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Compreendemos por língua, para além do componente anatômico integrante do

trato articulatório do processo de fala, todos os elementos gramaticais, sintáticos,


lexicais e normativos que constituem o aparato linguístico pelo qual uma nacionalidade,
um povo ou uma comunidade se baseia e faz uso para estabelecer uma comunicação
entre seus pares. Como exemplos desta concepção de "língua", muito aproximada da
noção de "idioma", fala-se em língua portuguesa, inglesa, alemã, etc.
Quanto à linguagem, a compreendemos como um meio de comunicação, sendo a
linguagem humana marcada pelo uso de signos estabelecidos a partir de um viés verbal
(textos escritos, oralidade) e de um viés não-verbal (símbolos, gestos).
A fala, por sua vez, está ligada ao modo pelo qual as pessoas manifestam o uso
da sua língua. Trata-se, portanto, das peculiaridades de manifestação da linguagem
dadas a partir dos diferentes dialetos. A fala, deste modo, está ligada ao contexto de uso,
à maneira de interação e a características sociais e econômicas dos sujeitos falantes.
No poema de Carlos Drummond de Andrade, "Aula de Português", a primeira
estrofe (aqui delimitadas pelos acentos gráficos de ponto) demonstra de maneira simples
a representação anteriormente definida de "fala" (tão fácil de falar/e de entender). Já na
segunda estrofe, observamos a presença do conceito de signos (letras), bastante
aproximado da concepção de linguagem. Ao se questionar do sentido da linguagem, o
poeta mais uma vez se aproxima de noção de fala, representado a multiplicidade
semântica da mesma. Do mesmo modo, a menção ao Professor Carlos Góis e ao
"desmatamento da ignorância" nos remete ao ensino formal e portanto à concepção de
língua.
Na terceira "estrofe", o aturdimento e o sequestro do eu lírico por parte das
"figuras de gramática" nos remetem à formação da identidade do sujeito em sua relação
com os elementos da língua. A penúltima "estrofe" brinca com a polissemia da palavra
"língua" e, por fim, a última estrofe/verso nos remete a um princípio fundamental do
conceito de "fala", qual seja, a interação entre sujeitos (o português são dois), bem como
ao mistério que envolve a manifestação da língua. Assim, esta "Aula de Português"
desconstrói o preconceito normativo impregnado no termo com um exímio uso da
poesia (linguagem transgressora).
A composição “Língua”, de Caetano Veloso, por sua vez, começa por nos
remeter a grandes nomes de escritores e poetas de língua portuguesa (Camões, Pessoa,
Guimarães Rosa). Em sua primeira estrofe, vê-se menção à “língua de Luís Camões”,
que na verdade é uma representação da poesia-maior de Portugal. Ao citar as
“confusões de prosódias” e a “profusão de paródias”, Caetano, de modo metalinguístico,
evidencia a polissemia e criatividade possíveis no uso da linguagem. Vê-se também
menção aos estilos característicos de cada autor, como o intimismo – o “Pessoa na
pessoa” – e o regionalismo – a “rosa no Rosa”. A primeira estrofe apresenta ainda uma
equiparação entre os diferentes graus de valor dado à dualidade “amor x amizade” e
“prosa x poesia”, aproximando assim dois gêneros textuais que materializam meios de
expressão da linguagem.
Na segunda estrofe, posteriormente estabelecida como refrão da poesia/música
de Caetano, estabelecem-se algumas ligações às concepções de língua e linguagem. A
menção à “Lusamérica” consolida a aproximação de autores de língua portuguesa da
estrofe anterior, bem como a menção ao “latim” nos remete à língua histórica que é raiz
de tantas outras, assim como da portuguesa. Pode-se dizer, inclusive, que Caetano nos
indica algumas questões relativas às funções e ao poder da linguagem; afinal, “o que
quer/o que pode esta língua?”.
A terceira estrofe da composição, por seu turno, expõe a multiplicidade ligada à
concepção de fala, tanto naquela que (re)constrói a língua – “a sintaxe dos paulistas” –
quanto naquela que emana um estado de espírito – “o falso inglês relax dos surfistas”.
Vê-se também uma forte crítica de teor político ao uso da língua como forma de
dominação – “sejamos imperialistas” –, bem como a crítica à linguagem culturalmente
determinada por uma instituição de poder midiática – “os deles e os delas da TV
Globo”. Ainda nesta estrofe observam-se termos de representação simbólica da
linguagem do Brasil – como os símbolos/figuras de Chico Buarque e Carmen Miranda –
além de um jogo poético e rítmico – “Nomes em ã/De coisas como rã e ímã” – ligado à
constituição de nomes de diferentes línguas que marcam e representam identidades –
“Scarlet”, “Chevalier”, “Maria da Fé”.
Na quinta estrofe, Caetano traz uma discussão sobre a dominação que uma
língua tem sobre a outra, “só é possível filosofar em alemão”, levando a pensar em
alguns filósofos que relataram sobre a questão da dominação da língua de determinado
grupos sobre outros. Além disso, tem-se a presença do estrangeirismo
“Blitz/Hollywood”, faz o uso da língua inglesa para expressar algo da língua
portuguesa. O autor da canção/poema uso o estrangeirismo para mostrar a ironia sobre a
língua denotar a ideia de pertencimento e, consequentemente, uma superioridade, “A
língua é minha pátria”. Enquanto a isso, Caetano expressa que deveria ter, entre os
distintos países, um sentimento de união das diferent es línguas “E quero frátria”. Ele
mostra a realidade do que se fala sobre a língua e que aquilo que se fala apresenta
contradição.
Na sexta estrofe, Caetano expressa, utilizando recursos da poética, sobre a
variação linguística existente em diferentes lugares do Brasil, assim também mostra que
em cada país uma língua apresenta-se de forma distinta, colaborando com tudo o que já
foi dito anteriormente de que existem diferenças entre as línguas.
Na última estrofe, pode-se perceber a presença da marca linguística “Nós”, uma
afirmação do nacionalismo e que através das diferentes linguagens “Livros, discos,
vídeos”, as línguas e as falas podem ser expressas. Ainda inclui uma figura/voz que é
excluída pela sociedade “Que sofrem horrores no Gueto do Harlem”, que é justamente a
voz negra, que a tanto tempo foi reprimida, mas que agora precisa ser manifesta. Com
isso, a canção/poema “Língua” de Caetano Veloso mostra a valorização de grandes
nomes da literatura brasileira, mas não deixa de ressaltar que as línguas e falas dos
diferentes países é carregado de variações e que estas precisam ser respeitas, deixando
de existir aquela ideia de que uma língua é superior a outra.

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