Você está na página 1de 14

ROBERTO VENTURA

Euclides da Cunha
no vale
da morte
c omo narrar fatos tão violentos que ultrapassam a

capacidade humana de imaginar e representar? De

que forma exprimir acontecimentos, cujo caráter

desumano supera os limites da linguagem? Euclides

da Cunha se deparou com tais questões, ao escrever Os Sertões

(Campanha de Canudos), em que acusou o Exército, a Igreja e o

governo pelo extermínio da comunidade liderada por Antônio

Conselheiro.

Redigido com o propósito de denunciar o crime cometido em

Canudos, seu livro traz um curioso paradoxo, já que deixa de

relatar aquilo que forma a base de sua acusação contra as forças

armadas: o massacre dos prisioneiros e a destruição da cidade.


ROBERTO VENTURA
é professor de Teoria Tais eventos de crueldade extrema são antes sugeridos do que
Literária e Literatura
Comparada na USP e propriamente narrados, já que não haveria linguagem capaz de
autor de, entre outros,
exprimir tamanho horror: “Forremo-nos à tarefa de descrever os
Estilo Tropical: História
Cultural e Polêmicas seus últimos momentos. Nem poderíamos fazê-lo. Esta página,
Literárias no Brasil
(Companhia das Letras). imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas

16 REVISTA USP, São Paulo, n.54, p. 16-29, junho/agosto 2002


oscem
sertões
anos
cerramo-la vacilante e sem brilhos” (1).

De modo a exprimir aquilo que é inexpri-

mível, ou representar o irrepresentável,

Euclides oscila entre as imagens antitéticas

de paraíso e inferno, de salvação e perdi-

ção, pelas quais procura captar o caráter

tenso e contraditório da história e da natu-

reza. Concebeu a história como drama trá-

gico e empregou metáforas cênicas e for-

mas suspensivas de narração, que se ligam

aos recursos de encenação do teatro grego.

A epopéia gloriosa da República brasilei-

Casa de Cultura Euclides da Cunha, São José do Rio Pardo


ra, pela qual combatera na juventude, como

cadete da Escola Militar e articulista polí-

tico de A Província de S. Paulo, adquiriu

sentido de tragédia na brutal intervenção

militar que testemunhou no sertão da Bahia.

Publicado em 1902, cinco anos após o

término do conflito, Os Sertões resultou

de sua cobertura da Guerra de Canudos

como correspondente de O Estado de S.

Paulo. Acompanhou, de agosto a outubro

de 1897, a 4a e última expedição, formada jornal, o sangrento combate de 1o de outu-

por oito mil soldados, equipados com bro, dois dias antes de sair de Canudos,

moderno armamento, cuja retaguarda foi cuja ferocidade, com grandes perdas de am-

organizada pelo próprio ministro da Guer- bos os lados, o deixou em estado de cho-

ra, marechal Carlos Machado de Bitten- que: “Felizes os que não presenciaram nun-

court. Fez, no livro, a autocrítica do patrio- ca um cenário igual…”. As pilhas de cadá-

tismo exaltado de suas reportagens e reco- veres e os inúmeros feridos que gemiam

nheceu a omissão de sua cobertura jor- amontoados no leito seco do rio lhe lem-

nalística, ao denunciar a matança dos pre- braram o vale do Inferno, que Dante 1 Euclides da Cunha, Os Sertões
(Campanha de Canudos)
sos, sobre a qual antes se calara. Alighieri (1265-1321) percorreu n’A Divi- (1902), ed. de Walnice No-
gueira Galvão, São Paulo, Áti-
Relatou, na última reportagem para o na Comédia: ca, 1998, p. 497.

REVISTA USP, São Paulo, n.54, p. 16-29, junho/agosto 2002 17


“compreendi o gênio sombrio e prodigioso relata a viagem pelo Rio Congo em busca
de Dante. Porque há uma coisa que só ele do agente Kurtz, negociante de marfim, que
soube definir e que eu vi naquela sanga criou em torno de si um culto baseado em
estreitíssima, abafada e ardente, mais lúgu- sacrifícios humanos, com a participação das
bre que o mais lúgubre vale do Inferno: a tribos locais. A trajetória de Marlow rumo
blasfêmia orvalhada de lágrimas, rugindo ao interior da África, com o objetivo de
nas bocas simultaneamente com os gemi- tirar Kurtz de seu posto comercial, torna-se
dos da dor e os soluços extremos da morte”. um mergulho no desconhecido não só geo-
gráfico e cultural, mas sobretudo existenci-
Tal visão infernal deixou profundas al e metafísico, pois o coloca frente a reali-
marcas no ex-militante republicano, cujas dades que degradam a condição humana.
crenças políticas foram abaladas: “sentia Em um dos postos da companhia, homens
um desapontamento doloroso e acreditei negros acorrentados trabalhavam até à mor-
haver deixado muitos ideais, perdidos, na- te, como se fossem sombras, na construção
quela sanga maldita, compartindo o mes- de uma ferrovia. A viagem do narrador ao
mo destino dos que agonizavam mancha- “coração das trevas” se converte em rito de
dos de poeira e sangue…” (2). iniciação ao mal absoluto, equivalente, em
Procurou superar, em Os Sertões, seu suas próprias palavras, à descida ao “som-
remorso e perplexidade com o desfecho brio círculo de algum Inferno”.
brutal da campanha, para o qual contribuiu, Deitado na escuridão à espera da morte
ainda que de modo involuntário, com arti- no barco que o deveria levar de volta ao
gos que se encerravam com os brados pa- litoral, Kurtz exclama antes de expirar: “O
trióticos de “viva a República” ou “a Repú- horror! O horror!”. Esta exclamação fúne-
blica é imortal”. Fez coro, como quase toda bre se torna, para Marlow, a síntese de uma
a imprensa, com aqueles que viam na rebe- crença ampla o suficiente para abarcar todo
lião um grave perigo para a ordem republi- o universo: “Ele resumira – fizera um juízo.
cana e silenciou nas reportagens sobre as ‘O horror!’”. O grito de Kurtz trazia a nota
atrocidades cometidas pelas tropas, que vibrante da revolta ou a face aterrorizante
degolaram ou estriparam, de forma impie- de uma verdade apenas entrevista, pela qual
dosa, os prisioneiros que se haviam rendi- manifestava sua aversão à vida e à história.
do com garantias de vida ao general Artur Com uma ironia tão cínica quanto piedosa,
Oscar de Andrade Guimarães, comandan- Marlow encerra seu relato com a terna vi-
te da 4a Expedição (3). sita, já de volta a Londres, à noiva de Kurtz,
A visão do horror, que Euclides enca- para lhe devolver um retrato e suas cartas.
rou no vale da morte em Canudos, às mar- À pergunta da moça, que queria saber an-
gens do Rio Vaza-Barris, no nordeste da siosa quais foram as últimas palavras de
Bahia, foi também exposta pelo polonês seu pretendente, o capitão prefere mentir e
2 Idem, Diário de uma Expedi- Joseph Conrad, ao tratar da colonização responde que fora o nome dela, pois a ver-
ção (1897), org. por Walnice
Nogueira Galvão, São Paulo, predatória do Congo belga na novela Heart dade era demasiado sombria para ser dita…
Companhia das Letras, 2000,
pp. 216-8.
of Darkness (Coração das Trevas) (1902), (4).
3 Os artigos e as reportagens,
pelo italiano Primo Levi nas memórias de Já Primo Levi recria, em É Isto um
nos jornais de Salvador, Rio de Se Questo è un Uomo (É Isto um Homem?) Homem?, sua vivência como prisioneiro
Janeiro e São Paulo, sobre a 4a
Expedição contra Canudos, (1947), em que conta sua terrível experiên- no campo de Auschwitz, na Polônia, para
foram reunidos por W. N. cia como prisioneiro em um campo de con- onde foi deportado em 1944. Sentiu estar
Galvão em: No Calor da Hora:
A Guerra de Canudos nos Jor- centração alemão, ou ainda pelo cineasta entrando no inferno, quando chegou ao
nais, 4a Expedição, São Paulo,
Ática, 1977. Francis Ford Coppola, que adaptou, de for- campo depois de uma longa viagem de
4 Joseph Conrad, Heart of
ma livre, a ficção de Conrad em Apocalypse quatro dias de trem, sem nada para beber,
Darkness (1902), New York, Now (1979), filme sobre a guerra do Vietnã. e teve que ficar parado de pé, em uma sala
Bantam, 1989, pp. 26, 118-
20 (Coração das Trevas, trad. Coração das Trevas saiu em volume no grande e vazia, junto com outros prisionei-
de Juliana L. Freitas. São Paulo, mesmo ano da publicação de Os Sertões. ros, diante de uma torneira gotejante, cuja
Nova Alexandria, 2001, pp.
34, 123-5). Na novela de Conrad, o capitão Marlow água não era potável: “Como é possível

18 REVISTA USP, São Paulo, n.54, p. 16-29, junho/agosto 2002


pensar? Não é mais possível; é como se outra liberação, agora interior, manifesta-
estivéssemos mortos”. da como um “impulso imediato e violento”
O soldado alemão, que perguntava, no de contar aos outros sua traumática passa-
caminhão em direção ao campo, se tinham gem pelo campo, em que eram extermina-
relógios ou dinheiro para lhe dar, recorda- das não só vidas, mas a própria condição
va, de forma sinistra, o barqueiro Caronte humana dos sobreviventes.
d’A Divina Comédia de Dante, que condu- Além de É Isto um Homem?, Levi es-
zia, através do Rio Aqueronte, as almas con- creveu La Tregua (A Trégua) (1958), so-
denadas ao Inferno e lhes lançava a maldi- bre a viagem de volta para sua casa em
ção: “Ai de vós, almas danadas!/ Nunca Turim, na Itália, que o fez errar por vários
mais ireis ver de novo o céu” (5). Em “O países. Saído do campo, deparou-se com a
Canto de Ulisses”, uma das mais belas pas- mesma maldade, miséria e anti-semitismo
sagens de suas memórias, Levi recita para que a trégua não extinguira – “guerra é
outro prisioneiro trechos do 26o canto do sempre”, diz-lhe um grego companheiro
“Inferno”, primeira parte do poema de de viagem (7). Seu suicídio em 1987, aos
Dante, em que Ulisses conta como morreu 68 anos, mortificado pelo sofrimento da
no naufrágio de sua nau, quando explorava mãe doente de câncer, que lhe lembrava as
o oceano Atlântico. atrocidades de Auschwitz, indica que fo-
Logo na entrada de Auschwitz, em cima ram apenas parciais ou transitórios a libe-
do portão, avistava-se um bem iluminado ração ou o consolo trazidos pela escrita.
letreiro, cujas palavras maliciosas iriam
atormentar Levi em pesadelos pelo resto
da vida: “Arbeit macht frei” (“O trabalho
liberta”). Antes de ingressar no campo, os DO INFERNO AO PARAÍSO
prisioneiros eram obrigados a deixar para
trás seus sapatos, objetos e roupas, tinham Euclides da Cunha passou quatro anos
os cabelos e as barbas raspados, passavam após o término do conflito de Canudos pre-
pelas duchas de desinfecção e vestiam uni- enchendo centenas de folhas de papel com
formes listrados. Reduzidos a fantasmas, sua letra minúscula, para ordenar o caos e
tudo lhes era arrancado, até o próprio nome, superar o vazio, trazidos sob o impacto
substituído por um número tatuado no bra- daquela “região assustadora”, de onde vol-
ço esquerdo. O escritor mostra não ter pa- tou deprimido e doente. Seguia revendo na
lavras para dar conta de tal negação da mente as “Muitas cenas do drama como-
condição humana: vente/ De guerra despiedada e aterradora”,
conforme escreveu, já de volta a Salvador,
“Pela primeira vez, então, nos damos conta no poema “Página Vazia”, cujos versos
de que a nossa língua não tem palavras para eram, segundo ele, “tão mal feitos e tão
5 Dante Alighieri, A Divina Co-
expressar esta ofensa, a aniquilação de um tristes” (8). média (1307-21), trad. de
homem. Num instante, por intuição quase A “região assustadora”, cujo horror a Cristiano Martins, Belo Hori-
zonte, São Paulo, Itatiaia/
profética, a realidade nos foi revelada: che- linguagem mal pode exprimir, traz ecos da Edusp, 1976, p. 100.
gamos ao fundo. Mais para baixo não é “selva selvagem”, com que Dante se depa- 6 Primo Levi, Se Questo è un
Uomo (1947), Torino, Einaudi,
possível. Condição humana mais miserá- ra na abertura da Divina Comédia: 1976 (É Isto um Homem?, trad.
vel não existe, não dá para imaginar” (6). de Luigi del Re, Rio de Janeiro,
Rocco, 1997, pp. 24-5).
“Ah! Descrever não posso esta espessura,
7 Idem, La Tregua (1958),
Depois de passar pela funesta experiên- esta selva selvagem, densa e forte, Torino, Einaudi, 1989 (A Tré-
cia de viver e de sobreviver ao holocausto, que em relembrá-la a mente se tortura! gua, trad. de Marco Lucchesi,
São Paulo, Companhia das Le-
Levi sentiu a necessidade de dar seu teste- tras, 1997, p. 76).
munho de uma realidade indizível por sua Ela era amarga, quase como a morte!” (9). 8 E. da Cunha, “Página Vazia”
(1897), in Obra Completa, Rio
radical desumanidade. Com o término da de Janeiro, Nova Aguilar,
Segunda Guerra Mundial, em 1945, sua “A meio caminho desta vida”, Dante se 1995, v. 1, p. 726.
libertação lhe trouxe a exigência de uma perde da “via veraz” e erra por uma floresta 9 D. Alighieri, op. cit., p. 85.

REVISTA USP, São Paulo, n.54, p. 16-29, junho/agosto 2002 19


escura, até encontrar o vulto de outro poe- profeta milenarista retratado em Os Ser-
ta, Virgílio, que o guia pelos círculos do tões. Revelam um líder religioso, que se-
Inferno e pelos terraços do Purgatório. Pu- guia um catolicismo tradicional, baseado
rificado nesta travessia, sobe às esferas lu- no modelo da vida piedosa e penitente, tida
minosas do Paraíso, acompanhado de sua como forma de se atingir a salvação.
amada Beatriz. O Conselheiro atuou como pregador
A visão do inferno, que Euclides evo- leigo e construtor de capelas, igrejas e ce-
cou nas reportagens a partir da referência a mitérios no interior da Bahia e Sergipe,
Dante, se faz presente em Os Sertões junto seguindo a tradição dos beatos e eremitas,
com seu reverso, a busca do paraíso. Citou que dedicavam a vida à religião e levavam
os poemas populares sobre a Guerra de a fé às populações do interior. Foi porém
Canudos e interpretou as profecias do fim proibido em 1882 de pronunciar sermões
do mundo que atribuiu a Antônio Conse- pelo arcebispo da Bahia, que temia sua
lheiro, de modo a incorporar a seu relato a crescente influência. Seus conflitos com
visão de mundo dos sertanejos. Recolheu as autoridades se agravaram com a pro-
tais fontes orais a partir dos papéis e cader- clamação da República, à qual se opunha,
nos que foram encontrados pelos soldados criticando a cobrança de novos impostos,
e oficiais nas ruínas da comunidade. a secularização dos cemitérios e a criação
General Os sermões reunidos por Antônio Con- do casamento civil e do registro civil de
Barbosa e seu selheiro em dois volumes manuscritos, a mortes e nascimentos. Tinha uma crença
que Euclides não teve acesso quando redi- mística na monarquia, forma política tida
estado maior, giu seu livro, mostram um líder religioso como eterna e abençoada por Deus. Acre-
Canudos muito diferente do fanático místico ou do ditava que a restauração do trono e o retor-

Casa de Cultura Euclides da Cunha, São José do Rio Pardo

20 REVISTA USP, São Paulo, n.54, p. 16-29, junho/agosto 2002


no da família real eram fatos tão inevitá- acompanhou em seu trajeto pela caatinga,
veis quanto o raiar do sol no início de cada dando-lhe a “impressão persistente de cal-
novo dia (10). car o fundo recém-sublevado de um mar
Para Euclides, a preocupação dominante extinto”, que teria deixado o solo marcado
dos habitantes do sertão era a “felicidade pela “agitação das ondas e voragens”. Tal
suprema da volta para os céus”, aspiração tumulto na paisagem se torna análogo, na
espiritual que permitiria superar as limita- construção de Os Sertões, ao causado na
ções de uma vida miserável. Considerado história e na política pela rebelião dos
pelos seguidores do Conselheiro como conselheiristas.
paraíso ou terra de promissão, Canudos se No intuito de combinar literatura, his-
converte, em Os Sertões, no seu oposto – o tória e ciência, Euclides adotou idéias con-
inferno. O viajante precisaria atravessar troversas do geólogo francês Emmanuel
“estradas fascinadoramente traiçoeiras que Liais sobre a existência pré-histórica de mar
levam ao Inferno” até chegar ao povoado, no sertão da Bahia, que se tornaria prenún-
“imunda ante-sala do Paraíso”, “pobre cio das profecias atribuídas ao Conselheiro
peristilo dos céus”. de que o sertão iria virar “praia”, expressão
“Barbaramente estéreis” e “maravilho- que designa as zonas úmidas entre o litoral
samente exuberantes”, os sertões formam, e o semi-árido, tornando-se terra de pro-
para Euclides, uma categoria geográfica missão, capaz de abrir as portas do paraíso:
própria, paradoxal e única, capaz de se trans- “Em 1896 hade rebanhos mil correr da praia
figurar em “mutações fantásticas” e de al- para o certão; então o certão virará praia e
ternar, segundo um “ritmo maldito”, entre a praia virará certão” (12). Tais presságios
a aridez dos desertos e a abundância dos foram retomados por Glauber Rocha, no
vales férteis: “A natureza compraz-se em filme Deus e o Diabo na Terra do Sol
um jogo de antíteses”. A região é marcada (1963), como estribilho revolucionário, que
pelo conflito permanente entre dias quen- celebra a reforma agrária e a redenção po-
tes e noites frias, ou entre períodos infer- lítica, simbolizadas pelas ondas do vasto
nais de seca e momentos edênicos trazidos mar, para onde corre o vaqueiro Manuel na
pelas chuvas, em que a caatinga, até então apoteótica cena final.
árida e desértica, transforma-se em paraí- A ilusão de céu, outro efeito visual cria-
so: “É uma mutação de apoteose” (11). do pela geografia do sertão, converte-se em
Euclides capta duas visões fantásticas anúncio de salvação n’Os Sertões. Visto de
sugeridas pela secura extrema e pela topo- cima, Canudos dava a impressão de um
grafia peculiar do vale do Vaza-Barris: a “platô elevadíssimo” ou de uma “planície
ilusão do mar e a miragem do céu. Ambas ondulante e grande”, o que fazia os “matutos
as visões se ligam à espera de salvação crendeiros” acreditar que “ali era o céu…”: 10 Antônio Vicente Mendes
anunciada tanto por sinais da natureza quan- “a sua topografia interessante modelava-o Maciel, “Sobre a República”
(1897), in Ataliba Nogueira,
to pelos presságios apocalípticos, que con- ante a imaginação daquelas gentes simples Antônio Conselheiro e Canu-
dos: Revisão Histórica, São
siderou, talvez com engano, serem da auto- como o primeiro degrau, amplíssimo e alto, Paulo, Nacional, 1978, pp.
ria do Conselheiro. para os céus…” (13). 176-7; Alexandre Otten, “Só
Deus é Grande”: A Mensagem
Do alto do morro da Favela, onde se Amparado na ilusão do degrau para os Religiosa de Antônio Conse-
lheiro , São Paulo, Loyola,
instalaram os canhões que bombardeavam céus, o Conselheiro prometeria, segundo 1990, pp. 203-355.
Canudos, o narrador observa as longínquas Euclides, o paraíso em suas pregações.
11 E. da Cunha, Os Sertões, op.
montanhas que lhe parecem suspensas no “Emissário das alturas” e “delegado dos cit., pp. 51, 65, 169.
ar, e tem a impressão de contemplar o mar céus”, o profeta anunciaria “o reino de mil 12 Idem, ibidem, p. 149. Sobre
as idéias geológicas em Os
devido às diferenças de temperatura entre anos e suas delícias” como um “bufão arre- Sertões, cf.: José Carlos Barreto
as camadas do solo. O “ondular estontea- batado numa visão do Apocalipse”. Abra- de Santana, Ciência & Arte:
Euclides da Cunha e as Ciên-
dor”, ou o “estranho palpitar das vagas lon- çaria crenças milenaristas sobre a chegada cias Naturais , São Paulo,
gínquas”, que avista ao norte da Serra da de uma nova era de felicidade, que poria Hucitec, 2001, pp. 111 e
segs.
Canabrava, criava a “ilusão maravilhosa fim às desgraças trazidas pelas secas do
13 E. da Cunha, Os Sertões, op.
de um seio de mar”. A miragem do mar o sertão e pela opressão da República. cit., pp. 34, 39, 158.

REVISTA USP, São Paulo, n.54, p. 16-29, junho/agosto 2002 21


O capuchinho italiano, frei João Evan- ideologia do progresso e às utopias políti-
gelista do Monte Marciano, enviado em cas modernas.
1895 pela Igreja a Canudos com a missão Como mostra Sérgio Buarque de
fracassada de dispersar a comunidade, tam- Holanda, em Visão do Paraíso (1959), os
bém julgou que seus participantes nutriam primeiros viajantes e exploradores europeus
esperanças sobre a criação do reino dos céus da América projetaram a imagem do Éden
na terra. Afirmou, no relatório citado por sobre o novo continente, retomando as
Euclides, que os “aliciadores da seita” pro- descrições do paraíso terrestre dos teólo-
curavam persuadir o povo de que a cidade gos da Idade Média, que o concebiam não
era o portal do paraíso, espalhando pelo como um mundo inatingível, perdido no
sertão que “todo aquele que se quiser sal- começo dos tempos, mas enquanto realida-
var precisa vir para os Canudos, porque nos de acessível, ainda que em um sítio longín-
outros lugares tudo está contaminado e quo. Nessa projeção, o continente ameri-
perdido pela República: ali, porém, nem é cano é visto como região de eterna prima-
preciso trabalhar; é a terra da promissão, vera, com temperatura constante, o que
onde corre um rio de leite e são de cuscuz repete as descrições medievais do paraíso.
de milho os barrancos” (14). Enquanto no velho mundo a natureza ava-
Frei Marciano retoma a representação ra, repartida em estações, só recompensa-
do paraíso terrestre, anterior à queda de va os previdentes, os diligentes e os paci-
Adão e Eva, tal como descrito na Bíblia, no entes, no mundo americano ela se entrega-
livro do Gênesis. De acordo com a versão ria de imediato ao homem, como dádiva de
bíblica da criação do mundo, Deus plantou Deus, sem a dura necessidade de recorrer
um jardim das delícias em Éden, no Orien- ao trabalho constante.
te, cortado por quatro rios, com toda espé- Tal visão do paraíso se encontra, por
cie de árvores e frutos, onde colocou o pri- exemplo, no relato da primeira viagem de
meiro homem, a primeira mulher e todos Colombo, na Historia de las Indias, de
os animais. Com base na descrição do Bartolomé de Las Casas (1474-1566), no
Gênesis, profetas, como Isaías e Daniel, Tratado da Terra do Brasil (1573), de
previram o surgimento de um reino sem Gândavo, na Crônica da Companhia de
fim ou de um império eterno, com paz, di- Jesus (1663), de Simão de Vasconcelos
reito e justiça, que restauraria o paraíso ao (17). Faz-se presente ainda na História da
reunir todos os povos e nações sob a autori- América Portuguesa (1730), de Rocha Pitta,
dade de um único rei. A partir dos profetas que Euclides considerava um escritor
da Bíblia e de autores latinos, como Ovídio, gongórico ou rebuscado, cujos exageros
14 Frei João Evangelista de Mon- Virgílio e Plínio, o Velho, escritores cris- descritivos se deveriam ao aspecto majes-
te Marciano, Relatório (1895),
Salvador, Centro de Estudos tãos medievais abordaram o paraíso terres- toso da natureza brasileira.
Baianos, 1987, p. 5. tre, tema depois retomado por pensadores
15 Gênesis, Isaías, Daniel, in A e viajantes desde a renascença (15).
Bíblia de Jerusalém, São Pau-
Para o historiador Jean Delumeau, o
lo, Edições Paulinas, 1995;
Marilena Chauí, Brasil: Mito
Fundador e Sociedade Autori-
milenarismo enquanto expectativa de mil SOB O VIÉS DA IRONIA
tária, São Paulo, Fund. Perseu anos de felicidade terrestre se liga à nostal-
Abramo, 2000, p. 61.
gia do paraíso perdido, proveniente do O historiador norte-americano Hayden
16 Jean Delumeau, Mille Ans de
Bonheur : Une Histoire du Gênesis bíblico, que se procura reencon- White observou, em ensaio de 1987, que a
Paradis, Paris, Fayard, 1995 trar pela criação do reino dos céus na terra: diferença entre história e ficção reside mais
(Mil Anos de Felicidade: Uma
História do Paraíso, trad. de “O milenarismo, espera de um reino deste no conteúdo do que propriamente na forma,
Paulo Neves, São Paulo, Com-
panhia das Letras, 1997, p.
mundo, reino que seria uma espécie de enfatizando a proximidade da escrita da his-
17). paraíso terrestre reencontrado, está […] es- tória com os modos literários de narrar. A
17 Sérgio Buarque de Holanda, treitamente ligado à noção de uma idade de história trata de acontecimentos reais, passí-
Visão do Paraíso: Os Motivos
Edênicos no Descobrimento e ouro desaparecida” (16). Tal esperança do veis de comprovação por meio de documen-
Colonização do Brasil (1959), paraíso terrestre adquiriu contornos laicos tos ou testemunhos, enquanto a ficção apre-
São Paulo, Nacional, 1977,
p. xi-xxvi. a partir do século XVIII, para dar corpo à senta fatos imaginários ou inventados.

22 REVISTA USP, São Paulo, n.54, p. 16-29, junho/agosto 2002


Ambas são porém construções verbais, que do ao homem comum, mas que se mostra
ordenam e codificam os fatos de acordo com falho frente aos deuses ou ao destino: “O
as formas de ficção ou as estruturas de enre- herói trágico situa-se tipicamente no topo
do adotadas. Para White, o estilo historio- da roda da fortuna, a meio caminho entre a
gráfico exprime uma “combinação particu- sociedade humana, no solo, e algo maior,
lar de modos de elaboração de enredo, argu- no céu”. Limitado por uma ordem natural
mentação e implicação ideológica”, em que ou divina, o protagonista da tragédia é hu-
a argumentação supõe uma operação milhado e acaba por entrar em agonia, muito
cognitiva e a construção do enredo uma distante da atitude heróica inicial.
percepção estética do passado (18). Frye define a atitude irônica a partir do
Euclides retratou Antônio Conselheiro eíron, o homem que se censura. A ironia se
como personagem trágico, guiado por for- afasta das formulações diretas ou óbvias
ças obscuras e ancestrais e por maldições em favor dos sentidos velados e sugeridos:
hereditárias, que o teriam levado à insani- “O termo ironia, portanto, indica uma téc-
dade e ao conflito com a ordem. Viu Canu- nica, de alguém parecer que é menos do
dos como desvio histórico capaz de amea- que é, a qual, em literatura, se torna muito
çar a “linha reta”, que ele, Euclides, seguia comumente uma técnica de dizer o mínimo
desde a juventude, entendida como a fide- e de significar o máximo possível”. E con- 18 Hayden White, Metahistory:
the Historical Imagination in
lidade aos princípios éticos e políticos clui: “O escritor de ficção irônica, portan- Nineteenth-century Europe
amparados na crença no progresso e na to, censura-se”. (1973), Baltimore, London, The
Johns Hopkins Univ. Press,
República. Freqüente em suas cartas aos Ao contrário da tragédia, em que a ca- 1985, pp. 27-9 (Meta-histó-
amigos e familiares, a imagem da linha reta tástrofe do herói se relaciona de forma plau- ria: A Imaginação Histórica do
Século XIX , trad. de José
deu forma à retidão de caráter que procu- sível com seu caráter e ações, a ironia torna Laurênio de Melo, São Paulo,
Edusp, 1992, pp. 41-3). Idem,
rou manter ao longo da vida e se ligava ao arbitrária a situação trágica, ao mostrar que “The Question of Narrative in
conceito linear e evolutivo de história, ado- a vítima é um bode expiatório, escolhido Contemporary Historical
Theory”, in The Content of the
tado por positivistas e evolucionistas, que por acaso e que não merece o que lhe acon- Form: Narrative Discourse and
Historical Representation ,
acreditavam no aperfeiçoamento progres- tece: “o princípio fundamental da ironia Baltimore, London, The Johns
sivo do homem e da sociedade (19). trágica é que tudo de excepcional que acon- Hopkins Univ. Press, 1987, pp.
27 e segs. Para uma aborda-
Filho de um comerciante, nascido em teça com o herói devia estar causalmente gem crítica da relação entre
1830 em Quixeramobim, no interior do descombinado com o seu caráter” (20). história e ficção em Hayden
White e seus efeitos na repre-
Ceará, Antônio Vicente Mendes Maciel, Surgindo da comédia e da ficção realista, a sentação do holocausto, cf.:
Luiz Costa Lima, “O
conhecido como o Peregrino ou o Conse- ironia se move em direção ao mito, fazen- Revisionismo Histórico: uma
lheiro, iniciou sua peregrinação mística na do surgir os contornos obscuros das ceri- Conseqüência Imprevista”, in
Mímesis: Desafio ao Pensa-
década de 1870, depois de ter sido abando- mônias de sacrifício. mento, Rio de Janeiro, Civili-
zação Brasileira, 2000, pp.
nado pela mulher, que fugira com um poli- Euclides recorreu à ironia para mostrar 238-47.
cial, e de ter os bens penhorados para o como a Guerra de Canudos negou ou inver-
19 Euclides da Cunha emprega a
pagamento de uma dívida. Seus familiares teu o mito glorioso da Revolução France- imagem da linha reta nas car-
tas a Bueno Brandão (28/
participavam, desde a década de 1830, de sa. Conhecera tal mito pelos relatos român- abr./1896 e 6/dez./1869),
um sangrento combate contra um clã ini- ticos de Victor Hugo, com o romance ao pai (22/set./1903, 25/
ago./1904 e 14/fev./
migo. Para Euclides, tal luta entre famílias Quatrevingt-treize (Noventa e Três) (1874), 1906), a Coelho Neto (22/
nov./1903), ao cunhado
teria criado uma “predisposição fisiológi- sobre a guerra dos camponeses católicos Otaviano Vieira (5/nov./
ca” nos seus descendentes, que tornou he- da região da Vendéia, e de Jules Michelet, 1908) e ao historiador Olivei-
ra Lima (13/nov./1908). Cf.
reditários os rancores e as vinganças, de com a Histoire de la Révolution Française Walnice Nogueira Galvão e
modo semelhante aos personagens trági- (História da Revolução Francesa) (1874- Oswaldo Galotti (orgs.), Cor-
respondência de Euclides da
cos dos mitos gregos. 53). Ambos, Hugo e Michelet, transforma- Cunha , São Paulo, Edusp,
1997, pp. 95 e segs.
O crítico canadense Northrop Frye ram o povo em herói coletivo, procedimen-
20 Northrop Frye, Anatomy of
enfocou, em Anatomy of Criticism (Anato- to também adotado por Euclides ao enfocar Criticism: Four Essays (1957),
mia da Crítica) (1957), o personagem trá- o sertanejo em Os Sertões. Princeton, Princeton Univ. Press,
1973, pp. 40-1, 207 ( Anato-
gico como um líder situado entre o divino O escritor fez, em seu livro sobre Canu- mia da Crítica: Quatro Ensaios,
trad. de Péricles Eugênio da
e o humano, que se move do heróico ao dos, a autocrítica do tom patriótico de suas Silva Ramos, São Paulo,
irônico, por ser muito grande se compara- reportagens e se afastou da comparação Cultrix, s.d., pp. 46-7, 204).

REVISTA USP, São Paulo, n.54, p. 16-29, junho/agosto 2002 23


entre a história brasileira e a Revolução barracão de obras, de onde fiscalizava as
Francesa, empregada nos artigos de março obras da ponte, escreveu a indagação amar-
e julho de 1897, com o título de “A Nossa ga e irônica do Hamlet de Shakespeare,
Vendéia”, redigidos antes de viajar à Bahia. surpreso com a alegria da mãe, a rainha
Aproximara, nesses artigos, a guerra no Gertrude, após a misteriosa morte do mari-
sertão à rebelião em 1793 dos camponeses do: “What should a man do but be merry?”
monarquistas e católicos da região da Ven- (“Que faria o homem, se não risse?”) (22).
déia contra a França revolucionária. Tal Berthold Zilly, tradutor alemão de Os
comparação mostrava sua certeza da vitó- Sertões, observou que o escritor recriou a
ria do governo, tão inabalável quanto a guerra como tragédia, em que o não-herói, o
crença do Conselheiro na volta da monar- sertanejo, revela-se como o único herói numa
quia: “Este paralelo será, porém, levado às transfiguração quase milagrosa de apoteo-
últimas conseqüências. A República sairá se: “A História é apresentada como trágica,
triunfante desta última prova” (21). repleta de infelicidades, infâmias e catástro-
Descartou depois, em Os Sertões, a idéia fes, um imbricamento de progressos e retro-
de uma conspiração monárquica, apoiada cessos marcados por hecatombes” (23).
por países estrangeiros, que havia justifi- A linguagem dramática, freqüente no
cado o massacre. Mostrava agora que a livro, articula-se ao discurso militar, em que
rebelião liderada pelo Conselheiro não são correntes termos como “teatro de ope-
apresentava o projeto político de derruba- rações” e “teatro da luta”. As inúmeras
da da República. Tratava-se antes, para expressões ligadas ao teatro – anfiteatro,
Euclides, de um movimento místico e reli- cenário, palco, tragédia, atores, platéia, es-
gioso, fundado em expectativas milena- pectadores – permitem a Euclides desen-
ristas de criação do paraíso terrestre e em volver uma idéia central em sua escrita: a
crenças sebastianistas sobre o retorno má- inversão de papéis. Decorrem de tal inver-
gico do rei português d. Sebastião, desapa- são, conforme notou Leopoldo Bernucci,
recido no século XVI, que deveria voltar, as principais figuras de linguagem e pensa-
com suas tropas, para derrotar as forças do mento do livro, como a antítese, o oxímoro
novo regime. e a ironia, que mostram a ilusão e o avesso
das coisas e estabelecem correspondências
21 E. da Cunha, “A Nossa
Vendéia” (1897), in Diário de momentâneas entre os objetos, que logo se
uma Expedição, op. cit., p. 52. convertem em ilusões ou paradoxos, a
22 Olímpio de Souza Andrade, A HISTÓRIA COMO TRAGÉDIA exemplo da visão do céu transformada em
História e Interpretação de Os
Sertões , São Paulo, Edart, inferno ou do deserto que cria a miragem
1966, p. 200; William do mar (24).
Shakespeare, The Tragicall
Euclides concebeu a história como dra-
Historie of Hamlet, Prince of ma trágico, ao escrever sobre os conflitos Inspirada no drama, a inversão de pa-
Denmarke (1603), London,
Longman, 1970, p. 113 armados dos primeiros anos da República, péis fortalece, com sua poderosa ironia, a
( Hamlet , trad. de Millôr como a Revolta da Armada (1893-94) e a semelhança entre os lados opostos, ao re-
Fernandes, Porto Alegre, L&PM,
1999, p. 71). Guerra de Canudos (1896-97), dos quais velar o deslocamento e o intercâmbio de
23 Berthold Zilly, “Um Depoimen- foi testemunha, participante e intérprete. lugares entre a civilização e a barbárie. A
to Brasileiro para a História Uni-
versal: Traduzibilidade e Atua-
Empregou imagens ligadas às artes plásti- matança dos prisioneiros é tomada como
lidade de Euclides da Cunha”, cas e cênicas, para apresentar a história um “drama sanguinolento da Idade das
in Humboldt (Bonn), 72, 8-12,
1996, p. 12; idem, “A Guerra como se fosse uma peça de teatro ou os cavernas”, ou um “recuo prodigioso no
como Painel e Espetáculo. A quadros de uma exposição. tempo”, em que os soldados e oficiais, su-
História Encenada em Os Ser-
tões ”, in História, Ciências, Leu, ao longo da vida, os trágicos gre- postos representantes do progresso, agiam
Saúde: Manguinhos (Rio de
Janeiro), v. 1, 1, 1997, pp. gos – Ésquilo, Sófocles e Eurípides –, além de forma primitiva:
13-37. dos dramas de Shakespeare. Redigiu gran-
24 Leopoldo M. Bernucci, “Prefá- de parte de Os Sertões em São José do Rio “Descidas as vertentes, em que se entalava
cio”, in E. da Cunha, Os Ser-
tões (Campanha de Canudos), Pardo, no interior de São Paulo, de 1898 a aquela furna enorme, podia representar-se
ed. de Leopoldo M. Bernucci, lá dentro, obscuramente, um drama san-
São Paulo, Ateliê, 2001, pp.
1901, enquanto dirigia a reconstrução de
36-8. uma ponte metálica sobre o rio. À frente do guinolento da Idade das cavernas. O cená-

24 REVISTA USP, São Paulo, n.54, p. 16-29, junho/agosto 2002


rio era sugestivo. Os atores, de um e de Euclides apresentou as batalhas, a que
outro lado, negros, caboclos, brancos e assistiu como repórter, como quadros e
amarelos, traziam, intacta, nas faces, a ca- cenas vistos de tribunas elevadas ou de
racterização indelével e multiforme das ra- camarotes, representados pelos morros ao
ças – e só podiam unificar-se sobre a base redor de Canudos. As metáforas teatrais,
comum dos instintos inferiores e maus”. enlaçadas com imagens pictóricas, conver-
tem as batalhas em espetáculo, em que o
Os heróis irrompem, na narrativa, para narrador retoma o papel do coro da tragé-
dar conta dos poucos momentos em que o dia clássica, comentando os acontecimen-
conflito adquire “delineamentos épicos”, tos, lamentando as vítimas e acusando os
ou contornos grandiosos, pela troca de pa- vencedores.
péis entre os soldados, depreciados pelo A violenta batalha de 24 de setembro
narrador, e os sertanejos, que são valoriza- de 1897, que resultou no cerco de Canu-
dos. Um grupo de conselheiristas ataca, de dos, é narrada, segundo Berthold Zilly, de
forma tão brava quanto suicida, o possante um modo épico e plástico, com longas des-
canhão Whitworth, apelidado de matadeira, crições de quadros e imagens, e depois
que rugia sobre Canudos como um “animal como um ato de tragédia, em que as ima-
fantástico”. Um prisioneiro se estrangula gens se tornam teatrais e dinâmicas. O
com uma corda e se converte, enrijecido, discurso teatral aparece com maior fre-
em uma “velha estátua de titã, soterrada qüência nesses últimos capítulos, à medi-
havia quatro séculos e aflorando, denegrida da que a destruição da comunidade ganha
e mutilada, naquela imensa ruinaria de um sentido trágico de hecatombe ou de
Canudos”. Observa Euclides com severa final apocalíptico.
amargura: “Era uma inversão de papéis. Contado com intensa dramaticidade, o
Uma antinomia vergonhosa…” (25 ). combate é central no desenrolar da guerra,
A paisagem é vista, em “A Terra”, pri- pois permitiu às forças armadas cercar a
meira parte de Os Sertões, como cenário cidade e selar a sua derrota, ao privar seus
trágico, que antecipa de modo simbólico a habitantes de água e comida. Observa
decapitação dos prisioneiros. A vegetação Euclides: “traçara-se a curva fechada do as-
da caatinga permitiria antever a degola dos sédio real, efetivo. A insurreição estava
sertanejos, que se converte em tragédia morta”. Munido de binóculos, o narrador
inscrita na própria natureza. As cabeças- acompanha o espetáculo do alto do morro,
de-frade, com suas flores intensamente junto com os oficiais, que formavam uma
rubras, espalham-se sobre a pedra nua e “platéia enorme para a contemplação do
criam “a imagem singular de cabeças dece- drama”, entusiasmada com os avanços das
padas e sanguinolentas jogadas por ali, a tropas: “Aplaudia-se. Pateava-se. Estrugiam
esmo, numa desordem trágica”. As palma- bravos. A cena – real, concreta, iniludível
tórias-do-inferno, “diabolicamente eriça- – aparecia-lhes aos olhos como se fora uma
das de espinhos”, evocam a paixão de Cris- ficção estupenda, naquele palco revolto, no
to, sacrifício exemplar que se liga à paixão resplendor sinistro de uma gambiarra de
e morte dos seguidores do Conselheiro. incêndios”.
Com sua visão teatral da guerra, o Os incêndios que se espalhavam pelo
narrador transforma o espaço geográfico em casario lembravam os refletores do teatro e
cenário de um “emocionante drama” histó- as nuvens de fumaça amarelada tomavam
rico. O sertão de Canudos surge como o quadro de modo semelhante ao sombrea-
“monstruoso anfiteatro”, cujo isolamento se do de um desenho e chegavam, por vezes,
reforça pelo círculo de montanhas à volta, a escondê-lo “como o telão descido sobre
que evocaria os teatros ao ar livre da Anti- um ato de tragédia”. O fumo, que cobria o 25 E. da Cunha, Os Sertões, ed.
W. N. Galvão, op. cit., pp.
güidade e traria a certeza da impunidade para arraial, estendia-se diante dos espectado- 402, 462-4.
a “multidão criminosa e paga para matar”, res e fazia lembrar a base parda, que serve
26 Idem, ibidem, pp. 34, 50,
formada pelas tropas republicanas (26). de primeira demão para uma pintura: 210, 451, 464.

REVISTA USP, São Paulo, n.54, p. 16-29, junho/agosto 2002 25


Abaixo, “As vistas curiosas dos que pelo próprio da 1a Coluna, balbucia algumas frases mal
afastamento não compartiam a peleja, coa- percebidas e tira o chapéu de couro para se
bóia na bateria vam-se naquele cendal de brumas. E quan- sentar. Mas é derrubado a socos por sua in-
do perigo; do estas se adunavam impenetráveis, em solência e arrastado com uma corda amarra-
toda a cercadura de camarotes grosseiros da ao pescoço para o “seio misterioso da
na página
do monstruoso anfiteatro explodiam irre- caatinga”, onde é morto como tantos outros
seguinte, primíveis clamores de contrariedades e presos com requintes de crueldade:
sepultura do desapontamentos de espectadores frenéti-
cos, agitando os binóculos inúteis, procu- “Os soldados impunham invariavelmente à
capitão Aguiar
rando adivinhar o enredo inopinadamente vítima um viva à República, que era poucas
encoberto” (27). vezes satisfeito. Era o prólogo invariável de
uma cena cruel. Agarravam-na pelos cabe-
Ausente das reportagens, a degola de los, dobrando-lhe a cabeça, esgargalando-
centenas de prisioneiros ao final da guerra lhe o pescoço; e, francamente exposta a
é referida de forma velada em Os Sertões, garganta, degolavam-na. Não raro a sofre-
ainda que sejam contados alguns casos de guidão do assassino repulsava esses prepa-
decapitação, estripamento ou esfaquea- rativos lúgubres. O processo era, então, mais
mento de sertanejos. Um jovem prisionei- expedito: varavam-na, prestes, a facão.
ro, que respondia altivo e indiferente a to- Um golpe único, entrando pelo baixo ven-
das as perguntas com um “Sei não!”, pede tre. Um destripamento rápido…”.
para morrer de tiro, mas o soldado lhe en-
fia, sem piedade, a faca na garganta, en- Tal morte a faca, ou “a frio”, era o su-
quanto este dá um último grito, que sai premo pavor dos sertanejos, que acredita-
gargarejante pela boca ensangüentada: vam que, por esta forma, não lhes seria salva
“Viva o Bom Jesus!…” a alma. Os soldados exploravam a supers-
Um outro prisioneiro, levado à tenda do tição e prometiam, não raro, a esmola de
27 Idem, ibidem, pp. 451-2.
general João da Silva Barbosa, comandante um tiro à custa de revelações, ou exigiam

Casa de Cultura Euclides da Cunha, São José do Rio Pardo

26 REVISTA USP, São Paulo, n.54, p. 16-29, junho/agosto 2002


Casa de Cultura Euclides da Cunha, São José do Rio Pardo
que dessem um viva à República. Conhe-
cendo a sorte que os aguardava caso fos-
sem presos, muitos sertanejos preferiam
lutar até à morte. Sentencia o escritor:
“Aquilo não era uma campanha, era uma
charqueada. Não era a ação severa das leis,
era a vingança” (28).
Euclides foi testemunha ocular dos
momentos finais da guerra, tendo presen-
ciado cerca de três semanas de luta, de 16
de setembro a 3 de outubro de 1897, quan-
do se retirou de Canudos doente, com aces-
sos de febre, dois dias antes do fim do con-
flito (29). Não assistiu ao massacre dos
prisioneiros, à queda e ao incêndio da cida-
de, ou à descoberta do cadáver do Conse-
lheiro e de seus manuscritos, fatos ocorri-
dos entre 3 e 6 de outubro, que não mencio-
nou nas reportagens e que iria depois rela-
tar de forma sucinta em seu livro.
O narrador de Os Sertões recua diante
de um fato inexprimível e irrepresentável,
que ultrapassa os seus quadros de referên-
cia pela covardia e violência extremas: a
matança dos presos que se haviam rendido.
Assim como entrevia, durante as batalhas,
o arraial de Canudos através das cortinas
de fumaça que se erguiam das ruínas, a
chacina dos presos é insinuada, ao invés de
ser relatada. Sua narrativa repousa sobre
uma estrutura tensa devido ao conflito en-
tre a necessidade de revisitar um evento Dreyfus obteve a anistia em 1899 após in-
traumático do passado e a impossibilidade tensa campanha pública, mas só foi plena-
de representar aquilo que desafia ou supera mente reabilitado e reintegrado ao Exército
os limites da linguagem (30). sete anos depois, em 1906 (31). 28 Idem, ibidem, p. 401, 458-9,
463.
Escreveu na abertura do livro: “Aquela O crime ocorrido em Canudos, pelo qual
29 José Calasans, “Euclides da
campanha lembra um refluxo para o passa- Euclides acusa as forças armadas, recebe Cunha nos Jornais da Bahia”,
do./ E foi, na significação integral da pala- um tratamento simbólico ou figurativo em in Cartografia de Canudos,
Salvador, Secretaria de Cultu-
vra, um crime./ Denunciemo-lo”. Assumia Os Sertões, como na imagem das cabeças- ra e Turismo do Estado da
Bahia, 1997, pp. 130-1.
a mesma atitude de tribuno público que Émile de-frade espalhadas pela caatinga, que
30 Sobre a representação de ca-
Zola, uma de suas leituras preferidas, tivera, metaforiza a degola e evita a platitude do tástrofes como o holocausto,
em 1898, no célebre caso Dreyfus na Fran- registro realista ou do testemunho mera- cf.: Márcio Seligmann-Silva, “A
História como Trauma”, in Arthur
ça. Em “J’Accuse” (“Eu Acuso”), carta aber- mente documental. Sua narração suspen- Nestrovski e Márcio Seligmann-
ta ao presidente da República, Zola denun- siva do massacre resultou de uma opção Silva (orgs.), Catástrofe e Re-
presentação: Ensaios, pp. 90
ciou a conspiração militar que transformara estética em evitar o apelo ao patético e fu- e segs.
o capitão Alfred Dreyfus, descendente de gir à representação de fatos cruentos: “E de 31 E. da Cunha, Os Sertões, op.
cit., p. 14. Sobre as implica-
judeus, em bode expiatório de um caso de que modo comentaríamos, com só a fragi- ções políticas e culturais do
espionagem, que envolvia a venda de segre- lidade da palavra humana, o fato singular caso Dreyfus na Terceira Repú-
blica francesa, cf.: Eugen
dos militares aos alemães. Condenado em de não aparecerem mais, desde a manhã de Weber, France, Fin de Siècle,
1894 à prisão perpétua na temida prisão da Cambridge, Massachusetts,
3, os prisioneiros válidos colhidos na vés- Harvard Univ. Press, 1986,
Ilha do Diabo, na costa da Guiana Francesa, pera?”. pp. 120-5.

REVISTA USP, São Paulo, n.54, p. 16-29, junho/agosto 2002 27


Deixa igualmente de narrar os derra-
deiros combates e prefere conter sua pena A COMÉDIA REPUBLICANA
ante a carnificina. Canudos foi, para ele,
um “exemplo único em toda a História”, Euclides retomou tal visão teatral e irô-
por ter resistido até ao esgotamento com- nica da história no breve relato “A Esfin-
pleto com apenas quatro guerreiros, que ge”, de Contrastes e Confrontos (1907),
lutavam contra cinco mil soldados ferozes. parte do livro que pretendia escrever sobre
Tal elipse narrativa, que torna a matança a Revolta da Armada. Queria, após o êxito
subentendida, tem função semelhante à do de Os Sertões, dar prosseguimento à revi-
decoro na tragédia, em que se impedia a são da história republicana, mas abando-
visão das cenas violentas, com derrama- nou tal projeto, ao ser nomeado em 1904
mento de sangue, que eram representadas para chefiar a Comissão Brasileira de Re-
fora de cena, dentro do palácio real, en- conhecimento do Alto Purus, no Acre. Sua
quanto os espectadores ouviam os gritos da atenção intelectual se voltou então para a
vítima (32). Amazônia, sobre a qual redigiu os ensaios
O tom sombrio, que adota nos capítulos reunidos em Contrastes e Confrontos e À
finais de Os Sertões, expressa a infame in- Margem da História (1909).
versão de papéis entre soldados e Atuou na Revolta da Armada, entre 1893
conselheiristas, que transformou a campa- e 1894, como tenente a serviço das forças
nha em matadouro: “que entre os deslum- do governo, engajadas no combate aos re-
bramentos do futuro caia, implacável e re- beldes da Marinha, que exigiam a realiza-
volta; sem altitude, porque a deprime o as- ção de eleições presidenciais. Contou, em
sunto; brutalmente violenta, porque é um “A Esfinge”, a visita noturna feita pelo
grito de protesto; sombria, porque reflete marechal Floriano Peixoto, vice-presiden-
uma nódoa – esta página sem brilhos…” te em exercício da Presidência, às obras da
(33). fortificação que erguia, como engenheiro
Critica e ironiza, em tal página “sem militar, no cais do porto do Rio, para abri-
brilhos”, a cintilação ilusória das glórias e gar o canhão que iria bombardear os navios
insígnias militares, manchadas por atos insurgentes. O marechal, que governava o
indignos. Faz ainda a paródia do entusias- país com mão de ferro, surgia aos seus olhos
mado telegrama que o presidente da Repú- como esfinge, em cuja face enigmática via
blica, Prudente de Morais, enviou ao mi- inscritos os destinos do país.
nistro da Guerra, marechal Bittencourt, e O sogro de Euclides, o general Frederico
ao comandante da última expedição, gene- Solon Sampaio Ribeiro, um dos chefes
ral Artur Oscar, para transmitir suas “con- militares da proclamação da República,
gratulações pela terminação dessa campa- encontrava-se preso sob a acusação de
nha excepcional, de modo tão honroso para envolvimento com os revoltosos. Em meio
a República quanto glorioso para o Exérci- a tantos conflitos, o engenheiro-escritor lia
to nacional, que, através de tantos sacrifí- a obra histórica do inglês Thomas Carlyle,
cios, acaba de escrever mais uma página The French Revolution (A Revolução Fran-
brilhante para a nossa história” (34). cesa) (1837), em que são criticados os abu-
A destruição do povoado, cujos mora- sos do poder revolucionário. Procurava, nas
32 Oliver Taplin, Greek Tragedy dores foram exterminados e cujas casas e páginas de Carlyle, encontrar consolo para
in Action, London, Methuen,
1978. ruas foram demolidas com dinamite e quei- os descaminhos do novo regime, desvirtua-
33 E. da Cunha, Os Sertões, op. madas com querosene, atendia às determi- do por guerras civis, e se penitenciar do que
cit., p. 464. nações de Prudente de Morais, que ordena- chamou de “uso desta espada inútil, deste
34 Aristides A. Milton, A Campa- ra uma guerra de extermínio: “Em Canu- heroísmo à força e desta engenharia mal-
nha de Canudos, Rio de Janei-
ro, Imprensa Nacional, 1902, dos não ficará pedra sobre pedra, para que estreada…”.
pp. 132-3.
não mais possa reproduzir-se aquela cida- Contemplando, durante a Revolta da
35 Prudente de Morais, “7/out./
dela maldita e este serviço a Nação deve ao Armada, os navios de guerra imersos à noite
1897”, in Jornal do Comércio
(Rio de Janeiro), 8/out./1897. heróico e correto Exército” (35). na escuridão da baía, Euclides se sentia

28 REVISTA USP, São Paulo, n.54, p. 16-29, junho/agosto 2002


como o figurante de um drama trágico: coisas ou os personagens, que cria no palco
situações burlescas e engraçadas, cuja so-
“Imaginei-me, então, obscuríssimo com- lução depende de serem desfeitos os equí-
parsa numa dessas tragédias da antigüida- vocos e as confusões.
de clássica, de um realismo estupendo, com
os seus palcos desmedidos, sem telão e sem
coberturas, com os seus bastidores de ver-
A TRAGÉDIA DA PIEDADE
dadeiras montanhas em que se despe-
nhavam os heróis de Ésquilo, ou o proscênio Euclides teve, como o Conselheiro, um
de um braço de mar, onde uma platéia de fim trágico. Ambos foram construtores
cem mil espectadores pudesse contemplar, itinerantes, um de capelas, igrejas e cemi-
singrantes, as frotas dos Fenícios”. térios, o outro de pontes, escolas e estradas.
Os dois tiveram o destino marcado pelo
Nesse drama histórico, os papéis se con- adultério das esposas, pela luta sangrenta
fundiam e se invertiam com ironia cômica. de suas famílias contra seus inimigos e pelas
O governo, suposto representante da lega- posições que assumiram frente à Repúbli-
lidade, “belo eufemismo destes tempos sem ca, um de feroz oposição, o outro de adesão
leis”, decretava o estado de sítio e esmaga- entusiástica, seguida de crítica mordaz.
va os rebeldes pela suspensão das leis. A Ambos tiveram fé, o líder religioso na for-
Constituição, por sua vez, era estrangulada ça redentora da devoção e do ascetismo, o
pelos “abraços demasiado apertados dos escritor no poder transformador da litera-
que a adoram”: “Representamos desastra- tura, da ciência e da filosofia.
damente. Baralhamos os papéis da peça que Euclides morreu, em 15 de agosto de
deriva num jogar de antíteses infelizes, entre 1909, no bairro da Piedade, no Rio de Ja-
senadores armados até aos dentes, brigan- neiro, em tiroteio com o cadete Dilermando
do como soldados, e militares platônicos de Assis, amante de sua mulher. Sete anos
bradando pela paz”. depois, Dilermando fuzilou, em um cartó-
A história republicana se encenava rio no centro do Rio, o aspirante naval
como comédia trágica ou era narrada en- Euclides da Cunha Filho, o filho preferido
quanto epopéia sem heróis, em que o estilo do escritor, que tentava vingar o pai.
elevado se rebaixava pela perspectiva irô- A imprensa noticiou a morte do autor
nica: “Os heróis desmandam-se em de Os Sertões como a “tragédia da Pieda-
bufonerias trágicas. Morrem, alguns, com de”, usando as mesmas imagens teatrais
um cômico terrível nesta epopéia pelo aves- presentes em sua obra. Comparou depois,
so” (36). Recorria à inversão de papéis, idéia em 1916, o destino de seu filho ao drama do
já empregada em Os Sertões para tratar do Hamlet de Shakespeare, obcecado em des-
intercâmbio de lugares entre o bárbaro e o forrar o pai assassinado. Ao agir como os 36 E. da Cunha, “A Esfinge”, in
Contrastes e Confrontos
civilizado. Tal noção teatral era usada ago- heróis antigos ou como os valentões serta- (1907), São Paulo, Brasília,
nejos, a vida de Euclides se tornou uma Cultrix, INL, 1975, p. 124
ra em sua variante cômica, o qüiproquó, ou (republ. em: Obra Completa,
o quid pro quo, troca de papéis entre as ficção trágica. 1995, v. 1, pp. 200, 203).

REVISTA USP, São Paulo, n.54, p. 16-29, junho/agosto 2002 29