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Ficha Técnica

Título original: O vento assobiando nas gruas


Autor: Lídia Jorge
Design de capa: Atelier Henrique Cayatte com a colaboração de Rita M úrias
Revisão: Filipe Rodrigues
ISBN: 9789722042000
Publicações Dom Quixote
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O Mundo é uma extensa narrativa, mas quem lhe tece a intriga, grande ou pequena, somos nós — A todos aqueles que me falaram dos seus enigmas, por
partilharem da mesma suspeita.

E também a quem escreveu na parede da Avenida a seguinte frase — Vem só e traz as Estrelas.

A Jean Stein, que tão bem conheceu Faulkner, e no entanto não se importou de ouvir com paciência a história de Milene, quando ainda era um esboço
alvoroçado.

Principalmente à minha família querida, que suporta que eu viva outras vidas, em primeiro lugar.
A mão que faz oscilar a água no pântano
agita ainda mais a areia; a que detém o sopro do vento
levanta as velas do meu sudário.
E eu não tenho voz para dizer ao homem enforcado
Como da minha argila é feito o lodo do carrasco.

DYLAN THOMAS
CERIMÓNIA
Naquela tarde quente de Agosto, o longo corpo da Fábrica Velha ainda lá estava estendido ao sol. Não propriamente
intacto, pois nessa altura já o telhado verdoengo abaulava como se a ondulação do mar se prolongasse na cobertura do
edifício. Também os parapeitos de algumas janelas ostentavam ramalhetes de ervas finas dispostas em forma de cabeleira,
puxando-os para a terra. A própria inscrição frontal, Fábrica de Conservas Leandro 1908, já havia perdido quase todas as
letras, e a uma certa distância apenas se decifrava servas e 908, configurando uma espécie de sinal cabalístico inscrito na
parede branca. Mas esses factos pouco ou nada interessavam. Milene encontrava-se parada em frente do velho edifício,
apenas porque esperava que o portão se abrisse e alguém aparecesse para falar com ela.

Ao ombro Milene trazia um saco de praia, e as mãos estavam livres, mas quando as unia, deslizavam como se estivessem
envolvidas num unto pegajoso, precisamente porque desde as onze e meia da manhã várias vezes tinha atravessado o campo de
morraça, seguindo as marcas dum caminho pedestre que por ali havia.
Só depois essa vereda se confundia com o leito dos carris de aço, duas barras paralelas rente às quais tinha parado. O sol
das três horas desenhava-lhe uma sombra curta no chão, e os cabelos colavam-se-lhe à testa, comprimidos que haviam sido
pela copa do chapéu de palha. Mas nesse primeiro momento em que a vejo e tudo recomeça, Milene tinha-o retirado e
abanava-se com ele como se fosse um leque, diante do corpo interminável da Fábrica Velha.

Na verdade, era um dia de calor intenso.


O Clio que ela havia estacionado ali defronte, meio inclinado na berma, fervia sob o sol escaldante. As onze palmeiras que
ladeavam as paredes nem moviam uma haste, como se fossem de folha-de-flandres pintadas de verde. Pela estrada estreita não
passava um único veículo, como se uma longa sesta espanhola tivesse descido sobre a orla marítima. Milene encontrava-se
diante do portão principal e queria chamar por alguém que lhe pudesse explicar o que tinha acontecido na noite de quinta-feira
anterior. E por isso já havia ensaiado o chamamento, até já sabia de cor a pergunta que precisava fazer. Seria assim — « Eh!
Está aí alguém? Pessoal da fábrica? Está aí alguém que me explique o que aconteceu na quinta-feira passada?» — Não
precisava de repetir outra vez. Estava satisfeita consigo mesma, era aquela precisamente a pergunta que lhe convinha. Nesse
sentido, Milene ensaiou uns passos na direcção do casario, retirou um lenço de dentro do saco para limpar o suor da cara, mas
já sobre o asfalto, parou. Ainda não estava segura.
Precisava de pensar melhor.

Vendo bem, se chamasse por alguém naquela hora de calor, quando nem os pássaros pareciam estar acordados, seria como
se estivesse a colocar um ponto final definitivo na busca que havia feito, andando de cá para lá ao longo da vereda. O que
significava que teria desistido de encontrar por si mesma uma pista que pudesse recolher para mostrar aos tios. Coisa que
ficasse muito íntima, secreta, só entre ela e os membros chegados da família. Se começasse a chamar — Ouçam, está aí
alguém?, seria sinal de que havia desistido de encontrar, por seus próprios meios, as palavras necessárias para explicar o que
se havia passado com a avó Regina, durante a noite de catorze para quinze de Agosto, ou como se precisasse necessariamente
das palavras dos outros para poder construir a sua própria versão dos factos. Quando os tios chegassem, ela quereria começar
por dizer — «Queridos tios, eu estava em casa, por volta do meio-dia de sexta-feira, estava a ouvir os Simple Minds, e nisto
tocaram à porta e eram dois agentes da Guarda Nacional Republicana a perguntarem se eu sabia onde estava a avó
Regina. E depois, sem mais nem menos, os agentes desviaram os olhos de mim e disseram-me aquilo...» Isso ela queria
dizer.
Queria contar por palavras suas todos esses trâmites, porque no fundo desejava ser senhora duma situação que a si mesma,
mais do que a qualquer outra pessoa, dizia respeito. Mas pretendia contar tudo, com a segurança própria da pessoa adulta que
era, e não como se fosse a espécie de criança por quem a tomavam. Pois ela não tinha nem dez nem doze, nem vinte anos tão-
pouco, sentindo-se pelo contrário uma rapariga inteiramente responsável, e a prova é que ali havia andado naquela marcha,
para trás e para diante, à procura duma pegada da avó, um fio de cabelo, um lenço de assoar, um tubo, um frasco, ou mesmo
uma folha ou um ramo quebrado, qualquer coisa que explicasse o sucedido, ou pelo menos o confirmasse. Tinha procedido
com toda a minúcia, sem encontrar rasto algum, embora ela soubesse como ninguém que a avó havia passado por ali. Também
o campo escalvado e os seus objectos em redor o sabiam. Sem sombra de dúvida, sabiam-no tão bem quanto ela. Mas a areia,
o saibro e a morraça, bem como os carris de ferro sobre os quais antigamente deslizavam os vagões de lenha, tanto quanto as
árvores velhas caídas, aqui e além, tudo isso fazia parte do silêncio obstinado das coisas caladas, não passavam de
testemunhas passivas, figuras mudas da Natureza que por certo tinham um saber e uma memória, e na hora necessária nunca
falavam. Por mais que uma pessoa as interrogasse, permaneciam escondidas, secretas, sem responder. Não responder era a
sua resposta. Milene até sentia vontade de voltar para trás e de dizer em voz alta — «Suas manhosas, suas cretinas, suas
estúpidas, falem lá...»
Só que não podia pôr-se a gritar num descampado, contra os objectos do mundo, como se fosse uma imbecil. Ou como se
tivesse dez anos de idade. Tudo o que tinha a fazer era imaginar que todas essas coisas caladas se conjugavam para encobrir a
noite de quinta-feira, de propósito para ela mesma não saber o que dizer aos tios. Milene continuava em pé, a refrescar-se e a
olhar para todos os seres mudos que compunham a paisagem, sabendo de antemão, com raiva, que deles não poderia retirar
mais nada.
«Suas brutas, suas estúpidas, falem...»

Essa era a razão por que tinha passado a manhã a fazer a sua busca. No entanto, se fosse só para si mesma, não o teria feito,
pois os dados que possuía consigo já seriam suficientes, não necessitava de mais nenhuns outros. Ao fim e ao cabo, ao longo
dos últimos dias, tinha acumulado informação que bastasse para reconstituir a noite em que a avó Regina havia escapado à
vigilância dos funcionários da ambulância. Reconstituir era só uma questão de ela própria querer. Ali mesmo, naquele lugar,
ao sol das três da tarde, fechava as pálpebras e, sem fazer qualquer esforço, via muito bem a figura da avó Regina em camisa
de dormir, ocupando todo o espaço da paisagem, toda ela por inteiro, corpo e camisa, preenchendo de ponta a ponta o branco
e o preto da noite de quinta-feira. Ali mesmo onde estava, desde que quisesse, Milene fazia as imagens correrem para trás
como no ecrã do televisor quando rebobinava um filme, e a atmosfera desse fim de dia aparecia-lhe nítida, com o vapor
vermelho do Poente a deslizar por cima da planície, e depois a escuridão do lusco-fusco a cair sobre a Estação de Serviço, e
a adensar-se rente à vereda por onde havia seguido a avó Regina. Via a avó Regina, nitidamente, como se ela mesma a tivesse
acompanhado em pessoa, bem como as marcas deixadas pelos seus pés descalços, ao longo da senda de terra. Via muito bem
o movimento das suas passadas, imaginando como teriam sido desequilibradas, lentas e tenazes, imparáveis, a caminho do
local que desejava atingir, e o que ela desejava atingir era a Fábrica de Conservas Leandro 1908, aquele moroiço de
alvenaria, situado a meio do Mar de Prainhas, nomeado em família pela, designação secreta de diamante. Assim como via
nesse andamento as suas mãos nodosas sem anéis, o seu pescoço vergado sem fios nem colar, o seu cabelo branco ultimamente
cada vez mais curto, como se alguém estivesse empenhado em fazer-lhe desamparar o rosto de moldura, sem se saber porquê.
Mas vê-la e acompanhá-la em imaginação, e em imaginação ter a certeza de que tudo se passara assim, que a avó caminhara
por seus próprios meios, sem que ninguém a tivesse transportado ao longo do caminho de terra, até chegar à soleira do portão
principal para aí se sentar a descansar, era uma coisa, e fazer prova desse percurso era outra bem diferente. Por isso Milene
tinha pensado regressar, mais uma vez, aos lugares onde o caminho livre de ervas poderia oferecer um suporte suficientemente
moldável para ali ter ficado impresso um sulco que lhe permitisse dizer aos tios — «Sim, tios, eu tenho a certeza, ninguém a
levou ao colo, ela mesma foi andando, andando sozinha, até chegar ao diamante. Ela fugiu da ambulância parada junto
das Bombas. Ela mesma se pôs a caminho, eu vi uma pegada...» E isso seria prova suficiente de que a avó teria passado por
ali. Milene, porém, já perdera a contagem do número de vezes que se havia debruçado sobre as ralas superfícies de areia, sem
qualquer resultado, e por isso alguma coisa lhe dizia agora que não valia a pena voltar para trás e recomeçar tudo de novo.
Tinha decidido. Prescindia da busca através da morraça.
Iria regressar ao Clio.

Mas entre querer e agir, existe um átomo habitado por um outro, um rápido desconhecido, um inesperável, como costumava
dizer João Paulo. Assim, em vez de se dirigir ao carro e arrancar na direcção da Praia Pequena, onde a amiga Violante servia
cafés desde manhã, atrás do balcão do bar, e a esperava, Milene avançou estrada fora e começou a chamar na direcção do
edifício da fábrica — «Eh! Está aí alguém? Está ou não está?...»
Tinha-se posto a chamar muito alto, utilizando toda a energia de que era capaz, surpreendida até pelo facto de se ouvir a si
mesma na tarde calmosa, e a sua voz aparecer tal como era, fina e frágil, repercutindo-se em altura como se fosse grave. O
chamamento a propagar-se no descampado, a aumentar, a duplicar-se em redor de si como se inchasse. Entusiasmada com esse
efeito, Milene engrossou a voz tanto quanto pôde, procurou que o peito fosse todo-poderoso para gritar de novo — «Ouçam
lá... Se faz favor... Está ou não está alguém em casa?»
Do interior do longo casarão, ninguém respondia. A chaminé de tijolo vermelho erguia-se acima das telhas como um punho
parado. A imagem dum punho gigante erguido, saído duma realidade decadente como era a fábrica, desafiando alguma coisa
que não se via mas deveria permanecer no ar como uma ameaça. Uma torre de segurança, a segurança própria do diamante.
Então Milene continuou a chamar, até a voz se esgarçar por completo, e a si mesma parecer um ridículo grasnado de pato —
«Alguém me está a ouvir?»
«Está ou não está?»
Naquele momento, um camião carregado de sal surgia do lado do Bairro dos Espelhos, roncando lento, e o camionista
sentado no trono da condução passou, a olhar para diante, a cabeça inclinada para o vidro, os olhos na estrada como se tudo o
que tivesse a fazer na vida fosse levar atrás de si aquele monte de sal, e nem a viu. Milene esperou que a grande caixa aberta
se escapasse pela estrada abaixo e desaparecesse ao fundo. Então de novo fixou o portão, sob a luz intensa daquela hora, que
não retrocedia nem desandava, e aceitou os factos tal como eram — Se alguém se encontrava entrincheirado lá dentro, ou era
surdo, ou de propósito não lhe respondia. Não lhe valia de nada. E com tudo isso, não sabia o que dizer aos tios.
Como muitas vezes lhe sucedia, possuía todos os elementos encadeados dentro da sua ideia, e no entanto, verdadeiramente,
não dispunha de nada para dizer. A esse propósito, o primo João Paulo sempre fora da opinião de que, se acontecesse uma
pessoa não dispor das suas próprias palavras para expor um assunto, deveria socorrer-se das palavras dos outros. Ela mesma
às vezes pensava nesse recurso como uma coisa boa e útil, auxiliadora das pessoas a quem faltavam argumentos para explicar
os pensamentos importantes. Quanto mais importantes, mais faltavam palavras a essas pessoas. Pessoas como ela. Então era
preciso avaliar muito bem, antes de concluir se dispunha ou não de palavras suficientes para contar o que se tinha passado
naquela noite de quinta-feira.
Tentativas para obtê-las, não lhe tinham faltado.

Ainda no dia anterior, domingo dezassete, entre as onze e as três da tarde, Milene tinha permanecido no interior da Igreja de
São Francisco, à espera que alguém entrasse pela porta e viesse ter com ela, e longamente havia esperado. Havia esperado até
esgotar todos os pensamentos bons de que dispunha para se entreter, como a lembrança do Star Wars e dos U2, outros filmes e
outros discos, passeios de barco e de carro, quando sentada entre os primos, ao lado de João Paulo. Até que a dado momento,
sentindo-se demasiado sozinha debaixo da abóbada branca, à sombra daqueles santos que pareciam dormir eternidades de
olhos abertos, Milene tinha olhado em volta e havia conseguido decifrar algumas palavras importantes, no meio dos enfeites
que forravam as paredes brancas. Entre outras, tinha lido — Caixa das Almas, Pax Domini, Introibo ad Altarem Dei, e nessa
altura, em pé, no meio do transepto, Milene havia pensado que poderia aproveitá-las para qualquer coisa de útil. Juntando-as
todas, uma a uma, talvez pudesse dizer aos tios — «Queridos tios e tias, não tenham cuidados por mim. Eles trouxeram a avó
Regina para dentro da Igreja de São Francisco e eu fiquei durante várias horas junto da Caixa das Almas e do Totus Tuus,
e nessa altura a avó Regina ainda ali estava. Entretanto, eu sentia-me acompanhada, eu ia pensando em coisas boas para
me distrair...»
Tinha ela pensado começar por dizer. Mas logo se arrependera. Reflectindo melhor, havia percebido que não era suficiente
explicar a razão pela qual não tinha estado sozinha, porque os tios, de certeza, não iriam inquietar-se com as horas durante as
quais havia permanecido a sós com a avó Regina. Nessa altura, já tudo teria passado, e ela mesma estaria viva. Os tios iriam
querer saber, isso sim, em que circunstâncias havia falecido a avó, e então já não lhe serviria para nada usar aquelas palavras
dos outros.

Continuava a pensar Milene, parada, diante das onze palmeiras.

O Clio a ferver debaixo do sol, e ela a pensar no regresso dos tios. A imaginá-los um a um, abrindo as portas dos carros,
com os motores a trabalhar, escancarando-as e saindo dos interiores climatizados, só para lhe perguntarem — Milene, como
explicas isto, hã?... Via os olhos dos tios e das tias, libertando-se uns após outros dos óculos de sol para a encararem bem de
frente, e as portas a abrirem-se e a fecharem-se, umas atrás das outras, e o motorista do tio Rui Ludovice a olhar para ela,
fingindo inspeccionar o chão — Como explicas, hã? Mas aí, diante deles, talvez ela pudesse começar por dizer que tinha
havido uma terrível coincidência, várias coincidências que até poderia provar, se eles assim o exigissem. Não tinha problema
nenhum.

Pois se os tios quisessem ter a maçada de consultar as agendas, veriam como a sexta-feira, quinze de Agosto, tinha sido o
primeiro de uma cadeia de dias livres, um feriado justaposto a um fim-de-semana, e por esse motivo ninguém se encontrava
nos locais de trabalho nem nas moradas previstas, as estradas repletas de carros em fila, lembrando enxames desvairados,
apitando e zumbindo. As casas normalmente habitadas encontravam-se vazias, e aquelas que durante todo o ano se
encontravam vazias pareciam ocupadas, com as luzes dos pátios todas acesas. As moradias que avizinhavam com Villa
Regina, essas, completamente fechadas, lá dentro não havia ninguém. E de todos esses factos Milene poderia fazer prova, ou
talvez alguém se dispusesse a testemunhar por ela, mas dos telefonemas que havia feito para as residências dos tios, chamadas
sem cessar que retiniam do outro lado sem resposta, disso não tinha prova nenhuma.
Sim, fizera dezenas de telefonemas. Como os tios não respondessem, ela própria tinha ido tocar às portas das suas casas, e
fora então que soubera, pelo jardineiro da tia Gininha, que nenhum deles se encontrava em Valmares. Por fim, já no sábado
dezasseis, pela manhã, ainda tinha entrado no edifício da Câmara, na esperança de que, na ausência do tio Rui, alguém
estivesse lá dentro em serviço. E de facto a porta do edifício público encontrava-se aberta, desembocando num recinto amplo
onde permaneciam duas grandes secretárias de metal, atrás das quais, por certo, alguém deveria estar, e não estava. Ninguém
estava. Em forma de gente, no hall da Câmara, só se encontrava o rosto do tio Rui, em dimensão gigante, impresso em posição
frontal, com o colarinho branco sobreposto ao lema Outros só Fazem Gestos, Nós Somos a Acção, palavras distribuídas por
baixo da fotografia, ondulando como dois versos rimados. Aquele fora o cartaz de propaganda do tio Rui, vencedor nas
eleições, ano e meio atrás, e ainda ali permanecia, por certo indevidamente. Mas naquele instante nenhum desses pormenores
era importante. Importava só que o tio Rui, pelo menos, não tinha desaparecido de todo. E então Milene ainda havia chamado
em voz alta, supondo que um funcionário qualquer que por ali se encontrasse, ao ouvi-la, compreendesse a gravidade do caso
— «Oiçam lá... Alguém me está a ouvir? Por favor, é para dizer que a sogra do Senhor Presidente foi encontrada morta na
soleira da Fábrica Velha... Morreu...» A voz de Milene tinha ecoado no recinto onde três séculos atrás haviam vivido umas
monjas-descalças, e ninguém tinha respondido. Sem dúvida alguma. O solene edifício, onde o marido da tia Ângela Margarida
desempenhava a função de Presidente da Câmara, encontrava-se deserto. No próprio pátio, onde às dez da manhã já o sol
batia feroz como se quisesse fundir ou rachar o chão, não havia vivalma. Pelas ruas de Santa Maria de Valmares,
deambulavam magotes de pessoas estrangeiras, com o olhar vagamente espantado sob as palas dos bonés, parando diante das
fachadas das casas brancas, admirativas, como diante de um Nilo seco. De resto, Milene ainda se havia cruzado com algumas
pessoas simpáticas, que até lhe sorriam de passagem, mas nenhuma delas tinha a ver com a sua vida, muito menos com a vida
dos seus tios. Não ia pedir-lhes que parassem no lancil para lhes contar o sucedido.

Nem mesmo ao empregado da esplanada onde se tinha sentado a comer sorvetes, ela havia contado o que quer que fosse. A
certa altura, o empregado viera até junto da mesa, sem ser chamado. Tinha-se debruçado por cima da mesa e havia-lhe dito —
«Desculpe, mas olhe que este é o quinto. Ainda isto tudo lhe vai fazer mal...»
«Exacto, cinco gelados».
E aí, bem poderia ela ter falado sobre o que se passava, mas ao imaginar que iria misturar a vida da sua família com o
número de gelados consumidos, achou que poderia abrir a porta a uma conversa interminável que não estava disposta a
encetar. Então apenas lhe respondera que não os tinha contado. Além do mais, sem dar por isso, estava a fazer-se tarde. Só
agora reparava como a sombra do toldo havia rodado, como os pombos afoitos se aproximavam da sua mesa, apanhando
migalhas dispersas pelo chão, mesmo junto às suas sandálias. Do fundo da doca marítima exalava um perfume fértil, ao mesmo
tempo podre e salgado. Lembrava-lhe o grande Oceano, de que deveria ser uma parte. Lembrava-lhe o Mar de Prainhas.
Porque não tinha ido nadar com Violante, as duas de mão dada, nas ondas baixinhas da Praia Pequena? Porquê? — Não tinha
ido, pela simples razão de que não queria dizer aos tios, quando eles chegassem — «Tios, naquele momento, eu não sabia
muito bem onde estava a avó Regina, e então aproveitei para ir tomar banho na praia...»
Milene tinha perguntado ao empregado — «Acha mesmo que foram cinco? Pois foram, mas olhe que nem dei por nada...»
E sentindo-se bastante estúpida, por estar ali rodeada de pombos reboludos, sozinha, diante das águas lentas que entravam
por dentro de Santa Maria de Valmares, perfumando a cidade com aquele cheiro a marisco e a lodo, tinha decidido voltar para
casa. Pois naquele momento, já era fim de dia do sábado dezasseis, achava-se na obrigação de procurar determinados
objectos da avó, para lhos levar. Roupas, lenços, até mesmo uma bengala especial de que a avó gostava e que deveria andar
perdida entre os guarda-chuvas de Inverno, dentro dos armários fundos que havia por toda a parte em Villa Regina. Era isso
mesmo que iria fazer. Decidida, Milene deu uma avultada gorjeta ao empregado por ter consentido que ali tivesse
permanecido sentada, servindo-lhe gelado atrás de gelado. Agora sim, ia entregar-se de corpo e alma à recolha dos objectos,
durante o tempo que fosse preciso. E abandonando a mesa, partira, apressada, na direcção de casa.
Na sua memória, porém, naquela noite, os lugares do presente e do passado iriam aparecer-lhe completamente entrançados,
e por isso tinha demorado muito tempo a separar aquilo que a avó ainda vestiria àquela data e o que a avó havia usado, vinte
cinco anos atrás, quando Milene ainda era uma criança de pouca idade. Difícil distinguir. Com as luzes todas abertas, os
armários escancarados, tinha percorrido sem cessar os dois pisos de Villa Regina, vasculhando objectos em todas as
direcções do ‘considerável espaço daquela casa. E sem dar conta, amanhecia o domingo dezassete de Agosto, pois de repente,
no meio de tanta gaveta aberta, já era outro dia. Não fazia mal. Depois dessa azáfama, Milene iria poder escolher o mais
necessário. Mas quanto às palavras para explicar o sucedido, não as tinha. E fora aí que se lembrara do primo João Paulo.
Acabava de encontrar o bastão com ponta de prata, e ainda com ele debaixo do braço, Milene aproximara-se do telefone.
Ligaria, não ligaria? Habitualmente, era a avó Regina quem discava o número, e até costumava ficar a ouvir a conversa, a
observar, a fixar, para depois contar ao filho Afonso como se tinham comportado ao telefone a Milene e o João Paulo. Mas no
momento em que a avó se encaminhava para ficar trancada dentro daquilo, feito de madeira, talvez ela mesma devesse ligar.

Ligou.
Não demorou que a voz do primo, no gravador, se fizesse ouvir, em tom baixo e em inglês. «João Paulo?» — Também
Milene falava baixo, para o interior do bocal, isto é, para dentro do gravador do primo, ligado à mesma corrente, do outro
lado do Atlântico — «João Paulo? A nossa avó morreu...» A palavra parecera-lhe inapropriada — «Faleceu...» Corrigiu. A
casa toda revolta, as luzes todas acesas. Do lado de lá, ninguém respondia. Ela pousou o telefone. Depois reparou que eram
seis horas da manhã de domingo. Em Massachusetts seriam uma ou duas. Do lado de cá, amanhecia por cima das copas das
oliveiras. E fora então que ela se tinha lembrado de João Paulo a dizer-lhe, cinco anos atrás, numa certa manhã de Outono, ali
mesmo, em Villa Regina — «Não sejas estúpida, Milene, quando necessário, uma pessoa deve socorrer-se das palavras dos
outros. Pois para que servem as palavras dos outros senão para nos servirmos delas?... Vendo bem, nem uma única
palavra que pronunciamos é nossa. Alguém as criou antes de nós... Nada nos pertence...» Era como se João Paulo ainda
estivesse a entrar pela porta do living-room da avó Regina, como se estivesse a aproximar-se da mesa e a dizer, naquele
instante — «Ouviste, Milene? Ouviste bem? Nada nos pertence. Nós é que temos a mania... »
Nada nos pertence, pensava ela, enquanto escolhia os sapatos, dobrava um vestido que a avó guardara da viagem a Londres,
um lenço e uma écharpe Liberty com grandes corolas de papoilas. Pois se nada nos pertence, então seria necessário uma
pessoa cumprir os seus deveres, ser cada vez mais rápida, desembaraçar-se dos deveres. Mas quando Milene, depois de nova
corrida pela estrada, tinha chegado, rápida e eficiente, junto daquilo, carregada com todos os pertences possíveis, já havia
horas que a avó lá estava embrulhada num pano branco e noutro preto, e assim Milene tinha sido obrigada a colocar as roupas
e demais objectos dispostos ao lado de Regina Leandro, como se não fizessem parte da sua indumentária o chapéu, as luvas, o
bastão de ponta de prata e até os sapatos de cunha de que a avó tanto gostava. Os objectos arrumados ao lado, como se não lhe
pertencessem.
Esse era o outro detalhe que iria ter dificuldade em explicar aos tios ausentes, e por essa razão, em chegando à Igreja, tinha
permanecido em pé, na esperança de que alguém entrasse e lhe dissesse qualquer coisa para ela recolher as palavras dos
outros. Entretanto, ali tinha ficado a pensar. Mas esgotados os pensamentos bons, e todos os outros, por volta do meio-dia, o
silêncio começara a erguer-se como uma provocação indecente. Não podia continuar assim, naquela expectativa. A avó
permanecia coberta pela tampa de madeira, enquanto ela se mantinha à escuta dos passos que se aproximavam do lado de lá
das grossas paredes, gente que caminhava rente à Igreja de São Francisco e logo se afastava na direcção da estrada que
conduzia à praia. Milene estava suspensa do pouco ou nada que se passava lá fora — É agora, tenho a certeza que alguém
vai entrar. Uma coisa boa vai acontecer. Uma coisa muito boa...
E tinha acontecido.
Anunciara-se à distância. De súbito, uma fala interrompia o silêncio. Alguém entrava, e não eram os tios nem as tias. Era um
padre com a sua indumentária branca que surgia na porta lateral, avançando pelo soalho, conforme o jorro de luz que banhava
as coroas de flores, e ainda por cima não vinha sozinho. Acompanhava-o uma outra figura semelhante a ele, e também uma
mulher cujos passos pesados traziam atrás de si umas pernas fortes e uns possantes buchos quadrados. Sim, finalmente três
pessoas, três oficiais, entravam, formando uma espécie de multidão, e como o padre se tinha dirigido a ela, que estava
sozinha, acompanhada pela avó Regina, Milene percebera que havia chegado a grande oportunidade de seguir as palavras
duma pessoa credível. Seguir as palavras que o padre tão bem pronunciava, com o auxílio duma magnífica dentição de alvura
impecável e umas sobrancelhas levantadas que se afastavam e uniam sem cessar, formando desenhos circunflexos a meio do
rosto. Queria seguir as palavras que saíam da sua pessoa e sua sobrepeliz, para dizer aos tios — «Queridos tios, foi assim...»
Queria repeti-las e fixá-las. O problema consistia em saber se conseguiria transformá-las em coisas prestáveis para lhes
contar. Essa era a sua grande dúvida.
Milene tinha descido os olhos sobre o Cristo luzido que o carpinteiro pregara à tábua, um Cristo de metal maciço, tão
arqueado que não só parecia oco como também apresentava a forma dum insecto que se quisesse desprender da madeira, e
enquanto isso, ela ouvia retumbarem as palavras que o padre atirava, ali, a desoras de domingo, como se quisesse atingir
alguém, uma espécie de pedradas, das quais fixava as mais altas, tais como a iniquidade, o orgulho, a arrogância, a notícia
que passa, o navio que vai, a ave que voa, a seta atirada contra o alvo, e nós consumidos na nossa malícia... E muitas
outras. Sem conseguir fixar, no entanto, mais nada do que isso mesmo, frases atiradas pelo padre contra as paredes da Igreja
vazia. Aliás, aquele padre que ela nunca tinha visto, por uma razão qualquer que a si mesma lhe escapava, tinha continuado a
falar em voz demasiado alta, como se pregasse para alguém que ela não visse, e Milene havia experimentado uma espécie de
medo, o medo que porventura deveria sentir a pessoa ou a multidão a quem ele se dirigia, e ali não estava. E sentia medo
também por si mesma, por não saber explicar de que modo tinha ficado a acompanhar a avó Regina, aprisionada dentro
daquilo. Medo por se encontrar ali sozinha a ouvir todas aquelas palavras, sem no entanto ter tido oportunidade de recolher
uma única que lhe pudesse ser útil, de entre tantas que naquela hora estranha o padre proferia. Até que por fim aquilo
terminou, e ela não saberia dizer como.
Porque a última parte iria ser muito rápida. Lembrar-se-ia depois.

Fora assim.
Ainda as palavras do padre ecoavam de encontro aos santos, e já um grande carro se aproximava às arrecuas como se
quisesse entrar no interior da Igreja. Depois tudo desandou, e as paredes do exterior engoliram a penumbra mansa onde ela
própria havia habitado desde as onze da manhã. Os santos deslizavam. Tudo mudava de figura. Também ela estava a ser
levada por aquele enorme carro. Não tinha dúvidas. Milene fechou os olhos, sentiu um motor sob o assento, à sua volta as
flores tomaram conta do espaço, apertaram-se contra o vidro e moveram-se como se fossem animais vivos à espera de
respirar, acomodando-se, mudando de lugar e de forma, as gardénias por cima dos gladíolos, e ela viu a paisagem da rua
branca de São Francisco, muito calma e muito sólida, através do esfumado que protegia os olhos da intensa claridade da tarde,
como se todo o carro fosse um grande óculo de sol. Os cães deitados levantavam-se à passagem do pesado veículo onde
Milene seguia, sentada como num trono, de olhos quase abertos quase fechados.
Quando os abriu, já uns homens de cabelo aparado estavam sugando os molhos de flores de dentro do carro e já as
colocavam em monte diante da cova aberta, onde seis mãos unidas iriam deixar cair aquilo, com a avó trancada lá dentro. À
medida que aquele objecto descia, Milene sentia-se aterrada pela brutalidade da terra aberta, mas quando ela se fechou,
experimentou um alívio — tinha a certeza que Regina Leandro não estava ali, e isso poderia contar aos tios, ainda que não
soubesse onde a avó se encontrava. Ou mais precisamente, onde é que ela, Milene, a tinha deixado. A surpresa prendia-a ao
chão. «Não, ela não está aqui. Ficou em qualquer outra parte, mas não aqui...» Teria dito Milene, se o padre não estivesse
presente. Mas estava.
O padre tinha-se colocado sobre uma elevação de terreno e a sua sombra era nítida como se desenhada a carvão. Além
disso, a testa e as maxilas estavam cobertos de suor. Milene reparou que ele chamava a mulher dos buchos quadrados, que
deveria ser freira, pelo formato do lenço, e os dois estiveram a falar em voz baixa. O padre desceu da pequena elevação e
perguntou a Milene — «Sente-se bem?»
«Não se sente bem?»
«Sente-se mal?»
Ela quereria ter respondido à altura, e por isso tinha deixado que os olhos andassem um pouco à volta, passando por aqui e
por ali, pequenos montes de terra, pequenas casinhas de mármore, um sem-número de nomes e datas douradas, e depois,
quando os recolheu, não encontrou que dizer. Sim, sentia-se muito bem, sobretudo pela inesperada pergunta que o padre lhe
fazia, a sua amabilidade em aproximar-se dela e repetir a pergunta, e por isso Milene começou a rir, a princípio pouco, depois
mais e mais, em silêncio, para agradecer o gesto de quem perguntava e para mostrar como se sentia bem. Sorria para lhe
agradecer ter falado tanto, lá dentro da Igreja, a propósito da avó Regina, quando, além dela e da avó e daquelas pessoas
profissionais, não estava mais ninguém. Acudia-lhe à cabeça tanta coisa, ao mesmo tempo, que não podia dizer nada.
«É a sobrinha do Presidente da Câmara, Senhor Padre Honório, já lhe tinha dito. Sobrinha por afinidade...» — falava a
mulher cujas pernas tinham aparecido na luz da Igreja e no momento ali estavam, plantadas sobre a terra revolvida, carnudas,
fortes, com seu bucho de feitio singular. «Mas Deus é grande...» — disse ainda. E chamou o homem que os acompanhava para
junto do padre. Os três, unindo as cabeças e avançando devagar ao longo da álea, tinham começado a falar entre si como se
partilhassem um segredo comum. Depois afastaram-se.
«Deus tudo pode...» — disse ainda a mulher.
Entretanto, os três, sempre muito unidos, esperaram por Milene, cujo passo incerto a fazia tropeçar em torrões e pedras,
flores velhas espalhadas pelas sendas estreitas entre as pequeninas casas. Os quatro — durante algum tempo tinham
caminhado os quatro — desceram no carro do próprio padre até ao adro da Igreja. As sombras dos prédios rente às paredes
também pareciam aureoladas de tinta preta, de nítidas que eram. Mas ela tinha entrado no Clio ali parqueado desde manhã, e
os três, incluindo o prior, haviam ficado a olhar para ela, estáticos, como se fossem três anjos de asas recolhidas, descidos do
alto das casinhas de pedra, para a vigiarem de perto. Ninguém dizia nada.
Milene gostaria de ter sabido porque olhavam assim, porque pareciam esperar que ela arrancasse, como se desejassem ter a
certeza de que era capaz de conduzir, tendo os três acenado exuberantemente quando ela arrancou. Já a alguma distância, ainda
os tinha visto pelo retrovisor a olharem na sua direcção. Pareciam contentes, e Milene, para que eles tivessem a certeza de que
era desembaraçada ao volante, e exercia completo domínio sobre o motor, sabendo fazer ponto de embraiagem na perfeição,
parou na subida e só depois de fazer uma inversão de marcha bastante vistosa, desceu nas calmas, São Francisco de Valmares
abaixo. Eles lá tinham ficado parados, a observar, sem dúvida satisfeitos com ela. Com a sua condução. Mas nem mesmo
depois daquele encontro, que nem correra mal, ela conseguira encontrar duas palavras que verdadeiramente prestassem. Isto é,
saberia como explicar o que se tinha passado naquele dia, até a terra fechar. Não sabia, porém, o que havia acontecido entre
as Bombas e a soleira do diamante. E na confirmação desse percurso residia tudo. Então o que diria aos tios? Principalmente
às tias, de quem tanto gostava?

Perguntava a si mesma, diante das onze palmeiras cuja sombra se mantinha a pique, imóvel, sem deslizar um segundo. Sabia
muito bem. Era-lhe pedido um confronto. — De novo, com o chapéu de palha na cabeça, o saco ao ombro, pensou que entre
pensar e agir existia um átomo habitado por um outro, segundo João Paulo.

Pois vendo bem, não conhecia o percurso que faltava, apenas o reconstituía em imaginação, a partir do resumo feito pelos
agentes da Guarda Nacional Republicana e das cenas que o próprio rapaz da Estação de Serviço havia descrito com detalhe,
enquanto testemunha ocular. Sabia por eles. Os dois agentes, eles mesmos, é que a tinham levado até às Bombas, na tarde de
sexta-feira, e um deles havia dito — «Interrompa lá esse serviço, você aí. A rapariga até está um pouco meio cá meio lá, sem
saber de nada...» E depois tinham-na deixado sozinha diante dele.

Então o rapaz da gasolina, todo vestido de amarelo, da cabeça aos pés, havia repetido tudo aquilo que já antes transmitira
aos polícias, na própria Esquadra, reproduzindo a ordem dos factos, um por um, como se testemunhar fosse fazer com que os
próprios factos voltassem a acontecer. Em pé, no meio da estação, ele contou como na noite do dia anterior, cerca das vinte e
uma horas, uma ambulância havia surgido no Cruzamento, espalhando em volta feixes de luzes azuis, feixes esses que no relato
dele tomavam a direcção dos seus próprios braços, em giratória à volta do corpo. Luzes intensas que teriam iluminando de
azul muito vivo o lusco-fusco da tarde que chegava ao fim. Luzes azuis. Azulão. Estava visto que as luzes o tinham
impressionado bastante, e ele fazia questão de passar a impressão a Milene.
O rapaz tinha contado como a ambulância se havia aproximado lentamente, relampejando em várias direcções, parando nas
bermas, porta sim porta não, até chegar perto da Estação de Serviço. Apontava com o braço. Segundo ele, a bombeira que
conduzia a ambulância e o enfermeiro que a acompanhava haviam descido do veículo, os dois ao mesmo tempo, e tinham
aberto as duas portas de trás para quem quisesse espreitar o seu interior. Contava ele. Aliás, testemunhava como aqueles dois
funcionários da ambulância tinham vindo a repetir a operação pelo menos desde a curva do Frame Center, e como certas
pessoas que por ali passavam, na ocasião, se haviam aproximado formando um magote, e até se tinham inclinado, umas atrás
das outras, para dentro da ambulância, espreitando o que lá se encontrava. Ele próprio tinha espreitado. Mas lá dentro, tudo o
que haviam enxergado fora uma sombra branca tapada com um pano da mesma cor. Jurava. No momento em que ele se tinha
debruçado, a bombeira, que conduzia a ambulância, sem cerimónia nenhuma, havia apontado uma lanterna acesa na direcção
do rosto da sombra estendida no fundo branco e azul da maca. Ele mesmo, sentindo-se bastante confuso, até havia perguntado
se era homem, e o enfermeiro, concentrado na decifração do endereço que estava escrito num papel, tinha-lhe respondido de
muito mau modo — «Não se vê logo que é uma mulher?»
«E estará viva?» — tinha perguntado uma outra pessoa, puxando o pano branco, toda inclinada para dentro da própria
ambulância.
Aí, o enfermeiro, bastante irritado, havia levantado a voz. Tinha--se ouvido em toda a Estação — «Então acha que iríamos
devolver uma pessoa à família, se não estivesse? Se a estupidez fosse música, você seria um concerto...» E sacudia, com
raiva, o papel cifrado.

Mas o rapaz da gasolina encontrava uma explicação para aqueles maus modos. Achava que tanto o enfermeiro quanto a
bombeira desejavam ver-se livres daquela sombra, como de todas as sombras que ocupavam as camas dos hospitais do
distrito, por causa das carnificinas da estrada previstas para aquele fim-de-semana, e por isso, quando ali tinham chegado, já
havia mais de duas horas que andavam à procura do Quilómetro 44, segundo o endereço que constava da ficha que traziam
consigo. E contudo, pelos vistos, até àquele momento, ninguém tinha sido capaz de dizer onde ficava tal quilómetro nem quem
fosse tal pessoa. Ele próprio, o rapaz da gasolina, confessava que não sabia. E de todas as pessoas que se tinham amontoado
debaixo das luzes azuis, ninguém conhecia aquele endereço, nem aquele nome, ninguém reconhecia a figura que estava lá
dentro. Só um emigrante recém-chegado da América do Norte, um homem de meia-idade, é que se tinha inclinado na direcção
do foco luminoso que o enfermeiro apontava de novo sobre a pessoa, e havia reconhecido, nos olhos da sombra deitada, umas
pálpebras altas que se lembrava de ter visto no rosto duma mulher, quando ele mesmo era rapaz. Mas não se lembrava de
quem fosse.
«Faça lá um esforço, por favor. Andamos aqui aos bonés, há não sei quanto tempo...» — tinha pedido a bombeira.
«Eu faço, mas não consigo» — ainda tinha dito o emigrante da América do Norte. E esse homem até sentia muita pena por
não poder ajudar, não retirava a vista das pálpebras descidas, fazendo a luz da lanterna passar uma e outra vez por cima do
rosto, mas era inútil, não se lembrava. Então, muito arreliados, e em desespero de causa, o enfermeiro e a bombeira tinham
iniciado uma pesquisa pelas moradias mais próximas, atravessando a estrada e entrando nos caminhos laterais, batendo a
portas onde pareciam jantar pessoas surdas, penetrando em quintais travados com edifícios que lhes barravam a passagem, e
outras dificuldades, segundo o que eles próprios, depois, tinham contado. Mas quando finalmente haviam regressado à
ambulância, prontos a resolver a situação, já com a ideia de onde ficava o tal Quilómetro 44, e apressados se precipitavam
cada um para o seu assento, tinham verificado que a sombra havia desaparecido. A sombra não estava deitada onde eles a
tinham deixado.
A sombra não estava lá.

O rapaz da gasolina, ali mesmo, na própria Estação de Serviço, tinha explicado como havia sido o efeito provocado pela
imagem da ambulância vazia da sombra. Como os dois, enfermeiro e bombeira, haviam vasculhado a berma e as ervas secas
em volta. Como haviam feito extraordinários apelos por telefone e walky-talkies, desesperados, andando dum lado para o
outro, diante da ambulância e ao longo da estrada, até que haviam partido, fechando as duas portas abertas que na noite
pareciam duas asas. De facto, ele próprio vira essas portas. Ele fora testemunha ocular, ele ainda se encontrava sob o efeito
daquela cena estranha. O grande carro vazio. Mas a partir daquele passo, não podia contar mais nada. Só podia acrescentar
que entretanto o magote de pessoas se tinha cansado de estar à espera junto da ambulância e havia destroçado. Nessa altura,
ele mesmo andava de um lado para o outro, a servir gasolina, e só sabia que as luzes azuis tinham continuado a girar como um
farol, tempos sem fim, sem ninguém por perto, ali na Estação de Serviço. Quem podia adivinhar? O próprio rapaz, de olhos
muito largos, humedecidos, abria os braços para demonstrar a sua inocência. Sim, sim, contava tudo o que sabia, era
testemunha. Que desculpasse, mas a pessoa que ele vira lá dentro, deitada na maca, parecia ter menos força vital do que o
pano que a cobria. Como tinha andado? Como tinha desaparecido? Como tinha passado por entre estradas repletas de carros a
correrem a toda a velocidade? Como? — Até que ele mesmo, reparando nas feições de Milene, havia mudado de assunto.
«Desculpe. Olhe para aqui...»
Depois disse-lhe que afinal se via muito bem que ela pertencia à família da sombra, por causa das pálpebras altas, as
sobrancelhas subidas. O rapaz utilizava só a palavra sombra. A olhar para ela, muito sério, por causa do reconhecimento das
pálpebras, e os carros a formarem uma grande fila, uma fila própria do feriado de sexta-feira, e os colegas do posto a
chamarem por ele. E ele, com os braços levantados, continuava a falar, simulando ainda o rodar da lâmpada azul, a lâmpada
que tinha trazido aquela história passageira a uma Estação de Serviço de estrada, onde nada acontecia a não ser os depósitos
abrirem-se e fecharem-se, engolindo gasolina com o máximo de octanas.
«Vê-se mesmo que você é filha. Filha ou neta...» — tinha ele dito, encaminhando-se para as Bombas de onde o chamavam,
desesperadamente. «Pôxa, gente, um momento, que já lá vai...»
«Olhe, eu por mim, juro, não vi mais nada...»
Assim se tinham despedido.
O que significava que, sobre esse testemunho, não havia problemas. Milene guardava, palavra por palavra, a fala do
gasolineiro, faltando-lhe conhecer apenas o que se passara depois. Só essa parte faltava. Mas não seria que tudo aquilo que
desconhecia sobre o que acontecera depois não estaria a arruinar-lhe a lembrança sobre os factos precedentes? O passado
imediatamente anterior? Os últimos momentos testemunhados pelo rapaz da gasolina? — Milene tinha começado a sacudir o
pó das pernas que a saia curta deixava nuas, havia retirado de novo o chapéu da cabeça, voltando a abanar-se com ele,
fazendo agitar o cabelo curto em torno do rosto, uma espécie de redemoinho. Um perigo.
Tudo se cruzava.

Diante das onze palmeiras, demasiado frondosas, como se os seus pés erectos sugassem a energia de alguma fonte invisível
que corresse a uma outra profundidade da terra, Milene não sentia só os cabelos no ar, agitados pelo chapéu de palha. Sentia
também a cabeça cheia de figuras, de noites, daquelas quatro noites, de bombas de gasolina, de caixas de madeira, flores
polpudas, estradas a cruzarem-se, carros a partirem em direcções diferentes, nomes, endereços, covas abertas, o Mar de
Prainhas que dali se avistava para além do edifício da fábrica e da zona dunar, camisas de noite sem bainha nem carcela,
ambulâncias, bombeiros, sons grandiosos soprando da Bíblia do Senhor Padre, tudo isso que tinha recolhido ao longo
daqueles últimos quatro dias, tudo matéria útil para explicar aos tios, mostrar-lhes e oferecer-lhes como uma prenda de que se
pudesse orgulhar. Mas ali mesmo, sob o calor que continuava a cair com perverso rigor, achou que não ia poder manter intacta
por mais tempo aquela cesta de dados que trazia dentro da cabeça. Que os dados iriam todos começar a desintegrar-se, a fugir
como iões libertos, que iriam espalhar-se pela restinga, por toda a costa do Mar de Prainhas, pelas águas do Atlântico fora,
até a sua cabeça ficar vazia de todo, e quando os tios e as tias chegassem, já não teria nada para lhes dizer. Quando os tios lhe
perguntassem — «O que aconteceu, Milene?», ela não saberia responder absolutamente nada. Não teria nada para lhes contar.

Talvez eles lhe perguntassem — «Como foi possível uma coisa destas? Não cuidaste da avó Regina nem sabes dizer nada
sobre ela. Pior do que tê-la deixado morrer é não saberes explicar como foi...» Ouvia a tia Ângela Margarida dizer, e o tio
Rui Ludovice, seu marido, a escutar, a consentir, eles que eram tão poderosos, que formavam um casal tão bem feito, que
sabiam tanto, que tinham ganho eleições sob o lema imbatível de Outros só Fazem Gestos, Nós Somos a Acção, e agora iriam
pedir-lhe contas, e ela não tinha nada para lhes transmitir. Sentia que tudo o que havia acumulado, em vez de criar um sentido,
estava prestes a desaparecer. Como explicas, Milene, diz lá, que tenhamos deixado a avó no Novo Lar, duzentos mil escudos a
cada um, só de jóia, para podermos partir em paz para férias, já que não estávamos descansados contigo, sozinha com ela em
Villa Regina, e que ao sairmos de Portugal ela tenha ficado lá tão bem entregue, naquele lugar onde dispunha de todo o
conforto, até de sapatos de ténis, no caso de querer fazer uma volta em torno da piscina, e como podes explicar que passadas
duas semanas tivesse sido encontrada morta, abandonada, na soleira da Fábrica Velha? O nosso diamante?
Sim, como explicava Milene que não tivesse esperado por eles para deixar morrer a avó? Porque não tinha proporcionado
que ela tivesse todas as flores, todas as honras que merecia? Porque não tinha cuidado da sua pessoa? Porque não tinha
interceptado aquela gente, guardas, médico legista, homens de preto, o padre incluído? Como? — Uns dias depois, e talvez até
o tio Rui Ludovice tivesse requisitado dois cavalos da Guarda Nacional que fossem atrás fazendo barulho com as patas, talvez
houvesse um sermão na Igreja, talvez alguém tivesse vindo com duas guitarras, uma em cada mão, cantar à avó, à longa vida
da avó, à benemerência da avó, a avó que em tempos idos tinha sido a mão forte da Fábrica de Conservas Leandro 1908, boa
pessoa para toda a gente, gerações inteiras que lhe deviam favores, e no entanto a neta não tinha esperado. Para avaliar por
inteiro o sucedido, Milene não precisava de contar pelos dedos, porque não tinha nem dez, nem quinze, nem vinte anos, tão-
pouco. Mesmo assim, contou. Para se certificar, contou as ausências fundamentais, uma a uma.
De facto, junto da avó Regina não tinham estado nem a tia Ângela Margarida nem o tio Rui Ludovice, com a presença solene
que a sua presença implicaria. Nem as filhas deles, as primas Joana e Sabina. Nem o tio Afonso Leandro, nem nenhuma das
suas últimas mulheres, nem tão-pouco a primeira, a tia Alda Maria, a mãe dos dois filhos, o primo Danilo e o primo João
Paulo. Nem a tia Gininha nem o seu marido Dom. Silvestre, bem como as crianças de quem a avó tanto gostava, o Bruno José
e a bebé Artemisa. Assim como nenhum membro mais afastado da família lá tinha estado. Também nenhum dos funcionários
antigos ainda bastante submissos à avó Regina havia aparecido. Nem as amigas com quem a avó comia bolos altos de buraco
no meio, às fatias, nem as serviçais que lhe tinham permanecido próximo e lhe traziam couves-tronchudas e dúzias de ovos
dispostos em palha, no fundo de cestas, como ela tanto gostava. Nem o velho merceeiro nem o afilhado Barbosa, o dono do
Mãos Largas. Não, ninguém tinha estado, um desencontro, fruto da terrível coincidência. A população deslocada, os serviços
fechados, os hospitais a abarrotar, os acidentes multiplicando-se em constelações de lata pela estrada, os lugares de
acolhimento lotados. Fora no meio dessa confluência extraordinária que a avó falecera, sobejando de todo o lado e de toda a
parte, e ela não iria saber explicar porquê. Afinal não era apenas o percurso da avó entre a ambulância e os carris que ela não
conseguia explicar, era muito mais. Muito grave. Entre o que sabia e não sabia, tinham-lhe desaparecido as palavras, todas as
palavras tinham abalado, e por isso, quando eles chegassem, ela não teria nada para dizer. Vazia como a buzina seca e morta,
não teria nada. Pensando nessa falta, essa profunda falta, com o coração apertado, Milene tinha começado a andar na direcção
do portão da fábrica, caminhava na direcção do diamante.
«Eh! Está aí alguém?» — chamou.

Nem o estupor dum pássaro.

O portão parecia encontrar-se apenas fechado no trinco. Bom mesmo seria partir para longe, atrás dos pensamentos que se
diluíam a toda a velocidade pela água, pela terra e pelo espaço. Mas como isso não podia acontecer, porque ela mesma se
sentia uma só coisa, agarrada à soleira, uma solução oposta caminhava na sua direcção, com o mesmo fim. Uma boa solução.
Sem pensar em mais nada, Milene obedeceu. Subiu para o galo de pedra onde as duas meias portas vinham bater um tanto
desconjuntadas, e com os joelhos rechonchudos unidos, os calcanhares afastados, empurrou com toda a força da anca o centro
do portão, e com a mão na corda do arame, puxando-a, conseguiu que o cabo se desprendesse do prego, que as duas metades
se afastassem com estrondo, um estrondo que a surpreendeu a ela e aos pássaros, subitamente acordados. Milene ficou durante
um instante no meio do portão escancarado, a ouvir a restolhada dos animais. Só depois tinha entrado. Ali estava o pátio com
sua chaminé vermelha, inútil e alta. Reconhecia-a, ali estava. Mas não reconhecia mais nada.
O pátio parecia-lhe pequeno, como se os pavilhões laterais tivessem crescido para o interior, e na verdade novas paredes
de tijolo encarnado interceptavam as superfícies primitivas. Uma casinha da cor do cimento sobressaía como um nódulo
dentro de um quadrângulo. Uma nova empena, donde pendia, enrolada, uma enorme mangueira de rega, fechava o telheiro de
parede a parede. A ligar as novas superfícies de alvenaria, cordas erguidas em canas sustinham roupas de Verão de cores
alvadias, e lençóis coloridos, onde desbotavam enormes rosas, estavam dispostos como uma floresta de panos. Uma das
cordas ondulou, e detrás dos panos surgiram dois animais. Um grande cão de guarda que ao vê-la abriu a boca, mas logo se
deitou por terra e rebolou o enorme corpanzil, deixando-se urinar, rastejando, enquanto um caniche cinzento, que não havia
sido tosquiado, encontrava-se amarrado com uma corrente que deveria ter pertencido ao cão de guarda. Esse, a princípio,
ladrou desesperadamente, como se movido por duas pilhas. Depois, também ele se rojou no chão, sob o barulho da corrente,
lambeu-se e saltitou quanto pôde, pondo as patas dentro da gamela e entornando a última gota de água que ainda lá havia.
Quando os cães se calaram, percebendo que nada iria acontecer de importante para eles, com aquela presença humana, Milene
também compreendeu que aquele lugar, apesar de fechado — tinha voltado atrás para unir as duas meias portas — ainda a
deixava demasiado exposta, demasiado visível.
Mas as portas interiores, as que davam para esse recinto fechado, essas encontravam-se trancadas, e entre um pote onde
florescia uma sardinheira e um saco com ração, existia um pequeno monte de cadeiras empilháveis. Poderia retirar uma.
Retirou. Com a cadeira debaixo do braço, Milene pôs-se à procura de um lugar entre as roupas estendidas. Certamente que por
detrás de alguma daquelas cordas de panos iria encontrar um bom esconderijo. Não logo atrás da primeira corda nem atrás da
segunda, antes atrás da terceira, donde pendiam os lençóis maiores, os das grandes rosas lilases, de mistura com turcos de
banho e toalhas de mesa. Ali, sim, entre uns e outros panos, havia uma boa sombra. Encostou o rosto à roupa, certificou-se de
que tinha encontrado um sítio onde as tias não poderiam descobri-la, nem naquele instante nem depois, quando já não tivesse
nada dentro da cabeça capaz de lhes contar. Nunca poderiam. Nunca. Os joelhos unidos, o saco pousado sobre eles, o chapéu
pousado sobre o saco. Os dois braços apertando o corpo, com o molho de coisas arrumadas no colo. Ali, na frescura do pátio,
segunda-feira, dezoito de Agosto. Milene tinha-se escondido no interior do diamante.

Mas houve quem dissesse o contrário.

Que Milene fora encontrada a vaguear perto dos campos de golfe, sem saco nem chapéu. Outros juraram que a tinham
avistado a caminhar à pressa na direcção do Bairro dos Espelhos. Outros disseram, ainda, que ela teria passado esses cinco
dias na praia, alimentando-se de peixe cru e dormindo ao relento. — Disseram-no, por certo, com a intenção de diminuírem a
sua vida, de esmagar o seu enigma, com a intenção de a empurrar para o domínio da insignificância e da obscuridade, esse
lugar onde tudo se perde e anula antes de tempo. Mas nós não deixámos.
O LIVRO DE MILENE
I
Foi então que os Mata, montados nas suas três carrinhas, abandonaram a estrada principal e começaram a aproximar-se do
Bairro dos Espelhos.

O Bairro dos Espelhos não passava de um aglomerado raso, sem nome no mapa, e era assim chamado, porque, a partir das
cinco da tarde as chapas de alumínio e os vidros incrustados nas janelas uniam-se em milhares de reflexos, como se fossem
lamelas duma estação orbital construída à semelhança dum olho de mosca.
É preciso dizer que esse efeito de reflexão sucedia sobretudo na Primavera e no Outono, depois das chuvas, quando as
superfícies ficavam lavadas e o Sol atingia a sua inclinação mediana. Nesses períodos do ano, o bairro funcionava para os
pescadores do Mar de Prainhas como uma espécie de farol da tarde. Ao contrário do que seria de supor, o Verão coincidia
com o momento em que se registava o menor número de incêndios, não porque houvesse menos detritos e papéis à solta,
cascas, panos, paus e outros materiais inflamáveis, mas sim porque a poeira pousada encobria as vidraças e as janelas com
uma camada de espessura considerável. Podia dizer-se que na época alta o Bairro dos Espelhos quase não possuía espelhos.
O pó que se levantava à passagem dos carros não era um mal, funcionava antes como uma protecção das habitações, um factor
de segurança e boa manutenção do bairro. Às vezes acontecia entornar-se um balde de água no chão que separava uma parede
da outra parede, às vezes entornava-se muito mais. Por descuido derramavam-se mesmo bidões inteiros, formando-se olhos de
vidro no meio de estreitos círculos de lama. Mas nunca os seus habitantes deveriam lavar uma porta ou uma janela com a água
que corria, entre as seis e as nove da manhã, por duas torneiras colocadas à entrada do largo. Jamais se deveria desperdiçar,
nesses actos supérfluos, o bem inestimável. Esse princípio funcionava como uma lei importante que não precisasse de estar
escrita.
Porque haveria de estar?
A maioria das pessoas que habitava o Bairro dos Espelhos provinha de terras inscritas na faixa marítima do Sahel, pedaços
desgarrados de África, ilhas atlânticas que desde a última glaciação haviam expulso as chuvas e engolido os rios, tendo
sobejado para sua lembrança umas quantas ribeiras, descomandadas durante uns dias, e logo secas durante anos inteiros. Para
esses, uma torneira aberta com regularidade cósmica, entre tanta e tanta hora, era já uma generosa ribeira, e uma vez
assimilada a nova realidade, qualquer fio de água corrente se transformava na imagem de um rio. Dois rios intermitentes para
um bairro inteiro. Havia, contudo, quem tivesse mais sorte, havia quem tivesse abandonado o Bairro dos Espelhos e
dispusesse de três rios dentro de casa, só para uma família que não ultrapassava as dezanove pessoas. Um rio na cozinha, um
rio na retrete, um rio no tecto duma casota donde a água escorria, ora em forma de esguicho ora em forma de chuva. Os
próprios escorrimentos das águas dos duches e da bacia das mãos que se reuniam no pátio, em estreitos regatos, assumiam a
designação de rios. Os mais novos adaptavam-se, deixavam de pensar no assunto, achavam que água era água, boa para beber
ou desperdiçar, tão natural como os actos da respiração, mas para os mais velhos, era diferente. Sempre que se rodava o
manípulo e saía água, sabiam que estavam a abrir a foz de um rio, o leito duma constante ribeira — Pelo menos era assim que
pensavam as mulheres mais velhas da família Mata. Até cinco anos atrás, os Mata tinham habitado o Bairro dos Espelhos.
Agora, pouco passavam por lá. Só os homens, ao domingo à tarde, para beberem uma cerveja morna e jogarem às cartas.
Quando jogavam.

Mas naquele dia, o dia em que a nossa prima Milene se escondeu no pátio do diamante, antes do cair da tarde, as três
carrinhas dos Mata tinham deixado a estrada de alcatrão e tomado o caminho de terra batida, entrando pelo bairro dentro no
meio duma nuvem de poeira. À aproximação da nuvem, algumas crianças haviam abandonado os portais, outras tinham saltado
directamente das janelas para a rua, e em menos de um segundo, agrupando-se e girando em forma de enxame, rodearam as
três carrinhas, impedindo-as de avançar. As três carrinhas pararam. Tinham vindo até ali, exactamente para serem impedidas e
travadas.
«Vêm aí os Matal...» — gritaram as crianças para dentro das casas.
A primeira carrinha, azul-metálico, era conduzida pelo irmão mais velho, Domingos Mata. Entrando pelo largo, a toda a
velocidade, a carrinha pusera uma roda dentro dum charco que explodira em gotas castanhas e pesadas. Para a roda sair do
charco, o motor tinha-se posto a roncar. Conceição Mata, sua mulher, colocara as mãos nos ouvidos. Os dois garotos que
dormiam encostados à janela acordaram. A tia Dilecta, sentada no banco de trás, com a testa junto ao vidro, entorpecida no
meio de mercadorias, também começou a despertar. Quando a carrinha baixou o ronco, e o solavanco parou, lá dentro todos
pareceram mais altos, incluindo os garotos João e Aloísio. Mas não foi na direcção dessa primeira carrinha, uma Mercedes-
Benz de idade avançada, que as crianças do bairro se precipitaram. Nem sequer na direcção da segunda.
Essa era vermelha, fechada, reparada de fresco, e sobre ela a poeira trabalhava mais. Mesmo assim, reconhecia-se à
distância entre todas, não só pela cor e pela forma, mas sobretudo porque tinha pintada no seu bojo a efígie do irmão mais
novo dos Mata, Janina Mata King, o cantor. A efígie estava justaposta a uma guitarra, e por baixo, em letras pretas, sobre
pinceladas amarelas dispostas em arco, podia ler-se Black Power, como se fosse uma caricatura de qualquer coisa distante e
passada, um cromo descolado dum álbum velho que de súbito se desgarra e reaparece solto, com uma vitalidade reforçada. O
volume escuro da efígie, que deveria corresponder à cabeleira de Janina Mata King, pegava com o B de Black e o R de
Power, formando uma espécie de lábio. Entre esse lábio e a bainha inferior do arco amarelo, duas pinceladas sugeriam as
feições em alto contraste do cantor, e de entre os seus dentes e os seus lábios, espalhando-se pela carrinha inteira, saíam
claves de sol e colcheias com a vaga forma de machados. Era uma carrinha extraordinária. Ao contrário da azul-metálica, a
carrinha vermelho-pó tinha parado em terreno seco, carregada de objectos onde se acomodavam várias pessoas, todas elas
entorpecidas pela viagem. Lá dentro vinham Heitor Filho, o condutor, sua mulher, Claudina Mata, bem como Heitor Pai, seu
pai, a mãe de sua mulher, Germana Mata, e ainda as duas filhas, Sissi e Belisa, que continuavam a dormir a sono solto, apesar
da travagem. Mas fora a carrinha cinzenta, uma Mitsubishi metalizada, conduzida pelo rapaz de preto, aquela que os garotos
do bairro haviam cercado. Eles sabiam. Esperavam-no. Quando a carrinha parou de vez, faiscando ao sol, os garotos tinham
gritado, desvairados de pressa — «Olhem, olhem, chegou o Antonino Mata!»

Sim, tinha chegado.

Antonino Mata, de camisa preta toda aberta, tirando o boné, preto também, havia escancarado a carrinha, mostrando-se por
inteiro no vão da porta. Mas nem havia conseguido fazer-se escutar.
As crianças, apinhadas rente à terceira carrinha, em altos gritos, tinham-se posto a pedir — «Pringles! Pringles!» Nesse
momento, o rapaz de preto já tinha em frente do peito um braçado de pacotes que havia começado a atirar, dois a dois e três a
três. Treinados em apanhar objectos no ar, os garotos saltavam de tal forma que nenhuma caixa caía ao chão, e ainda nem
todos os pacotes estavam distribuídos, já eles comiam as lamelas de polme de batata, com barulho de roedores que estivessem
acossados pela pressa. «Pringles!» — gritaram mais. Antonino voltou-se para trás, e tomando os restantes pacotes, atirou-os
de igual modo pelo ar, mas as crianças, de ocupadas que tinham as mãos, aparavam-nas com a cabeça, como futebolistas, e
muitas embalagens espalharam-se pelo chão, amachucando-se e enterrando-se no pó. Entretanto, algumas mulheres possantes
tinham saído dos vãos das portas, demasiado estreitas para as suas ancas, e avançaram para as carrinhas, rodeando as crianças
que disputavam as caixas caídas, e uma delas, passando-lhes por cima e pontapeando-as, ergueu os braços e bradou com
satisfação — «Chegaram os Mata! Oh, mundo! Contem depressa...» Como os Mata, dentro das carrinhas, parecessem
levedados pelo calor da viagem, a mulher alegre disse logo de seguida — «Não falem, já sabemos de tudo. Em Lisboa
aconteceram maravilhas. Vimos tudo na televisão...»
Felicia Mata, a mãe dos quatro filhos Mata, debruçou-se na janela, abraçou os próprios seios, deixou que o peito subisse e
inchasse como um pneumático, e por fim gritou, com voz de vitória — «Nem imaginam, minhas amigas... O Janina ficou logo
lá... Adoraram ele... No mundo não há outro igual. A gente voltou sem palavras para contar... Foi tudo muito formidável...»
Felicia tinha-se debruçado para fora da carrinha, a alegria cantava na sua voz.
Uma outra daquelas matronas, roçando-se na viatura empoeirada, quis saber — «E Janina, não volta mais?»
A vitória conteve-se durante dois segundos no peito da mãe do cantor. Mas logo se desatou — «Isso agora só ele sabe. Nós
sabemos que fomos levá-lo, entregá-lo à sua sorte. Mas se volta ou não para a gente, isso agora a gente não sabe... Ficou lá
com o seu irmão».
«Nossa Senhora!» — disse a mulher mais forte. «E o outro teu filho, o Gabriel, também canta?» A mulher nem esperou pela
resposta, virou as costas, começando a dançar. Era uma possante matrona mas desarticulava-se pelo pescoço e pela cintura
como se fosse feita de peças rotativas. Virou-se de costas, depois de frente, sempre a mover-se e a dançar, os braços por cima
da cabeça. Ainda a dançar, disse — «Possas, que vocês só fazem cantores. Possas...»
Felicia Mata, de peito em riste, ria com gosto. A sua voz tinha ficado mais grave, mais ondulada e de veludo por causa do
sucesso do filho, reconhecido ali por todos os que saíam das portas do Bairro dos Espelhos para verem os Mata.
Completamente debruçada para fora da carrinha, quase cantou — «Não, esse não canta. O Gaby ficou só para amparar seu
irmão. Sempre foram unha com carne, como vocês bem sabem...»
Dentro da terceira carrinha, para além de Antonino e de Felicia Mata, viajavam também Emanuel, Cirino e Quirino, os três
filhos de Antonino, e sumida entre caixas de papelão e embrulhos, sentava-se a mulher mais velha de todas, Ana Mata. Essa
encontrava-se na janela oposta à da sua filha Felicia, e foi para lá que se dirigiu uma outra mulher, pequena, mais ou menos da
idade de Ana Mata, também ela oriunda da Ilha de Santiago. Coberta de roupa, apesar do calor de Agosto que estoirava nas
paredes baixas, a mulher velha e magra, tão velha e tão magra quanto a outra, tinha-se dirigido para a janela onde se
encontrava a avó dos Mata, havia colocado a mão no gume do vidro completamente descido, e tinha perguntado na sua língua
— «Tu estás feliz, Ana Mata?» Se a carrinha cinzenta arrancasse, a patrícia iria com ela. A outra, de sorridente que estava,
nem respondia.
«Estás mesmo muito feliz?»
As duas mulheres, muito magras, muito velhas e muito escuras, olhavam-se, a rir uma para a outra. As carrinhas, paradas.
«Que pergunta a tua...» — respondeu por fim Ana Mata, também na sua língua. «O que queres? Já o meu pai, como tu sabes,
tinha aquela voz, os meus irmãos tinham aquela voz, os meus dois filhos homens, todos eles tiveram aquela voz. Já todos
desapareceram, e agora a voz deles, todos juntos, está na garganta do meu neto Janina... Janina ressuscitou todos eles...» Ana
Mata fechou os olhos para avaliar a felicidade. O sol batia de chapa — «E perguntas-me tu se estou feliz. Ih! Que pergunta a
tua, mulher...»
«Pois sim, tu estás muito feliz...»
«Pudera não! Muito, muito feliz, querida mana. Quando o Janina canta, canta toda a minha família homem. Assim que ele
começa a afinar, todo o homem da minha família se põe a cantar com ele. Eu às vezes digo que ele não é o dono daquilo. Que
a voz dele pertence a muitos mais, mas ele não quer saber. Canta como se aquilo fosse só dele...» — Era Ana Mata a colocar
um pauzito na engrenagem da imensa felicidade. A chamar uma pequena imperfeição para a felicidade poder rolar à vontade.
Tudo dito na sua língua.
«Isso não faz mal nenhum, Ana Mata. Olha, se tu és feliz, eu sou feliz também. O nosso povo...» — Ainda tinha dito a mulher
velha agarrada ao vidro, as duas mãos fincadas no gume. «O nosso povo é também...»
Mas aí Domingos Mata, o filho mais velho de Felícia, o que conduzia a primeira carrinha, parada além do charco,
impacientou-se — «Vamos ou não vamos, gente?»
«Vamos».
Os motores em ponto morto começaram a arrancar, a poeira pôs-se de novo a subir e as rodas a deslizarem. As mulheres
todas juntas, as matronas e as magras, incluindo a muito magra e muito velha, unidas sob o impacte das boas novidades, no
meio do pedaço de terra poeirenta que ligava as habitações umas às outras, tinham começado a dançar. A carne das mulheres
tremia dentro da poeira. Era como se a terra quente se alegrasse. As crianças, essas, ainda comiam as bolachas de batata,
gritando — «Pringles! Pringles!» Até que as três carrinhas, virando costas ao Bairro dos Espelhos e ao passado recente ali
vivido, deixaram o pó e os solavancos e entraram na estrada de asfalto, pondo-se a correr na direcção de casa.

Sim, as três carrinhas dos Mata tinham corrido, velozes.

A vermelha no meio das outras duas, como se estivesse guardada por elas, as três em fila, deslizando rápidas. A glória
concentrada no andamento das carrinhas. O campo em redor, desmazelado, sarapintado aqui e além por montes de entulho,
precisava da sua passagem. A glória na vida, na acção. Uma vez alcançada por alguém no seio duma família, ela pode
alimentar várias gerações para trás e para diante, conferindo-lhes um sentido de que, de outro modo, estaria carecida. Por fim,
as três carrinhas empoeiradas aproximaram-se da longa sombra da casa como se fosse a de um antigo transporte terrestre,
parado. Um longo comboio de janelas a aprofundar a sombra. Melancólica, por vezes, ao cair da tarde. Mas naquele instante,
os três veículos em fila, rente ao cômoro peludo de pasto, transformavam aquela fita de terra sombria numa nesga de
apaziguante repouso. «Chegámos» — tinha dito Domingos, como se fosse preciso ser pronunciado para se saber.
«Chegámos!» — disse Felícia Mata, com a voz grave cada vez mais aveludada. «Caramba, agora vamos desentorpecer as
pernas...» Começando a apear-se com dificuldade, à sombra das palmeiras.
Pois graças a Deus que o Gaby tinha ficado com o irmão mais novo. Graças a Deus que o Coliseu em peso tinha aplaudido
Janina, mal ele havia terminado aquela primeira frase — «Atapetando o mar, atapetando o mar, com meu lenço de assoar...»
E graças a Deus que viviam ali, naquela boa casa que tinham diante de si, onde, além de haver correntes de água permanente
em três locais distintos, existiam para cima de dez tomadas por onde se oferecia dia e noite a corrente eléctrica que florescia
em luz, movimento, aquecimento, ventilação, refrigeração, som e imagens. Felizmente. A vitória de Janina sobre o palco, a
vitória dos Mata sobre aquela casa. Aliás, Felícia Mata tinha a ideia de que uma coisa era consequência da outra, e pondo de
parte as relações encadeadas do tempo, ela até nem saberia dizer qual delas viera primeiro — se aquela boa casa de pedra e
cal, se a voz de Janina. Tudo o que sabia era agradecer, porque as duas tinham chegado.
«Graças a Deus!»
Também Heitor Pai descia muito devagar, pela mão de Heitor Filho. Só depois os outros iriam descer. Uns atrás dos outros,
desentalavam-se das grandes caixas que continham o mundo da técnica, da electrónica e da informática, do mais moderno e do
mais condensado. Objectos que vinham da Coreia, do Japão, dos Estados Unidos da América, nem se sabia de onde vinham.
Peças oriundas dos mais diversos países, que provinham de lugares opostos e se enganchavam no ar, para poupar tempo,
maravilhosas máquinas provenientes de toda a parte. Para a pessoa simplificar, poderia até designá-las por coisas
maravilhosas, filhas do mundo inteiro. Pois ali vinham elas. As coisas. Do interior das carrinhas, saíam fogões, assadores,
berbequins, aspiradores, televisores, jogos nintendo e game-boy para as crianças, objectos de música para gente de todas as
idades, acompanhados de seus processos mágicos. E os Mata ali estavam a fazê-los descer, uns atrás dos outros, com a alma
cheia de alegria, falando alto, diante das quarenta janelas, a maior parte delas abauladas e partidas, ervadas, à sombra das
onze palmeiras onde os pássaros, acordados, zuniam e chilreavam. Mas apenas seis janelas, seis, calafetadas e pintadas, a
respectiva parcela de telhado e algumas empenas dos antigos pavilhões, no meio da restante Fábrica de Conservas Leandro,
eram a sua casa. A casa dos Mata. À qual eles mesmos haviam acrescentado os cómodos necessários.
«Ah! Finalmente...» — disse pela décima vez Felícia Mata, esticando os braços lentos onde havia pousado a glória. Uma
mulher de cinquenta e cinco anos, a descer duma carrinha Mitsubishi, muito feliz, muito lenta.

Mas a velha Ana Mata, que viajara aprisionada entre os caixotes do neto Antonino, tinha saltado de pulo para o chão, e
apesar de fazer pequenos passos como se estivesse travada, movia-se com velocidade. Ainda a filha Felícia se
desenvencilhava dos sapatos, e já Ana Mata se dirigia em seu passo miúdo, sua perna torta e leve, na direcção do portão, com
a pequena malinha de mão escancarada, procurando a grande chave entre lenços de papel. Tinha-a encontrado, mas na
realidade não chegaria a servir-se dela. Ana Mata ainda a introduzira na fechadura e ainda a rodara, e logo tinha voltado para
trás, anunciando com altos ais que o portão se encontrava aberto.
«Aberto?» — Não podia ser.
Domingos largou uma caixa que transportava ao ombro, de um salto atingiu o portão, ficou em frente das duas meias portas
mal encostadas, parado, a olhar para os batentes desunidos, e só depois fez um sinal de silêncio na direcção dos Mata que
entretanto se aproximavam, e pontapeando uma espécie de talha quebrada que por ali havia, esgaravatou no solo e dele retirou
uma faca.
Em menos de nada, o filho mais velho de Felícia Mata arregaçou as mangas, cuspiu nas mãos, uniu a faca à anca e avançou
para dentro do pátio, como se estivesse no meio dum incerto descampado, de onde poderiam vir perigos até da atmosfera.
Domingos inspeccionava o pátio em todas as direcções, movendo-se às arrecuas, por entre os pavilhões da fábrica.
Inspeccionava os ângulos laterais, as portas das diversas moradas, o buraco aberto na base da grande chaminé vermelha, a
porta esventrada da antiga casa da salga, outras dependências, e nisso demorou uns minutos largos e trepidantes. Só depois
voltou ao portão, dizendo que o caminho se encontrava livre. Afinal, não havia rasto de ninguém. Restava-lhe examinar a
aldraba e a fechadura. E ali estava a corda de arame destrancada, ali estava o trinco retirado e a tramela lassa. Sim, tinha sido
de empurrão. Na sua frente, Ana Mata agora na posse da chave, ainda incrédula, mostrava-a para nada — «Ai, ai! O que terão
roubado?»
Ainda desconfiadas, as seis mulheres Mata, em grupo, seguidas pelas crianças, atravessaram o pátio, com a estranheza de
quem entra num espaço violado. Com cuidado, percorreram todos os cantos, esperando encontrar distúrbios e
desaparecimentos. Mas Domingos tinha razão. Ali estava tudo em sossego, tudo intacto. Púcaros, roupas, cadeiras
empilháveis, espreguiçadeiras, assadores, vasilhas de água, e até os ecrãs de dois televisores permaneciam tranquilos, sob o
telheiro, à espera de serem ligados. Nada de nada. Em parte alguma havia vestígios de assalto. Tudo normal como antes. Só os
dois cães ganiam e rebolavam-se, cheirando os pés das donas, o cão de guarda gemendo como um pequeno rato, a caniche
querendo desenvencilhar-se da pesada corrente de cão de guarda. Os múltiplos recipientes dos cães completamente vazios,
depois daqueles dias. Não, não tinham roubado nada. O próprio Domingos Mata, depois de ter dado várias voltas pelas
divisões desactivadas, apoquentado, acabou por perder a paciência e expor a sua teoria. Não se enganava. Afinal tinha sido a
avó, ela própria, quem havia deixado o portão aberto antes de saírem. E acontecia porque Ana Mata mantinha o vício de
querer ser a mãe de todos. De ser ela a fechar, ser ela a abrir, ser ela a dirigir, quando já nem sabia obedecer quanto mais
mandar. Pois aquela tinha sido a última vez que a avó Ana Mata se encarregara de dar volta à chave antes de partirem, a
última em que lhe teria sido permitido aproximar-se do portão, antes das outras pessoas, ao regressarem de qualquer parte. E
Domingos Mata, dizia a última vez, a última vez, em tom definitivo, enquanto carregava caixas de electrodomésticos e
ferramentas finas, transformando o pátio numa espécie de doca de atracagem do progresso electrónico condensado. Fosse
como fosse, o susto tinha sido muito forte e sem motivo. Um sobressalto para nada. Agora seria só atirarem-se aos duches e
depois espalhar o jantar e servirem-se dele em plena luz do dia. Um jantar calmo, servido à vontade, depois do êxito de Janina
e da boa viagem de regresso. Um belo jantar.

Mas não aconteceria assim.

Conceição era a mulher de Domingos, e Claudina Mata, a mulher de Heitor Filho. Duas jovens mulheres deveriam ser como
duas mãos, deveriam lavar-se uma à outra, antes de ambas, unidas, enxaguarem o rosto de cada uma outra. Ao entrarem no
pátio, Conceição encarregou-se das crianças mais pequenas. A mulher de Heitor começou a dobrar as roupas que estavam
duras e estorricadas do sol. Apanhava-as, sacudia-as e mergulhava-as dentro do cesto de plástico. Tinha de dobrar devagar,
porque havia peças que pareciam de ferro, depois de quatro dias de estendal, sob o calor mais intenso do ano. Transpirada,
Claudina Mata sacudia e puxava, esticava, acamava. A dado momento, porém, tinha-se imobilizado, começando a gritar —
«Heitor, ó Heitor!» Mas foi o primo, Domingos Mata, quem primeiro se aproximou, e com a faca. Não eram necessárias mais
palavras. Num abrir fechar de olhos, Domingos tinha percebido que havia sido encontrada a explicação para o caso do portão
aberto. A explicação ali estava. No meio do estendal, meio encoberta pelos lençóis, que a mulher de Heitor ainda segurava ao
alto, incapaz de descer os braços, encontrava-se, sentada numa cadeira, uma rapariga branca.
Domingos tinha-se colocado, ele e a faca, entre a rapariga e Claudina. SO depois chegaria Heitor, seguido de Antonino e
das mulheres que também acudiam. Sim, era verdade, uma rapariga branca estava sentada no meio do estendal, a olhar para
eles, a rir para eles, sem dizer nada. E os Mata também olhavam para a rapariga, sem pronunciarem uma palavra, fulminados
pela surpresa. Emudecidos. Só Heitor Pai que demorava a chegar, arrastando-se nas canadianas, ainda de longe, perguntava
— «Apanharam-no? Vocês apanharam-no?» Sonhando com a presença dum verdadeiro ladrão. De resto, todos calados.
Ninguém estava preparado para aquele impacte. Naquela pessoa branca que acabavam de encontrar, havia alguma coisa que
não sabiam se era trágica se cómica, mas cujo sentido se tornava urgente deslindar. Por certo alguma coisa ainda indefinida
que vinha interceptar o caminho do sucesso que os Mata, naquele fim-de-semana, haviam alcançado. Coisa porventura cómica.
Tinham pensado.

Sim, num primeiro momento, o achado fora tão surpreendente que o cómico surgira colado à glória. Não por certo para a
inverter ou aniquilar, apenas para a diminuir. Talvez só para a ameaçar. O cómico era aquela coisa intrusa que ali estava,
aquela coisa esbranquiçada, dobrada sobre si mesma, de olhos espantados e lábios entreabertos, a sorrir ou a rir mesmo, um
riso defensivo, próprio de quem fora surpreendido durante o início dum crime, ou pelo menos duma maldade. Aquela pessoa
encolhida, numa posição insólita, agarrada aos seus pertences, parecendo ao mesmo tempo indefesa e ameaçadora,
entrincheirada entre cordas de roupa. Mas o cómico deflagrava sobretudo porque havia um elemento contrário. Era Claudina
Mata. Agora que Heitor a segurava pelos braços, tinha sido tomada por um acesso incontrolável de pequenos gritos, enquanto
a coisa continuava a rir. A coisa, sentada na cadeira de plástico, com um saco a tiracolo ajoujado sobre os joelhos redondos,
muito unidos, o pescoço estreito muito estreito, os cabelos curtos muito despenteados, a olhar para os Mata. A rir. O cómico a
progredir, a ganhar terreno naquele recinto onde apenas deveria vir desembocar, naquele dia, o perfume do sucesso.
Domingos já tinha recolhido a faca, mas era ele quem liderava não só a surpresa como também o interrogatório, perguntando,
sem cessar, quem era e o que estava a fazer ali aquela pessoa, amalhada atrás do estendal.

Felicia, porém, sobrepôs-se ao filho. Com a voz da glória intacta, a voz muito alta, projectada de longe para o local onde se
encontrava Milene, Felicia perguntava — «Diga, moça, diga. Quem é você?» E para que ela compreendesse a pergunta, tinha
avançado um passo. E foi aí que reparou como a cara da moça estava tisnada. Felicia abriu os dois braços, aproximou-se mais
— «Oh! Você está toda tisnada. Você tem um problema? Que problema tem você?»
Os pés de Milene e a zona das pernas que a saia muito curta deixava ver na posição de sentada, bem como as sandálias,
estavam cobertas de poeira. A roupa parecia ter sido molhada e enxuta no corpo.
«Você não pode falar?»
«Por onde andou? Diga lá. Você tem as pernas todas sujas, moça...»
Felicia olhava para as irmãs, Dilecta e Germana, as três estupefactas a observarem a rapariga branca — «Coitada, manas,
ela não pode falar... Calma, Domingos, olha que ela não pode falar...»

Mas Milene disse que sim, que podia, e para demonstrar que era verdade, tinha começado a balbuciar palavras na direcção
daquela dezena e meia de pessoas que a olhavam insistentemente, e também ela reconhecia aqueles a quem a sua família
chamava de terceira leva e a quem haviam alugado ou emprestado uma parte da Fábrica Velha. Eram aquelas as pessoas que
afinal ela procurava desde manhã. Mas uma coisa seria procurar e encontrar pessoas, e outra era ser encontrada, quando ela
mesma havia desistido de ser achada fosse por quem fosse, até pelos próprios tios. Agora ali estava, diante de tanta gente, sem
conseguir pensar no que tinha para dizer. Aliás, sem ter nada para dizer. Como se os dias da desordem quisessem continuar a
tecer a sua vida, encontrava-se naquela posição incómoda, não a falar calmamente com uma ou duas pessoas mas diante de
quinze ou vinte que a olhavam como se fosse uma larva a quem quisessem expulsar com o piparote de um dedo. Sim, eles
estavam surpreendidos, mas ela não estava menos. Os Mata agora aproximavam-se um pouco mais. Com cautela. Felicia, um
tanto inclinada na direcção de Milene, alegrou-se — «Olha, pode falar, a moça pode falar...» Solícita, inclinada para a frente,
na direcção de Milene. «Você me diga, moça. Porque está aqui? Você sabe quem somos nós? Você sabe?»
Sim, também sabia. Era muito simples, eles formavam a terceira leva, a terceira vaga, e estavam ali para guardar a Fábrica
Velha, para brunir o diamante, escondê-lo, guardá-lo, chocá-lo no tempo, multiplicá-lo por mil. Ela sabia, mas não ia dizer
nem uma coisa nem outra.
«Então quem somos? Quem somos?»
Nesse momento, já Felícia Mata se encontrava perto de Milene. Aliás, no meio de todos os outros, estarrecidos e parados,
Felícia avançava em sua direcção, com a finura e a astúcia de quem tem de apanhar com os dedos nus um gato acossado —
«Quem? Quem somos?»
Milene olhava alternadamente, ora para Felícia ora para os Mata, unidos, formando um cerco entre ela, a parede e os panos,
e sabia que o nome deles, os da terceira leva ou terceira vaga, era muito curto, muito simples, muito fácil de pronunciar, para
aí uma sílaba ou duas, mas naquele momento não se lembrava. O mesmo iria acontecer quando chegassem os tios, de quem
também não iria conseguir esconder-se e com quem não iria conseguir conversar. Dentro da sua cabeça, sentia uma nuvem
espiralada, um carrossel de dados, detalhes próximos e longínquos, todos misturados, de onde não conseguia extorquir os
fundamentos, diante daqueles rostos colocados à sua volta, esperando pelas suas palavras, sem lhes responder, e achou que
talvez pudesse ser rápida. Às vezes ultrapassava a nuvem em forma de carrossel girando, assim como na visão dum olho de
peixe, circular, onde tudo era próximo e equidistante, e saía da nuvem, rompendo-a com velocidade. Até o primo João Paulo,
que a conhecia melhor do que ninguém, lhe dava esse conselho. Que se treinasse em ser veloz, em não pensar no que ia dizer,
nem no efeito que produzia, mas que se treinasse em dizer tudo, duma só vez, muito rápido, a correr, a correr, para não haver
intervalo entre o pensamento e os lábios. Ora, naquele momento, aquelas pessoas tinham-na encontrado e estavam até a
demonstrar uma infinita paciência com ela. Então porque não iria ser rápida? — Para aquelas criaturas, uma delas munida de
faca, todas ali reunidas à sua volta, aquele tempo durante o qual ela não sabia o que dizer, deveria estar a parecer um pesadelo
interminável. Todos os Mata, dispostos em semicírculo, incluindo as crianças, se mantinham unidos pela direcção do olhar
que sobre ela faziam incidir, uma fileira de olhares simultâneos que a fixavam ao chão. Aprisionada por tantos olhos, e uma
faca escondida, Milene não se movia.
Mas o rapaz de camisa preta, protegendo umas crianças que se lhe agarravam às calças, deu um passo em frente. Inclinou-se
para ela — «Esta moça não é estúpida, está mas é muito chocada...» E aproximando-se cada vez mais, perguntou ainda —
«Porque está você assim, em estado do choque?»
«Porquê?»
Enquanto o rapaz de preto a examinava de perto, Milene deixou a expressão estado de choque retinir dentro da sua cabeça e
experimentou uma espécie de satisfação por ouvir, uma e outra vez, aquela pessoa discorrer a seu respeito. Pois sim, até
poderia ser isso, deveria estar em estado de choque. Meu Deus, eu estou mas é em estado de choque. Se calhar em estado de
choque, desde há muito tempo, desde que nasci... E Milene sorria, naquele momento, sentindo um grande reconhecimento por
essa expressão que as pessoas da terceira vaga lhe ofereciam, sem ela esperar, pois isso poderia explicar muito ou mesmo
tudo na sua vida. Sim, naquele momento não havia tempo para pensar sobre o passado, mas pelo menos em relação àquele
instante, aquela deveria ser a expressão adequada. Possivelmente deveria encontra-se em estado de choque. Essa ideia
parecia-lhe boa, era razoável, pelo menos conduzia-a a um bom lugar. Como se pela ajuda da expressão estado de choque,
estado de choque, pudesse agora agitar alguma coisa que havia estado congelada na sua cabeça, e em torno da qual tudo o
resto girava como em torno do eixo duma varinha mágica, Milene começou a contar com velocidade.

Começou a contar como se encontrava pacificamente em casa, a ver Os Salteadores da Arca Perdida, ao mesmo tempo que
ouvia um disco velho dos Simple Minds, e como de repente havia ficado a saber, sem mais nem menos, que a avó Regina tinha
morrido. Contou como na família só ela se encontrava em casa, e como todos os tios e primos haviam saído de Valmares para
locais que ela não tinha sabido identificar. O que então tinha feito, como havia passado quatro horas dentro da Igreja de São
Francisco. Contou tudo isso a grande velocidade, sem desviar os olhos dos Mata. Só depois explicou como a avó Regina
Leandro ali tinha vindo desfalecer, em cima dos portais da fábrica na noite de quinta-feira anterior. E por fim, tinha dito —
«Eu não sei, não falei com a avó Regina, mas acho que ela queria entrar aqui para pensar no seu passado. Sinceramente, eu
acho...»
«Entrar onde?» — perguntou Felicia Mata, sem relacionar os portais da fábrica com os portais daquela fábrica.
«Aqui, dentro da Fábrica Velha» — disse Milene.
As três irmãs examinaram-se entre si, sem entenderem muito bem. Como Milene tivesse suspendido aquela súmula trágica, e
continuasse sentada, Felícia, muito incrédula, quis saber mais — «Quer dizer que essa mulher, de quem você fala, veio cair
ali, em cima dos nossos portais? Continua lá, moça, continua para ver se a gente te entende.»
Agitando-se na cadeira e apertando o saco contra si, Milene confessou — «Pois o problema é esse. É que ela morreu e eu
não sei explicar por que razão morreu...» Confessou, olhando para os Mata, como se a cara daquela gente fosse uma vasta
paisagem a que pedia demência. E os Mata completamente curvados para ela, a tentarem decifrar o que ouviam, como se
tivessem encontrado um oráculo do outro mundo, ali oferecido. Felicia inclinou-se diante do rosto de Milene. Estendeu-lhe a
mão.
«Um momento... Explica lá. Tu estás aqui, e és neta da Dona Regina Leandro e estás a dizer que a Dona Regina faleceu...
Vamos por partes... Então porque estás aqui?»
«Vim ver se alguém me podia explicar o que aconteceu à avó Regina» — respondeu Milene, a rapariga branca.
Aí os Mata desataram a rir. Domingos riu também e disse, muito alto, resumindo o momento cómico que ensombrava a
abundância e a satisfação merecida daquela família — «Pronto, está tudo explicado. Ela não bate bem da bola, está aqui só a
dizer loucuras, e uma pessoa a perder o seu tempo a ouvi-las, com tudo aquilo que está por fazer... Você devia mas era
telefonar à nossa senhoria, minha mãe, e contar-lhe que veio ter aqui, a nossa casa, uma filha ou uma neta dela. Quem sabe
quem ela é? Se calhar nem lhe é nada...»
Milene apercebeu-se do desencontro.
«Não vale a pena telefonar, ela não atende ninguém. Já disse que faleceu...»
À medida que Milene insistia nas palavras que pronunciava, mais elas surgiam finas, sem volume, debilitando-lhes o
sentido. Até faziam suspeitar que ela mesma não soubesse muito bem se a pessoa de quem falava se encontrava morta, se viva.
Claudina não queria acreditar. Também ela ria, achando graça à forma como a rapariga ali encontrada reagia e interpretava
a vida — «Já viram um morto atender telefones? Já?» Era tudo muito cómico. Naquela situação, os Mata até desejariam
respeitar a pessoa toda amarrotada que ali estava sentada numa das cadeiras do pátio, mas não conseguiam. Os Mata tinham
começado a rir abertamente, alegremente, curvando-se cada um para seu lado. Os Mata riam.
Riam sem parar, como se ainda se encontrassem no Coliseu dos Recreios, e o êxito contivesse sua parte de comicidade. Só
que a situação vivida naquele instante era completamente distinta. Aquela moça encontrava-se bastante atarantada e perdida, o
que era muito triste, mas eles, os Mata, não podiam sair do seu lugar de felicidade, conquistado duramente, não podiam nem
queriam, e assim aquele caso não lhes interessava nada, e por isso distanciavam-se daquela pessoa, rindo uns para os outros.
E Milene, ouvindo-os rir, ria também.

Mas logo em seguida, sem se levantar da cadeira, mantendo-se colada àquele tampo que a abraçava e envolvia de plástico,
Milene abriu o saco, mexeu lá dentro, procurou um lenço de papel que passou pela cara e pelo pescoço, e só depois começou
a chorar. Havia tanto tempo que não chorava. Pensando bem, não chorava desde que o primo João Paulo se fora embora.
Havia tanto tempo. Porque não haveria de chorar agora, diante das pessoas da terceira leva, se tinha tanta vontade? Pois
chorava. Chorava calada para dentro do lenço aberto, cobrindo com ele os olhos de têmpora a têmpora, e enxugando-se. O
papel a principio tisnou-se e depois rasgou-se ao meio. Ela substitui-o por outro que logo ficou molhado e se rasgou também.
Chorava como uma criança para dentro dos pedaços de papel que se lhe desfaziam nos dedos e de que tinha dificuldade em se
desembaraçar, enrolando os farrapos molhados uns nos outros. Vendo isso, as mulheres Mata começaram a aproximar-se. Fez-
se silêncio dentro do pátio. O choro de Milene não era ruidoso mas fundia alguma coisa em volta. Fundia o cómico e
curiosamente reforçava a glória. Para os Mata, naquele momento, a tristeza era um assunto dos outros, uma excrescência
estranha ali naquela morada, alguma coisa que não tinha nada a ver com eles, embora cada um soubesse que toda a pessoa que
se sente feliz e assiste à desgraça dos outros tem o irrecusável dever de se mostrar caridosa para com esses. Nessa linha de
ideias, Felicia Mata viu de longe, com a rápida lógica dos vencedores. Era assim — Alguém estava a sofrer de um grave
problema e vinha acoitar-se em sua casa, para os Mata ajudarem, e com isso, talvez eles mesmos, bons hospedeiros, até
ganhassem mais direito e mais força, aumentando o seu momento de felicidade. Felicia Mata, de cócoras, entre sua irmã
Germana e sua irmã Dilecta, mesmo em frente da rapariga a quem oferecia lenços de assoar, invadida de paciência, dirigia-lhe
palavras, com a voz aveludada.
«E então moça? E então? Não passou pela cabeça de nenhum de nós que tivesse acontecido uma coisa dessas... Afinal você
até se parece com a tua família. Nem reparámos. E depois a tua avó é a nossa senhoria. Conta lá, moça, conta tudo como foi. A
gente não se ri, a gente só escuta...»

E Milene, precipitando-se de novo sobre as palavras, repetiu a mesma história, desenvolvendo um detalhe aqui, outro
detalhe ali, instigada pelas perguntas, articulando dados daqueles últimos dias como se os recolhesse do fundo dum longínquo
lago. Referindo o que havia acontecido sem tempo nem espaço, invocando a ausência das pessoas da sua família espalhadas
por diferentes estâncias turísticas da Terra, e o receio que tinha delas quando fosse do seu regresso. E a eles lhes parecia que
ela falava não de uma realidade mas dum sonho dormido, e por isso todos se sentiam, ao ouvi-la, estranhamente fora do
mundo, da coerência e das próprias leis da vida, ainda impelidos que estavam pelo fulgor daquela plateia onde os Mata
haviam ocupado a terceira fila, no Coliseu dos Recreios, com o Janina a dizer, naquele palco sem fim, Atapetando o mar,
atapetando o mar vermelho, com meu lenço de estrangeiro... Impelidos pelo furor das palmas que haviam ribombado desde a
plateia às galerias, e que todos ainda guardavam dentro dos ouvidos, bem como pelo regresso feliz, tão feliz que nem haviam
dado pela presença do Clio branco, estacionado na berma, mesmo em frente. E como a tragédia e a felicidade se encontravam
face a face, e a tragédia não pertencesse aos Mata, fosse sobretudo daquela rapariga que nem sabia contar, e que por certo
estaria a criar invenções — pois não cabia na cabeça de ninguém que uma pessoa, no estado em que ela descrevia a avó
Regina, pudesse fugir de dentro duma ambulância para vir ali ter, sem ajuda de ninguém — Felicia, como se a sua voz cálida
terminasse agora por uma aguda pinça que a prendesse para sempre ao portal das coisas altas, dizia — «Que pena, moça, você
está mesmo muito chocada...» Dizia a olhar para a cara de Milene e a duvidar do que ela dizia. Todos os Mata sentiam o
mesmo. Por certo que a rapariga falava de um sonho da sua própria cabeça, enquanto Felicia repetia — «Deves estar muito
chocada, muito chocada... Como se chama mesmo o teu nome?»

Mas um grupo de gente tem a sua lógica própria de defesa e ataque, como um cardume, como um bando. Misterioso o
cardume e o bando, pelo menos tanto quanto cada unidade que o faz. Domingos, que já tinha recomeçado a tarefa de recolher e
desembrulhar as caixas, construindo uma pirâmide de papéis e plásticos a um canto, perdeu a cabeça e pôs-se a gritar junto ao
portão — «Antonino, vai lá às Bombas ver o que se passa, para pormos isto tudo em pratos limpos. Vai lá rápido...»
O rapaz de preto abotoou a camisa e dirigiu-se para a carrinha cinzenta. Os três filhos pequenos seguiram-no unidos num
cacho, atropelando-se e travando as pernas do pai. As três crianças atadas no banco de trás como se fossem demorar muito.
Mas nem demorariam meia hora sequer. Logo voltaram, descendo de novo os quatro, juntos no mesmo cacho. Então Antonino
desembaraçou-se dos filhos e confirmou tudo — Era verdade. Na Estação de Serviço ninguém sabia contar muito bem, nem
sequer sabiam de quem se tratava, à excepção dum rapaz que já fora da sua hora de trabalho se tinha prontificado a falar. E a
acreditar nas suas palavras, o que aquela rapariga branca havia contado passara-se exactamente como ela dizia. De facto,
parecia que Dona Regina Leandro havia sido encontrada ali mesmo, nos portais por onde eles a todo o momento passavam.
Tinha sido encontrada por uns ciclistas amadores quando faziam uns treinos na manhã cedo do dia feriado. Os ciclistas é que
tinham arrombado o portão, pensando que se tratasse de pessoa da casa. Só depois a Guarda Nacional Republicana havia sido
chamada. Pelos ciclistas. A partir daí, ninguém sabia contar mais nada, os acontecimentos mudavam de mãos e de lugar.
«Confirma-se tudo...»
Disse Antonino Mata, diante do portão aberto, retirando o boné da cabeça. Os olhos postos no portal. Todos com os olhos
postos no portal. Os Mata haviam deixado Milene sentada lá atrás, e agora não olhavam para ela, mas para o portão, não
conseguindo desviar os sentidos daquela pedra onde a senhoria tinha vindo acabar os seus dias.
«Confirma-se?»

Olhava-se através das duas meias portas abertas de par em par, e para além delas viam-se ao longe uns montes suaves
sarapintados de branco, paredes entre o arvoredo distante, que ali chegavam como uma mistura fosca, e depois o terreno
próximo, descampado, amarelo e ruivo, onde uns restos de árvore, sem nome nem género, pareciam puas de osso
abandonadas, tudo isso unido, sob a cor avermelhada do Poente. Em primeiro plano, a estrada esburacada e logo, aos pés, o
portal. Ninguém dizia nada. A morte estava ali, o seu sinal estava dentro e estava fora, o portal quebrando, como uma navalha
de dois gumes, os momentos vividos para diante e para trás. E estava a moça branca, que se mantinha na retaguarda, entre o
estendal, a sua mensageira. Agora os Mata olhavam para Milene, surpreendidos e aterrados como se ela fosse a primeira letra
duma frase comprida ainda por ler. Foram-na buscar. E como a noite caía, quente e mosquitosa, e ninguém acendia as luzes, os
Mata juntaram-se diante da portão, intrigados. A própria Ana Mata andava dum lado para o outro, estonteada, sem saber o que
pensar, empurrando o seu cadeirão de plástico. Como era possível? Todos perguntavam. Sim, como era possível que no
mesmo dia em que haviam saído de Lisboa, passando pela Ponte, com o sol a incidir tão forte na água do rio, com um brilho
tão cintilante quanto o sol de Cabo Verde a faiscar nas suas ilhas, sim, como era possível que nesse mesmo dia de
pensamentos maravilhosos, ao regressarem, tivessem encontrado a notícia da senhoria morta em cima dos seus portais? O que
fazer? O que pensar? Parecia um luto. A Dilecta até lhe passou pela ideia ir buscar um terço e pôr-se ali a rezar pai-nossos e
ave-marias pela senhoria morta, como se tudo aquilo acabasse de acontecer.
Mas Felícia não o permitiu.
À medida que o escuro se aproximava, mais os Mata pareciam paralisados, vagueando todos dum lado para o outro,
atarantados e mudos, mais ela via claro. Tudo simples e claro, para Felícia Mata. Porque era preciso ser inteligente em
relação a tudo nesta vida. Também em relação à morte. E dando ordens e contra-ordens, no meio do pátio, ia pedindo a todos
que retomassem o seu juízo, porque a morte era um processo da vida, da vida ressuscitada que Deus nos dava, e não um
fantasma escuro que apenas desfizesse a pessoa em dois bocados. Quem tinha inventado isso?
E sobre o facto de ali ter vindo desfalecer Dona Regina, também as coisas se lhe apresentavam bastante claras. Na sua
interpretação, a senhoria gostava dos Mata, e à falta da sua própria família, ausente em parte incerta, a pessoa tinha procurado
um canto de gente honrada para se acoitar. Afinal, Dona Regina Leandro sabia muito bem que os Mata nunca tinham faltado
aos compromissos, pagando dez contos certos por aquele espaço, no início de cada mês, e ainda por cima capinando as ervas,
aparando as telhas que caíam, afugentando os bichos e evitando os vadios de ali se instalarem. Dona Regina sabia, ela é que
os tinha convidado a morar ali. No início, era ela própria quem vinha receber a renda e dar uma volta pelo casario. Para
vigiar. A última vez que viera fora mais ou menos há dois anos atrás. Felícia ainda estava a vê-la a descer do táxi, depois a
aproximar-se do portão, com o cabelo pintado de lilás, óculos de sol, toda empoada de bege e castanho na face. Claro que se
lembrava.
Dona Regina tinha vindo verificar o arrumo da fábrica e falar um bocado. Direita, cheia de anéis, a falar com Ana Mata, a
falar com todas elas. Lembrava-se muito bem. Tinham tomado uma bebida fresca exactamente naquele lugar. Ainda estava a
vê-la, a apontar com a bengala para uns papéis soltos que andavam pelo chão, e depois a despedir-se, a encaminhar-se de
novo para o táxi que tinha ficado à espera. E também estava a vê-la abalar pela estrada fora, esticada no assento como uma
rainha mãe, no primeiro dia em que tinham falado. Isso fora antes, aproximadamente cinco anos atrás. Todos se lembravam.
Sim, cinco anos atrás, os Mata a lancharem por acaso debaixo daquelas palmeiras e Dona Regina a falar com eles e a pôr
pouca condição para ocuparem a casa. A exigência dos Mata também fora só uma — ligar de imediato a luz e a água. Sim,
lembravam-se dessa tarde de Junho. Uma tarde clara. Dona Regina, mais nova, num outro táxi, e eles no cômoro, com o
negócio fechado. O cabelo de Dona Regina, mais farto, a brilhar através da janela do táxi, e o táxi a deslizar pela estrada
abaixo. Lembravam-se. Grande dia, grande tarde. Como iriam agora manchar essas lembranças com rezas, rosários e coisas
semelhantes? — «Xô, xô, ideias tristes, vão-se embora...»
«Vão, vão...»
Felicia a dizer às coisas tristes da noite que se fossem embora, com a voz da fortaleza trémula e ressumbrosa. Diante do
portão. Todos diante do portão. Por entre as duas meias portas abertas, via-se o Clio em frente, parqueado na berma. Via-se o
escuro a fechar-se sobre as hastes das palmeiras. Ouvia-se o choro fino de Ana Mata, sentada na sua poltrona de plástico
privativa, conversando sozinha com a ausência da sua senhoria. Suspirando alto, a ponto de a filha lhe dizer — «Pare,
senhora, pare com isso. Porque chora? Veja televisão, distraia-se...» Mas de repente, no meio das palavras repletas de
sensatez que Felicia espalhava em torno de si, uma ideia importante havia-lhe surgido. A ideia estava a enxugar-lhe a
humidade das mãos e da cara, a rasgar-lhe os olhos para o lado, de enorme que era a ideia. O seu peito encheu-se de ar, a sua
voz ondulou. Felicia perguntou — «Moça, quem tem você lá em casa à tua espera?»
Milene dirigia-se para o Clio estacionado em frente. Os Mata a olharem para o portão e para ela.
«Ninguém?»
«E sendo assim onde vais tu ficar esta noite?» — perguntou ainda Felicia, falando muito alto, para Milene. E no meio do
escuro que descia em volta, a ideia de Felicia concretizou-se — «Pois olha, se não tens ninguém lá na tua casa, nós, os Mata,
somos gente cristão. Tu ficas com a gente, que tua avó, lá onde estiver, vai agradecer. Tu vais ali lavar-te, tu comes com a
gente, que deves estar rebentando de fome, e tu dormes no quarto dos meus filhos artistas, e amanhã logo se verá, porque você,
moça, não tem condição de voltar, assim como está, tão chocada. Eu acho até que você deve ser muito esperta, muito
inteligente, o que você está é chocada com a tua situação triste...»
Os Mata a olharem para o portão, escancarado diante da planície escura onde o próprio carro branco desaparecia como se
fosse terra. E Felicia a ordenar — «Conceição e Claudina, vão lá pôr de lavado aquela cama pequenininha do quarto dos
artistas. Vão as duas, para ser mais rápido. Depressa, que se faz tarde para o jantar. Vamos reagir. Aqui ninguém chora. Hoje
é um dia demasiado especial para alguém chorar. Ouviu, minha mãe? Pegue na sua cautcha e sente-se nela, mas lá para longe,
junto dos seus rios, e entretanto pare de dar ais. Vamos lá, vamos lá...» — Felicia a bater as palmas. As palmas que ela sabia
tão bem usar em outras ocasiões, e agora serviam para afugentar sorumbatismo, cortar tristezas, enxotar lembrança podre. —
«Xô, xô, má lembrança. Fique quieta, lembrança boa...»

E mais não dizia, porque seria indecente, mas ao fazer toda a sua gente girar pelo pátio, Felicia sentia vontade de cantar a
canção ganhadora de Janina, com sua voz de mulher, mãe de cantor, uma bela voz de contralto. Se não ficasse mal, ela até
cantaria para Dona Regina, em memória da lembrança boa que tinha deixado aos Mata, para além daquela própria casa. Ela
cantaria a canção Atapetando o Mar adaptada ao estilo de igreja no momento do Glória ao Pai. Só não cantaria porque sua
própria família não iria entender que ela cantasse numa hora de luto. Em vez do canto, Felícia ordenava, movendo-se dum
lado para o outro — «Rápido, rápido... Para a moça dormir, na cama pequenininha, tudo de lavado, vamos lá, vamos lá...»
«Quer ou não quer dormir, na nossa casa? Quer ou não quer?»
Sim, Milene queria. A nossa prima não tinha chegado sequer a entrar na sombra escura da rua. Sentia fome e sede, medo e
cansaço. Junto aos tornozelos, alguma coisa a bicava, como se tivesse sido mordida por insectos e palhas, espinhos do pasto.
A noite parecia-lhe uma casa de dimensões infinitas onde se iria perder, e ali dentro alguém lhe tinha dado a chave para
aqueles dias, talvez até lhe tivesse dado a chave para toda a sua vida. Ou melhor dizendo, quando menos esperava, as palavras
dos outros tinham vindo ter com ela, carregadas de sentido e explicavam tudo — «Sim, eu em estado de choque desde sexta-
feira, eu em estado de choque desde há muitos anos, desde o tempo em que João Paulo me levava no barco do Guinote e
começava a dizer aquelas palavras. Já aí eu estava em estado de choque. Uma pessoa em estado de choque, sozinha,
cansada, a conduzir o seu carro no meio da noite? Não pode ser...» E eles olhavam para ela e ela olhava para eles. Tinha
voltado para trás.
E foi assim que Milene, naquela noite, dezoito de Agosto, pernoitou num dos pavilhões do diamante. Pequena porção de
vontade a decidir o rumo da sua vida. Mas não foi verdade que os Mata a tivessem encontrado longe do Clio, a caminho do
Bairro dos Espelhos, rodeada de poeira, sem saco nem chapéu. Muito menos que os Mata a tivessem atraído e levado consigo,
por cálculo, entalada entre caixas de supermercado, gente transpirada e outros haveres. Milene é que se escondeu no estendal,
ela é que aceitou o convite, ela é que voltou para o interior do pátio, em seu livre arbítrio perfeito.
Mas tudo isso só o saberíamos mais tarde.
II
Por seu livre arbítrio, de que faria parte também o seu cansaço.

Na verdade, tudo o que Milene desejava, depois de ter sido encontrada atrás do estendal, e de a noite ter caído sobre Mar
de Prainhas, era poder dormir naquela cama a que se referia a mulher de voz forte, a que parecia ter conhecido, de perto, a
pessoa da avó Regina. Era poder pernoitar entre pessoas que partilhavam com ela da mesma perplexidade sobre o sucedido,
dormir entre gente que ainda continuava a falar directamente com a avó Regina, como acontecia com Ana Mata, sentada na sua
poltrona de plástico, a um canto do pátio. Permanecer entre aquelas pessoas emudecidas, a quererem que as crianças ficassem
mudas também. Perto daquele rapaz que a princípio tinha aparecido com uma faca, mas agora o que fazia era apenas olhar
para o portão, bastante desarmado. Aquele outro, vestido de preto, que lhe tinha dito que ela se encontrava em estado de
choque e andava de um lado para o outro, à procura de qualquer coisa que não achava. Milene, a nossa prima Milene, ao
aceitar o convite de Felicia, como ela mesma haveria de dizer, sentira-se reconfortada. Naquela noite, pelo menos, não iria
pensar nos agentes da GNR, nem nos telefonemas para os tios, nem nas ruas por onde havia deambulado, nem no formato
daquilo, nem no longo discurso do padre, nem na mulher dos buchos quadrados, nem nas flores a moverem-se dentro do carro
preto, nem sequer na pesquisa que tinha feito ao longo daquele mesmo dia, até ter encontrado as pessoas da terceira vaga que a
estavam acolhendo com serenidade. Milene entregou-se sem qualquer resistência. Nem era necessário falar.

Comparado com o caminho de regresso, no escuro, tudo lhe parecia benévolo.

A própria cama que lhe ofereciam para passar a noite fazia parte duma espécie de mobiliário de estúdio de gravação onde
havia de tudo um pouco, e tinha aspecto de ser extraordinariamente cómoda. Objectos de música, teclas, cordas e tambores,
diversos montes de discos junto dos aparelhos, que os deveriam fazer tocar, faziam-lhe bem. Tão bem que naquele momento
não queria pensar em mais nada. Toda a sua tarefa concreta consistia em procurar alojar-se na dita cama pequenininha,
entalada entre duas camas maiores, no centro daquele recinto transformado num bazar vermelho. A certa altura, Claudina Mata
tinha-se afastado levando atrás de si Sissi e Belisa, as duas adolescentes de cabelos frisados. Depois surgira Conceição. As
quatro a olharem para ela, a desaparecerem na porta. A encostarem a porta do pavilhão, devagar, quase sem rumor. Por
último, surgira Felicia a dizer que ela poderia ficar com a lâmpada acesa, a que se encontrava ao lado da cama pequenininha,
entalada entre pilhas de discos. Um relativo silêncio havia descido. Apenas lá fora ainda se ouvia Ana Mata chorar a partir da
casinha parda, e um dos seus netos reclamar, porque se ouvia. Felicia a impor silêncio — «Xô, tristeza e discussão, vamos lá,
vamos lá calar...» Depois de uma manhã atravessando o campo de morraça, e de uma tarde inteira escondida no meio dum
estendal, não precisava de falar, sentia-se reconfortada. Naquela situação, era bom não voltar para casa. Então, Milene fechou
os olhos e lembrou-se de cenas boas, passadas ali, no interior do diamante, imediatamente a seguir à desistência da segunda
vaga.

Não podia nem queria precisar o tempo, mas em relação ao espaço, tinha acontecido exactamente naquele recinto, quando a
fábrica ainda era conhecida por Fábrica de Conservas Leandro 1908. Havia sido um período formidável. Com o rosto e as
pernas lavadas em água fria, a luz do pátio a entrar pela cortina, Milene lembrava-se do acampamento que ali se havia
montado, ao longo daqueles três meses a que João Paulo costumava chamar o melhor Verão das nossas vidas. A tia Gininha
ainda solteira, de longos cabelos compridos, sempre acompanhada por um namorado. E os três primos inseparáveis correndo
por todo aquele espaço aberto, ali mesmo, diante da chaminé alta. Milene lembrava-se como se vivesse de novo a boa vida
que ali se passara. Mas não precisava de lembrar-se de mais nada.
Não precisava de lembrar-se dos cinco operários da segunda vaga a estenderem a almofada com as chaves em cima,
pousadas no pequeno côncavo a meio do veludo, a dizerem palavras próprias das devoluções, nesse ano de oitenta e cinco.
Não precisava de recordar aquelas frases que nós próprios haveríamos de repetir até à exaustão, com a boca torta, para nos
rirmos deles, os operários — «Já chega de traição. Devolvemos esta bodega da mesma forma como nos foi entregue... Aqui
deixámos os nossos ossos para nada... Aqui estão as chaves, em cima do mesmo travesseiro, que é para não dizerem que
ficámos com o que quer que fosse desta grande fraude...» Sim, Milene não precisava de se lembrar dessas palavras, nem dos
cinco operários a olharem em frente para parte incerta, tensos, como se nos fossem matar. O elemento feminino do grupo, três
milímetros de cabelo, ainda tinha acrescentado — «É só ladroagem, por toda a parte, é só ladroagem...» Aí a avó Regina tinha
permanecido estática. Toda a família, estática, como se disposta a ser lapidada sem se mover. Era isso a dignidade. Os tacões
de cunha da avó Regina unidos um contra o outro, como se fosse um general. Os lábios cerrados como se cosidos, as
pálpebras altas ainda mais altas. A ouvir — «É só ladroagem...» Os quatro homens a voltarem as costas como quem assina a
capitulação de uma batalha. Depois os quatro tinham ido embora, e a mulher de cabeça quase escanhoada, a mais tensa dos
cinco, a mais revoltada, a dada altura, pusera-se a insultar a Humanidade toda, a Humanidade ladra. Os cantos da sua boca
caídos, como se os lábios tivessem aprendido com a meia lua. E eles ainda a apanharem os últimos pertences, uns papéis e
umas pastas, e a partirem dali sobre umas motorizadas ruidosas, roncando pela estrada fora. A mulher a conduzir uma
motoreta, com a saia pela virilha, o capacete posto na grelha. A cabeça quase rapada, entregue ao vento como se fosse um
polícia. Os cinco a desaparecerem na estrada. Até ao fim da estrada. — Sim, fora um momento forte, mas naquela
circunstância, Milene não precisava de reviver tudo isso. Deitada na cama pequenininha, lembrava-se apenas do acampamento
e das manhãs em que acordávamos cedo para tomarmos o barco do Guinote e nos fazermos à Ria.

No entanto, Milene, como todos nós, tinha assistido à entrega.

Aliás, na altura, Milene não conseguira conter-se, e havia perguntado muito alto — «Oh, pá! Que grande porrada!
Ganhámos?»
A tia Ângela Margarida, que levava a avó Regina pelo braço, ao longo dos pavilhões, ambas desviando com a ponta do pé
caixotes que haviam ficado espalhados, ainda com cheiro a peixe e sal, latas amontoadas na zona da cadeia do vazio,
almotolias caídas, restos de azeite entornado, tinha virado os olhos contra ela para que se calasse. Todos calados. Mas João
Paulo tinha respondido — «Com todos a olharem para nós, como se fossem dez Rasputines, já todos perdemos...» Os olhos de
toda a família, incluindo a tia Gininha, postos por sua vez em João Paulo, como esferas blindadas. E no meio do silêncio, dos
pontapés nas caixas desarrumadas e do som dos próprios passos, nós três tínhamos ficado para trás para espirrarmos as
gargalhadas que não conseguíamos conter. As paredes estavam pintadas de indecências e dizeres terríveis que havia sido
necessário mandar raspar, para se viver tranquilo. A erva do cômoro, sobre a qual se consumara um homicídio, havia sido
ceifada. Os pavilhões haviam sido varridos e baldeados. Porque, depois da saída da segunda vaga, nós próprios iríamos
ocupar aquele grande espaço, para aí vivermos o Verão de oitenta e cinco, o melhor Verão das nossas vidas, como se disse.
Isso sim, Milene podia recordar. Três meses inteiros ali dentro, acampados. Mas a nós mesmos, o tio Afonso nunca tinha
chegado a chamar de vaga.
A ideia das vagas só haveria de surgir com a terceira, que afinal era aquela, constituída pelas pessoas que a tinham
recolhido e a haviam deitado na cama pequenininha, onde agora podia estender-se à vontade sem pensar em nada, a não ser
nos bons momentos da vida. Como, por exemplo, os três primos sentados no barco do Guinote, em oitenta e cinco, a
deslizarem nos esteiros da Ria, e Milene, ela mesma, protegida do sol pela camisa do primo, a segurar no balde. Nessa altura,
João Paulo ainda tinha as pernas esgalgadas dum adolescente, mas já dizia frases aterradoras — «Meninas, será que a luz é
mesmo o génio do fogo?» Aí Milene levantava-se e o barco ameaçava adornar — «Não me digam que a água vai pegar fogo,
não me digam...»
Mas depois ele equilibrava o barco, e tudo se recompunha. Ele colocava-a à proa. Fazia-a repor o chapéu de palha e
estendia-lhe a camisa por cima. João Paulo jurava que nós três seríamos inseparáveis — «Nós três sempre juntos, sempre
unidos, nunca separados, até ao fim da vida. Ouviram?» A paz nascia sobre a água da Ria. Era nisso que ela pensava, mas
para tanto, não precisava de pronunciar paz, não precisava de dizer ria. Separadas das palavras, essas realidades existiam.
Naquela noite, dezoito de Agosto, Milene era uma rapariga vestida com uma camisa emprestada, envolta em pensamentos
bons, só os bons, deitada na cama pequenininha, e depois a dormir a sono solto até acordar na manhã seguinte, com o
movimento das pessoas da terceira vaga.

Milene também não precisava de pronunciar as palavras madrugada boa. A realidade ali estava.

Pois muito antes de o Sol romper, já Felícia Mata tinha começado a deslocar-se pelo pátio escuro, espalhando vivacidade e
energia. Os cães que a seguiam, também eles cheios de energia, brincavam, abanando-se e mordendo-se, partilhando com ela o
leme da vida. Mal tinha começado a clarear, Felícia pegara numa vassoura, e com forte ruído de varetas pusera-se a empurrar
os papéis para um canto, a varrer desde o centro do recinto até ao portal para onde, na noite anterior, todos tinham olhado com
terror. Percebia-se — Era a vida alegre e venturosa que a mãe de Janina Mata King estava a viver, e por ela não permitiria
que nada neste mundo, nem o corpo morto duma senhoria, viesse interceptar a sua boa rota. Com a força dos braços
musculados, Felícia arrastara dois vasos de sardinheira enfezada para junto dos fustes do portão. Os vasos arrastados, por
entre caixotes, haviam produzido o ruído dum vagão de mercadorias, mas ninguém parecia estar acordado, nem Ana Mata, no
interior da casinha parda. Felícia empurrando os vasos, o cão e a caniche agitando-se, com uma actividade extraordinária, os
três anunciando a manhã, como se a noite anterior não tivesse existido. E passando por perto do quarto dos filhos artistas,
Felícia chamou — «Dona Milene, você está acordada?»
Depois, bem colocada, quase rente aos cortinados vermelhos, tinha voltado a chamar — «Olha, se não estás acordada,
acorda. Tenho uma coisa importante para te dizer...»

Em seguida, Felícia tinha-se aproximado de uma das janelas do pavilhão em frente, chamando muito alto — «Domingos?
Levanta-te...»
Domingos Mata não demoraria a atravessar o pátio, com um molho de roupa no braço, logo desaparecendo atrás duma
parede. Do outro lado do telheiro, uma torneira abrira-se e a água de um duche pusera-se a escorrer pelo pavimento abaixo.
Domingos já regressava, lavado e vestido, a caminho da sua casa, quando Felícia anunciou — «Despacha-te, Domingos, és tu
quem vai levar a moça à família...» Mas nesse momento, o segundo filho, Antonino Mata, apareceu no vão duma outra janela, e
depois no vão duma outra porta. Sorumbático, diante da manhã nascente, também ele atravessou o pátio, com o seu molho de
roupa no braço. Quando regressou do lugar de onde a água escorria, vinha vestido de preto como no dia anterior. Os dois
irmãos encontraram-se sob o telheiro, os dois de cabelos molhados. Felicia interceptou-os. Parecia dirigir-se de novo a
Domingos, mas no último instante mudou de rumo, fechou os olhos e apontou para Antonino — «Pensando bem, és tu e não
Domingos quem a vai levar». Felícia apontava para o segundo filho, com os olhos fechados, como se a decisão viesse dum
outro lugar ou de uma outra pessoa, e ela só tivesse de levantar o dedo para transmitir a ordem que lhe era superior — «Vais
tu porque és mais rápido para perceber e tens mais palavras para falar. Não discutas, és tu mesmo quem vai entregar a pessoa
aos seus, e acabou...» Já todos reunidos em volta da mesa. Ninguém falava. Felicia continuou a explicar a razão da escolha,
sempre com o dedo apontado para Antonino — «Não tem discussão. Está decidido e vou explicar porquê. Domingos é mais
velho, mas Antonino é mais rápido para perceber e para explicar. Ora quem for entregar a pessoa tem de explicar ao mesmo
tempo vários assuntos. Tem de ser muito rápido...» E como os filhos fingissem nem a ouvir, ela mesma descreveu a natureza
dos assuntos — «Muitos assuntos... Quem for tem de explicar que a gente não sabia de nada, que a rapariga é que veio aqui
ter, que nós não a fomos buscar. Além disso, tem de dizer que só oferecemos à moça a nossa cama e a nossa mesa, porque ela
estava muito precisada. Dizer também que ela dormiu no quarto do Janina. No quarto de Janina Mata King. Isso também se tem
de dizer...» Felicia ainda de olhos fechados e o dedo apontado — «O problema é que tudo isto é tão igual à verdade que pode
parecer mentira. Em assuntos de defesa, a verdade é muito perigosa. Facilmente a verdade pode parecer falsidade, muito mais
do que a própria mentira. Assim, aquele que for levar a moça tem de ter muito cuidado com a verdade. Nesse ponto, o Heitor
também podia ir, mas não vai porque é cunhado, é muito menos família...»
Os três homens a comerem em pé. Antonino a comer em pé e a olhar para o relógio, como se à revelia daquela conversa o
mostrador estivesse a mandar-lhe recados. Felícia com o dedo em riste — «E tu sempre a olhar para o relógio, sempre a olhar
para o relógio. Não vale a pena olhares tanto para aí, que não perdes nem ganhas nada...»
Antonino Mata olhava para o relógio.
Felicia, irritada — «Além disso, tu perdes uma hora, tu perdes duas horas, tu perdes três, tu perdes o que tens de perder.
Muito mais perdeu Nosso Senhor Jesus Cristo, que perdeu a vida pela Humanidade inteira, e só se queixou uma vez. E tu só
perdes quanto muito uma hora e meia. O que é esse tempo na vida duma pessoa?» Felicia, cheia de energia, andou pelo pátio e
gritou de novo, junto da janela vermelha, a voz emposta como se cantasse — «Moça? Dona Milene? Acordou? Olha aqui, meu
filho Antonino vai entregar você à sua família. Ele vai gostar muito de ir, não tenha problema com isso. Você não vai aparecer
aos teus tios sem companhia. O que iriam pensar?»
A cabeça de Felicia do lado de fora, junto ao cortinado — «Você não vai sozinha, que os Mata não permitem. Se você tem
medo de teus tios, você tem de ter alguém que diga como as coisas se passaram...» Felicia, grave, para dentro do cortinado —
«Levante-se, moça. Só tem de dizer a morada certa. De preferência, tio homem... Ouviu bem?» Lá fora, a carrinha azul-
metálica partia. No pátio, já só se encontrava Antonino. E Felicia baixou o dedo indicador, mas o tom de voz, esse, manteve-
se inalterado — «Tu nem perdes muito tempo. Muito mais perdeu Ele, sem soltar um gemido. Tu vais ver. A moça é lenta mas
já aí está...»
«Moça?» — chamou.

Antonino tinha-se posto a andar para diante e para trás. Enjaulado. Quando Milene finalmente apareceu ainda de cabelo
escorrendo água, para dar o exemplo concreto da pressa que o movia, atravessou o portão em grandes passadas na direcção
das palmeiras, sem lhe dirigir a palavra. Antonino tinha entrado na viatura cinzenta, sem se virar, e ela tinha entrado no Clio,
no outro lado da estrada. Mas enquanto a carrinha de Antonino já arrancava, o carro de Milene não se movia. Sem pressa,
Milene continuava a instalar-se sem ligar a chave, a ajustar o assento como se o carro não fosse seu, a procurar alguma coisa
sobre o tablier que lá não estivesse, e Antonino Mata, depois de esperar um tempo que por certo lhe parecera infinito, bradou
— «Eh! Você aí, moça parada. Você sabe mesmo guiar?»
A esse brado, ela tinha levantado a cabeça, mas nem mesmo assim rodava a chave da ignição. Então ele, arrancando
definitivamente, fez uma curva rápida e veio até junto do Clio onde ela continuava a arrumar o que quer que fosse. Finalmente,
à aproximação de Antonino, Milene tinha posto o carro em andamento. Já agora, o filho de Felícia Mata aproveitava para
alguns esclarecimentos. Os carros roncavam.
«Diga-me lá... Você vai à frente ou vai atrás?» — perguntou-lhe ele, consultando pela vigésima vez o relógio. A viatura
dela já a deslizar ao lado da carrinha. «E por onde é que se passa?»
«Pelas Bombas...» — respondeu Milene, também muito alto, ainda a ajustar-se no assento. «Depois toma-se a via rápida e
vai-se até ao cruzamento das Brisas...»
Ele não podia acreditar. Abanou a cabeça, surpreendido — «Isso é uma grande volta. Se formos pelo Bairro dos Espelhos,
num instante estamos lá...» E Antonino, apesar de tudo, um pouco mais confortado — pois afinal a moça parecia saber
conduzir — sempre a gritar, recomendou-lhe que o seguisse e que prestasse atenção aos sinais. Mas depois retrocedeu. A
pressa impedia-o de organizar os actos — «Afinal onde é que eu a vou entregar?»
Milene começou a explicar que poderia ser no cruzamento, perto do Hotel Miramar, mais precisamente, na Estrada das
Brisas, Quilómetro 44. Disse rápido, para que a conversa terminasse rápido, como ele tanto queria. E também pelo facto de,
naquele momento, ela própria conseguir ser rápida. Rapidíssima. Mas ele ainda não se considerava suficientemente
informado, queria saber mais — «E quem está lá para receber você? Você sabe?»
«Alguém há-de estar».
A resposta era demasiado evasiva. Antonino, que já se encontrava de novo pronto para partir, voltou a sair da carrinha,
tomado de paciência, dirigindo-se-lhe pausadamente, como se explicasse um assunto muito importante a uma pessoa muito
estúpida. Uma lição metódica, condensada, para se despachar. Esbracejando bastante junto do Clio, para ela entender o
melhor possível, bradou — «Está a ouvir-me?» Sim, ela estava a ouvir. «Está mesmo?» Milene a olhar para ele, a vê-lo muito
bem. Via-o a ele, todo de preto, e a sombra dele espalhada no chão. Metia medo. Sim, estava mesmo a ouvi-lo — «Então é
assim, moça. Vamos entender-nos. Eu estou aqui para ir entregá-la às pessoas da sua família. Correcto? E você está aí para
não ir sozinha. Correcto? O que eu vou dizer, eu sei muito bem. Mas você, a pergunta que deve fazer a si mesma é se está ou
não está em estado de choque. E você está. Correcto? Então uma pessoa em estado de choque tem de procurar a casa dos seus
familiares. No seu caso, quando chegar junto deles, você diz-lhes simplesmente que a mãe deles morreu, sem você saber
porquê. Que você só foi chamada para ir reconhecer a pessoa. Depois, como eles não estavam, você tratou de tudo sozinha e
ficou nesse estado. E essa é a razão por que se foi abrigar na nossa casa. Compreende? De resto, você fica calada, e pronto,
você não tem mais nada a explicar. Acho eu... Então, onde vou entregá-la?»
Era como se ele não tivesse falado. Milene, remexendo ainda no conteúdo do seu tablier, tinha respondido — «No mesmo
lugar, ao Quilómetro 44...»
Não havia nada a fazer. Perante o inevitável, Antonino mostrava-se cheio de paciência. Impaciência paciente. Um fardo. O
branco dos olhos dele tinha-se sumido debaixo das pálpebras. Ela tinha visto. Ele tinha-lhe virado as costas — «Pois se é
assim, siga-me, se faz favor, vamos a direito. Sempre em frente, passando pelo Bairro dos Espelhos, para ser mais rápido».

Então Antonino Mata virou de novo a carrinha na direcção do Nascente, e ambas as viaturas entraram primeiro na estrada
de asfalto roto, depois na estrada de terra batida, e logo a massa rasteira da chapa de zinco surgiu por entre a nuvem de poeira
que se levantava do rodado. E aí ele reparou que Milene fechava os vidros e abrandava a marcha. Aliás, fazia bem abrandar,
pois ao atravessarem o largo cinzento do Bairro dos Espelhos, a carrinha de Antonino seria interceptada por dois homens que
saíam duma espécie de portais. Um deles, com um amplo chapéu na cabeça, tipo sombrero mexicano, tinha-se posto em frente
da carrinha, a rir, e aproximando-se demasiado, de braços abertos, como se estivesse disposto a ser atropelado, interrompeu a
corrida.
«Espera aí, diz-me cá. É verdade que vocês deixaram por lá o Janina cantor com o teu irmão Gabriel? E o Janina deixou
para sempre a Escola Secundária?»
Aquele encontro não constava do programa apressado do segundo filho de Felícia, mas mesmo assim, Antonino parou para
dizer que não podia conversar porque estava com muita pressa. E explicou que tinham encontrado a rapariga que ali vinha
atrás, abrigada lá em casa, e naquele momento, precisamente, ia ele entregá-la à família.
Os dois homens tinham-se posto a olhar na direcção de Milene. Carrinha e Clio, parados, continuavam a trabalhar, fazendo
girar, rente ao solo, pequenas espirais de poeira. A pressa de Antonino contrastava com a moleza daqueles dois homens que se
lhe dirigiam. Os dois diante da carrinha, travando-a — «Encontraste aquela mulher, lá na tua casa? E vais entregá-la? Pois se
eu fosse a ti não a entregava, não... E quem é ela?»
Antonino Mata tinha acelerado a explicação, dizendo que se tratava da neta de Dona Regina, a senhoria da fábrica, que por
sinal tinha ido falecer lá nos portais da casa onde viviam. Por isso mesmo ia com pressa, ia em missão. Então o homem do
sombrero, tomado duma súbita claridade, havia retirado o chapéu da cabeça e, colocando-o no pára-brisas da carrinha, gritou
— «Espera aí, homem, não andes mais!» E com uma mão em frente e outra no ar, como os antigos sinaleiros, barrou
ostensivamente a passagem, chamando alto pelo nome duma pessoa — «Flora, ó Flora! Vem cá». Acto contínuo, uma mulher
apareceu a uma porta, em robe branco de seda. A voz do homem sem chapéu tinha-se esganiçado — «Você sabe quem ali
vai?»
Deixando as abas do robe rojarem pelo pó, expectante, a mulher do robe começou a sair das imediações da porta.
«Imagina que vai ali a neta daquela pessoa que morreu sozinha e que não teve ninguém no enterro. A sogra do Presidente da
Câmara».
«Um momento» — disse a mulher, dirigindo-se apressadamente para o terreirão, tomando a direcção do Clio. Junto ao Clio.
Aí, a pessoa a quem chamavam Flora largou as abas da vestimenta, e apoiando as duas mãos no vidro, colou-se ao carro,
rondando-o. Examinou dum lado e de outro. A sua destreza era imensa. Flora estava conferindo a coincidência e não lhe
restavam dúvidas. Flora tinha a certeza, e a certeza estava a pô-la possessa. Meu Deus, o que ali ia, o que ali estava. Dizia,
batendo com as duas mãos no vidro, deixando a bainha do robe entranhar-se de pó castanho do chão, enquanto encadeava
perguntas umas atrás das outras como se as tivesse preparado — «Abra o vidro, moça! É verdade que você a enterrou
sozinha? Que as suas tias estão todas a passar férias no Japão? Abra lá, para falarmos um bocado...» Milene, trancada, não
abria. «É verdade que a sua avó estava coberta de formigas? Se é verdade, não é nenhuma vergonha dizer, são tragédias que
acontecem a todos, nesta vida...»
Também os dois homens se tinham aproximado do Clio, como se já não interessasse para nada a pessoa de Antonino Mata.
Por sua vez, o filho de Felícia tinha descido da carrinha cinzenta, decidido a impedir o que estava a acontecer. «Vamos
entender-nos» — dizia Antonino. «Por mim, eu só fui encarregado de entregá-la. Depois de a entregar, vocês telefonam para
casa dela e ficam a saber como tudo se passou. Agora eu, que não tenho nada a ver com isso, estou cheio de pressa para
devolver a moça que foi achada. Está tudo explicado?».
Flora apertou alguns folhos do robe contra o peito e começou a rir — «Telefonar para onde? Não precisa, moço, já veio
tudo na revista d’ O Comércio de ontem. Dizia lá, em letras deste tamanho — Sogra do Presidente da Camara morre sozinha
e vai a enterrar sem a presença da família...» Disse Flora, batendo as mãos sobre o peito, de onde havia desaparecido a
protecção dos folhos. O robe aberto para os lados — «Eu li com estes que Deus me deu. O que não sabia é que tinha sido em
cima dos portais de vocês que isso tinha acontecido...» E virando-se de novo para Milene, gritou — «Destranque-se, moça,
abra o vidro. Como se chama mesmo você? Marlene? Não, isso mesmo, Milene Leandro. Exacto. Escreveram que foi você
quem contou tudo. Está lá escrito em letras mais pequenas — Presidente da Camara e sua Família, em viagem pelo Japão,
deixam enterrar parente próximo, sem assistência médica e sem família, o que está a escandalizar meio mundo... E diz que
foi Milene Leandro, exactamente, quem declarou. Japão ou China, não sei bem, pois quem escreveu também não sabia. Diz lá
mesmo que na Câmara também não sabiam. Ninguém sabia. Abra lá...»
Antonino encontrava-se rente ao vidro e não deixava Milene abri-lo. Era preciso arrancar. Mas aquela mulher mostrava-se
tão entusiasmada pela coincidência, que ele achou preferível dirigir-se aos homens, também eles colados ao carro —
«Compreendam. Não se pode falar muito com a moça, ela está em estado de choque. Tudo o que tenho a fazer é ir entregá-la.
Os jornais são o que são, e dizem muita mentira. Acho mesmo que não dizem outra coisa senão mentiras. Tudo o que lá se
conta nunca é igual à realidade... Agora fazem o favor de se tirar da frente?»
Ameaçou Antonino Mata, afastando aquelas pessoas, com alguma brutalidade. E subindo à carrinha, depois de retirar o
grande chapelão do pára-brisas e atirá-lo ao dono, começou a avançar, e logo a correr rapidamente pelo caminho de pó.
Milene seguia atrás, com os vidros fechados. Pelo retrovisor ainda se podia ver que Flora ficava lá ao fundo, envolvida no
vestuário branco, no meio daqueles dois homens e de mais alguns recém-chegados. Mas logo a poeira dos vidros e dos
espelhos se cruzou com a poeira que se levantava à passagem dos carros, e meio minuto depois, tudo era poeira, tanto os
reflexos quanto a realidade.

Então o percurso até Villa Regina seria curto.


A carrinha cinzenta atravessou um atalho arenoso onde o pó acalmava, tomou uma estrada feita de curva e contracurva rente
à qual casinhotos e casinhas de cães se assemelhavam, pias de água e pombais conviviam no lugar das bermas, estaleiros
encobriam telhados e caixas de papelão desfeitas serviam de passadeira entre caminhos e asfalto, e de súbito, sem aviso,
entrava-se na estrada principal. Antonino fez sinal de mudança de direcção com bastante antecedência, parou, pôs a mão fora
da janela, e só depois de esperar algum tempo, avançou pela estrada livre. Em seguida fizeram um quilómetro de estrada larga
e entraram na zona do Hotel Miramar, um bloco perpendicular atarraxado na terra como um farol de trânsito, no meio das vias.
Era ali. Virava-se à esquerda. Ele deu-lhe passagem e ela conduziu até à porta de casa. Na parede que separava as antigas
vivendas do arruamento, alguém havia pintado, em letras tortas, Km 44. Atrás da parede, coberta até ao meio por hera e vinha-
virgem, que em alguns lugares ameaçava subir ao telhado, lia-se Villa — Regina. Uma grande nogueira de folhas
encaracoladas, saindo do meio dum tufo de verdura, subia à altura das telhas. Para nascente, as vivendas dos anos cinquenta,
cobertas de marmorite, desbotavam-se. A poente, uma delas fora meio demolida para que o rio de asfalto passasse por perto,
e os seus escombros, à luz da manhã, apresentavam a forma de um ferro de engomar esventrado. Era como se ainda não se
tivesse saído do Bairro dos Espelhos. Como se a substância fosse diferente, mas o território mental fosse igual. Milene,
porém, só pensava no facto de ter voltado para casa. Ao contrário da noite anterior, sentia-se bem por voltar. No meio das
bermas secas, o verde do jardim, o seu microclima, parecia um paraíso. Fora ali, à sombra da nogueira, que no dia anterior,
antes de sair para a Praia Pequena, ela tinha sido assaltada pela ideia de ir pesquisar a vereda para contar aos tios. Não tinha
valido de nada. Finalmente, agora, aquele rapaz, todo de preto, já podia partir. Ali estava ele, apeado, em frente da carrinha, a
olhar para as horas. Ela mesma consultou o relógio — Eram oito e meia, ele nem tinha despendido muito tempo. Ao todo, ia
perder uns vinte minutos, quanto muito. Mas em vez de abalar para onde devia, Antonino estava a caminhar na sua direcção,
pedindo-lhe que chamasse por alguém para poder entregá-la.
«De preferência um homem, um dos seus tios» — disse ele.
Continuavam parados diante do portão de Villa Regina. Em redor tudo se encontrava como ela mesma havia deixado, o que
queria dizer que no interior da casa não estava ninguém com quem ele pudesse falar. Milene quis ser muito eficiente e muito
rápida, já bastava o que havia acontecido no Bairro dos Espelhos. Então disse — «Olhe, moço, ali dentro não está ninguém.
Mas também antes não estava, e não fazia mal. Vá você andando à sua vida, que eu vou para a minha casa».
Antonino impacientou-se. «Como é que eu vou à minha vida se tenho de entregá-la?» — Virou as costas como se precisasse
de se virar para compreender a realidade. Quando a encarou de novo, parecia desesperado. Um renque de acácias da vivenda
vizinha projectava uma sombra considerável pelo pavimento. Pondo a mão no boné, como quem acaba de tomar uma decisão
ou de ser vencido pela decisão de um outro, disse-lhe, em tom azedo — «Eu já suspeitava que você me viesse trazer a um sítio
onde ninguém estivesse. Diga-me — onde estão os seus familiares, para eu a entregar?»
Milene tinha começado a ficar preocupada com o rumo da conversa. Ainda pensou que, se de um salto entrasse em casa, e
se fechasse lá dentro, aquela situação ficaria resolvida, para bem dela e para bem daquele homem, mas a voz dele era mais
forte e prendia-a ao chão — «Não está a compreender que preciso de entregá-la? Pessoa a pessoa? Cara a cara?»
Sim, ela compreendia. E até não deixava de lhe ser agradável a ideia de chegar junto dos tios acompanhada por alguém,
sobretudo alguém que lhe havia dito que tudo aquilo só fora possível por ter ficado em estado de choque. E ela repetia
mentalmente a expressão estado de choque, a rir para ele, por agradecimento. Estava até a imaginar-se ali mesmo, dentro de
Villa Regina, os tios a regressarem, e ela a dizer-lhes — E eu, tios, em estado de choque total. Quanto àqueles dias
horríveis, só me lembro do Totus Tuus, da Caixa das Almas, e do Introibo ad Altarem Dei, não me lembro de mais nada...
Estava a imaginar, agradecida àquele rapaz para quem ria de contentamento, ainda que ele continuasse a responder-lhe
daquela maneira rude. Respondia-lhe com os braços na cintura, o relógio no pulso esquerdo, as agulhas do mostrador a
saltarem, todo ele à espera, como uma barra de ferro que tivesse resolvido não se mover do seu caminho. Sim, ela cedia.
Achava que seria perder ainda mais tempo, mas cedia. Não iria pôr-se ali a gritar com aquele moço, não iria utilizar as
palavras ordinárias que conhecia e que sabia usar bastante bem, nos momentos em que a apoquentavam de mais. Não seria o
caso. Devia-lhe muito. Estado de choque. Por isso cedia. Milene tinha dito — «Vamos então a casa da tia Gininha. Fica muito
longe, na Amurada...» Milene a sentir que era bom que ele desistisse, para cada um ir à sua vida.

Também a Antonino ainda lhe tinha passado pela cabeça largar a moça e partir. Com esse intento, ainda se dirigira para a
carrinha cinzenta, mas depois avistara-a rente ao Clio, de cabelo molhado, a rir para ele. Tinha a cara lavada e um chapéu
enfiado no braço, um saco pendurado ao pescoço. O pescoço estreito e os olhos dela a rirem para ele. Era aquela a moça que
tinham achado. O que deveria fazer? Atrás da moça estavam todos os recados de Felícia Mata — És tu quem a vai levar, para
explicares onde esteve a moça, como os Mata acolheram a moça, e principalmente como os Mata não tiveram nada a ver
com a tragédia de Dona Regina... E tudo o mais. Então não podia recuar no propósito. Tinha entrado de novo na carrinha,
tinha gritado — «Vamos a casa dessa sua tia. Você disse Quinta da Amurada?»
«Quinta da Amurada...» — certificou ela. «Sei bem onde é, posso ir na frente...»

Mas de novo ele tomou a dianteira, galgou a estrada larga por onde um rápido rio de trânsito àquela hora se deslocava com
pacto como um bicho de metal, e aí, tomando cuidados especiais, de braço levantado nas mudanças de direcção, seguiu o rumo
devido. Quando ela passou por ele, para indicar o caminho exacto, eram nove e dez. Regressar e não regressar, seriam dez e
muito. Ela quereria ter dito — Volte para trás, agora é dia claro, eu vou sozinha. Mas sabia que não era isso que ele
pretendia. Pelo contrário, quanto mais ele definia o objectivo que não atingia, mais lutava por ele e mais o objectivo se
avolumava. A isso também se chamava obstinação. Conhecia o processo, por João Paulo. Pelo retrovisor, ela via, ela sabia.
Milene começou a ter receio daquele mau humor acumulado, percebia a subida do humor, pela forma como ele conduzia, as
rodas da carrinha Mitsubishi rasando o seu carro, acelerando, como se empurrasse as rodas do Clio, até que finalmente ambos
abrandaram e estacionaram em frente da casa da tia Gininha. A tabuleta dourada dizia — Vivenda Dom. Silvestre. De um
pulo, ele desceu.
«É aqui? Toque lá...»
Para Milene repetia-se a cena de sexta-feira. Só não se repetia completamente porque desta vez o jardineiro não estava. A
rega automática aspergia rufos de água às golfadas intervaladas, a relva brilhava ao sol como se contivesse vidros dourados
no interior das fêveras, e a casa, baixa, cheia de cornijas e alpendres, tinha as portas trancadas. Amáveis linhas, amáveis
aberturas largas, oferecendo interiores espaçosos e amplos, ninhos de braços abertos para se repousar. Conhecia-a bem. Ali
era o sítio para se ler, além o sítio para a sesta, acolá a espreguiçadeira de pedra onde se poderia ouvir música ao luar.
Amável, amável. Mas ninguém estava. Tocaram. Ele próprio, Antonino Mata, retirou os óculos de sol e premiu a campainha.
Premiu com determinação, deixando lá ficar o dedo. O dedo de Antonino sobre o botão, que era dourado como a placa onde
estava o nome da vivenda, a pressionar, como se colado. Tocava, tocava. Não obtinha resposta.
«Afinal você sabia que não estava ninguém...» — disse ele, fora de si.
Milene encolheu ostensivamente os ombros.
Pare ele, fora como se uma seta o tivesse picado.
«Você não repita esse gesto. Você sabe que tenho de entregá-la. A quem mais posso entregá-la? A quem? Diga já...»

Milene viu o perigo. Confirmava-se que tinha sido uma verdadeira imprudência tê-lo trazido até ali. Encaminhou-se para a
portada branca em cujo umbral se lia Vivenda Dom. Silvestre e encostou-se. Não ia dizer nada. Imóvel, de braços cruzados.
Mas Antonino tinha virado a pala do boné para o lado — «Você não vai ficar aí, não. Nem que fosse a última coisa que eu
tivesse de fazer na minha vida. Você não me conhece. A bem ou a mal, eu vou entregá-la a alguém...» Consultou o relógio,
dando-lhe uma pancada no mostrador. «Vamos» — disse ele. «Agora você segue no seu carro e eu vou atrás, e você leva-me a
uma casa onde esteja uma pessoa que a receba. Você percebe o que eu estou a dizer?» Encostada à portada branca de neve,
agarrada às lamelas de madeira, Milene não tencionava sair dali. Ele aproximou-se mais, os olhos dele luzindo na cara
fechada. O branco dos olhos dele a engolir a parte escura. A sombra dele no chão metia medo. Ela compreendeu que não valia
a pena continuar a agarrar-se à porta. Ele estava a exigir-lhe que ela encontrasse alguém. Ele continuava a falar diante dela, e
ela só ouvia esse alguém, alguém. Francamente, a vida era muito estúpida. A mesma pessoa que lhe tinha oferecido palavras
tão justas, tão agarradas umas às outras, incluindo o estado de choque, era a mesma pessoa que lhe exigia alguém que não
existia no mundo. Calma, pensou para si. Retomaram os carros.

Ela à frente, no comando do Clio. Ele atrás.


Mas se tinha sido fácil entrar na Amurada, iria ser difícil sair. A Vivenda Dom. Silvestre integrava-se numa espécie de
paraíso feito de relva e casas luxuosas. Algumas delas tinham paredes de renda pura como se trazidas de templos da Ásia,
com piscinas cor de safira e esmeralda. Um domínio urbano perfeito. Por isso todas as ruas pareciam ser cegas a norte, todas
se encaminhavam para o mar. No interior daquela perfeição, Milene fazia voltas, vendo, pelo retrovisor do Clio, Antonino
seguir atrás, como se uma corda invisível tivesse amarrado, uma à outra, as duas viaturas, a carrinha cinzenta obediente a fazer
as mesmas voltas que ela fazia com o Clio. Porque lhe acontecia aquilo?
Milene parou. Os dois carros pararam. Ele saiu, pondo o relógio à vista, batendo com o polegar uma e outra vez no
mostrador, a perguntar se ela sabia o que era um labirinto. Porque a vida dele era um labirinto. A dizer-lhe que só lhe faltava
agora ela ter aparecido, naquela manhã, para o labirinto se fechar, com ele lá dentro. Tinham parado em frente dum paredão
que guardava a ribanceira do mar. Dali não se via a praia, só se via a água poderosa a fechar o horizonte, uma superfície lisa
onde o sol da manhã criava poalhas de oiro e prata. Ele não deveria ver nada. Tinha desabotoado a camisa até à cintura e tinha
dito — «Está a ver o tempo a passar, não está? É assim, agora vamos sair daqui e vamos direitos ao meu local de trabalho
para eu mostrar você, o meu encarregado ver você, eu poder explicar-lhe aquilo que ando a fazer, e ele riscar o meu dia, mas
compreender que é verdade o que eu digo. Está a entender?»
Quando dizia você, a voz dele produzia um arco agressivo de puro metal. Você.

A única saída era o percurso inverso.


Sim, tinham encontrado a saída e alcançado a estrada de volta, correndo de novo por ela, o Clio atrás, a carrinha cinzenta à
frente, até que Antonino se meteu por um areal bardado de sebes de rede, e lá no fundo, depois dos pinheiros, numa cova
imensa, haviam começado a surgir as fundações duma espécie de cidade, no meio do areal, uma cidade a partir de nada. De
nada, só o nada, diria João Paulo, o que era preciso demonstrar. Tudo saído do nada, para o nada, pensava ela, pela primeira
vez, sem que, no entanto, essa ideia atingisse a força da sua vida. Antonino Mata saltou da carrinha e gritou-lhe — «Fique aí,
aí bem à vista, para o encarregado ver que é verdade». E em tom de raiva, discutiu com ela — «Amanhã ou depois tenho os
meus filhos doentes. Como é que ele me vai dispensar?» A discutir com ela, como se nesse cenário futuro, ela já lhe tivesse
adoecido os filhos. Ele a ordenar — «Fique aí, saia do carro para se mostrar. Não entre no carro. Fora do carro. Olhe lá para
baixo, enquanto eu desço...»
«Olhe sempre, olhe sempre...»
Tinha-se posto a descer sem se virar. Quando se virou, ela estava em cima, no alto da cratera, no mesmo lugar. Ele descia,
começando a enterrar os ténis pretos, as calças pretas, as abas da camisa da mesma cor, abanando cada aba para seu lado, o
boné apontado para a frente, até que desapareceu e reapareceu no meio das fundações. O encarregado, ou quem quer que
fosse, falava com ele. Ambos consultavam o relógio. Ele fez-lhe um sinal lá de baixo, colocou um chapéu de ferro amarelo na
cabeça e confundiu-se com outros, também cobertos por chapéus amarelos. Ficou à espera. Ali ao lado, a carrinha dele até
estava de porta aberta. Mas ela não podia abalar. Via-o mover-se lá no fundo da terra, por cima duma placa de cimento,
misturado entre muitos. Não podia. Depois viu-o a conduzir um pequeno trólei que cirandava de um lado para o outro,
movendo-se entre tapumes, com o nome gravado de Bob Cat. Até quando iria durar tudo aquilo? Era meio-dia e meia hora.
Milene em pé, com o chapéu na cabeça, parada, para que o encarregado a visse, entretida a pensar, à procura de palavras para
explicar o que em breve teria de explicar, a imaginar os termos com que iria dirigir-se aos tios — Queridos tios, foi assim.
Foi assim que a avó desapareceu da minha vida... O sol intenso a passar-lhe por cima. Porém, a avó não desapareceu, ela
só está escondida... O sol ardente sobre as pernas nuas, as costas nuas, a roupa de praia com que tinha saído na manhã
anterior, antes de lhe ter dado aquela vontade de encontrar um sinal da passagem da avó pela vereda, para contar aos tios. E
afinal para nada. Ele tinha dito — Fique aí para se mostrar, para eles saberem que é verdade... Por isso, ela não sairia de
onde estava. Mas pensava que era altura de acontecer uma coisa boa, nem eram precisas duas. Só uma, só uma... E quando
estava a pensar nisso, Antonino finalmente regressou, gatinhando pela barreira acima, e disse-lhe, quase sem fôlego —
«Trabalhei durante hora e meia e o encarregado contou-me o dia todo. Disse que punha lá na folha a palavra nojo... O diabo
deve estar a dormir. Deve ter tomado um comprimido relaxante, dos fortes. Nojo...» E virando-se para aquela cratera em tons
de terra e cimento, desconforme, materiais amontoados por todo o lado, como se uma parte dele tivesse feito as pazes com ela,
acrescentou — «Sabe? Foi uma pena. Se não tivesse sido você, hoje, quem estava lá em cima daquela Liebherr era eu...» E
apontou para um engenho que naquele momento fazia girar lentamente o braço, entre a extremidade do estaleiro e o centro da
obra, depositando umas pranchas cinzentas no meio duma placa, em frente de uns homens parados. Muito lenta, a haste do
engenho a deslizar no céu. Depois, mais rápida. As outras hastes completamente paradas.
«Mas apareceu você...» — disse ele.
«De qualquer modo, agora tenho esta tarde livre para poder entregá-la em paz. Vamos...» — disse ainda.
«Diga lá o endereço de alguém a quem a possa devolver. Mesmo que seja longe, passa-se por uma bomba, e vamos...»
Mas antes de entrar outra vez na carrinha, ainda se virou. «Se você não tivesse aparecido...»
Antonino parado, no meio das ervas secas.
«Agora é assim... Estive a pensar. O melhor será levá-la à Câmara. Aí, se não estiver o seu tio, está uma pessoa qualquer
que o substitui. A pessoa que o substitui recebe-a, e pronto. Tudo em ordem, tudo correcto. Você fica com a pessoa que se
encarregará de a entregar a um familiar, e eu volto para casa com o assunto encerrado...»

Seguiam de novo cada um em seu carro. A carrinha à frente, o Clio atrás, ambos aos solavancos no piso de areia irregular.
Agora rodavam pela estrada à procura de um sítio onde pudessem parar para comer alguma coisa. Entraram num café com um
toldo vermelho avantajado, uma longa pestana projectando uma sombra funda. O café chamava-se Hollywood. À sombra do
toldo, Antonino parecia diferente. Estava distendido, livre, perante a perspectiva de ficar livre. Para encarar a luz procurou os
óculos de sol espelhados. Ela não lhe via os olhos. Ele também não procurava ser visto por ela. Quando colocaram dois
cachorros quentes com refrigerantes na mesa, ele estava de lado, fixado na fila interminável de carros. Comia, sem a olhar.
Havia nele o repouso de quem sabe estar a ponto de finalizar uma tarefa e já sente o alívio de ter cumprido o dever. Ainda por
cima, com uma dupla recompensa. O encarregado da obra deveria ter enlouquecido. Antonino não tinha memória de benesse
igual. Voltou a dizer em voz alta — «O diabo deve ter pegado sesta ontem à tarde e ainda não deve ter acordado...» Mas não a
olhou.
Até porque em frente, num expositor de arame, inclinado de um dos lados pelo peso de revistas para mulher, apareciam
umas palavras garrafais. De repente, ele levantou-se e dirigiu-se ao expositor de arame. Rodou-o, tirou um jornal de grande
formato, o Nova Metrópole. Com um estampido no papel, abriu-o e começou a ler, erguendo-o no ar. Entre ela e ele, as folhas
altas do jornal. Algum tempo, muito tempo. Antonino fechou o jornal. Olhou para ela e perguntou — «Moça, como você se
chama?»
«Não se chama Milene?»
«Pois você está feita. Aquela mulher do Bairro dos Espelhos tinha toda a razão. Diz aqui, exactamente, aquilo que ela disse.
E muito mais Diz também que foi você quem disse. Você sabe ler, você leia e veja se não é assim como eu estou a dizer...»

À sombra da pala vermelha do Hollywood, Milene leu.


Leu sem conseguir compreender como se lhe poderia atribuir o que ela nunca tinha dito. Mas o que mais a surpreendia era o
facto de ali haver verdades e mentiras tão bem entrançadas que tudo parecia verdade. — Sim, de facto, a avó tinha sido
encontrada pelos ciclistas, nenhum dos tios estava em casa, ela tinha comprado as flores, tinha viajado no carro sozinha com
as coroas e aquela caixa, e tudo o mais, mas ela nunca tinha contado isso a ninguém, muito menos declarado a quem quer que
fosse. Ninguém lhe tinha perguntado nada. Era como se tivesse sido assaltada por dentro. Agora os seus receios estavam a ser
confirmados. O problema já não era explicar aos tios como a avó tinha falecido, era demonstrar, como ela, Milene Lino
Leandro, não tinha dito nada, não se tinha queixado de ninguém nem de coisa nenhuma, não tinha dito nem as verdades nem as
mentiras. Milene sentiu vontade de se esconder no profundo do profundo. Sítios escuros, sem luz. Cuidado com eles, pensou.
Abissus abissum invocat, como antes dizia João Paulo.
Cuidado, muito cuidado, Milene.
O rapaz que estava com ela tinha posto de novo os óculos espelhados entre a sua pessoa e o mundo, o mundo onde ela
estava, mas desta vez tinha o rosto sereno, ou pelo menos assim parecia, sob a sua capa cor de azeitona, à superfície da qual o
sangue passava sem se manifestar, escondendo-se. O rapaz disse-lhe — «Acho que não podemos ir à Câmara. Você não está
capaz de enfrentar uma coisa destas. Você é que decide, mas eu, se fosse a si, não iria...»
Antonino Mata olhava, escondido pela pala do boné, coberto pela camisa preta abotoada, onde o suor havia colocado
manchas brancas no peito e nas costas, refugiado em si mesmo, mas ainda assim, dizia-lhe — «Se eu fosse a si, Milene,
voltava para a nossa casa e deixava-me lá ficar, até ver. Eles têm obrigação de a procurar...»

Ex nihilo nihil. Ela agora já não se lembrava do que significavam tais palavras, tudo muito mais complicado do que o nada
nada, ou nada de nada, ou nada para nada, ou nada seria possível tirar do nada, e por isso alguma coisa sempre teria existido,
e coisas assim. Coisas de João Paulo. O que lhe trazia pensamentos bons à cabeça era dizer em voz baixa, Deus da Verdade,
Totus Tuus, Caixa das Almas. Telefona-me, telefona-me. Palavras dos outros. Dizia para si, entrando dentro do Clio. Sem
gasolina, com gasolina. Que mal fiz eu? Mas ela ouvia João Paulo dizer — Nós não fazemos mal, Milene. Alguém fez por
nós muito, muito antes de nós, ou não fez, mas deixou-nos com a memória disso. Não temos outro remédio senão
desenvencilharmo-nos sozinhos. Assim é, Milene. Por isso, é preciso tomar muito cuidado com o abismo. Ele está por todo o
lado, se lhe abrimos a porta da nossa vida. O grande problema é se pomos a ponta do sapato na beira do abismo. É tão fácil o
abismo, tão gostoso, tão simples, basta fechar os olhos e deixarmo-nos ir. Ele lá está à nossa espera. Não custa nada. Custa
muito aprender a suportar o custo. Custa muito. Abyssus abyssum invocat, querida. Pode ser que também tenhas de te
desenvencilhar sozinha, mas só enquanto não estivermos juntos de ti. Durante pouco tempo, quase nada. Depois, já sabes,
mesmo separados, nós três seremos apenas um, nunca iremos deixar-te sozinha. Nunca, nunca, jamais. E nunca, e para sempre
juntos, significa enquanto estivermos vivos... Todavia, as coisas depois passaram-se de modo diferente. Isso só foi válido
enquanto nós dois, seus dois primos, não tomámos o rumo das nossas vidas, não nos inscrevemos em formulários que diziam
no seu cabeçalho London College International, George Town University, University of Massachusetts, e outros títulos assim, e
mesmo muito antes, já as nossas vidas nos tinham começado a separar devagarinho. Até chegar ao cúmulo de Milene ligar
para um de nós e apenas ouvir, dia após dia, a mesma resposta — Hi, you’ve reached five, seven, three, seven, nine, three,
one, zero... If you want to leave a message for Lavinia or Jodo Paulo, please do so after the tone. Thanks. Bye. Como se
também João Paulo tivesse morrido, deixando lá, em vez da sepultura, aquela mensagem performativa.

Por favor, vamos voltar ao interior da Fábrica Velha. Quinto dia de confronto com a desordem do Mundo.
III
Sim, regressaram pela estrada do Mar de Prainhas. Milene seguia atrás da carrinha Mitsubishi, e ao cruzar o campo aberto
por onde passavam, ia levantando adiante de si o lastro de imagens recolhidas desde manhã, onde avultavam as figuras de
Olivia e seus dois pajens, saracoteando-se na poeira do Bairro dos Espelhos. Mas tudo isso eram apenas silhuetas soltas de
gente a agitar-se, mensageiros sem importância, sombras sem enredo nem densidade.
O que ela via, repetidamente via, como se a força do mundo todo aí se concentrasse e o resto fosse apenas uma paisagem
vaga por onde o carro deslizava, era o rosto dos tios a caminharem na sua direcção, perguntando-lhe uma e outra vez — O que
contaste tu a essa gente dos jornais, esses intriguistas profissionais, pagos para intrigarem? Porque o fizeste? Não sabias
guardar para ti o que tinha acontecido à tua avó Regina? — Era isso que ela via e ouvia. E depois, ao regressar ao cômoro,
onde apenas se encontrava estacionada a carrinha vermelho-pó de Janina Mata King, Black Power, salpicada de colcheias
com a forma de machados, só via o cômoro e só via o portal, e só via a sombra das palmeiras, e só via Antonino Mata a saltar
da carrinha e a dizer-lhe — «Aqui estamos de volta». E em seguida, o decurso dos acontecimentos passava, inteiro, para as
mãos de Felicia.

Pois visto desse lado, tudo mudava de figura. Era como se alguém dissesse — a pessoa chave está encontrada.

Na verdade, Felicia Mata falava ao telefone quando os avistou, e a princípio nem queria acreditar. Por momentos, havia
mesmo julgado que Milene apenas tivesse voltado para recuperar qualquer objecto esquecido. Só depois, quando o filho
resumiu o que se havia passado, Felicia compreendeu a situação e ficou sem palavras.
Naquele hora da tarde, usava um vestido de flores que lhe punha os seios em destaque e sobre eles luziam gotículas de suor
tão salientes que estremeciam com o andar. Felicia colocou aí as mãos para confessar o seu espanto — Como era possível?
Os familiares de Dona Milene ainda não tinham voltado? E o jornal estava cheio de mentiras? Mentiras verdades? Verdades
mentiras? Estava a ficar sem palavras. Com voz de comiseração e pena, e ao mesmo tempo indestrutível determinação, a
mesma voz com que terminara o telefonema interrompido, dizendo, Sim, Janina, meu filho, segue em frente, sempre em
frente, nós todos contigo. Ciao, beijão, com essa mesma voz, Felicia Mata falou para Milene, ainda o relato de Antonino não
estava completamente terminado — «Calma, Dona Milene. Nada de ficar assim abanando como urna folha de papel. O que é
isso, mulher? Repara que tu não estás sozinha, tu estás com os Mata. Toda esta gente que tu vês, aqui à tua volta, são tuas
pessoas de família. Toda esta gente é tua gente também... Que mais te posso dizer?»

Todos sem palavras.


Ana Mata sentada na poltrona de plástico, rente aos regatos que escorriam dos duches, pelando batatas para dentro do
regaço, ao ver a neta de Dona Regina voltar para trás, tentava decifrar a entrega fantasma que não tinha sido feita por seu neto
Antonino. A faca parada entre as mãos. E ao encarar de novo os olhos da moça, cujas pálpebras eram semelhantes às de Dona
Regina, voltava a fazer o seu pranto. Afinal como tinha vindo ali parar Dona Regina, de noite, sem ajuda de nenhum táxi? E
para quê? O que queria Dona Regina dizer-lhe a ela, Ana Mata? — perguntava na sua língua. Heitor Pai, apoiado nas
canadianas, também ele sob o impacte da morte da senhoria, formulava perguntas semelhantes. Por sua vez, os três filhos de
Antonino, espalhados pelos colos das tias Dilecta e Germana, tinham acordado. Só as crianças de Domingos e as duas filhas
de Heitor Filho, entretidos a ver duas televisões, não davam por nada. Mas as suas mães, Conceição e Claudina, àquela hora
ausentes nos supermercados, a desempenharem serviço de caixas, se ali estivessem por certo que também ficariam sem
palavras. Felícia Mata, envolvida em tecido de flores, enchia-se de indignação legítima. Ela que, numa tarde de Primavera,
havia conquistado aquela casa para a sua família, ela que era mãe de Janina Mata King, o cantor que todos os dias se ouvia na
rádio, estava chocada.
«Senta aí, Dona Milene. Vamos ver. Em que dia a tragédia da tua avó aconteceu?» — Milene sentada, em frente de todos,
como no dia anterior. « Foi na quinta-feira, e já hoje é terça-feira, dezanove do mês, e até agora ninguém apareceu. Não é?»

Falavam no pátio, à volta das pequenas mesas quadradas que se uniam e se apartavam conforme a necessidade. Naquela
tarde, as mesas unidas numa só. Felícia chocada, Dilecta e Germana chocadas também, a mãe delas, com suspiros profundos
no peito, choro nos olhos, a falar das surpresas do destino incerto. O que iriam fazer? O momento era muito delicado. Claro
que Antonino tinha procedido à altura dos Mata. Tinha voltado para trás com a moça e com o jornal das mentiras, que eram
verdades, e agora também não se ia devolver a rapariga junto de qualquer porta vazia, como se fosse um molho de couves que
ninguém quer. Felicia não podia imaginar que uma pessoa pudesse ficar assim sozinha, como estava Milene. Mas sobre o que
fazer, concretamente, ninguém via claro. Como Milene também não se decidisse, Felicia tomou o telefone e estendeu-lho —
«Olha, Dona Milene, telefona para onde quiser. Não posso ver uma pessoa assim tão desamparada...» Mas logo corrigiu o seu
gesto, sustendo o aparelho e encarando-o como se fosse um objecto inteligente, com quem se discute uma solução importante.
Decidiu — «Pois bem, eu mesma vou comunicar com os seus tios... Quer ver?» E Felicia preparou-se para telefonar a partir
do centro da mesa, para todos ouvirem. A moça Milene que lhe ditasse os números da sua família. A moça Milene que
escutasse, ela ia deixar recados em todos os números. Ela já lhes diria como iria ser — «Está lá? Não está? Pois se não está,
vou deixar mensage...»
E sempre a olhar para Milene, Felicia deixou mensagens em voz muito alta, falando em pé, peremptória como uma
professora de ensino secundário, a ser escutada por todos, no meio do pátio. Está lá? Não está? Mensagens, mensagens para
eles. Que viessem buscar a rapariga que ali tinha aparecido em estado de choque, no meio do estendal da roupa. Que viessem,
assim que chegassem de férias. Que se dirigissem, logo de imediato, à casa dos Mata. Na Fábrica de Conservas Leandro
1908. Fim de mensagem. Mensage. Eles sabiam muito bem de que lugar se tratava, já que eram os directos herdeiros,
proprietários da fábrica. Felicia, falando muito alto sobre a injustiça e a indiferença, em pé, ao centro da mesa. «Há dois dias
que a rapariga se encontra na nossa casa, e os tios dela sem novas nem mandados. Não pode ser...» — gritou Felícia para o
jardineiro de um dos senhorios que atendeu a partir da piscina, limpando a piscina, a única voz directa que respondia e com
quem podia trocar uma discussão viva. Decidindo — «Não, não, a rapariga não volta para casa sozinha. Aqui mora gente
cristã, entende você, Senhor Jardineiro? Ela bem quer, mas a gente não vai deixar a rapariga voltar sem companhia para casa
da avó, depois dum choque deste tamanho... Sabe, jardineiro português, aqui mora gente Mata, cabo-verdiano badio di pé
ratchado, gente com coração e vergonha na cara...» Felícia, com um braço no ar, o outro na orelha, falando pelo telefone sem
fio. Deixando aquela mensage. Mensage vergonhosa para todos eles. E para Milene, sentada na mesa branca comprida, feita
de muitas, ela disse — «Corage!»
«Tenha corage, moça. Há muito que eles deviam ter vindo. Depois de amanhã já devia ser a missa de sétimo dia pela tua
avó, e nem sequer uma missa de recordação deve estar apontada. Grande pena eu tenho de Dona Regina. Graças a Deus que
mulher boa e honrada não tem intruso importante à porta do Céu...» — Felícia de telefone fechado. Surpreendida — «E você,
com isto tudo, a rir-se. Ri-se porque você está sofrendo muito, só que tem muita grandeza de espírito, muita corage...» Era
Felícia Mata, entre todos, de novo ao leme, na proa do barco. Na dianteira da vida.

Antonino também se tinha sentado, a ouvir os telefonemas. Sobre a mesa havia colocado um refrigerante gelado que bebia
devagar. Os óculos espelhados pendurados da camisa preta. O boné bem assente na testa, a pala para a frente, refeito daquele
dia. Também o que ele tinha decidido, tinha decidido bem. Era indecente andar de porta em porta a entregar uma pessoa que
merecia respeito, como se fosse uma trouxa de roupa, e logo uma pessoa que passava um mau instante na vida. Ele próprio, ao
ver a rapariga ali sentada, até se lembrava de si mesmo, dois anos antes, quando tinham caído em cima dele os dias da ira.
«Os dias da ira, entende, você?» — disse Antonino, dirigindo-se a Milene, separando as palavras, como se ela fosse surda,
ou criança de tenra idade, e ele mesmo estivesse interessado em fazer-se entender. «Você não se julgue única, acontece a toda
a gente. Pelo menos uma vez na vida, a ira desaba em cima da cabeça dum indivíduo. Não se sabe quem manda a ira, nem
porquê, nem para quê, mas a verdade é que a pessoa está descuidada, e a ira vem. São dias em que um tipo, mal se levanta, dá
logo de caras com o esterco da vida... E depois de repente desaparece, mas sempre leva consigo alguma coisa da pessoa que
não devolve mais...» — Antonino ali diante, como se só falasse para ela. E ela reparava que aquelas palavras até eram
próprias para correrem com velocidade, mas ele insistia em pronunciá-las lentamente, como se quisesse que se encaixassem
numa parte da compreensão que não tivesse a ver com o que dizia, mas sim com o que porventura quereria dizer. No entanto, o
que ele estava a transmitir, e ela estava a escutar, era perfeitamente compreensível. Ela própria sabia que havia dias terríveis.
Quando Antonino terminou, Felícia disse — «Deixá lá, meu filho, já passou.»
«Eu sei» — disse Antonino. «Estou só a lembrar a esta pessoa que toda a gente passa por dias assim, mais nada. Aqui
vou...»
E abandonando a lata do refrigerante, dirigiu-se para o sítio de onde a água do duche corria, uma ribeira, um rio. O rio que
vinha do duche correu longamente. Passado algum tempo, o filho de Felícia atravessava o pátio, abotoado, sem boné,
cheirando a água-de-colónia, de novo à pressa, de novo agitado, como várias vezes já tinha acontecido ao longo daquele dia.
A correr para qualquer lugar, aproveitando, sem dúvida, a sua tarde livre. Os filhos de Antonino, diante das televisões,
dormiam agora ao colo das primas e não davam por nada. Entretanto, todos os que ficavam insistiam em que não tinham
palavras para descrever aquele momento desconcertante. Mas Felícia, sem arredar pé, continuava a pensar no bem, a fazer o
bem, a decidir a vida urgente e prática, pois agora, que Milene tinha voltado para ficar, não se sabia até quando, ela ia
hospedá-la definitivamente no quarto da música. Mais do que isso. Uma vez que a família de Milene não dava acordo de si, e
que outros a caluniavam injustamente, Felícia ia mostrar quanto valia o sentimento da bondade, cedendo-lhe não a cama
pequenininha, nem tão-pouco a cama do Gabriel, mas a própria cama do seu filho Janina, o cantor, a viver definitivamente em
Lisboa.
«Vem cá, vem... Olha, Dona Milene, é aqui mesmo que tu vais ficar...»

Agora ela podia ver com o seus próprios olhos, demoradamente. O antigo Pavilhão do Vazio, o da latoaria, tinha sido de
facto pintado de preto, os cortinados eram vermelhos da cor da papoila e pendiam do tecto como num estúdio de televisão, e
as camas arrumadas rente às paredes estavam separadas por instrumentos postos em estrados ou apoiados em cadeiras de
pano. Por toda a parte havia fios, fichas, gambiarras, montanhas de discos, música soul e afro-americana, imagens de Louis
Armstrong e Jimmy Hendrix quando jovens. Fotografias de Janina e sua banda havia-as pelas quatro paredes. Em torno de um
cartaz com Terence Trend d’Arby de rosto recolhido, debaixo das tranças, alguém havia escrito — IRMÃOZINHO. Afinal, na
noite anterior, Milene já ali havia pernoitado, sem se aperceber dessa profusão de objectos. Mas agora, compreendendo o
significado daquele recinto, tinha dúvida sobre se deveria aceitar a cama de Janina. Milene preferia a cama pequenininha.
Aliás, para ser verdadeira consigo mesma, ela nem preferia coisa nenhuma. Naquele momento, tinha voltado a encontrar-se
muito perto do instante que a levara a esconder-se atrás das roupas, no meio do estendal. Quando a sua cabeça havia ficado
oca como uma concha morta. Mas Felícia Mata, com o peito repleto de gentileza para com ela, e também de orgulho por
perfilhar sentimentos maravilhosos como os da Beleza e da Bondade, obrigava Milene a tomar lugar na cama grande — «Você
vai fazer um bom sono na cama de Janina. Ouviu?»
«Meninas! Tragam lençóis para a cama de Janina. Os lençóis grandes, aos quadrados largos. Se faz favor...»
Sim, aquele era o quarto desocupado dos seus rapazes artistas, músicos e cantores, embora só Janina verdadeiramente
cantasse. Um quarto com sorte. A partir daí, era Felícia a explicar o sucesso dos filhos, a estender os lençóis de quadrados
sobre a cama de Janina, a dar sacudidelas na colcha, piparotes nas almofadas, a dar vida aos objectos inanimados. Eles a
ficarem com vida. O telefone a tocar na sua algibeira — «Agora não posso, Janina, aconteceu uma coisa imprevista... Está cá
de novo a moça... No teu quarto, meu filho... Olha, escuta, na tua própria cama. Não te importas, pois não? Eu sabia, tu és
mesmo muito boa gente, muito boa pessoa... Segue em frente, meu filho, sempre em frente... Ciao, ciao. Beijão...» Felicia a
fechar o telefone portátil, enternecida, como se o próprio telefone fosse uma parte de Janina.

Mas no momento em que ia de novo guardar o aparelho, Felícia apanhou um susto de si própria. Reconsiderou — «Cabeça
estúpida. Então não te dei o telefone. Pega lá... Antes de ocupares o teu quarto, telefona para onde quiseres, que telefonar faz
bem. Fala à vontade. Uma pessoa compreende a tua situação. Uma família rica, um advogado, um grande empresário, um
Presidente da Câmara, todos eles e suas mulheres abalarem assim para o fim do mundo, marimbando-se para tudo o mais. Oh!
Senhor! Fala lá, rapariga, fala...»

Milene ainda hesitante, diante da cama do Janina.

Não sabia se ia aceitar. Havia um grande problema. Mas o grande, o verdadeiro problema, consistia em pôr a ponta do
sapato na beira do abismo. Era tão fácil o abismo, tão gostoso, tão simples, era só uma pessoa fechar os olhos e abandonar-se.
Ele lá está de braços abertos à nossa espera desde o princípio do Mundo. Não custava nada. O que custava nesta vida era
aprender a suportar o custo. Custa muito, muito. Um dia pode ser que tenhas de te desenvencilhar sozinha. Sendo assim, faz
por ti mesma qualquer coisa, pela tua própria vida. Faz, faz... Então Milene agradeceu o telefone disponível de Felicia
Mata, pegou nele e deixou no gravador de João Paulo a seguinte mensagem — «João Paulo? Olha, é só para te dizer que me
sinto muito sozinha. Estou em casa da família Mata...» E ia dizer a gente da terceira leva ou terceira vaga, mas não disse.
Felicia, as suas irmãs, Ana Mata, Heitor Pai, as adolescentes, bem como todas as crianças Mata, tinham abandonado as
televisões e estavam em frente do quarto dos artistas. Não iria chamar-lhes, ali diante, aquilo que os tios lhes chamavam lá em
casa. Olhou para todos e disse — «Mas estou muito feliz porque encontrei estas pessoas muito boas para mim...» Todos a
olharem para ela. «Agora não posso falar porque fica demasiado caro... » — Todos a rirem para ela, e ela a rir para todos.
Ana Mata sem mover nenhuma faca de batatas, Heitor Pai sem mover as canadianas. As crianças a observarem-na, esquecidas
dos programas de televisão. Pois a rapariga branca, que tinha voltado para trás por não ter família, estava ali diante, no quarto
dos tios, e até parecia não saber falar ao telefone. Milene acrescentou — «Olha, João Paulo, é só para te dizer que estou
muito feliz. Bye, bye...»
«Dona Milene, não queres telefonar mais?»

Felicia andava de um lado para o outro, no meio do quarto da música. Vendo que Milene continuava a hesitar em colocar os
seus pertences sobre a cama de Janina, imaginou que sobre ela pairasse a sombra dos tios. Os tios que poderiam castigá-la a
ela e prejudicá-los a eles, os Mata. Ela, porém, não tinha medo. Falava alto, exactamente, porque não tinha medo deles, dos
Leandro, nem dos seus aparentados. E explicou tudo o que lhe ia no pensamento.
Que Milene estivesse descansada. Para já, os Mata tinham as rendas em dia, os compromissos todos cumpridos, não deviam
nada a ninguém. Se havia algum problema, era dos próprios senhorios, eles que o resolvessem. Quanto ao dever dos Mata,
antes do dia oito de cada mês, lá estava o depósito feito, coisa automática, ora pelo Heitor, ora pelo Antonino, ora pelo
Domingos, revezando-se, para não ser sempre um a perder o seu tempo de emprego. A conta era passada em nome de Dona
Regina Leandro, dez contos por mês, tinham os recibos do banco, as contas saldadas. Tudo pago. Se naquele ano não haviam
caiado a empena exterior da fábrica, era só porque eles não tinham trazido a cal. Já não havia cal, só tinta, e eles também não
mandavam a tinta. Quem estava em dívida eram eles — Em dívida com as empenas da fábrica, com a mãe deles, com a
sociedade em geral. Ela não tinha medo. Vendo bem, eles é que haviam afastado a própria mãe do seu lugar devido, sem
dizerem nada à sobrinha. Eles é que a tinham levado secretamente da sua casa. E por fim, eles é que não tinham assistido ao
funeral da sua própria mãe, tal e qual como o jornal dizia.
Milene não tinha nada que sofrer.
Uma moça como ela não devia ter angústia pelo que não era da sua culpa. Tão simples, tão delicada. Pois olha, ao menos
agora dorme aqui descansada. Acorda só quando quiseres. Toda esta gente, toda esta criançada vai sair de ao pé de ti. Fecho a
porta devagarinho, para tu dormires na tua própria casa. Afinal tu também és senhoria. Tens desta casa para aí uma parte em
vinte? Pensando bem, sendo neta, filha única de um filho de Dona Regina, e Dona Regina com cinco filhos, tu tens mas é a
quinta parte de tudo disto. Olha, moça, descansa bem. Ninguém tem nada com isso. O que é teu é teu. Acordas e dormes
naquilo que é teu. Se um dia te derem a escolher uma parte, fica com esta onde vivemos, esta onde está o quarto de meus
filhos, Janina e Gaby. O quarto da música. Teu quarto quando precisares. Dorme aí, no que é teu. Adeus, adeus, boa noite.
«Acordas naquilo que te pertence. Está bem?»

Depois Felicia desapareceu da sua vida. Milene dormiu toda a noite. O abismo não entrou nela.

Nela entraram Sissi e Belisa, os filhos de Domingos, João e Aloísio, e os filhos de Antonino. As sete crianças a olharem
para ela, já na manhã clara. A rirem pela porta, na sua direcção. Entrando e saindo, atropelando-se. Os próprios filhos de
Antonino Mata, que raramente se riam, a rirem. Mesmo o mais pequeno, o mais sorumbático, mostrava os dentinhos brancos.
Aquilo a prolongar-se. Um divertimento sem fim. — «Branca de Neve? Levanta-te da cama, toucinho da nossa panela. És boa
para o friginato de domingo... Vamos mandar-te levar para dentro da floresta. Imediatamente. O pajem tem ordem para te
matar... Zuca! Já estás».
Milene pensou, acordando pela segunda vez dentro do quarto dos cortinados vermelhos — Se calhar já passaram os meus
dias da ira, os meus dias da desordem. Vou voltar a ser outra vez uma pessoa feliz.

Pois aquele dia não tinha nada a ver com o anterior.


Já era manhã alta pela segunda vez, havia muito que os homens tinham partido. Felícia bradou — «Com que então, você
quer pelar batata como Ana Mata? Quer um avental e um alguidarzinho como ela? Ao pé dos rios dela? Não faça isso, não
encarda a sua mão, mulher. Mas se sempre quiser, a Belisa vai buscar uma boa faca. Belisa!»

Voltar a pensar em coisas boas. Esquecer as coisas beras — homens de preto, flores polpudas, mulher de buchos
quadrados, o sol a bater em casinhas pequenas com anjos de pedra...

Felícia disse ainda — «Você, Dona Milene, quer partir galinha? Não é preciso. Tem aí Dilecta e Germana, minhas irmãs,
que fazem isso impecavelmente. Em três tempos, pedaço para aqui, pedaço para ali. Só se você segurar nas patas. Segura lá
então, segura bem...»

Pensar no momento em que o padre julgou que Milene Leandro não sabia conduzir um automóvel, e Milene entrou
dentro do Clio e demonstrou como dominava a embraiagem, o carro em ponto morto... Foi um grande triunfo sobre eles. O
meu triunfo contra o olhar da mulher de buchos quadrados que não acreditava na minha pessoa, cochichando sempre na
orelha do padre...

A vida ia mudar, ela sentia.


E depois, já pela tarde de quarta-feira vinte, Felicia disse — «Caixas e mais caixas. Aborrece a pessoa desfazer as caixas.
Eu mando para o lixo assim mesmo, todas abertas, umas com as outras. Mas se você quiser, Dona Milene, faça sair o cão e a
caniche que lá se amalham, e as crianças também, e comece devagarinho, papelão para aqui, papelão para ali. Se é que você
quer entreter-se mesmo. As crianças ajudam, fazendo o cão sair de dentro delas. As crianças adoram você... Nunca na minha
vida eu vi caixas tão bem arrumadas como por Dona Milene. Arrumar isso tudo, arrumar... A tua casa deve ser um brinco de
brilhar, hem?»

Agora, podem vir os tios e as tias, quando muito bem quiserem. Vou voltar ao Quilómetro 44, sozinha, sem eles.
Passaram os meus dias da ira. Vão voltar os meus dias felizes...

Sim, o jantar era galinha com batata. A mesa de novo composta de várias mesas, muito comprida, toda a gente sentada à
volta, até Antonino Mata, com os três filhos num cacho, lá estava. Dezoito pessoas à mesa, contando com ela mesma. Felicia
comia muito, as irmãs, Dilecta e Germana, também. Ana Mata comia pouco. Domingos, o da faca, dirigiu-se pela primeira vez
a Milene — «Você, Dona Milene, não come nada? Quer ficar esperta para sempre como a nossa avó Ana Mata? A nossa avó
acha que, se não comer, os canais da esperteza nunca se entopem. Acha que vai morrer sábia...» Heitor Filho a rir e a servir-se
de novo de galinha com batata, à luz das lâmpadas movediças — «Se algum dia ela morrer, se algum dia... Não é mesmo
assim, vovó?»
Todos a rirem na direcção de Ana Mata, demasiado longe da sua cautcha de plástico, com o totó perfeito, montado no alto
do seu crânio alongado para trás, como uma bola de beisebol, os olhos pequenos lá no fundo, vivos e fundos, luzindo, as
pernas cruzadas, os cotovelos levantados, sentada à mesa como um mosquito, alimentando-se de nada. Não, não vai morrer
nunca, senhora. Para afastar o assunto, Felicia cantou — «Atapetando o mar, atapetando o mar... Você, Dona Milene, nunca
escutou esta canção do Janina? Domingos, levanta-te e põe o disco do Janina na máquina nova. Aquela que compraste em
Lisboa...»
O disco a girar, a voz de Janina a subir, a partir da primeira faixa, e o pátio a estremecer. «Foi com esta faixa que ele
ganhou no Coliseu dos Recreios. Sabia?» — disse Felicia muito alto, galgando a própria música, com sua voz de vitória.
«Cante também, Dona Milene. Cante. Esqueça a morte, esqueça a mentira e a ausência. Dance com a gente. Você sabe mesmo
dançar?»
«Caramba, você até sabe dançar. Isso, isso... Uma pessoa deve espantar a morte dos mortos. Os mortos gostam de ver a
gente dançar. Gostam que a gente esteja feliz a dançar e a cantar, pensando neles. É assim que eles são felizes também... Por
cada pessoa que canta aqui, neste mundo, canta uma multidão lá no outro. A princípio a pessoa até fica chocada, por causa do
morto que lhe faz falta, mas depois isso passa. A pessoa reage. O morto, se é bom, fica de bem com a gente. Até olha por nós,
lá do Céu, com mais satisfação... Eh! Outra vez... Ponham agora a terceira faixa, que essa é mesmo para dançar...» — A
música a soar no pátio, a fazer vibrar o assento das cadeiras. Todas as cadeiras. Todas as mesas. Depois as pessoas, as
crianças e Milene. Felicia muito contente com a sua obra, a alegria de Milene, a descontracção de Milene, sua criação. Felicia
em pé para apreciar.
«Isso mesmo é que é dançar. Você, Dona Milene, é moça muito bem feita, até os seus joelhinhos unidos lhe dão graça. Você
parece um pouco atoloada, mas até nem é. Você até sabe dançar...» — Em frente do espaço defendido pelas sardinheiras, as
crianças Mata a dançarem, Milene vestida com a roupa de Judite e Claudina, também a dançar. Já não estava ali a morte. Nem
o temor. — Anda, moça, se gostas de te entreter, faz qualquer coisa, telefona, lava a loiça, dança, lê revistas, canta canções do
Janina, não te rias só, encostada à parede. Põe para fora tudo o que te vai na alma.
Era meio-dia, quinta-feira, vinte e um de Agosto, no interior do diamante. Milene mantinha-se encostada a uma parede. Dali
de onde estava via na sua frente as unhas vermelhas de Felicia, com manchas brancas, como se as unhas estivessem
esburacadas. Ela não tinha nada para fazer, podia fazer aquilo. Como dizia João Paulo? — Abyssus abyssum clamat. Não,
não. Sim, sim, podia. Milene a rir imenso. «Senhora Dona Felícia, eu podia arranjar-lhe as unhas. Tem um frasco de verniz e
acetona?» — perguntou Milene.
Felícia completamente surpreendida, a recostar-se na espreguiçadeira branca de pasta sintética, colocada na sombra
interminável da chaminé industrial. Felícia muito sorridente, muito divertida. Claro que tinha acetona e verniz, mas Dona
Milene não ia arranjar-lhe as unhas, pois não?
«Sim, vou. Tenho-o feito, vezes sem conta. Vai ver. Só preciso de um banco, uma bacia, acetona, verniz e algodão...» —
disse Milene.
Ela mesma soltou uma gargalhada. A sola do sapato direito a sair do abismo, a rodar para um terreno seguro, sólido,
amável. Meu Deus, finalmente vou fazer uma coisa útil, vou de novo colaborar com o mundo, como dizia João Paulo. —
Felícia a estender as mãos diante de Milene. Ana Mata a observar, sentada na sua poltrona, com os pés magríssimos cruzados,
ali onde se juntava a água dos três rios que escorriam dos duches. Milene a retirar as manchas encarnadas das unhas de
Felícia, a deitar fora o algodão, a agitar o frasco para as adolescentes Sissi e Belisa verem. Elas também queriam? Não, não
podiam querer, tinham de obedecer ao pai. Heitor queria as filhas de trança até serem adultas, não queria unhas pintadas, não
as queria putas. Mas Felicia era uma mulher avó, não tinha problema nenhum, nem com os Leandro, nem com ninguém neste
mundo. Ela não fazia mal nenhum a pessoa alguma. Porque não haveria de aceitar a oferta da moça, se demorava uma hora a
andar para cá e para lá, até ir à manicura? Não, Felicia não tinha problema em aceitar. E quando Milene disse, falando mais
alto do que o habitual, «Senhora Dona Felicia, agora os pés. Mostre lá... », Felicia ainda recusou, mas depois, num assomo
de loucura brava, lavou ela mesma os pés e entregou-os a Milene, com grandes gritos de alegria. Pés cheios, sapudos, uma
risca entre o peito do pé e a perna, a mostrar a fartura da vida. Grande gargalhada de Felicia. E Milene também ria. Quando
chegou ao fim daquela tarde, Felicia, descalça, no meio do pátio, dançou, para que todos vissem as vinte unhas pintadas por
Dona Milene.
Ela bem que tinha sonhado, na noite anterior, com uma fruteira cheia de bagos de romã. Afinal não eram bagos de romã, não,
eram as unhas pintadas que vinham a caminho. E a fruteira não era uma fruteira, era o coração bom de Dona Milene, aquela
boa moça que lhes tinha aparecido em casa. Até parecia mentira como os sonhos anunciavam a realidade. Já o mesmo fora
com Janina. Antes do sucesso no Coliseu, todas as noites, ela sonhava com uma onda que em vez de espuma lhe arremessava
peças de oiro aos pés. Nem lhe apetecia acordar. Todo o seu corpo enfeitado de jóias caras. Afinal o mar era o Coliseu, as
jóias eram as palmas. Agora a fruteira era Milene. Os bagos de romã eram as vinte unhas pintadas para quem quisesse ver —
«Os sonhos têm cada uma...»

Vai, abismo, vai. Vai lá para o teu buraco, longe da minha vida. Não voltes cá mais, não fazes cá falta...

Já era outro dia, outra tarde? Outra manhã? Felicia não dera por nada — «Bendita a hora em que você veio, moça. Em que
Antonino trouxe você de volta. Conhecê-la foi maravilhoso. Afinal você é mesmo muito inteligente, muito boa moça, muito
formidável...» — disse Felicia. «Digo isto, porque os teus tios devem estar para chegar. A esta hora, estejam onde estiverem,
já lhes chegou aos ouvidos o que se está a passar em Valmares. Mas coragem, Dona Milene, nunca se deixe ir abaixo por
palavras acusadoras, se as tiverem. Olhe que eles é que estão em falta...» — Felicia a mostrar as dez unhas das mãos
envernizadas. Dez unhas dos pés a condizerem com o vestido estampado. «Nossa Senhora da Guia a acompanhe. Viu? Pois
quanto a nós, já decidimos. Vamos só escrever uma carta assinada, registada, com aviso de recepção, para saberem que
cumprimos a lei. Agora tu, pensa na tua vida, Dona Milene. Corage. Muita corage...» — Até que Felicia se deixou adormecer
na espreguiçadeira branca, debaixo do telheiro. Mas antes, ainda aconselhou Milene — «E tu vê se dorme e se sonha também.
O segredo é dormir mais do que se precisa. O resto é sonho. Faz muito bem à gente...»

Milene pensou que iria sonhar com a alegria de Felicia, de unhas pintadas, e a sua própria satisfação por tê-las pintado, mas
não seria assim.

Era noite de quinta-feira. Milene tinha voltado a deitar-se, pela quarta vez, na cama do Janina. Naquele momento da noite,
não sabia se ainda era aquele dia, se já era o dia seguinte. Sentia-se muito cansada. Melhor dizendo, metade de si mesma
estava cansada, incapaz de levantar um braço, mover um dedo, uma pálpebra, abrir um pouco mais que fosse os lábios para
poder respirar, e essa parte de si, a que sofria dessa canseira enorme, confundia-se com a vida que ali tinha vivido, naquele
mesmo local, com os tios, então mais jovens, a tia Gininha de cabelo em plena forma, com seus namorados sucessivos, coisas
desgarradas onde também passavam, contra o seu desejo, imagens de veludo, como era a almofada das chaves onde estava
bordada a palavra Leandros, e os cinco elementos da segunda vaga a dispersarem em motorizadas. E depois eram as altas
empenas lisas, raspadas dos dizeres indecentes, fotografadas pelos tios. Era ela, o primo e a prima, João Paulo à frente, a
comandar o barco do Guinote, deslizando nos canais radiculares da Ria. Eram imagens do melhor Verão das nossas vidas , no
dizer de João Paulo, que sempre a faziam feliz. E no entanto, para surpresa sua, naquela noite, imobilizavam-na de cansaço.
Porque havia outra parte de si mesma que se opunha à primeira, a exangue, e as duas desenvolviam forças opostas, contra o
mesmo eixo, como na luta livre os corpos untados. Essa segunda força, a segunda parte de si mesma, podia tudo, sabia tudo e
também julgava os outros, deslocando-se sem cessar, na direcção de lugares onde os outros estavam. Sem medo nem peso,
voava para lá. E avaliando essas duas forças, Milene viu nelas o sinal inequívoco da Vida e da Morte, em letras grandes. Só
que Milene podia pensar, e ao mesmo tempo dizer, para si mesma — «Tu não és suficientemente esperta para pensares isso
pela tua própria cabeça. Alguém está a soprar sobre os teus lábios essas palavras, e tu só as repetes...» Era a imobilidade a
fazer pender o movimento para a terra, a imobilizá-lo. Milene tinha ficado a lutar a meio de si mesma, dividida, como dois
adversários em luta livre, separados pelos braços mas unidos pelos peitos escorregadios. Contudo, a parte ágil, a dado
momento, conseguiu comprimir a parte pesada e desfazê-la como quem racha um pedaço de madeira sob o impacte dum
machado. E ao acontecer, o seu coração bateu veloz como o de um potro suado no fim da corrida. Ela pensou — Está tudo
certo, lembro-me de tudo, estou preparada.
Tinha a certeza.
Quer dizer, Milene tem a sua versão, as suas próprias palavras, está muito bem preparada para a sua prova. Merece
muitos valores... — pensava Milene, com as batidas do coração espaçadas. Pois tal como dizia João Paulo, entre o sono e a
vigília, só existem as pálpebras. Que diferença existia entre dormir e estar acordado? Sabia muito da vida, o primo João
Paulo. Mas nesse momento, ainda ela estava deitada numa cama, no interior do diamante. Ainda era demasiado cedo para se
levantar. No pátio, ainda nem a caniche mordia o cão de guarda, como era seu hábito. Era outro dia. Ela tinha a certeza de que
alguma coisa, naquele dia, iria acontecer. Preparou-se.
Devagar.
IV
Muitíssimo devagar. Completamente preparada. O calendário de parede de Felícia Mata marcava — Sexta-Feira, 22 de
Agosto, 1994. Tudo batia certo. Pelas dez horas da manhã, ouviu-se um motor abafado aproximar-se da entrada. Milene
encaminhou-se na direcção do portão. Não havia engano possível — Era o carro de serviço do tio Rui Ludovice que vinha
buscá-la.

Tal como previsto, encontrava-se estacionado à sombra das palmeiras, e uma das portas estava completamente aberta, com
o Sr. Frutuoso segurando-a atrás do seu braço. Mas não valia a pena o motorista manter-se tão estático, porque ela iria
demorar. Os seus passos iriam ser propositadamente lentos. Estava vestida com as bermudas cor de laranja de Claudina, e de
seu, consigo mesma, já só transportava o saco a tiracolo, o chapéu de praia debaixo do braço, e no meio do peito, o coração
batendo tranquilo. Tão tranquilo que nem o sentia. Também não olhava para trás, embora soubesse que Felícia e Ana Mata
tinham ficado a vê-la afastar-se na direcção do carro de serviço do tio. Por certo que Felicia estaria a dizer-lhe algumas
daquelas palavras que ela mesma já sabia de cor. E contudo não iria voltar-se para lhe acenar. Não queria perder um átomo de
concentração.
O Sr. Frutuoso até inclinou a cabeça, dando-lhe os bons-dias, sem que ela respondesse fosse o que fosse. Não tinha vontade
de dizer nada àquele homem que costumava mirá-la pelos espelhos dos carros, perscrutando-lhe o interior como se tivesse um
anzol em cada olho e quisesse trazer à superfície o que ela não lhe queria mostrar. Aliás, o Frutuoso ainda tinha dito, antes de
partirem naquele voo rasante que o grande carrão fazia sem se sentir — «Olhe que deixa ali o seu carrinho, e eu nem sei se
depois teremos tempo de cá voltar...» Remexendo em papéis e consultando o próprio mapa de serviço. «Que pena que ali
fique o seu Cliozinho ao torreirão do sol, Menina Milene, se ao menos o pusesse debaixo duma árvore...» — Era o Sr.
Frutuoso, querendo fazer conversa, procurando introduzir-se nas ranhuras da sua vida privada, como habitualmente. Ela,
porém, estava preparada para enfrentar uma situação bem mais importante e apenas tinha feito sinal que avançasse.

Depois o carro do tio voara rente ao chão, e Milene só tinha tido tempo de alinhavar em definitivo a ordem pela qual iria
apresentar os factos. Completamente concentrada. Em redor os campos continuavam secos e áridos, e o palhuço amarelo
desbotado, junto aos pés das árvores ou encostado às paredes, tinha já assumido a cor da prata, e numa e noutra berma
apresentava sinais de arroteamentos por fogo controlado, que em alguns locais havia atingido o próprio arvoredo. Na
paisagem branca, largas manchas de pasto queimado ornamentavam as curvas da estrada. A ideia que se tinha era de que
bastaria um fósforo para incendiar o mundo em Valmares. O motorista tinha continuado a falar sozinho — «Estrada miserável,
estrada miserável...» Não, Milene não responderia nada.
Se respondesse, seria só para dizer, apoiada nas palavras dos outros e nas suas próprias certezas, o que tinha conseguido
apurar. Palavras e factos. Embora o que lhe viesse à cabeça em primeiro lugar fossem as palavras. Fechava os olhos para não
se desconcentrar. Fechava-os com força. Dizia para si. Foi assim, tias e tios — Introibo ad Altarem Dei, Pax Domini, Totus
Tuus, Caixa das Almas. De que nos aproveitou o nosso orgulho, e de que nos serviu a riqueza unida à arrogância, se tudo isso
desapareceu como sombra... E nós, com os nossos olhos fechados, a enxergarmos à nossa volta, para fixarmos todas as
palavras para contar aos nossos tios... Mas os factos, esses, viriam em primeiro lugar.

Revendo-os, um a um, tudo acontecera assim. Primeiro tinham vindo bater-lhe à porta os agentes da Guarda Nacional
Republicana, e logo de seguida os cavalheiros de preto a pedirem-lhe dinheiro. Depois fora aquele vaivém de decisões, umas
para diante outras para trás, no interior de casas brancas e diante de mesas de mármore, e eles ausentes. Ela é que tinha
gritado, no patamar de uma daquelas escadarias, de mármore também, que não queria autópsia, que não a queria retalhada, e
havia gritado em nome do tio poderoso, incontactável, e tinha conseguido o que pretendia por causa dele mesmo. Do
incontactável. Mas todos eles, incluindo o tio poderoso, é que haviam estado ausentes, e não ela. Por isso mesmo, agora que
iria encontrá-los, nada de Abyssus abyssum invocat para ela, tudo só para eles. Ela apenas iria contar como tinham ocorrido
os acontecimentos, e mais nada. Os dados, que dias antes se haviam entornado para fora da sua cabeça, tinha-os ela recolhido
e encadeado de modo a tudo resumir em duas ideias-chave, muito precisas. Duas. Por isso tinha o coração tranquilo. Nem o
sentia. Ao chegarem ao Quilómetro 44, o Frutuoso tinha corrido para lhe abrir a porta do carro, e ela havia saído, sem lhe
dizer uma palavra. Sentia-se muito bem. Estava calma. Estava preparada.
Mas nada iria acontecer como imaginara. Nem como tinha previsto nem como havia desejado.

De facto, ao entrar no interior de Villa Regina, o seu coração não batia. Não precisava. E até num primeiro momento, tudo
lhe parecera intacto. O bengaleiro da entrada continuava a segurar em seus braços os três chapéus da avó Regina, e o espelho
onde ela costumava assomar-se, antes de sair, parecia pronto a reflectir a cabeleira lilás. Os espaços marcados nas paredes
por quadros que haviam sido retirados mantinham as mesmas auréolas escuras em torno das manchas claras. A passadeira
vermelha, presa aos tacos de madeira por uma fieira de ganchorras, não só se encontrava no mesmo lugar como oferecia ao
andar o mesmo leito macio onde os passos morriam, delicadamente, como a avó gostava. Ela tinha avançado pela passadeira,
quase sem passos, como se tudo estivesse intacto. Ao avançar, antevia o friso da sua família reunida em torno da mesa de
cerejeira, à sua espera. Previa-os todos juntos, cada um com sua pergunta engatilhada. Um tirocínio agendado. Mas quando
chegou à sala, que a avó costumava designar por livingroom, era como se não estivesse ninguém. Só as duas tias se
encontravam ali reunidas, e estavam sentadas nos dois lugares antes ocupados exclusivamente pela avó Regina — O fauteuil
da esquerda, de onde ela enxergava o jardim, o fauteuil da direita, de onde via a televisão. Havia vinte anos que era assim. E
as tias sabiam disso, e no entanto lá estavam, as duas sentadas, afundadas nos lugares da avó. Era muito chocante. Sentia-se
preparada para contar tudo o que sabia mas não para contar só a duas pessoas, e ainda por cima ocupando lugares que não
lhes pertenciam. Milene pensou, desgostosa com o que via — Vão ter de sair dali. Quando me virem, vão ter de se levantar.
Só depois de se levantarem eu posso explicar o que se passou...
E Milene ficou à porta do livingroom, sem entrar, para que elas compreendessem, para que elas saltassem daqueles lugares,
pedindo-lhe desculpa, assim que a vissem. Mas as tias, naquele momento, não eram duas tias, eram apenas dois desgostos
sentados. As tias não poderiam compreender a mensagem que lhes enviava. No lado oposto da sala, as tias estavam em frente
uma da outra, dizendo palavras soltas e nasaladas, como se as suas caras, por dentro, estivessem cheias de lágrimas,
inconscientes e exaustas. Duas dores que tivessem tomado forma humana. Milene não tinha nem dez, nem quinze, nem vinte
anos, e achou que aquela não era uma hora boa para lhes dizer que se encontravam sentadas onde não deveriam estar. Milene
conhecia a vida das tias. Sentiu pena das tias.
Não, não iria provocá-las.
Até porque a tia Gininha já a tinha avistado e chamava-a, e então ela, colocando-se à altura das circunstâncias, de coração
tranquilo, tinha-se aproximado pé ante pé, e a tia estendera-lhe a mão, falando-lhe muito baixo, como se não existisse, como se
fosse apenas uma sombra de pessoa com longos cabelos de rapariga — «Minha querida sobrinha, minha querida sobrinha...»

Beijaram-se. Ou antes, a tia Gininha tinha-lhe passado a mão na face, apertando-a contra si em silêncio, durante muito
tempo, e por fim balbuciara, deixando-lhe marcas húmidas por toda a parte — «Tu foste a única testemunha...» Iniciando um
novo soluço que não tinha fim. Era um momento difícil. Milene estava preparada. E a preocupação de se encontrar preparada
e querer ser prestável desviava-a da efusão do amor e da pena que sentia pelo desgosto das tias, sobretudo a tia Gininha de
quem ela tanto gostava. Estava unindo os joelhos, comprimindo-os com todas as forças. Os olhos fechados. Sim,
completamente preparada. Como a notícia que passa, como um navio que vai. Na verdade, eu estava a ouvir os Simple Minds,
a ouvir Live in the City of Light, quando eles chegaram... Mas não, não ia começar de qualquer maneira a relatar os factos.
Milene apenas disse, muito baixo, para não incomodar as tias — «Tias, posso contar tudo o que as tias quiserem saber.
Lembro-me perfeitamente de todos os passos que foram dados. Tenho tudo aqui dentro da minha cabeça...»
A tia Ângela Margarida, completamente recostada, apenas perguntou — «Como foi isto possível, Milene? Como foi?»
Também a voz da filha mais velha da avó Regina se apresentava humedecida, embora soasse duma outra forma, mais
grossa, mais forte, molhada porventura por um líquido com mais densidade. Iria, contudo, ser muito difícil começar a
responder às tias, porque as frases delas não pegavam umas nas outras. Milene nem dispunha de tempo para desejar que se
levantassem daqueles fauteuils, de tal forma os desgostos das tias as tinham posto exangues. Ângela Margarida, apesar de
tudo mais enérgica do que Gininha, tinha-lhe dito — «Já nos contas tudo como deve ser...» A tia Ângela Margarida, com um
olho mais inchado do que outro. Um papo no olho esquerdo. A tia ainda disse — «Tudo isto foi muito triste, muito grave...
Senta-te, Milene». E ela própria, como uma sombra, se levantou.

Mas não, aquele não iria ainda ser o momento.

Como se ligada a uma corrente eléctrica gerada por estupefacção, a tia Gininha havia começado a discorrer, soturnamente,
sobre a injustiça daquele momento, invocando o facto de elas, as duas filhas, sempre terem acompanhado a mãe, sempre terem
vivido cheias de preocupação pela sua saúde, sempre a telefonarem de toda e qualquer parte para se inteirarem do seu bem-
estar, e logo numa altura em que por coincidência se encontravam ausentes, é que todo aquele desenlace se tinha dado — dizia
a tia Gininha. E sufocada pelo desconcerto da vida, a tia mais nova tinha-se levantado do fauteuil, ficando finalmente livres os
dois cadeirões, de braços abertos, como se esperassem pela entrada da avó Regina. Os dois fauteuils desocupados, enquanto
as duas tias, ambas levantadas, comparavam a boa morte da mãe, que todos mereceriam, com a morte estúpida que tinha
acontecido. As tias, desfeitas, cruzando-se pela sala fora, imponderáveis, como se caminhassem no espaço, perdidas como se
estivessem num deserto, dizendo uma para a outra que nunca tinham experimentado nada de semelhante em suas vidas. As tias
iguais. Uma alta, a outra baixa. Uma quase morena, a outra quase loira, diferença que desde sempre acentuavam no
cabeleireiro. Não importava, as duas quase belas, principalmente a tia Gininha, as duas a pensarem que tudo nas suas vidas se
tinha deslocado sob o efeito daquele terramoto. Sem compreenderem como, a vida tinha-lhes aprontado uma cilada. E as tias
andavam às voltas, murmurando frases soltas. Quando a palavra cilada apareceu, a tia Ângela Margarida suspendeu as
lágrimas. Ela não estava de acordo. Não se tratava de uma cilada, mas de várias.
«Várias ciladas, aprontadas por pessoas concretas, algumas delas com objectivos concretos, persecutórios, pessoais e até
políticos...» Em seu entender, os irmãos iriam ter de reagir, movendo acções contra os responsáveis.
«Que acções?» — perguntava Gininha.
Mas o espírito das tias não se concentrava. Voava para cima do aparador onde estavam dispostas as fotografias. Várias
fotografias da avó Regina, desde criança de tenra idade até um pouco antes de usar o cabelo pintado de lilás. Com o marido no
dia do casamento, com o sogro junto do Chrysler. Com os três filhos mais velhos, com os cinco filhos, incluindo as raparigas,
as duas menores, os cinco em redor da mãe, e depois menos um, e depois menos dois. Cada momento da vida congelado em
seu rectângulo de estanho e prata. De seguida, a avó Regina, já de rosto vincado, só com três filhos. A avó Regina com os
netos. A avó Regina sozinha, de costas para a fábrica. O friso duma vida inteira ali estava. Sim, era preciso fazer qualquer
coisa. E fazer qualquer coisa significava processar judicialmente, no mínimo dos mínimos, quatro entidades distintas. Quatro.
Um processo contra o Novo Lar onde haviam desfigurado o nome da mãe, designando-a por Maria Soares, os dois nomes
intercalares do seu nome completo. Inacreditável. Quem poderia reconhecer Regina Maria Soares Leandro, em Maria Soares?
Esse seria o primeiro processo. Outro contra o Hospital, que devolvera à estrada uma pessoa acamada, sem avaliar o estado
em que se encontrava. Outro, contra os dois funcionários que a tinham deixado escapar. E ainda outro contra os jornais que
haviam publicado aquelas sórdidas mentiras. A filha mais velha da avó Regina contava pelos dedos — «Ao todo seis. Seis
acções, não quatro».
Mas o que iriam resolver tais processos?
A tia Gininha tinha-se sentado no sofá mole, o grande, onde uma pessoa se afundava, e os seus joelhos, de longas pernas
unidas, ficavam perto do queixo. Ângela Margarida, na sua frente, contava pelos dedos — «Seis, se não forem mais».
«E a fuga da mãe pela areia fora, até ao portão da fábrica, como explicas? Quem processas?»
Um impasse entre as tias.
Na verdade, quando pensavam na mãe em camisa de hospital, rastejando por entre os carris até à fábrica, e tudo o mais que
se lhe tinha seguido, sentiam-se perdidas. Pensando nesses tristes detalhes, uma em frente da outra, as duas tias eram só uma,
mergulhadas na penumbra verde da casa. Perplexas. O amor filial transmutado em espanto. As imagens concretas da morte a
entrarem-lhes pelos olhos dentro, a oferecerem-lhes taças amargas de obscenidade. As tias sentiam-se atingidas no fundo da
alma por um gesto que a vida lhes atirava escarninhamente à cara. Era a segunda vez que falavam uma com a outra. A primeira
tinha sido na noite anterior, quando haviam voltado de férias, mas era sempre ali, nas imagens aterradoras do portal, que
paravam. E paravam, porque tinham a suspeita de que a hora da morte funcionava como uma parábola da vida anteriormente
vivida, um conto lido da frente para trás, tal como a mãe costumava dizer a propósito do pai, mas agora elas ainda não sabiam
ler aquela parábola que a vida lhes arremessava. Naquele instante, tudo o que queriam era compreender por que razão alguma
coisa sem nome havia disparado setas certeiras sobre todos eles. E as duas tias manifestavam toda a sua desorientação, no
meio da sala, enquanto Milene continuava à espera do seu próprio momento.
Aliás, as tias nem pareciam dar pela sua presença. Era como se o acontecimento que passavam em revista e o futuro que
pareciam querer delinear não tivessem nada a ver com o que Milene tinha para dizer. Como se não houvesse qualquer tipo de
relação entre o que ela tinha testemunhado e guardado dentro da sua cabeça e a vida concreta das tias. Na verdade, a tia
Ângela Margarida, com as duas pálpebras inchadas, uma muito mais do que a outra, nem olhava para Milene. Desfiguradas, as
duas tias apenas se olhavam, mutuamente. Então Milene consultou o relógio, retirou um lenço do saco e assoou-se com força
para dentro dele. Havia chegado o momento de dizer o que tinha para dizer, estava preparada, cheia de ânimo e coragem.
Dobrando o lenço e guardando-o, Milene disse — «Tias, pois eu posso contar como foi. Não presenciei tudo, mas sei muita
coisa. Começando pelo princípio, eu estava sentada aqui mesmo onde me encontro, a ouvir os Simple Minds, quando os
agentes da GNR tocaram à porta...»
As tias voltaram-se para trás e encararam-na ao mesmo tempo, admiradas, como se estivessem a regressar de muito longe e
pela primeira vez a vissem. Naquele preciso momento, lá fora, uma outra viatura aproximava-se do Quilómetro 44.

Milene não tinha podido continuar.

Rente às acácias da rua, um outro carro tinha parado. Ouvia-se a porta da viatura fazer tchap. Era Afonso Leandro, acabado
de chegar no avião da manhã, um avião que voara de Heathrow, com quatro horas de atraso. Quatro horas no antigo lugar da
pontualidade e do respeito pelo tempo dos outros. Ainda ele vinha no corredor, e já se ouvia essa explicação. As duas irmãs,
pressentindo-o, tinham-se abraçado. A chegada de alguém que ainda não partilhara o desgosto reiniciava a intensidade dos
afectos. Abraçadas, a meio da sala, era como se esperassem que ele as abraçasse também, e os três em conjunto se
confundissem num só desgosto. Mas no veraneante que surgia, de braços levantados, à entrada do living-room, como se
quisesse suster o arco da porta, à primeira vista, ninguém reconheceria um homem enlutado. A sua cabeça luzidia, de moreno
que estava, produzia um acentuado contraste com as roupas brancas que envergava, e ao entrar, apenas barafustava contra as
horas perdidas. Quatro horas. As duas irmãs ainda continuavam abraçadas, à espera. Ele porém, cheio de espanto, foi muito
claro — «Pois que merda foi esta que aconteceu?»

As duas irmãs desabraçaram-se. De repente, paredes e móveis desapareceram. Preenchendo o espaço, de ponta a ponta, ali
estava ele, Afonso Leandro, na sua roupa branca, formulando a mesma pergunta, directo, rápido, a querer saber duma
assentada o que tinha acontecido, como se não soubesse. Ângela Margarida encarou o irmão. Ofendida.
«A mãe morreu há oito dias. E tu só agora sabes?»
«Uma merda» — voltou ele a repetir. «Se eu estava em Chipre com a Isabel, como é que eu podia saber?» — Continuou
Afonso, dando um passo em frente, um passo próprio de cavaleiro de hipódromo, um passo muito largo. «Como podia? Podem
dizer-me?»
A irmã reconsiderou.
«Ninguém está a dizer o contrário. Nós também chegámos ontem, ainda que tivéssemos tomado conhecimento dias antes. Só
que não havia avião. Nem de Cancun para nós, nem tão-pouco das Canárias para a Gininha, aqui a dois passos. Quer no meu
caso quer no dela, pura e simplesmente, não havia avião. Essa gente das agências diz que pensa em tudo, mas ao primeiro
sinal de emergência, volta-se à Idade da Pedra. Não há avião. E tu em Chipre...»
«Mas como aconteceu?» — insistia o tio Afonso, afastando a questão dos aviões, e começando também ele a atravessar o
living, de lá para cá, e de cá para lá, encontrando-se no percurso agitado com a tia Ângela Margarida. Gininha, também ela
levantada. As duas irmãs espantadas com o espanto dele.
«Pois ainda não sabes de nada? Foi assim. A mãe adoeceu, levaram-na para o Hospital, melhorou, e em vez de a
devolverem ao Lar, vieram entregá-la, só que os funcionários nem tinham o nome dela correcto nem encontraram a casa.
Andaram por aí perdidos. Enquanto estavam parados, já de noite, lá nas Bombas de Gasolina, deixaram as portas da
ambulância escancaradas. Como deixaram as portas escancaradas, aconteceu aquilo...»
«Deixaram?»
«Pois deixaram».
«Então como é que a mãe foi parar à porta da fábrica?»
«Ninguém sabe».
«Mas isso é inacreditável...» — disse Afonso Leandro, caminhando entre os móveis. «Quem a levou? Quem a levou?»
«Está provado que andou aqueles dois quilómetros por seu próprio pé. Percebes? Andou. Ninguém a levou.»
«Andou?» — Afonso estacou a passada. «Não. Alguém a levou. Ela não andava só por seus meios, entre as Bombas e a
fábrica... Se tinha sofrido um acidente vascular cerebral, como é que andava?» E ele mesmo recomeçando a andar — «Aposto
que a levaram os Mata. Foram eles que a levaram. Eu tinha um recado muito extravagante dessa gente lá em casa. Um recado
muitíssimo extravagante...» — Afonso à procura dum papel no bolso da camisa branca. Ali estava o papel. «Eu soube da
morte da mãe por este maldito papel que o estúpido do Páscoa foi colocar em cima da cama, com medo que eu não visse.
Vinha eu a entrar em casa, com a Isabel, pela primeira vez. E estava lá este papel... Foram eles, os Mata, essa cambada da
terceira vaga...»
«De modo nenhum. Os Mata estavam em Lisboa, tinham ido ao Coliseu, foram vistos por meio mundo na televisão. Nessa
noite, não estava lá ninguém. A nossa sobrinha deve ter tido a mesma intuição que tu, e foi lá, três dias depois, e ainda eles
não tinham voltado. Ficou escondida atrás dum estendal, até eles chegarem... Vê-se que ainda não sabes de nada...» — Ângela
Margarida, cansada, «Olha, lê aqui os pasquins de serviço. O melhor é leres. Têm muita mentira, mas ficas com uma ideia e
evita que tenhamos de te contar...» E depois acrescentou, num fio de voz desesperado — «Sobretudo essa história das
formigas, que é horrível. Inacreditável e horrível, e eles fizeram chamada de primeira página. Horrível...»
A mão do tio Afonso caiu sobre o fauteuil da esquerda. Rodou. Todo o corpo rodou e a mesma mão pousou em seguida no
fauteuil da direita. «Que formigas?» — Não, não se sentou nos cadeirões da avó Regina. Os olhos do tio, pequenos, na cara
larga, só luziram como dois fósforos acesos que se iluminam e logo se extinguem. «Não, isso não».
«Sim, isso sim» — disse Ângela Margarida. «A mãe foi encontrada no dia seguinte, à porta da fábrica, coberta delas, se é
que queres saber. Negrejava... Esta é a verdade, nua e crua».
«Pois o que é isto?» — Afonso ia para se sentar no fauteuil da direita, mas desviou o corpo e foi atirar o seu pélvis, que
era estreito como de rapaz, para o maple grande. E dando estoiros com o papel, esticando-o com estrondo, começou a passar
os olhos pelo Regiões e pelo Nova Metrópole. Quando os levantou, pousou-os em Milene.
«Foi você, Milene, quem contou estas porcarias a estes escrevinhadores de merda?»
Milene ia responder. Estava preparada. Mais veloz do que a notícia que passa, do que a seta que voa, Totus Tuus, Introibo
ad Altarem Dei, você, moça muito inteligente, você pessoa boa, pessoa formidável, acredita, tens de te desenvencilhar
sozinha, e assim por diante, Milene a apertar a asa do saco, completamente pronta para responder, a memória aberta como um
cravo florido dentro da sua cabeça, mas não iria ter tempo. As tias responderam por ela.

«Não senhor, não foi a Milene» — disse Gininha, saindo do seu estado de estupor húmido. «São uns estúpidos, uns
mentirosos. Milene não falou com ninguém. Estava perdida, a nossa sobrinha. Sem nós, sem vivalma por perto. Mesmo assim,
cobriu a nossa mãe de flores, em cada coroa pôs o nome de cada um de nós. Os nossos nomes todos lá. A pobrezinha teve
capacidade para tudo isso. Outros não teriam. Mas esses malditos aproveitaram-se da situação, de modo sórdido. Até do nome
da pobrezinha...»
Afonso olhava de frente para Milene, trespassando-a, e lia e relia as notícias como se as mentiras dos jornais,
desenvolvidas em forma de folhetim, fossem a melhor fonte para o seu esclarecimento. Havia ali informações que naquele
momento não conseguiria descobrir de outro modo. Dobrou-os, olhou à volta e disse às irmãs, como se uma nova etapa da
vida se iniciasse — «Pois a mãe foi a responsável de tudo isto. Eu sabia que um dia ela iria tramar qualquer coisa. Não era
pessoa para facilitar a vida a quem quer que fosse. Ao menos com o pai foi apenas um copo de álcool, numa manhã de
Dezembro, ali no jardim. O copo tombou no chão e ele caiu para o lado. Morte limpa, serena, acabou. Mas ela, não. Eu sabia.
Ela quis que parecêssemos maus. Maus filhos, péssimos filhos...»
«Não grites...» — disse Ângela Margarida gritando por sua vez. — «Isto é assim, Afonso. Há pelo menos seis acções a
mover de imediato. Porque o assunto também é político. Seis...» Os dois irmãos cruzando-se em andamento, como se
dançassem.
«Não contem comigo» — respondeu Afonso. «A mãe foi a responsável. E não foi para me castigar a mim, que a via muito
pouco. Ultimamente eu nem vinha aqui a casa, sequer. Foi para culpar vocês. Ela quis demonstrar urbi et orbi como vocês a
tinham abandonado em pleno mês de Agosto. Más filhas. Percebem? Pode não ter agido com o raciocínio, mas fê-lo com o
instinto. Contra vocês. Lá dentro da cabecinha dela, a pensar — Espera, uma está em Cancun, a outra nas Canárias, pois vou
tramá-las... Processos? Seis? Não contem comigo. Vou dizer para que serviriam tais processos num caso destes... Não digo,
não vale a pena dizer mais palavras ordinárias, já chegam. Foi a mãe, ela própria, quem engendrou essa história das formigas.
Foi tudo maquinação da mãe. A mãe pensou nisso tudo, nessa eventualidade. Ela sabia...»

A sala grande, com seus móveis pesados, tinha-se sumido. Em vez de gente, só havia paixões. Sentimentos arrebatados
contra sentimentos. A tia Gininha olhava, incrédula, para o irmão. Segundo ela, as suas palavras revelavam uma interpretação
maligna e aviltante. De modo nenhum aceitava aquelas palavras. O seu respeito pela mãe mantinha-se inalterado. Já Ângela
Margarida não deixava de compreender a suspeição de Afonso. Passeando entre os dois cadeirões, e colocando-lhes uma mão
em cada encosto como se fosse sobre dois ombros, foi conciliadora — «Não digo tanto, mas que sempre foi o excesso de
genica da mãe que nos afundou, ai isso foi...» E olhou em frente. Os três tios, circunspectos, à procura duma resposta. Milene,
atrás dos três, à espera duma outra resposta. Todos estavam mergulhados em pensamentos que não tinham a ver com a
verdade. Acaso nenhum dos tios se interessava por tudo quanto ela sabia? Ela, Milene?

Não, ninguém se interessava.

Em frente, a nogueira enrolava os ramos, fechava as abas. Cobria o jardim, dava-lhe uma cor de bafio que provinha das
folhas não varridas nos últimos dias e do excesso de água da rega automática que ali aspergia a horas marcadas, esguichos que
atingiam o que não deviam, de forma não controlada. Era isso, bafio silvestre. Cogumelos invisíveis, tubérculos, rizomas
enterrados, um pedaço de húmus fértil no meio de terrenos desertificados. Trocas de terra por viço nas folhas, pétalas
desfazendo-se em terra, umas matérias transfigurando-se na essência das outras, esse breve circuito sem sentido que os tios de
súbito registavam com amargura desusada. Era isso. Para eles, de repente, a vida parecia ter ficado sem sentido. Ou o seu
sentido aparente, apunhalado. E enquanto os três tios, por ali sentados, mergulhavam cada um em seu estado de estupor,
Milene olhava para o relógio e verificava que já eram duas horas da tarde, e ela continuava preparada como se fossem dez da
manhã. Totus Tuus, Verbum Carum. Os três tios em silêncio. Ela em silêncio, guardando com o olhar o fauteuil da avó. Até
que o tio Afonso se levantou, olhou para o relógio e perguntou — «E os outros? De que estamos à espera? Não vêm? Faltam o
Dom. e o Rui, ou não faltam?» E levantou o assento do sofá grande para se sentar no cadeirão esquerdo da avó, aquele de
onde ela vigiava a evolução do jardim. E com o seu pélvis de feitio juvenil, sob roupas juvenis, nubentes, o pai de João Paulo
enroscou-se no fundo do cadeirão. Milene estava preparada para tudo, menos para aquilo. Ah! Ele vai sentar-se no cadeirão
da avó..., pensou várias vezes. Deveria dar um grito? No meio daquele silêncio? Se não desse, deveria proceder de que
modo? Puxá-lo, tirá-lo dali para fora? Milene não conseguia retirar os olhos daquele corpo grande, encaixado num fauteuil
que fora feito para o corpo da avó, não para o dele. Sentado num cadeirão que não era dele.
Milene tinha prendido as duas mãos ao saco.
Coragem, muita corage, olhe que você é uma moça muito inteligente, muito formidável. Você está mas é em estado de
choque. Você sabe o que é um estado de choque? Sabia sim, agora mesmo ia ela gritar para que o tio se levantasse daquele
cadeirão. Já, já. A tia Ângela Margarida olhou para ela e disse, de forma demasiado peremptória, para quem ia soltar um grito
— «Já contas como foi. Infelizmente, soubemos de tudo muito deturpado. Soubemos por quem não testemunhou nada...» E
talvez porque a tia Ângela Margarida falasse daquele jeito, ninguém ouvira o ruído de um outro carro. O som anunciava o
carro do tio Rui Ludovice. Não havia dúvida, era ele mesmo quem já subia os degraus. O tio Afonso também já se tinha
levantado do fauteuil. O tio Rui havia entrado de rompante, vindo de encontro ao cunhado. Batia-lhe nas costas. O resto era
silêncio. Ouviam-se, no silêncio, as pequenas palmadas que o tio Rui desferia nas costas do tio Afonso.
«Que chato, tudo isto, mas que chato...»
As tias sentadas, com as pontas das omoplatas unidas, as costas muito direitas coladas aos maples. Os lenços molhados
apertados entre as mãos, longe dos olhos, as lágrimas nas mãos, não nos olhos. As lágrimas nos lenços de assoar. E o tio Rui a
dizer — «Uma grande maçada. Uma coisa inexplicável...» — Verbum Carum, Pax Domini, como a ave que voa pelos ares,
como a seta atirada contra o alvo, que embora fenda o ar, logo se une, é agora que vai acontecer qualquer coisa. Sim, o tio Rui
Ludovice tinha entrado.

Alto, ágil, vestido de linho castanho-claro, camisa marron, gravata castanho-escura, de seda brilhante. O cabelo ondulado,
caído sobre o colarinho. Tinha chegado. A grande sala da avó Regina, onde cada um até ali se entregara à tortura dos
pensamentos, de repente, tinha ficado cheia duma outra substância, arrumando a um canto a outra que lá havia. Pois Rui
Ludovice acabara de voltar do estrangeiro, forçadamente, e naquele primeiro dia de regresso ao trabalho, já vinha de
experimentar a força da administração, a agilidade da rua, a largueza da vasta praça pública onde se delineavam e erguiam as
coisas. As coisas reais, sociais, palpáveis, avaliáveis, tangíveis. Talvez por isso não pudesse deixar de sorrir face ao estado
de perturbação em que vinha encontrar os filhos da avó Regina. E o tio Rui Ludovice abraçou uma a uma as mulheres
acabrunhadas. A sua própria mulher, nem a reconhecia. Abraçou Milene. Vinha directamente do ar, da rua, da graça da vida,
reparou na indumentária de Milene, e fora do contexto das lágrimas e dos suspiros, o tio disse — «Com que então, em fato de
praia... Pronta para uma banhoca, não é verdade?» E Milene olhou-se. Era verdade, estava vestida com as bermudas de
Claudina, mas não ia dizê-lo. Não era para isso que estava preparada, nem tinha vindo sentada no banco do BMW com o
Frutuoso, para falar sobre a roupa que vestia. Não era sobre esse assunto, por certo, que o tio queria obter informações. E a
prova é que ele retirou os olhos da indumentária cor de laranja que ela usava e perguntou — «Afinal com quem falaste tu,
Milene, naquele dia? Diz lá».
Milene sentiu o coração saltar dentro do peito. Finalmente tinha chegado a sua vez. Sim, finalmente. Mas tinha de pensar
naquele dia e com quem. Olhou o tecto para se concentrar, fixou muito bem o estuque do tecto e pôs-se a pensar. Pensou
naquele dia. Pensou nos cangalheiros, no homem das bombas de gasolina, no médico, na freira, no padre, nas frases do padre a
dizer só para ela, como uma notícia que passa, como um navio que vai cortando as ondas agitadas, e assim por diante,
prova de que continuava preparada, lembrava-se de tudo. Desceu o olhar do tecto, a rir para o tio. Ia dizer, ia enumerar. Ele
respondeu por ela.
«Já sei, vais dizer-me que não falaste com ninguém...»
Ela disse — «Falei». E riu para ele, para as tias e para o tio Afonso também.
O recém-chegado desapertou um pouco a gravata. «Está bem. Está bem. Ninguém falou com ninguém. Já sabemos...» —
disse o tio.
«Os jornalistas alimentam-se da desgraça dos outros, como os ácaros, da poeira. É assim em toda a parte. Deixá-los,
coitados. Ninguém compreende muito bem como sabem o que sabem. Lá vivem no seu mundo invisível... Não faz mal. Em
caso de acidente, cá está o Rui para apanhar de todos os lados. Mas o Rui há-de desenvencilhar-se sozinho. Tem as costas
muito largas... Batam, batam. Quanto mais batem, mais uma pessoa endurece. Ainda vão arrepender-se...» — O tio falava, no
meio do livingroom da avó Regina, apressado, como era seu hábito. Tinha despido o casaco, e quando passara pela primeira
vez junto da tia Ângela Margarida, havia-lho pendurado nas mãos. As costas bem lançadas de Rui Ludovice apareceram na
sua amplidão. Ficou em camisa. Ficou marron. «Vamos a factos».
«Que factos, tio?»
Milene queria falar. O tio poderoso não queria ouvir?
Ele não respondeu. Sem casaco, dirigiu-se para as portas que davam para o jardim da nogueira e escancarou-as, com ruído.
E o sol das duas horas, no esplendor da claridade, atravessou as folhas e os ramos e poisou nos móveis de cerejeira, nas
loiças brancas, nos tapetes vermelhos e nas molduras douradas, como se de súbito tudo isso ficasse à venda. Ele abria com o
pé, escancarando bem os vidros, arredava os panos pendurados com os grandes dedos ágeis, franqueando zonas onde havia
teias e cotão, evitando-as e sacudindo-se. Depois deu um último pontapé no rolo protector do pó de onde saíam pedaços de
folhas velhas. A rua tinha penetrado em casa. A casa clarificada. E ali dentro tudo se moveu, tudo entrou em acção. Na
verdade, mais do que o tio Rui Ludovice, o que tinha entrado ali era a Acção. Outros só fazem gestos, nós somos a Acção. A
Acção, porém, saiu para o jardim microclima, onde os cheiros da poeira e das folhas se misturavam como se houvesse um
estrume no ar, e olhou em volta, de longe, como um avaliador, para vender e para comprar. Não era preciso dizer nada, era só
o jeito de mover os olhos. Entre o desconfiado e o enternecido. Semelhante ao olhar com que um homem avalia o corpo duma
mulher exposta. Assim observava ele a fachada da vivenda, com um olhar levantino, deixando as portas abertas diante do
micro-clima. As costas do tio um pouco transpiradas. Perguntando, no meio do jardim — «Não estava combinado que o Dom.
viria? Faz aqui muita falta...» E uma vez que Afonso não saía da espécie de torpor em que se encontrava, agarrado a uma
parede desbotada, o tio Rui subiu os dois degraus, entrou no living e disse para o cunhado, como se anunciasse uma tragédia
económica consumada — «Deves ouvir a opinião do Dom., mas a minha é esta — Como imóvel não vale nada. Uma boa
construção, em situação vermelha. K. O. Problema da maldita da estrada. Trabalho daquele burgesso do meu antecessor...» E
tamborilou com os dedos no umbral da janela. Milene a olhar para as mãos do tio Rui, os móveis, as pernas das tias, os sofás
onde elas estavam enterradas, distantes dos fauteuils. Tudo e todos expostos na luz.

Mas daí em diante o assunto seria outro.

Também ela exposta na luz. «E a garota?» — quis saber o tio Rui, como se a própria não estivesse presente.
Tinha-se feito silêncio. A acção inactiva. A inacção calada. Silêncio no livingroom da Villa Regina. Silêncio. Ouviu-se
uma folha da nogueira cair no chão, com um som de lata. Ninguém olhava para Milene.
«Não sei se vai ficar» — disse Gininha, por fim. «Acho que deveríamos levá-la».
«Levá-la» — disse Ângela Margarida. Era tudo muito rápido.
«Para onde?» — perguntou Gininha.
«Ah! Uma coisa terrível aconteceu» — disse a irmã, os cabelos quase louros, brilhando intensamente na poderosa
luminosidade que entrava em casa e ofuscava tudo.
«Um momento» — Rui Ludovice tinha pressa. O juízo rápido e perfeito, livre dos sentimentos que prendiam os outros à
inacção. «Um momento. Por todas as razões e mais alguma, a Milene precisa de ficar aqui. Precisa de ter responsabilidade
por si mesma. Manter a sua estabilidade emocional. Ficar a viver na casa onde sempre viveu. Precisa de autonomia e de
trabalho próprio. Precisa acima de tudo de regularidade e continuidade na sua vida. Seria assim que eu decidiria, se
tivéssemos de decidir, e se ela fosse de facto minha sobrinha...»
«Só que a mãe pediu que nunca a abandonássemos» — Gininha afastou os longos cabelos, que por vezes se uniam em frente
do rosto como uma cortina.
«A mãe agora já cá não está para impedir que a vossa sobrinha seja uma pessoa que cuide de si. Que habilitações ela tem?»
Como se Milene não estivesse presente, Ângela Margarida respondeu por ela — «Só fez Ciências e Desenho do Nono».
«E o que gosta de fazer?»
Ângela Margarida perguntou a Milene — «O que gostarias de fazer? Servir à mesa? Tratar de crianças?»
«A tua avó não permitia» — continuou o tio Rui. «Mas nós permitimos. Agora podes ter horário, dinheiro e convívio com
outras pessoas. Afinal tu conduzes o teu carro, vais às compras, cozinhas, és uma pessoa autónoma. Vamos arranjar maneira de
poderes fazer aquilo de que gostas. Trabalhas quando queres, regressas quando queres, estipulas os teus compromissos. Vais
ter o teu ordenado. Vai ser bom, não vai?» — O tio olhou para o relógio. Duas e vinte. Um almoço marcado. Mas Acção era
acção. Quem poderia dar um job à sobrinha? Quem? Quem? Já sei. O tio olhou para uma agenda, marcou um número e falou
muito alto — «Barbosa? Temos aqui um assunto particular. Já sabe o que aconteceu à sua madrinha? Sim, faleceu. Sim,
precisávamos que desse um jeito à nossa sobrinha...» Virou-se. Nas costas da Acção, o suor fazia uma mancha ainda mais
marron. Falava agora em voz baixa. Terminou. Desligou o telefone. Clique claque. Olhou para Milene e disse — «Tudo
tratado. Começas quando quiseres. Primeiro à experiência. Já está».
«Mas já está, como?» — perguntou a tia Gininha. «Se nós não sabemos com quem falaste, como vai ela saber?»
Então o engenheiro Rui Ludovice pôs as duas mãos nas costas do fauteuil da esquerda — não se sentou, o tio Rui nunca se
sentou em qualquer um dos fauteuils da avó Regina — e reproduziu a conversa que acabava de manter com o proprietário do
Restaurante Mãos Largas. Era para quando ela quisesse. Poderia ser no dia seguinte. Em face disso, Milene pensou que estava
preparada para contar tudo o que se tinha passado durante aqueles cinco dias, entre catorze e dezoito de Agosto, mas não para
dizer sim ou não àquilo que ali se passava. E as tias perguntaram-lhe — «Sim ou não, Milene? Sim ou não?» As tias a
sorrirem para ela, ela a sorrir para as tias, todos em pé, ninguém nos fauteuils, ninguém nos sofás, nenhum cotovelo nas mesas,
o tio Afonso todo de branco ali mesmo em frente. Pois não diria nada. Não iriam obrigá-la a responder a um assunto para que
não estava preparada. Ria para eles, mas não respondia.
«Não dizes nada?»
E o tio Rui Ludovice mediu-a de alto a baixo, como se aprovasse que ela não respondesse — «Fazes bem em não decidir já.
Se calhar a tua avó nunca deixou que transportasses uma bandeja durante toda a tua vida. Pois logo se vê...»
Devia ser o tio Rui, grato a ela, pela ideia das flores. Em vez de a confrontar com as calúnias dos jornais, o tio agradecia-
lhe a ideia que tinha tido de colocar uma coroa em nome do Presidente da Câmara de Santa Maria de Valmares. Em nome
dele. Do tio. O tio a guardar os dois fauteuils, uma mão em cada um deles, nas costas deles, nas orelhas deles, impedindo que
os outros aí se sentassem. E ela, por isso mesmo, grata ao tio Rui, que tinha vindo mudar tudo o que ali se passava. As tias
sem lágrimas, o tio Afonso sem dizer palavras ordinárias proibidas pela avó Regina. Só, calado, a olhar para a ponta dos
sapatos brancos. O tio Rui Ludovice, supermarron na mancha de suor, a receber das mãos da tia Ângela Margarida o casaco
castanho-claro, a pô-lo por cima da camisa marron, e ela ainda queria ter dito, porque estava preparada, o que tinha
acontecido na Câmara, como lá não estava ninguém, nem na manhã de sexta-feira nem na manhã de sábado, e como fora aí que
lhe tinha surgido a ideia de mandar colocar as flores em nome dele e da Câmara. Ela queria dizer, pelo menos a ele, que afinal
se interessava por ela daquela maneira, todas as palavras dos outros, que tinha guardado, Pax Domini, Introibo adAltarem
Dei, como a seta, como a ave, como o fumo, et cetera, sim, tio, eu vivi durante vários dias dentro do diamante, e tudo o mais,
só que não podia dizer nada, enquanto o tio não o permitisse. Ele aproximou-se dela e disse-lhe — «A Milene fica aqui muito
tranquilita em Villa Regina, acompanhada pelos seus tios... Agora tenho de ir. Já o Frutuoso deve estar aos saltos». A Acção
em movimento, a despedir-se da tia Ângela Margarida com muita pressa. Depois tinham de falar, havia mil coisas por
arrumar. Mas agora tinha de ser rápido. Tinha vindo surpreender cada coisa. Procurou os óculos de sol que não sabia onde
estavam — «Enterrar os mortos e cuidar dos vivos, não é?» Disse, à procura dos óculos. O tio Afonso, porém, barrou-lhe a
saída.
«Então o que é isso, Rui? Chegas, falas, dizes umas coisas, e pronto, desapareces. Pois eu acho que isto vai complicar-se.
Adivinho uma grande borrasca. Por exemplo, quem vai fazer companhia à rapariga? Não é por nada, é só para ficarmos
esclarecidos».
O tio Rui, já pronto a abandonar o livingroom, voltou a sentar-se — «Onde está a mulher a dias? Como se chama a mulher a
dias? Juliana? Onde está o número de telefone dessa Juliana?»
O telefone abriu-se-lhe na longa mão. Chamou — «Ó Dona Juliana, daqui fala o Presidente da Câmara. Você por acaso não
deveria estar aqui em casa da minha sogra? Não sabia que a minha sogra tinha morrido? Está bem. A Dona Juliana estava de
férias. Continua em férias? Pois é assim. Ou vem ou procuramos outra pessoa. A minha sobrinha não vai ficar sozinha.
Compreende? Não pode mais horas nem tem mais tempo? Duvida. Se não pode, diga logo, que procuramos outra pessoa. Não
pode. Pode. Então venha logo e combine tudo com a minha sobrinha. Sim, estamos aqui. Se não pode pegar antes, pegue às
cinco. Combine com a minha sobrinha...» A Acção fechou o telefone — clique, claque. Já está. «Mais alguma coisa?» — Não,
ninguém via mais nada. Todos sentiam uma forte pancada na cabeça. Já ali estavam os óculos. Na sua frente, estava o cunhado
com as mãos postas por cima do pélvis estreito, vestido de branco, mas não foi para ele que Rui Ludovice falou, foi para
Milene. Percebia-se que a Acção fazia elipses na sua cabeça, interpretava saltos. A Acção a fazer sinopses para ser mais
rápido. Do cunhado para Juliana, de Juliana para Milene — «Depois tens de me dizer tintim por tintim, com quem falaste.
Vamos apurar tudo por nossa conta e risco, nada de acções judiciais. Que acções judiciais?» Referia-se sem dúvida à intenção
da tia Ângela Margarida, mas para ser mais rápido e eficaz, poupava o nome da mulher.
Agora o tio Rui Ludovice já tinha o casaco, os óculos, o telefone, a agenda, os bolsos das calças, os bolsos do casaco, da
camisa, apalpou o longo corpo acabado de ginasticar numa piscina longe, tão longe que não ia nomear, para não confundirem
com o Japão ou com a China — coisas patuscas que aconteciam, pois eles tinham estado exactamente no lado oposto, em
Cancun — apalpou o longo cabelo encaracolado luzindo de óleo de essência de coco, apalpou a Acção, a acção do corpo, a
acção da mente, e saiu, ficando o livingroom de Villa Regina escancarado, ensolarado, esverdeado, e os tios perdidos dentro
dele, cheios de tontura. Tontura sobretudo na cabeça das tias. Alguma tontura nas fontes do tio Afonso Leandro. Eram quase
três horas. «Adeus, Angelita» — disse o tio Rui Ludovice à tia Ângela Margarida, antes de sair. Mas aí concretizou — «Nada
de processos judiciais. Há outros meios. Em política, só há mesmo outros meios, infelizmente. A Milene logo fala. Tem de ser
com jeito, com tempo. Logo fala...»

Mas o luto ainda não tinha terminado.

As tias fecharam os vidros, desceram as persianas, as teias ficaram invisíveis, as palhas escondidas, as manchas
confundidas com as porcelanas, as nódoas da pintura confundidas com as escaiolas, e a sombra entrou de novo de mansinho
com suas múltiplas patas. O desgosto voltou a vicejar. Os três filhos uniram-se em torno duma espécie de sonolência, onde o
luto assumia uma forma de prazer dolente. Nenhum dos tios com fome, nenhum com sede. A repetirem as palavras do início,
aviões, processos, formigas, notícias, jornais, a missa de sétimo dia que não haveria nunca. Voltava a viver-se ali alguma
coisa de funesto e de lunar. Mas Milene tinha a certeza de que, se eles se afastassem, a casa ficaria desimpedida. Agora, que
já sabia que não iria ter ocasião de explicar coisa nenhuma, queria que todos se fossem embora.
As tias, porém, retardavam a partida porque andavam entre os móveis da sala, abrindo gavetas, mirando roupas, observando
toalhas, e as suas mãos metiam-se lá dentro, moviam tudo, embora não trouxessem nada. «Que distinta era a mãe...» — dizia
Gininha, o seu longo cabelo a cobrir-lhe a cara. — «E bainhas abertas, ajures, como já não há...» — dizia Ângela Margarida,
aparentemente esquecida das suspeitas de Afonso, arrumada às cómodas das roupas da sala, encontrando nelas o espelho da
alma da mãe. E Gininha achou exactamente um pedaço da alma da mãe, ao deparar com os leques com que ela se abanava, o
sopro de ir e vir, atrás do pulso grosso da mãe, com o barulho fino das pulseiras da mãe, suas sardas de velhice pintalgando a
mão, as duas filhas a ouvirem esse sopro, a olharem para o leque, e as lágrimas de ambas as tias a confundirem-se, diante do
olhar embezerrado do irmão mais velho, Afonso Leandro. Também ele a escutar o movimento das mãos da mãe, coisas
femininas que o apanhavam de surpresa, tocando-lhe num lugar masculino sensível a leques e a panos. — Que coisa teria
acontecido? Parecia ter abandonado a tese da conspiração da mãe contra os filhos, sobretudo contra as filhas. Agora, com as
palavras contidas, deixava a surpresa voltar à vida. E de súbito, quando a tia Gininha via a alma da sua mãe nas taças bago-
de-arroz que mirava, só mirava, colocando-as delicadamente como as encontrava, tocando-lhes só com as pontas dos dedos,
dizendo exemplarmente empilhadas, a tia Ângela Margarida descobria cartas enlaçadas com fitas que mostrava como se
fossem biografias. Colocar no mesmo sítio, tias, colocar, colocar. Lá estavam as tias, uma e outra, tocando nas coisas
intocáveis da avó Regina. E então sucedeu que Afonso Leandro, como se acordasse dum luto de anos, se levantou, olhou o
relógio, tomou o telefone entre mãos e começou a marcar um número.

Enquanto marcava, o tio virou as costas possantes, movendo-se sobre as pernas ágeis, caminhou na direcção das portas que
davam para o jardim microclima, mas em vez de o seu corpo inferior transportar o superior até aos vidros, como seria de
esperar, virou-se, e como a pessoa do lado de lá respondesse, curvou-se pela cintura e atirou o seu assento para um dos
fauteuils da avó. Enfiou aí o seu pélvis, removeu-se, encaixou-se, passeou com a mão pelo braço do cadeirão, o da direita,
aquele donde ela via a televisão, e como se tivesse caçado alguma coisa aérea muito procurada, disse muito alto — «Isabel!»
Gritou. «Ainda aqui estou...» E em vez de se levantar, recostou-se completamente no fauteuil da avó Regina.
«Sim, ainda...»
Recostou a parte de cima e a parte de baixo, a própria cabeça ficou bamboleando entre as duas orelhas do cadeirão como se
todo ele lhe pertencesse, e se lhe entregasse, esmagando ali a sombra da avó. E Milene sentiu uma substância opaca cegá-la
para tudo o mais que não fosse aquele corpo de filho velho em estado fetal, e gritou de tal modo que Afonso Leandro,
sobressaltado, desligou o telefone e levantou-se, olhando para o assento — «O que é que eu fiz?»
«Saia daí já, saia, saia!»
Milene agarrada pelas tias, fincada nas pontas dos pés, com os calcanhares afastados e os joelhos unidos, disse-lhe —
«Salte já desse cadeirão...»
«O cadeirão é da avó Regina. Percebe?»
«Percebe isto que eu lhe estou a dizer?»
«Levante daí esse seu cu de galã...»
Ela própria sabia que os seus olhos tinham ódio, e enfrentavam o tio. Enquanto ele, homem maduro para cima, rapaz para
baixo, ficou parado, atordoado. Toda a noite sem dormir. Quatro horas de atraso em Heathrow, esse lugar devassado. Quatro.
Ficou parado. O oposto da Acção em acção. A Inacção em inacção. Ele que tinha sido um comando e aos fins-de-semana era
um dos bons cavaleiros do hipódromo, para além de ser um expedito advogado, com escritório junto ao tribunal, estava inerte
diante da sobrinha.
Aliás, Milene também sacudiu as tias com os cotovelos, um cotovelo para cada uma das tias, e disse que se fossem embora,
que deixassem aquele lugar em paz, que elas não tinham nada que mexer nos objectos da avó Regina, a não ser só para ver, só
para olhar. E as tias, Gininha e Ângela Margarida, sacudidas pela ponta de cada um dos seus cotovelos, desconheciam a
sobrinha, era a primeira vez que lhe testemunhavam um acesso de fúria daquela intensidade, ou má-criação, o que não era
indiferente ser uma coisa ou outra. Mas fúria seria apenas fúria, e má-criação era muito pior. Só que elas estavam ainda a
acreditar que se tratasse apenas de fúria — «Milene?»
«Calma Milene, ninguém te quer fazer mal...»
Aproximando-se uma e outra dos cotovelos de Milene como quem se aproxima dum felino estimável subitamente
embravecido. A perdoá-la, a acalmá-la, a dizer que sim, que ninguém mais iria tocar nos lugares sagrados que tinham sido da
avó Regina. A acção contemporizadora a entrar nas veias das tias e a aparecer-lhes na cara. Os três irmãos unidos, já distantes
dela, com medo dela. Ela distante deles. Milene, exaltada, a ouvir diante de si, Olhe que você é uma moça muito esperta,
muito formidável, se eles a chatearem, moça, você não se deixe rebaixar... Defenda-se, defenda-se. Totus Tuus, Introibo ad
Altarem Dei, Misereatur tui, palavras tomadas dos outros, como a ave que voa, a notícia que passa, o fumo dissipado na
aragem, passagens do Livro da Sabedoria. Ela é a sobrinha do Senhor Presidente. Coragem. Desapareçam todos da minha
vista.
Ninguém dominava Milene — «Vão-se embora para vossas casas. Eu quero que a tarde os engula a todos. Que
desapareçam. OK? OK?» Com a voz muito fininha — «Que a tarde engula a todos vocês, mais as putas das vossas vidas...»
V
Sim, a tarde engoliu os tios e as tias, os seus carros e os seus cabelos, os seus desgostos diferentes. A tarde levou-os
consigo rua abaixo, na direcção dos telhados do Frame Store e do Big Market, deixando, no lugar das suas lágrimas e
suspiros, uma espécie de sombra silenciosa que deveria ser a paz. Também as tias tinham dito — «Agora vamos descansar».
E como ela guardasse a porta atrás da qual os fauteuils da avó ficavam em paz, bem como o seu televisor e o seu tamborete,
Afonso Leandro tinha gritado — «Foi esta espécie de pessoa que nos deixou o José Carlos? Foi isto que ele nos trouxe, para
sempre, dentro duma trouxa de roupa? Foi isto que ele legou para a posteridade aos pobres dos seus irmãos? Esta pessoa
inacreditável?...» — tinha dito o tio Afonso, a apontar com seu braço de cavaleiro na direcção de Milene, todo ele cansado do
voo nocturno entre Chipre e Atenas, bem como das quatro horas perdidas em Heathrow, tudo para nada. Cansado. Estoirado
de ter lido os pasquins, as terceiras páginas dos pasquins com chamadas de primeira página, cansado de procurar dentro da
alma palavras decentes para exprimir pensamentos que só poderiam ser indecentes. «Foi esta pessoa inacreditável...» — tinha
dito o tio, ao ser levado pelas tias, cada uma em seu braço, como duas cariátides, empurrando-o pelo jardim microclima
abaixo, na direcção do descapotável. «Deixou-nos o José Carlos esta pessoa sem modos nem maneiras que nos tem
envenenado a vida. Foi tudo o que nos deixou...»
«Não digas isso num momento destes, Afonso. Calma, meu irmão... Agora vamos todos mas é descansar um bocado. Logo
voltamos à noite. O que é preciso é manter a calma...» — disse a tia Gininha, dando um pequeno trambolhão no bengaleiro. A
tia Ângela Margarida tinha as pálpebras altas inchadas. Uma muito mais inchada do que a outra, por causa do bicho que lhe
havia passado por cima, em Cancun. Completamente determinada, a tia continuava a levá-lo pelo braço, a fazê-lo descer os
degraus exteriores da casa, à frente das suas mãos. As duas tias a conduzirem o tio para fora do muro com heras, a fazerem-no
atravessar o portão de ferro onde se lia Villa Regina. Daí mesmo, ainda se podia ouvir o tio Afonso berrar — « Aquela
pessoa que me põe possesso...»
Depois é que a tarde levou os três tios nos três carros, ao longo da estrada, levou as suas olheiras e os seus fatos
amarrotados pelas longuíssimas viagens das férias que não tinham terminado.
As tias tinham dito — «Meu Deus, vamos descansar um bocado...»

Também Milene precisava de descansar.

Precisava, sim. Enquanto eles não abalavam, ela tinha ficado no limiar da porta, para ter a certeza absoluta de que
desapareciam, e as suas mãos tremiam no meio dos batentes. Isso acontecia, porque Milene sabia muito bem o que o tio
Afonso queria dizer quando começava a gritar. Mas sendo assim, por que motivo, naquele momento, o tio Afonso não ia logo
direito ao assunto, como das outras vezes, quando se enfurecia com ela? Porque não começava logo por dizer que o José
Carlos tinha sido um verdadeiro desastrado? Que sempre se tinha embeiçado por causas inúteis, até chegar ao cúmulo de se
ter devotado a uma hospedeira do ar, que ainda antes de lhe ter dado a filha já o havia enganado mil vezes? Porque não era
directo, naquele momento, e não dizia as palavras todas, uma por uma, como certa vez tinha acontecido, estando presente João
Paulo? Quando o tio Afonso havia dito, diante de João Paulo — Olha, filho, estava ela já para ter a Milene e ainda lhe
punha pares de chavelhos do tamanho de antenas de televisão, com o primeiro que aparecesse... Assim, tal e qual? O tio
Afonso bem podia voltar para trás e repetir o insulto outra vez. Podia voltar de novo a dizer que o José Carlos nunca deveria
ter trazido para a casa da sua própria mãe, em plena Noite de Natal, uma alcofa de folhos contendo uma recém-nascida lá
dentro. Uma coisa pequena e vermelhusca, já catalogada com nome de novela. Um nome escolhido pela hospedeira do ar,
Milene. E essa Milene era ela. Sim, porque não dizia? Em vez de lhe chamar apenas essa pessoa inacreditável, porque não
dizia tudo isso, como já o tinha feito vezes sem conta? Porque não se libertava ele das duas irmãs e não voltava atrás, para
descarregar as energias de veraneio contra ela? Pois ele que voltasse e lhe dissesse de novo, cara a cara, que o José Carlos
tinha feito com a sua própria vida o mesmo que havia feito com a Fábrica Velha. Que o acusasse pela milésima vez de ter
entregue a jóia de família ao deus-dará. Era isso mesmo que ele lhe queria dizer, ela sabia.
Conhecia o tio muito bem.
No momento em que o tinha visto avançar a caminho do descapotável, entalado naquela roupa justa, ela lembrava-se de tudo
quanto ele lhe dizia. Ele lá ia, amarrado entre as duas tias, aos tropeções, deixando-se levar, obediente, só porque deveria
estar cansado. Mas se não lhes tivesse obedecido, se não se tivesse acobardado, virar-se-ia para ela para lhe lembrar, como
era seu hábito, os tais dias de setenta e cinco, em que o pai dela havia entregue as chaves da fábrica aos trabalhadores sobre
uma almofada de veludo. Falaria pela centésima vez na almofada onde a avó Regina antigamente punha o cotovelo para
experimentar jóias e calçar luvas. A almofada onde se lia, em linha dourada, a palavra LEANDROS, e que o José Carlos,
feito estúpido, tinha levado de casa para a entregar a uma cambada de gatunos, como um rei que entregasse as chaves do
castelo a um vassalo. E chamaria ainda a outra cena, a oposta, a de oitenta e cinco, quando os mesmos gatunos tinham
devolvido as chaves já podres, sobre a mesma almofada, podre também. Sem nunca referir o acampamento dentro da fábrica
nem tão-pouco o melhor Verão das nossas vidas. Isso já não interessava ao tio Afonso. Interessava-lhe, sim, lembrar a
estupidez do José Carlos, tão altivo, tão inteligente, e que afinal se tinha destruído, engendrando uma filha numa hospedeira
devassa, furtando-lhe em seguida a criança para a forçar a vir procurá-lo, pensando que a prostituta do ar possuía instinto de
mãe, o que não era verdade, porque ela, simplesmente, nunca ali tinha vindo uma única vez. A criança era ela, Milene. Era
isso que o tio Afonso queria dizer, e só não dizia porque aqueles trapos brancos, trazidos de Chipre, deveriam estar a fazer
dele um completo cobarde.
De outro modo, nem teria saído da sala. Teria lá ficado, aos berros, para lhe lembrar como José Carlos, ainda não contente
com o grande fracasso do seu casamento, passados alguns anos, por sua livre iniciativa, tinha ido a Lisboa buscar a
hospedeira do ar, e como numa recta do Alentejo — tão recta, tão recta que nem era preciso pôr as mãos no volante — o carro
havia capotado com os dois sentados lá dentro. O tio Afonso até costumava rir, quando dizia que na melhor das hipóteses,
para que não fosse tudo mau, ele gostava de imaginar que o seu irmão havia largado as mãos do volante porque ele e a
hospedeira tinham feito as pazes, e se tinham beijado durante todo o percurso, lembrando que essa era a única flor possível
que se poderia acrescentar ao monte da lata em que se tinha transformado o Porsche do José Carlos, no meio da planície
silenciosa, com uns pássaros lá por cima a voarem, como se nada fosse. E depois de tudo isso, tinha restado ela, a filha única,
Milene, que bem poderia ter sido uma rapariguinha comum, uma boa estudante, uma boa sobrinha, mas não, pelo contrário, a
pouco e pouco tinha-se revelado aquela pessoa inacreditável.
Sim, era tudo isso, no fundo, que o tio Afonso quereria por certo repetir, ao ser levado pelas duas tias, a caminho do carro
aberto, como se fosse um prisioneiro voluntário. Mas se ele tinha vontade de repetir mais uma vez tudo o que lhe ia na alma,
então por que razão o tio não sacudia as tias e não voltava para trás? Porque não subia os degraus e não lhe vinha dizer o que
já tantas vezes havia dito? — Foi o teu pai, Milene, quem nos privou duma intervenção do Estado na Fábrica Velha. Se ele
não tivesse entregue as chaves àquela cambada, naquela altura, a nossa família teria empochado trezentos mil contos como os
demais, o que teria dado para distribuirmos pelos cinco e ficarmos todos bem. E assim ficámos todos mal, e ainda por cima
ficámos contigo, uma pessoa inacreditável. Ouviste? Podia ter dito o tio Afonso. Aliás, nesse momento, ainda ele estava a
tempo de sair do descapotável e voltar, e ela ainda continuava à espera no limiar da porta da Villa Regina, para, no caso de
ele voltar mesmo, ela fazer assim e assim. Fechar a porta e depois de fechada dizer, com a voz fininha, como só ela sabia
fazer — Não volte cd mais, ouviu? O tio e as tias que fossem para sempre descansar. Afinal, ela sentia-se muito bem, sozinha
em casa, vestida com as bermudas cor de laranja de Claudina, não precisava de coisa nenhuma.

Descansem vocês.

«Eu, Milene Lino Leandro, não preciso descansar...» — disse, quando a luz intensa da tarde engoliu o tio Afonso e as tias,
os seus carros e os seus cabelos, os seus pensamentos expressos e escondidos, os que ela conhecia e desconhecia, sobretudo,
quando a tarde levou os seus assentos, que ela nunca mais haveria de deixar que se enfiassem nos fauteuils que pertenciam à
avó Regina. Nunca mais ela haveria de consentir que tocassem no que quer que fosse que pertencesse à mãe deles. Já se
tinham servido demasiado bem. Ao vê-los desaparecer estrada abaixo, a Milene só lhe apetecia dizer — «Ufa! Lá se vão
embora. Vão, vão...»
Voltou atrás para se certificar — Teriam ido mesmo?

Pois agora, de propósito, até iria enumerar as coisas de que eles já se tinham servido. Não tinham vergonha — Havia dois
anos que o tio e as tias haviam começado a levar móveis e outras quinquilharias, contando com a condescendência total da avó
Regina. Às vezes, Milene nem se lembrava de nada que estivesse relacionado com objectos e haveres, e se acaso se lembrava
era-lhe indiferente, mas depois daquele encontro, de súbito, até lhe vinha à memória tudo aquilo que a pouco e pouco eles
tinham levado.
Nem era preciso fazer nenhum esforço. Uma verdadeira vergonha. As marcas eram bem visíveis por toda a Villa Regina.
Mesmo ao lado do bengaleiro, donde pendiam os três chapéus da avó, uma mancha viva em forma de medalhão, inscrita na
pintura verde do hall, indicava a moldura oval de onde o bisavô José Joaquim Leandro, de bigode farfalhudo e olhos um tanto
ou quanto assanhados, durante várias décadas, havia vigiado quem entrava e saía de casa. A fotografia pertencia àquela
parede, mas o tio Afonso tinha-a levado, temporariamente, dizendo que lhe faria bem manter por perto aquele olhar visionário.
Tinha-a posto no seu próprio escritório. Tinha ficado com ela para sempre.
Também à entrada da sala, o armário de carvalho de grandes caixões com torcidos havia deixado um enorme quadrângulo
de cor mais clara, sobre o qual tinham pendurado à pressa uma tapeçaria indiana. Fora a tia Ângela Margarida. A estante
inglesa, acompanhada do escadote de madeira, essa havia sido levada com os respectivos livros encadernados, e para o seu
vão, as duas tias haviam puxado um dos maples moles, a nadar entre duas floreiras. Também já tinham levado uma arca de
tampo abaulado, uma antiguidade que a tia Ângela Margarida julgava remontar ao tempo das Descobertas, tendo deixado em
paz tudo o que era Arte Nova, estatuetas e móveis que tanto a tia Gininha quanto a tia Ângela Margarida detestavam, e de onde
a juventude da avó Regina provinha. Muito bom para a avó Regina. Da escada que ligava ao primeiro andar, haviam abalado
dois quadros grandes com batalhas entre espanhóis e holandeses, e uma armada turca sulcando os mares do Oriente, ambos
com assinatura francesa. Tinham só ficado os que representavam a Baía de Nápoles, com o Vesúvio ao fundo, e Veneza, com a
Praça de São Marcos esvoaçada por grandes pombos. A avó havia dito que não se importava. Da sala, porém, eles não tinham
tido a coragem de levar nem a mesa de cerejeira assente em dois pés de galo nem o espelho biselado que a reflectia. Nem a
cómoda dos panos, nem a estante onde se encontrava a Bíblia dos Capuchinhos e a Grande Enciclopédia Portuguesa e
Brasileira. Milene estava a examinar o que tinha ficado. Especialmente o tamborete onde Regina Leandro costumava pôr os
pés, a televisão e a aparelhagem onde a avó habitualmente ouvia música clássica e discos estranhos como Camihito Mio e La
Violetera, e os dois fauteuils azuis, capitonados, um à esquerda, outro à direita. Mas dali em diante, não iriam levar mais
nada. Era tudo da avó Regina.

Vocês são da avó Regina.

Ainda bem que lhes tinha gritado — «Vão-se embora e não voltem nem hoje, nem amanhã, nem depois, nem nunca mais.
Vão, vão... Vão sentar os vossos cus onde quiserem, lá nas vossas casas, não aqui. Abriram bem as orelhas para ouvir?»
Tinha-lhes dito, plantada no limiar da porta, segurando os batentes com os braços abertos. E enquanto isso, a tarde quente a
levar os tios pela estrada fora, a levar os três carros, os três desgostos e as três fadigas, com os seus três desconcertos
diferentes. A levá-los, primeiro a ele, depois a elas.

Que bom. Milene finalmente sozinha, em Villa Regina.


Tinha tudo previsto. Antes de chegar a noite, abriria as luzes da sala, levantaria os estores, e só não abriria os vidros para
que não começassem a entrar as osgas, os mosquitos e as poeiras nocturnas. Afinal, os tios tinham-se ido embora, e ela nem
tinha chegado a dar-lhes conta das duas ideias fundamentais que havia preparado, durante os dias em que se sentira em estado
de choque, e se alojara no diamante. Era isso. E logo o tio Afonso, que havia permanecido incontactável, em Chipre, tão
incontactável quanto a tia Gininha e os outros, todos eles incontactáveis, cada um em sua parte do Mundo, pensando cada um
deles que os outros estavam contactáveis, eram eles que vinham agora chamar-lhe, a ela, pessoa inacreditável. Era urgente
contar ao primo João Paulo.

João Paulo?

O telefone que a avó mantinha perto do cadeirão da esquerda continuava no mesmo lugar. Milene discou a longa fila de
números. As coisas começavam a encadear-se.
Antes de mais, fazia-lhe bem ouvir a mensagem — Hi, you’ve reached five, seven, three, seven... Esperou pelo final da
gravação. Mas em vez de contar tudo o que tinha acontecido, como se de repente uma parte do que sentia tivesse repousado
por saber que iria falar com ele, e que ficaria em segurança neste mundo, quando ouvisse a sua voz, Milene hesitou, calou-se e
depois só disse — «João Paulo? Estou de novo em casa. Esta tarde, o teu pai e as tuas tias estiveram aqui. Depois foram
descansar. Eu também estou a descansar, dentro da nossa casa... Por perto não há ninguém. A vizinhança está toda de
férias. E tu? Estarás também? Liga. Adeus, bye, bye...» Mas não desligou. Continuou a ditar — «Olha, durante umas horas
não ligues porque eu posso não ouvir... Agora, sim, vou descansar um bocado. Vou fechar os olhos, como fazíamos os três.
A rua vai descansar, as sombras vão descansar, a roupa de praia de Claudina Mata, que tenho vestida, vou despi-la, e vai
descansar. E os móveis da avó Regina, aqui à volta, também vão. Vão descansar... Telefona mais tarde. Como vou dormir,
podes telefonar de madrugada, quando for meia-noite aí na tua casa... Bye».
VI
Depois se disse que durante oito dias Milene teria ficado trancada em Villa Regina a ouvir os Doze Sucessos da Cyndi
Lauper, sem comer nem beber, e que só se teria dirigido ao Pomodoro quando já torturada pela fome. Também se disse que
fora a família Mata, ao entregar-lhe o Clio, quem a salvara da inanição, tendo-a encontrado esvaída entre as hortênsias do
microclima, o que não corresponde à verdade. Mas as pessoas gostam de imaginar o grotesco nos outros, para elas mesmas se
sentirem protegidas pela sua suposta normalidade. Poderem pensar — Ah! Como eu sou suficientemente inteligente, como a
minha conduta é quase irrepreensível. Todas as manhãs, regularmente, me levanto. Agora podem contar comigo a tomar café
na pastelaria, agora a tratar dos meus negócios, agora a assinar os meus cheques. Pois na minha família ninguém morreu cedo,
ninguém adoeceu gravemente, ninguém se matou. A minha casa sólida está bem construída, construía-a eu. Tão bom, sermos
pessoas de bem e termos a vida em ordem, dia após dia. Os meus parentes todos bem encarreirados. Por contraste, vejam a
neta de Dona Regina. Coitada. Quando finalmente se arrastou até ao restaurante italiano, no Cruzamento do Miramar, já mal
podia articular a palavra pizza. Porque todos se esqueceram dela. Houve quem dissesse, referindo-se a esses dias.
Mas não foi isso que aconteceu. Haveríamos de saber depois. Ficou confirmado. A família não a abandonou. Ao contrário
do que se disse, ninguém se esqueceu da nossa prima como se fosse um objecto inútil. Muito pelo contrário.

A prova é que no dia seguinte Milene correu à janela e viu que dois carros paravam sob as acácias da estrada, e deles
saíam o tios. As luzes tinham ficado ligadas durante a noite inteira, e agora, que eram onze horas da manhã, ainda continuavam
acesas. Milene achou por bem apagá-las antes de se entrincheirar na varanda. Porque voltavam os tios? — perguntava,
tomando posição e mascando pastilha elástica. No dia anterior, não os tinha despedido para sempre? Não lhes tinha dito que
não voltassem mais?
De facto, a noite fora longa e quente, mas não o suficiente para lhe ter diluído a mágoa que lhe haviam provocado.
Encontrava-se recuada no varandim para observá-los, a porta da rua trancada. Sabia que cada um deles possuía uma chave
com a qual poderia entrar quando quisesse. Habitualmente, porém, nunca transpunham a porta sem pedirem licença à avó
Regina. Iriam entrar? Entretanto, já os três atravessavam a estrada, avançando, lentos e circunspectos, criando sombras no
asfalto. O tio Afonso olhava para longe, como se lhe interessassem muito mais os confins do horizonte do que a casa onde iria
entrar. As tias caminhavam muito juntas. Uma entrada suspeita. Dim dum, fazia o portão. Já a meio do jardim, os três haviam
parado, e Gininha, adiantando-se, no seu passo delicado, quase periclitante, tinha começado a chamar na direcção da varanda.
Milene? Milene? De dentro, a voz de Cyndi Lauper, expandida e ampliada pela respectiva tralha electrónica, criava uma
barreira séria àquele chamamento. Milene correu a desligar a música. Voltou. Debruçou-se.
«Milene? Olha aqui!»
Quem chamava era de facto a tia Gininha. Na mão segurava um pacote que agitava no ar. A tia insistia, balouçando o pacote
— «Deixas-nos entrar? Deixas?»
Milene sabia que ao tio Afonso bastaria só procurar o porta-chaves e rodar a fechadura, mas ele não fazia esse gesto, só
olhava para longe, estando a ser imprescindível, por certo, num outro lugar. A tia Ângela Margarida, bem mais sólida na sua
passada, essa mantinha-se de braços cruzados como se permanecesse à espera duma refrega que ainda não tivesse começado.
Só Gininha falava na direcção da sacada.
«Abre, querida, abre lá...»
A voz da tia, suplicante, parecia verdadeira, mas o que mais impedia Milene de descer e abrir era aquele saquitel pardo que
deveria conter comida fresca e que a tia Gininha agitava no ar, como se nele transportasse uma ração de amendoins destinada
a uma espécie de macaco do Zoo. Sim, era isso. Odiava sentir que lhe atribuíam oito ou nove anos de idade, mesmo quando a
insinuação partia da tia Gininha. Odiava. Talvez por isso ainda não tivesse decidido o que fazer, uma vez que todos eles
estavam a respeitar as normas habituais da entrada em Villa Regina. O tio até se tinha baixado para arrumar uma pedra solta
que ali havia entre o escalracho, e no entanto não tocava na chave que deveria manter no bolso. Ninguém tocava em nenhuma
chave. A tia Gininha, aproximou-se ainda mais — «Compreende, Milene. Se não quiseres abrir, nós voltamos para trás.
Penduramos o saco na porta e vamo-nos embora. Tu é que decides...» Depois, a tia virou-se de costas. Todos eles pareciam
dispostos a cumprir as palavras de Gininha. Os três de costas, como se fossem abalar.
Milene não só tinha desligado a música como havia deitado a pastilha fora. «Não, não» — disse ainda, debruçada no
varandim. «Eu abro, é só um instante».
E desceu, surpreendida, sem tempo para pensar. Na verdade, quando atingiu a porta, já os tios se encontravam diante do
ralo, pacíficos, enfileirados, submissos, à sua espera. Mesmo assim, Milene fazia questão de os encarar, um a um, fixando-os
com dureza através da frincha que ia abrindo, muito devagar, sempre com a mão na fechadura, mantendo-se atrás da porta,
preparada para fechá-la, mal os três se dirigissem para o living-room da avó Regina. Muito admirada. Entre aquele dia e o
precedente parecia ter-se processado a mudança de um anglo raso. Mesmo assim, o tio Afonso tinha passado por ela como
quem passa pela parede, e Ângela Margarida mal lhe havia acenado com a mão, mas a tia Gininha, também ela a caminho do
living-room, continuava a falar-lhe com afabilidade.
«Antes que vás à tua vida, aqui tens alguma coisa para comer. E podes ficar descansada que nós não nos vamos sentar além.
Não nos vamos sentar nos cadeirões da avó Regina. Pois porque iríamos? A sala da avó tem outras cadeiras. Vamos sentar-
nos ali...»
E os três irmãos, certamente para demonstrarem como as palavras correspondiam aos actos, tinham-se disposto em volta da
mesa de cerejeira, estendendo sobre o seu tampo uns molhos de papelada. «Podes ficar tranquila, Milene, juro, por mim e por
todos, que nenhum de nós se vai sentar em qualquer lugar indevido. Apenas precisamos de falar...» — Era a tia Gininha,
cuidadosa, a querer sossegá-la. «Percebes, Milene? Trata-se de um assunto só entre nós, os irmãos, mas se tu quiseres ficar,
pois fica, que ninguém se importa...» A tia Ângela Margarida, ansiosa, o seu olho esquerdo ainda bastante inchado, fixava a
testa luzidia do tio Afonso, agora um pouco mais clara, em contraste com a camisa de seda preta. O tio Afonso, fingindo-se
ausente, a olhar para o tecto. Fosse como fosse, era bom a tia Gininha insistir naquela ideia — «Se quiseres sentar-te, senta-te
aqui, minha querida...» Puxando-lhe uma cadeira.
Não, não iria sentar-se.
Milene não ia desrespeitar a confiança que de repente depositavam nela. Aceitava completamente. Pedindo-lhe os tios
daquele modo, eles até poderiam ficar ali o tempo que quisessem. E para eles entenderem bem a amplitude da sua permissão,
ela nem ia responder, iria só recuar diante deles, puxando a camisa de dormir para cima dos joelhos, e até iria fechar a porta
atrás de si mesma para falarem ainda mais à vontade. Tratada daquele jeito, até estava disposta a aceitar o saco com comida
fresca que a tia Gininha lhe estendia, quase contente, quase reconfortada. — Agora os tios sabiam quem mandava naquela
casa, e sabiam também que só poderiam usá-la desde que ela mesma o consentisse. E já na cozinha, à medida que bebia o café
com leite morno trazido pelas tias, e se afogava na nata amarela de um grande bolo, dentro de si mesma, uma mágoa qualquer
se desvanecia, ou pelo menos tomava a forma de uma dor mais vaga. Afinal, acontecesse o que acontecesse, eram pessoas da
sua família, os seus verdadeiros tios.
E deveriam estar extremamente cansados.

A prova disso era a forma silenciosa como decorria dentro da sala o encontro dos três irmãos. Durante quase uma hora, não
se ouviria uma só palavra. Deveriam estar a reconstituir o sucedido, a discutir os seis processos, a pensar na traição do Novo
Lar, no relato do rapaz das Bombas, no facto de aquilo da avó Regina ter ficado em campa rasa, por causa de ela mesma, com
aquele calor todo, não se ter lembrado que a família também dispunha de uma casa de pedra com um anjo em cima. — Por
respeito aos tios, Milene nem ligava a música do quarto. Já vestida e arrumada, sentada na escada, limitava-se a trautear
pedaços dos Doze Sucessos, vislumbrando a calma e a paz entre os três irmãos, os três muito serenos, muito cansados, a
entenderem-se em torno de todos esses factos. Mas depois, por volta do meio-dia, tudo haveria de mudar de figura. Estava ela
cantando Stone, the world is stone, só para si mesma, para não incomodar, quando tinham começado a cair no soalho uns
objectos de madeira ou de ferro, umas vezes com estrondo cru, outras abafado pelo tapete, ao mesmo tempo que se rasgavam
papéis e se cruzavam objectos de metal. E logo de seguida, os tios deveriam ter entrado em plena discórdia.
De facto era sábado, vinte e três de Agosto, e no interior do living-room da avó Regina, infelizmente, os irmãos
desentendiam-se. Mesmo que não se quisesse, ouvia-se cá fora os tios falarem alto uns com os outros. Milene ouvia sobretudo
as altas vozes da tia Ângela Margarida. As horas iam correndo, e eles não comiam, não bebiam, não se serviam dos quartos de
banho, não saíam de onde estavam. Zangados, alterados. A certa altura, Afonso falou altíssimo. A tia Ângela Margarida, em
seu tom de enfermeira-chefe, gritava-lhe por cima. Milene julgou que daquele confronto ninguém sairia com vida. Ainda tinha
ido espreitar a partir do jardim, mas cada janela era a grade duma jaula fechada. Os tios mantinham as persianas descidas, e lá
dentro esgatanhavam-se. Os tios comiam-se vivos. Quando finalmente a porta se abriu, parecia uma torrente a soltar-se. Era o
tio quem primeiro saía, espumando. Dava para ver, no entanto, que a franja rala que mantinha em redor da calva, embora
desgrenhada, estava intacta, o busto possante era o mesmo, e a anca movia-se com o mesmo fragor ginástico. — Não, não se
haviam matado. Só os olhos do tio tinham desaparecido por completo debaixo das pálpebras altas. Ela vira-o passar, num
relance, com uma pasta na mão. Milene não se lembrava que ele tivesse entrado com a pasta. A disputa, porém, havia
potenciado de tal forma a agilidade do tio Afonso que, de um salto, ele galgou o descapotável, num ápice o carro engoliu-o, e
como uma seta despedida, os dois desapareceram na estrada.
Depois foi a vez da tia Ângela Margarida.
Não, não estava sentada em nenhum fauteuil, estava num sofá e encontrava-se de perna traçada a discar números de
telefone, de costas viradas para a porta. Táxi? — Sim, queria um táxi. Não falava à tia Gininha. Gininha num canto oposto,
também trancada por dentro. Entre a chamada e a chegada do táxi, ninguém falou. Quando o táxi apareceu, a tia Ângela
Margarida saiu batendo com os tacões no soalho, nos degraus, na calçada do jardim microclima, e no portão de ferro que
gemia. Dim, dum. Saía. Só então a tia Gininha chamou.

Chamou devagarinho — «Milene?»

Já havia passado uma boa meia hora depois da contenda, e mesmo assim percebia-se que se haviam ferido profundamente.
A tia Gininha, a boa tia Gininha, ainda mal respirava. Os seus cabelos compridos estavam eléctricos, e quando ela passava a
mão pela cabeça, fios escuros vinham atrás dos seus dedos esvoaçando sozinhos. Mas era ela, a mais esfarrapada pela
desavença, quem tinha ficado para falar com Milene, chamando-a, quase em segredo — «Milene? Vem cá...» Depois
encostou-se à sobrinha e abraçou-a pela cintura, aconchegando-lhe a cabeça sobre o peito. Por fim, disse — «São coisas que
acontecem...» Referindo-se porventura à contenda. «É só para te dizer, Milene, que abrimos o testamento, e eu sou a tua
testamenteira. A avó Regina quis que eu te representasse, que fosse eu a gerir os teus bens e os teus proventos, no fundo, a tua
vida...» A tia Gininha apertando a sobrinha contra si. Milene surpreendida, encostada à tia Gininha, ao ombro perfumado da
tia onde vinham cair, num tufo basto, os seus cabelos pintados de castanho-borgonha, como muito antes os da avó Regina.
Milene quase sentada em seu colo.
«Não dizes nada?»
A sala mergulhada em silêncio. A gravidade arrastando as asas. Os factos tomando corpo. O futuro a surgir como uma
neblina imensa por onde era necessário traçar uma trajectória incerta. As duas enlaçadas uma na outra para enfrentarem um
percurso desconhecido que já deveria ter começado, completamente fora das suas vontades, nem se sabia quando. De mãos
apertadas. O passado a criar uma onda, a apreensão a salpicar suas espumas. Mas a certa altura, a tia Gininha, cujo peito
quase não se movia, como se a disputa com os seus irmãos a impedisse de respirar, acrescentou — «Agora uma outra coisa.
Além da questão da herança, existe outro assunto que desejo partilhar contigo...» Percebia-se que a tia Gininha tinha
dificuldade em desenhar o raciocínio, com seu peito quase plano, parado. Percebia-se. Pobre da tia Gininha, como tinha
emagrecido. Mas depois, a filha mais nova da avó Regina encher-se-ia de coragem — «É assim, Milene, é assim. Acabámos
de distribuir-te da seguinte maneira — Tu ficas a morar como sempre em Villa Regina, fazes a tua vida normal, e nós, cada dia
um de nós, durante a noite, toma conta de ti. Um roulement contínuo, percebes? Vou exemplificar para compreenderes
melhor... Suponhamos que, hoje, sábado, era eu a fazer-te companhia. Amanhã, domingo, seria a tia Ângela Margarida.
Segunda-feira, seria o tio Afonso. Terça-feira, outra vez eu, quarta, a tia Ângela Margarida, quinta, de novo o tio Afonso, e
depois outra vez eu, e assim por diante, sempre assim, todas as noites até ao fim da vida...» Gininha, com um molho de papéis
no colo e uma agenda na mão, a olhar para os dias da agenda, como se os três irmãos ali tivessem estado com o Anjo Lúcifer a
combinar o caminho na direcção do Inferno.
A tia a dizer — «Vamos começar daqui a um mês, quando os dias ficarem mais curtos e o tempo esfriar. Nessa altura, seria
muito triste que tu ficasses sozinha...» A tia a passar-lhe a mão pelo cabelo, a acariciar-lhe as costas, a falar-lhe daquele
calendário perpétuo, e com receio de que a sobrinha não entendesse, Gininha foi mesmo buscar o calendário da cozinha e pôs-
se a exemplificar a distribuição dos dias.
«Compreendes?»
Sim, Milene conseguia compreender. Olhava para aqueles quadrados dispostos em fila, encadeados uns nos outros,
imaginando-os preenchidos pelas pessoas dos tios, e não era difícil concluir que nunca e jamais os dias da semana teriam
regularidade, a manter-se uma distribuição assim. Achou mesmo que deveria ser um imenso suplício para os tios. O que queria
dizer que eles não se tinham entendido nem sequer quanto à distribuição regular dos dias. Pois ao menos poderiam ter
decidido — Segundas e quintas, tia Gininha, terças e sextas, tia Ângela Margarida, quartas e sábados, tio Afonso, e assim por
diante até ao fim dos dias. Mas aí deveria ter residido o maior problema. É que sobejava um dia dos sete da semana e eles,
por certo, teriam discutido a distribuição dos domingos, tendo depois mergulhado naquela desavença. Nem por semanas nem
por meses. Nada, dia após dia, como uma condenação do Inferno. Os tios não se tinham entendido, afinal, por causa dela.
Estava a olhar para o calendário que a tia Gininha havia estendido sobre a mesa de cerejeira, e depreendia isso mesmo.
«Não dizes nada, Milene?» — perguntava a tia.
Era tão complicado, tão severo, e ao mesmo tempo fazia tanta dor de cabeça aquele futuro quadriculado disposto sobre a
mesa, que ela não conseguia responder. «Depois veremos. Depois veremos...» — disse a tia. E como se o peito de repente se
pusesse a respirar com normalidade, acrescentou — «Meu Deus, que tarde...» Sim, Milene compreendia. Eles haviam retirado
a Enciclopédia atrás da qual, embutido na parede, se encontrava o cofre verde, tinham-no aberto e tinham-no fechado. Vários
volumes ainda estavam desarrumados e fora de ordem. Mas seria que também tinham encontrado lá dentro aquele calendário?
Não, Milene não iria perguntar. Dentro daquela caixa de ferro maciço, uma espécie de nódulo umbilical da casa que sempre a
tinha intrigado, poderia estar muita coisa enigmática pela qual poderiam ter discutido, mas aquele calendário fora inventado
por eles mesmos, pelos próprios tios. Ela sabia.
«Não dizes nada?»
Perguntava a tia, vestida de preto e branco, de súbito apressada, dizendo para a esquerda e para a direita — «Desculpa,
desculpa. São as nossas vidas...» E sem mais delongas, já estava a sair pela porta, já estava a descer os degraus, a atravessar
o jardim microclima, a sair pelo portão de ferro onde se lia Villa Regina. Dim, dum. Tal e qual como a tia Ângela Margarida.
Só aí, quando a boa tia Gininha, a infeliz tia Gininha, apressada por causa da bebé Artemisa, ia a entrar no Honda cor de
prata, seriam já umas quatro horas da tarde, só aí, Milene se apercebera da coincidência. Havia frases que existiam nos genes
familiares tão distintivas quanto o feitio das pálpebras. Na verdade, era a segunda vez que alguém muito próximo lhe prometia
— Assim, para sempre, sempre, até ao fim da vida. Não acreditava.

A própria tia Gininha tinha dito — «Vai ser uma espécie de calendário perpétuo, até ao fim da vida...»
Numa outra situação, Milene teria até respondido, como sabia responder, à pessoa que lhe propunha aquele plano, mas o
momento não era de molde a isso. Todos estavam a sofrer por uma razão ou por outra, e os irmãos até se tinham desentendido
por sua causa. Pensando bem, talvez tivesse sido bastante injusta para com os tios, os pobres dos tios, que lhe pediam agora
licença para entrar em casa e não se sentavam mais nos lugares proibidos. No dia anterior, talvez ela nem tivesse nada de
importante para lhes contar. Afinal, apenas dispunha de duas ideias insignificantes, criadas dentro da sua própria cabeça, sem
outro alcance que não fosse a vontade de se libertar delas mesmas. Pois o que tinha de tão urgente para lhes dizer?
Pouquíssima coisa — Em primeiro lugar, que não sabia como tinha falecido a avó, mas sabia como havia ajudado a enterrar
aquilo. Em segundo lugar, que não tinha contado nada aos jornais, mas eles haviam adivinhado. E havia ainda um terceiro
assunto que teria querido acrescentar, mas nem estava certa da sua validade. É que lhe parecia que a avó Regina não tinha
ficado lá. Quando a terra se tinha fechado e o seu cogulo abaulado, em forma de madalena, havia recebido o monte de flores,
já ela não estava lá dentro. Mas não lhe perguntassem se havia ficado para trás durante o percurso, ou se naquele momento
próprio se tinha evaporado. Melhor dizendo, sabia da coisa, mas não do modo nem do momento. E era só isso o que ela
quereria ter dito, o que era muito pouco e muito incerto. Por tais ninharias não se justificava que os tios lhe tivessem dedicado
mais espaço na reunião de família. Ela é que havia fixado todas aquelas palavras que tinham vindo ter com ela, durante todos
aqueles dias, com a facilidade com que decorava as frases de João Paulo. E os tios, por causa dela, a congeminarem aquele
plano terrível, até ao fim dos dias. Não consentiria que os tios enveredassem por aquele caminho.

Não consentiria.

Na manhã seguinte, Milene pegou no telefone, vestida e arrumada, cinco pulseiras em cada braço e falou — «João Paulo?
Esperei a noite toda, e não me disseste nada... Era só para te dizer que os tios estiveram cá outra vez. É que eles têm um
plano para mim e para eles, até ao fim da vida... Lembras-te? Também nós tínhamos um plano, mas o nosso era muito bom,
e este só de pensar nele me faz agonia... Quase vomito, por eles e por mim, aqui mesmo onde estou... Depois te conto...
Bye». Milene tinha posto música, o som confinado só a uma parte da sala, para poder telefonar. No intervalo das suas palavras
ouvia-se de novo a voz de Cyndi Lauper, como se estivesse escondida, a cantar debaixo do soalho. Continuou à espera —
«Sempre foste para Miami com a Lavinia?» Silêncio. «Sabes quem está a cantar? Adivinha... É ela. Twelve Deadly Cyns,
Dez Sucessos de Morrer, segundo a Blitz... Anda, fala-me... Agora vou mesmo despedir-me de ti. Até que me ligues... Bye».
Milene pousou o telefone muito devagar. O sinal de desligar não dependia da mão humana, soava sempre como o aparelho
queria que soasse. O aparelho é que mandava. Mau som. Mas não tinha importância alguma. Ela sabia que em breve o primo
João Paulo haveria de responder, dizendo como sempre que os três primos inseparáveis jamais haveriam de se separar.
Estivessem onde estivessem, a separação seria só um intervalo. Milene sentou-se perto do telefone. Esperou. Foi então que se
precipitaram as circunstâncias.

João Paulo costumava dizer que a liberdade estava em nós próprios, mas o destino, esse, encontrava-se nas circunstâncias,
e nós, ignorantes, é que imaginávamos um deus. Rainhas quase absolutas das nossas vidas, as circunstâncias. Neste caso,
absolutas mes mo, se tivermos em conta os dias de Milene, que só seriam conhecidos dois anos depois.

Assim, Milene esperou com a música ligada. Não tinha pressa, foi ficando à espera.

Passados alguns dias, mantinha ela o volume altíssimo dentro de casa, enquanto uma buzina furiosa lá fora soava sem
cessar. Caía uma bela tarde sobre o Quilómetro 44. As moradias vizinhas estavam desertas. Milene tinha assomado a uma das
janelas e havia deparado com uma carrinha cinzenta e um homem apeado em frente. Era o filho viúvo de Felícia Mata quem
assim chamava. Lá estava ele, no meio da estrada, a apitar insistentemente, com a porta aberta e os três filhos sentados no
banco de trás. Era ele mesmo, Antonino Mata, o homem agitado. Aliás, quando a avistou, o segundo filho de Felícia Mata não
conseguiu reprimir a grande irritação. Apontou-a com o braço — «Estou aqui há um montão de tempo a apitar, e você aí,
ligada a essa coisa barulhenta, de propósito. Não ouvia, pois não?»
A voz dele encontrava-se naquele ponto exacto em que certa vez tinha virado um boné para trás. Uma voz forte, quebrada a
meio por um agudo raspão, um fio esganiçado no volume grave. Talvez irritado com a sua própria voz, a insistir — «Você aí
na sua feira, e eu aqui a apitar, a apitar...» Ela lembrou-se do momento em que ele descera à cratera da obra quando lhe havia
exigido que não se movesse para ser vista pelo encarregado. Tal e qual assim. Milene correu para o portão. Puxou-o para
fora. Um estrondo.
Ele gritou-lhe — «Traz a chave do carro?»
Sim, trazia.
«Sente-se aí» — disse ele. «Mostre a chave. Dá a impressão que quer deixar aquele carro lá à nossa porta, só para criar
problemas. Sabe quantos dias há que lá o tem abandonado? Não sabe, pois não? Seis dias, quase uma semana...»
Como ela não respondesse, ele arrancou com velocidade, e as crianças desequilibraram-se. Ela mesma se agarrou ao
manípulo da porta e ele ainda se virou para trás, olhando pelas crianças, mas não abrandou. A carrinha continuava a zarpar
estrada adiante, e ele mesmo continuava a resmungar palavras contra ela, que não tinha ouvido o cláxon, e sobretudo contra o
tempo que lhe passava no pulso, local para onde olhava insistentemente como se tivesse de novo um compromisso laboral. Um
compromisso importante, por certo. Quando apareceu o desvio que conduzia ao atalho do Bairro dos Espelhos, ainda hesitou.
No último instante, porém, desenhou um forte guinão, já quase sobre a estrada de terra, retomando o sentido das Bombas. Em
vinte minutos estavam diante da Fábrica Velha. Mas ainda antes de parar, Antonino apitou várias vezes e só depois saltou do
seu lugar e fez descer os três filhos chorosos e sonolentos. Ela encaminhou-se para o Clio. Ele gritou — «Eh! Mulher, não me
dê conta do juízo. Aquela gente lá dentro quer vê-la...»
E de facto assim era.

O esplendor azul do Mar de Prainhas ainda ali vinha ter, mas em redor escurecia rapidamente. O vulto das palmeiras
destacava-se no mundo circular do anoitecer, uma coisa melancólica poisava nelas e estendia-se até onde a vista alcançava.
Milene sentiu que tudo isso tinha passado para dentro de si como se ela não fosse nada, e o Mundo fosse tudo. Mas essa
sensação de não existir ou de não servir para nada não durou um instante — Ao seu encontro, já ali vinham os Mata, as
pessoas da terceira vaga, chamando-a pelo nome. Crianças e mulheres, em tumulto, queriam falar-lhe. Felícia, muito ofendida
com o silêncio de Milene, dirigindo-se-lhe com a voz muito alta, muito ressentida, muito magoada — «Dona Milene? Então
não teve um telefonema para falar do encontro com os seus tios? Os seus tios trataram-na bem?» Ela própria respondia —
Claro que eles a tinham tratado bem, Dona Milene é que se tinha feito cobarde, quando não havia motivo. E Felicia também
queria saber se os tios tinham tomado conhecimento de que ela havia dormido na cama do Janina. Não tinham? Se não tinham
tomado, não fazia mal, logo tomariam. E entretanto, como tinha ela vivido sem o Clio? Era dona de outro carro? Não era?
Então como se havia governado? Quando Felicia ficou a saber que a neta de Dona Regina fazia meia hora a pé, estrada fora,
para ir buscar uma pizza ao Mãos Largas, revoltou-se — «Dona Milene, precisavas disso? Andares horas a pé pela estrada
perigosa, tendo o carro ali? Já sei, quiseste lutar com as estradas Então porquê? Olha, não lutes quando não te faz falta. É
pecado. Guarda tua luta para quando for preciso, viu? Guarda tuas passadas para quando o transporte deste mundo te faltar.
Sabes? Tu tinhas o teu carro aqui, era só telefonares, e um dos meus filhos ia buscar-te...»
E Milene não queria entrar? Não queria comer? Não queria conversar? Então quando voltaria ali? Iria demorar muito?
Poderia vir, por exemplo, no dia em que Janina aparecesse na televisão. Havia em breve um programa com uma actuação dele,
mas ainda não se sabia qual o dia certo e muito menos a hora. Todos à volta dela, só Ana Mata e Heitor Pai, na porta onde a
tragédia da avó Regina havia acontecido. Os dois vasos lá. As sardinheiras enfezadas, lá. Pois então se Dona Milene queria ir
embora, que fosse. Já todos de pazes feitas. Felicia aos abraços a ela, as mulheres jovens, Claudina e Conceição a dizerem
que lhe ofereciam a roupa cor de laranja, que ela não precisava devolver nada. Todos amigos, amigas, volte sempre. Ciao.
Adeus, você é muito inteligente, muito delicada, muito formidável. Um amor, você. Olha, vem logo, a gente só não telefona
nem vai a tua casa para não incomodar, viu? Você é que vem a nossa casa, no dia do Janina. Vem? Ciao, ciao. Adeus. Beijão.
— Milene entrou dentro do carro, a rir, os seus montões de pulseiras a balouçar e a tinir. O seu saco a incomodar, para a
frente, para trás. De repente, outra vez feliz com a vida, já noite fechada, boa-noite. O carrinho Clio não arrancava.
«Como? Não arranca, o teu carro?»
Não, não arrancava. As mulheres e as crianças à volta do carro. Se calhar não tem água, não tem óleo, olha, se calhar foi
por ter ficado aqui tanto tempo ao torreirão do sol. O mesmo acontece às vezes com a carrinha de Janina. A gente vai,
empurra, não pega. Empurra depois, pega. Vá lá entender-se. Todos a olharem. Até Ana Mata olhava. Felicia, com a cabeça
dentro do Clio — « Pois o que terá o teu carrinho?»
«Antonino, vem cá ver o que tem o carrinho de Dona Milene!» — gritou.
Antonino ali adiante. Tinha aparecido na porta trajado de um modo estranho. Nem parecia ele. Vinha sem boné nenhum, e
não só calçava sapatilhas brancas, como usava uma camisa clara. Era como se tivesse decidido aliviar luto, naquela hora
precisa em que ela vinha buscar o carro a casa dos Mata. Todo ele resplandecia na penumbra do anoitecer. Num relance, ela
viu tudo. Aquele era um dia importante na vida de Antonino, e de novo ela, as miseráveis necessidades dela, uma rapariga
bera, que no passado havia sido roubada no meio duma trouxa de pano, já com o nome de Milene na testa, sem lhe ser nada de
nada, essa pessoa que ela era, voltava a atravessar-se na vida daquele homem. Antonino, de facto, estava com as mãos na
cintura, parado a observar. Parecia não acreditar no que via — «O que é agora?»
«Oh, meu filho!» — pediu Felícia Mata.
«Você já está vestido e perfumado, mas olha, nenhum homem está por aí. Tu tens de olhar para dentro deste motor, com o
teu olho, senão a moça não arranca mais...»
Antonino virou-se de costas. Desesperado.
«Não sejas ruim. É por isso mesmo que os teus dias da ira não passam nunca. Vem cá ver...» — tinha continuado Felícia.
Aperreado, Antonino dirigiu-se à sua própria carrinha e voltou de lá com uma lanterna. Abriu o capô do carro,
inspeccionou, mexeu em alguma coisa vital e pô-lo a trabalhar. Depois deu meia volta, inclinou-se para o tablier e disse —
«Está sem gasolina. Vá na direcção das Bombas, com cuidado, senão ainda pode ficar pelo caminho. Ouviu?»
«E se a pessoa fica empanada no meio da estrada? Em sítios tão tristes, por onde a avó da pessoa se perdeu? Dona Milene
deve sentir ânsias só de olhar para lá».
Antonino saltou para dentro da carrinha cinzenta e berrou, com força — «Vá à frente, criatura, vá andando. Já começo a
estar habituado...» O Clio adiante, a carrinha atrás. Percorrendo os dois a estrada esburacada, sem luz nenhuma até às
Bombas, ali onde de repente as coberturas fluorescentes lembravam as circunstâncias em que uma ambulância de portas
abertas dera origem a uma fuga inacreditável. Milene não podia saber, ninguém podia. Mas as circunstâncias iriam cruzar de
novo as suas teias, rainhas absolutas da vida, as circunstâncias, segundo João Paulo.

Na verdade, Milene tinha-se abastecido de gasolina, na zona de serviço automática, de costas para Antonino, pensando que
a carrinha tivesse seguido o seu percurso, mas quando se havia voltado, ainda ele ali estava. — É que Antonino via à
distância, e já suspeitava que ela não tivesse vindo prevenida com dinheiro necessário. E tinha razão em suspeitar, pois em
vez de se dirigir à caixa, para efectuar o pagamento, Milene tinha-se posto às voltas dentro do carro. Saía para fora do carro e
saltava, sacudia-se, observava o chão onde alguma coisa que procurava deveria estar, abrindo o saco, uma e outra vez. Por
fim, entrou de gatas para o assento de trás e saiu de lá beijando um cartão. Já fora do carro, à luz fluorescente das Bombas,
Milene dava beijos no cartão que tinha achado, beijos sonoros, ora com os olhos abertos, ora com eles fechados. Antonino
tinha saltado para fora da carrinha.
«Que diabo está você a fazer?»
Milene esfregava o cartão na manga — «Foi este estúpido que fugiu para a parte de trás do carro, compreende?» E como se
o cartão electrónico, naquelas circunstâncias, correspondesse a uma vitória inexplicável sobre o enredo da dependência que a
mantinha presa àquele homem que já deveria estar longe dali, ela beijou de novo o cartão, correndo na direcção da loja onde
faria o pagamento, sem se virar. Mesmo sem se virar, disse — «Agora já se pode ir embora. Eu cá me desenrasco...»

À cautela, ele ainda não iria arrancar.


Com aquela pessoa imprevisível, nunca se saberia ao certo. De uma pessoa que se esquecia do carro em qualquer sítio e
beijava cartões electrónicos perdidos e achados, tudo se podia esperar. Estacionado na berma, Antonino aguardava, para ver
se ela tomava a direcção exacta. Ela tomava. Podia deixá-la. Mesmo assim, ele hesitou e depois seguiu-a através da via
rápida. A carrinha atrás do Clio, até chegarem diante de Villa Regina, como se ele duvidasse que ela pudesse encontrar o
caminho de casa. Mas ao atingirem o Quilómetro 44, Antonino não só parou como desceu, bastante admirado. Já havia
concluído que seguir atrás daquela rapariga era o mesmo que entrar pela porta de um comboio fantasma, com surpresas a
surgirem de toda a parte. Agora comprovava-o.
«O que é aquilo? Aterrou aqui uma nave espacial?» — perguntou.
«Aquilo?» — disse Milene.
«Sim, aquilo».
Referia-se a Villa Regina, completamente iluminada.
De facto, a luz proveniente das janelas abertas irradiava acima da planície escurecida, destacando-se como um feixe de
coisas quadrangulares que ali tivesse caído de qualquer lado. A via rápida apontava os postes noutra direcção, e as casas em
volta, desabitadas, tornavam-se ausentes e opacas. Era como se Villa Regina existisse desligada da terra. A copa da nogueira,
também ela, mostrando-se por metade à luz, brilhava com um reflexo de verde sólido, emborrachado. Num primeiro momento,
ele não sabia o que pensar, começando a tecer considerações sobre o custo da energia. Mas depois deu uns passos na direcção
do portão e foi mais explícito — «Você está a querer dizer que vai viver aqui sozinha? Não vai, não pode ser...»
Antonino não estava só vestido de claro e calçado de branco, estava também completamente perfumado. Via-se que tinha
tomado o banho de fim de tarde, porque a sua pele luzia. A testa luzia, as maçãs de rosto luziam. E Milene duvidou se deveria
responder ou não àquele homem que de um momento para o outro poderia ficar com pressa e ser deselegante e brutal. Já o
conhecia. Já sabia como virava bonés para trás e como no meio dos urros, quando gritava, fazia requebros de voz feminina.
Mas na verdade ele tinha perdido pelo menos uma parte da pressa e perguntava-lhe, apeado diante de Villa Regina — «Você
não me diga, não me diga...» Ela explicou que não, que em breve, todas as noites, iria ficar acompanhada por uma pessoa de
família. E Milene falou-lhe no calendário perpétuo e um pouco do que tinha acontecido. O mínimo dos mínimos. Antonino a
escutar, em silêncio, diante da casa toda iluminada. A fazer perguntas muito breves, que exigiam respostas demasiado longas
para o gosto dela. Sim, de facto ele tinha perdido a pressa. Ou pelo menos a sua parte substancial. Quando Milene o pôs ao
corrente do calendário, aquele plano que se parecia com uma agenda sem fim, só para ouvir a opinião de alguém, ele disse-lhe
— «Não acredite nisso...»
«Como é mesmo o teu nome?
«Milene?»
«Milene, não posso dizer que esse plano seja uma falsidade para te enganarem, isso não posso dizer. Mas na prática é uma
coisa insustentável...»
«Insustentável?» — perguntou ela. As pulseiras tiniam.
«Sem consistência, sem viabilidade, quer dizer que não se sustenta... Correcto? Não dou mais de oito dias para que esse
projecto desapareça. Em breve nem mais vai ouvir falar desse assunto. É um plano impossível...» — Ele falava lentamente
para ela entender. As palavras espaçadas. Não deveria ser necessário, mas era assim que falava. A lentidão das palavras em
contradição com os actos. Pois Antonino deveria continuar com imensa pressa. Apenas algumas circunstâncias estariam a
encobrir o seu desejo de agitação e velocidade. Um disfarce momentâneo. Naquele momento, não olhava para o relógio e até
se encaminhava para a carrinha cinzenta, aos ziguezagues. Tinha-se sentado lá dentro, com a porta aberta. Esperava. Sem
pressa. «Suba» — disse ele. «Vá lá para dentro da sua casa, que eu espero...» A sombra da noite, pousada na velha estrada,
engolia-o. Via-se a camisa clara esperando, lá dentro da carrinha. Ela a subir as escadas interiores todas iluminadas, as
janelas abertas para fora através das quais ela olhava, e em frente a carrinha parada ainda com a porta aberta, depois fechada.
Depois parada, fechada no escuro. Depois arrancando devagar e escorregando ao longo da estrada. Sumindo-se no seio do
escuro.
VII
Com Juliana, Milene estabeleceria uma relação paradoxal. A relação ambígua que se tece entre quem sempre foi mandado e
só conhece os trâmites da obediência, e quem não sabe mandar e precisa de exercer autoridade, passageira que seja. Uma
desconfiança recíproca, uma humilhação dupla, acomodando-se de parte a parte. Duas fragilidades unidas. Uma farsa
inevitável. A mulher-a-dias, mal chegava dizia num rompante — «Então o que quer que eu faça?» Nem bom dia nem boa tarde.
Mas também não tinha qualquer importância. Milene trotava pela casa adiante, levando a mulher atrás de si, mostrando-lhe o
que deveria limpar de leve ou virar do avesso, os panos que teria de usar e os instrumentos de que se poderia socorrer,
falando muito alto, por imitação da voz da avó Regina. Não faça assim, faça assim — «Vê ali aqueles cadeirões? É só para
lhe lembrar que são dela, e que você nunca se vai sentar em cima deles. Nunca na sua vida, ouviu?»
Juliana não dizia nem sim nem não. Olhava para o relógio, sacudia-o, fazia-o descer do pulso para a mão, mantendo-o lá no
fundo da palma na posição em que se atira uma granada — «Veja que cheguei às três horas em ponto, está bem?» E ia para a
cozinha desfazer-se do saco e do capacete. Depois é que perguntava — «Que ideia é essa de eu me sentar nos cadeirões da
Dona Regina? Alguma vez me sentei lá? Tem cada uma...» Era então o momento de iniciar as suas próprias perguntas, visando
Milene — «Mas por que razão está você tão contente? Para quê esta limpeza toda? Esta satisfação toda? Não deveria ser isto
uma casa de luto?»
Em resposta, Milene levantava o volume da aparelhagem com discos vários lá metidos, cinco de cada vez. Já enjoada da
Cyndi Lauper, do seu chapéu vermelho e olhos de carneiro mal morto, passava de novo aos Simple Minds, as faixas de
Ghostdancing e Big Sleep arremessadas contra as paredes. Depois eram os Waterboys, triunfantes, com seus sopros, teclas,
cordas e ribombos que lhe enchiam a casa. Milene mal conseguia fazer-se escutar. Gritava por cima da música, na direcção da
cozinha — «Abra as persianas todas, Juliana. Abra também os vidros, se faz favor. Eu logo fecho quando vier a noite.
Ouviu?»
Juliana teria uns quarenta anos, consultava o relógio e respondia — «Ai Jesus, como ela se vai estampar...0 que faço eu à
minha vida?» Mas ia de janela em janela e abria as persianas até às traves. A luz entrava em jorros esventrando a casa. As
mãos na cintura — «Não sei se vou fazer tudo o que você me diz. Agora que já cá não está a Dona Regina para mandar... Ai
que grande estampanço eu estou a prever, Senhor do Céu! Já você almoçou? Tem alguma coisa para o seu jantar?» Perguntava
Juliana, rodeada de vassouras. Milene não ouvia, andando dum lado para o outro, Mike Scott e Jim Kerr a fazerem-lhe
companhia, a girarem escondidos dentro da aparelhagem, vivos, ao vivo, a falarem com ela, a interpelarem-na, a espalharem
alegria pelos interstícios da casa.
«São seis horas» — dizia Juliana quando se aproximava a hora.
«Já seis horas? Pode ir.»
Juliana também falava alto de mais — «Não se esqueça de apontar as horas...» Receando que Milene não prestasse atenção,
ela mesma ia à cozinha e escrevia, no quadrângulo da quinta-feira, Três Horas, com a sua letra torta e deitada. «Tome muito
cuidado consigo, ouviu? Aqui sozinha, você vai desorientar-se...» E Juliana apressada, redonda, já no pátio, subia com o
capacete e o saco para cima da motorizada que guinchava pela estrada adiante. Três Horas, não esqueça. Amanhã faço mais
horas. Quantas horas? Juliana não desdenhava aquele trabalho, mas só ali viria enquanto aquela rapariga sozinha e
descomandada não se estampasse, o que previa para muito breve. Milene por sua vez acenava-lhe de uma das janelas do
primeiro piso, de calções cavados, brincos de balanço como a avó Regina gostava, um molho de pulseiras em cada pulso, os
cabelos crespos, as pálpebras altas. «Cuidado, cuidado com os gatunos, com a ladroagem!» — recomendava Juliana, antes de
arrancar. Não se percebia se Juliana só via perigos, se essa era a matéria mais fina da sua fantasia, aquela através da qual
melhor transfigurava a realidade do seu mundo. Fosse como fosse, quando a mulher-a-dias partia, entre Milene e todos os
perigos conhecidos e desconhecidos, só ficavam os vidros. Os vidros das janelas a separá-la dos intrusos, da poeira, do som
da via rápida que ali passava a umas escassas centenas de metros, se erguia e curvava, um trevo apertado em forma de áspide.

Mas de permeio também ficavam os telefonemas das tias.

A campainha retinia pela casa, e Milene sobressaltava-se. Não, não era João Paulo, era a tia Gininha de quem a avó fizera
sua testamenteira, e parecia ser nessa condição que lhe falava, ainda envolvida no rebuliço dos passos enlutados, prometendo
a leitura do testamento, referindo valores pecuniários, vendas e compras, matérias abstractas, e repetindo Milene Milene,
como se o nome da sobrinha fosse o refrão novo duma inevitável balada. Milene respondia — «Tia? Não se preocupe, eu não
quero ir a sua casa. Esteja tranquila...» Do lado de lá, a tia Gininha ficava em silêncio, todos os ruídos do mundo em
Valmares, parados. Duas nuvens brancas, lá em cima, suspensas, imóveis. Era a tia Gininha, comprometida, apanhada de
surpresa sem saber o que dizer — «Qualquer dia, qualquer dia, Milene, qualquer dia...» Mas não era necessário a tia
prolongar demasiado aquela canção. Todos sabiam que a tia Gininha era tragicamente infeliz, para empregar a fórmula
utilizada pela avó Regina. Todos sabiam também que uma parte da tia Gininha tinha deixado de ser dela própria. Havia anos
que uma percentagem da tia pertencia ao tio Dom. Silvestre. Quando a tia pronunciava Milene, Milene, até Milene sabia o que
estava escondido. Atrás daquela repetição ondulada, encontrava-se a história dos últimos amores da tia Gininha.

E de súbito, a tia Gininha chamava-a, como se uma situação de fundo se tivesse invertido — «Milene? Vem...»

Ia como? Milene completamente surpreendida. Conhecia o suficiente da vida da tia para não poder acreditar. — Sobre o
presente, sabia que na Casa da Amurada existia o tio Dom., e era quanto bastava. Em relação ao passado, acontecia que o
marido da tia Gininha fora apenas um de entre muitos dos seus namorados, fora o último, e isso não explicava tudo, mas
explicava muito.

Constava mesmo que tinha tido centena e meia deles, entre os catorze e os trinta anos. Só durante o Verão de oitenta e cinco,
aquele que se seguira à devolução da Fábrica Velha, no escasso período de dois meses, a tia Gininha havia apresentado dois
namorados, um e outro como se fossem noivos definitivos.
O primeiro era um piloto de aviação que falava pouco, bastante sonolento, de tal modo sonolento que ninguém percebia
como conduzia Boeings pelo espaço fora, com todo aquele sono. Depois tinha aparecido um professor de Ciências da
Natureza que usava uma lente pendurada ao peito, com a qual observava pedaços de conchas bivalves. Com nenhum deles
tinha dado certo. Ao primeiro, tinha-o ela repudiado por causa do sono. Era como se o piloto, um belo rapaz na casa dos
quarenta, que até entoava canções românticas no ombro da tia, quando acordado, tivesse sido contaminado com a sonolência
das nuvens. A tia tinha razão. Se viessem a viver juntos, entre viagens aéreas e cochilos, o que iria sobejar para o seu próprio
mundo? O que iria ser dela? Depois de um almoço a dois, deixara-o a dormitar sozinho num restaurante da praia, um recado
escrito no guardanapo, pedindo-lhe que não a procurasse mais. Ao segundo, um homem bastante pedestre, a tia Gininha tinha-o
deixado pelas caminhadas que se via forçada a fazer na sua peugada, ao longo do Mar de Prainhas, uma região da Terra onde
aquele descendente de Darwin estava seguro que ainda iria encontrar espécies arcaicas há muito desaparecidas. O professor
coleccionava conchas de ostreídeos, em particular madrepérolas rosadas, e dividia o seu último tempo de férias, ora rente à
sombra da tia, ora curvado sobre a orla das ondas, enterrado na espuma, ancas no ar, em posição de flamingo. Quando o
melhor Verão das nossas vidas havia chegado ao fim, já Gininha se havia desenvencilhado dos dois namorados.
O que parecia não ter importância nenhuma.

«Milene? Vens ou não vens?» — perguntava a tia, do lado de lá, naquela tarde, cheia de urgência. Porquê a urgência da tia?
Já nessa altura se ficava com a ideia de que a tia procurava alguma coisa que nunca poderia encontrar nos homens por quem
se apaixonava e desapaixonava sem cessar. A tia desejava atingir alguma coisa que deveria estar oculta em algum lugar
impossível, uma figura inexistente ou uma realidade inominável. Uma fantasia qualquer que só deveria viver dentro dela. Pelo
menos era o que dizia João Paulo, naquele Verão, ao ver a tia radiante com a despedida do professor de Ciências da Natureza,
ainda a dar-lhe beijos na boca, oferecendo-lhe um saquinho de madrepérolas. Fosse como fosse, por essa altura, os colegas de
curso continuavam a chamar-lhe de Gininha Sereia por causa do longo talhe, todos a tratavam como se tivesse indefinidamente
vinte anos, e o seu futuro, visto de que ângulo fosse, parecia assegurado. Entretanto os sobrinhos adoravam-na, bem como o O
de Lancôme a que rescendia o seu vestuário, adoravam principalmente a forma como ela os abraçava. Estava de novo livre, a
tia Gininha, no final daquele Verão de oitenta e cinco. Mas fora então que dois acontecimentos, surpreendentes e encadeados,
tinham vindo assaltá-la.

«Milene? Querida Milene, vem, estou em casa, à tua espera...»

Dois acontecimentos — O primeiro ocorrera no salão do Cabeleireiro Joseldo. A tia Gininha acabava de passar três meses
consecutivos ao ar livre, estendendo-se ao lado de dois namorados, praticando corrida e natação, repouso, e de regresso a
Valmares, elegante e bronzeada como nunca, fora entregar-se aos cuidados do cabeleireiro da Marina. Mas a rapariga que lhe
atava a bata ia sofrendo uma coisa má, pois como se fosse uma sementeira definitiva e abrupta, cabelos brancos haviam
aparecido espalhados por toda a cabeça da tia Gininha. — O que tinha acontecido? Sobres saltado, Joseldo havia-se juntado
ao espanto das empregadas do seu salão, examinando ele próprio aquela cabeça e comentado-a de forma bastante enfática. Um
acontecimento. Para que todos observassem o caso, o cabeleireiro havia levantado no ar os longos cabelos da tia Gininha,
havia trazido uma lâmpada para que ela mesma visse bem os estragos, e parecendo o facto conferir-lhe um secreto prazer,
Joseldo Hairdresser tinha tomado decisões em altas vozes, como se estivesse a inaugurar entusiasticamente uma estátua ao seu
próprio trabalho. Estava declarado que dali em diante, semana sim, semana não, iria ser necessário pintar os lindos cabelos da
tia Gininha. Rapidamente, uma tigela, uma espátula, uma espuma negra, tudo mexido e remexido, e a mistura espessa obtida
pela agitação fora emborcada, pela primeira vez, por cima da cabeça da tia Gininha. Definitivamente. Joseldo aos saltos, à
volta dela, esfregando as mãos — Já cá estás, já cá chegaste, não te esperava tão cedo. Voltarás sempre... Entretanto,
Gininha muito pálida, diante do espelho, a sentir a sua alma a querer morar no outro lado da sua própria imagem. Voltarás,
voltarás. Fora aí, durante esse Outono carregado de mudança, que se lhe havia instalado uma longa depressão, entremeada
com gripes sucessivas trazidas pelo vento levante.
Era o início dum primeiro acontecimento que não teria fim.

«Vem rápido...» — dizia a tia Gininha, pela quinta vez, naquela tarde. Milene, hesitante. Iria? Não iria?

O segundo acontecimento chamar-se-ia, precisamente, Domitílio Silvestre, mas quanto a esse caso, os factos passar-se-iam
de um outro modo. Eram de uma outra natureza. Três etapas.
Primeiro, tinha-se sabido em Villa Regina, pelo advogado da casa, que alguém, acabado de regressar da África do Sul,
procurava comprar uma nesga de terra que a avó possuía no Lentiscal, rente a uma pedreira desactivada. Depois, a avó Regina
tinha recebido um telefonema com sotaque inglês, e em seguida um homem de estatura mediana, cabelo escuro e olhinhos
vivaços, havia tocado na campainha ao Quilómetro 44. Era Domitílio Silvestre, o comprador. Já nessa altura, Domitílio
Silvestre se deslocava num carro poderoso, deixando a dormir no banco de trás um enorme cão alobado. O Inverno corria
morno e gripal, e a tia Gininha encontrava-se no pico mais alto da depressão oriunda dos seus cabelos. Chopin do mais triste
escorria na sala, à volta da tia, quando o comprador tinha entrado para falar sobre a aquisição da nesga. Não, não era preciso
ninguém se incomodar, o comprador ia ser muito rápido, a ele só lhe interessava mesmo o pedaço de terra na área do
Lentiscal. Vendia ou não vendia? Sim, a avó Regina disse que vendia, era uma questão de preço, mas não deixava de se
questionar sobre a utilidade duma pegada de pedras, num sítio daqueles, um ermo à beira duma pedreira desactivada. O que
achava Gininha?
Gininha não tinha saído da sala, apenas havia baixado consideravelmente a vibração daqueles pingos de música que a
assaltavam como chás de mandrágora. Com a mão nos cabelos, Gininha tinha ficado a ouvir a negociação, muito direita,
sentada. E Domitílio Silvestre tinha discordado — «Desactivada? Oh, Ma’am!» Como se ainda estivesse na África do Sul.
Desactivada, não. À vista da palavra desused, desused mine, até os olhos dele riam, voando entre a mãe e a filha.
«Desactivada, só enquanto não houver quem a active, Ma’am...» Aliás, desse assunto percebia ele muito bem. Quando falava,
Domitílio Silvestre colocava sotaque e palavras em inglês no meio das frases, todos os termos da sua técnica de pedraria ou
afins também em inglês, e sucedia que Gininha era professora dessa mesma língua. Nesse momento, a música triste tinha
parado.
«Faça a sua oferta. O que me diz a isso?»

Mas a aproximação entre ambos só iria acontecer um mês mais tarde, quando Domitílio Silvestre tinha vindo mostrar o
processo de licenciamento que lhe permitia a exploração por cinco anos, renováveis, da Pedreira do Lentiscal, a mesma que
antes fora selada. Podia ler-se no documento que o permitia — REPÚBLICA PORTUGUESA, com o selo branco e as armas
de Portugal. Nesse dia, os olhos muito escuros de Domitílio Silvestre brilhavam de alegria e prometiam uma energia qualquer
que fazia agitar partes inertes da sala da avó Regina. Vinha perguntar se finalmente lhe vendiam o terreno ou não. E o
regressado da África do Sul era tão honesto que, em virtude da permissão obtida, oferecia agora muito mais dinheiro pela
nesga de pedras. O dobro não, mas quase — «O que me diz a isso?» Por um momento, a avó Regina havia ficado
contemplativa. Depois, uma onda de liberalidade a tinha invadido. Era preciso estar à altura do acontecimento. Assim sendo,
Regina Leandro vendia àquele homem o terreno pelo preço primitivo. E também não via com maus olhos que a filha Gininha
saísse para um passeio de duas horas, no carro onde dormitava o cão alobado.
«Vem, até o jardim está à tua espera...» — insistia ao telefone, naquela tarde quente de Setembro. «Estou a preparar o nosso
jantar».

Assim, em frente de Villa Regina, o cão ainda tinha rosnado, o bicho ainda tinha feito umas voltas no banco de trás do carro
potente, mas a voz de comando de Domitílio Silvestre fizera-o sentar — «Sit down, Buggy, sit down...» Era de novo uma tarde
de Inverno macio, os dois haviam entrado no Foyer do Luxor e permanecido entre reposteiros pesados. Depois, farto de estar
sentado, o comprador fora mostrar-lhe o buraco das Pedreiras, uma cratera longa e funda, aos socalcos, onde ele mesmo via
uma grandeza bíblica e ela, com algum esforço, via também. Em seguida tinham rumado para o local da Amurada, onde
Domitílio havia começado a erguer uma vivenda a que tencionava atribuir o seu próprio nome. Ali estavam umas paredes
cinzentas a levantar-se entre faias e plátanos pequeninos, vestidos de plástico para não se danificarem. Ele levava o cão pela
trela, o bicho aos saltos — «Sit down, sit down, Buggy! On the ground...» E assim, passados dois meses, se tinham casado.
Era do conhecimento de todos.
A avó Regina, porém, não vira aquela precipitação com bons olhos. Uma coisa era uma rapariga sair a passear numa tarde
de Inverno, por causa da depressão, e outra bem diferente era casar-se, precipitadamente, com uma pessoa que falava de
negócios demasiado vagos. A avó ficara supersticiosa, sobretudo, pelo facto de a relação de sua filha com aquele homem ter
tido início diante das letras espúrias duma licença comprada, um papel subornado. Disso ela tinha a certeza. Meses mais
tarde, quando se apercebera que o genro não parava em casa, não comia, não dormia, quase não falava com a tia Gininha, nem
em português nem em inglês, porque só negociava, só multiplicava, só engendrava, a avó Regina enchera-se de razão e
começara a chamar-lhe vários nomes, entre eles, o de pássaro bisnau. Nos comentários que fazia a propósito, a avó discorria
alto, inscrevendo a situação da filha em leis de compensação universal que ela própria formulava. Dizia que só aos trinta anos
a sua filha mais nova havia encontrado uma alma suficientemente tosca para a descompensar da beleza e da sensibilidade que
a Natureza lhe tinha dado. E referia aqueles dois atributos como traços fatais que cedo ou tarde haveriam de atrair dissabores,
qualidades superiores que estariam na origem daquele encantamento súbito de sua filha Gininha por uma criatura tão oposta.
Era a saudade ancestral que a beleza tem do caos. A atracção irremediável que a bondade tem da treva. No caso do marido de
sua filha, o caos e a sombra organizados sob a forma do pássaro bisnau. A princípio contavam-se cenas conjugais terríveis.
Na família havia ordem para ninguém as repetir. Ponto final.
Aliás, o olhar de despeito profundo que a avó Regina experimentava pelo marido da tia Gininha só haveria de oscilar, anos
mais tarde, quando certa vez, discutindo-se a decisão de a avó Regina ter entregue àquela gente da terceira vaga a Fábrica de
Conservas Leandro 1908, ele fora o único elemento da família que se tinha posto a seu lado. É verdade que Regina Leandro o
havia feito por razões inconfessáveis, mas Dom. Silvestre conseguia ler na atitude da sogra um olhar pragmático de elevado
alcance. Conversava-se à mesa, e a propósito dos Mata, ele tinha dito, servindo-se de uma bebida — «Fez muito bem,
Senhora Dona Regina, deixá-los lá estar. Sem pessoal lá dentro, num abrir e fechar de olhos, tudo aquilo viria abaixo. Nem se
aproveitaria o piso. Olhe, para ser franco, desde que bem trabalhada, a mim me parece estar ali uma jazida de pedrinhas duras
de valor incalculável...»
Porque não? — Domitílio Silvestre tinha vindo da África do Sul, tinha feito a carreira da Namíbia até ao Lundo, conhecia
bem a região, de a atravessar de jipe, sabia tudo sobre pedras duras, suas propriedades e rotas de mercancia. Falava para seus
cunhados, esclarecendo-os, iluminando-os — «Para que é que querem os olhos, vocês? Não vêem? Está na cara... Fez muito
bem a Senhora Dona Regina em dar uso àquele casario. Em seu lugar, eu faria a mesma coisa...» Nesse dia, a avó Regina
tinha-o tomado por uma pessoa inteligente. Depois, tinha-se esquecido.

«Por favor, vem, antes que escureça...» — dizia a tia ao telefone.

Mas o golpe de sorte de Domitílio Silvestre havia acontecido em torno de um cartão de visita, ainda antes de ter conseguido
a exploração da Pedreira do Lentiscal, e antes mesmo de ter conhecido pessoalmente a tia Gininha. O seu nome completo era
nortenho e longo, e numa urgência, o regressado da África do Sul tinha pedido ao tipógrafo que o abreviasse o mais possível,
de modo a simplificar o cartão de visita de que estava necessitado. Mais do que simples, queria prático. Queria que, assim
que puxasse pelo cartão, a sua pessoa ficasse logo identificada. O tipógrafo que pensasse no assunto. Passados dois dias,
sobre o seu balcão de trabalho, tinham aparecido, distribuídas no meio de um rectângulo bege, duas palavras apenas — Dom.
Silvestre. Fora um achado formidável. Todos sabiam. Naquele Inverno que se seguira ao Verão de oitenta e cinco, quando
Domitílio Silvestre tinha oferecido um gin tónico à tia Gininha, lá no Foyer do Luxor, já o comprador era conhecido pelo
nome abreviado. Já o gerente do hotel o tratava familiarmente por Dom. e a empresa iria chamar-se precisamente Indústria
Extractiva, Explorações Dom. Silvestre. Assim, a tia Gininha nunca o chegaria a tratar por Domitílio. Só Dom. Ela própria
iria ser conhecida, a partir de então, entre amigos e chegados, como a mulher do Dom. das pedreiras.

«Podes entrar à vontade. Eu deixo a cancela aberta. Esta noite, até podes deixar o teu carro mesmo em frente da garagem...»
— dizia a tia, do outro lado da linha.

Quebrado o elo com a Fábrica Velha, e antes de o tio Rui Ludovice ter assumido o cargo público de Presidente da Câmara,
havia mesmo quem só conhecesse a avó Regina como a sogra de Dom. Silvestre. Os membros menos salientes da família eram
conhecidos pelo parentesco com ele, incluindo Milene. Só que uma ressalva devia ser feita — desde o início que o tio Dom.
não gostava de Milene. O tio antipatizava fortemente com a sua forma de ser, não pela pessoa em si mesma, mas pelo cúmulo
de erros que em seu entender a família tinha cometido em relação a ela, como se Milene fosse uma conta errada por falta de
cálculo, e isso enervava-o. Na opinião do tio Dom., Milene seria uma pessoa comum, se tivesse tido uma educação adequada.
E a propósito falava de colégios sul-africanos que elogiava sobremaneira e dos quais, como exemplo, extraía verdadeiros
programas de casas de correcção. Horários de cadeia.
O maior incidente, porém, tinha surgido durante as últimas férias que João Paulo passara em Valmares. Encontravam-se
todos sentados à mesa, debaixo do toldo, rente à piscina, na casa da Amurada, e Dom. a falar precisamente de como se
poderiam educar pessoas problemáticas, levando-as de madrugada para o meio do jungle e obrigando-as a regressar ao ponto
de partida, só pela orientação do sol, e outras perícias semelhantes — todo um programa onde de vez em quando perpassava a
sugestão do jejum e da chibata — quando Milene, aproveitando um silêncio momentâneo, tinha começado a dizer — «Oh! Oh!
Conheço um Dom. que é neto de padeiro... Conheço um Dom...»
Fora um momento muito embaraçoso. Milene repetia inconveniência atrás de inconveniência, e todos os presentes,
petrificados à volta da mesa como um friso de estátuas, mantinham-se mudos. A tia Gininha nem se movia. A avó Regina rola
alguma coisa, fazendo convergir para o centro dos lábios unidos um molho de rugas que se deslocava em círculo, como se lhe
tivessem cosido a boca com agulha e linhas. Apanhada naquele silêncio, Milene tinha perguntado — «E depois, todos os
Silvestres foram trabalhar para as minas, lá na África do Sul... Não é assim, João Paulo?» Milene olhava para a avó Regina,
que por sua vez não fazia mais do que mover o objecto duro de roer, sem olhar para ninguém. Ninguém a olhar para ninguém.
A ordem natural invertida, a força a ser atacada pelo mão da fraqueza. Assim, sem ameaça nem aviso. E logo aquele era o dia
de aniversário do tio Dom., estando todos reunidos na Vivenda Dom. Silvestre, exactamente por essa razão. E acontecia
aquilo. Os olhos do tio muito pequenos, muito vivos, brilhavam-lhe na cara como duas brasas sopradas. Dom. Silvestre tinha
atirado o guardanapo para cima do prato — «Ou ela ou eu, ou ela ou eu...» Muitas, diversas vezes, como um disco riscado que
tivesse a propriedade de aumentar a potência com a repetição. Com o braço apontado — «Ou ela ou eu, ou ela ou eu...» Então
Milene tinha saído da mesa a correr, e o tio, esgotado pela ira, tinha-se sentado. Depois levantado. Naquele dia, o tio Dom.
não voltaria mais à mesa.

«Vem, já estou no terraço à tua espera, a brincar com a bebé. Tu não queres é vir» — dizia a tia Gininha do lado de lá.
«Vem, antes que escureça...»

Entretanto, Gininha e Dom. Silvestre quase não se falavam. Por vezes ela precisava, mas ele não tinha tempo. Queria por
certo multiplicar alguma nesga de pedras que ainda não havia encontrado à face da Terra e andava à sua procura. Sem dúvida
que a grande multiplicação viria um dia. Mas quando? — Habitualmente não saíam juntos. A avó Regina dizia que, para o tio
Dom., os cães eram os melhores companheiros dentro do carro, porque só rosnavam, não faziam perguntas nem se intrometiam
na vida dele. Por sua vez, a tia Gininha não frequentava os carros do tio. Dava as suas aulas, ia e voltava na sua própria
viatura e tinha começado a dizer à irmã que Dom. Silvestre praticava um inglês do Soweto. Fosse como fosse, de vez em
quando, apareciam juntos, e passado todo aquele tempo, ainda havia quem continuasse a tratar a mulher do Dom. por Gininha
Sereia. Nas recepções do Clube Náutico surgiam os dois, lado a lado, ela, alta e magra, bem feita, ele, muito vivo e quase
pequeno. Também passavam férias juntos. Quando regressavam, pareciam mais próximos, e Gininha falava dele com mais
familiaridade. A parte dela que lhe era vulnerável, mais preenchida. Todos sabiam.

Mas naquela tarde o telefone não parava de tocar e era sempre a voz da tia Gininha quem estava do outro lado — «Porque
esperas? Vem!» A voz entusiasmada da tia, como se não atravessasse um luto, como se tivesse regressado ao Verão de oitenta
e cinco. No entanto, o que a tia Gininha queria dizer era diferente. Qualquer coisa como — Vem, pois o tio Dom. esta noite,
felizmente, não está... Por sua vez, Milene também tinha tomado a iniciativa de levantar o telefone — «E se ele chega?»
Perguntou, de surpresa, como se a tia lhe tivesse dito o que não tinha dito.
Do lado de lá, Gininha fizera-se chocada, abrindo o jogo — «Sabes? É que o tio Dom. anda aí com uns holandeses, e
quando eles se encontram demoram uma noite inteira para se entenderem. O tio Dom. só vai voltar de madrugada...» Milene,
receosa — «E se ele chega mais cedo e dá de caras comigo?» A tia do lado de lá, cheia de paciência — «Também exageras
muito. Nesse caso dizias a verdade. Dizias que tinhas saudades da bebé, que já não aguentavas mais. Vá, não maces, Milene.
Vem. Imagina nós duas, sozinhas, a jantarmos na mesa do terraço, como a avó gostava...» A tia a falar como se estivéssemos a
meio do melhor Verão das nossas vidas.

Então Milene esgalhara pela estrada fora e chegara rápido.


Tinha ido direita ao quarto de Artemisa, uma bebé nascida fora de tempo, um plano expresso do tio, que de vez em quando
também pensava na descendência. A avó Regina tinha dito que fora apenas para ocupar completamente a tia Gininha, para que
não sobejasse nada. Fosse por que razão fosse, ou por razão nenhuma, a bebé existia. Milene debruçara-se sobre a criança,
que não se mantinha quieta, de desenvolvida que estava. Tinha ganho aquela agitação na Gran Canaria, durante os dias em que
se havia desenrolado a fatalidade com a avó Regina. Em vão a tia Gininha tentava pôr a mão sobre aquela turbulência humana.
A bebé movia-se, virava-se, queria atirar-se para o espaço, até que no meio daquele rebuliço adormecera. Pequena coisa
transpirada, vencida, entregue ao fundo da cama. Milene e a tia Gininha, descansadas, abraçadas, atravessando a casa,
parando aqui e ali, no meio dos aposentos. Sem o tio — «Vês? Vês, Milene?»
Sim, a casa de Dom. Silvestre não era só uma bela casa. Ali dentro, cada adorno e cada objecto tinha um preço de entrada e
um preço de saída, os instrumentos de viver da tia Gininha a valorizarem-se dentro de casa como se fossem moedas de oiro no
cofre invisível dum banco. Quadros, jarrões, porcelanas delicadas com formas humanas, esculturas modernas parecendo
apenas pedregulhos rolados, quadros com assinaturas que a tia decifrava antes de chegar lá, Buffet e Vieira da Silva,
pendurados por cima de pontas de marfim — «Vês? Isto aqui vale um dinheirão...» A tia explicava que o tio trazia aquelas
peças de casa de pessoas que lhe deviam montantes elevados e não lhe pagavam, sendo bastante difícil, por vezes, aferir os
valores exactos em objectos daquela natureza, uma vez que se tratava de um assunto que escapava de todo ao tio. Tinham um
consultor, um devedor do tio. A tia, muito próxima, muito chegada, juntando a sobrinha a si, deixando as riquezas onde
estavam e avançando pelo jardim fora até ao terraço coberto. A tia a dizer — «Não podes imaginar o que nos tem acontecido.
Sabes o que diz o tio? Que se não fosse a fatalidade ocorrida com a avó Regina, teríamos continuado em Las Palmas sem
darmos por nada. E desgraçadamente, na nossa ausência, estavam a tramar a liquidação das Explorações Dom. Silvestre...»
«A tramarem a tia? Quem estava a tramar? Quem?»
Tia e sobrinha, cada uma de seu lado da mesa, jantando no terraço, a noite pacífica, a faia iluminada. Taças com mousse de
camarão, como Milene gostava. A tia confidenciando como se a sobrinha fosse uma confidente válida. A tia a dizer que
Milene não poderia nem imaginar o que pretendiam fazer — «Quando chegámos, tínhamos multas de montantes
incomportáveis, todas em cima do prazo. Multas dos serviços centrais e multas camarárias, todas elas a coincidirem, sem o tio
dar por nada. Mais dois dias por lá, e o processo seria imparável. Tem sido horrível, horrível...»
«Serve-te...» — tinha dito a tia Gininha, comunicativa, refeita do primeiro efeito do luto.
«Esta noite, o tio Dom. não vem cá tão cedo. Já te disse que estão aí os holandeses. E se não estivessem esses, estariam
outros. Ainda ontem à noite, quando o tio voltou para casa, já passava das quatro. Felizmente, tudo liquidado. A esta hora, já
aqueles malditos papéis foram à viola...» A tia a explicar o assunto com palavras que não pareciam suas mas do tio Dom.
Silvestre. Era como se a tia se afastasse do marido, e ao mesmo tempo que se afastava, levedasse dentro de si a parte mais
densa deixada por ele. Isso ela entendia. O tio a falar pelos lábios da tia — «Não, não podes compreender, Milene. É que,
segundo os fiscais, a situação está sempre ilegal, e por isso multam tanto quanto podem, mas a partir do momento em que
metade do montante da multa vai para os bolsos deles, tudo passa a ficar legal. A legalidade tem a forma da algibeira dos
tipos. Compreendes o que estou a dizer, Milene?»
Milene compreendia que estavam a tramar a tia, e isso bastava. As duas a olharem para o jardim onde a relva luzia com
reflexos de oiro. Dentro de casa, a bebé exausta, a dormir no berço branco. Bruno José a jogar com outras crianças, na
vivenda ao lado. A tia a dizer — «Imagina, Milene, que o tio só descobriu a tramóia por termos vindo mais cedo de férias.
Coitada da avó Regina, coitada...» A tia Gininha a deixar os longos cabelos roçarem pelo prato, assombrada por leis
enigmáticas, leis que regulam diálogos extravagantes entre a morte e a vida, leis com sua parcela de horror e sua ponta de
utilidade, de que uma pessoa por vezes beneficia sem compreender. Agora a tia, emocionada, sem conseguir engolir a mousse
de camarão. A tia Gininha, com duas lágrimas a caírem sobre a sua linda taça de vidro. Oh! Tia Gininha...

«Ainda bem que vieste. Lembras-te do Lentiscal?»

O Lentiscal já não era um buraco feito de socalcos, um anfiteatro como exigia a lei, mas uma falésia lisa como o côncavo
duma tigela, e no entanto, era ainda uma bela jazida de pedra, um calcário formidável, cinzento, tudo útil e aproveitável, desde
a brita fina à gravilha mais tosca. Só que não valia a pena o tio comprar mais terras em volta, porque já se estavam a atingir os
pátios das casas de viver. Jamais Milene poderia imaginar o que o tio sofria por isso. Todos os dias havia queixas de
particulares por causa das rebentações. Papéis e papéis. O que não era preciso pagar para que toda essa papelada fosse
directamente para o lixo. À data, o tio ainda conseguia fazer rebentamentos muito acima da vibração permitida, porque ele
mesmo possuía o sismógrafo que media a rebentação, e os fiscais não possuíam, até lhe pediam a ele mesmo os dados, para si
e para outros, quando necessários. O tio Dom. tinha o aparelho. Não lacrado. Como se fosse lacrado. Isto é, lacrado não
lacrado — «Tu não entendes, eu sei, eu sei. Mas se estou a contar tudo isto, Milene, é só para que saibas que estamos em maus
lençóis...»
Gininha a falar como se fosse um prolongamento do tio. Milene até gostaria de poder dizer — Tia, metade da tia Gininha
agora faz parte do Dom. Silvestre, a tia fala pela boca dele. Vejo os seus lábios e não são os seus, são os dele, a moverem-
se para cima e para baixo... Não podia dizer. Pelo contrário, a tia suspirava muito. Porque suspirava? Ela própria respondia.
Porque bastava que lacrassem o sismógrafo, ou que aparecesse um casmurro qualquer que instaurasse um processo conforme
os emaranhados da lei, para que o Lentiscal ficasse entregue à sua sorte. Nesse caso, o que iria o tio Dom. fazer à sua vida? A
nossa vida? A tia a olhar para a relva iluminada, a tia a querer que ela comesse mais, muito mais — «Até quando se consegue
isto segurar? Para se segurar, o tio está extraindo tudo o que pode, arrancando de lá tudo o que pode arrancar, noite e dia.
Gastou um montante incalculável em iluminação, para os moinhos poderem trabalhar ininterruptamente. Só que de um momento
para o outro, não se sabe o que pode acontecer. Compreendes? Foi por causa dessa dúvida que o tio esta noite foi falar com os
holandeses. Não sabemos até quando vão permitir a exploração do Lentiscal...»
«Então, tia?»
«Sim, Milene. Era aqui que eu queria chegar. É preciso criar alternativas para a nossa vida, Milene. Agora que a avó
Regina desgraçadamente faleceu, estão criadas as condições necessárias. Não sei se me faço entender, Milene. Como é difícil
explicar...» — A tia Gininha de luto, preto e branco, a camisa branca coberta pelos cabelos castanho-borgonha, muito longos,
a caírem na gola, como se fosse uma rapariga. A tia Gininha a pedir que se servisse de mais, muito mais, e a dizer: — «Estão
criadas as condições, Milene, e tu até nos podes ajudar. Tem a ver com o problema da Fábrica Velha. Mas quando começar o
nosso roulement, de três em três dias, vamos poder falar sobre a forma como nos podes ajudar se o Lentiscal encerrar. Agora
vamos mudar de assunto.»
«O que tens feito, Milene, conta lá. Como tens passado os teus dias? Não voltaste à Praia Pequena? Já não te entendes com
o Mar de Prainhas? Que bom, quando aquilo era uma praia selvagem... Ainda me lembro, em oitenta e cinco. Tu já tinhas a
altura que hoje tens e no entanto eu guardo a ideia de seres muito mais pequena. Tão engraçados, vocês os três, a saírem da
água e a chamarem por mim... Não comes mais? Mandei fazer a salada de fruta só para ti. Também devias desbastar esse
cabelo, todo eriçado. E um vestido. Nunca pões um vestido? » — Quando a tia deixava de falar na Pedreira do Lentiscal, o
buraco aberto na terra, uma cratera escancarada diante do Oceano, de onde o tio arrecadava o dinheiro que queria, a parte do
tio Dom., que vivia nela, evaporava-se. A tia Gininha era outra vez a lindíssima tia que apetecia abraçar, parecida com a
Gininha do melhor Verão das nossas vidas, quando ela tinha andado de mãos dadas pela areia com os dois namorados.

E dez anos depois, ali estavam as duas, muito juntas, desfrutando da noite calmosa. As duas abraçadas.

A conversarem, a suspirarem. A tia a completar a conversa sincopada de Milene, a levar-lhe salada de fruta à boca com a
colher de sobremesa. Provinha do lado de lá da cerca o rumor de Bruno José a jogar com a vizinhança. Milene lembrava-se
do som da água no dia em que o jardineiro a recebera para lhe dizer que a tia não estava. Mas não ia falar desses dias. As
duas a falarem de praias futuras, de Verões que haveriam de passar juntas. Assim entretidas, nenhuma delas poderia dar pela
entrada de quem quer que fosse. No entanto, era concreto, era exacto, acontecia ao contrário do previsto, pois alguém ali vinha
a andar. Quem vinha?
Pelo passeio adiante, atravessando a relva, vinha Dom. Silvestre.

Gininha levantou-se.

Sim, era ele, o marido da tia em pessoa quem ali vinha a caminhar com passo regular, vinha a aproximar-se. O pé nas lajes,
o pé na relva, a avançar em frente, na direcção do terraço. Não havia dúvida — Eram as suas calças claras, as suas pernas
quase curtas, o seu ventre um pouco inchado, apertado pelo cinto, era o tio Dom. inteiro, iluminado pelas luzes-bóias, quem ali
vinha. A tia Gininha a olhar, hipnotizada, sem se mexer, sem articular palavra, como se um fio de nylon retesado unisse os
olhos da tia à ponta dos sapatos do tio, avançando pela vereda de lajes semeadas no meio da relva alta. Como uma avalanche
de que só se visse uma pequena parte. Avançava. A tia caiu na cadeira. O resto da comida em sua terrina parada, a casa
magnífica parada, a honra parada. Os olhos doces da tia Gininha esbugalhados, cobertos por uma camada fina de gelo. Tia?
Tia? — Então Milene levantou-se do seu lugar, agarrou no saco e circundou a casa a correr. Atravessou o lance de relva
oposto onde a piscina azul tinha a paz da água e um pavãozinho costumava dormir junto a uma pequena cascata. E transpondo a
portada que se mantinha aberta, Milene desapareceu de cena.
VIII
Milene entrou no carro e nem olhou para trás. Voou estrada fora. Só parou quando viu sobre a mesinha da avó Regina o
telefone pousado, à sua espera. Tinha o coração acelerado. Discou. Ouviu — If you want to leave a message for Lavinia or
João Paulo, please do so after the tone. Thanks. Bye... O coração desacelerado. «Não, ainda não está» — E no entanto,
precisava que ele estivesse do outro lado de lá, para falar sobre um pensamento triste que a tinha assaltado, enquanto o seu
Clio percorria a estrada. O carrinho periclitante a querer sair das curvas, a querer seguir em frente, e ela, sem saber como,
enquanto endireitava o volante, tinha concluído que os bons não eram fortes e os fortes não eram bons, mas enquanto havia
fracos muito ruins, jamais havia encontrado muito bons muito fortes. Então porquê? O que tinha a ver a bondade com a força?
Repeliam-se? Repeliam-se, por acaso, João Paulo? O bom não podia ser bom e impor a sua bondade? Se a impusesse, só pelo
facto de impor, passaria a usar o método da ruindade? — Era só um pensamento que tinha tido e que a agoniava. Pois até
conhecia casos para exemplificar as diferentes categorias, mas para ilustrar o caso de um bom, ao mesmo tempo muito bom e
muito forte, não encontrava exemplo nenhum. Era isso que ela queria dizer a João Paulo, se ele estivesse. Mas ele ainda não se
encontrava na sua casa de madeira, lá do outro lado do Atlântico, coberta com telhas de zinco. Ainda não tinha voltado de
Miami ou de outro sítio assim, acompanhado de Lavinia. E daí, talvez ele voltasse, naquela mesma noite, e a chamasse. Iria
sentar-se, à espera. Nem iria ouvir nenhum disco para poder levantar o auscultador ao primeiro sinal — João Paulo?
Caramba, tenho estado a pensar, a pensar. Os bons muito fracos, os ruins muito fortes, e outros um bocado de tudo. Por
hoje, não te digo mais nada.

Saberíamos dois anos mais tarde.

Sobre a mesinha de telefone da avó Regina encontrava-se o livro de endereços de Milene. A capa reproduzia a fotografia
que Lord Snowdon fez a Meryl Streep, empoleirada entre as árvores, quando era rapariga. Também dizia Personal Addresses.
Era um volumezinho pequeno, contendo apontamentos elaborados na letra redonda de Milene. Enquanto esperava que o
telefone tocasse, Milene lia nomes, números e riscava-os. A agonia que tinha trazido do jardim da tia Gininha estabilizava-se
com a selecção dos endereços. O que precisava era de não reproduzir aquele momento em que vira a figura de Dom. Silvestre
surgir a caminhar sobre a relva. Chegava a imaginar que sempre ali tivesse estado, congelado, à espera do momento para
aparecer. Para as surpreender, para as aniquilar. Milene mantinha a esferográfica entalada entre os dedos. — Pois aqui está
um nome que vai desaparecer — ANABELA. Anabela era da sua idade, tinha casado havia muitos anos e dedicava o dia
inteiro aos filhos, como se a sua função neste mundo fosse levar e recolher crianças de escola em escola. A sua vida era uma
escravidão, sem piada. Riscou. E Isabel? — Riscou ISABEL e riscou JAIME, pessoas que também não lhe interessavam mais,
tinham as suas graves ocupações. De manhã à noite, a trabalharem em escritórios, pareciam motores. Ela passava por lá,
esperava horas, eles sempre com a cabeça baixa, as mãos ocupadas, as horas preenchidas de ponta a ponta. Riscava. E depois,
LUÍSA, sua antiga amiga. A Luisinha, antes, trabalhava numa casa de discos com montra para a Marina. Era uma linda montra
onde se espelhavam os iates por cima dos discos. Daí havia trazido os melhores álbuns escolhidos, segundo a Blitz. Mas
desde que tinham fechado a casa, nunca mais soubera de Luisinha. Deveria ter um novo namorado e vender discos numa outra
loja, que nunca mais lhe tinha dito uma palavra. Riscou. E assim por diante, foi riscando, riscando. JOANA, PAULA, SARA,
VERINHA, amigas de passagem, riscava. Aliás, o que de mais acertado deveria fazer era riscar também os nomes do tio e das
tias. Esquecer-se deles e da sua proposta de roulement. Só não riscava porque tinha dúvida se não deveria ficar à espera dos
dias curtos, para ver o resultado do calendário que não tinha fim. Não acreditava nem desejava. Só tinha curiosidade. Depois,
Milene folheou várias vezes o livro de endereços e encontrou o que procurava. Numa das últimas páginas, escrito de esguelha,
lá estava o nome de Violante.

VIOLANTE.

Esse nome não iria ela riscar, não.


Violante ainda nem teria completado dezasseis anos, mas era como se houvessem nascido no mesmo dia do mês e tivessem
a mesma idade. Gostavam da mesma música e tinham conversas afins. Violante, tal como Milene, adorava a água, e enquanto
nadava, também falava com o mar. Tinham as mesmas conversas com o mar — «Vem! Vai... Anda... Aquela além, vamos as
duas de mãos dadas contra aquela grande...» Referiam-se às ondas, quando o vento quente soprava de sudeste e o mar branco,
durante dois ou três dias, parecia uma coisa séria. As duas apertavam as mãos, levantavam os braços, e agarradas uma à outra,
corajosas, enfrentavam as ondas. As ondas separavam-nas, atiravam-nas para terra. Violante gritava — «Cabrona dum raio,
bebi-te toda...» A rirem, as duas cuspiam água. As duas unidas voltavam a dar as mãos e entravam de novo no mar — «Vamos
mijá-la, vamos mijá-la...» Depois, cansadas, deitavam-se na areia, não precisavam de toalhas. Havia três anos que Milene
tinha o Clio, e a amizade de ambas datava dos primeiros dias em que Violante havia aceite uma boleia de Milene. Nessa
altura, Violante contava apenas treze anos. Milene tinha mais do dobro, mas durante o Verão era como se fossem irmãs
gémeas. O que uma detestava, a outra detestava. O que uma adorava, a outra adorava. Fisicamente achavam-se até
semelhantes. E se durante o Inverno o convívio diminuia, era só porque Violante estudava tardes inteiras, sábados
intermináveis, domingos e feriados, e assim não se podia contar com ela. E durante aquele último Verão, infelizmente, quase
não se tinham falado.
Na Praia Pequena havia um bar onde Violante se empregara a servir cafés e Schwepps e só estava livre pela manhã,
demasiado cedo, ou já tarde, sol-posto fechado. Milene chegava pelas onze horas, ficava a nadar e a correr em frente, e depois
vinha sentar-se no estrado do bar, à espera dum momento de folga de Violante, o que não acontecia nunca. Mesmo assim,
aquela tinha passado a ser a sua praia preferida, e por ela Milene havia abandonado a costa do Mar de Prainhas. Nem já lá ia.
Era precisamente para a Praia Pequena que se dirigia, naquela segunda-feira, dezoito de Agosto, quando lhe tinha passado
pela cabeça encontrar provas da passagem da avó entre as Bombas e o diamante, e inutilmente acabara por atormentar as
pessoas que lá moravam, com toda a perturbação que se lhe seguira. Agora já se tinha entrado na segunda metade de Setembro,
mas ainda assim, enquanto o telefone não tocava e os pensamentos sobre a divisória entre bons e maus voltavam para onde
sempre tinham estado, Milene tinha decidido ir procurar Violante.
Porque não? Talvez Violante ainda lá se encontrasse na Praia Pequena, e as duas pudessem ir lutar, de mãos dadas, contra
as ondas, aos saltos, com os fatos de banho quase arrancados, e elas a puxarem-nos para cima e a gritarem como as duas tanto
gostavam. Talvez. Rente ao telefone, Milene prometeu a si mesma retomar o caminho até Violante, e logo no dia seguinte
dirigiu-se para lá, mas ao aproximar-se, Milene viu que nada iria ser como tinha pensado.
Pela praia não andava ninguém. A areia revolvida parecia cansada. As ondas erguiam-se sob o efeito do levante e, como se
já tivessem prestado o seu serviço humano, haviam regressado à existência solitária de água. As ondas levantavam-se,
exibiam-se, caíam, obedeciam a uma lei ondulatória, absoluta e totalitária. Desapareciam, ficavam nada, eram só água, e outra
vez renasciam como se fossem galgas de seres vivos prisioneiros da horizontalidade. Separadas dessa identidade, erguiam-se
de novo, enrolavam-se, fechavam-se, estendendo-se como uma chapada de espuma, e quando desabava aquela muralha de
água sobre a água que acabava de ser onda, já lá vinha outra onda. Outra e outra. Irresistíveis, ruidosas. Nos anos anteriores,
as duas costumavam enfrentá-las, assim mesmo, quando não havia ninguém. Também, naquele dia, a praia estava deserta. Tudo
parecia encontrar-se a postos para as duas se atirarem à água, Milene já sentia a ondulação a puxá-las. Violante ali estava. O
bar encontrava-se aberto. Milene aproximou-se. Violante? — Violante não estava.
Deveria andar por perto. Sobre o balcão de madeira, umas quantas garrafas estavam dispostas em fila. A máquina do café
encontrava-se ligada, e em volta da tolda para onde as borras caíam, havia café entornado. Pelo estrado fora voavam
guardanapos brancos, como se tivessem sido libertos de propósito pelas ranhuras das caixas. Mas lá dentro via-se o saco de
Violante e um chapéu de praia idêntico ao de Milene. Tinham-nos comprado na mesma ocasião. Pendurado dum cabide,
também pendia um casaco de malha. Sim, deveria estar por perto.
Chamando sempre, Milene circundou o bar e viu Violante.
Não, a princípio não a viu.

Viu apenas as costas de Violante sentada de encontro a alguma coisa maior do que ela, com o rosto encoberto, e na sua
cabeça uma mão aberta que não lhe pertencia. Aliás, Violante não estava sentada directamente no banco mas sobre dois
joelhos que dele sobressaíam, duas pernas compridas cobertas de jeans rasgados à altura dos joelhos. Também a sua cabeça
não estava levantada, mas encostada num ombro e coberta pela mão que a sustinha. Os braços de Violante estavam
escondidos, como se os não tivesse, e em volta deles, uns outros braços prendiam-na. Sobre o rosto de Violante, oculto,
encontrava-se o rosto da pessoa que a segurava. Dois rostos que não se viam. Milene achou que Violante estava
desaparecendo naquela figura outra, desconhecida. Ela queria dizer — Violante? Era como se tivesse dito.
A pessoa que assim prendia a sua amiga levantou a cabeça e mostrou-se. Era um rapaz. Os olhos dele fixaram durante uns
segundos a cara de Milene e desceram de novo sobre Violante, que a não podia ver. E Milene ainda chamou, agora em voz
alta. Mas aquela pessoa levantou a cabeça e fez sinal com a mão para que se calasse. Era como se dissesse — Já que nos
achaste, vai, cala-te... A cara do rapaz voltou a desaparecer atrás do cabelo de Violante que ele levantava no ar em
movimentos poderosos e circulares. Milene teve a ideia de que ele a poderia matar.
«Eh! Eh!»
O que estava ele a fazer? Baixou-se, pegou em dois calhaus do chão. Queria atirar os calhaus, separá-los. O rapaz tapou
uma parte do rosto de Violante, a boca ou os olhos de Violante, e fixou Milene. Não falava, não se mexia, não pedia nada, só
olhava, como se quisesse com essa imobilidade manter silêncio sobre o banco que tinha ocupado e espantar quem se
aproximava. Com a mão livre, ele estendeu o braço indicando a Milene o caminho para longe. Longe dali, do banco de
madeira, do bar, da praia, das ondas quentes que se formavam e desfaziam em frente. Longe, muito longe, para ficarem só os
dois. Era o que o braço da criatura dizia.
Milene deixou escorregar os calhaus.

Tchumb, fizeram os calhaus ao cair na areia. Recuando na areia onde enterrava os pés, vendo desaparecer o par, depois o
bar, depois a praia, Milene regressava ao seu lugar no mundo — A Villa Regina. Enquanto conduzia, apertava com força a
esferográfica entre os dedos, pois com ela ia riscar o nome de VIOLANTE do seu livro de endereços.
Porque as duas tinham combinado que nunca beijariam homem nenhum na vida, mesmo que algum deles se parecesse com o
Schwarzenegger. E Violante sempre tinha dito que se sentia tal e qual como ela, que não lhe interessava para nada a
companhia de rapazes. Não queria sair com eles nem dormir com eles. Tencionava, um dia, quando fosse uma mulher velha,
adoptar dezenas de crianças como a Mia Farrow, e Milene tinha concordado com ela. As duas livres, as duas nas matinés do
Cinema Metropolitano, para verem filmes de guerra. As duas a detestarem lambidelas de amor a que chamavam de suga-suga.
Mas agora, por causa do emprego dela e da perturbação em torno da avó Regina, tinham-se afastado, e quando ela, por sua
própria iniciativa, regressava para irem entrar nas ondas, de mãos dadas, encontrava-a enroscada no colo dum rapaz a deixar-
se beijar. E ele, com um braço a segurar em Violante e com o outro a indicar-lhe a ela, Milene, o caminho dali para fora, para
muito longe. Não queria saber mais de Violante. Riscava o seu número.
Já estava.

Mas não seria assim tão simples. Há riscos que se escrevem como rasuras e são sublinhados. Há mesmo os que se
transformam em incisões definitivas.

Fosse como fosse, por esses dias, a vida de Milene fazia-se rente ao telefone. Na tarde seguinte, quem telefonou foi Ângela
Margarida. Era como se Milene corresse de cortina para cortina e cada uma, ao abrir-se, lhe oferecesse o pedaço duma peça
de teatro alheia, de que ela mesma nunca faria parte. A tia Ângela Margarida foi bastante directa — «Sabes o que está a
acontecer?» E sem referir o facto de ela mesma ter abalado de táxi, na hora do luto, explicou a razão por que não tinha voltado
a telefonar — Andava a acompanhar, pari passu, a vida do tio Rui Ludovice. Milene não tinha, por acaso, escutado as
notícias? Ah! Não, Milene só lia a Blitz e ouvia música americana, já se ia esquecendo. O Mundo podia abrir-se ao meio e
metade perder-se no espaço que Milene não daria por nada. Era a tia Ângela Margarida, irónica, a falar em andamento ao
longo dos corredores da Clínica. Então isso significava que Milene ainda não sabia o que estava a acontecer ao tio Rui
Ludovice.
Sim, depois das notícias relacionadas com o triste desaparecimento da avó Regina, em que todos tinham sido vilipendiados,
era como se a vida tivesse começado a desabar sobre as costas do tio Rui. Todos os dias apareciam nos jornais verdadeiros
pesadelos, envolvendo o nome do tio. O tio muito maldisposto, a precisar dela durante o dia e durante a noite, por causa da
insónia. Era por isso que não aparecia em Villa Regina. Aliás, telefonava, exactamente, porque tinham de se encontrar. Muito
em breve, Milene teria de contar, com exactidão, por onde tinha andado, com quem tinha ido, quem tinha assistido ao enterro
da avó Regina, e outros pormenores mais. Dizia a tia Ângela Margarida, falando do lado de lá, pelas seis da tarde, à saída da
Clínica das Salinas — «Ouves-me? Em breve o tio vai ter de falar contigo, porque uma coisa insólita está acontecendo. Diz-
me — Quem falou contigo? Quem te abordou naqueles dias? Com quem te encontraste na manhã em que andaste a atravessar a
morraça, até aos carris? Pensa, Milene, pensa naqueles dias horríveis. Puxa pela tua cabeça...»
Não, não puxaria mais pela cabeça.

Estava decidido. Milene, a nossa prima Milene, tinha posto gasolina no carro, verificado a pressão dos pneus, lavado ela
mesma os vidros, e saltando para o seu lugar, apontara na direcção da estrada que dizia Espanha. Estava confiante, sentia-se
capaz de reconstituir o percurso como se o tivesse feito no dia anterior.
Reconstituía-o. Fora assim — Naquele dia em que ele a queria devolver fosse a quem fosse, tinham saído da Quinta da
Amurada, ele à frente, ela atrás, correndo pela Via Rápida, até à saída para Santa Maria de Valmares, e aí, em vez de avançar
em frente, ele tinha metido a carrinha pelo caminho de areia, por entre pinheiros mansos de agulhas ralas, descendo em chão
aberto, até um local onde a tamiça desenrolada, ao longo duma sebe de estevas secas, indicava uma zona de ocupação humana
acelerada. Depois surgira um tapume de plástico, e a seguir tinham ficado diante das fundações duma cidade, com barracões
enfileirados a cercar a futura cidade que ainda era só aquele enorme buraco. Ou pelo menos o pedaço duma cidade, com um
letreiro pichado onde se lia VILA CAMARGA. Fora ali que ela tinha permanecido ao sol, para que o encarregado a visse, até
que ele aparecera a gatinhar pela ribanceira da escavação onde tudo aquilo acontecia e lhe tinha dito qualquer coisa como —
Não só não perdi o dia como me deram a tarde... Antonino Mata pela primeira vez satisfeito, desde que o tinha conhecido.
Talvez a única até, já que na noite em que ele a tinha levado a casa, fazia escuro suficiente para não lhe distinguir as feições.
Lembrava-se só do tecido da camisa a brilhar, enquanto lhe fazia perguntas embaraçosas por causa do calendário perpétuo.
Fosse como fosse, o único momento verdadeiramente bom tinha sido aquele em que ele lhe tinha dito qualquer coisa como —
O diabo deve estar a dormir uma sesta comprida. Aquele homem escreveu nojo, lá na folha de serviço, e a tarde de repente
ficou livre... E enquanto mentalmente reproduzia isso, já Milene tinha fechado o carro e estava a dirigir-se para a borda da
cova dentro da qual se erguiam umas plataformas de cimento atarraxadas em puas de aço.
Mas em vez de ficar em pé, como no primeiro dia, Milene tinha-se sentado na beira da cratera, com as pernas para fora, a
balouçá-las, a ver as máquinas de escavar paradas, as de bater a terra com marteladas eléctricas a tremerem rapidamente.
Gostava de ver, de escutar. Batedeiras de cimento rodando, motores de ruídos descontínuos rasgando o ar. Muitos rapazes
com capacetes amarelos. Debaixo de um deles, deveria estar a figura desengonçada de Antonino, com a camisa aberta, uma
aba para cada lado. Começando a comer uma sanduíche que tinha trazido, ia olhando para eles, um a um, dos trinta e muitos
que por lá andavam. Mas à primeira vista nenhum deles era Antonino, a pessoa agitada. Aliás, a massa cor de cinza das
fundações havia aumentado consideravelmente, mas no terreno tudo parecia acontecer de forma lenta. O movimento daquela
gente demasiado mole, esperando uns pelos outros, com as mãos na cintura, como se cada um estivesse permanentemente a ser
capataz do vizinho. Só as máquinas pareciam agitá-los, como se a corrente eléctrica passasse de momento para a circulação
sanguínea. Vagarosos eram também os braços dos guindastes, não se movendo, ou movendo-se lentamente como se fossem
pássaros bêbados, depositando contrafortes e barras diante dos operários que os esperavam, muito lentos. Fosse como fosse,
nenhum dos presentes correspondia à figura de Antonino. Esse, mesmo que se mexesse para nada, andaria de um lado para o
outro, agitando-se. À vista desarmada, por ali, não estava ninguém assim. Entretanto, uma daquelas máquinas altas que
estendiam os braços por cima do estaleiro tinha começado a mover a agulha para cá e para lá, e ela lembrou-se que Antonino
não lhe tinha dito apenas, naquela hora do meio-dia, em que a queria devolver à força — O diabo deve estar a dormir... Ele
também tinha dito — Hoje, se não tivesse sido você, eu estava mas era lá em cima... Seria ele quem se encontrava dentro de
uma daquelas casotas de vidro?

Milene tinha-se levantado e começado a andar na beira da escavação, até confirmar que era ele mesmo, Antonino Mata,
quem lá estava, a fazer girar um daqueles braços. Sim, era ele. E se o braço se movia tão lentamente, não seria que dava para
ele a ver? A ela? E vendo-a, seria que não dava para compreender como ela se sentia feliz por vê-lo lá em cima? Não pelo
facto de ele estar lá em cima, mas por se lembrar da forma como ele havia dito — Hoje, se não tivesse sido você, eu estava lá
em cima... O que achava estranho, porém, é que uma pessoa tão agitada gostasse de se envolver com uma engrenagem tão
lenta. Milene atirou o resto da sanduíche ainda enrolada no guardanapo para uma prega da barreira — Pois agora não iria
retirar os olhos de lá, iria ficar fixada naquela casota, até alguma coisa acontecer.
E Milene tinha voltado a sentar-se na borda da empena, não tencionando afastar-se dali enquanto aquela espécie de roldana
não parasse, sem fazer ideia de como se descia da caixa pendurada na haste e sem tirar os olhos de lá. Tinha vindo até àquela
obra, ainda na fase de buraco metido no chão, só para vê-lo mexer-se dum lado para o outro, mas nunca tinha imaginado que
ele pudesse estar em cima daquele engenho, que dizia Liebherr e se parecia com um braço atado a uma perna. E tinha ficado a
olhar para ele, pendurado no meio daquela engrenagem, até que finalmente já passava do meio-dia, quando reparou que
Antonino se esgueirava do interior da casota de vidro, começando a descer, pé aqui, mão ali, pendurado pelos dedos, pelos
braços, a descer rápido até ao chão, com uma velocidade formidável. Milene sentiu vontade de chamar — «Eh! Você aí, olhe
para mim. Tenho estado eu, aqui, a olhar aí para cima...»
Mas seria que ele tinha reparado nela?
Não, não tinha reparado. Em vez de subir pela empena que conduzia à borda onde ela se encontrava, Antonino tinha trepado
pelo lado oposto, onde havia uma espécie de socalcos escorados na falésia, e nem sequer se dirigira para um transporte que
fosse seu. Um pequeno grupo de rapazes rodeava um carro largo e amarelo, uma velha viatura americana, um Pontiac ou coisa
parecida, e mal Antonino tinha entrado por uma das portas cambadas, haviam desaparecido numa espécie de rally, guinando
da esquerda para a direita, caindo em covas, fazendo solavancos e levantando poeira. Desaparecia. Milene acreditava que, se
ele a tivesse avistado, ao menos ter-lhe-ia acenado com a mão, já que nem era ele quem conduzia o velho carro americano.
Acreditava. Lá de cima, tão em cima, ele não a tinha visto.

«O cegueta não me viu, hã?» — tinha ela dito, vendo-o desaparecer aos solavancos, naquele carro. «O estúpido foi-se
embora e nem olhou para este lado. Não me viu...»

Mas tinha visto, sim.


Milene teve a prova ao cair da noite. Ela ouvia discos, baixou o som. A carrinha Mitsubishi de Antonino Mata tinha surgido
do lado do cruzamento com o Miramar, tinha subido, virado, permanecido em frente de Villa Regina durante algum tempo,
como se fosse estacionar, e depois havia deslizado pela estrada abaixo, grãos de areia sob o rodado, levando consigo o rosto
escuro do seu condutor. Milene não tinha voltado a levantar o som da música, na esperança de ouvir o rodado. O que era
aquilo? Como se chamava?

Um jogo sem regras tinha-se estabelecido. Coisa ténue, presa por um fio, ninguém perdia, ninguém ganhava.

Durante alguns dias, de número impreciso, Milene, por sua livre iniciativa, iria sentar-se à beira da escavação do Hotel
Camarga, para ver Antonino manobrar o guindaste. Antonino saía para o almoço no velho Pontiac amarelo, cheio de mossas,
que roncava e levantava poeira, levando lá dentro mais quatro ou cinco, sem ninguém olhar para ela. Ao cair da noite
invertiam-se os desempenhos. Em frente de Villa Regina, ele passava muito lentamente, fazendo escorregar a carrinha, como
se vigiasse a casa. Milene, entrincheirada no primeiro andar, era como se não o visse. Sabia que ele passava, via-o atrás dos
vidros, mas não se manifestava, como se desconhecesse a carrinha. Era perfeito. Para utilizar uma expressão própria de
algumas pessoas da nossa família, poderiam ter ficado assim até ao fim dos dias.
IX
Também no interior da Fábrica de Conservas Leandro 1908, por esses dias, Ana Mata se tinha acocorado perto do leito
dos seus rios, ali mesmo onde eles se juntavam formando um curso compacto. Pousada na sua cadeira, assistia ao movimento
das águas desde a chegada das primeiras cheias da manhã, com seu refluxo, fluxo e transbordo de margens, até à evaporação
das ilhotas que se formavam na vaza, à medida que o caudal voltava a sumir-se entre lajes.
Eram previsíveis, os rios de Ana Mata. Cheiravam melhor na hora dos banhos, e ela conseguia identificar quem se
encontrava debaixo do duche, pelo perfume do sabonete trazido no tumulto das águas. Sabia muito bem. Nos seus rios corria
Palmolive, Lux, Nívea, Musgo Real, e nenhum aroma era igual ao outro, ainda que fosse impossível reconhecer as flores que
lhes davam o cheiro. Violetas? Rosas? Canelas-da-índia? — Misturas, fenos, fragrâncias cruzadas, aromas bons. Mas quando
alguém deixava escorrer pela pia matérias indevidas, em vez de as transportar em baldes para longe da cozinha, lá bem para a
zona onde antigamente fermentava o guano, então os rios de Ana Mata poderiam cheirar muito mal, e de repente, aquilo que
era normalmente um curso de água a deslizar por uma superfície plana, com o grande céu por cima, tudo isso se reduzia, num
abrir e fechar de olhos, a um regato para o qual ela só encontrava, no meio das suas ideias mais tristes, a palavra esgoto.
Nessas ocasiões, os rios de Ana Mata poderiam tresandar a ácido, como de unto rançoso, ou a doce envenenado, como de boi
apodrecido. Era isso que ela temia que acontecesse, precisamente, durante aquela tarde, pois uma das suas filhas havia
entornado no curso das águas um balde de gordura de lavar a carne, e agora ninguém se acusava. Ela não o dizia em voz alta
por respeito às próprias filhas, mas dentro da sua alma, com muita mágoa sua, levava-as de mentirosas. Mentirosas, oficiais
de mentir.

Mas não, não iria dizer, pensava na sua língua.

Ana Mata sabia muito bem como as filhas andavam transviadas. As três muito tesas, muito gordas, tinham escolhido aquele
dia de sábado para cozinharem cachupa e oferecerem uma festa aos amigos do Bairro dos Espelhos, a fim de honrarem o
programa de televisão onde iria aparecer Janina Mata, o herdeiro das vozes homem da sua família. E nisso faziam muito bem.
Desde sempre, ainda antes de ter saído de Ribeirinho da Praia, na viagem que havia feito pela costa de África, já ela sabia
que toda a pessoa deve distribuir o bem que lhe acontece, sob pena de o mal que sobrevier lhe ser merecido. Sempre o tinha
dito às filhas, e elas haviam aprendido. Mas agora, em vez de oferecerem a alegria que lhes batia à porta, acompanhada por
comida modesta, e assim guardarem o dinheiro restante, tinham-se empenhado na cozedura de alimentos ricos, para mostrarem
como eram mães de cantor. E nisso faziam muito mal.
Na verdade, a cachupa que sua filha Felícia cozinhava desde manhã, incluía carne de porco, vaca, galinha, bacon, presunto,
galantines, fumados e toda a espécie de enchidos que havia em Portugal, o que era um desperdício bem vergonhoso. Nas suas
mãos, aqueles mesmos mantimentos dariam para fazer cinco cachupas correntes e saciar, em vez de vinte pessoas, umas cem.
No entanto, as suas filhas, na ansiedade de parecerem importantes, ao deitarem na panela todos aqueles temperos, não só
roubavam conduto a quem dele precisasse, como ainda por cima estavam a cozinhar uma mixórdia que não se iria poder
tragar. Ela, Ana Mata, que conhecia caudais verdadeiros como os de Cacheu e Mansoa, pelo menos ela, não tragaria. Tushp,
tushp... Ia cuspindo. Jurava, por Deus e por seus três pequenos rios, que só comeria a parte do milho que ela mesma havia
pilado. Felizmente que seu neto Domingos era homem demasiado bom. Três anos antes, tinha-lhe ele feito um pilão de madeira
de eucalipto tão próprio que não havia outro igual. Coitadas das suas amigas que não tinham pilon de madeira, e seus filhos e
netos ofereciam-lhes de cimento, para elas se contentarem. Pilon de cimento não tinha doçura em seu tacto, partia o milho ao
meio, desfazia-o aos bocados. Ela não, ela pilava, pilava, tuntum, tantam, e de cada semente só saía a carepa e o farelo como
devia ser. No fundo do pilão, cada bago ficava inteiro, redondo e macio como uma pérola acesa. Pilão verdadeiro. Por isso,
seu milho era tão precioso. Tinha-o pilado ali, junto ao leito dos rios por suas mãos desveladas. E pensar de novo que todas
elas, as filhas, cosidas umas com as outras, tinham comprado uma sacada de carnes, posto todas numa só panela, e não
contentes com tudo isso, haviam despejado na pia a gordura que tinham escorrido, e agora nenhuma delas se acusava. Nem
Germana nem Dilecta. Muito menos Felicia. Mentirosas, pensava de novo Ana Mata, não dizia. Pois quanto mais suas filhas
cozinhavam bons ingredientes, mais mentiam. Sendo assim, que benefício trazia a riqueza da comida à vida duma pessoa? Me
digam? — pensava Ana Mata, na sua língua, acocorada diante dos rios. Sobre o alto da nuca, o totó enrolado. Naquele
momento, tinha ela erguido a cabeça.
«Domingos! Traga aí um pauzinho, meu neto, quero empurrar esta trampa de gordura lá para baixo...»
Tinha dito de novo. Mas era inútil repetir, Domingos não iria responder. Tanto Domingos quanto Antonino encontravam-se
em cima do telhado da fábrica a apontar para o céu uma antena parabólica. Ana Mata é que não sabia de que se tratava e
insistia — «Antonino! Traga aí um pauzinho, uma caninha verde, para ver se isto vai para baixo, meu neto...»
Ana Mata não percebia. Estava demasiado atenta ao que se passava a seus pés para poder reparar como todos se tinham
agremiado diante da cozinha para olharem na direcção das telhas, lá onde os dois netos sustinham, com a ajuda de uma
terceira pessoa, uma rodela branca, a corola duma flor gigante cuja pétala fosse de plástico. Naquele momento, ainda a antena
não se encontrava completamente ligada ao telhado, mas para quem aguardava, era como se o Mundo inteiro já ali viesse ter,
só pelo facto de se encontrar virada para a dimensão infindável do espaço. Sim, Ana Mata não tinha dado por nada, entretida
com o sebo que engordurava o rio, a pensar durante a tarde inteira no pauzinho com o qual empurraria a repelente olha
amarela que ali se havia instalado. Nada de nada. — Não vê que não a ouvem, senhora? Não vê, não sabe? Não está cá neste
mundo?
Então sua filha Felícia explicou muito alto, para a mãe ouvir. Felícia irritada — «Levante o assento dessa cautcha, senhora,
e venha ver o que se passa. Não enxerga como eles estão a ligar a nossa casa aos satélites que andam na atmosfera? A senhora
não vê? Agora vamos ter três aparelhos de televisão, o maior deles com capacidade para alcançar para cima de trezentos
canais ao mesmo tempo. Sabe quantos são trezentos canais? Cem, mais cem, mais cem... Ouviu a senhora o que eu disse?»

Ana Mata rodou a cabeça e viu — debaixo do telheiro, havia um novo ecrã, do tamanho duma porta deitada. Parecia
mentira. Três televisores, trezentos canais. Sabia muito bem quanto eram trezentos. Mas sendo cada pessoa só uma pessoa,
fosse o que fosse em número de trezentos era de mais para cada pessoa. Trezentos? — pensava, e ela própria se sentia a mais,
enquanto pensava, em pé, vigiando os rios. Entretanto, acompanhados pelo técnico das parabólicas, os netos de Ana Mata já
estavam descendo do telhado onde a redondela do tamanho dum guarda-sol de praia tinha ficado apontada para o céu da tarde.
Trezentos. E serviria aquele objecto para melhor se ver o Janina? Para melhor se ouvir a sua linda voz? — No entanto, Ana
Mata ficaria a saber que tão cedo não iria resolver as suas dúvidas, a antena só iria funcionar dali a um tempo. Ainda não
seria aquela a noite da estreia dos satélites. Seria só depois. Não, não era preciso dizer muito mais, Ana Mata compreendia
tudo. Compreendia que a sua filha Felicia queria apenas que o pessoal do Bairro dos Espelhos, que por ali passasse, pudesse
deparar com a parabólica posta no telhado a anunciar o progresso da sua vida. Enquanto Ana Mata nem tinha pauzinho nem
cana para fazer correr a água gordurosa lá bem para longe, nem dispunha de poder para denunciar as intenções submersas que
viviam naquele pátio. Poder nenhum. Era isso, as suas filhas, gordas, mentirosas e impantes, estavam perdidas de vaidade.
Sendo assim, ela mesma iria procurar um garfo de pau e mover as águas estagnadas do seu rio. Não precisava de pedir mais
nada a ninguém. Com quem se entendia menos mal era com Domingos e Antonino. Os netos desciam do telhado.
«O que está a fazer, minha avó?»
«Nada, meu neto Domingos, estou só a desentupir um pouco de merda que se está acumulando no meu rio...»
«Está mesmo?»

Para eles ainda ela conseguia rir. De costas viradas, remexendo no regato, criando rápidos, açudes, assoreamentos,
dragagens, tempestades fluviais para que a corrente passasse sem aquele fedor animal em decomposição, ela limpava e
despoluía, e eles até não se importavam, só que demorava de mais — Era Felicia quem achava. Ana Mata podia desentupir
sim, mas tinha de ser obediente, tinha sobretudo de ser rápida, pois de momento para momento iria começar a chegar gente do
Bairro dos Espelhos e não ficava bem ver-se uma mulher a esgravatar na rua, na posição de um mosquito, em hora de festa. As
mesas estavam separadas para aumentar a capacidade do pátio. A cachupa seria servida em seu próprio panelão. Ouviam-se
carros lá fora, os dois cães latiam de amor por quem chegava. E havia pessoas que chegavam a pé, trazendo à cabeça a sua
própria cadeira. Vinham com pressa. Janina apareceria em breve, por volta das sete e meia, embora a canção já estivesse
gravada. Estava ou não estava? As pessoas pedestres entrando. Felicia Mata ia falar ao telefone com o próprio Janina para se
informar.
Informou-se e gritou no meio do pátio do diamante — «Olhem, já está gravado e correu muito bem. Só falta mesmo a gente
assistir...»
Entusiasmada, telefonou mais alto — «Janina? Olha, sou eu, a tua mãe, outra vez. É só para te dizer que vai estar aqui em
peso o pessoal do Bairro dos Espelhos. Teus primeiros amigos de peito. Nunca esqueças, meu filho... Mesmo que apareças
por satélite em todo o Mundo, ao mesmo tempo, nunca esqueças que você nasceu três vezes. Estás a ouvir bem? A primeira
vez foi em Ribeirinho, lá em Santiago. A segunda foi no Bairro dos Espelhos, tinhá você oito anos e meio. E já agora, meu
filho, olha, escuta, terceira e última vez, foi há cinco anos, tinha você treze, quando nasceu aqui, na sua casa da Fábrica de
Conservas Leandro 1908. Está lembrado?» — Felicia estava composta, com vestido de seda e folho no pescoço, pulseira de
prata, telefone no ouvido, e o pessoal do Bairro dos Espelhos em massa estava mesmo chegando. — «O que dizes tu, Janina?
Ai, ai...Nasceste agora mil vezes... Isso já é desconversar. Nasceste só as vezes que é importante nascer. Eu te digo quantas.
Ciao, beijão. Já chegou todo o pessoal para te ouvir cantar...»
Mas Felicia Mata ainda não tinha guardado o telefone quando de súbito se lembrou de certa pessoa que não havia
convidado, e só agora dava conta do esquecimento. Os seus filhos daqui para ali, já todos vestidos e arrumados, as mesas
postas e Felicia arreliada consigo mesma. Telefone em riste — «Dona Milene? Sim, sou eu, criatura. Olha, é hoje aquela festa
do Janina. Você não quer vir? Vem, mulher, e traz tua alegria contigo. Estamos esperando por você. Só faltas tu. Não tenhas
vergonha, vem. Toda esta gente sabe que você tem a quinta parte desta casa. Vem lá, vem...» E ainda sem falar aos recém-
chegados, Felicia pôs os olhos em Antonino, que ali andava dum lado para o outro, e chamou — «Antonino, você que já está
habituado a acompanhar aquela lesma, vá lá buscá-la, que ela é muito cobarde, e ainda é capaz de não vir cá ter, ou chegar
atrasada e acabar por não conhecer o Janina. Vai lá. Já sei que você está vestido e perfumado, mas também não é preciso
feder para ir buscar a moça branca, pô...»
Só depois Felicia Mata se entregou aos beijos e aos abraços, e mandou vir o panelão, com vela acesa por baixo para se
manter sempre morno. A vida podia andar muito malvada noutros locais do Mundo, mas ali pelo menos todos estavam em paz
e alegria. Ela estava mesmo convencida de que um dia o satélite, em vez de trazer conversas dos outros para dentro do seu
pátio, ia até ser capaz de proceder em sentido contrário, isto é, acabaria por levar as conversas do seu pátio, para se mostrar
aos outros como se pode viver em paz e alegria. Sobretudo através de Janina, quando o Janina voltasse para descansar das
digressões que aí viriam. — Sim, mulher, para já, muitos beijos e muitos abraços. E tu, Antonino?

Antonino não tinha como escapar. Tomou a sua viatura.

Passou pelo cruzamento do Hotel Miramar, tomou a estrada das Brisas e deu a volta, em frente de Villa Regina. Nada de
admirar. O filho de Felícia Mata apenas procedia em plena tarde como costumava proceder ao cair da noite, avançando
silencioso, como se viesse investigar qualquer procedimento suspeito. De novo levava as crianças. Naquele momento,
Emanuel, Cirino e Quirino encontravam-se sentados no banco de trás e os três brincavam com um frasco de Havana com o
qual se pulverizavam. Antonino arrancou-lhes o frasco das mãos e colocou-o no tablier, irritado. Dentro da carrinha reacendia
a perfume. Quando Milene se aproximou, Antonino tirou os óculos, desligou a música e disse, muito severo — «É para vir
atrás, no seu próprio carro. Ouviu? Depois faz-se tarde, não a posso trazer. Provavelmente ninguém a pode trazer.
Compreende bem?» Em seguida guardou o frasco dentro do porta-luvas, e em vez de se lhe dirigir, educadamente, para lhe
explicar por que razão todos os dias passava por ali, ou em vez de se referir às longas horas que ela aguardava diante das
fundações do Hotel Camarga, para vê-lo subir e descer, em vez de lhe contar de que forma e em que condições subia lá para
cima, já que nem sempre subia, e explicar-lhe por que razão nem olhava para ela, quando descia, Antonino só vinha buscá-la
para lhe dizer — «Despache-se que se faz tarde. Quando a gente quer, nada anda...» Falava, pendurado da janela, de camisa
branca, muito perfumado, sem lhe explicar por que motivo fingia não a ver quando estava a comandar a máquina, e depois,
apeado, abalava com os amigos do Pontiac amarelo, sem lhe dirigir palavra. Em vez de lhe dar essa explicação, que nem
demoraria um segundo, Antonino só dizia — «Então vamos lá...» Cheio de pressa, como se ao vê-la ela lhe tocasse no
músculo encarregado de o fazer partir para outro lugar. Milene, vexada. Haveria dois Antoninos? O Antonino que todas as
noites passava em frente de Villa Regina, muito devagar, seria por acaso o mesmo que lhe gritava com pressa aquele Vamos
lá, vamos lá, como se ela fosse uma coisa mandada?
Sim, foram, ela à frente, ele atrás. Quando chegaram junto das palmeiras, ele fez descer as crianças e comunicou — «Está lá
dentro gente a mais. Não gosto de muita gente junta. E depois, já tantas vezes ouvi o Janina, que até me sinto enjoado. Vou só
levar os garotos e parto logo. Boa tarde...»

Mas o pátio não estava tão cheio assim. Ou pelo menos não parecia. Toda a gente se encontrava sentada à volta das
mesinhas como num café, o panelão da cachupa tinha a sua vela por baixo, e em cima do telhado, a grande flor de plástico
acenava como uma central de ligação com os auditórios do espaço. Felicia havia reservado um bom lugar para Milene, muito
perto dos três televisores, todos eles sintonizados no canal onde iria aparecer o Janina. Felicia exuberante porque a neta da
senhoria tinha chegado. Sim, era ela mesma em pessoa, Dona Milene, senhoria também. Quem não a conhecia? Já se provava
da cachupa, embora estivesse combinado que, no momento em que Janina aparecesse, o que era iminente acontecer, ninguém
mais pudesse manejar um garfo. Já acontecia. Ali vinha o Janina. O grupo imobilizou-se. Felicia, em pé, ainda gemeu para
dentro das mãos, mas logo se calou. Aliás, todos se calaram. E Janina, multiplicado por três, apareceu.
Apareceu e durante dois minutos e meio a sua figura esteve nos três televisores do pátio. Esteve nas paredes, encheu as
portas, as roupas, as telhas, as palmeiras, a terra em redor, o Mar de Prainhas, a costa, o próprio vento sudoeste do Golfo
devia levar consigo pedaços daquela voz. Todos os rostos enlevados em Janina. Era a primeira vez que Milene o via e ouvia,
e também ela estava deslumbrada. Antonino Mata, que afinal ainda não tinha partido, até ele se mostrava orgulhoso do irmão.
Quando chegou ao fim, Felícia disse — «Meu Deus, manas, estou cega! Vi tanto que não consegui ouvir nada...E vocês?»
Na verdade, tinha sido tudo tão rápido que uns não tinham conseguido ver, outros não tinham conseguido ouvir. Outros
estavam a assistir àquela actuação e só viam o espectáculo anterior, o ocorrido no Coliseu. Mas não importava. Quando
passou ao cantor seguinte, e os três televisores também já o mostravam três vezes, cantando frases meladas que metiam nojo,
no mesmo palco onde deveria continuar a actuação do Janina, as pessoas do Bairro dos Espelhos precipitaram-se na direcção
da cachupa rica e entoaram em coro — Atapetando o mar, atapetando o mar, com meu lenço de assoar... Desligando os
televisores, três vezes. E assim tinham entrado na noite de sábado, em plena festa em honra do Janina. Dentro do diamante só
existia alegria. A excepção continuava a ser Ana Mata.

Sentada na poltrona que ela mesma havia arrastado desde o leito dos rios, ao contrário de todos, a avó Ana Mata não se
movia. Os braços arqueados, na posição de mosquito. Os pequenos olhos, húmidos. Felícia perguntou — «Porque choraminga
a senhora, minha mãe? Porque não arreda pé de onde está?» Ana Mata não respondia. Antonino, que afinal ainda ali andava,
perseguido pelas crianças, perguntou também — «Diga avó. O que tem a senhora?» Os amigos do Bairro dos Espelhos que já
tinham pousado o prato aproximaram-se. A velha conterrânea da ilha, que também tinha vindo, de cadeira às costas, debruçou-
se na direcção da amiga, sem compreender — «Estás infeliz, Ana Mata? Diz lá...»
Ninguém compreendia a razão que fazia Ana Mata ficar entristecida, quando afinal o seu neto Janina era agora uma das
honras do povo. A própria filha da patrícia, a muito matrona, para animar Ana Mata, começou a dançar a canção de sucesso de
Janina, como meses atrás tinha acontecido no Bairro dos Espelhos — Eu hei-de ferir, eu hei-de matar se meu lenço não
chegar... Uh, uh! A matrona a imitar o falsete de Janina, aquele momento em que ele superava o Terence Trent d’Arby, em seu
gritinho de lobo. Ouviu? Porque choramingava agora Ana Mata, no meio de tanta alegria? Porque desejava recolher tão cedo à
sua casinha parda, quando ainda eram onze horas da noite e ainda havia tanto para rir, falar e comer? A aparelhagem do
Domingos, no volume mais alto? Felícia, agastada — «Deixem-na passar, ela chora porque o garfo de pau que roubou na
cozinha não é suficiente para desentupir os rios...» E chamou por Antonino, que ainda ali estava, ainda não tinha partido, ainda
ali andava a fumar dum lado para o outro — «Vai, Antonino, vai lá levar a tua avó a casa dela, porque ela pode não ver onde
põe os pés, por causa das lágrimas...»

Sim, era um facto, afinal Antonino Mata ainda por ali andava.

Milene tinha começado a despedir-se. Toda a gente muito feliz com ela, a quererem saber da sua família, a trocarem
impressões por causa daquela tragédia que tinha acontecido em Agosto. Todos a reconheciam, Flora reconhecia-a de mais.
Sabia de todos os detalhes ocorridos, e o cenário onde os factos se tinham passado até ali estava. Tudo concentrado, tudo
pronto para se transformar em filme. Sim, Dona Milene era mesmo da família Leandro, identificavam-na à distância por causa
das pálpebras altas. Muitos beijos e muitos abraços. Face com face, bochecha com bochecha. Vai, vai lá andando para tua
casa, onde dizem que vives sozinha com uma criada. Será mesmo verdade?
Mas antes de deixá-la partir, Felícia, em seu vestido de seda brilhante, foi acometida por um rompante de explicação a
propósito dos beijos repetidos que dava na senhoria. Com a mão posta por cima do ombro de Milene, disse que ela e Dona
Milene se beijavam à vontade porque na família Mata era natural beijarem-se pessoas de todas as cores, conforme a lição de
Jamila Mata. Era muito simples. Os Mata sempre tinham sido assim desde que se conheciam como tal. Ou pelo menos desde
que tinha havido o escândalo ocorrido com a bisavó Jamila, enganada pelo Normand, de onde alguns deles terem ficado para
sempre com sarda na boca e olhos verdes, como ela mesma. Esse escândalo não tinha sido uma coisa boa, mas do infortúnio
haviam recolhido a grande lição. A lição de Jamila.
Que lição era essa?
Começava a fazer-se tarde. Felícia Mata riu com gosto no meio do pátio — «Não sabem? Nunca ouviram falar nos meus
antepassados? Até parece mentira...»
Não, ninguém sabia. E se as pessoas do Bairro dos Espelhos não sabiam, muito menos sabia Dona Milene. A noite estava
tão boa, ela contava tão rápido, que era só dizer. Muito rápido — É que na vida deles, dos Mata, tinha existido um francês
enorme, de olhos claros e cabelo quase branco, que fora um traidor. Esse francês tinha dado à costa todo partido, depois de o
navio onde viajava se ter despedaçado em frente da barra. Um cargueiro desfeito aos pedaços, mesmo em frente da Cidade da
Praia e um sobrevivente único, um moribundo, a ponto de morrer. Quem podia salvar aquela trouxa de gente que as ondas
levavam e traziam? Sem nada em cima? Melhor fora dar-lhe a extrema-unção. Só que na ocasião andava pela praia uma
garotinha chamada Jamila que o tinha recolhido e tratado com todo o desvelo, devolvendo-lhe vida, e ele, mal tinha podido
roer a água, como paga, fizera-lhe um filho. Uma filha, que haveria de ser Jamila, a avó de Ana Mata. Precisamente, quando já
estava refeito e a bisavó grávida, o Normand, em vez de levar Jamila Mata consigo, tinha subido ao convés dum barco que
largava na direcção das Ilhas Caribe, com um molho de cocos no braço e uma macaca ao ombro. Todos sabiam como tinha
sido. Jamila Mata, no cais da Cidade da Praia, muito prenha, a ver o amante partir no bergantim, levando consigo uma macaca
para seu desenfado. A bisavó Jamila Mata abandonada, traída. «Acham que tem perdão? Acham?» — perguntava Felícia, com
a voz muito grave.
Mas tinha sido por causa dessa cena triste, de Jamila a chorar e o Normand a acenar com o animal ao ombro, que todos os
descendentes de Jamila haviam aprendido a lição. Lição de badio di pé ratchado, muito teso, que eram todos eles, os Mata.
Ainda bem que tinham sofrido a traição do Normand, ainda bem, dizia Felícia no meio do pátio. A grande lição aprendida
resumia-se numa sentença simples, uma frasezinha que organizava o mundo como nenhuma outra. Nem na Bíblia se encontrava
uma página tão esclarecedora. Parecia uma brejeirice mas não era. Felícia a recitar como se a lição de Jamila fosse um salmo
— «Em assunto de cama e de pilim, é assim — branco com branco, preto com preto, pobre com pobre e rico com rico...
Macaco? Sozinho, no galho mais alto...» Todos a rirem e a duvidarem. Duvidavam? Então como se explicava o sucesso de
Janina? O sucesso de viverem naquela casa, com água e luz por todos os lados? Os Mata a serem bem recebidos por toda a
gente? — Explicava-se pela lição de Jamila que tinham entranhado de mães para mães e pais para filhos. Todos os Mata
pensavam assim, e assim procediam. Por onde passavam os Mata, era um descanso. Inspiravam confiança. Sempre de bem
com todos, felizes com todos, sem pretensão. Pois pessoa que não pretende mudar de escalão nunca cria guerra, nem em sua
terra nem na terra dos outros. Um descanso.
Era por isso que ela podia beijar à vontade a sua senhoria, como todos viam. Gostava da senhoria, ninguém lhe tinha
pintado as unhas como a sua senhoria, que ali estava. E nada se pegava. Beijo com beijo. Abraço com abraço. — Todo o
pessoal do Bairro dos Espelhos a rir e a olhar. Agora vai, vai, estás à tua vontade com os Mata. Nunca corremos risco de
soberba, só queremos ser o que somos. Na cama, preto com preta, branco com branca, pardo com parda e assim
sucessivamente. Grande descanso. Ah! Se Mandela tivesse pensado desse jeito, nem tinha passado a vida na prisão. Pois para
quê ficar lá tanto tempo? Remediou alguma coisa, esse homem? O mundo não continua igual? Perguntava Felícia Mata, de
vestido de seda a brilhar. Mas quando se tem a segurança de que uns dormem para um lado, outros para o outro, sem
incomodar, toda a gente pode ser amiga, abraçar e beijar uns aos outros, sem problema nenhum. Pode trabalhar junto e até
viver juntos. Todos irmãos.
«Antonino, meu filho? Você ainda aí anda? Levou lá para dentro a sua avó? Arrumou no lugar devido a cautcha dela?» —
Adeus, Dona Milene. Pronto, acabou-se a noite. Vai lá embora para tua casa. Já terminou tudo.

Milene ainda tinha demorado, depois dirigiu-se ao cômoro. Debaixo da sombra escura das palmeiras, ali estavam os carros
que tinham vindo do Bairro dos Espelhos. Arrumadas contra a parede, as carrinhas dos donos da casa. Dentro da Mitsubishi
cinzenta, recostado a fumar, encontrava-se o próprio Antonino.

Ela aproximou-se. Ele deitou fora a ponta do cigarro e disse-lhe — «Estou aqui à tua espera. Posso escoltar-te outra vez,
vou precisamente naquela direcção...»
Estava envolto numa baforada de fumo e perfume, um perfume demasiado saliente, que se misturava com o aroma da terra
seca, e não havia maneira de dizer mais nada. Em volta havia um charco de luar, e do outro lado da estrada, os dois carris de
aço brilhavam destacando-se do pasto. «Afinal tenho uma coisa muito importante para te dizer, e não me lembrava. Vamos
lá...»
Milene sabia como era. De novo, ela à frente, ele atrás, podendo ser ao contrário. De vez em quando percorriam aquele
pedaço de terra daquela maneira, sem uma verdadeira razão que o justificasse. Não passavam pelo Bairro dos Espelhos,
passavam pelas Bombas e pela curva do Hotel Miramar. Quando finalmente chegaram ao local onde a antiga estrada
secundária dizia Quilómetro 44, a vivenda estava iluminada. Ele apeou-se. Não tinha boina nenhuma. Ele disse-lhe — «Que
raio de luar...» Sim, o que iria dizer-lhe com aquele luar por cima da terra? Arredondando-a? Dando-lhe a forma dum vasto
lençol circular onde caísse prata? Era tudo tão nítido que as próprias sombras das acácias espalhavam-se no chão, separando-
os. Encostando-se à carrinha, ele ainda disse — «Se eu não tivesse compromissos, até podíamos ir a um bar qualquer.
Gostava de ir?» Tinha voltado a tratá-la na terceira pessoa. Sempre encostado à carrinha como se fosse uma parede, disse
mais — «Íamos, eu no meu carro, tu no teu, para que não dissessem que um homem como eu raptou uma mulher como tu e a
levou a um bar. Só para te dizer uma coisa. Correcto?» E depois ainda acrescentou — «Então vamos lá. Passamos assim a
direito, rodeando o Bairro dos Espelhos, até à Riacha, e lá existe um lugar onde eu e tu podemos estar em paz, ninguém chateia
a gente...»

«Queres?»

De novo percorreram a fita acidentada da costa, de cá para lá, a deslocação confinada pelas estradas e pelo mar, como um
baloiço. Chegaram junto à areia da Riacha e de facto havia um bar. Um bar quase tão iluminado quanto Villa Regina. «Não,
além não» — disse-lhe ele. Ali fora sim, a lua de prata, o mar de prata, o segredo de todos os seres ocultos cobertos de prata.
Tudo parecendo mentira. Porque ele sabia, nada era assim, nada era de prata, só parecia. Ele disse-lhe — «Vamos pela
praia». Depois, reflectia — «Não, pela praia, não». Ela lembrou-se de dizer — «Entramos no meu carro». Ele disse — «No
teu carro, não». Era como se estivesse no alto de alguma coisa e em volta só houvesse vazio, escada nenhuma. Antonino
olhava em redor e via desamparo ou impedimento em tudo. «Fazemos assim — tu ficas encostada ao teu carro e eu ao meu, a
olharmos para a praia». Assim fizeram. Ficaram a olhar. Ela via a camisa dele, quase branca, a luzir na claridade. E de súbito
ele disse — «Se a minha namorada soubesse, matava-me...»
Milene, encostada ao Clio branco, rente à estrada, a ouvir o que ele dizia, a voz dele cortando o ruído fraquíssimo das
ondas. Para assistir à noite de Janina, Milene havia posto nos braços dezenas de pulseiras. Agitou-as. «A sua namorada
morta?» — perguntou ela, sem mexer as mãos, podiam as pulseiras tilintar, e impedi-la de compreender o sentido daquelas
palavras.
«Não» — disse ele. «A minha namorada viva».
Ele estava encostado à carrinha cinzenta onde o luar batia como batia em tudo, mas naquele momento o metal da carrinha
também iluminava a lua. A camisa dele também. Alvejava como se na sua composição houvesse uma percentagem de fósforo.
A comissura dos lábios dele era um rebordo incisivo como se fosse traçado a pinça, e as narinas largas também luziam.
Antonino, nervoso, desengonçado, parecia querer atacar alguém ao mesmo tempo que dizia — «Eu não vou ficar assim,
sozinho, não posso. Preciso duma mulher que me dê filhos...» — disse ele. «As pessoas da minha ilha gostam de ter muitos
filhos. Multiplicar a cara duma pessoa na cara de outras é bom. É a vida...» — disse ele.
Milene repetia muito baixo o que ele tinha dito, só para ter a certeza que compreendia.
E ele, muito alto — «Eunice morreu. Você já ouviu falar da Eunice? A mãe dos meus filhos? Agora não quero pensar nesse
assunto. Sabe...» Tratava-a novamente em terceira pessoa. «Sabe, foi um amor muito lindo, o nosso. Eu e a Eunice quando
nascemos já vínhamos juntos, de mãos dadas. Passados vinte anos, foi só casarem-nos. Diziam as pessoas...» Depois ficaram
em silêncio. Porém, com Antonino, mesmo que se ficasse calado, nunca se ficava em silêncio. Ele disse — «Como você não
sabe, eu vou contar para você ficar a saber. É assim — Toda você me lembra ela e eu não sei porquê. E a minha namorada
actual é preta como a Eunice e não me lembra a Eunice. Você lembra e é branca. É tal e qual ela. O seu jeito de ser, o seu
andar. A mesma mania de beijar objectos, quando os acha. A mesma voz fininha, tal e qual a da Eunice, caramba... Você,
Milene, lembra-me ela. E Divina, a minha mulher actual, não me lembra a Eunice...» Disse ele. O mar e o céu transformados
numa salva perfeita. Na vida da pessoa só deveria haver uma noite de esplendor assim. A apertar a garganta, para nada, mas a
apertar. Ela nunca tinha assistido a uma noite semelhante, ou então não se lembrava. Pois bem, fala lá, diz lá, eu estou a ouvir.
Fala, fala. Por fim, ele disse — «Quem haveria de dizer? A esta hora, Divina ainda está à minha espera. O melhor é irmos
andando, porque se nos vêem aqui, três horas da manhã, não sei o que vai acontecer... Melhor dizendo, eu não sei o que vai
acontecer...»
«Só sei que tenho uma coisa para te dizer» — disse Antonino ainda, subindo para a carrinha donde provinha um forte cheiro
a perfume, talvez Havana, como se o porta-luvas estivesse aberto e o frasco estivesse entornado. No luar da noite quente e
calmosa de Outubro, nele também luziam o fio de oiro, desmedidamente grosso, e o cinto. O cinto com fivela de metal
brilhante também. E o relógio, o grande relógio no pulso, grande como uma taça. Tudo isso brilhava no lusco-fusco do mar
enluarado. Ele então olhou para o relógio cujas agulhas fosforesciam e disse — «Quatro horas. A esta hora ninguém sabe onde
estou. Vamos lá...»
Arrancaram, o veículo branco atrás, o cinzento à frente, o caminho às voltas, passando por bandos de rapazes em busca de
boites, os hotéis ainda com gente nos lounges, um polícia solitário rondando. Passaram depois pelos caminhos mais longos,
metidos pelo meio de casas cujas fachadas brancas os olhavam como grandes caras, saídas da terra, para os saudarem,
dizendo-lhes coisas à sua passagem. Até que ultrapassaram pelo Norte as Bombas de Gasolina e em breve estavam diante do
Quilómetro 44. Ele tinha descido.
«Você continua a deixar as luzes acesas. Porquê?» — perguntou ele. Os lábios dele a luzirem, as narinas a luzirem, todo ele
a brilhar.
Não, ela não ia dizer nada. Ele tinha uma namorada viva. «Agora não sabemos mais quando nos veremos» — disse ele.
«Até mais ver».
Depois ele voltou para trás e disse — «Sim, queria dizer-lhe uma coisa, Milene. Queria pedir-lhe que não fosse mais olhar
para mim, quando eu estou lá em cima. Percebe? Começam a arranjar-me sarilhos por causa da Divina. É uma grande
chatice...» Dizia ele, e no entanto, para a Lua e a Terra, era indiferente. A Lua continuava clara de prata, a Terra continuava a
recebê-la com passividade mortal. «Uma grande chatice, percebe, Milene? Nem sei como explicar. E no entanto, você parece-
se com a Eunice. Às vezes eu acho que a sua alma é a dela...»
Ainda disse — «Vá, suba, entre em casa. Apague as luzes. Você deveria tomar mais cuidado consigo. Vá, vá...» Recuando
no tom, entrando, pouco a pouco, no tom daquele dia em que a queria devolver fosse a quem fosse. A voz dele arranhando no
final das palavras, como nesse dia.
Ela mesma gritou — «Não é preciso gritar. Olhe, já aqui não estou...»
E Milene entrou a correr, os calcanhares a baterem-lhe na saia. As pulseiras comprimidas para não tilintarem. Já lhe
bastava que o portão fizesse aquele ruído. Dim, dum. Desarvorada, atravessou o jardim microclima, subiu as escadas. Subiu
ao primeiro andar, e já do seu quarto espreitou para fora. Ele lá estava. Estava à espera que ela apagasse as luzes. Mas ela
não apagaria. Ficariam acesas até de madrugada. Até ser manhã, ou todo o dia, se fosse caso disso. Agora, ela tinha a certeza
de que ele já se tinha ido. Mas em frente, entre as duas vivendas, rodeadas de montes de cimento, e pirâmides de tijolos, ainda
lá estava. Só depois Antonino fez deslizar a carrinha pela estrada abaixo. O luar da madrugada era tão claro que nem se via.

Passados dois anos, ainda esse luar continuaria claro. Mas os dias seguintes foram desencontrados.

Milene esperou que o telefone lhe dissesse as últimas palavras — Please, do so after the tone. Thanks... Só depois ela terá
encostado os lábios ao bucal. Estava a olhar para as vivendas em frente, de onde os antigos moradores haviam desaparecido,
e em seu lugar, ao cair da tarde, oficiais da construção civil cismavam dentro de carros. As folhas da nogueira a enrolarem, a
perderem os nervos vegetais — «João Paulo? Ouves-me? Não me ouves? Telefono-te para te falar do diamante...» Do outro
lado ouvia-se um solavanco repetido, um tiquetaque na engrenagem, enquanto a fita da gravação corria. Milene, com os lábios
longe do bucal, gritando na sua direcção — «O teu telefone é um nojo, apetecia-me cuspir-lhe na cara. Não sei se vou
continuar... »
Estava sentada num banco, entre os fauteuils da avó Regina. Sobre o tiquetique que ora se aproximava ora desaparecia, ela
disse, com a voz mais grave possível — «Às vezes a minha vida põe-se muito chata... Fui ao Mãos Largas para trabalhar
lá, mas não fiquei... Quando o Barbosa soube que eu queria trabalhar, telefonou para o tio Rui Ludovice, com cara grave...
Depois deu-me uma bandeja, um bloco de apontamentos e um lápis que tanto se podia colocar dentro da algibeira como
entalar na orelha. Entalei na orelha. Também me deu um avental comprido, quase me batia pelo meio das pernas. Vi-me ao
espelho. Toda eu de lado parecia uma borboleta. As azelhas mais largas do que a cintura e as fitas abaixo da saia... Não
aguentei uma hora aquele laço, nem o lápis, nem a bandeja. A única coisa boa era mesmo o cheiro das pizzas. Trouxe três
para casa, quando me despedi. Despedi-me... Andava eu ali, de um lado para o outro, quando tinha tanto para fazer, aqui,
em casa da avó Regina. Está sempre tudo sujo...» Milene suspendeu a ligação. Do lado de lá, o telefone continuava a
produzir ruídos distantes, uma zunida intermitente que ela não sabia se tinha por finalidade repeli-la ou chamá-la. Milene a
olhar para dentro do bucal. A insistir — «O que se passa aí? Nojento é o teu telefone, nojenta a tua gravação. Hã? E tu
nunca estás. Abalaste para parte incerta. Também era só para te dizer que voltei ao diamante. Está tudo como não
imaginas. Lá dentro vive a tal família completa, com dois cães, duas moças, crianças, pedreiros, um homem muito velho,
muitas velhas, garotos em barda. Um viúvo também. Telefonam a cada momento para um deles que é cantor e têm antena
parabólica no telhado. No telhado do diamante. Por causa do cantor, fizeram uma festa de arromba... Dentro do
diamante... Foi por isso que estive lá... Um deles, o viúvo, tem duas mulheres, uma morta e uma viva. É condutor de gruas.
Tem uma carrinha Mitsubishi. Esse, agora, já não passa por aqui como passava. Passava todas as noites... Estás?» Milene
suspeitou que a fita fosse acabar. Disse muito à pressa, os lábios colados ao bucal — «Também não há mais nada para dizer.
Quando me falares, vou contar-te o que eu vi na Praia Pequena. Um horror, um horror... Mas as ondas estão iguais.
Adeus, bye. Tua prima...»
«João Paulo? Sim, as luzes estão todas acesas. Dizem que a casa da avó Regina parece uma árvore de Natal.»
X
Sobre o calendário perpétuo? Sim, existiu.

Os dias eram então cada vez mais curtos, precipitando-se rápido cada pôr do Sol e prolongando-se, lento, o fim de cada
madrugada. Sempre assim fora desde que a Terra se pusera a rodar, mas só nesse Outono Milene o verificava, bem como as
inevitáveis implicações horárias. Isso tinha a ver, precisamente, com o calendário perpétuo que os tios, afinal, queriam
cumprir, e ela não sabia se queria evitar. Na verdade, quando a hora mudou, as duas tias começaram a aparecer
alternadamente e as horas de espera começaram a governar a sua vida — «Espera-me entre as nove e as onze...» Quem
telefonava, porém, chegava à uma. «Não posso ir esta noite, mas passo por aí amanhã, cerca das oito e meia...» Era a tia
Ângela Margarida que não chegava a aparecer, por causa do tio Rui e do serviço da Clínica. E assim por diante. Percebia-se
que o calendário tinha sido combinado até ao fim da vida, mas era tão absurdo que na realidade não haveria de durar duas
semanas. Nem seria necessário Milene pedir que parassem com as sevícias que a si mesmos os tios se haviam imposto, como
havia pensado no início.

Refiro-me às tias, principalmente a tia Gininha, bastante abatida desde a noite em que o tio Dom. não se tinha encontrado
com os holandeses e havia surgido no meio da relva.

A tia começara por aparecer em Villa Regina num domingo à noite, e depois, durante duas semanas, tentou cumprir a sua
parte. Chegava perto da uma hora, estendia-se sobre a sua antiga cama de solteira e fechava os olhos, apertando a mão de
Milene. Com a entrada no Outono, à medida que os dias passavam, o luto parecia avolumar-se-lhe em vez de se esbater, pois
assim que se encostava murmurava palavras soltas e referia o facto de antes terem sido cinco irmãos, e agora estarem
reduzidos a três, e ainda por cima desunidos. Referia em particular a perda dos dois irmãos mais velhos de quem se havia
sentido como filha, ela que nascera já na meia-idade da avó Regina. Percebia-se que fazia o balanço da sua vida, e por vezes
perguntava a Milene se por acaso ela se lembrava de um ou de outro namorado que tinha tido, referindo passeios, filmes,
encontros e colares étnicos oferecidos dentro de caixas de cetim. Milene lembrava-se de alguns, de outros não. Não podia
lembrar-se de tudo. Mas nem sempre a tia Gininha era a mesma.
Às vezes ficava amarga como nos tempos em que entrava de rompante em Villa Regina, alarmada, contando em prantos
gregos, para quem estivesse presente, episódios de desencontro profundo com o marido. O tempo em que a avó Regina lhe
dizia — «Divorcia-te, regressa a casa da tua mãe, antes que seja tarde...» O tempo em que todos partilhavam do seu
desapontamento. Depois Gininha tinha preferido a condição de recato. No final dos anos oitenta, Gininha já só confidenciava
detalhes a uma ou outra pessoa da família, que por sua vez os reproduzia em segredo até todos os conhecermos e repetirmos
uns aos outros. Gininha acabava por saber o que sabíamos da sua vida. Tinha-se fechado. Era como se tivesse tido a
consciência do ridículo de haver casado com uma pessoa como Dom. Silvestre, depois de ter tido mais de cem namorados.
Estava no seu direito. Encobria-se. Mesmo assim, a certa altura, sabia-se que viviam naquela linda casa à sombra da faia e
dos plátanos, e no entanto, embora o Bruno José já fosse nascido, mesmo à mesa, na sala de jantar, onde havia várias
estatuetas Lladró, e uma menina de mármore rosado saída das mãos de Cutileiro, o tio Dom. peidava-se. Era triste, triste. O
genro de Dona Regina não tinha o sentido da profanação. Constava também que, nessas alturas, a tia Gininha saía da sala, ia
ouvir música clássica, Chopin e Mendelssohn, que adorava, e só sobrevivia porque via aquela casa partir, com a memória dos
seus namorados lá dentro, cada um com as suas habilidades transfiguradas, e ela entre eles, penteando os cabelos compridos e
falando o inglês de T. S. Eliot de quem sabia poemas de cor. Triste, amarga. Fora por essa altura que se dera a grande
transformação tão comentada por todos — Gininha começara a ser, intermitentemente, habitada pela lógica do tio Dom., a tia
como se fosse uma parte integrante do seu marido. A tia havia desistido da tragédia, tinha escolhido o lado burlesco da vida.
Quando a ouvia falar, às vezes, a avó achava que ela tinha morrido, outras vezes, que apenas havia hibernado. Só assim se
compreendia a conversa sobre negócios, na noite em que ele surgira da relva. Só assim se poderia aceitar que durante os dias
do calendário perpétuo, às vezes a tia mudasse de humor e parecesse feliz, começando a sonhar em voz alta — «Sabes? O tio
Dom. tem um projecto extraordinário. Trata-se da construção duma nova cidade. Hoje em dia, todo o empresário minimamente
empreendedor quer construir uma cidade. Mas tem de se andar depressa, porque a costa não é de elástico. No caso do tio, ele
até já comprou o spot publicitário a uma firma italiana de marketing.
Diz assim, o spot — Aqui, o Oceano, cansado das ondas, depôs suas Armas...»
«O que achas?»

Passava da meia-noite, Milene deitada ao lado da tia, a tia a falar nos projectos do tio Dom., no Oceano e em armas
depostas, na configuração do buraco da Pedreira, nos rebentamentos que fazia com o sismógrafo parado, nos dois inimigos do
tio mortos à entrada da Pedreira, factos sem nenhuma ligação com o tio. As mortes. Pelo contrário, cá se fazem cá se pagam,
uma vez que eles tinham querido aniquilar a vida empresarial do tio. Algumas chatices que o tio tinha tido em tribunal mas
nada ficara provado. Que culpa tinha o tio de haver pessoas que invejassem o cenário bíblico da pedreira para se abaterem a
tiro? Não é verdade, Milene? Que responsabilidade tinha o tio? Compreendes, Milene? — Sim, era aquela a tia Gininha a
quem o piloto, durante a primeira parte do melhor Verão das nossas vidas, sempre sonolento, ou com os sonos trocados,
costumava cantar uma canção dos Tongas, a que designava pelo lullaby de Ana Latu, cuja letra os dois entoavam, sentados na
areia do Mar de Prainhas — Oh the way we walked on the sand... Ele, de olhos fechados, entregue à areia. How our
footprints became one. A tia, de olhos no mar — So precious to me, my dear Ana Latu, oh! so precious... «Lembras-te?»
Sim, desse caso, às vezes, Milene lembrava-se.
Pena fora que a tia Gininha não tivesse entrado no cabeleireiro Joseldo, durante o namoro com o piloto. Ou com o biólogo
de conchas de madrepérola, tanto fazia. Como teria sido diferente. Assim, ali estava ela a falar numa cidade futura estendida à
beira-mar, onde o deus Oceano, extenuado de suas lutas, depunha as armas para descansar. Uma cidade do futuro, imaginada
pelo tio Dom., para se descansar. Que preciosa ironia. Milene não era capaz de ironia, mas era capaz do desprezo. Perguntou
à tia Gininha, as duas deitadas, lado a lado, na mesma cama — «Tia, vê onde eu tenho as minhas mãos?»
A tia, erguida, a olhar para ela — «Estão sobre as tuas maminhas...»
«Não, tia, estão nos meus ouvidos. Olhe bem para os meus ouvidos — Sempre que a tia falar dele, e dos projectos dele, as
minhas mãos, estejam onde estiverem, estão enroscadas nas minhas orelhas... Este dedo que aqui vê está lá dentro mesmo,
todo enfiado, junto do bicho do ouvido, para não ouvir nada...»
Sobre o peito, Milene movimentava dois dedos entrelaçados.
A tia deitava-se de novo, muito esticada, a olhar para cima, para o candeeiro do tecto — «Porquê tudo isto, nas nossas
vidas? Porquê, Milene? Diz-me...» A tia, dividida em duas, ou melhor, composta de duas, dormia pouco. A metade que era só
dela, sempre seria só dela, dormia ainda menos e acordava sobressaltada, perguntando pelas horas. Achava que já era manhã,
a sua forma indirecta de dizer que a incomodavam as luzes acesas.
«Quer que apague, tia?» — perguntava Milene.
«Só se tu quiseres...» A tia hesitava. «Olha, não. Se te sentes bem assim, porque não hão-de estar as luzes todas acesas?
Deixa estar, minha querida...»

A tia Gininha apareceu cinco vezes.

A tia Ângela Margarida, pelo contrário, só veio duas noites. Também chegava tarde e partia cedo. Habituada às noites de
vigília na Clínica, dormia mal e em sobressalto, como um bombeiro que vigia o fogo. Assim que chegava, precipitava-se para
os botões da música e do vídeo e desligava-os. Ao mesmo tempo, as luzes todas acesas pareciam redobrar a voltagem.
Depois, a tia Ângela Margarida, em tailleur curtinho e sapatos altos, ia até junto de cada interruptor e apagava-as. A casa
parecia afundar-se na terra. Sem quase falarem, em quartos contíguos, deitavam-se. Mas ela ainda tinha dito — «Tia Ângela
Margarida?»
«Diz».
«Não precisa de vir. Eu fico bem como estou, guardando a casa da avó Regina. Vendo bem, eu não tenho mais nada para
fazer. As tias vão às suas vidas...»
A tia sem responder. Milene olhava pela porta entreaberta do quarto de solteira da tia Ângela Margarida e julgava ter um
flagelado em casa. Não ia dizer em voz alta, mas na verdade, com aquela pessoa da família ali esticada, Milene não ficava
com matéria para sonhos. E a tia deveria ter adivinhado essa sua argumentação interior, pois ao terceiro dia daquele
calendário perpétuo até ao fim da vida, já não tinha vindo. Cabia-lhe um domingo. Telefonou a avisar — «Impossível. Eu com
o trabalho dobrado nesta Clínica, e o tio Rui ocupado com a vida dele. Passei a noite na sala, tentando acalmá-lo». Depois,
mudava de tom, sempre a andar, corredores fora, o telefone a transmitir os passos — «Diz-me, Milene, naqueles dias de
Agosto, com quem falaste? Onde estiveste? Como soubeste onde estávamos? É que existe mesmo um complot contra o teu tio,
desde aqueles dias. Um complot que veio para ficar. Temos de falar no assunto. Agora vai dormir mais um bocado, ao menos
descansa tu...»

Tinha-se acabado o calendário perpétuo da tia Ângela Margarida.

Para o tio Afonso não se tinha iniciado. Isto é, ele deveria ter comutado o seu processo. Ainda antes das irmãs, o tio Afonso
começou a agir. Ou melhor, mandou agir. Incumbiu o Páscoa.
No dia em que competia a Afonso Leandro acompanhar a sobrinha, segundo aquele calendário sem fim, até ao fim da vida, o
Páscoa telefonava. Nunca referia a tensão existente entre ela e o tio, era um bom secretário, um homem educado. Perguntava-
lhe se ela tinha dormido bem, dizia-lhe que se precisasse de compras se dirigisse a tal parte, e se precisasse de jantar que
jantasse em tal parte. Tudo bem. Uma ama-seca. Ponto final. De três em três dias. Até ao fim dos dias. Mas numa sexta-feira
de Novembro, o tio Afonso apareceu em pessoa. Apareceu com a Isabel, por volta das duas da tarde. Àquela hora, o dia pleno
de sol, como se fosse Verão. Parquearam o descapotável junto às acácias. Primeiro saiu o tio Afonso, depois saiu ela e
mostrou-se. Era afinal uma boneca normal. Tanto podia ter dezassete anos como trinta e sete. E o pai de João Paulo, o tio
advogado e cavaleiro, estava em frente de casa. Iria tocar à campainha? Iria usar a sua própria chave? Nem uma coisa nem
outra — O tio Afonso sabia que ela se encontrava na sacada do primeiro andar. Chamou — «Milene, abre a porta ao tio!»
Milene, abre a porta ao tio? — Como era possível? Correu, abriu a porta, e o tio Afonso, por sua vez, chamou por Isabel.
«Isabel, ó Isabel, vem cá...»
A namorada do tio ainda hesitou junto da porta, mas acabou por avançar pela passadeira vermelha, com cuidado, até
alcançar as escadas. Subiu pelas escadas, obedecendo ao chamamento do tio Afonso. Parando, avançando, como se entrasse
numa casa de fantasmas. «Onde estás? Sobe mais. Eu estou aqui. Vem cá...» Isabel subia sem fazer ruído algum, sem
pronunciar palavra. Deveriam ter-se conhecido no hipódromo, e por certo havia entre ambos um bom entendimento. Ele dizia
— «Estou aqui, aqui, querida. Sobe mais três degraus e vira à direita...» Até que Isabel, finalmente afoita, entrou no
compartimento onde o tio se encontrava. Era o antigo quarto da avó Regina, a divisão que ela ocupava, antes de se cansar de
subir as escadas. E Milene, que tinha ficado no pata mar inferior a assistir àquela ascensão, percebeu o que ocupava o espírito
do tio Afonso. Sim, ele tinha dito Milene, abre a porta ao tio, como se ambos tivessem feito as pazes, mas o assunto em
questão era demasiado importante para que ficasse tranquila. Subiu também. Sentindo-a subir, eles fecharam a porta. Ela
aproximou-se, ficou à espera. Não se enganava — O tio estava a observar a papeleira de tampa corrediça que a avó tinha no
quarto, a que proporcionava divisões para tudo, pequenos esconderijos feitos de madeira, como se fossem dedais, sítios para
papel, canetas de mergulhar em tinta ainda perto das penas de pato, lugares delicados para selos, lugares trancados como
cofres. A papeleira da avó, em puro vinhático amarelo-claro. Estava avaliada nos formulários dos seguros em mil e
quinhentos contos. Além do mais, havia as linhas Arte Nova, a sua solidez intrépida, a elegância, a beleza. Talhada para gente
antiga que deveria manter-se direita, esticada, com os cotovelos à altura do queixo, quando queria escrever qualquer coisa.
Uma peça preciosa. Ele e ela estavam a observar. Falavam lá dentro, em voz baixa. Depois ele abrira a porta, e ambos, ao
descerem as escadas, ainda se voltaram para trás, como se de facto continuassem presos ao objecto que parecia agarrar-se ao
soalho com suas oito patas quadradas.
O tio tinha dito — Milene, abre a porta ao tio...
O que faria? Afonso passou perto dela, Isabel também, os dois a conversarem, sem lhe dirigirem a palavra. Depois andaram
pela casa toda, o tio à frente, Isabel atrás, e por vezes, diante de um e de outro móvel, enlaçavam as mãos. Milene teve
vontade de dizer — Pelo amor de Deus, não leve as coisas da avó Regina, não leve agora, nem daqui a uma semana, nem
daqui a um mês, não leve nunca. Por favor, tio Afonso... Mas não ia dizer. De três em três dias, havia aquela delicadeza do
Páscoa, e agora o tio olhava para ela sem raiva, sem mágoa, sem lhe lembrar que ela era filha do José Carlos, e ainda por
cima, tinha-lhe pedido, antes de entrar — Milene, abre a porta ao tio... Ele, que se tinha submetido àquele tortuoso
compromisso. Aliás, se ela não tivesse perdido a cabeça quando ele se sentara nos cadeirões da avó Regina, no horrível dia
do luto, talvez tudo tivesse ficado em paz, e talvez até nem sequer os três irmãos tivessem vindo a digladiar-se daquela forma,
nem tivessem inventado o calendário perpétuo. Mas Milene não contava nem dez, nem quinze nem vinte anos, e teve a certeza
daquilo que ambos pretendiam. De mãos dadas, Afonso e Isabel encontravam-se junto ao bengaleiro onde estavam os chapéus
da avó Regina. As marcas na parede das fotografias e dos quadros levados durante os últimos anos. Milene encheu-se de
coragem. A voz saía-lhe estrangulada como se passasse através dum apito. Tio Afonso?
«Tio Afonso, pensei, pensei, e agora tenho isto para lhe dizer...» — Unia os joelhos de tal forma que os sentia colados. «Se
quiser, ainda pode levar uma coisa da avó Regina...»
O tio e a Isabel, surpreendidos, de mãos dadas.
«Uma coisa à sua escolha, uma coisa pequenina. Há por aí algumas. Eu mostro, o tio pode levar...»
O tio olhava para a cara da sobrinha como quem olha para um problema de matemática exposto no meio de um quadro.
Milene precipitou-se — «É assim, tio, não pode levar as coisas grandes da avó Regina. Imagine que ela entra por ali e não
acha o que deixou. Imagine...»
Afonso Leandro cerrou os olhos, virou as costas. Falou de costas viradas, passado longo tempo — «Não entra, Milene, não
entra. Tu, melhor do que ninguém, sabes onde ela ficou». Era como se não pudesse encarar o problema de matemática, quanto
mais resolvê-lo. Mas Milene ultrapassou o bengaleiro, colocou-se diante dele e falou muito alto, triunfando sobre o raciocínio
precário do tio. Partilhando com ele a sua certeza, porque ele o merecia — «Não ficou, tio, não ficou lá. Isso é o que parece
ao tio...»
Isabel, parada na luz viva do Outono que por ali entrava, a meio da passadeira vermelha que levava à escada. A luz viva do
dia batendo em cheio na cara de Milene. Estavam frente a frente. Ela sabia, ele tinha pedido, Milene, abre a porta ao tio... E
no entanto, se o tio tivesse querido, teria levado a mão ao bolso e usado a chave própria. Era por isso, por respeito pela
pessoa dele, reconhecimento e amor por ele ser o seu tio, e pai de João Paulo, que ela falava assim, fazendo um esforço
enorme para explicar o que podia ser explicado. E o tio olhava, alternadamente, ora para ela ora para Isabel. A calva do tio
perlada de gotas de suor. Como se sobre a calva do tio tivesse chovido. Afonso, estagnado à porta de casa. Suspenso da
namorada.
«Como é que se lida com isto, Isabel? É que não sei mesmo como lidar. Tu percebes?»
E Isabel, que devia ter a capacidade de entrar no âmago do tio, e aparentava ter entre dezassete e trinta sete anos, mas
deveria estar com ele numa contemporaneidade profunda, e numa sintonia completa, apiedando-se dele e tomando-lhe o braço,
ia levando-o dali consigo. O tio, destinado a ser levado da casa materna pelo braço de mulheres, depois dos confrontos com
Milene. Desta vez, porém, Milene estava em paz, porque não tinha dito nada que ofendesse, não tinha pronunciado nenhuma
palavra ordinária, muito menos qualquer frase indecente, pelo contrário, tinha querido só explicar ao tio que ele não podia
delapidar os bens móveis da avó Regina, e por isso punha à sua disposição mais uns quantos objectos, desde que fossem
insignificantes. Só isso, nada mais. Mas o tio ia andando, levado pela namorada, e dizia, completamente devastado —
«Ajudem-me, que eu não sei lidar com isto... Outros que lidem com ela, outros...» O tio a ser levado pela boneca Isabel,
através do portão que fazia dim dum, e depois batia, trap trap.

Milene em paz consigo, a vê-los desaparecer no descapotável. A desaparecerem mesmo. Mas o Páscoa ainda continuaria a
telefonar, durante duas semanas, de três em três dias. Seria o desvanecer do calendário perpétuo do tio Afonso, até ao fim dos
dias.

Breve, e no entanto definitivo, o calendário perpétuo. — Saberíamos depois.

Também haveríamos de saber que Juliana continuava a iniciar o seu trabalho pelas três da tarde, ficando até às cinco. Os
dias brilhantes, quando chegava a essa hora, escureciam de breu. Certa vez, a mulher-a-dias já ia a sair, de capacete no braço,
em à direcção da sua mota e voltou para trás. Completamente alterada.
«Menina Milene?»
«Oh, Menina Milene!»
«É a terceira vez que dou pelo cabrão de um preto que vem fazer inversão de marcha a uma carrinha, aqui mesmo em frente,
e depois segue devagar até lá abaixo. Ai, que medo eu tenho! Ponha aqui a sua mão no meu peito».
Milene pôs.
Na verdade, debaixo da blusa de malha, o coração de Juliana batia, acelerado. Juliana estava cheia de receio de que aquela
criatura estivesse escondida num recanto qualquer e a atacasse. Pensando bem, era para aí a quinta vez que acontecia. O gajo
seguia estrada abaixo, sempre devagar, a olhar, a olhar para trás pelo retrovisor, e só ganhava velocidade, lá em baixo, já
perto do Hotel Miramar. «Três vezes? Nem sei se não terão sido mais, Menina Milene...» Tudo isso ainda fazia parte do
calendário perpétuo. Milene é que não sabia. Fora de controle, a tia Gininha tinha-a chamado — «Milene? Talvez tu pudesses
vir passar o serão comigo e os teus primos. Ele não está. Chegaram os holandeses. Desta vez é verdade. Vieram. Juro por
Deus». Disse ao telefone a tia Gininha.
A tia Ângela Margarida, porém, marcou encontro e agiu em conformidade. Havia pelo menos dois meses que o tio Rui
deveria ter falado com Milene, mas não tinha tido tempo por causa da sua acção que era ininterrupta e surpreendente. Como
ele mesmo dizia, cada dia da sua vida era tão cheio quanto uma ópera de Wagner. Por isso só agora, com o mês de Novembro
entrado, é que ele a chamava, quando até já deveria ter tornado pública a intenção de mover sete acções dirigidas contra os
responsáveis pelo que sucedera à sua sogra, Dona Regina Leandro. Rui Ludovice acabara por compreender que os processos
judiciais seriam inevitáveis. Então foi combinado que naquele sábado o Frutuoso iria buscar Milene para uma reunião, onde
se discutiriam os trágicos dias do mês de Agosto, e depois, quando a tia Ângela Margarida voltasse, almoçariam os cinco no
terraço.
Os cinco, porque no final, depois do ténis, chegariam as primas.
Assim, cerca do meio-dia, o motorista apareceu e levou-a, primeiro, através da estrada esburacada e, depois, da lisa. A
certa altura, quando os pinheiros já se dispersavam conduzindo ao Condomínio Atrium, em frente da Baía, um local ideal, nem
cidade nem campo, nem floresta nem praia, e tudo isso ao mesmo tempo, naquele Outono também sem chuva nem vento, ele
disse-lhe — «Desta vez é que é. Para já, tem o pessoal todo à sua espera». E como se ela não conhecesse a casa, o Frutuoso
ainda disse — «A reunião é no nono mas também pode entrar pelo décimo. Duplex. Não se engane. Lá em cima, o terraço
agora chama-se Penthouse».
Milene conhecia a casa mas não as transformações recentes, estava longe de imaginar o que a esperava.

Uma nova empregada doméstica, estoirando dentro duma calça elástica, mandou-a entrar num gabinete do tamanho dum
salão. Ela entrou e pôde verificar como o pessoal de que falava o Sr. Frutuoso não era uma invenção. Poderiam era não estar
à sua espera. E não estavam. Fosse como fosse, Milene vinha deparar com a Acção em acção. Encontrava-se ali perto de
dezena de pessoas, todos homens, todos concentrados, e o cheiro de vários perfumes cruzados conferia ao ambiente denso o
aroma próprio duma mata queimada. Pelo chão, desordenados, havia papéis e dossiers abertos, e copos e chávenas ao lado.
Ela sentou-se e nenhum daqueles homens lhe disse o quer que fosse, nem sequer o tio Rui Ludovice cujo cabelo, naquele
momento, lhe encobria a maior parte do rosto. Os rostos dos outros, não os via.
Porque tinha entrado?
Cada um dos presentes encontrava-se mergulhado na sua fatia de papel e sua placa celular, seu vidro evanescente a partir
dos quais falavam uns com os outros. Mas o tio retirou o rosto dos papéis e disse-lhe sem a olhar, poupando tempo —
«Estamos já a terminar, mas se quiseres, podes ir ainda um pouco lá para fora...» E continuando — «Não tivemos tempo de
conversar desde aquele dia. De qualquer forma, precisamos só de confirmar aqui uns detalhes. Espera só um instante...» O tio
levantou o rosto para ver os outros. Todos, cada um de seu jeito, encontravam-se mergulhados no que quer que fosse.
«Podes ficar».
Mas seria que o tio, tão ocupado, estaria a pensar bem? Deveria ficar?
Ficou. Ficou a olhar para a cara daquelas pessoas que arrumavam papéis sobre a mesa, a Acção dividida por várias
cabeças. Contou — A acção em nove cabeças, era isso. Era assim que a Acção se produzia, liderada pela acção do tio Rui
Ludovice. Era como se fossem alunos rápidos e aplicados no desempenho de um trabalho de casa. Ela contou nove, nove
cabeças. Por acaso, os quadros espalhados pela parede do escritório do tio, onde se reunia o staff particular do tio, também
eram nove. Como tinha tempo disponível, pensou nisso. Depois reparou nos quadros emoldurados em talha oiro velho que
pendiam das paredes. Nove cabeças, nove quadros. Era interessante. O mais interessante era o quadro com a cabeça do
cavalo. As narinas estavam abertas como se quisessem fugir da moldura. Outro continha um candeeiro. Um candeeiro a
petróleo levado por um braço. Outro representava uma cabeça caída, os olhos desordenados, dois peixes saltando cada um
para seu lado. Não deveriam ter nenhuma ligação entre si. Outro ainda representava uma espécie de vaca. Aí os dois olhos em
forma de peixe enxergavam mesmo de frente a pessoa e até se mostravam espantados. — Como ia pensando nos quadros, não
ouvia nada do que se dizia. Mas a dado momento, no meio daquela tortura — ninguém se lhe dirigia, ninguém deveria saber
sequer que ali estava — o tio Rui Ludovice começou a falar mais alto e a crescer, a meio da mesa. Falava para o único
elemento do staff que àquela hora do dia não tinha um casaco de fato completo pendurado na cadeira. O único que destoava. O
tio disse — «Não fale comigo, ouviu? Não ponha culpas em mais ninguém. Foi você... Você é ou não é um profissional?» O
outro a querer dizer qualquer coisa, bastante reclinado sobre a mesa, a falar só com o tio, e o tio, fora de si, a falar para todos
eles.
«Você apareceu aqui a pedir-me uma avença choruda, dizendo-me que tinha estagiado no Piccolo Teatro di Milano, ou
coisa parecida. E que era coreógrafo de multidões. Por isso lhe pagamos. O responsável foi você...» E o marido da tia Ângela
Margarida apontou o dedo ao homem sem colarinho e sem casaco, todo vestido de preto, com o cabelo apanhado em rabo de
cavalo, que murmurava palavras soltas por cima da mesa.

Na verdade, deveria haver uma ligação qualquer entre os quadros da parede e aquelas pessoas ali sentadas. Aquele com
quem o tio falava poderia vagamente parecer-se com o cavalo da imagem, ali em frente. E de súbito, o tio gritou mais, no meio
do gabinete — «Não me venha agora com falinhas mansas. Você não cuidou do que deveria cuidar». Ela pensou — Não a
pata, não a limpada, não o candeeiro, não as mãos da mulher gritando, não a criança, não, nada disso... Aquele homem de
escuro, a rir sem alegria, com os dentes todos de fora, diante do tio, parecia-se com o cavalo relinchante. O tio disse — «Um
coreógrafo tem obrigação de saber movimentar as pessoas. Você marca a concentração numa praça, faz deslocar para aí
duzentas pessoas das suas casas, manda avançar por uma rua errada, e depois quer que seja o ministro a passar pela
população e não a população a passar pelo ministro. Onde se viu? Você não me fale desse fiasco... Resumindo, tinha de haver
uma cortina humana por onde ele passasse. Não houve. Tudo previsto, tudo pago. Tudo falhado...» E depois o tio sentou-se e
começou a acalmar, mas ainda respirava fundo, com pequenos suspiros bravos. O staff particular da Acção a vestir os vários
casacos, os quadros novos de frisos dourados em número de nove.
E de súbito, Milene juntou alguma coisa que estava disjunta naquela sala e gritou — «Tio Rui, mas que horror!»
Com a mão nos olhos, para não ver o horror.
O Presidente Rui Ludovice a olhar para cima e para baixo.
Milene levantada «Que horror! O tio tem na parede a Guernica cortada aos pedaços! Eu vi, eu conheço, uma vez até vinha
na Blitz!»
Todos olharam para o canto, junto à porta onde ela estava. O coreógrafo de grupos humanos olhou. Todos a olharem para
ela. Milene a olhar para todos. Porque tinha ali entrado? Agora ninguém conseguia tirar os olhos de cima da sua blusa e da sua
saia. Como se não acreditassem nela. Odiava isso. Milene disse — «É verdade, tio Rui. Eu reconheço — Juntando tudo aquilo
que está ali, é a Guernica do Picasso. Está por toda a parte...»
O momento era tão embaraçoso que ninguém se movia. O Presidente da Câmara virou-se, pôs-se a olhar para os quadros
que eram recém-adquiridos e disse — «Está visto, tem de se tirar esta porcaria da parede». E o tio sentou-se, o coreógrafo
sentou-se. Era como se tivessem acabado de mergulhar todos, quentes e suados, numa onda de água fria. O tio não sabia para
onde olhar. Olhou para ela mas encarou os demais — «Podemos encerrar aqui. Hoje já houve episódios cómicos que baste.
Fique você, Dr. Inácio, e você, Dr. Idalécio. Aproveitamos a presença da minha sobrinha para falarmos um bocado...» E os
ajudantes da Acção, feita acção, ali no âmago do gabinete, despediram-se um a um. O tio a examinar os quadros. A olhar
espantado para os quadros que lhe tinham impingido e que ele havia comprado por atacado, sem apreçar, e tinha mandado
pendurar, sem lhes dar uma olhadela sequer. Uma nódoa, uma decepção. A tia nem estava em casa, era sabido. Mas o tio Rui
tinha-se posto a chamar na direcção do décimo andar — «Angelita! O Angelita!» O tio deveria estar perturbado. «Tirem-me
estas porcarias daqui...» Naquele momento, todavia, não podia ser. Não podiam retirar-se da parede nove quadros, ficando lá
os respectivos buracos. Nove buracos numa parede. Presentes só se encontravam dois elementos do staff Ela e o seu tio
preferido.

O tio, desconcertado, a olhar para ela. «Com que então? Você chega aqui e descobre o que mais ninguém descobre. Com
que então?» — E depois, encarando-a de frente, pediu-lhe que se lembrasse de novo do nome das pessoas com quem tinha
falado, durante aqueles dias.
E ela, que antes já havia arrumado essa série de elementos prescindíveis na sua vida, teve de olhar de novo para o tecto, até
porque acabava de sair daquela emoção extraordinária, mas não deixou o coração bater descompassado, porque se tinha
preparado de véspera, sabia tudo, como iniciar e concluir. Estava preparada. Chamou as palavras e seriou de novo os factos,
contando mentalmente pelos dedos — Primeiro os agentes da autoridade, depois o pessoal da funerária, depois os homens das
Bombas de Gasolina, e por fim o padre e a freira. «Mais ninguém» — disse ela, quando chegou ao fim.
«Falta uma pessoa» — disse o tio. Como ela não acrescentasse rapidamente o nome da pessoa, ele disse, poupando tempo
— «Na verdade, foste tu quem encomendou as flores. Diz aqui ao Dr. Inácio o que disseste à florista. O que disseste à
florista?»
A florista. Sim, faltava. As flores eram alguma coisa tão colada àquilo que era como se fizessem parte da Igreja, da espera,
do caminho ao longo da ruas de São Francisco. Mas Milene lembrava-se de tudo e até iria ser muito rápida. Tão veloz quanto
lhe era possível, começou por dizer como se tinha lembrado de todos, e escolhido as flores adequadas a cada tio e a cada
primo, os pormenores de cada coroa, cada palma, até chegar à grande coroa de lírios azuis e brancos para a qual ela havia
mandado gravar numa tarjeta roxa — Homenagem do Presidente da Câmara de Santa Maria de Valmares. E por fim, disse
— «Eu queria jasmins de seda, que eram as flores da avó Regina, mas não havia».
Impaciente, o tio Rui Ludovice perguntou, enquanto os outros remexiam umas folhas — «E ela não te perguntou porque eras
tu e não as tuas tias quem encomendava, e pagava, e mandava escrever as frases de saudade e tudo o mais? Não perguntou?»
«Acho que perguntou».
«E então?»
«Eu disse que não estavam. Fui obrigada a dizer que não sabia onde estavam nem quando vinham».
«Mas isso não é verdade. Tu sabias» — disse o tio Rui Ludovice. Ela hesitou. Deveria contrariá-lo? Dizer? Não dizer?
Disse — «Na verdade, tio, eu não sabia».
O engenheiro cruzou as mãos diante dela. Tinha chegado o momento do confronto, de forma completamente diferente
daquela que havia imaginado. O tio entrou em estado de cólera, desenrolou a cólera, recolheu a cólera. Curiosamente, uma
força invadiu-a. Ela juntou os calcanhares e as pontas dos pés, apertou os joelhos — Como iria dizer que sabia se não sabia?
Ela apenas estava a dizer claro o que era claro. «Eu não sabia, tio» — disse ela, muito alto. Ali estava o momento para o qual
era preciso coragem. Lembrou-se da sua estadia no diamante, e da força das palavras dos outros — Coragem, moça, você é
muito inteligente, muito corajosa, muito formidável. Corage... Pois aquele era o momento — «Sim, eu não sabia...»
«De facto, Senhor Presidente, ela não pode ir dizer agora que sabia o que não sabia. Tudo isso é muito perigoso. O senhor
acha que serve? Eu acho que não serve. Eu não me afoitaria a tal» — concluiu aquele homem, amplamente apoiado no seu
bloco-notas e no seu aparelho de tampa evanescente.
O Presidente ficou pensativo.
«Deixe para lá» — disse o tio Rui Ludovice, meditando, durante dois segundos. «Deixe para lá». E encostando-se, estafado,
respirando a atmosfera ainda repleta da presença dos homens que lhe tinham atafulhado o compartimento, com as suas
respirações e suores de Outono quente, perfumes de ervas, savanas, cascas de limão, almíscar e canelas genuínas, tudo
cheirando a mato verde queimado, e virando-se para os dois que restavam, deduziu — «Pois foi ela. Foi a Lola Florista. Corte
completamente na encomenda de flores a essa alcoviteira com nome espanhol. Corte, corte radical.»
«Radical» — exigiu Rui Ludovice. «Foi ela quem telefonou para as agências de viagens, que por sua vez telefonaram aos
escrevinhadores. Corte com a florista e com as viagens. «Agora é a sua vez» — disse o tio para o homem jovem que a iria
ouvir.

O homem jovem tinha-se inclinado para ela, começando a falar, muito devagar, como se ela tivesse um débito de ouvido. Já
deviam ter falado todos uns com os outros. Milene apertou o saco entre as mãos. Começava a ficar impaciente. A tudo o que
lhe perguntassem, ela iria responder rápido. Queria que o momento do confronto terminasse já, antes que tivesse de invocar
tudo o que lhe ia na alma, Totus Tuus, Caixa das Almas, Confiteor Deo, bem como as palavras do Livro da Sabedoria.
Rapidíssimo. O homem jovem pediu-lhe que se concentrasse — «Pense na antiga Fábrica de Conservas Leandro. Foi lá
refugiar-se. Quando chegou, alguém estava em casa?»
«Não, só os cães».
«Como tem a certeza?»
«Ouvi, passado um tempo, as pessoas a chegarem. Eu estava escondida. Havia dias que os cães não comiam. Tinham tudo
entornado. Os lençóis pareciam lata, de duros que estavam».
«Como sabe?»
«Estive escondida atrás deles. Quando eles chegaram, encontraram-me e iam morrendo de medo de mim».
Rui Ludovice interrompeu — «Isso tem duas leituras. Duas, e contraditórias».
«Sim, tem duas leituras. Só que factos contrários não há» — disse o jovem que, tal como o outro, deveria ser advogado.
E o tio voltou a ficar pensativo, durante um momento. «Então deixe para lá» — disse o tio.

O tio Rui Ludovice tinha ido fazer um telefonema. Depois não mais voltou. Os seus passos perderam-se no verniz do soalho,
no fino tapete da sala e não voltaram. A empregada doméstica é que apareceu, dizendo que o Sr. Frutuoso tinha dito, que o Sr.
Presidente tinha dito, que não haveria almoço nenhum. Ninguém tinha tempo. Nem ele nem a tia. Nem as primas que
almoçariam no ténis. Poderia, por acaso, Milene almoçar com o motorista? — Milene ainda se encontrava sentada naquele
gabinete, a longa mesa vazia, e ela ainda olhou mais uma vez para a parede onde nove quadros obtidos a partir da
fragmentação da Guernica formavam um duplo friso de oiro vincado. Fora por causa daquilo, por ter dito aquilo, por não ter
esperado para dizer na hora adequada, isto é, por causa de si mesma e de mais ninguém, que ela iria almoçar sozinha com o
Sr. Frutuoso. Da última vez que o tio a tinha olhado, ainda sentado, os olhos dele brilhavam como os do Rasputine, como
costumava dizer João Paulo a propósito dos olhos do tio Afonso, quando se enfurecia. E o tio Rui, que habitualmente a travava
bem, comentava o seu vestuário e passava-lhe a mão pelo cabelo, para amansá-lo, tinha-a olhado com um sentimento parente
da cólera. Cólera mesmo. Compreendia-se. Se todo o poder era piramidal, como dizia João Paulo, e o tio estava no cimo da
pirâmide e ela completamente em baixo, porque tinha querido ensinar fosse o que fosse ao tio? Por responsabilidade dela, e
só dela, é que estava a haver uma mudança assim. Estava a compreender muito bem o que lhe diziam.
Mas ainda não sabia se iria almoçar com o Sr. Frutuoso.

E foi então que aconteceu o momento mais importante do breve calendário perpétuo.
XI
Pois a princípio ela não sabia o que pensar.

O Sr. Frutuoso tinha tomado a direcção da Marginal de Valmares. Seguiam por uma estrada sinuosa, que fazia curvas e
contracurvas, independente do rendilhado do mar, como se antes houvessem ali existido montanhas que um terramoto qualquer
tivesse abatido, aniquilado e achatado na horizontal, e a marca das diferentes altitudes ainda perdurasse. Como se a Marginal
estivesse a ser vista de cima, à luz dum relâmpago, e o raio a tivesse feito espalmar. E no entanto tratava-se apenas dos
antigos contornos das propriedades circundadas por caminhos rústicos, cujo traçado ainda permanecia, a atestar modos de
vida passados. Aliás, a estrada não só ainda apresentava esse perfil sinuoso, como de onde em onde também surgia
esburacada, caída para os lados, as bermas como beiços tortos, e até depois de uma curva mais larga, podia ver-se a frase do
Mark Twain, sem o nome do seu autor, inscrita a toda a largura duma grande placa, esconsa e enferrujada — COMPRE
TERRA, POIS IANÃO SE FABRICA. A placa, propriedade de uma imobiliária em falência, dois anos antes próspera, deveria
ter sido arrancada pelo vento do Inverno anterior, e agora jazia de esguelha sobre o poste, como se possuísse um cotovelo e
estivesse pronta a dormitar no terreno para sempre. Pelo que o Compre terra, pois já não se fabrica quase não se conseguia
ler, reduzira-se a umas letras espalhadas num pedaço de lata, sem interesse nem altivez, tendo desaparecido a beleza do seu
desafio e até mesmo o seu potencial de astúcia. Restava apenas uma velha placa.

Mas não era propriamente nessa alteração que Milene pensava.


Encostada no banco de trás, o que ela achava curioso é que poucos meses antes tivesse andado por ali, e não tivesse
reparado naquela curva larga onde se abria um terreno vasto até ao mar. Nessa altura ia ocupada com o veículo da frente, a
carrinha cinzenta que ela tinha o dever de perseguir até ser devolvida aos tios, numa maratona inútil. Ia pensando nessa manhã
de Agosto, e em simultâneo nos passos rápidos do tio Rui, na sua mirada de Rasputine, na carrinha cinzenta e na frase caída
que ela não sabia que era roubada a Mark Twain, a pensar também no sol resplandecente das duas da tarde, quando a estrada e
os seus edifícios baixos e emaranhados tinham começado a ser-lhe demasiado familiares, como familiar lhe era também a
ravina que a seguir se abria, de repente avermelhada e marinha, ali onde a terra, perdida a planura, se eriçava numa outra
formação, mudança que não se fazia sentir no balanço do carro BMW antracite, ao volante do qual o Sr. Frutuoso continuava a
perguntar — «Paramos ali? Ou aqui? Acha melhor além?»
Na verdade, passavam por cafés e restaurantes, bares e mini-bares, snacks de toda a espécie, expostos para a estrada como
se eles mesmos fossem o comestível que um ser extraterrestre devesse mandar empacotar, passavam pelas toalhas brancas
postas sobre mesas, às portas, pregadas aos tampos por pratos virados, iam passando, e ela não via onde pudesse almoçar
com o motorista, em vez da refeição prometida com a tia Ângela Margarida, as primas e o tio Rui Ludovice. Não conseguia
ver um estabelecimento diante do qual ela pudesse dizer é aqui. Pelo contrário, ia olhando para sul, na direcção do mar, e só
pensava que o Sr. Frutuoso estava a levá-la por caminhos que ela conhecia demasiado bem. Então foi assaltada por uma ideia,
uma tentação, que iria modificar a sua vida.

«Pare» — disse ela. Mas não, não sabia quanto nem como ia modificar a sua vida.

Milene bateu com energia no banco. O motorista, habituado a obedecer, partir e arrancar à margem da sua vontade,
guardando a sua vontade para a exercer nos intervalos, parou. Parou mal até, um pouco de esguelha. O carro a sair do asfalto e
a fazer trique trique sobre a gravilha miúda e os pastos eriçados, contra o que era normal acontecer com aquele BMW. Mas
parou. Em volta, nem havia uma tasca. Habituado a ouvir, a escutar, a falar só nos interstícios, ficou a olhar para trás, pelo
retrovisor.
«O que se passa?»
«O senhor pode ir» — disse ela. «Eu tenho de fazer uma coisa».
E sem dar tempo a nada, a sobrinha por afinidade do presidente da Câmara, com as saias demasiado curtas, os cabelos
divididos em duas metades, o saco ao ombro, começou a descer apressadamente por entre o ervaçal seco e os pastos ainda
mais secos do declive, e logo se pôs a entrar no plaino, a avançar pelo piso de areia dura e depois pela areia solta, e a seguir
começou a escapulir-se por entre as ramas, enquanto o Sr. Frutuoso, com as portas do carro abertas, tentava ainda descer atrás
dela. Um homem de fato e gravata, habituado a viver sentado, a querer correr, a chamá-la, entre ervas castanhas, a debater-se
fora do seu ambiente, três horas da tarde. «Oh! Oh! Escute, venha cá...» — Ela ouvia aqueles chamamentos do homem com
quem embirrava, sabendo que em breve ele iria desistir, já atascado que deveria estar dentro do tomilhal, porque ele não
sabia para onde ela se dirigia e ela fazia o percurso a corta-mato. Ainda ouvia o seu nome ser chamado, enquanto fazia
ziguezagues por entre os arbustos e os ramos das árvores, à medida que se afastava, mas dentro de um segundo já não ouviria.
Porque não era o que deixava para trás, ao fazer aquela corrida, que lhe interessava, era sim o que estava na sua frente.
O que lhe interessava era o que se encontrava próximo das areias, rente ao mar. O local onde as figuras de cimento e ferro
se levantavam, rodeadas de hastes metálicas, e para onde se dirigia como se uma mão a puxasse. Aliás, o que lá se construía
alterava-se de dia para dia, a olhos vistos. Lembrava-se da primeira vez que ali tinha estado, das circunstâncias incríveis em
que havia esperado em pé, ao sol. Desde então, a cavidade tinha-se modificado de tal modo que já haviam sido criados três
pisos sobre as fundações, e a estrutura tinha deixado de ser uma plataforma atarraxada na areia para tomar a forma dum favo
gigante de paredes esquinadas que iam subindo na direcção do nível da terra. Só em volta do que iria ser o Hotel Camarga,
seis engenhos aéreos, alternadamente, moviam os braços. Quando os moviam, alguém se encontrava lá dentro, manobrando a
partir das casotas de vidro. Ela sabia muito bem como se subia e como se descia, no meio dos perfis, como lá em cima se
podia estar parado, durante largo tempo, à espera, sem fazer nada. Tinha vindo admirar vezes suficientes as manobras de
Antonino para saber como era. Se ele lá estivesse, ela iria chamá-lo, fazê-lo descer de cima da pata que sustentava aquele
longo braço, e ele no meio, como se fosse a cabeça e o motor de tudo aquilo, teria de descer. Mas era sábado, as cabines
encontravam-se vazias, os braços metálicos estavam todos parados. Milene pensou — Fugiste de novo, safado, as coisas
caminham só a teu favor...
Tudo a favor dele, até o facto de ser sábado. Deveria desistir? Não, ao menos poderia ficar ali, a ver como era aquele
mundo sem Antonino. Sobre a plataforma constituída pelo favo, distribuídos pelos vários campos de trabalho, com os
capacetes enfiados nas cabeças, estavam os operários, lentos, como se fatigados das hastes de ferro a que se agarravam como
a espeques. Outros não se mexiam, contornando apenas objectos sem nome, materiais pesados que deveriam incutir-lhes, só
pela vista, distensões musculares. Mas Milene, a nossa prima Milene, tendo começado a observar com cuidado o campo da
placa, acabou por descobrir quem ela queria. Entre os vinte operários, que naquele momento deambulavam sobre a
plataforma, reconheceu Antonino. Lá estava ele. Reconhecia-o pela forma agitada como andava de um lado para o outro com
um objecto na mão, a encaixá-lo como se fosse só para encaixar. Reconhecia-o, com a camisa não despida mas aberta, a parte
de cima do corpo como se despegada da parte de baixo, o mesmo jeito que tinha ao entrar nas carrinhas. A mesma forma de
agitação obstinada, a mesma energia despedida numa direcção imediata, como se tivesse escolhido metas próximas
inultrapassáveis, e isso tudo se transmitisse à camisa aberta e às calças descidas pela anca abaixo, caídas sobre os sapatos de
ténis, volumosos e claros, como se fossem uns patins altos, e então ela achou que sim. Que tinha de fazer aquilo, que não podia
esperar. Afinal, ele tinha uma namorada viva, chamada Divina. Tinha de ser, não custava nada. Não ia desistir. Esperaria em
pé.
Tudo iria confirmar-se mais uma vez.
Sim, lá estava ele, e nem a olhava nem a via. Nem mesmo que ela continuasse exactamente naquele lugar, com a aragem
seca a passar-lhe de esguelha na saia, mesmo que ficasse ali até ao fim daquele sábado, até ao fim do dia e da noite seguinte, e
de todos os dias e noites, ele não a veria, fosse pela razão que fosse. Ou porque se entregasse completamente àquela operação
de encaixe, com a qual parecia estar comprometido, ou porque iria sair com os rapazes do velho Pontiac, ou porque tinha uma
namorada viva. Não a veria. O céu das três horas da tarde estava demasiado azul, e a terra demasiado parda, e as aves voando
ao fundo, demasiado escuras, e a obra demasiado tranquila, e até mesmo a calma insuportável daquele mar ali tão próximo,
cuja ondulação não se ouvia, e até mesmo a sombra do Frutuoso que havia ficado lá atrás, tudo isso somado lhe dava a certeza
de que, se tinha descido aquele declive ondulado e ervoso, não fora apenas para ver a plataforma de cimento subir. Tudo isso
tinha acontecido porque Milene queria chamar por ele, no silêncio da tarde, cortado naquele momento, apenas por um tantam
mortiço. Era o momento por que esperava desde que tinha decidido.
«Antonino?»
Chamou muito alto, o mais alto que podia — «Antonino!» Chamou segunda vez, como um berro rasgado. Milene a chamar
várias vezes, percebendo perfeitamente a má figura que fazia uma rapariga vestida de saia curta, saracoteando-se ali em frente
dum bando de homens com capacete amarelo na cabeça. Mas não fazia mal. Tinha de ser rápida. «Antoninooooo!» — chamou
com quanta força tinha, empurrando o nome dele contra o rumor raso da morna tarde laboral sem labor nenhum. Chamou
assim, aos gritos, como só ela sabia chamar, porque ele tinha de decidir. Ele não podia continuar a passar em frente da Villa
Regina, todos os dias ao anoitecer, e a andar às voltas diante do Quilómetro 44 quando menos se esperava, para depois fingir
que não a via. Era um estúpido. O que queria Antonino?
Pois tinha chegado a hora.
Aliás, Milene viu-o virar-se com um vigote na mão, ou qualquer coisa que parecia ser isso, uma ferramenta talvez, e como
se tivesse um trabalho inadiável do lado oposto, desaparecer em seguida no interior do favo. Vi-o desaparecer atrás daqueles
buracos cinzentos que a ela lhe lembravam um alvéolo do Alien III. Desaparecer por completo. E um outro rapaz, num ângulo
colocado do lado nascente, entre dois pilares, verificando que não era visto, levou a mão a um local suspeito do corpo e fez-
lhe um gesto obsceno. Um gesto que emporcalhava tudo. Indecente. «Indecente» — disse ela, separando-o de Antonino Aliás,
como se não quisesse que aquele fosse o último sinal da tarde, um sinal que vinha das profundezas da indecência do corpo,
qualquer coisa perto das fezes e do mijo, querendo que a tarde ficasse limpa, com a coragem que trazia consigo,
desordenadamente, alegremente, furiosamente, agarrada às saias, com os dois joelhos unidos, Milene começou a chamar —
«Antonino? Antonino? Antonino...» Não como se fosse um chamamento, ou um insulto, mas como um remate, sabendo que
entre aqueles homens parados a olhar para ela, a rirem dela, ele não se encontrava. Compreendia. Antonino tinha evitado o
embaraço que ela mesma constituía, mas ao menos tudo se tinha esclarecido. Detestava sofrer prolongado. Aliás, detestava
sofrer, não queria sofrer, sempre assim tinha sido, sempre assim iria ser. Aquela história acabava de ter um desfecho.
Acabava-se.
Milene virou as costas e começou a percorrer o caminho de regresso.

Começou a subir a encosta arenosa, por outro lado, atravessando os tomilhos e os cardos, os giões, as plantas rasteiras do
grés, completamente secas pelo rigor daquele Estio sem água, e levada pela ideia de que tinha obedecido a uma exigência
interior, que ao mesmo tempo enchia o seu coração e o fazia morder, ou estoirar de encontro a outros órgãos, de súbito, todos
eles mal alojados dentro de si, à procura duma ordem, sem dor, ela subiu até à estrada, disposta a caminhar a pé até casa,
aproveitando as bermas estreitas. Com os carros a passarem-lhe tangentes, ia cambaleando, muito leve, como um bêbado que
cantarola, sem peso nos pés nem nos sapatos, porque tinha feito uma coisa absolutamente estúpida, muito mais estúpida do que
denunciar os quadros do tio Rui Ludovice, já que o facto de ali ter ido fazia terminar definitivamente aquela ligação para
sempre, e Milene sentia-se contente por isso. Como se um sentimento tão pouco esperado não pudesse deixar de ser assim.
Caminhava como quem acaba de praticar um suicídio e não está desgostoso por isso, antes pensando — Olha, fui capaz, fui
capaz, de fazer uma coisa estúpida que nenhuma rapariga da minha idade faria, e sinto-me bem... Como se tivesse
participado de um filme com o Clint Eastwood ou o Schwarzenegger, e estivesse cheia de músculos e bons instintos de
sobrevivência. Agora era só caminhar, caminhar. Aquele assunto acabado, ponto final. E a andar e a pensar naquele rápido
desfecho, Milene nem deu pelo ronronar manso do carro conduzido pelo Sr. Frutuoso que parava ao lado.
XII
Depois o Frutuoso conduziu daquela maneira inconfundível que ele tinha de conduzir, e sem lhe dirigir a palavra, deixou-a
em frente ao Quilómetro 44. Sem olhar para trás, como quem descarrega uma encomenda que andou extraviada, em relação à
qual se sente apenas vontade que desapareça.
«Só a minha paciência de Job...» — tinha ele dito ao agarrá-la.

Quando ela saiu do carro, ele ainda se virou, mas apenas para puxar melhor a porta por onde ela havia saldo. Para trancá-la
bem, aferrolhá-la. Certificar-se de que ela não se introduzia pelas ranhuras electrónicas daquela máquina para lhe estragar a
vida de motorista. Não estragar a vida dos patrões, não tirar o sono ao Senhor Engenheiro, à Senhora Dona Ângela Margarida,
nem às meninas que nem sequer a deviam ver muitas vezes, não lhes fazia nada bem. Melhor fora mesmo que nunca a vissem,
que nunca lhes chamassem prima. Que Milene ficasse lá onde quisesse, sozinha. Ele ainda guardava na bainha das calças
restos de poeira de tanto a ter procurado. Por momentos, ainda tinha saído do carro para se sacudir energicamente. Só depois
o Sr. Frutuoso desaparecera, voando na direcção do Frame Store e do Hotel Miramar, levantando-se acima da estrada.
Durante o percurso, havia recebido uma chamada — «Está lá? Sim, Senhor Engenheiro, já cá vai dentro, ali atrás. Pois claro,
Senhor Engenheiro, onde é que eu havia de deixá-la?»
Como quem caçou um animal doméstico que se quis escapar.
Mas ela também pouco se importava. Completamente elucidada, tinha avançado pela casa dentro até ao livingroom, onde os
cadeirões da avó Regina se encontravam, intactos, um em frente do outro. Lá estava a mesa de cerejeira, e estava a estante
com a Enciclopédia e os Livros do Brasil. Os retratos castanhos, os pretos e os coloridos, os pintados, os ausentes, os
despendurados, aqueles que tinham deixado as suas marcas visíveis na parede, como era o caso das pinturas com cabanas
suíças, e cenas da Giselle e do Lago dos Cisnes. Tudo lá estava à sua espera. Aproximou-se do telefone. Discou os treze
números. Também eles a esperavam — «You’ve reached five, seven, three...» Milene ficou à escuta, receando que a fita
estivesse definitivamente estragada, mas a ligação corria sem incidente. Em voz muito baixa, sussurradamente, Milene falou
para dentro do telefone — «João Paulo?» De novo, a distância não se fazia sentir. Era como se alguém inteiramente
disponível estivesse do lado de lá aguardando uma palavra mágica, enviada do lado de cá, e não se quisesse manifestar.
«João Paulo?» — Milene ganhou coragem. «Escuta, eu tive um namoro mas acabei com tudo. Não me servia. Ele tinha uma
namorada viva e outra morta. Ele disse que me pareço com a morta, e é essa que ele mais ama... Seja como for, não o
quero. Fui à obra onde trabalha pô-lo entre a espada e a parede. Agora já não o quero ver mais.» O auscultador suspenso,
à espera de resposta. «É também para te dizer que aqui não chove nunca. Como estão aí as coisas? Vi na televisão que já
chegaram as neves. Os nevões brancos, que aqui não há...»
Milene continuava à espera, com o auscultador entre o ouvido e os lábios. Porque não haveria de continuar, se aquele era
um dia tão importante? Entretanto, as sombras tinham começado a cair, e Milene pensou desligar o telefone, só porque eram
horas de abrir tudo aquilo que em Villa Regina era possível abrir, horas de juntar o seu interior ao Universo que ali começava,
separados que estavam apenas pela espessura dos vidros das janelas. Mas ainda continuou — «Não sei se te disse que o meu
namorado era um daqueles rapazes da terceira vaga... Agora nunca mais entro no diamante...» Só depois é que desligou e
abriu todas as luzes, de ponta a ponta da casa. Movimentando-se, entre a música do rádio e a televisão. Mas quando se cansou
dos ruídos simultâneos que ela mesma criava, e desligou os aparelhos, ficou no meio da sala, junto aos abat-jours claros, a
pensar, a pensar pela sua própria cabeça. Então ligou de novo — «João Paulo? Aqui é noite escura. Sinto-me uma caganita
no mundo. Caí de qualquer lugar e dirijo-me para qualquer parte que não sei onde fica. Mas estou muito feliz. Isto pode
acontecer....»

De facto, Milene tinha a ideia de que a sua vida se havia modificado para sempre, mas não imaginava quanto. Nem o
saberia tão cedo. — Não ia ao Mãos Largas porque não queria encontrar o Barbosa, não queria trabalhar para ele, com aquele
avental e aquele lápis. Então ia onde calhava. Dias depois, num domingo à tarde, estava ela no Pomodoro a olhar para a rua,
quando entrou pelo restaurante dentro uma rapariga escura com dois jovens escuros como ela, os três rescendendo a Havana.
O perfume, contudo, não provinha deles, provinha de Antonino que caminhava atrás, com os três filhos pequenos.
Milene reparou que a rapariga e Antonino já formavam um casal perfeito. Um dos rapazes grandes soltou um estalo sobre
Emanuel, o filho mais velho dele. Disputavam qualquer coisa que mexia, movimentada por pilhas. Antonino soltou um berro
na direcção do filho dela. Perfeito. Já tinham perdido toda a cerimónia. Possivelmente já tinham casado. Com que então, era
aquela a famosa namorada viva, chamada Divina?
«Calados!» — disse Antonino Mata, no seu jeito, meio rápido, meio seco.
Quanto a ela, Milene, ele não a via, ou se a via, não a queria ver. Bons tinham sido os dias em que a mãe dele lhe tinha dito,
Puxa vida, você é mesmo boa moça, muito inteligente, muito formidável, e ela envolta nas palavras dos outros, Introibo
adAltarem Dei, Totus Tuus, Confiteor Deo, como a seta que voa, como a nuvem que vai, você está a sentir-se bem? O próprio
Antonino a dizer-lhe, olhe moça, se eu fosse a você não ia à Câmara do seu tio, eu voltaria para nossa casa, para pensar na sua
vida, e assim por diante, até que finalmente todos saíram. Divina guardando os filhos dela, já do seu próprio tamanho, e ele
guardando os dele, ainda com dentições de leite.
Quanto a ela, propriamente, a namorada viva, ali estava a sair do Pomodoro, e tinha pernas, ancas, mamas fortes unidas por
decote fundo, tornozelos, beiços, narinas, olhos de poucas pestanas, maçãs de rosto, dedos para segurarem nos pedaços de
pizza embrulhados em plástico, e dentro do corpo deveria ter gordura, tendões, coração, baço e rim, como toda a gente, e no
entanto chamava-se Divina. Havia pessoas com sorte. Adeus, boa sorte. Pois ela e Antonino nunca mais se veriam, nunca mais
se veriam.

Então choveu em Valmares.

Tudo começou por umas gotas esparsas. Caíram como ruidosas pegadas. Umas aqui, outras acolá, levantando um cheiro
poderoso a terra seca. As gotas eram gradas como conteúdos de tigelas, mas a terra engoliu-as em menos de nada. Foi isso a
chuva. Os pingos, no entanto, não tinham sido apenas água caindo da atmosfera, pois a própria água trazia terra. Só assim se
compreendia que os carros tivessem ficado pintalgados de nódoas barrentas como se fossem de lama. Muitas pessoas
telefonaram para os serviços de Meteorologia dizendo que tinha chovido barro. Os meteorologistas quiseram esconjurar a
ignorância, respondendo que não era verdade. Os ecrãs encheram-se de cartas isotérmicas que andavam para cá e para lá,
para combater essa suposição. Os especialistas diziam que as gotas apenas tinham encontrado no caminho a atmosfera cheia
de poeira. Mas havia muita diferença entre as nuvens deixarem cair água pura que se carregava de poeira durante a
precipitação e existirem nuvens feitas de lama Para as pessoas mais cultas e imaginativas, a diferença era abissal, pois
conceberam de imediato massas de lama escura vogando no céu de Valmares. Seria o fim da vida humana, pelo menos aquela
que fora concebida pelas cosmogonias comuns, em que a Terra sempre aparece separada das águas. A propósito, chegou-se a
invocar o Apocalipse e as visões de Patmos, com muita dramaticidade. Uma dona de casa exibiu um lençol com grandes
nódoas castanhas, o lençol parecendo-se com a pele de uma vaca malhada. Era o efeito da chuva sobre a roupa branca. Um
especialista foi chamado a prestar as declarações necessárias, no Telejornal Regional. O perito em pluviosidade apareceu
afirmando, com inteira segurança, que se tratava de chuva com lama, e não de lama em forma de chuva. Mas para a maior
parte da população o momento da dissolução era-lhe igual, desde que a chuva não caísse, com a mistura da poeira já feita,
sobre os pátios e as roupas. Isso é que não desejavam. Queriam água clara. O que se passava lá em cima, na atmosfera, não
lhes interessava para nada. Discutiu-se o assunto durante três dias. Depois choveu mais.
Eram pequenos pingos miúdos, transparentes, que fizeram uma saudável papa no solo. O jardim microclima cheirava a
estrume e as folhas que Milene não removera puseram-se a cheirar a podre, o bom podre da terra molhada. Com um mês de
atraso, surgiram pelos pátios canteiros de crisântemos amarelos. Em seguida veio de novo a estiagem com seis meses de
antecipação. A poupa, estonteada, cantou. Nuvens de melgas levantaram-se dos charcos. Os carros andavam sujos. Nunca se
tinha visto tanta sujeira nos vidros onde dedos de garotos desenhavam as primeiras letras públicas — LAVA-ME, PORCO.
Milene encontrou um LAVA-ME, PORCO no Clio e foi à garagem lavá-lo. À sua frente, estacionada em sentido contrário,
estava uma carrinha cinzenta. No seu interior encontravam-se crianças com carapuços de riscas nas cabeças. Tudo isso
aconteceu num relance. Milene reconheceu as crianças e a carrinha. Lá fora, de costas para a carrinha, procurando dinheiro
numa algibeira, estava ele, Antonino Mata.
Ela não tinha nada para lhe dizer. Já lhe tinha dito tudo.

Mas ali estava ele. Não rescendia a Havana. Era fim de dia e trazia poeira entranhada na roupa e o olhar duro. A vida dura
dele. A inclinação por ele, ela não sabia donde vinha, ou de que matéria seria feita a substância que a ligava a ele. Ainda ele
remexia na algibeira como se tivesse perdido dinheiro. Viu-a, aproximou-se. Perguntou-lhe — «A esta hora? Pois donde vem
você?» Perguntou sem mais nem menos, os dois carros apontados em sentido oposto.
Ela não tinha mesmo nada para lhe dizer. Poderia até dizer alguma coisa de circunstância. Mas que circunstância? Ele
perguntou ainda — «Para onde vai?» De facto, porque lhe perguntava para onde ia? Também ela queria saber e não sabia.
Não sabia mesmo. E essa ignorância sobre o seu próprio percurso, que pela primeira vez a interpelava, ia crescendo dentro
dela, à medida que se afastava dele, rolando pela estrada fora. Mas só sentia essa interpelação, porque ele lhe tinha
perguntado. E que direito tinha o filho de Felícia Mata de lhe fazer aquela pergunta, se não era da sua família, não lhe era
nada, porque lhe perguntava, assim, sem mais nem menos, donde vinha e para onde ia? Só porque tinha tentado entregá-la aos
tios, num dia de Agosto em que ela se encontrava em estado de choque? Um dia em que estava repleta de palavras dos outros,
ordens dos outros, como se fosse uma marioneta? Abyssus abyssum invocat a chamá-la para o abismo? Ele não tinha o direito
de lhe perguntar nada. Não, não tinha, porque ela fora até à obra chamá-lo, e ele não lhe havia respondido. E agora ele não
tinha o direito de lhe dirigir sequer a palavra.
Por isso, naquele instante mesmo, iria voltar para trás, para o alcançar, passar-lhe à frente e dizer-lhe isso exactamente —
Desaparece, vai perguntar isso à tua namorada viva, vai... E naquele momento já virava o Clio.
Havia um desvio onde o Frame Store pegava com o telhado baixo duma tasca, e depois o Pomodoro e o Banana, a seta e o
desvio. A estrada formava um círculo, uma espécie de argola arbitrária que a colocava no terreno em sentido contrário.
Conhecia-lhe os percursos. Àquela hora, dirigia-se ele a casa, para entregar as crianças, para depois se lavar no chuveiro do
pátio, vestir-se, pôr perfume e partir em seguida para junto de Divina. — Milene ia-lhe no encalce, precisamente, para lhe
dizer que ele não tinha o direito. Não tinha. Que lhe tivesse perguntado antes. Depois do desvio, arrancou rápido, atirou-se na
zona livre que lhe ficava na frente. Acelerou. Desacelerou. Mas desacelerou porque na faixa oposta, ziguezagueando e criando
perigo, aproximava-se, disparada, a carrinha cinzenta. Era o volume e o focinho dela, brilhante, metálica, que Milene tão bem
conhecia.
Teria Antonino pensado o mesmo que ela? Que era necessário um ajuste de contas? Vinha ele em sentido oposto, para a
alcançar e discutirem? Ou tratava-se do acaso? — Era de mais.
De facto, Milene e Antonino estacionaram em bermas opostas, bateram as portas, caminharam um de encontro ao outro
como se fossem ajustar contas, como se cada um deles fosse arremessar um projéctil que ferisse o outro de morte, e no
entanto, quando se aproximaram, ela foi de encontro a ele, ao mesmo tempo que ele, apressado, vinha de encontro a ela, um de
encontro ao outro, na estreita nesga que separava as casas dos carros, diante das três crianças levantadas nos assentos, a
olharem. Apertados um contra o outro, sem poderem separar-se para irem remover os carros de cada qual. A mão dele tremia
nas costas dela. Era quase noite. Tinham-se encontrado no lugar inóspito das bermas. O amor latia à volta das casas mal
enfileiradas da estrada, disposta em forma de rua. Ele pegou na chave do carro de Milene e foi arrumá-lo para longe. A partir
da berma onde ela tinha ficado, viam-se as pernas de Antonino a correr, a correr, iluminadas pelos faróis relâmpago dos
carros que passavam. Quando voltou, ainda ela se encontrava no mesmo lugar. Só depois entraram na carrinha dele. Fúteis e
ridículas, as circunstâncias. Decisivas. Também na carrinha dele estava escrito — LAVA-ME, PORCO. Sentaram-se. Para
onde iriam?

Antonino Mata tinha duas namoradas vivas. Era tudo quanto se poderia dizer.
XIII
Depois se disse que o jantar no Luxor teria sido marcado na hora H, no preciso momento em que era necessário, como se
tudo na vida tivesse de ser medido e calculado para parecê-lo. Mas não foi assim — Esse jantar aconteceu na sequência de
contactos estabelecidos entre Dom. Silvestre e os holandeses, anteriores à própria noite em que o tio tinha surgido, a caminhar
no meio da relva, sem ser esperado por sua mulher. Um jantar de negócios como tantos outros, marcado para a mesa número
treze no Restaurante do último piso. Da parte dos tios havia um plano, uma estratégia e um alvo. Os papéis estavam
distribuídos, o tempo calculado. Da parte contrária, igual. Um jantar de negócios comum, apenas precedido por uma reunião
preparatória especial, um demorado passeio aéreo, no caso em concreto. Só depois, desde que resultasse a reunião, se
confirmaria o jantar. Na hora H.

O passeio de trabalho, organizado pelo tio Dom., ocorreria durante a manhã. A agenda estava perfeita, nada a opor, nada a
declarar.
Assim, por volta das onze horas, o helicóptero iniciara um voo de reconhecimento ao longo da costa, em seguida inclinara-
se para norte e de novo rumara a sul, prosseguindo em trajectos circulares cada vez mais apertados, até se aproximar de Mar
de Prainhas. Só então o aparelho fizera da Fábrica o seu alvo, rodeando-a, envolvendo-a e finalmente traçando-lhe por cima
uma tangente perfeita. O helicóptero espalhava em redor um ruído ensurdecedor, como uma máquina de guerra. No entanto,
quanto à precisão circular dos voos, o piloto parecia ter aprendido com a águia.
«Belo, muito belo...» — O holandês não tinha conseguido deixar de dizer. E aí as coisas tinham começado a correr
francamente bem.
Já antes, quando passavam sobre as dunas, de onde bandos de pássaros levantavam voo, ele se tinha virado para trás,
bastante satisfeito. Infelizmente, o ruído impedia-o de se fazer compreender. Aliás, à medida que se aproximavam do
diamante, que o telhado da Fábrica Velha se alongava e movia como uma placa que se desincrustasse do solo, que toda essa
bela mancha trabalhada pelo líquen ganhava volume entre a morraça e a areia, e as onze árvores ofereciam as palmas em leque
como se acenassem, o Sr. Van de Berg tinha começado a falar muito alto para os bancos de trás, ocupados respectivamente
pelo tio Dom. e pelo tio Afonso. A certa altura, fora mesmo preciso o holandês berrar para se fazer ouvir — «Que aves são
aquelas? Além, além...Olha, olha, a levantarem-se do chão...» Enquanto isso, uns pássaros brancos, rosados pela luz da
manhã, erguiam-se em bando fazendo piruetas entre as areias e o mar, acossados pelo barulho do engenho. O tio Dom. fazia
um esforço, conhecia todas as aves do local mas não tinha a certeza, e, naquela situação, não ia arriscar. «Serão cagarras?» —
gritava o tio Dom., no meio do ruído. Só depois o helicóptero tinha descido para logo subir, envolvendo por completo o
diamante, sobrevoando-o, uma porção de vezes. Aí, o holandês tinha começado a apontar com o seu dedo enorme, todo ele
muito grande, a sua cabeça loira já quase branca, roçando o tecto da nave — «Eh! Também tem gente ali, olha ali, ali...
Gente...» Apontando com o grande dedão.
Nesse momento, o helicóptero descera ainda mais, inclinara-se, as pessoas que estavam em terra tinham começado a correr
e a acenar. O Sr. Van de Berg era um holandês de Roterdão que havia aprendido o português no Sul do Brasil e a
expressividade com o seu pai, emigrante em sua juventude no Sul de Itália, e por isso fez várias vezes adeus rente ao vidro,
ainda que fosse improvável que lá em baixo aquelas pessoas o enxergassem. O holandês, gritando para trás, tinha perguntado
— «Eh! Eh! Habita gente lá dentro?» Era muito difícil responder, por causa do ruído ensurdecedor das pás.
Mas o tio Dom. tinha achado por bem tentar explicar que se tratava de um empréstimo, um empréstimo passageiro, e que não
se impressionasse o Sr. Van de Berg com o facto, porque eram apenas umas pessoas da terceira vaga. O tio Dom. todo
inclinado para o holandês, o holandês todo inclinado para o tio Dom., as cabeças unidas no centro do helicóptero. O ruído era
de facto o único problema daquele transporte aéreo. Haveria de ser perfeito quando pudesse voar, assim, de pás abertas, mas
com a imponderabilidade das águias. Nessa altura, os negócios que não iriam ser feitos, no interior daquelas cabines. Mas
isso, o tio Dom. não o disse, ainda que o referisse depois. Em terra, as pessoas continuavam a acenar.
«Um préstimo? O quê um préstimo?»
Por mais que se esforçasse, o holandês não conseguia perceber a palavra. E naquele momento preciso, o helicóptero traçava
uma volta mais larga, fazendo ressaltar a implantação do imóvel no terreno, localizando-o em relação às dunas e ao mar, e
quando já regressava, rasando o diamante pelo lado norte, não só os carris de aço brilharam ao sol, como as onze palmeiras
centenárias surgiram de frente, mostrando-se na totalidade da sua elegância selvagem. As pessoas de que falava Van de Berg,
entretanto, tinham corrido na direcção oposta, encontravam-se na empena sul, e agora, mesmo que retribuíssem o aceno, só
fariam adeus à cauda do helicóptero. Voltariam ainda mais uma vez? Não, pelo ar, o holandês já tinha visto quanto bastasse. O
aparelho descera e subira quase na vertical, por cima do pátio. Depois, levando adiante novos bandos de aves fugidias, como
se o focinho do engenho as levantasse do nada, tinham regressado. Ainda dentro do casulo de vidro, com as pás a rodar, Van
de Berg havia sido muito concreto — Disse que ao jantar gostaria de ser elucidado sobre o nome das aves, o significado de
préstimo e a expressão terceira vaga. Ria muito o holandês, era como se pretendesse apenas uma lição de língua portuguesa,
mas os dois tios, envolvidos naquela operação, sabiam muito bem de que se tratava. Estava vencida a primeira etapa. Fora
então que o Páscoa havia obtido luz verde para confirmar o Jantar no Luxor.

«A mesa junto à janela, a número treze, pede o Sr. Doutor...»

Lá estava a mesa à espera, rente à vidraça. À chegada do grupo, o criado correra a acender as velas enfiadas em castiçais
de água. A noite de Outono havia posto a Ria em perfeita escuridão. Para além do espaço iluminado pelas luzes do hotel, não
se enxergava nada. Mas não tinha importância, essa opacidade. Todos sabiam que a treva ocultava uma superfície lagunar
serpenteada em forma de tapete persa, modificando-se o desenho de momento para momento, de hora para hora, a superfície
da sua papa húmida sempre diferente, sempre oscilando entre linhas de força invisíveis e misteriosas. Era disso que falavam
enquanto tomavam assento. Havia meses que os holandeses aguardavam aquele momento, estavam satisfeitos. Van de Berg
vinha acompanhado, agora, por outro holandês, só um pouco menos alto e menos rosado, e seguido também pelo seu próprio
advogado, um português quase tão encorpado quanto eles. O tio Afonso continuava acompanhado apenas por Dom. Silvestre.
O tio Rui, como tinha sido combinado, não estava. Era um jantar de negócios. Mal se tinham sentado, com as duas velas a
ondularem no meio da mesa, o Sr. Van de Berg esquecera-se da escuridão exterior para se lembrar das aves da manhã. Belo,
muito belo. A mesa era para oito, eles eram cinco, todos vestidos de escuro como para uma cerimónia, o holandês maior, a
meio da mesa, ocupando o espaço de três.
«Afinal sempre eram cagarras?» — perguntara ele, separando as sílabas.
O tio Afonso tinha passado a palavra a Dom. Silvestre. Naquele jantar de negócios, a ele não lhe competia esse assunto. O
cunhado que falasse dos pássaros.
«Como é mesmo o nome daqueles animais?»
Das aves sabia Dom. Silvestre, não só porque enquanto caçador se interessava por todo e qualquer bicho que se movesse,
mas também porque tinha colhido informação expressamente para aquele jantar. Dom. Silvestre avaliava muito bem a
importância de se estar na posse desse tipo de elementos da realidade, para introduzir determinados jantares. A sorte não lhe
caía do céu, dava-lhe muito trabalho. Assim, se o Senhor Van de Berg e os seus acompanhantes o desejassem, ele poderia,
naturalmente, falar das aves, dos moluscos, das ervas, das lagunas, dos solos e das espécies raras que por ali havia. Porque
Mar de Prainhas, co-propriedade de sua mulher, estava repleto de raridades. E como o holandês o escutasse piedosamente, o
tio Dom. havia começado a falar do borrelho e da andorinha-do-mar, ressaltando sobretudo o valor zoológico da garça-
pequena, um bichinho branco maravilhoso, com uma pontuda boina de penas. Sim, voava. Para indicar o tipo de voo, o tio
Dom. piava e abria os braços, na Sala do Luxor, o que fazia rir a parte contrária. Levando a mão, de vez em quando à própria
cabeça, o tio Dom. falou sobretudo da galinha-sultana, com suas patas púrpura e sua tiarazita vermelha no meio da testa. A
mão na testa. Uma rainha. Belo pássaro. O tio piou como a sultana. Depois, referiu também a presença do cágado, do
caranguejo-cava-terra e do cavalo-marinho, bem como dos excelentes mariscos bivalves. E com os olhos cravados em Van de
Berg, o tio Dom produzia pequenos beijos como se os degustasse — «Impecáveis...». Tudo isso e muito mais se poderia
encontrar no domínio da Fábrica Velha. Mas os bandos que pela manhã tinham avistado, a escaparem-se diante do helicóptero,
deveriam ser gaivotas pequenas, Laurus argentatus, tinha dito o tio, conhecedor de alguns nomes latinos, quando a ocasião o
pedia. Seria necessário dizer mais?

O Restaurante do Luxor situava-se no décimo piso, os cinco encontravam-se sentados junto à vidraça, e por mais que
olhassem para fora não se via nada, mas no fundo vislumbrava-se tudo.
Aliás, o holandês continuava a não conseguir esconder a simpatia pela bicharada voadora daquele lugar. Ele tinha amado
aqueles pássaros, bandos e bandos deles. Van de Berg ainda a posicionar-se definitivamente na mesa e a fazer perguntas
enfáticas. Os presentes, por acaso, não tinham visto Out of Africa? Quando o aviãozinho pilotado por Redford espantava os
bandos nos céus de África? Pois ele, ao associar as duas imagens, sentia-se maravilhado. Belo, belo. O mundo ainda
reservava paraísos, só era preciso estar atento aos caminhos que conduziam uma pessoa até lá. Ele, um homem com bom faro,
cheirava de longe o lugar dos paraísos. Sorridente. Por sua vez, o tio Dom. não se cansava de dizer que em toda a zona se
encontravam os pássaros que vinham do Norte com os que vinham do Sul e ali faziam a sua paragem — «O aeroporto dos
pássaros...»
Fora assim, com a descrição da fauna migratória de Mar de Prainhas, segundo o tio Dom., que havia começado o jantar no
Luxor. Só depois o holandês tinha querido saber em que consistia a história da terceira vaga. E sobretudo o sentido da
palavra préstimo.
«Empréstimo» — corrigiu o tio Dom. «Emprestar, ceder temporariamente a troco de nada ou quase nada, entende?»
Agora sim, o holandês tinha compreendido. Os seus ajudantes também, sobretudo o advogado. Isto é, morava gente lá
dentro, mas era um empréstimo, não préstimo, por isso o Sr. Dom. Silvestre podia continuar. Ainda nem tinham trazido o
cardápio para escolherem a ementa e já só faltava esclarecer a questão da terceira vaga.

«Pergunta pela terceira vaga, Sr. Van de Berg?» — tinha dito o tio Afonso, adiantando-se a Dom. Silvestre.
Instalado em frente do grande holandês, Afonso Leandro parecia estar em forma, como nos grandes momentos. O tio
regorgitava em seco, hábito que tinha tomado dos julgamentos, quando era necessário ganhar algum tempo sobre o adversário.
Mas naquele momento, até nem era preciso. Metade da sua cabeça estava fria, a outra metade, quente, exactamente como o
próprio gostava. O tio Afonso a rir — «O problema é que só existe a terceira vaga porque existiu uma segunda, e antes dessa
existiu uma primeira...»
Van de Berg atento. Ele era o comprador. O jantar era de alto risco. O assunto em questão, muito delicado.
O tio tinha dito — «Não sei se o vou maçar, Sr. Van de Berg, mas ninguém poderá compreender um caso chamado Mar de
Prainhas, se não se referir, antes de mais, a primeira vaga. E falar na primeira vaga é o mesmo que invocar a pessoa do meu
avô. Ninguém poderá compreender o que está em causa, se não se souber que no princípio do século existiu um homem
simples que vendeu toda a sua legítima e hipotecou tudo o que tinha e o que não tinha, para construir uma fábrica que
alimentou, durante mais de cinquenta anos, uma população inteira. Compreende, Sr. Van de Berg? Não houve igual, e talvez
por isso, José Joaquim Leandro tivesse merecido a morte que teve, no meio do campo, em paz, encostado ao seu velho
Chrysler, como um príncipe perfeito...» E a abrir aquele jantar de negócios, o tio Afonso ainda tinha dito
— «Sr. Van de Berg, perdoar-me-á que o diga, mas é minha convicção que o Mar de Prainhas foi criado por um homem
como já não há...»
«Por toda a parte é assim, já não há homens como havia...» — disse o holandês, um tanto compungido.

Ao contrário das chamas, os cotos das velas mantinham-se hirtos, dentro dos castiçais com água. E para além dos castiçais,
sobre a mesa, só havia bebidas e aperitivos, elementos tão pequenos que pareciam bordados carnudos que tivessem saltado da
toalha para os pratos. Era um jantar de negócios, tudo deveria ser pensado. Naquele momento, o tio Afonso, que tomava o seu
uísqui, corou um pouco. Dom. Silvestre, a seu lado, também parecia grave. Os olhos do tio Dom., quando ficavam graves,
fixavam-se em alguma coisa invisível, convergindo-se. Mas o holandês queria deixar os tios à vontade. Por favor, por favor.
O holandês repetia as palavras como os Meridionais. Aliás, ele compreendia muito bem a delicadeza das questões
relacionadas com os assuntos de família, entre os Meridionais. Van de Berg falava um português risonho e espaçado, como a
fala duma criança, mas conseguia expressar o seu ponto de vista na perfeição. No meio dos outros dois, e tomando-lhes a sua
anuência, o holandês tinha-se posto a encorajar o tio Afonso — «Vamos a ver, Senhor Leandro, as empresas são seres
viventes como os animais. Nascem, vivem, desaparecem e algumas têm filhos, outras não. Olha, o que o senhor está a fazer à
empresa do seu avô é dar-lhe filhos. Fecundá-la, acho eu que se diz. Diz-se, não é verdade?»
«Diz-se, sim, Sr. Van de Berg...» — tinha dito Dom. Silvestre.
«Então?»
O tio Afonso, com os braços de cavaleiro alongados sobre a mesa, metade da sua cabeça de advogado muito bem arrumada,
a outra metade saudavelmente revolvida, antes de olhar para o cardápio, achou que seria conveniente invocar certos detalhes
concretos do passado, como o apito da sirene, o uivo dos pobres, como o designavam nos anos trinta os operários da fábrica.
O tio Afonso queria que o Sr. Van de Berg soubesse, bem como os seus acompanhantes, como, por ocasião do falecimento do
avô, a gratidão dos seus servidores tinha sido tanta, que não tinham conseguido caber nas fotografias de homenagem. E nessa
altura ainda se compunham verdadeiras pirâmides de gente, diante das câmaras escuras, nos jardins públicos. Esses, sim, essa
multidão fiel, desde 1908, tinha sido a primeira vaga.
Os cardápios abertos sobre a mesa. O holandês, muito interessado. Também ele guardava fotografias desse tipo na casa da
sua infância. O holandês alto ria muito. Mas o seu espírito não era só risonho, era também pragmático. Descendente de
mercadores e emigrantes seminómadas, queria ir direito ao assunto. Perguntou — «E como apareceu a terceira vaga?»
«A primeira» — disse o tio. «Essa de que eu estava a falar era a primeira. Desculpe o senhor, mas para entender o milagre
de Mar de Prainhas, tem de se compreender o que se passou com a casa do meu avô...» O restaurante do último andar do
Luxor já se encontrava quase cheio, à excepção das mesas que rodeavam a mesa dos tios, reservadas a pedido deles, para que
se falasse à vontade. Havia aperitivos. O tio Afonso não tomava aperitivos.
«Vou ser claro, Sr. Van de Berg. Temos de expor o nosso ponto de vista. — Imagine uma gestão irrepreensível, para a
época, já que é preciso pensar na época, e no país miserável que era este, no princípio do século XX. A essa luz, imagine por
exemplo o que era o meu avô empregar meninas de sete anos de idade, cujo rendimento laboral seria abaixo de zero, só para
ajudar as suas famílias. Está a ver? Pois o meu avô empregou às dezenas delas. Empregou centenas, de tal modo que havia
mães que cumpriam promessas de joelhos, diante de S. Francisco do Mar, no dia em que as filhas eram admitidas, vestindo
pela primeira vez uns bibinhos azuis, que o meu avô, ele próprio, encomendava e pagava. Compreende? Nessa situação, tanto
as mães quanto as filhas tinham o meu avô por benfeitor, e se por acaso ele surgia nos pavilhões, a qualquer hora do dia ou da
noite, os dedinhos delas mexiam-se que nem arco de violino em momento de pizzicato. Compreende? — Esta era a gente da
primeira vaga, e falar dela é importante para se fazer compreender o nosso ponto de vista. Porque nós temos o nosso ponto de
vista muito próprio, guardado há muitos anos...»
Aí o Sr. Van de Berg fechara os olhos, sonhador, e tinha vislumbrado o caso, em voz alta. Na verdade, sobre o assunto, ele
tinha visto filmes e lido alguns livros, mas reencontrar os locais ao vivo era diferente — «Muito interessante, a questão das
meninas... Muito interessante. Operárias muito pequeninas, bondade do seu avô... Nesse tempo, acontecia por toda a parte.
Não é verdade?»
«Sim» — disse o tio, entregando o cardápio. «Mas há variantes que fazem a diferença...»
«Pois há variantes, sim...»
Era preciso então explicar ao Sr. Van de Berg, para se poder avaliar a diferença, que a fábrica que ele vira de helicóptero
não era só uma fábrica. Era todo um mundo. Quando o avô tinha falecido encostado ao Chrysler, debruçado por cima do capô,
uma mão sobre o coração, a outra sobre o automóvel, o choque social fora demasiado importante. Notícias da morte do avô
continham elogios rasgados em número incalculável, saudades sem fim da passagem terrena de José Joaquim Leandro por
Santa Maria de Valmares. De tal modo, que os meses tinham começado a passar, e a perda não acalmava. Só para o Sr. Van de
Berg poder imaginar, durante muito tempo, as empregadas da fábrica ouviam o ruído do Chrysler a aproximar-se delas,
devagarinho, ouviam-no a dar uma volta, e depois, já em ponto morto, sentiam-no parar a seus pés. Havia as operárias que
chegavam a mostrar os pés sujos da poeira levantada pelo Chrysler.
E o tio Afonso tinha começado a rir do que ele próprio dizia.
Mas não, não desejava mais uísqui. Além de advogado, era cavaleiro, um homem que fazia desporto, não podia. Sentia-se
em forma, assim. O que o tio queria era prosseguir, queria demonstrar como no comportamento do avô, para além de
generosidade, havia uma honradez e uma integridade notáveis.

É que também em questões de honra pessoal, o avô fora cem por cento uma pessoa irrepreensível. Bastava dizer que apesar
de o avô contar, no seu tempo, com uma centena de afilhadas, nunca na sua vida ele abusara da confiança de ninguém, nunca se
aproveitara de nenhuma das raparigas. Jamais nas redondezas havia nascido uma criança que se lhe parecesse. E nessa altura,
por volta dos anos trinta, por toda a parte havia industriais que se gabavam de ter feito cinquenta filhos em cinquenta mulheres
diferentes. Havia até os que plantavam no quintal uma amendoeira por cada filho, para que não se esquecessem do número
deles quando fossem demasiado velhos para lembrá-los. O avô, não. Quando havia chegado a hora de ficar abastado e cheio
de conhecimento do Mundo, tinha começado a viajar sozinho entre Mar de Prainhas e Lisboa, ora de comboio ora de Chrysler,
sem que se lhe registasse a mais pequena história. Também nunca fizera como os outros industriais, que entravam no Maxime
fumando notas de conto de réis enroladas em charutos cubanos e confessavam, em grande deboche, que o fumo do dinheiro
queimado lhes proporcionava a maior volúpia das suas vidas. Muito mais do que absinto.
O holandês, entre as duas velas altas, estava escandalizado — «Fumavam dinheiro? Nunca tinha ouvido tal...»
«Fumavam, sim, Sr. Van de Berg...»

Aí, o tio Afonso achou que tinha chegado o momento de ir mais longe, segundo o seu ponto de vista, que era idêntico ao dos
seus cunhados. Achou que devia assinalar a relação limpa de Mar de Prainhas no que respeitava à Segunda Guerra Mundial.
Os dois holandeses desencostaram-se dos assentos e inclinaram-se para o centro da mesa. Entretanto, tinham escolhido
santola como entrada, embora de momento só desejassem conhecer a relação daquele lugar com os grandes destinos do
Mundo. O Sr. Van de Berg não imaginava. O tio Afonso também se tinha inclinado para o centro da mesa, sublinhando ainda
nesse ponto a singularidade da Fábrica de Conservas Leandro 1908. Era preciso explicar — É que, durante a Segunda
Guerra, aquele tipo de indústria havia disparado, como toda a gente sabia, e nem ele, Afonso Leandro, nem os seus cunhados
negavam que o avô tivesse feito fortuna. Só que o José Joaquim Leandro jamais havia mandado imprimir a cruz suástica na
tampa duma lata. Jamais. Os seus parceiros, sim.
Aliás, os outros industriais não só tinham mudado a rotulagem das embalagens para venderem directamente aos Alemães,
como haviam falsificado o conteúdo, mandando para dentro do vasilhame, em vez da polpa rosada de tunnus thynnus,
desperdícios, espinhas e buchadas, e até algas e calhaus, no que ele, Afonso Leandro, como jurista, via um crime contra a
Humanidade. Mas o avô, nunca. Jamais cedera. O avô apenas tinha feito contrato com negociantes que exigiam que os
carregamentos saíssem pelas fronteiras com a indicação de Sobras de Portugal, o que era uma mentira. Uma mentira deles.
Pois o que sobrava de Portugal? — perguntava o tio, fazendo oscilar a chama das velas com o ímpeto das suas palavras. Mas
aí, ao fazer esses contratos — que os havia feito — o avô desconhecia onde iria parar o seu produto. Só que para o avô era-
lhe indiferente a nacionalidade duma boca faminta. Importava-lhe pouco a língua que falava a pessoa que necessitava de
alimento, desde que ele próprio não o enviasse para as tropas do Hitler. Nada mais. Sim, tinha ganho dinheiro, porém, com
José Joaquim Leandro, tudo fora claro, tudo justo, tudo acima de traficâncias pardas. Aliás, o tio Afonso achava mesmo que o
gesto de independência e integridade do seu avô ainda não tinha sido verdadeiramente reconhecido. Mas enfim. Se naquele
momento estava a referir tudo isso, era exactamente para explicar a sobrevivência do Mar de Prainhas. Por que razão a fábrica
se tinha mantido de pé, e porque era habitada, no presente, por pessoas da terceira vaga. Era por isso que ele achava tão
importante aquele jantar. Para se avaliar, de parte a parte, o que estava em jogo.
«Estou apaixonado por este assunto» — disse o holandês, servindo-se de uma outra bebida.
E estava.
A refeição no Luxor incluía santolas de carapaça aberta, com a sua parte comestível finamente temperada, e comia-se
devagar. Afonso Leandro poderia então falar da segunda vaga. Sentia-se em forma. Pondo de lado a sua santola, o tio
explicou, com a cabeça fria, como em meados dos anos setenta tinha havido a possibilidade de se escrever nas paredes velhas
frases como a fábrica a quem a trabalha, e abaixo os que nos exploram, e como fora assim que se tinha criado uma segunda
vaga, uma segunda horda. «Está a compreender?» — tinha perguntado o tio Afonso, referindo também o facto de nessa altura
ser a sua mãe, por sinal recentemente desaparecida, quem administrava o pesadíssimo fardo. — Nesse momento, o tio tinha
posto os olhos na noite escura que fechava o mundo para além do vidro. Mas não, não iria referir o que lhe passava pela
cabeça. Não iria explicar ao Sr. Van de Berg que a sua mãe dirigira a Fábrica durante vinte anos, porque o seu marido, o filho
único de José Joaquim Leandro, médico nas horas vagas, nunca tinha estado para aí virado. Melhor dizendo, Luís Leandro, o
pai, não só odiava o cheiro do peixe, como detestava toda e qualquer pessoa que com ele tratasse. Por essa razão a mãe tinha
assumido o cargo. Mas isso não era para ali chamado, não o ia dizer.
O tio Dom. estava atento, acudiu ao cunhado.
«Nos anos cinquenta e sessenta, uma mulher, no comando duma fábrica? Estão a ver?»
Então o tio Afonso acrescentou — «Durante vinte anos, foi a nossa mãe quem suportou o balanço do barco, na altura de
declínio. Aliás, a nossa mãe, contra a vontade de todos nós, desfez-se de tudo o que havia para manter Mar de Prainhas a
laborar, tal como o avô a tinha deixado, para não deixar o pessoal sem trabalho. E no entanto, devo dizer que a segunda vaga
saiu da primeira, com um triste parto...» O tio mantinha a cabeça muito erguida, como se ao seu encontro estivesse a caminhar
um facto histórico extraordinário. A metade quente da sua cabeça acendeu-se. O holandês sobressaltou-se.
«Revoltaram-se?» Mas antes que o tio respondesse, acrescentou — «Oh! Sim, aconteceu assim, tal e qual, por toda a parte,
da América Latina à Ásia. Sabe o senhor, a relação laboral é coisa muito cínica...» E os dois holandeses bem como o seu
advogado português, pessoas sensíveis, tinham parado de servir-se.
«Sim, as coisas precipitaram-se...»

O tio estava emocionado. Era como se fosse a última vez na vida em que pudesse recordar aqueles factos, como se
estivesse a depositá-los na algibeira de alguém que fosse partir para longe e não voltasse mais. Como se estivesse a vendê-
los, ou a cedê-los para nunca mais os possuir, como se estivesse a triturá-los para os despedir para sempre, com pena e com
raiva. Afonso sentiu-se mal. Então, para ser rápido, disse que fora assim — Num dia de grande pressão, em que alguém tinha
escrito, numa parede da fábrica, Toda a patroa é velhaca, a mãe havia entendido que a injustiça tinha um limite e entregara a
Fábrica ao filho mais velho, o irmão José Carlos. E o irmão, por sua vez, tinha pensado lá com a sua cabeça, e havia
concluído que, se o avô fosse vivo, faria exactamente o mesmo que ele iria fazer. Isto é, o irmão havia concluído que não valia
a pena lutar contra o vento da História, e numa manhã de Setembro de setenta e cinco resolveu entregar as chaves da Fábrica
aos novos responsáveis. Pior um pouco. O irmão José Carlos tinha tido a ideia de assumir o acto por inteiro, entregando as
chaves aos operários sobre uma almofada de veludo, onde se lia, em letras bordadas, a palavra Leandros. — E ao lembrar-se
desse passo, Afonso de novo se sentia chocado. Com vontade de dizer palavrões que só não dizia porque se encontrava numa
situação especial. Entretanto, o Restaurante do Luxor completamente cheio, até mesmo as mesas próximas, que em princípio
deveriam ter ficado vagas, estavam repletas. Van de Berg havia muito que esvaziara a carapaça da sua santola, sempre a olhar
para o tio, mas agora pedia-lhe que repetisse passagens sobre as quais tinha interpretação duvidosa. Estava estupefacto.
«Chaves sobre uma almofada? Como um rei ao seu vassalo?»
Dom. Silvestre traduziu para o segundo holandês — «A velvet cushion. The keys on a little velvet cushion...»
«Tal e qual.»
E o tio Afonso, com a calva clara perlada de suor, sem comer nem beber, contou como esse acto de colaboração com a
História os tinha colocado numa situação de debilidade terrível. Sim, na altura tinha-se escrito, em jornais de todos os
quadrantes, que no meio da desordem e do vícios sociais, sempre havia quem se mantivesse limpo, voando à altura dos
grandes princípios. Mas esse gesto tão elogiado tinha significado apenas perdas materiais vultuosas. Aliás, que se conhecesse,
não tinha existido outro caso igual. No entanto, se falava naquele assunto, era só para que pudessem compreender o
significado do Mar de Prainhas, que ali tinham vindo encontrar intacto.
«Formidável, formidável...» — disse o holandês, entusiasmado.

Aliás, o Restaurante do Luxor continuava repleto, e em todas as mesas se falava baixo, mas o tio Afonso, de repente, como
se não fosse um advogado e tão-só um herdeiro ofendido, não se importava de falar alto. Naquele momento, ele queria que os
holandeses soubessem como tinha mudado de mãos a direcção da Fábrica Velha. Como tinha desaparecido das redondezas o
grito da sirene de que se recordava bem. Nesse tempo — continuava a falar de setenta e cinco — já qualquer pessoa possuía
um bom relógio de pulso para controlar as horas, já não era necessário ser chamado ao trabalho por um gemido que entrasse
nos ouvidos e atravessasse o cérebro de lado a lado. Calar a sirene do avô Leandro fora o primeiro acto moderno da segunda
vaga. Mas infelizmente não tinha havido segundo.
«Por toda a parte, Dr. Leandro. Nesse aspecto, o mundo tornou-se um só. E depois, a ilusão de que os pormenores mudam o
essencial tornou-se universal... Não sei se falo bem...»
«Fala, o senhor fala muito bem...»
«Mas recuperaram a indústria do seu avô?
Não senhor, não tinham recuperado. Como poderiam recuperar? Aquela indústria estava minada por sua própria natureza, a
sua crise não resultava nem de quem mandava nem dos instrumentos usados. José Carlos bem como todos os elementos da
família sabiam-no desde há muito, só os novos responsáveis, infelizmente, não sabiam. Confundiam tudo. Confundiam o tempo
com as personagens. O capricho dos peixes no mar com a vontade das pessoas. Assim, não admirava que a segunda vaga
tivesse decorrido sob o signo da violência. Os intérpretes da segunda vaga, sobejados da primeira, haveriam de encerrar com
lágrimas e suspiros o que a primeira havia inaugurado com corridas de alegria, explicava o tio. Passado pouco tempo, os
novos administradores já estavam a vender as próprias cravadeiras. As máquinas tinham-se posto a sair duas a duas, e três a
três, pela porta fora, montadas em pequenas zorras, e apesar de serem pesados corpos de ferro, nunca se tinha apurado quem
as tinha recebido. Uma sangria. Noite após noite, saíam bassines, pedras, mobílias, dossiers com números, saía tudo o que
pudesse render dinheiro, independentemente da origem e do destinatário. Mas nem todos eram estúpidos. Por um desses dias,
alguém tinha escrito numa das paredes da fábrica — Quinta dos Animais. O Porco Napoleão ao Poder. Quem assim escrevia
lia livros, e que livros. Fora descoberto de imediato e obrigado a retractar-se e a abandonar para sempre o local de trabalho.
«Foi o caos?»
«Sim, o caos. Como explicar?»
Certo dia, o derradeiro dia, tinha acabado por haver um acidente grave. Pois constava que ninguém sabia muito bem quem
dava a ordem de delapidação, nem quem recebia o resultado da venda. Numa contenda de palavras, entre vários, um dirigente
da Comissão havia puxado duma pistola e enfiado um tiro no coração dum companheiro, quando este vinha a entrar pelo
portão. Para que o Sr. Van de Berg soubesse, o tiro provocara só um buraquinho mínimo, bem menor do que o botão da
camisa, mas por aí saíra um regato vermelho e viscoso, sobre o qual o homem a princípio se sentara e depois se tinha
estendido como se fosse descansar. O homem havia expirado sem compreender o que se passava consigo, deitado sobre a
cama de sangue que o seu próprio corpo havia composto por cima das ervas do cômoro. E uma vez que o empregado que
havia disparado era mais importante na hierarquia do que o outro, o que agonizava, e ainda mantinha a pistola em riste,
sucedera que ninguém levantara o moribundo do chão. Os dois a olharem um para o outro. — No dia seguinte, quando o
primeiro havia sido encaminhado para a casa mortuária e o segundo para o Juiz de Instrução, um terceiro elemento havia
tomado as chaves sobre a almofada de veludo, e consultados os cinco elementos que restavam dessa aventura que durara dez
anos, tinham decidido devolvê-las aos legítimos donos.
«As chaves, outra vez? Entregaram ao mesmo dono?»
«Infelizmente, já não foram devolvidas a quem as entregara, Sr. Van de Berg. José Carlos, nessa altura, já cá não estava.
Esse meu irmão, o mais velho, também ele tinha ficado estendido em cima duma cama de sangue. Mas bem mais
modestamente, à beira duma estrada, tendo-lhe sido diagnosticado apenas excesso de velocidade... Antes morrer por uma frase
escrita numa parede...» — disse Afonso, com a cabeça quente. Com vontade de trocar aquelas palavras pelas justas, por
palavras indecentes.
Fosse como fosse, a chave fora depositada nas mãos da mãe, numa manhã de Maio, e no dia seguinte, já a erva do cômoro
tinha sido ceifada e a fábrica varrida, os caixotes empilhados, os detritos queimados, as paredes tinham ficado altas e nuas, e
em pouco tempo, em vez de qualquer cheiro a conserva de peixe, sentia-se apenas o sal da maresia e ouvia-se o ruído lúbrico
dos pássaros. O silêncio e o perfume tinham caído sobre a fábrica. Era um gosto entrar lá dentro e tirar fotografias, disse o tio
Afonso, referindo-se ao recinto. Ali tinha a família passado um Verão inesquecível, fazendo passeios intermináveis entre os
pavilhões desertos e as areias brancas do Mar de Prainhas. Saudade, saudade. Assim tinha terminado a segunda vaga. Mas
depois a Fábrica Velha iria ser invadida pela terceira, a terceira leva, ou vaga, de que o Sr. Van de Berg ainda tinha avistado
alguns elementos a correrem atrás do helicóptero, naquela manhã mesmo. Como em África.

«Ah! Sim. Os pássaros, de passagem para África. História formidável, história de família formidável...»

Ele, porém, não iria contar como haviam demorado um ano inteiro para decifrar o futuro de Mar de Prainhas. Não iria
explicar como as disposições legais da altura impediam que a fábrica fosse tocada ou transformada no que quer que fosse de
decentemente rentável. Não valia a pena — Na verdade, uma vez classificado o imóvel como espécime da arqueologia
industrial, a fábrica tornara-se apenas um corpo imobilizado, condenado à perda. Um objecto estranho que por sua vez
ocupava um terreno que poderia ter outro destino, mas continha a fábrica. A fábrica estava ali para nada, para cair aos
pedaços no meio dos pássaros. Ele mesmo, Afonso Leandro, tinha chegado a pensar que nunca deveriam ter recebido de volta
aquele comboio-fantasma que a todos incomodava. Nessa altura, ninguém via claro o que fazer com aquelas paredes que
escureciam mais e mais, a cada manhã que passava.
Mas para quê contar esses trâmites perturbadores a Van de Berg? Para quê? — O Sr. Van de Berg deveria concordar com
ele, que a omissão é o maior estratagema das línguas, sobretudo da fala. Para nos poupar. Por isso, o que o tio iria contar de
seguida, que desculpassem os senhores holandeses, passaria directamente, do momento em que as chaves haviam sido
devolvidas, para o dia em que a mãe tinha encontrado umas pessoas a lancharem diante do portão principal da Fábrica.

Tinha vindo um segundo prato. O bife era fino, bem passado, acompanhado de legumes franjados. O vinho tinto era um belo
Porca de Murça, tinha a cor do rubi. O espaçamento do discurso, agora em grandes saltos, ia bem com o ritmo imposto pela
fatia de carne espalhada no prato. O tio Afonso ainda hesitou. Agora Dom. Silvestre tinha o rosto fechado. Mas o Sr. Van de
Berg pediu — «E depois?»
«Depois, foi a nossa mãe, que Deus a guarde, se existe Deus, e se não existe, que passe a existir porque muita falta nos faz
pensarmos que existe. Foi assim, o meu cunhado Dom. que não me deixe mentir. A nossa mãe não podia ver aquele espaço,
antes tão vivido, trancado de ponta a ponta, sem ninguém lá dentro. Visitá-lo era como se entrasse no silêncio de um túmulo
egípcio...»
Então o tio Afonso, que bebia agora um pouco do Porca de Murça, sem se importar com a vizinhança que abundava nas
mesas ao lado, contou como num domingo à tarde, sua mãe, Regina Leandro, conforme seu hábito, tinha chamado um táxi, e
passando diante da Fábrica Velha, havia verificado que o casario não se encontrava sozinho, pois sentados à sombra da
empena, por cima do cômoro, um grupo de gente preta lanchava de umas grandes cestas. E como o táxi passasse devagar, uma
daquelas pessoas tinha-se levantado para oferecer de comer. O taxista teria dito — «São cabo-verdianos, minha senhora,
gente do Bairro dos Espelhos...» E com isso pensava o taxista ter encerrado o assunto. A menos que Dona Regina quisesse
voltar atrás para os expulsar da sombra da empena. Aliás, se ela estivesse de acordo, ele mesmo, o taxista, se encarregaria de
lhes dizer que não voltassem mais a deixar por ali o seu bafo. Mas não fora isso o que tinha acontecido — Compreendia o Sr.
Van de Berg?
No domingo seguinte, à mesma hora, a mãe tinha voltado a passar pela estrada da fábrica. E lá estava o mesmo grupo. Uma
das mulheres percebera que se tratava da proprietária da fábrica e dirigira-se ao táxi, com as mãos em sinal de paz. Tirara um
lenço branco do seio e agitara-o no ar. Depois tinha-se aproximado do táxi e tinha explicado que adoravam aquele lugar por
causa das palmeiras e da proximidade da água. Dizia que lhes lembrava a sua terra saudosa, a sua ilha distante. Que não havia
em redor nenhum sítio onde se sentissem tão bem. A mulher tinha dito que, sempre que vinham da praia, lanchavam ali. Que
dispunham duma carrinha onde transportavam os mantimentos, as crianças e uma mãe velha, a mãe de todos eles. Que, se a
proprietária voltasse dali a uma hora, poderia ver o chão completamente limpo. Até costumavam levar o lixo que não lhes
pertencia, só para que não dissessem que deixavam porcaria por onde passavam. Então o taxista tinha dito — «Que ronha...»
Recomeçando a rolar estrada fora.
Mas a mãe, sentada no táxi, a olhar para trás, a inspeccionar o horizonte, perguntara a si mesma. Pois o que era o mundo? A
Terra? O que eram as casas? Onde estavam os seus dois filhos mortos, o José Carlos, na beira da estrada nacional, o José
Eduardo, numa picada em Angola? E agora, onde estavam? Onde estava o seu marido? E o seu sogro, José Joaquim Leandro,
que ela tanto havia respeitado e amado? Continuado? Esperar o quê, para quê? Guardar os actos que restavam para quem?
Para quando? Ao menos que se fosse prestável a alguém que ainda estivesse vivo. Alguém que fizesse as mesmas perguntas e
não encontrasse as respostas. Ao menos isso. Nada mais era certo. — Sem consultar ninguém, a mãe tinha-se enchido de
magnanimidade. Haviam então voltado para trás. Os pretos ainda lá estavam no cômoro. A mãe tinha querido saber quem
mandava neles. Nessa altura, já ela pintava os cabelos de lilás. Então fora-lhe apresentada a mulher mais velha, e ali mesmo,
as duas tinham combinado a ocupação da fábrica.
Fora assim que se tinha iniciado a terceira vaga.

O Sr. Van de Berg, hirto, contra o vão da ampla janela. Os garfos pousados — «Belo, muito belo! A terceira vaga...»

Precisamente, a palavra vaga só aparecera com essa ocupação. Ele, Afonso Leandro, havia-a criado, confessava,
associando aqueles que tinham vindo de África, com as migrações dos pássaros, a expansão do cólera e as pragas dos
gafanhotos. Exageradamente, reconhecia, mas não era pacífico, num momento em que ninguém sabia o que fazer à fábrica,
entregar-se assim, um espaço daquela importância, ao cuidado daquilo que o taxista dizia ser um bando de pessoas lentas,
pessoas sem noção do alheio, longe das horas do relógio e dos dias do calendário. Pessoas que vinham dum outro mundo,
duma outra era. Pessoas que não sabiam fazer mais nada além de amassar cimento e colocar tijolo sobre tijolo, actos
primitivos anteriores à civilização A noite, guardavam-na eles para dançar e fazer filhos. Essa era a teoria que ele mesmo na
altura havia desenvolvido, vislumbrando graves problemas no futuro. Aliás, ainda agora, ele, Afonso Leandro, não
compreendia porque tinha a mãe tomado, sozinha, uma decisão tão contraditória. Fora aí, nesse contexto, que ele inventara a
expressão de essa gente, essa leva, essa vaga. Desgostoso e revoltado. Terceira vaga. Segundo ele, retroactivamente, tinham
denominado, ao longo do século, uma primeira e uma segunda vaga, só porque de súbito aparecera uma terceira. Uma terceira
vaga.
«Compreende?»

E o tio Afonso, um cavaleiro, um bom advogado, que havia feito teatro na faculdade e se gabava de ser um prático, um
homem que de ano para ano ganhava uma mulher boneca, nas disputas judiciais entre mulheres e seus maridos, contava tudo
isso, emocionado, sem comer o seu bife frio nem as verduras finas, espinafres verdes enrolados como linhas. Não conseguia, e
no entanto, o que estava a tentar fazer era apenas um negócio. Inacreditável. Chegando aí, o tio Afonso até tinha dúvida sobre
se fora uma boa ideia verter sobre aquela mesa uma tão profusa página da história íntima da família. Mas ao encontrar os
olhos de seu cunhado Dom. Silvestre, recebeu algum acolhimento. E ele tinha confiança na intuição mercantil do cunhado. No
meio do seu rosto trigueiro, brilhavam, luzidios, os olhos do pássaro bisnau.
«Desculpem lá...»
«Não há desculpa. Fez muito bem contar. História formidável de pessoas... Eu estou apaixonado por toda essa história
antiga. Uma almofada de veludo verde... Bem, vamos ver...» O holandês, entusiasmado — «Olha, em tudo isso eu vejo uma
bela reconstrução, tudo respeitado, tudo reposto, sabe? Menos a sirene. A sirene não pode voltar a funcionar por causa dos
pássaros. Mói o ouvido dos pássaros, afasta-os. Mas de resto, tudo pode ficar com sua memória, tal e qual. Olha, as telhas são
retiradas uma a uma, guardadas, tudo em ordem, como se fossem de cristal. Compreende?»
O holandês, muito sonhador, o seu sócio, também muito sonhador — «E quanto ao resto, quase não se vai ouvir, a Natureza
não vai sofrer coisa nenhuma. Nem um passarinho vai desaparecer. Temos feito dezenas de operações como essa, em todo o
mundo. Não dói nada, nada, nada. À Natureza. Já ontem falámos aqui com o seu cunhado. Nem se toca na raiz de uma
palmeira. Antes pelo contrário. A palmeira até gosta e vai agradecer. Não é verdade? Oh! A palmeira vai adorar, tudo em
volta vai enverdecer...» Muito sonhador — «Até os carris vão ficar. Ficam lá colados ao seu chão, como seu avô os mandou
pôr...»
Van de Berg empunhou a chávena de café, depois um copo com um pouco de uísqui, prometendo manter Mar de Prainhas tal
e qual como estava, para muita gente poder desfrutar do seu clima, dos seus pássaros. No caso de se fazer negócio. Fazia
questão. Tinha sido muito bom o Sr. Silvestre ter tomado a iniciativa de fazer o contacto. Aliás, fora uma feliz iniciativa, e por
isso os dois, ele e o seu sócio, ali presente, estavam muito contentes. — Enquanto o senhor Van der Berg falava, Afonso
parecia cansado. Tinha-se reclinado na cadeira e a sua calva sobressaía como um desgaste adquirido, em contraste com a
fúria do cabelo espesso do seu cunhado, um cabelo negro e liso, espetado, quase oriental. Os olhos de ambos, porém,
encontravam-se e entendiam-se.
Por que esperas?
Era isso, o tio Afonso tinha de rematar.
«Pois assim se entende que ali tenha ficado, intacta, aquela jóia no meio do terreno de Mar de Prainhas. Um milagre, face à
selvajaria que por aí se vê. Mas não sei se o meu cunhado falou do grande problema...»
«Problemas há sempre. Estamos aqui todos reunidos para resolver problemas» — Van de Berg a rir para os dois
acompanhantes.
«É que aquela gente da terceira vaga podia sair dali já amanhã, só que as nossas irmãs não concordam. Desentendemo-nos.
Os senhores não sabem, por certo, que a nossa mãe foi falecer lá, no mês de Agosto passado...» — Os holandeses e o
advogado, em silêncio compungido. Como assim? — «E além do mais, uma nossa sobrinha foi atrás da avó e também ficou lá
a viver uns dias. Dois obstáculos. As nossas irmãs, com a sua natureza de mulheres, respeitam esse tipo de coisas, a juntar a
muitas outras. E nós dois respeitamo-las a elas. É por isso que eu não quero contactos com aquela gente. Se lá tiver de ir
pessoalmente, bom dia, boa tarde, mais nada».
Afonso Leandro falava como alguém que pretende simplificar um assunto bastante complicado, mas deixando a
complexidade à vista. Os holandeses, um pouco preocupados, rindo menos, falando menos dos pássaros e mais dos assuntos
legais, o advogado português dos holandeses a desembainhar a sua perícia jurídica, as coisas a serem faladas em planos
separados. — Primeiro, as questões que tinham a ver com o ordenamento da costa, segundo, as questões de permissão de
ocupação de um prédio classificado, a troco de serviços, e dez contos por mês, e por fim as questões da alma. A alma humana,
essa coisa complicada que ninguém definia, essa aragem sem direcção, aprisionada na vasilha do corpo. Ficaram até às duas.
O Restaurante tinha de encerrar e eles não conseguiam sair. O tio Dom. alimentava em sua mente uma urbanização chamada
Cidade das Palmas, cujo spot publicitário seria Aqui o Oceano depôs suas Armas. Os holandeses estudaram ali mesmo as
implicações desses termos em várias línguas. Pelo menos em holandês resultava muito complicado. Não se entendia como o
Mar pudesse ter armas. Que armas? Por fim, disseram que tinham de voar no dia seguinte para Miami e depois voltar à
Tunísia. A Tunísia era logo ali, voltariam dentro de quinze dias, um mês. Nessa altura, tencionavam sobrevoar de novo toda a
costa, e se estivessem de acordo, iriam mesmo, pessoalmente, ver no próprio terreno a ruína industrial pela qual estavam
apaixonados, queriam antes de mais pôr os pés na dita terra. Uma coisa rápida, sem contactos com os residentes, para não
complicar. E depois logo se veria.
Sobre a toalha, as duas velas tinham ardido até ao fim. Aquela era a última mesa ocupada Ao fundo só havia um criado.
Despediram-se, era de facto muito tarde. Desceram.

Os cunhados entraram no jipe de Dom. Silvestre.

Dom. Silvestre não falava. Alguma coisa tinha corrido mal? Silêncio. Não, nada tinha corrido mal. Silêncio. Deve-se fazer
compreender o valor afectivo do que se vende para o cliente melhor estimar o montante em causa. E era tudo. Silêncio. O tio
Afonso, cansado, estupidamente emocionado com aquela revisitação acelerada, em silêncio. Tinha tirado o casaco, a sua parte
de baixo tão pesada quanto a parte de cima. Ao sentar-se sentia o corpo pesado e mole, um saco de farinha. Maçado, maçado.
Mas o tio Dom. não sentia qualquer fadiga, poderia àquela hora partir ainda para outra maratona. Fora, havia o ruído do
motor, dentro, os dois mantinham-se calados.
O tio Dom. disse, ao deixar o tio Afonso em frente de sua casa, no Bairro Castro, em Santa Maria, onde o esperava Isabel,
de luz acesa, muito dedicada, aquela Isabel. Eram três horas da manhã — «Escuta aqui, cunhado — A partir de agora convém
acabar com esta história dos pássaros, da sirene, do Chrysler, toda essa fancaria em que vocês são vidrados. Em matéria de
amores e desamores, você esta noite já cumpriu a sua parte. Não regresse mais a isso. Não insista. Além disso, convém
mesmo fazer baixar a parada, acabar com os impedimentos do mulherio. Entregar, entregar, cruzar papéis, fechar palavras.
Tudo tem um limite. Já está lapidado que chegue o nosso diamante. A partir de agora, a coisa já começa a ter o seu desgaste. O
assunto começa a apodrecer. Ouviu?»

Diamante — Entre os tios, era sobretudo Dom. Silvestre quem usava essa designação. Os outros conheciam-na e
utilizavam-na, mas só ele, que a tinha inventado, conseguia extrair, da sua metáfora latente, o sentido profundo de todas as
implicações possíveis. Domitílio Silvestre tinha falado de urgência. Urgência quanto ao diamante. Com essa ameaça terminara
o jantar do Luxor. Com a voz do tio Dom., sem se despedir do cunhado.

Milene havia sido matéria intrínseca desse jantar. Ela nunca o chegaria a saber. Outros só o saberiam mais tarde.
XIV
Milene e Antonino dirigiram-se para a zona da Ria, cada um em seu carro. Parquearam-nos sob os toldos de ripa. Andando
a pé, foram até à Duna Macha. — Seria mesmo verdade?

Era um domingo de Novembro. A luz saía da areia para o sol. O bar da praia tinha pousado de leve no solo e ainda não
assentara. As suas tábuas eram precárias como o entrançado do junco. Como se fosse construído de paus de fósforos e uma
ilusão da vista o tivesse feito crescer à dimensão dum homem mediano. Ele curvou-se para entrar. Ela entrou atrás. Sentados
sobre a luz da tarde, ele encarou-a de frente. Quem era ela? De onde tinha vindo? Porque era assim? Fazia as perguntas que as
sobrinhas Sissi e Belisa já lhe tinham feito de uma outra maneira. Milene surpreendida — Porque lhe perguntava isso,
Antonino Mata, sentado no banquinho de pau? A olhar para a duna erguida entre a ria e o mar? Porque lhe perguntava pela sua
mãe e pelo seu pai? Antonino tão próximo, a fazer perguntas. Ela podia contar. Mas não ia contar. Se a duna estava cor de
ouro e o bar onde se encontravam tinha a consistência da rede, e ele, Antonino Mata, tinha a mão dele na dela, antes de a ir
entregar a Divina, porque haveria de juntar um mal a um bem? Em frente, a duna oferecia o dorso às aves. O chapim chamava
os ovos do ano seguinte.
Ela disse-lhe isso, sentada no banco do bar. Não queria juntar um mal a um bem tão grande.
«O que queres dizer com isso?» — perguntou ele.
Milene assoou-se demoradamente, a tomar consciência de que existia e era alguém no mundo, entre os grãos de areia. Os
grãos de areia colocados, durante um instante, no seu sítio exacto. Se falasse na dor, alguma coisa em volta, indispensável,
poderia morrer. Não fales na dor. «Oh, pá, não fales na dor...» — pediu ela.
Antonino bebia cerveja pela garrafa. A luz entrando pela garrafa partia na direcção da areia e barrava o avanço da treva.
Ele limpou a boca com o punho da camisa. Aves caíam do céu sobre a água. A dona do bar veio dizer — «Estive quase a
morrer antes de aqui vir ter. Parece mentira mas este local salvou-me...» Antonino, a rir, mostrava as três partes separadas na
fileira dos dentes. Se Milene pudesse, não pediria nada a ninguém, não diria nada a ninguém, ela só faria aquilo que na
natureza e na vida estava por fazer. O mundo por completar, a vida por construir, por limpar, arrumar, conservar e servir. Se
ela pudesse. Não podia, achava-se uma pessoa bera. Podia, no entanto, não acrescentar nem mal nem treva onde sabia que já a
havia. Podia não colaborar com o que criava a dor. Não sabia o que era o mal, sabia o que fazia mal. Do mal conhecia os seus
efeitos, não as suas raízes. Ainda que não o pudesse dizer. Pois, se sentia isso, não tinha palavras. Se tinha palavras, pensava
numa outra coisa, não sentia isso. O que ela quereria era ser lúcida, que a sua cabeça estivesse iluminada de ponta a ponta,
ligada à claridade e à inteligência, mas sabia que não era assim. Dentro da sua cabeça, como numa pista de carros de feira, os
néons apagavam-se e acendiam-se, fazendo intervalos, encobrindo zonas à vez, criando crateras de insignificância viradas
contra a luz. Quando essas se iluminavam, logo outras mergulhavam na escuridão. O cérebro feito para nunca abarcar a
totalidade. Que palavras para dizer isso?
Antonino a rir por causa do dourado do sol — «Oh, pá! Correcto, não vamos falar da dor...»
Ela a rir — «Não, não, nunca vamos falar da dor. Pois para quê falar nisso? Ë assim, o Antonino não fala da dor, eu não
falo da dor, então é como se essa coisa fedorenta não existisse... » — disse ela, assoando-se outra vez, ruidosamente,
sentindo-se alguém no meio de um mundo terrestre onde não se via dor. A dor deveria existir, em algum esconderijo húmido
ou atrás duma ruga de areia, mas não se via. E se não se via nem se apalpava, não existia. Correcto? Ele tinha terminado a
cerveja. A cerveja dentro dele transformava-se em movimentos soltos, em mais brilho na pele. Ele a rir mais, para o lado, a
esconder os dentes, o riso dele agudo e grave ao mesmo tempo — «Oh! Que loucura. Assim, vai haver dias em que vamos
ficar mudos...» Limpava o gargalo amarelo da garrafa para entreter as mãos. «Está combinado, não se fala da dor.» Ele
acendeu um cigarro. Deitou-o fora.
Naquele momento, o bar podia levantar-se sobre as próprias canas, deslocar-se durante um quarto de hora e voltar ao
mesmo lugar com eles lá dentro. Pousar devagar. As aves podiam partir levando no bico a ponta das ondas. O mar poderia ser
erguido no ar pelo impulso das aves. Com o fundo do Oceano aberto, gente que estivesse exilada num outro mundo, à espera,
poderia vir acolher-se ali, para fundar uma colónia nova. Gente que se recusasse a falar da dor, isto é, do mal. Isto é, que
fosse inocente não por inocência, mas por discernimento. Isso seria possível? «Vamos ver. Nunca falar na dor. Ah! Ah! Como
irá ser isso, vamos ver...» — disse ele, divertido, baixando-se para sair pela porta do bar. Fazendo-se leve para não quebrar
aquele desenho de tábua erguido na areia da Ria. Levando-a depois, pelo braço, ao longo da ponte de madeira, a longuíssima
ponte de madeira, durante a qual ele teria tido mil oportunidades de a beijar. Mas não, ela pensava que ele guardava os beijos
para Divina. Ele só a puxava, trazia-a contra ele, afastava-a, fazia-a dançar na saia curta, sobre o tapete de tábuas. Ele
próprio, desengonçado, bom dançarino. Usava sapatos de ténis brancos, de sola alta, como patins, e dançava em cima das
tábuas. Só dançava.

Era o início dum amor comum. Isto é, as tardes paravam, os dias seguintes, não.

A prova é que Antonino tinha voltado ao antigo percurso da sua vida. Mesmo assim, entendiam-se. Quando acabava a tarde
e a carrinha cinzenta não aparecia diante das luzes abertas em Villa Regina, era porque Antonino iria passar a longa noite de
Outono em casa de Divina. A que tinha pés, tornozelos, coxas, axilas, ventre e mamas, rim e fígado como toda a gente e
chamava-se Divina. Porquê? Mas quando assim não acontecia, ele conduzia a carrinha para longe, levava-a por entre as
vivendas novas, não apenas porque apreciava o mundo organizado, mas também porque reservava as estradas do interior só
para a Divina. «Se ela soubesse, matava-me...» — dizia Antonino a olhar para fora.
Se a minha mãe soubesse. Se lá em casa soubessem. Se Domingos soubesse, se a minha avó soubesse. Se Eunice soubesse.
Essa seria uma das razões por que a levava pelas urbanizações ricas onde se andava devagar, sem ninguém dar por nada. O
entrançado perfeito entre as lantanas e a relva. Sem vivalma. Sem fumo, sem rádio, sem bicicletas. No entanto, junto das
garagens, ou perto delas, havia grandes carros parados. Ruas que não se sabia se demasiado vigilantes se abandonadas. Fosse
como fosse, ele encostava a carrinha entre duas ruas desenhadas a compasso e comprimia-lhe o cabelo entre as mãos. Não a
beijava. Nunca a beijava. Só lhe apertava a cabeça entre as mãos e ficava a passear o seu próprio olhar entre os olhos dela, de
olho em olho, de madeixa em madeixa, estudando-a demasiado de perto, como se precisasse duma lente de aumentar para a
ver. Não a beijava. — «O que vai ser de mim? O que vai ser de ti?» Por vezes dizia — «O que vai ser de nós?»

Depois, foram perdendo gravidade e ganhando alegria. Cada um em seu carro, para ser mais simples o regresso. Ela só
entrava na carrinha, já perto das Dunas Fêmeas, as mais próximas, para ele poder deslocar-se com mais facilidade. Em breve
Milene percebeu que ele não conseguia ter tempo para jantar. Devia partir dos locais onde se encontravam, directamente para
a porta de Divina. Supunha ela, porque ficavam até às oito e às nove, dentro da carrinha, e só depois, olhando para o relógio
como quem olha para um ruim feiticeiro que lhe ditasse o signo, ele iniciava a partida. Antonino perguntava — «Mas porquê?
Porquê?» Perguntava, apertando-lhe os braços, só os braços e os ombros, jamais repetindo o abraço apertado que tinha
acontecido na berma da estrada. Por vezes, ele arrependia-se, em voz alta — «Era tão fácil estar só com a Divina, tão
cómodo... Ela à minha espera e eu a chegar a horas certas... E depois apareceste tu...» No entanto as palavras não
correspondiam ao tom. Antonino Mata parecia troçar de si mesmo ao falar desse modo — «Sim, eu estava tão bem. Devíamos
parar...» Mas tudo isso não passava de mais um sopro sobre a lareira. Ateava-se de novo. Levava as mãos à cabeça, sem
boné, e dizia — «Deixa-me pensar, pensar bem...» Milene já dentro do seu carro. Ele ainda pela janela — «Porque me foste
chamar lá na obra? Se naquele dia eu estivesse lá em cima, não te tinha ouvido, os teus gritos não tinham entrado no meu
coração. Mas porquê? Porquê?» Ele a demorar-se. «Porque sim, porque eu quis...» — respondia ela, batendo no peito.
Ouviam-se as pulseiras. Os dois carros, à volta, desenhavam circunferências, um atrás do outro. Um atrás do outro, voltavam.
Atados um ao outro por uma baraça invisível.

Um amor não se conta nem descreve, sob o risco de ser risível. Porque nenhum amor é risível, principalmente o comum.

«Beija-me» — pedia Milene.


Encontravam-se nos arredores do Hotel Cálamo, os pitósporos verde-escuros fazendo-lhes uma sebe em volta. Ele a tirar-
lhe as pulseiras dos braços, a pulseira da perna, a juntar as vinte e uma pulseiras sobre o tablier da carrinha, a passar as mãos
pelos braços dela, mas sem a beijar. — «Se fôssemos invisíveis...» Pois se fôssemos invisíveis, agora mesmo íamos ao Mãos
Largas jantar. Arrumávamos os carros ali em frente e ninguém nos via, entrávamos lá dentro, sentávamo-nos à mesa e ninguém
nos via. Nem a minha família, nem a tua, nem ninguém, nem tão-pouco a Divina. Se fôssemos invisíveis. Depois, ele fazia-lhe
um espécie de massagem nas costas, as duas mãos a andarem sobre as omoplatas dela, a comprimirem-na, como se procurasse
um osso raro. Escondido. Encostava-a a si, mas não a beijava. A luz branca do candeeiro saía dos pitósporos e encaminhava-
se para a cara dela. Milene fechava os olhos. Quando os abria, ele estava estarrecido diante dela. Ele próprio lhe abria as
pálpebras — «Muito perigoso, Milene, muito perigoso ficarmos aqui. Não é por nada, mas já vi muitos filmes como este.
Terminam todos mal. Devíamos parar». Agarrava-lhe de novo os braços como se os fosse partir e enfiava-lhe as pulseiras,
uma a uma. Depois, pegava-lhe no pé e engatava-lhe, no artelho, a pulseira de abrir e fechar. Antes de partirem, ele perdia a
cabeça — «Porra, porque não somos invisíveis?» — Ia a correr. Ela sabia que ele ia a correr para Divina.

Era um amor normal, um amor indizível.

«Nunca me vais beijar?» — perguntava ela, de olhos abertos.


O meio-dia solar, naquele ano e por aquela altura, depois da chuva de lama, ainda estava repleto de agulhas vivas, mas pela
tarde anoitecia demasiado cedo, como se o trópico tivesse deslizado uns graus. Por semana, só se viam mesmo de noite
cerrada. Antonino, vindo, por vezes, directamente da obra, trazia os filhos. Faziam só uma curta volta, porque as crianças,
cansadas do infantário, choramingavam. O mais velho produzia estampidos com plásticos vazios. Nesses dias, ele falava
rápido, de coisas práticas. Acompanhava-a até Villa Regina — «Sabes quanto gastas por mês com a tua nave espacial sempre
acesa? Diz-me, quem paga a tua nave espacial? Xi! Olha, em três meses, esse dinheiro daria para comprar uma mota ao filho
mais velho da Divina...» Ofendiam-se. Era um amor normal.

Um namoro normal.

«Se fôssemos invisíveis, não digo que entrássemos no Mãos Largas, ou no Pomodoro, mas íamos por aí a qualquer lado, um
snack-bar na Marginal» — Ele cheio de fome. Uma noite acabaram por ir ao Inglês, um restaurante famoso pelo recolhimento.
O proprietário era um galês amigo duma jamaicana que cozinhava feijão com toda a espécie de pimento. Mas não foram lá
pela ementa e sim por terem a certeza de que eram bem recebidos. Bem abrigados. Os espaldares dos bancos eram altos, como
nos comboios antigos, e ninguém os tinha visto. Infelizmente aquele espaldar protector era demasiado dispendioso. Então ela
tinha começado a trazer sanduíches que partilhavam dentro do carro, antes de ele abalar para a casa da Divina.
«Pois hoje, fico aqui» — disse ele. «Fico contigo». Nesse fim de dia, a carrinha rojando as rodas entre os jardins perfeitos,
as árvores perfeitas, no meio das relvas aparadas, donde saíam luzes do chão que vinham ter com as sebes e aí se sumiam.
Eles parando diante de casas ociosas, perfeitas, empenas de renda, chaminés de brinquedo, que vinham ter com eles. «Fico,
fico contigo...» As moradias a andarem na direcção deles. «Queria que ninguém nos visse... Se fôssemos transparentes, se
fôssemos invisíveis...»

Até amanhã.

Milene, a nossa prima Milene, regressava a casa e corria para o telefone. Curvava-se toda diante do telefone. Ouvia a
gravação e rodeando o bucal com ambas as mãos, em voz baixa, deixava a sua mensagem — «Ouve, escuta, o meu namorado
e eu devíamos ser transparentes e invisíveis... Se fôssemos, tenho a certeza que ele me apertaria nos braços dele, sentava-
me nos joelhos dele e beijava-me... Os dias passam, e ele vai estar com ela e não comigo, porque não somos invisíveis. Diz-
me, quando puderes, o que pensas disto... Em voz baixa — Passam os dias e ele não me beija e tu não me respondes...
Porque não respondes? Queria dizer-te que nunca na vida me senti tão feliz. Parecido, só quando os três andávamos de
skate e a avó Regina nos deixava correr pela estrada abaixo. Às vezes, quando ele me levanta pela cintura e me põe no
chão, é como se os meus pés tivessem um skate... Nunca vou dizer isso, pode ele levar a mal. Mas quando ele me pega, eu
só penso nisso. Em voz muito baixa — Quero ser beijada, beijada... O que me dizes a isto? Nunca contes estes meus
pensamentos à Lavinia... Sempre silêncio, só me dás silêncio.. .
A fita do teu gravador é eterna? Nunca acaba? As das tias terminam quase todos os dias. Beijos da tua prima, Milene...
Bye. Olha, ainda mais... Aqui é noite cerrada... Aí neva?... Por falar nas tias, nos tios e no teu pai, esquecia-me de te dizer
que eu e o Antonino combinámos nunca falar do mal, nunca falar... O que me dizes a isto? Tua prima. Bye...»

«Há mais de um minuto que estou a ouvir o formigueiro do teu gravador, e tu, nada... Bye, bye. Aqui não faz frio
nenhum. Dizem que o Mundo vai aquecer. Já umas pessoas se sentiram mal.
XV
Aliás, em Valmares, Dezembro ia tão quente que não se sabia se aquelas madrugadas mornas eram ainda um resto de
Setembro ou se já anunciavam o mês de Junho do ano seguinte. Não admirava que os sonhos das pessoas também andassem
avariados.
Os cães dormiam de noite e uivavam à Lua de dia, inclinados para o céu. Felicia dormia a sesta como se fosse Verão, e
depois do jantar, adormecia e sonhava que era uma outra pessoa. Naquela madrugada, precisamente, tinha ela sonhado que era
um homem muito forte, desonrado por sua mulher, adúltera, muito magrinha, mas a quem muito amava e por causa dela se
metia num barco e rumava ao mar alto para morrer. No sonho, a morte era um alívio para ele, que era ela, Felicia, e bastante
desgostosa, desgostoso, tinha ficado quando se apercebera que a mulher, arrependida de seus adultérios, caminhava sobre as
águas e lhe pedia perdão, rogando-lhe que não morresse, que voltasse. No sonho, porém, a honra era mais forte, e ele, ela,
indiferente, não voltava, navegava a direito sobre as ondas rumo àquele lugar sedutor onde tudo terminava, sem se importar
que a mulher se afogasse. Muito magrinha, ela afogava-se. Ele, ela, continuava no barco, a remar, a remar. Felicia tinha
acordado muito maldisposta, ela, ela mesma, alagada em suor, sentindo um remo na mão, como se de facto o seu mundo
interior estivesse avariado.

Tinha contado isso, ao pequeno-almoço. Os filhos estavam presentes e todos acharam que, ao fim e ao cabo, o que a mãe
queria era mandar ainda mais do que mandava, de tal modo que se imaginava homem. Pelo menos foi o que disse Domingos.
Claudina achou que a tia, com a sua idade, andava a pensar no amor e na vingança. Só o velho Heitor acrescentou sonho ao
sonho — «Mulher, isso que você sonhou não é novo, foi o que aconteceu ao telegrafista da Praia. Já viu? O telegrafista
Monteiro. Esse é que se meteu num barco para morrer por causa da mulher que o tinha enganado, se fez ao largo e se deixou
andar à deriva. E ela, arrependida, fretou um barco com um batalhão de marinheiros, foi buscá-lo e viveram felizes até ao fim
da vida. Nos sonhos não acontece a verdade, só parecido...»
Não, Felicia não se lembrava da história do telegrafista da Cidade da Praia. Não se lembrava, mas essa bela história
deveria estar escondida dentro da sua própria memória. Pena tinha ela que no seu sonho ele, ela, não tivesse perdoado à
mulher. O problema é que ninguém consegue mandar no desfecho dos sonhos. Ana Mata, porém, sentada desde cedo a escolher
o milho, rente ao leito dos rios, era da opinião de que uma pessoa não comanda o sonho, mas manda na lembrança que dele
tem. Assim, se estivesse no lugar da sua filha Felicia, agora, quando se lembrasse desse sonho, bem podia imaginar que o
homem continuava à deriva, mar fora, não para fazer as pazes com a sua mulher adúltera, que o não merecia, mas para salvar
as coisas que o Mundo tem para salvar. Ana Mata disse mesmo que a sua filha poderia imaginar que o homem, que ela tinha
sido durante a madrugada, também poderia enfrentar um tubarão e com esse gesto salvar, por exemplo, toda a sua família. Era
só uma questão de troca. E Ana Mata explicou, na sua língua, como uma boa mãe, querendo, poderia trocar o seu corpo pela
salvação dos que lhe eram queridos.
Felicia ficou arreliada.
Como era? Então ela sonhava apenas que era um homem com um barco, e já a sua mãe exigia que ela fosse mais do que
Jonas? Oh, Senhor! Estava mesmo a perder a paciência com a sua mãe. Toda aquela conversa trágica por causa da
porcariazinha de um sonho.
«Sonhe a senhora, minha mãe, que se entrega de mãos postas diante do tubarão, sonhe com esse sonho bom... Porque não
sonha? Muito pior que Jonas, que esse foi para dentro da barriga da baleia e voltou à vida para ser reconhecido por todos.
Mas a minha mãe quer que eu sonhe com as ilhargas de um peixe de onde nem se volta mais. Para salvar quem? Me diga...
Alguém está em perigo?» — E Felicia pensava que a sua mãe até já nem tinha amor de mãe. Que diabo de manhã amarga.
Tudo por causa do calor de Dezembro.

Felicia decidiu — Era preciso esquecer o homem, o mar, o barco, a mulher adúltera, o telegrafista Monteiro da Cidade da
Praia, o tubarão, a baleia e o Jonas. Esquecer já, já, e lavar a louça. Entregar-se à paz que o manejo da louça lhe dava.
Bendita seja a louça da cozinha.
Vamos ao nosso dia.

Seriam então umas dez da manhã. Já havia muito que os pratos haviam sido lavados e empilhados sobre as mesas de
plástico. As superfícies garridas, húmidas e fosforescidas pelo detergente, brilhavam ao sol esquentado. No pátio, já só havia
gente de idade. O telefone tocou e Felicia atendeu. Era Janina a pedir que não lhe telefonassem, porque só agora se ia deitar.
A vida dura de um cantor pop-folk. A mãe estava a ouvir? Tinha sido convidado para se deslocar à Alemanha. Agora já não
iria a Toronto, iria antes a Berlim, não a Monreal nem a Toronto. Ao Canadá iria depois. Mas naquele momento, o que ele
precisava mesmo era de dormir. Felícia, muito ralada — «Trocas assim o dia com a noite? E os que te ouvem, como é que
fazem para trabalhar? O teu público vive de dia ou de noite? E a tua banda, como é? Bem, bem... Toma cuidado contigo.
Dorme lá então o que tens de dormir. Dorme, dorme que eu não te acordo, e segue em frente, sempre em frente, meu filho...
Ciao, beijão...»

Ana Mata sentada no seu poiso privado, com os óculos postos, depois da contenda por causa do sonho, continuava a
escolher o milho. Com os dedos finos como patas de pássaro, deitava fora um e outro bago, atirando-os para trás das costas.
Heitor Pai, com os dois bordões, atiçava os cães, sem o conseguir. Felícia e sua irmã Dilecta tinham começado a cortar um
peixe dentro dum alguidar. A água do peixe era avulsa, deitada fora na parte de trás da fábrica, não podia correr nos rios de
Ana Mata. Fedor e moscas tinham de acontecer muito longe de casa. Também a carepa do milho tinha de ser deitada longe do
local onde os três rios se uniam. Ana Mata levara a sua poltrona mesmo para o meio do pátio, a fim de escolher o milho à
vontade, deitar o desperdício o mais longe possível dos seus cursos de água. Mas aí, onde estava concentrada no seu labor de
escolha, ouviu um ruído. Eram carros. Paravam. Chegavam pessoas.
«Carros chegando na porta» — anunciou Ana Mata na sua língua. «Felícia!»
Com as mãos a ressumar água de peixe, viradas para fora, para pingarem longe do corpo, duas barbatanas sacudindo pingos
e escamas, Felicia dirigira-se ao portão, seguida pela caniche, e vira quatro homens que chegavam, montados em dois jipes,
abriam as portas das viaturas, à pressa, como se fossem polícias, e quando já completamente apeados, tinham começado a
olhar para a fábrica. Os quatro, a observarem com olhos de medida, olhos que num segundo vão de cima a baixo, de lado a
lado, fazendo contas, dividindo e somando. Ela viu e não se enganou. Eram quatro pessoas interessadas na fábrica. Mas
Felicia não sabia quem eram. Com as mãos cheias de ressumo de peixe, ela mesma tomou a iniciativa. Sacudiu as mãos, fez
menção de as limpar no avental de borracha e disse — «Bom dia. Desejam alguma coisa?»
Os quatro homens, muito desiguais, tinham continuado a olhar e a falar entre si como se não a ouvissem. O meio calvo, de
fato e gravata, falava em português brasileiro com um grandalhão loiro e avermelhado. O pequeno, de jeans, os olhos luzidios,
vivos, como de rato, falava em inglês com o outro, só um pouco menos gigante que o primeiro, e esse que até nem parecia
inglês, com os braços postos no cinto que era de cabedal muito largo. Esse, o dos olhos escuros, era o que mais olhava para a
Fábrica, de baixo a cima e de lado a lado.
«Bom dia. Desejam alguma coisa, os senhores?»
Nenhum deles tinha respondido. Pelo contrário, os quatro, unidos no mesmo olhar, haviam começado a andar sob as
palmeiras, ao longo do cômoro, de costas viradas para ela, sempre a olharem para cima, como se o telhado da fábrica fosse
muito mais alto, e também para o chão, como se as paredes fossem muito mais fundas. Rápido. Felicia correu para dentro,
limpou as mãos a qualquer coisa de tecido que encontrou na passagem e dirigiu-se ao seu quarto-cozinha, gemendo, num
sufoco, procurando papelada entre papelada. Rápido. Encontrou. As escamas do peixe eram mais velozes do que a sua mão,
mal tinha tocado nos papéis, já lá estavam escamas. Coladas. Não fazia mal. Tornava-se necessário e urgente mas era correr
atrás daquelas criaturas. Dilecta que serrasse sozinha a espinha do peixe.
«Onde vais, mulher?»
Ora, ora, não tinha tido tempo de responder.
«Pois onde vais tu?»
«Deixa-me, são uns ingleses que estão aí».
A própria Ana Mata tinha-se levantado do seu poiso e dirigira-se ao portão para ver os ingleses. Mas já nem os avistou. Só
viu a filha Felicia de costas, a correr, procurando desembaraçar-se do avental de borracha que usava para amanhar o peixe.
Sim, Felicia Mata corria com o papel na mão, atrás dos visitantes — «Senhores! Senhores!» Tinha-lhe parecido que eles
diziam gude, ou gute, e por isso ela perguntou — « Escutem, senhores!... Ingleses?»
Mas eles lá iam, deveriam estar a inteirar-se agora do estado da empena nascente. Ela a chamar, a correr e a chamar, com
os chinelos de enfiar no dedo a impedirem-lhe o andamento desejado. A correr e a chamar atrás deles, agitando o papel. Lá
estavam eles. Os ingleses tinham dado uma volta pela empena oriental, ali onde, em tempos recuados, tinha sido o pavilhão do
guano, e agora seria uma porta aberta, dia e noite, para quem quisesse entrar à”vontade, se acaso os Mata não tivessem
colocado lá uma portada de ripa de madeira, muito bem feita. Mas um dos visitantes, o mais baixo, o de jeans, cabelo escuro e
olhos luzidos, dando um safanão na portada, empurrou-a com o ombro e a anca. A armação a princípio resistiu, depois cedeu,
e os três entraram, sempre a olharem para o cimo do telhado como se procurassem alguma coisa que lhes tivesse voado. E
andando um bocado mais, os quatro, sem se voltarem, entraram por dentro da Fábrica Velha, já em pleno pátio. Isto é, tinham
entrado dentro da casa dos Mata. Ana Mata, que espreitava no portão, onde havia perdido de vista sua filha Felicia, virou-se,
percebendo que não valia a pena espreitar. Eles estavam entrando dentro do próprio domínio dos Mata, pela retaguarda, e
Felicia não fazia mais do que persegui-los, mostrando um papel no ar. Os três — Dilecta, com seu peixe cortado em duas
partes, Heitor, com os dois cães que se tinham sentado, sem ladrar nada, e Ana Mata, segurando o alguidar do milho — os três
estavam pregados ao chão, enquanto Felicia perseguia os quatro visitantes, agitando os papéis.
«Senhores, vejam, temos tudo legalizado. Tudo em dia, tudo em ordem. O contrato firmado, todo cumprido...»
Dizia ela, atrás deles, e já havia retirado o avental de borracha que transportava no braço. Os quatro homens a falarem, dois
a falarem e dois a ouvirem, atravessaram o pátio onde, àquela hora, os três rios de Ana Mata eram apenas dois sulcos
esbranquiçados que se uniam a um terceiro sulco de baba. Como se aquele curso não fosse nada, os quatro passaram por cima
dos rios e saíram pelo portão onde vicejavam os potes das sardinheiras. Só um deles, o da calva, tinha olhado para trás e
havia dito, com uma inclinação de cabeça, a fechar aquela investida surpreendente — «Então muito bons dias...» Em muito
bom português.
Felícia viu-os partir. Os dois que falavam entre si, o do bom dia e o loiro agigantado, no mesmo jipe. O outro, o escuro,
com o gigante mais pequeno, no segundo jipe. Os primeiros acenaram-lhe, já com a viatura em andamento. Ela ainda se dirigiu
ao segundo jipe, conduzido pelo homem de cabelo escuro, que também deveria ser português, agitando a papelada onde
brilhavam escamas. O homem escuro arrancou, e ao arrancar, na marcha atrás que efectuou, pareceu-lhe prazenteiro. Talvez a
rir. A sorrir. Ela não ia jurar que ele ria, mas era um ar alegre que ela tinha visto na sua cara, sobretudo quando ela erguera no
ar as folhas brancas e dissera — «Olhem. Cópia de tudo, cartas para a senhoria...» Do lugar de onde eles tinham saído,
apressados, ficavam as sombras das onze palmeiras, paradas.
«O que foi isto?» — perguntou Dilecta, com a faca de peixe ainda imobilizada na mão direita.
«São por certo uns compradores» — respondeu Felicia. «Por mim, achei que tinha de mostrar a prova dos nossos direitos,
na hora certa, não fossem eles enganarem-se com o que não devem...» Ainda olhando para a planície pelada, onde a estrada
dos buracos, para além dos carris, se enrolava e sumia. «Agora já sabem que a Fábrica não é só uma casa, com paredes e
telhas. Somos nós também...»
Mas Ana Mata, junto à soleira do portão, perto dos vasos da sardinheira que delimitavam o local afecto a Dona Regina,
achava que aqueles quatro homens não eram quatro compradores, não. Um deles, pelo menos, era vendedor. Pessoa
interessada em vender, e isso mudava tudo. Pensou, pensou, mas não disse como pensou. Ana Mata só disse à filha, na sua
língua — «Põe-te em guarda, que eu reconheci, naquele que disse bom dia, a voz da minha senhoria...»
«E então?»
«Então que, daqueles quatro, não sei quantos querem comprar, mas um deles, de certeza, quer vender...» — disse Ana Mata,
a entrar para dentro do pátio, a poisar na poltrona, a mergulhar de novo no alguidar do milho onde punha os dedos e
encontrava bagos falidos, a atirá-los para trás das costas, a repetir o mesmo, a juntar o seu ai ai proibido. «Se tu achas que o
que quer vender é o escuro, então há dois a quererem vender. Aquele outro, o da calva, não me engana, não. Tem os olhos
chapados da minha senhoria... É seu filho. Vê lá se eles espezinharam os meus rios?» — A escolher, a escolher os bagos
falidos.
«Vá dizendo, minha mãe, vá dizendo o que lhe vem à cabeça. Olhe que ganha muito com isso...»

Agora, por mais que a mãe dissesse e choramingasse, já não impressionava ninguém, nem as filhas. As duas continuavam a
serrar o grande peixe cuja pele se desfazia em escamas pelo pátio, elas as duas a terem a certeza de que se tratava de uns
malcriados compradores ingleses, desses valdevinos impantes que entram em toda a parte e arrombam a porta de qualquer um,
só porque têm ao mesmo tempo várias rainhas, e desde que nasceram só falam inglês. Mas quanto à casa dos Mata, Felicia não
tinha receio nenhum. Havia guardado de novo toda a papelada onde se mostrava a legalidade, sem uma única escama, havia
limpo tudo. Só depois voltara a amanhar o peixe. Aborrecia-a aquela forma de ser tão cobarde da sua mãe. Custava a crer no
que ela se tinha transformado. «Deixe-se de lérias, senhora. Podem vir todos os compradores do mundo. Está esquecida que
esta é a casa de Janina Mata King? Esse é o grande trunfo...» — disse com voz de vitória, no seu melhor.
«E as letras dos carros, viram?» — perguntou Heitor Pai.
«Não, isso eu não vi. Mas que porcaria de peixe. Pequeno que nem corvina, duro que nem tubarão...»
Dilecta levou as buchadas e a água vermelha para o lugar da antiga fábrica de adubo de peixe. Felicia lavou muito bem as
mãos, sacudiu-se e cheirou-se, puxou o telefone e deixou de lutar contra a sua mãe, que até se metia no assunto dos sonhos das
outras pessoas e os agravava. Xô, xô! Com o telefone colado ao ouvido, chamou muito alto por Janina Mata King — «Meu
filho? Desculpa lá. Você já está a dormir ou está acordado? Hã? O que é isso? Então que te ias deitar? Não te foste deitar?
Tens um novo manager? Uma pessoa que te trata de tudo... Manager, sim, eu compreendo muito bem. Manajeiro, em
português, eu sei. E o Gaby, está aí? Porque nunca vem ele ao telefone? Olha, filho, na tua noite, a grande noite, todos nós cá
estaremos contigo. Era isso que eu me tinha esquecido de dizer. Esqueci-me por causa dum sonho ruim. Sim, um sonho
horrível. Fico contente que estejas acordado. Vai falando, falando com a tua mãe. Vai a Berlim e depois ao Canadá. Segue em
frente, sem esmorecimento. Sim, sim... Ciao, ciao, meu filho. Beijão...»
Felícia Mata desligou o telefone, e sua alma aterrou no pátio. Nem ia dizer mais nada sobre aqueles homens ingleses. Não
valia a pena perder o seu tempo sagrado. Terminava assim a manhã que se tinha seguido à madrugada daquele sonho. Tanto
calor, que só apetecia uma pessoa deitar-se na espreguiçadeira, sem dizer nada. Toda a gente a entrar e a sair sem dizer nada.
Sobretudo Antonino.

Antonino Mata, principalmente, entrava e saía silencioso — «Você não fala, meu filho? É por causa deste maldito calor fora
do tempo?»
«Antonino, você não ouve, meu filho?»
Ele saía pela porta fora. — Se fôssemos invisíveis, se fôssemos transparentes, se passássemos pela rua como sombras, e
ninguém nos visse, não precisávamos de sair em dois carros nem de nos refugiarmos nas estradas escusas. Se fôssemos
invisíveis — Era essa a vida de Antonino Mata. Dia sim dia não, subia acima da grua mais alta, a Liebherr 145, Ponto K.
«Passei muito bem, minha mãe, não se inquiete a senhora, que eu também não...»

De resto, era um amor comum, um amor normal.


Iria acontecer nas Dunas Machas quando já não havia vivalma na areia. Era já uma praia de Inverno. As casinhas dos
socorristas ao fundo e um renque de guarda-sóis de copa de colmo eram as únicas marcas de que meses antes tinha havido por
ali um veraneio. No entanto, no dia anterior, tinha-se formado um poente espampanante de vermelho, e agora, a confirmá-lo,
passava uma brisa seca, soprando de África. De novo uma brisa quente, àquela hora, numa tarde de sábado. Umas aves
brancas baloiçavam-se, poisadas na água. Eles os dois de mãos dadas, a andarem por ali. Tinham tempo, naquele dia. Em
Villa Regina, se o telefone finalmente tocasse, seria João Paulo. Quanto a Divina, estava combinado que Antonino só por lá
apareceria, próximo da noite. Por isso tinham ido de novo até às dunas, e era ali, diante delas, onduladas e redondas, que se
encontravam.

Para chegarem até lá haviam percorrido de novo a estreita ponte de madeira montada sobre estacas palafitas. No fundo da
água, os limos criavam jardins mutantes, ao sabor das correntes. Mas a vasa, cheia àquela hora, não permitia que se visse
fundo nenhum. À superfície, a bicharada do lodo apenas criava um ruído como se houvesse ralos nos lagos. E depois tudo o
resto era um espelho sem fim. «Escuta?» — Sentindo-se no meio de tudo isso, eles caminhavam juntos, ouvindo as passadas
repercutirem-se nas pranchas de madeira, abanando-as, redobrando, no meio do silêncio habitado, a sua própria existência, o
entusiasmo inexplicável, a alegria que sentiam por poderem, em espaço aberto, passearem, ora agarrados um ao outro, ora
apenas de mãos dadas. Ao lado, a placa indicava que estavam a caminhar sobre A Mais Longa Ponte de Madeira.
A ideia era de que, antes de chegarem à primeira Duna Macha, pudessem tomar alguma coisa no bar do areal, como da
primeira vez. Sentar-se cada um em seu banco, separados por uma mesa de madeira, a verem a tarde passar, assim unidos,
com duas ou três pessoas estrangeiras solitárias, a pensarem nas suas vidas, sem se intrometerem na vida dos outros. Mas o
bar, que de longe parecia não ter consistência, como se fosse uma construção de paus de fósforo ali deixada, tinha as portas
trancadas, e até eram sólidas. Felizmente não traziam fome nem sede, não iam voltar para trás. Por isso, subiram a elevação
que conduzia às dunas, avançaram por elas adiante e assim tinham ficado em plena praia, sozinhos com aqueles pássaros
esbranquiçados pousados nas ondas. A meia distância, passava um barco de recreio carregado de gente, na direcção de
Sagres. Era tudo o que se movia. Então ele tinha tido a ideia de se estenderem ao sol do Inverno.
A brisa era morna, quase quente, mas mesmo assim incomodava a pele do pescoço e da cara. As pernas desagasalhadas de
Milene, arrepiadas. Antonino desabotoou o quispo e fez com ele uma espécie de amparo. Estavam assim, encostados na areia,
com os olhos quase fechados. De cabeça erguida, ele fumava e vigiava a praia. Sobre a ondulação do mar, aqueles pássaros
balouçando-se. Um bando de gaivotas dormindo, pensou. Estariam dormindo ou caçando? Dormindo. Os pássaros não se
moviam, não mexiam as asas, não mudavam a posição relativa, só faziam o que o mar fazia, e o mar não fazia grande coisa, só
levantava um pouco o dorso, empurrava o dorso, e logo o encolhia. Sem balouçarem. Não se mexiam, aqueles pássaros.
«Espera aqui» — disse ele, deitando o cigarro fora e entregando o quispo.
«E eu?»
«Espera aqui».
Antonino tinha-se levantado e dirigido à beira de água para ver as gaivotas paradas. Depois, virando-se, reparou que atrás,
sobre a areia, Milene tinha-se sentado e acenava com o quispo, chamando-o. Naquele momento, porém, ele preferia ir até
junto das gaivotas. Tinha-lhe feito um sinal muito explícito de que já voltava, ia só além, onde o sol incidia e os bichos
permaneciam à tona como se não estivessem vivos. Antonino afastou-se, caminhando na direcção da luz que punha o mar de
uma cor sem cor, povoado por aqueles animais imóveis. O que ele tencionava fazer era procurar uns bons calhaus para atirar à
água, para ver se estavam a dormir ou acordados, e de que forma reagiriam a uma boa calhauzada, só isso. Mas quando se
virou, viu que, onde tinha deixado Milene segurando o quispo, se encontrava uma outra pessoa, uma rapariga branca, retirando
a roupa. A princípio, ele próprio não a reconheceu. Depois, quando viu que de facto era ela, julgou que alguém a estivesse
despindo. Só depois compreendeu que Milene se despia a si mesma e precipitou-se pela areia fora.

Precipitou-se, atarantado, desajeitado, correndo, surpreendido, enquanto ela retirava a última peça, deitando-a ao chão. E
ele, desengonçado, abanando demasiado a cabeça, como se o pescoço tivesse uma mola solta, a oscilar sobre aqueles sapatos
brancos que o enterravam na areia fofa, gritando-lhe e ao mesmo tempo pedindo-lhe desculpa, como se ele mesmo estivesse a
tomar parte daquela acção e a avaliasse terrivelmente mal, aproximou-se dela, procurando destrinçar a roupa que, entretanto,
havia formado no chão um pequeno montão informe, segurando as peças uma a uma, e sacudindo-as, começou a tentar enfiar-
lhe tudo aquilo pelos braços e pela cabeça, enquanto ela se furtava, saltando sobre a areia, resistindo à roupa, com os braços
cruzados sobre o peito e o sexo, divertida e determinada. E ele, olhando em redor, estupefacto, ainda com o barco ao fundo,
pedia-lhe que parasse — «Não, pelo amor de Deus...» Enquanto Milene nua, só em peúgas, saltava na sua frente. Os cabelos
dela no ar, agitados sob o efeito da brisa entre quente e fria, eram a única coisa que se movia diante do mar. Sim, sim — dizia
ela, a tiritar na aragem.
Mas Antonino Mata tinha tapado a cara — «Tu não vês o alcance do que estás a fazer?» A voz dele tinha-se esganiçado,
perdido o seu tom natural para entrar num registo fino e áspero. Custava a perceber-se o que dizia — «Eh! Eh! Ponto final...»
A falar, de costas para ela — «Veste-te já... Eu não tenho nada a ver com isto...» Ele a querer de novo devolver-lhe à força a
roupa, as sapatilhas e o saco, a empurrá-la. «Porque tu não sabes, mas eu sei muito bem... Preto junto duma mulher branca
despida na praia... Olha, olha, téu, téu...» — dizia ele, fazendo com o braço a menção duma carabina invisível que levasse ao
olho esquerdo, e feita a mira, disparasse. Às arrecuas, sem a querer ver, procurando entregar-lhe a roupa, desistindo de lha
entregar e arremessando-a ao chão. Pontapeando o braçado de roupa para junto do quispo e fazendo menção de abalar. Milene
a rir, entre a duna e a praia — «Então veste-me, que eu deixo...» — gritou ela.
«Pois visto-te, sim» — gritou ele também.
E furioso, movido por uma lança interior indomável, tinha começado a enfiar-lhe aquelas peças de roupa pelo corpo, a
engatá-las, a sacudi-las com raiva. Mas quando Milene já estava vestida, como se tivesse desistido duma meta qualquer que a
si mesmo se tivesse imposto, Antonino apertou-a contra si e beijou-a várias vezes. Beijou-a, desesperado, e depois limpou a
boca com o punho da camisa, afastou-se dela e começou a gritar-lhe — «Às vezes basta isto para mandarem matar... Tu
compreendes o que eu estou a dizer? Compreendes ou não compreendes?» Ele a sacudir-lhe o saco e as sapatilhas. A sacudir
o seu próprio quispo. A sacudir os pés nas passadeiras de tábua que conduziam ao bar de madeira. Percebes? Tu percebes?
«Tu não percebes nada...»
«O que percebes tu? Isto é um filme muito velho e muito gasto. Daquelas fitas cheias de chuva e adesivos cruzadinhos. Já te
disse, eu conheço o fim de tudo isto...»
E como se dentro de si contivesse dois homens diferentes, com duas cabeças opostas e membros contraditórios que
desejassem alcançar metas distintas, agora que ela estava vestida, chamou-a de novo para si, e afastando-lhe o saco para as
costas, colocando-o bem para trás, para que entre eles não houvesse quase nada, beijou-a outra e outra vez, agarrando-a com
uma força não brutal mas despropositada, como se o corpo dela pudesse fugir ou existisse outra coisa menos preensível mas
absolutamente necessária, que pudesse haver dentro do seu corpo, percorrendo-o com as grandes mãos, fazendo dos dez dedos
outras tantas mãos, aflitivas e ágeis. Uma vez e ainda outra vez. Até que disse, com uma dor de cabeça que lhe tirava o sentido
de orientação da ponte, e do lugar onde haviam deixado os carros — «Vamo-nos embora...»
Mas ela não queria andar.
Milene disse — «Pois agora levas-me ao colo, pela ponte fora, e eu encolho as pernas assim e tu levas-me, e eu esperneio
enquanto me levas...» E para que ele visse que era a sério, ela tinha juntado os braços e fincado os joelhos um contra o outro
— «Vá lá, vê lá se podes comigo...»
Em volta, não havia vivalma. O barco de recreio, carregado de gente, transformara-se num vulto indefinido que se sumia à
distância.
«Tu dizias que podias comigo, mas é mentira... Levanta-me, vá...»
Ele levantou-a. Haveríamos de saber depois. As gargalhadas de Milene a baterem na água espelhada da Ria, o seu corpo a
balouçar no braços dele, ele a caminhar com ela nos braços, e ela a gritar de riso, e a pedir-lhe, em sentido oposto — «Ó pá,
agora põe-me no chão, põe-me no chão, por favor...» A pedir-lhe, enquanto ele percorria a estreita ponte, a que dizia A Mais
Longa Ponte de Madeira, a percorria solenemente, definitivamente, fazendo ecoar as tábuas debaixo dos pés, como se fosse
uma marcha triunfal sobre um lugar incerto. Mas triunfal. Ele a caminhar com ela, agora calada, amalhada nos braços dele, até
lhe doerem os braços, e ele a pensar — Não foi nada, não aconteceu nada, e no entanto isto decidiu a minha vida...
Caminharam assim, até aos carros, que nenhum deles sabia onde tinham ficado parqueados. Tinham-se esquecido.

Por essa altura, ainda Milene e Antonino eram invisíveis.


XVI
Entretanto, Felicia Mata tinha voltado a sonhar que era homem e estava sentado, sentada, balouçando-se na água. As
circunstâncias eram outras, mas agora facilmente reconhecia que sonhava com a história do telegrafista, e quando tinha
contado o sonho pela manhã, até sentira raiva de si própria. Porque sonhava com pessoas desaparecidas? Ela, transformada
em homem, a rechaçar uma mulher magrinha que no sonho andava sem se mover, quando, na realidade, o telegrafista da
Cidade da Praia havia sido reabilitado pelos marinheiros que a mulher levara consigo, depois de ele mesmo ter salvo o amor
dela por ele, com o seu sacrifício? Porquê? — Nesse ponto, o que sucedia era tão diferente, que duvidava que o seu sonho
tivesse alguma relação com a história do telegrafista. Era apenas um mau sonho em que ela, ele, desempenhava o papel de um
homem ruim. Doía-lhe a cabeça, e só de pensar nisso se sentia doente. Ainda bem que não tinham convidado ninguém para
assistir ao show do Janina.
O Cartaz dos Espectáculos havia anunciado que seria Janina a encerrar o Show Bizz, com duas novas canções. Era a sua
própria fotografia que apresentava o anúncio do espectáculo, e num magazine de quinta-feira, chamavam mesmo àquela edição
da noite de sábado, o Show de Janina Mata King. Desta vez não iria haver rebuliço no pátio, ninguém viria do exterior, o
encontro seria só para a família Mata.
Sem cachupa, sem pudim de ovos, sem sangria nenhuma.

Assim, ao cair da tarde, já tudo estava no seu lugar. A parabólica que apontava os satélites, exposta no telhado. Os três
televisores encontravam-se ligados aos três videogravadores pelos respectivos cabos, e várias experiências haviam sido
feitas ao longo das últimas horas. Tudo funcionava. Os aparelhos preparados para a gravação simultânea de três cópias,
debaixo do telheiro, formavam um estúdio perfeito. Não seria natural que o som ambiente fosse captado, mas à cautela,
crianças e adolescentes foram admoestados de que teriam de permanecer em silêncio. Germana e Dilecta ficariam de olho nos
mais pequenos. Se algum abrisse a boca, cama com eles. Com antecedência, os próprios cães tinham sido arrastados para fora
e presos aos pés das palmeiras, para que todos estivessem seguros de que o som dos ladridos não seria gravado, no caso de se
manifestarem. Cães ladrando no show de Janina, isso, não. Silêncio absoluto. Agora, à alegria pela vitória de Janina por esse
mundo fora, a família Mata juntava a responsabilidade silenciosa que acarreta o sucesso assegurado. Era preciso ser
responsável.
Mas Felícia sentia-se doente.

E se na hora de Janina chamavam um outro tipo qualquer? Se ele se esquecia das letras? Se tinha uma falha de memória? Se
o Gaby não o vigiava bem e lhe dava uma bebida gelada, e depois não se entendia nada do que diziam as novas canções?
Como mãe, precisava de pastilhas. Além disso, tinha tido aquele sonho indecente. Onde se vira? — Ela, mulher feita homem, a
deixar afogar uma mulher magrinha, descalça, a caminhar por cima das ondas? No pátio, enquanto foi dia, voltou-se a falar do
telegrafista. Se alguma vez essas criaturas, quietas no outro mundo, pudessem imaginar que sobreviveriam como matéria de
sonhos em cenas que funcionavam precisamente ao contrário, voltariam a morrer de novo. No pátio havia o pressentimento de
que alguma coisa poderia avariar.
Todos calados, à espera. Toda a família a sentir-se soturna, a alimentar o mau pressentimento provocado por Felicia.

E de facto, o Show Bizz iria começar por ser uma grande maçada. Ao longo de hora e meia, o programa iria decorrer com
tropeções, intervalos, anedotas, gente cantando, a quem os Mata só apetecia mandar calar e partir a televisão aos bocados. Até
que finalmente, muito finalmente, Janina Mata King acabaria por emergir, para recompensar tudo e todos. Para oferecer aos
três televisores as imagens mais belas que alguma vez se pudesse imaginar a partir da figura de Janina. Todos se levantaram.
Todos ali estavam. Só faltava Antonino.
O show era de mais. Um friso maravilhoso de instrumentais rodeando Janina. O conjunto a funcionar.
Felícia, num primeiro momento, esquecida da interdição de falar, até gritou — «Jesus, olha aquilo! O sax está tramando
ele!» Sem conseguir conter-se, só porque durante um momento a tromba do saxofone apareceu e falou mais alto, rodopiou e até
permaneceu uns instantes no meio do ecrã. Mas logo aquele pedacinho de tubo recurvado se esvaiu e, em seu lugar, Janina
surgiu triunfante, a afastar dali o sax, os clarinetes e o contrabaixo, todos os outros instrumentos. Janina ficou sozinho nos três
ecrãs, a mover o micro, a puxá-lo, a atacá-lo, a dominá-lo por completo. Isso sim, era filmado e transmitido a toda a largura.
Janina movendo-se, todo ele ou apenas os braços, o rosto, vários rostos de Janina, todos a moverem-se ao mesmo tempo e
depois a reunirem-se num só. Os olhos fechados, os lábios expostos para a emissão de voz. Fatal. Em pé, os Mata mal ouviam.
De vez em quando, a porcaria do sax. Tramando ele, tramando ele. Mas logo de seguida, voltava aos ecrãs a figura de Janina,
seu cabelo grande e frondoso, seus braços amarrados por braçadeiras, seus músculos a explodirem de energia e força, e tudo
aquilo a acontecer a um rapaz apenas com dezanove anos de idade. O futuro dum cantor de dezanove anos a brilhar nos três
televisores como uma estrela cintilante, no silêncio aterrado do pátio. O tempo da existência cortado em duas metades. Antes e
daqui para a frente. Os Mata suspensos, acima das cadeiras. Até que, finalmente, quando a actuação se encaminhava para a
apoteose, quando a emoção afastava o domínio da acção e a voz era já só voz, e o seu uivo de lobo se prolongava tal e qual
como o de Terence Trend d’Arby, a actuação se aproximava do fim, e a corrente de som já quebrava e fendia, e todo ele
voltava a planar e a subir até um passo mais alto, e já se podia soltar um suspiro de alívio, quando os nomes de todo um
exército de gente que sustentava o Show Bizz começaram a passar ondeando como uma cobra gorda, por cima do corpo de
Janina — mesmo o sax já havia desaparecido por completo de campo — Felícia Mata lembrou-se que não tinha visto o seu
filho Gabriel na televisão.
«E onde está o Gaby?»
«Me digam...»
Era verdade, ninguém o tinha visto.

Sim, ninguém tinha visto o Gaby, mas não importava. Todos estavam a viver aquele momento triunfante, alumbrados e
desvanecidos, pois sobre o rosto e o peito de Janina, os calcanhares ondulantes de Janina, sua calça e seu joelho, estavam
passando o últimos lampejos do Show Bizz. Apoteose na televisão. Os Mata abraçados no pátio, a fazerem uma corrente. Só
Ana Mata de fora. Porque ficava ela de lado? Aí, Felícia sentiu misericórdia pela mãe, que já não deveria dar conta da
realidade — «Minha mãe, isto é a vingança de Jamila Mata em cima do traidor do Normand. Você se lembra de sua avó,
Jamila Mata? Lembra ou não lembra?»
Pois deveria lembrar. Porque tudo aquilo a que tinham estado a assistir os Mata, ali, naquele pátio, era a justiça que
chegava com cem anos de atraso. Era a justiça feita à família dos Mata que se estendia a todas as outras famílias iguais. Eram
os encarcerados “ das ilhas pobres do Terceiro Mundo, saindo da fome e da sede, directamente para a televisão. A sua vida a
ser difundida até aos confins do Mundo e das esferas, graças a Deus. Demos graças a Deus. Por isso alegre-se, mãe. Nós, os
pobres, os afastados, os transumantes, os deserdados, nas honras maiores da televisão, e em breve, na parabólica inteira. Nós,
mãe Ana Mata. — Então porque não está feliz? Não se ri, não toma sumo de maracujá com os seus filhos, os seus netos e os
seus bisnetos? Porque não? Vai dizer, outra vez, que não ouviu a voz de Janina, que não percebeu nada do que ele disse? Não
vê que a primeira vez que se ouvem canções, elas não entram logo no ouvido? Ainda por cima estas, em inglês? Como acha
que Janina vai poder entrar directamente na parabólica? Mãe Ana Mata, espere, não se meta já na sua casinha como da outra
vez, quando ainda estamos todos aqui, nenhum de nós consegue ir deitar-se. Todos aqui, felizes, impecáveis, graças a Deus.
Era muito difícil acreditar no que os olhos tinham visto. Grande Janina. Ah! Se não fosse o sax demasiado saliente, o show
teria sido perfeito. Até dava vontade de voltar atrás no tempo e perdoar ao traidor do Normand. Com o sucesso do Janina, de
repente, tudo ganhava outro sentido.
Mas alguém tinha visto o Gaby?
Não, ninguém tinha visto.
Então Felicia tinha começado a chamar por telefone — «Janina, está aí alguém? És tu? Está aí o Gaby?»
Ninguém podia responder. Pois responder, como? Se Janina, estafado, acabava de ser aplaudido na televisão, como poderia
atender o telefone? Naquele momento, deveria estar completamente isolado dos telefones, no meio da multidão, ao lado do seu
irmão Gabriel. Mesmo assim, ela premia a tecla de comunicar — «Estás lá, filho? Estás? » Guardava o telefone — «Não,
ainda não estás...» As luzes do pátio a estremecerem com o ligeiro golpe de aragem que se fazia sentir, à medida que a noite
avançava. Porque frescura mesmo viria só de madrugada, quando os aparelhos fossem desligados e o pátio se afundasse no
escuro.
Mas antes que tal acontecesse, Domingos, no meio dos cabos cruzados, perto do lugar onde se juntavam os rios de Ana
Mata, ele e Heitor, os dois, sentados cada um com uma perna mais alta do que a outra, colocada em outra cadeira, viola e
violão no colo, tinham começado a compor. Entre acordes e sequências, tinham navegado até de madrugada pelo campo dos
sons e das palavras, procurando nelas as mais belas flores. As suas mãos de pedreiros, endurecidas e gretadas, não mexiam
bem nas cordas, não, mas mesmo tocando assim tão mal, conseguiam pressentir como deveria ser a perfeição. Eles sabiam.
Faziam exercícios pequenos que lhes permitiam vislumbrar a grande forma, o grande jeito. Assim, debruçados sobre os
instrumentos, avistavam melhor a altura onde Janina e a sua banda estavam. Dedilhando as cordas. Até que Domingos, incapaz
de conter a emoção, mesmo sem beber nada, tinha começado a falar como um bêbado, para dentro da viola — «Oh! Janina,
Janina, meu irmão. Será que eu sou mesmo teu irmão? Não mereço tanto, caramba...»
Só na volta da madrugada tinham ido dormir. As camas perto das janelas abertas, como se ainda fosse Verão, apesar da
aragem que vinha do mar. A família inteira a dormir. As três filhas de Ana Mata a dormirem. Os seus filhos, à excepção de
Antonino, todos deitados. Os seus netos, os seus bisnetos, todos se tinham deixado cair em cima das camas. Quando todos se
acomodaram, levantou-se Ana Mata.

Manhã, muito cedo.

Todos a dormirem nos cómodos do diamante e Ana Mata tacteando com a mão sobre a caixa que lhe servia de cabeceira, à
procura dum pano que lhe servia de lenço de assoar. A procurar a roupa colocada sobre o caixote que lhe servia de baú, a
discernir, na penumbra da casinha parda, a que tinha a janela mais pequena, a dimensão da armadilha que ela vislumbrava. A
sua mão magra à procura dos seus pertences. O seu lenço, os seus fósforos, o seu pente, os fios dos seus cabelos, a sua roupa.
Não tinha dormido nada. Finalmente tinha encontrado os vestidos. — O primeiro, que enfiou pela cabeça, sem cinto, caído até
aos artelhos, e o segundo, que traçou pelas costas como se fosse um cobertor, na manhã de Inverno, subitamente fresca. Assim,
quando saiu pela porta, trazia pelos ombros, pendurados, dois vestidos cruzados, e do lado esquerdo, pendiam-lhe duas
mangas, de modo que, ao atingir a poltrona de plástico, virou-se, e era como se tivesse três braços esquerdos. Um direito, três
esquerdos. Três braços de roupa pendida. Podia tê-los — na verdade, ninguém via o que ela via. Ana Mata ocupou o seu lugar
no centro do pátio, as mangas roçando o chão, mãos juntas em forma de ponte pênsil, os pés no local onde vinham juntar-se o
leito dos rios, àquela hora, completamente secos. Estava disposta a esperar. Esperaria, pensou ela na sua língua.

Esperaria muito.

O sol ia alto, gatinhando pelo lajedo, e ninguém acordava. Os Mata ainda tinham dentro da cabeça o show do Janina, e por
isso iriam dormir até tarde. Ninguém os podia impedir. Também era domingo e ninguém ia à missa. Nem Felícia, antiga
devota, ia mais à missa. Ela própria, sozinha, também já não ia, mas ficava contente que os filhos e os netos fossem pedir a
Deus. Não era propriamente para pedirem a Deus, mas para se juntarem, agruparem as vozes deles com as das outras pessoas,
fazerem um conjunto, cada um ser sua pessoa, entre muitos, e todos um no conjunto. Cada um em todos. Mas eles julgavam que
a vida deles era só deles, que não estavam ligados aos outros. Eles sabiam muito pouco. Eles nem sabiam o que uma pessoa
como ela sabia.
Ah! O que ela sabia.
Ela sabia, por exemplo, que uma guerra, no fim do mundo que fosse, não era uma guerra separada da vida da sua família.
Tudo estava ligado a tudo. A guerra dos homens, que se matavam por toda a parte, tinha a ver com o que se passava à mesa
dos Mata. Tinha a certeza. A guerra que acontecia lá fora não acontecia só pelo mundo fora, nem tinha só lá a sua origem,
começava também ali mesmo, nos olhos dos seus. Tinha tirado experiência, só olhando. Dia em que Domingos olhasse bravo
para sua mulher, havia mais tiros na televisão. Estava segura. Dia em que eles olhassem uns para os outros de boamente, havia
menos mortos, menos famintos e desvalidos, durante as notícias. Nesses dias, o presidente americano mandava fazer a paz e
aparecia atrás das mesas, sentado ao lado dos desordeiros, muito satisfeito. O contrário também era verdade. Porque tudo
estava ligado a tudo, e por isso ela ali estava, esperando pelo momento em que acordassem.
Esperaria.
Não tinha dormido e esperaria. Estava disposta a isso porque sabia que havia um problema. Depois de Dona Regina
Leandro, a sua senhoria, ter vindo morrer ali, ela, Ana Mata, tinha compreendido que havia um problema sério. E já aí,
ninguém tinha acreditado no seu aviso. Os Mata haviam confirmado que eles não tinham renovado a renda nem enviado
ninguém a falar sobre o assunto. Nem sequer tinham vindo agradecer pelo acolhimento dispensado à neta. Nada de nada. Nem
resposta, nem carta, nem assinatura. Uma parede de silêncio, uma muralha de indiferença, e nem mesmo assim eles viam o
problema. Pensava na sua língua. Era claro que havia um problema.
Esperaria até acordarem.
Não tinha culpa que as pessoas da sua família tivessem as testas duras, as cabeças cheias de impedimentos e não vissem.
Pelo contrário, ela tinha uma cabeça magra, o pescoço fininho e, dentro desse tipo de cabeças, as ideias corriam livres. Tudo
o que não era gordura era só inteligência, veias a segurarem a inteligência, e o espírito solto para pensar. Por isso mesmo
haveria sempre de comer muito pouco. Para poder pensar. Só porque nenhum deles era capaz de pensar devidamente, é que
ninguém via que Janina já não era o Janina. Grande lástima. Na voz dele já lá não estava a voz do seu pai, nem dos seus
irmãos, nem sequer dele próprio. A voz do Janina era agora uma mentira. Já lá não estava a voz de nenhum deles. A voz de
Janina Mata King ainda não o tinha desamparado, mas já se tinha transformado numa outra coisa. A banda já não acompanhava
Janina, Janina é que era um pedacinho, bastante rouco, daquela banda. Pensava na sua língua. E eles todos tinham visto e
ouvido a televisão, tudo claro como água, e contudo não tinham percebido nada. Como se fossem cegos. Era isso mesmo que a
fizera decidir. — Tinha, urgentemente, de aplicar um plano.
Ia iniciá-lo, assim que acordassem. Ana Mata ouviu remexer numa das janelas. Virou-se. Mas não era Domingos.

«Domingos?»

À porta de casa, só aparecia Conceição, com João e Aloísio, os dois tiritando pela mão da mãe. Despidos, vinham lavar-se
na rua e, de surpresa, encontravam o frio. Ana Mata, com o peito descoberto, duas mangas rojando o chão, o cabelo mal
encarrapitado, finalmente, pôde pedir — «Conceição? Chama lá o teu marido...»
«Domingos!»

Finalmente Domingos tinha aparecido no limiar da porta. A noite ainda estava com ele. Apareceu a cambalear, cheio de
bocejos, com restos de acordes de viola nas espreguiçadelas. Tronco nu, cabelo farto, semelhante a Janina, podendo ter sido
um outro Janina. Estendeu os braços. Abriu a boca, de sono tardio. Ana Mata esperou que tudo aquilo passasse, e quando viu
que o neto já se coçava normalmente, chamou — «Domingos, vem cá...»
Espreguiçando-se ainda, ele aproximou-se.
«Onde tens tu as cadernetas da Caixa?»
Foi num instante que o filho mais velho de Felicia Mata acordou — «Para que as quer? Me diga, senhora...» E deixando-a a
falar sozinha, Domingos atravessou o pátio em calças de treino, a caminho do duche. Ana Mata não se impressionou. Era
preciso deixá-lo acalmar a faca que tinha sempre à mão, dentro da garganta. Ana Mata ia deixar correr. Ele ainda tinha os
dedos na viola, ela ainda tinha o domingo inteiro para falar no assunto. Não era parva, não ia estragar um plano tão bem
montado por uma precipitação. Domingos voltava, com o cabelo molhado, pingando pelas costas abaixo. Uma ponta de faca na
fala — «Já não se vê em parte nenhuma do mundo o que se vê nesta casa...» Ana Mata sentada, sem se mover. Deixar passar,
deixar passar. Que os cegos acordassem todos — As crianças passavam com baldes, os dois cães soltavam ladridos
estúpidos, próprios de animais sem préstimo, na direcção das mãos das crianças. Felícia, desde que tinha aberto os olhos e
colocado o dedo no telefone, fazia e recebia chamadas. Passeava pelo pátio, em robe de chambre de rosas, toda inclinada para
o telefone que transportava ao ouvido, iniciando o seu. discurso peremptório. Era como se possuísse agora uma terceira orelha
pendurada ao ouvido.

Felícia falando para a terceira orelha — «Está aí o Gabriel? Porque não apareceu o Gabriel na televisão? Que tu não és a
televisão eu sei, mas tens um contrato... Se não consta, tem de constar, onde apareces tu, tem de aparecer o teu irmão. Só
apareceste tu. Sei que não és nenhum chefe da televisão... O problema é que eu ando com sonhos ruins que não me agradam
nada...» E desligava, atravessando o pátio, com os seios soltos, descidos sob a superfície do robe, recebendo já uma outra
chamada, atrás da qual havia alguém muito importante, para cujo etéreo ela ria, embevecida — «Sim, sim, foi muito
formidável...» Respondia Felícia, em robe mal atado, levando atrás de si a farta cabeleira solta e o molho de rosas
estampadas.
Ana Mata assistia. Esperava. Era preciso esperar pela boa pancada de Domingos. Ali vinha ele, em fato de treino completo,
a caminho da mesa. Tinha a certeza que trazia nas algibeiras aquilo de que ela precisava. Não podia esperar mais.
«Já tens as cadernetas todas? Lê lá o dinheiro que elas têm...»
Pediu Ana Mata.
Domingos, ainda com a boca cheia, tirou as cadernetas da algibeira e começou a ler. Se alguém tinha de ler, pois leria ele,
só para fazer a vontade à avó. Tinha de ser. Era o seu tributo de neto, uma vez que toda a gente tinha de prestar tributo a
alguém. O filho mais velho de Felicia leu — «Minha caderneta, um mil e vinte e quarenta mil escudos...» Lido daquela
maneira, e daquela forma lenta, a quantia parecia uma charada.
«Lê a verdade...» — pediu Ana Mata.
«Então havia de ler mentira? Mas Heitor tem muito mais. Tem mil quinhentos e vinte escudos. Consulta da semana
passada... E Antonino? Deixa ver, deixa ver...» — Domingos começou a rir — «O Antonino tem trezentos mil e vinte e dois
escudos. Trezentos contos, portanto. O resto deve estar nas cadernetas da Divina...» Domingos a rir, em fato de treino preto,
listado de azul — «Satisfeita, avó Ana Mata?»
Ana Mata, muito concentrada — «Isso tudo quanto dá?»
«Ao todo, dois mil e quinhentos contos, não mais...» — Domingos cheio de paciência, sem nenhuma faca na voz, a fazer
contas de somar.

Ana Mata também fazia as suas contas. Pensou, pensou, com a mão no ar, segurando ela mesma as cadernetas, a impedir que
Domingos desandasse para onde quer que fosse. Ele ainda não podia ir-se embora, porque antes tinha de lhe dizer para
quantas carrinhas novas, como a do Antonino, dois mil e quinhentos contos davam. Perguntando a medo, com a mão no ar, com
receio que o neto mudasse de tom.
Domingos Mata, porém, ainda estava cheio de adormecida paciência. Falou verdade — «Para nenhuma, avó. Só dá para
metade».
«Metade? Qual metade nem metade... Vocês têm dinheiro escondido noutras cadernetas. Vocês não têm só esse dinheiro que
está aí escrito, isso não pode ser...»
Felícia passava junto da mãe e do filho mais velho, ainda ligada ao telefone. Com a cabeça inclinada, transportava bebidas
e comidas rápidas para cima da mesa, como se fosse Verão, segurando o aparelho entre o pescoço e a orelha. Agora só dizia
— «Obrigada, amiga, obrigada. Deus pague a vocês todos tamanha bondade. Estarem felizes com a felicidade de Janina, é
bondade, sim... Desde ontem à noite que o telefone não pára, toda a gente deste mundo feliz com o sucesso de Janina... Ciao.
Ciaozinho. Até logo...» Finalmente desligava o telefone. Pois bem, uma vez livre do aparelho, também ela ia buscar a sua
própria caderneta para ler à mãe. Ia já. Foi. Veio, e com a voz determinada de quem vence as dificuldades da vida e agora
pode falar de si mesma enquanto parábola, aproveitou para proclamar alto e bom som que a sua conta havia meses que não
tinha lá nada, estava em zero. «Zero de zero» — dizia Felícia, ignorando o telefone que apitava sem cessar. Desligando-o.
Eram as pessoas do Bairro dos Espelhos, em peso, a felicitá-la. Mas ela não podia mais. E explicou que tudo o que possuía
havia dado a Janina e Gabriel. Que ninguém se esquecesse que ela até tinha pago um professor de Canto para aperfeiçoar
Janina. Ela, ela. E agora, em zero. Mas estava bem em zero, graças a Deus. «Eu vou em frente com zero. Deus é grande. Nossa
Senhora é grande. Esta cabeça verá. Que Deus nunca falte...» — dizia, como se quisesse ensinar a sua mãe, agarrada a quatro
cadernetas da Caixa que não lhe pertenciam, a olhar para dentro delas, a folheá-las quando nem sabia ler uma letra do tamanho
dum boi. Agarrada às cadernetas, para quê, minha mãe? Perguntando, ainda com a misericórdia da noite anterior. Aí o telefone
tinha começado de novo a tocar. O pequeno aparelho a chamar e a estremecer ao mesmo tempo. Felícia pegou nele e gritou —
«Sim, obrigada. Tudo bem. Janina não atende porque está muito ocupado, lá em Lisboa. Olha, agora mesmo está ele a fazer
ginástica para poder dançar no palco. Sim, Gabriel também...» Suspendeu. Desligou definitivamente. Colocou em mensagem.
Mensage.
Felicia disse para a mãe — «Eu, sua filha, Felícia, bem como as minhas irmãs, as três em zero. Cadernetas em zero.
Germana e Dilecta nem têm caderneta. Porque está vossemecê a xingar os rapazes, hem? Todos em zero e vivemos bem.»

Ana Mata esperava. Ia devagar, tinha um plano.

Sim, as duas irmãs, Dilecta e Germana, impelidas pela conversa, trouxeram o seu dinheiro em notas e também as mostraram.
Cada uma tinha começado a contar. Contavam nota a nota, sentadas nas cadeiras empilháveis, à sombra de um guarda-sol onde
uma Pocahontas e seu cavalo apareciam desenhados no meio dum prado. Pachorrentamente, contavam molhando o dedo no
lábio, passando as notas, fazendo contas de cabeça. Mas nem uma nem outra chegavam aos cem. A cena era conhecida.
Domingos perdeu a paciência — «Em parte nenhuma do mundo isto se vê. Só falta as crianças trazerem os porquinhos de
barro...»
Ana Mata pensando, pensando, afagando as cadernetas, sem as querer entregar. As três filhas, as crianças e as noras-netas,
os netos homens, todos presentes. Belisa e Sissi. Heitor Pai foi-se afastando, encostando-se às portas. Também ele não tinha
nada. Tudo o que possuía estava escondido dentro duma bota. Domingos perdeu a paciência, enquanto Ana Mata pensava,
agarrada às cadernetas.
Ana Mata estendeu a mão e entregou-as.
«Ai, ai... Vamos então para o nosso chão muito pobres...» — disse ela, cheia de tristeza. «Muito, muito pobres. Mas temos
de ir...»
Felícia colocou o telefone longe. Só depois encarou a mãe.
«Diga, mãe».
«Para o nosso chão, muito pobres, muito pobres. Mas está decidido. Voltamos».
«Mas voltamos para onde?» — perguntou Felicia, reparando pela primeira vez na forma como Ana Mata estava embrulhada
num vestido cujas mangas roçavam o chão. Olhava para a mãe como uma mulher mal embrulhada que de repente se erguia não
se sabia de onde, atazanando a vida de todos. «Como é isto? Agora vossemecê mal se sabe vestir? Pois vamos para onde?» —
Os netos puseram-se a rir. Desencontrados, tomavam um pequeno-almoço tardio, próprio de uma manhã depois de um dia de
festa, e não podiam deixar de se rir. Havia sentimentos de liberdade espalhados pelas sombras esfriadas do pátio, e riam. A
mesa posta à pressa, a trouxe-mouxe, pela hora avançada.
«Temos de voltar » — disse Ana Mata na sua língua. «Aqui, vamos desaparecer todos, um a um. Voltamos todos, com o
Gabriel e também com o Janina. Lá na Cidade da Praia, há muito lugar para ele poder cantar. Lá cantou o meu pai, o meu avô e
todos os meus filhos homens, tios do Janina. Lá na nossa terra, aquele paraíso de terra. Paraiso di terra, nha gente...» —
cantarolou.
Os netos e os bisnetos puseram-se a rir. Até os filhos de Antonino, espalhados pelo colo das tias velhas, riam. Até eles. Era
bom ver rir. Todos a rirem de Ana Mata. Até os dois cães, sentados, a olharem de mão em mão, seguindo a comida, até os
olhos dos cães dos Mata riam. Ana Mata sentada na sua poltrona, a sua cautcha de plástico, a ouvir. A seus pés, depois dos
banhos de chuveiro, corriam três volumosos rios. Cheirosos rios. Nívea, Cadum, Musgo Real, Palmolive.
«Não hoje, não amanhã, não depois. Logo daqui por uns meses, um ano, vamos. Vamos voltar para nossa terra. Ela é muito
grande, tem água longe, mas tem. A gente vai buscar. Todos os dias vamos buscar água. Pois para quê muita água? Aqui,
estamos no meio dela e desaparecemos. Desaparecemos todos, que não escapa nenhum...» — Todos a rirem de Ana Mata. Os
bisnetos, e entre eles os filhos de Antonino, dobravam o riso. Os dois cães, de orelhas soltas, continuavam a rir. Conceição
sentiu pena de Ana Mata.
Curvada sobre a poltrona de plástico, passando-lhe as mãos pelos ombros, compondo-lhe o vestido atravessado pelas
costas, Conceição explicou — «Não podemos ir para nossa terra, avó Mata, não podemos. Não vê que não estamos
preparados? Que não temos dinheiro para voltar? Não vê que custa muito levar toda esta gente de avião? Quanto custa o
avião? E depois, o que faria esta gente toda lá? Onde trabalhava? De que vivia? Não há de que viver lá. Pense bem. A casa de
Ana Mata são três casinhas pequenas e destelhadas que lá ficaram. Não se lembra das fotografias que mandaram? Sem janelas
nem portas? A esta hora já as cabras vivem nelas...Vive num outro mundo, avó?

Ana Mata sentiu o seu plano escorregar-lhe das mãos.

Olhou muito firme para a parede em frente, o alto paredão do pátio. A sua cabeça livre para pensar pensou tudo, viu de
mais.
Queria aquilo dizer que os Mata estavam cercados. Estavam presos em toda a parte. Presos em todos os lugares, presos
aqui, presos acolá, em todos os lugares da terra e do mar, os Mata estavam presos. Presos na casa do Ribeirinho da Praia,
presos no Bairro dos Espelhos, presos na Fábrica Velha. Presos. Então nunca mais vamos voltar. É isso que tu queres dizer,
pensava Ana Mata. Acaso seria tudo aquilo verdade? Não lhe estariam a mentir? — Felícia levantava os tabuleiros
carregados de garrafas, arrumava-os às rosas do seu grande robe de Inverno. Domingos e Heitor partiam em fatos de treino,
montados em luzidias bicicletas. As crianças espalharam-se pelos chão empurrando dezenas de objectos que guinchavam,
trotavam e corriam, produzindo ruídos mais altos do que os antigos engenhos das noras. As raparigas netas secavam os
cabelos com máquinas eléctricas. E Dilecta ligou o rádio para ouvir a missa. Ana Mata ia para comer o seu pão com leite mas
deitou fora. O problema era esse — a sua gente tinha-se afogado em coisas, enquanto a casinha, para além do mar, se
destelhava.
«Felícia?» — chamou Ana Mata.
A sua filha nem a ouviu.

«O Felícia!»
Era isso, não tinham dinheiro nas cadernetas porque ele andava ali pelo chão, em todas aquelas máquinas que enchiam as
casas e o pátio. Pensou, na sua língua. Porque gastavam tanto dinheiro em objectos sem préstimo? Em fios eléctricos? Em
lâmpadas? Em relógios? Só relógios, naquela casa havia vinte e cinco, porque ela os tinha contado. Em discos, em revistas,
em fotografias? Carradas e carradas de objectos completamente inúteis. Tinham dois cães que não ladravam nem mordiam e
só para cada um deles possuíam cinco açaimos. Dez açaimos. Bonecas, suas bisnetas tinham tantas que nem se entretinham a
embalá-las nem vesti-las, já era só contá-las. Bicicletas, cada um tinha sua, como se nenhuma delas conseguisse ser entalada
entre as pernas de nenhum outro. Um desperdício. Escravos. Para sempre escravos dos lugares porque eram escravos dos
objectos e das máquinas. Só máquinas, eles tinham-nas para abrir latas, cortar unhas, cortar cabelo, cortar pão, fazer
massagem nas costas, nos dentes. Umas outras faziam furos em portas, outras faziam furos em paredes, outras faziam-nos só em
alumínio. Cada uma para seus metais. Tinham para serrar, para triturar, para premir botões que agiam sem se levantarem do
lugar, para aquecer, para arrefecer, para gelar, para moer, para fazer calor e fazer vento, substituir o frio e o sal, tudo eles
tinham, para tudo. Eram escravos disso tudo, e por isso eram escravos dos lugares onde essas coisas todas estavam. Isso ela
queria dizer a Felicia, isso mesmo. Gritou em sua língua — «Felícia, vem cá!»
De novo, Felícia, no auge da onda do seu bem-estar com a vida, nem a ouvia. Respondia de longe — «Volte você, minha
mãe, para seu Paraiso di terra. Olha, lá tem ainda suas cunhadas, tem onde ficar. Porque não deixa aí a sua cautcha e vai para
junto de suas irmãs mais novas do que você? Vá, eu por mim, não quero voltar. Não sei se as minhas irmãs querem, mas eu
não. Vossemecês querem voltar, manas?»
Dilecta e Germana caladas, nem sim nem não. Ana Mata esperando que elas falassem, e elas, muito pesadas, muito lerdas,
nada. As netas também presentes, nada. Ninguém, nada. Ana Mata como se estivesse a ver um caminho ladeado de flores, de
repente, abrir-se-lhe sobre o nada, olhou só para a frente, à procura do futuro, e ele não estava lá. Três casinhas destelhadas.
Era como uma cova que se abrisse a seus pés e engolisse o seu plano para os levar de volta com ela.

Mas Ana Mata ainda iria cair mais baixo. A cova onde tinha entrado ainda iria ficar mais funda. O dia claro tinha-se feito
escuro. O vestido traçado tinha escorregado.

«Quer dizer que vocês me enganaram. Que nenhum de vocês vai voltar. Não é isso? E eu, como faço? Como vou voltar
sozinha, para a minha terra? Dei minha confiança a vocês para vir e voltar. Mas agora vocês querem morrer todos nesta terra
diferente da nossa. E ela não é boa para os meus ossos, não é boa para os ossos dos Mata, os ossos dos Mata estão todos lá.
No nosso chão...»
«Quem disse que não é boa?» — perguntou Felicia, imperturbável, andando de um lado para o outro. «Ora, ora, senhora...
Quem manda no morto que cada um em si sente, não é o passado morto dos outros, é o futuro do vivo que cada um traz em si.
Vamos agora fazer a vida negra das pessoas que amam a gente, por causa do morto que cada um transporta em seu corpo?
Deixe-se de histórias, senhora, o nosso chão seguro, olha, nem há... Olha, o único chão seguro é o corpo de cada um. Quem
tem seguro outro lugar? Se calhar nem esse a gente tem...» — Felicia Mata a engolir pão, a palitar um dente, a falar como se
fosse imortal. A atender o telefone.

E Ana Mata, sentada, com as mãos recolhidas, seu copo de leite entornado e seu pão deitado fora, as mangas do vestido
rojando pelo chão, tinha começado a chorar. Mal se lhe percebiam as palavras proferidas na sua língua — «Devíamos
aproveitar, agora que estamos todos vivos e todos honrados. Ai, ai, todos ainda honrados. Devíamos aproveitar para sair
daqui. Ai, ai...» Ana Mata a levantar-se da sua poltrona de plástico, a movimentar-se pelo pátio, a voltar atrás, a deixar rojar
pelo chão o vestido traçado, a empurrar a poltrona, devagarinho, devagarinho, a empurrá-la.
«O que está a fazer, minha mãe?»
Ai, ai, muito devagarinho, através do pátio, a poltrona a afastar-se do seu lugar cativo, da foz dos três rios, e ela mesma a
afastar-se, a dizer adeus aos rios, já que nunca mais ali voltaria, iria para sempre sentar-se num outro lugar. A empurrar a
poltrona com os seus dois pulsos magros de mulher mosquito, empurrando um mundo para longe do outro, a separar os
mundos, a fazer um longo percurso, com suas pernas tortas e magras, através dum pedaço considerável do mundo. Sim, que
ninguém a ajudasse, não precisava. Aquilo era um assunto só dela. Por seus pés, haveria de ir ter a algum lugar do pátio. A
algum outro lugar da Terra. A empurrar a sua cautcha até à porta aberta da sua casinha parda, com uma só janela, do tamanho
da capa de um caderno escolar. De costas voltadas, para sempre, à região daqueles que a tinham traído e abandonado.
Para sempre, sempre.
Com o telefone na orelha, Felícia gritava de muito longe — «Oh! Sim, nossa mãe muito chata. Acha que sabe tudo, menina.
Fala directamente com Deus, mas ouve muito mais do que Ele lhe ensina. É a vida, é a vida. Deus diz-lhe um, e ela ouve dois,
quando não ouve três. Aumenta tudo o que quer. Com Janina, sim, tudo bem. Deus nos encaminha... A esta hora, está ele em
Lisboa, a dormir. Olha, beijos para você também. Vou dar seu parabém ao Janina, sim, minha amiga...» Felícia muito longe,
muito longe dali.

Todos muito longe, e tudo o que ficava longe, muito perto, ali no diamante. Depois se disse que, sem ninguém dar por isso,
era a vida a empurrar todos, a levar todos de mistura, uns ao lado dos outros, como na lama se encontra o escaravelho e a
pérola. Como no abismo, a falange e o dente de oiro se reúnem. — «Sim, minha amiga, não tenha nenhuns cuidados, por aqui
ficamos todos finos, todos muito bons, muito formidáveis...»
XVII
Do outro lado, Milene discou os velhos números do telefone que ainda eram de rodar e fazer ruído, como se lá dentro
houvesse uma cremalheira, mas nem quis ouvir a gravação, já a sabia de cor. After the bip. Bye... Era início da tarde,
princípio da manhã em Massachusetts. Agora tinha em cima da mesa da avó Regina um relógio atrasado de cinco horas, para
controlar o tempo. Não queria enganar-se. Esperava havia muito. Aproximou-se e disse — «João Paulo?» A voz baixa, toda
impelida para dentro do bucal — «Novidades, grandes novidades...» A voz muito baixa A voz sussurrada. — «Ontem,
andámos a tarde toda juntos, mas ele só me beijou à noite... Ouves? Beijou-me muitas vezes, com muita força e foi muito
bom. Gostei imenso. Começou por me beijar os cabelos, depois foi à procura da minha boca e beijou-me toda. Ele tinha os
olhos fechados, eu tinha os meus abertos. Eu vi. A língua dele é cor-de-rosa. Beijou-me e beijou-me. Não me importo que
ele tenha uma outra namorada viva. Foi muito bom... Primeiro andámos quilómetros à procura dos carros. Passávamos
mesmo perto e não os víamos. Depois foi a tarde toda e a noite, até ele decidir beijar-me. Só aí é que me beijou, como já
disse há bocado. Depois ficou dentro da carrinha, aqui em frente de casa, a dormir... Não foi ver a Divina. Mas eu nem me
importo que ele tenha outra namorada viva. Já disse. Adeus, muito adeus. Quando ele me beija eu tenho um choque
eléctrico. Ciao. Milene...

Não esperou por resposta nenhuma. Desligou. «Bye, bye.»

Então as coisas precipitaram-se. Aconteceu no fim-de-semana seguinte. Antonino pediu-lhe que se mantivesse estacionada
em frente do Restaurante do Inglês. Ele não demoraria meia hora. «Meia hora» — disse ele. «Repara bem no relógio...»
A carrinha cinzenta atirou-se pela estrada fora, desaparecendo na curva do Hotel Miramar. Nem demorou esse tempo
sequer. Quando a carrinha parou, ele desceu com um saco e mostrou-lhe o seu conteúdo. Pedia para ela ver e apalpar, para ter
a certeza do que ali estava. Eram três gravatas vermelhas, um relógio de pulso, um relógio de cabeceira electrónico com rádio
incorporado, um rádio em forma de maçã, um pijama de riscas ainda metido no saco de plástico, e uma corrente de oiro com
um Cristo de esmalte. Mais um prato de fina porcelana, com friso doirado, onde se lia MEU QUERIDO.
«O que é isto?»
«É para devolver.»
«Devolver a quem?»
«Logo vês. Espera-me aqui, dentro duma hora.»
Milene esperou três horas. Ouviu a Cyndi Lauper cantar What’s Going On, mais de trinta vezes. Viu o Restaurante do Inglês
receber os primeiros clientes e os últimos. Quando ela já não podia mais ouvir Mother, mother, brother, brother, brother, e o
restaurante já fechava, apareceu a carrinha. Antonino vinha transpirado como se tivesse subido três gruas Liebherr duma só
vez, e não tivesse tomado banho. Trazia um saco e mostrou-lhe o seu conteúdo — Era uma boneca de loiça, uma caixa muito
pequena contendo um anel de oiro muito grosso com pequeno diamante, uma écharpe de seda branca, um calendário com
paisagem asiática e uma carteira Longchamps.
«Compreendes o que aconteceu?» — perguntou ele, apertando-a pela cintura. «Eu e Divina devolvemos tudo o que tínhamos
oferecido um ao outro. Largámo-nos. Correcto? Agora só nós dois, para sempre. A minha única namorada viva...»
O Restaurante do Inglês fechado. Não tinham fome, estavam magros e não precisavam de comer nada. Era um amor normal.
XVIII
Em Villa Regina, Juliana tinha começado a chegar às quatro da tarde e a partir às seis, já noite fechada. Nas últimas
semanas, desencontravam-se. Quando se viam, Juliana gritava-lhe — «Tome cuidado, olhe que se vai estampar. Só aqui na
zona, no espaço de um mês, houve cinco assaltos e duas violações, andam assassinos à solta por toda a parte. Medo tenho eu
de trabalhar nesta casa, com as luzes todas acesas. Um dia, se eu não vier mais, não se sobressalte, fui eu que decidi uma outra
coisa da minha vida...» Depois Juliana perguntava — «Vou outra vez ao quarto de Dona Regina? De ontem para hoje, o pó
ainda nem teve tempo de tomar assento. Como vou fazer? Vou começar a apanhá-lo no ar? Não faço comer, não vou às
compras. Quer que eu lamba esta casa como uma gata faz às crias? A propósito, porque não tem um animal de estimação para
lhe fazer companhia? Ao menos um bichinho que andasse por aí aos saltos...» Mas naquela tarde, a seguir à noite em que
Antonino tinha deitado fora os objectos de Divina, tudo foi diferente.
Milene não se encontrava sentada a meio das escadas como era seu hábito, mas diante do espelho do quarto, de joelhos
muito unidos, a cara projectada, concentrada no reflexo da sua imagem. Mirava-se. Tinha espalhado sobre a cama toda a
espécie de bijuterias e acabava por certo de provar vestuário, porque várias peças viradas do avesso ainda se encontravam
penduradas de cadeiras e manípulos. Chapéus e barretes pendiam das maçanetas da cama, e naquele momento preciso,
experimentava ela um gorro que Juliana ainda não conhecia, um barrete vermelho-ferrugem que lhe cobria metade da testa.
Mas não eram os objectos que denunciavam um acontecimento novo em Milene, era sim a superfície da sua cara, alterada,
como se um brilho invulgar lhe revelasse formas até ali invisíveis. A mulher-a-dias apanhou o efeito do brilho no ar.
«O que foi que lhe sucedeu?»
Milene tinha começado por não responder, mas logo de seguida emendou a reserva — «Não vais acreditar no que te vou
dizer. Uma noite destas, andámos a atirar objectos ao mar. E mais não digo...»
«Objectos ao mar? Que objectos? Que mar?» — Juliana, desconfiada, sabendo, desde Agosto, que mais cedo ou mais tarde
alguma coisa de extraordinário iria acontecer. Um golpe de asa indicou-lhe que o acontecimento por que tanto esperava estava
agora a surgir. Todo aquele monte de traparia e bugigangas era apenas um indício. «Que mar? Que objectos? Diga lá...»
Milene não podia contar, a voz de Antonino vinha ter com ela — «Se fôssemos transparentes, se fôssemos invisíveis, se
andássemos por aí livres e ninguém nos visse...» De facto, na noite anterior, tinham ido deitar os objectos fora. O Restaurante
do Inglês fechado, eles de mãos dadas dentro da carrinha, o Clio parqueado ao lado, e eles sem conseguirem voltar para casa.
Tinham ido até às Dunas Fêmeas, e Antonino, num assomo de valentia insuspeitada, havia saído do carro, começando a
arremessar ao mar os objectos, um após outro. Desprendendo-se deles como dum feitiço mau — «Aqui vai a carteira cara,
aqui vai o boneco, aqui vai a écharpe branca que tanto trabalho me deu a comprar... Aqui vai...» Ela queria, ao menos, salvar
alguma coisa — «ó pá, o anel, não, não deites fora um anel com brilhante, pá...» Tinha pedido Milene. E ele, insensível.
«Aqui vai o anel, aqui vai o calendário...» — anunciava Antonino, antes de atirar cada objecto para o escuro do mar. Os
objectos zunindo. «Vão, vão-se embora, coisas da Divina, vão...» Tudo isso tinha acontecido não dias antes, mas na noite
anterior, e agora Milene preparava-se para sair mais cedo. Antonino tinha-lhe dito que poderiam ir os dois, devagarinho,
esperar pelos três meninos, Emanuel, Girino e Quirino. Ir buscar as crianças ao infantário, isso eles podiam. Não podiam ir a
outros lugares, mas jantar no Restaurante do Inglês e ir buscar os meninos, podiam. Se fossem transparentes, se fossem
invisíveis, se andassem por aí e ninguém os visse... Milene, apressada. E Juliana tinha vindo mais cedo. Juliana muito
surpreendida, inquieta, cheirando no ar o acontecimento, e ela, reservada, a experimentar o novo barrete. Juliana a tentar
desencadear o fio do acontecimento.
«Menina Milene? Sabe? Vou deixá-la. Desculpe, mas vou. Mora lá em baixo uma senhora belga que me paga quase o dobro.
Toda esta zona, desde que fizeram a Via Rápida, anda ao deus-dará. Só ladrões e assassinos por toda a parte. Ainda um dia
destes, estou eu aqui sozinha e entra-me um gajo qualquer pela porta dentro, me viola e me saca o ordenado...» — Juliana a
ouvir-se a si própria. «Mas então foi deitar objectos fora?»
Milene a rir, ainda diante do espelho — «E também fui beijada».
Juliana deu um passo atrás.
«Quem beijou você, Menina Milene? Quem?»
Um vendaval atravessou o capital cognitivo de Juliana. De repente ela não sabia de onde lhe vinha aquele saber, aquela
intuição, aquela descoberta que estava a estalar dentro de si. Nem que dados tinha recolhido nem como tinham funcionado,
organizando-se atrás da sua testa. Fez um segundo passo em frente, a tremer, muito pálida — «Menina Milene, você anda com
aquele homem da carrinha cinzenta. Não minta, não minta para mim...»
Milene encontrava-se sentada no meio dos montões de roupa e deu um grito — «Se contas a alguém, mato-te. Eu mato-te, se
contas...»
Juliana com a mão na boca. Sem conseguir manter-se em pé, sentando-se ao lado de Milene, de cabeça para baixo, para não
lhe fugir o sangue, como era hábito acontecer no seu corpo quando uma surpresa forte a tomava — «Menina Milene, eu sabia
que você se ia estampar, não sabia nem como nem quando, mas sabia...» Em seguida fez um longo silêncio. Depois
emocionou-se e começou a chorar. «Coitadinhos, coitadinhos de vocês. Eu gosto muito de pretos, menina, eu vi o filme A
Cabana do Pai Tomás... Eu sou por eles, por todos eles...» Juliana completamente transtornada. «E vocês beijaram-se...»
«Eu mato-te, ouviste?»
Juliana tinha colocado a mão na boca. Grande acontecimento. Ela sabia muito bem que iria haver um acontecimento
importante naquela casa, mas não sabia qual era, nem quando. Agora sabia. A mão na boca — «De mim, Menina Milene, nada,
nada, nada. Olhe aqui... Juro pela alma do meu pai». Juliana unindo os lábios e apertando-os com dois dedos, como se os
cosesse, olhando para ela, para Milene, e num gesto tão antigo quanto a solidariedade das fêmeas, tinha começado a compor-
lhe o cabelo, dum lado e do outro da cara. Saia muito curta, Menina Milene. Fica com as pernas todas de fora, olhe só. Una os
calcanhares atrás. Ponha uns brincos também, um pingente branco fica bem com o seu barrete novo. Os olhos humedecidos, a
compô-la, a admirá-la. Meu Deus, ele beijou-a. Milene estava a ser amada, respeitada, tocada pelo dom do amor. «Fique
descansada, menina, eu vou já acender as luzes da sua avó, eu fecho as portas todas à chave. Vá, vá completamente
descansada. Cuidado, muito cuidado. Beijem-se, beijem-se, mas não deixe ele fazer mais nada. Aí, seria um sarilho dos
diabos Cuidado, cuidado...» — Juliana na porta onde a noite já se encontrava, para vê-la sair no carrinho branco. Dois faróis
no escuro. Um besouro zumbindo na noite. Vá, vá.
«Menina Milene?» — a mulher-a-dias ainda alcançou o carro, já em andamento. «Então é assim... Eu não digo nem esta
boca é minha, mas a menina, a mim, também não me disse nada. Nada de nada. Combinado? As duas unidas e as duas
separadas...» O coração de Juliana saltando no peito, ao vê-la partir. Era emocionante. Para Juliana, uma história de amor
como nos filmes erguia-se no horizonte. E essa linha longínqua aparecia-lhe de súbito dramatizada de cores rubras, músicas
arrasadoras e fugas ao longo de areias, até cabanas desertas. Mas não era preciso tanto. Aquém do horizonte, na realidade,
tudo seria bem mais banal. Por muito que Juliana tivesse sonhado com feitos grandiosos e inusitados, durante os dias que se
seguiram, nada aconteceu, para além dum nevoeiro que baixou, durante uma madrugada. Dois dias depois, já ninguém se
lembrava do calor que havia prolongado o Verão até ao Natal.

Sim, um nevoeiro veio, silencioso, como a sombra de que fazia parte. Veio uma massa de água fina que avançou sobre as
coisas e ficou com elas. As manhas ficaram suspensas e as tardes também. Mesmo de muito perto, não se viam as paredes das
casas. Numa região de sol e claridade, essa mancha leitosa, que punha escuro dentro das janelas, ofereceu acontecimentos
vários, durante cinco dias. A Rádio Valmares emitia de hora a hora conselhos de prudência, intimando a que se acendessem os
médios. No aeroporto, não desceram nem levantaram aviões. No Oceano, um navio passou com uma sirene que gemeu durante
duas horas, como havia muitos anos não sucedia. Grande acontecimento. Só numa manhã, houve vários choques, três mortos e
oito feridos. Os amantes que se queriam invisíveis ouviram no noticiário, mas não ligaram, isso era a vida dos outros, era a
imprudência, ou mesmo a morte dos outros. Não lhes dizia respeito. Por eles mesmos, estavam contentes com o nevoeiro.
Beijavam-se ao cair do dia, dentro da carrinha Mitsubishi, nem mais nem menos visíveis, mas pensando-se invisíveis. Mais
ele, Antonino, do que ela.

Em redor da Fábrica Velha a impressão que se tinha era de que não se tratava de vapor de água mas de um sólido pesado, a
matéria de um pano espesso, que tudo tivesse envolvido. Do lugar dos rios de Ana Mata para o local onde ela agora se
sentava em sua cautcha, não se via nada. Não se enxergava nada de parede a parede. E logo por coincidência, por aqueles
dias, esperava-se a vinda de Janina.
Porque Gabriel e Janina iriam vir. De propósito, iriam fazer uma paragem nos concertos e nas gravações do terceiro disco,
o verdadeiro disco compacto de Janina, um álbum de doze faixas de que havia já cantado duas durante o Show Bizz. Na
gravação, porém, só naquelas duas faixas, entrariam mais três violetas e dois clarinetes, a acrescentar aos que já lá estavam, e
ainda um contrabaixo acompanharia os momentos de resposta ao falsete. Assim, iria poder-se ouvir na perfeição a voz de
Janina sacudida em vibrato, e logo o uivo de lobo que ele conseguia executar com muito mais agudeza do que Terence Trend
d’ Arby em seus melhores momentos de charme. Depois, viria de novo o coração profundo do contrabaixo. Como contraponto
do diálogo, tantim, tantam, compreende? Está bem, meu filho, pode ser. Felicia sabia de todos os projectos, e à distância
aprovava tudo e todos, porque ela só não apreciava aquele tipo do sax que se exibira demasiado durante a televisão. E quanto
ao reco? Haveria reco-reco? Quando? Onde? Só numa das faixas o reco entrava. Está muito bom. Pois então interrompe a tua
gravação, meu filho, e vem já.
Viriam, sim. Mas como viriam?
Janina disse ao telefone que iriam vir com um amigo de Gabriel. O Gabriel disse que iriam vir com o manager de Janina.
Coração de mãe desconfia sempre. Algures existe uma baía de sangue, onde os filhos em sonhos se afogam. Mas neste caso,
tudo batia certo — amigo e manager eram uma e a mesma pessoa e vinha de propósito fazer três centenas de quilómetros, a
expensas suas, para que Janina e Gabriel visitassem a mãe, as tias velhas, a avó velha, os irmãos, as cunhadas e as crianças
que Janina adorava. «Olha, vêm com o amigo manager» — tinha explicado Felícia, um tanto decepcionada por aquilo que ela
considerava ser a presença estúpida do nevoeiro, numa terra que era toda ela claridade. Na qualidade de mãe, havia
imaginado a chegada do filho sobre o tejadilho de um carro aberto, um carro de glória, como no seu tempo a imagem de Elvis
Presley entre fãs, um carro chegando à luz quente do dia, para que ali pudessem estar em pessoa todos os amigos do Bairro
dos Espelhos. Ela sabia que existia o sonho, no coração dos seus moradores, de receberem um dia Janina cantor, com uma
faixa onde tivessem pintado letras que dissessem — CUIDADO COM A GENTE, JANINA MATA KING PERTENCE AO
BAIRRO DOS ESPELHOS. Quando isso acontecesse, só Deus saberia a fortuna que essa faixa poderia alcançar, até onde
poderia ir a sua visibilidade. Por certo muito longe, correndo à volta do Mundo, até onde cada pessoa tivesse um parente que
reconhecesse a ligação do Bairro dos Espelhos com Janina Mata King, o cantor. Sonhos, chispas de sonho de glória e
notoriedade, no interior do coração da mãe.
«Enfim, sempre vêm...» — suspirou Felicia.
Era preciso saber adiar certos sonhos. Esse encontro triunfante, entre o pequeno mundo da vizinhança e o grande universal,
ficaria para mais tarde, quando Janina tivesse finalizado o terceiro disco e o respectivo videoclipe, bem como as caminhadas
que teria de fazer à beira do mar, diante do qual o cantor seria obrigado a mudar de indumentária dez vezes seguidas, se não
fossem mais. Agora eles vinham apenas por quarenta e oito horas, para visitarem a família, incógnitos, e acontecia que era o
terceiro dia consecutivo de nevoeiro, numa terra onde em geral nunca tal existia. Um nevoeiro espesso, a tornar despercebida
a entrada de Janina em Valmares. Fosse como fosse, graças a Deus que vinham, pensava Felícia Mata, radiante da vida. E o
mundo tinha-se posto a rolar devagar, à porta de casa. À porta do diamante.

Os Mata haviam aberto as portas do grande portão e tinham vindo para fora esperar. Em redor, era como se todas as
árvores, que por ali ainda havia, tivessem partido. Mesmo as copas das onze palmeiras se esfumavam ao longo do corpo da
Fábrica Velha, entrando no nada. Silhuetas esfumadas no nevoeiro acidental. — Porque se faziam os rapazes esperar assim?
Porque não telefonavam? Dariam com a casa, mergulhada naquele estúpido nevoeiro que os fazia sentirem-se parte do mar?
Os Mata esperavam dentro e fora, esperavam, sofriam. Só que não valia a pena desesperar. Parecia mentira, mas era verdade
— Finalmente os rapazes estavam a chegar.
Chegavam.
Provenientes da estrada, afundada na mancha branca, surgiam dois faróis amarelos, divergentes, rasgando a atmosfera da
tarde densa. Atrás dessas luzes que se aproximavam devagar, parecendo querer encontrar alguma coisa que se tivesse perdido,
rolava um belo carro, um Alfa-Romeo vermelho-grená. Cromados reluzentes desenhando nervuras no nevoeiro. Ali estavam.
O coração de Felícia sofreu um baque — Seria que o Janina não tinha vindo? — Mas o sobressalto não durou além de um
segundo. Quem conduzia o Alfa-Romeo era um rapaz cor de leite, como se na sua face condensasse a massa humana do
nevoeiro. Uns olhos claros, dirigidos em frente, à procura do cômoro onde parquear o carro. Ao lado, Gabriel, muito direito,
os óculos muito escuros brilhando na cara, impondo silêncio com o dedo ainda antes de pararem, e no banco de trás,
envolvido numa manta de xadrez, como um vulto insignificante, enrolado sobre si mesmo, viajava Janina. Dormia Janina.
Felícia Mata afastou as crianças, espreitou e não conseguiu deixar de gritar, rente ao vidro — «Meu filho, como você vem
magrinho!»
Não era assim que tinha imaginado. Aliás, haviam esperado tanto tempo, de forma lenta, e agora que chegava o momento,
tudo se revelava rápido. De forma demasiado rápida, pois Gabriel saiu do seu lugar, e antes de cumprimentar quem quer que
fosse — como se ele mesmo se tivesse transformado num estranho, numa autoridade judiciária ou outra qualquer, ou num
guarda-costas insensível — afastou com severidade a multidão de rostos familiares que cercavam o carro. Os vidros do Alfa-
Romeo vermelho eram estreitos para tantos rostos, mas todos dispersaram, perante aquele gesto de imposição de Gabriel, ao
exibir uma presença despropositada, postado entre o carro e o nevoeiro, todo ele muito grande, em cima dumas botas
vaqueiras de solas altas.
«Desculpem eu ter de fazer isto...» — disse ele. «Mas o Janina vem a dormir».
«A dormir, disseste tu?»
Sim, Felícia estava surpreendida, toda a família Mata se encontrava deveras surpreendida, mas era um facto, nada havia que
o desmentisse, o cantor chegava a dormir. A prova ali estava. Gabriel pôs a mão na porta do carro com a precisão, a força e o
suspense de quem fosse abrir uma janela sobre Hollywood, ou então uma jaula no Circo Chen, e no entanto, a troco do aparato
do gesto, apenas o vulto de Janina permanecia encolhido no fundo do banco. Mas o vulto movia-se. Janina acordava. Primeiro
desenrolou-se, afastando o cobertor, e depois espreguiçou-se. Demorava. Gabriel e o manager, o condutor branco de leite, os
dois protegiam as portas, enquanto lá dentro, finalmente, o ensonado conseguia desenvencilhar-se da manta, saindo do carro
vermelho para se entregar à refrega do amor familiar. A dois passos, a tribo da família esperava-o, e apesar da frieza que a
figura de Gabriel impunha, estendiam-lhe os braços, estreitavam-no. Era Janina Mata King em pessoa. E ele ria. Entregava-se.
Mas nada iria ser como Felícia tinha imaginado.
Nada coincidia com o momento preparado na sua alma e para o qual tinha pedido aos outros filhos que deixassem o
trabalho mais cedo para estarem presentes, na hora da chegada. E Domingos, Heitor e Antonino, todos ali estavam. Quando
conseguiu aproximar-se, Felícia estendeu os braços, desequilibrando-se — «Conseguiste, meu filho... Mas tão magrinho, meu
filho...» Estrangulando o pescoço de Janina, resumindo, numa frase só, vários raciocínios contraditórios — Conseguiste, meu
filho, mas pagaste um preço alto... Nós aqui não avaliámos o preço... Ficar tão magrinho pode significar que no futuro não
vás conseguir... Precisas de tomar muito cuidado contigo... E outros pensamentos assim, encavalitados uns nos outros, dentro
da cabeça da mãe, na hora da chegada. Era preciso afastar da cabeça pensamentos semelhantes. Conseguiste, meu filho.
«Conseguiste, meu filho! » — disse, triunfante.
A mãe reconhecida pelo facto de ele ser seu filho, agradecendo a Deus tamanha felicidade. E Janina no centro da família,
rente ao carro vermelho, rente ao rapaz loiro de leite, todos reunidos em torno da vitória do Janina e, contudo, bastante mais
em silêncio do que haviam imaginado. Até as crianças se encontravam paradas. Felícia Mata envolveu os dois filhos
visitantes, com um longo olhar de respeito e piedade — «Meu Deus, que magrinhos, que delgados, sobretudo o Janina. Vamos
para casa comer qualquer coisa. Vamos?»
Mas Gabriel interveio de novo, parecendo muito alto, sobre aquelas botas andas. Gabriel a comandar, a decidir — «Por
favor, não o acordem de mais. Trabalhámos até às tantas da manhã. Agora o Janina precisa é de descanso. Não o acordem com
esse alvoroço despropositado. Já comemos, já bebemos, só não dormimos nada...»
Felícia achou um exagero. Era verdade que estava ali o manager que não conheciam de parte nenhuma, mas ela, como mãe,
não podia deixar de se questionar sobre a forma estranha que ele tinha, diante de todos, de lhe lembrar que o Janina só
precisava de dormir. Claro que precisava de dormir, nenhuma pessoa da família era parva. Mas por que razão Gaby não
parava com o aviso? Ali ninguém era cego para que não se visse o que se passava. Estavam todos a enxergar muito bem em
que estado se encontrava Janina, não precisavam de mais explicações. Disse Felícia. Mas Gabriel, severo, virou-se para o
amigo branco, manager e condutor do carro vermelho, tomando-o por único interlocutor.
«Eu não disse? Fizemos mal não ter ido directamente para o Hotel Continental. A nossa mãe não compreende...»
O manager não se manifestou. Estavam no meio do pátio invadido pelo nevoeiro. As cordas de onde só pendia uma peça de
roupa, a dois passos, não se viam. Os rostos estavam mergulhados nesse líquido pastoso, como se a ausência de vento, de
energia e de emoção da terra não permitisse agitar as nuvens. Como se eles mesmos tivessem caído de inanição sobre as ruas,
as ondas, os portos, à imagem do nevoeiro. E os Mata submersos na impressão estranha de tudo ser diferente do que haviam
imaginado. O próprio Janina, que na televisão surgia repleto de músculos e nervos, saído da manta, de facto, parecia ter
perdido muito peso. Duas grandes olheiras cercavam-lhe os olhos apequenados e vermelhos de sono. Nem parecia o Janina.
«Eu não dizia?» — perguntou Gabriel, com as mãos na cintura e uma pressa que roçava a arrogância ou outro qualquer
sentimento que de surpreendente ainda não tivesse nome. Uma palavra grave passou pela cabeça de Felicia, mas logo a
rejeitou. Não, era só pressa. Gabriel tinha retirado os óculos opacos, que até aí mantivera a proteger-lhe o rosto, e disse, na
direcção dos seus irmãos mais velhos e restantes pessoas postadas em volta dos três — «A questão é esta. Só dispomos de
duas horas...»
Felícia não podia acreditar. Colada ao chão, no meio do pátio mergulhado no nevoeiro. A antena parabólica desaparecida,
as cadeiras empilháveis mergulhadas, todos eles mergulhados no vapor de água — «Duas horas, Gaby? Fizeram vocês
trezentos quilómetros, nesse estado, só por duas horas?»
«Ou eram duas horas ou nada...» — Gabriel, tenso, com os óculos pendurados no blusão de cabedal. O outro, o amigo, o
manager, calado, tímido, dois olhos descoloridos onde não parecia haver qualquer tipo de paixão ou de dúvida. Deveria ser
um gestor, um arquitecto do êxito dos outros. Pessoas há assim, que as há, que só querem o sucesso das outras, sem exigirem
nada em troca. Felicia já tinha ouvido dizer. Mas na verdade, ali, o que contava era Janina, de longo cabelo amarrado, muito
magro, parecendo perdido de frio e entalado no nevoeiro. Não era assim que tinham imaginado. Surpreendida, ofendida —
«Duas horas? Mas para que dão duas horas? Arranjámos o quarto de vocês com tudo de bom. Andámos com as camas às
voltas. Lá têm três camas grandes para os três, têm edredãos dos mais fofos, cobertores, aquecimento, telefone, água,
electricidade, latrina e tudo, tudo para poderem dormir descansados, e assim se vão?» Felícia desolada, as crianças
desoladas.
«Eu não disse que ela não iria compreender?» — insistiu Gabriel, caminhando diante dos irmãos como se fosse porta-voz
de uns diante dos outros, e a chave de tudo passasse por si mesmo, e agora fosse necessário explicar demoradamente o que
não se podia fazer compreender por osmose do pensamento. Ali estavam. Estava a família inteira e ninguém entendia. Gabriel
foi explícito — Só duas horas porque Janina precisava de descansar, e por isso, o amigo deles, o manager do Janina, tinha
reservado quartos no Hotel Continental. Só isso. Que olhassem para o Janina. Seria um grande erro a família cansá-lo, a meio
da gravação dum disco.
«Se foi um sacrifício tão grande porque vieram?» — perguntou Domingos, pegando na mulher e nos filhos e dirigindo-se
porta dentro da sua casa.
«Por causa da mãe, que não parava de pedir, não parava...»
«E com isto tudo, já não temos duas horas, porque meia já passou. Temos uma e meia, e quando acabarmos de discutir já
não teremos nenhuma...» — disse Antonino. As crianças a olharem, amedrontadas, a verem a vida acontecer muito diferente da
televisão.
Felícia, no meio da deserção geral, ainda disse — «Um momento, vamos ter calma, vamos pensar tudo direito. Eu também o
vejo magrinho, mas não a morrer. E assim, só com duas horas, que já nem são, também nem vejo o que possa acontecer de
importante. Minha gente, minha gente, vamos lá todos entrar para dentro...»
«Mas para dentro onde? Na casa de quem?» — perguntou Gabriel.
«Para dentro, vamos lá, vamos lá...» — disse Felicia Mata, para não ver tudo perdido. «Não é preciso discutir. Portanto, o
Janina fica aqui a dormir, já que veio a dormir e só precisa dormir. E cada um vai às suas vidas...» A voz de Felícia tinha
perdido o ímpeto. Era a voz da glória, alta e emposta, mas partida ao meio, desconjuntada. E na verdade cada um tomou o seu
lugar nos antigos pavilhões onde antes, muito tempo antes, se conservavam os peixes, e Janina, que parecia ter tomado um
comprimido de inanição, dos fortes, um Xanax ou um Valium 10, deitou-se a dormir no quarto da música.
«Se trazem duas horas, já só falta pouco mais do que uma...»
Gabriel falou baixo — «Tem aí a chave da carrinha do Janina?»
Ofendida, Felícia virou um púcaro sobre a mesa e entregou-lhe a chave, sem falar. Gabriel e o rapaz cor de leite partiram.
O manager no carro vermelho, Gabriel na carrinha do Janina. As duas viaturas vermelhas, uma atrás da outra, a arrancarem
em cima do cômoro. Felícia assistia. Olhou para o relógio. Não era pessoa de olhar para relógios, mas aquela recepção
frustrada tinha demorado três quartos de hora. Dispunha de pouco mais de uma hora para ter o filho Janina deitado numa cama
da sua casa. Parecia mentira. Ao regressar ao pátio, ele estava vazio porque todos tinham recolhido, amuados com a vida, e no
entanto todos teriam querido mostrar, mais que não fosse, as gravações triplicadas. Fazer ao menos algumas perguntas. Nem
sabiam como se iria chamar o novo disco de Janina. Felicia passou pela porta do quarto da música, e sentiu vontade de
chorar. O que era aquilo? Dentro de uma hora vinham buscar o Janina, e ela não o podia acordar?
Felicia tomou alento, aproximou-se da porta, e batendo de leve, entrou. Janina quase acordava. Mas ela sentou-se sem fazer
ruído e disse muito baixo — «Desculpa, Janina, eu ter entrado, mas a tua mãe está só aqui, e está calada. Vai dormindo...»
Janina não estava completamente a dormir. Estendeu uma mão para a mão de Felicia e apertou-a. Felicia disse de novo,
muito baixo — «Fizemos três gravações de tudo. Tens ali uma prateleira nova só para ti. Quando acordares gostava que
visses...Vai dormindo. Eu nem aqui estou».
Janina apertou de novo a mão da mãe. Estava mesmo exausto e arrependido até de ter vindo. Falava e respirava como se
não estivesse completamente a dormir.
«A tua avó é que está muito velha. Põe-se a dizer que não é a tua voz, coitada... Ainda nem sabemos como se chama o teu
novo disco».
«Disco Solar» — disse o dorminhoco, no seu sono entrecortado. Lá fora, a noite a cair densa, de mistura com o nevoeiro,
como se fosse uma outra região da Terra.
«Que lindo! Disco Solar. Vai ser muito maravilhoso. Lindo nome. Parece mesmo o Sol a mergulhar no mar. Quem
escolheu?»
Janina não respondia. Imerso na penumbra vermelha escura do quarto da música.
«Quem escolheu?»
Como ele não respondesse, ela calou-se, ficou sentada. Depois saiu. Ao menos tinha falado com ele. Passadas as duas
horas, iriam dormir todos no Hotel Continental. Ela nem sabia onde isso ficava. Onde ficaria esse Hotel Continental, esse
lugar ideal onde todos poderiam descansar à vontade? Como seria esse lugar?
Depois a noite fechou-se completamente. Eles não vinham. Janina dormia lá no quarto, a sono solto. Gabriel, tal como já
durante a tarde, mantinha o telefone desligado. Depois, depois. Felicia ficou à porta. Toda a noite. Terrível noite. Já de
madrugada, chegaram as duas viaturas, estacionaram de manso, entraram de manso, e Gabriel disse à mãe — «Passámos a
noite no Bairro dos Espelhos. Vamos aí fazer o videoclipe para o disco do Janina. Passámos a noite a discutir isso, no próprio
local. Agora já não fazemos as filmagens só no mar, fazemos sobretudo no Bairro dos Espelhos...»
«Ali, no Bairro dos Espelhos?»
«O que é que eu estou a dizer?»
Sim, se era assim, então tudo tinha coerência, ser cantor nesta vida era muito difícil, e ser seu acompanhante e manager
também. Pois ela desconhecia que era assim, imaginava que tudo se processava numa espécie de festa, como no tempo recente
em que Janina actuava a partir da carrinha, de terra em terra, de sala em sala. Ora com banda ora sem banda. Ela mesma não
passava duma pessoa inculta e um pouco parva, era o que era. E talvez o sono de um e a exasperação do outro fossem parcelas
indispensáveis para a construção de um disco, e ela nem sabia. Fosse como fosse, inculta e bruta que fosse, em matéria de
discos, quando os viu desaparecer na madrugada, Felicia teve a impressão estranha de que uma parte, que seria compreensível
existir no Janina, vivia no outro filho. Que uma substância qualquer se tinha deslocado de um para o outro, e nessa deslocação,
uma conta estava errada. O nevoeiro idiota, como uma oferenda ruim enviada de longe, persistia, e ela não via claro, mas
sentia. A vaidade, a soberba, a impaciência e o sentimento de triunfo, que poderiam existir com alguma razão no coração de
Janina, tinham passado para os olhos do seu irmão. O sucesso de um chocalhava na cabeça do outro. Embrulhado na manta, o
Janina continuava a ser um rapaz doce e frágil. Um doce frágil, com força de vontade. Que milagre era aquele? Sem dúvida
que Deus zelava por ele. Quando ele precisava, devia dar-lhe a força que parecia não ter. Ela sentia uma parte do que estava a
acontecer insondável, uma espécie de mistério presente. O enigma a produzir dentro dela um mal-estar, um sentimento
estranho de náusea, uma vontade de expulsar alguma coisa que a incomodava, alojada em parte incerta. Felícia, gorda e forte,
muito mal disposta, a tremer por dentro. Uma indisposição que não sabia se era orgânica se mental, fruto da surpresa que tinha
vindo ter com ela, acompanhando o Janina. E Felícia, nessa manhã, tinha entrado para dentro de casa, a cambalear um pouco,
só um pouco, antes de se ir deitar. Ultimamente, nem sequer tinha tido sonhos maus. Nem o telegrafista da Praia nem a sua
mulher magrinha a tinham apoquentado, mergulhados lá na sua vida passada, deixando-a em paz. E no entanto, aquela visita
relâmpago dos filhos até lhe parecia uma irrealidade sonhada. Deveria haver acontecimentos que não eram sonhos nem factos,
independentemente de serem bons ou maus, e para os quais não havia nome. «Ai!» — suspirou Felícia, deixando-se cair sobre
a cama, na sua cozinha que também era quarto.

Foi então que teve início o episódio do carro grená.

Pois logo de seguida a terra amarelada e grumosa foi devolvida pelo nevoeiro e a areia apareceu fossada pela água, o mar
batendo com um pouco de arrogância, apenas como se uma mão mais forte o atirasse contra o cordão das Dunas Fêmeas, onde
Antonino Mata e a nossa prima Milene se estendiam, lado a lado, aos sábados de tarde. Durante duas horas, aí ficavam
deitados, a fecharem os olhos, a abrirem os olhos, sem falarem no futuro. «E agora, o que vamos fazer?» — perguntava ele,
por vezes. «Eu estou à procura do caminho, sei que o caminho é em frente, mas qual é o caminho?» E não continuava. Milene
tinha a resposta, queria que ele fizesse amor com ela. «Faz amor comigo» — pedia Milene.
Umas vezes Antonino desmanchava-se a rir, como se ela acabasse de dizer uma charada. Ela via-o sacudir a cabeça, de
olhos fechados, a rir, o pescoço móvel como se tivesse muitas vértebras soltas. Mas outras vezes, o viúvo ficava calado,
muito sério, a pensar. Sentado, direito, muito estático — «Não, não pode ser, não somos casados. Tu não és a Divina, a Divina
tinha tido maridos, era diferente. Contigo não, não pode ser. Não somos selvagens. O homem da minha ilha, badio di pé
ratchado, tem sempre muita mulher, mas eu não gosto, a minha educação foi diferente, eu respeitei Eunice e agora respeito-te a
ti. Não vamos falar nisso...»
«Vamos» — insistia ela.
«Não vamos. Não somos selvagens...»
Milene sentava-se também — Selvagens? O que queria ele dizer com isso? Por ela, não seria assim. Quando se deitava na
areia, em cima do quispo, era como se aqueles encontros fossem a consequência lógica e irreversível da tarde em que ela
havia deixado o Frutuoso dentro do BMW, enquanto caminhava na direcção das gruas, vendo-as ao fundo a indicarem-lhe o
caminho para uma urgente tomada de decisão, e ela a obedecer-lhes, a andar sempre em frente, sem voltar para trás. Para ela
tinha sido aquele o dia. Milene achava que Antonino estava equivocado. Porquê selvagens? Ele permanecia calado. Em
resposta ao que ele não dizia, ela perguntava mais uma vez — «Porquê selvagens? Porquê...»
«Não vamos falar nisso agora» — respondia Antonino.
Era como se tivessem combinado não só nunca falar da dor, mas também estivessem impedidos de falar de projectos. Em
chegando ao portal do futuro, a conversa sofria uma espécie de curto-circuito. Ele tirava-lhe o barrete vermelho-ferrugem e
beijava-a de novo.
Deitados sobre o quispo, beijavam-se. As cabeças frias, quase molhadas. Até que desistiam do fim de sábado e procuravam
a carrinha cinzenta, parada atrás das dunas, dispostos a regressar. A aragem a mover-se do interior da areia, a entrar nas
roupas e nos sapatos, agarrados um ao outro, a caminharem na direcção do campo aberto onde se encontrava a Mitsubishi.
Mas naquela tarde, a viatura de Antonino não estava sozinha, havia outras carrinhas.

Mais precisamente, ao lado da Mitsubishi encontravam-se três carros e duas carrinhas. Era ali, onde a estrada de areia
batida desembocava sobre o campo aberto, que estavam estacionadas as viaturas. Os rodados cruzavam-se uns sobre os
outros, deixando sucessivas marcas na areia. Naquele preciso momento, os carros tinham começado a movimentar-se. Talvez
os outros ocupantes sentissem o mesmo frio que eles sentiam, e tendo desistido de atravessar para o lado do mar, voltassem
agora para suas casas. Talvez. Havia vários homens e entre eles, uma mulher. A carrinha cinzenta teve de parar, aguardar que
os outros iniciassem a marcha. Eles mesmos permaneciam no seu interior, esperando que os outros se afastassem. Fosse como
fosse, aqueles carros constituíam uma espécie de caravana organizada, e um deles, o carro que tinha ficado para trás, à
distância de uns escassos trinta metros, era igual ao que havia trazido o Janina, a viatura vermelha onde chegara e partira
dormindo. Esse carro permaneceu quase parado até os outros ganharem distância. Só então arrancou definitivamente,
desenhando uma curva rápida, e nesse movimento de rotação o perfil do condutor mostrou-se por inteiro, e Antonino Mata
nele julgou reconhecer o rosto do manager.
«É o Janina» — disse Antonino. «O que fazem eles aqui?»
O carro vermelho-grená corria a razoável velocidade, Antonino correu atrás.
«Estamos a persegui-los?» — perguntou Milene, sem compreender tamanha precipitação.
Mas aí já Antonino tinha reflectido.
Não, não valia a pena ir atrás fosse de quem fosse. Não tencionava perturbar ninguém. Eles deveriam ter vindo à procura de
imagens para o videoclipe e teriam ficado hospedados por certo no Hotel Continental, para evitarem a barafunda doméstica
daquela casa terrível onde toda a gente queria mandar. Mesmo assim, continuavam no mesmo trilho, o carro vermelho à frente,
a carrinha cinzenta atrás, os da frente já desaparecidos. Antonino tinha razão, estava tudo explicado. De facto, ao chegarem à
curva do Hotel Miramar, o carro vermelho inflectira na direcção do Bairro dos Espelhos. Estava tudo mais do que explicado.
O videoclipe de Janina andava em construção por ali.

Dias depois, era manhã cedo, Milene não estava presente. Antonino dirigia-se para o trabalho, e ao passar pela estrada que
fazia ligação com o caminho de terra batida que conduzia ao interior, de súbito, tinha visto um carro vermelho igual ao do
manager surgir de frente e depois passar-lhe ao lado. A mesma sensação de que dentro do carro seguia o rapaz cor de leite,
sem no entanto conseguir identificá-lo com segurança. Mas ao chegar ao entroncamento, o carro flectira precisamente na
direcção do Bairro dos Espelhos. Vira pelo retrovisor. Era por certo o videoclipe do Janina em construção. Ou poderia não
ser. Deveria haver centenas de carros da mesma cor e da mesma gama, ele é que nunca tinha reparado nos Alfa-Romeos
vermelho-grená, com cromados reluzentes. Agora sim, haveria de reparar. Era igual ao que havia transportado os seus dois
irmãos, Gaby e Janina, no dia do nevoeiro.
Uma semana mais tarde, Antonino passava com as crianças pela mesma estrada. Excitado, Emanuel tinha-se posto em pé no
banco de trás, gritando — « Olhem ali o carro do Janina, o carro do Janina...» O retrovisor assinalava precisamente o carro
vermelho, no momento em que inflectia na direcção do Bairro dos Espelhos. Antonino tinha virado a carrinha no meio da
estrada, tomando o caminho de terra. No bairro, só havia duas ruas por onde o trânsito passava, e quanto a largo, largo
propriamente dito, só havia um. Desta vez iria perceber quem conduzia um carro igual ao do manager do Janina. Acelerou. As
crianças cambalearam para trás, de tal modo a carrinha ultrapassava aos solavancos os buracos do pavimento. Zarpava por ali
adiante. A uma centena de metros antes do largo, ainda tinha visto o carro a desaparecer, um volume vermelho-escuro a sumir-
se entre paredes de cimento e telhas de zinco. Quando tinha chegado ao largo, havia abundante gente pelas portas, mas
ninguém tinha visto o carro vermelho-grená.

Debruçado na janela, Antonino falou da cor e da configuração do carro.


«Não vimos nada. Se passou por aqui, sumiu...» — disse um rapaz bastante lento que se afastou da porta.
«Se estava, deu de frosques, meu, que ninguém o viu...» — disse um outro, um pouco mais rápido, saindo do lugar para
pesquisar o horizonte trancado pelas casinhas cinzentas. Pela primeira vez, Antonino teve a ideia de que desconhecia aquela
gente. Onde estavam os miúdos a quem no Verão passado tinha lançado Pringles? Onde? Olhava em volta, e todos eles lhe
pareciam ser outros. Formavam um friso compacto mas ninguém, entre miúdos e graúdos, tinha visto o que ele próprio
perseguia — Um belo carro verme lho, a saltitar na estrada do Bairro dos Espelhos, levando ao volante um rosto branco, cor
de leite.
«Pois muito bem...» — tinha ele dito.
E assim desistia.

Lá em Ribeirinho da Praia contavam-se lendas de motorizadas e carros que eram dirigidos por condutores sem cabeça.
Outros diziam ter testemunhado percursos de viaturas que não eram conduzidas por ninguém. Mas ele não ia voltar para trás,
não ia supor que andavam carros fantasma a correr entre as Dunas Fêmeas e o Bairro dos Espelhos, de propósito para o
deixarem louco. Já tinha de mais em que pensar. Havia deixado Divina, tinha-se apaixonado por Milene, uma branca de
família rica. Então o que ia fazer da sua vida? Até onde iria, perdido de amor por aquela rapariga mais velha do que ele, que
se parecia na alma e no jeito com Eunice, e lhe entrava no coração e na pele, constantemente? Com quem queria passar o dia e
desejava dormir a noite inteira, para fazer amor com ela até amanhecer? Em quem pensava, fixamente, como uma doença, e
com quem agora mesmo iria ter, assim que deixasse os filhos à porta de casa? Não, não iria permitir que a história de um
carro, que via sumir-se e aparecer, como nas lendas de Ribeirinho, lhe viesse atravancar a alma.
Antonino tinha dado meia volta, no único largo do Bairro dos Espelhos, onde de repente parecia não conhecer ninguém, nem
ele próprio ser reconhecido fosse por quem fosse, e deixando para trás aquelas criaturas circunspectas segurando as
ombreiras das portas, tinha galgado o caminho de terra, na direcção da Fábrica Velha, para tratar da sua própria vida.
XIX
Na manhã do domingo seguinte, Milene sentou-se no banco traseiro do BMW e deixou-se conduzir pelo Sr. Frutuoso, rumo
à casa do tio Ludovice. Ao lado, as árvores corriam como se as suas raízes tivessem electricidade, o céu como se fosse
ilusório e inumano, e o mar, distante e inalcançável. Seres e casas rolando sobre o chão, naquela hora da manhã, pareciam-lhe
pedaços de pássaros pesados que não conseguissem voar.
Mas aquele momento não tinha nada a ver com o que se seguira ao quinze de Agosto, quando ficara em estado de choque —
Porque desta vez eu não vou ficar em estado de choque. Mesmo que eles saibam de tudo, eu vou responder como uma
pessoa forte, muito mais forte do que eles. E como eu vou dizer a verdade, nada me pode acontecer... Milene acomodou-se
dentro do carro e encarou a realidade. A realidade resumia-se a um céu escancarado de lés a lés, muito alto, como se a terra
não ocupasse lugar. Rente ao rodado, as bermas eram estreitas ruas em forma de vereda, ladeando as casas, guardadas por
barreiras de segurança. E se ela, ali dentro, se unia à matéria do assento, era para dali a minutos ter coragem para enfrentá-los
— Seus velhos, seus totós, sua cambada, vão, vão... De resto, Milene não sabia de nada.

Milene não sabia que as principais estradas de Valmares tinham começado a ser vigiadas por patrulhas de polícia desde a
noite anterior, estando o trânsito a ser controlado desde as sete da manhã. — Tratava-se da inauguração dum complexo
desportivo que incluía ginásios, pistas de corrida e salto, cortes de ténis e uma piscina olímpica, dois lagos naturais no meio
de relva, um posto de observação de aves e ainda o lançamento da primeira pedra de um instituto de solidariedade para
velhos e órfãos. Embora o que se inaugurasse, verdadeiramente, fosse uma nova urbanização, palavra que tinha deslizado do
seu significado de origem, até designar uma massa habitacional composta de cerca de mil casinhas enganchadas umas nas
outras, escorregando pela falésia abaixo. E era isso, essa enfiada de minúsculas habitações, expostas ao sol como cascas de
moluscos gregários cuja parte mole ainda faltava encontrar, e para o qual era necessário uma movimentação de vulto, que se
estava a inaugurar com uma maratona internacional.
Àquela hora — seriam umas oito e meia da manhã — já os maratonistas corriam, depois de ter sido disparado o tiro de
pólvora seca, e o terreno em volta ter estremecido sob o impacte da largada humana. O percurso havia sido delimitado por
fitas brancas, palavras de Welcome e Benevenuto, e outras faixas semelhantes, dizendo o mesmo em outras línguas, tinham
sido dispostas por toda a parte. À beira das ruas transformadas em pista, havia magotes de gente, por aqui e por ali, para ver o
grupo compacto deslocar-se ainda folgado. E a presença de câmaras e carros de reportagem agitava por completo os curiosos,
enquanto as patrulhas da polícia desempenhavam com normalidade a sua tarefa. Tendo assumido o seu papel de ferocidade
própria para a ocasião, os agentes dirigiam o trânsito com gestos de grande firmeza, fazendo movimentos de mando com
braços a que faltava ginástica. Observados de longe, dir-se-ia que faziam gestos obscenos, ao mandarem seguir ou parar. De
caras fechadas, trancadas por dentro, exerciam em pleno uma autoridade que deveria ter tido aqueles exactos traços desde
sempre, e por isso, por reconhecimento ancestral, proporcionava tanta felicidade a quem a exercia e a quem de boa vontade a
aceitava. Aliás, os poucos que desobedeciam e refilavam, também pareciam contentes. Gente que em geral não via polícia
durante vários meses, podia agora gesticular em frente de alguns agentes, de súbito visíveis, dispondo da grande oportunidade
de gritar, a plenos pulmões, como estava a ser lesada em alguns minutos de vida. Gritavam impropérios gravosos, palavrões
que em geral só costumavam sair de boca de pessoas durante uma zaragata aberta ou, antigamente, quando era preciso lutar
contra a teimosia dos animais de carga. Foi assim que Milene ouviu dirigirem-se-lhes insultos, a ela e ao Frutuoso, como se,
dentro do carro, os dois juntos fossem faces da mesma moeda — Seu chulo, seu escravo... E tu aí, minha cabra repimpada,
vai-te coser, vai-te catar... Era o mínimo que tinham ouvido, quando o BMW antracite, depois de atravessar as barreiras de
segurança, começara a rolar pela pista reservada aos maratonistas, com a cumplicidade de polícias cujos gestos, para a
esquerda e para a direita, se assemelhavam a borregadas. Mas Milene não sabia de nada. Só sabia que a tinham ido buscar às
nove horas da manhã, e agora ali ia, entregue ao assento, a pensar nos tios e na forma como iria enfrentá-los.

Aliás, o Sr. Frutuoso, que conduzira a uma velocidade louca ao longo daqueles quinze quilómetros em que a via rápida
servia de pista, ainda não lhe tinha dirigido palavra. Foi só no momento em que tomaram a estrada secundária que conduzia ao
Condomínio Atrium, que ele lhe disse — «O Senhor Engenheiro sentiu-se muito mal, na abertura da maratona...» O motorista
não lhe falava desde o dia em que ela se tinha escapado pelo campo fora, no entanto, tinha ido arrancá-la à cama, meia hora
atrás, tocando furiosamente à campainha de Villa Regina e depois, quando ela aparecera na varanda, havia-lhe dito — «Tenho
ordem para levar a sobrinha da Senhora Dona Ângela Margarida...» Como se ao falar com ela se dirigisse a uma terceira
pessoa.
Logo nesse primeiro momento, Milene tinha pensado que a sua relação com Antonino fora descoberta. Que Antonino tinha
razão — se fôssemos transparentes, se fôssemos invisíveis. E havia-se preparado mentalmente, ultrapassando o efeito do
estado de choque. Isto é, se a tia Ângela Margarida e o tio Ludovice lhe perguntassem se era ou não verdade, ela iria levantar-
se e dizer o pior de que era capaz, para cortar pela raiz qualquer hipótese de discussão. Ela diria — Seus totós, seus velhos,
sua cambada, vão meter-se na vossa vida. Eu adoro ele. Já fui milhares de vezes beijada. Tenciono fazer amor com ele,
assim que ele consinta. Vão, vão... E como de regresso não iria dispor de viatura, tinha imaginado um longo percurso a pé,
para libertar a sua raiva. Mas ao aproximarem-se dos territórios disciplinados do Condomínio Atrium, cuja entrada
apresentava um frontão triangular e um tritão de rabo enrolado, o motorista resolvera adiantar aquele novo detalhe,
inesperadamente. Ao abrir-lhe a porta, o Frutuoso até a tinha avisado — «Cá por mim, não sei o que se vai passar. É que o
Senhor Engenheiro sentiu-se muito mal...»

Não seria então o caso de Antonino? Seria outro caso?

A certeza, Milene só a teve quando subiu o elevador e entrou no duplex dos tios Ludovice. Entrou no salão. Nada do que via
poderia estar relacionado com a pessoa de Antonino, e o que se via eram os pertences do tio espalhados pelo espaço
considerável daquela sala. — O casaco castanho encontrava-se pendurado numa cadeira, a camisa e o cinto numa outra, e no
chão, junto duma porta, como se eles mesmos fugissem, desencontrados, estavam os dois sapatos. Também as meias deveriam
ter sido retiradas à pressa, porque jaziam, amarrotadas e caídas, cada uma para seu lado. Enquanto isso, o próprio tio
encontrava-se estendido em cima dum sofá espanhol de baixo espaldar, a que haviam sido retiradas as almofadas. Um
aquecimento suplementar havia sido colocado perto do tio, e os dois pés, descalços, sobressaíam das calças, nus e magros,
parecendo duas tábuas de passar ombreiras. O tio não estava morto. Ao lado encontrava-se a tia.
Aliás, a tia Ângela Margarida dispunha de um recipiente com um líquido onde nadava um pano branco, e sobre uma
banqueta havia várias bisnagas. De uma delas a tia fazia sair um gel com o qual untava os ombros e o peito do tio.
Aparentemente, tratava-se duma fricção e Milene calculou que o tio Rui Ludovice estivesse apenas profundamente cansado.
Andava sempre a dizer que cada dia dos seus era uma ópera romântica, e que o próprio mundo autárquico se assemelhava a
uma pintura de Brueghel Velho, onde as realidades mais inocentes vinham sempre acompanhadas de peixes-lua e ovos de
serpente, a fim de lhe darem conta de qualquer sonho de paz. Cansado, com razão, da diversidade de assuntos, que ia da
responsabilidade pelas filarmónicas, seus bombos e pífaros, até ao tratamento de dejectos, humanos e animais, passando pela
elevação de vilas a cidades e pela transformação de areais desertos em estâncias turísticas de bandeira azul. Cansado. Por
certo que o tio Rui Ludovice havia tido um golpe de cansaço. E Milene tinha ficado a ver o tio e a tia naquela posição, no
meio do grande salão do duplex, com janela panorâmica, diante da qual se avistava o Oceano com seu nulo tráfego, e não
sabia o que pensar. Sob a massagem da tia Ângela Margarida, o tio parecia cada vez mais aniquilado. Mas não para morrer.
Os pêlos do seu peito, onde já havia fios brancos, subiam e baixavam a um ritmo que a ela lhe parecia normal. Ela já tinha
dito bom dia, e ninguém lhe dissera nada. Então porque a tinham chamado? Para quê? Mas o tio deu pela presença dela e abriu
os olhos.
Tudo se esclareceu.

Era como se, entre o último momento em que Milene tinha visto o tio Rui Ludovice, naquele dia em que se zangara com ela
por causa da Guernica feita aos pedaços, e aquele mesmo instante, não tivesse havido intervalo. Mal ele abriu os olhos, ela
percebeu que o tio continuava sob o efeito do mesmo estado de cólera. Uma cólera activa que fazia mover-lhe as pupilas e as
pálpebras, como se os olhos do tio ardessem. Percebia-se que toda a força da Acção que havia no tio tinha passado a
concentrar-se apenas nos olhos. Melhor dizendo, no olhar. Milene ficou com medo — «Bolas!» — disse ela, recuando um
passo.
Mas a tia fez-lhe um sinal de sentido contrário.
«Fala aqui com o teu tio, por favor...»
O tio tinha feito menção de se levantar, a tia não deixava. À autoridade de mulher, juntava a de enfermeira. Via-se que o tio
dependia de ambas. A tia Ângela Margarida, a autoridade, disse muito depressa — «Fala aqui. Ele está muito cansado e tem
de sair dentro de meia hora por causa da maratona, tem de estar presente no acto de cortar a meta, e ainda aqui está. O tio tem
uma suspeita e quer que tu a desfaças ou confirmes...»
Milene tinha começado a sentir o duplex andar à roda. Para responder à situação de Antonino estava preparada, sabia o que
dizer, mas só para isso, para mais nada. E o tio a soerguer-se no sofá e a olhar para ela, com aquelas luzes nos olhos. Aquela
cólera desenrolada. Sem mais nem menos, ele perguntou-lhe — «Ouve lá, lembras-te ou não do que aconteceu no dia do
enterro da tua avó?» E voltando a deitar-se e a entregar-se de novo às mãos oleadas da tia Ângela Margarida, fechou os olhos.
Ficou só ouvidos.

Era a cabeça do tio Rui Ludovice a ferver. Os ouvidos do tio abertos sob o cabelo basto, seu rabicho afastado do pescoço.
Ela olhava para ali, para ganhar tempo. Na sua cabeça, as coisas demoravam a tomar o seu lugar. Isto é, de novo, voltavam
àquele assunto que eles nunca mais arrumavam, e de que ela já não se lembrava, ou só se lembrava com um grande esforço, um
esforço tão grande que, naquela hora da manhã, ainda em jejum, lhe provocava náusea. Milene disse para a tia — «Tia,
desculpe...» A tia respondeu-lhe «Lembra-te do que te puderes lembrar. Do que não puderes, não te lembres. Vá, o teu tio
meteu na cabeça que precisa de se desenvencilhar da dúvida que o assalta, antes do fim da maratona, por causa de pessoas que
lá vão estar e a quem apertará ou não apertará a mão, dentro de meia hora. Responde lá ao que o tio perguntou. O que
aconteceu naquele dia?»
«Já disse...» — respondeu Milene, incapaz de continuar.
Depois concentrou-se. O tio, de olhos fechados, a tia à espera. Ainda sentia náusea, mas disse — «Pronto, foi assim — Eu
estive várias horas sozinha, na Igreja de São Francisco. Estive só com a avó e com as flores. Ninguém aparecia. A certa altura
apareceu uma mulher com os buchos das pernas quadrados, um homem e o padre já vestido e preparado. Depois é que eu
entrei no carro funerário, no meio das flores, conjuntamente com o corpo da avó. A avó já lá não estava... Fomos para o
cemitério e só havia jazigos e ciprestes e campas, e eu ali com eles, sozinha. Ninguém me disse nada. O corpo da avó entrou
lá para dentro, mas ela já lá não estava...»
Milene tinha deixado de se sentir muito mal. Já se lembrava de tudo. Não tinha comido nada mas lembrava-se. João Paulo
costumava pedir-lhe que falasse rápido, que pensasse apenas no que tinha a dizer e não no efeito das suas palavras. Ainda bem
que o tio Rui mantinha os olhos fechados, porque assim ela só olhava para os ouvidos do tio, para as bordas do pavilhão onde
os pêlos haviam sido recentemente cortados. Não pensava no tio, só nos ouvidos e no corte dos pêlos. Mas o tio seguia as
palavras dela, e ela teve a certeza, porque ele se soerguia de novo. Milene fez um esforço redobrado para só pensar nas
feições do tio sobre as quais a cólera não era visível.
«Volta atrás, por favor. O que aconteceu na Igreja? O que fez o prior?» — Os olhos dele descidos.
«Benzeu-se e falou...»
«O que é que falou? O que é que disse?»
«O que é habitual um padre dizer...»
«E depois?»
«Depois começou a pregar. Era como se estivesse lá uma multidão. Ele deveria gostar muito da avó Regina. Defendia a
avó, mas ela já lá não estava...» — Os ouvidos do tio ofereciam-se de lado, e Milene falava directamente para dentro deles,
evitando a interferência dos olhos, bem como dos cabelos luzidios do tio. «O padre falava, falava, eram para aí já umas três
da tarde, e eu naquilo. Como agora mesmo, eu não tinha comido nada...»
«Já comes...» — disse a tia. «Anda aí a maratona a correr, e o teu tio aqui. O tio sentiu-se muito mal. Desculpa lá, fala lá
com o teu tio...»
O tio perguntou — «Diz-me, Milene, ele só falou ou também leu?»
«Ele leu e depois falou a propósito do que leu...»
«E o que leu ele?» «Já disse. Se não disse, preparei-me para dizer, e ninguém me quis ouvir. Agora até já estou esquecida
de muita coisa que aconteceu, porque eu fiquei em estado de choque. Mas disso lembro-me bem. Ele leu o Juízo Final».
«Tu tinhas dito que era o Livro da Sabedoria, e agora dizes uma coisa diferente».
Milene irritou-se — «Ufa! Eu já começo a estar pelos cabelos, tio. Eu disse, se é que eu disse, e se alguém me ouviu, que
ele disse assim — Livro da Sabedoria, Juízo Final...»
O engenheiro Rui Ludovice deixou-se cair sobre o sofá, mas não era por decepção, era por alento. A prova é que pediu à
tia, que mantinha as mãos bastante untadas, que alcançasse a Bíblia — «Angelita, vai à estante e traz a Bíblia, eu tenho um
feeling que não me engana. Traz lá, abre lá nessa passagem. Eu acabo de ver o olhar dos gajos a desviarem o olhar do meu e
de repente tive o feeling, eu percebi tudo, eu só quero confirmar...»
Entretanto, a tia tinha-se desembaraçado do gel e havia feito descer da estante uma grande Bíblia ricamente encadernada,
que nunca deveria ter sido aberta, por causa da configuração dos fitilhos ainda dobrados. A tia não se dava com aquilo. O tio
disse para a tia — «É como um dicionário ou uma lista telefónica. No todo procura-se a parte, e dentro da parte, a rubrica ou a
palavra que se quer. No caso da Bíblia procura-se também o versículo...» Mas a tia não dava mesmo com o Livro que
procurava e passou ao tio. A tia ia dizendo — «Ainda perdes o corte da meta, por causa dessa tua ideia fixa, ainda perdes...»
O tio folheava a Bíblia dum lado para o outro. Era um volume descomunalmente pesado. Dum lado para o outro. Mas já tinha
encontrado o Livro da Sabedoria. Teve de colocar os óculos para achar o Juízo Final. Ali estava. Reclinou-se. Entregou o
grande livro aberto mais ou menos a meio, o livro escachado. O tio disse, fechando os olhos, aliviado pelo menos por ter
encontrado a fonte. Disse, na direcção de Milene, a nossa prima Milene — «És capaz de reconhecer se ele leu ou não isso que
dizes?»
Milene não queria comprometer-se.
A nova prova trazia-lhe a náusea outra vez. Sentia-se metida numa teia, percebia que à sua volta havia forças que
gravitavam furiosamente, as quais ela não dominava nem via. Como ela não respondesse, o tio Rui pediu à mulher — «Lê, e
ela confirma ou não confirma...» A tia, antes de pegar no enorme volume aberto ao meio, e começar a ler, acrescentou —
«Milene, não precisas de falar — Quando reconheceres qualquer palavra, qualquer frase, levantas o braço. É assim que eu
faço com os doentes na Clínica. Menos esforço do que isto, não há...» E tinha começado a ler — «Então, com grande
confiança, o justo levantar-se-á em face daqueles que o atribularam, e desprezaram as suas obras... Lembras-te disto?»
Milene não tinha a certeza. Ela continuou a ler, a ler, o tio de olhos abertos à espera que ela levantasse o braço, ela não
levantava. Quando a tia leu Errámos pelos desertos sem caminhos, e ignorámos o caminho do Senhor, ela levantou o braço.
Mas não tinha a certeza. Só levantou o braço firme quando a tia começou a ler — «Tudo isso desapareceu como a sombra,
como uma notícia que passa, como um navio que vai...» Aí, Milene pôs-se de pé.
«Sim, ele leu isso mesmo e foi sobre isso que falou...»
O tio Rui Ludovice retirou a Bíblia das mãos da sua mulher — «Eu sabia. Ela já confirmou...» O tio lia em voz alta,
apressadamente, galgando as linhas. O tio leu — «Os raios partirão como setas bem dirigidas...»
Milene levantada.
«Tio, ele fez o sermão sobre isso. Só eu estava lá, mais as flores e a caixa fechada, e o sol entrava por ali dentro que até
fazia calor, e ele falou sobre os raios que haveriam de partir todos aqueles que desfaziam a vida das pessoas justas e boas, se
não neste mundo, então no outro. Mas disse que era melhor ser neste mundo, para depois as pessoas terem tempo de ler o
sentido das suas vidas e se salvarem... Os raios partirão como setas bem dirigidas... Tenho a certeza».
Milene não tinha comido nada e falava sobretudo para dentro dos ouvidos do tio, agarrada à lembrança da realidade que
vinha ter com ela. Mas viu a tia e o tio a fixarem-lhe o rosto como se a aprisionassem.
«Tens a certeza?»
Sim, tinha a certeza. Não tinha a certeza sobre o local onde a avó havia ficado, mas sobre o sermão do padre, isso tinha.
O tio Rui pediu à tia que alcançasse o dossier atinente àquele acontecimento de Agosto, o que deveria ser um assunto
central na vida deles, porque um monte de folhas recortadas estava logo ali à mão, numa gaveta dum móvel. A tia entregou ao
tio Rui o molho delas, ele leu em sussurro algumas passagens que estavam sublinhadas. E em voz alta, leu parte do
comentário. Leu, enojado — «É mais ou menos por aqui — Todos os seus familiares se encontram a passar férias não só
fora do País, como longe da Europa, tendo declarado a sua sobrinha que não sabe bem se no Japão ou na China...
Etcetera, etcetera — Comentários bem depreciativos são feitos por colaboradores próximos, que entretanto encerraram as
instalações camarárias... Fala-se de grande falta de humanidade e desrespeito, já que Regina Leandro foi figura
proeminente na actividade industrial... Aqui está — Setas bem dirigidas contra quem abandona os seus... Se abandona os
seus, como não abandonará os simples que não lhe são nada? Em pleno Agosto, a notícia do acontecimento teve o efeito de
um raio desferido contra o coração de todos aqueles que ainda depositavam confiança na sua administração, até ontem...
Diz-se...» O tio a repetir aquelas linhas, revoltado, emocionado — «Pois aqui está, aqui está, eu sabia, esta prosa barroca,
toda às curvas e contracurvas, afinal era da autoria deles... Foram eles que tramaram tudo, desde o início...»
O tio relia a passagem das setas e dos raios, com o alvoroço de quem descobre uma teoria revolucionária. Próprio de quem
confirma que o Mundo se organiza como uma grande intriga, sem mistério algum. O tio Rui Ludovice, engenheiro autarca,
sentado no sofá espanhol, a descobrir o cerne da maldade do Mundo. Com o desgosto de quem faz uma incisão na carne e
encontra um tumor maligno. O tio tinha ao. lado uma pilha de jornais daquele mesmo dia, a que deu um ligeiro piparote,
certamente muito mais forte do que deveria, pois matutinos e semanários, já lidos e sublinhados pelo assessor de imprensa,
desandaram e espalharam-se pela sala. No entanto, uma luz tinha-se acalmado no olhar do tio. A voz também. O tio Rui
dirigiu-se a Milene.
«E depois, durante o enterro, lá no cemitério, ninguém te disse nada?»
Milene concentrou-se outra vez. Sim, ela lembrava-se que lhe haviam perguntado qualquer coisa a que não tinha respondido
em voz alta, no entanto, se fosse repetir o que tinha pensado e não se lembrasse daquilo que o padre e a mulher dos buchos
quadrados tinham dito, ficaria mal colocada. Milene disse — «Não me lembro de mais nada...»

Entretanto, a tia vigiava insistentemente as horas, mas o tio tinha-se de novo encostado no sofá, os seus pés nus pareciam
estar cada vez mais frios. Ele disse, com os olhos fechados, apreciando muito Milene, tratando-a pelo nome até. A grande
pena era o conteúdo do que dizia — «Angelita, tu sabes bem, há mil maneiras de assassinar pessoas. Estes estão a assassinar-
me — Num dia como o de hoje, quando se dá início a uma iniciativa desta envergadura, com uma maratona onde correm
representantes de trinta e tantos países, quando tudo está impecavelmente organizado, desconhecem-me por completo. Só para
inaugurar o complexo, esta tarde, esperam-se nada mais, nada menos, do que três ministros de Portugal. Eu pus o meu empenho
directo e pessoal, eu arquitectei, eu convidei, eu arrisquei, mas o meu nome e a minha cara nem constam. Eu não existo.
Querem apagar-me do mapa...»
A tia Ângela Margarida reconstituía a pilha dos jornais, dobrando-os um a um, sem responder.
«Não digas que não, é tudo obra deles. Mesmo que a nossa sobrinha não o acabasse de confirmar, eu já sabia. Esta manhã, o
coadjutor do bispo nem me falou. Fingiu que não me viu, deu por ali uma volta e assim que pôde, escapuliu-se. E como ele,
outros já o têm feito. Mas ele, sempre tão cumprimentador, porque me não falou? Porque estão organizados. Daqui a pouco,
quando se cortar a meta e se entregarem as medalhas, vai estar o bispo em pessoa. Pois não serei eu quem lhe dirigirá a
palavra. Ao fim e ao cabo, querem apear-me. São eles que me querem apear escondendo-se atrás de outros, ou outros atrás
deles. Nem sei. Começaram a atacar-me, com o pretexto de que a tua mãe morreu a meio do mês de Agosto e eu não estava cá.
Pretexto estúpido, diga-se de passagem. O assunto, claro, já vinha de trás, é outra coisa. Seja que coisa for, em conclusão,
querem apear-me..»
O tio Rui tinha os pés apontados para a janela panorâmica onde o mar de Março ficava enquadrado, tão claro e manso que
se poderia escrever por baixo qualquer coisa como Repouso das Águas, e a cabeça na direcção da parede oposta, ao fundo,
onde uma estante até ao tecto estava carregada de livros grossos e discos compactos. A tia ia lá recolocar a Bíblia, subindo a
um escadote de madeira canforada. O tio, entretanto, deveria estar a vestir-se. Àquela hora, já os maratonistas se tinham
separado, os fortes à frente, os fracos atrás, os merdas muito atrás, e os merdas merdas já tinham desistido. E o tio deveria ir
rápido. Vestir-se, pôr no braço o seu sobretudo, um pouco de gel no cabelo, de perfume nos pulsos e nos sovacos e abalar,
quanto antes, até porque a estrada se encontrava cortada em determinadas zonas. Mas em vez de começar a agir, o tio tinha
caído sobre o sofá e não conseguia levantar-se. Os olhos do tio tinham perdido a chama e luziam muito pouco, estavam baços.
Imaginava a maratona. Vislumbrava uns lá à frente a correrem ainda fortes e frescos, dispostos para a disputa final, e os
outros, os merdas, esses já tinham ficado para trás. Os merdas merdas, tão para trás que já teriam desistido. E ele sentiu-se um
deles. Faltava para aí meia hora, segundo os seus cálculos, e o tio achava-se impotente para fazer face a figuras organizadas
contra ele para o eliminarem do mapa. Não, não ia calçar as meias, nem os sapatos, nem a camisa, só queria ficar ali, deitado,
a sentir-se um merda acabado.
«Acabou-se» — disse o tio.

Milene tinha começado a chorar. Era horrível o que estava a acontecer. As pessoas inteligentes como o tio Ludovice eram
capazes de descobrir ligações medonhas entre os factos, e para serem tão infelizes por isso, melhor fora não serem capazes.
Ela, por exemplo, não conseguia ver qualquer ligação entre as palavras do padre, dirigidas a favor da avó Regina, naquele
domingo de Agosto, e o horrível desmaio que estava a dar ao tio. E que tudo isso passasse por bispos e maratonas, ainda
muito menos. Mas eles viam essas ligações, por certo necessárias, e sofriam muito com o facto. O mundo deles era um enredo
só parecido com as cenas que às vezes a perseguiam nos pesadelos. Cães a correrem atrás dela para a atacar e a empurrarem-
na para campos sem horizonte nenhum. Ou só os dentes deles a aproximar-se dos seus calcanhares, sem ela poder lutar. Assim
deveria estar a ser aquele pesadelo do tio. Tinha puxado o barrete cor de ferrugem para cima dos olhos e cobria o rosto com
as mãos. Recusava-se a ver o tio naquele estado. Recusava-se. Soluçava por entre os dedos, abafando o som, guardando os
soluços na garganta e eles a soarem alto, sem os conseguir reprimir. Chorava abertamente. E contudo era necessário calar-se,
porque a tia, a seu lado, precisava de raciocinar a direito. Alguém, na hora do aperto, tinha de estar lúcido. A tia estava. A tia
controlava a situação como se fosse a Geena Davis a comandar os factos na Ilha das Cabeças Cortadas. Tal e qual. A tia
olhava para o pulso e depois para o tio, sem qualquer sinal exterior de urgência ou de tormento, tomando conta do barco. Um
timoneiro. O exemplo forte da tia fazia-a parar de chorar. Sim, se ela queria ajudar um pouco que fosse, naquela situação,
concordava que não podia introduzir naquele cenário um descabido sentimento de pena pelo tio. Aliás, o tio disse —
«Angelita, acabou-se...»
A tia, muito lúcida, procurou serená-lo.
«Não se acabou, coisa nenhuma... Muito simplesmente, tu vais lá ao palanque e estendes a mão ao bispo, beijas-lhe o anel,
cumprimenta-lo, e mesmo que ele não te retribua, tu procuras que ele ouça qualquer coisa de parecido com isto —
Reverendíssimo, temos em mãos um assunto muito importante que tem estado entalado. Vamos desentalar, quanto antes,
algumas situações inadmissíveis. Estou cheio de ideias, Reverendíssimo. E assim por diante...» Tinha dito a tia, sentindo a
hesitação do tio, falando-lhe firme — «Não te vais agora acobardar, Rui. Tudo passa. Um dia é da caça, o outro é do caçador.
Sabe-lo muito bem. Então? »
O tio Rui não conseguia mover-se, a massagem parecia tê-lo paralisado em vez de o ajudar a reagir, agora que se sentia um
dos que já tinham desistido. Mas aquela fala da sua mulher fazia-lhe ter saudade da Acção, como se a desistência, durante uma
hora, se tivesse transformado num risco de eternidade. A Acção a voltar ao tio. A acção pianinha a recomeçar a marcha — «E
tens alguma ideia concreta que possa ajudar?»
«Tenho» — disse a tia, ajudando a erguer o marido. E tinha começado a entregar-lhe a camisa, o cinto, a gravata, e ela
mesma se debruçava para os seus pés e lhe enfiava as meias, depois os sapatos. O casaco. Era preciso vestir-lhe o casaco. Ele
vestia. A Acção a receber o poder da acção. Tens uma ideia? — Meu Deus, como é que o Rui não via o que devia fazer? O
tio em pé. Formoso, alto. A tia, ainda em roupa de interior, a perfumar o tio. Ele diante dela, de olhos fechados. Nessa
posição, o tio ainda perguntou, sempre de olhos fechados — «Angelita, o que faz a sombra da tua mãe metida em tudo isto?»
Fora como se a tia tivesse recebido um murro na face. Aí a tia explodiu — «Que sombra, mas que sombra? Pá, que
fragilidade a tua, que falta de energia a tua...» A tia até lhe virou as costas — «Para as pessoas como tu é mais fácil imaginar
que lutam contra o poder dos mortos do que contra o poder dos vivos que se escondem. Dá menos trabalho, não é Rui?» A tia
ofendida, a tia agastada — «Agora é andar, é andar... Logo pões a tua alma a falar com Deus quando tiveres a tua vida pública
em ordem...»
Já se encontravam no hall, junto à porta.
«Mas tens uma ideia?»
«Tenho, já digo» — E ela mesma, através do intercomunicador, perguntou ao Sr. Frutuoso se estava a postos. Estava. «Leve
o Senhor Engenheiro direitinho ao palanque. Olhe, muito rápido, que o Senhor Engenheiro precisa de lá estar a horas de ver
cortar a meta, se possível mesmo, um bom bocado antes...» O elevador subia — «Tens uma boa ideia?» Ângela Margarida
abriu o elevador ao tio e disse — «Tenho uma ideia, sim. Promete um bom donativo, um donativo elevado, e logo verás o
resultado...» Dentro do elevador, o tio sentia-se defraudado, nem sabia se deveria descer, mas a tia fechou a porta e disse —
«Está o homem lá em baixo à tua espera. Porque esperas?» E ficou com o ouvido encostado à porta do elevador para se
certificar de que Rui Ludovice descia no rés-do-chão. Sim, descia. Parecia-lhe mentira. Tinha corrido à janela panorâmica e
lá em baixo o tio entrava no carro. Não fazia frio nenhum mas levava o sobretudo para compor o braço, no caso de haver
reportagem com fala. A tia, estoirada. Tudo aquilo que sucedia ao marido não tinha importância de maior, era apenas uma
crispação da matéria física humana que logo passava. Mas a ela, pessoalmente, dava-lhe imenso trabalho.
O tio lá ia.

Entretanto, Milene fora colocada diante duma mesa onde havia restos de pequeno-almoço. Ainda reprimia soluços na
garganta. A princípio sem conseguir tocar no que quer que fosse, aturdida com a situação, mas depois, quando o televisor foi
ligado, tinha-se servido de uma grande fatia de pão e uma enorme caneca de leite, porque o nervosismo e o choro haviam
acabado por lhe criar uma fome imensa. A tia, não. Ângela Margarida continuava fixada no marido. A sobrinha não podia
compreender, mas o problema era este — Um administrativo como ele não podia preocupar-se com hesitações que não
passavam de perdas de tempo, em função dos fins. E a tia não tirava os olhos do televisor. A tia, atenta. Lá estavam todos,
menos o tio. Do bispo também não se via rasto. Entretanto, dois planos distintos cruzavam-se sem cessar — os maratonistas da
frente e o palanque das autoridades. De ambos os lados, só os da frente. De repente a tia viu o tio Rui em primeiro plano,
muito bem apessoado e até nem queria acreditar. «Lá está ele, e até com boa cara. Oh, meu Deus! Que milagre...» — tinha dito
a tia, respirando fundo, com a calma de um dever cumprido e a paz própria de uma dificuldade ultrapassada. Por acaso,
depois de tudo aquilo, nem tinha as pálpebras inchadas.
«Queres mais? Come mais.»
Ângela Margarida, correcta, a assistir à refeição da sobrinha, que decorria lenta, e a gerir muito bem o tempo, a distribuí-lo
pelo menos em duas direcções diferentes — Nos intervalos em que o tio Ludovice não aparecia na televisão, a tia a querer
estabelecer uma conversa rápida com a sobrinha, a fazer-lhe notar como os dias da sua própria vida não passavam de uma luta
sem tréguas. Como tudo aquilo, de que Milene apenas tinha visto uma pálida amostra, lhe retirava o sossego e o sono. Por
exemplo, o que podia sobejar dos seus dias para ser útil a Milene? E no entanto, Milene, naquela manhã, até acabava de ser
muito útil aos tios.
«Eu, tia?»
Sim, o facto de se ter lembrado da questão dos raios e das setas fora muito importante. Tinha confirmado o feeling do tio. A
sorrir, a tia disse que Milene merecia dezoito valores. A tia, fresca, quase loira, uma mulher medianamente bonita, estoirada, e
no entanto tão lúcida, tão forte, que era capaz, no espaço de pouco mais de meia hora, apenas com um raciocínio, de fazer
erguer um homem, a partir de um sofá onde se esvaía, e transformá-lo na figura compenetrada que lá estava, naquele palanque,
onde também, agora, já se encontrava o bispo. Milene sentiu respeito pela tia. Amor pela tia, vontade de pôr o pão e a púcara
de lado, para lhe dizer — Eu, tia, vou contar-lhe um segredo que tenho com uma certa pessoa... E naquele momento, a tia até
estava a rir-se para ela. Explicava mesmo que as primas só não apareciam na cozinha para falarem um pouco, porque aos
domingos dormiam até tarde para compensarem a estafadeira das aulas. Vida dura, a das primas. Milene também poderia dizer
apenas — Tia, olhe, eu gostava muito, um dia destes, de lhe contar uma coisa muito boa da minha vida. Quando tiver
tempo. Tenho uma coisa muito importante para contar. Eu até julgava que a tia já sabia. Vinha preparada. Mas sendo
assim, logo conto... Adiando a conversa mas anunciando o tema. Agora que a tia até estava satisfeita e a explicar que o melhor
era chamar o Frutuoso para vir buscá-la e levá-la a casa, enquanto o tio Rui andava envolvido com o resto da maratona. Isto é,
quem falava não era Milene, era Ângela Margarida.
«Ainda queres mais? Havia quanto tempo não comias?»
Precisamente, naqueles momentos finais, a tia queria ainda arrumar vários assuntos, explicar a Milene, por exemplo, que
tudo o que ali havia acontecido não tinha nada a ver com os processos do tribunal. Milene já sabia, estava dispensada de ir
depor. Aliás, a confirmar-se o feeling do tio, para que serviriam os processos? Teria de haver, sim, outro tipo de processos. E
agora ela iria descer ao piso inferior, porque já eram onze horas, e ainda não estava vestida. Sim, tia. Mas o que Milene
gostava era de poder dizer — Nem pode imaginar o que me está a acontecer, tia Ângela Margarida, não pode imaginar... Se
ela dissesse, talvez a tia perguntasse — «O quê?» Pela simples razão de que são sempre necessárias duas partes para se fazer
uma conversa. Uma conversa, no mínimo, exige duas pessoas. E então Milene tirou o barrete e disse a sua parte.
«Não pode imaginar, tia, o que me está a acontecer...»
Milene ficou à espera, com o barrete na mão, tinha dito a sua parte. Mas a tia, ainda em roupa de noite, não disse a sua. Não
perguntou — O quê? Só quatro letras, só duas sílabas, e não disse. A tia apenas se levantou, encaminhando-se para a porta.
Pois muito bem, então ela não iria dizer mais nada. Ponto final no sonho de dizer uma coisa importante da sua vida à tia
Ângela Margarida.

Milene pensava na simplicidade das duas sílabas, ao percorrer as estradas onde ainda existia o rescaldo da interdição de
passar. Os polícias ainda por ali andavam, dando ordens, os seus braços como se tivessem uma mola apertada à altura do
cotovelo. Ao indicarem a direcção dos desvios, pareciam dar punhadas no ar. Por altura do Entroncamento, lá estavam as
faixas com as boas vindas em várias línguas — Bienvenidos! Bienvenidos! Mas dentro do carro não se dizia nada. A única
fala do motorista tinha sido na direcção da paisagem seca que corria, e fora para anunciar que o vencedor da Maratona de
Valmares havia sido um africano do Quénia. «Quase não sabe inglês, só fala na sua língua...» — Ouvia-se pela rádio. E
Milene só pensava que a tia poderia ter dito duas sílabas em resposta ao que ela mesma, no momento exacto, lhe havia dito —
Tia Ângela Margarida? Não pode imaginar o que está a acontecer na minha vida...

A tia até poderia nem ter dito as duas sílabas, poderia apenas ter fixado os olhos nos olhos dela, como quem ouvisse da
frase as palavras fundamentais — O que está a acontecer... E aí, mesmo que a tia não tivesse dito nada, só pelo facto de a
olhar, ela teria conseguido acrescentar — Na próxima vez, vou contar tudo o que se passa comigo. Agora não, a tia está com
pressa... E só isso teria sido muito bom. Pelo menos agora não voltaria pelos mesmos sítios do costume, com a ideia de que
havia uma luz escura a pairar sobre eles, ao contrário da luz brilhante que o dia dava. Uma luz que empalidecia todas as
coisas, até o próprio telhado vermelho do Frame Store com o seu reclame vistoso. Tudo por exclusiva responsabilidade dela
mesma que não tinha tido a coragem de dizer — Veja, tia, o que está a acontecer. Veja, olhe para aqui... E assim, não só
tinha perdido uma oportunidade única de dar a notícia, como havia criado a luz escura dentro de si, semelhante àquela que as
coisas reflectiam. Uma luz baça que apetecia mandar embora, como se fosse uma coisa que tivesse ouvidos e pudesse ficar ou
partir, conforme o brado que a pessoa fizesse. Com essa luz a tornar tudo pálido, naquele dia, nem iria querer ser beijada. Por
que razão a tia não havia pronunciado as duas sílabas? Porque não tinha pronunciado dois sons, muito mais rápidos do que o
dim dum do portão, ao entrar?
Milene regressava a Villa Regina tal como havia partido.

Mas a tarde haveria de ser absolutamente oposta à manhã, como se não pertencessem ao mesmo dia. Era a vida a fazer o seu
ziguezague, a criar a sua surpresa.

A princípio até nem se tinha notado. Antonino fez o percurso entre o Miramar e a estrada da Ria, em silêncio, sem dizer
porquê. Nem mesmo quando a carrinha cinzenta parou diante das Dunas Fêmeas e o vento da tarde entrou por ali dentro, ele
falou. Só a beijou. Depois, fecharam os vidros e ficaram a ver a penugem da areia oscilar, sem dizerem nada. Em frente, uma
bandeirola de praia acenava sem cessar, como uma asa. Mesmo sem se beijarem, a luz do dia combatia a penumbra criada
pela ausência das duas sílabas. «O que vamos fazer?» — tinha ela perguntado, sem contar o que se havia passado. Então
Antonino encarou-a, declarando com solenidade que teriam de emigrar para um país onde não precisassem de ser
transparentes. Um país distante. Uma terra rica. Onde havia essa terra? Ele começou a enumerar terras — França, Alemanha,
Holanda, Estados Unidos da América, Austrália. Agora que diariamente manobrava a Liebherr, a ideia de fugirem para um
lugar distante não lhe saía do pensamento. O problema era só um — Não tinha a certeza se nesses sítios, para serem felizes,
também não precisariam de ser transparentes e invisíveis. Sim, em que parte do Mundo existiria um lugar onde não
precisassem de ser invisíveis? Um país que fosse a ampliação do Restaurante do Inglês? Onde? — Fora então que Antonino
tinha tido uma ideia surpreendente.
«Vamos ao Pomodoro?»

Sim, podiam entrar no Pomodoro e veriam o que iria acontecer. Ali onde ele costumava lanchar com a Divina, onde
precisamente, certa vez, todos se tinham encontrado num domingo à tarde e não se tinham falado. Até agora ele nem queria
passar por lá, mas naquele momento, sim, ele queria. Antonino respirava fundo. Em frente, a bandeirola batia sem cessar —
«Pois vamos ao Pomodoro...» Estava decidido. Antonino tinha cerrado a boca. A comissura saliente dos seus lábios fazia um
círculo. Ao abandonarem as dunas, ele só olhava em frente, em frente. Foram. Ele separado dela, como se fossem apenas
pessoas amigas que resolviam entrar num restaurante para conversar. Escolheram a mesa. Sentaram-se. Ele transpirava. À
volta, tudo normal, ninguém lhes dizia nada. Um empregado tinha vindo, com um avental branco rojando pelos pés, entregar a
ementa e um antipasto. Pelo ar havia música napolitana. Antonino, de boca fechada, quase não falava. Olhava à volta, à
espera. Não acontecia nada. Um cavalheiro ao lado contava em voz alta a sua história hilariante. Contava como lhe haviam
atribuído um passaporte com a identidade de um outro, e durante seis meses fora obrigado a viver parte duma vida que não lhe
pertencia, entre o Brasil e o Canadá. Nada de mais cómico do que de repente um homem estar casado com outra mulher, ter
outra mãe, outros filhos e ter estudado outras matérias, quando pequeno. A vida feita num Carnaval. Milene tinha falado baixo
— «Viu, Antonino, viu? Alguém se importa com a gente? Cada um conta a sua história, e pronto...» Milene recompensada das
duas sílabas que não tinham existido. Na verdade, o restaurante estava cheio de gente, e ninguém se preocupava com o facto de
eles ali estarem, muito menos com o facto de antes ali ter estado Divina. Pois quem queria saber dela, dele, de Divina? Quem
queria saber de quem? A isso se chamava de liberdade. Milene tinha começado a ficar contente, a rir, a puxar o barrete cor de
ferrugem para o meio da testa. Antonino olhava em volta, à espera, e não acontecia nada. Tinha chegado mesmo a libertar o
cabelo de Milene, demasiado escondido, e tinha deixado lá a mão, na cara dela, o restaurante repleto, e em volta não
acontecia nada. E se os sapatos de sola de borracha se tocavam debaixo da mesa, era como se fosse a primeira vez que se
tocavam. Estremeciam. Riam baixo. Depois riam em voz alta. Não acontecia nada. Afinal, no Pomodoro, ninguém se
importava com eles. Era como se fossem transparentes, como se fossem invisíveis.
«Eu não te dizia? Mas eu não te dizia?»
Um outro rapaz com um avental mais curto tinha-se aproximado, exibindo os pratos descomunais da casa. Queriam sumos?
Queriam vinho? Falavam todos muito alto. Ele à espera, e não acontecia nada. No final do jantar tinham bebido vinho tinto e
comido pizza romana. Nunca um pedaço de massa de farinha com queijo derretido teria servido de barco para atravessar
tantos séculos.

Foi então que ele decidiu. Estava decidido.

Antonino atravessou as estradas entretanto desimpedidas, tomou o atalho do Bairro dos Espelhos, levava uma pressa
extraordinária. Rapidamente atingiu a estrada esburacada, os carris, o cômoro, as palmeiras, o portão encostado, e entrou no
pátio deserto. Deserto de televisores, deserto de seus irmãos, cada um em sua casa com seus aparelhos eléctricos. Os cães
deveriam estar enroscados aos pés de alguém, talvez dormindo perto dos seus filhos. Naquele momento, não queria pensar nos
filhos. A sua pressa era extraordinária. Antonino entrou pela cozinha que também servia de quarto à sua mãe, e ficou a meio da
porta. Era agora, não podia adiar. Felicia, àquela hora, ainda arrumava loiças. O filho escancarou a porta.
«Mãe, não tem dado por nada?»
Felicia segurou nos pratos com força redobrada, apontando os círculos de loiça na direcção da luz, como escudos. Os
objectos mostrando as suas formas internas. Revelando-se. Antonino estava cheio de pressa.
«Eu e Dona Milene vamos casar, senhora. Já quase dormimos juntos».
Antonino, com a mão no umbral, como se tivesse atravessado a porta bailarina de um saloon, acabasse de esbofetear
alguma coisa mais do que pessoa e se mostrasse enquanto vencedor. Em frente, Felicia ia escorregando, escorregando até o
seu corpo pesado encontrar o tampo duma cadeira. Escorregando, escorregando no tampo inclinado. Não se ouviu estrondo
nenhum. Era tal e qual como no sonho do telegrafista em que ela, ele, jamais vivia por inteiro e jamais se afogava.
XX
Na noite seguinte, quando Antonino se aproximou da Fábrica Velha, a aldraba do portão batia, sem ninguém lhe tocar. O
cigarro apagava-se-lhe nas mãos e a chama do isqueiro produzia uma língua indomável que lambia o tabaco sem conseguir
acende-lo. Mas ele ia tão concentrado no trajecto nocturno que nem raciocinava sobre a causa duma aldraba que batia sozinha.
Claro que era a força do vento chamando a chuva. E isso incomodava-o porque ele queria entrar sem rumor, atravessar o pátio
sem tocar em nada, para que não dessem por ele. Nem tencionava olhar na direcção da cozinha. Tinha desligado o rádio da
orelha, e o cigarro havia-se de todo extinguido. Contudo, Felícia Mata encontrava-se no vão da porta. Era um vulto
inultrapassável. Antonino tinha voltado a ligar o rádio para se fazer ausente — «Diga». Disse curto, para não adiantar a
conversa, mas a própria porta da cozinha-quarto abanava sozinha.
«Quer dizer que deixaste a Divina, e que andas por aí, com a neta de Dona Regina, até altas horas da noite? E eu que não
acreditava nos miúdos. Afinal, era tudo verdade...»
Antonino tinha acabado por entrar onde não queria. Era uma noite estúpida. Até ali dentro, a saia da mesa se movia sozinha.
O pano que cobria o escaparate também se movia. Na luminosidade da lâmpada fluorescente, Felícia entregou a mão papuda
ao filho Antonino. A mão forte, gretada da água, onde brilhavam as unhas despintadas de vermelho. A mão almofadada de
Felicia sobre a mão grande e desconjuntada do filho viúvo, cheio de pressa. Aliás, via-se-lhe a urgência na cara. Era para já.
A mão dele, pousada no joelho, cheia de pressa. Só faltava ele olhar para o relógio e perguntar — Quando? Felícia Mata,
suspensa. O seu filho Antonino tinha endoidecido. Endoidecido? — Sim, era verdade, essa era a palavra justa. Aproveitava
então para dizer à mãe que amava a moça. Que a amava. Que, dia e noite, só pensava nela. Que queria beijá-la, vesti-la,
despi-la, dormir com ela, ter com ela o resto dos filhos que lhe faltavam. Afinal a mãe mal a conhecia, se a conhecesse veria
que era tal qual como a Eunice que tinha perdido.
«Está bem, Antonino, está bem... Mas espera.»
Felícia olhava para os tachos, passava os olhos pelas pandas, pelas sertãs, pela vida que estava guardada nelas, pelas
toalhas penduradas, pelo mundo pregado à sua volta, objectos que pareciam imóveis, mas era mentira, moviam-se e olhavam
para as pessoas com a sabedoria dum registo servil. Depois tinha passado a mão pela testa e pelos olhos, esfregando-os com
energia, como se quisesse que alguma coisa que lhe pesava lhe saísse pelas narinas.
«Então?»
«Então, que não deves decidir ainda, espera um pouco».
Noite estúpida para Antonino. Felícia tinha-se aproximado da porta. Lá fora, estava só a noite escura, com os objectos
soltos movendo-se por si. A mãe pegou numa lanterna eléctrica que por ali havia e disse a Antonino — «Desculpa lá. Vem
aqui comigo. Há coisas que têm de ser esclarecidas, numa noite destas...» E accionou a lâmpada, apontada para o lajedo do
pátio — «Anda, vem ver...»

Era mesmo uma noite estúpida.

Felícia Mata encaminhou a lanterna na direcção do portão e saiu para o cômoro. Os dois a caminharem com a risca da luz
no chão, passando sob as palmeiras, circundando o velho casario do lado nascente, onde chegavam o cheiro alagado da Ria e
o ruído dum súbito rebuliço no mar. O vento seco chamando a chuva. Felicia, à frente, firmando os pés pesados sobre a areia,
iluminando as passadas, e Antonino, atrás, suspenso daquele percurso estranho. A mãe a andar, a passar ao lado da cancela
que os ingleses haviam desconjuntado, a alcançar uma outra e a abri-la sobre um recinto onde havia ervas e pedaços de lata,
tábuas apodrecidas desgarradas de cascos de barcos, um local habitado de restos por onde nunca se passava. Caminhando
atrás, Antonino viu a mãe saltar para uma zona mais baixa, e pela forma segura como se deslocava, percebia-se que já teria
feito aquele trajecto não uma nem duas, mas várias vezes. Antonino tinha perguntado — «Mas para onde vamos?»
Em vez de responder, Felícia passou-lhe a lanterna, e ele pôde ver a mãe agachar-se, enrolar-se e começar a empurrar, à
altura dos ombros, uma das comportas. Deveria ter havido ali um antigo tanque para depósito de vísceras de peixe, ou de sal,
ou de lenha, ou de água ou de óleo, agora era bem indiferente. O que importava é que ele ouvia a mãe soprar, enquanto
empurrava a comporta. Como ele tivesse deixado desandar o feixe de luz, ela gritou — «Ilumina bem, rapaz». Porque ele
também tinha saltado, encontrando-se ambos dentro daquele recinto baixo e indefinido, uma espécie de cave aberta
transformada em entulho, e Antonino viu a mãe, com o cabelo liberto do elástico, todo pendido para o rosto, a despender uma
força qualquer contra um objecto qualquer. Viu-a meter um pau na tampa lateral dum recipiente, uma espécie de ampulheta
para decantar águas, começar a retirar plásticos do seu interior. Sem uma palavra, retirava os plásticos, indicando com a mão
que se aproximasse e mantivesse a lanterna na direcção da portinhola por onde estava a fazer sair aqueles invólucros
amarrotados. A dado momento, afastou-se, caminhou sobre os plásticos e disse-lhe — «Anda cá, olha aqui para dentro».
«Aqui, deste lado».
Ele curvou-se e olhou. A princípio viu o que se lhe afigurava uma rima de pacotes de tijolo branco compacto, tipo
refractário, depois pensou em gesso, em açúcar, pensou em detergente empacotado. Só passado algum tempo percebeu que se
tratava de uma outra natureza de matéria. E a pouco e pouco, com a cara lá toda metida, o fio do rádio de orelha a roçar os
plásticos, foi compreendendo a natureza daquela substância empacotada, rodeada de invólucros pegajosos, que alguém tinha
trazido para ali, foi compreendendo devagar, até que saiu lá de dentro como se o capô de um carro lhe tivesse caído em cima e
lhe tivesse levado a cabeça. Ficou em pé, com a lanterna apontada contra a parede.
Antonino estava sem fala.
«Vês? Temos a nossa casa em cima dum barril de pólvora...» — disse Felicia. «Isto que aqui está é uma bomba-relógio...»
Felícia passava entre a lanterna e a parede para onde Antonino enviava o feixe luminoso, passava, dando pontapés nos
plásticos. Desfigurada, como se tivesse retirado do fundo duma cova um ente querido e acabasse de lhe ver o rosto. Mas a
energia das palavras não condizia com a sua figura. Felícia andava por cima dos plásticos — «Agora a gente percebe. Eles
compram, vendem e tomam. Depois do que eu fiz por eles, mereciam ser fuzilados. Entendes? Mas agora vão saber quem
somos. Eu vou agir...» Dizia Felícia, determinada, movida por uma urgência que corria mais veloz do que as horas da noite, e
já deveria passar das duas. Antonino tinha desviado de novo a lanterna para aquele monte de embalagens empacotadas,
finamente, industrialmente, por certo muito longe, em combinação com os correios que o traziam até ali, e também ele achava
que era preciso agir.

«Acho que devíamos acordar o Domingos».


Mas Felícia Mata já deveria ter imaginado vários cenários possíveis e rejeitou a ideia de pedir ajuda a quem quer que
fosse. Segundo ela, só eles os dois podiam dar conta daquilo. Dar conta daquela carga equivalente a uma fortuna, que ela não
sabia avaliar, mas que seria por certo um montante tão elevado quanto a potência da bomba-relógio que aquele pacote
constituía para a sua família. Sim, tinham de levar aquilo dali para fora, quanto antes, naquela mesma noite. Talvez naquele
instante mesmo. Nunca se sabia quem poderia chegar dum momento para o outro — «Uma bomba-relógio debaixo da nossa
casa...» Ao contrário da mãe, Antonino ainda não tinha tido tempo de ligar factos, mas Felícia ajudou, aliás não parava de
ajudar — «Que eu tenha dado conta, é a quarta remessa que aqui encontro, desde que os teus irmãos cá estiveram. Uns vêm
pôr já de noite. Outros vêm buscar de madrugada. Nisso tudo anda metido o amigo dos teus irmãos, aquele deslavado que
conduzia o carro onde o Janina chegou, a dormir. Não chegou a dormir, eu é que estava cega. Desde aí, tenho visto o carro
vermelho chegar, o carro vermelho partir. Xi! Como eu estava cega, como eu não enxergava dois palmos...»
Felícia Mata falava no escuro daquele lugar alagado, enquanto Antonino apontava o foco para o chão, na tentativa de
iluminar ao menos o local onde a mãe tinha os pés, mas ela andava diante daquela espécie singular de tijolos refractários, sem
se importar com o lixo húmido que pisava. Ameaçadora — «Só que não vão mais fazer da nossa casa o poiso do pombo-
correio. Desta vez o poiso vai acabar. Ajuda-me, Antonino. Em alturas de aperto, só tu mesmo é que ajudas...» O volume
completo pesaria entre uns trinta a quarenta quilos, mas Felícia tinha voltado a debruçar-se sobre ele, puxando-o, e era como
se ela mesma estivesse a fazer parte da bomba-relógio, ela mesma fosse o detonador que pudesse accionar ou impedir que
deflagrasse, e não quisesse ou não pudesse afastar-se um segundo, para poder guardar a carga. Como se tivesse perdido o
medo de tudo, mesmo daquele local nojento onde a água semiestagnada entrava e saía e coisas salinosas e apodrecidas se
juntavam. Ela fazia questão. Nem queria ficar com a lanterna. Ele que fosse rápido, que trouxesse uma pá ou mesmo um pau
qualquer que encontrasse para retirarem aquilo dali. Ele que fosse muito rápido.
Antonino, atordoado, tinha deixado a mãe como ela queria, guardando no escuro a carga envenenada. Quando voltou, trazia
uma pá, uma saca de serapilheira e uma faca de cozinha. Só agora começava a compreender verdadeiramente que existia uma
bomba-relógio debaixo de casa, uma bomba com detonador ali nas ervas salobras, naquele lugar malcheiroso onde a mãe o
esperava, junto da abertura. Os dois, com a ajuda da pá, retiraram a carga escorregadia de dentro da ampulheta, e Antonino
meteu-a dentro da saca, pô-la às costas e encaminhou-se para o lugar dos carros. Afastava-se, rápido. Mas Felícia queria
certificar-se, com os seus próprios olhos, do destino daquele volume especial que tinham vindo colocar debaixo da sua casa.
Um poiso a que sabia andar arrolado o nome dos seus dois filhos mais novos. Preferia ir também. Queria, ela própria, ver-se
livre daquela carga. Desejava ardentemente que a pessoa que fosse buscar aquela encomenda, já lá não a encontrasse. Que
ficasse frustrada de morrer, que fosse morto mesmo, sobretudo no caso de ser o branco de cara deslavada.
«E onde vamos?»
Antonino tinha colocado a saca no fundo da carrinha, e ultrapassando a estrada que circundava o Bairro dos Espelho, entrou
pela Marginal que fazia voltas, reviravoltas, e lá onde a costa se eriçava, criando falésias abruptas que o mar cavava, arribas
onduladas, meteu-se pelos caminhos de areia. Felicia, molhada, sumida, seguia no banco da frente, a esperar pelo momento em
que o filho fosse capaz de meter as mãos dentro da saca e sacudisse o seu conteúdo dali para fora. « Deixa já aqui, de que
estás à espera?» — Antonino continuou a avançar.
Tinham passado rente a umas construções que indicavam a proximidade da praia, e agora desciam por uma espécie de
barranco, até onde já não seria possível avançar com um carro. «Deixa já aqui» — dizia Felícia. Antonino tinha saído e
transportava a carga às costas. Em redor não se via nada. Felicia seguia-o, apontando a lanterna para os pés. Por certo que
corriam o risco de serem vistos, mas a urgência acumulada de Felicia era mais premente. «Deixa já...» Antonino tinha parado.
O estúpido dum vento, obscuro e seco, zunia.
«Então?»
Era Antonino a raciocinar e a sentir-se tão estúpido quanto os factos. Competir-lhe-ia a ele e à mãe desempenharem aquele
papel? Evitariam a bomba-relógio golpeando os pacotes e atirando-os pela ravina abaixo, para as ondas os levarem para
longe, como tinham pensado? Ou, pelo contrário, a bomba não poderia antes rebentar duma forma bem mais rápida, sobre a
cabeça de todos, se no dia seguinte tudo aquilo aparecesse a boiar? E também não se poderia imaginar a reacção daqueles a
quem lhes era retirado um montante tão extraordinário? Agora, ele mesmo via mais claro. Com aquela carga às costas, parado
em cima da ravina, Antonino pensava que o mal e os seus objectos estavam por toda a parte. De tal modo misturados com o
bem, que nem se destrinçavam na sua raiz e nem sempre nos seus feitos. Desfazer-se-iam do mal que os ameaçava se se
desfizessem daquele mal? — Não, não era assim. Não se deve atiçar a fogueira quando o incêndio passa pela porta. Era
preciso voltar para trás e colocar tudo aquilo no mesmo sítio, voltar a entrar nos baixos da Fábrica Velha, retirar a tampa e
dispor a carga tal como estava. Tudo como estava não, mas devolvê-la, de modo a que os depositantes vissem que tinha sido
revolvida, sem no entanto prejudicar o conteúdo, não os frustrar por aí. Só mostrar que alguém os observava, que ficavam na
mão de alguém que ainda não os tinha entregue. Devia proceder-se assim, em nome do Gabriel e do Janina. A fim de travar a
bomba-relógio que tinham consigo.

Tinham de voltar para trás.

Felícia, sem conseguir compreender tamanha reviravolta, ainda teimava, estrada fora. Num golpe de precipitação, queria
passar na Esquadra de Polícia e fazer uma entrega formal, solene, para que se soubesse que nenhum elemento da sua família se
encontrava envolvido com tal processo. Nem presentes nem ausentes. Nem ausentes? Só depois Felícia caíra em si. — Porque
voltava a fazer raciocínios que silenciosamente já tinha desfeito? Porquê? E depois, já no lodo, quando Antonino tinha
colocado a carga desmanchada sobre a ampulheta, Felícia também não queria voltar para casa sem deixar a marca do seu
testemunho. Queria descalçar-se e deixar os sapatos que trazia nos pés sobre o volume envolvido em plástico. Dois sapatos
encharcados que dissessem — Eu, Felicia Mata, mãe dos meus dois filhos mais novos, estive aqui e sei quem vocês são.
Acuso, eu acuso... Depois queria deixar a blusa de malha que vestia. Ou a saca. Pelo menos a saca de serapilheira já seria
uma boa marca, para que eles soubessem que tinham sido eles, os Mata, quem ali tinha estado. Era a saca onde transportavam
o milho que Ana Mata pilava, antes de amuar de vez. Mas Antonino só permitia que a mãe deixasse uma marca anónima.
Tinham de agir rápido. Felícia pensou — «Dois paus cruzados e um pedaço de tijolo em cima, achas, meu filho?» Sim, podia
ser. Pois ali ficavam os dois paus e o tijolo. Era só para que a mãe tivesse a ilusão de que lutava activamente contra o fogo
das estrelas e que a luta levava a sua assinatura. Sim, sim, podia ser.

Ou por outras palavras, os Mata estavam fechados num círculo, cada um à sua maneira. Mas nem todos sabiam. Alguns
deles nem suspeitavam. E nós só saberíamos depois.

Domingos, por exemplo, desde sempre se considerava o guardião de toda a família, mas sobre a bomba-relógio
desconhecia tudo.
Duas tardes depois, tinha ele entrado em casa todo esbranquiçado, como se tivesse feito paredes mergulhando por inteiro
dentro dum bidão de poeira. O cabelo com pó, os sapatos com pó, a roupa da cor da farinha. Mas, ao contrário do seu
costume, nem sequer se dirigiu para o lugar do banho. Primeiro ficou especado sobre o cômoro, depois chegou ao meio do
pátio e perguntou — «Onde estão as chave da carrinha do Janina? Quero ver se alguém mexeu ou não na carrinha do Janina.
As chaves. Onde estão?»
Era muito claro que pensava que ninguém as iria encontrar. Mas Felícia entrou dentro da sua cozinha-quarto, trouxe o
púcaro que emborcou sobre uma das mesas, e a chave da carrinha do Janina apareceu. Domingos estava acompanhado pelos
dois filhos rapazes e quis fazer a prova de alguma coisa. Com bastante aparato, pegou na chave e entrou na viatura. A carrinha
arrancava. Quando terminou a experiência, saiu de lá e começou aos pontapés no bojo pintado, pontapés violentos que só não
chegavam a fazer mossa porque as solas dos sapatos eram de borracha. As crianças de Domingos a olharem para o pai, a
sentirem medo do pai. «Que direito tens tu de partir a carrinha do Janina? Que direito?» — perguntou Felicia. Domingos,
aquele que não tinha sido cantor por um nada, nem respondia.
Respondeu no dia seguinte, quando a cena se repetiu — «Não me lixem o juízo. Eu vejo esta carrinha a deslocar-se. Durante
a noite, alguém anda com ela. Vocês andam a tramar-me alguma» — disse ele, a desconfiar de Heitor Filho e de seu irmão
Antonino. A gritar — «Ando a ficar com meu espírito santo de orelha abalado, ando a ficar...» E olhava para o solo do
cômoro onde não era possível, por falta de chuva e magreza do solo, estudar-se o rodado. Os carris, descarnados, vinham ali
ter como duas puas deitadas. Mesmo assim, ele estudava a erva rala em volta, como se fosse um mapa. Não descobria coisa
nenhuma.

Por momentos, todos fechados num círculo.

Na verdade, o vento que deveria trazer a chuva acabou por só trazer duas nuvens. Uma delas despejou umas pingas gradas
pela manhã e foi-se embora. A outra veio de manso, e choveu fino, mas só ficou uma noite. Ana Mata, desde que decidira
abandonar os seus rios para se colocar junto da casinha parda, movimentava-se menos pelo pátio. Naquela tarde deambulava
dum lado para o outro, para ver o que a água natural tinha feito aos caudais. Não tinha feito nada. A chuva caída não tinha sido
suficiente para modificar o que quer que fosse. Não valia a pena ela imaginar que os seus rios eram rios, com margens que
transbordassem com água caída do céu. Isso só acontecia com o poder de seis duches ou uma alguidarada indevida, despejada
no próprio caudal. De costas viradas, Ana Mata tinha voltado a sentar-se no sítio do ressentimento que havia escolhido.
Enquanto isso, sua filha Dilecta, dentro da casa de tijolo encarnado, dava de comer aos filhos de Antonino. Mas as restantes
crianças encontravam-se à porta de Domingos. O filho mais velho de Felícia, de cabelo apanhado, saiu lá de dentro com um
molho de facas e espalhou-as na mesa do pátio. Então todos se encaminharam para junto de Domingos, mesmo Heitor Pai,
apoiado na sua canadiana, todos, à excepção de Ana Mata, sentada onde estava, na sua posição de mosquito. E Domingos, à
volta da mesa, cabeludo e atarracado, sem levantar os olhos, começou a examinar as facas. Tinha encontrado uns panos e
limpava as facas neles como se fossem espadas. Olhava-as no fio, puxando as serrilhas, passando-lhes a lâmina pela cana da
unha. Havia a navalha simples e a faca-borboleta. Havia a catana e a faca em forma de adaga, a curva para partir os cocos, a
navalha de ponta e mola, e havia a terrível entre as terríveis, a faca tipo Sandokan cheia de serrilhas. Essa, onde se enfiasse,
para sair era só rasgar, só rasgar. As crianças em volta. Ele, em silêncio, a mostrar como era terrível. A passar a mensagem. E
para as crianças compreenderem mesmo como se manejava, até Emanuel, Girino e Quirino poderiam ver. Foram-nos buscar.
Os três também a olhar. Era uma dezena de facas em exposição, sistematicamente dispostas da maior para a mais pequena. Só
para olhar, ninguém podia mexer. E também veio a carabina de canos cortados. Foi colocada ao longo da mesa, em exposição,
produzindo um L com as facas. Para as crianças verem. Aprenderem. Tudo para elas vencerem um dia. Sem dizer uma palavra
sobre o assunto. Domingos levantava a carabina, levava-a à cara, fazia pontaria, e criava o alvo numa toalha que estava
pendurada na parede, contra o arco do portão. Para as crianças verem. Tudo para elas verem e aprenderem. Sem dizer uma
palavra, tudo parecia mudo.
«Está tudo mudo nesta casa?» — tinha perguntado Antonino.
«Está» — disse ele.
Claudina e Conceição andavam dum lado para o outro, mudas, levando diante de si roupas, cestos e outros objectos,
invisíveis. Cruzando-se, só o ruído das suas chinelas de quarto, usadas ao fim da tarde, a picotarem o som.
Sissi, a filha mais velha de Heitor e Claudina, perguntou ao tio — «Quem vai matar?»
«Seja quem for que venha brincar com a carrinha do meu irmão. Se for homem, será homem, se for mulher, será mulher. Se
for o Diabo, será o Diabo. Os espíritos também se abatem...»
Felícia Mata apareceu no limiar da sua porta, bastante agastada — «E tu, o que tens tu a ver com a carrinha, se não te
pertence? Deixa que o Janina resolva a situação. A carrinha anda, pois deixa andar...»
«Não deixo» — disse Domingos, revoltado, experimentando agora a faca Sandokan. Fazendo uma pirueta rápida,
introduzindo-a num corpo imaginário junto do seu, fazendo o corpo fantasma dobrar-se por terra. Era assim que se abatia o
inimigo. E munido da faca, em pleno dia, tinha-se encaminhado para junto da carrinha, dizendo que tencionava passar ali a
noite. Felicia, atrás. As unhas despintadas de Felicia movendo-se no ar, atrás de Domingos.
«Não queiras saber mais do que deves. Eu já tenho tudo dito. O que for soará. Deixa isso tudo com o nosso bom destino.
Deixa lá...»
Domingos segurava na faca como se fosse espetá-la na mãe — «Alguém usa a nossa carrinha, senhora. O conta-quilómetros
marca. Não é muito, mas vê-se que anda entre uns trinta a quarenta quilómetros por noite. Alguém tem uma chave, e leva e traz
a carrinha. Alguém tem um duplicado da chave e trata-nos como se fôssemos um bando de parvos. E a senhora vem dizer que o
que for soará? Eu esta noite vou dormir rente à carrinha...»
«Já que teimas, dorme ali» — disse Felícia. «Ao menos ficas escondido atrás da porta, não além. Eles também têm facas e
espingardas de canos cortados, homem. Ali sim, fica ali atrás a dormir...»
«Pois fico, sim. Alguém está a querer abusar de nós. Querem abusar dos meus irmãos Janina e Gaby, mas vão ver ...» —
disse Domingos.
Os Mata reunidos em torno da carrinha vermelha, como se fosse um ovni. Por fora, a carrinha continuava a dizer Black-
Power, por baixo da efígie de Janina. E pensar que ali dentro, onde Janina tinha vivido os primeiros momentos de sucesso,
todas as noites, pelo menos um desconhecido entrava e saía. Usava a carrinha e colocava-a no mesmo lugar, enquanto lá
dentro eles ouviam música, liam o desportivo ou simplesmente dormiam. Domingos queria indícios, estudava os vidros,
cheirava o tablier e os assentos, e por mais que farejasse, com o nariz lá colado, nada lhe cheirava a nada.

Então, nessa mesma noite, Domingos arrastou para junto do portão o colchão de espuma moída, que se deslocava como uma
barriga meio cheia, meio vazia, e depois de o ter alongado e distribuído o conteúdo movediço, apoderou-se duma manta e,
com o jeito dum cão de guarda, estendeu-se sobre ele, vestido, com a cabeça transformada numa espécie de focinho antena,
junto ao portão, mantendo as portas apenas encostadas. Domingos, na posição de sentinela. Aliás, as portas não se fechavam,
precisamente porque, entre ela e o batente, apontava ele o cano da espingarda. Os canos cortados da espingarda. E enfiadas no
cinto, à altura do flanco sobre o qual não se deitava — estava deitado de lado, e o boné cobria-lhe também a cabeça desse
mesmo lado — o filho de Felícia tinha duas facas. Uma delas, a de serrilhas viradas, como barbatanas de tubarão, era a
terrível faca Sandokan, que anos atrás havia mandado vir por encomenda, por anúncio da televisão, e que até então Domingos
mantivera entalada na caixa, sem mesmo a ter utilizado para nada, a não ser para ver. Mas desta vez ele queria utilizá-la.
Tinha muito mais gosto em apanhar quem quer que fosse, enfiando-lhe no ombro ou no pescoço uma facada, do que
mandando-lhe um tiro de longe. Por isso mesmo, quando Conceição apareceu a pedir que fosse dormir nos seus lençóis, que
deixasse em paz a carrinha do Janina, que a carrinha, velha e desbotada, a cair de podre, já não servia para nada nem merecia
tanta dedicação, agora que o Janina viajava noutros transportes, e que era uma estupidez passar noite atrás de noite a dormir
sem sossego, ao relento, estando o chão húmido, Domingos ficou possesso. Chegou a levantar a cabeça do seu lugar de vigia e
a pegar na caçadeira de canos cortados, que até retirou do seu ponto de apoio, apontando-a contra a mulher. Domingos Mata
tinha-se tornado insensível a qualquer argumento, por mais lógico que fosse, desde que o desviasse do empenho que tinha
posto naquele enigma. Tinha chamado a si a tarefa imensa de desvendar aquilo, pregar um tiro naquilo, destruir aquilo, que
vinha ali, nas barbas deles, utilizar desavergonhadamente a carrinha do Janina.
E Domingos entregou-se à vigilância daquela nesga de campo e de estrada que era necessário galgar para atingir a carrinha
vermelha, parada sobre o cômoro um pouco de esguelha, entre os dois pés de palmeira. O cômoro de terra dura, aprisionada
por uma rede miudinha de ervas rasteiras que fixava os grãos de areia ao grés, e os detritos e as folhas caídas das palmeiras,
formando um tapete compacto. Depois, entre o cômoro e a estrada esburacada, como se tivesse lepra, uma faixa de nata
amarela para onde escorrera a chuva. Era aí que a roda de trás, a da direita, descia um pouco. Ele sabia de tudo. Ele conhecia
a geografia miniatural da terra sobre a qual a carrinha estacionava, porque a tinha estudado. Mas não era para aí, para o
cômoro, que tinha apontado os canos cortados, e sim, para uns três ou quatro metros abaixo, na direcção da berma da estrada
esburacada, ou mesmo um pouco mais longe, talvez para o campo que a noite apagava mas existia, e donde, possivelmente,
aquilo vinha, e sem ele sentir, sem chave, sem som, punha a carrinha a trabalhar.
Então, tal como um cão de guarda que menospreza a vista em detrimento do ouvido, ele apurou só o ouvido, deixou-o atento,
ligado ao pavimento e ao ar onde havia aquela humidade fria, a pele da cara encostada à coronha, e todo ouvido, só ouvido,
fechou os olhos e depois deixou-se embalar no sono, enrolado como um cão no posto, o focinho no chão, exactamente, exausto.
Os cães da mãe, a caniche cinzenta e o guardador manso, amalhados lá dentro, debaixo das camas, precisamente para que só
ele ouvisse os sons, para que não interferissem com ele. Todo ele cheiro e ouvido, reduzido a olfacto e orelhas, e tudo o mais
a adormecer. No entanto, todo ele por inteiro haveria de acordar, duma só vez, com a voz de Antonino a passar-lhe por cima
— «Lá vai a carrinha, lá vai...»
Domingos ergueu-se da espuma, deu um salto e atirou na direcção do local onde deveria estar a carrinha, perdendo-se os
tiros no ar. Só depois Domingos percebeu que de nada servia o seu alarme. A uns trinta metros abaixo, na direcção das
Bombas, a carrinha do Janina ganhava luzes vermelhas e desaparecia. O filho mais velho de Felicia ficou na berma da estrada
e ainda disparou mais duas vezes, para nada. Ainda levou a mão à cintura onde estava a faca Sandokan, e ainda a arremessou
ao chão. Estava raivoso contra si mesmo, como um cão e outro cão.
«Tu não ouviste arrancar? Não ouviste?» — gritou para Antonino.
Atrás de Antonino, alarmados pelos tiros, estavam Conceição e Dilecta, Heitor Filho e Claudina. Conceição tremia dentro
do pijama cota de malha, os pés descalços no portão da entrada. E como Antonino transportasse uma lanterna eléctrica,
Domingos arrancou-lha da mão — «Desapareçam, depressa». Disse, dirigindo-se para a zona donde saíra a carrinha. «Ouviste
arrancar?»
«Qual arrancar, nem arrancar...» — respondeu Antonino. «Empurraram-na, não vês que a empurraram e só a puseram a
trabalhar lá em baixo?»
Domingos apontou a lanterna para o rodado. Era verdade. Ali estavam as pegadas de quem havia empurrado. Havia-as de
duas espécies. Curvou-se para as pegadas com a lanterna na mão. Havia-as cruzadas. Pegadas de sapatos de borracha, as
rosetas próprias, e entre elas, as de umas botas vaqueiro, o sinal do bico pontiagudo e do tacão aguçado. Domingos olhou para
Antonino — «Pegadas do Gabriel. Estão aqui...»
«Mas como estão aqui pegadas do Gabriel?»
Domingos ficou de cócoras com a lanterna entre as pernas, inerte, a pensar. A lanterna bem junto do sexo, como se a
lanterna com a luz acesa pudesse atribuir-lhe uma força que, em alguma parte do seu corpo, Domingos reconhecia não ter. «Tu
sabias» — disse para o irmão. «Sabias ou não sabias?»
«Não te vou responder».
Domingos a pensar.
«Sabias, ó esperto, tu sabias...»
Domingos tinha disparado demasiado longe a sua raiva contra o enigma, para agora, perante aquela revelação óbvia, ser
capaz de se conter. Retirou a lanterna do sexo, ergueu-se, afastou a mulher e restantes membros da família que ali estavam,
também a verificarem que era o Gabriel que afinal andava de noite com a carrinha, e saltou por cima do colchão, voltou atrás,
deu um coice no colchão que reagiu, se enrolou e voltou a desenrolar como se aquela barriga de morraça também quisesse
mostrar que tinha uma vida, e ele próprio galgou o pátio e bateu com o punho na porta, atrás da qual dormia Felícia Mata, sua
mãe.
«Mãe?»
Disse à queima-roupa, ainda Felícia não tinha acendido a luz do psiché que lhe servia de mesa — «Mãe, foi o Gaby quem
roubou a carrinha». Felícia tinha os dez dedos despintados postos na borda do lençol. «Telefone já para o Janina». A mãe
virou-se de lado, sem olhar para ele. Só agora, mas só agora, Domingos reparava que havia tempo, desde a visita de Janina no
dia de nevoeiro, que a mãe não gritava ao telefone, andando cá e lá, dizendo, Segue em frente, sempre em frente, ciao, beijão.
Pois era verdade, a mãe tinha perdido a vozearia e só agora ele notava. Só agora. Até as unhas da mãe, onde não havia
vestígio de verniz vermelho, lhe asseguravam isso. As unhas muito pálidas, nas mãos morenas escuras, provavam-no. Ele
estava diante da mãe, com a caçadeira de canos cortados na mão direita, mais duas facas no cinto. Ridículo, hã? Ridículo.
Uma lanterna na mão esquerda, uma espingarda na mão direita, duas facas na ilharga para nada, diante da mãe que também
sabia de tudo. Não era verdade?
Ridículo.
«Entregamo-lo à polícia? Chamamos a polícia?»
«Que polícia? Que polícia?» — perguntou ela, levantando-se, vestida. Estava deitada vestida, Felícia Mata. Sem solução,
Felícia Mata. Queria ter e não tinha. A única solução, provisória, seria Domingos ir lá para fora aparelhado assim como
estava, para que eles soubessem que os Mata todos sabiam que tinham a casa rodeada de bombas-relógio que detonavam em
silêncio, matando não se sabia onde nem quando. Mas matando. Todos agora se encontravam no pátio, incluindo a velha Ana
Mata, empurrando a sua cautcha de plástico. Mas Domingos, rodeado pela família que julgava comandar, queria um bem. Não
conseguia sair para a rua, naquela noite, sem a ideia de um bem.
«E Janina?» — perguntou ele. «Telefone para o Janina».
Felícia Mata não queria telefonar. Domingos Mata pegou no telefone da mãe. Era o primeiro número da lista, o do Janina.
Carregou, chamou. Respondes ou não respondes? Responde, pá. Responde senão eu não sei o que faço nem a quem faço.
Janina respondia de lá. Domingos gritou — «Sou eu, o teu irmão. Sou Domingos. Onde estás? Estás com eles ou sem eles?
Diz-me, ladrão...»
Felícia retirou o telefone da mão do filho Domingos.
«Janina? Quem está a falar é o teu irmão Domingos, perdido da cabeça. É por causa do Gaby que rouba todas as noites a tua
carrinha. E o outro, o branco, que anda por aqui com o carro vermelho, dum lado para o outro... Diz onde estás. Se estás com
eles ou sem eles. Diz isso para o descanso de toda a gente. Se estás com eles...»
Felícia ficou à escuta. A cozinha quarto de Felícia estava repleta. Toda a família Mata ali estava, incluindo as crianças de
Antonino. A resposta de Janina do outro lado de lá, três horas da manhã, não terminava mais, parecia um testamento
interminável. Terminou. Felícia pousou o telefone. Suspirou — «Calma, o Janina não está com eles. O Janina segue em frente.
Vai amanhã de avião para um sítio na Alemanha onde todos querem ele. Segue em frente, segue sempre em frente, o nosso
Janina...» Felícia não tinha assim tanta certeza, mas naquele momento era necessário consolar a família inteira. Consolar
todos, um a um. Consolar em particular aquele seu filho Domingos, violento, carregado de armas tão despropositadas para a
situação. Felícia já vestida, a olhar para eles — «Vamos todos lá para fora, para eles saberem que não podem trazer mais à
nossa porta a carrinha do Janina nem as porcarias que transportam nela. Para ele saber... Vamos todos. Quando eles vierem,
vão ver que sabemos e que fazemos uma muralha contra eles... Vamos lá, minha gente...»
Gelavam na rua. Quando deveriam estar em plena Primavera, chegava o Inverno.
Só pela madrugada os dois faróis da carrinha apontaram ao fundo da estrada esburacada. Os dois faróis amarelos.
Apagaram-se. A carrinha ficou engolida pelo escuro da estrada. Onde estavam? Depois, viram-se-lhe de novo os faróis
traseiros. Vermelhos. Isto é, virava e arrancava. Desaparecia para algum lugar soturno e criminoso, a carrinha de Janina,
levando Gaby no seu bojo. Levando uma parte do próprio Janina, não se sabia para onde.
«A polícia?» — Ainda perguntava Domingos.
Sabendo, no fundo, que ela era apenas uma extensão eriçada da sua própria impotência.

Felícia ficou deitada durante vários dias, sem conseguir cozinhar.

Ela via tudo. Acabava de entrar para o vasto grupo das mulheres que se queixavam de que tinham dado à luz crianças cheias
de folhos e rendas, e passados dezoito anos, em vez de meninos perfeitos, apareciam-lhes à porta homens magros, com os
dentes podres, arrastando papelões como casa e lenços de assoar por mobília, pedindo-lhes o último dinheiro, e dizendo que
eram seus filhos. Mentira. Não eram seus filhos. Não eram nada aqueles os filhos que essas mães tinham parido. Sim. Janina e
Gaby? Pois era. Estava inconsolável. O que tinha errado? O que tinha falhado? Que anjo de asas pretas os tinha seguido?
Felicia arrependia-se de ter telefonado tanto, de ter gritado tanto. De ter julgado que o caminho da glória era uma encosta só
a subir. De ter imaginado que havia glória. «Pois glória, glória, só a de Nossa Senhora e mesmo essa bem chorada, por
sinal...» — disse ela.
Antonino, sentado, a ouvir, na cozinha quarto, esperava-a. — «Meu filho Antonino, é você? Tem estado a escutar sua mãe?
E você, em que está a pensar? Em Dona Milene? Por favor, não traga ainda a nossa casa a Dona Milene, sua mãe anda tão
ralada que ainda não decidiu. Como pode sua mãe pensar em dois assuntos tão diferentes ao mesmo tempo? Não traga
ainda...»
«Mas se quiseres trazer, pois que tragas. Vendo bem as coisas, às vezes até tenho saudades daquele pelém. Do tempo feliz
desta casa quando se encontrou o pelém escondido no nosso estendal. Uma pessoa tinha acabado de chegar do Coliseu do
Recreios...»
«Já decidiste, Antonino?»
«Nunca lhe fales na bomba-relógio que está debaixo da nossa casa. Entretanto isto passa...»
XXI
Não, nunca falaram da bomba-relógio.

Porque desde o início tinham combinado que nunca iriam falar da dor. Milene é que havia proposto — Para quê falar da
contrariedade? Para a aumentar? Vamos só falar do amor. E das letras dos Simple Minds e dos U2, só das letras boas deles,
não das outras. Vamos falar do Indiana Jones, do Apollo 13 e até da Amante do Tenente Francês, essa grande xaropada, que
ao menos acaba bem. Disso vamos falar. Mas não vamos falar da dor. Isso nunca... — Quem o tinha dito fora ela, mas agora
também ele achava que havia proposto o mesmo. Pois para quê falar da dor? Para a aumentar? Estava fora de questão.
Antonino nunca iria falar das cargas venenosas que tinham encontrado na ampulheta, nem da utilizacão clandestina da carrinha
de Janina, nem de tudo o que havia antecedido, nem do que se previa que fosse acontecer. Nem da tristeza que grassava na
Fábrica Velha, ao imaginarem Gabriel a viver no futuro como um marginal, e Janina Mata King, o cantor, periclitante na sua
carreira. Não, sobre essa dor não iriam falar nunca.
Pelo contrário, encontravam-se ao fim do dia e ficavam mudos, a olhar um para o outro, à espera duma outra forma de
comunicação. Ele retirava o rádio da orelha, apagava o cigarro e abria dois botões da camisa. Pegava-lhe na gorra de Inverno
e começava a avolumar-lhe o cabelo. Alegres, sem dizerem nada. Por vezes, punham-se a falar rapidamente, como se lhes
faltasse o tempo, mas nunca era sobre a dor. Milene contava como Juliana se tinha tornado sua cúmplice sorrateira, querendo
saber de tudo sobre eles, e ao mesmo tempo, não querendo. Ele falava dos projectos que tinha quando subia ao alto da
Liebherr. Visíveis ou invisíveis, Antonino queria partir para longe com ela. Continuava a não saber para que país. Comprava a
revista Últimas Viagens mas, por mais que lesse, não se decidia. Esse tipo de revistas só mostrava cidades já concluídas com
palácios antigos e gente a passear nas ruas, como se a construção de tudo isso tivesse caído do céu, perfeita, milhares de
séculos atrás. Só uma delas, Berlim, apresentava uma floresta de gruas subindo por cima dos prédios, mas nem sequer as
referia. Como é que uma pessoa podia guiar-se por tais imagens? Uma revista colorida, chamada Trabalho Assegurado e
Distância Necessária, como ele procurava, essa parecia não existir ou não estar disponível.

Mas seria assim tão necessária, a distância?

Tinham passado a ir regularmente ao Pomodoro, e embora Antonino olhasse em volta, ainda à espera de qualquer
acontecimento estranho, tudo acontecia de forma natural. Não precisavam de ser invisíveis. Que pena se fossem invisíveis.
Verem-se era bom, reconhecerem-se, olharem-se no espelho do Pomodoro, com gente a sair e a entrar. Gente que os via e lhes
dizia, com naturalidade, Desculpem, dão-nos licença? Muito obrigado... Gostavam de se avaliar a si mesmos pela forma
como os outros os viam. De mãos dadas, ela debaixo do braço dele, e ele vestido de cabedal. Olhavam à volta e não acontecia
nada. Tiravam fotografias um ao outro que mandavam revelar no Big Store e ficavam à porta da loja, à espera do resultado. Às
vezes pediam a pessoas que lhas tirassem, e os dois abraçavam-se diante da câmara. Já tinham um montão que nunca
mostrariam a ninguém. Fotografias deles, só para os dois olharem.

Quando ficavam com as crianças, iam ao Tocatinas. Nessa casa de pasto, arrancada a uma garagem, havia música desde o
cair da tarde e podiam comer-se petiscos, cuscuz, mandioca, banana frita. Os meninos podiam entrar. Tinham cadeirinhas altas
para o mais pequeno ficar preso, mesmo que gingasse. Ali as crianças podiam morder a madeira se tivessem vontade de coçar
os dentes. Podiam correr entre as mesas, que ninguém se importava. Naquele dia, foram. Entraram. Dançava-se coladera e
funaná. Na rua tinha começado a chuviscar. Ela retirou o impermeável. «Vocês estão vindo outra vez? Vocês são namorados
mesmo? Vão mesmo casar? Já dormem juntos? Mestre Cachopinha, música para os namorados noivos. Eles têm de dançar...»
Milene tinha tirado o barrete da cabeça e virado a trunfa crespa, toda só para um lado. Tinha dito — «Ó pá, vamos lá. Anda
lá...» Antonino a resistir. Tocatinas, um velho obscuro só com um olho, à medida que Antonino puxava a noiva até ao estrado
para se balançarem, um em frente do outro, colocava ele a mão entre as pernas — «Anda lá, viúvo dum raio. Para que prestas
tu?» Duas violinhas a rirem, na mão de dois mocetões, e o velho, estropiando indecentemente a letra duma morna sentida, sob
o efeito dum ritmo bem rebolado, cantava naquele preparo — «Sinhora di Fatima, minha boquinha do anjo, junto de tuas
mãozinhas, conserva minha vidinha, para eu lhe dar muito bem, onde ela é tão bem precisada...» O velho meio cego a rir da
sua própria pilhéria, a rir de si mesmo, a rir do noivado branco preto. A rir com muita alegria. Uma alegria que apagava a
pilhéria e fazia do seu gesto obsceno um apêndice natural do contentamento. Antonino bastante atingido — «Desculpa,
Milene...» Milene a rir, a gingar muito bem, muito descontraída, com os joelhos redondos unidos, a sacudir a saia, diante de
Antonino. «Desculpa, Milene...» E o velho a atravessar o pequeno grupo que abanava o corpo, a ondular as ancas matreiras
até junto deles, dançando aquela miscelânia espúria — «Sinhora di Fátima, minha boquinha, ó minha boquuuzznha...»
Milene dançando, muito satisfeita.
«O que é que tem? Eu não vejo mal nenhum..»
O velho obscuro a aproximar-se dela — «Deixa-me dar-te um bejo, na boca cristalina, na boca di minina, um bejo di
mágoa, um bejo di sodade ...» Antonino a desviar Milene, e Milene a rir imenso por causa do velho obscuro, ele a fingir que
roubava Milene a Antonino, acompanhado pelo gesto obsceno. Milene eufórica de todo. As pálpebras altas descidas, a rirem-
se.
«O que é que tem? Eu não vejo mal nenhum...»
«Bêjem-se lá...» — dizia o velho ao som da música. «A gente quer ver para acreditar mesmo em você...»
«Moça, quem é o teu pai e a tua mãe? Hem?» — perguntou uma mulher muito nova com seu neto ao colo, olhando para
Milene que ainda gingava. O som das violinhas muito impotente face ao vozeario. A mulher a dizer — «É muito pena você ser
tão branca, minina...»
Antonino tinha ido desentalar Quirino que esperneava, trancado na cadeira, e chamar por Emanuel e Cirino que andavam a
galgar umas mesas num recinto interior onde havia dois enormes tachos ferventes. Milene, eufórica, a colocar na cabeça o
barrete de malha, Antonino raivoso com a intromissão do tio Tocatinas — «Um ordinário, um porco, um selvagem que não
respeitou a minha noiva, caramba...» Os quatro a andarem à pressa, empurrados por Antonino, a caminho do carro. Milene
com Emanuel pela mão, ainda a rir cheia de gosto, lembrando-se do velho tonto. «Porque se ri, Milene? Porque se ri você?»
— Tratava-a assim, em situações especiais, ou muito boas ou quase más.

Era um amor normal.

Mas Antonino tinha ficado demasiado sério, enquanto conduzia de regresso ao Quilómetro 44. Então como iria ser no
futuro? Onde iriam ficar? Como iriam viver? — O Tocatinas mais do que ninguém parecia ter marcado a irreversibilidade dos
factos. O homem tinha-os empurrado com seu pauzinho sujo para um local inevitável de onde não se voltava mais. Sem querer,
tinham sido colocados a meio caminho entre a leveza e o corpo. Familiarizados com o trivial que os punha ao nível do
quotidiano, da vida vivida do dia-a-dia. Coisas comuns, como pratos, roupas sujas, contas de electricidade, prestações,
torneiras desapertadas, chichi de criança e cocó do cão onde a gente vai passar. Tudo isso se tinha revelado incontornável,
com a bênção profana do Tocatinas. Uma rasoira necessária. Tinham descido do alto local das aves para o lugar dos homens.
Eram noivos. Pois então se eram noivos, como fariam? Com quem falariam? Onde iriam viver? Os cinco juntos. Onde?
Antonino a pensar. Estavam mesmo diante de Villa Regina, toda iluminada, e do renque das casas vizinhas em transformação,
e resolveram alguma coisa. Foi ela quem disse — «Pá, já disse, vamos os dois mostrar-nos à minha família. Não vamos pedir
nada a ninguém, vamos só dizer que nos entendemos muito bem, o que é um grande passo...» Como ele demorasse a decidir, e
as crianças se batessem no banco de trás, ela abriu os braços para fora da carrinha — «O luz da casa! Que droga, ajuda ele a
decidir que sim...» Tirando e pondo o barrete. Era um amor comum.

Decidiram então que iriam os dois, no sábado seguinte, apresentar-se, de surpresa, na casa dos tios Leandro. Milene achava
que tinha chegado a hora exacta, que tudo estava no seu lugar. Estava feliz ao entrar em casa. O que havia acontecido? Na sua
vida tinham deixado de existir abismos, dias tristes, para não falar de flores carnudas e mulheres de buchos quadrados. Nem
se lembrava de mais nada que se relacionasse com isso. Nem se lembrava do que João Paulo costumava dizer quando as duas
primas achavam que tudo estava no seu lugar. No seu lugar? Perguntava ele. Desconfiem de quando tudo estiver a correr bem.
Se repararem, tudo está rodeado pelo seu contrário — Em torno da bondade a inveja, em torno do riso a faca, em torno do
amor a nódoa, em torno do prazer a escara. Em torno da beleza, o esterco. Só assim, variando as quantidades e a ordem, tudo
está no seu lugar. Aprendam, decorem. Costumava ele dizer. E Milene na altura havia aprendido umas coisas por outras, mas
na verdade, naquele momento, até não se lembrava de nada. Nós próprios lembrar-nos-íamos depois.

Então foi assim.

Milene e Antonino, naquela tarde de Primavera, atravessaram o emaranhado de fios que se cruzavam pelo ar, os casinhotos
que fechavam a estrada dum lado e de outro, a desordem e a feiura, deixando-os para trás, e alcançando a zona onde os
plátanos começavam a crescer sobre relvas, entraram na Quinta da Amurada e dentro dela procuraram os caminhos de fada
que conduziam à vivenda da tia Gininha. Antonino conhecia bem as ruas em forma de ferradura, fechadas a norte e abertas a
sul, que tanto o haviam exasperado no dia em que tinha querido devolver Milene. Por certo, uma coisa que não tinha nome,
mas que deveria existir como uma potestade, estava agora a trazê-lo até ali, numa situação completamente oposta. Vinha dizer
que desejava guardar para si a pessoa que o acaso, em Agosto, não permitira entregar. Lembrava-se muito bem da desavença
acontecida diante da porta onde se lia, em chapa de bronze, o nome da casa — Vivenda Dom. Silvestre. No exterior tudo se
mantinha igual. Um painel de luzes e botões discretos indicava que para se entrar era necessário proceder a operações
especiais.
Mas por sorte, talvez bom presságio, a cancela lateral encontrava-se encostada, pelo que não era necessário tocar. Ao longo
do trajecto não tinham falado. Milene puxou pela mão de Antonino, e os dois entraram. Caminhavam em passo desigual pelo
passeio do jardim até à porta de casa. Ela adiante, ele atrás. Ele tinha a noção do risco, ela só tinha a noção da surpresa.
Milene queria à viva força que a tia Gininha fosse surpreendida em primeiro lugar. A última vez que ali tinha estado fora na
noite de Verão em que o encontro entre o tio Dom. e os holandeses havia falhado. Nem era bom pensar nessa inesperada
aparição do tio. Agora, de tal forma tudo era novo na sua vida, que ela julgava que o mundo e o género humano, por
arrastamento, também se tinham modificado, e nessa transformação, o próprio tio Dom., o traficante da crusta terrestre, havia
sido contemplado. Milene não tinha medo nenhum. Tinham-se preparado mesmo a nível de indumentária. O próprio Antonino
usava um casaco de cabedal preto, cintado, de cujo cós pendiam fivelas. Ela usava um impermeável curto, as pulseiras
sobejando para fora das mangas. Uns pendentes brancos tremeluzindo no rosto triangular. Milene e Antonino, diferentes,
contrastantes, assimilados pelos sapatos. Ambos de sapatilhas brancas, altas, Adidas puras. Próprias para correr. Os dois
como se estivessem de patins, preparados para levantarem os pés e mostrarem as solas aos espectadores num ringue de
patinagem.
Agora já ali estavam, de mãos unidas, colocados à porta da vivenda Dom. Silvestre. Uma voz de rapazinho, atrás da porta,
perguntava como se fosse uma moradia vulgar — «Quem é?» Milene, encostada a Antonino, não respondia, divertida, como se
estivesse a aprontar uma maldade. Uma partida à tia com quem não falava havia muito tempo. Ela não precisava da tia, a tia
não precisava dela. Milene diante da porta. A criança era o Bruno José, tinha dez anos e já havia libertado o trinco. Acto
imediato, a porta escancarou-se sobre o hall, e a tia Gininha, carregando ao colo a bebé Artemisa, com os dois bracinhos
levantados, surgiu do interior das paredes atapetadas. Tia Gininha? Grande surpresa. Muito embaraçoso, não é verdade?
Via-se-lhe na cara — Num primeiro momento, a tia Gininha só tinha visto, sobre o portal, os dois pares formidáveis de
sapatos brancos, depois levantara os olhos e enxergara a sua sobrinha junto dum homem grande, acastanhado. Em seguida
tinha-os descido e havia verificado que estavam de mãos dadas. A tia tinha ficado paralisada.
«Olhe para nós...»
Coitada da tia Gininha, de longo cabelo comprido como se fosse uma rapariga, textura de mulher madura, e naquele
momento, por sinal, bastante desarranjada. Que pena, que pena, que diferente era, quando passeava em Mar de Prainhas e tinha
outros namorados, um deles que lhe cantava a canção de Ana Latu, sempre que não estava a dormir. Coitada. Mas durante
aquela visita não iria pronunciar uma palavra sobre isso. Estava ali para dizer alguma coisa bastante diferente — Tia
Gininha, olhe bem para nós os dois. Está a ver-nos? Vamos casar... A tia tinha-se sentado numa cadeira da Birmânia,
caríssima, que existia entre o telefone da entrada e uma escultura em mármore do tamanho de mulher. Caríssima. Milene
conhecia a entrada. Havia ali também uma minúscula mesa onde não cabia uma jarra, mas onde a tia Gininha ainda colocou o
cotovelo, permitindo assim amparar melhor a bebé Artemisa disposta a saltar do colo, com os bracinhos de boneca levantados
no ar. Milene ria. A tia Gininha disse ao filho Bruno — «Vai lá dentro e chama alguém para me ajudar...» Então Milene
sacudiu, entre ela mesma e Antonino, os dois punhos unidos, entrelaçados pelos dedos, como se ninguém mais os pudesse
separar, e disse ao que vinha.
«Não se incomode, tia. Não chame ninguém, viemos só dizer que vamos casar... Não é verdade, Antonino?»
Ele também disse que sim. Aliás, começou por balbuciar e depois por dizer — «É verdade. Vamos casar, assim que os
papéis estiverem prontos. Vamos pedi-los...»
E Milene continuava a balançar o punho duplo, de dedos entrelaçados, entre o corpo dele e o dela. Com alegria. Como a tia
Gininha não se movesse e ninguém viesse buscar a bebé, nem o Bruno José voltasse, ela disse — «Pois vamo-nos já embora.
Só quisemos que a tia Gininha soubesse em primeiro lugar...»
A tia Gininha era uma pessoa muito mais lenta do que a tia Ângela Margarida. Sempre tinha sido. Talvez por isso ela se
tenha levantado e sacudido o longo cabelo, como se precisasse que o vento seco da rua entrasse em casa e lhe sacudisse a
alma. E talvez por isso tenha virado as costas, devolvendo aos dois o rosto lunar da bebé Artemisa. Com um aceno de mão,
fazia-lhes gestos de entrarem para a sala. Aí chegando, ao espaço branco e acolchoado do living, a tia até se tinha deixado
cair no sofá Divani, como se as suas pernas não pudessem mais com Artemisa. A bebé bem instalada, dançando no colo da
mãe, levantando os dois braços enchumaçados de roupa, fazia lalá. Milene tinha começado a rir às gargalhadas na direcção da
criança, mas não se levantava para a acariciar como desejava, porque estava unida a Antonino Mata pelo punho fechado. Os
dedos metidos entre os dedos. Inseparáveis. Para sempre. Para sempre. «Vamos casar, tia...» — disse ela, agora sentada, os
dois em frente da tia.
«É o teu noivo?» — perguntou a tia Gininha. A cara mantinha-se pálida.
«Ele mesmo».
Antonino achou que deveria intervir. Tinha-se preparado — «O meu nome é Antonino Mata, sou neto da Ana Mata, que às
vezes conversava com a senhora Dona Regina. Conhecemo-nos, precisamente, eu e ela — e apontou para Milene — por
ocasião do falecimento da sua mãe, desculpe, por ocasião do falecimento da mãe da senhora... Vivemos lá na Fábrica Velha e
até chegámos a escrever uma carta. Foi nessa altura que nos conhecemos, eu e ela...» Os dois ficaram a olhar um para o outro,
aconchegados um ao outro, e só depois devolveram em comum o olhar para a tia — «Agora vamos casar».
«Vamos. Já nos namoramos há meses».
Milene agitou-se no sofá, procurou uma melhor posição e disse a Antonino — «Senta-te para trás, pá». A tia Gininha olhava
para ambos, abraçados, Milene mais viva do que ele, com mais expressividade do que Antonino, e Antonino encostando-se no
sofá que era fundo como uma cama, ficando com a ponta dos sapatos Adidas no ar. Ela curvada para o lado, olhando para ele,
com uma intimidade próxima, apresentando-o como um troféu valioso, um objecto transcendente que oferecesse à sua tia
preferida. Bem como o amor dele por ela, e vice-versa. Sim, nós não somos selvagens, nós tencionamos casar. A tia pálida,
pálida.
«Nunca nos disseste nada...»
Nesse instante, a bebé tinha começado a guinchar patinhando no colo da mãe, e um berreiro aumentou na sala, uns gritos
extraordinários. A bebé virou-se e olhou para os dois com a cara lunar escancarada ao mundo. Toda ela era choro. A tia
Gininha tentando acalmá-la, sem retirar os olhos de Milene e Antonino. «Desculpem...» — dizia Gininha, aliviada por
acontecer alguma coisa que lhe permitisse dar tempo a organizar a cabeça e a fala.
«Não tem importância nenhuma, tia Gininha. O Antonino está habituado. Tem três filhos pequenos e é ele próprio quem os
trata. Até dorme com eles...» Milene olhava para Antonino, para que ele confirmasse. Estava tão leve que o cabelo, saindo
fora do barrete, se movia para cá e para lá, à volta da cabeça. «Sim, dorme com eles. O Antonino é viúvo. A mulher dele, a
Eunice, faleceu no ano passado...» Milene ainda disse — «Ele até costuma dizer que tem duas namoradas, uma morta e outra
viva, e a viva sou eu...» Disse, colocando a cabeça no ombro dele, a olhar para a tia. Milene comovida com a palidez da tia e
com a figura da bebé enchouriçada na sua roupa peluda. «Ele está muito habituado a crianças...» E dirigindo-se de novo a
Antonino, o cabelo cá e lá — «Não é verdade que estás habituado?»
«É verdade» — disse ele a rir, tentando mover os dedos na direcção da criança, que se calou, mergulhou a cabeça no ombro
da mãe e soluçou mais baixo. Parou mesmo de soluçar. Era uma vitória de Antonino. Por instantes, sobre a sala, tinha descido
uma espécie de paz. Os três a olharem-se sem ruído algum que não fosse a réplica do soluço da criança.
«Porque nunca nos disseste nada?» — perguntou de novo a tia Gininha.
Sim, porque nunca tinha dito? Milene voltou a olhar para o noivo pedindo ajuda. Era muito difícil explicar. Como iria
explicar que Antonino tinha começado por dizer que deveriam ser transparentes e invisíveis, bem como todos os outros
avanços e recuos de Antonino? Ela ainda olhou para o tecto, ainda esteve para dizer que tinha querido falar à tia Ângela
Margarida, no dia da maratona, mas era muito difícil, naquelas circunstâncias, andar ali com a memória para trás e para
diante, só para explicar o que não tinha acontecido. Iria apenas dizer alguma coisa que também não deixava de ser verdade —
«Olhe, tia, foi para fazer surpresa. Surpresa total. Eu sabia que as tias iam cair para o lado...»
Milene a rir para Antonino. Por instantes, silenciosos, na sala carregada de objectos caros, móveis que se valorizavam a
cada guinada das agulhas do relógio, alguns deles até conforme os caprichos da Bolsa de Nova Iorque, segundo o que se dizia,
e estavam ali. Milene tinha vontade de explicar quanto valia a carpete onde Antonino punha os pés, mas aquele não era o
momento. Até porque três pessoas entravam na sala. Entrava o primo Bruno, circunspecto, como se tivesse sido atacado por
um índio, uma empregada vestida de rendas e crista como antigamente, muito antigamente, e Dom. Silvestre, de olhos
inchados, como se tivesse interrompido alguma sesta profunda no andar de cima. O Bruno, em pé, escutando por certo o grito
do seu índio imaginário. A criada antiga com rendas na bata, levando a criança ao colo. O tio Dom. entrando e saindo da sala.
Não entrava logo duma vez, porque atrás da porta tinham de ficar os dois cadelos Rottweiler que o acompanhavam, e
sôfregos, enfiavam o focinho na abertura da porta, escavando e latindo por baixo como se farejassem alguma coisa inimiga
aquém do vidro. O tio tinha-se sentado ao lado da mulher e olhava para o noivo de Milene. Não tirava os olhos pequenos e
escuros, muito luzidios que o tio Dom. possuía, da figura de Antonino. Milene não se importava. Que olhasse. Não lhe metia
medo.
«Um uísqui?»
«Não, obrigado».
«Um uísqui» — insistiu o tio Dom. «Esteja à vontade...» Percebia-se que Dom. Silvestre não estava à vontade, nem sequer
olhava para Milene, porque os seus olhos continuavam cravados no acornpanhante. Cravados. E o tio ainda perguntou —
«Então você o que faz?» Mas Antonino tinha a noção do risco, e impelindo o punho que continuava a uni-los, ambos se
levantaram. Milene, encostada ao noivo, explicou que tinham reservado aquela tarde para visitar todos os tios, assim, de
surpresa. Naquele instante mesmo, iam a casa da tia Ângela Margarida. Aqui nos vamos. E saíram para a rua. Não tinham
passado quinze minutos.
Sempre de mãos dadas, atravessaram o jardim verdíssimo, onde havia o pavão que se deitava à sombra da faia de prata. E
os dois, ela mais do que ele, ao virarem costas à Vivenda Dom. Silvestre, faziam um balanço positivo daquela visita, urna
surpresa que por certo os havia deixado caídos para o lado. Milene sentia-se felicíssima por esse efeito, por tê-los
surpreendido assim, sem tempo de reacção. Feliz, feliz. Quando a carrinha rolou pelas ruas de fada, fechadas a norte, abertas
para o mar, ela debruçou-se sobre o volante e beijou a mão direita de Antonino, levando-a aos lábios. — «Mãozinha preta,
não tenhas medo dos meus tios, eles não fazem mal nenhum. Não tenhas, não...» Ela tinha visto como a mão dele tremia ao
recusar o uísqui. «Mãozinha, mãozinha...» Estavam contentes. Milene saltava a caminho da carrinha. Feliz, feliz. Como se o
riso, o amor, o prazer e a beleza alguma vez na Terra se servissem puros. Então a carrinha atravessou a paisagem do Inverno a
caminho do Condomínio Atrium. Feliz. «Não tenhas medo...» — disse ela de novo. «Vai ser tudo muito simples. Eu toco cá de
baixo, digo quem sou e depois subimos os dois. Também a tia Ângela Margarida vai cair para o lado. Vais ver...»
Mas não viram.

Àquela hora de sábado, só o carro particular do tio Rui Ludovice se encontrava parqueado em frente, sob uns pinheiros
esparsos. Os outros carros dos tios deveriam estar arrumados na garagem. Fosse como fosse, o guarda do condomínio disse
que ninguém se encontrava. Ela olhou muito bem para os últimos andares, o nono e o décimo, onde uns toldos de riscas
abanavam, na tarde cinzenta, e achou que estavam. Milene achou mesmo que havia indícios precisos, como as persianas todas
levantadas. Os dois andares com ar de terem os seus donos lá dentro, tudo aquilo a dizer que sim, que estavam, e o guarda a
dizer que não, a fingir que premia botões e a chamar pelo telefone gente que não havia. Milene tinha-se encostado a Antonino
Mata mas desencostou-se — «Deixe-me subir que eu vou lá...» O homem, porém, fechou a cara e ficou renitente. «Não tenho
ordens para deixar entrar» — disse-lhe ele. Milene irritou-se — «Merda para você, percebe? Não vejo que estão? Eu tinha
uma surpresa para fazer aos meus tios e você está a boicotar. Percebe?» Um cavalheiro, todo de branco, como se partisse para
o golfe, vinha a sair, e ela queria aproveitar para entrar. O guarda gritou-lhe — «Alto lá!»
«Você percebe ou não percebe?» — berrou Milene.
Antonino pegou-lhe pelo braço, puxando-a para fora daquela discussão. O homem devia estar treinado para não responder a
provocações. Pegou num papel que ali tinha e fingiu ler. Distante. Ela gritou-lhe, já de regresso ao carro — «Merda para
você. Percebe?»
«Você percebe ou não percebe?»
E para Antonino — «Pára aí, por favor, que eu quero pensar. O que se passa que não quiseram abrir a porta? Eles estão lá,
não vi os carros, nem apareceram nas janelas nem na varanda, nem na penthouse, mas estão. A casa nunca está sozinha, mais
que não seja, está a empregada. Mais que não seja. Olha que eu volto para trás...»
Tinham parado em frente do muro, o que principiava depois do parque e se prolongava em frente das casas, protegendo-as.
Uma muralha delicada. Um muro construído e pintado de fresco, com plantas caídas em forma de cabelos, debruçados, pedras
com micra e feldspato, a fazerem um lintel de inspiração arte-nova, um luxo na Natureza. Por cima, um tritão luzidio, de rabo
enrolado, dominava tudo. Milene não via nada. Pediu a Antonino que parasse de novo. Queria pensar só para si. Pois também
poderia ter acontecido ao contrário. Porque não admiti-lo? — A tia Gininha poderia ter telefonado, assim, pálida como
estava, com os cadelos Rottweiler a ladrarem, a bebé a chorar no colo, o tio Dom. a tomar o seu uísqui, e ela poderia ter
tomado o telefone e chamado para casa da tia Ângela Margarida. Avisada antecipadamente, a tia Ângela Margarida poderia
não ter querido fazer figura de estúpida, com a surpresa que lhe tinham preparado, pois era preciso lembrar que na manhã da
maratona acontecera aquele caso das sílabas, e ela não tinha dito nada à tia. Agora, ao saber de tudo, o tio Rui poderia até não
se ter sentido bem. Também poderia ter encontrado um outro bispo que não lhe tivesse estendido a mão. Coitado do tio Rui,
todo ele Acção em plena acção e no entanto, o efeito da sua Acção a depender dos outros, desde as finas mãos de bispos e
cardeais, até às mãos encardidas dos mais pobres trolhas. Como o próprio tio às vezes dizia, num futuro próximo, a
Democracia teria de ser revista. Mas Milene agora não queria pensar mais nesse assunto, muito mal disposta. Também
Antonino olhava para os últimos andares do condomínio e sentia-se pesaroso.
«E agora, o que fazemos? Vamos ao hipódromo?»
Milene ainda a pensar. Não, não iriam ao hipódromo. O tio Afonso, possivelmente, também já lá não estava. Ou poderia
estar e não querer estar. Não iriam. Poderiam ir, sim, até às Dunas Fêmeas. Mesmo que não chegassem até lá, iriam andando
como se fossem. Milene com um pouco de frio, a dizer palavras abstractas. A dizer que, antes, o céu cinzento fazia-lhe doer
ali, no meio do peito e dentro do pescoço, tinha mesmo de tomar comprimidos. Mas desde que o amava, não. O céu podia
estar como quisesse, que não a atingia, não precisava de comprimidos. Um dia ainda haveria de estar com a Violante para lhe
contar tudo isso. — Antonino a conduzir a carrinha na direcção oposta, sem dizer nada, a ligar o rádio, a desligar, a pôr a
música de que ele e ela gostavam, e depois a ganhar velocidade, primeiro na estrada bem feita e depois na esburacada. Em
sentido contrário.
«Sabes onde vamos?»
«Não».
«A minha casa» — disse Antonino, abanando a cabeça ao ritmo da música. Terence Trend d’Arby, no melhor do seu grito,
muito inferior a Janina. O irmão tinha uma voz muito mais ampla, o Terence tinha-a muito mais arranhada, bastante mais
áspera, muito mais pequena. O Janina, não. Milene tinha-se estiraçado sobre Antonino. «A tua casa?» — Na estrada
esburacada, a cabeça dela rolaria sobre ele, se ele não amolecesse a batida com o ombro. A mão direita por cima dela,
sempre que se libertava da condução. Ela coberta de Cacharel, ele coberto de Paco Rabanne — Ouviste? Não vamos falar na
dor, essa coisa fedorenta. Sim, vamos falar do amor, da música de que a gente gosta, dos discos do Janina, da nossa vida, da
parte boa da nossa vida. Minha namorada viva, tão parecida com Eunice. Vamos. Deus te pôs no meu caminho, depois dos
dias da ira da minha vida. Pensava Antonino.
«Sabes, Milene, não se pode comparar — A tua família não estava à espera. A minha já te conhece bem. Correcto? Para
dizer a verdade, até a minha mãe, que anda apoquentada, quando nos vir, vai levantar-se da cama para preparar um jantar para
você, tal e qual como no Verão passado... Olhe, Milene, até a minha avó Ana Mata vai ficar contente...»
E Antonino contou, antes de alcançarem o cômoro, como a avó em greve contra a dentadura, os óculos e os rios, por
ninguém mais querer voltar com ela para Ribeirinho da Praia, poderia estar presente se ele a convencesse com jeito, se ele lhe
dissesse que Milene era a neta de Dona Regina.
Aliás, ele mesmo carregaria com a avó Ana Mata ao colo, sentada na cautcha, a caminho da mesa, se fosse necessário. Por
causa da sua idade, a avó Mata via armadilhas em tudo. Milene que não se impressionasse se fosse tomada por uma delas.
Antonino, divertido — «Sabe, Milene? A avó é neta de Jamila Mata, você naquela noite já ouviu contar. Uma história doida,
uma história doida de ressentimento de mulheres...» Fosse como fosse, ele estava convencido de que toda a sua família até se
iria esquecer da dívida do bisavô Normand, assim que os vissem, aos dois, um a olhar para o outro, no meio do pátio. «Vamos
aparecer lado a lado...» Sobretudo as mulheres Mata tinham de compreender que bastava existir um pecado original para fazer
sofrer as pessoas. Para quê inventarem-se outros pecados? Nascer-se com um, igual para toda a gente, vá lá, agora pecados
originais diferenciados, por isto e por aquilo, vários a caírem em cima de cada pessoa, já eram pecados originais a mais.
«Está a ouvir o que eu digo?»
«Apanha-me lá...» — tinha pedido Milene, antes de saltar para o chão das palmeiras e encontrar no ar as mãos de Antonino.

Foi assim que os dois apareceram, ela a saltar para o colo dele, diante do portão da Fábrica Velha — Saberíamos depois.
Mas houve quem dissesse o contrário. Que as quatro mulheres Mata é que tinham esperado à porta, envergando fatos com
aplicações de lamé, xailes com vidrilhos e pendentes, para atraírem Milene, como se ela tivesse três anos, e a vida só fosse
um circo. E que depois, lá dentro, teriam comido borrego, dançado e cantado ao som da música de Janina, até de madrugada.
E contudo, não foi assim que aconteceu. De facto, Felicia Mata vestiu-se desse modo, em honra de seu filho Antonino, só
depois de ter cozinhado, durante duas horas, um frango com arroz e tomate. Enquanto isso, usou a roupa que trazia no corpo no
primeiro momento, incluindo um grande avental.
Também acabaria por calçar os sapatos altos de pele de jibóia que havia estreado no Coliseu dos Recreios, mas só porque
eles estavam ali à mão, a um canto da cozinha que lhe servia de quarto. As suas irmãs até ficaram vestidas tal como estavam,
bem como a mãe Ana Mata, que apenas concedeu, nessa noite, servir-se da dentadura e chupar uma asa, diante de Milene.
Entretanto, vindos de um passeio na Marginal, tinham chegado os outros membros da família, muito surpreendidos, atarantados
com o que viam, mas nada de especial aconteceu. Ao contrário do que depois se disse, falou-se pouco, e ninguém pediu nada a
Milene. Todos sabiam que na água lodosa da Ria que entrava nos baixos da Fábrica Velha, de um momento para o outro,
poderia voltar a alojar-se uma bomba-relógio. Os Mata tinham procurado refúgio no mundo novo, não podiam fugir para
sempre à tristeza que lhes era contemporânea. Felícia Mata só de vez em quando ria. Não foi verdade o que depois se disse a
esse respeito. E Milene, por sinal, até regressou bem cedo ao Quilómetro 44.

Sim, visto de longe, pouca importância terá. Chuva fina, estio e nevoeiro são só cenários, se acaso não atingem o coração
dos homens onde as coisas acontecem. Mas em relação a Milene, convém referir que os dias estavam crescendo.

Nessa noite, ela aproximou-se do telefone, sem fazer qualquer ruído com os passos, e disse num sussurro, como era seu
hábito — «Ouve, João Paulo... Cada vez estou mais convencida que mudaste de casa. Se calhar, foste para outra
universidade escrever um livro diferente. Se calhar deixaste este telefone a gravar sozinho e atéjá não me ouves mais...
Mas eu também não me importo muito. Cada um foi à sua vida... Olha, eu também fui à minha... É muito bom viver a sua
vida, ter um amor e casar. Conhecer as pessoas da família de um e de outro também é bom...» Acabava de chegar e falava
de cócoras, para não se sentar sobre o cadeirão da avó Regina. Disse ainda — «Mas bom, bom mesmo é beijar e sentir a mão
dele por dentro da minha saia, o braço dele à volta da minha cintura, a espremer-me, como se me quisesse dividir em duas
metades. Há momentos em que ele faz sentar-me toda na sua mão, como se eu fosse o fundo duma garrafa, e anda comigo à
roda, até eu ficar com tonturas. Quando acontece, eu sinto-me toda sua. Isso é muito bom... Eu também conheço quase todo
o corpo dele porque lhe meto a minha mão por dentro da camisa. É tudo muito bom... Quando me aperta com força, o sexo
dele é tão duro que chega a fazer doer. É tudo muito bom. Às vezes, quando ele mal sabe, a minha mão está na sua boxer.
Muito bom... Também foi muito bom ir dizer às pessoas das nossas famílias que vamos casar. Todos eles olharam para nós
como se nunca tivessem visto dois noivos juntos, e fizeram perguntas mesmo de quem não sabe o que há-de perguntar...
Pareciam parvos. A tia Gininha ficou contente, mas não soube dizer absolutamente nada. Para teu espanto, fica a saber
que, de entre todos, quem melhor se portou foi o tio Dom. Silvestre. Queria oferecer um uísqui ao Antonino, ele é que não
quis aceitar, não esteve para isso... Até se via por fora que a boca do tio Dom. estava cheia de perguntas. Ele só queria era
perguntar, perguntar... Raspámo-nos na hora agá. Depois fomos andando até aos tios Ludovice. Não estavam em casa ou,
se estavam, deveriam estar a sofrer muito por causa do serviço público do tio, que já lhe fez uma úlcera gástrica no
estômago do tamanho duma carica... Acho que não estavam. Também queria fazer uma surpresa ao teu pai. Pensávamos ir
ao hipódromo vê-lo cavalgar. Não o vejo desde o calendário perpétuo. Tinha imaginado que ele descia do cavalo e que nós
estávamos logo ali. Nós, junto do cavalo, a dizermos — Tio Afonso, vamos casar. A última namorada do teu pai chama-se
Isabel, já te disse. Por mim, ela até podia assistir... Eu queria tanto que eles conhecessem o Antonino... Nessa altura, eu
até ia poder perguntar por ti, porque não atendes o telefone, meses a fio. Se ele não quisesse responder, não respondia, eu
não o obrigava.... Mas depois fez-se tarde e eu tinha de decidir entre ir ao hipódromo e ir ao diamante. Escolhi o diamante
porque já estava com saudade. Aquilo lá dentro lembra-me os filmes passados em África, mas só os bons, pois por aqui
ninguém sofre de nada. Tudo em paz. Lá no diamante, todos me receberam bem. Todos espantados, como já disse... Fui
muito feliz. Ir dizer à família que se está apaixonado, é quase tão bom como estar de verdade...» Milene estendida no chão,
entre os dois sofás da avó Regina — «Digo-te isto tudo para que saibas que me chateei de te chamar... Agora que eu já não
preciso de te ouvir como precisava... Olha, agora já não quero que me digas — Nunca, nunca nos vamos separar, até ao fim
da vida. Não é verdade. Já não vale a pena. Agora, quem eu quero que me diga coisas parecidas é o Antonino. O que me
dizes a isto? — A pele dele é acetinada, as sobrancelhas não se vêem. Os olhos são escuros, mas os da mãe dele são claros.
Tem os cabelos muito, mas muito mais frisados do que os meus ou os teus. Quando se ri, os dentes dele são brancos como
giz. Já arrancou alguns e ficou com dois intervalos, um de cada lado, mas não faz mal. Quando ganhar como manobrador
de gruas vai logo comprá-los. O corpo dele é grande, e eu fico debaixo do ombro dele, toda amalhada, quando nos pomos
a andar. Agora tu ficas só na minha lembrança, até que venhas cá e eu te veja outra vez. Mas se não vieres, não morro por
isso. A minha vida está cheia com o Antonino. Como a tua está com a Lavinia... Gostava de saber se o tufão Andrew passou
perto da tua casa. Aqui viram-se as imagens duma cidade a cair e um tribunal a voar... Vai longo este telefonema, mas é
para que saibas de tudo... Agora penso que essa bodega de gravador até nem está a gravar outra vez. Vou desligar e
recomeço... Até já...» Milene sentia as costas geladas, a carpete da sala tinha limpeza de hospital, mas estava fria e húmida
das sucessivas lavagens. Espirrava — «Acabou-se, acho que não está mesmo a gravar. Então adeus, sou eu, Milene, onze
horas da noite, em Portugal, bye, bye, ao todo trinta e dois mil escudos, por mês, em chamadas internacionais, para nada».
«Que tal?»
XXII
Então, para a tia Ângela Margarida, o dia insuportável de segunda-feira chegou. O que fazer?
Mesmo ali na Clínica das Salinas, onde tudo era feito para esquecer o corpo, o corpo impunha-se. Por norma, sem grandes
filas, sem gritos, sem expressões de aflição. Mas agora, perigosamente, sobretudo naquele dia da semana, vinha e abancava
nas salas de espera durante simulacros de eternidade. Ë verdade que ali ninguém poderia gritar as obscenidades que se
ouviam nas outras clínicas, muito menos nos populosos centros de saúde pública. Salas tristes com gente circunspecta, sentada
como para um fuzilamento, e de súbito, um funcionário, aparecendo à porta, e reduzindo a pó a identidade de qualquer um dos
presentes como se fosse um condenado à deportação. Gritando — Essa pessoa que ainda não fez as fezes, está pronta para
entrar? E a pessoa, que era aquela mesma, ali ao lado, enchendo a sala inteira com a pobre miséria do seu corpo exposto,
levantando-se, entregando-se como se ela mesma fosse o boião de fezes identificadas.
Não, na Clínica que ela fundara, cinco anos atrás, com a preciosa colaboração do Dr. Seabra, era absolutamente interdito
identificar alguém como a pessoa da bexiga cheia, ou do clister opaco, como acontecia nesses outros lugares, onde seres
humanos baptizados eram tratados como se fossem recipientes de matérias fecais. Pelo contrário, essas realidades
desincrustadas do corpo eram ali referidas com parcimónia, como se cada pessoa fosse pessoa de família e não um corpo. A
uma pessoa de família nunca se grita, alivie-se já, seja rápido. Porque os laços de família pressupõem que, para além dum
corpo, se tenha uma história e se possua uma alma. Precisamente, ali, na Clínica das Salinas, as pessoas eram tratadas como
pessoas porque lhes era reconhecida uma alma, um tempo próprio, uma hora marcada e um nome de família pelo qual eram
chamadas. Ângela Margarida sabia quanto, no campo do afecto e da delicadeza, a Clínica das Salinas lhe devia a ela, Ângela
Margarida Soares Leandro Ludovice, de seu nome completo, como constava da escritura inaugural.
Segunda accionista, a tia fazia parte da equipa que tinha posto em evidência a fórmula que se revelara completamente
eficaz, resultante do cruzamento matemático entre o número de atendimentos, o tempo utilizado e o afecto despendido por cada
utente. Uma constante infalível. Por essa razão, o respeito e o afecto acabavam também por ser elementos primordiais no êxito
daquela clínica. A capacidade de oferta, porém, tinha-se tornado muito menor do que a procura, a fórmula começava a
desvirtuar-se. Tornava-se visível a iminência do desequilíbrio. As pessoas ali estavam, com os seus nomes, as suas
profissões, as suas histórias clínicas e as suas idades próprias. Mas eram tantas, nesse dia da semana, que logo o corpo, esse
rei sebento, assaltava o espaço que lhe era vedado e dominava tudo. O corpo impunha-se. Suas carnes, seus ossos, suas
gorduras. Seus tumores que não passavam de flores exuberantes do corpo, proliferações de jacintos no fundo das águas. A
natureza a funcionar à solta, toda essa luxúria orgânica, com o seu atropelo biológico, a sua matéria orgânica excedentária, ali
vinha ter. A grande diferença em relação aos serviços congéneres dos hospitais civis, onde tudo estava preparado para
anunciar a quem chegasse que se fosse embora, como se houvesse um letreiro luminoso à entrada que dissesse, Anda, desiste,
vai morrer para tua casa, consistia na forma murmurada como ainda se atendia. Nos gestos que sobejavam do respeito, do
afecto, hábitos próprios do tempo dedicadamente distribuído. Resumindo, a segunda-feira era o dia em que havia maior
número de pacientes, menos tempo, mais corpo, menos alma. Menos afecto. Assim se provava aquilo que já se sabia, que o
afecto e a delicadeza eram matérias resultantes do tempo dedicado a cada um. E o afecto era tempo, e o tempo era dinheiro, e
o tempo delicadeza, logo o afecto e a delicadeza também eram dinheiro. Todos sabiam. A Clínica das Salinas era bastante
cara. Por conseguinte, para se manter a qualidade e descongestioná-la, principalmente às segundas-feiras, os serviços iriam
ser mais caros ainda. Dali em diante, só iriam estar ao alcance dos que pudessem verdadeiramente pagar. A tia Ângela
Margarida já o tinha dito. Era necessário pôr cobro ao efeito perverso do elevado número de utentes. Iria haver um dia, muito
próximo, em que seriam forçados a tomar decisões drásticas. Naquela manhã, precisamente, ainda não tinha chegado, e já
estava a enxergar uma fila enrolada, à porta da sua clínica, como num centro de saúde improvisado da Índia ou do Paquistão.
Não podia ser — A Clínica das Salinas, Análises e Tratamentos ocupava dois prédios geminados, duas sólidas construções
dos anos sessenta, três pisos a olharem para as salinas, e um renque de casuarinas a ramalharem em frente. Não podia ser.

Mas se todas essas questões, naquele dia, oito horas da manhã, assumiam uma expressão tão viva, era pela irónica razão de
que Ângela Margarida desde o dia anterior se sentia nauseada, e a náusea, perante a visão da fila enrolada, aumentava e
explodia. O seu próprio corpo também ele parecia querer impor-se, existir acima de todas as coisas e revoltar-se. À
semelhança de todos aqueles que faziam fila à porta da sua Clínica, também ela precisava de ajuda. Descia por uma curva, na
direcção das salinas, e pensava — Também eu, pois também eu... Contudo, em vez de se dirigir para a portaria, pela primeira
vez, desde os cinco anos de existência da Clínica, ela, enfermeira-chefe, telefonou à enfermeira Eulália — «Você está a
ouvir? Segure aí as pontas, que me sinto um bocado em baixo... Só em baixo, bastante nauseada. Assim que melhorar eu
vou...» E sem dizer que se encontrava a dois passos da Clínica, diante das salinas rosadas pelo sol da manhã, tinha-se
encostado a pensar. Parada, a olhar para os montes de sal, e a pensar — É preciso fazer qualquer coisa...
Sim, era preciso. Pois, a pouco e pouco, começava a vislumbrar o que tinha acontecido. A ver tudo à transparência como
numa radiografia. E tudo era a ligação que ela descobria entre as partes, como se de súbito, sobre um palco, um actor, ao dar
um pontapé numa porta, desvendasse a trama e alguém dissesse — Aqui está o nó dramático. Era mesmo disto que estávamos
à espera, no fundo do nosso coração, desde que tudo se iniciou, há muitos anos atrás, mas não sabíamos.
Agora foi-nos revelado o esperado não esperado, a verdadeira surpresa. Era isso mesmo. De repente, ali estava tudo, claro,
como a manhã que subia naquele instante frio, sem nuvens, sobre a linha cor-de-rosa das salinas. A trama a deslindar-se desde
o dia anterior, quando o Frutuoso, sem abrandar a marcha, lhe havia dito — «Senhora Dona Ângela Margarida, há alguma
coisa que diz respeito tanto a si quanto ao Senhor Engenheiro, mas, mesmo assim, eu prefiro entender-me com a Senhora Dona
Ângela Margarida...» E o Frutuoso, depois, tinha abrandado, virado a cara de lado, a boca torcida o mais possível para o
meio do carro, para se fazer ouvir — «Minha senhora, o que é um cafre?»
«Um cafre?»
«Exacto...»
E depois, de olhos baixos, numa atitude milenar de confidência, idêntica àquela que desde os tempos primordiais levou a
que dois homens pegassem num terceiro e o dependurassem numa árvore e em conjunto o devorassem, uma atitude nem boa
nem má, nem elevada nem baixa, apenas de conveniência, o Frutuoso tinha dito — «Minha senhora, a senhora não sabe mas
deveria saber que o pessoal comenta à boca cheia que a sua sobrinha Milene, logo sobrinha do Senhor Engenheiro, se está a
cafre-a-li-zar... Que os senhores estão a permitir isso. Desculpe usar semelhante palavra...» E ainda tinha reproduzido outra
vez o mesmo vocábulo, com a repugnância própria de quem utiliza uma pesada obscenidade. O Frutuoso. Fora aí que a
primeira ligação se estabelecera no espírito da tia Ângela Margarida. O nó dramático a revelar-se. Tinha acontecido depois
do almoço do dia anterior, quando o Frutuoso conduzia a senhora do restaurante para casa, no BMW antracite. O Frutuoso.
Mas agora, só agora, na curva da estrada que dava para as salinas, ela via tudo.
Via a sua irmã Gininha, aquela bússola avariada, aquele caniço ao vento que era a sua vontade, via por que razão ela lhe
tinha telefonado, na tarde de sábado, a falar no vórtice de surpresas e acidentes acontecidos desde o desaparecimento da mãe.
Infelizmente, ideias irracionais, como as que alimentava o seu próprio marido, de que os mortos não só querem coisas como
querem as coisas certas, bailavam na cabeça de Gininha. Um horror, sentia-se cercada de débeis mentais por toda a parte. Mas
no dia anterior, ela ainda tinha pedido ao motorista — «Sr. Frutuoso, esclareça-se lá...» E ele, como se ensinasse a senhora,
como se lhe abrisse os olhos, tinha-lhe dito — «Mas a Senhora Dona Ângela Margarida sabe bem que ela se foi meter na
Fábrica Velha, depois da morte da sua mãezinha... Então onde é que eu fui buscá-la quando os senhores chegaram de Cancun?
Onde foi? E para onde é que ela se dirigia todas as tardes, ou quase todas, durante todo o Outono? Então eu não lhe dizia? Era
verdade que eu a via por aqui e por ali, mas dirigindo-se sempre, sempre, para esses lados. Julgava eu que a senhora sabia...
Claro que não sabia da cafrealização...» E o Frutuoso, como se tivesse surpreendido os patrões em ignorância e falta para com
o mundo, tinha subido de tom para rematar — «Cafrealizou-se, Senhora Dona Ângela Margarida. Come e dorme com eles.
Toda a gente sabe e não tarda que salte para os jornais regionais e logo de seguida para os nacionais. Ai salta, salta... E até se
a senhora quiser vê-la no meio deles, com os seus próprios olhos, pois é só uma questão de ter a maçada de vir aqui no carro
até ao Banana... A princípio ainda iam só ao Pomodoro, mas depois passaram a ir ao Banana e até ao Mãos Largas. Olhe,
andam por toda a parte...»

Sim, tinham ido até ao Banana, um restaurante de estrada, metido entre outros, entre eles o Pomodoro e o Mãos Largas, uns
com fachadas para a frente outros com elas para trás, o Banana com uma esplanada proeminente atravancando a berma até ao
asfalto. Os carros e as motas espalhadas, largadas ao acaso. Tinham ido devagar, e o Frutuoso, com o cabelo espetado dum
oriental, e o bigode dum turco, na cara magra dum velho campónio português ressuscitado dos anos cinquenta, movendo-se
num fato moderno de bom corte, levou-a devagar e disse — «Olhe, lá está, a carrinha Mitsubishi dele e, ao lado, o Clio
branquinho...» E o Frutuoso ainda tinha acrescentado — «A senhora quer que eu pare? Quer que eu entre? Quer a senhora
entrar?» Não sei, não sei, dizia o silêncio estupefacto da senhora. Mas o espírito de iniciativa do motorista fora mais forte e o
BMW antracite parou, e nem que de propósito, uns rapazes saíram e atiraram-se para cima de um daqueles cavalos de aço que
se pôs a roncar estrepitosamente, e logo atrás, apareceram, a correr e a saltar, como se fossem duas crianças desembestadas
numa praia, ele e ela, o Mata em questão e Milene, os dois a cabriolarem ao frio, na direcção da carrinha. Ela, Ângela
Margarida, tinha-os visto, a ambos, de mãos dadas. Ela muito mais pequena do que ele, aos saltos, e ele, escuro e
desengonçado, levando à altura do tronco um volumoso casaco de cabedal. Ela de impermeável curtíssimo. Ela, ela. Ela
esperou que o Mata lhe abrisse a porta do alto da carrinha e depois deu um salto lá para dentro. Puxou a porta. Podiam muito
bem ter visto o BMW, tão próximo se encontravam, mas não deveriam ter visto coisa nenhuma, os dois deviam estar cegos.
Quando a carrinha virou, ambos usavam óculos de sol espelhados. O Clio, esse, ficava parado, em frente ao Banana. O
Frutuoso tinha dito — «Isto não pode ser, não pode ser...» Ela, porém, havia invertido a situação — «O que é preciso é
calma...» Calma, calma, Sr. Frutuoso. Precisamente porque, naquele primeiro instante, ainda não estava a ver muito bem.

Mas agora, diante das salinas, com o rosado da manhã a desaparecer, a ser substituído pela palidez solar do mês de Abril,
seco e esfriado, ela via tudo, talvez pelo esplendor que emanava dos quadrângulos de água donde emergia o sol pleno de
claridade. O Frutuoso tinha dito — «Pois é, tudo vai com calma... E a toda a largura dos pasquins, como diz o Senhor
Engenheiro, vai poder ler-se — Sobrinha do Presidente Ludovice Cafrealizada...» Ângela Margarida, só para que o Frutuoso
não concretizasse tão cruamente o que ela mesma pressentia, tinha dito — «Não, Senhor Frutuoso, isso diz-se mas não se
escreve. Não vê que não se escreve? O senhor não vê o perigo que seria para quem escrevesse? Não enxerga, não? Não
conhece a Lei Portuguesa?»
«Não, Senhora Dona Ângela Margarida, infelizmente, não conheço as leis...» — tinha dito o Frutuoso, no caminho lento que
havia feito, domingo à tarde, ao conduzi-la a casa.

Isto é, o nó dramático ali estava, vindo de longe, os factos à vista, à espera de serem desatados. Era preciso desatá-los.
Desde a tarde anterior que ela não pensava senão no seu desenlace, e agora tinha tido um pressentimento mas ainda não
encontrara o nome para designá-lo, era só uma ideia, tão vaga quanto segura, de que iria ser necessário fazer qualquer coisa.

Sim, é preciso fazer qualquer coisa... — disse para si, de costas para a Clínica, parqueada em frente das salinas brancas.
Estendeu o braço, demorou a encontrar o telefone. A tenaz da angústia em forma de lâmina dupla, apontada. Chamou —
«Gininha?» Era preciso falar a sério com a irmã Gininha.
«Claro, já vi tudo. Não escondas mais. Eles estiveram aí em tua casa. Estiveram ou não estiveram? Então porque não
disseste logo? Porque me disseste apenas que ela estava a caminho da nossa casa? Porque não me falaste nele? Sim, àquela
hora eu estava muito ocupada, mas se me tivesses dito uma coisa dessas, tudo teria sido diferente... Não, não estou a culpar-te
de nada... Não sei como isto foi. Agora é preciso fazer qualquer coisa... Sim, claro, tu não vês nada que se possa fazer, grande
admiração seria se por acaso visses...» Dentro do seu Honda baixinho, Ângela Margarida agitou-se — «Não achas mal, não é?
Mas não achas mal, porque achas bem, ou porque não te queres mexer?» Parou, imobilizada, dentro do carro, um habitáculo
delicado, pousado no chão salitroso. «Está bem, não vês mal nem bem... Está bem, está bem. Então bom dia...» Ângela
Margarida vestia um casaco de fazenda e tinha começado a sentir calor. Retirou o casaco. Com o dedo nervoso, procurou o
número de Afonso.

«Afonso?»
Afonso Leandro ia a caminho do tribunal, com um grande problema. Não podia, naquele instante, pensar nos assuntos da
filha do José Carlos. Tinha um tipo que ia perder vinte milhões de escudos por uma questão de honra. Claro que era a favor da
honra, mas quando se tratava de honra em demasia, ficava desconfiado. Um tipo que tinha uma honra do tamanho de vinte
milhões não teria honra a mais? Ângela Margarida estava em camiseiro dentro do Honda — «Escuta, é preciso fazer qualquer
coisa... Ai eu é que devo fazer qualquer coisa? Porquê eu e não vocês? Dizes que és claramente contra, e vês um grande
desastre no horizonte, mas não sabes por onde pegar. Como se alguma vez na vida alguém soubesse como enfrentar um
desastre antes de decidir enfrentá-lo. Então está bem... Fica com a questão da honra do teu cliente, enquanto eles os dois
andam por aí, de mãos dadas, a tua sobrinha aos saltos ao lado dele, como eu os vi... Fica só com o teu cliente...» A angústia a
libertar as lâminas, Ângela Margarida a ganhar rapidez e reflexos. Rápido, muito rápido — «Dom. Silvestre?»
«Sim, acabo de falar com a tua mulher».

«Ah! Você viu-os aí em sua casa, e até os recebeu, porque achou que não podia fazer nada... O problema já deveria estar
resolvido com o empecilho da Fábrica Velha, que ainda não vendemos? Como? Quando tu é que disseste, durante anos a fio,
que tínhamos todo o tempo à nossa frente, que estávamos apenas a lapidar um diamante? Mas agora, de súbito, tinha de ser já,
já, de emergência, tinha de passar para as mãos desses holandeses, logo no dia seguinte. E como não foi resolvido segundo o
calendário do Dom., então que cada um se arranje sozinho, não é isso? A partir de agora, cada um com o seu bólide, cada um
com o seu lote, cada um com a sua partida de golfe, cada um com a sua caçada e a sua pedreira. Oh! Sim, sim, faço ideia, não
duvido que Dom. Silvestre conheça a persistência da terra. O que a terra não quer dar, não dá. Sim, só se aproveita até onde a
terra quer. A terra é que manda, não se pode forçar... O mesmo são as pedras e os calhaus... Mas olha que não é esse o
exemplo que dás aos outros... Que Milene fique com quem quiser, com quem entender, desde que não te desviem do teu
comércio com a crusta terrestre. E isso. Não é verdade?...» — Já havia muito que Dom. Silvestre tinha desligado, e Ângela
Margarida continuava a falar para o vazio do telefone.
«Dom.? Dom.?»

Permanecia parada diante das salinas brancas de sal — Pois como acontecia daquela caldeta de água suja erguerem-se
pirâmides brancas de sal? Que força havia na terra, na luz, no ar, que não havia no coração humano, que, por mais que o
desejasse, nunca transformava verdadeiramente o que quer que fosse? Pobre do coração humano, um molho de músculos
perfeitos, atados ao pobre arbítrio da cabeça bruta. Também não tinha a certeza de que assim fosse, mas não fazia mal.
Encontrava-se à janela do carro, a pensar, a pensar, as pálpebras inchadas, as olheiras cheias, os olhos rasos de água, o
cabelo loiro cendré, amarelado. A tenaz. Talvez telefonar para o Rui, seu marido eternamente ocupado.
«Sim, sou eu...»
«Desculpa interromper-te, mas não consigo entrar na Clínica, não me sinto capaz. Por causa da Milene... Sim, no dia da
maratona até a tinha achado bem, a lembrar-se de tudo, a identificar aquelas passagens que lemos, a colaborar connosco... E,
de repente, esta revelação extraordinária. Não achas que é preciso fazer qualquer coisa?... Estou a ouvir. Sim, é preciso fazer
qualquer coisa. Remediar. Ainda não sei bem, mas eu calculava que tu terias de me dizer isso mesmo... Fazer qualquer coisa,
não ficar assim parado à espera de que nos caia o mundo em cima. Agir, agir. Pois esperar por quê? Por quem? Obrigada,
muito obrigada, querido...» A tenaz a abrir-se, a náusea a largá-la, os pensamentos a ganharem volume, grandes asas. Ângela
Margarida tinha rodado a chave na ignição, o carro começava a deslizar. O seu marido tinha toda a razão, existia uma
patologia no mundo, erros e erros da Natureza. Erros de Deus. Mas até onde deveríamos colaborar com os erros da Natureza?
Ou mesmo os de Deus? Até onde? Era isso, exactamente, que ele lhe tinha dito. Só isso, mas o bastante para lhe dar alento na
vida. E em menos de um instante, sem casaco, em camiseiro, já ali estava. Entrou na Clínica, vislumbrou a sala de espera
cheia de gente através da porta translúcida, e pensou na Humanidade como um corpo doente. Ou permanentemente em vias de
adoecer. Mal se nascia começava-se a morrer. Um erro. Para que servia a Clínica das Salinas? Para reparar o mundo enfermo,
o mundo humano por natureza errado. Ela sabia que o mundo clínico tinha outros fins, mas naquele momento a sua cabeça
abalada só via o erro. O grande erro da Natureza. E o desafio à eficácia humana para repará-lo.

De facto, era urgente fazer qualquer coisa.


Encontrar uma solução. — Enquanto se despia e vestia de branco, incapaz, pela primeira vez, de entrar na roda viva da
Clínica, ia pensando que talvez a solução viesse ao seu encontro. Ângela Margarida sentou-se no seu pequeno gabinete. Não
era mulher de memórias e saudades, mas naquele instante, o tempo escancarou as portas e entregou-lhe imagens nítidas do
passado.

Devolveu-lhe sobretudo as imagens do irmão mais velho. Era como se estivesse a ver o José Carlos, durante os últimos
anos da sua vida, bem como as circunstâncias em que Milene tinha surgido. Esse assunto nunca era aflorado, nunca se
invocava, era mesmo proibido referi-lo. Apenas Afonso, de vez em quando, exaltava-se e dizia o que não devia, com palavras
impróprias de um homem decente. De resto, silêncio absoluto como queria a mãe. Agora, porém, o assunto tinha-se tornado
incontornável. Sejamos claros — Ângela Margarida, para além de ser mulher do Presidente da Câmara, continuava a sentir-se,
acima de tudo, uma enfermeira, uma pessoa que vivia entre traumas, doenças, sintomas, patologias, etiologias, diagnósticos,
terapêuticas e conhecia a palavra exacta para caracterizar aquela sobrinha — Oligofrénica. Estava escrito na ficha do médico
que a observara em setenta e sete, quando tinha treze anos. O médico havia escrito primeiro Oligo, e depois, com letra
vagarosa e deitada, como nas cartas de amor do século XIX, escrevera frénica, e explicara a origem grega das duas palavras a
sua mãe, Regina Leandro, e a ela própria, as duas diante da secretária dum médico sem bata, que tinha dito — «Nada, não se
pode fazer absolutamente nada. Apenas se deve ter uma longa paciência, tão longa quanto a sua própria vida. Mas não se
inquietem, minhas senhoras, todos somos um pouco assim... Ou oligo, ou esquizo, todos somos. Às vezes, até parece que
somos uma coisa e outra ao mesmo tempo. Ela bem pode vir a ser uma pessoa feliz. Quem sabe se não virá a ser mesmo uma
pessoa extraordinariamente feliz? De resto, uma medicação adequada, de vez em quando, e uma longa, longa paciência...
Voilà...» Aquele médico tinha tido formação americana mas a palavra, que mais usava para rematar raciocínios, era francesa.
Tinha-a dito várias vezes. Um médico que não vestia bata, dizia que todos éramos doentes mentais, tinha sido doutorado nos
Estados Unidos da América e como bordão usava voilà, esse médico havia-se revelado a Regina Leandro como alguém que
não merecia crédito. Em dois anos, tinham consultado perto de vinte clínicos. Todos unânimes. Diagnóstico semelhante,
caracterização comportamental semelhante, algumas divergências, mas todos unidos em torno da mesma certeza — Não se
conhecia a causa. A tia Ângela Margarida Ludovice, porém, conhecia.

A causa tinha a ver com a gestação da criança.


Para a tia Ângela Margarida, a ideia corrente de que os filhos dos grandes amores transportam consigo a marca da perfeição
não passava duma falsidade. Como técnica de saúde, a sua experiência dizia-lhe exactamente o contrário, que os filhos da
paixão resultam em geral nevróticos e problemáticos, talhados para a derrota, como se o ser humano não suportasse uma
origem demasiado exaltada. A sua experiência de vida dizia-lhe que os filhos do amor pacífico, ou mesmo só do aconchego do
lar, se revelam completamente diferentes daqueles que surgem como fruto duma paixão entranhada. A paixão vive por si, não
precisa de consequência para além dos seus próprios actos. Não carece de descendência. Em seu entender, os filhos do
arrebatamento ficariam, por certo, feridos pela memória da sua insignificância, num processo que os marginalizava. Ela,
Ângela Margarida, suspeitava pelo menos que seria assim, e até àquele momento da sua vida só tinha arrecadado provas a seu
favor. E aí, surgia Milene.
Todos sabiam — A sua sobrinha havia sido gerada no meio da paixão extravagante de José Carlos pela hospedeira Helena
Lino, uma mulher mais velha, com rosto de Julie Andrews e temperamento de Rachel Welch, um pedação de mulher com quem
havia casado no espaço de seis meses, arrastando tudo e todos atrás de si, até à capela em Cascais onde se haviam casado.
Mas passados quinze dias, se tanto, José Carlos tinha começado a suspeitar que a hospedeira loira, com quem tinha feito
aquele casamento de luxo, não lhe pertencia, era uma oferenda ao mundo. Com alguma razão, imaginava que a população
inteira, sobretudo a dos aviões, a queria possuir ou pelo menos tocar, no que ela consentiria de muito boa vontade. Metade dos
telefonemas que lhe fazia, nos fins-de-semana atribulados, em que voltava a Villa Regina, era para lhe chamar mundana. Por
isso José Carlos lhe tinha arrebatado a criança, acabada de nascer, e a havia trazido consigo, na memorável noite de Natal de
sessenta e quatro. Não, a hospedeira nunca tinha vindo recuperar a filha, como ele projectava. Não deveria querer a criança
para nada. O José Carlos é que ia encontrar-se com a hospedeira, e constava que ela, de vez em quando, lhe abria a porta do
apartamento à Avenida do Infante Santo. Quando não, ele, um homem inteligente, ia sentar-se estupidamente no Aeroporto da
Portela, só para vê-la passar integrada na tripulação, antes de abalar para qualquer destino. A Ângela Margarida não lhe saía
da ideia de que fora para se sentir livre e ir em busca da hospedeira Lino, sempre que lhe desse na cabeça, que José Carlos se
tinha desenvencilhado duma fábrica sólida, ainda a laborar, como ninguém mais o havia feito em areias de Portugal.
Porque não se dizia a verdade? Porque se andava a dourar o seu gesto, referindo a cena da almofada de veludo? Em sua
interpretação, não fora por compreender quaisquer ventos da História que José Carlos entregara as chaves às pessoas da
segunda vaga, fora antes para se libertar da responsabilidade de ficar amarrado a Mar de Prainhas. E depois, tinha havido a
finalíssima viagem do José Carlos e da hospedeira, em setenta e seis. Sobre essa viagem, à excepção de Afonso, quando
resolvia remexer no passado, ninguém a referia a Milene. Ela também nem perguntava e tinha doze anos quando isso
acontecera. Apenas o médico de formação americana, como se o segredo do Mundo ficasse esclarecido desse modo, e como
se voilà fosse o indelével resultado de tudo, o seu traço horizontal, e a sua soma, voilà, havia dito, depois, que não a
perturbassem, que a paciente até poderia ser muito equilibrada, sobretudo se não lhe atravancassem a vida com o assunto da
sua origem. Pois para quê? Aliás, não era seguro que Milene tivesse ficado assim, fora do comum, por causa da corrida
desenfreada que o pai fizera com ela, desde Lisboa até Valmares, numa Noite de Natal, quando tinha apenas um dia de vida. A
causa? — Sem presunção, a tia Ângela Margarida via-a muito bem. Mas o médico que havia escrito pela primeira vez aquela
palavra na ficha de Milene, apesar de tudo lhe ter sido relatado, ignorava a causa. Tinha sorrido, o médico, declarando-se
incompetente para determinar uma causa dessas. Em seu entender, Milene até poderia vir a ser uma pessoa inteligente à sua
maneira, uma pessoa com uma vida normal, insistindo que, se pensássemos bem, reconheceríamos que todos éramos um pouco
assim. Todos, afinal, um pouco como Milene. — Minhas senhoras, porquê dramatizar? Voilà. Era tudo o que naquela altura
tinha para dizer a ciência médica norte-americana, sedeada na ruidosa Avenida Fontes Pereira de Melo, em Lisboa.
Sim, parecia urgente fazer qualquer coisa.

Não havia dúvida possível — Milene, aos treze anos, era como se tivesse nove, aos quinze teria dez, às vezes cinco, às
vezes três, e subitamente ostentava a sua verdadeira idade, servida por uma voz fininha, própria dos dez anos, pronunciando as
palavras com a ponta da língua, como se tivesse dois. Aos vinte anos, teria uns quinze, e aos vinte cinco talvez contasse os
mesmos quinze. Era por aí que Ângela Margarida a localizava agora. Milene tinha trinta anos de vida e quinze anos de idade.
Tomando por base esse desacerto, compreendia-se que Milene nunca tivesse mostrado inclinação para o amor. Os seus quinze
anos pareciam quinze anos singelos, como de sete, pensava-se. Sete anos num corpo de trinta. E era tudo. Na condução da sua
vida, no arranjo das suas coisas, apenas quinze. Quinze anos sóbrios, infantis. Por isso mesmo, ela e os irmãos tinham ficado a
dormir descansados. Milene não aparecia porque deveria andar conformada consigo mesma, gerindo a sua vida simples, no
seu horário simples, cumprindo os seus sonhos simples de comer gelados, beber sumos e telefonar, enquanto eles, os seus tios,
não tinham mãos a medir, completamente mergulhados em suas vidas rápidas. Ela com uma vida complicada na Clínica, o seu
marido com uma vida tão complicada que nem era vida, era uma auto-imolação, em prol duma sociedade detestável, que de
modo nenhum o merecia. Enfim. A sua irmã e Dom. Silvestre, entretidos com as suas existências inexplicáveis, os seus filhos,
as suas pedreiras mórbidas, bem como outros negócios vários, multas, ameaças de morte, construções à beira do mar, grandes
metrópoles futuras, ambições do cunhado Dom., que muitas noites não dormia em casa, partindo com a pistola no bolso e
agitando por completo a vida da irmã Gininha. O irmão Afonso com a vida complicada também. O seu escritório, as suas
causas, as suas bonecas renováveis, os seus fatos de jockey e os seus cavalos. Tudo isso se tinha mantido e até acelerado,
depois de a mãe ter falecido naquelas circunstâncias trágicas.
Mesmo assim, eles ainda haviam tentado acompanhá-la, procurando distribuí-la por todos, ao longo da semana, mas fora
impossível por causa das suas vidas.

Recapitulando — De um lado, as vidas complicadas, e do outro, o erro a explodir em Milene. Jacintos proliferando no
fundo das águas. Aliás, o especialista que dissera vinte vezes voilà, durante uma hora de consulta, tinha minorado a gravidade,
mas nunca dissera que não havia erro. A mensagem que o médico tinha querido passar consistia na ideia de que todos faríamos
parte do mesmo erro, e assim sendo, todo aquele que transportasse em si um menor quinhão, deveria ajudar os outros, os que o
detivessem em maior quantidade, a libertarem-se do mal comum da espécie — O facto de todos e cada um sermos a
declinação do mesmo erro. Em consequência, a ela, tia de Milene Lino Leandro, assistia o dever de ajudar a sobrinha.

Sim, se num primeiro momento havia sentido revolta contra aquela rapariga clara como a mãe, e pequena como o pai, que
ora lhe parecia mesmo feia, ora apenas insignificante — dir-se-ia apenas uma pessoa destinada a existir para inquietar os
outros — e de súbito, na primeira ocasião em que ficava sozinha, corria a encharcar-se no lodo, e se tudo isso lhe havia dado
vontade de a procurar e abanar, pregar-lhe umas estaladas, imaginando até a sua própria mão a andar na sua cara, para diante
e para trás, a corrigi-la, a castigá-la e ao mesmo tempo a afastá-la do perigo — ouvia-se a si própria dizer palavras
vociferadas — se isso tinha acontecido num primeiro instante, agora, pelo contrário, o seu sentimento era oposto. Naquele
momento, tinha sido assaltada por comiseração e piedade. Afeição, talvez. Amor, porque não? A voz do sangue a falar mais
alto na sua pessoa, depois que via tudo, que segurava tudo, sozinha, entre os cinco dedos da sua mão. Não havia dúvida. Era
preciso amar Milene, prepará-la e preservá-la, agora que tinha sido, pela segunda vez, abandonada pelos seus. A família não
poderia voltar a abandoná-la. E Ângela Margarida imaginou o futuro da sua sobrinha, ao lado desse moço, que a sua irmã e o
guarda-porteiro, na noite anterior, haviam descrito com alguma normalidade, mas que ela bem vira sair do Banana, com
passada de gabiru, e pensou que tinha de agir. Aliás, naquele momento, a sua revolta virava-se para pessoas como o Barbosa
Mãos Largas, que lhes devia tanto, por certo saberia de tudo, e não os tinha avisado. E que pensar da mulher-a-dias? Como é
que essa tinha ficado calada? — Tinha de agir.

Pois tinha.

Ângela Margarida olhou para a porta em frente e leu o nome do director da clínica — Dr. Luís Seabra, Director. Era
segunda-feira. Análises e tratamentos abarrotando, e ela ali, parada. Um momento mais, tinha de pensar para agir. Sim, era
necessário impedir aquela afluência, desviar pessoas, mandá-las para outro lugar, se não se queria perder a exemplaridade
daquela clínica. Por cima da secretária do director clínico, estava escrito o princípio hipocrático — Primum non Nocere.
Uma estampa romântica representava um ferido, envolvido num pano, a ser transportado por dois homens, e um terceiro, com
uma lanterna em riste, iluminando o caminho escuro. Coisa inglesa por certo. Reportava-se a um tempo em que o corpo ainda
não era corpo, era apenas um feixe de mágicas e mistérios. Mas havia expressões ridículas, desactualizadas, que atravessavam
séculos, como guardiães de princípios que não significavam nada. Primum non Nocere.

Sim, tinha decidido agir, fazer qualquer coisa.

Porém, ainda queria tentar a dissuasão. Amava ou não amava a filha do José Carlos? Amava. Ao pensar na forma como
Milene tinha conseguido colaborar, na manhã da maratona, e como fora sensível ao desânimo sentido pelo Rui, péssimo como
nunca, naquele dia, e a sobrinha a entender tudo o que se passava como qualquer pessoa, o coração enchia-se-lhe de ternura.
Era preciso protegê-la, cuidá-la, desviá-la do todo o mal deste mundo.

Então, ao longo dessa tarde, ocorreram telefonemas sem fim entre Ângela Margarida e sua irmã Gininha. Gininha estava
plenamente de acordo com a irmã, era sensato tentar dissuadi-la.

Nesse sentido, as irmãs uniram-se.


Uma à frente, outra atrás, cada uma em seu Honda, ambas se dirigiram para Villa Regina, como não acontecia desde o mês
de Agosto e depois, separadamente, durante o período do calendário perpétuo. As duas, como desde aquele dia de manhã, o
dia da contenda, na sequência das viagens de Verão. As duas a entrarem na estrada velha, ao cair da noite. As duas a
avistarem ao longe a casa iluminada, a regressarem à casa onde haviam passado a juventude, vendo a vida, momentaneamente,
à luz dum relâmpago lilás. Lá estava o carrinho branco de Milene sob as acácias. As duas tias sonâmbulas, ainda sem
acreditarem, a quererem entrar em casa, para falarem com Milene. E Milene, de barrete na cabeça, a querer sair. Contrariada.
«Falar agora comigo, a uma hora destas?» — Na expressão de Milene, aquela hora era a hora mais chata possível para virem
falar com ela. Milene junto ao portão de Villa Regina, muito arreliada, a dizer que tinha um noivo que era pai de três filhos e a
quem desejava fazer companhia antes de anoitecer. A olhar para o relógio. Estava atrasada para se encontrar com eles, tinha
dito Milene, sem se deter no portão. Milene montada nos sapatos de ténis, a saia curta do tamanho dum palmo, de tal forma
curta, que se fosse branca também pareceria de ténis. Um blusão de cabedal escuro semelhante ao dele, Antonino Mata.
«Estamos aqui para falar contigo. Não queres esperar só um instante?» — Uma longa paciência, minhas senhoras, tão
longa quanto a vida... — «Por favor, queremos falar contigo, Milene...»
Milene, enfeitada com aquela saia, as pernas cobertas por umas leves meias escuras, uma rede de losangos. As pulseiras
tilintando como badalos de sino. A rir muito pouco para as tias. Só a rir um bocado. A olhar para o relógio. — Quando tinha
Milene aprendido a olhar para o relógio? Quando? Milene a decidir — «Não posso, não vêem que tenho a minha vida?»
Milene a encaminhar-se para o Clio, apressada, saracoteando-se na saia. Sem se virar para trás.

Gininha, sem saber o que dizer, capitulava.


«Lá vai ela...»
Ângela Margarida a sentir que a Natureza, o erro da Natureza se manifestava em força, abalando tudo. Tão absurdo e injusto
como um tremor de terra. E mesmo que não fosse só um erro da Natureza, que fosse também do próprio Deus, era preciso agir.
Pois se Deus falava, deveria ser de muito longe, já que se perdia pelo caminho o seu acto de fala, e quando chegava aos
ouvidos humanos, apenas se revelava em forma de sopros e suspiros. Era preciso inventar permanentemente a palavra de Deus
a partir dessas leves sílabas sussurradas. Aliás, a imagem mais consistente de Deus vivia disso mesmo, da ambiguidade
sonora da sua palavra. Pensava a tia Ângela Margarida. Então também ela capitulava. Combinaram as duas capitular. Estavam
em frente da casa da mãe. O que faria a mãe se fosse viva e ali estivesse?
Capitularia também, claro.
«Gininha? Escuta aqui...»
E já com o Sol escondido, Ângela Margarida convenceu a irmã a convencer a sobrinha de que seria útil passar pela Clínica,
agora que tinha decidido ter uma vida de mulher normal. Gininha e Milene eram muito mais próximas entre si, entender-se-iam
muito melhor. Mas era preciso que Milene passasse por lá, pois afinal nenhuma das tias se lembrava de aquela rapariga ter
feito qualquer exame durante a sua vida que não fosse à psique. Estava combinado, estava decidido. Se dependesse de Gininha
Leandro, naturalmente que Milene passaria por lá.
XXIII
Esta é a última vez que veremos a carrinha de Antonino Mata. Falar-nos-ão dela depois, em outras circunstâncias, mas
inteira, com a fisionomia intacta e o habitáculo completo, a pintura perfeita, é a última vez que acontece — Neste momento,
ainda ela está parada rente às acácias, e o vulto do condutor, nesse dia, vestido de escuro, quase não se distingue. As crianças,
sim. Estão cobertas de cores alvadias e têm gorros de riscas na cabeça. O mais velho, de farto cabelo ondulado, saído para
fora da carapuça, segura na mão um brinquedo de plástico. O do meio lambe o vidro da janela com a sua língua rosada. O
mais novo dorme na cadeira suspensa, coberto por um xaile. E por momentos, os quatro permanecem parados, encobertos pela
obscuridade dos ramos, o candeeiro por cima. Mas Antonino abriu a janela do seu lado e chamou na direcção de casa —
«Milene!»

Podia chamar à vontade. Não havia ninguém por perto. Das vivendas vizinhas, umas continuavam desabitadas, outras em
transformação acelerada a caminho da armazenagem. O próprio casarão em forma de ferro de engomar desaparecia sob o tufo
estrangulador da congossa. Como o volume gigantesco da nogueira encobrisse a vivenda onde as luzes permaneciam acesas,
ele repetiu o chamamento, cheio de energia — «Eh! Milene!» Milene não respondia porque já se encontrava junto da porta de
saída e já a fechava, e agora também o volume compacto de Villa Regina mergulhava na obscuridade. Milene encaminhava-se
para a estrada. Um carro veloz passou entre eles mas parou com estrondo, diante do caminho barrado. «Cuidado!» —
Antonino atravessou a rua para lhe pegar no saco. O carro fez meia volta e arrancou traçando uma tangente a Milene, que ficou
parada, as Blitz caídas no chão. «Cuidado! Você não toma mesmo nenhum cuidado consigo...» Zangado com ela. Gesticulando
— Como atravessava sem prestar atenção? Como é que ela vivia naquele sítio deserto sem se proteger? Perguntava ele,
pegando-lhe no saco e levando-a pelo ombro, ralhando com ela. Depois, avaliou o peso, fazendo dançar para cá e para lá a
pouca bagagem que transportava — «Ih! Tanta coisa... É para ficar lá?»
«Não» — disse Milene. «É só um ins