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I· CORNELIUS CASTORIADIS

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. A INSTITUIÇÃO IMAGINÁRIA
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DA SOCIEDADE
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Tradução de Guy Reynaud
•t Revisão técnica - Luís Roberto Salinas Fortes·

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1, 5<1 EDIÇÃO
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PAZ E TERRA
© ÉclÍtions du Seuil, 1975
Traduzido do original em francês L 'Institution imaginaire de la Societé
Copa Jacob Levitineas

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Castoriadis, Cornelius.
SUMÁRIO
C349i A Instituição imaginária da sociedade / Comelius Casto-
riadis; tradução de Guy Reynaud; revisão técnica de Luiz Ro-
berto Salinas Fortes. - Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1982.
(Coleção Rumos da cultura moderna; v. 52)
Tradução de: L'institution imaginaire de Ia societé
1. Filosofia grega I. Título II. Série

CDD - 199.495 Prefácio .................. .. ..................................... l l


82-0181 CDU - 1 Cornelius, C.

1. MARXISMO E TEORIA REVOLUCIONÁRIA

1~ edição: 1982 I - O MARXISMO: BALANÇO PROVISÓRIO .. ... ....... 19


2~ edição: 1986
1. A situação histórica do marxismo e ·a noção
Direitos adquiridos pela de ortodoxia ................ .. ............ . ............ · · . · · .1~
EDITORA. PAZ E TERRA S/A 2. A teoria marxista da história .............................. · · .26
Rua do Triunfo, 177 Determinismo econômico e luta de classe ................ ·....42
01212 - São Paulo, SP Sujeito e objeto do conhecimento histórico .................. 4.6
Te!. (011) 223-6522
Observações adicionais sobre a teoria marxista .
da história ............ ..................... . . ................50
3. A Filosofia marxista da história .................. . ...........54
O racionalismo objetivista ... .... . .. .. ............ .. . ... ...... 55
que se reserva a propriedade de~ta tradução. O determinis(tlo ................................ .... .......... 56
O encadeamento d~s significações e a "astúcia
da razão" ........... .. ............ . ................. . .. ......58
A dialética e o "materialismo" ...............................68
4. Os dois elementos do marxismo e seu destino
2000 histórico .... .. .. ............................................. 7 i
Impresso no Brasil/Printed in Brazil o· fundamento filosófico da decadência ............... .. ...... 84

J
li. TEORIA E PROJETO REVOLUCIONÁRIO . . . .......... 89
A instituição social dos conjuntos . . ... ..... .. ........... .. . . 266
1. Praxis e projeto ... ... . .. . . .. ...... .· .......................... 89 A sustentação da sociedade na natureza .... . .... . . .. .... .. .. 267
Saber e fazer . .. . .. . . . .. . . .. . . . ..... ... . ·..... . ...... .. . ....... 8~ O /egein e a linguagem como c ódigo . .. . ............ .. . ..... 277
Praxis e projeto ...... .. . . . ..... . . .... . ....................... 94 Aspectos do legein . .. ........ .. .................... . .. ... ... 284
2. Raízes do projeto revoluci oná~io . .... .... . .. . . ............. .. 99 l ege in • determinidade • entendimento ............ .. . . ....... . 298
As raízes sóciais do projeto revolucionário ...... . ............ 99 Aspectos do teukhein ... . .... .. . . . ......... .. ................ .301
Revolução e raciona lização ......... ~ ...... ...... .. .. ...... . . l 06 Historicidade do iegein e do teukhein ..... : ............. · · ·. 309
Revolução e totalidade socia l ................ . .. . . .... . .. . .. l 07
Raízes subjetivas do projeto revolucionário ... .... .... . . .... . 111 VI. A INSTITUIÇÃO SOCIAL-HISTÓRICA : l
Lógica do projeto revolucionário . . .. . .. . . .... .. ...... . . .. . . . 116 O INDIVÍDUO E A COISA .... . ............ .. .. ·. · · · · · · .3 5
3. Autonomia e alienação .. .. .. . .. . . .. . . .. .. . ........ . .. . ...... 122 O modo de ser do inconsciente ..................... . .... .. .. .316
Sentido da autonomia - 0 indivíduo . . ..... . ............ . . .. 122 A questão da origem da representação .................. . ... .323
Dimensão social da ·autonomia .............................. 129 A realidade psíquica ......... .. ....... . ................. .. .. 334
A heterónomia instituída: a alienação como O núcleo monádico do sujeito originário .................... 336
1 fenôm eno social ...... .. . . ............ . . ..... . .. . ... ....... .. 131 A ruptura da mônada e a fase triádica . .... . ............ . ... 343
O "comunismo" em s.ua acepção mítica . .... . ......... . .. . . . 133 A constituição da realidade . .... .. . . . , ,_... .. ...... ... ... . ... 35 1
1 A sublimação e a socialização da psiquê .... ............ .. .. 355
III. A INSTITUIÇÃO E. O IMAGINÁRIO:
• PRIMEIRA ABORDAGEM ... .... ...... ...... .... .... . . 139
O conteúdo social-histórico da sublimação .................. 360
O indivíduo e a apresentação em geral . . ....... . . .. . . .. . .. .. 364
• A instituição: a visão econômica-funcional ... . .... . ......... 13~
A instituição e o simbólico .................... .. ... . ......... 142
O preco nceito da percepção e o privilégio da "coisa" .. . . . .. 3J3
Representação e pensamento ......... .. . .. ...... . .. . ....... . 380
• O simbólico e o imaginário ................................. 154

• A alienação e o imaginário .. . ............... . . .... . . . ....... 159


As significações imaginárias sociais . . . ................... . .. . 164
VII. AS SIGNIFICAÇÕES IMAGINÁRIAS SOCIAIS ........ 385


1
Papel das significações imaginárias ............ . ............. 176.
O imaginário no mundo moderno ............ ........... .... . 187
Imaginário e racional ..... : ...... : ...... . .. . ...... ... .. ..... 192
Os magmas ....... ... ..... · · · ·.· . · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · 385
As significações ria linguagem ....... : .......... .. .. . . ....... 39~
As significações imaginárias sociais
e a " realidade" .. .... ...... . .... .... ................... · .. · . 399
II . O IMAGINÁRIO SOCIAL E A INSTITUIÇÃO .As significações imaginárias sociais
e a instituição do mundo .. . . .. ...... .. ...... .... . .. ..... · ·. 404
O modo de ser das significações imaginárias
IV. O SOCIAL-HISTÓRICO . .... . ... ......... .. . ... .......... 201
sociais ............... : . ; ... . .... .. . . ..... · · · · · · . · · · · · · · · · · · · · 409
Os tipos possíveis de respostas tradicionais- . .. .... . . . .. . 204 Imaginário radical, sociedade instituinte._
A sociedade e os esquemas da coexfatência ..............211 sociedade instituída . . .... ... . .......... . 414
A história e os esquemas da sucessão ...................218
A instituição filosófica do tempo ..... .: . .................222
Tempo e criação . .. . ............ . . . .. . ....... ... .. .. . ... 231
A instituição social do tempo ...........................239
Tempo identitário e tempo imaginário ..... .............246
Indistinção do social e do histórico.
Abstrações da sincronia e da diacronia ..... . .. .... .. ." . . .252

V. A INSTITUIÇÃO SOCIAL-HISTÓRICA:
"LEGEIN" E "TEUKHEIN" . . . ..... . .. .... ............. 259
A lógica identitária e os conjuntos .... . .. ... . .... .. .. ... . ....260
PREFÁCIO

Estê Íivro poder* parecer heterogêneo. De fato é num certo sentido,


e algumas explicações sobre as circunstâncias de sua composição podem
ser úteis ao leitor.
Sua primeira parte é formada pelo texto "Marxismo e teoria revolu-
cionária", publicado em Socialisme ou Barbarie de abril de 1964 a junho
de 1965 1• Este texto era em si mesmo a amplificação interminável de uma
"Nota sobre a filosofia e a teoria marxistas da história", que acompanha-
va "O movimento revolucionário sob o capitalismo moderno" e difundi-
da ao mesmo tempo que este no seio do grupo Socialisme ou Barbarie
(primavera de 1959). Quando a publicação de Socfalisme ou Barbarie foi
suspensa, a continuação não publicada e em grande parte já redigida de
" Marxismo e teoria revolucionária", ficou entre meus papéis.
Escrita sob pressão dos prazos impostos pela publicação da revista,
esta primeira parte já é em si não um trabalho feito mas um trabalho se
fazendo. Contrariando todas as regras de composição, as paredes da
construção são exibidas umas após as outras à medida que vão sendo edi-

1. N 9 s 36 a 40. Corno meus outros textos de Sorialisme ou Barbar/e publicados na cole-


ção 10/ 18. "Marllisrno e teoria revolucionária" é reproduzido aqui sem rnodificaçã,o. a não
ser os erros de im pressão, alguns lapsus ralami ou obscuridades da expressão e da atualiza-
ção, quando necessário, das referências. Alguns aditamentos estão indicados por colchetes.
As chamadas das notas originais vêm com nurneros. as das not:is novas com letras.
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ficadas, cercadas pelo que resta de andaimes, de montes de areia e pedra, da parte desta obra: cm especial, as que dizem respeito à instituição e fun-
de pedaços de vigas e de trolhas sujas. Assumo esta apresentação ditada cionamento da sociedade institulda, à divisão da sociedade, à universali-
no início por fatores "exteriores", sem disso fazer uma tese. Deveria ser dade e unidade da história, à própria possibilidade de uma elucidação do
uma banalidade por todos reconhecida, o fato de que no caso do traba- soei.ai-histórico como a que se tenta aqui, à pertinência e às implicações
lho de reflexão, retirar os andaimes e limpar os arredores do edificio, não políticas deste trabalho. Do _mesmo modo, o aspecto propriamente filo-
somente em nada contribui para o leitor, mas também lhe tira algo de es- sófico da questão do imaginário e da imaginação foi reservado para uma
sencial. Ao contrário da obra de arte, aqui não há edificio terminado e obra, o Elemento Imaginário, que será publicada dentro em breve. Neste
por terminar; tanto e mais que os resultados, importa o trabalho da refle- sentiqo, também a segunda_parte deste livro não é um edificio termi.nado.
xão e talvez seja sobretudo isto que um autor pode oferecer, se é que ele
pode oferecer alguma coisa. A apresentação do resultado como totalida- Tentar substituir aqui a discussão destas questões por algumas frases ·
de sistemática e burilada, o que na verdade ele nunca é; ou mesmo do ou parágrafos seria risível. Gostaria de chamar a atenção do leitor para
processo de construção - como é tão freqilentemente o caso, pedagógica um único ponto, a fim de evitar mal-entendidos. Aquilo qu7, a p~r~ir de
. mas. falaciosamente, de tantas obras filosóficás - sob forma de processo 1964, denominei o imaginário social - termo retomado depois e uhhzado
lógico ordenado e controlado, só reforça no leitor a ilusão nefasta para a um pouco a torto e a direito - e, mais genericamente, o que denomino o
qual ele, como todos nós, já tende naturalmente, de que o edificio foi imaginário, nada tem ·a ver com as representações que circulam corrente-
construído para ele e doravante basta habitá-lo se assim lhe apraz. Cons- mente sob este titulo. Em particular, isso nada tem a ver com o que algu-
truir catedrais ou compor sinfonias não é pensar. A sinfonia, se existe sin- mas correntes psicanalíticas apresentam como "imaginário": o "especu-
fonia, deve o leitor criá-la em seus próprios ouvidos. lar", que, evidentemente, é apenas imagem de e imagem refletida, ou seja,
Quando surgiu a possibilidade de uma publicação do conjunto, pa- reflexo, ou, em outras palavras ainda, subproduto da ontologia platônica
receu-me fora de dúvida que a continuação inédita de "Marxismo e teo- (eido/on), ainda que os flUe utilizem o termo ignorem sua origem. O ima-
ria revolucionária" deveria SC1" retomada e reelaborada. As idéias já ma- ginário não é a partir da imagem no espelho ou no olhar do outro. O pró-
nifestadas e formuladas na parte de "Marxismo e teoria revolucionária" prio "espelho", e sua possibilidade, e o outro como espelho são antes
publicada em 1964-1965 - da história como criação ex nihilo, da socieda- obras do imaginário que é criação ex nihilo. Aqueles que falam de "ima-
de instituinte e da sociedade instituída, do imaginário social, da institui- ginãriol' compreendendo por isso o "especular", o reflexo ou o "fictí-
ção da sociedade como sua própria obra, do social-histórico como modo cio", apenas repetem, e muito freqüentemente sem o saberem, a afirma-
de ser mal conhecido pelo pensamento herdado - nesse meio tempo se ção que os prendeu para sempre a um subsolo qualquer da famosa caver-
haviam transformado para mim de pontos de chegada em pontos de par- na: é necessário que (este mundo) seja imagem de alguma coisa. O imagi-
tida, exigindo que, a partir delas, tudo fosse repensado. A reconsideração nário de que falo não é imagem de. ~ criação incessante e essencialmente
da teoria psicanalítica (à qual consagrei a melhor parte dos anos 1965 a indeterminada (social-histórica e psíquica) de figuras/formas/imagen s, a
1968), a reflexão sobre a linguagem (de 1968 a 1971), um novo estudo, partir das quais somente é possível falar-se de "alguma coisa". Aquilo
durante esses últimos anos; da filosofia tradicional, reforçaram em mim que denominamos "realidade". e "racionalidade" são seus produtos ..
esta convicção ao mesmo tempo em que mostravam que tudo, no pensa- Esta mesma idéia, de imagem de, é a que sempre sustentou a teona
mento herdado, se ligava no seu conjunto e se ma ntinha ligado com o como olhar inspeccionando aquilo que é. O que tento fazer aqui não é
mundo que o produzira e que ele, por sua vez, havia contribuído para uma teoria da sociedade e da história, no sentido herdado do termo teo-
formar. E o domínio exercido sobre nossos espíritos pelos esquemas des- ria. !:: uma elucidação e esta elucidação, ainda que apresente inevitavel-
te pensamento, produtos de um esforço de três mil anos de tantos gênios mente uma aparência abstrata, é indissociável de uma finalidade e de um
incomparáveis, mas também - esta é uma das idéias centrais deste livro - projeto políticos. Mais do que em qualquer outro domínio, a idéi.a de teo-
nos quais e pelos quais se exprime, se aprimora, se elabora tudo o que a ria pura é aqui ficção incoerente. Não existem lugar e ponto de vista exte-
humanidade pôde pensar desde centenas de milhares de anos e que refle- rior à história e à sociedade, ou "logicamente anterior" a estas, onde nos
tem, em certo sentido, as próprias tendências da instituição da sociedade, pudéssemos situar para .fazer ~ua teoria - in specci~:má:l.as, co~t~mp l.~-las,
só poderia ser abalado, se é que pode sê-lo, pela demonstração precisa e afirmar a necessid~de determinada de seu ser7ass1m, const1tu1-las , re-
detalhada, caso após caso, dos limites deste pensamento e das necessida- flexionar ou refleti-las em sua totalidade. Todo pensamento da sociedade
des internas segundo sua maneira de ser, que: o ley_a ram a ocultar: aqujlo e da história pertence em si mesmo à sociedade e à história. Todo pensa-
que me parece ser o essencial. Isso não é viável em um livro e nem mesmo . menta, qualquer que seja éle e qualquer que seja seu "objeto", é apenas
em vários. Seria necessário, portanto, eliminar ou referir alusivamente um modo e uma· forma do fazer social-histórico. Pode ignorar-se como
questões, a meu ver, tão importantes quanto aquelas discutida~ na segun- tàl - e é o que lhe acontece mais freqüentemente por necessidade, por as-
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sim dizer, interna. E o fato de conhecer-se como tal não o faz sair de seu Não existe teoria rigorosamente rigorosa em matemática; como poderia
modo de ser, como dimensão do fazer social-histórico. Mas pode permi- existir em política? E ninguém é jamais o verdadeiro porta-voz de uma
tir-lhe ser lúcido a respeito de si mesmo. O que denomino elucidação é o categoria determinada a não ser conjunturalmente - e .ainda que o fosse
trabalho pelo qual os homens tentam pensar o que f'azem e saber o que seria preciso demonstrar que o ponto de vista desta categoria vale para
pensl!m. Também isso é uma criação social-histórica. A divisão aristotéli- todos, o que reconduz ao problema precedente. Não se deve escutar ~m
ca theoria, praxis, poiésis é -derivada e secundária. A história é essencial- político que fala em nome de ... ; a partir do momento em que pronunciou
mente poiésiS, e não poesia imitativa, mas criação e gênese ontológica no estas palavras, ele engana ou se engana, pouco importa. Mais d~ q~e
e pelo fazer e o representar/dizer dos homens. Este fazer e este represen- qualquer outro, o político e o pensador político fala!TI em s~u propno
tar/dizer se instituem também historicamente, a partir de um momento, nome e sob sua própria responsabilidade. O que é, evidentemente, a su-
como fazer pensante ou pensamento se fazendo. prema modéstia.

Este fazer pensante é assim por excelência quando se trata do pensa- O discurso do político e seu projeto. são publicamente controlá_vi:is
mento polftico e da elucidação do social-histórico que ele implica. Du- através de uma infinidade de aspectos. É fácil imaginar, e mesmo ex1blf,
rante muito tempo a ilusão da theoria encobriu este fato. Mais um par- exemplos históricos, de pseudoprojetos inco~rentes. Mas não. o é :m se~

l ricídio é ainda aqui inevitável. O mal começou quando Heráclito ousou


dizer: Escutando não a mim, mas ao logos, acreditem que... Sem dúvida
que era preciso lutar tanto contra a autoridade pessoal, como contra a
simples opinião, o arbitrário incoerente, a recusa de dar aos outros justi-
ficações e razões para aquilo que se diz - logon didonai. Mas não dêem
ouvidos a Heráclito. Esta humilda9e não é senão o cúmulo da arrogân-
núcleo central, se este núcleo vale alguma coisa - como tambem n.ao o e
o movimento dos homens com o qual ele deve se encontrar sob pena de
nada ser. Porque um e outro e sua junção colocam, criam, instituem no-
vas formas , não somente de inteligibilidade, mas do fazer, do represe?tar,
do valer social-histórico - formas que não se deixam simplesmente discu-
tir e avaliar a partir de critérios anteriores da razão instituída. ~m .e ~u­
cia. Não é nunca o logos que escutam; é sempre alguém, tal como é, de lá tro e sua junção são apenas como momentos e formas do fazer mst1tu10-
onde está, que fala com seus riscos e perigos, mas também com os de vo- te, da autocriação da sociedade.
cês. E aquilo que.: no "teórico puro" pode ser colocado como postulado
necessário de responsabilidade e de controle de seu dizer, tornou-se, ne- Dezembro 1974
cessariamente, nos pensadores políticos, um encobrimento filosófico por
detrás do qual eles falam - eles falam .. Eles falam· em nome do ser e doei-
dos do homem e da cidade - como Platão; eles falam em nome das leis da
história ou do proletariado - como Marx. Eles querem resguardar o que
têm a dizer - que pode ser, e certamente o foi, infinitamente importante .....
com o ser, a natureza, a razão, a história, os interesses de uma classe "em
nome da qual" eles se exprimiriam. Mas ninguém falou jamais em nome·
de ninguém - salvo quando expressamente constituído como mandatá-
rio. Os outros podem, no máximo, reconhecer-se naquilo que ele diz - e
ainda isso nada "prova", porque o que é dito pode induzir, eàs vezes in-
duz, um "reconhecimento" do qual nada permite afirmar que teria existi-
do sem este discurso, nem que seja suficiente para validá-lo. Milhões de
alemães "se reconheceram" no discurso de Hitler; milhões de "comunis-
tas", no de Stalin.

O poUtico e o pensador político, proferem um discurso sob sua pró-


pria ·responsabilidade. Isso não significa que este discurso seja incontro-
lável - ele invoca o controle de todos; nem significa que seja simplesmen- 1
te "arbitrário" - se o for, ninguém o escutará. Mas o político não pode
propor, preferir, projetar invocando uma "teoria" pretensamente rigoro-
sa - nem se apresentando como porta-voz de uma categoria determinada.
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PRIMEIRA PARTE

MARXISMO E TEORIA
REVOLUCIONÁRIA

17
1. O MARXISMO: BALANÇO PROVISÓRIO

1
1. A SITUAÇÃO HISTÓRICA DO MARXISMO
E A NOÇÃO DE ORTODOXIA

O encontro com o marxismo é imediato e inevitável para quem se


preocupa com a questão da sociedade. Até mesmo falar de encontro nes-
te caso é abusivo, na med!da em que esta palavra indica um acontecime.n-
to contingente e exterior. Deixando de ser uma teoria particular ou um
programa político professado por alguns, o marxismo impregnou a lin-
guagem, as idéias e a realidade ao ponto de ter-se tornado parte da at-
mosfera que respiramos vindo ao mundo social, da paisagem histórica
que fixa os limites de nossas idas e vindas. .
Mas, exatamente por esta razão, falar do marxismo tornou-se um
dos mais difíceis empreendimentos. Em primeiro lugar, estamos implica-
dos de mil maneiras naquilo que está e~ q~es~ão. E este marxismo, ao se
"realizar", tornou-se incompreensível. Na verdade, de qual marxismo
dever-se-ia falar? Do de Khrouchtchev, de Mao Tsé-tung, de Togliatti, de
Thorez? Do de Castro, dos iugoslavos. dos revisionistas poloneses? Ou.
então dos trotskistas (e ainda aqui a geografia retoma seus direitos: trots-
kistas franceses e ingleses, dos Estados Unidos e da América Latina se di-
laceram e se denunciam reciprocamente). dos bordiguistas, de tal ou qual
grupo de ·extrema esquerda que acusa todos os outros de trair o espírito
do "verdadeiro" marxismo que só ele possuiria? Não existe somente o
abismo que separa os marxismos oficiais e os marxismos de oposição. Há
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·~
li
ainda a enorme multiplicidade de variantes, cada uma das quais a colo-
11 car-se como excluindo todas as outras. . Só isso já seria suficientemente grave. Mas ainda há mais, porque a
exigência da confrontação com a realidade histórica 1 está explicitamente
11 . . . Nenh.um critério simples permite reduzir esta complexidade logo de inscrita na obra de Marx e ligada a seu sentido mais profundo. O marxis-
m1c10. E.v1dentemente não há nenhuma prova dos fatos que fale por si mo de Marx não qu_eria e nem podia ser uma teoria como as outras, ne-
1i mesma, Já que tanto o governante quanto o preso político encontram-se gligenciando seu enraizamento e sua ressonância histórica. Não se trata-
em situações sociais particulares, que como tais não conferem nenhum va mais de "interpretar, mas de transformar o mundo" 2, e o pleno senti-
lf privilé~io a suas percepções e, ao contrário, tornam indispensável uma do da teoria é segundo a própria teoria o que transparece na prática que
11! dupla interpretação daquilo que dizem. A consagração do poder não nela se inspira. Os que dizem, acreditando em última instância, "descul-
pode ~aler m~is para nós do que a auréola da oposição irredutível, e é o par" a teoria marxista: nenhuma das práticas históricas que invocam o
próprio marxismo que nos proíbe de esquecer a suspeita que pesa tanto marxismo se inspira "verdadeiramente" nele ·- os mesmos que dizem isso
~obre ~s poderes instituídos, como sobre as oposições que permanecem "conden~m''. o marxismo como. "simples teoria" e fonpl!lam sobre ele
mdefimdamente à margem do real histórico. um julgamento irrevogável. Seria mesmo literalmente o juízo final - pois
( ·l A solução não pode tampoucÓ ser um puro e simples "retorno a Marx assumia inteiramente a grande idéia de Hegel: We/tgeschichte ist
' Marx", que pretenderia ver na evolução histórica das idéias e das práti-' Weltgericht 3• . •
cas nos últimos oitenta anos somente uma camada de escórias dissimu- · De fato, se a prática inspirada no marxismo foi efetivamente revolu-
laÓdo o corpo resplandecente de uma doutrina intacta. Não se trata ape- cionária, durante certas fases da história moderna, ela também foi exata-
nas de que a própria doutrina de Marx, como sabemos e como tentare- mente o contrário durant~ outros períodos. E se esses dois fenômenos ne-
mos ainda mostrar, esteja longe de possuir a simplicidade sistemática e a cessitam interpretação (nós voltaremos a isto), subsiste que eles indicam,
coerência que alguns querem atribuir-lhe. Nem que um tal retorno pos- de maneira indubitável, a ambigilidade essencial que era a do marxismo.
sua forçosamente um caráter acadêmico - já que só poderia, na melhor Subsiste taml'>em, e isto é ainda mais importante, que tanto na história
hipótese, restabelecer corretamente o conteúdo teórico de uma doutrina como na política, o presente pesa infinitamente mais do que o passado.
do passado, como pÓderia ser feito em relação a Descartés ou a S. Tomás· O~a, este '.'presente", é que há quarenta anos, o matxismo tornou-se uma
de Aquino, e deixaria inteiramente nas sombras o problema mais funda-· ideologia no próprio sentido que Marx dava a este termo: um conjunto de
mental, a saber a importância e a significação do marxismo para nós eº idéias que se refere a uma teâlidade, não para esclarecê-la e transformá-
para a história contemporânea. O retorno a Marx é impossível porque, la, mas para encobri-la e justificá-la no imaginário, que permite às pes-
sob pretexto de fidelidade a Marx e para realizar esta fidelidade, ele co- soas dizerem uma coisa: e fazerem outra, ,a presentarem que não são.
meça violando os princípios essenciais colocados pelo próprio Marx. O marxismo tornou-se primeiro ideologia, enquanto dogma oficial
Em verdade, Marx foi o primeiro a mostrar que a significação de dos poderes institufdos nos pafses ditos por antífrase "socialistas". Invo-
uma teoria não pode ser compreendida independentemente da prática cado por governos que visivelmente não encarnam o poder do proletaria-
histórica e social à qual ela corresponde, na qual ela se prolonga ou que do e não são também mais "·controlados" por este do que qualquer go-
serve para encobrir. Quem ousaria pretender hoje em dia que o verdadei- verno burguês; representado por chefes geniais cujos suGessores, igual-
ro e único sentido do cristianismo e aquele que restitui uma leitura depu- mente geniais, chamam de loucos criminosos sem qualquer outra e~plica­
ção; fundamentando tanto a ·política de Tito como a dos albaneses, a de
rada dos Evangelhos, e que a realidade social e a prática histórica duas
vezes milenar das Igrejas e da cristandade nada podem nos ensinar de es- Khrouchtchev como a de Mao, o marxismo tornou-se o "complemento
sencial a seu respeito? Não menos risível é a "fidelidade a Marx" que co- solene de justificação" do qual já falava Marx, que permite, ao mesmo
loca entre parêntesis o destino histórico do marxismo. Ela é até pior, por- tempo ensinar obrigatoriamente aos estudantes ~'Etat et la Révolution e
manter~ 'ap~relho de Estado mais opressivo e mais rígido de que se tem
que para um cristão a revelação do Evangelho tem um fundamento trans-
cendente e uma verdade intemporal, que nenhuma teoria poderia possuir
aos olhos de um marxista. Querer encontrar o sentido do marxismo ex-
clusivamente no que Marx escreveu, ignorando aquilo que se tornou a 1. Por realidade histórici1 não entendemos evidentemente acontecime ntos e fatos particu-
lares e separados do resto, mas sim as tendências dominantes da evolução após todas as in-
doutrina na história, é pretender, em contradição direta com as idéias terpretações necessárias.
centrais desta doutrina, que a história real não importa, que a verdade de · 2. Marx, décima-primeira tese sob.r e Feuerbach.
uma teoria esteja sempre e exclusivamente "no além" , e, finalmente, 3. "A história universal é o julzo final." Apesar de sua ressonância teológica, esta é a
substituir a revolução pela revelação e a reflexão sobre os fatos pela exe- idéia mais radicalmente atéia de Hegel: não existe transcendência, não existe recurso contra
gese dos textos. o que acontece aqui, nós somos definitivamente aquilo cm que nos tornamos, 'aquilo cm que
nos tornaremos.
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21
noticia•, que ajuda a burocracia a se esconder por trás da "propriedade lhe dava Trotsky em 1940 ' , dizendo mais ou menos: sabemos que.o m~r­
coletiva" dos meios de produção. xismo é uma teoria imperfeita, ligada a uma determinada época ht stó n~a
O marxismo tornou-se ideologia também enquan.to doutrina d.as vá- e que a elaboração teórica deveria continuar, mas, estando. a revo l uç~o
.rias seitas que a degenerescência do movimento marxista oficial fez proli:. na ordem do dia, essa empreitada pode e deve esperar. Ace1táv~l no dia
ferar. Para nós a palavra seita não é um qualificativo, tem um sentido so- da insurreição armada, onde é aliás inútil, esse argumento, depo1s.~e um
ciológico e histórico preciso. Um grupo pouco numeroso não é necessa- quarto de século, serve s_omente para encobrir a iné!cia e a estenhdade
riamente uma seita; Marx e Engels não formavam uma seita mesmo nos que efetivamente caracterizaram o movimento trotskista após a morte de
momentos em que estiveram mais isolados. Uma seita é um agrupamento
l que erige em absoluto um só lado, aspecto ou fase do movimento do qual
é proveniente, detes faz a verdade da doutrina e a verdade p~ra e simples,
seu fundador. ·
É impossível, também, tentar manter uma ortodoxia, c~mo fazia
.
Lukacs em 1919 limitando-a a um método marxista, o qual sena separá-
subordina-lhes todo o resto e, para manter sua "fidelidade" a este aspecto, vel do conteúdo 'e, por assim dizer, indiferente quanto a este '. Ainda qu.e
1 separa-se radicalmente do mundo, vivendo doravante em "seu" mundo à
parte. A invocação do marxismo pelas seitas permite-lhes pensar-se e
já marcando um progresso relativamente às diversas varieda~es de creti-
nismo "ortodoxo".• esta posição é insustentável, P~! .um motJv~ que Lu-
apresentar-se como algo distinto do que elas realmente são, isto é, como kàés, embora empanturrado de dialética, esquecia: é·que, a nao sc;r to-
1 o futuro partido revolucionário deste proletariado no·qual elas não con-
seguem se enraizar.
mando o termo em sua acepção mais superficial, o método não pode ser
assim separado do conteúdo, e especialmente quando se trata de uma
O marxismo, finalmente, também se transformoi.i em ideologia, em teoria histórica e social. O método, no sentido filosófico, é apenas o con-
outro sentido bem diferente: que há decênios não é mais, mesmo como junto operante das categorias. Uma distinção rlgida entr~ con~eúdo e mé-
simples teoria, uma téoria viva e que procuraremos em vão na literatura todo somente pode existir nas formas ma~s ingênuas do 1deahsm~ trans-
dos últiinos quarenta anos aplicações fecundas da teoria, ainda menos cedental ou criticismo que, em seus primeiros passos, separa e opoe uma
tentativas de extensão e aprofundamento. . matéria ou um conteúdo infinito e indefinido e c.ategorias que o eterno
Pode ser que o que dizemos aqui escandalize aqueles que, professan- fluxo do. material não pode afetar, que são a forma sem a qual.este mate-
do "defender Marx", enterram cada dia um pouco mais seu cadáver sob rial não poderia ser captado. Mas esta distinção rígida já está ultr~~a.ssa­
as espessas camadas de suas mentiras ou de sua imbecilidade. Não nos da nas fases mais avançadas, mais dialetizadas do pensamento cnt1c1st~.
importamos com isso. É claro que, analisando o destino histórico do Porque imediatamente ~parece o prob.lema: como.saber qual..c~tego~1a
marxism.o, não "imputamos" num sentido moral qualquer, a responsabi- corresponde a tal matenal? Se o matenal traz. em ~1 mesm_o º. sinal dis-
lidade a Marx. É o próprio marxismo, no melhor de seu espírito, na sua tintivo" que permite colocá-lo sob tal categona, nao é ent_ao simples ma-
denúncia implacável de frases vazias e de ideologias, na sua exigência de terial informe· e caso seja verdadeiramente informe, a aplicação dest.a ou
daquela categoria torna-se indiferente, e a disti~ção entre ".erd3:de1ro e
1
autocrítica permanente, que nos obriga a examinar seu . destino real.
E, finalmente, a questão ultrapassa de muito o marxismo_. Porque falso desmorona-se. É precisamente esta antinomia que, na h1stóna da.f!-
assim como a degenerescência da revolução.russa coloca o problema: é o losofia, em várias ocasiões propiciou a passagem de um pensame.nto cnt1-
destino de toda revolução socialista que é indicado por essa degeneres- cista a um pensamento de tipo dialético•. . . .
cência, do mesmo modo é necessário perguntar: é o destino de toda teoria A questão assiin se coloca no nível lógico. E a nível. h1stónco-
revolucionária que é indicado pelo destino do marxismo? É esta a per- genético, is~o é, quando se considera o processo ~o .d~senvo.lv1mento do
gunta que nos reterá longamente no fim. dest<: texto•. conhecimento tal como ele se desenvolve como h1stor1a, mais f~e~Oente­
Não é pois · possível tentar manter ou encontrar uma "ortodoxia" mente foi o "desdobramento do material" que levou a uma rev1sao ou a
qualquer - nem sob a fo(ma risível e risivelmente conjugada que lhe dão uma ruptura das categorias. A revolução, propriamente filosófica, pro-
ao mesmo tempo dos pontífices stalinistas e os eremitas sectários, de uma
doutrina pretensamente intacta e "corrigida", "melhorada" ou "atuali-
zada" por uns e outros, segundo sua conveniência e .em relação a deter-
minado ponto específico; nem sob a forma dramática e ultimatista ~ue 4. Em ln Dt!fense of Marxlsm. . . .
5. "Que é o marxismo ortodoxo"? cm Hlstoire et ~onscie~ce de cla~se, trad. K: Axelos e J.
Bois, Editions de Minuit, Paris 1960, p. 18. C . Wnght M11ls parecia tambtm adotar este
ponto de vista. Ver The Marxists, Laurcl éd .. 1962, p. 98 e 129. . .
• Sabemos que a tese central de l' E1a1 e1 /a Révolution é a necessidade de destruir todo o 6. O caso clássico desta passagem é, evidentemente, o de Kant a Hegel, por mterméd10
aparelho de Estado separado das massas desde o primeiro dia da revolução. de Fichtc e Schelling. Mas a problel)'lática é a mesma nas últimas obras de Platão ou nos
• Ver infra. cap. li. oco-kantianos, de Rickcrt a Lask.
22 23
~
li
cações, o desenvolvimento do mundo histórico é ip.rn facto o desdobra-
duzida na flsica moderna pela relatividade e os quanta é disso apenas um
IJ exemplo notável entre outros 1 • mento de um mundo de significações. Não pode, portanto. haver ruptura
Mas a impossibilidade de estabelecer uma distinção rígida entre mé- · entre material e categoria, entre fato e sentido. E. sendo este mundo de
1t significações aquele no qual vive o "sujeito" do conhecimento histórico,
todo e conteúdo, entre categoria e material, aparece ainda mais clara-
11 mente quando se considera não mais o conhecii:nento da natureza, mas o ele é também aquele em função do qual necessariamente ele capta, para
, conhecimento da história. Porque neste caso, não existe simplesmente o
fato de que uma exploração mais aprofundada de material já dado ou a
começar, o conjunto de material histórico .
Por certo, estas constatações também devem ser relativisadas. Elas
aparição de um novo material possa conduzir a uma modificação das ca- não podem implic.ar que a _todo instánte, toda categoria e todo método
11
tegorias, ou seja, do método. Existe sobretudo, e muito mais profunda- sejam questionados. ultrapassados ou destruídos pela evolução da históri~
IJ mente, este outro fato precisamente colocado em evidêcia por Marx e real no momento mesmo em que pensamos. Em outras palavras, saber se
pelo próprio Lukacs 1 : as categorias em função das quais pensamos a his- a transformação histórica atingiu o ponto em que as antigas categorias e
11 tória são por um lado essencial produtos reais do desenvolvimento histó- o antigo métÓdo devem ser reconsiderados. é em cada ocasião uma ques-
rico. Estas categorias só se .podem transformar, clara e eficazmente, em tão concreta. Mas torna-se então evidente que isso não pode ser feito in-
formas de conhecimento da história uma vez encarnadas ou realizadas nas dependentemente de uma discussão sobre o conteúdo, não é mesmo nada
formas de vida social efetiva. mais do que uma discussão sobre o conteúdo que, quando for o caso, uti-
Para citar apenas um exemplo dos mais simples: se na antigüidade as lizando, para começar, o antigo método, mostra no contacto com o ma-
categorias dominantes sob as quais se compreendem as relações sociais e te_rial, a necessidade d~ ultrapassá-lo.
a história são categorias essencialmente políticas (o poder na cidade, as Dizer: ser marxista é ser fiel ao método de Marx que permanece ver-.
relações entre cidades, a relação entre a força e o direito etc.), se o aspec- dadeiro, é dizer: nada, no conteúdo da história dos últimos duzentos
to econômico só recebe uma atenção marginal, não é porque a inteligên- anos, autoriza ou leva a questionar as categorias de Marx, tudo pode ser
cia ou a reflexão eram menos "desenvolvidas" nem porque o material compreendido por seu método. f:: pois tomar posição sobre o conteúdo,
econômico estava ausente ou era ignorado.~ que, na realidade do mun- ter uma teoria definida a esse respeito, e, ao mesmo tempo, recusar-se a
,, do antigo, a economia não se tinha constituído como momento separado,
"autônomo", como dizia Marx, "para si", da atividade humana. Uma
dizê-lo.
verdadeirl! análise da economia .e m. si ~ de sua ii:nportância para a so~ie­ Na verdade, é precisamente a elaboração do conteúdo que nos obri-
ti dade só pôde ocorrer a partir do século XVII, e sobretudo do XVIII, ou ga a reconsiderar o método e, portanto, o sistema marxista. Se fomos le-
seja, com o nascimento do c·apitalismo que, na verdade, erigiu a econo- vados a colocar, gradualmente e para terminar brutalmente, a questão do
il marxismo, é que fomos obrigados a constatar, não somente"e não tanto,
mia em momento dominante da vida· social. E a Importância centrai atrí-
li buída por Marx e pelos marxistas ao fator econômico traduz igualmente que tal teoria particular de Marx, tal idéia precisa do marxismo tradicio-
esta realidade histórica. nal eram "falsas", mas que a história que vivemos não podia mais ser
li compreendida com a ajuda das categorias marxistas tais quais ou "corri-
f: c~~ro port~nto que não poderia haver em história "método" que
~e. ~a11t1vi:sse nã?-afetago pelo desenvolvimento histórico real. Isto por
gidas", "ampliadas" etc. Pareceu-nos que esta história não pode ser nem
li compreendida, nem transformada com este método. O reexame que em-
razoes muito mais profundas do que "o progresso do conhecimento" as
li "novas desco.b ertas" etc., razões que concernem diretamente à própria es- preendemos do marxismo não ocorre no vazio, não falamos situando-nos
~ru.tura ?o conhecimento histórico e, em primeiro lugar à estrutura de um
em qualquer lugar e em nenhum lugar. P.artindo do marxismo revolucio-
objeto, isto é, o modo de ser da história, sendo o objeto do conhecimento nário, chegamos ao ponto em que era preciso escolher entre permanecer
histórico. Um objeto significante por si mesmo, ou constituído por signifi- marxistas e permanecer revolucionários; entre a fidelidade a uma doutri-
na que há muito tempo já não estimula nem uma reflexão nem uma ação,
e a fidelidade ao projeto de uma transformação radical da sociedade, que
exige primeiro que se compreenda o que se deseja transformar, e que se
7. Não se deve, evidentemente, simplesmente inverter as posições. As categorias flsicas
não são, nem lógica nem historicamente, um simples resultado (menos ainda um "reflexo")
identifique aquilo que, na sociedade, realmente contesta esta sociedade e
do material. Uma revolução no domínio das categorias pode possibilitar a captação de um está em luta com sua forma presente. O método não é separável do con-
material. até então indefinido (como ocorreu com G alileu). Mais ainda o progresso na expe- teúdo, e sua unidade, isto é, a teoria, por sua vez não é separável das exi-
rimentação pode :'forçar" um novo material a aparecer. Final mente, existe uma dupla rela- gências de uma ação revolucionária que, a exemplo dos grandes partidos ·I
ç.ã o, mas não há, certamente, independência das categorias relativamente ao conteúdo.
8. ''Lc changcmcnt de fonction du matérialisme historiquc", 1. c. cm particular p. 266 e
bem como das seitas o mostra, não pode ser iluminada e guiada pelos es- '
s. quemas tradicionais. ·
24 25
~ - A TEORIA MARXISTA DA HISTÓRIA Claro está que esta experiência não "demonstra" nada por si só.
Mas ela obriga a nos voltarmos para a teoria econômica de Marx, para
Podemos portanto. aliás devemos. ~omeçar nosso ex~me co~side­ ver se a contradição entre a teoria e os fatos é simplesmente aparente ou
rando 0 que sucedeu com o co~teúdo ma1.s c<?ncreto da teoria marxista, a passageira, se uma modificação adequada da teoria não permitiria uma
saber, com a análise econômica do cap!tahsmo. Longe ?e repre~en.t~r apreciação dos fa tos sem abandonar o essencial ou se, finalmente, é a
uma aplicação empírica. contin~e~te e acidental, a um fenomeno h1ston- própria substân~ia da teoria que está em jogo. . .
co particular, esta análise constitu i ~cume onde se deve c_oncentrar_ toda Se efetuamos esse retorno, somos levados a constatar que a teona eco-
a substância da teoria. onde a teoria mostra ~nfi_m_ que e cap~z n~o .d.e nômica de Marx não é sustentável nem em suas premissas, nem em seu
produzir algumas idéias gerais, mas de fazer comc1d1r sua própna dialet1- método, nem em sua estrutura'º· Em resumo, a teoria como tal "ignora" .
ca com a dialética do real histórico, e, finalmente, de fazer sair d:ste mo- a ação das classes sociais. Ela "ignora" o efeito das lutas operárias sobre
vimento do próprio real, ao mesmo ~empo os ~undamentos da açao revo- a repartição do produto social - e, com isso, necessariamente, sobre a to-
lucionária e sua orientação. Não foi sem motivo q~e Marx con~agrou o talidade de aspectos do funcionamento da economia, em especial sobre a
essencial de sua vida a esta análise (nem que o movimento marxista a se- ampliação constante do mercado de bens de consumo. Ela "ignora" o
guir atribuiu sempre uma importância capi~al à economia), e os. "marx.is- efeito da organização gradual da classe capitalista, precisamente com o
tas" sofisticados de hoje que.só querem ouvir falar do_s ~anuscntos de Ju- •Objetivo de dominar as tendências "espontâneas" da economia. Isso deri-
ventude de Marx, demonstram não somente su~erfic1 ahda_de, mas ~obre­ ·va de sua premissa fundamental: que na economia capitalista os homens,
tudo uma arrogância exorbitante, po~que s~a atitude c~ns1ste em dizer: a proletários ou capitalistas, são efetiva e integralmente transformados em
partir de trinta anos, Marx não sabia mais o que fazia . coisas, reificados; q ue são nela submetidos à ação de leis econômicas que
Sabemos que para Marx a economia capitalista.está su~eit~ a contra- em nada diferem das leis naturais •, exceto em que utilizam as ações
dições insuperáveis, que se manifestam tánto nas cns~s penód1cas de su- "conscientes" dos.homens como o instrumento inconsciente de sua reali-
perprodução, como nas tendências a longo prazo, CUJO trabalho abala_ o zação. -
sistema, cada vez mais profundamente: o aumento da taxa de exploraçao Esta premissa é, porém, uma abstração que só corresponde, por as-
(portanto a miséria aumentada, absoluta ou relativa, do prole~ari ado); a sim dizer, a uma metade da realidade e como tal é finalmente falsa. Ten-
elevação da composição o rgânica do capital (portanto o crescimento do dência essencial do capitalismo, a reificação não pode jamais realizar-se
parque industrial de reserva, o que significa desemprego permanente); a ·integralmente. Se o pudesse, se ·o sistema conseguisse efetivamente trans-
queda da taxa de lucro (portanto a diminuição da acumulação e da expan- formar os homens em coisas movida·s unicamente pelas "forças" econô-
são da produção). Tudo isso exprime, em última análise, a contradição micas ele desmoronaria não a longo p razo, mas instantaneamente. A
do capitalismo tal como Marx a vê: a incompatibilidade entre o desenvol- luta d~s homens contra a reificação, tanto quanto a tendência à reifica-
vimento das forças produtivas e as "relações de produção" ou "formas ção, é a condição do funcionamento do capitalismo. Uma fábrica na qual
de propriedade" capitalista 9 •• os operários fossem, efetiva e integralmente, simples peças de máquinas
A experiência dos últimos vinte anos, no· etanto, faz pensar que as executarfdo cegamente as ordens da direção, pararia em quinze minutos.
crises periódicas de superprodução não têm nada de inevitável no capita- O. capitalismo só pode fun~io~ar com a contribuição constante da a_ti ~i­
lismo moderno (exceto sob a forma extremamente atenuada de "reces- dade propriamente humana de seus subjugados ·que, ao _mesm<;> tempo,
sões" menores e passageiras). E a experiência dos últimos cem anos não tenta reduzir e desumanizar o mais possível. Ele' só pode funcionar na
mostra, nos países capitalistas desenvolvidos, nem pauperização (absolu- medida em que sua tendência profunda, que é efetivamente a reificação,
Ja ou relativa) do proletariado, nem aumento secular do desemprego, nã-o se realiza, na medida em que suas normas são constantemente com-
nem queda da taxa de lucros, menos ainda uma diminuição do desenvol- batidas em sua aplicação. A análise mostra que é aí que reside a contradi-
vimento das forças produtivas cujo ritmo, -ao contrário, acelerou-se em
proporções anteriormente inimagináveis.

• cr. os próprios termos de Marx que assim definem seu "ponto de vista": ..."o dese~val­
9 Uma cilação entre mil: "O monopólio do capital torna-se um entrave para o modo de vimenta. da fonnação econômica da sociedade é assimil6ve/ à evolução da natureza e à sua his-
produção que com ele, e sob seus auspícios. cresceu e prosperou. A socializaç.ã o do trabalho tória... " ( Le Capital, éJ. Costcs, tomo 1, p. LXXX: éd. de La Pléfade. 1, p. 550. Sublinhado
e a centralização de seus recursos materiais chegam a um ponto e;n que não podem mai~ ca- no tcx.to.
ber cm seu invólucro capitalista. Este invólucro se despedaça. Soou a hora da propriedade 10 Sobre a critica da teoria econômica de Marx., ver \'lc mouvemcnt rêvolutionnairc
capitalista. Os ex.propriadorcs são. por sua vez. ex.propriados." Le Capital, éd. Costes, sous le capitalismc modcrnc", no n• 31 de S. ou B .. dezembro de 1960. p. 68 a 81./ Ver La
Tomo IV., p. 274: éd. de La Pléíade, I. p. 1235. dynamlqu11 du capitalisme, éd. 10/ 18, Paris, 1975. ·
26 27

1
IJ

li

u
1
çào fin"al do capitalismo " . e não nas incompatibilidades, de certo modo
mecânicas, que apresen taria a gravitação econômica das moléculas hu-
manas no sistema. Estas incompatibilidades. na medida em que ultrapas-
sam fenômenos particulares e localizados. são finalmente ilusórias.
T
lho; que as relações de produção capitalistas, que eram no início a expres-
são mais adequada e o instrumento mais eficaz do desenvolvimento das
forças produtivas. tornam-se, "num certo estágio", o freio deste desen-
volvimento e devem por esse fato despedaçar-se.
li
Desta recon sideração decorre uma série de conclusões, das quais Assim como os hinos dedicados à burguesia. em sua fase progressis-
apenas as mais importantes nos reterão aqui. ta. glorificam o desenvolvimento das forças produtivas ~a s quais ~la foi o
• Em primeiro lugar. n~o se pode mais manter a importância central
atribuída por Marx (e por todo o movimento marxista) à economia como
instrumento histórico 11 , em Marx bem como nos marxistas ulteriores, a
condenação da burguesia apóia-se na idéia de que esse desenvolvimento
' tal. O termo economia é tomado aqui no sentido relativamente preciso
que lhe confere o próprio conteúdo do Capital: o sistema de relações abs-
é doravante impedido pelo 'modo capitalista de produção. "As forças
poderosas de produção, este fator decisivo do movimento histórico, s~fo­
tratas e quantificáveis que, a partir de um determinado tipo de apropria- cavam dentro de superestruturas sociais antiquadas (proprieda.d.e priva~
ção de recursos produtivos (quer seja esta apropriação juridicamente ga- da, Estado nacional), em que a evolução a nterior as prendera. Aumenta-
rantida corno propriedade, quer traduza simplesmente um poder de dis- das pelo capitalismo, as forças de produção chocavam~se contra todas as
posição de facto) determina a formação, a troca e a repartição de valores. muralhas do Estado nacional e burguês, exigindo sua emancipação atra-
Estas relações não podem ser erigidas em sistema autônomo cujo funcio- vés da organização universal da economia socialista", escrevia Trotsky
namento seria regido por leis próprias, independentes das outras relações em 1919 " - e em 1936 fundamentava seu Programa transitório com a se-
sociais. Isso não é possível no caso do capitalismo - e, visto que foi preci- guinte constatação: "As forças produtivas da humanidade cessaram de se
samente sob o capitalismo que a economia mais tendeu a "autonomizar- desenvolver ... " - porque, nesse meio-tempo as relações capitalistas ti-
se" como esfera de atividade social, suspeitamos que é ainda menos nham-se transformado, de freio relativo, em freio provisoriamente abso-
possível no caso das sociedades anteriores. Mesmo sob o capitalismo, a luto para seu desenvolvimento. . . . .
economia permanece uma abstração: a sociedade não se transformou em Sabemos hoje que tal não ocorreu e que nos ult1mos vinte e cinco
sociedade econômica a tal ponto que se possam encarar as outras rela- anos, as forças produtivas conheceram um desenvolvimento que ultra-
ções· sociais como secundárias. passa de longe tudo o que se poderia imaginar anteriormente. "Este de-
Em seguida. se a categoria da reificação deve ser reconsiderada, isso senvolvimento foi certamente condicionado por modificações na org_ani-
significa que toda a filosofia da história subjacente à análise do Capital zação do capitalismo e provocou outras - mas não pôs em questao a
deve ser reconsiderada. Abordaremos esta questão mais adiante. substância das relações capitalistas de produção." O que, para Marx e os
Enfim, torna-se claro que a concepção que fazia Marx da dinâmica marxistas, parecia uma "contradição" que deveria fazer explodir o siste-
social e histórica mais geral é questionada no próprio terreno em que foi ma, foi "resolvido" no interior do sistema.
elaborada mais concretamente. Se o Capital assume tal importância na Em primeiro lugar, não se .tratou ja~ais de uma c'?ntradição. Fa!ar
obra de Marx. e na ideologia dos marxistas, é porque ele deve demons-. de "contradição" entre as forças produtivas e as relaçoes de produçao.
trar no caso preciso que interessa primordialmente, o da sociedade capi- pior que um abuso de linguagem, é uma fraseologia que dá ?":1ª aparên-
talista. a verdade teórica e prática de uma concepção geral da dinâmica cia dialética ao que é apenas um modelo de pensamento mecanico. Qua.!1-
da história. a saber que "num certo estágio de seu desenvolvimento as do um gás aquecido num recipiente exerce sobre as paredes uma pressao
forças produtivas da sociedade entram em contradição com as relações crescente que pode, finalmente, fazê-las explodir, não tem_ sentido dizer-
de produção existentes, ou o que é apenas sua expressão jurídica. com as se que há "contradição" entre a pressão do gás e a rigidez das paredes:-
relações de propriedade no interior das quais elas se haviam movido até da mesma maneira que não há "contradição" entre d4as forças antagôni-
então" 11 • cas que se aplicam sobre um mesmo ponto. Assim também, no caso d.a
Na verdade, o Capital é percorrido do princípio ao fim por esta in- sociedade, poderíamos, no máximo, falar de uma tensão, de uma opos1-
tuição essencial: que nada pode daqui em diante deter o desenvolvimento
da técnica e o concomitante desenvolvimento da produtividade-do tr~ba-
13 Ver por exemplo a primeira parte ("Bourgeois ct prolétaircs") do Manift.rt.e C'omunis-
t~ .
11 Ver "Le mouvement révolutionnaire sous le capitalisme moderne", no n• 32 de S. ou 14 L. Trotsky, Terrorisme et C'ommuni.rme, éd. 10-18, Paris 1963, p. 41. ~preciso não es-
8 (abril 1961 )/Também "Sur le contcnu du socialisme, Ili" in l'E:rperience du mouvement quecer que até recentemente, stalinistas, trotskistas e "ultra-esquerdas" dos mais puros es·
ouvrier. 2: Prolétariat et organisation, éd. 10/18 p. :>e seguintes. tavam praticamente de acordo cm camuílar. negar ou minimizar. sob todos os pretextos. a
12 K. Marx. C'ontrihution à la critique de f"éconnmie politique. Preíácio trad., Laura La- continuação do desenvolvimento da produção a partir de 1945. Ainda agora. a resposta na-
íarguc. éd. Giard, Paris. 1928, p. 5. tural de um "ma~xista" é: "Ah. mas é por causa da produção de armamentos."
28 29
ção ou de um conílito entre as forças produtivas (a produção efetiva ou a se" autônomo e construir uma mecânica dos sistemas sociais, baseada
capacidade de produção da sociedade). cujo desenvolvimento exige, em numa oposição eterna, e eternamente a mesma, entre uma técnica ou for-
cada etapa. um tipo determinado de organização das relações sociais, e ças produtivas que possuiriam uma atividade própria, e o resto das rela-
tipos de organização que, cedo ou tarde, "são ultrapassados" pelas for- ções sociais e da vida humana, a " superestrutura". dotada arbitrariamen-
ças produtivas e deixam de ser-l hes adequadas. Quando a tensão se torna te de uma passividade e de uma inércia essencial.
muito forte, o conflito muito agudo, uma revolução destrói a antiga or- Na verdade, não existe autonomia da técnica, nem tendência ima-
ganização social e abre o caminho para uma nova etapa de desenvolvi- nente da técnica para um desenvolvimento autônomo. Durante 99,5% de
mento das forças produtivas. sua existência - isto é, durante sua totalidade exceto os cinco últimos sé-
Mas este esquema mecânico não pode ser mantido mesmo no nível culos - a história conhecida, ou presum ida, da humanidade desenvolveu-
empírico mais simples. Ele representa uma extrapolação abusiva para o se sobre a base daquilo que nos aparece, hoje, como uma estagnação e
conjunto da história de um processo que só se realizou durante uma úni- que era vivido pelos homens da época como uma estabilidade evidente da
c_a fase desta história, a fase da revolução burguesa. Ele descreve, mais técnica; civilizações e impérios durante milênios fundaram-se e desmoro-
ou menos fielmente, o que ocorreu quando da passagem da sociedade naram-se sobre as mesmas "infra-estruturas" técnicas.
feudal à sociedade capitalista, mais exatamente: das sociedades bastardas Durante a antigUidade grega, o fato de ter a técnica aplicada à pro-
da Europa Ocidental de 1650 a 1850 (quando uma burguesia já bem de- dução permanecido certamente aquém das possibilidades que oferecia o
senvolvida e economicamente dominante opunha-se à monarquia abso- desenvolvimento cientifico já alcançado, não pode ser separado das con-
luta e aos resíduos feudais na propriedade agrári.a e nas estruturas jurídi- dições culturais e sociais do mundo grego, e, provavelmente, de uma ati-
cas e polfticas), à sociedade capitalista. Mas ele não corresponde nem ao tude dos gregos em relação à natureza. ao trabalho, ao saber. Como, in-
desmoronamento da sociedade antiga e ulterior surgimento do mundo versamente, não se pode separar o enorme desenvolvimento técnico dos
feudal, nem ao nascimento da burguesia que emerge, precisamente, fora tempos modernos de uma mudança radical - ainda que se tenha produzi-
das relações feudais e à margem destas, nem à constituição da burocracia do gradualmente - nestas atitudes. A idéia de que a natureza é somente
como camada dominante atualmente nos países atrasados que se indus- um domínio a ser explorado pelos homens. por exemplo, é tudo o que
trializam, nem, por fim , à evolução histórica dos povos não-europeus. quisermos exceto evidente do ponto de vista de toda a humanidade ante-
Em nenhum destes casos pode-se falar de um desenvolvimento de forças rior, e, ainda hoje, dos povos não industrializados ..Fazer do saber cienrí- ·
produtivas encarnado por uma classe social em crescimento, no sistema fico essencialmente um mei ~ de desenvolvimento técnico, dar-lhe um c~­
social dado, desenvolvimen.t o que "em determinado estágio" tornar-se-ia ráter predominantemente instrumental, corresponde também a uma ati-
incompatível com a manutenção deste sistema, conduzindo assim a uma tude nova. A aparição destas atitude's' é inseparável do nascimento da
revolução pando o poder à classe "em ascensão". burguesia - que, no início, se realíza sobre a base das antigas técnicas. So-
Aqui ainda, é sobre a significação da teoria, sobre seu conteúdo mais mente a partir do pleno desabrochar da burguesia é que se pode, aparen-
·profundo, sobre ás categorias que são as suas e o tipo de relação que ela temente, observar uma espécie de dinâmica autônoma da evolução tecno-
visa estabelecer com a realidade, que devemos reflet ir, situando-nos mais lógica. Mas somente em aparência. Porque não somente é esta evolução
além da "confirmação" ou do " desmentido" trazido pelos fatos à teoria . função do desenvolvimento fi,losófico .e científico provocado (ou acelera-
Uma coisa é reconhecer a importância fundamental do ensino de do) pela Renascença, cujos vínculos profundos com toda a cultura e a so-
Marx, no que concerne à relação profunda que une a produção e o resto ciedade burguesa são incontestáveis; mas ela é, também, cada vez mais
da vida de uma sociedade. Ninguém. depois de Marx, pode pensar a his- influenciada pela constituição do proletariado e a luta de classes no seio
tória "esquecendo" que toda sociedade deve assegurar a produção das
condições materiais de sua vida, e que todos os aspectos da vida social es-
tão profundamente ligados ao trabalho, ao modo de organização desta rais - e as formas jurldicas. políticas..." K. Marx, prefácio de Contribulion à la crilique de
produção e à divisão social que lhe corresponde. /'économie politique, /. c.. p. 6 (sublinhado por nós)./ Também: "Darwin chamou a atenção
Outra coisa é reduzir a produção, a atividade humana mediatizada para a história da tecnologia natural, isto é, para a formação dos órgãos das plantas e dos
animais. considerados como meios de produção para a sua vida. Não seria dignµ de pesqui-
por instrumentos e objetos, o trabalho, às "forças produtivas" ou seja, fi~ sas semelhantes a história dos órgãos produtivos do homem social, base material de toda
nalmente, à técnica ", atribuir-lhe um desenvolvimento "em última análi- organização social? E este empreendimento não se ria mais fâcil de executar, j:! que, como
diz Vico, a história do homem distingue-se da história da natureza pelo fato de term os nós
feito aquela e não esta? A tecnologia põe a nu o modo de ação do homem frente à natureza,
o processo de produção de sua vida material, e, conseq Oen temente, a origem das relações
15 " ... E: importante distinguir sempre entre a perturbação material das condições de sociais e das idéias ou concepções intelectuais que daí decorrem." le Capital, L. 1.. T. 111, p.
produção econômicas - que deve.mos constatar fielmente com ajuda das ciências físicas e na tu· 9, êd. Costcs: ~léiadc, 1 p. 915./
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do capitalismo, que conduz a uma seleção· das técnicas a.plicadas na pro- marmos "consciência" num sentido estrito (de consciência explícita de
dução entre todas as técnicas possíveis 16 • Finalmente, na fase atual doca- "pensamento de" da teorização do dado) a frase permanece ainda tão
pitalismo a pesquisa tecnológica é planificada, orientada e explicitamente freqilentemente falsa quanto verdadeira, pois pode haver tanto um "atra-
dirigida para os objetivos que se propõem as camadas dominantes da so- so" da consciência em relação à realidade como um "atraso" da realida-
ciedade. Que sentido tem falar-se da evolução autônoma da técnica, de em relação à consciência - visto que, em outras palavras, há tanto
quando o governo dos Estados Unidos decide destinar um bilhão de dó- correspondência. quanto distância entre o que os homens fazem ou vi-
lares à pesquisa de carburantes de foguete e um milhão de dólares à pes- vem e o que os homens pensam. E o que eles pensam não é somente a
quisa das causas do câncer? · difícil elaboração do que já existe e marcha ofegante atrás de suas pega-
1 1 A idéia de uma relativa autonomia da técnica pode conservar um das. f: também relativização do que é dado, colocação a distância, proje-
11 sentido quando diz respeito a fases encerradas da história, quando os ho- ção. A história é tanto criação consciente como repetição inconsciente. O
mens descobriam algum invento ou método, por assim dizer, casualmen- que Marx chamou de superestrutura também não foi mais reílexo passi-
1 te, e quando a base da produção (como a da guerra ou de outras ativida- vo e retardado de uma "materialidade" social (aliás indefinível), do que
des sociais), era uma espécie de penúria tecnológica - ainda que seja falso são a percepção e o conhecimento humanos, "reflexos" imprecisos e con-
que esta técnica tenha sido "determinante", num sentido exclusivo, da.es- fusos de um mundo exterior perfeitamente formado, colorido e odorífero
trutura e da evolução da socieda'de, como prova a imensa variedade de em si mesmo.
culturas, arcaicas e históricas (asiátic~s. por exemplo) construídas "sobre f: certo que a consciência humana, como agente transformador ê
a mesma base técnica". Mesmo para estas fases, o problema da relação criador na história, é essencialmente uma conséiência prática, uma razão
·entre o tipo da técnica e o tipo da sociedade e da cultura permanece. Mas operante - ativa, muito mais do que uma reflexão teórica, à qual a práti-
nas sociedades contemporâneas, a ampliação contínua da gama de possi- ca seria anexada como o corolário de um raciocínio e da qual ela somente
.bilidades técnicas e a ação permanente da sociedade sobre seus métodos materializar.ia as conseqüências. Mas essa prática não é exclusivamente
de trabalho, de comunicação, de guerra, etc. refuta definitivamente a uma modificação do mundo material, ela é também, ainda mais, modifi-
idéia da.autonomia do fator técnico e torna absolutamente explícita a re- cação das condutas dos homens e de suas relações. O Sermão da monta-
Jáção recfproca, o retorno circular ininterrupto dos métodos de produção nha, o Manifesto comunista pertencem à prática histórica, tanto quanto
à organização social e ao conteúdo total da cultura •. um invento técnico, e pesam, quanto $!.seus reais efeitos sobre a história,
com um peso infinitamente maior. .·
. O que acabamos de dizer mostra q~e não há, e que nunca houve, · A atual confusão ideológica e o esquecimento de verdades elementa-
inércia em si do resto da vida social, nem privilégio de passividade das res são tais, que o que aqui dizemos poderá sem dúvida parecer para mui-
','sup_erestruturas". As superestruturas são apenas rede de relações so-. tos "marxistas" como um idealismo. Mas o idealismo, e em sua espécie
ciais, nem mais nem menos "reais", nem mais nem menos·"inertes" do mais crua e mais ingênua, se encontra de fato nesta tentativa de reduzir o
que as outras - tão "condicionadas" pela infra-estrutura como esta por conjunto da realidade histórica aos efeitos da ação de um só fator, que é,
elas, se é que a palavra "condicionar" pode ser utilizada para designar o necessariamente, abstraído do todo e, portanto, abstrato pura e simples-
modo de coexistência dos diversos momentos ou aspectos das atividades mente - e que, finalmentê,..é da ordem de uma idéia. De fato são as idéias
sociais. . que fazem com que a história avance na concepção dita "materialista his-
· A famosa frase sobre "o atraso da consciência em relação a vida'', é tórica'~ - só que em vez de serem idéias filosóficas, politicas, religiosas
somente uma frase. Ela apresenta uma constatação empírica válida para etc., são idéias técnicas. É bem verdade que, para se tornarem operantes,
a metade da direita dos fenômenos, e falsa para sua metade da esquerda. essas idéias devem "encarnar-se" em instrumentos e métodos de traba-
Na boca e no inconsciente dos marxistas tornou-se uma frase teológica, e lho. Mas esta encarnação é por elas determinada; um novo insirumento
como tal não tem nenhum sentido. Não existe nem vida, nem realidade só é novo enquanto realiza uma nova m aneira de conceber as relações da
sºocial sem consciência, e dizer que a consciência está atrasada em relação atividade produtiva com seus meios e seu objeto. As idéias técnicas per-
à realidade é o mesmo que dizer que a cabeça de um homem que caminha manecem, por conseguinte, uma espécie de primeiro motor, e, então, de
está constantemente a trasada em relação a esse· homem . Mesmo se to- duas uma: ou ficamos ai e esta concepção "cientifica" aparece como as-
sentando toda a história sobre um mistério, o mistério da evolução autô-
noma e inexplicável de uma categoria particular de idéias. Ou mergulha-
16 Ver "Sur le contenu du socialisme" no n' 22 de S . 011 8 .. (julho 1957). p. 14 a·21. mos novamente a técnica no todo social, sendo impossível privilegiá-la a
• Ver também meu artigo "Techinique" de L"Encydnµaedia l'nfrersa!i.r. vol. 15. p . 803- priori ou mesmo a posteriori. A tentativa de Engels de sair desse dilema
809. Paris. 1973. explicando que as superestruturas reagem certamente sobre as infra-
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estruturas. mas que estas permanecem determinantes "em última análi- bém idéias, "em avanço" (significam ativamente tudo o que "resulta" de-
se", não tem nenhum sentido " · Numa explicação causal não existe últi- les, e conferem um sentido determinado a tudo que os cerca).
ma análise. cada e lo reenvia inevitavelmente a um outro. Ou a concessão Que a história seja o domínio onde as significações "se encarnam" e
de Engels permanece verbal e ficamos com um fator que determina a his- onde todas as coisas sign ificam, não resta sombra de dúvida. Mas nenhu-
tória sem ser determinado por ela; ou então ela é real e destrói a preten- ma dessas significações jamais é concluída e fechada em si mesma, elas
são de localizar a explicação final dos fenômenos históricos em um fator remetem sempre a mesma coisa; e coisa alguma, fato histórico algum
especifico. pode fornecer-nos um sentido que estivesse por si mesmo inscrito sobre
O caráter propriamente idealista da concepção aparece de maneira eles. Nenhum fato técnico tem um sentido determinável se é isolado da
ainda mais profunda. quando consideramos um outro aspecto das cate- sociedade onde se produz, e nenhum impõe um sentido unívoco e inevitá-
gorias de infra-estrutura e de superestrutura em sua utilização por Marx. vel às atividades humanas que sustenta, mesmo as mais próximas. A al-
Não se trata somente de que a infra-estrutura tem um peso determinante. guns quilômetros uma da outra, na mesma selva; com as mesmas armas e
em realidade que só ela tem peso, já que é ela que conduz o movimento instrumentos, duas tribos primitivas desenvolvem estruturas sociais e cul-
da história. É que ela possui uma verdade, de que o resto está privado. A turas tão diferentes quanto possível. Será que assim quis Deus, será que é
consciência pode ser, e de fato é, a maior parte do tempo, uma "falsa uma "alma" singular da tribo que está em jogo? Não, um exame da histó-
consciência'·'; ela é mistifica.da, seu conteúdo é "ideológico". As superes- ria total de cada uma delas, de suas relações com outras etc., permitiria
truturas são sempre ambíguas: elas exprimem a "situação real" do mes- compreender como as evoluções diferentes se produziram (ainda que ela
mo modo que a dissimula.m, sua função é essencialmente dupl.a. A consti- não permitisse "tudo compreender", e muito menos isolar "uma causa"
tuição da República burguesa. por exemplo, ou o direito civil, possui um dessa evolução). A indústria automobilística inglesa trabalha sobre a
sentido explícito ou aparente: o que exprime seu texto, e um sentido la- mesma "base técnica" da indústria automobilística francesa, com os mes-
tente ou real: aquele que revela a análise m arxista, mostrando, por trás mos tipos de máquinas e os mesmos métodos para produzir os mesmos
da iguald ade dos cidadãos. a divisão da sociedade em classes, por trás da objetos. As "relações de produção" são as mesmas, cá e lá: firmas capita-
"soberania do povo", o poder, de fato, da burguesia. Quem quisesse listas produzindo para o mercado e para isso empregando proletários.
compreender o direito atual limitando-se a sua significação explícita, ma- Mas a situação nas fábricas difere completamente: na Inglaterra, greves
nifesta, situar-se-ia em pleno cretinismo jurídico. O direito. como a polí- selvagens com freqüência, permanente guerrilha dos operários contra a
tica, a religião etc., só podem alcançar seu pleno e verdádeiro sentido em direção. instituição de um tipo de representação operária, os shop ste-
função de uma referência aos demais fenômenos sociais de uma época. wards, tão democrática, tão eficaz. tão combativa quanto possível sob as
Mas esta ambigilidade, esta característica truncada de toda significação condições capitalistas. Na França, apatia e sujeição dos operários, trans-
particular no mundo his.tórico cessaria no momento em que abordásse- formação integral dos "delegados" operários em tampões entre a direção
mos a "infra-estrutura". Aqui, as coisas podem ser compreendidas.em si e os trabalhadores. E as "relações de produção" reais, ou seja. precisa-
mesmas, um fato técnico significa imediata e plenamente, não existe ne- mente o grau de controle efetivo que assegura à direção sua "compra da
nhuma ambigilidade! ele é o que ele "diz", e diz o que ele é. E diz mesmo força do trabalho", diferem sensivelmente por isso. Somente uma análise
todo o resto: o moinho movido a braço diz a sociedade feudal, o moinho do conjunto de cada uma das sociedades consideradas, por sua história
a vapor diz a sociedade capitalista. Temos, portanto, coisas que são signi- p recedente etc.. pode permitir compreender. até um certo ponto, como
ficações completas em si, e que, ao mesmo tempo, são significações plena situações tão diferentes puder.a m emergir.
e imediatamente " penetráveis por nós. Os fatos técnicos não são somen- Nós nos situam"s até aqui. essencialmente, a nível do conteúdo da
te idéias "em atraso" (significações que foram encarnadas), eles são_tam- "concepção materialista da história". tentando ver em que medida as
proposições precisas dessa concepção podiam ser tidas como verdadeiras
ou mesmo como tendo um sentido. Nossa conclusão é, visivelmente, que
esse conteúdo não é susten tável , que a concepção marxista da hist<;'>ria
17 Carta a Joseph Bloch de 21 de setembro de 1890. / De fato. a concessão de Engels não oferece a explicação que desejava oferecer.
"permanece verbal": "entre todas. são as condições econômicas que são finalmente deter-
minantes. Mas as condições políticas etc.. e mesmo a tradição que habita os cérebros dos Mas o problem a não está esgotado por estas considerações. Se a
homens, também representam vm papel, embora não decisivo." (Repr. in K.M. et F.E ...• É- concepção marxista não oferece a explicação procurada da história, não
111des philosophiques. Paris. Ed. Socialcs. 1961, p. 154-155). Et., p. 155: "t assim que a histó- existe talvez um a outra que a ofereceria, e a construção de uma nova con-
ria se desenvolve até nossos dias como um processo da natureza e está sujeita. também, em cepção. "melhor". não seria a tarefa mais urgente?
substância. às mesmas leis de movimento que ela."
18 Imed iatamente não cm sentido cronológico, mas lógico: sem mediação, sem necessi- Esta questão é bem mais importante que a outra. pois afinal de con-
dade de passar por um outro significado. tas. que uma teoria científica se mostre insuficiente ou errada, é a própria
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lei do progresso do conhecimento. Entretanto, a condição desse progres- na a ideologia", nem que "a ideologia determina a economia". nem. fi-
so é compreender porque uma teoria se revelou insuficiente ou falsa. nalmente, que "economia e ideologia se determinam reciprocamente".
Ora, já as considerações que precedem nos permitem ver que o que pela sim.pies razão de que ideologia e economia, enquanto esferas separa-
está em causa no fracasso da concepção materialista da história é, muito das que poderiam agir ou não agir uma sobre a outra, são em si mesmas
mais do que a pertinência de uma idéia qualquer, pertencendo ao conteú- produtos de uma etapa dada (e na verdade muito recente) do desenvolvi-
do da teoria, o próprio tipo da teoria e o que ela visa. Por trás da tentati- mento histórico " .
va de erigir as forças produtivas em fator autônomo e determinante da Do mesmo modo, a teoria marxista da história, e toda teoria geral e
evolução histórica, existe a idéia de condensar num esquema simples as simples do mesmo tipo, é, necessariamente, levada a postular que as mo-
"forças" cuja ação dominou esta evolução. E a simplicidade do esquema tivações fundamentais dos homens são e sempre foram as mesmas em to-
origina-se de que as mesmas forças que agem sobre os mesmos objetos das as sociedades. As "forças", produtivas ou outras, só podem agir na
devem produzir os mesmos encadeamentos de efeitos. história através das ações dos homens e dizer que as mesmas forças repre-
Mas em que medida podemos categorizar a história desta maneira? sentam, em todas as situações, o papel determinante, significa que elas
Em que medida o material histórico se presta a este tratamento? correspondem a móveis constantes sempre e em todo lugar. Assim, ateo-
ria que faz do "desenvolvimento das forças produtivas" o motor da his-
Por exemplo, a idéia de que em todas as sociedades o desenvolvi- tória, pressupõe, implicitamente, um tipo invariável de motivação funda-
mento das forças produtivas "determinou" as relações de produção e, em mental dos homens, a grosso modo a motivação ~conômica: desde sem-
conseqüência, as relações jurídicas, políticas, religiosas etc., pressupõe pre, as sociedades humanas teriam visado (consciente ou in~onscientemente~
que em todas as sociedades existe a mesma a rticulação das a tividades hu- não importa) primeiro e antes de tudo, o crescimento de sua produção e
manas, que a técnica, a economia, o direito, a política, a religião etc., são de seu consumo. Mas esta idéia não é apenas materialmente falsa; ela es-
sempre e necessariamente separadas ou separáveis sem o que esta afirma- quece que os tipos de motivação (e os valores correspondentes que pola-
ção é desprovida de sentido. Mas isso é extrapolar ao conjunto da histó- rizam e orientam a vida dos homens) são criações sociais, que cada cultu-
ria a articulação e a estruturação próprias da nossa sociedade, que não ra institui valores que lhe são próprios e'conforma os indivíduos em fun-
têm forçosamente um sentido fora dela. Ora, esta articulação, esta estru- ção deles. Estas conformações são, praticamente, onipotentes 10 , porque
turação são precisamente produtos do desenvolvimento histórico. Marx não existe "natureza humana" que possa oferecer-lhes resistência, posto
dizia que "o indivíduo é um produto social" - querendo com isso dizer, que, em outras palavras, o homem não nasce trazendo consigo o sentido
não que a existência do indivíduo pressuponha a da sociedade ou que a definido de sua vida. O máximo de consumo, de poderio ou de santidade
sociedade determine o que o indivíduo será, mas que a categoria de in- não são objetivos inatos à criança, é a cultura na qual crescerá, que lhe
divíduo como pessoa livremente separável de sua família, de sua tribo ou ensinará que ela tem "necessidade" disso. E é inadmissível misturar ao
de .sua cidade nada tem de natural e só aparece numa certa etapa da his- exame·da história 11 a "necessidade" biológica ou o "instinto" de conser-
tória. Da mesma· maneira, os diversos aspectos ou setores da atividade vação. A "necessidade" biológica ou "instinto" de conservação é o pres-
social. só se "autonomizam", como dizia aindà Marx, num certo tipo de suposto abstrato e universal de toda sociedade humana e de to~o ser vivo
sociedade e em função de um grau de desenvolvimento histórico•. Mas em geral, e nada pode dizer sobre alguma espécie em particular. É absur-
se é assim, é impossível dar um modelo definitivo de relações ou de "de- do guerer fundamentar a história, por definição sempre diferente, sobre a
terminações" válido para toda sociedade. O s pontos de ligação destas re- permanência de um "instinto" de conservação, por definição sempre o
lações são fluentes, o movimento da história reconstitui e redesenvolve, mesmo, assim como seria absurdo querer explicar pela constância da libi-
de forma sempre diferente, as estruturas sociais (e não necessariamente do a infinita variedade de tipos de organização familiar, de neuroses ou
no sentido de uma diferenciação sempre crescente: a este respeito pelo de perversões sexuais que encontramos nas sociedades humanas. Quando
menos, o domínio feud al representa uma involução, uma recondensação uma teoria postula que o desenvolvimento das forças produtivas foi de-
de momentos que estavam claramente separados no mundo greco- terminante em todas as circunstâncias, ela não quer dizer que os homens
romano). Em suma, não existem na história, como também não existem
na natureza e na vida, substâncias separadas e fixas agindo umas sobre as
outras, do exterior. Não se pode dizer que em geral "a economia determi- 19 Isto é claramente visto por Lukacs cm "Lc changement de fonction du materialisme
historiquc", /.e.. •
20 Nenhuma cultura pode, evidentemente, treinar os individuas a andar de cabeça para
• A posiçáo central das "relações de produção" n·a vida social é uma criação da burgue- baixo ou a jejuar eternamente. Mas dentro destes limites. encontram-se na história todos os
sia e um elemento da instituição histórica do capitalismo. Ver "La question de l'histoire du tipos imagináveis de adestramento.
mouvement ouvricr". in l 'Expériena du 111011l'e 111e111 01ll'rier, 1. /.e.. p. 57 a 66. 21 Como faz Sartre, p. ex .• cm sua Critique de la rai.fon dialecrique. p. 166 e seguintes.
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tiveram sempre necessidade de st: alimentar (nesse caso teriam rermane- aparelho digestivo faminto e de músculos prontos para um trabalho des-
cido macacos). Ela quer dizer. ao contrário. que os homens sempre foram tituído de sentido, que é a imagem capitalista do homem }J.
além de suas "necessidades" biológicas. que se formarnm "necessidades" É falso pretender que as categorias técnico-econômicas t~nham ~ido
de outra natureza - e nisso constitui, efetivamente, uma teoria que fala sempre determinantes - pois não existi_am nem como categorias realiza-
da história dos homens. Mas ela diz. ao mesmo temro. que estas outras das na vida da sociedade, nem como pólos e valores. E é falso ·pretender
e
"necessidades" foram sempre em toda rurte e rredominantemente, ne- que elas tivessem existido sempre, mas escondidas so~ a~arênci as rn~st~fi.­
cessidades econômicas. E com isso ela não fala da história em geral, fala cadoras - poHticas, religiosas ou outras-, e que o cap1tahsmo, desm1st1fi-
apenas da história do capitalismo. De fato, dizer que os homens busca- cando ou desencantando o mundo, permitiu-nos ver as "verdadeiras"
ram sempre o maior desenvolvimento possível das forças prod'utivas e significações dos atos dos homens que, escapavam a seus autores. Ce~ta­
que só encontraram como obstáculo o estado da técnica; ou que associe- mente, a técnica ou o econômico "sempre existiram" de certa maneira,
dades foram sempre "objetivamente" dominadas por esta tendência, e pois toda sociedade deve produzir sua vida e organizar socialmente es.ta
organizadas em função dela, é extrapolar ?busivamente ªº.conjunto da produção. Mas é esta "certa maneira" que faz toda a diferença. Pois,
história as motivações e os valores. o movimento e a organ1zaçao da so- como pretender que o modo de integração do econômico com outras re-
ciedade 'atual - mais exatamente, da met~de capitalista da sociedade atual. lações sociais (as relações de autoridade e de fidelidade, por exemplo, na
A idéia de que o sentido da '!ida consistiria na acumulação e na conserva- sociedade feudal) não tenha influência sobre a natureza das relações eco-
ção de riquezas seria uma loucura para os índios. Kwakiutl, que acumu- nômicas na sociedade considerada, em primeiro lugar, e, ao mesmo tem-
lam riquezas para poder destruí-las; a idéia de procurar o poder e o co- po, sobre a forma de agir de umas sobre as outras?t verdade que, uma
mando seria loucura para os índios Zuni. entre os quais, para fazer de a l- vez constituído o capitalismo, a repartição dos recursos produtivos ~ntre
guém um chefe da tribo, é preciso espancá-lo até que aceite"· Marxistas camadas sociais e ·entre capitalistas é, essenciálmente, o resultado do JOgo
míopes escarnecem quando citamos estes exemplos que eles consideram da economia e, constantemente, modificada por este. Mas uma afirma-
curiosidades etnológicas. Mas se existe uma curiosidade etnológica no ção análoga não teria nenhum sentido no caso de uma formação feudal
caso, é p recisamente a constituída por estes "revolucionários" que erigi- . (ou "asiática")*. Admitamos também que se possa, numa sociedade ca-
ram a mentalidade capitalista em conteúdo eterno de urna n.atureza hu- pitalista de "laissez faire", tratar o Estado (e as relações políticas) como
mana sempre igual e que, falando interminavelmente sobre a questão co- uma "superestrutura", cuja dependência em relação à economia é unidi-
lonial e o problema dos países mais atrasados, esquecem ,' em seus raciocí- recional. Mas que sentido tem esta idéia, quando o Estado é proprietário
nios, dois terços da população do globo. Porq ue um dos maiores obstá- e possuidor efetivo. dos meios de prod ução e povoado por uma hierarquia
culos que a penetração do capitalismo encontrou e encontra sempre, é a de burocratas cuja relação com a produção e a exploração é necessaria-
ausência de motivações econômicas e da mentalidade de tipo capitalista mente mediatizada por sua relação com o Estado e subordinada a. c:st~ -.
entre os povos de países atrasados. É clássico, e sempre atual, o caso dos como era o caso daquelas curiosidades etnológicas que representaram,
africanos que trabalhando como operários durante a lgum tempo, aban- durante milênios, as monarquias asiáticas, e como é hoje o caso dessas
donam o trabalho tão logo conseguem juntar a soma que tinham em vista curiosidades sociológicas que são a U.R.S.S., a China e os outros países
e voltam para a sua cidade, para retornar o que, a seus olhos, é a unica "socialistas"? Que sentido existe em dizer-se que, hoje em dia, na
vida normal. A partir do momento em que conseguiu constituir uma clas- U .R.S.S. a "verdadeira" burocracia são os diretores de fabrica, e que a
se de operários assalariados entre estes povos, o capitalismo, como já burocracia do Partido, do Exército, do Estado etê., é secundária? .
mostrava Marx, não conseguiu somente reduzi-los à miséria, destruindo Como pretender, também, que a maneira de "viver estas relações, tão
sistematicamente as bàses materiais de sua existência independente. Con- diferente de uma sociedade e de uma época a outra, não tenha importân-
seguiu, também, destruir impiedosamente os valores e as significações de cia? Como pretender que as significações, as motivações, os valores cria-
sua cultura e de sua vida - isto é, fazer efetivamente este conjunto de um dos pelas diferentes culturas não tenham outra função nem outra ação
além da de encobrir uma psicologia econômica que teria existido sempre?
O postulado paradoxal de uma natureza humana inalterável não é so-
2Í Ver Ruth Bcnedict. P.a11erns o.f C11/1ure (a tradução deste livro para o francês. com o
titulo Echan1il/ons de civili.m1ion é abominável. mas alguns íragmcntos de sentido escapam
ao naufrágio)./ A demonstração da impossibilidade de projetar retroativamente as motiva- 23 Ver Margarct Mead e/ ai.. Cu/Íura/ Pauem.r and Te_chnicni Clrani(I!. UNESCO. 1953 . .
ções e as categorias econõmicas capitalistas sobre as outras sociedades. especialmente "ar- • De fato. é claro que. nestes casos. a repartição dos recursos produtivos (terra e ho-
caicas". é uma das contribuições mais importantes de certas correntes da "antropologia mens) ê determinada inicialmente, e modificada a segui r. pelo jogo de fatoress essencial-
econômica" contemporânea./ mente não "econômicos".
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mente o que isso encerra. É a tentativa, não menos paradoxal, de tratar a ma, que tudo o que os homens fizeram e quiseram fazer desde milênios,
vida dos homens, tal como é efetivamente vivida por eles (tanto conscien- não era mais do que urri esboço imperfeito do factory system. Nada per-
te quanto inconscientemente) como uma simples ilusão com respeito às mite afirmar que o arcabouço de gestos que constitui o trabalho produti-
forças "reais" (econômicas) que a governam . É a invenção de um outro vo cm sentido estrito seja mais " verdadeiro" ou mais "real" do que o.
inconsciente por trás do inconsciente, de um inconsciente do inconscien- conjunto de significações em que estes gestos foram tecidos pelos homens
te, que ser.ia, ª.º mesm~ ~empo , " objetivo" Uá que totalmente indepen- que os executaram . Nada, a não ser o postulado de que a verdadeira na-
dente da h1~tó na dos sujeitos e de sua ação) e "racional" Uá que constan- tureza do homem é ser um animal econômico-produtivo, postulado total-
temente orientado para um fim definível, e até mensurável, o fim econô- mente arbitrário e que implicaria, se fo sse verdade, em que o socialismo é
mico). Mas, se não queremos acreditar na magia, a ação dos indivíduos para sempre impossfvel.
motivada co.nsciente ou inconscientemente, é obviamente um veículo in~
dispensável de toda ação de "forças" ou de "leis" na história. Seria preci- Se, para termos uma teoria da história, é necessário excluir da histó-
so, então, criar uma "psicanálise econômica", que revelaria como causa ria quase tudo, exceto o que aconteceu durante alguns séculos numa pe-
das ações humanas seu "verdadeiro" sentido latente (econômico), e na quena faixa de terra emvolvendo o Àtlântico Norte, o preço a pagar é
qual a "pulsão econômica" ocuparia o lugar da libido. realmente muito alto; é melhor manter a histÇ>ria e recusar a teoria. Mas
É fora de dúvida que um sentido econômico latente possa, freqüen- não estamos reduzido$ a esse dilema. Não necessitamos, na qualidade de
temente, ser desvendado em atos que, aparentemente não o possuem. revolucionários, reduzir a história precedente da humanidade a esquemas
Mas isso não significa que ele seja o único, Aem o primeiro, nem sobretu- simples. Precisamos, em primeiro lugar, compreender e interpretar nossa
do que seu conteúdo seja sempre a maximização da "satisfação econômi- própria sociedade. E isso só podemos fazer ':el~tivizan<Jo-a,_m~stra~~-º
ca" no sen.t.id~ cap!talista ocid~?tal. Que a "pulsão ec<;>nômica" -.se qui- que nenhuma das formas da presente alienação social é fatal para a hu-
s~rmos , o pnncfp10 do prazer voltado para o consumo ou a apropria-. manidade, já que elas nem sempre estiveram presentes - e não querendo
~ao - tome e~ta ou aquela direção, se fixe sobre tal ou qual objetivo e se transformá-la em absoluto e projetando, inconscientemente, sobre o pas-
m strument~hze em tal ou qual conduta, isso vai depender do conjunto de sado esquemas e categorias que exprimem precisamente os aspectos mais
fatores em Jogo. Isso dependerá, particularmente, de sua relação com a profundos da realidade capitalista contra a qual nós lutamos.
pulsão sexual (a maneira pela qual esta se " especifica" ria sociedade con-
siderada) e com o mundo de significações e de valores criado pela cultu- Já vimos, portanto, porque o que se chamou de concepção materia-
ra onde vive o indivíduo 2•. Seria finalm ente menos falso dizer que o homo lista da h istória nos parece atualmente insustentável. Resumindo, porque
oeconomicus é um produto da cultura capitalista, do que dizer que a cul- esta concepção:
tura capitalista é uma criação do homo oeconomicus. Mas nenhuma das - Faz do desenvolvimento da técnica o motor da história "em última
duas coisas deve ser dita. Existem, em cada ocasião, homologia e corres- análise", atribuindo-lhe uma evolução autônoma e uma significação fe-
pondência profunda ent re a estrutura da personalidade e o conteúdo da chada e bem definida.
cultura e P.redeterminar uma pela outra não tem sentido. - Tenta submeter o conjunto da· história a categorias que só têm
Portanto, quando acontece como na cultura do milho entre certas sentido para a sociedade capitalista desenvolvida e cuja aplicação às for-
tribos indígenas do Mé.isico, ou na cultura do arroz nas aldeias indoné- mas precedentes da vida social coloca, mais do que resolve, problemas.
sias, que o trabalho agrícola é vivido não apenas como um meio de asse- - é baseada no postulado velado de uma natureza humana essencial-
gurar a alimentação, mas também como momento do culto de um deus, mente inalterável, cuja motivação predominante seria a motivação eco-
como festa, e como dança, e que um teórico vem dizer que tudo o que en_. nômica.
volve os gestos propriamente produtivos, nestas ocasiões, não é senão Estas considerações concernem ao conteúdo da concepção materia-
mistificação, ilusão e astúcia da razão - é preciso afirm ar enfaticamente lista da história, que é um determinismo econômico (denominação usada
que este teórico é uma encarnação muito mais desenv.olvida do capitalis- com freqllencia pelos partidários da concepção). Mas a teoria é de igual
mo do que qualquer patrão. Porque não apenas permanece, lamentavel- modo inaceitável enquanto é só determinismo, isto é, enquanto pretende
mente, preso às categorias específicas do capitalism o, mas quer ainda que se possa reduzir a história aos efeitos de um sistema de forças subme-
subme~ er-lhes todo o resto da história da humanidade. e pretende. em su- tidas a leis palpáveis e definfveis de uma vez por todas, a partir das quais
estes efeitos podem ser integralmente e exaustivamente próduzidos (e,
portanto, também deduzidos. Como, por trás desta concepção, existe ine-
. 2~. Ve; Margaret Mca<Í: Mate and Fema/e e S1•x and Tt•111pera111e111 in Three Primitfre So· vitavelmente uma tese sobre o que é a história, por conseguinte uma tese
Cll'//t'.f.
filosófica, voltâremos ao assunto na terceira parte deste capítulo.
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petermlnlsmo ~con~mlco e luta de classes Não é por acaso que a idéia de uma polftica capitalista, mais ou me-
nos "inteligente'', parece sempre, para um marxista, como uma estupid~z
Ao determinismo econômico parece opor-se um outro aspecto do que esconde uma mistificação. Para ~c~itarmos, a~iás, ~a~ar ?e uma políti-
marxismo: "a história da· humanidade é a história da luta de classes": ca inteligente ou não, devemos admitir que esta mtehgenc1a, ou sua au-
Mas somente parece. Porqu~nto, na ~e.dida em 9u~ ~antemos as afirma- sência, pode fazer uma diferença qua"nto à evolução real. Mas como po-
ções essenciais da concepcao matenahsta da historia, a luta de classes deria, já que esta evolução é determinada por fatores. de u~ma ~utra or-
n"ão é na verdade um fator à parte•. Ela não é nada mais do que uma dem - "objetivos"? Não diremos sequer que esta política nao cai do céu,
cadei~ de ligações' causais, estabelecidas a cada vez, sem ambigilidade, opera numa situação dada, não pode ultrapassar certos limites demarca-
pelo estado -da infra-estrutura técnico-econômica. O que as classes fazem , dos pelo contexto histórico, só pode encontrar res~onân~ia na realidade
o que elas têm a fazer é necessariamente traçado por sua situação nas re- se outras condições estiverem presentes - todas coisas evidentes. O mar-
lações de produção, sobre a qual elas nada podem porque ela as prec.ede xista falará como se esta inteligência não pudesse mudar nada (exceto o
tanto causal quanto logicamente. De fato, as classes são somente o ms- estilo dos discursos, grandioso em Mirabeau, lamentável em Laniel) e_se
trumento no qual se encarna a ação das forças produtivas ..se são atores, fixará quando muito, em mostrar que o "gênio" de Napoleão assim
o são exatamente no sentido ém que os atores no teatro recitam um texto como 'a "estupidez" de Kerensky eram necessariamente "convocados" e
dado previamente e executam gesto~ pred~terminados, e. onde repre_sen- engendrados pela situação histórica.. . . _ . .. ·
tando bem ou mal, não conseguem 1mped1r que a tragédia se encammhe Não é também por acaso ·que resistiremos com obstmaçao à 1de1a de
em direção a seu fim inexorável. que o capitalismo moderno tentou adapt?r-se à ev~ lução .h~stórica ~ à
~ necessária uma classe para fazer funcionar um sistema sócio- luta social modificando-se em conseqilênc1a. Isso sena adm1t1r que a his-
econômico segundo suas leis, assim como é necessária outra para derru- tória do úitimo século não foi exclusivamente determinada por leis eco-
bá-lo - tão logo ele se torne " incompatível com o desenvolvimento das nômicas, e que a ação de grupos e de classes sociais pôde modificar as
forças produtivas" e que seus interesses a conduzam inevitavelmente a condições nas quais essas leis agem e através disso o seu próprio funcio-
instituir um novo sistema que, por sua vez, ela fará funcionar. São elas os namento. ·
agentes do processo histórico, màs agentes . inconscientes (a e.xpressão f:, aliás, com este exemplo que podel!los ver, mais clarament_e, que
volta amiúde nos escritos de Marx e Engels), sofrem a ação mais do que determinismo econõmico de um lado, luta de classes, de outro, oferecem
agem, comenta Lukacs. Ou melhor, elas agem em função de sua cons- duas maneiras de explicação irredutíveis uma a outra, e que no marxismo
ciência de classe e sabemos que "não é a consciência dos homens que de- não existe verdadeiramente "síntese", mas esmagamento da segunda em
termina seu ser, mas seu ser social que determina sua consciência". Não beneficio da primeira. O essencial na evolução do capitalismo é a evolu-
se trata somente de que a classe no poder será conservadora, e a classe em ção técnica e os efeitos do funcionamento das leis econômicas que regem
ascensão será revolucionária: Este cpnservadorismo, esta revolução se- o sistema? Ou a luta de classes e de grupos sociais? Ao ler o Capital, ve-
rão predeterminadas em seu· conteúdo, em todos seus detalhes "impor- mos que é a primeira resposta que é a adequada. Uma vez estabelecidas
tantes" 23 pela situação das . classes correspondentes na produção. . . suas condições sociológicas, Ó que podemos denominar os "axiomas do
sistema"· colocados na realidade histórica (grau e tipo dado de desenvol-
vimento técnico, existê.ncia de capital acumulado e de suficiente n~m~ro
• Ver também, sobre o conjunto do problema, "la question de c'histoire du mouvement ou- de proletários etc.) e sob o impulso contínuo de um progr~sso tecnic_9
vrier" l.c. - Eis o que dizia Engels, no Prefácio da terceira edição alemã ( 1885) do 18 Brumai- autonômo o capitalismo evolui unicamente segundo os efeitos das leis
re: "Foi precisamente Marx quem primeiro descobriu a lei segundo a qual tod as as lutas
históricas, quer sejam travadas no terreno polltico, religioso, filosófic.o , quer em qualquer econômic;s que comporta, e que Marx pôs em evidência. A luta de das-
outro domlnio ideológico, na verdade são apenas a expres.s ão mais ou menos clara das lutas
das classes sociais, lei em virtude da qual a existência destas classes e por conseguinte tam -
btm seus choques, são, por sua vez, condicionados pelo grau de desenvolvimento de sua si-
tuação econômica, por seu modo de produção e seu modo de troca, que deriva do preceden-
te. Esta lei, que tem para a história a mesma importância que tem a lei da energia para as do imperialismo francês, porém com ou sem esse estilo, esta polltica teria sido de qualquer
ciências naturais, fornece-lhe igualmente aqui a chave para a compreensão da histórill" da II modo "a mesma" em seus aspectos importantes, em sua essência. Dividimos então a reali-
Republica francesa". (ln K . Marx, Le Brwnafre, tr. fr. Paris Ed. Sociales, 1969, p. 14). dade numa camada principal onde se passa o essencial, onde as conexões causais, anteriores
25. Rigorosamente falando, é preciso dizer: em todos seus detalhes, ponto final. Um de- e posteriores ao fato considerado, podem e devem ser estabelecidas, e uma camada secundá-
terminismo só tem sentido como determinismo integral, mesmo o timbre da voz do dema-· ria, onde essas conexões não existem ou não importam. O determinismo só pode, assim,
gogo fascista ou do orador operário devem decorrer das leis do sistema. Na medida em que realizar-se dividindo o mundo novamente. é somente em idéia que ele visa um mundo unitá-
isso torna-se imposslvel, o determinismo se refugia geralmente por trás da distinção entre o rio, em sua aplicação ele é de fato obrigado a postular uma parte "não determinada" da
"importante" e o " secundário". Clemenceau acrescentou um certo estilo pessoal à politica realidade.
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ses aqui não intervém de modo algu"'! 26 • Que um marxismo mais sutil e eia do capitalismo. Quando a verdâde foi conquistada, todo o resto é er-
mais nuançado. apoiando-se sobre outros textos de Marx, recuse esta vi- ro, mas o erro nada significa num universo determinista: o erro é o resul-
são unilateral e afirme que a luta de classes representa um papel impor- tado da ação do inimigo de classe e do sistema de exploração.
tante na história do sistema, e que pode alterar o funcionamento da eco- Contudo, a ação de uma classe particular e a tomada de consciência,
11 nomia, mas que simplesmente é preciso não esquecer que esta luta se si- por esta classe, de seus interesses e de sua situação, parece ter um estatuto'
tua cada vez num quadro determinado, que traça seus limites e define seu à parte no marxismo: a ação e a tomada de c9nsciência do proletariado.
sentido - estas concessões de nada servem, não contribuem para uma Mas isso só é verdade num sentido, ao mesmo tempo, especial e limitado.
conciliação entre os dois termos. Pois as "leis" econômicas formu ladas Não é verdade no que se refere ao que o proletariado tem a fazer 11: ele
por Marx não têm propriamente "sentido" fora da luta de classes, não tem que fazer a revolução socialista, e sabemos o que a revolução socia-
possuem nenhum conteúdo preciso: a "lei do valor", tão logo é·necessá- lista tem que fazer (resumindo, desenvolver as forças produtivas até que a
rio aplicá-la à mercadoria fundamental, a força de trabalho, nada signifi- abundância torne possível a sociedade comunista e uma humanidade li 7
ca, é uma fórmula vazia cujo conteudo só pode ser fornecido pela luta en- vre). ·Isso é verdade somente no que se refere a saber se ele o fará ou não.
tre empregados e patrões que ·d etermina no essenéial o nível absoluto do Porque, junto com a idéia de que o socialismo é inevitável, existe em
salário e sua evolução no tempo. E como todas as outras "leis" pressu- Marx e nos grandes marxistas (Lenine ou Trotsky por exemplo) a idéia
põem uma divisão "determinada" do produto social, o conjunto do siste- de uma eventual incapacidade da sociedade para ultrapassar sua crise. de
ma fica suspenso no ar, completamente indeterminado 27 • E isso não é so- uma "destruição comum às duas classes em luta'', em suma, a alternativa
mente uma " lacuna" teórica - "lacuna" a bem dizer tão central que es- histórica socialismo ou barbárie. Mas esta idéia representa o limite do sis-
traga imediatamente a teoria. É também 1.im mundo de diferença na prá- tema e, de certo modo, o limite de toda reflexão coerente: não está abso-
tica. Entre o capitalismo do Capital, onde as "leis econômicas" condu- lutamente excluído que a história "fracasse", revela-se, portanto, absur-
zem a uma estagnação do salário operário, a um desemprego crescente, a da, mas, nesse caso, não somente esta teoria, mas toda teoria, desmoro-
crises cada vez mais violentas e finalmente a uma quase-impossibilidade na. Por conseguinte, o fato de que o proletariado fará ou não a revolu-
de funcionar para o sistema; e o capitalismo real, onde os salários cres- ção, ainda que incerto, condiciona tudo e qualq1,ler discussão SÓ será
cem com o passar do tempo paralelamente à produção e onde a expansão possível partindo da hipótese de que ele a fará. Admitida esta hipótese, o
do sistema continua sem encontrar nenhuma a ntinomia '.'econômica" in- sentido em que a fará .é determinado. A liberdade assim concedida ao
superável, não existe somente a distância que separa o mítico e o real. proletariado não difere da liberdade de ser loucos que podemos assegu-
São dois universos, cada um dos quais comportando um outro destino, rar-nos: liberdade que não vale, que nem sequer existe, exceto na condi-
uma outra filosofia, uma outra política, uma outra concepção da revolu- ção de não ser usada, pois seu uso a aboliria junto com toda a coerência
ção. do mundo 29 • • •

Finalmente, a idéia de que a ação ã utõnoma das massas possa cons- · Mas se eliminamos a idéia de que as classes e sua ação são simples
tituir o elemento central da revolução socialista, aceita ou não, será sem- veiculas; se admitimos que a "tomada de consciência" e a atividade das
pre secundária para um marxista conseqilente - por não ter interesse ver- classes e dos grupos sociais (como indivíduos) fazem aparecer novos ele-
dadeiro, nem fundamentação teórica e filosófica. O marxista sabe para mentos não-predeterminados e não-predetermináveis (o que não significa
onde deve ir a história; se a ação autônoma das massas segue nesta dire- que uma e outra sejam independentes das situações onde se desenvol-
ção, ela nada lhe ensina, se segue para outro lado, é uma má autonomia, vem), então seremos obrigados a sair do clássico esquem~ marxista e a
ou melhor, não é mais uma autonomia, posto que se as massas não se di-
rigem para os objetivos corretos é porque continuam ainda sob a influên-
28. "Não se trata daquilo que tal ou qual proletário, ou mesmo todo o proletariado, se
represente num dado momento como o objetivo. Trata-se daquilo que é o proletariado e da-
26. Ela intervém somente rios limites - históricos e lógicos - do sistema: o capitalismo quilo que. de conformidade com o seu ser, ele será historicamente forçado a fazer" diz
o~o nasce org~nicamentc pelo simples funcionamento das leis econômicas da simples pro- Marx num a conhecida passagem da Santa Famflia.
. dução comerc.!.!11• Çpreciso a acumulação primitiva que constitui uma violenta ruptura do Z9. Isso vale também, e sobretudo, apesar das aparências, para Lukacs. Quando ele es-
anti;llo sistema; ele também não dar~ lugar ao ~ocialismo sem a revolução proletária. Isso, creve, por exemplo,"... para o proletariado vale ... que a transformação e a liberação só po-
porem, em nada muda o que dizemos aqui, porque é necessário ainda acrescentar, em rela- dem ser sua própria ação ... A evolução econômica objetiva ... só pode colocar cm mãos do
ção a essas intervenções ativas de classes na história, que elas são predeterminadas, não iil· proletariado a possibilidade e a necessidade de transformar a sociedade. Mas esta transfor-
troduzem nada que seja de direito imprevisível. mação só pode ser a ação livre do próprio proletariado" (Histolre et consclence de classe, p.
27. Ver no n' 31 de S. ou B., "Le mouvement revolutionnaire sous le capitalisme moder- 256 da tradução francesa), é preciso não esquecer que toda a dialética da história que ele ex-
ne", /.e. p. 69 a 81./Agora também, ~a Dynamlque du capltali'sme. l.c. põe, só. se mantém na condição de. que o proletariado realize esta ação livre.
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encarar a história de uma maneira essencialmente diferente. Volta remos dern colocar o problema do conhecimento da história, pois só eles podem
a isto na contin.uação deste texto. ter a história como objeto de experiência. E, do mesmo modo que ter
uma experiência da natureza não consiste em sair do Universo e contem-
A conclusão que importa não é gue a concepção materialista da his- plá-lo, assim também, ter uma experiência da história não consiste em
tória seja "falsa" em seu conteúdo. E que o tipo de teoria que esta con- considerá-la do exterior como um objeto consumado e colocado em fren-
cepção visa não tem sentido, que uma tal teoria é impossível de estabele- te - pois tal história nunca existiu e nunca será oferecida a ninguém como
cer e que aliás não é necessária. Dizer que possuímos, finalmente, o se- objeto de pesquisa. ·
gredo da _h istória p~ssada e presente (e mes!JlO futura até certo ponto) Ter urna experiência da história enqua·nto ser histórico é ser na e da
não é menos absurdo do que dizer que possuímos, finalmente, o segredo história, como também ser na e da sociedade. E, deixando de lado outros
da natureza. E é mesmo mais absurdo e'm ·razã·o, precisamente, do que faz aspectos desta implicação, isto significa:
da história uma história, e do conhecimento histórico um conhecimento - pensar necessariamente a história em função das categorias de sua
histórico. · época e de sua sociedade - categorias estas que são um produto da evolu-
ção histórica;
Sujeito e objeto do conhecimento histórico - pensar a história em função de urna intenção prática ou de um pro-
jeto - projeto este que faz parte da história.
Quando falamos da história, quem fala? Ê alguém de uma época, de Isso Marx não somente sabia: foi o primeiro a dizê-lo claramente.
uma sociedade, de uma classe determinada - em suma, é um ser histórico. Quando escarnecia daqueles que acreditavam "poder passar por cima de
Ora, exatamente isso que fundamenta a possibilidade de um conhecimen- sua época" denunciava a idéia de que possa jamais haver um sujeito teó-
to histórico (posto que somente um ser histórico pode ser uma experiên- rico puro produzindo um conhecimento puro da história, que se possa
cia da história e disso falar1 é o que ~mpede que este conhecimento possa deduzir a priori as categorias válidas para todo material histórico (a não
um dia adquirir o estatuto de um saber totalizado e transparente - já que ser como abstrações inexpressivas e vazias) 11 • Quando denunciava os
é, em si mesmo, em sua essência, um fenômeno histórico que exige ser pensadores burgueses de sua época, que aplicavam ao mesmo tempo in-
captado e interpretado como tal. O discurso sobre a história está incluído genuamente aos períodos precedentes categorias que só têm sentido rela-
na história. tivamente ao capitalismo e se recusavam a relativizar historicamente es-
E preciso não confundir esta idéia com as afiqn~ções d o ceticismo tes últimos ("para eles, houve história, mas já não há mais" dizia ele
ou do relativismo ingênuo: o que cada um diz nunca é mais do que uma numa frase que parece forjada em intenção dos "marxistas" contemporâ-
opinião; falando, traímos a nós mesmos, mais do que traduzirmos algu- neos) e concomitantemente afirmava que sua prgpria teoria correspondia
ma coisa de real. Há algo completamente diferente da simples opinião ao ponto de vista de uma classe, o proletariado revolucionário, colocava,
(sem o que nem discurso, nem ação, nem sociedade jamais seriam possí- pela primeira vez, o problema do que denominamos depois o sócio:-- cen-
veis), podemos controlar ou eliminar os preco_nceitos, as preferências, os trismo (o fato de que cada sociedade se coloca como o centro do mundo
ódios, aplicar as regras da "objetividade científica". Não há apenas opi- olhando todos os outros de seu próprio ponto de vista) e tentava resolvê-.
niões que se equivalem, e Marx, por exemplo, é um grande economista, lo.
mesmo quando se engana, enquanto que François Perroux não passa de Tentamos mostrar mais acima que M arx finalmente não superou
um tagarela, mesmo quando não se engana. Mas feitas todas as depura- esse sócio-centrismo e que encontramos nele o paradoxo de um pensador ·
ções, aplicadas todas as regras, e respeitados todos os fatos, ainda subsis- que tem plena consci_~n_9i a da relatividad:e histórica das categorias_capita-
te que aquele que fala não é uma "consciência transcendental", é um ser listas e que, ao mesmo tempo, as projeta (ou as retrojeta) sobre o con-
histórico, e isso .não é um acidente infeliz, é uma condição lógica (uma junto da história humana. Que se compreenda bem que não se trata aqui
"condição transcendental") do conhecimento histórico. Do mesmo de urna crítica a Marx, e sim de urna crítica do conhecimento da história.
modo que somente seres naturais também naturais - podem colocar o O paradoxo em questão é constitutivo de roda tentativa de pensar a hisró-
problema de uma ciência da natureza, pois somente os seres carnais po- roa n. t necessário, é inevitável que, situados um século depois, possa-
dem ter uma experiência ~a natureza, 30 somente os seres históricos po-
31. Ver, por Úemplo. sua crítica ·das abstrações dos economis tas burgueses, na lntroduc-
tion à une critique de /'économie politique. publicada com a Contrihuition à la critique de /'é-
conomie politique. trad. Laura Lafargue. cm particular p. 308 e seguintes.
30 Em termos de filosofia kantiana: a corporalidade do sujeito é uma c\)ndiçào transcc- 32. De pensar séria e profundamente. Entre os autores ingênuos não existe paradoxo.
dental da possibilidade de uma ciência da natureza e, por conseqüência, tudo o que esta cor- apenas a uniformidade simples de projeções ou de um relativismo, igualmente não criti~os.
poralidade implica.
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li
,.
IJ
mos relativizar mais fortemente certas categorias, separar com mais cla-
reza aquilo que, numa grande teoria, a prende solidamente a sua época
particular e nela a enraiza. Mas é porque ela está enraizada em sua época,
que a teoria é grande. Tomar consciência do problema do s6cio-
T
(mesmo se muito complexa). Eles obedecem a uma ordem, formam um
sistema que se desdobra no tempo, de maneira que o que vem depois ul-
trapassa (suprime conservando) o que estava antes. O presente com-
preende o passado (como momento "superado") e ~or is_so pode com-
IJ centrismo, tentar reduzir todos os seus elementos captáveis, é o primeiro preendê-lo melhor do ;iu: esse ~as.s~do se co.mpr~end1a a s1 mesmo. Essa
· passo inevitável de todo pensamento sério. Acreditar que o enraizamento dialética é, em sua essenc1a, a d1alehca hegeliana, o que era para Hegel o
IJ só é negativo, e que deveríamos e poderíamos livrar-nos dele em função movimento do logos, torna-se em Marx o desenvolvimento das_ forças
de uma depuração indefinida da razão, é ilusão de um racionalismo ingê- produtivas e a s~cessão de c~asses s?ci~is que marca suas etapa~. nao tem,
nuo. Não se trata somente de ser este enraizamento a condição de nosso em relação a isto, nenhuma 1mportanc1a. Num e noutro, Kant ~ltrapas­
saber, de que só possamos refletir a história porque, por sermos nós mes- sa" Platão e a sociedade burguesa é "superior" à sociedade antiga. Mas
mos seres históricos, pertencemos à uma sociedade em movimento, te- isso assume importância em relação a outro aspec~o - .e é ~ste ? s~~undo
l~ mos uma experiência da estruturação e da luta social. f: condição positi- termo do movimento. Precisamente porque esta d1alét1ca e a ~ialet1ca da
va, é a nossa particularidade que nos abre o acesso ao universo. t porque aparição sucessiva de diversas classes na história, ela não é mais, necessa-
a estamos ligados a uma visão, a uma estrutura categorial, a um projeto de- riamente, infinita de direito 33; ora, a análise histórica mostra que ela
terminado que podemos dizer algo de significativo sobre o passado. So- pode e deve comp_letar-~e co_m o aparec!men.t~ da."última classe", o pro-
mente quando o presente está fortemente presente, é que permite ver ou- letariado. O marxismo e, pois, uma teoria pr1VJleg1ada, po:que repr~s~nta
Ili tras coisas no passado e mais do que o próprio passado podia ver em si "o ponto de vista do proletariado" e porque o prole~anado_ é a ultima
mesmo. De certa maneira, é pelo fato de projetar alguma coisa sobre o classe - não última em data simplesmente, porque entao continuaríamos
n passado, que Marx descobre alguma coisa. Uma coisa é criticar, como fi- ª.
sempre presos, no interior ~a _dialética his~órica, ui_1i ponto de vista par-
a zemos, essas projeções enquanto se apresentam como verdades integrais, ticular destinado a ser relat1v1zado a se_gmr; mas ultima em termo~ ~~so­
exaustivas e sistemáticas. Outra coisa é esquecer que, por mais "arbitrá- lutos, enquanto deve realíz3;r a supressao das c~asses. e a passag~m a ver~
ria" que seja, a tentativa de apreender as sociedades precedentes sob as dadeira história da h umamdade". O proletanado e classe umversal e e
categorias capitalistas foi em Marx de uma imensa fecundidade - mesmo por não ter interesses particulares para fazer valer qu~ pod.~ tanto r~ali~a1~
ºse violou a "verdade própria" de cada uma destas sociedades. Porque, a sociedade sem classes, como ter um ponto de vista verdadeiro
rt
em definitivo, precisamente, não existe tal "verdade própria" - nem sobre a história passada.
aquela que põe em evidência o materialismo histórico, certamente, e nem Não podemos, hoje, sustentar esta posição, por várias razões. Não
ll tampoucó aquela que revelaria uma tentativa tão utópica e tão socio- podemos oferecer-nos previam~nte u~a dialétic~. da. hi~t~ria,,pro~ta ou
cêntrica finalmente, de "pensar cada sociedade por si mesma e de seu quase pronta, ainda que esta seJa qualificada de pre-htstoríll . Nao po-
li próprio ponto de vista". O que podemos chamar a verdade de cada socie- demos oferecer-nos a solução antes do problema. Não podemos oferecer-
dade, é a sua verdade na história, para ela mesma também, mas igual- nos de início uma dialética, qualquer que seja, porque uma dialética
ll
mente para todas as outras, pois o pl,lradoxo da história consiste em que postula a raci~nalidade do mundo : da h~tória, e esta racionali~a~e. é
11 cada civilização e cada época, pelo fato de ser particular e dominada por problema, tanto teórico quanto prático. Nao podemos pensar a historia
suas próprias obsessões consegue evocar e revelar significações novas na- como uma unidade, escondendo os enormes problemas que esta expres-
quelas que a precedem ou a cercam. Essas não podem nunca esgotar nem são coloca, a partir do momento em que lhe atribuímos um sentido que
fixa r seu objeto, quando mais não fosse, porque, cedo ou tarde, transfor- não o formal nem como unificação dialética progressiva, posto que Pla-
'
1
mam-se elas próprias em objeto de interpretação (tentamos atualmente tão não pode ser reabsorvido por Kant, nem o gótico pelo rocotó, e dizer
compreender como e por que a Renascença, os séculos XV li e XVIII vi- que a superioridade da cultura ~s~anhola ~obre a dos Asteca.s fic~u pr_?-
ram a antiguidade clássica de maneira tão dÍferente cada um deles); tam- vada pela exterminação destes ulttmos, deixa um reslduo de msat1sfaçao
bém não se reduzem jamais às obsessões da época que as colocou em evi- tanto no Asteca sobrevivente quanto em nós que não compreendem.os.
dência, porque então a história seria apenas justaposição de delírios e por que, e em que, a América pré-colombiana alimentava sua própria su-
nem sequer poderíamos ler um livro do passado.
Sabemos que o marxismo tenta superar esse paradoxo constituivo de
todo o pensamento da história. 33. A necessidade de uma tal infinitude e a necessidade de seu contrário são umas das im·
possibilidades do hegelianismo, e, na verdade, de toda dialética tomada como sistema. Vol-
Essa superação resulta de um duplo movimento. Existe uma dialéti- taremos a isto mais adiante.
ca da história que faz com que os pontos de vista sucessivos das diver- 34. Foi Lukiics, em Histoire et conscíence de classe, que desenvolveu com maior profun·
sas épocas, classes, sociedades, mantenham entre si uma relação definidá didade e rigor esse ponto de vista.
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pressão dialética através de seu encontro com cavaleiros portadores de neste segmento extraordinariamente importante, paradigmático e hegelo-
armas de fogo. Não pode.mos fundamentar a resposta final aos proble- marxista da história que é a história "européia" (ou greco-ocidental
mas últimos do pensamento e da prática sobre a exatidão da análise, por para os filósofos). Podemos chamar este segmento de paradigmático e
Marx, da dinâmica do capitalismo, agora que sabemos que esta exatidão hegelo-marxista, porque ele representa, em verdade, o único caso em que
é ilusória, e mesmo se não o soubéssemos. Não podemos colocar, de iní- se pode construir (ao preço de inúmeras violações de fatos históricos,
cio, uma teoria, ainda que fosse a nossa, como "representando o ponto mas este é outro-problema) um desenvolvimento quase:- "dialético", t~n­
de vista do proletariado" porque, a história de um século o mostrou, este to na esfera sócio-econômica como na esfera filosófico-espiritual
ponto de vista do proletariado, longe de oferecer a solução de todos os (Hegel). Mas esta construção só pode ser feita mediante um encobrimen-
problemas, é em si mesmo um problema cuja solução só o proletariado to desses seis ou sete séculos que representam, comparados ao mundo
(digamos, para evitar as sutilezas de linguagem, a humanidade que traba- greco-romano e tomados globalmente, um período de considerável re-
lha) poderá inventar ou não inveoiar. Não podemos, de qualquer modo, gressão. Os marxistas não se referem jamais a esses séculos perdidos.
colocar o marxismo como representante deste ponto de vista, porque ele Quando mencionam o "progresso técnico durante a Idade Média", eles
contém, profundamente imbricados em sua essência, elementos capitalis- querem dizer, na verdade, os séculos XII, XIII ou XIV. As discussões ter-
tas e porque, não sem relação com isso, ele é hoje a ideologia em ação da minológicas não t~m maior interesse - exceto que, aqui também, como de
burocracia em todos os lugares e a do proletariado em nenhum lugar. hábito, a imprecisão terminológica serve para dissimular a confusão do
Não podemos pensar que, ainda que o proletariado fosse a última classe pensamento ou os procedimentos sofísticos. O que importa é que obser-
e o marxismo seu representante autêntico, sua visão da história é a visão vamos neste caso não um "acidente" ou uma "variação sazonal", mas
que encerra definitivamente toda a discussão. A relatividade do saber his- um período histórico extremamente longo, durante o qual, mesmo se
tórico não é somente função de sua produção por uma classe, é também houve mudanças progressivas em alguns pontos específicos (por exem-
função de sua produção numa cultura, numa época, e isto não pode ser plo·, a substituição da charrua leve pela charrua pesada), se consideramos
reabsorvido por aquÍlo. O desaparecimento das classes na soeiedade futu- o edifício social em seu conjunto, a maioria das realizações do período
ra não eliminará, automaticamente, toda a diferença quanto às idéias precedente se perdeu. Isso mostra que a técnica não progride necessaria-
sobre o passado, que nela poderão existir, não conferirá a estas uma coin- mente de maneira ininterrupta, e que sua evolução não é "autônoma" em
cidência imediata com seu objeto, não as retirará de uma evolução histó- nenhum sentido, mesmo o mais superficial deste termo.
rica. Em 19 19 Lukàcs, então ministro da Cultura do governo revolucio- · Em segundo lugar, há a questão da mudança técnica, e de seu ritmo,
nário húngaro dizia, veladamente, num discurso oficial: "agora que o · ao longo da história em geral. O que constatamos, é que a maioria das so-
proletariado está no poder, não temos mais necessidade de manter uma ciedades atravessara m a maior parte de su11 história com base em condi-
visão unilateral do passado" JS. Em 1964, quando o proletariado não está ções técnicas estáveis; tão estáveis, que deveriam parecer ao homem oci-
no poder em parte alguma, temos ainda menos possibilidade de fazê-lo. dental destes últimos séculos como equivalendo a uma pura e simples es-
Em resumo, não podemos mais conservar a filosofia marxista da his- tagnação técnologica no interior das sociedades e dos períodos considera-
tória. dos. Tal é o caso, em linhas gerais, de longos períodos da história chine-
sa, da história da f ndia desde o século IV A.C. até as invasões islâmicas, e
Observações adicionais sobre a teoria marxista da história * depois destas até a conquista inglesa - sem fala r nas sociedades "arcai-
cas". H á uma enorme diferença entre o fato de viver numa sociedade-
Sobre a evolução tecnológica e seu ritmo: quando se discute a questão onde uma importante invenção nova surge todos os dias, ou mesmo cada
da "estagnação" tecnológica, quer seja durante o período feudal ou em dez anos (como no Ocidente há três séculos), e viver numa sociedade
geral, dois aspectos devem ser claramente distinguidos. onde tais invenções só aparecem cada três séculos. A história huma na se
Em primeiro lugar, trata-se de saber qual foi a evolução tecnológica desenvolveu essencialmente neste úl~imo contexto e não no primeiro.
na Europa ocidental desde o desmoronamen!._o do Império romano (ou
mesmo antes, a partir do início do século IV de nossa era) até o XI ou Sobre o "progresso'". Marx e os gregos: por certo, M a rx nunca afir-
século XII. H á aqui seis ou sete séculos de história humana inseridos mou, explicitamente, a "superioridade" da sociedade e da cultura bur-
guesas sobre a sociedade e a cultura gregas; mas esta é a implicação lógica
inevitável da "dialética" aplicada à história e da pretensa dependência da
35. Ver "Le chargement de fonction du matcrialisme historique", Hístoire et conscience
de classe. l.c. em particular, p. 258-59, 274-75, 284-85. "superestrutura" relativamente à "infra-estrutura". Precisamente porque
• Escritas para a trad ução inglesa da parte precedente deste tcitto (llistory and revo/u- não era um filisteu, nem o Espírito absoluto transformado em homem.
tion, publicado por Solidarity, Londres, agosto 197 l ). Marx "se contradiz" neste ponto - o que só o honra.
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No inédito inaca~ado de 1857 (publicado por Kautsky na Neue Zeit 99,99~;.; das frases contidas nos volumes publicados por milhões hoje .em
de 1903: "Introduction àune critique de l'economique politique", Contri- dia? Se Platão pertence a uma infância feliz da humanidade, Kant então
bution à la critique... Tr. Laura Lafargue, p. 305-352 éd. de la Pléiade, 1, seria talvez menos gracioso, porém certamente mais inteligente que Pla-
p. 233-266), Marx tenta ilustrar a dependência da arte em relação à vida tão. Deveria sê-lo. Porém não o é. Se a humanidade atravessa uma " in-
real e, em particular, a técnica do período considerado de uma maneira fância", em seguida uma idade adulta (descontando tudo que há a des-
razoavelmente criticável, misturando as condições necessárias e suficien- contar no uso das metáforas), Spinoza deveria, necessariamente, ser mais
tes ou antes condições negativas triviais e verdadeiras razões suficientes. "maduro" que Aristóteles. Mas não o é. Estes enunciados não têm senti-
"A idéia da natureza", pergunta ele, "e das relações sociais que alimenta do. Kant não é superior a Platão - nem inferior (embora seja bom
a im;iginação grega e portanto a (mitologia) grega, é compatível com os lembrar-nos que um filósofo "científico" e não "literário", A.N. Whi-
te~res automáticos, as locomotiva s e 9 telégrafq elétrico? Que é Vulcano tehead, escreveu que a melhor maneira de compreender o conjunto da fi-
ao lado de Roberts and Co., Júpiter ao lado do pára-raios, e Hermes ao losofia ocidental é considerando-o como uma série de anotações margi-
lado do crédito mobiliário? ... Que acontece com Fama, diante do Priting nais ao texto de Platão).' No entanto, a tecnologia contemporânea, en-
house Square? ... Aquiles é possível na idade da pólvora e do chumbo? Ou quanto tecnologia, é infinitaménte "'superior'" à tecnologia grega. O que é
a Ilíada em geral, com a imprensa, com a máquina de imprimir? Os can- que Marx e os marxistas (vulgares ou refinados) teriam a dizer sobre este
tos, as lendas, as Musas não desapareceriam necessariamente diante da divórcio? Nada. Na melhor hipótese, eles podem brincar com as pala-
barra do impressor? E as condições necessárias para a poesia épica não se vras, dizendo por exemplo que a sociedade burguesa é mais "progressis-
dissipam?" Ele constata então que a di'ficuldade não é compreender que a ta" do que a sociedade antiga, mas não "superior" a esta. Mas essas dife-
arte grega e a epopéia estão ligadas a certas formas do desenvolvimento renças, aparentemente inocentes, destroem total e irreversivelmente o
social (afirmação trivial se significa que Aquiles não podia usar b lue- conjunto da concepção marxista da história. Se "progressividade" e "in-
jeans e revólver, vazia em qualquer outro caso, posto que não podemos ferioridade" podem ser colocadas no mesmo n ível, ou, inversamente, se
explicar a correspondência, evidente sob outro ponto de vista, entre epo- uma sociedade pode ser "materialmente" mais "atrasada" do que outra,
péia e antigilidade ou romances e época moderna sobretudo porque estas mas "culturalmente" superior a esta, que resta da concepção materialista
mesmas "formas de desenvolvim~nto sqcial" não p~odu;ziram ooras aná- da história, de seu "desenvolvimento dialético" etc.?
logas e outros lugares), mas sim compreender por que "elas nos propor-
Sobre a "unidade da história", o sócio-centrismo e o relativismo. Com-
ciona.m ainda um prazer artístico e sob determinados pontos de vista nos
panheiros ingleses objetaram ao que foi dito acima em relação à antino-
s_erver:n de norma, são para nós )Jm f!lOdelo inacessível". Observamos
que, se alguma vez a história produziu, em algum lugar, um modelo ina-· mia constitutiva do conhecimento histórico, afirmando que negamos as-
sim a unidade da história e que somos levados a um ecletismo histórico.
cessível (e mesmo simplesmente inexcedível), toda discussão em termos
de "progresso" torna-se pura tolice. A solução para a dificuldade ofereci- Porém, o que é a "unidade" da história, além das definições pura-
da por Marx, consiste em atribuir "o encanto que encontramos nas obras mente descritivas, como por exemplo o conjunto dos atos dos bípedes fa-
de arte" dos gregos ao fato de que estes eram "crianças normais"; seria lantes? A "unidade dialética" da história é um mito. O único ponto de
partida claro para refletir sobre o problema é que cada sociedade coloca
"a infância histórica da humanidade no melhor de seu desabrochar" que
uma "visão dela mesma" que é, ao mesmo tempo, uma "visão do mun-
"exerceria a atração eterna do momento que não voltará mais". "Solu-
do" (inclusive de outras sociedades das quais ela possa ter conhecimento)
ção" onde o grande pensador se mostra, por uma vez, ele mesmo pueril.
- e que esta "visão" faz parte de sua "verdade" ou de sua "realidade re-
Só podemos rir diante da suposição de que Édipo Rei nos encantaria por
fl~tida" p_ara dizer como Hegel - se.m _que esta se reduza àquela.
sua "ingenuidade" e sua "sinceridade". E que dizer da filosofia? Estamos
sempre lendo Platão e Aristóteles e acumulando as interpretações uma Não sabemos nada sobre a Grécia, se não soubermos o que os gre-
sobre as outras, porque estamos presos ao encanto de sua normalidade gos sabiam, pensavam e sentiam a respeito de si mesmos. Mas, eviden~e­
infantil? O texto se interrompe bruscamente neste ponto, e não há por mente, existem coisas igualmente importantes, concernentes à Grécia,
que nos determos num manuscrito não publicado por seu autor - a não que os gregos não sabiam e nem p~deriam ~aber. Podemos vê-los-: po-
ser para constatar que o problema continua, maciço e maciçamente im- rém a partir de nosso lugar e por mterméd10 deste lugar. E ver, e isso
pensável dentro do referencial marxiano. Como é possível, na verdade, mesmo. N unca verei nada de todos os lugares possíveis ao mesmo tempo;
que a leitura de Kant e Hegel não elimine a necessidade de ler Platão e cada \'.eZ, vejo de um determinado lugar, vejo um "aspecto", e vejo numa
Aristóteles (enquanto que a leitura de um bom tratado de física dispensa "perspectiva". E eu vejo significa eu vejo porque eu sou eu, e não vejo so-
a leitura de Newton, salvo se formos historiadores da ciência), como é mente .com meus olhos; quando vejo alguma coisa toda minha vida aí es-
possível que algumas frases desses autores nos façam refletir mais do que tá, encarnada nesta visão, neste ato de ver. Tudo isso não é uma "falha"
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de nossa visão, é a visão. O resto, é a terna fantasia da teologia e da filo- ultrapassada pela pesquisa que ela mesma desencadeou, e deve tomar seu
sofia. lugar na história das teorias, sem que isso pon_!la ~m questão_ o seu lega-
Ora, é essa fantasia que ressurge na pretensão de estabelecer uma vi- do. Podemos dizer como Che Guevara, que nao e mais preciso declarar
são total da história. Visão total que os marxistas já pensam possuir, ou hoje em dia que somos marxistas, como não há necessidade de dizer que
então postulam para o futuro, subentendendo, por exemplo, que o sócio- somos pasteurianos ou newtonianos - contanto que se compreenda ver-
centrismo seria eliminado numa sociedade socialista. Isso equivale à afir- dadeiramente o que isso quer dizer: todo mundo é "newtoniano" no se~­
mação absurda de que numa sociedade socialista poderemos ver de ne- tido de que não se trata de v?ltar à maneira de apr~sentar '?s pr?b,l,emas
nhum lugar (ver de algum lugar, é ver numa perspectiva) - e ver tudo, ri- ou voltar às categorias anteriores a Newton; mas nmguéni e mais new-
gorosamente tudo, inclusive o futuro; pois se não vemos o futuro, como toniano" realmente, visto que ninguém pode mais ser partidário de uma
podemos falar de visão total da história? Como podemos atribuir uma teoria que é pura e simplesmente falsa 1•. • ••
significação ao "passado" se não sabemos o que vem depois? Será que a Mas na base desta teoria histórica existe uma filosofia da historia,
significação da Revolução russa era "a mesma" em 1918,em 1925, em profunda e contraditoriamente tecida junto com ela, e ela própria contra-
1936 e hoje? Ou existe, num lugar supraceleste, uma idéia, uma "signifi- ditória como veremos. Esta filosofia não é nem ornamento nem comple-
cação em si" da Revolução russa, incluindo, como seria necessário, todas mento, ela é necessariamente fundamento. Ela é a base tanto da teoria da
as conseqüências deste acontecimento até o fim dos tempos, e à qual os história passada, como da concepção· política, da perspectiva ~ do pro-
marxistas teriam acesso? Como é então possível que, desde há cinqüenta grama revolucionários. O essencial é que ela é uma filosofia rac1onahsta,
anos, eles não tenham compreendido nunca nada do que se passa? .. e, como todas as filosofias racionalistas, se oferece antecipadamente aso-
Reconhecer essas evidências não leva de modo algum a um simples lução de todos os problemas que coloca.
ceticismo ou relativismo. O fato de que não possamos jamais explorar se-
não "aspectos" sucessivos de um objeto, não suprime a diferença entre
um cego e um homem que vê, entre um daltônico e um normal, entre al- O racionalismo objetivista
guém sujeito a aluc~nações e alguém qu~ não o é. Não suprime a diferen- A filosofia da história marxista é, em primeiro lugar, e sobretudo,
ça entre quem não sabe que .o ângulo do bastão que se vê dentro d'água é um racionalismo objetivista. Já vemos isso na teoria marxista da história
uma ilusão de qtica, e quem o. sabe - e que, por isso, vê, ao mesmo tempo aplicada à história passada. O objeto da teoria da história é um ob~:to
o bastão reto. O objeti·vo de verdade, quer se trate de história ou de qual- natural e o modelo que lhe é aplicado é um modelo anál?go _ao das ~1en­
quer outra coisa, é apenas este projeto de esclarecer outros aspe<;tos do cias da natureza. Forças que agem sobre pontos de aphcaçao definidos
objeto, e de nós mesmos, de situar as ilusões e as razões que as originam, produzem resultados predeterminados .d~ acordo cof!l ~m.grande_es~~e­
de agrupar tudo isso de uma maneira que denominamos - outra expres- ma causal que deve explicar tanto a estat1ca como a dmam1ca da historia,
são misteriosa - coerente. Projeto infinito. é claro. E, ao contrário do que a constituição e funcionamento de cada soci~dade, assim como o dese-
pensavam os marxistas (e às vezes o próprio Marx). a "posse da verdade"
tomada num sentido "absoluto", portanto mítico, nunca foi e nem é, o
a
quilíbrio e perturbação que devem conduzi-las a uma nova forma. A his-
tória passada é portanto racional, no sentido de que tudo ne_la se desen-
pressuposto da revolução e de uma reconstrução radical da sociedade; a volveu segundo causas perfeitamente adequadas e penetráveis por nossa
idéia de uma tal "posse" não é somente intrinsecamente absurda (impli- razão em suas condições de 1859. O real é perfeitamente explicável; em
cando ã conclusão deste projeto infinito), mas profundamente reacioná- princípio, é desde já explicado (podemos escrever monografias sob:e as
ria, porquanto a crença numa verdade acabada e adquirida em definitivo causas econômicas do nascimento do Islã no século VII, elas verifica-
(e portanto possível por alguém ou por alguns) é um dos funda~entos da rão a teoria materialista da história e nada nos ensinarão sobre esta). O
adesão ao fascismo e ao stanilismo. passado da humanidade é conforme à razão, no sentido de que a tudo
nele pode-se atribuir uma razão e que essas razões formam um sistema
3. A FILOSOFIA MARXISTA DA HISTÓRIA coerente e exaustivo.
Mas a história do futuro é também racional, porquanto ela realizará
A teoria marxista da história apresenta-se, em primeiro lugar, como a razão e desta vez num segundo sentido: não mais somente no sentido
uma teoria científica, por conseguinte como uma generalização demons-
trável ou contestável a .nível da investigação empírica. Isso, ela o é indis- 36 Completamente falsa e não "aproximação aprimorada pelas teorias ulteriores'". A .1
cutivelmente e, como tal, era inevitável que tivesse o destino de toda teo- idéia de ··aproximações sucessivas" de uma a~umulaçã'? aditiva das verdades ci~_nti~cas é
ria científica importante. Depois de haver provocado uma reviravolta uma tolice progressista do século XIX que ainda domina amplprncnte a consc1enc1a dos
enorme e irreversível em nossa maneira de ver o mundo histórico, ela foi cientistas.
54 55
do fato, mas no do valor. A história do futuro será o que ela deve ser, ve- t;: certo que não podemos pensar a história sem a categoria da causa-
rá nascer uma sociedade racional que encarnará as aspirações da huma- lidade, e também que, contrariamente ao que afirmaram filósofos idealis-
nidade. onde o homem será enfim humano (o que significa que sua exis- tas, a história é por excelência o domínio onde a causalidade tem um sen-
tência coincidirá com sua essência e seu ser efetivo realizará seu concei- tido para nós, posto que ela toma de inicio a forma da motivação e em
to). conseqilência podemos compreender um encadeamento "causal", o que
Finalmente, a história é racional num terceiro sentido: o da ligação nunca é possível no caso dos fenômenos naturais. Que a passagem da
de passado e ·futuro, do fato que se tornará necessariamente valor, desse corrente elétrica torne a lâmpada incandescente ou que a lei da gravita-
conjunto de leis quase naturais cegas que cegamente lutam pela produ- ção faça com que a lua se encontre em tal momento em tal lugar no céu,
ção do estado menos cego de todos: o da humanidade livre. Existe, por são e serão sempre para nós conexões necessárias mas exteriores, previsí-
conseguinte, uma razão imanente às coisas, que fará surgir uma socieda- veis, mas incompreensíveis. Mas quando A pisa no pé de B e B insulta A
de milagrosamente coerente com nossa razão. e A revida com uma bofetada, compreendemos a nec~ssidade de encadea-
O hegelianismo como podemos em 'verdade ver, não está ultrapassa- mento, embora possamos considerá-lo contingente (criticar o "descon·-
do. Tudo o que é e tudo o que será real, é e será racional. Que Hegel pare trole" dos participantes já que "poderiam ter" se deixado controlar - em-
esta realidade e esta racionalidade no momento em que aparece sua pró- bora sabendo, por experiência própria, que em certos momentos não nos
pria filosofia, enquanto que Marx as prolonga indefinidamente até e in- podemos controlar). Qe um modo mais geral, seja sob a forma de moti-
clusive a humanidade comunista, não enfraquece o que dizemos, antes o vação, sob a do meio técnico indispensável, do resultado obtido porque
reforça. O império da razão que, no primeiro caso, englobava (por um estabelecemos intencionalmente suas condições, ou do efeito inevitável
postulado especulativo necessário) o que já está dado, estende-se agora ainda que não desejado de tal ou qual ato, pensamos e fazemos nossa
também a tudo o que poderá ser dado na história. O fato de que o que vida e a dos outros constantemente sob a forma de causalidade.
podemos dizer desde agora sobre o q ue será torna-se .cada vez mais vago Existe o causal, na vida histórica e social, porque existe o "racional
na medida em que nos afastamos do presente, provém de limitações con- subjetivo": a disposição das tropas cartaginesas em Cannes (e sua vitória)
tingentes de nosso conhecimento e sobretudo de que se trata de fazer o é o resulta do de um plano racional de Aníbal. E existe também porque há
que há por fazer hoje e não de "dar receitas para as cozinhas socialistas o "racional objetivo'', porque relações causais naturais e necessidades
do futuro" . Mas esse futuro está desde já fixado em seu princípio: ele será puramente lógicas estão constantemente presentes nas relações históri-
liberdade, como o passado e o presente foram e são necessidade. cas: sob certas condições técnicas e econ·õmicas, produção de aço e extra-
Existe portanto uma "astúcia da razão", como dizia o velho Hegel, ção de cavrão estão entre si numa relação constante e quantificável (mais
existe uma razão trabalhando na história, garantindo que a história pas- geralmente, funci onal). E existe também o "causal bruto", que constata-
sada é compreensível, que a história futura é desejável e que a necessida- mos sem poder reduzi-lo a relações racionais · subjetivas ou objetivas,
de aparentemente cega dos fatos é secretamente arranjada para produzir correlações estabelecidas cujo fundamento ignoramos, regularidades de
o bem. comportamento, individuais ou sociais, que permanecem puros fatos.
O simples enunciado desta idéia é bastante para mostrar a quantida- A existência destas relações causais de ordens diferentes permite,
de extraordinária de problemas que ela esconde. Só poderemos abordar, além da simples compreensão dos comportamentos individuais ou de sua
e resumidamente, alguns destes. regularidade, englobá-los em "leis", e dar a estas leis expressões abstratas
das quais o conteúdo "real" dos comportamentos individuais vividos foi
O determinismo eliminado. Essas leis podem fundâmentar previsões satisfatórias (que se
verificam com um grau de probabilidade determinado). Temos assim,
Dizer que a história passada é c:;ompreensível, n·o sentido da concep- por exemplo, no funcionamento econômico do capitalismo uma quanti'-
ção marxista da história, significa que existe um determinism o causal sem dade extraordinária de regularidades observáveis e mensuráveis, que po-
interrupção "importante" 11 , e que esse determinismo é, em segundo demos chamar de "leis" numa primeira aproximação, e que fazem com
grau, se podemos dizer assim, portador de significações que se encadeiam que, sob um grande número de seus aspectos, esse funcionamento pareça
em totalidades em si mesmas signíficantes. No entanto, nem uma ném por sua vez explicável e compreensível e seja até certo ponto, previsível.
outra dessas idéias pode ser aceita sem discussão. Além mesmo da economia, existe uma série de "dinâmicos objetivos"
parciais. Todavia, não conseguimos integrar essas dinâmicas parciais
num determinismo total do sistema, e isso num sentido totalment~ dife-
rente daquele que traduz a crise do determinismo na física moderna: não
37. Ver acim.a, nota 25. que o determinismo desm9rone ou se to_r!'le problemático nos limites do
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sistema, ou que apareçam falhas em seu interior. É antes o inverso: como evidência se perde tão logo a olhamos mais de perto. Constatamos então,
se alguns aspectos, algumas formas somente do social se submetessem ao com Engels, que a "história é o m'undo das intenções inconscientes e dos
determinismo, mas mergulhassem elas próprias num conjunto de rela- fins não desejados". Os resultados reais da ação histórica dos homens
ções não deterministas. não são jamais, por assim dizer, aquilo que os atóres haviam procurado.
É preciso compreender bem em que se baseia esta impossibilidade. Isso talvez não seja difícil de compreender. Mas o que cria um problema
As dinâm!cas parciais ·que estabelecemos são obviamente incompletas; central, é que esses resultados, que ninguém desejou como tais, aprese!l-
elas reenviam constantemente umas às outras; .toda modificação de uma tam-se como "coerentes" de um certo modo, possuem uma "significa-
modifica todas as outras. Mas se isso pode criar enormes dificuldades na ção" e parecem obedecer a uma lógica que hão é nem sequer uma lógica
prática, não cria nenhuma de princípio. No universo ffsico também, uma "subjetiva" (trazida por uma consciência, estabelecida por alguém), nem
relação só vale desde que "tudo mais permaneça igual". uma lógica "objetiva", como a que acreditamos descobrir na natureza - e
A impossibilidade em questão não se prende à complexidade da ma- que podemos chamar de lógica histórica.
téria social, prende-se a sua própria natureza. Prende-se ao fato de que o Centenas de burgueses, tocados ou não pelo espírito de Calvino e
.social (ou históric.o) contém o não-causal como um momento essencial. pela idéia da ascese universal dedicam-se a acumular. Milhares de arte-
Esse não-causal aparece em dois níveis. O primeiro, de menor im- sãos arruinados e de camponeses famintos encontram-se disponíveis para
portância aqui, é o dos desvios que apresentam os comportamentos reais trabalhar ~as fábricas. Alguém inventa uma máquina a vapor, um outro,
dos indivíduos em relação a seus comportamentos "típicos". Isso intro- um novo tipo de tear. Filósofos e físicos tentam pensar o universo como
duz um elemento imprevisível, mas que como tal não poderia impedir um. uma grande máquina e descobrir suas leis. Reis continuam a submeter e a
tratamento determinista, pelo menos a nível global. Se estes desvio~ são· castrar a nobreza e criam instituições nacionais. Cada um dos indivíduos
sistemáticos, podem ser submetidos a uma investigação causal; . se são e dos grupos em questão persegue seus próprios fins, ninguém visa a tota-
aleatórios, são passíveis de um tratamento estatístico. A imprevisibilida- lidade social como tal. Entretanto, o resultado é completamente outro: é
de dos movimentos das moléculas individuais não impediu a teoria ciné- o capitalismo. É absolutamente indiferente, neste contexto, que este re-
tica dos gases de ser um dos ramos mais rigorosos da física, e é exatamen- sulta~º- tenha si?o perfeitamente determinado pelo conjunto de causas e
te esta imprevisibilidade indjvidual que fundamenta a força extraordiná- con?1çoes. Admitamos que se possam mostrar para todos estes fatos, in-
ria da teoria. clusive para a cor dos sapatos de Colbert, todas as conexões causais mul-
· M·as o não-causal aparece em outro nível, e é este que nos interessa. tidimensionais que os ligam entre si e ligam seu conjunto às "condições
Aparece como comportamento não simplesmente "imprevisível", mas inici~is ?º sistema". O que .importa aqui é que esse resultado possui uma
criador (dos indivíduos, dos grupos, das classes ou das sociedades intei- coerenc1a que nada nem ninguém desejava ou garantia, quer no início
ras); não como simples desvio relativo a um tipo existente, mas como po- quer em seu desenvolvimento; e que ele possui uma significação (mais,
sição de um novo tipo de comportamento, como instituição de uma nova ·parece encarnar u~ sistema virtualmente inesgotável de signifi cações),
regra social, como invenção de um novo objeto ou de uma forma nova - que faz com que haja aí uma espécie de entidade histórica que é o capita-
em suma, como aparecimento ou produção que não se deixa deduzir a lismo.
partir da situação precedente, conclusão que ultrapassa as premissas ou Esta significação ap~rece de .diver~as maneiras. Ela é aquilo que,
posição de novas premissas. Já observamos que o ser vivo vai além do atr.avés de todas as cone~oes causais e alem delas, confere uma espécie de
simples mecanismo porque pode dar novas respostas a novas situações. unidade a todas as manifestaç.ões da sociedade capitalista fazendo com
Mas o ser histórico ultrapassa o ser simplesmente vi_vo porque ele pode que reco~heçamos imediatamente em tal fenômeno um fenômeno desta
dar novas respostas às "mesmas" situações ou então criar novas situações. cultura, que nos faz imediatamente situar nesta época objetos livros ins-
A história não pode ser pensada segundo o esquema determinista trum7ntos, frases d~s qu~is nada conheceríamos em outra perspe~tiva,
(nem, aliás, segundo um esqµema "dialético" simples), porque ela é o excluindo, também, 1med1atamente, uma infinidade de outras. Ela apare-
domínio da criação. Voltaremos a este ponto na seqüência do texto. ce como. a exis.tênci.a simu ~tânea de l!m conjunto i·nfinito de possíveis e de
u~ conjunto infinito de 1mpossíve1s dados desde o início. Ela aparece
ainda no fato de que tudo o que se passa rio interior do sistema não so-
O encadeamento das significações mente se produz à maneira de algo como " o espírito do siste~a" mas
e a "astúcia da razão" também contribui para consolidá-lo (ainda mesmo quando se opõe a ele
e tende em última instância a derrubá-lo como ordem real).
Mais além do problema do determinismo na história, existe um
problema das significações "históricas". Em primeiro lugar, a história .Tudo se passa como se esta significação global do sistema fosse dada
aparece como o lugar das ações conscientes de seres conscientes. Mas esta previamente, como se ela "predeterminasse" e sobredeterminasse os en-
58 59

j
-
cadeamentos de causalidade, como se os escravizasse fazendo-~s produ- sos etnólogos, analisando e expon9o o funcionamento destas sociedades,
zir resultados rorrespondentes a uma "intenção'' que, obviamente, é so- introduzem mais coerência do que a que reàlmente existe, esta impressão
mente uma e;. •ressão metafórica, posto que não é a intenção de ninguém. •não é, e nem pode ser totalmente ilusória: afinal, essas sociedades funcio-
Marx diz em algum lugar que "se não existisse o acaso, a história seria nam, e são estáv~is, são mesmo "auto~estabilizadoras" e capazes de reab-
pura magia" - frase profundamente verdadeira. Mas o espantoso é que o sorver choques importantes (salvo, evidentemente, o do contato com a
próprio acaso toma na história, na maioria das vezes, a forma do acaso. "civilização").
significante, do acaso "objetivo", do "como por acaso", como dii tão Seguramente, no mistério desta coerênéia podemos operar uma
adequadamente a ironia popular. O que é que pode dar ao incalculável grande redução causal - e é nisso que consiste o estudo "exato" d~ uma
número de gestos, atos, pensamentos, condutas individuais e coletivas sociedade. Se os adultos se comportam de determinada forma, é porque
que compõem um.a sociedade, esta unidade de um mundo, onde uma cer- foram educados de uma certa maneira; se a religião deste povo possui·tal
la ordem gerada no caos-(ordem de sentido, não necessadamente de cau- conteúdo, isso corresponde à "personalidade de base" desta cultura; se as.
sas e efeitos}, pode sempre ser encontrada? O que é que dá aos grandes relações do poder são assim organizadas, isso é condicion~do por esses·
acontecimentos históricos.. esta aparência, que é mais do que a aparência fatores econômicos ou inversamente etc. Esta redução causal não esgota
de uma tragédia admiravelmente calculada e encenada, onde ora os erros o problema, mas faz apenas aparecer, no final, sua carcaça: Os encadea-
.evidentes do·s atores são absolutamente incapazes de impedir a produção .mentos que ela põe em evidência, por exemplo, ·são encadea~entos de
do re5ultado, onde a ''lógica interna" do processo se mostra capaz de in- atQS individuais situando-se no quadro predeterminado, ao mesmo tem-
·ventar e de fazer aparecer no momento desejado todos os golpes e pontos po. de uma vida social já coerente a cada momento como totalidade con-
'de apoio, todas as compensações e todos os·truques·necessários para que creta " (sem o que não haveria comportamentos individuais) e de um
o processo tenha êxito - e ora o ator, até então infalivel, comete o único conjunto de regras explicitas, mas também implicitas, de uma organiza-
erro de sua vida, que por sua vez era indispensável para a obtenção do re-. ção, de uma estrutura, que é um aspecto desta totalidade e ao mesmo
sultado "visado"? . tempo diferente dela. Essas regras são elas mesmas sob certos aspectos o
Esta significação, já diferente da significação efetivamente vivida produto desta vida social e em muitos casos (quase nunca no que se refere
para os atos determinados de indivíduos precisos, apresenta, como tal, às ·sociedades arcaicas, freqilentemente para as sociedades históricas)
um problema propriamente inesgotável. Porque há irredutibilidade da pode-se inserir su·a produção na causalidade social (por exemplo, a aboli-
significação à causalidade, construindo as significações um tipo de enca- ção da servidão ou a livre concorrência introduzidas pela burguesia ser-
deamento distinto, e no entanto inexplicavelmente ligado ao dos enca-· vem seus propósitos e são explicitamente desejadas por isso). Mas, mes-
deamentos de causalidade. . mo quando chegamos a "produzi-las" deste modo, o fato é que seus au-
· Consideremos, por exemplo, a questão da coerência de uma determi- tores não estavam e nem podiam estar conscientes da totalidade de seus
nada sociedade· - uma sociedade arcaica ou uma sociedade capitalista. O efeitos e de suas implicações - e que no entanto estes efeitos e estas impli-
que é que faz com que esta sociedade "tenha unidade", que as regras (.iurl-. cações se "harmonizam" inexplicavelmente com o que já existia ou com
dicas ou morais) que comandam o comportamento dos adultos sejam o que outros no mesmo momento produzem em outros setores da frente
·coerentes com as motivações destes, que elas sejam não somente com- social 'º· E resulta que, na maioria dos casos, "áutores" conscientes sim-
patíveis mas profunda e misteriosamente ligadas ao modo de trabalho e plesmente não existiam (no essencial, a evolução das formas de vida fa-
de produção, que por sua vez tudo isso corresponda à estrutura familiar, miliar, fundamental para a compreensão de todas as culturas, não depen-
ao modo de amamentação, de desmame, de educação das crianças, que· deu de atos legislativos explícitos e ainda menos de atos resultantes de
exista u~a estrutura finalmente definida da personalidade humana nesta
cultura, que essa cultura comporte somente suas próprias neuroses e não
outras, e que tudo isso se coordene com uma visão do mundo, uma reli- 39 Portanto, simples remissão à série infinita de causações não resolve o problema. (Não
gião, uma maneira de comer e de dançar? Estudando uma sociedade ar- se pode explicar a coerancia como produto de uma série de processos de causação, pois tal
explicação pressupõe a coerancia na origem das virtualidades do conjunto desses processos
·caica " temos às vezes a impressão vertiginosa de que uma equipe de psi- como tal. Do mesmo modo, não poderlamos explicar a coerancia do organismo vivo desen·
canalistas, economistas, sociólogos etc., de capacidade e de saber sobre- volvido invocando simplesmente o desenvolvimento dos tecid.os e dos órgãos, e sua intera·
humanos, trabalhou antecipadamente o problema de sua coerência e le- ção; é preciso remontar a eoerência já ·estabelecida das virtualidades do germe.)
gislou estabelecendo regras calculadas para assegurá-lo. Mesmo se nos- 40 Claro, não se trata de uma verdade absoluta: existem também "leis nocivas", incoe-
rentes ou destrutivas, elas próprias, dos fins que querem servir. Esse fenômeno parece aliás,
curiosamente, limitado ãs sociedades modernas. Mas esta constat.a.ção não modific!I subs·
38 Ver, por exemplo, os estudos de Margaret Mead em Ma/e and Fema/e ou em Sex "and tancialmente o que dizemos; ela continua uma variante e)(trema da produção de regrasso-
Temperament ln '[hree Primltive Socletes. ciais coerentes.
60 61
uma consciê ncia dos mecanismos psicanalíticos obscuros que operam zação da bússola, faz aparecer desde o início um sentido coerente que se
numa família). Subsiste ainda o fato de que essas regras são estabelecidas vai afirmando e desenvolvendo.
no início de cada sociedade''. e que elas são coerentes entre si qualquer Essas considerações permitem captar. um segundo aspecto do
que seja a distância entre os domínios que lhes concernem. problema. Não é somente no nível de uma sociedade que se ma nifesta a
(Quando falamos de coerência neste context~, tomam?s a pala~ra . superposição de um sistema de significações e de uma rede de causas: é
no sentido mais a mplo possivel: para uma determmada sociedade ate a também nâ sucessão das sociedades históricas, ou, mais simplesmente,
destruição e a crise podem, de uma certa maneira, significar a coe_rênci_a em cada processo histórico . Que se considere, por exemplo, o processo
visto que elas se inserem em seu funcionamento, não provocam Jamais do aparecimento da burguesia, que j á citamos anteriormente; <?.U melhor
uma derrocada, uma pulverização pura e simples, são "suas" crises e ainda aquele, que pensamos conhecer tão bem que conduziu à Revolução
"sua" incoerência. A grande depressão de 1929, como as duas guerras russa de 1917, primeiro, e ao poder da burocracia em seguida.
mundiais são claras manifestações "coerentes" do capitalismo, não sim, Não é possível aqui, e aliás não é necessário, relembrar as causas
plesment~ porque se imbricam em seus encadeamentos d e causalidade, profundas que trabalhavam a sociedade russa, conduziam-na em _dir~çã_o
mas porque fazem progredir seu fun cionamento enquanto ·~unci?namen­ de uma segunda crise social violenta aJ1ós a de 190.5 e fixam os pnnc1pa1s
to do capitalismo; no que é de mil maneiras seu contra-sentido amda po- atores do drama nas classes essl!nciais da sociedade. Não nos parece difi-
demos ver, de mil maneiras, o sentido do capitalismo). cil compreender que a sociedade russa estava grávida de uma revolução,
Existe uma segunda redução que pqdemos operar: se todas as socie- e nem que nesta revolução o proletariado teria um papel determinante -
dades que observamos, no presente ou no passado, são coerentes, não há não insistiremos nisso. Mas esta necessidade compreensivel continua
razão para espanto, posto que, por definição, somente as sociedades coe- "sociológica" e abstrata; é preciso .que ela se mediatize em processos pre-
rentes são observáveis; sociedades não-coerentes teriam desmoronado de cisos, que ela se encarne em atos (ou omissões), datados e assinados por
imediato e delas nada poderíamos dizer. Esta idéia, por importante que pessoas e grupos definidos que atinjam o sentido desejado; é ~reciso ain-
seja, ta mbém não encerra a discussão; ela não poderia fazer "compreen- da que ela encontre de início uma quantidade de condições CUJa presença
der" a coerência das sociedades observadas, senão recorrendo a um pro- não se pode dizer que fosse garantida pelos próprios fatores que criavam
cesso de "ensaio e erro" onde somente subsistiriam por uma espécie de a "necessidade geral" da revolução. Um aspecto da questão, de menos
seleção natural as sociedades "viáveis". Mas já na biologia, onde a evolu- importância se quisermos, mas que permite ver fácil e claramente o que
ção dispõe de milhares de anos e de um processo infinitamente rico em queremos dizer, é o do papel dos indivíduos. Trotsky, em sua Histoire de
a
variações aleatórias, seleção natural através de ensaio e erro não parece la révolution russe, não o negliencia de forma alguma. Ele é às vezes toma-
capaz de explicar o problema da gênese das espécies; parece que formas . do de espanto, que transmite ao leitor, diante da perfeita adequação do
"viáveis" são produzidas bem acima da probabilidade estatística de seu caráter das pessoas e dos "papéis históricos" que elas são chamadas a de-
aparecimento. Em história, o remetimento a uma variação aleatória e a sempenhar; também se surpreende com. o fato _de que tão logo a situação
um processo de seleção p arece gratuito, e aliás o problema se coloca "exige" um personagem de um determmado tipo, esse personagem apa-
num nível anterior (em biologia também!): o desaparecimento dos povos rece (lembra mos os paralelos que ele traça entre Nicolau II e Luís XVI,
e nações descrito por Herodes pode ser o resultado de seu encontro com entre a Czarina e Maria Antonieta). Qual é pois a chave deste mistério? A
outros povós que os esmagaram ou absorveram, o que não impede q~e os resposta que Trotsky dá parece ainda de natureza sociológica: tudo, na
primeiros já tivessem uma vida organizada e coerente, que te~ia contmua- vida e na existência histórica de uma classe privilegiada em decadência,
do sem esse encontro. Aliás, vimos com nossos olhos, próprios ou meta- tende a produzir indivíduos sem idéias e sem caráter, e ~.e um individuo
fóricos", o nascimento de sociedades e sabemos que isso nã? se passa as- excepcionalmente diferente aí aparecesse, ele nada poderia fazer com es-
sim. Não vemos, na Europa do século XIII ·ao XIX, surgir um gra nde ses materiais e contra a "necessidade histórica"; tudo, na vida e existên-
número de tipos de sociedades diferentes, das quais todos exceto um de- cia da classe revolucionária, tende a produzir individuo·s enérgicos e com
saparecem porque incapazes de sobreviver; vemos um fenômeno, o nasci- objetivos firmes . A resposta, sem dúvida alguma, contém uma grande
mento (acidental com referência ao sistema que a precedeu) da burguesia, parte de verdade, mas no entanto ela não é suficiente, ou melhor, ela diz
que, através de suas mil ramificações e suas manifestações mais co~tra?!­ muito e, ao mesmo tempo, muito pouco. Ela _d iz muito porque deveria
tórias, dos ba nqueiros lombardos a Calvino, e de Giordano Bruno a ut1h- ser válida para todos os casos, mas só vale prec;1samente para os casos em
que a revolução foi vitoriosa. Porque o proletariado húngaro só produziu.
como chefe enérgico Bela K u~, a quem Troysky não se çansa de. dirigir
sua ironia depreciativa, porque o proletar iado alemão não soube reco- 1
41 . Não dizemos "da sociedádc", não discutimos o problema metafisico das origens. nhecer ou substituir Ro5a Lilxemburgo e Karl Liebknecht, onde estava o
62 63

J
n
li
Lenine francês em 1936? Dizer que neste caso a situação não estava ma- zação da Rússia no inicio, utilizamos processos totalmente diferentes,
li dura para que os chefes apropriados aparecessem é precisamente aban- como a relação entre a classe revolucionária e seu partido, a "maturida-
n donar a interpretação sociológica, que pode pretender legitimamente a. de" da primeira e a ideologia do segundo. Ora, do ponto de ~ista socioló-
uma certa compreensibilidade e voltar ao mistério de um a situação singu- gico, não há dúvida de que a forma canônica da burocracia é a que emer-
1) lar que exige ou impede. Aliás a situação que devia impedir não impede ge numa etapa adiantada de desenvolvimento do capitalismo. Contudo, a
sempre: há meio século, as classes domi nantes souberam às vezes esco- burocracia que aparece primeiro historicame11te é a que surge na Rússia
11 lher chefes que, qualquer que f9sse seu papel histórico, não foram ·n em os desde o dia seguinte à revolução, sobre as ruínas sociais e materiais doca-
n Príncipe Lvov, nem Os Kerensky. Mas a ~xplicação também não é sufi- pitalismo; e foi ela que, através de mil influências diretas e indiretas, for-
ciente porque não pode mostra~ por que o acai:o foi excluído justamente temente induziu e acelerou o movimento de burocratização do capitalis-
rt onde ele aparece mais atuante, porque age sempre "no bom sentido" e- mo. Tudo aconteceu como se o mundo moderno incubasse a burocracia -
poque os infitos acasos que se lhe opõem não aparecem. Para que a Re- e para produzi-la tivesse lançado mão de todos os recursos, inclusive dos
11 volução triunfasse, era preciso a falta de energia do tzar, e o caráter da que pareceriam menos adequados, ou seja, do marxismo, do ~ovimentci
tzarina, era preciso Rasputine e os absurdos da Corte, era preê:iso Ke- operário e da revolução proletária.
Q
,, rensky e Ko.rnilov: era preciso que Lenine e Trotsky voltassem a Petro-
grado, e para isso era necessário um erro de raciocínio do grande Esta-
Como ocorre no problema da coerência da sociedade, também aqui
há uma redução causal que podemos e devemos operar - e é nisto que
do-Maior alemão e outro do governo britânico - para não falar de todas consiste um estudo ao mesmo tempo exato e racional da história. Mas
~1 as difterias e todas pneumonias que conscienciosamente evitaram essas esta redução causal, como vimos, não suprime o problema. Há em segui-
duas pessoas desde seu nascimento. Trotsky coloca· objetivamente a ques- da uma ilusão que é preciso eliminar: a ilusão de racionalização retros:
ti tão: sem Lenine, será que a revolução teria triunfado, e, após discussão, pectiva. Este material histórico, onde não podemos deixar de ver articu-·
if tende a responder negativamente. Pensamos que ele tem razão, e que, lações d e sentido, entidades bem definidas, de aparência, diríamos, pes-
aliás, poderíamos dizer o mesmo em relação a ele ". Mas em que sentido soal - a guerra do Peloponeso, a revolta de Espartacus, a Reforma, a Re-
1tl podemos dizer que a necessidade interna da revolução garante o a pareci- volução francesa - foi ele mesmo que construiu nossa idéia do que são o
mento de indivíduos como Lenine e Trotsky, sua sobrevivência até 1917 e sentido e uma figura históricos. Estes acontecimentos são os que nos en-
~ súa presença, muito improvável, em Petrogrado no momento necessário? sinaram o que é um acontecimento, e a r~cionalidade que ai encontramos
111 l:. forçofo constatar que a significação da revolução se afirma e se com- depois só nos surpreende porque esquecemos que daí a havíamos extraí-
pleta através dos encadeamentos de causas sem relação com ela e que, no do Jogo de inicio. Quando Hegel diz pouco mais ou menos que Alexandre
li entanto, são, inexplicavelmente, ligados a ela. :necessariamente devia morrer aos trinta e três anos, porque morrer jo-
O nascimento da burócracia na Rússia, depois da revolução, possi- vem faz parte da essência de um herói e não podemos imaginar um Ale-
li bilita ainda que se veja o problema em outro nivel. Também neste caso, a xandre velho, e quando ele assim erige uma febre acidental em manifesta-
análise mostra a participação de fatores profundos e compreensíveis, ção da Razão oculta na história, podemos observar que precisamente
ll sobre os quais não nos podemos deter aqui''. O nascimento da burocra- nossa imagem do que seja um herói foi construida a partir do caso real de
ll cia na Rússia não é; certamente, um acaso, e a prova é que a burocratiza- Alexandre e de outros análogos, e que, portanto, não há nada de sur-
ção apareceu depois, cada vez mais, como a tendênda dominante do :preendente no fato de encontrarmos num acontecimento uma forma que
mundo moderno. Mas para compreender a burocratização dos países ca- se constituiu para nós em função do àcontecimento. Há uma desmistifi-
pitalistas, utilizamos as tendências imanentes à organização d a produ- cação do mesmo tipo a ser realizada numa pluralidade de casos. Mas não
ção, da economia e do Estado cap~talista. Para compreender a burocrati- esgota o problema. Primeiro, porque encontramos aqui também algo de
análogo ao que acontece no conhecimento da natureza ": quando efetua-
mos a redução de tudo o que pode p arecer racional ·no mundo tisico à ati-
42 Podemos· evidentemente discutir a respeito infindavelmentc. Podemos sobretudo di-
vidade racionalizante do sujeito que conhece, permanece ainda o fato de
zer que a revolução não teria· assumido a forma de uma tomada do poder pelo· Partido bol- que este mundo a rracio nal tem que ser tal que esta atividade possa ter
chevista, que teria consistido numa reedição da Comuna. O conteúdo de tais considerações controle sobre ele, O· que exclui que ele possa ser caótico . Em seguida,
pod\: parece r.ocioso. O fato de não podermos evitá-los mostra que a história não pode ser porque o sentido histórico (isto é, um sentido que ultrapassa o sentido
pensada, mesmo retrospcctivamente, fora das categorias do possível e do acidente que é mais efetivamente vivido e carregado pelos indivf~uos) parece completamente
que acidente .
. 43 Ver os textos reunidos cm Société bureaucratique, 1 e 2 (10/ 18, 1973) e "Le rôle de l'i-
délogie bolchévik dans la naissance de la burcaucratic", in L'Expérience du mouvement 011-
vrier. 2: Prolétariat et organfsation (l0/18, 1974), p. 385 e seguintes. 44 O que Kant qualificava, na Crítica da faculdade de julgar, de "feliz acaso".
64 65
pré-constituído no material que a história nos .oferece. Para continuar za estas significações numa significação dada, desde logo, do conjunto da
com o exemplo citado acima, o mito de Aquiles, que também morreu jo- história (a produção do comunismo) - e pretende poder reduzir integral-
vem (e de vários outros heróis que tiveram o mesmo destino) não foi mente o nível das significações ao nível das caúsações. Os dois termos da
construído em função do exemplo de Alexandre (seria antes o contrá- antinomia são assim levados ao limite de sua intensidade, mas sua síntese
rio)•>. O sentido articulado: "O herói morre jovem" parece ter sempre continua puraf!Jente verbal. Quando Lukacs diz, para mostrar que tam-
fascinado a humanidade, apesar - ou por causa - do absurdo que conota, bém a este respeito Marx resolveu o problema, que Hegel só havia sabido.
e a realidade parece haver-lhe fornecido suficiente suporte pl\ra que ele se colocar: "a "astúcia da razão" só pode deixar de ser uma mitologia sé a
tornasse "evidente". Do mesmo modo, o mito âo nascimento do herói, razão real for descoberta e mostrâda de maneira realmente concreta. En-
que através de culturas e de épocas muito diferentes, apresenta traços tão, ela é uma explicação genial para as etapas ainda ·não conscientes da
análogos (que deformam e reproduzem, ao mesmo tempo, fatos reais), e história" ", ele não diz na verdade nada. Não se trata somente de que
finalmente todos os mitos mostram que fatos e significações se misturam esta "razão real mostrada de maneira realmente concreta" se reduza efe-
na realidade histórica, muito antes de que a consciência racionalizante do tivamente para Marx a fatores té_cnico-econômicos, e que estes seja·m in-
historiador ou do filósofo intervenha. Finalmente, porque a história pa- suficientes no próprio plano da causação, para "explicar" integralmente
rece constantemente dominada por tendências, porque nela encontramos a produção dos resultados. A questão é: como podem fatores técnico-
algo como a "lógica interna" dos processos, que confere um lugar central econômicos ter uma racionalidade que os ultrapassa de muito, como
a uma significação ou complexo de significações (referimo-nos mais aci- pode seu funcionamento através do conjunto da história representar uma
ma ao nascimento e ao desenvolvimento da burguesia e da burocracia), unidade de significação que é em si portadora de uma outra unipade de
liga entre si séries de causação que não têm nenhuma conexão interna e se significação em outro nfvél? Transformar a evolução técnico-econômica
oferece a todas as condições "acidentais" necessárias. Observando a his-. em uma "dialética das forças produtivas", já é uma primeira violentação;
tória, a primeira surpresa que experimentamos é constatar que em verda- a segunda é sobrepor a esta dialética uma outra que produz a liberdade a
de, se o nariz de Cleópatra fosse mais curto, a face do mundo teria muda- partir da necessidade; a terceira é pretender que esta se reduza integral-
do. A segunda, ainda maior, é ver que tais narizes tiveram quase sempre mente àquela. Mesmo se o comunismo se reduzisse simplesmente a uma
as dimensões .requeridas. questão de suficiente desenvolvimento das forças produtivas, e mesmo se
meira surpresa que experimentamos é constatar que em verdade, se o na- este desenvolvimento resultasse in.exoravelmente do funcionamento de
riz de Cleópatra fosse mais curto, a face do mundo teria mudado. A se- leis objetivas estabelecidas com uma certeza total, o mistério permanece-
gunda, ainda maior, é ver que tais narizes tiveram quase sempre as di- ria intocado: como pode o funcionamento de leis cegas produzii um re-
mensões requeridas. sultado que tem para a humanidade, ao mesmo tempo, uma significação
e um valor positivo?
Existe portanto um problema essencial: há significações que ultra- De maneira ainda mais precisa e mais surpreendente, encontramos
passam as significações imediatas e realmente vividas e elas são dadas por este mistério na idéia marxista de uma dinâmica objetiva das contradi-
processos de causação que em si não têm significação - ou não têm esta ções do capitalismo. Mais precisa, porque a idéia é apoiada por uma aná-
determinada significação. Pressentido desde tempos imemoriais pela hu- lise específica da economia capitalista. Mais surpreendente, porque se to-
manidade, colocado explicitamente, ainda que metaforicamente, no mito taliza aqui uma série de significações negativas. O mistério, aparentemen-
e na tragédia (na qual a necessidade assume a aparência do acidente), esse te, parece resolvido, de uma ~ez que são mostrados, no funcionamento
.problema foi claramente percebido por Hegel: Mas a resposta que este do sistema econômico, os encadeamentos de causas e efeitos que o con-
proporciona, a "astúcia da razão" que consegue que elementos aparente- duzem a sua crise e preparam o caminho para uma outra ordem social.
mente sem significação sirvam à sua realização na história, evidentemen- Na realidade, o mistério continua intocado. Aceitando a análise marxista
te é apenas uma frase que nada resolve e que finalmente participa da ve- da economia capitalista, estaríamos diante de uma dinâmica de contradi-
lha obscuridade dos caminhos da Providência. ções única, coerente, e orientada, diante desta quimera que seria uma·
Ora, o problema ainda se torna. mais aguc;io no marxismo. Porque o bela racionalidade do irracional, este enigma filosófico de um mundo do
marxismo, ao mesmo tempo, mantém a idéia de significaç9es·atribuíveis contra-senso que produziria sentido em todos os níveis e finalmente reali-
dos acontecimentos e dás fases históricas, afirma mais do que nenhuma zaria nosso desejo. De fato, a análise é falsa e a projeção contida em sua
outra concepção a força da lógica interna dos processos históricos, t.otali- conclusão é evidente. Porém pouco importa; efetivamente o enigma exis-

45 Sabemos que Alexandre tinha "tomado cory10 modelo" a Aquiles. 46 lb .. p. 185.

66 67

J
, te e o marxismo não o resolve, ao contrário. Afirmando que tudo deve Evidentemente não é assim,' e se Marx manteve a dialética hegeliana,
ser compreendido em termos de causação e que, ao mesmo tempo, tudo manteve também seu verdadeiro conteúdo filosófico que é o racionalis-
deve ser pensado em termos de significa.ç ão, que só existe um único e mo. O que modificou, foi somente o envólucro, que é "espir!tuali:ta" e~
imenso encadeamento causal, que é, simultaneamente, um único e imen- Hegel e "materialista" nele. Mas, neste emprego, essas des1gnaçoes nao
so encadeamento de sentido, ele exacerba os dois pólos que o constituem passam de palavras. . . . .
ao ponto de tornar-se imposs!vel pensá-la racionalmente. Uma dialética fechada, como a dialética hegeliana, é necessariamen-
O marxismo, portanto, não ·ultrapassa a filosofia da hjstória, ele é so- te racionalista. Ela pressupõe e ''.demonstra" ao mesmo ten_ipo,_que a ~o­
mente uma outra' filosofia da história. Ele impõe aos fatos a racionalida-
de que deles parece extrair. A "necessidade histórica" que ele menciona

talidàde da experiência é exaustivamente redutí~el determmaçoes. racio-
nais. (Que, finalmente, essas determinações comc1dam ~empre, mtlagr~­
(no sentido que esta expressão teve correntemente, precisamente o de um samente com a " razão" de tal pensador ou de tal sociedade, que haja
encadeamento de fatos que conduz a história em direção do progresso) ·portarit~. no núcleo de todo racionalismo, um ary.tr.op?~~ntri~~o ou só-
não difere em nada, filosoficamente falando, da Razão hegeliana. Nos ·CÍO-centrismo, que, em outras palavras, todo rac1onahsmo er!Ja em Ra-
dois casos, trata-se de uma alienação propriamente teológica do homem . .zão tal razão particular, isso é plenamente evidente ejá bastaria para en-
Uma Providência comunista, que teria colocado em ordem a história _cerrar a discussão). Ela é a conclusão necessária de toda filosofia especu-
com o interito de produzir nossa liberdade, não deixa de ser uma Provi- lativa e sistemática, que quer responder ao problema: como podemos ter
dência. Nos dois casos, elimina-se aquilo que é o problema central de um conhecimento verdadeiro, e se atrib~i a verdade como ~istema con-
toda reflexão: a racionalidade do mundo (natural ou histórico), dando-se clufdo de relações sem ambigUidades e sem resíduo. ~ouc~ ! ~porta, em
antecipadamente um mundo racional por construção. Evidentemente relação a isso,"se seu raciónaHsmo-adqúirei.ima 'forma "oõjetivista" (co-
nada é resolvido desta maneira, pois um mundo totalmente racional se- . ·mo em Marx e Engels), o mundo sendo racional em si mesmo, sistema de
ria, por isso mesmo, infinitamente mais misterioso do que o mundo no leis regendo ilimitadamente um substratum absolutamente neutro, e n~s-
q1:1al nos debatemos. Uma história integralmente racional seria muito sa penetração destas leis derivando do caráter (incompreensível, ~•.pre~IS?
mais maciçamente incompreensível do que a história que conhecemos; dizer) de reflexo de nosso conhecimento; ou se toma uma forma sub3eh-
sua racionalidade total se fundamentaria numa total irracionalidade, vista" (como nas filosofias do idealismo alemão, inclusive até mesmo em
porque ela seria da ordem do fato puro e de um fato tão brutal, sólido e Hegel), sendo o mundo que se questiona (na ve~da?~· por conseguinte, o
envolvente que nós sufocaríamos. Finalmente, nessas condições, desapa- universo do discurso) o produto da atividade do su3e1to, o que garante de
rece o problema primordial da prática: que os hbmens têm que dar a sua imediato sua racionalidade •1 • .•
· vida individual e coletiva uma significação que não é pré-designada e que Reciprocamente, toda dialética racionalista necessariamente é uma
têm de fazê-lo dentro de condições reais, que não excluem nem garantem dialética fechada. Sem este fechamento , o conjunto dQ sistema fica em
o cumprimento de seu projeto. suspense. A "verdade" de cada determinação não é senão o .remissão à
totalidade das determinações, sem a qual cada momento do sistema fica ,
A dialética e o "materialismo" ao mesmo tempo, arbitrário e indefinido. ~ necessário •. ~ois, ~ar-se a to-
talidade sem resíduo, nada deve ficar de fora, do contrano o sistema não
Quando.o racionalismo de Marx adquire uma e)(pr~ssão filosófica é incompleto, ele não é nada. Toda dialética sistemática deve chegar a um
explicita, ele s~ apresenta como dialético; não como uma dialética geral,. "fim da história", seja sob a forma do saber absoluto de Hegel ou do
mas como a dialética hegeliana, da qual se teria retirado "a forma idealis- ..homem total" de Marx.
ta mistificada". A essência da dialética hegeliana não se acha na afirmação de que o
Foi assim que gerações de marxistas repetiram mecanicamente a fra- . logos "p,recede" a natureza., e, ~~nos ainda, n.o vocabulário que forma
se de Marx: "com Hegel, a dialética estava sobre a cabeça; eu a recolo- sua "vestimenta teológica". Ela Jaz no própno ~étodo, no postulado
quei sobre seus pés", sem perguntar-se se tal operação era verdadeira- fund~ental, segundo o qual "tudo que é real, é raci?na1:•, na inevi~ável
mente possível e, sobretudo, se era capaz de transformar a natureza de ·pretensão de poder produzir a totalidade das determmaço~s_ possív~1s, d.e
seu objeto. Será suficiente inverter uma coisa para modificar sua substân- _seu objeto. Esta essência não pode ser destruída {'ela repos1çao da d1aleh-
cia, seria o "conteúdo" do hegelianismo tão pouco unido a seu "método"
dialético que poderia ser substituído por um outro radicalmente oposto -
e isso tratando-se de uma filosofia que proclamava que seu conteúdo era
"produzido" por seu método, ou melhor, que.método e conteúdo eram 47. El~mentos de dial~tica "subjetivista" desse tipo são enco!ltrad.os nas obras ~ajuve~­
tude de Marx, e formam a substância do ,pcnsam~nto de Lukacs. Voltaremos a isto mais
somente dois momentos da produção do sistema? adiante. ·
68 69
ca "sobre seus pés", pois que visivelmente se tratará sempre do mesmo mas o sujeito "transcedental" posto que toda legislação transcedental da
animal. Um ultrapassar revolucionário.da dialética hegeliana exige não consciência pressupõe o fato bruto de que uma consciência existe em .um
que a recoloquemos sobre os pés, mas que, para começar, cortemos sua mundo (ordem e desordem, captável e inesgotável) - fato que a consciên-
cabeça. cia não pode produzir por si mesma, nem real nem simbolicame~te. So-
A natureza e o sentido da dialética hegeliana em verdade não podem mente nessa condição uma dialética pode verdadeiramente considerar a
mudar pelo fato de chamarmos daqui por diante de "matéria" o que cha- história viva, qÜe a dialética racionalista é obrigada a matar para poder
mávamos anteriormente de "logos" ou "espírito" - se pelo menos não se deitá-la sobre os enxergões de seus faboratórios .
entende por "espírito" um ~enhor de barba branca, residindo no céu, e se Mas uma tal transformação da dialética, só é possível, por sua vez,
sabemos que a natureza "material" não é uma massa de objetos colori- se ultrapassamos a idéia tradicional e secular da teoria como si~tem.a !e-
dos e sólidos ao tato: E completamente indiferente a este respei~o dizer-se chado e como contemplação. E essa era efetivamente uma das mtu1çoes
que a natureza é um momento do logos, ou que o log9s surge numa dada essenciais do jovem Marx.
etapa, da evolução da matéria, pois em ambos os casos as duas entidades
são estabelecidas de saída como de igual essência ou seja de essência ra- 4. OS DOIS ELEMENTOS DO MARXISMO
cional. Aliás nenhuma destas duas afirmações tem sentido, pois ninguém E SEU DESTINO HISTÓRICO
pode dizer o que é o espírito ou a matéria afçra defin!ções puramente va-
zias porque puramente nominais: a matéria (ou o espírito) é tudo o que é Há no marxismo dois elementos cujo sentido e destino históricos fo-
etc. A matéria e o espírito nestas filosofias são finalmente, apenas o Ser ram radicalmente opostos.
puro, ou seja, como dizia justamente Hegel, o Nada puro. Considerar-se O elemento revolucionário explode nas obras da juventude de Marx,
"materialista" em nada difere de considerar-se "espiritualista" se por aparece ainda de vez em quando nas su?s obras de maturidad~, reaparece
matéria se entende uma entidade, aliás, indefinível, porém exaustivamen- àsvezes nas dos maiores marxistas - Rosa Luxemburgo, Lenme, T rotsky
te submetida a leis consubstanciais e co-extensivas à nossa razão, e por- - ressurge uma última vez em G. Lukã.cs. Seu aparecimento representa
tanto desde logo penetráveis por nós de direito (e mesmo de fato, posto u'ma mudança de rumo essencial na história da humanidade. É ele que
que as "leis dessas leis", os ·~princípios supremos da natureza e do conhe- quer destronar a filosofia_ especulativa proclamando que ~ão s~ trnta
cimento" são desde já conhecidos: são os "princípios" ou as "leis da dia- mais de interpretar, mas sim de transformar o mundo, que e preciso ~1-
lética" descobertos há cento e cinqüenta an~s e ~gora até numerado~ gra- trapassar a filosofia realizando-a. É.ele 9ue se recus~ ª. ~ferecer-se previa-
·ças ao camarada Mao Tsé-Tung). Quando um astrônomo espiritualista, mente a solução do problema da história e uma dialet1ca consumada, e
como Sir James Jeans, diz que D.eus é um matemático, e quando materia- afirma que o comunismo não é um estado ideal na direção do qual se en-
listas dialéticos afirmam tenazmente que a matéria, a vida e a história são . caminha a sociedade, mas sim o movimento real que suprime o esta~o ~e
integralmente dependentes de um determinismo, cuja expressão matemá- coisas existentes; que enfatiza o fato de que os homens fazem sua propna
tica encontraremos um dia, é triste pensar que sob certas condições histó- história em condições cada vez determinadas, e que declarara que a
ricas os partidários de cada· uma destas escolas poderiam ter fuzilado os emancipação dos trabalhadores será obra dos pró~rios trabalh~dores. É
da outra (e de fato o fizeram). Porque todos eles dizem exatamente ames- ele que será capaz de reconhecer na Comun~ de ~ans ou nos ~ov!etes rus-
ma coisa, dando-lhe simplesmente um nome diferente. sos não somente acontecimentos insurrec1o~ais, ~as a cnaçao, pelas
Uma dialética "não espiritualista" deve ser também uma dialética massas em ação, de novas formas de vida s9cial. Pouco importa por agora
"não materialista" no sentido de que ela se recusa a estabelecer um Ser se este reconhecimento permaneceu parcial e teórico; se as idéias mencio-
absoluto, quer seja como espírito, como matéria ou como a totalidade, já nadas acima são somente pontos de partida, levantam novos problemas
dada de direito, de todas as determinações possíveis. Ela deve eliminar o ou passam por cima de outros. Existe aqui, é preciso ser cego para não
fechamento e a totalização, rejéitar o sistema completo do mundo. Deve vê-lo o indício de um mundo novo, o projeto radical de uma transforma-
afastar a ilusão racionalista, aceitar com seriedade a idéia de que existe o ção da sociedade, a busca de suas condições na histó.ria efeti~a, e de s:u
infinito e o indefinido, admitir, sem entretanto renunciar ao trabalho, sentido na situação e atividade dos homens que ~odenam reahz~- la.1'.:la~
que toda determinação racional deixa um resíduo não determinado e não estamos no mundo para olhá-lo ou para suporta-lo; nosso destino nao e
raéional, que o resíduo é tão essencial quanto o que foi analisado, que ne- o da servidão, há uma ação que pode apoiar-se sobre o que ex is~e·para f~,
cessidade econtingência estão continuamente imbricadas uma na outra, zer existir o que queremos ser: comp.re_ender que so~os ap~~n~1zes de fei-
que a "natureza", fora de nós e em nós, é sempre outra coisa ·e mais do ticeiro já é um passo acima da cond1çao do aprendi: de ~e1t1ce1ro, e c~~­
que a consciência constrói - e que tudo isso não vale somente para o preender porque o somos já é um seg~ndo passo mais; alem de uma at1~1-
"objeto", mas também para o sujeito e não somente o sujeito "empírico" dade não consciente de seus verdadeiros fins e de seus resultados r_ea1s,
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mais além de uma técnica que segundo cálculos exatos modifica um obje- Tudo se prende a ~ta concepção: análise do capitalismo, filosofia
to sem que nada de novo daí resulte, pode e deve hàver uma praxis histó- geral; teoria da história, estatuto do proletariado, prograi:na político. E
rica que transforma o mundo transformando-se ela própria, que se deixa as conseqilências mais extremas daí resultam - em boa lógica e em u boa
educar educando, que prepara o novo recusando~se a predeterminá•lo história tamb'ém como mostrou a experiência de meio século. O desen-
porque ela sabe que os ho_mens fazem sua própria história. volvimento das forças produtivas dirige o resto na vida social. Então,
mesmo se não é fim último em si mesmo, é fim último na prática, de vez
Mas essas intuições permanecerão intuições, jamais serão verdadei- que o resto é determinado por ele, dele decorrendo "por acréscimo", por-
ramente desenvolvidas 41 • O anuncio do mundo novo será rapidamente quanto "o reinado da liberdade só pode ser edifi~ado sobre~ reina.do da
sufocado pela abundância de um segundo elemento que se desenvolverá necessidade" n, porque ele pressupõe a abundância e a reduçao da Jorna-
sob forma de sistema, que se tornará rapidamente pred~minante, que re- da de trabalho e estas um determinado grau de desenvolvimento das for-
legará o primeiro ao esquecimento ou só o utilizará - raràmente - como ças produtivas". Este desenvolvimento é o progresso. Segura~ente, a
álibi ideológico e filosófico. Esse segundo elemento é Ç> que reafirma e ideologia vulgar do progresso é denunciada e posta em ridículo, mostra-
prolonga a cultura e a sociedade capitalístas em suas mais profundas ten- mos que o progresso capitalista baseia-se na miséria das massas. Mas es.~
dências, mesmo fazendo-o através da negação d~ uma série de aspectos própria miséria faz parte de um processo ascendente. A exploração do
~parente (e realmente) importantes do capitalismo e que tece juntos a lógi- ·proletariado é justificada "historicamente", durante todo o tempo que a
ca social do.capitalismo e o positivism~ qas ciências do século XIX. ~ele burguesia utiliza seus frutos para acumular, continuando assim sua ex-
que faz Marx comparar a evolução so.cial a um processo natural ~ 9 , que pansão econômica. A burguesia, classe exploradora desde o início, é clas-
enfatiza o determinismo econômico, que vê na teoria de Darwin unia des- se progressista na medida em que desenvolve as forças produtivas s4. Na
coberta paralela à de Marx 'º· Como sempre, esse positivismo cientista se grande tradição realista hegeliana, não somente esta exploração, mas to-
transforma imediàtamente em racionalismo e em idealismo, a partir do dos os crimes da burguesia, descritos e denunciados em certo nível, são
momento em que faz as perguntas .finais e as responde.A história é siste- recuperados pela racionalidade da história em outro nível e, finalmente,
~a racional su~metida a leis determinadas, as principais das quais desde p.osto que não existe outro critério,-justificados. "A história universal
logo podemos· definir. O conhecimento forma um sistema, já possuído .n~o é o lugar da felicidade", dizia Hegel.
em seu princípio; existe, é verd.ade, progresso "assimptótico" ' 1, mas este
é a verificação e aprimoramento de um núcleo sólido de verdades adqui-
propriamente contemplativo" (Histoire et conscience de classe, p. 168). Mas, atira~do tam-
ridas, as "leis da dialética". Correlativamente, o teórico mantém sua po- bém o véu dos filhos de Noé sobre a nudez do pai, ele implicitamente deixa entender que se
sição eminente, seu caráter primordial - quaisquer que sejam as invoca- trata ai de um erro pessoal de Engels, que neste ponto teria sido infiel ao verdadeiro esplrito
ções da "árvore verde da vida" , as referências à-práÜcacomo verificação de Ma.r x. Ora, o que Marx pensava, e mesmo o jovem Marx, não era de forma alguma dife-
final ' 2 • • rente: "A questão de saber se a verdade objetiva cabe ao pcnsâmento humano não é uma
questão teórica, mas uma questão prática. Na prática, o homem deve demonstrar a verda-
de, ou seja a realidade e a força, o que está aquém de seu pensamento. A disputa sobre a rea-
.48. Sal_vo. até um certo ponto, por G. Lukacs (na.Histoire et conscience de ·classe). Aliãs, lidade ou a não-realidade do pensamento - separado da prâtica - é uma questão puram·cnte
é 1mpress1onante q ue Lukacs, quando redigia os ensaios contidos nesse livro, ignorava a l- escolástica". (II e Thése sur Fcucrbach). Visivelmente nesse texto não se trata exclusiva ou
guns dos manus_critos mais importantes da juventude de Marx (espêcialmente o manuscrito mesmo essencialmente da praxls histórica no sentido de Lukacs, e sim da "prática" cm ge-·
de 1.8~ conhecido ~omQ o Economie Politlque et Phi/osophíe e a ldéologie Allemande), os rei, il)clusive da experimentação e da indústria, como aliâs o·mostram outras passagens dos
quais so foram publicados cm 1925 e 1931. (L. Goldman e outros já haviam assinalado este textos de juventude. Mas não somente esta prática permanece, como lembra Lukâcs, dentro
fato). da categoria da contemplação; ela não pode ser jamais uma verificação do pensamento cm
· 49. No.segundo prefácio do Capital, Marx cita, qualificando-a de " excelen te", a descri- gcraf, unia "demonstração da realidade do pensamento". ~la só nos faz encontrar sempre
ção d~ seu "verdadei ro método" por Le Courrler européen de São Petesburgo, que afirmava um outro fenômeno, não permite ultrapassar a problemát.ica kantiana.
cspec1almcnte: " M arx considera a evolução sodal como um processo natura l regido por leis 53. Le Capital, ed. Costes, vol. XIV, p. 114-115; cd. de la Pléiade, II1 p. 1487- 1488.
que não dependem da vontade, da consciência nem da inten~o dos homens mas ao contrá- 54. Correlativamente, ela só deixa de se-lo quando estanca seu desenvolvimento. Esta.
rio as determinam". Le Capital, cd. Costcs, vol. 1 p. XCÍI. Cf, cd. la Pléiadc, Ip. 556. jdéia retoma sempre nos escritos dos grandes clássicos do marxismo (começando pelo pró-
50. Comparação feita por Engels, diversas vezes. Evidentemente, não queremos dizer . prio Marx), sem falar dos eplgonos. Que significa ela hoje, quando constatamos que cm vin-
que possamos subestim ar a importância de Darwin na história da ciencia, nem mesmo na . 'tc cinco anos o capitalismo desenvolveu as forças produtivas mais do que o haviam feito os
das idéias cm geral. ·quarenta séculos auteriores? Como pode um marxista falar hoje e m perspectiva revolucio-
51. ~a idéi~ que Eng~ls exprime várias vezes, principalmente no Antl-Dühring. Idéia que nária continuando marxista, e, por conseguinte, afirmando, ao mesmo tempo, que "uma
encobre um cnpto-kanllsmo estranho e envergonhado e que está cm contradição evidente sociedade nunca dcsapa_rece antes que s~j~m desenvolvidas todas as forças produtivas que
com toda "dialética". ela é bastante grande para conter". (Marx, Prefácio da Contribution à la critique de /'econo-
_52. Luk acs mostrou muito adequadamente que a prâtica, tal como Engels a entendia, ou mie polítique, lc., p. 6) .Isso nem Nikita Khrouchtchcv, nem os "esquerdistas" de todo tipo
SCJa, como "a atitude propria à indústria e à experimentação" é "o comportam~nto mais jamais se deram ao trabalho de explicar.
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Várias vezes perguntou-se como os marxistas tinham podido ser .;ta- Ou esta concepção é verdadeira e.portanto define o que deve ser feito e o
linistas. Mas se os patrões são progressistas, contanto que construam que os trabalhadores fazem só vàle enquanto está de acordo com isso;
fábricas · como não o seriam comissários construindo tanto e. até mais 1 Y? não é a teoria que poderia ser confirmada ou infirmada, pois o critério es-
Quanto ~·esse desenvolvimento das forças produtivas, é unívoco e univo- tá nela, são os trabalhadores que mostram se alcançaram "a consciência
camente determinado pelo estado da técnica. Só existe uma técnica numa de seus interesses históricos" agindo de acordo com as palavras de ordem
determinada etapa, só existe também, portanto, um único conjunto ra-• que concretizam a teoria nas circunstâncias 11• Ou então a atividade das
cional de métodos de produção. Não se trata, não tem sentido, tentar de- massas é um fatór histórico autônomo e criador, caso no qual toda con-
senvolver uma sociedade por outras vias que não a "industrialização" - cepção teórica só pode ser um elo no longo processo de realização do
termo aparentemente neutro, mas que finalmente engendrará todo seu projeto revolucionário; ela pode, e até mesmo deve vir a ser perturbada
conteúdo capitalista. A racionalização da produção é a racionalização já em conseqüência dessa ação. A teoria então não se dá a história por ante-
criada pelo capitalismo, a soberania do "econômico" em todos os senti- cipação e não se coloca mais como padrão do real, mas aceita entrar ver-
dos do termo, a quantificação, o plano que trata os homens e suas ativi- dadeiramente na história e ser revirada e julgada por ela is. Então tam-
dades como variáveis mensuráveis. Reacionário sob o capitalismo a par- bém todo privilégio histórico, todo "direito de primogenitura" é denega-
tir do momento·em que este não desenvolve mais as forças produtivas e do à organização baseada na teoria.
só se serve delas para uma exploração cada vez mais "parasitária", isso Esse estatuto engrandecido do Partido, conseqüência indubitável da
tudo se torna progressista sob a "ditadura do proletariado". Esta trans- concepção clássica, encontra sua contrapartida no que é apesar das apa-
formação "dialética" do sentido do taylorismo, por exemplo, será expli- rências, o estatuto diminuído do proletariado. Se este tem um papel his-
citada por Trotsky a partir de 1919 16• Pouco importa que esta situação tórico privilegiado, é porque como classe explorada, ele só pode em últi-
deixe subsistir alguns problemas filosóficos, já que não vemos como nes- ma instância lutar contra o capitalismo em um sentido pré-determinado
sas condições "infra-estruturas" idênticas possam sustentar edifícios so- pela teoria. ~ também porque, colocado no âmago da produção capita-
ciais opostos; que ela também não resolva alguns problemas reais, e~­ lista constitui na sociedade a maior força e que, "organizado, educado,
quanto os operários insuficientemente maduros não compreendam a di- disciplinado" por esta produção, é o detentor por excelência desta disci-
ferença que separa o taylorismo dos patrões e o do Estado socialista, plina racional. Ele vale não tanto como criador de novas formas históri-
também pouco importa. Passaremos por c.ima dos primeiros com a ajuda cas, mas enquanto materialização humana do positivo capitalista, livre
da "dialética", calaremos os segundos a tiros de fuzil. A história univer- de seu negativo: ele é "força produtiva" por excelência, nada contendo
sal não é o lugar da sutileza. que possa ser obstáculo ao desenvolvimento das forças produtivas.
Finalmente, se existe uma teoria verdadeira da história, se há uma
racionalidade funcionando nas coisas, é claro que a direção do desenvol-
vimento deve ser confiada aos especialistas desta teoria, aos técnicos des- Assim, a história mais uma vez produzia algo diferente daquilo que
ta racionalidade. O poder absoluto do Partido - e, no Partido, os ·~cori­ parecia ter preparado: sob a cobertura de uma teoria revolucionária, ha-
feus da ciência marxista-leninista", segundo a admirável expressão criada ·Via-se constituído e desenvolvido a ideologia de uma força e de uma for-
por Stalin para uso próprio - tem um estatuto filosófico; ele tem funda- m~ social que ainda estava para nascer - a ideologia da burocracia.
mento racional muito mais verdadeiro na "concepção materialista da his- ~ impossível tentar aqui uma explicação do nascimento e da vitória
tória" do que nas idéias de Kautsky, retomadas por Lenine, sobre "a in- deste segundo elemento no marxismo; isso exigiria retomar a história do
trodução da consciência socialista no proletariado pelos intelectuais pe- movimento operário e da sociedade capitalista de há um século. Podemos
queno-burgueses". Se esta concepção é verdadeira, esse poder deve ser
absoluto, toda democracia não.passa de uma concessão à falibilidade hu-
mana dos dirigentes ou procedimento pedagógico cujas doses corretas
somente eles podem administrar. A alternativa é, com efeito, absoluta. 57. Certamente, as palavras de orciein podem estar erra.das porque os dirigentes se enga-
naram na apreciação da situação e principalmente na apreciação do grau de consciência e
de combatividade dos trabalhadores. Mas isso não altera a lógica do problema: os trabalha-
dores sempre aparecem como uma variável de estimação incerta na equação que os dirigen-
55. Evidentemente, não queremos dizer que a burguesia não foi "progressista" nem que tes têm que resolver.
o desenvolvimento das forças produtivas seja reacionário ou sem interesse. Di zemos que en- 58. O quanto esta concepção é alheia aos marxistas é mostrado pelo fato de que. p:ira os
tre essas duas coisas não existe uma relação simples. e que não podemos, sem mais, fazer mais "puros" entre eles, a história real é vista implicitamente como se houvesse "descani-
corresponder a "progressividade" de um regime à sua capacidade de desenvolver as forças lhado" desde 1939 ou mesmo desde 1923, já que ela não correu pelos trilhos assentados
produtivas. como o faz o marxismo. pela teoria. Que a teoria pudesse também ter descarrilhado há muito tempo. isso nunca lhes
56. Terrorisml! er Communisml!, ed. 10-18. p. 225. passa pelo espírito.
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apenas resumir brevemente o que nos parece terem sido os fatores decisi-
vos. O desenvolvimento do marxismo como teoria fez-se na atmosfera in- ·Jo qu~ era a bela unid~~e nova .se ·dissolve. ~la se dissolve porque o que
telectual e filosófica da segunda metade do século XIX; esta foi domina- deveria ser uma descnçao filosofica da realidade do capitalismo, a inte- ·
da, como nenhuma outra época da história, pelo cientificismo e o positivis- gração c;ia filosofia e da econo_mia, decompõe-se em duas fases, uma reab-
mo, triunfalmente trazidos pela acumulação de descobertas científicas, sorção da filosofia por uma economia que é somente economia e uma
sua verificação experimental, e sobretudo pela primeira vez nesta escala reaparição ilegítima da filosofia no término da análise econômica. Ela se
"a aplicação racional da ciência à indústria". A aparente onipotência da dissolve porque o que deveria ser a união da teoria e da prática se disso-
técnica era quotidianamente "demonstrada", transformando-se rapida- cia na história real entre uma doutrina enrijecida no estado em que a dei-
mente a face de países inteiros devido à extensão' da revolução industrial· xou a morte de seu fundador e uma prática à qual essa doutrina serve, no
aquilo que no progresso técnico nos parece hoje em dia não soment~ máximo, de cobertura ideológica. Ela se dissolve porque afora alguns ra-
ambíguo, mas mesmo indeterminado quanto a sua significação social ros momentos (como em 1917) cuja interpretação aliás ainda não se fez e
não emergia ainda. A economia apresentava-se como a essência das rela~ não é simples, a praxis continuou só uma palavra e o problema da rela-
ções sociais e o problema econômico como o problema central da socie- ção entre uma atividade que se quer consciente e a histór ia efetiva, assim
dade. O meio ofer~ja tanto os materiais como a forma para uma teoria como o da relação entre os revolucionários e as massas, permanece intei-
·"cientifica" da sociedade e da história; ele até exigia e predeterminava ro.
amplamente as categorias dominantes. Mas o leitor que compreendeu o Se pode existir uma filosofia que seja diferente e mais do que a filo-
que tentamos dizer nas páginas que precedem, também compreenderá sofia, isso ainda precisa ser demonstrado. Se pode existir uma política
que não podemos pensar que esses fatores forneçam "a explicação" do que seja diferente e mais do que política, isso precisa igualmente ser de-
destino do marxismo. O destino dõ elemento revolucionário no marxis- monstrado. Se pode existir uma união da reflexão e da ação, e esta refle-


(
mo só faz exprimir, a nível das ideologias, o destino do movimento revo-
lucionário até agora na sociedade capitalista. Dizer que o marxismo de-
pois de um século transformou-se gradualmente numa ideologia ocu-
xão e esta ação, em vez de separar os que as praticam e os outros, os con-
duzem juntos em direção de uma nova sociedade, esta união ainda está
por ser feita. A intenção desta unificação estava presente na origem do

..•
pando seu lugar na sociedade existente, é dizer simplesmente que o capi- marxismo. Ela perman~ceu uma simples intenção - porém, em um novo
talismo pôde manter-se e mesmo consolidar-se como sistem11 social, que contexto, ela continua, um século depois, a definir nossa tarefa.
não podemos conceber uma sociedade onde se consolida com o correr do
tempo o poder das classes dominantes e onde, $!mtiltaneamente, vive e se Desde que se registra a história do pensamento humano, as doutri-
(.; desenvolve uma teoria revolucionária. O devir do marxismo é indissociá- nas filosóficas se sucedem interminavelmente. Desde que podemos acom-
( vel do devir da sociedade na qual ele viveu: · . panhar_a evolução das sociedades, idéias e movimentos políticos af e~tão
Esse devir é irreversível e não pode haver "restauração" do marxis- presentes. E de todas as sociedades históricas podemos dizer que foram
mo em sua pureza original, nem volta à sua "metade boa". Encontramos d_oi;ninadas pelo conflito, aberto oü latente, entre camadas e grupos so-
ainda às vezes ."~iirxistas" sutis e ternos (que, de um modo geral, jamais c1a1s, pela luta de classes. Mas, a cada vez, a visão do mundo, as idéias
se ocuparam de polftica, de perto ou de longe) para os quais, espantosa- sobre a organização da sociedade e do poder e os antagonismos efetivos
mente, toda a história subseqüente deve ser compreendida a partir dos das c~asses só se ligaram entre. si de forma subterrânea, implícita, não
textos da juventude de Marx - e não estes textos de juventude interpreta- consciente. E a cada vez aparecia uma nova filosofia, que iria responder
dos a partir da história ulterior. Assim eles qúerem manter a pretensão de aos problemas que as precedentes haviam deixado em aberto outro mo-
que o marxismo "ultrapassou" a filosofia, unificando-a tanto com a aná- vimento político fazia valer suas pretensões, numa sociedad~ dilacerada
lise concreta (econômica) da sociedade, como com a prática, e que por por um novo conflito - e sempre o mesmo.
conseguinte._ não é mais e até n:iesmo nunc!l foi. uma especulação ou um O marxismo apresentou, em seu começo, uma exigência inteiramen-
sistema teórico. Essas pretensões (que se apóiam numa certa leitura de al- te nova. A união da filosofia, da política e do movimento real da classe
gumas passagens de Marx e no esquecimento de outras infinitamente explorada na sociedade não seria uma simples adição, mas sim uma sínte-
mais numerosas), não são "falsas"; existem nestas idéias germes que, dis- ·se verdadeira, uma unidade superior na qual cada um destes elementos
semos acima, são essenciais. Mas o que é prl!ciso ver não é somente que iria ser .transformado. A filosofia podia ser outra coisa e mais do que filo-
esses germes foram congelados durante cem anos. É que, quando ultra- sofia, mais que um refúgio da impotência e uma solução dos problemas
passamos o estágio das inspirações, das intuições, das intenções progra- humanos na idéia ". na medida em que traduziria suas exigências numa
máticas - quando essas idéias devem encarnar-se, torna r-se a carne de um
pensamento q':1e tenta englobar o mundo real, dar vida a uma ação, aqui- 59 . O jovem Hegel tinha consciência disso quando, depois de haver criticado a filosofia
de Fichte e mostrado que sua.essência era idêntic~ à da religião, na medida em que as duas
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nova polltica. A política podia ser outra coisa e mais de que política, que quando existem , não têm nenhuma ligação com a criação de unia nova
técnica, manipulação, utilização do poder para fins particulares, na me- sociedade. A buroc~acia dominante nas organizações operárias, e a que
dida em que se tornasse a expressão consciente das aspirações e dos inte- impera nos países ditos por antífrase "operários" e "socialistas", reivin-
resses da grande maioria dos homens. A luta da classe explorada podia dica para si o marxismo, fazendo dele a ideologia oficial de regimes onde
ser mais do que uma defesa de interesses particulares, na medida em que a exploração, a opressão e a alienação continuam. Esse marxismo, ideo-
esta classe visasse, através da supressão de sua exploração, a supressão de logia oficial de Estados ou credo de seitas, dei~ou de existir como teoria
toda exploração, através de sua própria liberação a liberação de todos e a viva; os "marxistas", qualquer que seja sua definição, sua facção ou cor
instauração de uma comunidade humana - a mais elevada das idéias abs- específica, só produzem, há decênios, compilações e glosas, que são o es-
tratas a que a filosofia tradicional tinha podido alcançar. cárnio da teoria. O marxismo está morto como teoria e quando o olha-
O marxismo estabelecia assim o projeto de uma união da reflexão e . mos de perto constatamos que teve boas razões para morrer. Um ciclo
da ação, da mais elevada reflexão e da ação mais quotidian a. Ele estabe- histórico, parece, assim, ter sido concluído.
lecia o projeto de uma união entre os que praticam esta reflexão e esta Entretanto, os problemas colocados no início não foram resolvidos;
ação e os outros, da supressãó da separação entre uma elite ou uma van- ao contrário foram-se enriquecendo e complicando imensamente. O s
guarda e a ~ assa da sociedade. Ele quis ver no dilaceramento e nas con- conflitos que dilaceram a sociedade não foram superados, longe disso. O
tradições do mundo atual, mais do que uma reedição da eterna incoerên- que a contestação da sociedade para os que nela vivem adquira, por um
cia das sociedades humanas, ele quis sobretudo fazer disso outra coisa. tempo e em alguns palses, formas mais larvares e mais fragmentadas, não
Ele pediu que se visse na contestação da sociedade pelos homens que nela . impede que o problema da organização da sociedade seja estabelecido
vivem, mais do que um fato bruto ou uma fatalidade. os primeiros balbu- nos fatos e pela própria sociedade. Hoje, como há cem anos, e ao contrá-
cias da linguagem da sociedade futu ra. Visou a transformação consciente rio de mil anos atrás, os que agitam a questão social não são reformado-
da soeiedade pela atividade autônoma dos homens cuja situ ação real leva . res querendo impor suas obsessões a uma humanidade que não pediu sua
a lutar contra ela; e viu esta transformação não como uma e xplosão cega, opinião; nada mais fazem do que se meter em um debate ininterrupto,
nem como uma prática empírica, mas como uma praxis revolucionária, prolongar e explicitar as preocupações de setores inteiros da população,
como uma atividade consciente que permanece lúcida quanto a si mesma discutir sobre um problema que é mantido constantemente em aberto pe-
não se alienando em uma nova "ideologia". lo reformismo permanente das próprias classes d ominantes. Se assim é
Esta nova exigência foi o que o marxismo trouxe de mais profundo e não é somente porque a exploração, a alienação e a opressão continuam;
mais durável. Foi ela, que, efetivamente, fez do marxismo algo mais do é que continuam não sendo aceitas sem mais e, sobretudo, porque, pela
que outra. escola filosófica ou um outro partido político. É ela que, no primeira vez na história, não são mais abertamente defendidas por nin-
plano das idéias, justifica que falemos ainda do marxismo hoje em dia, guém. Mas a esse problema universalmente reconhecido, ninguém mais-
obrigando-nos mesmo· a fazê-lo . O simples fato de que esta exigêncià.- te- pretende dar resposta. A política não deixou de ser uma manipulação que
nha a parecido num dado momento da história é em si imensamente signi- se denuncia por si mesma, já que continua sendo a procura por camadas
ficativo. Pois, se não é verdade que "a humanidade só se coloca proble- particulares, de suas finalidades particulares, sob a máscara do interesse
mas que pode resolver", em compensação o fato de que um novo proble- geral e pela utilização de um instrumento de natureza universal, o Esta-
ma venha a ser colocado traduz modificações importantes nas profunde- do. O universo da teoria está, mais do que nunca, problematizado e frag-
za~ ~a existência humana. ~. igualmente, de uma.imensa significàção que mentado .e a filo sofia, se ainda não morreu, não ousa mais manter suas
o marxismo tenha podido, de uma certa maneira e por algum tempo, rea- pretensõês de outros tempos, não estando, aliás, em condições de definir
lizar sua intenção, não perma necendo simples teoria, unindo-se ao movi- para si um novo papel, nem de dizer o que é e o que visa.
mento operário que lutava contra o capitalismo, a ponto de tornar-se, As condições que originam a nova exigência do marxismo, não so-
durante muito tempo- e em muitos países,. indistinguível daquele. . mente não desapareceram, mas se exacerbara m e esta exigência coloca-se
Mas pâra nós"que vi'Vemos agora, a aurora das promessas cedeu lu- para nós em termos muito mais agudos que há um século. Porém, temos
gar à claridade plena dos problemas. O movimento operário está, sem ex- agora também a experiência de um século , que parece tê-la entravado.
ceção, em todo lugar, integralmente burocratizado e seus "obj etivos", Como se deve interpretar esse fato? Como deve ser compreendida esta
dupla ·conclusão, ou seja, que esta exigência pareça constantemente res-
surgir da realidade e que a experiência demonstre que ela não pôde man-
ter-se? O que significa a decadência do marxismo, a degradação do movi-
exprimem a "separação absoluta", concluía dizendo que "ésta atitude (filosófica ou religio- . menta operário? A que se devem elas, o que traduzem? Indicam um desti-
sa) seria a mais digna e a mais nobre se se verificasse que a Únião com o tempo só pode ser
vil e infame" (Sytemfrogment, de 1800). no inexorável de toda teoria, de todo movimento revolucionário? Assim
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como é impossível interpretá-las como simples acidente e querer recome- cer, porém sob uma forma freqüentemente mistificada, como "desloca-
çar sobre as mesmas bases, prometendo fazer melhor desta vez, igual- . mento das questões" ou solução fictícia dos problemas reais. A dialética
mente é impossível ver, numa teoria e num movimento que pretenderam devia deixar de ser a a utoprodução do Absoluto, devia dorava nte incor-
mudar radicalmente o curso da história, uma simples aberração passagei- . porar a relação entre aquele que pensa e seu objeto, tornar-se a procura
ra, um estado de embriaguez coletiva, inexplicável mas transitória, após a concreta do vínculo misterioso entre o singular e o universal na história,
qual nos encontrarfamos feliz e tristemente sóbrios. relacionar o sentido implícito e o sentido explícito das ações humanas.
Por certo essas perguntas só podem ser verdadeiramente examinadas desvendar as contradições que operam no real, ultrapassar perpetuamen-
no plano da histórÍa .real: como e por .que o movimento operário foi con- te o que já está dado e recusar de se estabelecer como sistema final sem,
duzido até onde está agora, quais são as perspectivas atuais de um movi- para tanto, dissolver-se no indeterminado 61 • Sua t arefa seda não a de es-
mento revolucionário? Este ângulo, incontestavelmente o mais importan- tabelecer verdades eternas, mas de pensar o real. Esse real, o real por ex-
te, não pode se o nosso aqui 60 • Aqui, devemos limitar-nos a concluir nos- celência, a história, era pensável enquanto era não racional em si ou por
so exame .d a teoria marxista) analisf!ndo as questões equivalentes no pla- construção divina, mas o produto de nossa própria atividade, esta pró-
no das idéias: quais foram os fatores propriamente teóricos que conduzi- pria atividade sob a infinita variedade de suas formas. Mas q~e a história
ram à petrificação e à decadência do marxismo como ideologia? Sob que fosse pensável, que n ão estivéssemos presos em uma armadilha obscura
condições podemos hoje satisfazer a exigência que definimos acima, en- (maléfica ou benéfica, pouco importa a este respeito), não signific~va
carná-lo numa concepção que não continha mais, desde o início, os ger- que tudo já estivesse pensado. "Logo que compreendemos ... que a tarefa
mes de corrupção que determinaram o destino do marxismo? assim colocada ·para a filosofia não é senão esta, a saber, que um determi-
Esse terreno, o terreno teórico - é por certo limitado; e pelo próprio nado filósofo deve realizar o que pode fazer somente toda a humanidade
conteúdo do que dizemos, não se trata mais de estabelecer de uma vez em seu desenvolvimento progressivo, logo que compreendemos isso, ter-
por t odas uma nova teoria - uma a mais-, mas sim de formular uma con- mina toda a filosofia no sentido até aqui dado a essa palavra" 61•
·cepção que possa ipspirar um desenvolvimento indefinido e, sobretudo, Esta inspiração originária correspondia a realidades essenciais na
que possa animar e clarificar uma atividade efetiva - o que será, com o história moderna. Ela aparecia como a conclusão inevitável do acaba-
passar do tempo, o teste. Mas não se deve, por isso, subestimar sua impor- mento da filosofia clássica, o único meio de sair do impasse ao qual havia
1. tância. Se a experiência teórica só forma, sob determinado ponto de vis- chegado sua forma mais elaborada, mais completa, o hegelianismo. Tão
ta, uma parte da experiência histórica, ela é, sob outro p~nto de _vista, su_a logo formulada ela se encontrava com as necessidades e com a significa-
tradução quase que integral em uma outra linguagem; e isso é amda m~1s ção mais profunda do movimento operário nascente. Ela antecipava - se
verdadeiro em relação a uma teoria como o marxismo que modelou a his- compreendemos uma e outras corretamente - o sentido das descobertas e
tória real e se deixou moldar por ela de tantas maneiras. F alando do ba- das re viravoltas que marcaram o presente século: a física contemporânea
lanço do ·marxismo e da possibilidade de uma nova concepção, é ainda, assim como a crise da personalidade moderna, a burocratização da socie-
de maneira transformada, da experiência efetiva de um século e das pers- dade assim como a psicanálise.
pectivas do presente que falamos. Sabemos perfeita mente que os proble- Mas estas e'ram apenas sementes que não deram frutos. Misturados
mas que nos preocupam não podem ser resolvidos por meios teóricos, desde sua origem com elementos de inspiração contrária'', a concepções
mas sabemos, t!lmbém, que não o serão sem uma elucidação d~s idéias. A míticas ou fantásticas (o homem comunista como "homem total", o que
revolução socialista, tal como a vemos, é impossível sem a lucidez, o qu~ é mais uma vez o Absoluto-Sujeito de Hegel baixado de seu pedestal e an-
não exclui mas ao contrário exige, a lucidez da lucidez em relação a s1 dando sobre a terra), eles deixavam indefinidos ou encobriam problemas
mesma, o~ seja, o·reconhecimento pela lucidez de seus próprios limites. essenciais. Sobretudo, a questão central pa ra uma tal concepção: a da re-

A inspiração originária do marxismo visava sobrepujar a alienação


do homem nos produtos de sua atividade teórica e o que se chamou de- 62. O que era de fato o espírito da prática da dialética pelo jovem Hegel - cm trabalhos
pois de "repressão do. ato ao pensamento" 6 ~. Tratava-se de reintegrar o que Marx desconhecia - . espírito. que ta mb~m neste ~~so desapareceu , q~ando da conver-
teórico na prática histórica, à qual n a verdade jamais deixara de p erten- são da dialética cm sistema. A Fenomenolog1a do Espmto ( 1806-1807) assinala o momento
da passagem. . . . .
63. F. Engcts. Ludwíg Feuerbach (Ed. Soc1alcs), p. 10. Esta obra e na realid ade m~uo tar-
dia (1888), mas isso não impede que nela encontremos, do m~smo mo do que cm muitas o~­
tras obras da maturidade de Marx e de Engels. uma quantidade de elementos que conti-
60. Ver L'expuience du mouvement ouvrier. J e 2. nuam a inspiração o riginária do marxismo.
61. S. Freud, Cinco Psicanáliscs, p. 258. 64. Já f'/déologíe allemande (1845-1846). deles está repleta.
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r
lação entre o teórico e o prático, continuava totalmente obscura. "Não se como realidade da ação dos homens, é o único luga r onde as idéias e os
trata de interpretar, mas sim de transformar o mundo", o clarão ofuscan- projetos podem adquirir sua verdadeira significação. O velho monstro de
te desta frase não esclarece a relação entre interpretação e transformação. uma filosofia racionalista-materialista reaparece e se impõe, proclam a n-
a
De fato, afirmava-se a maioria das vezes que teoria é só ideologia, subli- do que tµdo o que é é "matéria" e que esta matéria é inteiramente "racio-
mação, compensação (o que seria fortemente rejeitado em seguida, quan- nal" porque regida pelas " leis da dialética", que, aliás, já possuímos.
do se fez da teoria a instância e a garantia s upremas). E, simetricamente, · Quase nem é necessário indicar que esta concepção só poderia con-
a praxis permanecia uma palavra cuja significação nada determinava dicionar uma petrificação teórica completa. No horizonte de um sistema
nem esclarecia. assim fechado - e que fazi a de seu fechamento, ao mesmo tempo, a prova
A elaboração do.marxismo sob forma sistemática tomou a direção e a conseqüência da necessidade de passar a uma outra fase histórica -,
oposta, de maneira que. finalmente, o marxismo co nstituído em teoria (e que poderia haver senão trabalhos de aplicação, mais ou menos corretos,
nós não entendemos por isso as versões dos vulgarizadores, que possuem complementos, mais ou menos brilhantes? É preciso tambéip lembrar
certamente: também elas, uma grande importâ ncia histórica, mas exata- que ~la conduz fatalmente a uma política racionalista-burocrática. Re-
me nte as obras mestras de Màrx e Engels em sua maturidade), o marxis- sumindo, se existe Saber absoluto concernente à história, a ação a utôno-
mo que precisamente pretende fornecer respostas aos problemas que enu- ma dos homens não tem mais nenhum sentido (ela seria, quando muito,
merávamos há pouco, situa-se nos antípodas desta inspiração originária. um dos disfarces da astúcia da razão); fica , por conseguinte, para aqueles
Este marxismo em sua essencia não é mais que um objetivismo cienÜsta que estão investidos desse saber, decidir·quais os meios m ais eficazes e
completado por uma filosofi a racionalista. Nós tentamos mostrá-lo nas mais rápidos para chegar ao objetivo. A ação política torna-se uma ação
partes precedentes deste texto. Só queremos aqui lembrar a lguns pontos técnica, as diferenças que a separam da outra técnica não são de princí-
esseneiais. pio, mas de grau (lacunas do saber, incerteza da informação etc.). Inver-
N a teoria ma rxista acabada, o que deveria ser no início a descrição samente, a prática e a dominação das camadas burocráticas que invocam
crítica da economia capitalista, torna-se rapidamente a tentativa de expli- o marxismo, encontraram nele o melhor "complemento solene de justifi-
car esta economia pelo funcionamento de leis independentes da ação dos cação", a melhor cobertura ideológica. O esvaziamento do quotidiano e
homens, grupos ou classes. É estabelecida urna "concepção materialista do concreto através da invocação dos amanhãs garantidos pelo sentido
da história", que pretende explicar a estrutura e funcionamento de cada da história; a adoração da "eficiência" e da "racionalização" capitalistas;
sociedade a partir do estado da técnica, e a passagem de uma sociedade a a ênfase esmagadora colocada sobre o desenvolvimento das forças pro-
outra pela evolução desta mesma técnica. Postula-se assim um conheci- dutivas, que dirigiria o_restante; esses aspectos e mil outros, da ideologia
mento perfeito de direito, adquirido em seu princípio, de toda a história burocrática derivam diretamente do objetivismo e do progressismo m ar-
transcorrida, que revelaria sempre, "em última análise", a ação das mes- xista 6 '. •
mas leis objetivas. Os homens, po rtanto, não fazem sua história mais do Fazendo do marxismo a ideologia efetiva da burocracia, a evolução
que os planetas "fazem" suas revoluções, são "feitos" por ela, ou melhor, histórica tirou todo o sentido da questão de saber se uma correção, uma
os dois são feitos por outra coisa - uma D ialética da história que produz reforma, urna revisão, u ma retificação poderiam devolver ao marxismo
as formas de sociedade e sua superação necessária, garante seu movim~n­ seu caráter do início, fazendo novamente dele uma teoria revolucionária.
to progressivo ascendente e a passagem fi nal, através. de uma longa a lie- Porque a história mostra nos fatos o que a análise teórica mostra, por. seu
nação, da humanidade ao comunismo.Este comunismo não é mais "o mo- lado, nas idéias; q ue o sistema m arxista p articipa da cultura cap1tahsta,
vimento real que suprime o estado de coisas existente", ele se dissocia en- no sentido mais amplo do termo, que é pois absurdo querer fazer dele o
tre a idéia de urna sociedade futura que sucederá esta e um movimento instrumento da revolução. Isso é absolutamente válido para o ma rxismo
real que é simples meio ou instrumento, o qual tem tanto parentesco in- tomado como sistema, como todo. É bem verdade que o sistema não é
terno, em sua estrutura e em sua vida efetiva, com o que servirá para rea- completamente coerente; que encontraremos COf!I freqil~ncia, no MarJ!
lizar quanto o martelo ou a bigorna com o produto que ajudam a fabri-
car. Não se trata mais de transformar o mundo, ao invés de interpretá-lo.
Tra ta-se de promover a única interpretação verdadeira do mundo, que
assegura que ele deve e vai ser transformado no sentido que a teoria de- 65. Mais uma vez, não dizemos que a teoria marxista era a condição necessária e sufi-
duz. N ã o se trata mais de praxis, mas exatamente de prática no sentido ciente aa burocratização, que a degeneração do movimento operário é " devida" a concep-
ções errôneas de Marx. Cada um a em seu nível, as duas eltprimem a iníluência determinante
corrente do termo, o sentido industrial ou político vulgar. A idéia da veri- da cult~ra tradicional que sç perpetua no movimento revolucionário. Mas a ideologia dç-
ficação pela "experimentação ou a prática industrial" toma o_lugar da- sempenha também um papel especifico, e nesta medida o marxismo serviu à burocratização
quilo que a idéia de praxis pressupõe, ou seja, que a realidade_histórica e nã o pode mais servir-nos.
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da maturidade, ou em seus herdeiros, idéias e formulações que conti- te 66 • É a alienação no que já existe; no já criado; é a negação do conteúdo
nuam a inspiração verdadeiramente revolucionária e nova do início. mais profundo do projeto revolucionário, a eliminação da atividade real
Mas, ou levamos essas idéias a sério, e elas detroem o sistema: ou nos dos homens como fonte última de toda significação, o esquecimento da
prendemos a este último, e então suas belas fórmulas tornam-se orna- revolução como modificação radical, da autonomia como princípio su-
mentos que só servem para justificar a indignação das belas almas do premo; é a pretensão do teórico assumir a solução dos problemas da hu-
marxismo não oficial contra o marxismo "vulgar" ou stanilista. De qual- manidade. Uma teoria éonclufda pretende dar respostas ao que só pode
quer forma, o que não se pode fazer é querer jogar em todas as posições ser resolvido, se é que pode, pela praxis histórica. Ela só pode, pois, fe-
ao mesmo tempo: pretender que Marx não era um filósofo como os ou- char seu sistema pré-escravizando os homens a seus esquemas, submeten-
tros, invocando O Capital como receptáculo de ciência rigorosa e o movi- do-os a suas categorias, ignorando a criação histórica, mesmo quando a ·
mento operário como verificação de sua concepção; mascarar o sentido glorifica em palavras. Ela só pode aceitar o que se passa na história, se
real da degeneração do movimento operário, apelando para os mecanis- isso se apresenta como sua confirmação, do contrário ela o combate - o
mos econômicos que conduzirão, bem ou mal, à superação da alienação; que é a maneira mais clar.a de exprimir a intenção de parar ~ história 61 •
e defender-se contra a aacusação de mecanismo remetendo a um sentido · O sistema teórico fechado deve, obrigatoriamente, colocar os ho-
obscuro da economia e a uma filosofia do homem as quais, aliás, não são mens como objetos passivos de sua verdade teórica, porque deve subme-
definidas em parte alguma. tê-los a esse passado ao qual ele mesmo está submetido. Por Uf!l lado, é
que ele permanece, quase que inevitavelmente a elaboração e a condensa-
ção da experiênciajá adquirida", que, mesmo prevendo um "novo", esse
O fundamento filosófico da decadência novo é sempre sob todos os aspectos, a repetição a um nfvel qualquer,
uma "transformação linear" do que já aconteceu. Mas a razão principal
Já assinalamos, várias vezes, que os fatores que condicionaram o pela qual uma teoria concluída só é compatfvel com um mundo essencial-
que nos aparece como a decadência do marxismo, o abandono de sua ins- mente estático situa-se num nfvel mais profundo, o da estrutura catego-
piração originária, devem . ser procurados na história real, que eles são rial ou da essência lógica de um sistema fechado. Como pode.uma teoria
consubstanciais aos que levaram à degeneração burocrática do movimen- definir-se como teoria completa, se não coloca r~lações fixas e estáveis
to operário, e que, de certo modo, traduzem os obstáculos quase que in- que englobam a totalidade do real, sem lacunas e sem resfduos? Já tenta-
transponíveis que se opõem ao desenvolvimento de um movimento revo- m.os mostrar que uma teoria da hi~tória como a que o marxismo visava,
lucionário, a sobrevivência e o renascimento do capitalismo exatamente
naquilo que o combate com o maior ardor. O que significa que não se
trata, para nós, de procurar a origem da decadência num erro teórico de
Marx, de detectar a idéia falsa que bastaria substituir pela idéia verdadei- '66. A fim de mostrar que nossa critica do sistema marxista era "existencialista", um as-
sistente de filosofia mobilizou suas lembranças de prova oral querendo confundir-nos com
ra para que a reparação fosse, daí por diante, inevitável. esta citação de Kierkcgaard: " ... Ser um sistema e ser fechado correspondem-se um ao ou-
Mas, precisamente, porque o mundo social é unitário em seu dilace- tro, mas a existência é justamente o oposto... A existência é cm si um sistema - para Deus,
ramento, existem eqüivalências, as atitudes reais têm contrapartidas teó- mas não pode sê-lo para um esplrito existente." !:: pcnà que Engels nunca se tenha inscrito
ricas. O que, no pano teórico, corresponde à burocratização no plano num programa de professor assistente. Nosso filósofo marxista poderia ter tido então a
oportunidade de topar com a seguinte citação: "Em todos os filósofos, o "sistema" é preci-
real, deve ser colocado em evidência, discutido como tal, e, se não "refu- samente o que é pcrcclvel, justamente porque se origina de uma necessidade impcreclvcl do
tado", peJo menos esclarecido em sua relação profunda com o mundo espirito humano, a necessidade de superar todas as contradições." (Ludwig Feuerbach, op.
que alhures combatemos. Se a revolução socialista é uma empreitada cit., 10). (Jean Fran çois Lyotard era o "assistente" cm questão. E continua sendo).
consciente, temos aí um a condição necessária, embora não suficiente, de 67. A expressão emplrica, porém necessária, deste fato, encontra-se na inacreditável in-
todo novo começo. capacidade dos marxistas de todos os matizes, há dccêníos, de renovar sua rcílcxão no con-
tato com a história viva, na permanente hostilidade com a qual receberam o que a cultura
A origem teórica da de~adênci~ do marxisipo, o equivalente ideoló- moderna produziu de melhor e de mais revolucionário, quer se trate da psicanálise, da llsica
gico da degeneração burocrática do movimento operário devem ser pro- contemporânea ou da arte. Trotsky é, cm cm relação a isto, a única exceção e o quanto ele é
curados na transformação rápida da 'n ova concepção em um sistema teó- pouco úpico é mostrado pelo exemplo oposto de um dos marxistas mais fecundos e mais
rico aperfeiçoado e completo em sua intenção, na volta ao contemplativo originais, G . Lukºacs, que sempre se mostrou, cm relação à arte, um digno herdeiro da gran-
e ao especula~ivo como modo principal da solução dos problemas colo- de tradição clássica "humanista" européia, um "homem de cultura" profundamente con-
servador e alheio ao "éaos" moderno e às formas que nele se apresentam.
cados para a humanidade. 68. Tomamos, evidcntcmenr~, "experiência" no sentido mais amplo posslvcl - no senti-
A transformação da atividade teórica em sistema teórico que se pre- do, por eitcmplo, cm que Hegel podia pensar que sua filosofia citprimia toda a citperiência
tende fechado é a volta ao sentido mais profundo da cultura dominan- da humanidade, não somente teórica mas prática, política, artlstica, etc.
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um esquema explicativo geral que coloca em evidência as leis da evolução cação de um saber adquirido num .domínio delimitado e com fins preci-
das sociedades, só pode ser definida postulando as relações constantes sos. A alienação é claro, não consistia na teorização, mas sim na transfor-
entre entidades elas mesmas constantes. É claro, o material histórico ao mação desta teorização em absoluto, em pretenso conhecimento comple-
qual ela se refere, que ela tem que "explicar", é eminentemente variável e to do ser histórico tanto como ser dado quanto como sentido (como rea-
mutável, isso ela reconhece de início, e é a primeira a proclam á-lo. Mas lidade empírica e como essência). Já vimos e veremos novamente que este
esta variabilidade, esta mudança, o próprio objetivo da teoria assim con- pretenso conhecimento completo só pode basear~se num desconhecimen-
cebida, é de reduzi-las, eliminá-las logicamente, submetê-las ao funciona- to completo do que seja o histórico. Mas se baseia, também, num desco-
mento das mesmas leis. A vestimenta fenomenal multicor deve ser retira- nhecimento completo do que seja a verdadeira dimensão teórica; pois,
da, para que possamos enfim perceber a essência da realidade, que é iden- por uma dialética evidente, e que se repetiu cem vezes na história, é esta
tidade - mas evidentemente identidade ideal, a identidade nua das leis. ·transformação do teórico em absoluto que pode trazer-lhe maior prejuí-
Isso permanece verdadeiro, mesmo quando reconhecemos a variabilida- zo, esmagando-o sob pretensões que ele não pode realizar. Somente uma
de das leis num certo nível. Marx diz, com razão, que não existem leis demo- colocação em seu lugar do "teórico" pode restaurá-lo em sua verdadeira
gráficas em geral, que cada tipo de sociedade comporta sua demografia; e função e dignidade. Mas essa colocação em seu lugar do teórico é insepa-
o mesmo vale, na sua concepção e na realidade, para as "leis econômicas" rável da colocação em seu lugar do prático; somente em sua relação cor-
de cada tipo de sociedade. Mas o aparecimento do subsistema determi- reta eles podem, um e outro, tornar-se verdadeiros.
nado de leis demográficas ou econômicas correspondendo à sociedade
considerada é em si mesmo regulado em definitivo pelo sistema mais ge-
ral de leis que determinam a evolução da história. Pouco importa, a esse
respeito, se a teoria extrai essas leis, consciente ou inconscientemente, do
passado, do presente ou mesmo de um futuro que ela constrói ou "proje-
ta". O que ela visa é de qualquer forma um intemporal, que é de substân-
cia ideal. O tempo não é mais para ela o que nos ensina tanto nossa expe-
riência mais direta como a reflexão mais desenvolvida: a ressumação per-
pétua do novo na porosidade do ser, aquilo que altera o idêntico mesmo
quando o deixa intacto, é um meio neutro de desenvolvimento, condição
abstrata de coexistência sucessiva, meio de ordenar um passado e um fu-
turo que sempre preexistiram a si mesmos. A necessária dupla ilusão da
teoria fechada é de que o mundo já está feito desde sempre e é possível
pelo pensamento. Mas a idéia central da revolução é que a humanidade
tem diante de si um verdadeiro porvir, e que este porvir não é simples-
mente para ser pensado, mas para ser feito.
Essa transformação do marxismo em teoria acabada 69 continha em
si a morte de sua inspiração revolucionária inicial. Ela significava uma
nova alienação no especulativo, pois transformava a atividade teórica
viva em contemplação de um sistema de relações determinadas em defini-
tivo; ela continha, em germe, a transformação da política em técnica e em
manipulação burocrática, já que a política podia ser daí em diante a apli-

. 69. Qua~do falamos de teoria acabada, não significamos evidentemente a formo da teo-
ria: pouco importa se podcmo.s ou não encontrar uma exposição s istemática "completa"
(~e fato, podemo~ r:ra o marx1si:no) ou se os p~rtidários da teoria protestam e afirmam que
n.ªº. querei:n co~5t1tu1r um novo sistema. O que importa é o teor das idéias, e estas, no mate-
nahsmo h1st~r~co, fixam i~rev?ga~elmente a estrutura e o conteúdo da história da humani-
dade. O prefacio da Con1rtbu11o_n o lo critique de téconomie politique ( 1859) já formula com-
pletamente, apesar de sua brevidade, uma teoria da história tão plena e fechada como um
ovo.
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1

II. TEORIA E PROJETO REVOLUCIONÁRIO

1. PRAXlS E PROJETO

Saber e fazer
Se o que dizemos é verdade; se não somente o conteúdo específico
do marxismo como teoria é inaceitável, mas também a idéia de uma teo-
ria completa e definitiva é quimérica e mistificadora, podemos ainda fa-
lar de uma revolução socialista, manter o projeto de uma transformação
radical da sociedade? Uma revolução, como a que o marxismo visava e
como a que continuámos visando, não será um empreendimento cons-
ciente? Não pressupõe, ao mesmo tempo, um conhecimento racional da
presente sociedade e a possibilidade de antecipar racionalmente a socie-
dade futura? Dizer que uma transformação socialista é possível e desejá-
vel, não é dizer que nosso saber efetivo da sociedade atual garante esta
possibilidade, que nosso saber antecipado da socieçiade futura justifica
essa escolha? Não existe, nos dois casos, a pretensão de possuir, em pen-
samento, a organização social, presente e futura, como totalidades em
ato, e ao mesmo tempo um critério que permite julgá-las? Sobre o que
podemos fundamentar tudo isso se não existe e se não pode existir uma
teoria e nem mesmo, por trás desta teoria, uma filosofia da história e da
sociedade?
Essas per_gu!1tas, essas objeçõe.s podem ser formuJadas, e o são efeti-
vamente, sob 001s pontos de vista diametralmente opostos mas que fina l-
mente utilizam as mesmas premissas.
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Para alguns, a crítica das pretensas certezas absolutas do marxismo._é 1 . Po~;mos, no extre?1~ oposto, considerar uma atividade "puramente
interessante, talvez até verdadeira - porém inaceitável, porque destruiria rac1on~I . Essa se apoiaria sobre um saber exaustivo ou praticamente
o movimento revolucionário. Como é necessário mantê-lo, é preciso con- exaustivo de seu domínio; entendemos por praticamente exaustivo que
servar, a todo custo, a teoria, aceitando abater suas p retensões e exigên- to~a quest~o pertinente para a prática e podendo emergir nesse domínio
cias ou, se necessário, prontos· para fechar os olhos. sena reso.luvel 2• Em função desse saber e em conclusão dos raciocínios
Para outros, já que uma teoria total não pode existir, é necessário que p~rm1te, a ação se limitaria a colocar na realidade os meios dos fins
abandonar o projeto revolucionário, a menos que seja colocado, em ple- que visa'. a estab17l~cer as causas que levariam aos resultados desejados.
na cóndição com seu con.teúdo, como a vontadé cega de transformar, a Um tal tipo de at1V1dade está aproximativamente realizado na história é
todo custo, uma coisa que não conhecemos em outra que conhecemos a ~é~nica 3 • Aproximativamente, porque um saber exaustivo não pode
menos ainda. ex1st~r _(s<;>mente fragmentos de um tal saber) mesmo no interior de um
Nos dois casos, _o postulado implícito é o mesmo: se!ll teoria total, domtnio isolado, e porque o isolamento dos domínios jamais pode seres-
não pode haver ação consciente. Nos dois casos, a fantasia do saber ab- tanqu~ '. Podemos reunir sob este conceito de "atividade racional" uma
soluto permanece soberana. E nos dois casos, a mesma inversão irônica quantidade d~ casos que, sem pertencerem à técnica, no sentido estrito,
de valores se prôduz. O homem que se pretende de ação concede de fato o dela se aproximam e que daqui em diante englobaremos também dentro
primado à teoria: erige em critério supremo a possibilidade de salvaguar- desse termo. A atividade repetitiva de um operário na cadeia de monta-
dar uma atividade revolucionária, mas faz depender esta possibilidade da gem; a solução d: uma equação al~ébrica do segundo grau por aquele
conservação, pelo menos aparente, de uma teoria definitiva. O filósofo que conhece sua formula geral; a derivação de novos teoremas matemáti-
que se pretende radical permanece prisioneiro do que criticou: uma revo- c?s com a aju~a do formalismo ~·~ecanizado" de Hilbert; muitos jogos
lução consciente, diz ele, pressuporia o saber absoluto; eternamente au- simples etc., sao <:xemplos .d~ atividade técnica no sentido amplo.
sente, este permanece, ainda assim, como a medida de nossos atos e de Ora, o essencial das ~t1~1dades humanas não pode st:r captado nem
nossa vida. como reflexo nem como tecnrca. Nenhum fazer humano é não consciente·
Mas este postulado de nada vale. J á suspeitamos que, ao obrigar-nos mas nen?~m poderia continuar nem por um segundo, se estabeiecêsse~
a escolher entre a geometria e o caos, entre o Saber absofuto e o reflexo mos a ~x1genc1a de um saber exaustivo prévio, de uma total elucidação de
cego, entre Deus e o primitivo, essas objeções movem-se na pura ficção se~ objeto e de seu modo de operar. Isso é evidente para a totalidade das
deixando escapar tudo o que nos é e nos será para sempre dado, a reali-- 3:tlvidades '.'triviais" que compõem a vida quotidiana, individual ou cole-
dade humana. Nada do que fazemos, nada daquilo com que nos ocupa- hv~. Mas isso é também assim para as atividades mais "elevadas" as
mos é da espécie da transparência integral, nem da completa desordem mais plenas de conseqilência, aquelas que envolvem diretamente a ~ida
molecular. O mundo histórico e humano (ou seja, salvo um_ponto no in- de o~tros bem como as que visam as criações mais universais e mais du-
finito como dizem os matemáticos, o mundo "tout court") é de uma ou- ráveis.
tra ordem. Nem mesmo podemos chamá-lo " o misto", pois não é feito de
uma mistura; a ordem total e a desordem total não são componentes do su~stancialmente o mun~o exterior. b fun.cionamento "biológico" do organis~o humano t
real, e sim conceitos limites que abstraímos, antes puras construções que evide~temente outra coisa; compreende uma infinidade.de atividades "reflexas" ou não
tomadas absolutamente tornam-se ilegítimas <? incoerentes. Elas perten- conscientes. Convenhamos que sua discussão não pode esclarecer o problema das relações
entre o saber e do fazer na história.
cem a esse prolongamento mítico do mundo, çriado pela filosofia há _2. Basta q_ue ela seja resolúvel a partir de considerações de probabilidade· o que. dizemos
vinte e cinco séculos, e do qual devemos livrar-nos, se queremos deixar de nao prcssup.oe um conhecimento determipista completo do dominio considerado.
introduzir, no que deve ser pensado nossos próprios fantasmas. .3 _. Ad técni~~ enq.uant<;> _aplicada a objetos. A técnica no sentido mais geral correntemente
O mundo histórico é o mundo do fazer humano. Esse fazer está sem- u 1iza o - a técnica militar" • a "técnica
u11 · po I'llica
· "' etc., mais
· genericamente
· as ativi dades
pre em relação com o saber, mas esta relação precisa ser elucidada. Para q e ~fax Weber e~globav~ sob o termo zweckrational - não faz parte de nossa definição na
medida_ em que diz respello aos homens, por razões que serão explicadas no texto.
esta elucidação vamos apoiar-nos sobre dois exemplos extremos, dois ca- 4. Nao se trata de conhecimento exaustivo no absoluto. O engenheiro que constrói um a
sos limites: a "atividade reflexa" -e a "técni.ca". gonte ou uma barragem não tem necessidade de conhecer a estrutura nuclear da matéria·
Podemos considerar uma atividade humana "puramente reflexa", asta qu~ conheça a estáti~a. a teoria da elasticidade e a resistência dos materiais etc. Não~
0
absolutamente não consciente. Tal atividade não teria, por definição, ne- conhecimento da matéria como tal que lhe interessa. é sim o conhecimento dos fatores
nhuma ligação com um sab~r ,gualquer. Mas também é claro que não que podem ter uma importância prática. Este existe na gra nde maioria dos casos· mas as
surpresas Cc; as ca~ás.trofes) que acontecem de tempos cm tempos mostram seus limi;es. Rcs-
pertence ao domínio da história i. ~ostas precisas a mume~a~ perguntas.são possíveis, mas não a todas. 1: claro que aqui dci-
~mos_de lado~ out~o limllc - essencinl - desta rncionalidade da técnica, ou seja, que a téc-
nica nao pode Jamais explicar os fins a que serve.
ê claro que falamos de atividades que ultrapassam o corpo do sujeito modificando
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Educar uma criança (quer como pai ou como pedagogo), pode ser desse ou daquele ramo das matemáticas é assimilável a uma técnica, a
feito com uma consciência e uma lucidez mais ou menos grandes, mas é pesquisa matemática, quando se aproxima dos fundamentos ou das con-
por definição impossível que isso possa ser feito a partir de uma elucida- sequências extremas da discipliha revela sua essência de fazer não repou-
ção total do ser da criança e da relação pedagógica. Quando um médico sando sobre nenhuma certeza última. A edificação da matemática é um
ou, melhor ainda, um analista 1 inicia um tratamento, pensamos em pe- projeto que a humanidade persegue desde milênios e no decurso d'o qual
dir-lhe que, previamente, enquadre seu paciente em conceitos, que a firmeza do rigor no interior da disciplina trouxe ipso facto uma incerte-
trace os -diagramas de suas estruturas conflitantes, o desenvolvimento ne za crescente tanto quanto aos fundamentos como quanto ao sentido des-
varieutur do tratamento? Aqui, como no caso do pedagogo, trata-se de ta atividade'. Quanto à fisica, não é nem mesmo um fazer, é um Western
algo bem diferente de uma ignorância provisória ou de um silêncio "tera- onde os golpes de teatro se sucedem num ritmo constantemente acelera-
pêutico". A doença e o doente não são duas coisas, uma contendo a ou- do deixando perplexos os próprios atores que os desencadearam •.
tra (assim como o futµro da criança não é uma coisa contida na coisa A teoria como tal é um fazer, a tentativa sempre incerta de realizar o
criança) cujas essências e relações recíprocas poderíamos definir, sob a projeto de uma elucidação do mundo 1 • E isso vale igualmente p~ra esta.
condição de in'vestigação mais completa; ela é uma maneira de ser do forma suprema ou extrema de teoria que é a filosofia, tentativa de pensar
doente, cuja vida inteira, passada e também futura, está em jogo e a signi- o mundo sem saber nem previamente, nem posteriorente se o mundo é
ficação da qual não podemos fixar e encerrar determinado momento, efetivamente pensável, nem mesmo o que pensar significa exatamente. e_
porque ela continua, e, assim, modifica as significações passadas. O es- por isso, aliás, que não é preciso "ultrapassar a filosofia realizando-a". A
sencial do tratamento, assim como o essencial da educação, corresponde filosofia está "ultrapassada" desde ql!e ..realizamos" o que Cla é: efa
à própria relação que se irá estabelecer entre o paciente e o médico, ou é filosofia,ou seja, ao mesmo tempo muito e muito pouco. "Ultrapas-
entre a criança e o adulto, e à evolução desta relação, que depende do que samos" a filosofia - a saber: não a esquecemos; aii:ida menos a despreza-'
um e outro farão. Nem ao pedagogo, nem ao médico pede-se uma teoria mos, mas a colocamos em seu devido lugar - desde que compreendemos
completa de sua atividade, que aliás eles seriam incapazes de fornecer que ela é apenas um projeto, necessário mas incerto quanto a sua origem,
Não diremos por isso que se trate de atividades cegas, que educar uma seu valor e seu destino; não exatamente uma aventura, talvez, mas não
criança ou tratar um doente seja jogar na roleta. Mas as exigências com uma partida de xadrez também e nem tampouco realização da transpa-
as q!Jais nqs confron.t a o f~zer são de outra ord~m •. rência total do mundo para o sujeito e do sujeito para si mesmo. E se a fi-
~igual em relação às outras manifestações do fazer humano, mesmo losofia viesse colocar para uma política que se pretendesse, ao mesmo
aquelas onde os outros não estão explicitamente implicados, onde o su- tempo, lúcida e radical, a preliminar de um rigor total, pedindo-lhe que
jeito "isolado" encara uma tarefa ou uma obra "impessoal". Não so- se fundamentasse integralmente em razão, a política estaria no direito de
mente quando um artista começa uma obra, mas inesmo quàndo um·au- responder-lhe: não terá você espelhos cm casá? ou, então, sua atividade
tor começa um livro teórico, ele sabe e não sabe o que vai dizer - e sabe consiste cm estabelecer medidas que valem para os outros mas pelas
ainda menos o que quererá dizer. E não é diferente para a atividade mais quais você mesma é incapaz de medir-se?
"racional" de todas, a atividade teórica. Dizíamos acima que a utilização Em suma, se as técnicas particulares são "atividades racionais", a
do formalismo de Hilbert para a derivação de certo modo mecânica de técnica em si (utilizamos aqui esta palavra em seu sentido restrito corren-
novos teoremas é uma atividade técnica. Mas a tentativa de constituir te) não o é absolutamente. As técnicas pertencem à técnica, mas a própria
este formalismo, em si mesma, não é absolutamente uma técnica, mas in-
teiramente um fazer, uma atividade consciente, mas que não pode garan-
7. A incerteza era muito menor nos Gregos, quando o fundamento "racional", para eles,
tir racionalmente nem seus fundamentos, nem seus resultados; a prova, .do rigQr matemático, era de uma nature~a clar.a mente "irracional" para nós (essência diví-
se ousamos dizer, é que ela fracassou clamorosamente 6 • Mais geralmen- na do número ou caráter natural do espaço como receptáculo do cosmo) - do que ela é dos
te, se a aplicação de resultados e métodos "coml'rovados" no interior modernos, onde a tentativa de estabelecer este rigor integralmente levçu a fazer expfodir à
idéia de que possa haver um fundamento racional da matemátiça. Não é inútil, para nosso
propósito, lembrar aos nostálgicos das certezas absolutas, o trágico destino da tentativa de
Hilbert, proclamando que seu programa C<ra "de eliminar do muf!dO de uma vez por todas
5. Melhor ainda, pois cm grande parte, a medicina atual se pratica de maneira às vezes as questões de fundamento" (die Grund/agenfragen efn fura/lema/ aus der We/t zu schaflen)
trivial e fragmentária, esforçando-se o médico quase para agir como um "técnico". . e desencadeando através disso mesmo um trabalho que iria mostrar, e mesmo demonstrar,
• Tentei precisar esta idéia a respeito da psicanálise, definida como atividade prático- que a questão dos fundamentos pertencerá sempre a este mundo como questão insolúvel.
poética, cm "Epilégomcrcs à une théorie de l'âme que l'on a pu présenter como ·scicn- Mais uma vez, a hib.ris proyocava a nemes~s.
cc", in l'lnconscient, nt 8 (Paris, outubro 1968) p. 47-87. • Para uma justíficação destas idéias ver "Le monde morcelé" (Textures, n' 4-S, 1972,
6. Quando foi demonstrado que é imposslvel demonstrar a não-contradição dos sistemas p. 3 a 40) e "Science moderne et interrogation philosophique" (Encyclopaedia Universo/is -
assim constituldos, e que ai podem aparecer proposições não resolúveis (Godel, 1931). prganum, vol. XVII, p. 43 a 73).
92 . 93
r técnica não é do domí~io do técnico. ~m sua realidade histórica a técnica
é um projeto cujo sentido permane~e incerto, seu futuro obs~ur? e sua fi-
mente à atividade técnica, pois esta tem relação com um verdadeiro fim,
um fim que é um fim, um fim finito e definido que pode ser estabelecido
.dade indeterminada, sendo evidentemente claro que a 1dé1a de nos como um resultado necessário ou provável, em vista do qual a escolha
na 11
tornar-mos "senhores e possuidores da natureza,, nao- •
s1gm• fi ·
1ca rigorosa- dos meios se reduz a uma questão de cálculo mais ou menos exato; com
mente nada. . , . . . este fim, os meios não têm nenhuma relação interna, simplesmente uma
Exigir que o projeto revoluc10nan? s_eJa funda~o sobre u~a t~ona relação de causa e efeito 9 •
completa, é por conseguinte de f~to a~s1m1lar a po_Ht1ca a uma tecmca, e Mas na praxis a autonomia dos outros não é um fim, ela é, sem jogo
colocar: seu domlnio de ação - a h1stóna - _cor;i? objeto po_sslve~ de um .s~­ de palavras, um comçço, tudo o que quisermos, menos um fim; ela não é
ber acabado e exaustivo. Inverter ~st_e_rac1oc1mo e conclu_1r da 1mpo~s1b1- finita, não se deixa definir por um estado ou características quaisquer.
r dade de um tal saber pela imposs1b1hdade de toda polft1ca revolu~ion~- Existe relação interna entre o que é visado (o desenvolvimento da auto-
1· a lúcida é em última análise rejeitar as atividades humanas. e a h1st_óna nomia) e aquilo por que ele é visado (o exerclcio desta autonomia), são
~:,, sua t~talidade, .con:io . insuficientes _s egundo um "standar" fict!ci~. dois momentos.de um processo; finalmente, desenvolvendo-se num con-
Mas a política não é nem concretização de um Saber absoluto, nem tecm- texto concreto que a condiciona e devendo levar em consideração a rede
a nem vontade cega não se sabe bem de que; ela pertence a um outro complexa de relações causais que percorrem seu domínio, a pfaxisjamais
~o,mínio, o do fazer, e a esse modo específico do fazer que é a praxis. pode reduzir a escolha de sua maneira de operar a um simples cálculo;
não que este fosse muito complicado, mas porque, por definição, deixaria
escapar o fator principal - a autonomia.
Praxis e projeto
A praxis é, por certo, uma atividade consciente, só podendo existir
Chamamos de praxis este fazer no qual o outro ou os outros s~o vi- na lucidez; mas ela é diferente da aplicação de um saber preliminar (não
das como seres autônomos e considerados como o agente essencial do podendo justificar-se pela invocação de um tal saber - o que não significa
~~senvolvimento de sua própi_ia auto?~mia. A ver~adeira política, ave;- que ela não possa justificar-se). Ela se apóia sobre um saber, mas este é
dadeira pedagogia, a verdadeira medicina, na medida em que algum dia. sempre fragmentário e provisório. É fragmentário, porque não pode ha-
existiram, pertencem à praxis. . , . ver teoria exaustiva do homem e da história; ele é provisório, porque a
Existe na praxis um por fazer, mas esse por fazer e especifico: e preci- própria praids faz surgir constantemente um novo saber, porque e/afaz o ·
samente 0 desenvolvimento da a utonomia do 01:1tro ou dos ou~ros (o que mundo falar numa linguagem ao mesmo tempo singular e universal. É por
ão é 0 caso das relações simplesmente pessoais, .como a am1za~e ou o isso que suas relações com a teoria, a verdadeira teoria corretamente con-
nmor onde esta autonomia é reconhecida porém seu desenvolvimento cebida, são infinitamente mais intimas e mais profundas do que as de
~ão é, colocado como um objetivo à parte, porque e~sas relações não tê'? qualquer técnica ou prática "rigorosamente racional" para a qual ateo-
finalidade exterior à própria relação). Poderíamos dizer que para a pra~1s ria não passa de um código de prescrições mortas não podendo nunca en-
a autonomia do outro ou dos outros é, ao mesmo tempo, º.fim e o meio; contrar o sentido daquilo que maneja. A constituição paralela da prática
a praxis é aquilo que visa o desenvolvime~to da autono_m1a como ~m~e e da teoria psicanalítica por Freud, de 1886 até sua morte, fornecem pro-
utiliza para este fim a autonomia com.o meio. Essa ~an~1ra de falar eco- vavelmente a melhor ilustração desta dupla relação. A teoria não podia
m oda, porque facilmente compreens1vel. Mas ela _e, r~gorosamente fa- ser dada previamente, pois ela emerge constantemente da própria ativi-
lando, um abuso de linguagem , e os ~er~os fi!TI e me10 sa~ abs~lutamente dade. Elucidação e transformação do real progridem, na praxis, num
Inadequados neste contexto. A prax1s nao pode ser r~duz1d a a um esq_ue- condicionamento recíproco. É exatamente esta dupla progressão que é a
ma de fins e de meios. O esquema do fim e dos meios pertence precisa-

9. "Meu trabalho, meus filhos, são para mim fins ou meios, ou um e outro alternada-
8. o momento da elucidação está sempre necessariamente contido no fazer. Mas disso mente? Eles não são nada disso: certamente não os meios de minha vida, que se perde neles
não resulta que íazer e teoria sejam simétricos. no mcsi:n~. nível, cada um cngloban~o o ou- cm vez de servir-se deles, e muito mais do que fins, porque um fim é o que queremos e cu
tro. o fazer constitui o universo humano do qual a teoria e um segmento. A humanidade es- quero meu trabalho, meus filhos, sem medir previamente até onde isso me levará e bem
tâ comprometida numa atividade consci~nte multiforme, ela se define como í~zer (qu: con- além do que eu possa conhecer deles. Não que cu me dedique ao que não se i: Eu os vejo
tém a elucidação no contexto e a propósito do fazer como momento necessáno mas nao. so- com o tipo de precisão que comportam as coisas existentes, cu os reconheço dentre tudo
berano). A teoria como tal é ur:i fazer específi~o, ela emerge.quando o i:nomcnt.o de elucida- mais, sem saber inteiramente de que são íeitos. Nossas decisões concretas não visam signifi-
ção torna-se por si mes mo proJeto. Nesse sentido pode-se dizer que. e_x1~te efetivamente. um cações íechadas". Esta frase de Mauriee Marleau-Ponty (Les Aventures de la dialectique.
"primado da razão prática". Podemos conceber, e houve durante m1lcn1os. uma humanida- Gallimard. 1935. p. 172) contém implicitamente, ao que sabemos, a definição mais próxima
de sem fazer. até agora dada de praxis.

94 95
justificação da praxis. Porém, na estrutura lógica do conjunto que for- permitir a autonomia de todos, reconhecendo que esta pressupõe uma
mam, a atividade precede a elucidação; porque, para a praxis, a última transformação radical da sociedade que, por sua vez, só será possível
instância não é a elucidação, e sim a transformação do dado 10• • pelo desdobramento da atividade autônoma dos homens.
Falamos do saber fragmentário e provisório e isso pode dar a im- Concordaremos facilmente{sob condição de verificação de algumas
pressão de que o essencial da praxis (e de todo o fazer) é negativo, uma poucas fase.s da história) que uma tal política nunca existiu até hoje.
privação ou uma deficiência com referência a uma outra situação que, Como e por. que poderia ela existir agora? Sobre o que poderia apoiar-se?
ela, seria completa, disporia de uma teoria exaustiva ou do Saber absolu- A resposta a esta pergunta faz retornar à discussão do próprio con-
to. Mas esta aparênci;l está ligada à linguagem, submetida a uma maneira teúdo do projeto revolucionário, o qual é precisamente a reorganização e a
milenar de expor os problemas, e que consiste em julgar ou em pensar o reorientação da sociedade pela ação autônoma dos homens.
efetivo segµndo o fictício. Se estivéssemos certos de ser compreendidos, O projeto é o elemento da praxis (e de toda a tividade). ~uma praxis
se não tivéssemos que considerar os preconceitos e pressupostos tenazes determinada, considerada em suas ligações com o real, na definição con-
que domi~ ~m os espíritos, at'é os ma~s crít.ic~s. dirí~mos simplesr_n~n.te: a cretizada de seus objetivos, na especificação de suas mediações. ~a inten-
praxis apoia-se sobre um saber efetivo (hm1tado, e claro, prov1sono, é ção de uma transformação do real, guiada por uma representação do sen-
claro - como tudo que é efetivo) e não teríamos sentido necessidade de tido desta transformação, levando em consideração as condições reais e
acrescentar: sendo uma atividade lúcida, evidentemente, não pode invo- animando uma atividade.
car o fantasma de um saber absoluto ilusório. O que fu ndamenta a pràxis É preciso não confundir projeto e plano. O plano corresponde ao
não é uma deficiência temporária do nosso saber, que poderia ser pro- momento técnico de uma atividade, quando condições, objetivos, meios
gressivamente reduzida; é ainda menos a transformação do horizonte podem ser e são determinados "exatamente", e quando a ordenação recí-
presente, do nosso saber em limite absoluto"· A lucidez "relativa" da proca dos meios e dos fins apoia-se sobre um saber suficiente do domínio
praxis não é um mal menor, algo na falta de coisa melhor - não somente em questão. (Resulta daí que a expressão "plano econômico", conve-
porque uin tal "melhor" não existe em parte alguma, mas porque ela é o niente, aliás, constitui, corretamente falando, mau uso de linguagem).
outro lado de sua substância positiva: o próprio objeto da praxis é o no- É preciso igualmente distinguir projeto e atividade do "sujeito ético"
vo, o que não se deixa reduzjr ao simples decalque materializado de uma da filosofia tradicional. Esta é guiada - como o navegador pela estrela
ordem racional pr~-constitulda, em outros termos, o próprio real e não polar, segundo a famosa imagem de Kant - pela idéia de moralidade,
um artefato estável, limitado e morto. mas encontra-se ao mesmo. tempo_ a uma distância infinita desta. Existe
Esta lucidez "relativa" corresponde igualmente a um outro aspecto pois não-coincidência perpétua entre a atividade real de um sujeito ético
da praxis também essencial; é que seu próprio sujeito é transformado e a idéia moral, ao mesmo tempo em que existe relação. Mas essa relação
constantemente a pa rtir desta experiência em que está engajado e que ele permanece equívoca, pois a idéia é ao mesmo tempo fim e não-fim; fim,
faz, mas que o faz também. "Os pedagogos são educados", "o poema faz porque ela exprime sem excesso ou falta o que deveria ser; não-fim, por-
seu poeta". E é óbvio que daí resulta uma modificação contínua, no fun- que, por princípio não é possível que ela seja alcançada ou realizada. Mas
do e na forma, da relação entre um sujeito e um objeto os quais nunca po- o projeto visa sua realização como momento essencial. Se existe defasa-
dem ser definidos de uma vez por todas. gem entre representação e realização, esta não é de princípio, ou melhor,
O que até agora chamamos política foi quase sempre uma mistura provém de outras categorias que não a separação entre "idéia" e "reali-
na qual a p .arte da manipulação, que trata os homens como coisas a par- dade": ela se refere a uma n9va modificação tanto da representação
tir de suas propriedades e de suas reações supostamente conhecidas, foi como da realidade. O que é, a este respeito, o núcleo do projeto, é um
dominante. O que chamamos polltica revolucionária é uma pràxis que se sentido e uma orientação (em direção a) que não se deixa simplesmente
dá como objeto a organização e a orientação da sociedade de modo a fixar em "idéias claras e distintas" e que ultrapassa a própria representa-
ção do projeto tal como poderia ser fixada a qualquer momento.
Quando se trata de política, a representação da transformação visa-
10. ·Numa ciência experimental ou de observação pode parecer igualmente que a "'ativi- da, a definição dos objetivos, pode assumir - e deve necessariamente as-
dade'" precede a elucidação: porém ela só a precede no tempo. não na ordem lógica. Proce- sumir, sob certas condições - a forma do programa. O programa é uma
de-se a uma experiência para elucidar, e não o inverso. E a atividade do experimentador só:é concretização provisória dos objetivos do projeto quanto a pontos consi-
li transformadora num sentido superficial ou formal: ela não visa a transformação de seu ob- derados essenciais nas circunstâncias dadas, na medida em que sua reali-
jeto como tal e, se ela o modifica. é para fazer aparecer uma outra camada mais .. profunda"" zação provocaria ou facilitaria, por sua própria dinâmica a realização do
como "idêntica" ou "constante". (A obsessão da ciência são os "invariantes").
11. Supondo que a flsica pudesse um dia :itingir um " saber exaustivo'' de seu objeto (su- conjunto. O programa é apenas uma figura fragmentária e provisória do
posição. aliás. absurda). isso em nada afetaria o que dizemos da praxis histórica. projeto. Os programas passam, o projeto permanece. Como em qualquer
96 97

l
outro caso, pode, facilmente, ocorrer decadência e degeneração do pro- 1suradamente o papel do consciente, não faz da alienação um pesadelo do
grama; o programa pode ser tomado como um absoluto, a atividade e os qual estaríamos no ponto de acordar·e da história anterior um infeliz aca-
homens podem ser alienados no programa. Isso, em si, nada prova con- so? Há sentido em postular uma modificação radical, não perseguimos a
tra a necessidade do programa. ilusão de uma novação absoluta? Não haverá, por trás disso tudo, uma
Mas nosso propósito aqui não é a filosofia da prática como tal, nem outra filosofia da história?
a elucidação do conceito do projeto por si mesmo. Queremos mostrar a
possibilidade e explicar o sentido do projeto revolucionário, como proje-
to de transformação da sociedade atual em uma sociedade organizada e 2. RAfZES DO PROJETO REVOLUCIONÁRIO
orientada no sentido da autonomia de todos, sendo esta transform ação As raízes sociais do projeto revolucionário
efetuada pela ação autônoma dos homens tais como são produzidos pela
presente sociedade 12 Não pode existir teoria perfeita da história e a idéia de uma raciona-
Nem esta, nem qualquer outra discussão é feita a partir de um3: ta- lidade total da história é absurda. Mas a história e a sociedade não são
bula rasa. O que dizemos hoje apóia-se, necessariamente, sobre - e isso também irracionais num sentido positivo. Já tentamos mostrar que ra-
certamente poderia significar, se não prest amos atenção: se prende em - cional e não-racional cruzam-se constantemente na realidade histórica e
o que já foi dito há muito tempo, por outros e por nós mesmos. Os confli- social, e é precisamente esse cruzamento que é a condição da ação.
tos que dilaceram a sociedade de hoje, a irracionalidade que a· domina; a O real histórico não é integralmente e exaustivamente racional. Se o
oscilação perpétua dos indivíduos e das massas entre a luta e a apatia, a fosse, não haveria jamais um problema do fazer, pois tudo já estaria dito.
incapacidade do sistema de adaptar-se a esta ou aquela; a experiência das O fazer implica que o real não é totalmente racional; ele implica também
revoluções passadas e aquilo que é, do nosso ponto de vista, a linha as- que ele não é tampouco um caos que comporta estrias, linhas de força,
cendente que liga seus cumes; as possibilidades de uma organização so- n_e rvuras que delimitam o possível, o factível, indicam o provável, permi-
cialista da sociedade, e suas modalidades na medida em que podemos de- tem que a ação encontre pontos de apoio no dado imediato.
fini-las desde agora - tudo isso forçosamente está pressuposto no que di- A simples existência de sociedades instituídas é suficiente para de-
zemos e não é possível retomá-lo aqui. Aqui queremos somente esclare- monstrá-lo. Mas junto com as " razões" de sua estabilidade, a sociedade
cer as principais questões introduzidas pela critica do marxismo e a rejei- atual revela, também à análise, suas fendas e as linhas de força de sua cri-
ção de sua análise do capitalismo, de sua teoria da história, de sua filoso- se.
fia geral. Se não há análise econômica que possa mostrar num m ecanis- A discussão sobre a relação do projeto revolucionário com a realida-
mo o bjetivo ao mesmo tempo os fundamentos da crise da sociedade atual de deve ser desa lojada do terreno metafisico da inelutabilidade histórica
e a fo rma necessária da sociedade futura, quais podem ser as bases do do socialismo - ou da inelutabilidade histórica do não-socialismo. Ela
projeto revolucionário na situação real, e de onde poderemos tirar qual- deve ser, para começar, uma discussão sobre a p ossibilidade de uma
quer idéia sobre outra sociedade? A crítica do racionalismo não exclui transformação da sociedade num determinado sentido.
que possamos estabelecer uma "dinâmica revolucionária" destrutiva e Nós nos limitaremos aqui a abordar esta discussã9 em torno de dois
construtiva? Como pod:emos estabelecer um projeto revolucioná~io sem exemplos ".
querer captar a sociedade presente, e sobretudo futura, como totalidade e Nesta atividade social fundamental que é o trabalho, e nas relações
mais ainda, como totalidade racional, sem recair nas ciladas que acaba- de produção onde esse trabalho se efetuá, a organização capitalista apre-
mos de indi.car? Uma vez que eliminamos a garantia dos."processos obje- sentá-se, desde seu início, como dominada por um conflito central. Os
tivos", o que resta? Por que queremos a revolução - e por que os homens a trabalhadores só açeitam pela metade e executam, P.OJ' as_~i m dizer, com
quereriam? Porque seriam eles capazes disso e o projeto de uma revolu- 'uma só mão, as tarefas que lhes são atribuídas. Os trabalhadores não po-
ção socialista não implica a idéia de um " homem total" futu ro, de um su- dem participar efetivamente da produção e não podem deixar de partici-
jeito absoluto, que havíamos denunciado? Que significa exatamente au- par dela. A d ireção não pode deixar de excluir os trabalhadores da pro-
~onomia e até que ponto ela é realizável? Tudo isso não a umenta desme- dução e ela não pode excluí-los. O conflito que d isso resulta - que é ao
mesmo tempo "externo", entre dirigentes e executantes e " inte rioriza-
do", no seio de cada executante e de cada dirigente - poderia enterrar-se
12. Isso significa: uma revolução das massas trabalhadoras eliminando o domínio de
toda camada particu lar sobre a sociedade e instaurando o poder dos conselhos de trabalha-
dores sobre todos os aspectos da vida social. Sobre o programa que concretiza nas circuns-
tâncias históricas atuais os objetivos de uma tal revolução. ver nv 22 de S. ou B. (julho 1957) 13. Mais uma vez, riossa êl ís~ussão aqui só pode ser muito parcial, e somos obrigados a
"Sur le contcnu du socialismc, li". reportar-nos aos diversos ~extos jâ publicados cm S. ou 8 . sobre essas questões.

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.t
e encobrir-se se a produção fosse estática e a téc;nica petrificada: porém a para a compreensão de um grande número de outros fenômenos da socie-
expansão econômica e a transformação tecnológica contínuas revigoram- . dade contemporânea. Em suma, esses fenômenos são articulados entre si,
no constantemente. articulados com a estrutu.r ~ fundamental d!) capitalismo, articulados com
A crise do empreendimento capitalista apresenta vários outros as- o restante das relações sociais; e eles exprimem não somente um conflito,
pectos, e. se só considerássemos os estágios superiores.t poderíamos talvez mas uma tendência no sentido da solução desse conflito pela realização
falar apenas de "disfun ção burocrática". Porém na base, no rés do chão da gestão operária da produção, a qual implica a eliminação da burocra-
das oficinas e dos escritórios, não se trata de "disfunção", trata-se inte- cia. Temos aqui, na própria realidade social, uma estrutura conflituosa·e
gralmente de um conflito que se exprime numa luta incessante, ainda que . um principio de solução. "
implícita e velada. Muito antes dos revolucionários, foram os teóricos e ~. pois, uina descrição e uma análise crítica do que é que libera, nes-
os práticos capitalistas que descobriram sua existência e gravidade, des- te caso, uma raiz dei projeto revolucionário. Esta descrição e esta análise
crevendo-a corretamente, mesmo se não chegaram, naturalmente, às con-. nem são verdadeiramente "as nossas" em um sentido especifico. Nossa
cl~sões a que esta análise poderia conduzi-los, dominados pela idéia de teorização só faz colocar em seu lugar o que a sociedade diz já muito con-·
.encontrar, a todo custo, uma "solução" que não perturbasse a ordem es-, fusamente dela mesma em todos os níveis. São os dirigentes capitalistas ou
tabelecida. d burocratas que.se queixam constanteménte da oposição dos homens; são
Este conflito, esta luta, possuem uma lógica e uma dinâmica as seus sociólogos que a analisam, que existem para desarmá-la, reconhe-
quais emergem três tendências: cendo a maior parte do tempo que isso é impossível. São os operários
- Os operários se organizam em grupos informais opondo uma que, quando olhamos mais de perto, combatem constantemente a orga-
"contra gestão" fra2mentária do trabalho à gestão oficial estabelecida nização existente da produção, mesmo se não sabem o que fazem. E, se po-
pela direção. . .. demos estar contentes de haver "previsto" muito tempo antes o conteúdo
- nas fases de crise social, os operários reivindicam .aberta e direta- da revolução húngara 16, ainda assim rião o inventamos (como também
mente a gestão da produção e tentam realizá-la (Rússia 1917-1918, Cata- em relação à Iugoslávia onde o problema está posto, ainda que de uma
lunha 1936-1937, Hungria 1956) ". maneira em grande parte mistificada). A própria sociedade fala de sua
Essas tendências traduzem o mesmo problema através de pafses e de crise numa linguagem que quase nem exige uma interpretação 11• Um se-
fases diferentes. A análise das condições da produção capitalista mostra
·que elas não são acidentais, mas consubstanciais aos caracteres mais pro-
fundos desta produção. Elas não são corrigíveis ou elimináveis p or refor-
15. Encontr~remos sociólogos pedantes que protestarão: como podemos englobar, sob a
mas parciais do sistema, de vez que decorrem da relação capitalista fun- mesma significação, dados provcnienti:s de áreas tão diferentes, como as pcsqu.isas da socio-
damental, a divisão do processo do trabalho em um momento de direção logia industrial, as greves da Standard na Inglaterra e da General Motors nos Estados Uni-
e em um momento. de execução sustentados por pólos sociais diferentes. dos é a revolução húngara? J:: contrariar todas as regras metodológicas. Os mesmos crlticos
O sentido que elas encarnam define, para além do quadro da produção, hip~rscnslveis entram,. no entanto, cm transe quando vam Freud aproximar o "retorno do
um tipo de antinomia, de luta e de superação desta antinomia, essencial reprimido" em um paciente, no decurso de uina análise, e cm todo o povo judeu dez séculos
.após o suposto "assassinato" de Moisés. ·
16. Afirman$1o. que a partir de 1948 a cxperiancia da burocratização faria, dai em dian-
te, da gestão operária da produção a reivindicação central de toda revolução (S. ou B., n• 1
retomado agora in La Socleté bureaucratfque, 1, p. 139 a 183).
14. Quando falamos de lógica e d'i nâmica, trata-se evide ntemente de lógica ·e dinâmica 17. De nossa parte, retomamos as análise$ feitas pela sociologia industrial e, auxiliados
históricas. Para a análise da luta informal na produção, ver D. Motht, "L'usine et la gcstion pelos materiais concretos trazidos por operários que vivem constantemente esse conflito,
ouvriére", S. ou B. n' 22 (julho de 1957) retomado in Joumal d'un ouvrier, Ed. de Minuit, te ntamos elucidar sua significação e trazer à·lu z suas concl usões. Recentemente, i"o nos va-
Paris, 1959, e meu texto "Sur le contenu du socialismc", III". (S. ou B., n' 23,janeiro 1958, leu por parte de marxistas reformados como Lucicn Scbag, a censura de "parcialidade"
retomado in l'experienu de mouvemenr ouvrier, 2, 1.c.,); para as reivindicações "de gestão", (Marxisme et Structuralfsme, Payot, 1964, p. 130): terlamos cometido o pecado de "admitir
v. "Les gréves sauvages dans !'industrie automoõile américaine" , "Les grévcs dcs dockcrs que a verdade da empresa é concretamente dada a alguns de seus membros, a saber os operá-
anglais", e "Les greves de l' auto mation cm Anglctcrre". S. ou B., n' IÍI e 19 (retomado in rios". Em outras palavras: constatar que existe uma guerra; que os dois adversários estão de
L'experience... 1.1.c.); para os conselhos operários húngaros e suas reivindicações, ver o acordo sobre sua existencia, seu desenrolar, suas modalidades, e até mesmo suas causas, se-
co njunto de textos sobre a revolução húngara publicados no n' 20 de S. ou B. e Pannonicus ri a defender um ponto de vista incompleto e parcial. Perguntamo-nos, cntãQ, o que para L.
"Lcs conscils ouvriers de la revolution hongroisc" (n' 21). Além disso, lembremos que apa- Scbag, não o é: o ponto de 'lista dos professores de Universidade ou dos "pesquisadores"
rece nesta luta uma dialética permanente: assim como os meios utili zados pela di reção co n- que não pertenceriam talvez, a nen hum subgrupo social? Ou quer ele dizer que não P.O·
tra os operários podem ser retomados por estes e voltados contra ela, assim também a dire- demos nunca dizer algo sobre a sociedade, e então porque escreve? Neste plano, um teórico
ção consegue recuperar posições conquistadas pelos operários e em última instAncia usar revolucionário não tem necessidade de postular que a "verdade da empresa" é dada a al-
até sua organização informal. Mas cada uma dessas recuperações provoca com o tempo guns de seus membros; o discursos dos capitalistas, uma.vez anal_isado, não diz outra coisa,
uma resp osta a um outro nlvel. d e alto a baixo a sociedade fala de sua crise. O problema começa 9uando queremos saber o
100 101
tor da sociedade, o que está mais vitalmente interessado nesta crise e que, mesmo tempo, toma-se claro que o problema da gestão da empresa ultra-
além disso, compreende a grande maioria, comporta-se de uma maneira passa amplamente a empresa e a produção e remete ao todo da socieda-
que, ao mesmo tempo, constitui a crise e mostra uma solução possível de; e que qualquer solução desse problema implica uma mudança radical
para esta e, sob certas con.dições, combate a organização presente, ades- na atitude dos homens em relação ao trabalho e à coletividade. Somos as-
trói, começa a substitui-la por outra. Nesta outra organização - na ges- sim levados a colocar as questões da sociedade como totalidade, e dares-
tão da produção pelos produtores - é impossível não ver a encarnação da ponsabilidade dos homens - que examinaremos mais adiante.
autonomia no domínio fundamental do trabalho. A economia nos oferece um segundo exemplo, permitindo esclarecer
As perguntas que podemos legitimamente fazer não são por conse- outros aspectos do problema.
guinte: onde você vê a crise, de onde extrai uma solução? A pergunta é: Tentamos mostrar que não existe e nem pode existir teoria sistemáti-
esta solução, a gestão operária, é verdadeiramente possível, é ela realizá- ca e completa da economia capitalista " . A tentativa de estabelecer tal
vel de forma durável? E supondo que considerada "em si mesma" ela teoria choca-se com a influência determinante que exerce Sobre a. econo-
pareça possível, a gestão operária não implicará muito mais que a gestão mia um fator não redutível ao econômico, a saber, a luta de classe; ela
operária? . choca-se também, em um outro nível, com a impossibilidade de estabele-
Por mais de perto e mais profundamente que tentemos olhar, ages- cer uma medida dos fenômenos econômicos, que se apresentam, no en-
tão da empresa pela coletividade dos que nela trabalham não faz apare- tanto, como grandezas. Isso não impede que um conhecimento de econo-
cer nenhum problema insuperável; ela mostra, ao contrário, a possibili- mia seja possível, e que ela possa isolar um certo número de constatações
dade de eliminar um grande número de problemas que constantemente e de tendências (sobre as quais evidentemente a discussão precisa estar
entravam o funcionamento da empresa hoje em dia, provocando um des- aberta). No que concerne aos países industrializados, essas constatações
perdício e uma deterioração, ma!eriais e humanos, imensos ". Mas, ao são, em nossa opinião:
- A produtividade do trabalho cresce num ritmo em aceleração; seja
como for, não se vê o limite desse crescimento.
- Apesar da elevação contínua do nível de vida, começa a surgir vir-
'que se quer faur desta crise (o que ~obredctcrmina afinal. de contas as análises ~córica~): 'cn­
tualmente um problema de absorção dos frutos desta produtividade, tan-
tão, efetivamente, só podemos nos colocar do ponto de vista de !lrn.grupo parllcular (já que to sob forma de saturação da maioria das necessidades tradicionais,
a sociedade é dividida), mas também a questão não é mais a "verdade da empresa" (ou da como sob forma de 'subemprego latente de uma parte crescente da mão-
sociedade) tal corno é, mas a "verdade" do que tem que ser feito por este grupo contra um de-obra. O capitalismo responde a esses dois fenômenos com a fabrica-
outro. Nesse dado momento, efetivamente, tomamos partido, mas isso é válido para todo ção sintética de novas necessidades, a manipulação dos consumidores, o
mundo, inclusive para o filósofo que, proferindo discursos sobre a impossibilidade de to-
mar partido, efetivamente toma partido por aquilo que é e, pois, por alguns. Aliás, Scbag desenvolvimento de uma mentalidade de "status" e de posição social li-
mistura cm sua crítica duas consid.:rações diferentes: a dificuldade de que acabamos de fa- gados ao nível de consumo, a criação ou a manutenção de empregos ana-
lar e que proviria do fato de que o "sociólogo marxista" tenta exprimir uma "significação crônicos ou parasitários. Mas não é absolutamente certo que estes exp~­
global da fábrica" cujo .dcposit~rio s~ria o prol~tariado, que é somente um~ parte da. f~b~i­ dientes satisfaçam por muito tempo. Existem duas soluções aparentes: di-
ca; e a dificuldade rclauva à "d1spar1dade de atitudes e de tomadas de pos1çilo operarias ',
que o sociólogo marxista resolveria valorizando "certas condutas", "apoiando-se sobre um rigir cada vez mais o aparelho de produção no sentido da satisfação das
esquema mais geral relativo à sociedade capitalista cm seu conjunto". Esta última dificulda- "necessidades coletivas" (em sua definição e concepção capitalistas~ bem
de existe, por certo, mas ela não é de modo algum uma maldição especifica de que sofreria o entendido) - o que parece dificilmente compatível com a mentalidade
sociólogo marxista: existe para todo pensamento cientifico, para todo pensamento de um econômica privada e que é a mola do sistema no Ocidente como também
modo geral, para o próprio discurso, por mais quotidiano que seja. Quer cu fale de sociolo- no Oriente (tal política implicaria um crescimento muito mais rápido de
gia, de economia, de meteorologia ou do comportamento do meu açogueiro, sou constante·
mente obrigado a distinguir o que me parece significativo do resto, de valorizar certos as- "impostos" do que de salários); ou, então, introduzir uma r~dução, cada
pectos e de ignorar outros. Eu o faço segundo critérios, regras, e concepções que são sempre vez mais rápida, de tempo de trabalho que, no contexto social a~ual, cer-
discutlveis e que são periodicamente revisadas - mas não posso parar de fazê-lo a menos tamente criaria enormes problemas 20• Nos dois casos, o que esta na bas.e
que dc:xc de pensar. Podemos criticar concretamente o fato de valorizar estas condutas, do funcionamento do sistema, ou seja, a motivação e a coerção econôm1-
não o fato de valorizar cm si. !: triste cons tatar urna vez mais que as pretensas superações
do marxismo são, cm esmagadora maioria, casos de puras e simples regressões, fundadas
não sobre um novo saber, mas sim sobre o esquecimento do que antes havia sido aprendido
- mal aprendido, ao que parece. . . 19. Ver "Le mouvcrnent révo lutionnaire sous' le capitalisme modernc''. S. ou B .. n• 31, p.
18. Para justificar o que aqui dizemos, somos obrigados a pedir ao leitor que se reporte 69 a 81 (E agora, La Dynamique du capita/isme, 1 e. ). . .
ao ti:xto de D. Mothé, "L'usine et 'ta gestion ouvriere" já citado, bem corno ao texto de S. 20. Até certo ponto, um considerável crescimento da "ajuda" aos países subdesenvolvi-
Chatcl "Hiérarchie ct gestion collcctive", S . ou 8 . n• 37 e 38 (julho e outubro 1964). dos poderia igualmente atenuar o problema.
102 103
cas receberiam um golpe provavelmente irreparável 11 ." Além disso,·se es- ligação com os custos, tanto no Ocidente, Ónde prevalecem situações oli-
tas soluções são "racionais" do ponto de vista dos interesses do capitalis- gopólicas, como na URSS, onde se admite oficialmen~e que.os preços são
mo como tal, elas muito frequentemen te não o são do ponto de vista dos essencialmente arbitrários); utilização de uma parte do produto e dos re-
interesses específicos dos grupos capitalistas e burocráticos dominantes e cursos para fins que só têm sentido em relação com a estrutura de classe
influentes. Dizer que não existe·para o capitalismo impossibilidade abso- do sistema (burocracia de controle na empresa e fora dela, exército, polí-
luta de sair da situação que se cria atualmente, não significa que exista a cia etc.). Por definição, é imposs!vel quantificar esse desperdício. Soció-
certeza de que ele sairá. A resistência obstinada, e até aqui vitorio"sa, que logos do trabalho estimaram, por ~ezes, em 50%, a perda ·?e. produçã~
os grupos dominantes, nos Estados Unidos, opõem contra a adoção de devida ao primeiro fator que mencionamos, e que é sem duvida o mais
medidas que lhes seriam salutares: aumento das despesas públicas, maior importante, a saber, a não-participação dos trabalhadores na produção.
"ajuda" aos países subdesenvolvidos, redução do tempo de trabalho (que Caso devêssemos adiantar uma estimativa poderíamos dizer que a produ-
lhes parecem o cúmulo da extravagância, da dilapidação e da loucura), ção atual dos Estados Unidos, deve ser da ordem de um quarto, ou um
mostra que uma crise explosiva a partir desta evolução é tão provável quinto, daquela que a eliminação desses diversos fatores permitiria atin-
quanto uma nova mutação pacífica do capitalismo, ainda mais que esta gir muito rapidamente (ou que poderia ser obtida com um quarto do tra-
colocaria , atualmente em questão, aspectos da estrutura social muito balho gasto atualmente).
mais importantes do que fizeram, em sua época, o New Deal, a introdu- . - Enfim, uma análise das possibilidades que oferece a cQlocação à
ção da economia dirigida etc. A automação progride muito mais rapida- disposição da sociedade, organizada em conselhos de produtores, do sa-
mente do que a descretinização dos senadores americanos - embora esta ber econômico e de técnicos de informação, de comunicação e de cálculo
pudesse ser notavelmente acelerada pelo próprio fato de uma crise. Mas disponlvei'S - a "ci_bernação" da economia global a serviço da direção
seja através de uma crise ou de uma transformação pacifica, esses proble- coletiva dos homens - mostra que, até onde podemos ver, não somente
mas só poderão ser resolvidos abalando até seus alicerces o atual edifício não existe nenhum obstáculo técnico ou econômico para a instauração e
social. . o funcionamento de uma economia socialista, como esse funcionamento
- Existe (apesar do "pleno emprego"), um enorme desperdfcio po- seria, quanto ao essencial, infinitamente mais simples, e infinitamente
tencial, ou um mau rendimento na utilizàção dos recursos produtivos,· mais racional - ou: infinitamente menos irracional - do que o funcióna-
decorrente de múltiplos fatores ligados à natureza do sistema: não- mento da economia atual, privada ou "planificada" 11•
participação dos trabalhadores na produção; disfunção burocrática a Existe, pois, na sociedade moderna, ·um imenso problema econômi-
nível da empresa como da econqmia; concorrência e concorrência mono- co (o qual no final de contas é o problema da "suI?ressão da economia"),
polfstica (diferenciação fictfcia dos produtos, falta de estandardização dos grávido de uma crise eventual; existem incalculáveis possibilidades, des-
produtos e dos equipamentos, segredo das invenções e de métodos de perdiçadas atualmente, cuja realização permitira o bem-estar geral, uma
fabricação, publicidade, restriç&o deliberada da produção); irracionali- rápida redução talvez p. metade do tempo de trabalho atual e a liberação
dade da divisão da capacidade produtiva por empresas e por ramos, divi- de recursos para satisfazer as necc;ssidades que atualm~nte nem me~m~
são esta que reflete tanto a história passada da economia como as neces- são formuladas; e existem soluções positivas que, sob uma forma frag-
sidades atuais; proteção de camadas ou setores particulares e manuten- mentária, truncada, deformada, são introduzidas ou propostas desde ago-
ção de situações adquiridas; irracionalidade da repartição geográfica e. ra, e que, aplicadas radical e unh'.ersalmente, permitiriam resolver esse
profissional da mão-de-obra; impossibilidade de planificação racional de problema, realizando essas possibilidades e provocar uma imensa mu-
investimentos decorrente tanto da ignorância do presente como de incer- dança na vida da humanidade, dela eliminando rapidamente a "necessi-
tezas evitáveis concernentes ao futuro (e ligadas ao funcionamento do dade econômica".
"mercado" ou do "plano" burocrático); impossibilidade radical de cál-
culo econômico racional (teoricamente, se o preço de um só dos bens de
produção contém um elemento arbitrário, todos os cálculos podem ser
falseados através de todo o sistema; ora, os preços só têm uma long!nq~a 22. Para as possibilidades de uma organização e de uma gest.ilo da economia no sentido
indicado, ver "Sur Je contenu du socialisme, 1 e II", S. ou B., n• 17 (julho 1955). p. 18 a 20,
22 (julho 1957), p. 33 a 49. - O quanto esses problemas estão no núcleo da situação econô-
mica atual, o mostra o fato de que a idéia da ·~ttutomatização" de uma grande parte da gcs-.
21. Na verdade, em tudo is.so, o fato ~ que vivemos o começo do fim do econômico como
0

tão da economia global, formulada em S. ou B. cm 1955- 1957. estimula desde 1960 uma das
tal. Herbert Marcuse (Eros et civlllsation) e Pau~ Goodman (Growfng Up Absurd) foram os tendências "reformadoras" dos.economistas russos, aquela que queria 'automatizar" a pla-
primeiros. ao que saibamos, a examinar iu implicações dessa modificação virtual - à qual nificação (Kantorovich, Novozhilov etc.). Porém, a realização de tal solução~ dificilmente
voltaremos mais adiante. compatível com a manutenção do poder da burocracia.

104 105
!:: claro que a aplicação desta solução exigiria uma transformação sencial, uma mudança qualitativa: a possibilidade, para os homens, de di-
radical da estrutura social - e uma transformação da atitude dos homens rigir conscientemente a economia, de tomar decisões com conhecimento
perante a sociedade. Voltamos, assim, ainda aqui, aos dois problemas da de causa - ao invés de sujeitar-se à economia, como agora 23 • Será esta
totalização e da responsabilidade, que tentaremos analisar mais adiante. economia totalmente transparente, integralmente racional? A praxis res-
ponderá que esta pergunta não tem nenhum sentido para ela, que o que
Revolução e racionalização lhe interessa não é especular sobre a impossibilidade do absoluto e sim
transformar o real, eliminando dele, o mais posslvel, o que é adverso ao
O exemplo da economia permite ver outro aspecto essencial da homem. Ela não se preocupa com a possibilidade de uma passagem do
problemática revolucionária. Uma transformação no sen~ido indi.cado "relativo" ao "absoluto", mas constata que inovações r adicais já ocorre-
significaria uma racionalização sem precedente da economia._ A o?Jeç~o ram na história. Ela não se interessa pela racionalidade completa como
metafisica aparece aqui e ainda como um sofisma: uma rac1onahzaçao um estado acabado, porém, tratando-se de economia, pela racionaliza-
completa da economia é poss{vel? A resposta é: isso não nos interessa. ção como processo contínuo de realização das condições da .autonomia.
f;: bastante sabermos que uma imensa racionalização é possível, e Ela sabe que esse processo já comportou etapas e ainda continuará com-
que ela só pode ter resultados positivos na vida dos homens. Na econo- portando. Afinal, o descobrimento do fogo ou da América, a invenção da
mia atual, temos um sistema só parcialmente racional, mas que contém .roda, do trabalho com metais, da democracia, da filosofia, dos ~ovietes e
possibilidades de racionalização sem limite. Essas possibili~ades _só po- ·outros acontecimentos na história da humanidade ocorreram num certo
dem começar a ser realizadas ao preço de uma transformaçao radical do momento, separando profundamente o que havia antes e·o que houve de-
sistema econômico e do sistema mais amplo no qual ele está mergulhado. pois.
Inversamente, é somente em função desta racionalização que esta trans- Revolução e totalidade social
formação radical é conceblvel. .. _
A racionalização em questão concerne não somente à utthzaç~o do Tentamos mostrar, a propósito da produção e do trabalho, que o
sistema econômico (dedicar seu produto aos fins explicitamente deseja- conflito que ai se manifesta contém, ao mesmo tempo, os germes de uma
dos pela coletividade): como também ·c'oncerne ao func.ionamento e, fi- solução passivei sob a fo r ma da gestão operária da produção.
nalmente, à própria possibilidade de conhecimento do sistema. Em rela- Esses embriões de solução, tanto como "modelo" como por suas im-
ção a este último ponto pode-se ver a di~eren!a .entre a atitude contem- plicações, ultrapassam de muito o problema da produção. Isso é evidente
plativa e a praxis. A atitude contempla~iva ~1mit~-se a constatar que a a priori, porquanto a produção já é muito mais do que produção; porém
economia (passada e presente) contém 1rracionahdades profundas, que é útil mostrá-lo concretamente.
impedem um conhecimento completo. Ela ai encontra a expressão· parti- A gestão operária ultrapassa a produção enquanto modelo: se ages-
cular de uma verdade geral, a opacidade irredutlvel do dado, que vale, tão operária é válida, é porque elimina um conflito realizando um modo
evidentemente, igualmente .para o futuro. Por conseguinte ela afirmará-. determinado de socialização, que permitiria a participação. Ora, o mes-
com todo o direito neste terreno - que u~a eçonomia to~almente trans- mo tipo de conflito existe também em outras esferas sociais (em certo
parente é imposslvel. E ela podeta a partir dai, se lhe falta um pouco de. sentido em todas, feitas as transposições necessárias); o modo de sociali-
rigor, chegar facilmente à conclusão que não vale a pena ten~ar mudar .º zação que representa a gestão operária ai aparece, pois, igualmente, em
que quer que seja ~ ou então _:que t~das as mu~anças po~slve1 s, por mais princípio, como uma .solução posslvel.
desejáveis que sejam, jamais alterarão o essencial, e contmu~rão na mes- A gestão operária ultrapassa a produção por suas implicações:
ma maneira de ser, posto que jamais seriam capazes de realizar a passa- ela não pode permanecer simplesmente gestão operária da produção em
gem do relativo ao absoluto. . . . . _ sentido restrito, sob pena de tornar-se um simulacro. Sua realização efeti-
A atitude polltica constata que a 1rracionahdade da economia ~ao se va implica um remanejamento praticamente total da sociedade, como sua
confunde simplesmente com a opacidade de todo ser, que ela está hgada consolidação, a longo prazo, implica um outro tipo de personalidade hu-
(não somente do ponto de vista humano ou social, como também do mana. Outro tipo de ~ireção da economia e de organização e um outro
ponto de vista puramente analltico) em grande parte a toda a estrutura tipo de poder, outra educação etc., necessariamente devem acompanhá-
social atual que, certamente, nada tem de eterno ou de fatal; ela se per- la.
gunta em que medida esta irracionalidade pode ser eliminada por uma
modificação desta estrutura e conclui (no que certamente pode ela enga- 23 A reivindicação de uma ecooomia compreensível precede logicamente e mesmo politi·
nar-se - porém é uma pergunta concreta) qu_e assim pode ocorrer, num camente a de uma economia a serviço do homem; ninguém pode dizer a serviço de que fun-
grau considerável, tão considerável que introduziria uma modificação es- ciona a economia se seu funcionamento é incompreenslvel.

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)1

11
Nos dois sentidos, somos levados a colocar o problema da totalida- mente implicada desde que existe uma política qu!llquer. A ação mais es-
'I de social. E somos, igualmente, levados a propor soluções que se apresen- tritamente reformista deve, se deseja ~er coerente <>lúcida (m as .º essen-
11
tam como soluçõ~s globais (um "programa máximo"). N~o significa isso cial do reformismo a esse respeito é precisamente a falta de coerência e de
postular que a sociedade forma virtualmente um todo racional, que nada lucidez), levar em consideração o todo social. Caso não o faça, verá suas
que pudesse surgir em outro setor tornaria imposslvel o que nos parece reformas anuladas pela reação desta totalidade que ignorou ou produ-
possível após um exame forçosamente parcial, que o que aqui germina zindo um resultado diverso daquele que visou: O mesmo acontece com
pode desabrochar em toda parte, e que possufmos desde já a chave desta uma ação puramente conservadora. Completar tal disposição existente,
totalidade racional? preencher tal brecha das defesas do sistema, como podem essas ações dei-
Não. Colocando o projeto revolucionário, dando-lhe mesmo a for- xar de perguntar se o remédio não é pior do que o mal, e, para julgar isso,
ma concretizada de um "programa máximo", não somente não pretende- ver o mais longe possível nas ramificações de seus efeitos, como podem
mos esgotar os problemas, não somente sabemos que não os esgotamos, elas dispensar-se de visar a totalidade social - não somente quanto ao fim
mas podemos e devemos indicar os problemas que permanecem, e seus li- que visam, a preservação do regime global, mas também quànto às con-
mites - até a fronteira do impensável. Sabemos e devemos dizer que sub- seqOências possíveis e à coerência do entrelaçamento de meios que desen-
sistem problemas que só po,demos formular; outros de que nem mesmo cadeiam? No máximo, esta visão (e o saber que supõe) podem permane-
suspeitamos; outros que se colocarão fatalmente em termos diferentes, cer implícitos. A ação revolucionária só difere, a esse respeito, por q ~erer
atualmente inimagináveis; quantas questões angustiantes no momento, explicitar, o máximo possível, seus pressupostos . .
porque insolúveis, poderão muito bem desaparecer por si mesmas ou co-
locar-se em termos que tornarão fácil a solução; e, inversamente, quantas A situação é a mesma em outras áreas que não a política. Será que
respostas hoje evidentes 1poderão revela r, quando de sua aplicação, di- sob pretexto de que não existe teoria satisfatória do organismo como to-
. mensões quase-infinitas de dificuldades. Sabemos também que tudo isso talidade, nem mesmo conceito bem definido da saúde, pensarlamos em
poderia eventualmente (mas não necessariamente) obliterar o sentido do proibir aos médicos a prática da medicina? Será que, durante essa práti-
que dizemos agora. ca, ·um médico digno desse nome pode abster-se de levar em considera-
Porém, estas considerações não podem fund amentar uma objeção ção, na medida do possível, esta totalidade? E que não se diga: a socieda-
contra a praxis revolucioná ria, nem contra nenhuma espécie de prática de não está doente. Além de duvidosà essa afirmação, não se trata disso.
ou de fazer em geral - exceto para aqueles.que desejam o nada ou preten- Trata-se do prático, o qual pode ter por domínio a doença ou a saúde de
dem situar-se no domínio do saber absoluto e julgar tudo a partir daí. Fa- um indivíduo, o funcionamento de um grupo ou de uma sociedade, mas
zer, fazer um livro, uma criança, uma revolução, fazer apenas é projetar- que encontra constantemente a totalidade, ao mesmo tempo como certe-
se em uma situação futura que se abre por todos os fados em direção ao za e como problema - visto que seu "objeto" só se dá como totalidade e
desconhecido, que não podemos, pois, possuir de antemão em pensamen- como totalidade é que se esconde.
to, mas que devemos obrigatoriamente supor como definida no que diz
respeito às decisões atuais. Um fazer lúcido é aquele que não se atiena na O filósofo especulativo pode protestar contra "a faita de rigor" que
imagem já adquirida desta situação por vir, que a modifica a cada passo, implica esse levar em consideração de uma totalidade que nunca se deixa
que não confunde intenção e realidade, desejável e provável, que não se captar. M as são esses protestos que denunciam a maior fal ta de rigor;
perde em conjecturas e especulações quanto aos aspectos do futuro que pois sem essa "falta de rigor" , o próprio filósofo especulativo não pode-
não importam para o que deve ser feito agora ou quanto aos quais nâda ria sobreviver um só momento. Se sobrevive é porque permite que sua
podemos; mas que não renuncia também a esta imagem, porque então mão direita ignore o que faz sua mão esquerda. t;'. porque ele divide sua
não somente " ele não sabe onde vai", como também não sabe nem mes- vida entre uma atividade teórica comportando critérios absolutos de ri-
mo mais onde quer ir (é por isso que a divisa de todo reformismo, "o fim gor - aliás, jamais satisfeitos - e um simples viver ao qual esses critérios
não é nada, o movimento é tudo" , é absurdo: todo movimento é movi- não se aplicariam de modo algum, por serem inaplicáveis. O filósofo es-
mento em direção a; é outra coisa pretender que, como não existem fins peculativo a prisiona-se desta maneira numa antinomia insolúvel. Mas
predeterminados na história, todas as definições do fim revelam-se suces- esta antinomia é fabricada por ele mesmo. Os problemas que a considera-
sivamente provisórias). ção da totalidade cria para a praxis são reais enquanto problemas concre-
Se a necessidade e impossibilidade de levar em consideração a totali- tos; mas enquanto impossibilidades de princípio, são puram~nte ilusó-
dade da sociedade pudesse m ser contrapostas à política revolucionária, rios. Só nascem quando queremos avaliar as atividades reais de acordo
elas poderiam e deveriam sê-lo ta mbém e, ainda mais, a toda política, com os padrões míticos de uma certa ideologia filosófica, de uma "filoso-
qualquer que seja. Pois a referência ao todo da sociedade está necessaria- fia" que é a penas a ideologia de uma certa filo sofia.
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A maneira pela qual a praxis enfrenta a totalidade e a maneira pela viva a fim de sustentar sua existência. Porém não é essa existência que
qual a filosofia especulativa pretendia dá-la a si mesma são radicalmente deve assegurá-lo integralmente. Seu objeto não é uma coisa inerte, cujo
diferentes. destino total ela deveria assumir. Ele próprio é ativo, possui tendências,
Se existe uma atividade que se dirige a um "sujeito" ou a uma coleti- produz e se organiza - porque se não é capacidade de produção e capaci-
vidade durável de sujeitos, essa atividade~~ P?de ,c;:xistir bas~ando-se nes- dade de auto-organização, não é nada. A teoria especulativa desmorona-
tas duas idéias: que ela encontre, no.seu ~bJet<,> , u"'!a unidade que.ela se, porque ela se atribui essa tarefa impossfvel,_de colocar sobre si a tota-
própria não estabelece como categ?na te?nca ou p~á~1ca, mas que ex1~te lidade do mundo. M as a praxis não tem que carregar seu objeto nos bra-
primeiro (clara pu obscuramente, 1mplfc1~a. ou exph~1tamente) para s1; e ' ços; agindo sobre ele, ela ao mesmo tempo reconhece, nos atos, que ele
que o característico desta unidade para ~1 e a capacidade de ultrapassar existe afetivamente P.o r si próprio. Não há nenhum sentido em interessar-
toda determinação preliminar, de proquzir o novo, novas formas e novos se por uma criança, um doente, um grupo ou uma sociedade, se não ve-
conteúdos (o novo em seu modo de organização e no que é organizado, mos neles, primeiro e antes de mais nada, a vida, a capacidade de ser fun-
sendo a distinção evidentemente relativa e "ótica"). No que se refere à dada sobre si mesma, a autoprodução e a auto-organização.
praxis, podemos resumir a situação dizendo que ela encontra a totalidade A política revolucionária consiste em reconhecer e explicitar os
· como unidade aberta fazendo-se a si mesma. problemas da sociedade como totalidade, mas, precisamente, porque a
Quando a teoria especulativa tradicional encontra a totalidade, ela sociedade é uma totalidade, ·ela reconhece a sociedade como algo que não
deve postular que a possui; ou entã<Y1admitir que não pode preencher o é inércia em relação a seus próprios problemas. Ela constata que toda so-
papel que ela própria definiu P,ara s.i. Se "a verd~de não está. na coisa, ciedade soube, de uma forma ou de outra, fazer frente a seu próprio peso
mas sim na relação", e se, como é evidente, não existem fronteiras na re- e a sua própria complexidade. E ainda sob esse aspecto, ela encara o
lação, então necessariamente "o Verdadeiro é o Todo':; e se a te~ria deve problema de uma maneira ativa: este problema que ela não ínventa, que
ser vérdadeira, ela deve possuir o todo ou então desdizer-se aceitando o de qualquer modo está constantemente implicado na vida social e politi-
que para ela é o fracasso supremo: o relativismo e o ceticismo. Esta pos- ca, não poderia ser·enfrentado pela humanidade em condições diferentes?
sessão do todo deve ser atual tanto no sentido filosófico como no sentido Quando se trata de dirigir a vida social, não há, atualmente, uma enorme
corrente: explicitamente realizada, e presente a todo instante. distância entre as necessidades e a realidade, entre o possível e o que exis-
Também para a praxis, a relação. não tem. fronteira~. Mas daí não te? Não estaria esta sociedade infinitamente melhor situada para enfren-
decorre a necessidade de fixar e possuu a totahdade do sistema de rela- tar-se a si mesma se não condenasse à inércia e à oposição nove décimos
ções. A exigência de levar em consideração a total~dade está sempre pre- de sua própria substância?
sente para à praxis · mas essa consideração a praxis não é obrigada a con- A praxis revolucionária, portanto, não tem que produzir o esquema
clui-la em moment~ algum. Isso porque para ela esta totalidade não é um total e detalhado da sociedade que visa instaurar; tampouco tem que "de-
objeto passivo de contemplação, cuja existência perman~ceria em susp~n­ monstrar" e garantir em termos absolutos que esta sociedade poderá re-
so até o momento em que fosse completamente atuahzada pela teona; solver todos os problemas que eventualmente poderão aparecer. Basta
esta totalidade pode ser ,e de fato é constantemente levada em considera- mostrar que, no que ela propõe, não existe incoerência e que, até onde
ção por si mesma. podemos ver, sua realização aumentaria enormemente a capacidade da
Para a teoria especulativa, o Qbjeto não existe se não está terminado sociedade de enfrentar seus próprios problemas.
e ela própria não existe se não pode terminar seu objeto. A praxis, ao
contrário, só pode existir se seu objeto, por sua própria natureza, ukra-
passa todo acabamento e é relação perpetuamente transformada com Raizes subjetivas do projeto revolucionário
esse objeto. A praxis parte do reconhecimento explícito da abertura de
seu objeto, só existe na medida em que a reconhece; sua "vista parcial" As vezes ouvimos dizer: esta idéia de uma outra sociedade apresen-
deste não é um déficit que lastime, mas é positivamente afirmada e dese- ta-se como um projeto, mas em verdade é apenas a projeção de desejos
jada como tal. Para a teoria especulativa só vale aquilo que ela pôde de não confessados, disfarce de motivações que permanecem escondidas
uma maneira ou de outra consignar e garantir nos cofres de suas "de- para os que as utilizam. Ela só serve para veicular, em alguns, um desejo
monstrações"; seu sonho - seu fantasma - é a acumulação de um tesouro de poder; em outros, a recusa do principio de realidade, o fantasma de
de verdades inutilizáveis. Na medida em que a teoria ultrapassa esse fan- um mundo sem conflito no qual todos estariam reconciliados com todos
tasma, torna-se verdadeira teoria, praxis da verdade. Para a praxis, o e cada um consigo mesmo, um sonho infantil que deseja ria suprimir o
constituído como tal morre do momento em que foi constituído, não lado trágico da existência humana, uma fuga permitindo viver simulta-
existe saber que não tenha necessidade de ser retomado na atualidade · neamente em dois mundos, uma compensação imaginária.
110 l 11
Quando a discussão toma tal rumo, é preciso inicialmente lembrar selho operário do bairro, e que, se esta coisa existe, somente eu posso
que estamos todos no mesmo barco. Nin~uém pode a~rmar que o q~e construi-la para mim, nas minhas medidas, como já me aconteceu e como
diz não tem ligação com desejos inconscientes ou motivações que na? ainda me acontecerá, sem dúvida. Mas na vida, como ela é feita para
confessa a si mesmo. Quando ouvimos "psicanalistas" de url!a ~e~erm1- mim e para os outros, entrechoco-me com uma quantidade de coisas,
nada tendência qualificar, a gr?~so modo,_ todos os r~volucwnan~s ~e inadmissíveis, digo que elas não são fatais e que decorrem da organização
neuróticos, só podemos nos fehc1tar por nao comp~rt1lh~r de su.a sau- da sociedade. Desejo e peço que antes de tudo meu trabalho tenha um
de" de Monoprix e seria facllimo descascar o mecamsmo incon~c1ente ~e sentido, que eu possa aprovar aquilo a que lhe serve e a maneira como·é
seu conformismo. Mais genericamente, aquele que crê descobrir n~ raiz feito e que me permita entregar-me a eíe verdadeiramente e usar minhas
do projeto revoh.icidnário este ou aquele desejo inconsciente, deven'.1 ao faculdades, bem como enriquecer-me e desenvolver-me. E digo que isso é
mesmo tempo perguntar-se qual o motivo que sua própria critica traduz possível, com uma outra organização da sociedade, para mim e para to-
e em que medida não é racionalização. . . dos. Digo que já seria uma mudança fundamental nesse sentido, se me
· · Mas para nós, essa devolução do argumento é de pouco interesse. deixassem decidir, com todos os outros, o que tenho a fazer, e, com meus
Com efeito a pergunta existe, e mesmo se ninguém a fizess~, aquele que companheiros de trabalho, como fazê-lo .
fala de revolução deve fazê-la a si mesmo. Os outros que decidam o quan- Desejo poder, com todos os outros, saber o que se passa na socieda-
to de lucidez sobre si mesmos suas posições lhes proporcionam; um revo- de, controlar a extensão e a qualidade da informação que me é dada.
lucionário não pode estabelecer limites para seu desejo de luci?ez. _E n.ão Peço para poder participar diretamente de todas as decisões sociais que
pode recusar o problema dizendo: o que con~a •. não sã~ a~ mot1vaçoes in- possam afetar minha existência ou o curso geral do mundo em que vivo.
conscientes, e sim a significação e o valor objetivo ~as 1dé1as e d~s atos, a Não aceito que ºmeu destino seja decidido, dia após dia, p<;>r pessoas cujos
neurose e a loucura de Robespierre ou de Baudelaire foram ~ais fecun- projetos me são hostis ou simplesmente desconhecidos e para quem não
das para a humanidade do que a "saúde" de qualquer comerc1an.te da é- passamos eu e todos os outros, de números num plano ou peões sobre um
poca. Porque a revolução, tal como a c~n_cebemos, rec.usa-~e precisamen- tabuleiro de xadrez e que em última análise, minha vida e morte estejam
te a aceitar pura e simplesmente esta c1sao entre mot1va~ao e resulta~o, nas mãos de pessoas que sei serem necessariamente cegas.
ela seria impossível na reali.dade e incoerente em seu sentido se fo~se im- Sei perfeitamente que a realização de uma outra organização social,
pulsionada por intenções inconscientes sem relaç~o co~ se~ conteudo ar- e sua vida, não serão absolutamente simples, que elas encontrarão a cada
ticulado; ela então só faria reeditar, uma vez mais, a h1stón~ p~ecede!1te, passo problemas difíceis. Mas prefiro antes lidar com problemas reais do
. permaneceria dominada por motivações obscuras, as quais tmponam que com as consequências do delirio de Gaulle, as astúcias de Johnson ou
com o tempo sua própria finalidade e sua própria lógica. as intrigas de Kruchev. Se acaso devemos, eu e os outros, encontrar o fra-
A verdadeira dimerisão desse probiema é a dimensão coletiva; é no casso nesse caminho, prefiro o fracasso numa tentativa que tem um senti-
nível das massas," as ún.icas que podem realizar uma nova sociedade, que do a um estado que permanece aquém do fracasso e do não fracasso, que
é preciso examinar o nascimento de novas motivações e de novas atitudes permanece irrisório.
capazes de levar à -realização do projeto revolucionário . Mas este exame Desejo poder encontrar o outro como um ser igual a mim e absolu-
será mais fácil, se tentarmos explicitar, de início, o que podem ser o dese- tamente diferente, não como um número, nem como um sapo empoleira-
jo e as motivações de um revolucionário. . do sobre outro degrau (inferior ou ºsuperior, pouco importa) da hie,rar-
O que podemos dizer a esse respeito é por definição eminenteme~te quia dos rendimentos e dos poderes. Desejo poder vê-lo e que ele possa
subjetivo. Igualmente, é também, por definição, suscetível de todas as in- ver-me como um outro ser humano, que nossas relações não sejam um
terpretações que quisermos. Se pode ajudar alguém a ver mais clarame.n- campo de expressão da agressividade, que nossa competição permaneça
te em outro ser humano (ainda que nas ilusões e erros deste) e através dis- dentro dos limites do jogo, que nossos conflitos, na medida em que não
so em si mesmo. não terá sido inútil dizê-lo. possam ser resolvidos ou superados, digam respeito a problemas e lances
· Tenho o desejo e sinto necessidade, para viver, de uma outra socie- reais, envolvam o mínimo possível de inconsciente, o mínimo possível de
dade diferente dessa que me rodeia. Como a grande maioria dos homens, imaginário. Desejo que o outro seja livre, porquanto minha liberdade co-
posso viver nesta aqui e acomodar-me. - de qualquer forma, v!vo nela. meça onde começa a liberdade do outro, e, sozinho, posso no máximo ser
Por mais criticamente que tente olhar-me, nem minha capacidade de "virtuoso na infelicidade". Não espero ·que os homens se transformem
adaptação, nem minha assimilação da realidade me parecem inferiores em anjos, nem que suas a lmas tornem-se puras como lagos da montanha
ao · meio sociológico. Não peço ·a imortalidade, a ubiqili~ade, a onis- - que aliás sempre me entediaram profundamente. Sei, porém, o quanto
ciência. Não peço que a sociedade "me d~ a felicidade"; sei que isso não é a cultura atual agrava e exaspera a sua dificuldade de ser e de ser com os
uma ração que poderia ser distribuída pela municipalidade o u pelo Con- outros e vejo que ela multiplica ao infinito os obstáculos à sua liberdade.
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Sei, certamente, que esse desejo não pode·ser realizado atualmente; vontade em relação à Lei, sem vontade política, somente substitui o pai
nem também a revolução se ocorresse amanhã, poderia realizar-se inte- particular pelo pai social anônimo. A situação infantil é, de início, rece-
geralmente durante a minha vida. Sei que haverá homens um dia para os ber sem dar, em seguida fazer ou ser para receber. O que eu quero é uma
quais não eitistirá nem mesmo a lembrança dos problemas que possam troca justa para começar e a superação da troca em seguida. A situação
mais nos angustiar hoje. É esse meu destino, o qual devo assumir e assu- infantil é a relação dual, a fantasia da fusão - e, nesse sentido, é a socie-
mo. Mas isso não pode reduzir-me nem ao desespero, nem à ruminação dade atual que infantiliza constantemente todo o mundo, pela fusã~ no
catatônica. Tendo esse desejo que é o meu, só posso trabalhar para sua imaginário com entidades irreais: os chefes, as nações, os cosmonautas
realização. E já na escolha que faço do principal interesse de minha vida, ou os ídolos. O que eu quero é que a sociedade deixe enfim de ser uma
no trabalho a que me consagro, cheio de sentido para mim (mesmo se família, falsa além do mais até o grotesco, que ela adquira sua dimensão
nele encontro, e aceito, o fracasso parcial, os prazos, os desvios, as tare- própria de sociedade, de rede de relações entre adultos autônomos.
fas em si mesmas sem sentido), no participar de uma coletividade de re- Será que meu desejo é desejo de poder? Mas o que eu quero é a abo-
volucionários que tenta ultrapassar as relações reificadas e alienadas da lição do p9der no sentido atu~l. ~ o poder de todos. O poder atual é que
sociedade atual - estou em condições de realizar parcialmente esse dese- os outros são coisas, e tudo o que quero opõe•se a isso. Aquele para quem
jo. Se eu tivesse nascido numa sociedade comunista, a felicidade ter-me- os out_ros são coisas, é el!! próprio uma coisa e eu n~o quero ser coisa nem
. ia sido mais fácil - nada sei e nada posso quanto a isso. Não vou, sob esse para mim nem para os outros. Não quero que os outros sejam coisas, não te-
pretexto, passar meu tempo livre vendo televisão ou lendo romances poli- ria o que fazer delas. Se posso existir para os outros, ser reconhecido por
ciais. eles, não quero sê-lo em função da possessão de uma c.Oisa que me é exte-
rior - o poder;. o.e m existir p~ra eles no imaginário. O reconhecimento
Será que minha atitude significa recusar o princípio de realidade? do outro só vale para mim na medida em que eu mesmo o reconheço.
Mas qual é o conteúdo deste principio? É de que é preciso trabalhar - ou Corro o risco de esquecer tudo isso se os acontecimentos me conduzissem
então que é preciso que necessariamente o trabalho seja desprovido de para perto do "poder"? Isso me parece bastante improvável; caso aconte-
sentido, explorado, contradiga os objetivos pelos quais supostamente cesse, seria talvez uma batalha perdida, mas não o fim da guerra; e vou
ocorre? E esse principio valerá sob esta forma para alguém que vive de reger toda minha vida pela suposição de que poderia um dia voltar à in-
rendas? Valeria ele, sob esta forma, para os indígenas das ilhas Trobiand fância?
ou de Samoa? Vale ele ainda hoje, para os pescadores de uma pobre al- Perseguiria eu a quimera de querer eliminar o lado trágico da exis-
deia mediterrânea? Até que ponto o princípio de realidade manifesta a tência humana? Parece-me mais certo que quero eliminar o melodrama, a
natureza e onde começa a manifestar a sociedade? Até onde manifesta a falsa tragédia - aquela onde a catástrofe chega sem necessidade, onde
sociedade como tal e a partir de onde tal forma histórica da sociedade? tudo_poderia ter-se passado de outro modo se apenas os personagens ti-
Por que não a servidão, as prisões, os campos de conéentação? De onde vessem sabido isto ou feito aquilo. Que pessoas morram de fome na índia,
pois uma filosofia extrairia o direito de dizer-me: aqui nesse milímetro ao mesmo tempo em que na América ou Europa os governos instituam
·preciso das instituições existentes vou mostrar-lhe a fronteira entre o fenô- penalidades para os camponeses que produzem "muito" - é uma farsa
meno e a essência, entre as formas históricas passageiras e o ser eterno do macabra, é o Grand Guignol onde os cadáveres e o sofrimento são reais,
social? Aceito o principio de realidade, porque aceito a necessidade do mas rião é a tragédia, não existe nisso nada de inevitável. E se a humani-
trabalho (enquanto, aliás, for real, pois torna-se cada dia menos eviden- dade perecer um dia sob os efeitos de bombas de hidrogênio, recuso-me a
te) e a necessidade de uma organização social do trabalho. Mas não acei- chamar isso de tragédia. Chamo de imbecilidade. Quero a supressão do
to a invocação de uma falsa psieanálise e de uma falsa metafísica, que in- Guignol e da transformação dos homens em fantoches por outros fanto-
troduz ·na discussão precisa das possibilidades históricas afirmações gra- ches que ~s "governam". Quando um neurótico repete pela décima quar-
tuitas sobre impossibilidades sobre as quais ela nada sabe. ta vez a mesma conduta de fracasso, reproduzindo para si pr6prio e para
Será meu desejo infantil? Mas a ~ituaçã9 in~antil, é que a vida nos é seus próximos o mesmo tipo de infelicidade, ajudá-lo a sair disso é elimi-
dada, e que a Lei nos é dada. Na situação infantil, a vida nos é ~ada para nar de sua vida a farsa grotesca e não a tragédia; é permitir que ele veja
.nada e a Lei é dada sem nada, sem mais, sem discussão possível. O que que~ enfim os problemas reais de sua vida e o que podem contar de trágico -
ro, é exatamente o contrário: é fazer minha vida, e dar a vida se possível, que sua neurose tinha por função, em parte, exprimir, mas sobretudo,
pelo menos dar para minha vida. É que a Lei não me seja simplesmente mascarar.
dada, mas que eu a dê a mim mesmo. Quem permanece na situação in- Quando um discípulo de Buda veio informá-lo, após uma longa via-
fantil é o conformista ou o apolítico: pois aceita a Lei sem discuti-!? e n ~o gem pelo Ocidente, que coisas miraculosas, instrumentos, medicamentos,
deseja participar da sua formação. Aquele que vive na sociedade sem métodos de pensamento, instituições, haviam transfórmado a vida dos
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homens desde que o.Mestre se retirn~a para as montan~as, este interrom-
peu-o após as primeiras palavras. Ehmmaram eles a tristeza, a doença, a
velhice e a morte? Perguntou ele. Não, respondeu o discípulo. Então, eles
poderiam ter ficado quietos. pensou o Mestre. E novamente mergulhou
na sua contemplação, sem dar-se ao trabalho de mostrar a seu discípulo
l testação da essência das relações so.ciais alguma coisa que sempre existiu,
em virtude de interesses dife~entes e opostos dos grupos e das classes. To-
. das as sociedades, pelo menos as sociedades históricas, foram divididas e
isso só as levou a produzir outras_sociedades, igualmente divididas.

que já não o escutava mais. Dizemos, realmente, que uma análise precisa mostra que os elemen-
tos profundos da crise da sociedade contemporânea são específicos e qua-
litativamente únicos. Existem, sem dúvidas, pseudomarxistas ingênuos
Lógica do projeto revolucionário que ainda hoje só sabem invocará luta de classes e gargarejar com ela, es-
A revolução socialista visa a transformação da sociedade pela ação quecendo que a luta de classes dura há milênios e que não poderia de
autônoma dos homens e a instauração.de uma sociedade organizada para modo algum. fornecer, em si mesma, um ponto de apoio para o projeto
a autonomia de todos. É um projeto. Não é um teorema, a conclusão de socialista .. Mas existem também sociólogos pseudo-objetivos - e igual-
uma demonstração mostrando o que deve f~talmente acontecer; a pró- mente ingênuos - que, tendo aprendido que é preciso desco~fiar das pro-
.jeções etnocêntricas e "époco-cêntricas" e recusar no~sa tendência a pri-
pria idéia de tal demonstração é absurda. Mas também não é uma utopia,
um ato de fé, uma aposta arbitrária. vilegiar nossa época como alguma coisa absolutamente ã parte, ficam
O projeto revolucionário ~em suas raízes e seus pontos de apoio na nisso, simplificam a realidade histórica e enterram sob uma montanha de
realidade histórica efetiva, na crise da sociedade estabelecida e na sua metodologia de papel o problema central da reflexão histól,"ica, a saber, a
especificidade de cada sociedade enquanto especificidade de sentido e de
contestação pela grande maioria dos homens que nela vivem. Esta crise dinâmica desse sentido, o fato incontestável, mesmo se permanece miste-
não é aquela que o marxismo pensava ter revelado, a "contradição entre rioso, sem o qual não haveria história, de que algumas sociedades intro-
o desenvolvimento das forças produtivas e a manutenção das relações de duzem dimensões inexistentes anteriormente, o novo qualitativo, num
produção capitalistas". Ela consiste em que a organização social só pode
realizar os fins que se propõe usando meios que os contradizem, fazendo outro sentido que não o descritivo. Não há interesse em discutir esses ar-
gumentos pseudofilosóficos. Quem não pode ver que entre o mundo gre-
nascer exigências que não pode satisfazer, estabelecendo critérios que é
incapaz de aplicar, normas que é 9brigada a violar. Ela pede aos homens, go e o mundo egípcio-assírio-babilônico ou mesmo entre o mundo me-
como produtores ou como cidadãos, que permaneçam passivos, que se li- dieval e o mundo da Renascença, existe, quaisquer que sejam as continui-
mitem dentro da execução da tarefa que ela lhes impõe; quando constata dades e as causações evidentes, uma outra diferença, um outro tipo, grau
que..esta passividade é seu câncer, solicita a iniciativa e a participação, e sentido de diferença, que não o que há entre duas árvores ou mesmo
dois indivíduos humanos da mesma época - é alguém doente de um senti-
para logo descobrir que não pode também suportá-las, que elas colocam do ·essencial para a compreensão da coisa histórica, e faria melhor se se
em questão a própria essência da ordem existente. Ela tem que viver em ocupasse de entomologia· ou botânica . .
uma dupla realidade, separar um oficial e um real que se opõem irreduti-
velmente. Ela não sofre sjmplesmente de uma oposição entre classes que Assim é a di'ferença que a análise mostra· éntre a sociedade contem-
permaneceriam exteriores uma à outra; é em si mesma conflitual, o sim e porânea e as que a precederam, tomadas globalmente. E isso é precisa-
o não coexistem como intenções de fazer no núcleo de seu ser, nos valores mente, desde logo, o resultado de uma rigorosa ~~scrição sociológica que
que ela proclama e nega, no seu modo de organizar e de desorganizar, na respeita seu objeto fazendo-o falar verdadeirarffénte, em vez de esmagá-lo
extrema socialização e na atomização extrema da sociedade que ela cria. sob uma metafisica barata afirmando que tudo é sempre a mesma 'coisa.
Do mesmo modo, a contestação da qual falamos não é simplesmente a Consiperemos o problema do trabalho: uma coisa é que o escravo ou o
luta dos trabalhadores contra a exploração, nem sua mobilização política servo se oponha a sua exploração, isto é recuse um esforço suplementar
contra o regime. Manifesta nos grandes c.onflitos abertos e nas revolu- ou peça uma parte maior do produto, conteste as ordens do patrão ou do
ções que marcam a história do capitalismo, ela está constantemente pre- senhor no plano, por assim dizer da "quantidade". Já é uma outra coisa,
sente, de uma forma implícita e latente, em seu trabalho, em sua vida e radicalmente diferente, que o operário seja obrigado a contestar as or-
quotidiana, em seu modo de existência. dens da direção para poder aplicá-las, que não mais somente a quantida-
As vezes nos dizem: vocês inventam uma crise da soc'iedáde, vocês de do trabalho ou do produto, mas também seu conteúdo e a maneira de
batizam de crise um estado que sempre existiu. Vocês querem descobrir, fazê-lo sejam o objeto de uma luta incessante...: em suma, que o processo
a qualquer preço, uma novidade radical na natureza ou na intensidade de trabalho não mais origine um conflito exterior ao próprio trabalho,
dos conflitos sociais atuais, porque somente isso lhes permitiria sustentar mas deva apoiar-se em uma contradição interna, a exigência sim ultânea
que se prepara um estado radicalmente novo. Vocês den_o minam de con- de exclusão e de participação na organização e na direção do trabalho.
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Consideremos, igualmente, o problema da familia e da estrutura da pre supôs a de regras de conduta, e as sanções dessas regras não eram
'personalidade. ~ indubitável que a organização familiar tenha. sempre nem somente inconscientes, nem somente materiais-jurídicas, mas sem-
contído um principio repressivo, q~e os indíviduos tenham sempre sido pre também sanções sociais informais, e "sanções'' metassociais (metafísi-
obrigados a interiorizar um conflito entre suas pulsões e as exigências da cas, religiosas etc. - em suma, imaginárias, o que porém, em nada dimi-
organização social dada, que cada cultura, arcaica ou histórica, tenha nui sua importância). Nos raríssimos casos· em que essas regras eram
apresentado, em sua "personalidade de base", um traço "neurótico" par- abertamente transgredidas, só o eram por uma pequena minoria (no sé-
ticular. Mas o que é radicalmente diferente, é que não exista mais princí- culo XVIII francês , por exemplo, por uma parte da a ristocracia). Atual-
pio discernfvel na base da organização ou melhor da desorganização fa. mente, as regras e suas sanções são quase que exclusivamente jurídicas e
miliar atual, nem estrutura in!egrada da personalidade do homem con- as formações inconscientes não mais correspondem a regras, no sentido
temporâneo. Certamente é estúpido pensar que os Florentinos, os Roma- sociológico, ou porque, como alguns psicanalistas· disseram, o superego
nos, os Espartanos, os Mundugumor ou os Kwakiutl eram "sãos" e nos- sofresse um considerável enfraquecimento 2' , ou ·porque a componente (e
sos contemporâneos são "neuróticos". Mas não é mais inteligente esque- portanto a função) propriamente social do superego .s e desagregue na
cer que o tipo de personalidade do Espartano, ou do Mundugumor, pulverização e na mistura das situações e dos "tipos de personalidade"
quaisquer que tenham podido ser seus componentes "neuróticos", era que crescem na sociedade moderna . Para além das sanções jurídicas, es-
funcionalmen te adequado à sua sociedade, que o próprio indivíduo se sen- tas regras não encontram, na maioria das vezes, nenhum prolongamento
tia adaptado a ela, que poderia fazê-la funcionar de acordo com suas exi- de justificação na consciência das pessoas. Porém o mais importante não
gências e formar uma nova geração que fizesse o mesmo; enquanto que a é o enfraquecimento das sanções envolvendo as regras-interdições: é o
ou as "neuroses" dos homens atuais apresentam-se essencialmente, do desaparecimento quase total de regras e de valores positivos. A vida de
ponto de vista.so_ciológico, como fenô'?'len~s.de inadaptação, não somen- uma sociedade não pode basear-se somente em uma rede de interdições,
te vividos subjetivamente como uma mfehc1dade, mas sobretudo entra- de injunções negativas. Os indivíduos sempre receberam da sociedade na
vando o funcionamento social dos indivfduos, impedindo-os de respon- qual viviam injunções positivas, orientações, a representação de fins va-
der adequadamente às exigências da vida tal como ela é e reproduzindo-'. · lorizados - simultaneamente formuladas universalmente e "encarnados"
se como inadaptação ampliada na segunda geração. A " neurose" do Es- no que era, para cada época, seu "Ideal coletivo do Eu". Só existem, nes-
partano era o que lhe permitia integrar-se em sua sociedade - a "neurose" se sentido, na sociedade co·ntemporânea, residuos de fases anteriores,
do homem moderno é o que o impede de fazê-lo. f:. superficial lembrar, por cada dia' mais corr ofdos e reduzidos a abstrações sem relação com a vida
exemplo, que a homossexualidade existiu em todas as sociedades humanas (a "moralidad.e" ou uma atitude "humanitária"), ou então pseudo-
_ e esquecer que ela foi a cada vez algo de socialmente definido: um des- valores vulgares cuja realização constituiu ao mesmo tempo a auto-
vio marginal tolerado, ou desprezado, ou sancionado; um hábito valori- denúncia (o consumo como fim em si ou a moda e o "novo").
.z.ado, institucionalizado, possuindo uma função social positiva; um vício Oízem-nos: mesmo admitindo que éxiste esta crise da sociedade con~
amplamente difundido; e que é hoje - o que na verdade? Ou dizer que as temporânea, vocês não podem estabelecer legitimamente o projeto de
sociedades puderam acomodar-se a uma imensa variedade de diferentes uma nova sociedade; pois de onde poderiam tirar um conteúdo qualquer,
papéis da mulher - para esquecer e fazer esquecer que a atual sociedade é a não ser de sua cabeça, de suas idéias, de 'seus desejos - em resumo, de
a primeira onde não existe para a mulher nenhum papel definido - e em seu arbítrio subjetivo?
consequência direta e imediata, tampouco para o homem. Respondemos: se vocês entendem que não podemos "demonstrar" a
Consideremos, enfim, a questão dos valores da sociedade. Explícito .necessidade ou a excelência do socialismo como "demonstramos" o teore-
ou impUcito, houve em toda sociedade um sistema de valores, - ou dois, ma de Pitágoras; ou que não podemos mostrar-lhes o socialismo propa~
que se combatiam mas estavam presentes. Nenhuma coerção material gando-se na sociedade estabelecida como podemos mostrar um potro au-
pôde jamais ser duravelmente - ou seja socialmente - eficáz, sem esse · mentando o ventre de uma jumenta, sem dúvida vocês têm razão, mas
"complemento de justificação"; nenhuma repressão psíquica representou também fingem ignorar que nunca se lida com esse tipo de evidências em
jamais papel social sem esse .prolongamento visível, um superego exclusi- nenh1,1ma atividade real, nem individual nem coletiva, e que vocês mes-
vamente inconsciente não é concebível • . A existência da sociedade sem- mos deixam de lado essas exigências tão logo empreendem qualquer coi-
sa. Mas se vocês querem dizer que o projeto revolucionário só traduz o
arbitrário subjetivo de alguns indivíduos, é que primeiro vocês escolhe-
• Esta questão é longamente cx ami.!'ada na segunda parte, capitulo VI. 24. Ver, por ram esquecer, desprezando os princípios_ que invoca.m, em outras situa-
exemplo. Allen Whcclis. The Quest for ídentity. Lo ndon (Victor Gollancz). 1959, cm parti-
cular p. 97 a IJ S. i; igualmente o sentido das análises de David Ricsman cm The lonely ções, a história dos últimos cento e cinqílenta anos e que o problema de·
Crowd, Yale University Prcss. 1950. (tr.br. A multidão solitária, S. Paulo, Perspectiva). uma outra organização da sociedade foi constantemente colocado, não
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11
IJ 1
por reformadores ou ideólogos, e sim por imensos movimentos coleti~os Dirão ainda: isso não passa de uma leitura sua; e você concordará
1 que mudaram a face do mun_do, mesmo se f~aca~saram quanto a su.as in- que não é a única possível. Em nome de que você a faz, em nome de que
tenções originais. ~. eril seguida, porque.voces nao vêem que esta crise da pretende que o futuro visado seja possfvel e coerente, e, sobretudo, em
1 1 nome do que você escolhe?
qual falamos não é simplesmente "crise em si", esta so.ciedade conflitual
não é uma viga que apodrece com o tempo, uma máquina que se enferru- Nossa leitura não é arbitrária, de certo modo ela é somente a inter-
ja ou se estraga; a crise é crise pelo próprio fato ?e ser ao mesmo tempo pretação do discurso que a sociedade contemporânea pronuncia sobre si
contestação ela resulta de uma contestação e a alimenta constante.mente. mesma, a única perspectiva na qual tornam-se compreensíveis tanto a cri-
o conflito ~o trabalho, a desestruturação da personalidade, a destruição se da empresa como a da polftica, tanto o aparecimento da psicanálise
de normas e valores não são e nem podem ser vividos pelos homens como como o da psicossociologia etc. E tentamos mostrar que até onde pode-
simples fatos ou calamidades exteriores, elas imediatamente provoca~ mos ver a idéia de uma sociedade socialista não apresenta nenhuma im-
respostas e intenções, e estas, ao mesmo tempo em que acabam de consti- possibilidade ou incoerência." Mas nossa leitura é também, efetivamente,
tuir a crise como verdadeira crise, vão alé!!1 da s~m~!es crise .. Ce.rtamente função de uma escolha: uma interpretação deste tipo e neste nível só é
é falso e mitológico querer encontrar, no negativo do cap1tahsmo, um possível, em última instância, em relação a um projeto. Afirmamos algo
"positivo", que se constitua simetricamente, milfmetro por millmetro, que não se impõe "naturalmente" ou geometrica"mente, preferimos um
seja segundo o estilo objetiyista de algumas formulações de Mar'!- (quan- tipo de futuro a outro - e até a qualquer outro.
do por exemplo o "negativo" da aliena~ão é visto como se ?epos1tando e Esta escolha é arbitrária? Se quisermos, no sentido em que toda es-
sedimentando na infra-estrutura material de uma tecnologia e de um ca- colha o. é. Mas de todas as escolhas históricas, p arece-nos a menos arbi-
pital acumulado, contendo, com.seu corol~rio hu~no ~n~vitável, ~pro­ trária que jamais existiu.
letariado as condições necessánas e suficientes do soc1ahsmo), SeJa se- Porque preferimos um fu turo socialista a qualquer outro? Descobri-
gundo 0 ~tilo subjetivista de al~uns marxistas (q!le vêe.~ a socieda<l:e so- mos ou· acreditamos descobrir uma significação na história efetiva - a
cialista por assim dizer desde já constituída na comunidade operána da possibilid.ade e a procura da autonomia. Mas essa significação só adquire
fábrica e no novo tipo de relações humanas que aí aparecem). Tanto o todo seu peso em função de outras considerações. Esse simples dado "de
desenvolvimento das forças produtivas como a evolução das atitudes hu- fato" não é bastante, não poderia como tal se impor a nós. Não aprova-
manas na sociedade capitalista apresentam significações que não são sim- mos o que a história contemporânea nos oferece simplesmente pelo que
ples que nem sequer são simplesmente contraditórias no sentido de uma ..é" ou "tende a ser". Se chegássemos à conclusão de que a tendência
dialética ingênua que procederia por justaposição dos contrários - signi- mais provável, ou mesmo certa, da história contemporânea, é a instaura-
ficações que podemos chamar, na falta de outro termo, ambíguas. Mas o ção universal de campos de concentração, não deduziríamos daf que
amb{guo no sentido em que o entendemos aqui não é o indeterminado ou teríamos que apoiá-lo •. Se afirmamos a tendência para a autonomia da
l
0 indefinido. O amblguo só é amblguo pela composição de diversas signi- sociedade contemporânea, se queremos trabalhar por sua .realização, e
ficações susceptlveis de serem precisa~as, nenhuma das ~uais p_revalece porque afirmamos a autonomia como modo de ser do homem, porque nós
no momento. Na crise e na contestaçao das formas de vida social pelos a valorizamos, reconhecemos nel~ nossa principal aspiração e uma aspi-
homens contemporâneos, existem fatos muito signi~cativos - a det~rio­ ração que ultrapassa as singularidades de nossa constituição pessoal, a ú-
ração de autoridade, o gradual esgotamento das motivações econômicas, nica que pode ser publicamente defensável com ºlucidez e coerência.
a atenuação da. influência do j~aginário instituído, a não aceitação _das Existe, portanto, aqui uma dupla relação. As razões pelas quais visa-
regrás simplesmente herdadas ou r~ce~id~s -. que só po?emos orgam~ar mos -a autonomia são e não são da época. Não o são, porque afirmaría-
em torno de um óu outro ~esses dois s1~mficado_s cen~ra~s: ou de um tipo mos o valor da autonomia quaisquer que sejam as circunstâncias, e mais
de decomposição progr~ss1va do conte.udo da vida h1stonc~, d.a gradual profundamente, porque pensamos·que o desejo de autonomia tende fa-
emergência de uma sociedade que sena, ao extremo, extenondade dos talmente a emergir onde existem homem e história, porque, como a cons-
homens uns em relação aos outros, e de cada um em relação a si mesmo, ciência, o objetivo de autonomia é o destino do homem, porque, presen-
deserto superpovoado, multidão soli_tária, nã~ mais o mesf!1o pesadelo te, desde o início, ela constitui a história mais do que é constitufda por
com ar condicionado, mas a anestesia generalizada; ou entao, valeAnd~­ ela.
nos sobretudo, do que aparece no trabalho dos homens como tendencia
par~ a cooperação, a autogestão coletiva das atividades e a respo~sabili­
dade, interpretamos o conjunto desses fenômenos como .º aparecimento
na sociedade da possibilidade e da .procura da auto~om1a.
•· Como deveriam fazê-lo - e na realidade o fizeram - os '"marxistas'":
121
120
~o~ essa elucidação primeir~ onde ela parece mais fácil: a propósito do
razo·es são igualmente da époéa, de mil maneiras tão ób-
md1vldu_o, passando em seguida ~o plano que mais interessa aqui, o pla-
. Mas essas · · ocioso enumerá-las. Não somente · ·
porque · · o ·sao
assim - os
vias que sena elos quais nós e outros chegamos a esta · - e a sua
v1sao no coletivo. Tentamos compreender o que é um indivíduo autônomo - e
encadeamen los P · o que é uma socie9ade autônoma ou não alienada.
. - Mas porque o conteudo que podemos . d ar- Ih e, a maneira ·
concret1zaçao. · ·
uai ensamos que ela possa matenahzar-~e, ~ s.ao poss. veis oje eó • i · h · Freud propunha como máxima da psicanálise "Onde era o Id, será o
a
pela q • p toda história precedente e de muito mais maneiras do que . Ego': (Wo Es ~ar, soll I~h werden) is. Ego é aqui, numa primeira aproxi-
maçao, o consciente em geral. o Id, propriamente fa lando origem e lugar
pressupoe~ ginar. Muito particularmente, a dimensão social explícita
podemâs im: dar hoje a esse objetivo, a possibilidade de uma ~iutra fo~­ das puls~es ("in~tintos") , de~e ser tomado nesse contexto como represen-
que po en:od de a passagem de uma ética a uma política da autonomia tando o mconsc1ente no sentido mais amplo. Ego, consciência e vontade,
ª •
ma de soc1e rimir a ética, a mantém ultrapassan d o-a) , estao - mt1 · 'd amen t e deve tomar o lugar das forças obscuras, que, "em mim", dominam, agem
(que sem sup . . . . por mim - "atuam-me" como dizia G. Groddeck 16 • Essas forças não são
· ' à fase concreta da h1stona que Y!_Vemos. • .
hgadFa~ nte , pode-se perguntar: .e por simplesmente - não são tanto, voltaremos a isto mais adiante - as puras
10a1me . que pensa voce .que • essa poss1-- pulsões, libido ou pulsão de morte; são sua interminável fantasiosa e
. . de surge justamente agora? Dizemos: se seu porque e um porque
bihda .. respondemos à pergunta. O porque encontra-se em tod?s es- fantástica alquimia, são também, e sobretudo, as forças deformação e de·
concretod jamentos históricos particulares que conduziram a humanidade r:_pressão inconscientes, o Superego e o Eu inconsciente. Uma interpreta-
ses ennc~e ~:encontra agora, que, em particular, fizeram da sociedade ca- çao da ~rase ~orna-se ~e i~ediato necessária. O Ego deve tomar o lugar

a~é ta e de sua fase atual, essa época singularmente singular q°:e.tenta-
pita IS . fi .
do I_d - isso nao pod.e s1gmficar nem a supressão das pulsões, nem a elimi-
naçao ou a reabsorção do inconsciente. Tratá-se de tomar seu lugar na
mos 1·s acima. Mas se seu porquê é um porquê metaf1s1co, · tota1
se
qualidade de instância de decisão. A autonomia seria o domínio do cons-
. . de 101r ma untar· qual é o lugar exato da fase atua l numa d'1al'et1ca
sigmfica
h' perg
· universal · porque a possibilidade do soc1a · l'ismo emergma · · nes- ciente sobre o inconsciente. Sem prejuízo da nova dimensão em profundi-
da ist.6 na omento ~o plano da Criação, qual é a relação elaborada des- dade revelada por Freud 11 , este é o programa da reflexão filosófica sobre
te preciso ·t mt'vo origináno . da h'1stona
· · que e· a au t onom1a · c o m a s formas o indivíduo h~ ~inte e cinco séc~los, o pressuposto e ao mesmo tempo o
te const1 . u que1 assume no tempo - recusamo-nos a respon d er.· porque, resultado da ~tica tal como a viram Platão ou os estóicos, Spinoza ou
sucessivas · . · especu Ja t'1- ~ant. (~ em s1 de uma imensa importância, porém não para esta discus-
mesmo que ergunta tivesse um sentido, elaf sena puramente f
·d ramos absurdo suspender todo azer e n o- azer, esperan d o
a P ã sao, que Freud pr9ponha uma via eficaz para atingir o que permaneceu
va e cons1
1 ·me elabore rigorosamente esta d'1al'et1ca · tota J ou descu b ra no . para os filósofos um "ideal" accessível em função de um saber abstra-
{:;d~ ~~eum velho armário o P.lano da Criação. Não cairemos na estup1- to) "· Se à autonomia, a legislação ou a regulação por si mesmo, opomos
ito de não possUirmos o saber absoluto. Mas recusamos a
dez· por d Spe
· 'd ede da pergunta recusamos que exista · um senti'do .C?m pensa~ em
~:~~:S1 d~ dialética total: de planó da Criação, de elucidação exaustiva 25. A passagerr. onde se encontra esta frase, no fim da 3• (21~ na numeração consecutiva
- ntre 0 que se fundamenta com o tempo e o que se fundamenta ~dotada. por Freud) d.as conferências de Novas Conferências /ntrodut6rias sobre Psicanálise.
da re1açao e história
A fez nascer um projeto, · esse projeto · n ó s o f azemos e a s~guinte: ''.Seu Objeto (dos esforços terapêuticos da psicanálise) é de reforçar o Ego, de
tor~a-lo_ mais indepen~ente do Superego. de ampliar seu campo de visão estendendo sua or-
no tempo. · f
· nele reconhecemos nossas mais pro un as asp1raçoes d · • e pensa-
ganaz.açao·de tal maneira que ele possa apoderar-se de novas regiões do Id. Onde era o Id se-
nosso poisua realização é possível. Estamos aqui, neste exato lugar do es- rá o ~g~. É um trabalho de recuperação como a drenagem da Zuyder Zee". Jacques Lacan
mos qued s tempo, entre estes homens, neste honzonte. · sa ber que est e h o- subsl1tlhu o Wo Es war. soll Ich werden por "Onde foi o Id devo advir". ("L'Instance de la
p.aço e ': é 0 único possível não o impede de ser o nosso, aquele que dá lett~e dans l'i~conscient", en la Psychanalyse, n' 3. Paris. P.U.F.. 1957. p. 76) (agora in
nzonte na 0 · • · o resto, a h'1st6 na
aisagem de ex1stenc1a. · t o t a l , de todo ~cms, Le Seu1.l, 1966, p. 524). e acrescenta. sobre o "fim que propõe ao homem a descober-
orma a nOssa P
flugar . · h · t ta de Freud": Este fim é de reintegração é de acordo. eu diria. de reconciliação ( Versõh-
e de nenhum lugar, é pqJ~uto de um pensamento sem onzon e, nung).
que é apenas outro nome do nao-pensamento . '. 26. E~ Das Buch vom Es (1923). trad. francesa sob o título Aufond de /'homme. Cela. Pa -
ris (Galhmard, 1963 (Nova edição sob o título fe Lfrre du Ça, 1973) .
.27. Seria mais equitativo dizer: da cxplidtação e exploração da dimensão profunda do
~sique. qu~ certamente nem Heráclito nem Platão desconheciam. como uma leitura mesmo
3. AUTONOM IA E ALIEN?\ÇÃO \
1mportãnc1a, .q uanto à frcqilêncin e a gravidade das situações patogênicas. do caráter exces-
28. " ... não é tanto o núcleo de nosso ser que Freud nos ordena visar. como quiseram ·j
Sentido da autonomia. - O indivíduo lanlos ~utros antes dele movidos pelo vão adágio do "Conhece-te a ti mesmo", mas são an-
tes a~ vias que conduzem a esse núcleo que quer que revisemos. "Jacques Lacan, l .c.. p. 79.
Se a autonomia está no ~n:ago d<:>s objetiv~s e dos caminhos do pro· (Ecnts, p. 526).
jeto revolucionário, é necessano precisar e elucidar esse termo. Tentare-
123
122
t' . legislação ou a regulação pelo outro, a autonomia é mi- Edipo desde a origem dos tempos e Jamais um homem e uma mulher teria
a hete~onom1a, àa gu\ação pelo inconsciente que é uma lei outra, a lei de andado sobre a terra). É o conflito entre pulsões e realidade, de um lado,
nha lei, oposta re e a elaboração imaginária no interior do sujeito, de outro lado 11 •
outro que não e~d· podemos dizer que a regulação pelo inconsciente é a . O !d, nesta- máxima de Freud, deve pois ser compreendido como sig-
E m que senti o · - d
? De qual outro? De um outro hteral, nao e um ou ro
" t
nificando essencialmente esta função do inconsciente que investe de reali-
lei ~e um outr~do mas de um outro em mim. Como diz Jacques La.c~n, dade o imaginário,. autonomiza-o conferindo:lhe poder de decisão - es-
Eu' descon~ec1 é' discurso do Outro"; é em grande parte, o depos1t? tando o conteúdo deste imaginário em relação com o discurso do Outro
"0 incons.c1enà~s dºesejos, dos investimentos, das exigências, das expe:tatt- ("repetição", mas também transformação amplificada desse discurso).
dos d~íg~1os, ões dé que o indivíduo foi o objeto, desde sua concepçao, e É pois lá onde estava essa função do inconsciente, e ó' discurso do
vas - s1gn1ficaç arte dos que o engendraram e criaram 19. A autono- Outro que fornece seu alimento, que o Ego deve advir. Isso significa que
me~mo an.tes, p~r/ meu discurso deve tomar o lugar do discurso do Ou- meu discurso deve tomar o lugar do discurso do Outro. Mas o que é meu
mia torna-sed~n ªr~o estranho que está em mim e me domina: fala por discurso? O que é um discurso que é meu? ·
tro, de um 11s~~ação indica de imediato a dimensão social do.problem.a Um discurso que é meu é um discurso que negou o discurso do ou-
mjm. E~ta e u~ ue o Outro de que se trata no início seja o outro "estre1- tro; que o negou, não necessariamente em seu conteúdo, mas enquanto
(pouca impol~t qr uma série de articulações evidentes, o par parental re- discurso do Outro; em outras palavras que, explicitando ao mesmo tem-
to" • parenta , po .
te à sociedade · · e a• sua h"1stó na
inteira · ). . po a origem e o sentido desse discurso, negou-o ou afirmou-o com conhe-
mete, finalm:~ é ~sse discurso do Outro não mais quanto ª. s~a ongem, cimento de causa, relacionando seu sentido com o que se constitui como
Mas qu sua ualidade? E até que ponto pode ser ehmmado?. a verdade própria do sujeito - como minha própria verdade.
lt mas quanto : . tic~ essencial do discurso do Outro, do ponto de vista Se a máxima de Freud, nesta interpretação, fosse tomada em termos
A c.a.rac ensa é sua relação com o imaginário. É que, dominado por absolutos, ela proporia um objetivo inacessível. Nunca meu discurso será
que a9u1 interes~uJeito se toma por algo que não é (que, de qualquer ma- integralmente meu no sentido definido acima. É que evidentemente, eu
es~e d1s_:ur.s~~~essariamente para si próprio) e para ele os ?~tros _e o mu.n- não poderei jamais retomar tudo, ainda que simplesmente para ratificá-
ne1ra nao e f uma deformação correspondente. O sujeito nao se diz, lo. É também - e voltaremos a isto mais adiante - pprque a noção de. ver-
do inteiro so remi uém existe pois como parte do mundo de um outro dade própria do sujeito é em si mesma muito mais um problema do que
mas é dito po~: :ua v~z. travestido). O sujeito é dor:n_i~ado _por 1:1m ima- uma solução.
(cert~me~tf, P. orno mais real qüe o real, ainda que não sabido como .tal •. Isso é também verdade no que se refere à relação com a função ima-
gináno vivido e . · ão sabido como tal 'º·o essencial da heteronom1a. - ginária do inconsciente. Como pensar num s~jeito que ter.ia totalmente
precisaf!lent.eyor~~~:ntido mais ampio do termo - no niv~I individu~I, é o ..reabsorvido" sua função imaginária, como poderíamos esgotar essa
ou da ~henaçao, ·mag1'nário autonomizado que se arrojou a funçao de fonte no mais profundo d~ nós mesmos, de onde brotam ao mesmo tem-
.domi~1 o por um ·1'to tanto a realidade quanto seu deseJO . . A " repressao
-
po fantasfas alienantes e criações livres, mas mais· verdadeiras que a ver-
definir p~rª,? su1e1 tal o conflito entre o "principio do prazer" e o
das puls.oe~ co~~ade'~
1 não constituem a alienação individual que é, no
"princi.P1? ªé~~: uase íÚmitado de um principio de des-real~dade. A 7sse
fundo, o imp fl't q 1'mportante não é o que ocorre entre pulsoes e reahda- .31. (E' o que indicam tanto o abandono por Freud da hipótese da "sedução infàntil"
respe1"to o con ffto
1 o bastasse como causa patogemca, 1ama1s teria h av1·do como sobretudo o questionamento gradual - embora nunca definitivo - ao longo do relato
4 • • • •

da análise de O Homem dos lobos da "realidade" da cena primitiva). Não se trata da "reali-
·de (se esse coln ! mesmo aproximativamente normal do complexo de dade" ou das "exigências da vida cm sociedade" como tais, e sim do que se t6rnam essas
uma só reso uçao . ex igências no d iscurso do Outro (que por sua vez aliás não é absolutamente o veiculo neu-
tro) e na elaboração imaginãria deste pelo sujeito. Isso evidentemente não nega a importân-'
eia capital, para o conteúdo do discurso do.Outro, e para o modo de proceder especifico que
L n "Remarques sur te rapport de o·. Lagache". in la PsY_chana/ysi. n~ tomará a elaboração imaginária, do que concretamente é a sociedade considerada, e nem a
29. V. Jacque~'Uaca ólo de atributos eis 0 que é o sujeito antes de seu nascimento(~ tal- importância, qua nto à freqüência e a gravidade das situações patogênicas, do caráter exces·
6 (1961), p. 116. .m pio que ele sufocarã um dia). Atributos, isto é, sign ificantes mais ou sivo e irracional da formulação social destas "exigências": nisso Freud foi bem<i:laro (cf. cm
·a sob seu acumu particular mal-estar na civilização). Mas nesse nlvel, novamente. encontramos o fato de que
vez: se) . d um discurso ..." ( Ecr/ts, p. 652). . . ã .
menos hga os e.~ t mente a principal diferença em relação a outras.formas do im_:igin no as "exigências" da sociedade não se reduzem nem às exigências d a "realidade", nem às da
30. AI estáev1 en e.. acional" do imaginário na matcmãtica por exemplo) que n~o sc.au- "vida em sociedade" de um modo geral, nem mesmo finalmente às de uma "sociedade divi-
(como ~arte ou o us~ . r Voltaremos a isto longamente mais ad iante. (O termo "1maginã- dida em classes", mas vão além do que essas exigências implica riam racionalmente. Encon-
tonom1z~ram cdomo ~1gslnas seguintes ainda é usado num sentido ambíguo, onerado por seu tramos ai o ponto de uniilo entre o imaginãrio individual e o imaginário social - ao qua l
rio" aqui e nas uas P voltaremos mais adiante.
uso corrente.)
125
124
dade, delirios irreais e poemas surreais. esse d~plo fundo eterna~e~te re- manentemerite atualizável de tllhar, objetivar, colocar a distância e final-
começado de toda coisa, sem o qual nada teria fundo, como ehmmar o mente transform ar o discurso de Outro em discurso do sujeito.
que está na base de, ou pelo menos inextricavelmente ligado a, o que faz Ma~ o .que é ésse sujeito? Es~e terceiro termo da frase. de F reud, que
de nós homens - nossa função simbólica. que pressupõe nossa capacida- .d eve advir la onde estava o Id, certamente não é o Eu do "eu penso". Não
de de ver e pensar em uma coisa algo que ela não é? , . é o su;cito-atividade pura, sem entrave nem inércia, êste fogo-fátuo dos fi-
Portanto, na medida ·em que ·não_quere!llOS fa_zer. da max1ma de lós~ fos s ubjetivista~, _esta flama independente d~ qualquer suporte, liame
Freud uma simples idéia regulado~a ?efim~a em ~eferenc1a a um ~lado e ahmeN o . Esta atividade do sujeito que "trabalha sobre si mesmo" en-
impossfvel _portanto uma nova m1st1ficaçao - existe um outro sentido a contra c0""lo seu objeto a multidão dos conteúdos (o discurso do Outro)
dar-lhe. Ela dev~ ser compreendida como remetendo n~o a um estado com a qual ~la ,nunca. t~rminou de se haver; e, sem esse objeto, ela sim-
conclufdo mas a uma situação ativa; não a uma pessoa ideal que setor- plesmente nao e. O.suJe1to é também atividade, mas a atividade é ativida-
naria Ego 'definitivamente, realizaria um discurso exclusivam:nte seu, ja- de sobre algur:na coisa, do contrário ela não é nada. Ela é pois co-determi-
mais produziria fantasmas - i,nas a uma pessoa real, que nao para seu nada por aquilo que ela se dá como objeto. M as este aspecto de inerência
movimento de retomada do que havia sido adquirido, do discurso do O u- !e.cípr~ca ~o sujeito. e do objeto - a intencionalidade, o fato de ,que o su-
tro, que é capaz de r.ev~l ar seus fantasmas com? fantas ~as e !1ão se deixa :e1.to s~ seJa na. medida em que ~õe um objeto - é só uma primeira deter-
finalmente dominar por eles - a menos que assim o deseje. Nao se trata ai mmaçao, relativamente superficial, é o que traz o sujeito ao mundo, é o
de um simples "tende'r para", é uma situação, ela é definível por carac- que o col~ca pe~manentemepte na rua. Existe uma outra, que não con-
terfsticas que traçam uma sepaq1ção radical entre el.a e o estado de hete- cerne .à çnentaçao das fibras intc:-néionais do sujeito, e sim a sua própria
ronomia Essas caracterfsticas não consistem em uma "tomada de cons-
0
matér!ª• _que traz o mundo até o s ujeito fazendo entrar a rua no que ele
ciência" efetuada para sempre, mas sim numa outra relação entre cons- podena Julgar ser sua alcova. Pois este sujeito ativo que é sujeito de ... ,
ciente e inconsciente, entre lucidez e função imaginária, em um a outra que e voca, estabelece, objetiva., olha e coloca a distância, que é ele - será
atitude do sujeito relativamente a si mesmo, em uma modificação profun- que é puro olhar, capacidade pura de evocação, colocação a distância,
da da mistura atividade-passividad e, do signo sob o qual esta se efetua, centelha fora do tempo, não-dimensionalidade? Não, ele é olhar e supor-
do respectivo lugar dos dois el~~entos que a compõem : O fato de que po- te. do olhar, pensa~ento e suporte do pensamento, é atividade e corpo
deríamos completar a propos1çao de Freud pelo seu mverso: Onde é o ~!1vo - corpo matenal e corpo metafórico : Um olhar no qual não existe
Ego o Id deverá surgir ( Wo /eh bin, sol/ Es auftauchen), mostra q_~ão_pou­ Jª o olhado nada pode ver; um pensamento no qual não existe já o pensa-
co se trata, em tudo isso, de uma tomada de poder pela consc1enc1a no do ~ada pode. pensar 33. O que chamamos suporte não é o simples supor-
sentido estrito. O desejo, as pulsões - quer se trate de Eros ou de Thana- te b1ológ1co, e o fato. de que um conteúdo qualquer está já sempre presente
tos _ sou eu também, e trata-se de levá-los não somente à consciência, e não é resíduo, escória, obstáculo ou matéria indiferente mas condição
mas à expressão e à existência 3_2. ~m ~uje ito a utôno_m o é ~quel~ que eficiente da atividade do sujeito. ESte suporte, este conteúdo, não é nem
sabe ter boas razões para concluir: isso e bem verdadeiro, e: isso e bem simplesmente do sujeito, nem simplesmente do outro (ou do mundo).~ a
meu desejo. . . . . - . . . - união produzida e produtora de si e do outro (ou do mundo). No sujeito
A autonomia não e pois eluc1daçao sem res1duo e elimmaçao total .:.orno sujeito existe o não-sujeito, e a filosofia subjetivista prepara as ar-
do discurso do Outro não ·reconhecido como tal. Ela é instauração de madilhas onde ela própria cai graças ao esquecimento desta verdade fun-
uma outra relação entre o discurso do Outro e o discurso do sujeito. A dame~tal. N? sujeito existe por certo como momento "o que jamais pode
total eliminação do discurso do Outro não reconhecido como tal é um es- tornar-se .objeto", a liberdade inalienável, a possib~lidade sempre presen-
tado não-histórico. O peso do discurso de Outro não reconhecido como te de desy1ar o olhar, de fazer abstração de tod o conteúdo determinado, de
tal, pode ser visto mesmo nos que tentaram mais radicalmente atingir o colocar tudo entre parêntesis, inclusive a si mesmo, salvo na medida em
fundo da interrogação e da crítica dos pressupostos tácitos - quer seja
Platão, Descartes, K ant, Marx ou o próprio Freud. Mas existem precisa-
mente os que - como Platão ou Freud - jamais pararam nesse movimen- 33. Isto não é uma descrição das condições empírico-psicológicas do funcionamento
to· e existem os que pararam, e que às vezes, por isso, se·alienaram em seu do sujeito, mas uma articulação da estrutura lógica (transcendental) da subjetividade: só
prÓprio discurso tornado outro. Existe a possibilidade permanente e per- existe sujeito pensante como disposição de conteúdos, !Odo contéudo particular pode ser
posto entre parêntesis, mas não o conteúdo qualquer como tal. A mesma coisa é verdadeira
para o problema da gênese do sujeito considera do sob seu aspecto lógico: permanente-
mente o sujeito é um produtor produto, e "na origem". o sujeito se constitui como dado si-
32. "Anuncia-se uma ética... não pelo caminho do medo, mas sim pelo do desejo". Jac- multâneo de Si e do Outro. (o sujeito a que nos referimos aqui é o que se instaura como rup-
ques Lacan, ib. p. 147 (Ecrils. p. 684). tura da mónada psíquica. V. infra. cap. VI).

126 127
que 0 si é esta capacidade qu.e ressurge como presença e proximidade ab- Portanto, não se pode tratar den.tro dessa relação também de elimi-
soluta no momento em que se distancia de si mesma. Mas esse momento nação total do discurso do outro - não somente por ser uma tarefa inter-
é abstrato, é vazio, jamais produziu e nem produzirá nada mais do que a minável, mas porque o outro está sempre presente na atividade que o "e-
evidência muda e inútil do cogito sum, a certeza imediata de existir como limina"•. E eis por que não pode também existir "verdade própria" do
pensante, que não pode sequer a ting!!_ legitimamente a expressão pela pa- sujeito num sentido absoluto. A verdade própria do sujeito é sempre par-
lavra. Pois desde o momento em que a palavra, mesmo não pronunciada, ticipação a uma verdade que o ultrapassa, que se enraiza finalmente na
abre uma primeira brecha, o mundo e os outros infiltram-se por todos os sociedade e na história, mesmo quando o sujeito realiza sua autonomia.
lados, a consciência ~ inundada pela torrente das significações, que vem,
se assim podemos dizer, não do exterior e sim do inierior. Somente pelo Dimensão social da autonomia
mundo é que podemos pensar o mundo. Desde que.o pensamento é pen-
samento de alguma coisa, o conteúdo ressurge, n ão somente no que exis- Já falamos longamente do sentido da autonomia para o indivíduo. É
te para pensar, mas naquilo pelo qual ele é pensamento (darin, wodurch que, primeiro, era preciso diferenciar clara e fortemente esse conceito da
es gedacht-.wird). Sem esse conteúdo. só acharíamos no lugar do s·•jeito velha idéia filosófica da liberdade abstrata, cujas ressonâncias se encon-
seu fantasma. E nesse conteúdo existem sempre o outro e os outros, dire- tram até no marxismo. .
ta ou indiretamente. O outro está presente tanto na forma como no fato É, em seguida, que SO)'ll~nte esta concepção da autonomia e da estru-
do discurso, com~ ç?tigênci~ de confrontação e de ver~~de (o que eviden- tura do sujeito torna possível e compreensfvel a praxis tal como a defini-
temen'te não. sign)fic~ que'a 'verdade se confunda com. a concordância de mos H. Em qualquer outra concepção esta "ação de uma liberdade sobre
opiniões). Enfim, só aparentemente afasta-se de nosso propósito lembrar uma outra liberdade" permanece uma contradição nos termos, uma per-
que 0 supôrte ~esta ~nião do suj~ito e do não sujeito no sujeito.• o eixo pétua impossibilidade, uma miragem - ou um milagre. Ou então, ela deve
desta articulaçao de s1 e do outro e o corpo, esta estrutura "material" ple- confundir-se com as condições e os fatores de heteronomia, porquanto
na de.um sentido virtual. O corpo, que não é alienação - isso nada signifi- tu do o que vem do outro 'concerne aos "conteúdos de consciência", à
caria - mas ·p~rticipação no .mundo e ' no sen~ido, ligação e mobilidade, " psicologia", sendo pois da ordem das causas; o idealismo subjetivista e
pré-constituição de um universo de significações antes de todo pensa- o positivismo psicologista se encontram finalmente dentro desta visão.
mento refletido. Ma~ na realidade, é porque a autonomia do outro não é fulgurância ab-
soluta e simples espontaneidade que eu posso visar seu desenvolvimento.
É porque "esquece" esta estrutura ç.pncreta do sujeito que a filosofia
É porque a autonomia não é eliminação pura e simples do discurso do
tradicional, narcisismo da consciência fascinada por suas próprias for-
mas nuas, rebaixa ao nível de condições de servidão tanto o outro como a outro, e sim elaboração desse discurso, o nde o outro não é material indi-
ferente porém conta para o conteúdo do que ele diz, que uma ação inter-
corporalidade. E é porque quer se fundamentar na liberd ade pura de um
subjetiva é possível e que não está fadada a permanecer inútil ou a violar
sujeito fictício, que se «ondena a encarar. a alienação do sujeito efetivo
como problema insolúvel; do mesmo modo como, querendo basear-se na por sua simples existência o que estabelece como seu princípio. É por isso
que pode existir uma política da liberdade e que não ficamos reduzidos a
racionalidade exaustiva ela constantemente tem que esbarrar n a impossí-
escolher entre o silêncio e a manipulação, ~em mesrrto à simples consola-
vel realidade de um irracional irredutível. É assim que finalmente ela se
ção: "atinai, o outro fará o que guiser''. E por isso que sou finalmente
torna uma tarefa irracional a alienada; tanto mais irracional, na medida
responsável pelo que digo (e pelo que calo) H·' .
em que procura, escava, depura indefinidamente as _condições de.sua ra-
~.enfim, porque a autonomia, como a definimos. conduz diretamen-
cionalidade; tanto mais a lienada quanto mais não pára d e afirmar sua li- te ao problema político e social. A concepção que apresentamos mostra
berdade, quando esta é, ao mesmo tempo, incontestável e vazia. ao mesmo tempo que não podemos desejar a autonomia sem desejá-la
O sujeito em questão não é pois o momento abstrato da subjetivida- para todos e que sua realização só pode conceber-se plenamente como
de filosófica, ele é o sujeito efetivo totalmente penetrado pelo mundo e empreitada coletiva. Se não ·se trata mais de entender por esse termo nem
pelos o~tros. O Eu. d~ ~uto~omia não é Si absoh~to, mô~ada que l!mpa ,e
lustra sua superfície extero-mterna a fim de eliminar as impurezas trazi-
das pelo contato com o outro; é a instância ativa e lúcida que reorganiza
• Isso nos leva finalmente a recusar tÕda significação originária da di stinção tradiciónal
constantemente os conteúdos utilizando-se desses mesmos conteúdos, e ntre "atividade" e "passividade". Voltaremos a is10 na segunda parte deste livro.
que produz com um material e em função de necessidades e de idéias elas 34. Como o fazer que visa o outro ou os outros como seres autonômos.
próprias compostas do que ela já encontrou antes e do que ela própria ?S. Exisle um segundo fundamento da praxis política. que poremos cm evidencia mais
produziu. adiante: a possibilidade de instituições que favorecem a autonomia.

128 129
a liberdade inalienável de um suj~ito. a~strato. nem o domí.nio de u~a seu simples "produto". O social-histórico é o coletivo anônimo, o huma-
no-impessoal que preenche toda formação social dada, mas também a
a Co nsciência sobre um material· ind1ferençado
pursmo" ·
o essencialmente o
para todos e sempre. obstaculo bruto que a 1·b d d · d
t er a e teri~ e engloba, que insere cada sociedade entre as outras e as inscreve todas
:~erar (as "paixões". a "inér7ia'.' etc.); se.º proble'!'a .da autonomia é . numa continuidade, onde de uma certa maneira estão presentes os que
não existem mais, os que estão alhures e mesmo os que estão por nascer.
e 0 suJ'eito encontra em si propno um sentido que nao e o seu e que tem
quue transformá-lo utilizando-o; se a autonomia · e· essa re 1açao
- na qua 1os t por um lado, estruturas dadas, instituições e obras "ma terializadas" ,
q tros estão sempre presentes como alteridade e como ipseidade do sujei- sejam elas materiais ou não; e por outro lado", o que estrutura, institui,
~~_ então a autonomia só é concebível. já filosoficamente, como um materializa . Em uma palavra, é a união e a tensão da sociedade iristituin-
problema e uma relação s9cial. . . . . . te e da sociedade instituída, da história feita e da história se fazendo.
Entretanto, esse termo social con.tem mais do que nos exp!1c1ta~os,
velando imediatamente uma dimensão nova do problema. Ate aqui nos A heteronomia instituída: a alienação
re
referimos diretamente à inter-su b'Jet1v1
.. d a d e, mesmo se a t omai;ios numa
como fenômeno social
extensão ilimitada - a re\ação · ~e pessoa a pess~a. mesm? se articulada !1º
infinito. Mas essa relação se situa em um conjunto mais amplo, que e o A alienação encontra suas condições, para além do inconsciente in-
social propriamente dito. . . . dividual e d a relação inter-subjetiva que aí se joga, no mundo social.
Em outras palavras: que o problema da autonomi~ remete ~n:ied1ata- Existe, para além do "discurso do outro", algo que o sobrecarrega com
mente, identifica-se mesmo. com o problema da :elaçao do sujeito e do um peso inamovível, que limita e torna quase que inútil toda autonomia
outro - ou dos outros; que ~ outro ~u os outros ~ao aparece~.~?~~ o.bs- individual 3 1 • É o que se manifesta como massa de condições de privação
táculos exteriores ou maldição - o Inferno sao os outros , . e~1ste e de opressão, como estrutura solidificada global, material e institucio-
orno um malefício da existência de muitos" -, mas como constitutivos nal, de economia, de poder e de ideologia, como indução, mistificação,
~o sujeito, de seu problema e da sua possível solução, lembra o que afinal manipulação e violência. Nenhuma autonomia individual pode superar
era certo desde o início para quem não está mistificado pela ideologia de as conseqüên-cias deste estado de coisas, anular os eféitos sobre nossa vi-
uma certa filosofia; a saber, que a existência humana~ uma existência de da, da estrutura opressiva da sociedade na qual vivemos " ·
muitos e que tudo que é dito fora desse pressuposto (ainda que nos esfor- É que a alienação, a heteronomi~ social, 'não aparece simplesmente
cemos arduamente para reintroduzir "o outro", o qual vingando-se por como "discurso do outro", - embora este éiesempenhe um papel essencial
ter sido excluido no inicio da subjetividade "pura", não se deix~ levar) é como determinação e conteúdo do inconsciente e do consciente da massa
sem sentido. Mas esta existência de muitos, que se aprese~ta ass;m como dos indivíduos. M as o outro desaparece no anonimato coletivo, na im-
inter-subjetividade prolongada, não permanece, e a bem dizer ~ao é, .des- pessoalidade dos "mecanismos econômicos do mercado" ou da "raciona-
de sua o rigem, simples inter-subjetividade. Ela é existência social e ~1stó­ lidade do Plano", da lei de alguns apresentada como lei simplesmente. E,
rica e é essa para nós a dimensão essencial do problema. A inter- conjuntamente, o que representa daí em diante o outro não é mais um
subjetividade é, de certo modo, a matéria da qual.é f~ita o social, mas :sta discurso: é uma metralhadora, uma ordem de mobilização, uma folha de
matéria só existe como parte e momento desse social que ela compoe e pag.amento e de mercadorias caras, uma decisão de tribunal e uma pri-
que também pressupõe. , · . _ . . são. O "outro" é daí em diante "encarnado" fo ra do inconsciente indivi-
O social-histórico 3 1 não e nem a ad1çao indefinida dos entrelaça- dual - mesmo se sua presença por deJegação • 0 no inconsciente de todos
mef\tos inter-subjetivos (ainda que seja também isso), nem, certamerte,

38. Em uma sociedade de alienação, mesmo pa ra os poucos indivíduos para quem a au-
tonomia possui um sentido, ela só pode perma necer truncada, porque encontra, nas condi-
36. O autor desta frase estava sem dúvida certo de que não trazia nada em si m~smo ~ue ções materiais e nos outros indivíduos, obstáculos co nstantemente renovados do momento
fosse de um outro (sem o que ele poderia também dizer que o Inferno e~a ele próprio). cm que tem de encarnar-se numa atividade, desenvolver-se e existir socia lmente; ela só pode
Aliás. ele recentemente confirmou esta interpretação declarando_ que não tinha Superego. manifestar-se, em sua vida efetiva, em interstícios dispostos pelo acaso e pela astúcia. em
Como podedamos objetar a isso, nós que sempre pensamos que ele falava dos assuntos des- quotas sempre pequenas.
ta terra como um ser surgido de outro planeta? . . . . 39. Quase nem é nccess~rio Ie.mbrar que a idéia da autonomia e a da responsabilidade
37. Procuramos com esta expressão a unidade da dupla mult1phc1dade de dimensões, na de cada um por sua vida pode facilmente tornar-se mistificações se as separamos do con-
"simultaneidade" (sincronia) e na "sucessão" (diacronia) q~e h~bitualmente .denotam os texto social e se as estabelecemos como respostas que se bastam a si mesmas.
termos sociedade e história. Diremos às vezes o social ou o histórico, sem prec1s~r. confor- 40. Esta delegação coloca problemas múltiplos e complexos, os quais é impossível evo-
me quisermos enfatizar um ou outro desses.aspectos. (Voltaremos longamente a isto na se- car aqui. Existe evidentemente ao mesmo tempo ho mologia e diferença essencial entre are-
gunda parte deste livro). lação "familiar" e as relações de classe. ou de poder. na sociedade. A co ntribuição funda-
13 J
130

1
,_
J
os concernidos (aquele que empun.ha a metralhadora, aquele para· quem e social determinada sobre o conjunt.o. Elas o são igualmente de maneira
aquele contra quem ela é dirigida) é condição necessária desta encarna- específica para cada uma das classes ou camadas de uma sociedade dada.
ção: o inv.e rso é igualmente verdadeiro, a detenção das metralhadoras Desta maneira, a economia capitalista - produção, repartição, mercado,
· por alguns é_sem dú~id.a alguma condição da alienação perpétua, nesse etc. - é alienante na medida em que é consubstancial à divisão da socieda-
nível a questao da prioridade de uma ou de outra condição não tem senti- de em proletários e capitalistas; ela o é também de maneira específica
do e o que nos importa aqui é a dimensão propriamente social 41 • para cada uma das duas classes em presença, para os proletarios, é óbvio,
A alienação surge pois como instituída, pelo menos como grande- mas para os capitalistas também; retificamos anteriormente a visão mar-
mente condicionada pelas instituições (a palavra tomada aqui no sentido xista simplista dos capitalistas como simples joguetes dos mecanismos
mais amplo, compreendendo sobretudo a estrutura das relações reais de econômicosº, não devemos evidentemente cair no erro inverso e sonhar
produção). E sua relação com as instituições apresenta-se como dupla. com capitalistas livres em relação a "suas" instituições.
Em primeiro lugar, as instituições podem ser, e o são efetivamente, Mas além desse aspecto e de uma maneira mais geral - visto que isso
alienantes em seu conteúdo específico. Elas o são enquanto exprimem e também vale para as sociedades que não apresentam divisão antagônica,
sancionam uma estrutura de classe, mais genericamente uma divisão an- 'como muitas sociedades.arcaicas - existe alienação da sociedade, todas as
~agônica da.sociedade e, concomitantemente, o poder de uma cate~o~ia classes tomadas em conjunto, a suas instituições. Não nos referimos aos
aspectos específicos que afetam "igualmente" as diversas classes, o fato
de que a lei, mesmo servindo à burguesia, a restringe igualmente. Referi-
mental de Freud (Totem e Tabu ou Psicologia coletiva e analise do Ego}. a de W. Rcich (A
mo-nos ao fato, mais importante, de que a instituição uma vez estabeleci-
funrão do orgasmo). as inúmeras contribuições dos antropólogos americanos (especialmente da parece autonomizar-se, que ela possui sua inércia e sua lógica pró-
Kardincr e M. Mead) estão longe de ter esgotado a questão, especialmente porque a dimen- pria, ultrapassa, em sua sobrevivência e nos seus êfeitos, sua função, suas
são propriamente institucional encontra-se neles relegada a scgundO' plano. . "finalidades" e suas "razões de ser". As evidências se invertem; o que po-
41. Se os operários de uma fábrica quisessem questionar a ordem Cllistcnte entrariam em dia ser visto "no início" como um conjunto de instituições a serviço da
choque co~ a p_olícia e, se o movim~nto se g~neral!zass:, ~!)m o Exérci.to. _Sâbcmos, po; exc-
pcriéncia histórica, que nem a policia nem o Exército sao 1mpermcávc1s diante de movimen- sociedade, transforma-se numa sociedade a serviço das instituições.
tos generalizados: e podem resistir contra o essencial da população? Rosa Luxemburg dizia:
"Se toda a população soubesse, o regime capitalista não duraria 24 horas". Pouco importa a O "comunismo" em sua acepção mítica
ressonância "intelectualista" da frase: vamos dar a saber toda a sua profund idade, liguemo-
lo ao querer. Não é ela verdadeira, de uma verdade ofuscante? Sim e não. O sim é evidente. A superação da alienação sob essas duas formas foi, como sabemos,
o não emana desse outro fato, igualmente evidente, que o regime social precisamente impe-
de a população de saber e de querer. A não ser postulando uma coincidência miraculosa de uma idéia central do marxismo. A revolução proletária deveria atingir,
espontaneidades positivas de um pólo ao outro de um pais, todo germe, todo embrião deste após um período de transição, a "fase superior do comunismo" e essa
saber e deste querer que possa manifestar-se cm algum ponto da sociedade é constantemcn~ passagem marcaria "o fim da pré-história da humanidade e a entrada em
te obstru!do, combatido, no limite esmagado pelas instituições existentes. ~por isso que a sua verdadeira história", "o salto do reino da necessidade para o reino da
visão simplesmente "psicológica" da alienação, aquela que busca as condições da alienação
exclusivamente na estrutura dos indivfêluos, seu "masoquism o", etc. - e que diria cm última liberdade". Essas idéias permaneceram imprecisas •1, e não tentaremos
instância que se as pessoas são ellploradas é porque desejam sê-lo - é unilateral, abstrata e aqui expô-las sistematicamente, nem discuti-las ao pé da letra. Basta
fina lmente falsa . As pessoas são isso e outra coisa, porém cm sua vida individual a luta é lembrar que conotaram mais ou menos explicitamente não somente a
monstruosamente desigual, pois o outro fator (a tendência para a autonomia) deve enfren- abolição das classes, mas também a eliminação da divisão do trabalho
tar todo o peso da sociedade instituída. Se é essencial lembrar que a hetcronomia deve cada
vez encontrar também suas condições cm cada explorado, ela deve encontrá-las também ("não haverá mais pintores, haverá homens que pintarão"), uma trans-
nas estruturas sociais, que tomam as "chances" (no sentido de Max Weber) dos indivíduos formação das instituições sociais difícil de diferenciar, em última instân-
de saberem e quererem praticamente negligenciáveis. O saber e o querer não são pura ques-
tão de saber e de querer, não lidamos com sujeitos que só seriam pura vontade de autono-
mia e responsabilidade total; se assim fosse não haveria nenhum problema cm nenhuma á-
rea . Não é somente porque a estrutura social é "estudada para" instilar desde antes do nas- 42. Ver "Lc mouvement revolutionnaire sous lc capitalismc modcrnc" no n9 32 de S. ou
cimento passividade, respeito à autoridade etc. ~ que as instituições estão presentes, na B ., especialmente p. 94 e seguintes.
longa luta que cada vida representa, para cóiocar a todo momento 'impccilhos e obstáculos, 43. ~ além do mais muito difícil julgar o papel efetivo que elas representam junto aos
impelir as águas cm uma direção, finalmente reprimir tudo o que poderia manifestar-se operários ou mesmo aos militantes. E certo que uns e outros sempre estiveram mais preocu-
como autonomia. Eis porque aquele que diz querer a autonomia recusando a revolução das pados com problemas que lhes trazia sua condição e sua luta, do que com a necessidade de
instituições não sabe nem o que diz nem o que quer. O imaginário individual, como vere- d efinir um objeto "final": mas também é verdade que alguma coisa como a imagem de uma
mos mais adiante, encontra sua correspondência num imaginário social encarnado nas ins- terra prometida, de uma redenção radical sempre esteve presente para eles, com a significa-
ituiçõcs, porém esta encarnação existe como tal e é também como tal que ela deve ser ata- ção amblgua de um Milcnium escatológico, de um Reino de Deus sem Deus e do desejo de
cada. uma so'cicdadc onde o homem não seria mais o principal inimigo do homem.
13~ 133
· da idéia da supressão total de toda instituição ("'perecimento do Es- formação mítica, equivalente e análoga à do saber absoluto, ou à de um
~1~0" eliminação de toda restrição econômica) e, no plano filosófico, a individuo cuja "consciência" reabsorveu o ser inteiro.
ª ergência de "um homem total" e de uma humanidade que doravante Nunca uma sociedade será totalmente transparente, primeiro por-
em
·"dominaria sua h'istó.
na" . que os indivíduos que a compõem nunca serão transparentes a si mes-
Essas idéias, apesar de seu caráter vago, remo.to, quase gratuito, não mos, já que não é possível eliminar o inconsciente. Em seguida, porque o
social não implica somente os inconscientes individuais, nem mesmo sim-
somen te traduzem um. .problema, .mas• ·aparecem inevitavelmente no c.a-
1q!le no marx1s- plesmente suas inerências intersubjetivas recíprocas, as relações entre
· ho da reflexão poht1ca revo1uc1onana. 1- • •
e. mcontestave
~~ elas completam sua filosofia da história, jndefinível sem elas. O q.ue 'pessoas, conscientes e inconscientes, que jamais poderiam ser .dadas inte-
odemos lastimar não~ que Ma~x e Engels tenha~. fala?o delas, mas si1!1 gralmente como conteúdo de todos, a 'não ser introduzindo o duplo mito
p ue não tenham falado o bastante; não para dar receitas !?ª~ª as coz1- de um saber absoluto igualmente possuído por todos; o social implica a l-
qh guma coisa que jamais pode ser dada como tal. A dimensão social-
n as soc'iali'stas do futuro" • não
. para prender-se a .uma defimçao e. a· uma histórica, enquanto dimensão do coletivo e do anônimo, instaura para
descrição utópica de ~ma sociedade futura, mas sim para t~n.tar. c1rcuns-.
cr'ever seu sentido com relação aos problemas pre~en~es e pdnnc1pa.lmen- cada um e para todos uma relação simultânea de interioridade e de exte-
rioridade, de participação e de exclusão, a qual não pode ser abolida nem
te com relação ao problema da alienação. ~ prax.is nao po e e 1~mm~ ~ a
1
necessidade de elucidar o futuro que deseJa: Assim ~c:imo a p s1c.ana. 17e
mesmo "dominada" mesmo num sentido pouco definido deste termo. O
1
não pode esva~iar o pro~lema do fim da anáhsde, a po.d1t1cad revo1uc1~na;1a
social é o que é todos e não é ninguém, o que jamais está ausente e quase
nunca presente como tal, um não-ser mais real que todo ser, aquilo em
não pode eludir a questao do seu resultado e o senti o esse resu ta o.
que mergulhamos totalmente, mas que nunca podemos apreender "em
Pouco nos importa a exegese e a polêmica em torno de um problema pessoa". O social é uma dimensão indefinida, mesmo se está circunscrito a
até agora permaneceu indefin ido. Nas intuições de M arx referentes à cada instante; uma estrutura definida e ao mesmo tempo mutante, uma
que ração da alienação, existe um grande número de elementos de uma articulação objetivável de categorias de indivíduos e o que para além de
supJade incontestável: em primeiro lugar, evidentemente a necessidade .todas as articulações ma ntém sua unidade. f: o que se dá como estrutura
~:rabolir as classes, mas també~ a idéia de uma transf?r~aç.ão das insti- - forma e conteúdo indissociáveis - conjuntos humanos, mas que supera
tu'ções
1 a um tal ponto que efetivamente uma grande d1stan.c1a a.s separa- toda estrutura dada, um produtivo inatingível, um formante informe, um
. daquilo que as instituições representaram até agora na história; e tudo ·sempre mais e sempre outro. f: o que só pode apresenta r-se na e pela ins-
na . .a uma !11ºd'fi
isso pressupõe e, ao m~1!1º tempo, P'.op1c1 -
.1 1~açao_n d
o ~o .º tituição, mas que é sempre infinitamente mais do que a instituição, posto
de ser dos homens, ind1v1dual e coletivamente, CUJOS hm1tes sao d1fice1s que é, paradoxalmente, ao mesmo tempo, o que preenche a instituição, o
de perceber. Mas esses elementos sofreram, às vezes, mesmo em Ma rx e que se deixa formar por ela, o que sobredetermina constantemente seu
Engels, e de qualqu~ maneira n~s marx.istas, um desloc~m.ento em dire- fun cionamento e aquilo que, em última análise a funda menta, a cria, a
-0 de uma mitologia mal definida porem finalmente m1st1ficadora, que mantém em existência, a altera, a destrói. Há o social instituído, mas este
;fimérÍta uma polêmica ou u~a antim ito~og.ia i~ualmente m~tol?gica en- pressupõe sempre o social instituinte. "Em tempo normal", o social ma-
tre os adversários da re~?luçao. Un:'a dehm1taçao com refere~ c1a a e~s~s nifesta-se na instituição, porém essa manifestação é ao mesmo tempo ver-
duas mitologias, que ahas compartilham uma ~ase comum, e n_ecessa~1.a dadeira e de algum modo falaciosa .- como mostr?m os momentos onde o
por si mesma, mas permite igualmente progredir na compreensao pos1t1- social instituinte irrompe e se coloca em ação com as próprias mãos, os
va do problema. momentos de revolução. Mas esse trabalho visa imediatamente um resul-
tado: que é o de dar-se novamente uma instituição para nela existir de
Se por comÚnismo ("fase superio r") compreendemos u'ma socieda- maneira visível - e desde o momento em que esta instituição é estabeleci-
de onde não existiri~ qualquer resi~tênci a, ~ualquer espessura, qua.lq~er da, o social instituinte esquiva-se, distancia-se, já está também al hures• .
acidade· uma sociedade que sena para s1 mesma pura tra nsparenc1a; Nossa relação com o socia l - e com o histórico, que é seu desenvofvi-
~~êle os d~sejos de todos se conciliariam espontaneamente ou então, pa~a mento no tempo - não pode ser chamada de relação de dependência, o
conciliar-se só teriam ne~essidade de um diálogo a lado que nunca sena que não teria n.enhum senti?o. f: uma relação de inerência, que como tal
sobrecarregado pela gos~a do simbolismo; u.ma sociedade que d~sc~br!-
1

. formularia e realizaria sua vontade coletiva sem passar por mstitui-


~~~s. ou cujas ins~ituições jamais caus~ria~ problemas:- s~ é disso que se • São esses traços do social que estão na raiz da impos.sibilidade de refleti-lo por si mes-
trata é preciso dizer claramente que isso e um dev aneio incoerente, um mo - sem r.e du zi-lo ao que ele não é - no pensamento herdado. Voltaremos longamente a
estado irreal e irrealizável cuja representação deve ser eliminada. f: uma isto na segunda parle d este livro.

134 135
não é nem liberdade, nem alienação, mas o terreno no qual liberdade e deseje este fim, aliás e felizmente irrealizável, que seria a destruição da
alienação podem existir, e que somente o dellrio de um narcisismo abso- criatividade da história. Para lembrar, como simples imagem, o que dis-
luto poderia querer abolir, deplorar, ou ver como uma "condição negati- semos sobre o sentido da autonomia para o indivíduo, assim como não
va". Se quisermos, a todo custo, procurar um análogo ou uma metáfora podemos eliminar ou reabsorver o inconsciente, também não podemos
para esta relação, é em nossa relação com a natureza que o encontrare- eliminar ou reabsorver esse fundamento ilimitado e insondável sobre o
mos. Este pertencer à sociedade e à história, infinitamente evidente e infi- qual repousa toda sociedade dada.
nitamente obscuro, esta consubstancialidade, identidade parcial, partici- · "Não se trata· também de uma sociedade sem instituições, qualquer
pação em alguma coisa que nos supera indefinidamente não é uma alie- que seja o desenvolvimento dos indivíduos, o progr7ss? .da téc~ic;a ou a ·
nação - assim como não o são nossa espacialidade, nossa corporalidade, fartura econômica. Nenhum desses fatores supnm1ra os mumeros
enquanto aspectos "naturais" de nossa existência, que a "submetem" às problemas que apresenta constantemente a existência coletiva dos ho-
leis da fisica, da química ou da biologia. Elas só são alienação nas fanta- mens; nem portanto a necessidade de arranjos e de procediment_?S que
sias de uma ideologia que recusa aquilo que é, em nome de um desejo que permitem debatê-los e escolher, - a não ser postulando uma mutaçao bio-
visa uma miragem - a posse total ou o sujeito a bsoluto, que em suma não lógica da humanidade, que realizaria a presença imediata de cada um em
aprendeu a viver, nem mesmo a ver, e portanto só pode ver no ser priva- todos e -de todos em cada um (mas até os autores de science-fiction já vi-
ção e déficit intoleráveis, ao que ela opõe o Ser (fictício). ram que um estado de telepatia universal só chegaria a urna imensa con-
Esta ideologia, que não pode aceitar a inerência,. a finitude, a limita- "fusão generalizada, produzindo apenas barulho e nenhuma informação).
ção e a falta, cultiva o desprezo por esse real "muito verde", que ela não Não se trata também de uma sociedade que coincidiria integralmente
pode atingir, de uma form a dupla: pela construção de uma ficção "com- com suas instituições, que seria exatamente recoberta, sem excessos nem
pleta", e pela indiferença quanto ao que é e o que dele se pode fazer. E falhas, pelo tecido institucional, e que, por baixo desse tecido, n~o t_eri.a
isso se manifesta, no plano teórico, por esta exigência exorbitante, de re- carne, uma sociedade que não passaria de um entrelaçamento de 1nst1tu1-
cuperação integral do "sentido" da história passada e futura; e no plano ções infinitamente chãs. Haverá sempre uma distância entre a sociedade
prático, por esta idéia não menos exorbitante, do homem "dominando instituinte e o que é, cada instante, instituído - e esta distância não é nem
sua história" - senhor e pos~uido~ da história, como estaria prestes ator- um negativo nem um déficit, ela é uma das expressões, da criatividade da
nar-se, assim parece, senhor e possuidor da natureza. Essas idéias, na me- história, o que a impede de condensar-se para sempre na "forma por fim
dida em que as encontramos no marxismo, traduzem sua dependência da encontrada" das relações sociais e das atividades humanas, o que faz com
ideologia tradicional; do mesmo modo que traduzem sua dependência que uma sociedade contenha sempre mais do que apresenta. Querer abo-
em relação à ideologia tradicional e ao marxismo, os protestos simétricos lir esta distância, de uma ou de outra maneira, não é saltar da pré-
e despeitados dos que, a partir d a constatação de que a história não é ob- história para a história ou da necc:ssidade para a l~berdade, m~s 9~erer
jeto de posse nem transformável em sujeito absoluto, concluem pela pere- saltar no absoluto imediato, ou seJa, no nada. Assim como o 10d1v1duo
nidade da alienação. Mas chamar a inerência dos indivíduos, ou de toda não pode captar ou dar-se o que quer que seja - nem o mundo, nem ele
sociedade dada, a um social e a um histórico que os superam em todas as próprio - fora do simbólico, uma sociedade não pode dar-se o que quer
dimensões, chamar a isso alienação só tem sentido dentro da ótica da que seja fora desse simbólico em segundo grau, que as instituições repre-
"Miséria do homem sem Deus". sentam. E, assim como eu não posso chamar de al~enação minha relaÇão
A praxis revolucionária, porque é revolucionária e porque deve ou- com a linguagem como tal - na qual eu posso ~o mesmo tempo dizer
sar para além do possível, é " realista" no sentido mais verdadeiro e co- tudo e qualquer coisa, diante da qual sou ª'? mesmo tempo ~et~rmi.n~do
meça aceitando o ser em suas determinações profundas. Para ela um su- e livre em relação com a qual um fracasso e possível, mas nao 10ev1tavel
jeito que estivesse livre de toda inerência na história - seja recuperando o - assi~ também não tem sentido denominar alienação a relação da socie-
seu "sentido integral" -, que tivesse tomado a tangente em relação à so- dade com a instituição como tal. A alienação surge nessa relação, mas ela
ciedade - seja "dominando" exaustivamente sua relação com ela-, não é ndo ~essa relação - como o erro ou delírio só são possíveis na linguagem,
um sujeito autônomo, é um sujeito psicótico. E mutatis mutandis a mes- mas não são a linguagem.
ma coisa é válida para toda sociedade determinada, que só pode, ainda
que seja comunista, emergir, existir, definir-se, na base desse social-
histórico que está além de toda sociedade e de tóda história particular e
alimenta a todas. Ela sabe não somente que não se trata de recuperar um
"sentido" da história passada, mas que não se trata também de "domi-
nar", no sentido aceito dessa palavra, a história futura - a menos que se
136 137
III. A INSTITUIÇÃO E O IMAGINÁRIO:
PRIMEIRA ABORDAGEM

A instituição: a visão econôm i co-funcion~I

A alienação não é nem a inerência à ·história, nem a existência pa ins-


tituição como tal. Mas a alienação surge como uma modalidade da rela-
ção com a instituição e, por seu intermédio, da relação com a história. t
esta modalidade que precisamos elucidar, e para isso, melhor compreen-
der o que é a instituição.
Nas sociedades históricas, a alienação aparece como encarnada na
estrutura de classe e o domínio por parte de uma minoria, mas na verda-
de ela ultrapassa esses traços. A superação da alienação pressupõe evi-
dentemente a eliminação do domínio de toda classe particular, mas vai
além· desse aspecto. (Não que as classes possam ser eliminadas e a aliena-
ção subsistir, ou o inverso; mas as classes só serão efetivamente elimina-
das, ou impedidas de renascer, paralelamente à superação do que consti-
tui a alienação propriamente dita). Vai além, porque a alienação existiu
em sociedades que não apresentavam uma estrutura de classe, nem mes-
mo uma importante diferenciação social; e porque numa sociedade de
alienação, a própria classe dominante está em situação de alienação: suas
instituições não têm com ela a relação de pura exterioridade e de instru-
mentalidade que lhe atribuem às vezes marxistas ingênuos; ela não pode
mistificar o restante da sociedade com sua ideologia sem mistificar-se a si
mesma ao mesmo tempo. A alienação apresenta-se de início como alie-
nação da sociedade às suas instituições, como autonomização das institui-
139
..,
J 1
11
ções com relação à sociedade. O que é que se autonomiza assim. por que ·e Não contestamos a v1sao funcionalista na medida em que chama
como - eis o que se trata de compreender. ·nossa atenção para o fato evidente, mas capital, de que as instituições
Estas constatações levam a um questionamento da visão corrente da preenchem funções vitais sem as quais a existência de uma sociedade é in-
:1 instituição. a qual chamaremos de visão econômico-funcional 1• Referi- conc-ebível. Mas a contestamos na medida em que pretende que as insti-
mo-nos à visão que quer explicar tanto a existência da instituição como tuições se limitem a isso, e que sejam perfeitamente compreensíveis a par-.
í suas características (idealmente, até os mínimos detalhes) pela função que ' tir deste papel. .
1 a instituição preenche na sociedade e as circunstâncias dadas. por seu pa- Lembremos, em primeiro lugar, que a contrapartida negativa da vi-
pel na economia de conjunto da vida social 1 • Pouco importa, do nosso . são contestada indica qualquer coisa de incompreensível para esta pró-
1 ponto de vista, que esta funcionalidade possua um aspecto "causalista" pria visão: o grande número de casos em que constatamos, nas socieda-
ou "finalista"; igualmente pouco importa o processo de nascimento e de des dadas, funções que "não são preenchidas" (embora pudessem sê-lo
1 sobrevivência da instituição. Quer se diga que os homens. tendo com- no nível dado de desenvolvimento histórico), com conseqüências às vezes
preendido a necessidade de que tal função fosse preenchida, criaram menores, outras vezes catastróficas, para a sociedade em questão•.
1
conscientemente ·uma instituição adequada; ou que a instituição tendo Contestamos a visão funcionalista, sobretudo, devido ao vazio
1 surgido "por acaso" mas sendo funcional tenha sobrevivido e permitido que apresentl;\ naquilo que deveria ser para ela o ponto central: quais são
que a sociedade considerada sobrevivesse, ou que a sociedade tendo ne- as "necessidades reais" de uma sociedade. que as instituições se destina-
J cessidade de que tal função fosse preenchi.d a, apoderou-se do que encon- riam a servir 3? Não será evidente que, desçle que abandonamos a compa-
1 trava encarregando-o desta função; ou então que Deus, a razão, a lógica nhia dos macacos superiores, os grupos humanos constituíram outras ne-
.da história organizaram e continuam organizando as sociedades e as ins- cessidades que não apenas as biológicas? A visão funcionalista só pode
tituições que lhes correspondem - colocamos a ênfase em uma e a mesma realizar seu programa se ela se outorga um critério da "realidade" das ne-
coisa, ·a funcionalidade, o encadeamento sem falha dos meios e dos fins cessidades de uma sociedade; de onde o tomaria? Conhecemos as necessi-
ou das causas e efeitos n~ plano geral, a estrita correspondência entre os dades de um ser vivo, do organismo biológico, e as suas funções. corres-
1 traços da instituição e as necessidades "reais" da sociedade considerada, pondentes; mas o organismo biológico não é mais que a totalidade das
em resumo, sobre a circulação integral e ininterrupta entre um "real" e funções que cumpre e que o fazem viver. Um cachorro come para viver,
um "racional-funcional" . mas também podemos dizer que vive para comer: viver, para ele (e para a
espécie cachorro) não é senão comer, respirar, reproduzir-se etc. Mas
isso nada significa para um ser humano, nem para uma sociedade. Uma
1 Assim, segundo Bronislaw Malinowski. o de q ue se trata é da ... "explicação dos fatos sociedade só pode existir se uma série de funções são constantemente
antropológicos em todos os nlveis de desenvolvimento por sua função, pelo papel que de· preenchidas (produção, gestação e educação, gestão da coletividade, re-
sempenham no sistema, e pela maneira pela qual esse sistema é ligado ao meio natural... A solução dos litfgiosf etc.), mas ela não se reduz só a isso, nem suas manei-
visão funcional ista da cultura insiste pois no princípio de que em cada tipo de civilização, ras de encarar seus problemas são ditadas uma vez por todas por sua
cada costume, objeto m aterial. idéia e crença preenche uma função vital. tem uma tarefa
por realizar, representa uma parte indispensável no interior de um todo que funciona
"oatureza"; ela inventa e define para si mesma tanto novas m a neiras de
(within a working whole)". "Antropology", Encylopaedla Brltanica. suppl. vol. I, New York responder às suas necessidades, como novas necessidades. Voltaremos
and London, 1936, p. 132-133. Ver também A.R . Radcli fe-Brown, Structure and Funclion in longamente a esse problema.
Primitive Society, London, Cohen and Wesi, 1952. (tr. fr. Stn1cture etfonction dans la socie· Mas o que deve fornecer o ponto de partida de'.nossa pesquisa ·é a
té primilive, Paris, Ed. de Minuit, 1969).
2 1:: finalmen te também a visão marxista, para a qual as instituições representam a cada maneira de ser sob a qual se constitui a instituição - a saber, o simbólico.
vez os meios adequados pelos quais a yida social se organiza para adaptar-se às exigências
da "infra-estrutura". Esta visão é amenizada por diversas considerações: a) A dinâmica so-
ciál assenta-se no fato de que as instituições não se adap tam automática e espontaneamente
à evolução da técnica, existe passividade, inércia e "atraso" recorrente das instituições em
relação à infra-estrutura (que deve ser eada vez rompido por uma evolução): b) Marx via cla-
ramente a autonomização das instituições como a essência da alienação - m as possuía final·
mente uma visão "funcional" da própria alienação: c) as exigências da lógica própria da • As destruições ·históricas "iniernàs" de sociedades dadas - Roma, Bizâncio etc. - for-
instituição, as quais podem separar-se da funcionalidade, não eram ignoradas; mas sua rea- necem "os contra-exemplos da visão funcionalista. Em outro contexto, ver o caso dos She-
tação com as exigências do sistema social cada vez considerado, e principalmente com "as renté e os dos Bororo descritos por Claude Lévi-Strauss, A nthropo/ogle structural, p. 137-
necessidades de domínio da classe exploradora" permanece o bscura, ou então é integrada 139 e p. 141 (não-funcionalidade dos clãs).
(como na análise da economia capitalista por Marx) na funcionalidade contraditória do sis· 3 Assim, diz Malinowski: "A função significa sempre a satisfação de uma necessidade" ,
tema. Voltaremos mais adiante a esses diversos pontos. A crítica do funcionalismo formula· "The Functional Theory", em A Scientiflc Theory o/ Culture, Chapei H ill, N .C., 1944, p.
da nas páginas seguintes. e que se situa em outro nível, também é válida para o marxi smo. 159. .
140 141
A instituição e o simbólico tro·, como instrumento perfeitamente adequado à expressão de um con-
Tudo o que se nos apresenta, no mundo social-histórico, está indis- teúdo preexistente, da "verdadeira substância" de relações sociais, que
sociavelmente entrelaçado com o simbólico. Não que se esgote nele. Os nem acrescenta nem diminui nada. Ou então a existência de uma "lógica
atos reais, individuais ou coletivos - o trabalho, o consumo, a guerra, o própria" do simbolismo é reconhecida, mas esta lógica é vista exclusiva-
amor, a natalidade - os inumeráveis produtos materiais sem os quais ne- mente como a inserção do simbólico em uma ordem racional, que impõe
nhum~ sociedade poderia viver um só momento, não são (nem sempre, suas conseqllências, quer as desejemos ou não '. Finalmerrte, dentro dessa
não diretamente) slmbolos. Mas uns '< outros são impOS!ilveis fora de visão, a forma está sempre a serviço do fundo, e o fundo é "real-
uma rede simbólica.· . racional". Mas não é assim na realidade, e isso destrói as pretensões in-
Encontramos primeiro o simbólico, é claro, na linguagem. Mas o en- terpretativas do funcionalismo.
contramos igualmente, num outro grau e de uma outra maneira, nas ins- Tomemos o exemplo da religião, esta instituição tão importante em
tituições. As instituições não se reduzem ao simbólico, mas elas só podem todas as sociedades históricas. Ela sempre comporta (não discutiremos
existir no simbólico, são impossíveis fora de um simbólico em segundo aqui os casos extremos) um ritual. Consideremos a religião mosaica. A
grau e constituem cada qual sua rede simbólica. Uma organização dada definição de seu ritual do culto (no sentido mais amplo) comporta uma
da economia, um sistema de direito, um poder instituído, uma religião proliferação sem fim de deta-lhes; esse ritual, estabelecido com muito
existem socialmente como sistemas simbólicos sancionados. Eles consis- mais detalhes e precisão do que a Lei propriamente ditas, decorre direta-
tem em ligar a símbolos (a significantes) significados (representações, or- mente de mandamentos divinos e por isso aliás todos os seus detalhes são
dens, injunções ou incitações para fazer ou não fazer, conseqüências. - colocados no mesmo plano . .O que determina a especificidade destes de-
significações, no sentido amplo do termo *)e fazê-los valer como tais, ou talhes? Por que são todos colocados no mesmo plano?
seja a tornar esta ligação mais ou menos forçosa para a sociedade ou o · A primeira pergunta, só podemos dar uma série de respostas par-
grupo considerado. Um título de propriedade, um ato de venda é um ciais. Os detalhes são em parte determinados em referência à realidade ou
símbolo do "direito", socialmente sancionado, do proprietário de proce- ao conteúdo (num templo fechado são necessários candelabros; tal ma-
der a um número indefinido de operações sobre o objeto de sua proprie- deira ou metal é o mais precioso na cultura considerada, digno, então, de
dade. Uma folha de pagamento é o símbolo do direito do assalariado de ser utilizado - mas já nesse caso aparece o símbolo e toda sua problemáti-
exigir uma quantidade estabelecida de cédulas que são o símbolo do di- ca da metáfora direta ou por oposição: nenhum diamante é suficie,1te-
reito de seu possuidor de dedicar-se a uma variedade de atos de compra, mente precioso para a tiara do Papa, mas o Cristo lavou ele mesm~· os
cada um deles vindo a ser, por sua vez, simbólico. O próprio trabalho que p~ dos Apóstolos). Os detalhes possuem uma referência, não funcional,
está na origem desta folha de pagamento, embora eminentemente real mas simbólica, ao conteúdo (seja da realidade, seja do imaginário religio-
para seu sujeito e em seus resultados, é constantemente percorrido por so: o candelabro tem sete lâmpadas) . Os detalhes podem enfim ·ser deter-
operações simbólicas (no pensamento daquele que trabalha, nas instru- minados pelas implicações ou conseqüências lógico-racionais das consi-
ções qu.e recebe, etc.). E ele próprio se torna simbólico tão logo, reduzido derações precedentes.
primeiro a horas e minutos afetados por tais coeficientes, ele entra na ela- ~as .estas considerações não permitem interpretar de maneira satis-
boração contábil da folha de pagamento ou do balanço "resultados de fatóna e 10tegral um ritual qualquer. Primeiro, elas sempre deixam resí-
exploração" da empresa; quando também, em caso de litígio, ele vem duos; no quádruplo_entrelaçamento cruzado do funcional, do simbólico e
preencher as premissas e conclusões do silogismo jurídico que decidirá. de suas conseqllências, os furos são mais numerosos que os pontos
As decisões dos planificadores da economia são simbólicas (sem e com
ironia). As sentenças do tribunal são simbólicas e suas conseqüências o
·são quase que integralmente, até o gesto do carrasco que, real por exce- 4 "Em um Estàdo moderno é preciso não somente que o direito corresponda à situação
lência, é imediatamente também simbólico em outro nível. eco.nômica sera! e seja sua expressão, mas ainda que seja sua e'!pressão sistemática, a qual
Toda visão funcionalista conhece e deve reconhecer o papel do sim- n~o se inflige um desmentido próprio por suas contradições internas. E. para obter êxito.
bolismo na vida social. ele reílete cada vez menos fielmente as realidades econômicas". Fr. Engels, carta a Conrad
Mas é só raramente que ela reconhece sua importância - e tende, en- Schmidt de 27 de outubro de 1890. (Repr. in K.M .. F.E.. Etudes phí/osophiques. op. cit. p.
158).
tão, a limitá-la. Ou o simbolismo é visto como simples revestimento neu- 5 No lxodo, a Lei é formulada cm quatro capltulos (20 a 23) porém o ritual e as diretri-
zes concernentes à construção do Tabernáculo ocupam onze (25 a 30 e 36 a 40). As injun-
ções concernentes ao ritual retornam aliás permanentemente: ef. Levítico, 1 a 7: 'Números,
4, 7-8, 10, 19, 28, 29 etc. A constrúção do Tabernáculo .é também descrita coin uma grande
·I
• "Significante" e "significado" são tom ados aqui e a seguir latí.f"imo .fe11.ru. riqueza de detalhes em várias passagens nos livros históricos.
142 143

l
cobertfs. Em seguida, elas postulam que a relação simbólica é simples e uma pseudo-superestrutura, 'Um epi.fenômerio dos epifenômeno~. Veja-
na/ura •quando na verdade ela coloca problemas imensos: para começar mos então uma instituição séria como o direito, diretamente ligada à
? ª~ºde que a "escolha" de um slmbolo não é nunca nem absolutamente "substância" de toda sociedade, que é, segundo dizem, a economia, e que
inevitável, ~em pura.m~nte aleatória. Um slmbolo nem se impõe com nenhuma relação tem com fant asmas, candelabros e beatices, e sim com
u~a. necessidade natural, nem pode privar-se em seu teor de toda refe- essas reais e sólidas relações sociais que se exprimem na propriedade, nas
rência ao real (somente em algun·s ramos da matemática se poderia tentar transações e nos contatos. No direito, deverla~os poder mostrar. que o
.encontrar slmbolos totalmente "convencionais" - mas uma convenção simbolismo está a serviço do conteúdo e só deste se afasta na !11ed1da e~
q_ue va.leu .durante algum tempo deixa de ser pura convenção)." Enfim, que a racionalidade o força. Deixem.os também de lado. este~ b1zar~os pr~­
nada P.erm1te determinar as fronteiras do simbólico. Ora, d o ponto de vis- mitivos com que nos enchem os ouvi.dos e ent.re os. quais, ahás, sena mui-
~a d~ ritual, é a matéri~ que é indiferente, ora é a forma, o ra nenhuma das to diflcil diferenciar as regras propriamente JUrídtcas das outras. Tome-
uas. fixamos a matéria de tal o bjeto, mas não de todos; o mesmo se dá mos uma sociedade histórica e reflitamos. .
~m ~elação. à forma. Um cer~o tipo de igreja bizantina é em forma de Diremos então, que em determinada etapa da evolução de uma s~-
ruz, acreditamos compreender (mas somos obrigados a perguntar-nos ciedade histó;ica surge necessariamente a instituição da proprie~ade pn-
1~~º· pârq.ue todas as igrejas cristãs não o são). Mas esse motivo da cruz, vada, pois esta corresp<;>nde ao '!lodo fundan;i~ntal de produçao. Uma
q . po ena ser reproduzido em outros elementos e subelementos da ar-· vez estabelecida a propnedade pnvada, uma sene ~e regras ?eve~ ser fi-
qf1t~tura e da decoração da igreja não o é; ele é retomado em certos xadas: os direitos do proprietário deverão ser defimdos, as v1olaç?es de~­
~ ve~s, i:nas e~ outros nlveis encontramos· outros motivos, e existem ain- tes sancionadas, os casos limites definidos (uma árvore cresce na h~ha di-
~· n veis tota mente neutros, simples elementos de suporte ou de preen- visória entre dois terrenos; a quem pertencem os frutos?) Na medida em
~ ime.nto ...A escolha dos pontos de que se apodera o simbolismo para in- que a sociedade dada se desenvolva economicamente, q~e ·a~ tr~cas se
ormar e sacramentar" em segundo grau a matéria do sagrado parece multipliquem, a transmissão livre da propriedade (que. no m{~10 .nao é de
e~arande parte ~nem sempre) arbitrária. A fronteira passa quase por modo algum natural e não é necessanamente reconhec1da,_prmc1palmen-
.d quer lugar; existe a nudez do templo protestante e a selva luxuriante te para os bens imóveis) deve ser.r~gulamentac:ta_. .ª transaçao 9ue a _efetua
. e c~rto~ templos hindus; e de repente, lá onde o simbolismo parece ter-se deve ser formalizada, deve adquir.1r uma p~ss1~tl1?~de de vcnfi.c açao que
~P-º era o de cada milfmetro de matéria, como em alguns pagodes no minimize os possíveis litigios. Assim, nesta mstttu~çao que per~ane.ce um
t iao, percebe-.se que, ao mesmo tempo, esvaziou-se de conteúdo, que se eterno monumento de racionalidade, de economia e de func1onahd~d~,
ornou essencialmente simples decoração 6 • equivalente institucional da -geometria eucli.diana - refe~imo-nos ao d1re1-
dE~ suma, um ritual não é um processo racional - e isso permite res- to romano - se elaborará durante os dez. seculos que vao da ~ex Duode-
jºn der segunda pergunta que fizemos·: por que todos os detalhes são co- cim Tabularum até a codificação de Justmiano, esta verdadeira fl~resta,
doc~ os no mesmo plano? Se um ritual fosse um processo racional, po- mas bem organizada e bem construída, de regras que estão.a ~erv1ço da
h~ramo~ encontrar nele a distinç~o entre o essencial e o secundário, a propriedade, as transações e os contratos. E, to.mando esse dtrerto em sua
ter~rquiza~ão própria a t oda rêde racional. Mas num ritual não existe fo rma final, poderemos mostrar ~ara cad_a P.aragrafo do Corpus q~e a re:
~e?d um mei~ de diferenciar, através de quaisquer considerações de con- gra que ele contém ou está a serviço do _funcionamento da economia ou e
eu. ~· 0 que importa muito e o que importa menos. A colocação nomes- requerida por outras regras que o. estao. .
~tº ~~no, d? ponto de vista da importância, de tudo o que compõe um Poderemos mostrá-lo - e nada teremos mostra~o .quanto ao nosso
·d1 u ~:r precisamente o indicador do caráter não racional do seu conteú- prob!Cma. Pois não somente no momento em que o çhre1to romano chega
d?· izer que não pode haver graus· no sagrado, é uma outra maneira de a isso as razões de ser desta funcionalidade elaborada recuam, sofrendo
ª
rze~ mesma coisa: tudo aquilo de que o sagrado se apoderou é igual- a vid~ econômica uma regressão desde o III ~écul? de no~sa er_a;
men e sdagrado (e isso vale também para os rituais das neuroses obsessi- de tal maneira que, no que concerne ao direit~ p.a~nmomal, a cod1ficaçao
vas ou as perversões). de Justiniano aparece como um monumento mut1l e em ~rande parte re-
.:.. Mas os funcionalistas, marxistas ou não, não gostam muito da reli- dúndante relativamente à situação real de sua época 1 • N ao somente esse
giao, que tratam sempre como se fosse, do ponto de vista sociológico, direito, elaborado na Roma dos cônsules e dos Césares, encontr~rá, de

· 6 Isso é uma conseqllê · d . ·


diacrftico •• . . nc1a esta 1e1 fundamental segundo a qual todo simbolismo é
0
alguma co·~a age ~-or di~ercnça": um signo só pode emergir como signo sobre o fundo de 7. Esta funcionalidade excessiva, redundante, é de .fato uma di~funcio~alidade e os impe-
nar concr:ta:;uc nao é signo ou que é signo de ou~ra coisa. Mas isso não pcrJ!litc determi- radores bizantinos serão obrigados em diversas· ocasiões a reduzir a cod1ficação exagerada
ente por onde deve passar a fronteira de cada vez. de Justiniano, resumindo-a.
144 145
maneira paradoxal, sua funcionalidade em muitos países europeus a um sentido "privado" e especial a tal° palavra, tal expressão, não o faz
partir da Renascença, e permanecerá o Germeines Recht da A lemanha ca- dentro de uma liberdade ilimitada mas deve ·apoiar-se em alguma coisa
pitalista até 1900 (o que se explica, até certo ponto, por sua extrema "ra- que "aí se encontra". Mas isso é igualmente verdadeiro para a sociedade,
cionalidade", portanto, universalidade). Mas, sobretudo, enfatizando a embo:a d e 1;1ma maneira diferente. A sociedade constitui sempre sua or-
fu ncionalidade do direito romano, escamotearemos a característica do- · dem s1mbóhca num sentido diferente do que o indi víduo pode fazer. Mas
minante de sua evolução durante dez séculos, justamente aquilo que faz essa .constituição não é "livre" . Ela também deve tomar sua matéria no
dele um fascinante exemplo do tipo de relações entre a instituição e a "que já existe". Isso é primeiro a natureza - e como a natureza não é um
"realidade social subjacente": esta evolução foi um longo esforço para al- caos, como os objetos naturais são ligados uns aos outros, isso acarreta
cançar precisamente esta funcionalidade, a partir de um estado que esta conseqüências. Pa ra uma sociedade que conhece a existência desse ani-
va longe de possui-la. No início, o direito romano é um conjunto rudi- ~al, o leão significa a força. Imediatamente, a juba assume para ela uma
mentar de regras rígidas, onde a forma esmaga o fundo num grau que ul- 1mpo.rtância simbólica que provavelmente nunca teve para os esquimós.
trapassa de longe o que poderiam justificar as exigências de todo direito Mas isso também é a história . Todo simbolismo se edifica sobre as ruínas
como sistema formal. Para citar um só exemplo, aliás central, o que é o dos edifícios simbólicos precedentes, utilizando seus materiais - mesmo
núcleo funcional de toda transação, a vontade e a intenção das partes que seja. só ~ara preench!!r ~s fundações de novos templos, como o fize-
contratantes, desempenha durante muito tempo um papel inferior em re- ram o·s atenienses após as guerras médicas. Por suas conexões na turais e
lação à lei; o que domina, é o ritual ' da transação, o fato de que tais pala- históricas virtualmente ilimitadas, o sig nificante ultrapassa sempre a liga-
vras foram pronunciadas, tais gestos realizados. Só gradualmente se ad- ção rí~ida a um significado preciso, podendo conduzir a lugares total-
mitirá que o ritual só pode ter efeitos legais, na medida em que a verda- mente inesperados. A constituição do simbolismo na vida social e históri-
deira vontade das partes o s visava. Mas o corolário simétrico desta pro- ca rea l não tem qualquer ligação com as definições "fechadas" e "trans-
posição, a saber, que a vontade das partes pode constituir obrigações in- P~~en.tes" .dos símbolos ao longo de um traba lho matemático (o qua l
dependentemente da forma que a dquire sua expressão, o princípio que é ahas Jamais pode fech ar-se sobre si próprio).
o fundamento do direito das obrigações moderno e que exprime verda- : Um belo exemplo: q1;1e concerne ao mesmo tempo ao simbolismo d a
deiramente seu caráter fu-i)cional: pacta sunt servanda. jama'is será re- . linguagem e ao da mst1tu1ção é o d o "Soviete dos comissários do povo" .
conhecido'. A lição do direito romano, considerad o em sua evolução his-. Trotsky relata em sua autobiografia que qua ndo os bolchevistas toma-
tórica real, não é a funcionalidade do direito, e sim a relativa independên- ram o poder e formaram um governo, foi preciso encontrar um nome
cia do formalismo ou do simbolismo em relação à funcionalidade, no iní- para o mesmo. A designação de "ministros" e "Conselho dos ministros"
cio; em seguida, a conquista lenta, e jamais integral; do simbolismo pela não agradava absolutamente a Lenine, porque fembrava os ministros
funcionalidade. burgueses e seu desempenho. Trotsky propôs os termos "comissários do
A idéia de que o simbolismo é perfeitamente "neutro" o u então - o povo:: e, pa~a o Governo, em seu conjunto, "Soviête dos co missários do
que vem a ser o mesmo - totalmente " a dequado" ao funcionamento dos povo ..Le~1i:ie,,ficou encantado - ele acha va a expressão "terrivelmente
processos reais é inaceitável e, a bem dizer, sem sentido. revoluc1onar.1a - e esse nome foi adotado. Criava-se uma nova lingua-
O simbolismo não pode ser nem neutr0, nem totalmente adequado, gem e, acreditava -se, novas instituições. Mas até que ponto tudo isso era
primeiro porque não p ode tomar seus signos em qualquer lugar, nem novo?. O nome era novo; e existia, em tendência pelo menos, um novo
p ode tomar quaisquer signos. Isso é evidente para o indivíduo que encon- conteu~o ~ocial a exprimir: os Sovietes lá esta vam, e era de acordo com a
tra sempre diante de si uma linguagem já constituída 'º. e que se a tribui sua maioria 9ue o_s bolchevistas haviam "tomado o poder" (que no mo-
mento tambem na o passava de um nome). Mas no nível intermediário
que ma revelar-se decisivo, o d a instituiçijo em sua natureza simbólica
8. A palavra ritual impõe-se aqui. visto que o teg umento religioso.das transações no co- em segundo grau, a encarnação do poder num colégio fech ado, inam oví-
meço e incontestável. . vel, _cume de um aparelho administrativo distinto dos administrados - nes-
9: " Ex nudo pacto inte! cives Romanos acfio n'on nas~itur ". Sobre as acrobacias pelas se. nivel, ficava-se d~ fato nos ministros, tomava-se a form a já criad a p elos
qua1~ os prctores conseguiram abrandar consideravelmente esta regra, mas sem jamais ou-
s ar dcscartá·la completamen te, podemos ver qualquer história d o direito romano, p. ex. R . reis d a _Europa Oc1~ental desde o .fi m da Idade Média. Lenine, que os
von Mayr, Ro111iscl1e Rechtsgeschichte, Leipzig (Gõschenverlag). 1913. vol. II , 2. li, p . 81- acontec1_men tos haviam forçado a interromper a redação d o Estado e a
82, vol. IV, p. 129 etc. Revoluçao onde ele demonstrava a inutilid ade e a nocividade de um go-
10. "Há u~ a .eficácia ~o sig1,1ilicante .q!'lc; e.~capa a toda cxplii:ação psicogenéti ca, pois verno e de uma a d min istração sepa rado s d as massas organizadas, tão
essa ordem .s1~r~11icante, simbólica, ? s.uJerto não a introduz, e sim a encontra"': Jacques
Lacan, Scminano 1956-1957, relatório por J. B. Pont alis. Bulletin de ps1•chologie. vol. X. n~
logo encontrou-se diante do vazio criado pela revolução. e apesa r da pre-
7, abril 1957, p. 428. · sença das novas instituições (os Sovietes) _só soube recorrer à form a insti-
146 147
..
li
li tucional que já existia na história. Ele ~~o queria o nome '.'Conselho·de O ideal da interpretação econô mico-funcional é de que as regras ins-
li ministros", mas era um Conselho de ministros que ele quer:1a - e ele o te- tituídas devem aparecer, seja com~ fun_cionais, seja_ con~o re_al·ou l ogic~­
ve, no final. (f: claro que isso vale também para os outros dirigentes bol- mente implicadas pelas regras func1ona1s. Mas esta 1mpllcaçao real ou lo-
1 i chevistas e para o essencial dos membros do partido). A revolução criava gica não é dada de saída, ela não é automaticamente homogênea à lógica
uma nova linguagem e tinha coisas novas a dizer; mas os dirigentes que- simbólica do sistema. O exemplo do direito romano aí está para mostra r
li riam dizer com palavras novas coisas a ntigas. que uma sociedade (dominada por predileção !'ela ló~ica jur~dica_, coi:io
Mas esses sim bolos, ·esses signific;mtes, já quando se trata da lingua- demonstrou o evento) levou dez séculos para descobm essas 1mpltcaço_es
gem e infinitamente mais quando se trata das instituições, não são total- e submetê-lhes aproximativamente ao simbolismo do sistema. A conq~1s­
mente subjugados pelo " conteúdo" que supostamente têm que veicular, ta da lógica simbólica das instituições e sua "racionalização" progressiva
mas também por uma outra razão . E que eles pertencem a estruturas são elas mesmas processos históricos (e relativam~n.te recentes): E~tn~­
ideais que lhes são próprias, que se inserem em relações quase- mentes tanto a compreensão pela sociedade da log1ca de su~s 1nst1tu1-
racionais ".A sociedade se depara constantemente com o fato de que um ções, c~mo a sua não-compreensão sã?..fat?res que pesa1!1 muito em sua
sistema simbólico qualquer deve ser manejado com coerência; quer ele o evolução (sem mencionar suas consequenc1as sobre a açao dos homens,
seja ou não,, surge dai uma série de conseqüências que se impoêm, quer grupos, classes etc.; quase que a metade da g~?vidade da dep~e~são inicia-
tenham ou não sido conhecidas e desejadas como tais. · da em 1929 deveu-se às reações "absurdas dos grupos dmg~ntes). A
Freqüentemente parecemos acreditar que esta lógica simbólica, e a evolução desta compreensão não é em si passivei de uma interpretação
ordem racional que em parte lhe corresp·onde, não colocam problemas "funcional". A existência, e a audiência, de M. Rueff em 1965 desafia
para a teoria da história. Na verdade, colocam imensos problemas. Um toda explicação funcional e mesmo racional 13 • •
funcionalista pode considerar como natural, que, qtrando uma sociedade Considerado agora "em si próprio", o racional das instituições não
se dá uma instituição, ela se dá ao mesmo tempo, como possíveis todas as conhecido e não desejado como tal pode ajudar o funcional ; e pode tam-
relações simbólicas e racionais que esta instituição traz ou engendra - ou bém ser-lhe adverso. Se é violenta e diretamente adverso, a instituição
que, de toda maneira, só haveria contradição ou incoerência entre os desmoronaria imediatamente (o papel-moeda de Law) . Mas pode sê-lo
"fins" funcionais da instituição e os efeitos de seu funcionamento real, de maneira insinuante, lenta, cumulativa - e o conflito só aparece entã'!
cada vez que uma regra é estabelecida, sendo garantida a coerência de
cada uma de suas inúmeras conseqüências com o conjunto das outras re-
. gras já existentes e com os fins conscientes ou "objetiyamente" persegui-
dos. Basta enunciar claramente esse postulado para constatar seu caráter.
absurdo; ele significa que o Espírito absoluto preside o nascimpnto ou a 13. f;: em si mesmo um imcnsô problema, saber até que ponto (e por que) os homens agem'
modificação de cada instituição que aparece na história (o fato de que o cada vez "racionalmente" com respeito à situação real e institucion-at. Cf. Max Wébcr,
imaginamos presente no pensamento dos que criam a instituição ou es- WirrschaÍr und Gesel/scha/t, Tubingen (Mohr) 1956, 1, p. 9-10. Mas mesmo a diferença que
Weber estabelece, entre o desenrolar efetivo de uma ação e seu desenrolar idcal-tlpico na hi·
~ondido na força das coisas nada· muda)". pótese de um comportamento perfeitamente racional, deve ser precisada: há a distância en-
tre o desenrolar efetivo de uma ação e a "racionalidade positiva" (no sentido cm que fala·
mos de "direito positivo") da sociedade considerada no momento considerado, ou seja, o
grau de comprensão ao qual esta sociedade c~ego~, referent~ .à l~.gica de seu próp~io fun~io·
namento; e existe a distância entre esta "rac1ona hdade positiva e uma rac1on ahdade sim·
11. Quase racionais: racionais em grande parte, mas como no uso social (e não cientifico) plesmente concernente a esse mesmo sistema institucional. A técnica keyncsiana da utiliza.
do simbolismo o "deslocamento" e a "condensação" como dizia Freud (a metáfora e a me· ção do orçamento para regular o equilíbrio econômico era tão válida em 1860 COll)O cm
tonímia, como diz Lacan) estão constantemente p resentes, não podemos identificar pura e 1960. Mas não tem muito sentido imputar aos dirigentes capitali stas anteriores a 1930 um
simplesmente a lógica d o simbolismo social com uma "lógica pura", nem mes mo com a ló· comportamento "irracional", quando, diante de uma depressão,. eles agiram ~o contrário
gica do di scurso lúcido. do que a situação teria exigido; eles _agiam de modo ~era!, de ~~or~o co~ aquilo ~~e ~~a a
12." Evidentemente é preciso ser um espírito simples, como Einstein, para escrever: "É "racionalidade positiva" de sua sociedade. A cvoluçao desta rac1onahdade pos1t1va le-
um verdadeiro milagre que possamos realizar, sem encontrar grandes dificuldades, esse tra- vanta um problema complexo que não podemos abordar aqui; simplesmente lembremos
balho (de recobrir uma supcrficie lisa de mármore por uma rede de retas que formam qua- que é imposslvcl reduzi-la a um puro e si mple.s "progresso ci.cntlfico''.· n~ m~?ida e~ ~~e os
drados iguais, como nas coordenadas cartesianas ... ) (Fazendo isso) não tenho mais a possi· interesses e as situações de classe, como lambem os preconceitos e as 1lusoes gratuitas que
bilidade de ajustar os quadriláteros de tal modo que suas diagonais sejam iguais. Se elas o se o riginam do imaginário ai representam um papel essencial. A prova é que ainda hoje,
são por si mesmas, isfo é um favor especial que me concede a supcrficie do mármore e as pe· trinta anos após a·formulação e a difusão das idéias keynesianas, frações substanciais e às • 1
1
quenas regras, favor esse que só pode me provocar uma surpresa agradável." Relativity, vezes majoritárias dos grupos dominantes defendem com obstinaçã<? concepções caducas
London (Methucn), 1960, p. 85. As diferentes tendências deterministas, nas "ciências so- (como o estrito cqu illbrio orçamentário ou a volta do padrão-ou ro) cuja aplicação, mais
ciais", hã muito tempo ultrapassaram esses espantos infantis. cedo ou mais tarde, mergulharia o sistema numa crise.
148 149
no fim de um certo tempo. As crises de superprodução "noqnais" doca- mo da língua na qual será expressa._Mas é impQssível captar um "conteó-
pitalismo clássico pertencem essencialmente a esse caso ". do" da vida social que seria primário e "se daria" urna expressão nas ins-
Mas o caso mais impressionante e o mais significativo é aquele em tituições independentemente delas; esse "conteúdo" (diferentemente_do
que a racionalidade do sistema institucional é por assim dizer "indiferen- .que como momento parcial e abstrato, separado depois), só é definível
te" quanto à sua funcionalidade, o que não impede de ter conseqüências em uma estrutura, e esta comporta sempre aºinstituição. As "relações so-
reais. Certamente, existem reg ras institucionais, positivas, que não con- ciais reais" de qu~ se trata são sempre instituídas, não porque tenham
tradizem as outras, m as também delas não decorrem, e são estabelecidas urna vestimenta jurídica (elas podem muito bem não tê-las em certos ca•
sem que possamos· dizer por ·que foram preferidas a outras igualmente sos), mas porque foram estabelecidas como maneiras de fazer universais,
compatíveis com o sistema "· Mas existe sobretudo um grande número simbolizadas e sancionadas. Isso, é claro, também é válido, talvez m esmo
de conseqilências lógicas das regras estabelecidas as quais não foram ex- sobretudo, para as "infra-estruturas'', as relações de·produção. A relação
plicitadas no início e que não deixam de representar um papel real na patrão-escravo, servo-senhor, proletário-capita lista, assa lari a dos-
vida social. Elas contribuem por conseguinte para "forma r" esta de um burocracia já é urna instituiçã o e não pode aparecer como relação social
modo que não era exigido pela funcionalidade das relações sociais, que sem se institucionalizar imediatamente.
também não a contradiz, mas que pode levar a sociedade a uma das vá- No marxismo, existé urn'à arnt)°igüidade a respeito disso, decorren~te
rias direções que a funcionalidade deixava indeterminadas ou criar efei- de não estar elucidado o conceito de instituição (mesmo se a pa lavra ~ao
tos que'agem de volta sobre esta (a Bolsa de Valores representa, em rela- é utilizada). Toma das em sentido estritp, as instituições pertencem à su-
ção ao capitalismo industrial, essencialmente um desses casos). perestrutura" e seria·rn determinadas pela "infra-estrutur~". i=:sta visã? é
Este aspecto liga-se a esse fenômeno importante, que já menciona- em si própria insustentável como tentamos mostrar mats acima. Alem
mos a propósito do ritual: nada permite determinar a priori o lugar por disso se a aceitássemos deveríamos ver as instituições corno "formas"
onde passará a fronteira do simbólico, o ponto a partir do qual o simbóli- servi~do e exprimindo ~m "conteúdo" ou uma substância da vida. so-
co invade o funcional. Não podemos fixar nem o grau geral de simboliza- cial, já estruturado antes dessas instituições, d o co~trá_rio es_ta d~.~errnma­
ção, variável segundo as culturas", nem os fatores que fazem com que a ção destas por aquela não teria sentido. Esta substancia seria a infra-es-
simbolização se exerça com .uma intensidade particular sobre t al aspecto trutura", que corno a palavra in~ica. já está estruturada. Mas como pode .
da vida da sociedade considerada. estar estruturada, se não está instituída? Se a "economia", por exemplo,
Tentamos indicar as razões pelas quais a idéia de que o simbolismo determina o "direito"; se as relações de produção determinam as formas
institucional seria uma expressão "neutra" ou "adequada" da funcion ali- de propriedade, isso significa que as relações de produção podem ser
dade, da "substância" das relações sociais subjacentes é inaceifavel. Mas compreendidas co1110 articula das e já o são efetivamente "antes" (lógi~a e
a bem dizer esta idéia é sem sentido. Ela postula uma tal substância que realmente) de sua expressão jurídica. Mas as relações de produção articu-
seria preconstituida em relação as instituições; ela estabelece que a vida ladas na escala social (não a relação de Robinson Crusoe com Sexta-
social tem "alguma coisa a exprimir" que já é plenamente real antes rnes- feira) significam ipso facto uma rede, ao r:nesmo tempo real e simbólica
que sanciona ela própria - por conseguinte, urna instituição "· As clas-
ses já estão nas relações de produção, quer sejam ou não reconhecidas
corno tais por esta instituição "em segundo grau" que é o direito - Foi o
14. Elas não traduzem , como Marx pensava, "contradições internas insuperáveis" (cf. que tentamos mostrar anteriormente a propósito da bur~cracia e da p~o­
no número 31 de S. ou 8. ·· Le mouvement revofutionnaire sóus de capitalismo moderne'º, p. 10 priedade "nacionalizada" na U.R.S.S. 11 • A relaçao burocrac1a-
a 81. para a critica desta concepção), mas o fato de que, durante muito tempo. a classe capi- proletariado, na U.R.S.S., é instituída enquanto_ relação de classe, pr9du-
talista estava ultrapassada pela lógica de suas próprias instituições econômicas. Ver a nota tivo-econômico-sºo cial, mesmo se não é instituída como tal e expressa-
anterior.
15. Um exemplo evidente é o dás penas fixadas pelas leis penais. Se podemós. até certo mente do ponto de vista jurídico (como aliás nunca o foi, em nenhum
ponto, interpretar a esca la de gravidade dos delitos e dos crimes estabelecida por cada socie- .
dade, é evidente que a escala das penas correspo ndentes comporta, quer seja precisa ou im-
precisa, um elemento de arbítrio não racionalizável - pelo menos desde que abandonamos a
lei de tali ão. Q uc a lei preveja tal pena para tal roubô qualificado ou o proxenetismo, não é
nem lógico nem abs urdo; é arbitrário. Ver também mais adian te a discussão sobre a Lei mo- 17. Do mesmo modo, temos às vezes a impressão de que alguns psicossociólogos con-
s:iica. temporâneos esquecem que o problema da burocracia ultrapassa em muito a simples dife-·
16. Só podem os pensar, por exemplo, na oposição entre a extrema riqu eza do sil"(lbo li s- renciação de pápeis no grupo elementar. mesmo se a burocracia ai encontra um correspon-
mo referente à "vida corrente" na maior parte das culturas asiáticas tradicionais e sua rela· dente indispen sá vel.
ti va frugalidade nas culturas européias: ou a inda a variabilidade da fronteira que separa o 18. "Les rapports de production en Russie", in La Société bureaucratique 1. 1. e.. p. 205-
direito e os costumes, nas diversas sociedades histó ricas. 282.
150 151
pais. a relação burguesia-proletariado corno tal). Por conseguinte, o uma utilização imediata do simbólico, onde o sujeito pode se deixar do-
problema do simbolismo instituciona l e de sua relativa autonomia com re· minar por este. mas existe também uma utilização lúcida ou reíletida .
lação às funções de instituição surge já no nível das relações de produção, Mesmo se esta última nunca pode ser garantida a priori (não se pode
ainda mais da economia no sentido estrito, ejá nesse nlvel uma visão sim- construir uma linguagem, nem mesmo um algoritmo, no interior do qual
plesmente funcionalista é insustentável. É preciso não confundir esta o erro seja "mecanicamente" impossível), ela se realiza, mostrando assim
análise com a critica de éertos neokantianos, cómo R. Stammler, contra a via e a possibilidade de uma outra relação onde o simbólico não é mais
o marxismo, baseada na idéia da prioridade da "forma" da vida social autonomizado e pode adequar-se ao conteúdó. Uma coisa é dizer que
(que seria o direito) em relação a sua "matéria" (a economia). Esta crítica não podemos escolher uma li11guagem em uma liberdade absoluta, e que
participa da mesma ambiguidade que a visão marxista que deseja comba- cada linguagem se apodera do que "deve ser dito". Outra coisa é acredi-
ter. A própria economia só pode existir como instituição e isso não impli- tar que somos fatalmente dominados pela linguagem e que só pod<;mos
ca necessariamente uma "forma jurídica" independente. Quanto à rela- dizer o que ela nos leva a dizer. Não podemos jamais sair da linguagem,
ção entre a instituição e a vida social que ai se desenvolve, não pode ser mas nossa mobilidade na linguagem não tem limites e nos permite tudo
vista como uma relação de forma a matéria no sentido kantiano, e de questionar, inclusive a própria .linguagem e nossa relação com ela•. o
qualquer maneira. não como implicando uma "anterioridade" de uma mesmo ocorre em relação ao simbolismo institucional - exceto evidente-
qua.nto a outra. Trata-se de momentos em uma ·estrutura - que não é nun- mente que o grau de complexidade é neste caso incomparavelmente mais
ca rígida. e jamais idêntica de uma sociedade a outra 19 • • . elevado. Nada do que pertence propriamente ao simbólico impõe fatal-
Também não podemos dizer, evidentemente, que o simbolismo insti- mente o domínio de um simbolismo autonomizado das instituições sobre
tucional "determina" o conteúdo da vida social. Existe aqui uma relação a vida social; nada, no próprio simbolismo institucional, exclui seu uso
específica, sui generis, que desconhecemos e deformamos ao querer cap- lúcido pela sociedade - sendo também neste caso evidente que não é
tá-la como pura causação ou puro encadeamento de sentido, com.o liber- possível conceber instituições que impeçam "por construção", "mecani-
dade absoluta ou de~erminação completa, como racionalidade transpa- camente" a sujeição da sociedade a seu simbolismo. Há movimento his-
rente ou sequência de fatos brutos. tórico real, em nosso ciclo cultural greco-ocidental, de conqllísta progres-
A sociedade constitui seu simbolismo, mas não dentro de uma liber- siva do simbolismo, tanto nas relações com a lingµ agem como nas rela-
dade total. O simbolismo se crava no natural e se crava no histórico (ao ções com as instituições 2 º. Mesmo os governos capitalistas aprenderam
que já estava lá); participa, enfim, do racional. Tudo isto faz com que finalmente a utilizar-se mais ou menos cdrretamente, sob determinados
surjam encadeamentos de significantes, relações entre significan tes e sig- pontos de vista, da "linguagem" e do simbolismo econômicos, a dizer o
nificados, cone~ões e conseqüências, que não eram nem visadas nem pre- que querem dizer por meio de crédito, do sistema fiscal etc. (o conteúdo
vistas. Nem livremente escolhido, nem imposto à sociedade considerada, do que dizem é evidentemente outra coisa). Isso por· certo não implica
nem simples instrumento neutro e medium transparente, nem opacidade que qualquer conteúdo seja exprimível em qualquer linguagem; o pensa-
impenetrável e adversidade irredutívei, nem senhor da sociedade, nem es- mento musical de. Tristão não podia ser dito na linguagem do Cravo bem
cravo flexível da funcionalidade, nem meio de participação direta e com- temperado, a demonstração de um teorema matemático, mesmo simples,
pleta em uma ordem racional, o simbolismo determina aspectos da vida não é possível na linguagem do quotidiano. Uma nova sociedade criará
da sociedade (e não somente os que era suposto determinar) estando ao certamente um novo simbolismo institucional e o simbolismo institucio-
mesmo tempo, cheio de interstfcid~ e de graus de liberdade. "nal de uma sociedade autônoma terá pouca relação com o que conhece-
Mas essas características do simboÍismo, se indicam o problema que mos até aqui.
constitui, de cada vez, para a sociedade, a natureza simbólica de suas ins- O domínio do simbolismo das instituições não colocaria, portanto,
tituições, não fazem disso um problema insolúvel, e não são suficientes problemas essencialmente diferentes dos do domínio da linguagem (abs-
para explicar a autonomização das- instituições .relat~vamente à socieda- traindo no momento sua "carga" material - classes, armas, objetos etc.), .
de. Por mais que encontremos na história uma autonomização do simbo- se não existisse outra coisa. Um simbolismo é dominável, salvo na medi-
lismo, esta não é um fato último, ·e não se explica por si própria. Existe da em que remete, em última instância, a algo que não é simbólico. O
·que ultrapassa o si!llples "progresso na racionalidade"; o que permite ao

19. V. Rudolf Stammmler, Wirtschaft und Recht nach der materia/lstlshen Geschichysauf- • Ver a segunda parte deste livro, particularmente os capitulos V e VII; também "Le di-
fassung. 5' éd., Berlin (de Gruyter), 1924, particularmente p. 108 a 151 e 177 a 211 . Vertam- cible et l'indicible", /'Are. n' 46 (4' trimestre 1971), p. 67 a 79.
bém a severa critica de Max Weber. nos Gesammelte Aufsãtze zur Wissenschaftslehere. · 20. Cf. O que dissemos mais acima sobre direito romano.
152 153
simbolismo institucional não o desviar passageiramente, para logo serre- A influência decisiva do imaginário sobre o simbólico pode ser com-
tomado (como pode também fazer o d iscurso lúcido), mas sim a utonomi- preendida a partir da seguinte consideração: o simbolismo supõe a capa-
zar-se; 0 que, finaln:iente,_ lhe f_?rnece seu suplen:iento .essencial de deter- cidade de estabelecer um vínculo permanente entre dois termos, de ma-
minação e de espec1ficaçao, nao faz parte do simbólico. neira que um "representa" o o utro. Mas é somente nas etapas muito de-
senvolvidas do pensamento racional lúcido que estes três elementos (o
O simbólico e o imaginário significante, o significado e seu vínculo sui generis) são mantidos como si-
multaneamente unidos, e distintos, numa relação ao mesmo tempo firme
As determinações do simbólico que acabamos de d'escrever não e flexível. Em outra etapas, a relação simbólica (cujo uso "correto" supõe
esgotam sua substância. ~ubsiste um con:1pon~nte.essencial e para os nos- a função imaginária e seu domínio pela função racional) retorna, ou me-
sos propósitos, decisivo: e o componente 1mag10áno de todo símbolo e de lhor, permanece desde o início lá onde surgiu: no vinculo rígido (a maior
todo simbolismo, em qualquer nível que se situem. Relembremos o senti- parte do tempo, sob a forma de identificação, de participação ou de cau-
do corrente do termo imaginário, o qual, por agora, nos bastará: falamos sação) entre o significante e o significado, o símbolo e a coisa, ou seja, no
de imaginário quando queremos falar de alguma coisa "inventada" - imaginário efetivo.
quer se trate de uma invenção "absoluta" ("uma história imaginada em Se d issemos_que o simbólico pressupõe o imaginário radical e nele se
todas as suas partes"), o u de um deslizamento, de um deslocamento de apóia, isso não significa que o simbólico seja, globalmente, apenas o ima-
sentido onde símbolos já disponíveis são investidos de outras significa-· ginário efetivo em seu conteúdo. O simb ólico comporta, quase sempre,
ções qu'e não suas significações "normais" ou "can~:m.icas" ("o q~e você um componente "racional-real": ó que representa o real ou o que é in-
está imaginando", diz a mulher ao homem q ue recnmina um sornso tro- ~ispe~sáve l para o pensar ou para o agir. Mas este componente é tecido
cado por ela com um terceiro). Nos dois casos, é evidente que o imaginá- mextncavelmente com o componente imaginário efetivo - e isso coloca,
rio se separa do real, que pretende colocar-se em seu lugar (uma mentira) tanto para a teoria da história como para a política, um problema essen-
ou que não pretende fazê-lo (um romance). cial.
As profundas e obscuras relações entre o simbólico e o imaginário Está escrito no Números(/ 5. 32-36), que os judeus tendo descoberto
aparecem imediatan:i~nte se~refletimos sobre.? seg~in.te fa,~o: o im~giná~i o um homem que trabalhava no Sabá, 0 que era proibido pela Lei, con-
deve utilizar o simbohco, nao somente para exprimir-se , o que e obvio, d uziram-no pera!lte Moisés. A Lei não fixava nen huma pena p ara a
mas para "existir", para passar do virtual a gualquer coisa a mais. O delí- transgressão, mas o Senhor manifestou-se a Moisés. exigindo que o ho·
rio mais elaborado bem como a fantasia mais ~ecreta e mais vaga são fei- mem fosse lapidado - e ele o foi .
tos de ''imagens" mas estas "imagens:• lá.estã_o.como rep resentan~o outra É difícil não ficar chocado neste caso - como, aliás, freqüen temente
coisa; possuem, portanto, um_a funçao ~1mbol.1ca. ~as.tamb~m. invers~­ quando percorremos a Lei mosaica - pelo caráter desmesurado da pena,
mente o simbolismo pressupoe a capacidade 1mag10ána. P ois pressupoe pela ausência de vinculo necessário entre o fato (a transgressão) e a con-
a cap;cidade de ver em uma coisa o que ela não é, de vê-l:;t diferente do seqüência (o conteúdo da pena). O apredrejamento não é o único meio de
que é. Entretanto, na medida em que o imaginário se redu z fina lmente à levar as pessoas a respeitarem o Sabá, a instituição (a pena) ultrapassa
faculdade originária de pôr ou de dar-se, sob a forma de representação, claramente o que exigiria o encadeamen to racional das causas e dos efei-
uma coisa e uma relação que não são (que não são dadas na percepção ou tos, dos meios e dos fins. Se a razão é, como dizia Hegel, a operação con-
nunca o foram), falaremos de um imaginário ú ltimo ou radical, como forme a uma finalidade, mos~rou-se o senhor razoável, neste exemplo?
raiz comum do imaginário efetivo e do simbólico 21 • t fina lmente a ca- Lembremos que o próprio Senhor é imaginário. Por trás da Le i, que é
pacidade elementar e irredutível de evocar uma imMem 22 • "real", uma instituição social efetiva, mantém-se o Senhor imaginário
que apresenta-se como sua fonte e sanção fina l. A existência imaginária
do Senhor é racional? Dir-se-á que numa etapa da evolução das socieda-
des humanas, a instituição de um _imaginário investido de mais realidade
21. Poderíamos 1entar diferenciar na terminologia o que denominamos o imaginário ~Ili·
mo ou radical, a rapacidade de fazer aparecer como imagem alguma coisa que não é. e não
0
foi de seus produtos que poderíamos designar com o o imag inado. Mas a forma gramatical
de~se lermo pode prestar-se a confusão' e nós preferimos _falar de imaginário e(etivo.
22. "O homem~ csla noite, este nada vazio que con tém ludo em sua simplicidade: uma bruscamente. t:. esta noite que percebemos quando olhamos um homem nos olhos: uma noi·
riqueza com um númer~ infinito dc.repre~entaçõcs, de imagens, ncn~uma_das ~u~is surge te que se torna terrfref: é a noité do mundo que en1ào nos encara. O poder de tirar desta noite
precisamente a seu espirita ou que nao cstao sempre presente~. t:. a no!te, a intenonda~e da as imagens. ou de aí abandoná-la.r. fé issol o.fato de colocar-se a si próprio. a con.tciénria inte·
na1ureza que aqui existe: o Si puro. Em r~presentações fantásticas é noite cm volta: aqui s~r· rior. a ação. a risào". Hegel. Je11e11.<er Realpbifo.rophie ( 1805-1806). (Apresentamos esse frag·
ge então uma cabeça ensanguentada, la um outro rosto branco: e desaparecem lambem mento na tradução de K . Papaioann?u. Hegel. Parios. 1962. p. 180).
154 155
do que o real - Deus é mais genericamente um imaginário religioso - é taxa de mais-valia 21 , a curva da freq_üência dos coitos nas sociedades
"conforme as finalidades" da sociedade, decorre de condições reais e cristãs que apresenta máximas periódicas cada sete dias e o tédio mortal
preenche uma função essencial. Tentaremos mostrar, numa perspectiva dos domingos ingleses.
marxista ou freudiana (que no caso presente não somente não se ex- Seja, em outro exemplo, o caso das cerimônias de "passagem". de
cluem. mas se completam) que esta sociedade produz necessariamente es- "confirmação", de "iniciação" que marcam a entrada de uma classe de
te imaginário, esta "ilusão", como dizia Freuêl falando da religião, da idade de adolescentes na classe adulta; cerimônias que representam um
qual ela necessita para seu funcio namento. Estas interpretações são ver- papel tão importante na vida social de todas as sociedades arcaicas e cu-
dadeiras e preciosas. Mas encontram seu limite nas perguntas: Por que é jos restos não insignificantes subsistem nas sociedades modernas. No
no imaginário que uma sociedade deve procurar o complemento necessá- contexto a cada vez dado, essas cerimônias fazem aparecer um importan-
rio para sua ordem? Porque encontramos, no núcleo deste imaginário e te componente funcional-econômico, e são urdidas de mil maneiras com
através de todas as suas expressões, algo de irredutível ao funcional, que a "lógica" da vida da sociedade considerada ("lógica amplamente não
é como um investimento inicial do mundo e de si mesmo pela sociedade consciente", é claro). É necessário que a ascensão de uma série de indiví-
com um sentido que não é "ditado" pelos fatores reais porquanto é antes duos à plenitude de seus direitos seja marcada pública e soleriemerite (na
ele que confere a esses fatores reais tal importância e tal lugar no universo falta de estado civil, diria um funcionalista prosaico), que uma "certifica-
que constituí para si mesma a sociedade - sentido que reconhecemos ao ção" tenha lugar, que para o psiquismo do adolescente esta etapa crucial
mesmo tempo no conteúdo e no estilo de sua vida (e que não está tão de sua maturação seja assinalada por uma festa e uma prova. M!J.S em
afastado do que Hegel chamava de "esplrito de um povo")? Porque, de torno desse núcleo - seríamos quase tentados a dizer, como em relação
todas as tribos pastorais que erraram no segundo milênio antes de nossa às ostras de pérolas; em torno desta impureza - cristaliza uma sedimenta-
era no deserto entre Tebas e a Babilô nia. somente uma escolheu expedir ção incontável de regras, de atos, de ritos, de sim bolos, em suma, de com-
ao Céu' um Pai inominável, severo e vingativo, fazendo dele o único cria- ponentes repletos de elementos mágicos, e, mais geralmente, imaginários,
dor e o fundamento da Lei e introduzindo assim o monoteísmo na histó- cuja justificação relativamente ao núcleo funcional é cada vez mais me-
ria? E porque, de todos os povos que fundaram cidades na bacia mediter- diata, e finalmente nula. Os adolescentes devem jejuar tal número de
·rãnea, somente um decidiu que existe uma lei impessoal que se impõe até dias, e só comer tal tipo de comida, preparada por tal categoria de mulhe-
aos Deuses, estabeleceu-a como consubstancial ao discurso coerente e res, passar por tal prova, dormir em tal cabana ou não dormir tal número
quis fundamentar sobre esse Logos as relações entre os homens, inven- de noites, usar tais ornamentos e tais emblemas etc.
tando, assim, e em mesmo gesto, filosofia e democracia? Como explicar O etnólogo, auxiliado .por considerações marxistas, freudianas ou
que três mil ançs depois, soframos ainda as conseqüências do que sonha- outras, tentará a cada vez oferecer uma interpretação da cerimônia em
ram os Judeus e os Gregos? Por que e como este imaginário, uma vez esta- todos os seus elementos. E faz bem - se o faz bem. E é logo evidente que
belecido, õcasic>"na conseqüências próprias, que vão além de seus "moti- não podemos interpretar a cerimônia por uma redução direta ao seu as-
vos" funcionais e mesmo às vezes os contrariam, que sobrevivem durante pecto funcional (assim como não interpretamos uma neurose dizendo
muito tempo após as circunstânci"as que os fizeram nascer - que final- que ela se relaciona com a vida sexual do sujeito); a função é sempre mais
mente mostram no imaginário um fator autonomizado da vida social? ou menos a mesma, portanto, incapaz de explicar a inverossímil abun-
Seja o caso da religião mósaica instituída. Como toda religião, ela dância de detalhes e de complicações quase sempre diferentes. A interpre-
está centrada num imaginário. Enquanto religião, deve instaurar ritos; tação comportará uma série de reduções indiretas a outros componentes,
enquanto instüuição, deve cercar-se de sanções. Mas ela não pode existir onde encontraremos novamente um elemento funcional e outra coisa
nem como religião, nem como instituição, se, em volta do imaginário cen- (por exemplo a composição da refeição dos adolescentes ou a categoria
tral, não começa a proliferação de um imf!ginário secundário. Deus criou das mulheres que a prepararão serão ligados à estrutura dos clãs ou ao
o mundo em sete dias (seis mais um). Por que sete? Podemos interpretar o partem alimentar da tribo, que por sua vez serão reportados a elementos
número sete à maneira freudiana; poderíamos eventualmente também "reais", mas também a fenômenos totêmicos, a tabus atingindo tais ali-
aludir a fatos ou a costumes produtivos quaisquer. O fato é que uma de- mentos etc.). Essas reduções sucessivas encontram cedo ou tarde seu li-
. terminação terrestre (talvez "real", mas talvez já imaginária) exportada mite, e isso sob duas formas: os elementos últimos são símbolos, de cuja
para o Céu:~ reimportada sob a forma de sagração da semana. O séti-
mo dia torna•se agora dia da adoração de Deus e de repouso obrigatório.
Daí começam a decorrer inúmeras conseqüências. A primeira foi o ape- 23. Evidentemente teria sido muito mais adequado à "lógica" do capitalismo adotar um
drejamento daquele pobre diabo, que apanhava gravetos no deserto no calendário de "décadas" com 36 ou 37 dias de descanso por ano do que manter as semanas
dia do Senhor. Entre as mais recentes, mencionemos ao acaso o nível da e os 52 domingos.
156 157
constituição o imaginário não é nem separável nem isolável; as sínteses nos e o que provoca arrepios ao lo ngo da coluna vertebral dos patriotas
sucessivas desses elementos. as " totalidades parciais", d as quais são fei- que assistem ao deslile militar. ·
tas a vida e a estrutura de uma sociedade, as "figuras" onde ela se deixa t:-- visã~ ~oderna da instituição que red uz sua significação ;io funcio-
ver para ela própria (os clãs. as cerimônias. o s m omentos da religião, as na l, e só parcialmente correta. Na medida ·c m que se apresen ta como a
formas das relações de autoridade etc.) possuem elas próprias um senti- vcrda9c sobre o J?robl_cma da instituição, é só projeção. Ela projéta sobre
do indivisível como se procedesse de uma operação originária que o esta- ·o conjunto d~ história. uma idéi~ tomada de. ~m prés t i m o não propria-
beleceu desde o início - e esse sentido, doravante ativo como tal, se situa mente da realtd ad e efetiva das instituiÇões do mundo capitalista ociden-
num nlvel diferente do de qualquer determinação funcional. tal (que sempre fora m e são, apesar do enorme movimento da "racionali-
Esta dupla ação pode ser vista mais facilmente nas culturas mais "in- zação", s~ p ~rci_a l.?'cnte funcionai s), mas a q uilo que esse mun do gostaria
tegradas" , qualquer que seja o modo ~esta integração. Ela pode ser vista que s u~s 1~st1.t~1çoes _foss~i;i- Visõe~ ainda mais recentes, que só querem
no totemismo onde um símbolo "elementar" é ao mesmo tempo princí- ver na ins~1 tu1çao o s1mboltco (e o identificam com o racional) represen-
pio de organização do mundq e fundamento da existência da tribo. Ela ~a m lambem uma verdade somente parcia l e sua generalização contém
pode ser vista na cultura grega, onde a religião (inseparável da cidade e igualmente uma projeção.
das organização social-política) encobre com seus símbolos cada elemen- '.1-s visões ant}~as sobre a origem "divina" das instituições eram, cm
to da natureza e das a_tividades humanas e confere ao mesmo tempo um seus !nv~l~cros m1~1cos, bem mais verdadeiras. Quando Sófocles iJ fal ava
sentido global ao universo e ao lugar dos homens neste 2' . Ela ap arece de leis divinas, mais fortes e mais duráveis do que as feitas pela mão do
até mesmo na sociedade capitalista ocidental, onde, como veremos, o homem (e, c~mo por acaso, trata-se no caso preciso da proibição do in-
"desencanto do mundo" e a destruição das formas anteriores do imagi- cesto qu~.td~po .vi_olou) ele indicava uma fonte da instituição para além
nário paradoxalmente ocorreram junto com· a ·constituição de um novo da consc1enc1a luc1da dos homens como legisladores. É esta mesma ver-
·imaginário, centrado no "pseudo-racional" e englobanºd o ao mesmo tem- d ade qu~ sustenta o i:nit? .da ~ei d a_da a Moisés por Deus - por um pater
po os "elementos últimos" do mundo e sua organização total. abs.con<11tus, por um inv1s1vel tndes1gnável. Além da atividade consciente
O que dizemos concerne o que podemos denominar d e imaginário d~ inst~tucional!zaçã~>, .ª~ instituições encontraram sua fonte n o imaginá-
central de cada cultura, quer se situe no nível dos símbolos e lementares rio ~o cral. Este 1mag10ano deve-se entrecruzar com o simbólico do con-
ou de um sentido global. Evidentemente existe além disso o que pode- trá rio a sociedade não teria podido "reunir-se" e com o ec~nômico­
mos chamar de imaginário ºperiférico, não menos importante em seus funcional , do con_trário ela não teria podido sob~eviver. Ele pode colo-
efeitos reais, mas do qual não trataremos aqui. Ele corresponde a uma se- car-se, e necessariamente coloca-se também a seu serviço: existe certa-
gunda ou enésima elaboração imaginária dos símbolos, a sucessivas ca- mente, uma função do imaginário da instituição, embora ainda aqui
madas de sedimentação. Um ícone é um objeto simbólico de um imaginá- cons.t~tem,?s q~.e o :feito do imaginário ultrapasse sua função; não é "fa-
rio - mas é investido de uma outra significação imaginária quando os t?r u~1i:no (altas nao o procuramos) - mas sem ele, a determinação do
fiéis raspam a pintura e a tomam.como medicamento. Uma bandeira é stm~oltco :orno a d o runcional, a especificidade e a unidade do primeiro,
um símbolo com função racional, sin~I de reconhecimento e de teunião, a onen~açao e a fin~lid ade do segundo perma necem incompletas e final-
que se torna rapidamente aquilo pelo qual podemos e devemos m a tar- mente tncompreens1veis.

A alienação e o imaginário

24. Evoquemos para facilitar o exemplo certamente m ais banal: a deusa "da terra" , a ~in sti tuição é uma rede simbólica, socialmente sancionada, onde se
dcusa-ter;a. Demcter. A etimologia ma is provável (outras foram também propostas; cí. c?mbmam em proporções e em relações variáveis um componente fun-
Liddell-Scott. Greek- English lexicon. Oxford 1940) é Gé-Meter, Gaia-Meter, terra-mãe. c1on~l ~ u~ componente imaginário. A alienação é a autonomização e a
Gaia é ao mesmo tempo o nome da terra e da primeira deusa , que, com Urano, está na ori- dom!na n_c1a do moi:n1.nt~ ima~iná_ri~ na instituição que propicia a auto-
gem da linhagem dos deuses. A terra é desde o inicio vis ta como deusa origin ária, nada indi- nom1zaçao e a dom10anc1a da mst1tu1çã o re lativamente à sociedade. Esta
ca que ela jamais tenha sido vista como "objeto". Esse termo que denota a terra, conota ao
mesmo tempo as "propriedades", ou antes as formas de se r essenciais da terra: fecunda e
nutriente. E o que também conota o significante mãe. A ligaç.ã o, ou melhor a identificação
dos dois significados: Terra-Mãe, é evidente. Esse primeiro momento imaginário é indisso-
ciável do outro: que a Tcrr~·M ãc é uma divindade, e antropomoría - necessariamente. pos- _25. " ... As leis mais elevadas, nascidas no éter celeste, das quais só Olimpo é o pai, que
to que é Mãe! O componente imaginário _do símbolo particular é da mesma substância, se na~ foram cnge~dradas pela na~urcza mortal ~os homens, e que nenhum esquecimento ja-
assim p odemos dizer, que o im agin ário global desta cultura - o que nós chamamos de di- ;;~•.s adormecera: porque nelas 1az um grande deus, que nunca envelhece". Edipo Rei. 86~-
vinização antropomórfica das forças da natureza.
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J
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- i
autonomização da instituição exprime-se e encarna-se na materialidade Não podemos aceitar esta concepção por razões já expostas em outro
da vida social, mas supõe sempre também que a sociedade vive suas rela- trabalho 21: resumindo, porque não podem os definir um nível de desen-
ções com suas instituições à maneira do imaginário, ou seja, não reconhe- V_?lvímento· técnico. ou de abundância econ.ômica a partir da qual a divi-
ce no imaginário das instituições seu próprio produto. sao em classes ou a alienação perdem suas "razões de ser"; porque uma
Isso Marx o sabia. Marx sabia que "o Apolo de Delfos era na vida abundância tecnicamente acessível já está hoje em dia entravada; porque
dos gregos uma força 'tão real quanto· qualquer outra". Quando ele falava as "necessidades" a partir das quais somente um estado de penúria pode
do fetichismo da mercadoria e mostrava sua importância para o funcio- ser definida nadá têm de fixo mas exprimem um estado social-
namento efetivo da economia capitalista, ele ultrapassava evidentemente hist~ric~ •. ~as sobretudo, porque desconhece completamente o papel
a visão simplesmente econômica e reconhecia o papel do imaginário 16• do 1mag10áno, a saber que ele está na .raiz tanto da alienação como da
Quando enfatizava que a lembrança das gerações passadas pesa forte- criação na história.
mente na consciência dos vivos, ele indicava ainda essa forma particular Porque a cri.ação pre~supõe, tanto qu~nto a a alienação, a capacida-
do imaginário que é o passado vivido como presente, os fantasmas mais d~ de dar-se aquilo que nao é (o q_ue nã? e dado na percepção ou o que
poderosos do que os homens de carne e osso, o morto que se apodera do nao ~ dado nos encadeamentos . simbólicos do pensamento racional já
vivo, como gostava de dizer. E quando Lukacs diz, em outro contexto, constituído). E não podemos distinguir o imaginário que está atuante na
voltaRdo a Engels, que a consciência mistificada dos capitalistas é a con- criação, do imaginário "pura e simples", dizendo que o primeiro "anteci-
dição do funcionamento adequado da cci:momia capitalista, .cm ou.tras
palavras~ que as leis só podem realizar-se "utilizando" ás ilusões dos in-
divíduos, ele mostra ainda num imaginário especifico uma das condições
da funcionalidade. ções materiais da vida qu.e, por sua vez, são o produto natural de uma longa e penosa evolu-
Mas esse papel do imaginário era visto por Marx como um papel li- ção". Le Capital, ibld., p. 67; PI. l, p. 614. E também no trabalho inédito póstumo "lntro-
mitado, precisamente como papel funcional, como elo "não-econômico" duction à une critique de l'économic politiquc" (redigido ao mesmo tempo que a Contribu-
na cadeia "econômica". Isto porque ele pensava poder Hgá-Io ·a uma defi- tlo_n à la critique de /'économie polltlque, terminada cm 1859): "Toda mitologia subjuga, do-
mina e molda as _forças da r;aturcza na imaginação e pela imaginação e desaparece portanto
ciência provisória (um provisório que ia da pré-história ao comunismo) quando consc~u1mos dominá-las realmente". (Contribution à la critique, etc. trad. Laura
da história como economia à não-maturidade. Ele. estava pronto a reco- Lafarguc, Paris 1928, p. 351). Se assim fosse, a mitologia não desapareceria nunca nem
nhecer o poder das criações imaginárias do homem - sobrenaturais ou mesmo no dia cm que a humanidade pudesse representar o papel de mestre de balé de al-
sociais - mas esse poder era para ele somente o reflexo de sua importân- guns milhares de gal~x,ias vislvcis num raio de treze milhões de anos-luz. (Subsistiriam ainda
a irreversibilidade do tempo e algumas outras futilidades para "subjugar e dominar"). Tam-
cia real. Seria esquemático e simples dizer que para Marx a alienação se- bém não comprccnderfamos como a mitologia concernente à natureza desapareceu há mui-
ria somente um outro nome da penúria, mas é finalmente verdade que em to tempo do mundo oci.dcotal; se Júpiter foi ridicularizado pelo pára-raio e Hermes pelo
sua concepção da história, tal como é formulada nas obras de maturida- ~r~dit.o imobiliário, ~orquc' não inventamos um deus-câncer, um deus-athéroma, ou um
de, a penúria é a condição ne~ssári!l e suficiente da alienação 11• deus omcga-minus? O que Marx dizia na 4• These sur Feuerbach era mais rico: "O fato de
que o fundamento profano (do· mundo religioso), se separe por si mesmo e se lixe cm impé-
rio independente nas nuvens, só pode explicar-se pelo fato de que esse fundamento profano
não tem coesão e cs!á cm c?ntradição consigo mesmo.~ necessário, conscqilentemcnte, que
26. " ... A relação social determinada existente entre os próprios homens ... adquire aqui a esse fundamento seJa cm s1 mesmo compreendido em sua contradição assim como revolu-
seus olhos a forma fantasmagórica duma relação entre objetos. Precisamos recorrer às re- cionado na prática. Por exemplo, depois que a familia terrestre foi descoberta como o mis-
giões nebulosas do mundo religioso para encontrar alguma coisa anâloga. Lá os pródutos tério da Santa Familia, é preciso que a primeira seja ela própria aniquilada na teori a e na
do cérebro humano parecem animados de uma vida própria e parecem constituir entidades prática". O imaginário seria pois a solução fantasiosa das contradições reais. Isso é verda-
independentes, em relação entre elas e com os homens. O mesmo se dá no mundo das mer- deiro para um certo tipo de imaginário, porém somen te um tipo derivado. Não é bastante
cadorias, dos produtos do trabalho humano. ~ isso que cu chamo o fetichismo que se liga pa~a compreender o im~ginári~ central de uma sociedade, por razões explicadas mais
aos produtos do trabalho desde que figurem como mercadorias ..." E mais além: "O valor ... adiante no texto, que se hgam a isto: mesmo a constituição dessas contradições reais é insc-
transforma cada produto do trabalho em um hieróglifo social". Le Capital éd. Costes, 1, p. ·parável deste imaginário central.
51e59; Ed. de la Plêiade, 1, p. 604 s. (Voltaremos mais adiante sobre as implicações do "fe- 28. Ver "Le niouvcment révolutionnairc sous le capitalismc modernc" no n' 33 de s ou
tichismo da mercadoria"). B., p. 75 e seguintes. ·
'27. ~ este certamente o ponto de vista das obtas de maturidade: "O reflexo religioso do • ~evidente que as necessidades, no sentido social-histórico (que não é o das necessida-
mundo real só pode desaparecer no dia em que as condições da vida cotidiana prática do des biológicas) são um produto do imaginário radical.
homem trabalhado}' \\prescn~cm relações claramente racionais dos homens entre si e com a • <? "i.maginário'', que co.mpcnsa a não-satisfação dessas necessidades s6 é portanto um
natureza. O ciclo da vida social, ou seja, do processo material da produção s6 se dcspója de 1magmár10 secundário e dcnvado. Ele o é também para certas tendcncias psicanaliticas con-
· seu véu nústico e nebuloso no dia cm que seu conjunto aparecer como o produto 'de homens tcmp~r~nea.s, para as quai~ o imagi~ári~ "s~tura".uma fend.a_ou uma clivagem origiriárias
livremente associados e exercendo um controle consciente e metódico. Mas para isso é nc:- do SUJcito. Mas esta só existe pelo 1magmáno radical do SUJC1to. Voltaremos a isto longa-
~ssário que a sociedade possua uma base material ou que cx)sta -ioda uma série de condi- mente na scgun.da parte deste livro.
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pa" uma realidade ainda não dada, mas "se verifica" em s~guida. Pois Em se tratando de história de um indivíduo, que sentido existe em
precisaríamos pri~e_ir? explicar e~ que ~s.ta "anteci~ação." pod~ria ocor- dizer que suas formações imaginárias só adquirem importância, só repre-
rer sem um imagmano e o que 1mpedma este de Jamais equivocar-se. sentam um papel porque fatores "reais" - a repressão das pulsões .. um
Além disso, o essencial da criação não é "descoberta", mas constituição traumatismo - já haviam criado um conflito? O imaginário age sobre
do novo· a arte não descobre, mas constitui; e a relação do que ela consti- um terreno onde existe repressão das pulsões e a partir de um ou vários
tui com 'o "real", relação seguramente muito complexa, não é uma rela- traumas; mas esta repressão das pulsões está sempre presente, e o que
ção de verificação. E ~o P.la~o~social, que é aqui no~so inten~sse central_. a constitui um trauma? Afora casos extremos, um acontecimento só é traü-
emergência de novas mst1tutçoes e de novas maneiras de viver, tambem mático porque é "vivido como tal" pelo individuo, e esta frase quer dizer
não é uma "descoberta", é uma constituição ativa. Os atenienses não no caso presente: porque o indivíduo lhe imputa uma significação dada,
descobriram a democracia entre outras flores selvagens que cresciam .no que não é a sua significação "canônica", ou de qualquer maneira, não se
Pnyx nem os operários parisienses desenterraram a Comuna debaixo do impõe fatalmente como tal Jo.
calça~ento das ruas. Eles também não "descobriram" essas instituições Do mesmo modo, no ·caso de uma sociedad~,a idéia de que suas for-
no céu das idéias, depois de inspecionar todas as formas de governo que mações imaginárias "se fixam como império independente nas nuvens"
ai se enêontram desde sempre expostas e bem arrumadas em suas vitri- porque ·a sociedade considerada não consegue resolver seus problem as
nas. Eles inventaram algo, que certamente se mostrou viável nas circuns-. "na realidade" é verdade no segundo nível, mas não no nível originário.
tâncfas dadas, mas que também, desde que existiu, modificou-as essen~ Porque isso só tem sentido se podemos dizer qual é o problema da socie-
cialmente - e que, aliás, vinte e cinco séculos ou cem anos depois, conti- dade, que ela teria sido temporariamente incapaz de resolver. Ora, ares-
nua a estar "presente" na história. Esta "verificação" nada tem a ver corn posta a esta pergunta é impossível, não porque nossas pesquisas não este-
a verificação, pela circunavegação de Magalhães, da idéia de que a terra é jam suficientemente adiantadas ou porque nosso saber seja relativo; ela é
redonda - idéia que ela também se dá no início de alguma coisa que não impossível porque a pergunta não tem sentido. Não existe o problema da
está na percepção, mas que se refere a um real já constituído. 29 sociedade. Não existe "alguma coisa" que os homens queiram profunda-
Quando afirmamos, no caso da instituição que o imaginário só re- mente e que até agora não puderam ter porque a técnica não era suficien-
presenta um papel porque há problemas "reais" que os homens não con- te ou mesmo porque a sociedade permanecia dividida em classes. Os ho-
seguem resolver, esquecemos pois, por um lado'. que os h~mens só che- mens foram, individual e coletivamente, esse querer, essa necessidade,
gam precisamente a resolver esses problemas reais, na medida em que se esse fazer, que de cada vez se deu um outro objeto e através disso uma
apresentam, porque são capazes do imaginário; e por outro lado, que es- outra "definição" de si mesmo.
ses problemas só podem ser problemas, só se constituem como estes Dizer que o imaginário só aparece - ou só representa um papel -
problemas que tal época ou tal sociedade se propõem resolver, em função porque o homem é incapaz de resolver seu problema real, supõe que sai-·
de uma imaginária central_ da época ou da sociedade considerada. Isso bamos e que possamos dizer qual é esse problema real, em toda a parte e
não significa q1,1e esses problemas sejam totalmente inventados, surjam ·a sempre, e que ele foi, é e será sempre o mesmo (visto que se esse problema
partir do nada e no vazio. Mas o que, para cada sociedade forma proble- muda, somos obrigados a perguntar porque e somos levados à pergunta
ma em geral (ou surge como tal_a um nível dado de especificação e de precedente). Isso supõe que sabemos, e que podemos dizer o que é a hu-
concretização) é inseparável de sua maneira de ser em geral, do sentido manidade e o que ela quer, aquilo para cuja direção ela tende, como dize-
precisamente problemático com que ela investe o mundo e seu lugar nele, mos (ou cremos poder dizê-lo) dos objetos.
sentido que como tal não é nem verdadeiro, nem falso, nem verificável A esta pergunta, os marxistas dão sempre uma resposta dupla, uma.
nem falsificável como referência a "verdadeiros" problemas e a sua "ver- resposta contraditória, cuja confusão e, em última instância, má fé, ne-
dadeira" solução, salvo em uma acepção bem específica. à qual retorna- nhuma dialética pode dissim\Jlar:
remos. ~ humanidade é aquilo que tem fome. ·
A humanidade é aquilo que quer a liberdade - não a liberdade da fo-
me, a liberdade simplesmente, sobre a qual eles estarão de acordo em di-
zer que ela não tem nem pode ter "objeto''" determinado em geral.
29. !':claro que alguém poderá dizer sempre que essas criações históricas são só a desco-
berta progressiva dos possh•eis conteúdos num sistema absoluto ideal e "pré-consti tuíd o".
Mas como esse sistema absoluto de todas as formas possíveis jamais pode por definição ser
exibido. e não está presente na história, a objeção é gratuita e redu z-se finalmente a uma 0

querela de palavras. A posteriori poderemos dizer sempre de qualquer realização que ela 30. O acontecimento traumático é real enquanto acontecimento e imaginário enq uânto
também era idealmente possível. !': uma tautologia vazia, que niio ensina nada a ninguém. traumatismo.

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~---~~~~~~~-'
A humanidade tem fome, é certo. Mas ela tem fome de que e como? integrada de arranjos destinados à satisfação das necessidades da socie-
Ela ainda tem fome, no sentido literal. no que diz respeito à metade de dade. Toda interpretação desse tipo levanta imediatamente a pergunta:
seus membros, e esta fome certamente tem que ser satisfeita. Mas serâ. funcional em relação a que e com que fim - pergunta que não comporta
que ela só tem fome de alimento? Em que então ela difere das esponjas o u resposta dentro de uma pérspectiva funcionalista 31 • As instituições certa-
dos corais? Porque esta fome, uma vez satisfeita, deixa sempre aparecer mente são funcionais na medida em que necessariamente devem assegu-
outros problemas e outras solicitações? Porque a vida das camadas que rar a sobrevivência da sociedade considerada 32• Mas já o que chamamos
sempre puderam satisfazer sua fome, ou de sociedades inteiras que po- "sobrevivência" possui um conteúdo completamente diferen~e segundo a
dem fazê-lo hoje, não se tornou livre - ou voltou a ser vegetal? Porqµe a sociedade que consideram os; e, além deste aspecto, as instituições são
saciedade, a segurança e a copulação ad libitum nas sociedades escandi- "funcionais" relativamente a finalidades que não dizem respeito nem à
navas mas também, cada vez mais, em todas as sociedades de capitalismo funcionalidade nem ao seu oposto. Uma sociedade teocrática; uma socie-
·moderno (um bilhão de indivíduos) não fez com que surgissem indiví- dade essencialmente organizada para permitir que uma camada de se-
duos e coletividades autônomas? Qual é a necessidade que essas popula- nhores guerreie interminavelmente; ou enfim, uma sociedade como a do
ções não conseguem satisfazer? Se disserem que essa necessidade é manti- capitalismo moderno que cria num jato contínuo novas "nec.e ssjdades" e
da constantemente insatisfeita pelo progresso técnico, que faz aparece- esgota-se para satisfazê-las, só podem ser descritas, ou compreendidas em
rem novos objetos, ou pela existência qe camadas privilegiadas que colo- sua própria funcionalidade relativamente a enfoques, orientações, enca-
cam diante dos olhos dos outros outras maneiras de satisfazê-la - terão deamentos de significações que não somente escapam à funcionalidade,
então admitido o que queremos dizer: que essa necessidade não traz em si· mas aos quais a funcionalid ade em grande parte estâ sujeita.
própria a definição de um objeto que poderia preenchê-la, como a neces- Não podemos também compreender as instituiçõe~ simplesmente
sidade de respirar encontra seu objeto no ar atmo~férico, que ele nasce como uma rede simbólica n. As instituições formam uma re.de simbólica
histo~icamente, que nenhuma necessidade definida é a necessidade da hu- m.as essa r~~e!. l'or definição, remete a algo que não o simbolis_mo. Toda
manidade. A humanidade teve e tem fome de alimento mas ela também
teve fome de vestimentas e em seguida de outras vestimentas que não as
do ano anterior, ela teve fome de automóveis e de televisão, fome de po-
der e fome de santidade, ela teve fome de ascetismo e de libertinagem, ela 31 " ... dizer que uma sociedade funciona é um truismo: mas dizer que tudo numa socie-
teve fome de místico e fome de saber racional, teve fome de amor e de fra- dade funciona é um absurdo". Claude Lévi·Strauss, Anthropologie structurale, Paris 1958 p.
ternidade mas também fome de seus próprios cadáveres, fome de festas e 17.
fome de tragédias, e agora parece que começa a ter fome da Lua e de pla- 32 Mesmo isso, aliás, não está livre de problemas: já mencionamos a existência de insti-
tuições disfuncionais, especialmente nas sociedades modernas ou ainda a ausência de insti-
netas. f: preciS'O uma boa dose de cretinismo para pretender que ela in- :uições necessárias para certas funções.
· ventou todas essas fomes porque não conseguia comer e fazer amor sufi- 33 Como parece querer fazê-lo cada vez mais Claude Lévi-Strauss. Ver especialmente /e
cientemente. Totémisme aujourd'hul, Paris 1962 e a discussão com Paul Ricoeur, no Esprit, novembro
1963, principalmente p . 636: "Você diz ... que la Pmsée sauvoge prefere a sintaxe à semãnti-
O homem não é essa necessidade que comporta seu "bom objeto" ca; para mim não existe o que escolher... o sentido sempre resulta da combinação de ele-
complementar, uma fechadura que tem sua chave (a encontrar ou fabri- mentos que não são cm si mesmos significantes ... o sentido é sempre redutível... por trás de
car). O homem só pode existir definindo-se de cada vez como um conjun- todo sentido existe um contra:senso e.o contrário não é verdadeiro ... a significação é sempre
to de necessidades e de objetos CQrrespondentes, mas ultrapassa sempre fenomenal". ·Também, /e Cru e /e Cuit, Paris 1964: "Nós não pretendemos pois mostrar
essas definições - e, se as ultrapassa (não somente em um virtual perma- como os homens pensam nos mitos, mas como os mitos se pensam nos homens e à sua reve-
lia. E talvez ... convém ir ainda mais longe, fazendo abstração de todo sujeito para conside-
nente, mas na efetividade do movimento histórico), é porque saem dele. rar que, de um certo modo, os mitos se pensam entre eles. Porque se trata aqui de separar
próprio, porque ele as inventa (não arbitrariamente por certo, existe sem- . não tanto o que existe nos mitos ... mas o sistema de axiomas e de postulados definindo o
pre a natureza, o mínimo de coerência que a racionalidade exige e a his- melhor código possível, capaz de dar uma significação comum a elaborações inconscien-
tória precedente), portanto, que. ele as faz fazendo e se fazendo, e nenhu- tes ..." (p. 20, sublinhado no texto). Quanto a esta significação, " ...se perguntamos qual o
significado último a que remetem estas significações que se significam mutuamente, mas
ma definição racional, natural ou histórica permite fixá-las em definitivo. que é preciso que finalmente e todas juntas se refiram a alguma coisa, a única resposta que
"O homem é o que não é o que é, e que é o que não é", já dizia Hegel. este lívro sugere é que os mitos significam o cspirito que os elabora a través do mundo do
qual ele mesmo faz parte" (ib, p. 346). Como sabemos que para Lévi·Strauss o espírito sig-
nifica o cérebro, e que este pertence completamente à ordem das coisas, exceto que possui
As significações imaginárias sociais esta extravagante propriedade de poder simbolizar as outras coisas, chegamos à conclusão
de que a atividade do espírito consiste cm simbolizar-se a si mesmo enquanto coisa dotada
Vimos que não podemos compreender as ínstituições e menos ainda de poder simbolizador. Contudo, o que nos importa aqui não são as aporias filosóficas a
o conjunto da vida social como um sistema simplesmente funcion al, série que conduz esta posição, mas o que ela deixa escapar de essencial no social-histórico.
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T
interpretação puramente simbólica das instituições suscita imediatamen-
te as seguintes perguntas: porque este sistema de símbolos, e não um ou- Quando, ainda, uma análise estrutural reduz todo um conjun.t o de mitos
tro; quais são as significações veiculadas pelos sim bolos, o sistema de sig- arcaicos para significar, por meio da oposição entre o cru e o cozido, a
nificados ao qual remete o sistema de significantes; porque e como as re- p~ss~gem da natureza à cultura 17 , não é claro que o conteúdo assim sig-
des simbólicas conseguem aut.onomizar-se. E já suspeitamos que as res- nificado possui um sentido fundamental: a questão e a obsessão das ori-
postas a estas perguntas estão profundamente ligadas. gens· forma e parte da obsessão da identidade, do ser do grupb que a co-
a) Compreen?er, n~ medid~ do possível, a "escolha" que uma socie- loca? Se a análise em questão é verdadeira, ela significa o seguinte: os ho-
dade faz de seu stmbohsmo, exige ultrapassar as considerações formais mens se perguntam o que é o mundo humano - e respondem a isso por
ou in~smo "~strut~rai~". ~Q~ando dizemos, a propósito do totem ismo, um mito: o mundo humano é aquele onde se submetem a uma transfor-
que tats esp~c1es animais s~.º mvestidas totemicamente não porque "boas mação os dados naturais (onde cozinhamos os alimentos); é, finalmente,
para co~er , mas porque boas para pensar" 34, desvendamos sem dúvi- uma resposta racional dada no imaginário por meios simbólicos. Existe
da uma 1mpo~tante verdade. Mas esta não deve esconder as questões que um sentido que jamais pode ser dado independentemente de todo signo,
vêm em seguida: porque essas espécies são "melhores para pensar" do mas que não é a oposição dos signos, e não está forçosamente ligado a ne-.
que as outras, porque tal par de oposições é escolhido de preferência aos nhuma estrutura significante particular, pois ele é, como dizia Shannon, o
inúmeros outros oferecidos pela natureza, pensar por quem, como _ em que permanece invariante quando uma mensagem é traduzida de um có-
su.ma, ela não d~ve ser~ir i;>ara esvaziar a pergunta do conteúdo, para eli- digo a outro, e mesmo, poderíamos acrescentar, o que permite definir a
mmar a referência ao significado. Quando urna tribo estabelece dois clãs identidade (ainda que parcial) no mesmo código de mensagens· cuja com-
como homólogos ao par. falcão-7orvo, surge imediatamente a questão de posição é diferente. 'f: impossível sustentar que o sentido é simplesmente
saber l?orque esse par foi escolhido entre todos os que poderiam conotar o que resulta da combinação dos signos 11• Podemos igualmente dizer que
uma diferença no parentesco. t claro que a questão se coloca com infini- a combinação dos signos resulta do sentido, pois enfim o mundo não é só
tamente maior insistência no caso das sociedades históricas ll. feito de pessoas que interpretam o discurso dos outros; para que aqueles
b) Compreender, e mesmo simplesmente captar o simbolismo de existam, é preciso primeiro que estes tenham falado, e falar já é escolher
uma sociedade'. é captar as significações que carrega. Essas significações signos, hesitar, corrigir-se, retificar os signos já escolhidos - em função de
só aparecem ve1culada.s p~r estruturas significantes; mas isso não quer di- um sentido. O musicólogo estruturalista é uma pessoa infinitamente res-
zer que elas se reduzem a isso nem que daí resultem de maneira unívoca peitável, contanto que não esqueça que deve sua existência (do ponto de
ne.m enfim .que por elas sejam determinadas. Quando, a propósito d~ vista econômico, mas também ontológico) a alguém que, antes dele, per-
mito. de t~1p.o s~paramos uma estrutura que consiste em dois pares de correu o caminho inverso; a saber, ao músico criador que (consciente ou
opostçõ.es , md1cam?s provavelmente uma condição necessária (como inconscientemente, pouco importa) estabeleceu e mesmo escolheu suas
as oposições fonemáttcas na língua) para que alguma coisa seja dita. Mas " oposições de signos", cancelou notas numa partitura, enriqueceu ou
o que é dito? t qualquer coisa - isto é, o nada? No caso presente é indife- empobreceu tal acorde, confiou finalmente às madeiras tal frase inicial-
rente ~u~ esta estrutu~a, esta organiz~ção de vários níveis de significantes m~nte dada aos metais, guiado por uma significação musical a exprimir
e de s1gmficado~ partt~ulares, transmita finalmente uma significação glo- (e que, é claro, não pâra de ser influenciada, ao longo da composição, pe-
bal ou um sentido articulado, a proibição e a sanção do incesto e por los signos disponíveis, no código utilizado, na linguagem musical que o
isso mesmo, a constituição do mundo humano como esta ordem 'de' coe- compositor adotou - embora finalmente um grande compositor modifi-
x.istência onde o outro não .é simple~ objeto de meu desejo mas existe por que essa própria linguagem e constitua maciçamente seus próprios sig-
s1 e mantém com um tercetro relaçoes às quais o acesso me é profüido?. nificantes). Isso vale também para o mitólogó ou para o antropólogo es-
truturalista, exceto que aqui o criador é uma sociedade inteira, a recons-
trução dos códigos é muito mais radical, e muito mais profunda - em su-
ma, a constituição dos signos em função de um sentido é um processo in-
finitamente mais complexo. Considerar o sentido como simples "resulta-
34 Uvi-Strauss, Le Totémisme aujoud'hui, L.c., p. 128. do" da diferença dos signos é transformar as condições necessárias da lei-
35 Est~ pcrg~nta ma.is uma. vez é colocada pela ciência que trabalha, por. assim dizer, ao
nfvel do s1mbohsmo, a hngufstJca, Cf. Roman Jackobson, Essal de /lnguistíque généra/e Pa- tura da história em condições suficientes de sua existência. E certamente,
ris 196~. eh;, VII ("L'aspcct phonologiq~c ct l'aspect grammatical du langage dans lcur's in- essas condições de le.itura já são intrinsecamente condições de existência,
tcrrclauons ). Menos ainda podemos deixar de colocá-la cm outros domínios da vida histó·
rica, a que F. de Saussurc jamais teria pensado estender o princípio do "arbitrário do sig-
no''.
36 Ver Lévi-Strauss, Anthropologie structurale, Lc., p. 235-243. 37 Lévi-Strauss. Le Cru el le Cuil, J .c.
38 Como o foz Lévi-Strauss. in Esprit, J .c.
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pois só existe história porque os homens comunicam e cooperam n um
meio simbólico. Mas esse simbolismo é ele próprio criado. A história só
existe na e pela "linguagem" (todas as espécies de linguagem), mas essa
linguagem, ela se dá, ela constitui, ela transforma. Ignorar esse lado da
T estrutura institucional, tão logo estabelecida, torna-se um fator ao qual a
vida efetiva da sociedade está subordinada e submetida? Responder que
faz parte da natureza do simbolismo o autonomizar-se seria algo pior do
que uma inocente tautologia. Isso significaria dizer que faz parte da natu-
questão, é estabelecer para sempre a multiplicidade dos sistemas simbóli- reza do sujeito o alienar-se nos símbolos que emprega, p or conseguinte,
cos (e por conseguinte institucionais) e sua sucessão como fatos brutos a abolir todo discurso, todo diálogo, toda verdade, estabelecendo que tudo
propósito dos quais nada haveria a dizer (e ainda menos a fazer), elimi- que dizemos é provocado pela fatalidade automática das cadeias simbóli-
nar a questão histórica por excelência: a gênese do sentido, a produção de cas •1• E sabemos , de qualquer maneira, que a autonomização do simbo-
novos sistemas de significados e de significai:ites. E, se isso é verdade em lismo como tal, na vida social, é um fenômeno secundário. Quando a reli-
relação à constituição histórica de novos sistemas simbólicos, o é tam- gião se apresenta perante a sociedade, como um fator autonomizado, os
bém quanto à utilização, a cada momento, de um sistema simbólico esta- slmbolos religiosos só têm independência e valor porque eles encarnam a
belecido e dado. Nesse caso, também não podemos dizer, em absoluto, significação religiosa, seu brilho é artificial - como o mostra o fato de que
nem que o sentido "resulta" da oposição dos signos, nem o inverso; por- a religião pode investir novos slmbolosJ criar novos significantes, apode-
que isso tr~ns~o~t~ria aqui ~el<;lçôes de cau.sa~idade •. ou pelo me~os de rar-se de outras regiões para sacramentá-las.
correspondenc1a biunívoca rigorosa, que d1ss1mulanam e anulariam o Não é inevitável cair nas armadilhas do simbolismo por ter reconhe-
·que é a mais profunda característica do fenômeno simbólico, a saber, sua cido sua importância. O discurso não é independente do simbolismo, e
indeterminação relativa. No níve.1 mais elementar, esta indeterminação já isso significa uma coisa bem diferente de uma "condição externa": o dis-
é claramente indicada pelo fenômeno da sobredeterminação dos símbo- curso é tomado pelo simbolismo. Mas isso não quer dizer que lhe seja fa-
los (vários significados podem ser ligados a o mesmo significante) - ao talmente submetido. E, sobretudo, o que o discurso visa é outra coisa que
qual é preciso acrescçntar o . fenôm~no inverso, que poderíamos ctiamar a o simbolismo: é um sentido que pode ser percebido, pensado ou imagina-
sobre simbolização do sentido (~ mesmo significado é carregado por do; e são as modalidades dessa relação, com sentido que fazem um dis-
vários· significantes; existem, no mesmo código, mensagens equivalentes, curso ou um delfrio (o qual pode ser gramaticalmente, sintatiéamente e
há em toda língua "traços redundantes" etc.). . Jexicamente impecável). A diferença, que não nos é posslvel evitar, entre
l1 As tendências extremistas do estruturalismo resultam do fato de que aquele que, olhando a Torre Eiffel, diz: "J;'. a Torre Eiffell", e aquele que
ele cede efetivamente à "utopia do século", a qual não é "construir um nas mesmas circunstâncias diz: "Ué, eis a vovó", só pode ser encontrada
l1 sistema de signos num só nível de articulação" >•, mas eliminar o sentido na relação do significado de seu discurso com um significado canônico
inteiramente (e, sob uma outra forma, eliminar o homem). É assim que dos termos que ele utiliza e com um núcleo independente de todo o dis-
~l reduzimos o sentido, na medida em que não é identificável a uma combi- curso e de toda simbolização. O sentido é esse núcleo indep.e ndente que
~
nação de signos (ainda que só como seu resultado necessário e unívoco), vem à expressão (que, neste e xemplo, é o "estado real das coisas").
a uma interioridade não-transportável, a um "certo sabor" •0 • É que pare- Estabelecemos pois que existem significações relativamente indepen-
cemos só poder conceber o sentido em sua acepção psicológica-afetiva dentes dos significantes e que desempenham um papel na escolha e na or-
mais limitada. Mas a proibição do incesto não· é um sabor; é uma lei, ou ganização desses significantes. Essas significações podem corresponder
seja, uma instituição que tem uma significação, símbolo, mito e enuncia- ao percebido, ao racional ou ao imaginário. As relações íntimas que exis-
1 do de regra que remete a um sentido organizador de urna infinidade de
atos humanos, que faz levantar no meio do campo do possível a muralha
que separa o lícito e o ilícito, que cria um valor e reorga niza todo o siste- 41 Podemos certamente sustentar que um uso lúcido do simbolismo é pgsslvel a nível in·
ma de significações, dando por exemplo à consanguinidade um ·conteúdo dividual (por exemplo, para a linguagem), e não a n_lvel coletivo (relativamente às institui·
que ela não possuía "antes". A diferença entre natureza e cultura não é ções). Mas stria preciso mostrá-lo, e esta demonstração não poderia evidentemente apoiar.
mais a simples diferença de sabor entre o cru e o cozido, ela é um mundo se na natureza geral do simbolismo como tal. Não dizemos que não exista diferença entre os
de significações. dois nlveis. nem mesmo que esta seja simplesmente de grau (complexidade maior do social
etc.). Dizemos simplesmente que ela provém de outros fatores que não o simbolismo, asa·
c) Enfim é impossível eliminar a pergunta: como e porque o sistema ber, do caráter muito mais profundo (e diflcil de captar) das significações imaginá rias so-
simbólico das instituições consegue autonomizar-se? Como e porque a ciais e de sua "materialização''. Ver mais adiante.
• A critica do "estruturalismo" aqui delineada não respondia a nenhuma "necessidade
interna ·· para o autor. mas somente à necessidade d e combater uma mistificação à qual, há
dez anos. muito poucas pessoas escapavam. Ela facilmente poderia ser prolongada e ampli·
39 Lévi-Strauss. LI' Cm et /e Cuít. p. 32. ficada, mas não é uma tarefa urgente. na medida efTl que a fumaça do estruturalismo está se
40 Lévi-Strauss. in Espril. 1.c. p. 637-641. dissipando.

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tem praticamente s.empre entre esses três pólos não devem fazer com que
se perca de vista sua especificidade. ani~a! como n.o escravo, e sendo a pseudo-identidade das propriedades
Seja. por exemplo: Deus. Sejam quais forem os pontos de apoio que p~rc1a1s es~end1da sobre o todo dos objetos considerados. Mas esse des-
sua representação tenha no percebido; seja qual for sua eficácia racional v10 .de sentido - que é afinal a operação indefinidamente repetida do sim-
como principio de organização do mundo para algumas culturas, Deus b.ohsrno -, o fato de que sob um significante surja um outro significado, é
não é nem uma significação do real, nem uma significação de racional· s1mples~ente uma maneir~ de descrever o que se passou, e não explica
também não é símbolo de outra coisa. O que é Deus - não como conceit~ nem a gene~e, nem ~ rnan_e1ra de ser do fenômeno considerado. O que es-
de teólogo, nem comó idéia de filósofo - mas para nós que pensamos o tá ~m questao. na re1ficaçao - no caso da escravidão ou no çaso do prole-
que ele é para os que crêem em Deus? Eles só podem evocá-lo e referir-se tariado - é a in~tauração de uma nova significação operante, a captação
a Ele com a ajuda de símbolos, nem que seja apenas o "Nome" - mas de uma categona de homens por uma outra categoria como ·assimilável
para eles e para nós que consideramos esse fenômeno histórico constituí- ei:n !~dos os sentidos prát~cos, a animais ou a coisas. t uma criação ima~
do por Deus e os que crêem em Deus, Ele ultrapassa indefinidamente esse gm~rra, de que nem ~realidade, nem a racionalidade, nem as leis do sim-
"Nome", é outra coisa. Deus não é nem o nome de D eus, nem as imagens b<;>hsmo podem explicar (é diferente se esta criação não pode "violar" as
que um povo pode dar-se dele, nem nada de similar. Carregado, indicado leis~~ real, do racional e do simbólico), e que não tem necessidade de ser
por todos estes símbolos, ele é, em cada religião, o que faz desses símbo- expl~c1tada nos conceito.s ou nas representações para existir, que age na
los, slmbolos religiosos, - uma significação central, organização em siste- prática e no fazer da sociedade considerada como sentido organizador do
ma de significantes e de significados, o que sustenta a unidade cruzada de comportamento humano e das relações sociais independentemente de sua
uns e de outros, o que permite também sua extensão, sua multiplicação, existência "para a consciência" desta sociedáde. O escravo é metaforiza-
sua modificação. E essa significação, nem de uma percepção (real) nem . do .como animal, o_ operário como mercadoria na prática social efetiva
de um pensamento (racional) é uma significação imaginária. mmto tempo antes dos juristas romanos, Aristóteles ou Ma rx.
· Seja ainda esse fenômeno que Marx chamou de reificação, mais generi- ? 9ue torna o pro~Iema diflcil, o que provavelmente explica porqú~
camente, -de " desumanização" dos indivíduos das classes exploradas em · só foi visto durante ~u1to tempo de maneira parcial e porque ainda hoje
certas fases históricas: um escravo é visto como animal vocal, o operário tanto em antropologia como em psicanálise, constatamos as maiores di-
como "parafuso de máquina" ou simples mercadoria. Pouco importa, · ~culd~des _em diferenciar os registros e a ação do simbólico e do imaginá-
aqui, que esta assimilação não chegue jamais a se realizar totalmente, que no,. nao sao ~o~ente o.s preconceitos "realistas" e "racionalistas" (dos ·
a realidade humana dos escravos e dos operários a questione. etc. 42 • Qual quais as tendenc1as ~ais ex~remas do "estruturalismo" contemporâneo
é a natureza desta significação-, a qual, é preciso lembrar, longe de ser ~epr~se?t.am um.a c.unosa mistura) que impedem de admitir o papel do
simplesmente conceito ou representação, é uma significação operante, 1magm.ano, o significado ao qual remete o significante é quase ina-
com pesadas conseqüências históricas e sociais? Um escravo não é um preens1vel como tal, e por definição seu "modo de ser" é um modo de
animal, um operário não é uma coisa; mas a reificação não é nem uma n.ão~ser .. ~o registro do percebido (real) "exterior" ou " interior" a exis-
falsa percepção do real, nem um erro lógico; e não podemos também fa- t~nc1a. f1s1camente distinta do significante e do significado é imediata:
zer dela um "momento dialético" em uma história totalizada do advento mngue~ confundirá a palavra árvore com uma árvore real, a palavra rai-
da verdade da essência humana, onde esta se negaria radicalmente antes v~ <?U tristeza com os afetos correspondentes. No registro do racional, a
e a fim de poder realizar-se positivamente. A reificação é uma significa- d.1stmção não é .menos clara: sabemos que a pa lavra (o "termo") que de-
ção imaginária (inútil salientar que o imaginário social, tal como o enten- s1g~a un:i ~o~ce1to é uma coisa e o próprio conceito outra. Mas no caso
demos, é mais real do que o "real"). Do ponto de vista estritamente sim- do 1~agm.ar~o, a~ coisas s~o n:ienos simples. Certamente, podemos aqui
bólico, ou "linguístico". ela aparece como um deslocamento de sentido, t~m?em d1stmg~1r •. num primeiro nível, as palavras e o que elas designam,
como uma combinação de metáfora e de metonímia. O escravo só pode ~1gm~~~tes ~ s.1gnificados: Centauro é uma palavra que remete a um ser
"ser" animal metaforicamente, e esta metáfora, como toda metáfora 1magmar10 distinto .de~ta palavra e que podemos "definir" por palavras
apóia-se sobre uma metonímia, sendo a parte tomada pelo todo, tanto n~ (pelo que ele se ass1i:nt1.a a um pseudoconceito) ou representar por ima-
gens (pel~ que se assimila a um pseudopercepto) 0 • Mas já esse caso fácil
e superficial (o Centauro imaginário é apenas uma reunião de partes des-
42 Nós nos cxplicam~s cm !'utro lugar sobre a relatividade do concei to de rcificação: cf.
"Lc rnouvcmcnt r~volut1onnairc sous lc capitalismc modcrne", em particular s. ou B. N•
33, p. 64-65: lambem "Recommencer la révolution", in L'E:rperience du 111ou1•ement ouvrier
2. l.c. p. 317-318. O que questiona a rcificação e a relativiza como categoria e como reali da~ · v ~3. Exi~~e uma_ "~s~~?cia" do Cent~uro: doi~ conjuntos definidos de possíveis e impossf-
de é a lura dos escravos ou dos operários. :1s._ Esta. cs.~ênc1a. e representável : não existe nenhuma imprecisão concernente à apa-
renc1a fis1ca genérica" do Centauro.
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l
tacadas de seres reais) nào se esgota po r essas considerações, pois para a . Quando se trata da sociedade - que evidentemente não se quer trans-
·cultura que vivia a realidade mitológica dos Centauros, o ser destes era formar em "sujeito", nem em sentido próprio, nem metaforicamente -
diferente da descrição verbal ou da representação esculpida que podería- encontramos esta dificuldade em grau redobrado. Portanto, temos aqui,
mos dar. Mas esta arrealidade última, como captá-la? Ela só se dá, de um a partir do imaginário que cresce imediatamente na superfície da vida so-
certo modo, como as "coisas em si", a partir de suas conseqüências, de cial, a possibilidade de penetrar no labirinto da simbolização do imaginá-
seus resultados, de seus derivados. Como captar Deus, enquanto signifi- rio; e desenvolvendo a análise, chegaremos a significações que não se en-
cação imaginária, a não ser a partir das sombras (Abschattungen) projeta- contram aí para representar outra coisa, que são como as ar ticulações úl-
dos sobre o agir social efetivo dos povos - mas, ao mesmo tempo, como .timas que a sociedade em questão impôs ao mundo, a si mesma e a suas
não ver que, assim como a coisa percebida, ele é condição de possibilida- •necessida des, os esquemas organizadores que são condição de represen-
de de uma série inesgotável de tais sombras, mas, ao contrário da coisa tabilidade de tudo o que essa sociedade pode dar-se. Mas por sua próp.ria
percebida, ele jamais se dá " em pessoa''? natureza, esses esquemas não existem sob a forma de uma representação
Seja o exemplo de um sujeito que vive uma cena no imaginário, en- que poderíamos atingir através de análises. Não podemos falar aqui de
trega-se a um devaneio ou repete fantasticamente uma cena vivida. A uma "imagem", por vago e indefinido que seja o sentido dado a esse ter-
cena consiste em "imagens" no sentido máis amplo do termo. Essas ima- .mo. Deus é talvez, para cada um dos fiéis, uma "imagem" - que pode ser
gens são feitas do mesmo material com que podemos fazer símbolos; se- mesmo uma representação "precisa" -. mas Deus, enquanto significação
rão ~lmbolos? Na consciência explícita do sujeito, não; elas não estão aí social imaginária, não é nem a "soma", nem a "parte comum" , nem a
para representar outra coisa, mas são "vividas" por si mesmas. Mas isso "média" dessas imagens, é antes sua condição de possibilidade e o que
não esgota a questão. Podem representar outra coisa, um fantasma in: faz com que essas imagens sejam imagens "de Deus". E o núcleo imagi-
consciente - e é geralmente assim que serão vistas pelo psicanalista. ~­ nário do fenômeno de reificação não é "imagem" para ninguém. Corre-
imagem é portanto aqui símbolo - mas de que? Para sabê-lo, é preciso en- tamente falando, significações ima_ginárias sociais não existem sob a for-
trar oos l!ibirintos da elaboração simbólica do imagin.ário no inconscien- ma de uma representação; elas são de uma outra natureza, para a qual é
te. O que há, no fundo? A.~o que não está lá para representar outra coisa, inútil procurar uma analogia nos outros domínios de nossa experiência.
que é antes condiç.ã o operante de toda representação ulterior, mas que já Comparadas às significações imaginárias individuais, elas são infinita-
existe no modo da.representação: o fantasma fundamental do sujeito, sua mente maiores que um fantasma (o esquema subjacente ao que designa-
cena nuclear (não a "cena primitiva"), onde existe o que constitui o sujei- mos como a "imagem do mundo" judeu, grego ou ocidental se estende ao
to na sua singularidade: seu esquema organizador-organizado que se re- infinito) e elas não têm um lugar de existência preciso (se é que se pode
presenta por imagem, e que existe não na simbolização, mas sim na pre- denominar o inconsciente individual de um lugar de existência preciso).
sentificação imaginária a qual já é para o sujeito significação encarnada e Elas só podem ser captadas de maneira derivada e obliqua: como a sepa-
operante, primeira captação e constituição logo de início de um sistema ração ao mesmo tempo evidente e impossível de delimitar exatamente en-
relacional articulado, colocando, separando e unindo "interior" e "exte- tre este primeiro termo: a vida e a organização efetiva de uma sociedade,
rior", esboço de gesto e esboço de percepção, repartição de papéis ar- e este outro termo igualmente impossível de definir: esta vida e esta orga-
quetfpicos e imputação originária de papel ao· próprio sujeito, valoriza- nização concebidas de maneira estritamente "funcional-racional"; como
ção e desvalorização, fonte da significância simbólica ulterior, origein uma "deformação coerente" do sistema dos sujeitos, dos objetos e de
dos investimentos privilegiados e específicos do sujeito , um estruturante- suas relações; como a curvatura específica a cada espaço social; como o
estruturado. No plano individual, a produção desse fantasma fundamen- cimento invisível mantendo unido este imenso bric-à-brac de real, de ra-
tal depende do que chamamos o imaginário radical (ou a imaginação ra- cional e de simbólico que constitui toda sociedade e como o princípio q ue
dical); esse fantasma existe ao mesmo tempo no modo do imaginário efe- escolhe e informa as extremidades e os pedaços que ai serão admitidos.
tivo (do imaginado) e é principal significação e núcleo de significações ul- As significações imaginárias sociais - pelo menos as que são verdadeira-
teriores. mente últimas - não denotam nada, e conotam mais ou menos tudo; e é
É duvidoso que possamos captar diretamente esse fantasma fÚnda- por isso que elas são tão freqüentemente confundidas com seus símbolos,
mental; quando muito podemos reconstitui-lo a partfr de suas manifesta- ~ão somente pelos povos que as utilizam, mas pelos cientistas que as ana-
ções porque aparece efetivamente como fundamento de possibilidade e lisam e que chegam, por isso, a considerar que seus significantes se signi-
de unidade de tudo o que faz a singularidade do sujeito não como singu- ficam por si mesmos (uma vez que não remetem a nenhum real, nenhum ·
laridade puramente combinatória: de tudo o que na vida do sujeito ultra- racional que pudéssemos designar), e a atribuir a esses significantes como
passa sua realidade e.sua história, condição última para que uma realida- tais, ao simbolismo tomado em si mesmo, um papel e uma eficácia infini-
de e uma história sobrevenham ao sujeito. tamente superiores às que certamente possuem.
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Mas não haveria a possibilidade de uma "redução" deste imaginário ções sociais favoráveis tenham moldado, numa á rea indefinida, os in-
social ao imaginário individual - o que forneceria, ao mesmo tempo, um .conscientes individuais e os tenham preparado para esta "boa-nova". E o
conteúdo denotável a esses significantes? Não poderíamos dizer que próprio profeta trabalha no e pelo instituído e'mesmo se o transforma
Deus, por exemplo, deriva de inconscientes individuais e que significa nele se apoia; todas as religiões cuja gênese conhecemos são transforma-
precisamente um momento fantástico essencial desses inc~nscientes, o ções de religiões precedentes · ou então contêm um enorme componente
pai imaginário? Tais reduções - como a que Freud tentou para a religião, de sincretismo. Só o mito das origens formu lado por Frel!d em Totem e
e as que também poderlamos tentar para as significações imaginárias de Tabu, escapa em parte a estas considerações, e isso porque é um mito,
nossa própria cultura - parecem conter uma parte de verdade importan- mas também porque se refere a um estado híbrido e, a bem dizer, incoe-
te mas não esgotam a questão. É incontestável que uma significação rente. O instituído já está presente, e a própria horda primitiva não é um
i~aginária deve encontrar seus pontos de apoio no inconsciente dos in- fato da natureza; nem a castração das crianças de sexo masculino, nem a
divíduos; mas esta condição não é suficiente, e legitimamente podemos preservação do último nascido podem ser considerados como originan-
perguntar-nos se é condição ou resultado. O indivíduo e sua psique pare- do-se de um "instinto" biológico (com. que finalidade, e como teria ele
cem em certos aspectos, sobretudo para nós, homens de hoje, possuir "desaparecido" a seguir?) mas já traduzem a pena ação do imaginário,
uma "realidade" eminente, da qual o social estaria privado. Mas sob ou- sem a qual, aliás, a submissão dos descendentes é inconcebível, o assassi-
tros aspectos esta concepção é ilusória, "o individuo é uma abstração"; o nato do pai não é ato inaugural da sociedade mas resposta à castração (e
fato de que o campo social-histórico jamais seja captável como tal, mas esta o que é senão uma defesa antecipada?), como a comunidade dos ir-
. somente por seus "efeitos" não prova que possua uma menor realidade, mãos, enquanto instituição, sucede ao poder absoluto do pai, é pois revo-
seria antes o contrário. O peso de um corpo traduz uma propriedade des- lução mais do que instauração primeira. O que ainda não está ai, na
se corpo, mas também do campo gravitacional circundante, o qual só é "horda primitiva", é que a instituição, todos os outros elementos da qual
perceptível por efeitos "mistos" dessa ordem; e o que pertence "em parti- estão presentes, não é simbolizada como tal.
cular" ao coroo considerado, sua massa na concepção clássica, não seria, Subsiste que fora de uma postulação mltica das origens, toda tentati-
se acreditarmos em certas concepções cosmológicas modernas, uma va de derivação exaustiva das significações sociais a partir da psiquê indi-
"propriedade" do corpo, mas a expressão da ação sobre esse corpo de to- vidual parece fadada ao fracasso por desconhecer a impossibilidade de
dos os outros corpos do universo (princípio de Mach), em resumo, uma isolar esta psiquê de·um contínuo social,· o qual não pode existir se já não
propriedade de "coexistência" que surge ao nível do conjunto. O fato de está sempre instituído. E, para que uma significação social imaginária
que, no mundo humano, encontremos alguma coisa que é·ao mesmo tem- exista, são necessários significantes coletivamente disponíveis, mas sobre-
po menos e mais 4ue uma " substância", o indivíduo, o sujeito, o para-si, tudo significados que não existem sob a forma sob o qual existem os sig-
não deve fazer diminuir aos nossos olhos a realidade do "campo". Con- nificados individuais (como percebidos, pensados ou imaginados por tal
cretamente, colocando como na interpretação freudiana da religião, a sujeito).
existência de um "lugar para preencher" no inconsciente individual, e A funcionalidade toma de empréstimo seu sentido fora de si mesma;
aceitando sua interpretação dos processos que produzem a necessidade da o simbolismo refere-se necessariamente a alguma coisa que não é simbó-
sublimação religiosa, ainda assim · subsiste que o indivíduo não pode lico, e que também não é somente real-racional. Este elemento, que dá à
preencher este lugar com suas próprias produções, mas somente utilizan- funcionalidade de cada sistema institucional sua orientação especifica,
do significantes dos quais não dispõe livremente. O que o indivíduo pode que sobredetermina a escolha e as conexões das redes simbólicas, criação
produzir são fantasmas privados, não instituições. A junção opera-se, às de cada época histórica, sua singular maneira de viver, de ver e de fazer
vezes, até mesmo de maneira que podemos situar e datar, nos fundadores sua própria existência, seu mundo e suas relações com ele, esse estrutu-
de religião e alguns outros "indivíduos excepcionais", cuja fantasia pri- rante originário, esse significado-significante central, fonte do que se dá
vada vem preencher onde é preciso e no momento exato o vazio do in-· cada vez como sentido indiscutível e indiscutido, suporte das articulações
consciente dos outros, possuindo suficiente "coerência" funcional e ra- ,e das distinções do que importa e do que não importa, origem do aumen-i
cional para revelar-se viável uma vez simbolizada e sancionada - ou seja. to da existência dos objetos de investimento prático, afetivo e intelectual •.
institucionalizada. Mas esta constatação não resolve o problema no sen- individuais ou coletivos - este elemento nada mais é do que o imaginário
tido "psicológico", não somente porque esses casos são os mais raros, da sociedade ou da época considerada.
mas porque mesmo neles a irredutibilidade do social é facilmente legível. Nenhuma sociedade pode existir ·se não organiza a produção de sua
Para que esta junção entre as tendências dos inconscientes individuais vida material e sua reprodução enquanto sociedade. Mas nem uma nem
possa produzir-se, para que o disc!-lrso do profeta não permaneça aluci- outra dessas organizações são ou podem ser ditadas inevitavelmente por
nação pessoal ou credo de uma seita efêmera, é necessário que condi- leis naturais ou por considerações racionais. No que assim apareçe como
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margem de indeterminação, situa-se o que é o essencial do ponto de vista que simplesmente é, e que hã n~le significações q~e nã~ são nem r~fle_xo
da histó.ria (para a qual o que importa não é certamente que os homens do percebido, nem simples pro~ongan:iento e subh~açao das tendenc1as
tenham cada vez comido ou gerado crianças, mas antes de tudo, que o te- da animalidade, nem elaboraçao estntamente rac10nal dos dados.
nham feito de uma infinita variedade de formas) - a saber, que o mundo O mundo social é cada vez constituído e articulado em função de u1!1
total dado a esta sociedade é captado de uma maneira d eterminada, prati- sistema de tais significações, e essas significações existem, uma vez consti-
camente, afetivamente e mentalmente, que um sentido articulado lhe é im- tuídas, na forma do que chamamos o imaginário efetivo (ou o imaginad_o).
posto, que são operadas distinções correlativas ao que vale e ao que não É só relativamente a essas significações que podemos compreender, tant_o
vale (em todos os sentidos da palavra valer, do mais econômico a o mais a "escolha" que cada sociedade faz de seu simbolismo,_ e principal~ente
especulativo), entre o que deve e o que não deve ser feito ". de seu simbolismo institucional, como os fins aos quais ela subordina a
Esta estruturação encontra certamente seus pontos de apoio na cor- "funcionalidade". Presa incontestavelmente entre as coerções do real .e
poralidade, na medida em que o mundo dado à sensorialidade já é neces- do racional, sempre inserida em uma continuidade histórica e por conse-
sariamente um mundo articulado, na medida também em que a corpora- qüência co-determinada pelo que já ~e enc~rttrav~ aí, _trab~lhando sem-
lidade já é necessidade, portanto que objeto material e objeto humano, pre com um simbolismo Já dado e cuJa mampulaçao nao é hvre, sua pro-
alimento, como acasalamento sexual, já estão inscritos no interior dessa dução não pode ser exaustivamente reduzida a um desses fatores ou ao .
necessidade, e que uma relação com o objeto e uma relação com o outro seu conjunto. Não pode, po.~que nenhum d:sses f~to.~es pode pr~~ncher
humano, portanto uma primeira "definição" do sujeito como necessida- seu papel, pode "responder às perguntas as quais respondem .
de e relação com o que pode satisfazer essa necessidade, já está carregada Até aqui toda sociedade tentou dar uma re~p?st a a? a lgumas pergun-
por sua existência biológica. Mas esse pressuposto universal, em toda a tas fundamentais: quem somos nós, como colet1v1dade. Que somos nós,
parte e sempre o mesmo é absolutamente incapaz de explicar tanto as va- uns para os outros? Onde e e.m que somos.nó~? Que.~uere~os, ~~e dese-
riações como a evolução das formas da vida social. jamos, 0 que nos falta? A soc1e~ade deve definir sua 1d~nttdade , sua.ar:
ticulação· o mundo, suas relaçoes com ele e com os objetos que contem,
Papel das significações imagfnárias suas nec~ssidades e seus desejos. Sem a "resposta" a essas ~·perguntas";
sem essas "definições" •não existe mundo humano, nem soc1edade e nc:m
A história é impossível e inconcebível fora da imaginação produtiva cultura - porque tudo permaneceria caos indiferenciado. O .eapel das sig-
ou criadora, do que nós chamamos o imaginário radical tal como se mani- nificações imaginárias é o de fornec~r un:ia re~posta a ~.~ª~ per~unta~:
festa ao mesmo tempo e indissoluvelmente no fazer histónco, e na consti- resposta que, evidentemente, nem a realidade nem a rac1onahdade
tuição, antes de qualquer racionalidade explícita, de um universo de sig- podem fornecer (salvo num sentido especifico, ao qual voltaremos).
nificações"· Se ela inclui esta dimensão que os filósofos idealistas chama- É claro que, quando falamos de "perguntas", de "respostas", de
ram liberdade, e que seria mais justo denominar indeterminação (a qual, "definições", falamos metaforicamente. Não. s: trat: de_ perguntas e .de
pressuposta pelo que definimos como a autonomia, não deve ser confun- respostas colocadas explicitamente e as defim~oes nao_ sao dad.as na ltn-
dida com està), é que esse fazer estabelece e se dá outra coisa que não o guagem. As perguntas não são nem mesm~ feitas previamente as respos-
tas. A sociedade se constitui fazendo emergir uma resposta de fato.a.essas
perguntas em sua vida, em sua atividade. E no fazer d~ cada cole.ttv1dade
44. Valor e não-valor, licito e illcito são constitutivos da história e nesse sentido, como que surge como sentido encarnado a resposta a essas perguntas, e esse fa-
oposição estruturante abstrata, pressupostos por toda história. Mas o que é cada vez va-· zer social que só se deixa compreender como resposta a perguntas que ele
lor e não-valor, licito e illcito, é histórico e deve ser interpretado, na medida do posslvcl, em
seu conteúdn próprio coloca implicitamente.. _.
45. O papel fudamental da imaginação, no sentido mais radical, tinha sido claramente Quando 0 marxismo acredita mostrar que essas questoes e as respos-
visto pela filosofia clássica alemã, já por Kant, mas sobretudo por Fichtc, para.quem a Pro- tas correspondentes provêm desta parte d.a ''.superestru~ura" ideológica
duktive Eínbildungskra/1 é um "Faktwn do espírito humano", que é crr. últim:i. análise, não que é a religião ou a filosofia, e que na reah~ade elas só sao reflexo defor-
fundamentável e não fundamentado e que torna possfveis todas as slnteses da subjetividade.
Tal é pelo menos a posic;ão da primeira Wíssencha/tslehere. onde a imaginação produtiva é mado e refratado das condições reais e da atividade social dos homens,
aquilo cm que "é baseada a possibilidade de nossa consciência. de nossa vida: de nosso ser · ele em parte tem razão na medida em que vi~a a teori~~çã? explicita, na
para nós. ou sej a de nosso ser como Eu". Ver principalmente R. Kroner, Von Kant bis He- medida também em qtle esta é efetivamente (amda que nao mt~gralmente)
gel, 2 Auíl .. Tübingcn. 1961. vol. 1. p. 448 e s .• 447-480. 484-486. Esta intuição essencial foi sublimação e deformação ideológica, e que o sentido au~ênt1co de u~.ª
obscurecida cm seguida (e j á nas obras ulteriores de Fichte). sobretudo em função de um re- sociedade deve ser procurado em primeiro lugar na s.ua vida e su~ .at1v1-
torno ao problema da validade geral (Allge111eí11~ül1i~keí1) do saber, que parece quase im-
possível de pensar em termos de imaginação. (A questão é longamente tratada na segunda dade efetivas. Mas engana-se quando crê que esta vida e esta atividade
parle deste livro). possam ser captadas fora de um sentido que elas possuem. ou que esse
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sentido "é inquestionável" (que ele seria, por exemplo, a "satisfação das moléculas perecíveis, que responde à pergunta de seu ser e de sua identi-
necessidades"): Vida e atividade das sociedades são precisamente a pos.i- dade referindo-os a símbolos que a unem a uma outra ''.re~lidad~" ·
ção, a definição desse sentido; o trabalho dos homens (no sentido mais A nação (cujas funções reais desde o triunfo do c~p1tahsmo 1nd~s­
estrito e no sentido mais amplo) indica por todos os lados, nos seus obje- trial, gostaríamos que um marxista que não Stalin explicasse, para alem
tos, nos seus fins, nas suas modalidades, nos seus instrumentos, uma m a- dos acidentes de sua constituição histórica) tem hoje este papel, preenche
neira cada vez específica de captar o mundo, de definir-se como necessi- esta função de identificação por esta referência triplicemente imaginária
dade, de se estabelecer em relação aos outros seres humanos. Sem tudo a uma "história comum" - triplicemente, porque esta história é só pass·a-
isso (e não somente porque pressupõe a representação mental prévia dos do, porque não é tão comum, porque enfim o que de~a é ~abido e serve de
resultados, como diz Marx), ele não se distinguiria efetivamente da ativi- suporte a esta identificação coletivizante na consc1ênc1a das pessoas é
dade das abelhas, à qual poderíamos acrescentar· uma "representação mítico em sua maior parte. Esse imaginário da nação se revela no entanto
prévia do resultado" sem que nada mudasse. O homem é um animal in- mais sólido do que todas as realidades, como o mostram duas guerras
conscientemente filosófico, que fez a si mesmo as perguntas da filosofia mundiais e a sobrevivência dos nacionalismos. Os "marxistas" atuais que
nos fatos, muito tempo antes de que a filosofia existisse como reílexão acreditam eliminar tudo isso dizendo simplesmente: "o nacionalismo é
explícita; e é um animal poético, que forneceu no imaginário respostas a urria mistificação" evidentemente se automistificam. Que o nacion a lis~?
essas perguntas. seja uma mistificação, não resta dúvida. Que uma mistificaçâo te~ha efe~­
tos tão maciçamente e terrivelmente reais, que ela se mostre muito mais
Eis algumas indicações preliminares sobre o papel das significações
forte do que todas as forças "reais" (inclusive o simples instinto de_sobre-
sociais imaginárias nos domínios evocados mais acima.
vivência) que "deveriam" ter impelido há muito tempo os proletariado~ a
Primeiro, o ser do grupo e da coletividade: cada um se define, e é de- uma confraternização, eis o problema. Dizer - "a prova de que o nacio-
finido pelos outros, em relação a um "nós". Mas esse "nós", esse grupo, nalismo era uma simples mistificação, por conseguinte alguma coisa de ir-
essa coletividade, essa sociedade, é quem, é o que? É primeiro um sím bo- real, é que ele se dissolverá no dia da revolução mundial", não~ somente
lo, as insígnias de existência que se deram sempre cada tribo, cada cidade, cantar vitória antes da hora. é dizer: "Vocês, homens que viveram de
cada povo. Antes de tudo, é certamente um nome. Mas esse nome, con- 1900 a 1965 e quem sabe até quando ainda, e você~ os milhõ:s de i:n~r~os
vencional e arbitrário, será assim tão convencional e arbitrário? Esse sig- de d uas guerras, e todos os outros que sofreram com isso e sao sohdanos
nificante remete a dois significados, que reúne indissoluvelmente. Ele de- - todos vocês, vocês in-existem, vocês sempre inexistiram aos olhos da
signa a coletividade em questão, mas não a designa como simples exten- verdadeira história; tudo o que vocês viveram foram a!uci~ações, pobr.es
são, ele a designa ao mesmo tempo como compreensão, como alguma sonhos de sombras, não era a história. A verd adeira história era esse vir-
coisa, qualidade ou propriedade. Nós somos os leopardos. Somos as ara- tual invisível que será e que, traiçoeiramente, preparava. o fim de ~oss~s
ras. Somos os filhos do Céu. Somos os filhos de Abraão, povo eleito que ilusões". E esse discurso é incoerente, porque nega a reahdade da história
Deus fará triunfar sobre seus inimigos'. Somos os Helenos - os da luz. da qual participa (afinal um discurso não é uma. fo~ma ~o movimento d~s
Nós nos chamamos, ou os outros nos chamam, os germanos, os francos, forças produtivas) e porque ele convoca por meios irreais esses homens ir-
os teutos, os eslavos. Somos os filhos de D eus, que sofreu por nós. Se esse reais a fazerem uma revolução real.
nome fosse símbolo com função exclusivamente racional, ele seria signo Do IJlesmo modo, cada sociedade define e e labora uma imagem
puro, denotando simplesmente os que pertencem a tal coletividade ela do mundo· natural do· universo onde vive, tentando cada vez fazer um
própria designada por referência a características exteriores desprovidas conjunto significan'te, no quaf certamente devem encontrar lugar os obje-
de ambigüidade ("os habitantes do X)Ç1> distrito de Paris"). Mas isso não tos e seres naturais que importam para a vida da coletividade, mas tam-
é o-que ocorre, a não ser para as divisões administrativas das sociedades bém esta p rópria coletividade, e finalmente uma certa "ordem ~o mun-
modernas. Ao contrário, para as coletividades históricas de outrora, do". Esta imagem, esta visão mais ou menos estruturada. do 7on1unto da
constatamos que o nome não se limitou ·a denotá-las, que ele as conotou experiência humana disponível, utiliza as ~ervuras rac1ona1s do ~ado,
ao mesmo tempo - e esta conotação, liga-se a um significado que não é inas as ·dispõe segundo significações e as subordina a signi0cações 9u_e
nem pode ser real, nem racional, mas imaginário (qualquer que seja o como tais não dependem do racional (nem, aliás, de um racional pos1t1-
conteúdo específico, a natUreza particular, deste imaginário). vo ), mas sim do i~ginário. Isso é evidente tanto p~ra as crenç~s .das so-
M~s, ao mesmo tempo ou para além do nome, nos totens, nos deu-
ciedades arcaicas" como para as concepções rehg1osas das sociedades
ses da cidade, na extensão espacial e temporal da pessoa do Rei, se cons-
titui, adqui re peso e se materializa a instituição que coloca a coletividade 46. Pensamos que é nesta perspectiva que deve.ser visto cm grande parte o material exa-
como existente, como substância definida e durável para além de suas minado. principa lmente por Claude Lé11i-Strauss em La Pensée sauvage, e que de out ra ma-

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históricas: e mesmo o "racionalismo" extremo.das sociedades moderna5 Como se faz esta elaboração? Esse é um problema imenso, e toda
niio escapa totalmente a esta perspectiva. resposta "simples" que ignorasse a interaçã<? complex~ ~:um gra?d~ nú-
lmagerp do mundo e im agem de si mesmo estão evidentemente sem- mero de fatores (as disponibilidades naturais, as posstb1 l ~dades tecnicas,
rre ligadas". Mas sua unidade é por sua vez trazida pela definição que o estado "histórico", os jogos do simbolismo, etc.) sena. desesperada-
cada sociedade dá de suas necessidades, tal como ela se inscreve nºa ativi- mente ingênua. Mas é fácil ver que o que cof!Stitui.a necessidade.humana
dade. o fazer social efetivo. A imagem de si mesma que se dá a sociedade (como distinta d~ necessidade animal) é o. mvesu~ent? _do objeto ~o_m
comporta como mo mento essencial a escolha dos objetos, atos, etc., onde um valor que ultrapassa, por exemplo, a simples mscnçao na op.os1ça·o
se encarna o que para ela tem sentido e valo r. A sociedade se define como "instintual" nutritivo-não nutritivo (que "vale" também para o animal) e
aquilo cuja existência (a existência "valorizada", a existência " digna de que estabelece no inteiror do nutritivo. a diferença en.tre_o com.ível e o
ser vivida") pode ser questionada pela a usência ou a escassez de tais coi- não-comlvel, que cria o alimento no sentido cultural e d1spoe os ahment~s
sas e, correlativamente, como atividade que visa a fazer existir essas coi- numa hierarquia, classifica-os em "melh.or~s" e "menos .bons" (no senti-
sas em quantidade suficiente e segundo as modalidades adequadas (coi- do do valor cultural, e não de gostos subjetivos). Essa retirada cultural no
sas que podem ser, em certos casos, perfeitamente imateriais, por exem- nutritivo disponível, e a hierarquização, estruturação, etc., .correspo!1-
plo, a "sant.idade"). dentes encontram pontos de apoio em todos os dados naturais, mas nao
Sabemos desde sempre (pelo menos desde Heródoto) que a necessi- decorr~m destes. É a necessidade social que cria a raridade como raridade
dade, seja alimentar, sexual, etc, só se torna necessidade social em função social e não o inverso ~9. Não é nem a disponibilid ade, nem a raridade dos
de uma elaboração cultural. Mas nos recusamos a maior parte do tempo caramujos e das rãs que fazem com que, para culturas anál? gas, co~ tem ­
obstinadamente a tirar as conseqilências desse fato ( que refuta, já o disse- porâneas e próximas, eles são aqui, prato de goumerl requmtado, la, vo-
mos, ~oda interpretação funcionalista da história como "interpretação initório de eficácia segura. Basta fazermos o catálogo de tudo o que ~s
última" (porquanto, longe de ser última, ela permanece suspensa no ar homens podem comer e efetivamente comeram (e conservando bo.a sau-
por não poder reSP.Onder a esta pergunta: O que define as nec essidades de de) através das diferentes épocas e sociedades, pa ra perceberpos que o .
uma sociedade?). E claro também que nenhuma interpretação "raciona- que é comível para o homem ultrapassa de longe º.que j~ ~~i, p_a ra cada
lista" pode bastar para explicar •esta ela boração cultural. Não conhece- cultura alimento e que não são simplesmente as d1sponib1hdades natu-
mos .sociedade onde.ª alimentação, o vestuário, o habitat obedeçam a rais e a's possibilidades técnicas que ~eterminam essa esc~lha. Isso se ~ê
considerações puramente "utilitárias" ou "racionais". Não conhecemos ainda mais claramente quando exammamos outras necessidades que nao
cultura onde não haja alimentos "inferiores", e ficaríamos espantados se a alimentação. Essa escolha é feita p or um sistema de significações imagi-
jamais houvesse existido uma (afora casos "catastróficos" ou marginais, nárias que valorizam e desvalorizam, estruturam e hierarquizam um co~_­
como os aborígenes australianos descritos em Les Enfants du capitaine junto cruzado de objetos e de faltas correspondent<:s, e !'º.qual pode-se
Grant) 0 • ler, mais facilmente que em qualquer outro, :ssa coisa tao mcerta como
neira as honiologias de estrutura entre natureza e sociedade, por exemplo no totcmismo
incontestável que é a orientação de uma. sociedade: . .
("verdadeiro" ou " pretenso"), permanecem incomprccnslveis. Paralela mente a esse conjunto de objetos const1tu1dos correlativos e
47. A bem dizer, isso é uma tautologia, porqua nto não vemos como uma sociedade po- consubsta ncialmente às necessidades, define-se uma estrutura ou uma ar-
~eria "representar-se" a si mesma sem se situar no mundo: e sabemos que tod as as religiões ticulação da sociedade, como vemos no totemismo ("verdadeiro" ou
mserem de um modo ou de outro o ser da humanidade num sistema do qual deuses e mun- "pretenso"), qua ndo por exemplo a função de um clã é de "fazer exi.stir"
do fazei!' parte. lgualm~ntc sabemos, pelo menos desde Xénofanes (Diels, 16). que os ho· para os outros sua espécie epônima.,~~st~ "~tapa'', o~ melh.or, varieda-
mens criam os deuses à sua própria imagem, pelo que é preciso entender à ima_gcm de suas
relações efetivas, elas próprias marcadas de imaginãrio, e a imagem da imagem que eles têm de, a articulação social é homóloga a d1stmçao dos ob~etos, as vezes for-
dessas relações (sendo esta última grandemen te inconsciente). O s trabalhos de G . Dumézil ças da atureza, que a sociedade estabeleceu como pertmente. Quand9 os
m~st raram com p recisão, hã vinte e cinco anos, a homologia de articulação e ntre un iverso
social e universo das divindades através do e xemplo d as religiões indo-européias. a na socie-
dade contemporânea que pela p ri meira vez, a o mesmo tempo cm que esta ligação persiste
sob mútiplas formas, ela é questionada, porque imagem do mundo e imagem da sociedade 49. C omo pensa Sartre. Critique de la raison dia~eC'tique. p. 200 e s. ~artre cheg'a' ãt~ a es-
se dissociam, mas, sobretudo, p o rque elas tendem a deslocar-se cada uma por sua conta. crever: "Assim. na medida cm que o corpo é íunç~o, a íunçào ~cc~s.s1~~de e a nccess1dad.c
Esse~ um dos aspectos da crise d o imaginário (instituldo) no mundo moderno, ao qual vol- praxis, podemos di zer que o trabalho hum'!'!º··· i inteiramente .~1~/e~1~0 (p. 173-174 ...subli-
ta remos mais adiante. · nhado n o texto). !:; divertido ver Sartre crruca r longamente a d aa leuca da na.turcza pa_ra
48. "Esses seres: de_gradad os pela miséria, eram repulsivos". Júlio Verne, Les Enfants du chegar. pela distorção d~stas identificaç~es succssiv.as co~po·í~.mçà~·neccss1dadc-prax1s­
capitaine Grant, Paris, H áchettc, 1929, p. 3ó2 e s. Ycrnc deve, conforme seu hábito, 'ter to· trabâlho -dialética a "naturaliza r" a dialéuca. O que e preciso dizer, e que nos falta cruel-
mado os elementos de sua narrativa de um viajante ou ellplorador d a época. (Ver também mente uma teoria' da praxis nos himenópteros. que talvez a continuação da Critique de ia
ago ra C oli n Tu rnbull, Un peuple de fauves, Stock, 1973). ralson dia/eC'tique forneça .
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objetos são colocados como secundários relativamente aos m"ovimentos Porque, aparecendo o excesso, nã.o foi ele gradual e imperceptivelmente
abstrato~s das atividadc:s sociais que os produzem - o que sem dúvida reabsorvido num bem-estar crescente (ou um mfnimo "mal-estar") do
pressupoe uma evoluçao desenvolvida dessas atividades como técnica conjunto da tribo, como não se tornou parte integrante da definição do
u!11a extensão do tamanho das comunidades, etc. - são essas próprias ati~ "mínimo" para a coletividade considerada .•? Os casos em que as classes
v1dades que fornecem o fundamento de uma articulação da sociedade exploradas são reduzidas a um mínimo biológico existiram a_lguma vez,
não mais em clãs, mas em castas. ' de outra maneira que não como casos marginais? Podemos mesmo defi-
O aparecimento da divisão antagônica da sociedade em classes no nir um "mínimo biológico" e, fora de condições sem significação, tere-
sentido marxista do termo, é, sem dúvida, o fato capital para o nasci~en­ mos alguma vez encontrado uma coletividade humana que só se ocupe áe
to e a evolução das sociedades históricas. Forçosamente temos que reco- sua alimentação? Não terã havido," durante o paleolftico e o neolítico,
nhecer que ele permanece envolvido num denso mistério. uma progressão, pensando bem, fantástica da produtividade do trabalho
Os marxistas que acreditam que o marxismo explica o nascimento a e sem dúvida também do nível de vida -, sem que possamos falar de
f~nção, e.ª "razão de ~er~', das classes não estão num nível de compree~­ "classes" no sentido verdadeiro do termo? Não existe por trás de tudo
sao superior ao dos cnstaos que crêem que a Bíblia explica a criação e a isso como a imagem de homens que aguardam o momento em que o cres-
razão de ser do mundo. A pretensa "explicação" marxista das classes re- cimento .da produção atingirá a cota "permitindo" a exploração para se
duz-se 4e fato a dois esquemas, sendo cada um dos quais insatisfatório e arremessarem uns sobre os outros e estabelecerem-se os vencedores, se-
que, tomadds em conjunto, são' heterogêneos. O primeiro·ro· consis"te em nhores, os vendidos, escravos? Esta própria imagem, não corresponde
colocar, na origem da evolução, um estado de penúria por assim dizer ab- sobretudo ao imaginário do século XlX capitalista, e como poderconci-
soluta, no qual, a sociedade sendo incapaz de produzir um "excesso" liar-se com as descrições dos lroqueses e dos Germanos cheios de huma-
qu~lquer, também não pode _manter uma camada exploradora (a produ- nidade e de nobreza, sobre os quais Engels se estende com complacência?
t1v1dade por_ homem_-ano é Justamente igual ao mínimo biológico, de O segundo esquema consiste em ligar, não a existência das classes
modo que nao podertamos explorar alguém sem fazê-l o morrer de inani- como tal a um estado geral da economia (à existência de um "excesso"
ção mais cedo ou mais tarde). No fim dá evolução haverá, como sabe- que permanece insuficiente), mas cada forma precisa de divisão da socie-
mos, um estado de absolut~ abundância onde a exploração não terá ra- . dade a uma etapa dada da técnica. "Ao moinho movido a braço corres-
zão de ser, cada qual podendo satisfazer totalmente suas necessidades. . ponde a sociedade feudal, ao moinho a vapor a sociedade capitalista".
Entre os ?~is, situa-se a história conhecida, fase de relativa penúria, onde Mas, se a existência de uma relação entre a tecnologia de cada sociedade
a pro.du.t1~1dade do trabalho elevou-se suficientemente para permitir a e sua divisão em classes não pode ser negada sem absurdo, é totalmente
constttmçao de um excedente, o qual servirá (somente em pa rte) para diferente querer basear esta naquela. Como imputar a uma técnica agrí-
manter a classe exploradora. cola que permaneceu praticamente a mesma do fim neolítico aos nossos
Esse raciocínio se desmorona qualquer que seja o lado pelo qúara· dias (na grande maioria dos países), ligações sociais que vão das hipot~ti­
examinamos. Admitindo que a partir de um momento as classes explora- cas mas prováveis coinunidácies agrárias primitivas aos fazendeiros livres
doras se tenham tornado possíveis; porque se tornaram elas necessárias? dos Estados Unidos do século XIX, passando pelos pequenos lavrac;lores
independentes da primeira Grécia e da primeira Roma, pelo colono, pel.a
servidão medieval, etc.? Uma coisa é dizer que os grandes trabalhos hi-
50. !)o ponto de vista da generalidade, não da cronologia. Nos escritos de Marx e de En- dráulicos condicionaram ou favoreceram a existência de uma proto buro-
s<:f~!~s ~_9is.~rincipios de explicação coexi.s tem e se entrecruzam. De qualquer maneira, En- cracia centralizada no Egito, na Mesopotâmia, na China, etc.; outra é li-
gels em 1 Origcne de la familie, etc. ( 1884) - obra aliás fascinante e que faz relletir mais do que
a grande maioria dos trabalhos etnológicos modernos - acentua francamente o aumento de gar a essa hidraulicidade constante através ?º
t~mpo e do esp.aço as ~a­
pro<!utividade permitido pelas "primeiras grandes divisões sociais do trabalho" (criação, riações extremas de um pafs a outro e na h1stóna de cada pais, da vida
agricultura) e que teria trazido consigo "necessariamente" a escravatura (p. 147-148 da edi- histórica e das "formas da divisão social. Os quatro milênios da história
ção das Edition.r Sociales, Paris, 1954). Esse "necessariamente" é todo o problema. Quanto egípcia não são redutíveis a quatro mil enchentes do ~ilo, n.e~ à ~ariação
ao resto, ao _longo ?o capitulo "Barbarie et Ci~ilisation", onde a questão da aparição das
dos meios utilizados para controlá-las. Como reduzir a ex1stenc1a de se-
classes devena te~ sido tratada. Engels fala continuamente da evolução da técnica e da divi-
são do trabalho ç<Sncornitante, mas em nenhum momento ele liga essa evolução da técnica nhores feudais à especificidade das técnicas produtivas da época, quando
com~ tal ao nascimento.das classes. Como o poderia, aliás, já que sua matéria o conduz a esses senhores estão por definição fora de qualquer produção?
considerar ao mesmo tempo as primeiras etapas da criação , da agricultura, e do artesanato,
a~i~idades b~seadas erq técnicas diferentes e conduzindo à (ou compatíveis com) mesma di-
v~sao da soc1c?a~e em 'sen~ores e escravos (ou com a ausência de uma tal divisão)? O apare- • Do momento cm que uma sociedade produz um "excesso", ela devora urna parte es-
cimento da cnacao. da agricultura e do artesanato podem em si mesmos conduzir a urna di- sencial em atividades absurdas tais como os funerais, as cerimônias, as pinturas de murais, a
visão em olicios. não e.m classes. construção de pirâmides, etc.
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Quando as interpretações marxistas ultrapassam os esquemas sim- dades ocidentais, o transcrescimento do empreendimento capitalist~ clás-
ples, quando elas se referem à matéria concreta de uma situação históri- sico (a "grande indústria" de Marx), que se liga por sua vez à manufatu-
ca, então abandonam, na melhor hipótese, a pretensão de tratar do fator ra, etc., e no limite, ao artesanato b.u:guês por um lado, à " a.c_umulação
que produziu esta divisão da sociedade em classes, então tentam dar-se, primitiva", por outro. Sabemos pos1t1vamente que nessas reg1oes da. Eu-
como meio de e.xplicação, a totalidade da situação considerada enquanto ropa Ocidental, a partir do século XI, nasceu primeiro a buri~ues1a (e
situação histórica, ou seja que remete, para sua explicação, ao que já esta- como classe verdadeiramente ex nihi/o), em seguida o capitalismo. Mas o
va dado. Foi o que Marx fez com felicidade quando descreveu certos as- nascimento da burguesia só é nascimento de uma c.l~sse porque é nasci-
pectos ou fases da gênese do capitalismo "'. Mas é preciso compreender o mento em uma sociedade já dividida em classes (ut1hzamos, deverão ter
que isso significa, tanto para o problema da história em geral, como para compreendido, a palavra no sentido mais geral, po~co importa aqui a ~i­
o problema mais especifico das classes. Então não temos mais uma expli- ferença entre "estados" feudais, "classes" econômicas. etc.• ~. n~m !11e10
cação geral da história, mas uma explicação da história pela história, onde os ácidos nucleicos portadores desta informação, que e a significa-
uma aproximação progressiva, que tenta fazer com que tenha importân- ção classe, estão presentes em toda parte. Eles o estão na p~opriedad: pri-
cia o conjunto dos fatores, mas que encontra sempre os fatos, os fatos vada que se desenvolve há milênios, na estrutura hierárqmca da socieda-
"brutos", como aparecimento de uma nova significação não redutível ao de feudal, etc. Não é nos traços específicos da burguesia nascente (pode-
que existe, e também como prçdetermiÍlação de.tudo que é dado na si- mos perfeitamente conceber um artesanato "igualitário") mas na estrutu-
tuação por significações e estruturas já existentes, que se ligam "em últi- ra geral da sociedade feudal que está inscrita a necessidade, para a nova
ma análise" ao fato bruto de seu nascimento oculto numa origem inson- camada de se estabelecer como categoria particular oposta ao resto da
dável. Isso, não para dizer que todos os fatores estão no mesmo plano, sociedade: a burguesia nasce em um mundo que só pode conceber e agir
nem que uma teorização sobre a história é inútil ou sem interesse; mas sua diferenciação interna como categorização em "classes". Basta repor-
para salientar os limites desta teorização. Porque não somerite nós temos ta-se à queda do Império Romano? Certamente não, esta não criou uma
que tratar, na história, de alguma coisa que está sempre já começada, ou tábula rasa e os Germanos, qualquer que pudesse ter sido sua organiza-
o que já está constituído, em sua fâcticidade e sua especificidade, não ção social anterior, foram sem sombra de d~vidas, "contaminados" pelas
pode ser tratado como simples "variação concomitante" da qual po- estruturas sociais que encontraram.
deríamos fazer abstração; mas também, e sobretudo, o histórico só existe Não podemos interromper este recuo antes que nos tenha mergulha-
cada vez em uma estruturação trazida por significações cuja gênese nos do na obscuridade que cobre a passagem do neolítico à proto-história.
escapa como processo compreensível, visto que ela pertence ao imaginá- No que não passou provavelmente de dois ou três .m}lênios, .no Orient.e
rio radical. Próximo e Médio pelo menos, encontramos a trans1çao das vilas neolíti-
Podemos descrever, explicar e até "compreender" como e porque as cas mais evoluídas mas sem vestígio aparente de divisão social, às primei-
classes se perpetuam na sociedade atual. Mas não podemos dizer grande ras cidades sumerianas onde desde o começo do século IV milenar antes
coisa quanto à maneira como nascem, ou melhor, como nasceram. Por- de Cristo existe de inicio e sob uma forma praticamente já concluída o es-
que toda explicação desse tipo toma as classes nascentes em uma socieda- sencial de toda sociedade bem organizada: os padres, os escravos, a polí-
de já dividida em classes, onde a significação classe já estava disponível. cia, as prostitutas. O j ogo já está feito e não podemos saber como e porque
Uma vez nascidas, as classes informaram toda a evolução histórica ulte- assim se deu.
rior; uma vez que entramos no ciclo da riqueza e da pobreza, do poder e Sabê-lo-emos algum dia? Escavações mais desenvolvidas farão com-
da submissão, uma vez que a sociedade se instituiu, não com base nas di- preender o mistério do nascimento das classes? Confessamos não poder
ferenças entre categorias de homens (que provavelmente sempre existi- ver como as descobertas arqueológicas poderiam fazer compreender isso:
ram) mas nas diferenças não simétricas, toda a seqüência se "explica"; a
que partir de um "momento" ' os homens se viram, e agiram uns em re-
mas essa "uma vez" é todo o problema. lação aos outros, não como aliados para ajudar, rivais para dominar, ini-
Podemos ver o que, nos mecanismos da sociedade atual~ sustenta a migos para exterminar ou mesmo comer, mas como objetos para possuir.
existência das classes e as reproduz constantemente. A organização buro- Como o co.nteúdo desta visão e desta ação é perfeita mente arbitrário, n ão
crática é autocatalítica, automultiplicativa, e podemos ver como ela in- vemos em que poderia consistir sua explicação e sua compreensão. Como
forma o conjunto da vida social. Mas de onde vem ela? e1a é, nas socie- poderíamos constituir o que é constituinte das sociedades históricas?
Como compreender esta posição originária, que é condição de compreen-
• Sobre a oposição entre as descrições históric as de Marx, e sua cons trução do " concei-
'sibilidade do desenvolvimento ulterior? f: preciso dar-se, já possuir esta
to" de classe. ver "La Question de l'histoire du mouvement ouvrier", in /'Ex périence du significação inicial: um homem pode ser "quase-objeto" para um outro
m o uve111e111 ouvríer, l, /.e., p. 45-66. homem, e quase-objeto não numa relação a d.ois, privada, mas no anoni-
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mato da sociedade (no mercado de escravos, nas cidades industriais, e as - e evidentemente isso significa, aqui mais do que em qua lquer outro lu-
fábricas de uma grande parte da história do capitalismo), para poder gar: agir - a contingência, a pobreza, a insignificância deste "significan-
compreender a história há seis milênios. Podemos compreender hoje esse te" das sociedades históricas que é a divisão em senhores e escravos. em
estado de "quase-objeto" porque dispomos desta significação, nascemos dominantes e dominados.
nesta história. Mas seria uma ilusão crer que poderíamos produzi-la, e re- Mas o questionamento desta significação que representa a divisão
produzir, na compreensão, sua emergência. Os homens fizeram existir a da sociedade em classes, a decantação deste imaginário, de fato começa
possibilidade da escravidão: isso foi uma criação da história (sobre a qual muito cedo na história, já que, quase ao mesmo tempo que as classes apa-
Engels dizia, sem cinismo, que foi a condição de um grandioso progres- rece a luta das classes e, com ela, esse fenômeno primordial que abre uma
so). Mais exatamente; uma fração dos homens fez existir esta possibilida- nova fase da existência das sociedades: a contestação, a oposição no inte-
de contra os outros, os quais, sem.cessar de combatê-la de mil maneiras rior da própria sociedade. O que era até então reabsorção imediata da co-
dela também participaram de mil maneiras. A instituição da escravidão ê letividade em suas instituições, simples sujeição dos homens às suas cria-
ções imaginárias, unidade que só marginalmente era perturbada pelo des-
aparecimento de uma nova significação imaginária, de uma nova manei-
ra de se viver para a sociedade, de se ver e de se agir como articulada de vio ou a infração, torna-se agora totalidade dilacerada e conflitual, auto-
maneira antagônica e não simétrica, significação que se simboliza e se contestação da sociedade; o interior da sociedade torna-se seu exterior, e
sanciona imediatamente pelas regras 11 . isso,_ na medida em que significa a auto-relativização da sociedade, o dis-
Esta significação é estritamente ligada às outras significações imagi- tant1amento e a crítica (nos fatos e nos atos) do' instituído, é a primeira
nárias centrais da sociedade, especialmente a definição de suas necessida- emergência da autonomia, a primeira fissura do imaginário (instituído).
des e sua imagem do mundo. Não examinaremos aqui o problema que E: certo que esta luta ~omeça, demora muito tempo, recai quase sem-
esta relação coloca. pre novamente, na ambigUidade. E c·o mo poderia ser de outra maneira?
Mas· esta impossibilidade de compreender as origens das classes não Os oprimidos, que lutam contra a divisão da sociedade em classes, lutam
nos deixa desarmados ante o problema da existência das classes como sobretudo contra sua própria opressão; de mil maneiras eles permanecem
problema atual e prático - assim como em psicanálise a impossibilidade tributários do imaginário que combatem em uma de suas manifestações,
de a.tingir uma "origem" não impede de compreender no áiua/ (nos dois e c.om freqüência o 9ue visam nada mais é do que uma permutação de pa-
sentidos da palavra) o que está ~m questão, nem de relativizar, despren- péis no mesmo roteiro. Mas também muito cedo, a classe oprimida res-
der, "dessacramentar" as significações constitutivas do sujeito como su- ponde negando maciçamente o imaginário social que a oprime, e opon-
jeito doente. Chega um momento em que o sujeito, não porque encon- do-lhe a realidade de uma igualdade essencial dos homens mesmo se ela
trou a cena primária ou detectou a inveja do pênis em sua avó, mas por mantém em torno desta afirmação uma vestimenta mític'a:
sua luta na sua vida efetiva e à força de repetição, descobre o significante Wenn Adam grub i.md Eva spann,
central de sua neurose e finalmente olha-o na sua contingência, sua W o war denn da der Edelmann?
pobrez~ e sua insif!.nific_ância. Do mesmo modo, para os homens que vi- (Quando Adão cavava e Eva tecia,
vem hoje, a questao nao é compreender como se fez a passagem do clã Onde esta~a e(ltão o nobre?)
neolítico às cidades já grandemente divididas de Akkad. É compreender ·cantavam os camponeses alemães no século XVI, incendiando os castelos
dos senho res.
? 1: .Engels havia quase atingido esta idéia: "Vimos mais acima como, n um grau bastante Êste questionamento do imaginário social tomou outra dimensão
pnm1t1vo do desenvolvimento da produção, a força do trabalho humano torna-se capaz de ~pós o nascimento do proletariado moderno. Voltaremos longamente a
fornecer um produto bem mais considerâvel do que é necessário à subsistência dos produ- isto.
tos, e como i:st.e grau de desenvolvimento é, essencialmen te, o mesmo que aquele em que
aparece~ a d1v1são d~. trabalh~ e a troca entre indiv!duos. Não foi preciso muito tempo para
descobrir. esta grande verdade : que o homem lambem pode ser uma mercadoria. que a força
humana e matéria trocável e explorável, se transfom1amos o homem em escravo. Tão logo os
h°.mens começaram a praticar~ troca j<! eles próprios, foram trocados". (L'Origine de lafa-
O imaginário no mundo moderno
11111/e, etc, l.c.. p. 160-161, sublinhado por nós). Esta grande "verdade". essencialmente a
mesma que a "impostura" denunciada por Rosseau no Discours sur /'origine de L'i11éga/i1r? . ~ mundo moderno apresenta-se, superficialmente, como aquele que
- ne~ verdade, nem impostura, portanto, podiam ser "descobertas" ou,"inventadas": era !mpehu, q~e tende a impelir a racionalização ao seu extremo e que, por
pre~1so que fossem imagi11adas e criadas-. Isto posto, observaremos que Engels apresenta, isso, permite-se desprezar - ou olhar CC!m uma curiosidade respeitosa - os
aqui e alhures, a escrnvi~ão como uma extensão da troca de objetos por homens. enquanto estranhos costumes, invenções e representações imaginárias das socieda-
~ue seu m~me.nto essencial é a transformação dos homens em "objetos" - e é precisamente
isso que nao e redutível a considerações "econômicas''. des precedentes. Mas, paradoxalmente, apesar de, ou melhor. por causa
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desta "racionalização" extrema, a vida do mundo moderno depend'e do estão mais na moda ou não possuem tal ou qual "aperfeiçoamento" fre-
imaginário tanto como qualquer das culturas arcaicas ou históricas. qüentemente ilusório.
O que se dá como racionalidade da sociedade moderna, é simples- É inútil apresentar esta situação exclusivamente como uma "respos-
mente aforma, as conexões exteriormente necessárias, o domínio perpé- ta substitutiva", como oferta de substitutos para outras necessidades, ne-
tuo do silogismo. Mas nesses silogismos da vida moderna, as premissas cessidades "verdadeiras", que a presente sociedade deixa insatisfeitas.
tomam seu conteúdo do imaginário: é a prevalência do silogismo como Porque, admitindo que tais necessidades existam e que possamos defini-
tal, a obsessão da "racionalidade" separada do resto, constitui um imagi- las, torna-se aindà mais surpreendente que sua realidade possa ser total-
nário em segundo grau. A pseudo-racionalidade moderna é uma das for- mente encoberta por uma "pseudo-realidade" (pseudo-realidade co-
. mas históricas do imaginário; ela é arbitrária em seus fins últimos na me- extensiva, lembremos, ºa o essencial da indústria moderna). E igualmente
dida em que estes não dependem de nenhuma razão, e é arbitrária quan- inútil querer eliminar o problema, limitando-o a seu aspecto de manipu-
do se coloca como fim, visando somente uma "racionalização" formal e lação da sociedade pelas camadas dominantes, lembrando o lado "fun-
vazia. Nesse aspecto de sua existência, o mundo moderno é atormentado cional" desta criação contínua de novas necessidades, como condição da
por um delfrio sistemático - do qual a autonomização da técnica desen- expansão (isto é, da sobrevivência) da indústria moderna. Porque, não
cadeada, e que não está "a serviço" de nenhum fim determinável, é a for- somente·essas camadas dominantes são também dominadas por este ima-
ma mais imediatamente perceptível e a mais diretamente ameaçador.a. ginário que não criam livremente; não somente seus efeitos se manifes-
A economia no sentido mais amplo (da produção ao consumo)pas- tam lá mesmo onde a necessidade, para o sistema, de confeccionar uma
sa pela expressão por excelência da racionalidade 9o capitalismo e das demanda, assegurando sua expansão, não existe (assim, nos países indus-
sociedades modernas. Mas é a economia qu.e exibe da maneira mais sur- trializados do Leste, onde a invasão do estilo de consumo moderno faz-se
preendente - precisamente P'?rque se pretende integral e exaustivamente já muito tempo antes que possamos falar de uma saturação qualquer dos
racional - a supremacia do imaginário em todos os níveis. mercados). Mas, sobretudo o que constatamos, com esse exemplo, é que
É esse visivelmente o caso no que se refere à definição das necessida- esse funcional está suspenso no imaginário: a economia do capitalismo
des que ela é suposta atender. Mais do que em qualquer outra sociedade, moderno só pode existir na medida em que ela respqnde às necessidades
o caráter "arbitrário", não natural, não funcional da definição social das que ela própria confecciona.
necessidades aparece na sociedade moderna, precisamente devido ao seu A dominação do imaginário é igualmente clara no que se refere ao
desenvolvimento produtivo, a sua riqueza que lhe permite ir muito além lugar dos homens, em todos os níveis da estrutura produtiva e econômi-
da satisfação das "necessidades elementares" (o que aliás, com freqüên- ca. Esta pretensa organização racional exibe já o sabemos e já o dissemos
cia, como contrapartida não menos significativa, do que a satisfação des- há' muito tempo, mas ninguém levou a sério, exceto essas pessoas que não
sas necessidades elementares é sacrificada à das necessidades "gratui- são sérias, os poetas e os romancistas, todas as características de um delí-
tas"). Mais do que nenhuma outra sociedade, também, a sociedade mo- rio sistemático. Substituir, tratando-se do operário, do empregado, ou
derna permite ver a fabricação histórica das necessidades que são manu- mesmo do "quadro", o homem por um conjunto de traços parciais esco-
faturadas todos os dias sob nossos olhas. A descrição deste estado de coi- lhidos arbitrariamente, em função de um sistema arbitrário de fins e por
sas foi feita desde há muitos anos; essas análises deveriam ser considera- referência a uma pseudó-conceituálização igualmente arbitrária, e tratá-lo
velmente aprofundadas, mas não temos a intenção de voltar a isso aqui. na prática de acordo c'o m isso, traduz uma prevalência· do imaginário,
Lembremos somente o lugar gradualmente crescente que assumem nas que, qualquer que seja sua "eficácia" no sistema, não difere em nada da-
despesas dos consumidores as compras de objetos correspondendo a ne- quela das sociedades arcaicas mais "estranhas". Tratar um homem como
-cessidad~s "artificiais"; ou então a reoovaçã_p, sem nenhuma razão "fun- coisa ou como puro sistema mecânko não é menos, mas mais imaginário,
cional" de objetos que podem ainda servir n, simplesi:nente porque não do que pretender ver nele uma coruja, isso representa um o utro grau de
aprofundamento no imaginário; pois não somente o parentesco .real do
.homem com uma coruja é incomparavelmente maior do que o é com uma
52. Estimou-se recentemente que o simples custo das trocas anuais de modelos para os' máquina, mas também nenhuma sociedade primitiva jamais aplicou tão
carros particulares nos Estados Unidos atinge 5 milhões de dólares por ano no mínimo para radicalmente as <:onseqüências de suas assimilações dos homens a outra
o período 1956-1960, soma que ultrapassa 1% do produto nacional do país (e amplamente.
superior ao produto nacional anual da Turquia, país de 30 milhões de habitantes), sem con-
tar o consumo da gasolina acrescido (em relação às economias que teria permitido a evolu-'
ção tecnológica). Os economistas que apresentaram este cálculo no quadragésimo sétimo das.. pelos consumidores. "Entretanto. os cu.stos foram tão eJ1traordinariamente cievados.
congresso anual da Associação econômica americana (dezembro 1961) não negam que essas que pareceu valor a pena apresentar a soma e perguntar-se retrospectivamente se eles a va-
trocas tenham podido também trazer melhoria$ nem que elas pudessem ter sido "deseja- lem.. (Fischer. Griliches and Kaysen in American Economic Reviell', mai 1962. p. 259).
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coisa, como o faz a indústria moderna com sua metáfora do homem- americanos (principalmente Riesman e Whyte) dos valores de "rendi-
autômato. As sociedades arcaicas parecem sempre conservar uma certa mento" aos valores de "ajustamento". A pseudo-racionalidade "analíti-
duplicidade nessas assimilações; mas a sociedade moderna toma-as, na ca" e reificante tende a ceder lugar a uma pseudo-racionalidade "totali-
sua prática, ao pé da letra da maneira mais selvagem. Não existe nenhu- zante" e "socializante" não menos imaginária. Mas esta evolução, embo-
ma diferença essencial, quanto ao tipo de operações mentais e mesmo de ra seja um indicador muito importante das fissuras e finalmente da crise
atitudes psiquicâs profundas, entre um engenheiro tayloriano ou um psi- do sistema burocrático. uão altera suas significações centrais. Os ho-
cólogo industrial, que isolam gestos, medem os coeficientes, decompõem mens, simples pontos nodais no entrelaçameiíto da:i mensagens, só exis-
a pessoa em "fatores" totalmente inventados e a recompõem em um ob- tem e valem em função dos "status" e das posi;;õe!r que ocupam na escala
jeto secundário; e um fetichista, que goza com a visão de um sapato de hierárquica. O essencial do mundo é sua redutibilidade a um sistema de
salto alto ou pede a uma mulher que imite por gestos um lampadário. regras formais inclusive as que permitem •·calcular" seu futuro. A reali-
Nos ~ois casos, vemos em ação esta f9rma particular do imaginário que é dade só existe na medida em qi;e é registrada, no limite, o verdadeiro não
a identificação do sujeito com o objeto. A diferença é que o fetichista é nada e somente o documento ,,; verdade. E aqui surge o que nos parece
vive num mundo privado e sua fantasia não tem efeitos para além do par- ser o traço específico, e mais profundo, do imaginário mod'erno, o mais
ceiro que a elas se presta de bom grado; mas o fetichismo capitalista do pleno de conseqUências e também de promessas. Este imaginário não
"gesto eficaz", ou do indivíduo definido por testes. determina a vida real possui carne própria, ele toma sua matéria de outra coisa, é investimento
do mundo social ,,, fantástico , valorização e autonomização de elementos que em si mesmos
Citamos mais acima o esboço que Marx já fornecia do papel do não dependem do imaginário: o racional limitado do entendimento, e o.
imaginário na economia capitalista, falando do "carát'er fetichista da simbólico. O mundo burocrático autonomiza a racionalidade num dos
mercadoria". Este esboço deveria ser prolongado por uma análise do seus momento!> parciais, o do entendimento, que não se preocupa com a
imaginário na estrutura institucional que assume cada vez mais, ao lado e correção das conexões parciais e ignora a questão dos fundamentos, da
além do "mercado", o papel central na sociedade moderna: a organiza- totalidade, dos fins. e da relação da razão com o homem e com o mundo
ção burocrática. O universo burocrático é povoado de imaginário de uma (é por isso que chamamos sua "racionalidade" de pseudo-racionalidade);
extremidade a outra. Geral~ente, não prestamos atenção a isso - ou so- e ele vive, essencialmente, num universo de símbolos que, a maior parte
mente para gracejar-. porque só vemos ai excessos. um abuso da rotina do tempo nem representam o real, nem são necessários para pensá-lo ou
ou "erros", em suma, determinações exclusivamente negativas. Mas exis- manioulá-lo; é aquele que realiza ao extremo a autonomização do puro
te seguramente um sistema de significações imaginárias "positivas" que simbolismo. ·
articulam o universo burocrático, sistema que podemos reconstituir a Essa autonomização, o grau de influência que ela exerce sobre a rea-
partir dos fragmentos e dos índices que oferecem as instruções sobre a or- lidade social a ponto de provocar seu deslocamento, bem como o grau de
ganização da produção e do trabalho, o próprio modelo desta organiza- alienação a que ela submete a própria camada dominante, foi possível
ção, os objetivos que ela se propõe, o comportamento típico da burocra- vê-las, sob suas formas extremas, nas economias burocráticas do Leste,
cia, etc. Esse sistema, aliás, evoluiu com o tempo. Traços essenciais da sob'retudo antes de 1956, quando os economistas poloneses, para descre-
burocracia de outrora, como a referência ao "precedente", a vontade de ver a situação de seu país, tiveram que inventar o termo "economia da
abolir o novo como tal e de uniformizar o fluxo do tempo, foram substi- Lua". Pelo fato de ficar aquém desses limites em tempos normais, nem
tuídos pela antecipação sistemática do futuro; a fantasia da organização por isso a economia ocidental deixa de apresentar os mesmos traços es-
como máquina bem lubrificada cede l~gar à fantasia da organização senciais.
c:omo máquina auto-reformadora e auto-expansiva. Do mesmo modo, a · Este ~xempl? _não deve gerar confusão quanto ·ao que compreende-
visão do homem n9 universo burocrático tende a evoluir; existe, nos seto- mo_s por 1magmar10. Quando a burocracia se obstina em querer cons-
res "progressistas" da ofganização burocrática, passag~m da imagem do truir um metrô subterrâneo numa cidade - Budapest - onde isso é fisica-
autômato, da máquina parcial, para a imagem da "personalidade bem ~ente impossível; ou quando não somente ela sustenta ser ante a popula-
integrada num grupo", paralela à passagem notada pelos sociólogos çao que o plano de produção foi realizado, mas ela própria continua a
agir, decidir, e empenhar em pura perda de recursos reais, como se ele ti-
vesse sido realizado, os dois sentidos do termo imaginário, o mais corren-
53. A rcificaçào tal como a analisava Lukacs (Histoire et consden'ce de classe Paris ~e e superficial, e o mais profundo, se juntam, e nada podemos quanto a
1960, especialmente p. 110 a 141), é evidentemente uma significação imagínária. Mas ela isso. Mas sobretudo o que importa, é evidentemente o segundo, que po-
nele só aparece como tal. porque a res possui um valor filosófico místico. na medida em
que, precísamente ela é uma categoria "racíonal" podendo entr:ir numa "dialétic:i históri- demos ver em ação, quando uma economia moderna funciona eficaz e
ca". realmente, segundo seus próprios critérios·, quando ela não é sufocada
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pelas excrescências em segundo grau de seu próprio simbolismo. Pois en- o que estava sempre aí "no início", o que, de um certo modo, está sempre
tão o caráter pseudo-racional de sua "racionalidade" ·a parece claramen- aí "no .início"? A bem dizer, a própria expressão "se autonomizar" é visi-
te: tudo é efetivamente subordinado à "eficácia" - mas a eficácia parà velmente inadequada a esse respeito; não estamos lidando com um ele-
quem, com vistas a que, para fazer o que? O crescimento. econômico se mento que, primeiro subordinado, "se desliga" e torna-se autônomo
realiza; mas é crescimento de que, para quem, a que custo, para chegar a num segundo tempo (real ou lógico), mas com o elemento que constitui a
que? Um momento parcial de sistema econômico {nem sequer o momento história como tal. Se existe alguma coisa que é problema, será antes a
quantitativo: uma parte do momento quantitati~p concernente a certos emergência do racional na história e, sobretudo, sua "separação", sua
bens e serviços) é erigido em momento soberano da economia; e, repre- constituição em momento relativamente autônomo.
sentada, por esse momento parcial, a economia, ela própria momento da Se assim é, um imenso problema já surge no plano da distinção de
vida social, é erigida em instância soberana da sociedade. conceitos. Como podemos distinguir as significações imaginárias das sig-
É precisamente porque o imaginário social moderno não possui car- nificações racionais na história? D efinimos mais acima o simbólico-
ne própria, é porque ele toma sua substância do racioQal, a um momento racional como aquilo que represent.a o real ou então é indispensável para
do racional que ele transforma assim em pseudo-racional, que ele contém pensá-lo ou para agi-lo. Mas o representa para quem? Pensá-lo como?
uma antinomia radical, que está fadado à crise e à usura, e que a socieda- Agi-lo em qual contexto? De que real se trata? Qual é a definição do real
de moderna contém a possibilidade "objetiva" de uma transformação do aqui implicada? Não está cl~r.9 que corremos o risco de int~oduzi r
que foi até aqui o papel .do imaginário na história. Mas antes de abordar sub-repticamente uma racionalidade (a nossa) para fazê-la representar o
este problema, é preciso considerar mais de perto a relação do imaginário papel da racionalidade? ·
e do racional. Quando, considerando uina cultura de outrora ou de outro lugar,
quaJificamos de imaginário tal elemento de sua visão do mundo, ou está
I~aginário e racional própria visão, qual é o ponto-de referencia? Quando nos encontramos,
não diante de uma "transformação" da terra cm divindade, mas diante
É impossível compreender o que foi , o que é a história humana, fora de uma identidade originária, para uma cultura da.da, da Terra-Deusa
da categoria do imaginário. Nenhuma outra permite refletir estas ques- mãe, identidade inextricavelmente entrelaçada, por esta cultura, co'm sua
tões: o que é que estabelece afina/idade, sem a qual a funcionalidade das maneira geral de ver, de pensar, de agir, e de viver o mundo, não é im-
instituições e dos processos sociais permaneceria indeterminada? O que é possivel qualificar esta identidade, sem mais, de imaginária? Se o simbóli-
que, na infinidade das estruturas simbólicas possíveis, especifica um siste- co-racional é o que representa o real ou o que é indispensável para pensá-
ma simbólico, estabelece as relações canônicas prevalcntes, orienta em lo ou agi-lo, não é evidente que esse papel é mantido também, em todas
uma das inúmeras direções possíveis todas as metáforas e as metonímias as sociedades, por significações imaginárias? O "real", para cada socie-
abstratamente concebíveis? Não podemos ·compreender uma sociedade dade não compreende, inseparavelmente, este componente imaginário,
sem um fator unificante, que fornece um conteúdo significado e o entre- tanto no que diz respeito à natureza como, sobretudo, no que se refere ao
lace com as estruturas simbólicas. Esse fator não é o simples "real", cada mundo humano? O "real" da natureza não pode ser captado fora de um
sociedade constituiu seu real (não nos daremos o trabalho de especificar quadro categorial, de princípios de organização do dado sensível, e estes
que es~~. constituição jamais é totalmente arbitrária). Ele também não -~ nunca são - mesmo em nossa sociedade - simplesmente equivalentes, sem
·~racionai", a inspeção mais sumária da história é sufidente parã mostrá- excessos, nem faltas, ao quadro das categorias construido pelos lógicos
lo; se ass~m. (os~e•.a.história não teria sido verdadei.ramente história, e sim (aliás, eternamente retocado). Quanto ao "real" do mundo humano, não
ascensã~ instantânea a uma ordem racional, ou rio máximo, pura pro.- é somente enquanto objeto possível de conhecimento, é de maneira ima-
gressão na racionalidade. Mas se a hfstória· coniém incontestavelmente"â nente, no seu ser em si e para si, que ele é categorizado pela estruturação
progressão da racionalidade - voltaremos a isto - ela não pode ser reduzi- social e o imaginário que este significa; relações entre indivíduos e gru-
da a tal. Um sentido surge aí, desde as origens, que não é um sentido de pos, comportamento, motivações, não são somente incompreensíveis para
real (referido ao percebido), que não é também racional, ou positivamen- nós, são impossíveis em si mesmos fora deste imaginário. Um primitivo
te irracional, que não é nem verdadeiro nem falso e no entanto é da ordem que quisesse agir ignorando as diferenças clânicas, um hindu de outrora
da significação, e que é a criação imaginária própria da história, aquilo que decidisse ignorar a cxist!ncia das castas, seria muito provavelmente
em que e pelo que a história se constitui para começar. louco - ou se tornaria rapidamente.
Não temos portanto que "explicar" como e porque o imaginário, as ~ preciso pois abster-se, falando do imaginário, de fazer deslizar .1
significações sociais imaginárias e as instituições que as encarnam, se au- uma imputação à sociedade considerada de uma capacidade racional abc
tonomizam. Como poderiam elas não se autonomizarem, já que elas são soluta que, presente desde o início, teria sido repelida ou encoberta pelo
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imaginário. Quando um individuo, crescendo em nossa cultura, apoia n- ao racional? teste imaginário que faz com que o mundo dos Gregos ou
do-se numa realidade estruturada de um modo preciso, mergulhando dos Aranda não seja um caos, e sim uma pluralidade ordenada, que o
num controle social perpétuo "decide" ou "escolhe" ver em cada pessoa uno ai organiza o diverso sem esmagá-lo, que faz emergir o valoi: t: o nâo-
que encontra um agressor em potencial e desenvolve um delírio de perse- valor, que traça para essas sociedades a demarcação entre o "verdadeiro"
guição, podemos qualificar sua percepção dos outros como imaginária e o "falso", o permitido e 9 proibido - sem o que elas não poderiam exis-
rião somente "objetivamente" ou socialmente - por referência aos mar- tir nem por um segundo H. Este imaginário n~o desempenha somente a
cos estabelecidos-, mas subjetivamente, no sentido de que ele "teria po- função do racional, ele já é uma forma sua, ele o contém, numa indistin-
dido" forjar-se uma visão correta do mundo; a forte prevalência da fun- ção primária e infinitamente fecunda e podem.os aí discernir os elementos
ção imaginária em seu desenvolvimento exige uma explicação à parte, na que pressupõe nossa própria racionalidade H.
medida que outros desenvolvimentos eram possíveis e foram realizados Sob esse ponto de vista, portanto, seria, não incorreto, mas a bem
pela grande maioria dos homens. De certa maneira, nós imputamos a nos- dizer sem sentido querer captar toda a história precedente da humanida-
sos loucos sua loucura, não somente no sentido de que é a deles, mas por- de em função do par de categorias imaginário-racional, que só tem verda-
que eles teriam podido não produzi-la. Mas quem pode dizer dos Gregos deiramente seu pleno sentido para nós. E no entanto - ai está o paradoxo
que eles sabiam muito bem, ou que eles teriam podido saber, que os deu- - não podemos deixar de fazê-lo . Assim como não podemos, quando fa-
ses não existem, e que seu universo mítico é um "desvio" relativamente a lamos do domínio feuqal, fingir esquecer o conceito de economia, nem
uma visão sóbria do mundo, desvio que pode ser explicado como tal? ·eximir-nos de categorizar como econômicos fenômenos que não o eram
Esta visão sóbria, ou pretensamente tal, é simplesmente a nossa. para os homens da época, não podemos fingir ignorar a distinção do ra-
Estas observações não são inspiradas por uma atitude agnóstica nem . cional e do imaginário falando de uma soci~çlade para a qual ela não tem
relativista. Nós sabemos que os deuses não existem, que os homens não sentido ou o mesmo conteúdo que para nós. 36• Esta antinomia, nossa con-
podem "ser" corvos, e não podemos esquecê-lo deliberadaIT\ente quando sideração da história deve necessariamente assumi-la. O historiador ou o
examinamos uma sociedade de outrora ou de outro lugar. Mas encontra- etnólogo deve obrigatoriamente tentar compreender o universo dos babi-
mos aqui, num nível mais profundo e mais dificil, o mesmo paradoxo, a lônios ou dos bororos, natural e social, tal como era vivido por eles, ten-
mesma antinomia da aplicação retroativa das categorias, de "projeção tando explicá-lo, abster-se de introduzir determinações que não existem
para trás" de nosso modo de captar o mundo, que relevamos mais acima para esta cultura (conscientemente ou não conscientemente). Mas ele não
a propósito do marxismo, antinomia sobre a qual já dissemos que é cons- pode ficar nisso. O etnólogo que assimilou tão bem a visão do mundo dos
titutiva do conhecimento histórico. Nós então constatamos que não po- bororos a ponto de só poder vê-los à sua maneira, não é mais um etnólo-
demos, para a maioria das sociedades pré-capitalistas, manter o esquema go, é um bororo - e os bororos não são etnólogos. Sua razão de ser não é
marxista de uma "determinação" da vida social e de suas diversas esfe- assimilar-se aos boro r~s, mas explicar aos parisienses, aos londrinos, aos
ras, do poder por exemplo, pela economia, porque este esquema pressu- novaiorquinos de 1965 esta outra humanidade que os bororos represen-
.põe uma autonomização dessas esferas que só existe plenamente na socie- tam. E isso, ele só pode fazê-lo na linguagem, no sentido mais profundo
dade capitalista; num caso tão próximo de nós no espaço e no tempo do termo, no sistema categorial dos parisienses, londrinos, etc. Ora, es~
como a sociedade leudal por exemplo (e as sociedades burocráticas atuais
dos países do Leste), relações de poder e relações econômicas são estrutu-
radas de tal maneira que a idéia de " determinação" de uma pelas outras é
sem sentido. De um modo muito mais profundo, a tentativa de distinguir Sli. Sob esse ponto de vista, existe pois um t.i po de "funcionaÚdadc" do imaginârio efeti-
nitidamente, a fim de articular sua relação, o funcional, o imaginário, o vo na medida em que ele é "condição de existência" da sociedade. Mas e le é condição de
simbólico e o racional em outras sociedades que não o Ocidente dos dois existência da sociedade como sociedade humana, e esta cxistancia como tal não responde a
últimos séculos (e alguns momentos da história da Grécia e de Roma) de- nenhuma funcionalidade, não é fim de nada e não tem fim.
55. ~ isso que nos parece ser, e apesar de suas intenções, o esscnciaf da cóntribuição de
para-se com a impossibilidade de dar a esta distinção um conteúdo rigo- Claude Lévi-Strauss, cm particular em Pensée sauvage, muito mais que o parcntesêo entre
roso, e que seja verdadeiramente significativo para as sociedades conside- pensamento "arcaico" e bric-0lagcm, ou a identificação entre "pensamento selvagem" era-
radas, que tenha realmente apoio nelas. Se os poderes divinos, se as clas- cionalidade simplesmente. Quanto ao enorme problema, no nlvcl filosófico mais radical, da
sificações ."totêmica~", são, para uma sociedade antiga ou arcaica, relação entre imaginário e racional, da questão de saber se o racional só é um momento do
imaginário ou então se ele exprime o encontro do homem com uma ordem transcendente,
princípios categoriais de organização do mundo natural e social, como in- nós aqui só podemos deixá-lo em aberto, duvid ando a liás que possamos jamais agir de ou-
contestavelmente õ são, que significa, do ponto de vista operativo (isto é, tra maneira. (Esse problema é longamente discutido na segunda parte deste livro.)
para a compreensão e a ."explicação" dessas sociedades), a idéia de que 56. Isso não ê afetado pelo fato de que todá sociedade distingue necessariamente entre o
esses princípios dependem do imaginário na medida em que ele se opõe que é para ela real-racion al e o que é para ela imaginário.

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sas linguagens não são "códigos equivalentes" - precisamente porque em vez encontrar-se no presente vivo .da história que não seria presente histó-
sua estruturação, as significações imaginárias representam um papel cen- rico se não se ultrapassasse em direção de um porvir que deve ser feito por
tral n. · nós. E o fato de que não possamos compreender o outrora e o alhures da
; ~ por isso que o projeto ocidental de constituição de uma história humanidade a não ser em função de nossas próprias categorias - o que,
totál, de compreensão e de explicação exaustiva das sociedades de outros em compensação, retorna nessas categorias, as relativiza, e nos ajuda a
fugares e de outras épocas contêm necessariamente o fracasso em sua superar a sujeição a nossas próprias formas de imaginário e mesmo dera-
raiz, se é tomado como projeto especulativo. A maneira ocidental de con- cionalidade - não traduz simplesmente as condições de todo conhecimen-
ceber a história apoia-se na idéia de que o que era sentido para si, sentido to histórico e seu enraizamento, mas o fato de que toda elucidação que
para os assírios de sua sociedade, pode tornar-se, exatamente, sentido empreendemos é finalmente interessada, é para nós em sentido efetivo,
para nós. Mas isso é, evidentemente, impossível e ocasiona a impossibili- porque não existimos para dizer o que é, mas para faz:trr ser o que não é
dade do projeto especulativo de uma história total. A história é sempre (ao qual o dizer daquilo que é pertence como momento).
história para nós· - o que não ·significa que tenhamos o direito de mutilá- Nosso projeto de elucidação das formas passadas d~ existência da
la ao nosso bel-prazer, nem de submetê-la ingenuamente às nossas proje~ humanidade só adquire seu sentido pleno como momento do projeto de
ções, posto que, precisamente o que nos interessa na história é nossa al- elucidaê;ão de nossa existência, por sua vez inseparável do nosso fazer
teridade autêntfoa, os outros possíveis do homem em sua singularidade atual. Estamos já inexoravelmente engajados numa transformação desta
ab~oluta. Mas enquanto absoluta, esta singularidade se abole necessaria- existência quanto à qual a única escolha que t~mos é entre sofrer e fazer,
mente, do momento em que tentamos càptá-ta, assim como em microflsi- entre confusão e lucidez. O fato de que isso nos leve inevitavelmente a
ca, do momento em que se fixa a partícula ·em sua posição, efá "desapare- reinterpretar e a recriar o passado, pode ser deplorado por alguns e de-
ce" como quantidade de movimento definida. nunciado como um "canibalismo espiritual pior que o outro". Nós,
No entanto, o que aparece como uma antinomia insuperável para a como eles, nada podemos contra isso, assim como não podemos impedir
razão especulativa, muda de sentido quando reintegramos a considera- que nosso alimento contenha, em proporção constantemente crescente,
ção da história em nosso projeto de elucidação teórica do mundo, e em os elementos que compunham o corpo de nossos ancestrais há trinta mil
particular do mundo humano, quando vemos af uma parte de nossa ten- gerações.
tativa de interpretar o mundo para transformá-lo - não subordinando a
verdade às exigências da linha do partido, ·mas estabelecendo explicita-
mente, a unidade articulada entre elucidação e atividade, entre teoria e
·prática, para dar sua reaÍidade plena a nossa vida enquanto fazer autôno-
mo, ou seja, atividade criadora lúcida. Porque então, o ponto último de
~unção destes dois projetos - compreender e transformar - só pode cada

51. Como.diriam os lingilistas, essas linguagens não têm uma só função cognitiva; e so-
mente seus conteúdos cognitivos (cu diria agora: idt!ntiidrlos) são integralmente traduzlvcis.
Cf. Roman Jakobson, Essais dt! /inguistiqut! général, ib., p. 78 a 86. A dialética total da his-
tória, implicando a possibilidade de uma tradução exaustiva, de direito, de todas as culturas.
na linguagem da cultura "superior", implica uma tal redução da história ao cognitivo. Sob
esse ponto de vista, o paralelo com a poesia é absolutamente rigoroso, o texto da história é
uma mistura indissociável de elementos cognitivos e poéticos. A tendência cstruturalista ex-
trema diz mais ou menos: Não posso traduzir-lhes Hamlet para o francês, ou só muito
pobremente, mas o que é muito mais interessante do que o texto de Hamlet é a gramática da
llngua cm que foi escrito, e o fato de que cstâ gramática é um caso particular de uma gramá-
tica universal. Podemos responder: Não obrigado, a poesia nos interessa na medida cm que
contém algo mais do que a gramática. Podemos também perguntar: E porque, então, a gra-
mática inglesa não é diretamente esta gramática universar. Porque existem diversas gramáti-
cas? Evidentemente, os próprios elementos poéticos, embora n'ão rigorosamente traduzi·
veis, não são inacccsslvcis. Mas este acesso é u-críação:....,. a poesia, por definição, é intra·
duzlvel. Só é possivcl a transposição criadora" (Jakobson, l.c., p. 86). Existe, mesmo além
do conteúdo cognitivo, leitura e compreensão aproitimada, através das diversas fases histó-
ricas. Mas esta leitura tem que assumir o fato c;le que é leitura por alguém.
196 197
SEGUNDA PARTE

O IMAGINÁRIO SOCIAL
E A INSTITUIÇÃO

199
IV. O SOCIAL HISTÓRICO

O que aqui se visa é a elucidação da questão da sociedade e da ques-


tão da história, questões que só podem ser entendidas como uma e ames-
ma: a questão do social-histórico. Para esta elucidação, a contribuição
que pode trazer o pensamento herdado é fragmentário. Talvez seja sobre-
tudo negativa, traçado dos limites de um modo de pensar e exibição de
suas impossibilidades.
Esta afirmação pode ser surpreendente, em vista da quantidade e da
qualidade do que, pelo menos desde Platãp e singularmente durante os
últimos séculos, foi fornecido pela reflexão nesse domínio. Mas o essen-
cial desta reflexão - salvo incidentes germinais, fulgurações sem seqüên-
cia, momentos de presença intransigente da aporia - dedicou-se não a
abrir e ampliar a questão, mas a encobri-la tão logo descoberta, a reduzi-
la tão logo surgida. O mesmo mecanismo, e as mesmas motivações, esti-
veram em ação neste encobrimento e nesta redução, e no encobrimento e
redução da questão da imaginação e do imaginário - e pelsis mesmas ra-
zões profundas. ·
Por um lado, a reflexão herdada nunca conseguiu separar o objeto
próprio da questão e considerá-lo por si mesmo. Já esse objeto aí se en-
contra quase sempre deslocado entre uma sociedade, referida a outra coi-
sa que não ela própria e geralmente a uma norma, fim ou te/os fundados
alhures; e uma história qu·e sobrevém a esta sociedade como perturbação
relativa desta norma, ou como desenvolvimento, orgânico ou dialético,
para esta norma~ fim ou te/os.
20 1
Assim. o objeto em questão. o ser próprio do social-histórico, encontrou- Por outro lado, a reflexão da história e da sociedade situou-se sem-
se constantemente deportado para outra coisa que não ele mesmo, e ab- pre no terreno e nas fronteiras da lógica-ontologia herdada - e como po-
sorvido por este. As visões mais profundas. mais verdadeiras sobre o SO· deria ter feito diferentemente? Sociedade e história não podem ser objeto
cial-histórico, as que mais nos ensinaram, sem as quais só poderíamos de reflexão, se elas não são. Mas o que são elas, em que sentido são elas,
balbuciar ainda na incoerência, encontram-se sempre implicitamente di- como são elas? A regra clássica sustenta: não se devem multiplicar os en-
rigidas por um alhures - e também isso pertence à essência e à história do tes sem necessidade. Numa camada mais profunda jaz uma outra regra:
pensamento; é para esse alhures que elas visam conduzir o que elas dizem não se deve multiplicar o sentido de: ser, é preciso que ser tenha um sen-
do social-histórico. O que dirige a tergo a reflexão herdada sobre a socie- tido único 2 • Este sentido, determinado do início ao fim como determini-
dade e a história, aquilo apesar do que ela aí descobre o que chega ades- dade - peras para os gregos, Bestimmtheit em Hegel - já por si excluía que
cobrir, é por exemplo o lugar da sociedade e da história na economia di- se pudesse reconhecer um tipo de ser que escapasse essencialmente à deter-
vinà da criação, ou na vida· infinita da razão; ou a possibilidade, para minidade - como o social-histórico ou o imaginário. A partir daí, saben-
elas, de favorecer ou entravar a realização do homem enquanto sujeito é- do ou não, querendo ou não, e mesmo nos casos onde pôde explicitamen-
tico; ou seu caráter de avatar último do existente natural; ou a relação da te visar o contrário, o p~nsamento herdado foi necessariamente levado a
matéria social e de sua corrupção ou instabilidade histórica (seu caráter reduzir o social-histórico aos tipos primitivos de ser que ele conhecia ou
de indefinido-indeterminado, apeiron, determinado por sua privação de julgava conhecer - tendo-os construído, portanto determinado - sob ou-
determinidade; de sempre em devir, aei gignomenon) com a forma e nor- tro ponto de vista, a fazer deles uma variante, uma combinação ou uma
ma da cidade política determinada e estável, implicando a subordinação síntese dos entes correspondentes: coisa, sujeito, idéia ou conceito. A par-
do exame daquela às exigências desta, portanto da boa forma e da boa ci- tir de então, sociedade e história encontravam-se subordinadas às opera-
dade, mesmo se se trata de negar sua possibilidade '. ções e funções lógicas já asseguradas e pareciam pensáveis por meio de
Assim também, representação, imaginação, imaginário nunca foram categorias estabelecidas de fato para captar alguns existentes particula-
vistos por si mesmos, mas sempre referidos a outra coisa - sensaç.ã o, inte- res, mas colocadas pela filosofia como universais.
Esses são apenas dois aspectos do mesr:no movimento, dois efeitos in-
lecção, percepção, realidade - submetidos à normatividade incorporada
à ontologia herdada, conduzidos sob o ponto de vista do verdadeiro e do dissociáveis da imposiçãq, ao social-históric9, da lógica-ontologia herda-
falso, instrumentalizados numa função, meios julgados por sua contri- da. Se o social-histórico é pensável por meio de categorias que valem para
buição possível à realização deste fim que é a verdade ou o acesso ao ente os outros entes, ele só pode ser essencialmente homogêneo a estes; seu
verdadeiro, o ente sendo (ontos on). modo de ser não coloca nenhuma questão particular, mas se deixa reab-
sorver pelo ser-ente total. Reciprocamente, se ser significa ser determina-
Assim, enfim, não houve preo<!upação em saber o quer dizer fazer,. do, sociedade e história só são na medida em que são determinados, ao
qual é o ser do fazer, e o que que o fazer faz ser, em virtude da obsessão· mesmo tempo, seu lugar na ordem total de ser (como resultado de causas,
existente em torno das perguntas: o que que é ·bem fazer ou mal fazer? meio de fins, ou momento de um processo), sua ordem interna e a relação
Não se pensou o fazer porque só se quis pensar nesses seus dois momen- necessária dos dois; ordens. relações, necessidades que se transacionam
tos particulares, o ético e o técnico. E nem se pensaram verdadeiramente sob a forma de categorias, isto é, de determinações de tudo o que pode
estes dois, já que não se havia pensado aquilo de que eles eram momentos ser enquanto pode ser (pensado). O melhor que assim se pode_obter é a
e se havia previamente anulado sua substância, ignorando o fazer como visão hegelo-marxista da sociedade e da história: soma e seqüência de
fazer ser e subordinando-o a essas determinações parciais, produtos do âções (conscientes ou não) de uma multiplicidade de sujeitos, determina-
fazer mas apresentadas como absolutos imperando a partir de um alhu- das por relações necessárias, e por meio das quais um sistema de idéias se
res, o bem e o mal (cujas eficácia e ineficácia são derivados). encarna num conjunto de coisas (ou o reflete). O que aparece na história
efetiva como irredutivelmente em excesso ou em falta cm rel~ção a este
esquema, torna-se então escória, ilusão, contingência, acaso - em suma,

1. Assim, por e11cmplo, o que Marx tem a dizer de verdadeiro. de profundo, de importan- 2. A dificuldade ou a impossibilidade de satisfazer esta exi gência é reconhecida, como sa-
te e de novo sobre a sociedade e a história, ele o diz apesar deste alhures que domina todo o bemos. pelo menos desde o Sofista de Platão. O essencial do esforço de Aristóteles na Me-
seu pensamento: que a história deve (muss. sol/ e wird) chegar à sociedade sem classes. Isso tafi,fira visará superar a multiplicidade do sent ido de: ser. o que ele denomina o pollachos /e-
faz com que o essenc_ial do que ele descobre não possa acomodar-se em seu próprio sistema. ~0111e11011. A visão desse sentido como um dominará também a filosofia ulterior. o que leva-
Ver "La question de l'histoire du mouvemente ouvrier". in l'Expérience du moui:ement 011- rá. quase sempre. a traduzir as diferenças de sentido de ser por gradações da qualidade de
l'rier, l. p. l l a 120. · · ser ou da "intensidade ontológica" reconhecida nos tipos de entes correspondentes.

202 203
~

ininteligível; o que não constitui um escândalo em si mesmo, mas deve sê-


lo para um filósofo para o qual o ininteligível é apenas um nome do im-
o
O primeiro tipo é tipo fisicalista, que reduz direta ou indiretamen-
te, imediatamente ou em última análise, sociedade e história à natureza.
possível. Esta natureza é, em primeiro lugar,a natureza biológica do homem; pou-
Mas, se decidimos considerar o social-histórico por si mesmo; se co importa que esta seja vista como, por sua vez, redutível ao simples me-
compreendemos que ele deve ser interrogado e refletido a partir dele mes- canismo físico, ou como ultrapassando-o, por exemplo, ser genérico
mo; se recusamos eliminar as questões que coloca submetendo-o previa- (Gattungswesen) para o jovem Marx, conceito hegeliano', que representa
mente às determinações do que conhecemos ou julgamos conhecer sob uma etapa ulterior de elaboração lógica-ontológica da physis do ser vivo
outro pon.to de vista 7" então constatamos que ele faz explodir a lógica e a aristotélico, aspecto/espécie (eidos) reproduzindo-se sempre e fixado
ontologia herdadas. Porque percebemos que ele não se insere nas catego- para sempre. O funcionalismo é o representante mais puro e mais típico
rias tradicionais, exceto nominalmente e vaziamente, que permite entre- deste ponto de vista: ele se dá necessidades humanas fixas e explica a or-
ver uma lógica diferente e nova, que força a reconhecer os limites estrei- ganização social como o conjunto das funções que visam satisfazê-las.
tos da validade daquelas categorias, e, acima de tudo, a alterar radical- Esta explicação, já o vimos mais acima, não expljca nada. Uma quantida-
mente o sentido de: ser. de de atividades em toda sociedade não preenche nenhuma função deter-
minada no sentido do funcionalismo e, sobretudo, a questão mesma que
Os tipos possíveis de respostas tradicionais importa, a da diferença das sociedades, é eliminada ou encoberta por ba-
nalidade:?. A pretensa explicação permanece no ar, na ausência de um
A pergunta: o que é o social-histórico? reúne em si as duas pergun- pooto estável ao qual pudesse relacionar as funções a que serviria a orga-
tas, que tradição e convenção em geral separam, da sociedade e da histó- nização social; esse ponto estável só poderia ser fornecido pela postula-
ria 3 • Um breve exame do estatuto das respostas tradicionais será facilita- ção de uma identidade de necessidades através das sociedades e dos
do por uma formulação mais específica do núcleo dessas duas questões. períodos históricos, identidade que a observação mais superficial da his-
O que é a sociedade; especialmente, o que é a unidade e a identidade tória contradiz. Devemos então recorrer à ficção de um núcleo inalterá-
(ecceidade) de uma sociedade, o que é que dá unidade a uma sociedade? vel de necessidades abstratas, que receberiam cá ou lá especificações dife-
O que é a história; especialmente, como e porque há alteração tem- rentes ou meios de satisfação variáveis, e a banalidades ou tautologias
poral de uma ~ociedade, em que é ela alteração, há emergência do novo para explicar esta diferença e esta variabilidade. ~ncobrimos assim o fato
nesta história, e que significa ela? essencial: as necessidades humanas, enquanto sociais e não simplesmente
Podemos esclarecer m elhor o sentido e a unidade dessas questões biológicas, são inseparáveis de seus objetos, e tanto umas quanto outros,
perguntando: em que e porque há várias sociedades e não uma só, em que instituídos a cada vez pela sociedade considerada. O mesmo se dá cm re-
e porque há diferença entre sociedades? Ainda que se dissesse que a dife- lação às ..imposturás correntemente tfropagadas desde que o "desejo" fi-
rença das sociedades, e sua história, são somente aparentes, ainda subsis- cou na moda; reduz-se de fato a sociedade ao desejo e à sua repressão,
tiria, como sempre, a . pergunta: porque então existe esta aparência, por- sem o cuidado de explicar a diferença dos objetos e das formas do desejo
que o idêntico aparece como diferente•? e sem surpreender-se ante esta estranha divisão do d~scjo em desejo e de-
As inúmeras respostas fornecidas desde as origens da reflexão sobre . sejo de repressão do desejo que deve caracterizar, de acordo com elas,_a
essas duas perguntas podem ser reduzidas a dois tipos essenciais e a suas maioria das sociedades, a possibilidade desta divisão, e as razões de sua
diversas combinações. emergência.
O segundo tipo é o tipo logicista, que se reveste de formas diferc·ntcs
segundo a acepção, neste termo, do radical log -. Quando a lógica -cm
3. Sa bemos que, desde a República Platão examina a alteração da ordem da cidade ·en- questão consiste finalmente (quaisquer que sejam suas complicações de
quanto processo histórico; e que, na outra extremidade, todo o esforço de Marx dirige-se à superficie) em ordenar um número finito de pedras brancas e prestas num
determinação da relação entre a organização e o funcion amento dos sistemas sociais e sua número predeterminado de casas, segundo algumas regras simples (por
dinâmica, ou seja, sua história. Veremos a seguir que o que entendo por unidade e indivisi-
bilidade do socia.1-histórico situ~·se cm outro nivel. O qua n~o a seP.araçã() é tenaz, e profun-
exemplo, não mais do que n pedras da mesma cor na mesma linha ou co-
darnente enraizada no pensamento herdado, o mostram ainda os exemplos de Husserl e luna), temos a forma mais pobre do logicismo, o estruturalismo. A mes-
Heidegger. Tanto para um como para outro, embora de maneira diferente. uma questão ma operação lógica, repetida uin determinado número de vezes, também
(diminuída) da história aparece como questão filosófica - mas nunca uma questão filosófica explicaria a totalidad_e da história humana e as diferentes formas de so-
da sociedade.
4. Se buscamos umaºjustificàtiva para essas formulações, podemos referir-nos ao que foi
dito mais acima cm relação à emergência histórica da sociedade capitalista e sua unidade,
o u a instauração de uma divisão assimétrica da sociedade em classes (p. 62 e s.. 211 e s.). 5. Hegel, Wissenschaft der Logik (Lasson), vol. II, p. 426-429).
204 205
ciedade, que seriam apenas as diferentes combinações possíveis de um tem nenhuma importância que este elemento se denomine razão, como
número finito dos mesmos elementos discretos. Esta combinatória ele- no hegelia nismo, matéria ou natureza, como na versão canônica do mar-
. mentar - que põe em ação as mesmas faculdades intelectuais que as utili- xismo (matéria ou natureza redutíveis, de direito, a um conjunto de de-
zadas na construção de cubos mágicos ou de palavras cruzadas - deve terminações racionais). J á indicamos, na primeira parte deste livro, algu-
cada vez dar-se como indiscutíveis tanto o conjunto finito de elementos a mas das inúmeras e intermináveis aporias às quais conduz esta concep-
que se referem suas operações, com o as oposições ou diferenças que pos- ção.
tula entre eles. Mas mesmo em fonologia - da qual o estruturalismo é Assim, a quéstão da unidade e da identidade da sociedade e de tal
apenas uma extrapolação a busiva - , não podemos apoiar-nos no dado sociedade reduzida à afirmação de uma unidade e identidade dadas de
natural de um conjunto finito de elementos discretos - fonemas ou traços um conjunto de organismos vivos; ou de um hiper-organismo compor-
distintivos podendo ser emitidos ou ·percebidos pelo homem; como já sa- tando suas próprias necessidades e funções; ou de um grupo natural-
bia Platão, 6 sons emitidos e percebiâos são um indeterminado apeiron, e lógico de elementos; ou de um sistema de determinações r acionais. D a
o peras , a determinação, a posição simultânea de fonemas e de suas dife- sociedade como tal não sobra, em tudo isso, nada; nada que seja o ser
renças pertinentes é uma instituição pela llngua e cada língua. Esta insti- próprio do social, que manifeste um modo de ser diferente do que já
tuição, e suas diferenças, - a diferença entre a fonologi a do francês e a do sabíamos. Também não resta grande coisa da história, da alteração tem-
inglês, por exemplo - são recebidas pela fonologia como um fato e ela pora l produzida em e pela sociedade. Diante da questão da história, o fi-
não· está o brigada a interrogá-las; saber positivo e limitado, ela pode dei- sicalismo torna-se naturalmente causalismo, ou seja, supressão da ques-
xar adormecida a questão da origem de seu objeto. Como poderíamos tão. Pois a questão da história é questão de emergência da a lteridade ra-
fazer o mesmo, quando' a questão da sociedade e da história é essencial- dical ou do novo absoluto (do que seria testemunho a própria afir.mação
mente questão da natureza e da origem das diferenças? A ingenuidade do do contrário, já que nem as amebas nem as galáxias falam para dizer que
estrutura lismo a este respeito é desarmante. Não tem nada a dizer sobre tudo é eternamente igual); e a causalidade é sempre negação da alterida-
os conjuntos de elementos que manipula, sobre as razões de seu ser- de, posição de uma dupla identidade: identidade na repetição das mes-
assim, sobre suas modificações no tempo. Masculino e feminino, norte e mas causas produzindo os mesmos efeitos, identidade última da causa e
sul, alto e baixo, seco e úmido, para ele não precisam ser questionados, do efeito, posto que cada um pertence necessariamente ao outro ou os
parecem-lhe encontrados af pelos homens, pedras de sentido jazendo na dois a um mesmo•. Não é pois por acaso, se o próprio elemento no e pelo
Terra 'desde as origens num ser-assim', ao mesmo tempo plenamente na- qual se desdobra eminentemente o social-histórico, isto é, as significa-
tural e totalmente significativo, dentre as quais cada sociedade retira al- ções, é ignorado ou então transformado em simples epifenômeno, acom-
gumas (segundo o resultado de um jogo do acaso'), sendo estabelecido panhamento redundante do que se passaria realmente. De fato, como po-
que ela só pode retirá-las por pares de opostos, e que a retirada de certos deria uma significação ser causa de uma outra significação, e como pode-
pares ocasiona ou exclui a de outros. Como se a organização social pu- riam significações ser efeitos de não-significações?
desse ser reduzida a uma seqilência finita de sim/não, e como se, lá mes- Corresponde igualmente à supressão da questão da história a forma
mo onde um sim/não está em ação, os termos a que se refere fossem de-· que assume frente a ela o logicismo, tornando-se finalismo racionalista.
terminados sob outro ponto de vista e desde sempre - quando eles são, Porque se ele vê nas significações o elemento da história, ele é incapaz de
como termos e como estes termos, criação da sociedade considerada. considerar essas significações de outra maneira que não como racionais
Ou então, no extremo oposto e sob sua forma mais rica, a lógica pre- (o que não implica, é claro, que deva colocá-las como conscientes para os
tende revolver todas as figuras do universo m ateria l e espiritual. N ão agentes da história). Mas significações racionais devem e podem ser de-
aceitando nenhum limite, ela quer e deve fazer com que todas entrem em duzidas ou produzidas u.m as a partir das o utras. Seu desdobramento é a
jogo, em relação umas com as outras, em determinidade realizada e de- partir daí somente amostra, o novo é cada vez construído por operações
terminação recíproca exaustiva. Ele deve então também engendrar umas identitárias 9 (ainda que denominadas dialéticas) mediante o que j á exis-
a pa rtir das outras, e todas a partir do mesmo elemento primeiro ou últi- tia; a totalidade do processo é apenas a exposição das virtualidades ne-
mo, como suas figuras ou momentos necessários e necessariamente des-
dobrados nesta ordem necessária, da qual ela própria deve necessaria-
mente fazer parte como reflexo, reflexão, repetição ou coroamento. N ão
o
8. "O igual e identicamente disposto faz ser sempre, por sua natureza, igual" . A ristóte-
les, Da geração e da corrupção, li, 336 a 27-28. O mesmo, nas mesmas condições, engendra o
mesmo: o conjunto formado pela causa, as condições, o efeito contém estes como suas par-
6. Filebo, 17 b - 18 d. tes. Cf. M etajísica. E. 1: " ~ necessário que todas as causas sejam eternas".
7. Claude Lévi-Strauss, Race et Histoire, col. Médiations, Gonthier, 1967. 9. O sentido deste termo serã longamente explicitado no capítulo V.
206 207

j
cessariamente realizadas de um principio origfnário presente desde sem- com o material que tentam pensar desvenda algo diferente daquilo que
pre e no sempre. O tempo histórico torna-se, assim, simples medium abs- eles pensam explicitamente, os resultados são infinitamente mais ricos do
trato da coexistência sucessiva ou simples receptáculo dos encadeamen- que as teses programáticas. Um grande autor, por definição, pensa mais
tos dialéticos; o tempo verdadeiro, tempo da alteridade radical, alterida- além de seus meios. Ele é grande, na m~dida em que pensa o que ainda
de não dedutível e não produzível, deve ser abolido, e nenhuma razão não tinha sido pensado, e seus meios são o resultado do que já tinha sido
que não seja contingente pode explicar porque a totalidade d a história pensado, que nunca cessou de interferir no que ele pensa, quando mais
passada e futura não seria de direito dedutível. O fim da história incomo- não fosse, porque não pode anular tudo o que recebeu t colocar-se diante
da os .comentadores de Hegel, porque parece-lhes absurdo que se situe de uma tábula rasa, mesmo quando tem a ilusão de fazê-lo. Prova disso
em 1830; compreensão insuficiente das necessidades ao pensamento do fi- são as contradições sempre presentes num grande autor; falo das contra-
lósofo, para o qual eSte fim já havia ocorrido antes que a história come- dições verdadeiras, grosseiras, irredutíveis, que é tão estúpido pensar que
çasse. Porque a história não pode ser Razão, se não tem uma razão de 1 por si sós anulam a contribuição do autor, quanto inútil tentar dissolvê-
ser, que é seu fim (te/os), que lhe é tão necessariamente fixado (portanto las ou recuperá-las .em níveis sucessivos de interpretação mais profunda.

l
desde sempre) quanto as vias de sua progressão. Essa é apenas uma outra A forma mais plena, mais rica de que se revestem essas contr.adições
maneira de dizer que o tempo é abolido como o é em toda teleologia ver- é a que resulta da impossibilidade de pensar simplesmente em conjunto e
dadeira; porque para toda teleol.ogia realizada e necessária, tudo é dirigi- pelos mesmos meios o que o autor descobre - que é, nos casos importan-
do a partir do fim, que é estabelecido e determina do desde a origem do tes, uma outra região daquilo que é um outro modo e um outro sentido
processo, estabelecendo e determinando os meios que o farão aparecer de: ser - e o que já era conhecido. Nada garante previamente a coerência,
como realizado. O tempo é, nestas condições, apenas um pseudônimo da ou, mais exatamente, a identidade (imediata ou mediatizada) do modo de·
ordem de colocação e de engendramento recíproco dos termos do proces- ser dos objetos de uma nova região, portanto da lógica e da ontologia que
so, ou, como tempo efetivo, simples condição exterior que nada tem a ver uma tal região exige, e da lógica e da ·ontologia já elaboradas sob outros
com o processo como tal. Já indiquei mais acima, e em outro lugar 10 tam- pontos de vista, menos ainda que esta coerência será da mesma ordem e
bém, que o marxismo canônico representa uma tentativa de junção dos do mesmo tipo que a que existe no interior das regiões já conhecidas. Em
pontos de vista causalista e finalista . particular as regiões de que se trata aqui - o imaginário radical e o social-
Observemos que além da incapacidade contingente dos representan- histórico - implicam um questionamento profundo das significações re-
tes do estruturalismo para enfrentar o problema da histó ria (a não ser cebidas do ser como determinidade e da lógica como determinação. Na
para negar, mais ou menos claramente, que tal problema existe) nada im- medida em que o conflito que dai resulta é percebido pelo autor, ele tende
pediria de colocar a ficção de uma estrutura da história em seu desenvol- a ser resolvido pela subordinação do novo objeto às significações e.às de-
vimento temporal; ou melhor, que o postulado de uma tal estrutura seria terminações já adquiridas, propiciando o encobrimento do que foi desco-
necessário para uma concepção estruturalista que quisesse ser conse- berto, a ocultação do que foi desvendado, sua marginalização, a impossi-
qüente. A bem da verdade, não se pode levar a sério o estruturalismo bilidade de tematizá-lo, sua desnaturação por reabsorção num sistema no
como concepção geral enquanto não ousa afirmar que as diferentes estru- qual permanece estrangeiro, sua permanência sob forma de aporia irre-
turas sociais que pretende descrever só são, elas próprias, elementos de dutível.
uma hiper- ou meta-estrutura que seria a história total. E como isso equi- Assim, Aristóteles descobre filosoficamente a imaginação - phanta-
valeria a encerrar a história em idéia - falar de estrutura não significa sia. - mas o que ele diz a respeito, tematicamente, quando trata disso ex
nada se não se pode determinar, de uma vez por todas, seus elementos e professo (quando fixa a' Imaginação em seu pretenso lugar, entre a sensa-·
suas relações - e a colocar-nos no lugar do saber absoluto 11 , também não ção da qual seria uma reprodução, e a intelecção, e assim domina há vin-
poderíamos levá-lo a sério neste caso. te e cinco séculos o que todo mundo pensa a respeito) pesa pouco ao lado
O que importa verdadeiramente aqui, não são as concepções c<?mo do que ele tem v~rdadeiramente a dizer, que ele diz fora de lugar, e que
tais, nem sua crítica, e menos ainda a crítica dos autores. Nos autores não há meio de reconciliar com o que pensa da physis, da alma, do pensa-·
importantes, ·as concepções nunca são puras, seu exercício em contato mento e do ser. Assim também Kant, pelo mesmo movimento em três
ocasiões (nas duas edições da· Crítica da razão pura, e na Crítica da facul-
dade de julgar) descobre e encobre o papel do que denomina de imagina-
10. Ver, além da primeira parte deste livro ... La question de l'histoire.du mouvemerit o u- ção transcendental. Assim também Hegel, e incomparavelmente mais
vrier", l .c. Marx, que não podem dizer o que têm a dizer de fundamental sobre aso-
11. ~o que Claude Lévi-Strauss faz agora explicitamente:" ... somente ... a interpretação
est ru tural. .. sabe explicar ao mesmo tempo ela mesma e as outras" C Homme nu. 1971. P· ciedade e a h~stória, a não ser transgredindo o que julgam saber sobre o
561. que ser e pensar significam, e o reduzem finalmente introduzindo-o à for-
208 209
,ça num sistema que não pode contê-lo. Assim, enfim, Freud, que desven- ser significa ser determinado, e somente a partir dessa posição se desen-
da o inconsciente, afirma seu modo de ser incompatlvel com a lógica- volvem as oposições concernentes à questão de saber o que é que é verda-
ontologia diurna, e no entanto só consegue pensá-lo, até o fim , invocan- deiramente, isto é, o que é que é verdadeira, só\ida e plenamente determi-
do toda a maquinaria dos aparelhos psíquicos, das instâncias, dos luga- nado. Sob este ponto de vista, não somente a oposição entre n:iaterialismo
res, das forças, das causas e dos fins, acabando por ocultar sua indetermi- e espiritualismo é secundáriã; mas é também secundária a oposição entre
nação enquanto imaginação radical. Hegel e Gorgias, por exemplo, entre o saber absoluto e o absoluto não-
A reprodução destas situações com traços essencialmente a nálogos e saber. Na verdade, os dois participam da mesma concepção do ser, o pri-
em se tratando de espfri~c;>s tão profun9os ~ tão audaciosos, mostra que meiro colocando-o como autodeterminação infinita e a força dos argu-
aqui atuam fatorés fondamentais. A lógica-ontologia herdada está solida- mentos do segundo (como de t odos os argumentos céticos e nihilistas que
ménre ancorada na própria instituição da vida social-histórica; ela se en- já foram enunciadc;is) - quando quer demonstrar que nada é,.e se alguma
.raiza nas necessida des inelimináveis desta instituição, ela é, em certo sen- coisa é não é cognoscfvel - resultando em que nada é verdadeiramente de-
tido, elaboração e arborescência dessas necessidades. Seu núdeo é a lógi- terminável, que a exigência de determinação deve permanecer para sem-
ca identitária ou conjuntista, e esta lógica que impera soberanamente e pre vazia e insatisfeita, porque toda determinação é contraditória (por-
inevitavelmente em duas instituições sem as quais não há vida social; a tanto indeterminação) - o que só tem sentido a partir deste critério tácito:
instituição do /egein, componente inclinável da linguagem e do represen- se alguma coisa existisse ela seria determinada.
tar social, ~ instituição. do teukhein, comp~nente inelim.inável do fazer so- A discussão das concepções herdadas da sociedade e da história é,
cial.12 O fato de que uma vida social tenha podido existir mostra que esta pois, insepa rável do esclarecimento de seus fundamentos lógicos e onto-
lógica identitária ou conjuntista tem apoio no que existe - não somente lógicos; assim como sua critica só pode ser critica desses fundame.ntos e
· no mundo natural no qual a sociedade surge, mas na própria sociedade, elucidação do social-histórico como irredutível à lógica e à ontologia her-
que não pode representar e se representar, dizer e se dizer, fazer e se fazer dadas. A tipologia das'respostas à questão da sociedade e da história, des-
sem colocar em ação também esta lógica identitária ou conjuntista, que crita mais acima, importa na medida em que esses tipos de respostas são
só pode instituir e se instituir instituindo ta mbém o legein e o teukhein. os únicos possíveis a partir desta lógica-ontologia. Eles concretizam as
Esta lógica - e f! ontologia qµe lhe é homóloga - longe de esgotar o maneiras pelas quais são concebíveis, para o pensamento herdado, uma
que é o seu modo de ser, só concerne a um primeiro estrato; mas ao mes- coexistência e uma sucessão, o ser, o ser-assim e a razão de ser (o porque)
mo tempo sua exigência interna é éle cobrir ou esgotar todo estrato possí- de uma coe)dstência e de uma sucessão.
vel. A problemática esboçada mais acima é somente a concretização, nos
domínios do imaginário e do social-histórico, desta antinomia. Fisicalis- A sociedade e os esquemas da coexistência
mo e logicismo, causalismo e finalismo são apenas maneiras de estender
as exigências e os esqutMTtas fündamentais da' lógica identitária à socieda- A sociedade·se dá imediatamente como coexistência de uma quanti-
de e à história. Porque a lógica identitária é lógica da determinação, que dade de termos ou de entidades de diferentes ordens. De que dispõe, en-
se especifica segundo os casos como relação de causa a efeito, de meio a tão, o pensamento herdado, para pensar uma coexistência e o modo de
fim, ou de implicação lógica. . estar-junto de uma diversidade de termos?
Ela só pode operar colocando essas relações como relações entre ele- Ou esta coexistência, este estar-junto de uma diversidade é conside-
mentos de um conjunto (no sentido que têm esses termos na matemática rado como um sistema real, qualquer que seja sua complexidade. Deve
contemporâ nea, .mas que está em ação desde a instituição do legein e do então haver possibilidade de decomposição efetiva (real ou ideal-
teukhein); é isso o essencial, e não o fato de qualificar o modo deserdes- abstrata) do sistema CllJ subsistemas bem definfveis, cm partes e final-
ses elementos como o de entidades físicas ou de termos lógicos. Porq