer em 1935. No entanto, manteve-se em teoria um
pluripartidarismo, os jornais da oposição eram tolerados, e o Estado não dominava completamente a vida
económica; a policia actuava, sem no entanto haver terror psicológico. Mas as eleições eram falseadas, o
Parlamento reunia raramente, os opositores eram metidos na cadeia. Pouco a pouco, as classes dirigentes
foram reassumindo o poder; também no caso polaco, não se realizou o fascismo «de esquerda».

Na Grécia, foi com a aprovação do rei Jorge e depois de um período de greves, que o general
Metaxas suprimiu o Parlamento em Agosto de 1936. Censurava a democracia, por causa da importância que
esta dá ao racionaliamo e ao individualismo; suprimiu as instâncias jurídicas normais, e substituiu-as por uma
«Comissão da Salvação Pública» subdividida em comissões regionais, constituídas por funcionários
investidos de autoridade, juízes e polícias, que tomavam decisões sem testemunhas nem advogados e das
quais não havia recurso. Os lugares públicos só eram concedidos a pessoas possuidoras de um certificado do
secretário de Estado da Salvação Pública. A juventude foi agrupada no plano nacional, para dar ao partido os
seus quadros e à nação as suas élites. Mas enquanto Metaxas pretendia que se lhe prestasse culto, o rei não
queria que ele se tornasse um chefe. Mais ainda que Mussolini, o ditador grego estava sob o domínio dos
conservadores monárquicos; oficialmente, o rei continuava a ser o chefe do exército. Metaxas teve de pôr de
parte o seu projecto de sistema corporativo; contentou-se com medidas sociais parciais - seguros sociais,
subsídios de maternidade... Grande admirador do fascismo italiano, transformou-se no entanto, em Outubro
de 1940, numa espécie de herói nacional quando disse não às reivindicações de Mussolini e repeliu as tropas
italianas invasoras (1).
______________
(1) Harry Cliadakis, «Métaxas et la deuxième guerre mon-

123
OS FASCISMOS

Hitler e o fascismo europeu

Na Europa conquistada pelo exército alemão, entre 1939 e 1944, instituíram-se por toda a
parte regimes autoritários e de reacção social. Os grupúsculos fascistas pulularam então,
dependentes de Berlim, que os subsidiava, alimentava a sua propaganda, envolvia em operações
policiais repressivas - contra judeus, contra resistentes - acabando por amalgamá-los nas Waffen SS
do exército alemão. No entanto, para não entrar em choque com as populações, o ocupante
intervinha o menos possível nos negócios internos de cada Estado. Em geral, não colocava
automaticamente no poder os grupos fascistas que lhe eram dedicados; preferia apoiar-se em
personalidades com envergadura capazes de tranquilizar os ocupados; foi assim que preferiu Pétain
a Laval e Laval a Doriot; teria preferido o rei Haakon em vez de Quisling, o rei Leopoldo em vez de
Degrelle, etc. Os grupos fascistas eram mantidos em reserva, como força de pressão sobre os
círculos dirigentes tradicionais.

O que interessava à Alemanha era a exploração máxima dos recursos de cada país na sua
contribuição para a vitória do Reich. Os métodos eram os mesmos em toda a parte - subsídios de
ocupação, clearing de sentido único, participação nas empresas, exigências de mão-de-obra, etc. - e
daí resultou uma certa uniformização. Mas a propriedade privada não foi posta em questão;
desejava-se, solicitava-se até a «colaboração» das classes dirigentes. Nesta ordem de ideias,
observou-se em cada país uma adaptacão à situação política e ao passado
_________
diale,» in Revue d’histoire de la deuxième guerre mondiale, Julho de 1977.

124

A EUROPA FASCISTA

histórico. Embora houvesse integração de facto no Grande Reich, e a repressão policial estivesse
generalizada, não é lícito falar da existência de uma autêntica internacional - por exemplo, não
existiu nada que se comparasse com o Komintern. A fascização incontestável da Europa
conquistada foi apenas a transcrição ideológica da ocupação alemã e das suas necessidades.

A fascização da Europa ocidental

A primeira experiência foi tentada na Noruega, com Quisling. Este antigo ministro da
Guerra deixou-se seduzir pelas teorias de A. Rosenberg, numa singular mistura d espírito
autoritário, e romantismo; acreditava na superioridade da raça ariana e via no judeu o vírus do
comunismo.
A sua sociedade ideal era a sociedade de camponeses a trabalhar juntos para o bem da comunidade;
mas, como ministro, mandou tropas reprimir uma greve; o seu nacionalismo norueguês levou-o a
reivindicar a Islândia e a Gronelândia. Em 1933, fundou o partido «Nasjonal Samling», do qual se
proclamou «Forer» (Führer); formou uma guarda pessoal, imitação das SS. Introduzido por
Rosenberg junto de Hitler, sentiu-se fascinado por este. Colocado no poder pelos Alemães, contra a
quase unanimidade dos seus concidadãos - um erro que veio a custar caro - Quisling quis integrar a
Noruega «no quadro da grande união germânica». Tentou colocar membros do seu partido nos
lugares de presidentes dos municípios e de conselheiros gerais, e também nos cargos superiores da
administração - e publicou um decreto que dava ao Governo poderes para substituir os

125
OS FASCISMOS

funcionários que não fossem dedicados ao partido. Criou um «Tribunal do Povo» que julgava em
última instância e sem recurso os delitos políticos. Os professores foram escolhidos fora das
autoridades académicas, e as bibliotecas foram depuradas. Criou-se uma nova organização sindical,
a «Federação do Trabalho», dirigida por uma comissão do partido; os próprios desportos passaram
para a direcção do partido.

Portanto, Quisling pretendeu instituir um autêntico totalitarismo, mas não conseguiu criar
um Estado corporativo - porque a base operária se esquivou. Organizou uma legião antibolchevique
e um batalhão de SS que, no interior, colaborou com a polícia alemã. Mas apesar do grande número
de oportunistas que o acompanharam, Quisling não conseguiu fazer-se aceitar pela opinião pública
norueguesa; a primeira consequência da sua instalação no poder foi a partida do rei Haakon para
Londres; os Noruegueses entendiam que a legitimidade estava em Londres; Quisling não conseguiu
fazer mais, ao fim e ao cabo, do que transformar os seus concidadãos em inimigos da Alemanha (1).

Na Holanda de antes da guerra havia uma crise permanente das instituições parlamentares -
nas elições de 1932 houve 52 partidos concorrentes. O fascismo nasceu com a crise económica.
Mussert, engenheiro civil de renome, fundou o «Movimento Nacional-Socialista» em 1931; apenas
com 1000 aderentes em 1933, este movimento atingiu os 50 000 em 1935 e teve 300 000 votos nas
eleições; desceu depois. A sua doutrina não era comple-
___________
(1) Paul Hayes, «Quisling's political ideas», in Journal of contemporary history, N.º 1, 1966.

126

A EUROPA FASCISTA

tamente nacional-socialista, professava o antiparlamentarismo, a independência nacional, a luta


contra o abrandamento, do sentimento nacional (1); o anti-semitismo viria mais tarde.

Mas, em 1940, Mussert estava disposto, como Quisling, a combater ao lado dos Alemães.
Foi mal recompensado por isso; escaldado com a experiência norueguesa, Hitler entendeu que a
base social do movimento holandês era muito restrita. Como o que mais lhe interessava era que os
Holandeses estivessem quietos, e como a partida da rainha Guilhermina o privou de um interlocutor
legal, favoreceu a criação de um agrupamento mais amplo, a «União Holandesa», capaz de captar
maior número de aderentes. O comissário do Reich, Seyss-Inquart, suscitou também a divisão no
movimento de Mussert, em proveito da fracção que pretendia a união da Holanda ao Grande Reich,
enquanto Mussert esperava que a Holanda, ampliada com a Bélgica e a Flandres francesa, viesse a
constituir uma zona avançada do Reich a ocidente. À falta de melhor, Hitler manteve Mussert na
direcção do partido mas não lhe confiou nenhum cargo importante, dando-lhe apenas o título, vazio
de sentido, de Guia do povo holandês; tudo o que Hitler pretendia dos 100 000 membros do partido
era uma colaboração policial e militar - 20 000 serviram na Wehrmacht. Ainda antes de Setembro
de 1944, o partido de Mussert desfez-se; os seus aderentes passaram a servir nas SS e a combater
contra os Aliados a título individual. Também na Holanda foi flagrante o insucesso do fascismo.
________
(1) Paape, «Le mouvement nacional socialiste en Hollande», Revue d’histoire de la deuxième guerre mondiale, Abril de 1967.

127
OS FASCISMOS

Na Bélgica, embora o rei Leopoldo se tenha mostrado algumas vezes favorável à extrema-
direita, a sua presença prejudicava alguns aprendizes de chefes de pacotilha. Também neste caso, o
ocupante não facilitou nada as coisas aos seus amigos. O nacionalismo flamengo era o principal
reservatório do fascismo; adorando o folclore, cheio de misticismo romântico, afirmando que «a
língua é o povo», a maioria dos seus elementos pertencia à classe média, entravada na sua subida na
escala social por causa da predominância da língua francesa. Os nacionalistas flamengos, visto
serem francófobos, eram germanófilos. A partir de 1933, o «Vlaams National Verbond», cujo chefe
era Staf de Clercq, adoptou um estilo nazi para enquadrar a população, preconizou o
corporativismo, recrutou os seus grupos de juventude e a sua milícia. Mas o ocupante não se
interessou pelo futuro da Flandres; integrou pura e simplesmente a legião flamenga nas SS; quando
o sucessor de Clercq protestou contra as tendências de anexação alemãs, a SS aborreceu-se
favoreceu outra tendência, a «De VIag», que se pronunciou pela anexação da Flandres ao Reich (1).

A história do «rexismo» na zona dos Valões é ainda mais insignificante. Degrelle era
católico integralista, seguidor de Maurras, atacava o regime parlamentar, e, subsidiado por
Mussolini, obteve 11% dos votos nas eleições de 1936; nessa altura, não era realmente fascista;
preconizava uma «revolução das almas», a qual, sem recurso à violência, devia combater o
comunismo e favorecer a união de todos os Belgas. Mas, quando regressou
_________
(1) J. Willequet, «Les fascismes belges», Revue d’histoire de la deuxième guerre mondiale, Abril de 1967; Els de Bens, «La presse de
1'occupation», ibid., Outubro de 1970.

128

A EUROPA FASCISTA

de França, onde foi internado em 1940, Degrelle recebeu subsídios alemães - como os Flamengos;
recrutou aderentes para a Wehrmacht. Como não era visto com bons olhos pela SS, foi até ao ponto
de proclamar a «germanidade» da Bélgica, incluindo a Valónia, «pelo sangue e pela terra». Formou
uma milícia que se colocou às ordens do ocupante. Em conjunto, os fascistas belgas enviaram para a
U. R. S. S. duas «legiões», comandadas por oficiais alemães. Como os seus homólogos franceses, o
ocupante pagava-lhes, mantinha-os divididos e não lhes dava acesso ao poder; esqueceram o seu
nacionalismo para não serem mais do que criaturas servis da SS.

Os fascismos da Europa central

Na Europa central, os Alemães serviram-se por vezes de grupos fascistas como a «Guarda
de Ferro» da Roménia ou os «Cruzes Frechadas» da Hungria, outras vezes de minorias étnicas, na
Eslováquia ou na Croácia - para falarmos apenas destes quatro exemplos.

Na Hungria, as classes dirigentes, os grandes proprietários e a burguesia negociante procuravam o


apoio da Alemanha para a revisão dos tratados de 1918, revisão que desejavam, mas temiam o lado plebeu do
nazismo (1). Este tinha mais audiência entre pequenos proprietários, oficiais subalternos, funcionários de
média categoria. O movimento dos «Cruzes Frechadas» foi lançado por Perene Szalassi em 1935; dizendo-se
anticapitalista, suscitou a resistência da aristocracia e dos dirigentes húngaros; em contrapartida, ultrapassou a
pequena burguesia e infiltrou-se entre os operários escassamente sindicalizados - mineiros, trabalhadores
__________
(1) M. Lacko, «Les Croix fléchées», ibid., Abril de 1966.

129
OS FASCISMOS

agrícolas, trabalhadores não qualificados. Em 1939, tinha 250 000 aderentes e obteve 25% dos votos nas
eleições. Declarou-se então anti-semita e antimarxista. Mas Hitler preferiu que o almirante Horthy
continuasse no poder; só lá colocou Szalassi em 1944, quando Horthy tentou em vão negociar com os
Aliados. Na Hungria não se fez amálgama de conservadores e fascistas.

Na Eslováquia, separada da Boémia depois de Munique, desenvolveu-se uma espécie de fascismo


clerical; todo o ensino estava subordinado à Igreja; um projecto de Constituição considerou o Estado eslovaco
uma «comunidade cristã e social»; o chefe do Estado era um padre, monsenhor Tiso. Foram suprimidos todos
os partidos políticos, com excepção do «Partido Populista»; um serviço oficial da propaganda tinha o
monopólio da Imprensa, os oposicionistas foram internados sem julgamento e as empresas judaicas foram
submetidas a um processo de «arianização» (1). Mas o facto mais notável foi que a Eslováquia se tornou um
satélite do Reich; foram concedidos privilégios excessivos à minoria alemã, e a polícia de Bratislava era
comandada pôr um alemão. Os Alemães tinham de reserva um pequeno partido nacional-socialista dirigido
por Tuka.

Na Roménia, a «Guarda de Ferro», que, fundada pelo capitão Codreanu, passou a ser
dirigida, depois da morto deste, pelo estudante universitário Horia Sima, combinava uma doutrina
idealista com um comportamento sanguinário. A doutrina era duma dureza espartana: «Vamos viver
em pobreza», escreveu Horia Sima, «acabar com qualquer possibilidade de exploração do homem
pelo homem, vamos sacrificar-nos pela Pátria e manter a nossa alta concepção moral. » Na verdade,
a Guarda constituía uma milícia, e, quando participou no poder, procedeu a buscas, prisões,
apreensões de bens a preços vis, e executou os seus adversários: detidos políticos nas
_______
(1) M. Vietor, «L'évolution, de l'Etat slovaque», ibid., Outubro de 1963.

130
A EUROPA FASCISTA

prisões, personalidades raptadas de suas casas, como o historiador Jorga; o bairro judaico de
Bucareste foi saqueado.

Na Roménia, como noutros lugares, Hitler não quis que houvesse desordem. Apoiou o
general Antonesco quando este se opôs à «Guarda de Ferro» numa guerra de ruas. Antonesco
tranquilizou a classe dirigente romena, mas o regime que instituiu em numerosos aspectos era
fascista: tendo adoptado o título de conducator, o general referia-se a si próprio na terceira pessoa;
aplicou as leis anti-semitas propostas pelo embaixador alemão (os Judeus foram expulsos do
exército, requisitados para trabalhos pesados, sujeitos a tributos enormes, expropriados, e, por fim,
deportados para uma província conquistada durante algum tempo à U. R. S. S. e denominada
Transínistria) ; no entanto, os morticínios de Jassy (8000 a 10 000 pessoas em Junho de 1941)
foram cometidos pelos Alemães. Principalmente, a ditadura militar de Antonesco - o seu Governo
era constituído por generais - colocou a Roménia ao serviço dos Alemães, embora o país não
estivesse verdadeiramente ocupado; o único partido político tolerado era o do grupo étnico alemão,
que se transformou num Estado dentro do Estado; «técnicos» alemães da Embaixada alemã
fiscalizavam a Imprensa, a exploração do petróleo, o comércio externo; a partir de Agosto de 1941,
enviou-se operários para a Alemanha e um exército para a U. R. S. S. - ficando Horia Sima mantido
de reserva, na Alemanha.

Na Croácia, os «Ustachis» de Pavelic, em muitos aspectos pareciam-se com a «Guarda de


Ferro» romena. Pavelic, nacionalista croata que passou muito tempo a conspirar no estrangeiro, foi
colocado no poder com a

131
OS FASCISMOS

protecção da Itália, e depois da Alemanha; constituiu um partido único, apenas reuniu o Parlamento
uma vez, e, em teoria, colectivizou toda a economia - «os bens materiais e espirituais, são
propriedade do povo». Na verdade, o poder era essencialmente terrorista. A raça croata foi
proclamada «raça superior»; os Sérvios, tinham de escolher entre converter-se ao catolicismo,
emigrar ou ser exterminados. O ministro dos Cultos proclamou: «Enforquem os Sérvios nos
salgueiros»; foram mortos entre 400 000 e 700 000 sérvios e cerca de 40 000 judeus. Nestes crimes
participaram franciscanos; o papa Pio XII concedeu audiência a Pavelic e até a uma delegação da
polícia «ustacha», contra o parecer de parte da Curia, designadamente o cardeal Tisserand; parecia
que aprovava estes crimes horrorosos. No entanto, o «nacionalista» Pavelic aceitou a intrusão
italiana e alemã no seu país; assinou um tratado pelo qual cedeu à Itália a Eslovénia e a costa
dalmata; os Italianos e os Alemães fiscalizavam os meios de transporte e as vias de comunicação, os
correios e as minas; o exército croata foi enviado contra os guerrilheiros de Tito. Os militares
alemães assustam-se com abusos que os prejudicam junto da opinião pública - a burguesia
autonomista, dirigida por Macek, separou-se do regime; mas Hitler manteve até ao fim a confiança
que tinha depositado no «Poglavnik » (1).

Não se sabe se Hifier, se tivesse saído vitorioso da guerra, teria imposto a todos os países
vencidos um regime fascista «para durar mil anos»; é bastante prová-
________________
(1) A palavra «chefe» em croata; cf. Dincic, «L'Etat oustacha», ibid., Abril de 1973.

132

A EUROPA FASCISTA

vel que o Führer pensasse, que o nacional-socialismo, que torna fortes as nações, seria perigoso
quando instituído ras nações hostis à Alemanha. Mas, durante toda a guerra, embora os
agrupamentos fascistas proliferassem, embora por toda a parte a influência alemã substituísse a
italiana, o certo é que Hitler preferiu manter os seus adeptos fanáticos de reserva, entregando as
rédeas do poder a personalidades conservadoras mais conhecidas, cuja presença tornava as
populações mais dóceis.

133
VI
O FASCISMO FORA DA EUROPA
A primeira guerra mundial travou-se essencialmente na Europa; os abalos sociais,
económicos e nacionais que dela resultaram fizeram surgir movimentos autoritários antiliberais e
anticomunistas; fora da Europa, só o Japão, que entrou na era industrial no fim do século XIX,
sofreu tensões análogas às dos países europeus. A segunda guerra mundial atingiu todo o globo,
terrestre;separados da Europa, alguns países sul-americanos começaram a industrializar-se, como a
Argentina e o Brasil. Outros Estados surgiram depois da guerra, na África e na Ásia; para
consolidarem unidades frágeis, adoptaram o sistema do partido único ou da ditadura militar.
Quando os colonos brancos se sentiram ameaçados pelo avanço da descolonização, criaram-se
mentalidades de fundamento, racial na África do Sul e na Argélia.

O fascismo japonês

No Japão não se formou um partido fascista poderoso; as facções que se diziam fascistas
até se comba-

135
OS FASCISMOS

tiam umas às outras (1), e o fascismo era até um tanto rejeitado como produto vindo da Europa. No
entanto, havia na sociedade japonesa um mal-estar autêntico; especulação e escândalos, grande
riqueza de uns e miséria de outros, capitalismo avassalador com laivos de feudalismo, um
imperador teoricamente todo-poderoso mas de facto sem qualquer poder, sistema parlamentar
perturbado pela fraqueza dos partidos políticos e pelas eleições falseadas, etc. A classe dirigente,
divergindo das suas homólogas europeias - os grandes proprietários e industriais japoneses -, nunca
teve apreço pelas ideias liberais; os trusts mantinham as estruturas fechadas das antigas famílias
associadas. A inflação prejudicou a pequena burguesia das cidades e os camponeses; é verdade que
o imobilismo da sociedade japonesa, o sentimento da hierarquia social e a disciplina do povo
japonês impediram as revoltas. Mas o serviço militar obrigatório criou um corpo de oficiais vindos
do povo, que conheciam por experiência a miséria deste e não morriam de amores pelos novos-
ricos; por outro lado, a classe dos guerreiros, a pequena nobreza (os Samurai), tendo baixado de
categoria, tornou-se anticapitalista reaccionária. O fascismo foi recrutar os seus adeptos nestas duas
categorias.

Mas o fascismo nunca foi um movimento de massas violento, «a explosão vulcânica das
paixões humanas» de que falava Hitler. Em vez de procurarem promover transformações sociais, os
fascistas japoneses faziam o possivel por atrair os círculos dirigentes, a começar pelo
___________
(1) T. Furuya, «Sur le fascisme japonais», Revue d’histoire de la deuxième guerre mondiale, Abril de 1972.

136

O FASCISMO FORA DA EUROPA

imperador; queriam monopolizar o poder, apoiando-se na organização social existente. Unia-os a


convicção da superioridade da civilização japonesa. «A missão divina do nosso grande Japão»,
escrevia Ishihara Kanji, «é trazer a paz ao mundo, realizando uma síntese de todas as civilizações.»
Estavam todos convencidos ;de que a crise interna só poderia ser debelada com a expansão externa;
o Japão não só tinha o direito de se defender - por exemplo da hostilidade dos ocidentais que o
privavam de matérias-primas - mas, dizia Kita Ikki, fundador do fascismo japonês, tinha também «o
direito de defender as outras nações contra as potências que se apoderaram de grandes territórios
sem terem em conta os direitos naturais dos povos» - neste ponto o fascismo japonês aderia aos seus
homólogos italiano e alemão e adoptava a teoria nazi do espaço vital.
Posto isto, surgiram entre os fascistas japoneses duas tendências. Alguns, como Kita Ikki, confiavam
em «Sua Majestade, o deus vivo,», para realizar um golpe de Estado que associasse o imperador e o povo
contra as classes privilegiadas. Mas a maior parte, dando prioridade à crise externa, punha as suas esperanças
nas forças armadas; estas foram desempenhando um papel cada vez mais importante, a partir das primeiras
operações de guerra com a China; apoiada por sociedades secretas, nas quais havia muitos oficiais novos -
assassinavam os políticos que não lhes convinham - e pelos antigos combatentes organizados militar e
espiritualmente, a actuação dos militares foi eliminando os partidos políticos, a influência, dos intelectuais
corrompidos pelo Ocidente e os venenos do liberalismo e do marxismo (com o desemprego e a subida dos
preços, foram-se formando sindicatos e nasceram agrupamentos socialistas e comunistas).

Pode falar-se em ditadura na medida em que toda a oposição foi aniquilada, mas foi a
ditadura de um grupo

137
OS FASCISMOS

social, não a de um homem. Embora se fosse implantando a pouco e pouco, a partir de 1940, um
totalitarismo que instituiu um sindicato único e um partido único, a integração da economia no
esforço de guerra, a supressão completa das liberdades, o certo é que a «revolução fascista» não foi
efectuada por um partido político novo, mas sim por um escol tradicional. As massas foram
afastadas do liberalismo e da democracia, para serem submetidas a uma burocracia uniformizante e
agitadas pela mobilização. O fascismo japonês entrou em acordo, desta maneira, com as forças
sociais existentes; e submeteu-as ao seu domínio - até ao movimento do Mikado em Agosto de
1945. Mas não conseguiu organizar uma direcção política unificada para travar e ganhar a guerra de
conquista - e muitos insucessos foram devidos a rivalidades e má coordenação entre exército e
marinha.

O fascismo sul-americano

A existência de minorias italianas e alemãs deu origem ao aparecimento de algum


grupúsculos fascistas ligados à mãe-pátria. Em especial na América do Sul e Central, existia uma
tradição de «caudilhismo» e pronunciamentos - quer dizer, ditaduras de chefes militares, mais ou
menos efémeras, instituídas a partir de golpes de Estado. Do ponto de vista económico, as riquezas
nacionais consistem na produção e exportação de matérias-primas e produtos primários, umas e
outros sujeitos às variações dos preços do mercado mundial e às correspondentes crises de
sobreprodução; mas, em vir-

138

O FASCISMO FORA DA EUROPA

tude do corte com a Europa depois de 1939, nasceu uma tendência para a industrialização que foi
alimentada com calipitais norte-americanos e ficou quase sempre na dependência deste.
Socialmente, a casta dirigente tinha todo o poder político, às vezes com uma aparência de jogo
democrático; mas, como no Japão, os oficiais subalternos do exército, vindos da pequena burguesia,
irritam-se frequentemente com a miséria do povo, a exploração das riquezas por uma oligarquia, a
presença dominante dos norte-americanos; desta maneira, o exército desempenha o papel de
parlamento; é no exército que os grupos de famílias se encontram frente a frente. Mas a grande
maioria da população, em especial os índios e em menor grau os negros, mantêm-se passivos e
indiferentes às lutas que os brancos travam entre si - salvo no México, a partir de Juarez, e, mais
recenteanente, na Bolícia e no Peru.

No Brasil, em 1932, Salgado lançou a «acção integralista brasileira», que se inspirava no


fascismo italiano e buscava os seus aderentes entre os pequenos comerciantes, os funcionários de
média categoria, os oficiais subalternos; era um partido de juventude, que combatia ao mesmo
tempo o comunismo, o capitalismo yankee, o «pretenso» liberalismo e os Judeus. Com a milícia, o
culto do chefe, a organização hierarquizada, o movimento fascista brasileiro reproduzia o fascismo
europeu; mas, ao mesmo tempo, talvez em virtude da influência de Salazar, Salgado rejeitava o
totalitarismo; é certo que pretendia anularos regionalismos e as classes sociais, libertar o Brasil da
ingerência dos Yankees e tornar o seu país um campeão de uma nova ordem sul-americana. Mas era
também profundamente religioso,

139
OS FASCISMOS

e afirmava, não sem se contradizer, que era necessário respeitar a pessoa humana. Salgado não
chegou ao poder, mas foi nele que se inspirou o presidente Vargas, eleito em 1930, embora o
combatesse; assim, o presidente Vargas suprimiu os partidos políticos, proibiu as eleições, conferiu
à polícia poderes excessivos e procurou ir industrializar o Brasil enquanto afirmava a sua
independência nacional. Ao mesmo tempo, para combater mais eficientemente o comunismo, que
começava a surgir, o, presidente Vargas instituiu o seguro social, o dia de trabalho de oito horas, o
contrato de trabalho; criou assim uma clientela fiel na população pobre dos arrabaldes das grandes
cidades, mas causou com isto uma grande inquietação nas classes dirigentes tradicionais; nasceu
assim o «getulismo», bastante parecido com o bonapartismo do Segundo Império. Em política
externa, Vargas começou por ser a favor das potências do Eixo, antes de colocar o Brasil ao lado
dos Aliados - como Salazar. Os oficiais superiores derrubaram-no em 1945, exprimindo a
hostilidade da oligarquia brasileira.

Na Argentina, o «peronismo» ou «justicialiamo» pareceu-se com o «getuliamo» brasileiro.


O coronel Perón pretendeu fazer o desenvolvimento industrial sob a direcção do Governo e quis dar
uma grande amplitude ao movimento sindical, mas também sob a direcção do Estado. Colocado no
poder por eleições, nas quais teve 56 % dos votos, nacionalizou os caminhos-de-ferro e a fabricação
de armas; elaborou uma legislação operária. Ajudado pela mulher, Eva, que se dedicou a obras de
assistência aos humildes, Perón, transformou-se no homem providencial, não da classe média, como
Hitler na Alemanha, mas sim dos operários e camponeses pobres

140

O FASCISMO FORA DA EUROPA

(os descamisados), enquadrados numa forte e dócil Confederação Geral do Trabalho. Fundiu os
partidos políticos e exerceu um poder pessoal, policial, caracterizado por demagogia verbal mas
populista. Teve contra ele os intelectuais, que consideravam insuficientes as liberdades, a burguesia
dos grandes proprietários e o corpo de oficiais superiores do exército, que se opunham às reformas
sociais; uma vez unidas, estas forças hostis derrubaram Perón. O justicialismo pode ser considerado
fascismo demagógico de esquerda (1).

África: nasserismo e «apartheid»

Pode usar-se a mesma expressão quando se fala do nasserismo no Egipto. O coronel Nasser,
oriundo da pequena burguesia, reuniu à sua volta camaradas que, como ele, se sentiam feridos no
seu orgulho nacional e no seu sentimento de justiça, para derrubar, em 1952, o regime corrupto do
rei Faruk. No sistema autoritário que instituiu, o chefe de Estado tem todos os poderes: os partidos e
as assembleias, legislativas foram suprimidas, as empresas jornalísticas foram nacionalizadas e
colocadas sob direcção governamental, criou-se um partido único, a «União Nacional». Ao mesmo
tempo, promove-
_________
(1) M. Badèche (op. cit., pp. 133-145) gostaria de colocar Fidel Castro entre os fascistas, em virtude da mística de libertação nacional que
inspirou o chefe revolucionário cubano. Mas não o faz porque Fidel Castro consentiu numa «revolugão abalada por bandos armados,
arrastada pela populaça», quando «o fascismo não consente a desordem e a anarquia; é um meio de salvação que se impõe ao povo, nunca
permite ao povo excedê-lo e conduzi-lo». Esta reserva parece-nos ainda mais apropriada em relação a Perón.

141
OS FASCISMOS

ram-se reformas económicas e sociais importantes, como a divisão dos latifúndios, grandes obras
públicas (barragem do Nilo), a planificação da economia. Em muitos aspectos, esta ditadura lembra
a da Mustafá Kemal; também se inspira no nazismo por anti-semitismo, que aqui se tornou anti-
sionismo (Nasser fazia parte do grupo de egípcios que tiveram contacto com Rommel quando este
se aproximou de Alexandria, e muitos nazis refugiaram-se no Egipto depois da guerra) (1). Mas
difere muito do paganismo nazi e do laicismo de Kemal, pela sua defesa intransigente dos valores
do islão; a mística que anima a ditadura de Nasser é nacional e racial, não há dúvida, mas ainda é
mais religiosa do que outra coisa qualquer. Desta maneira, o juramento que Nasser pede à multidão
que preste: «Oh Deus, tu amas os fortes, tu detestas os fracos», está de harmonia com o estilo
guerreiro do Corão. É verdade que Nasser combate o movimento extremista religioso dos Irmãos
Muçulmanos, tal como combate os comunistas e os agentes americanos. A sua doutrina não é
exportável para fora do mundo árabe, mas ultrapasse o Egipto e dirige-se a todos os países árabes -
o nasserismo (como os regimes de predominância «baasista» do Iraque e da Síria, ou a ditadura de
Khadafi na Líbia), conduz naturalmente a um pan-arabismo agressivo, multinacional.

No outro extremo, desenvolveu-se um racismo com fundamento religioso na África do SuI,


entre os Africânderes. Fundou-se a partir a partir de 1912 muitas seitas político-religiosas,
inspiradas na Bíblia, as quais proclamavam
_________
(1) Os nazis, durante a guerra, criaram ligações com os nacionalistas iraquianos, indianos, argelinos, tunisianos...

142

O FASCISMO FORA DA EUROPA

que o povo africânder, resultante da emigração de protestantes holandeses e franceses, era um povo
eleito e predestinado para dominar as raças inferiores (1). Estas seitas infiltraram-se profundamente
no poder político, e alguns dirigentes políticos foram seus membros; o seu ponto comum principal é
a vontade de manter o poder dos brancos numa região onde estão em minoria junto de uma grande
massa de negros, vontade que se exprime na prática rigorosa duma segregação denominada
«apartheid»; os negros são confinados a trabalhos servis, regressam aos seus bairros depois de
trabalharem nas casas dos brancos, são privados de direitos cívicos, não podem ter propriedade
privada e só aproveitam alguns restos da prosperidade económica do país.

Este racismo declara-se nacional, pela vontade de acabar com o estatuto de Domínio na
Comunidade Britânica (2) e pela afirmação de uma língua «que não é europeia nem africana», o
africânder. Mas nestes movimentos não há chefe miraculoso nem partido único; não há demagogia
socializante que se exalte, nem anticapitalismo preconizado por princípio. No entanto, a existência
de uma forte minoria alemã facilitou os laços com o nacional-socialismo hitleriano e o
aparecimento de anti-semitismo, que se tornou especialmente virulento quando no país procuraram
refúgio alguns judeus fugidos da Alemanha. A crise económica dos anos Trinta não
______________
(1) O «Osserva Bandwag» (que chegou a ter 400 000 aderentes), os «Camisas Cinzentas», a «Ordem Nova», o «Movimento Nacional-
Socialista Gentílico Sul-Africano», a «União Alemã do Sudoeste Africano».
(2) Na segunda guerra mundial, a África do Sul hesitou em juntar-se à Inglaterra e só combateu em África, não tendo enviado
quaisquer contingentes para fora do continente africano.

143
OS FASCISMOS

teve reflexos no país e as classes médias de modo nenhum se sentiam em situação perigosa, as
tensões produzidas pela industrialização não surgiam entre classes, mas sim entre raças, pois quase
todos os operários eram negros. O fascismo africânder, como o nasserismo, associou-se
intimamente com uma situação dada num certo país; mas tinha vocação para também ultrapassar
este enquadramento restrito e se afirmar num pan-europeismo inimigo dos nacionalismos negros;
pelo menos podia ser um bastião da raça branca, como colonizadora.

Os Estados Unidos e o fascismo

Já dissemos e repetimos que as democracias anglo-saxónicas opuseram um dique muito


forte à vaga fascista. No entanto, a própria Grã-Bretanha teve de dissolver, mas só em fins de 1940,
o minúsculo partido fascista de Mosley. Nos Estados Unidos, onde as seitas religiosas proliferam,
onde as minorias étnicas se mantêm agrupadas, mesmo quando estão assimiladas, nasceram mas
não conseguiram prosperar muitos movimentos mais ou menos aparentados com os fascismos
europeus; em 1923, desfilaram «camisas negras» em Nova York; em 1933 fundou-se a associação
«Amigos da Nova Alemanha», e ainda hoje existe o «Partido Nazi Americano» de G. L. RockwelI,
que, com alguns milhares de aderentes, proclama a necessidade de pôr a funcionar câmaras de gás
para judeus e comunistas, e às vezes organiza expedições punitivas contra pacifistas ou judeus.
Mas, nas eleições presidenciais e legislativas, estes grupos extremistas nunca tiveram mais de um

144

0 FASCISMO FORA DA EUROPA

milhão de votos; por conseguinte, este fenómeno continua a ser marginal.

Em todo o caso, há motivo para perguntar se não existe nos Estados Unidos, de maneira
permanente, uma espécie de terreno onde o fascismo poderia germinar. O primeiro facto é o
racismo, antinegro, que conduz a uma vontade de segregação e às linchagens do «Ku-Klux-Klan» -
que ainda tinha alguns milhões de membros em 1923. O segundo elemento é um anticomunismo
primário, que engloba, no vocábulo bolchevismo, o socialismo, o sindicalismo operário e o
liberalismo intelectual; este anticomunismo deu alento à histeria da caça às bruxas do maccartismo;
proporcionou milhões de aderentes a clubes, e por vezes um candidato à presidência, como Wallace
ou Goldwater. A transcrição americana destes fermentos de fascismo consiste no seguinte:
isolacionismo, alimentado pelos rancores dos americanos do Middle-West; hostilidade dos rurais
para com as cidades e o grande capital; xenofobia para com tudo quanto se assimila mal no cadinho
americano (eslavos, latinos, mexicanos, judeus, porto-riquenhos); crenças na existência de uma
América antiga ideal, anglo-saxónica e puritana, a cujos valores é preciso regressar para salvar o
país. Estas tendências, durante a guerra, exprimiram-se no movimento «Primeiro a América», e dá-
lhes alento qualquer insucesso, americano no exterior, qualquer crise no interior; no entanto, tais
tendências estão longe do fascismo, e ainda mais longe do nazismo. Contra o seu alastramento
contribuem: as mudanças constantes de populações, a força da minoria judaica, a estabilidade da
vida política, o profundo liberalismo da população - um caso como o de Watergate, em que uma
campanha

145
OS FASCISMOS

de Imprensa provocou a abdicação de um presidente da República, é impensável fora dos Estados


Unidos. Só se pode falar em fascismo americano se se fizer confusão entre capitalismo e fascismo -
uma explicação que é mais partidária que histórica.

146

VII

TENTATIVA DE EXPLICAÇÃO

Parece-nos que mostrámos que o fascismo é simultaneamente uno e múltiplo; em cada país,
encontra no passado nacional alguns dos seus elementos, mas também utiliza o seu fundo comum
para modelar o presente e preparar o futuro. Este fenómeno histórico, cuja originalidade não se
pode negar, manifesta-se em toda a parte quase ao mesmo tempo. Como se explica isto?
Sociólogos, politólogos e até psicanalistas têm estudado apaixonadamente este problema; não
vamos referir-nos às suas análises, não por não terem interesse, pois, pelo contrário, são
esclarecedoras em mais de um aspecto, mas sim porque essas análises são de natureza multíssimo
geral e tendem para ver mais a unicidade do fascismo que as suas metamorfoses no tempo e no
espaço (1). Os historiadores, e a estes nos limitaremos, dedicaram-se em grande número a este
problema e a verdade é que não
___________
(1) Encontrar-se-á um bom exame crítico a este respeito em P. Miza, M. Benteli, op.cit., pp. 87-109

147
OS FASCISMOS

estão de acordo. O historiador italiano Renzo de Felice distinguiu três tendências principais, a saber
(1) :

A primeira tendência, que se desenvolveu logo nos começos do fascismo italiano e foi
expressa em particular por Piero Gobetti, Benedetto Croce, Meinecke (seguindo Jacob Burkhard),
Ritter, vê no fascismo «uma doença moral da Europa». O fascismo não faz parte do curso da
História, é um desvio, um cancro da democracia liberal; circunstâncias fortuitas facilitaram a sua
formação, mas não pode deixar de desaparecer quando essas circunstâncias desaparecem. Esta ideia
de «parêntesis de História» foi expressa pelo procurador-geral Mornet. quando deu o seguinte título
a um livro de recordações e reflexões sobre o regime de Vichy: «quatro anos a riscar da nossa
História» (2). Meinecke, por exemplo, pensa que quando um mau uso da liberdade conduz a uma
anarquia cada vez maior, as «massas» renunciam aos seus privilégios elementares e submetem-se à
ditadura. Mas nos séculos anteriores já houve alguns incidentes deste género; no entanto a história
da humanidade decorre no sentido de um progresso geral, material e moral, que uma regressão
passageira como a do fascismo não pode interromper, embora o entrave - chegará o momento em
que as águas voltarão ao talweg já traçado de uma vez por todas. Esta interpretação, que poderia ser
denominada moral ou optimista, foi a de contemporâneos que se sentiram profundamente chocados
com os métodos e depois com os
___________
(1) Gli interpretazioni del fascismo, Bari, 1973.
(2) Ou pelo general De Gaulle, quando, na Câmara Municipal de Paris, em 24 de Agosto de 1944, recusou proclamar a República
porque esta nunca tinha deixado de existir.

148

TENTATIVA DE EXPLICAÇÃO

crimes do fascismo; ignora que o verme já estava metido no fruto muito antes de ter aparecido.
Vimos que o fascismo não resulta de geração espontânea; tem antecedentes e sequelas. E na
História, as mesmas causas produzem os mesmos efeitos. Muito pragmaticamente, a rainha
Hortense ensinou ao filho, o futuro Napoleão III, que os povos se deixam apanhar duas vezes na
mesma armadilha.

A segunda tendência, que poderia denominar-se nacional, ou pessimista, expressa


designadamente por Nino Valeri e Denis Mac Smith em relação à Itália, e por E.Vermeil
relativamente à Alemanha, entende, pelo contrário, que o fascismo é o produto lógico, se não
mesmo necessários, do desenvolvimento histórico de alguns países - assim, em 1923, Paul Hazard
acusava o temperamento italiano e a sua pouca consciência política para justificar a aceitação do
«poder forte»; da mesma maneira, E. Vermeil, para compreender o nazismo, regressa até Lutero.
Portanto, o fascismo estaria sempre latente, nalguns povos de certa maneira predestinados, e surge
com força explosiva quando a conjuntura o favorece. Esta explicação tem a vantagem de pôr em
destaque este aspecto primordial, até mesmo motor, do fascismo: o nacionalismo; sugere a
vigilância para impedir qualquer possível retorno. No nosso entender esta explicação, no entanto,
não tem em conta, de maneira suficiente, as circunstâncias excepcionais - guerra e crise mundial, a
respeito das quais voltaremos - devido às quais o fascismo se afirmou e que ligam o fascismo mais
o seu tempo que com o passado. Também não se tem em conta, nesta explicação, que o fascismo,
nos países onde triunfou, só chegou ao poder com dificulda-

149
OS FASCISMOS

des e passando muitas vezes à beira da derrota; o fascismo não era «necessário».

A última tendência, e não a menos importante, tem inspiração marxista; é a tendência mais
difundida, mais geralmente aceite. Em termos gerais, esta tendência assimila fascismo e
capitalismo.

Fascismo o capitalismo

A assimilação das duas forças não foi sempre completa. Os socialistas, Blum em primeiro
lugar, raciocinando com base no fascismo italiano, entendiam que o fascismo só podia prosperar em
países atrasados, de economia rural, e estava condenado de antemão nas nações industrializadas
onde a classe operária se encontrava bem organizada, política e sindicalmente. Daí resultaram os
erros de previsão quanto às probabilidades de êxito de Hitler, e a profecia da queda dos efectivos
nazis depois da semiderrota, eleitoral de 1933.

Os comunistas - Os comunistas alemães em primeiro lugar - viram no fascismo uma forma


radicalizada do domínio burguês; as suas raízes mergulhavam na democracia liberal, condenada em
bloco; os sociais-democratas, que preconizavam uma transformação progressiva da sociedade
burguesa, eram pura e simplesmente sociais-fascistas traidores - outro erro de visão, na prática mais
grave que o precedente, porque tornou impossível a formação de um bloco social-comunista, a
única possibilidade, como vimos, de impedir o acesso dos nazis ao poder; em França, o acordo
concretizou-se na Frente
150

TENTATIVA DE EXPLICAÇÃO

Popular, e a tentativa de golpe de 6 de Fevereiro de 1934 gorou-se à nascença.

Hoje, há uma enorme literatura histórica, em geral de origem comunista ou comunizante,


que vê no fascismo uma forma de determinismo económico, um aspecto necessário do imperialismo
económico. Na origem desta ideia está uma afirmação de Estaline, em 1935, ao dizer que «o
fascismo era a ditadura terrorista declarada do capital financeiro». Radek acrescentava que «a
ditadura fascista era o aro de ferro com o qual a burguesia procura consolidar o barril desconjuntado
do capitalismo». Uma definição mais completa foi dada por Dimitrov no VII Congresso da
Internacional Comunista, ainda em 1935: «O fascismo é uma ditadura terrorista declarada (as
mesmas palavras de Estaline) dos elementos mais reaccionários, mais calvinistas, mais imperialistas
do capital financeiro» - definição que põe em destaque não só a economia como também o
nacionalismo agressivo do fascismo; quando a U. R. S. S., nessa altura, se sentiu directamente
ameaçada, o partido comunista Soviético começou a fazer ressuscitar o patriotismo russo e a
preparar alianças no exterior, com grupos políticos ou Estados impressionados com o perigo nazi.
Mais tarde, concretizaram-se melhor as ligações entre capitalismo e fascismo. O primeiro engendra
o segundo quando atinge «a fase da concentração monopolista e do imperialismo», isto é, quando o
capital industrial e o capital financeiro se fundem e se formaram os grandes trusts que se lançaram à
conquista dos mercados internacionais.

O escritor Daniel Guérin levou mais adiante a aná-

151
OS FASCISMOS

lise da pressão capitalista sobre o fascismo (1). Põe em causa a indústria pesada, que em grande
parte vive de encomendas de armamentos e se pronuncia, portanto, a favor de uma política de
prestígio, força militar e imperialismo. A vontade de poder explica-se pela dimensão das empresas.
Por outro lado, o volume enorme dos investimentos obriga os grandes industriais a mostrarem-se
muito rigorosos em matéria de salários, e a serem autoritários e duros para com os seus operários.
Pelo contrário, a indústria ligeira, interessada na exportação, prefere a paz social e uma política, de
contratação, em vez da maneira, forte; mas nada faz para impedir que o fascismo vença (2).
Esta tendência aceita, portanto, a inevitabilidade do advento do fascismo na perspectiva
histórica da evolução do capitalismo (3); também ignora todos os acidentes de percurso nos quais o
fascismo poderia ter tropeçado, e até se ter desmembrado; dá uma importância mínima à acção dos
homens - como Mussolini e Hitler - cujo papel pessoal se afigura, no entanto, fundamental. Em
certa medida, esta tendência contribuiu para que se cometessem erros de táctica entre os
antifascistas, designadamenta na Alemanha, porque os comunistas, ao considerarem o fascismo
como uma última reacção de um nacionalismo com a corda na garganta, podiam inferir
___________
(1) Fascisme et grand capital, reedição, Maspero, 1965.
(2) A análise é subtil, mas escapa-lhe a teimosia de muitos factos: o fascismo desenvolveu-se em muitos países sem indústria pesada,
como a Espanha, Grécia, Hungria, Portugal... Em França, entre os principais comanditários das «ligas» encontram-se o perfumista
Coty e o magnate da electricidade, Mercier...
(3) Clara Zetkin dizia que «o fascismo era o castigo do proletariado por não ter sabido continuar a revolução russa».

152

TENTATIVA DE EXPLICAÇÃO

daí que o fascismo, pela sua própria existência, podia contribuir para a inevitável decrepitude do
capitalismo (1); ao fim e ao cabo, o fascismo era menos perigoso que as democracias liberais, onde
o capitalismo existia e actuava à vontade; a tempestade era preferível às águas mansas. Foi talvez
este o cálculo feito por Estaline quando assinou o pacto de não agressão com Hitler.

A assimilação entre o fascismo e o capitalismo tem o mérito de pôr em destaque uma


constante: os grupos fascistas não podem atingir o poder sem o auxílio multiforme das classes
dirigentes, e mais particularmente dos industriais; depois disso, ficam na classe de devedores destes
e acabam por colocar-se às suas ordens - embora esta afirmação não seja válida quanto ao
«nasserismo» e ao «prónismo». Tem também a vantagem, para aqueles que a aceitam, de eliminar
qualquer assimilação e até qualquer comparação entre fascismo e bolchevismo; finalmente, é tão
boa para a luta que os comunistas travam, que não pode passar sem um acrescento de propaganda.
Mas, na realidade, as objecções que se lhe podem fazer não são de somenos.

Em primeiro lugar, falar de «capitalismo monopolista» é talvez lançar um bom estribilho de


propaganda, mas com certeza que é ser inexacto. Nenhuma economia de nenhum pais «capitalista»
está submetida a um monopólio absoluto. A burguesia capitalista não é homogénea; afora
circunstâncias excepcionais, em que pode formar bloco, está dividida em grupos rivais cujos
interesses
______________
(1) A partir de 1926, na Itália, Gramsci e depois dele Togliatti notaram no fascismo, pelo contrário uma força política que reforçava e
rejuvenescia o capitalismo, mas também capaz de lhe impor algumas restrições, as quais, todavia, poderiam não ser entraves.

153
OS FASCISMOS

nem sempre se conciliam, e até por vezes se opõem (1). Por outro lado, se o fascismo é uma
manifestação necessária do capitalismo, como se explica que nunca se tenha desenvolvido - ainda
que aí tenha lançado à terra algumas sementes - nas cidadelas do capitalismo que são a Ingleterra, e,
ainda mais do que esta, os Estados Unidos? Como se explica que a crise mundial dos anos Trinta
tenha dado origem ao fascismo na Europa, e não na América, onde a crise começou e teve a
amplitude máxima? (2). A contrário, apareceram variantes do fascismo, talvez semifascismos mas
com origens no tronco comum e alimentados com a mesma seiva, em países que ainda se
encontravam subdesenvolvidos, onde a classe dirigente era constituída por proprietários fundiários,
e não por capitalistas industriais e financeiros - Hungria, Roménia, Argentina, Espanha, etc. Na
Itália e mais ainda na Alemanha, onde a classe dirigente era com certeza muito diferente, o fascismo
surgiu quando esta classe, longe de triunfar, estava na defensiva. Mantém-se, portanto, uma dúvida:
quando soa a hora do fasismo? Quando o capitalismo pede socorro, ou quando triunfa num
«monopólio imperialista»?
_________
(1) O historiador israelita Charles Bloch, num artigo excelente que publicou na revista Relations Internationales, N.º2, 1974, intitulado
«Le fascisme et les relations internationales», sugere os termos oligopólios e oligopolistas.
(2) A hostilidade frontal, a impermeabilidade dos Americanos ao nazismo eram de tal ordem que o embaixador alemão em Washington
recomendava com firmeza aos serviços de propaganda de Berlim que nunca expusessem ideologia nos Estados Unidos, mas sim
reivindicações.

154

TENTATIVA DE EXPLICAÇÕES

Algumas observações

Parece-nos, portanto, que o fascismo é um complexo histórico diversificado e variável


demais para poder ser reduzido a um fenómeno moral, um nacionalismo total e pervertido ou a
conclusão, preferimos limitar-nos a alguma observações a respeito do advento do fascismo, seu
conteúdo humano, objectivos e métodos.

A primeira observação é que o fascismo nasceu no contexto duma crise europeia de


gravidade excepcional e sem precedente: uma guerra mundial que alterou o equilíbrio de forças,
com graves consequências demográficas e económicas, que provocou azedumes e rancores,
mobilizou uma massa de manobra - os antigos combatentes - à disposição dos agitadores; uma crise
política e moral, que prejudicou o funcionamento das instituições democráticas e as desacreditou;
finalmente, uma crise económica e mundial que proletarizou uns, roubou trabalho e esperança a
outros e pôs em perigo o poder dos dirigentes políticos e económicos. Uma conjunção como esta,
como é evidente, tem poucas probabilidades de se reproduzir. Mas a evolução geral da sociedade
capitalista dá origem, com a sociedade de massas, a uma inquietação que podem provocar tanto a
desordem como o recurso a uma autoridade tranquilizadora.

Segunda observação: o fascismo é um fénomeno interclasses. É verdade que exprime


principalmente as apreensões das classes médias; mas, conforme vimos, só chegou ao poder com o
apoio das classes dirigentes e só se manteve no poder com uma aprovação popular

155

OS FASCISMOS
bastante ampla - quer esta tenha sido espontânea ou forçada. Conviria acrescentar a isto mais uma
dimensão: a adesão de alguns intelectuais (1) (Heidegger, Yeats, T. S. Eliott, Ezra Pound,
Pirandello, Richard Strauss, Konrad Lorenz, Celine, Drieu La Rochelle, etc.). O fascismo exprime,
portanto, uma certa globalidade nacional, e a necessidade de a ele recorrer poderia sentir-se de novo
se as circunstâncias a isso fossem propícias. Bardèche vai ao ponto de afirmar: «Todo o homem
sinceramente patriota tem dentro de si a semente do fascimo.» (2)

O fascismo é o irmão inimigo do bolchevismo; os elementos que o fascismo toma do bolchevismo,


utiliza-os para o combater; Hitler, no Judeu, quis rachar de meio a meio o criador do bolchevismo.
O objectivo primordial do fascismo, ainda que não seja o primeiro no tempo, é destruir o
comunismo. Lenine predisse: o fascismo é a última forma que tomarão, para sobreviver, as
sociedades que não capitularem sem luta perante a ditadura comunista. O recurso à ditadura fascista
pode ser, portanto, a última defesa duma sociedade que não acredita ter outra alternativa para a
ditadura do proletariado.

Finalmente, os métodos do fascismo criaram escola; reabilitaram a violência, e nunca o


extermínio dos adversários - reais ou supostos - assumiu tão grandes proporções como no último
conflito mundial. É verdade que a violência é de todos os tempos; é verdade que, teoricamente, não
há razão para que a violência seja
___________
(1) Cf. Alastair Hamilton, L’illusion fasciste, les intelectuels et le fascisme, Gallimard, 1973
(2) Op. cit., p. 110. Assimilação tão ampla como falsa: a Resistência era simultaneamente patriota e antifascista.

156

TENTATIVA DE EXPLICAÇÃO

apanágio privilegiado do fascismo. Mas é um facto que o nazismo, com os internamentos


arbitrários, as rusgas, as torturas, os campos de concentração, o genocídio dos Judeus e dos
Ciganos, deu à violência a sua maior dimensão e de uma maneira muitas vezes gratuita. Ora, para
melhor o combater, os seus adversários tiveram de adoptar os métodos do próprio fascismo - o
bombardeamento de Dresde em Abril de 1945, a bomba atómica de Hiroshima também são
genocídios. O mundo entrou na era da violência, que se tomou o modo de expressão até daqueles
que se proclamam antifascistas - e é talvez por isso que daqui por diante cada um será sempre o
fascista de outro.

Convém acrescentar que o fascismo perverteu alguns valores morais tradicionais - ordem,
patriotismo, disciplina, solidariedade de grupo, autoridade. Não é estranho à rejeição destes valores
por grande parte da juventude do mundo. Mas, por outro lado, uma frouxidão excessiva, uma
sociedade demasiado permissiva, multiplicando as desordens, desenvolvendo um sentimento de
insegurança, criando a convicção duma decadência, poderiam fazer nascer uma certa saudade duma
autoridade perdida - sobretudo se um mal-estar económico (inflação, desemprego) aumentasse as
dificuldades de vida do dia-a-dia, suscitando preocupação quanto ao futuro. O fascismo poderia
reaparecer então como remédio para uma doença crónica das democracias; o recurso à autoridade
seria a resposta ao excesso de liberdade, e os chefes poderiam voltar a recrutar os seus soldados
entre aqueles que perdem com a civilização tecnológica

157
OS FASCISMOS

- viu-se isso em França com o fogo passageiro do pujadismo. » (1)

Em resumo, parece-nos que o fascismo é uma força política em grande, parte original e
nova, que voltou a pôr em questão o conceito do homem e da sociedade do século XIX, sem abalar
as estruturas desta. Desenvolveu-se em virtude de circunstâncias excepcionais entre as duas guerras;
mas a sua derrota não o fez desaparecer por completo, e, talvez mudando de pele, esta fénix falsa
pode muito bem renascer das cinzas (2).
___________________
(1) Fest (Les maîtres du III Reich, Grasset, 1963), pôs em destaque o ambiente psicológico do fascismo. Cf. também Wolfgand Sauer
«National socialism , totalitarianism. or fascism», in American Historical Review, Dezembro de 1967.
(2) M..Bardèche (op. cit, P. 103) calcula que existem cinquenta grupos fascistas na Alemanha, vinte na Itália e em França; mas refere-
se também a outros na Suécia, Bélgica, Suíça, Holanda, Brasil, Irlanda, Estados Unidos, Grã-Bretanha, etc.

158

BIBLIOGRAFIA SUMÁRIA
I -ESTUDOS GERAIS

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P. Guichonnet, Mussolini et le fascisme, PUF, 1966.
F. R. Tamnenbaum, The fascist experience, Italian society and culture, Nova Iorque, 1972.
E Nolte, Le fascisme dans son époque, t. II: Le fascisme italien, Julliard, 1975.
Q. Quazza e outros, Fascismo e societá italiana, Turim, 1973.

III - NACIONAL-SOCIALISMO

CI. David, Hitler et le nazisme, PUF, 1967


H. Mau, H. Krausnick, Le national-socialisme, Castermann, 1962.
E. Nolte, Le national-socialisme, Julliard, 1970.
M. Steinert, L'Allemagne national-socialista., Ed. Richellieu, 1972.
M. Broszat, Der Staat Hitlers, Munique, 1969.
D. Bracher, Die Deutsche Diktatur-Entstechung Struktur, Folgen des nationalsozialismus, Colónia, 1972.

159
OS FASCISMOS

IV - OS FASCISMOS FRANCESES

J. Plumyene, R. Lasierra, Les fascismes français, Le Seuil, 1963.


E. Weber, L'Action française, Stock, 1964.
D. Wolf, Doriot; du communisme à la collaboration, Fayard, 1967.
Ph Machefer, Ligues et fascismes en France, PUF, 1974.

V - A EUROPA FASCISTA

Revue d’histoire de la deuxième guerre mondiale, N., 66, Abril de 1967, «Aspects du fascisme européen».
S. Woolf, European fascism, Londres, 1968.
Ch. Delzell, Mediterranean fascim, Nova Iorque, 1970.
M. Gallo, Histoire de l'Espagne franquiste, R. Laffont, 1969.

VI - O FASCISMO FORA DA EUROPA

D. M. Brown, Nationalism in Japan, Berkeley, 1955.


L. W. BelI, In Hitler’s shadow; the anatomy of American fascism, Londres, 1973.

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Colecção
Universidade Moderna
1 - INTRODUÇÃO A POLÍTICA, por Jean-Pierre Lassale - (7.ª ed.)
2 - OS TESTES MENTAIS, por Pierre Pichot - (3.ª ed.)
3 - ECONOMIA MODERNA, por Jan Pen - (4.ª ed. actualizada)
4 -A MITOLOGIA, por Edith Hanffiton
5/6- A ECONOMIA DA U.R.S.S. E DOS E.U.A., por Pierre George - (2.ª ed.)
7 - MAOMÉ E CARLOS MAGNO, por Henri Pirenne
8 -AS ORIGENS DO FASCISMO, por Robert Paris - (3.ª ed.)
9 - INTRODUÇÃO A PEDAGOGIA, por Jean Giraud
10 - ANARQUISTAS E ANARQUISMO, por James Joll - (2.ª ed.)
11 - A CIBERNÉTICA E O HOMEM, por Aurel David.
12 - QUE É A PSICANÁLISE ?, por Ernest Jones - (2.ª ed.)
13 -A REVOLUÇAO INDUSTRIAL EM PORTUGAL NO SÉCULO XIX, por Armando Castro
14 - DIALÉCTICA E SOCIOLOGIA, por Georges Gurvitch
15 - TEORIA E POLÍTICA DO DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO, por Celso Furtado - (2.ª ed. actualizada)
16 -CAMINHOS PARA A EUROPA, por Erik Seidenfaden
17 -DO FEUDALISMO AO CAPITALISMO, por Paul Sweezy, Maurice Dobb, H. K. Takahashi, R. Hilton e Hill - (6.ª ed.)
18 - CURSO DE LINGUÍSTICA GERAL, por Ferdinand de Saussure - (3.ª ed.)
19 -A LÓGICA DA VIDA, por François Jacob
20 -O FIM DA HISTÓRIA, por Henri Lefebvre
21 - OS GRANDES ECONOMISTAS, por Robert Heilbroner
22 - A CIVILIZAÇÃO DE 1995, por Jean. Fourastié
23 -A ECONOMIA DA CHINA, por Jean Deleyne
24 - INTRODUÇAO A INFORMÁTICA, por Georges Bazerque e Claude Trullen
25 - INTRODUÇÃO A PSICOLOGIA, por John Cohen - (2.ª ed.)
26 - A ECONOMIA DA ÁFRICA, por Andrew M. Kamark
27 - ALEMANHA - PANORAMA HISTÓRICO, E CULTURAL, por André Drijard

28-ESTRUTURA DA ECONOMIA INTERNACIONAL, por Ramón Tamames, - (2.ª ed. actualizada)


29 - PSICOLOGIA E EPISTEMOLOGIA, por Jean Piaget, - (3.ª ed.)
30 -CÁLCULO ECONÓMICO E FORMAS DE PROPRIEDADE, por Charles Bettelheim
31 -A VIDA DA CÉLULA, por J. A. V. Butler
32 -A FILOSOFIA ALEMÃ, por Henri Arvon
33 - O PODER E A SABEDORIA, por Georges Friedmann
34 - PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA, por Jean Piaget - (3.ª ed.)
35 -AS GRANDES RELIGIÕES, por Joseph Gaer - (2.ª ed.)
36 - A LINGUÍSTICA, por David. Crystal - (2.ª ed.)
37 - A ESTRUTURA DA LINGUAGEM POÉTICA, por Jean Piaget - (4.ªed.)
38 - O NOVO ESTADO INDUSTRIAL, por John Kenneth Galbraith
39-SEIS ESTUDOS DE PSICOLOGIA, por Jean Piaget - (7.ª ed.)
40 -A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL, por Jean-Pierre Rioux - (2.ª ed.)
41 - INTRODUÇÃO A SOCIOLOGIA, por Peter Worsley - (2.ª éd.)
42 - A CRISE ECONÓMICA DE 1929, por John Kenneth Galbraith
43-PANORAMA DA LITERATURA AMERICANA DO SÉCULO XX, por John Brown
44 - MASS MEDIA NUMA SOCIEDADE LIVRE, por Ben H. BagdIkian, Bosley Crowther, Stan Freberg, Theodore P. Koop, Bill D.
Moyers e Carl T. Browan
45 - INTRODUÇÃO AO PODER MONETÁRIO, por Phillipe Simonnot
46-ANTIPSIQUIATRIA, por Chantal Bosseur
47-QUE É O SOCIALISMO?, por Didier Motchane
48 -A AUTOGESTÃO, por Yvon Bourdet e Alain Guillerm
49-CHAVES PARA A SEMIOLOGIA, por Jeanne Martinet
50 - OS PRESSUPOSTOS DO SOCIALISMO e AS TAREFAS DA SOCLAL-DEMOCRACIA, por Eduard Bernstein
51 - A CANCEROLOGIA, por Pierre Denoix
52 -AS MIGRAÇOES INTERNACIONAIS, por Pierre George
53 - INICIAÇÃO METõDICA A GRAMÁTICA GENERATIVA, por Chris0ian Nique
54 - O FUTURO DA ECONOMIA MUNDIAL, por Wassily Leontief
55 - O DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO, por Jean Piaget
56 - OS FASCISMOS, por Henri Michel

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