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PROCESSO EROSIVO EM ÁREA URBANA: Condomínio Privê, cidade satélite Ceilândia-DF

Pedro Paulo Mesquita Mendes


Estudante do programa de Pós-graduação da Universidade Federal de Goiás/Regional Catalão –
pedropaulo.mendes@hotamail.com

1 INTRODUÇÃO

O processo de expansão urbana sem planejamento adequado e a especulação imobiliária em


locais inapropriados ou com potencial de risco podem resultar na degradação da cobertura vegetal e
dos recursos naturais do solo e da água, além, de colocar os cidadãos em situação de risco eminente.
É evidente que o estabelecimento de loteamento e invasões em áreas inadequadas, somado com o
lançamento das águas pluviais canalizadas em locais inapropriados e a intensificação do processo
de impermeabilização do solo tem levado à ocorrência varias processos erosivos. Uma das
consequências desses processos é o surgimento de quadros erosivos urbanos, em especial o
surgimento de ravina e voçoroca.
A erosão dos solos das áreas urbanas, sendo influenciada por diferentes fatores naturais e
pela própria ação humana, tem a Geomorfologia Ambiental como um dos suportes da ciência
geográfica para auxiliar no entendimento dos novos processos dinâmicos no que envolve as
questões ambientais.
No Distrito Federal, as ocorrências de algumas erosões já podiam ser observadas no
principio da ocupação do local por ocasião da implantação da Nova Capital, como foi relatado no
relatório Belcher (1956).
O recurso natural “solo” é intensamente afetado pelo processo de urbanização e tendendo a
alterações drásticas. É o que vem ocorrendo no Distrito Federal, mesmo que a região do Plano
Piloto apresente um plano diretor de ordenamento territorial, o crescimento acelerado vem
provocando um desordenamento na estrutura urbana que se expressa em vários problemas de ordem
socioambiental. A criação de novas áreas urbanas nos últimos vinte anos pela iniciativa do governo
e de particulares, neste caso geralmente de forma clandestina e desordenada, resultou no aumento
dos passivos ambientais requerendo elevados investimentos públicos para o seu combate.
O Distrito Federal, localizado na região do Cerrado, é palco de diversos tipos de processos
erosivos, relacionados à erosão hídrica, favorecidos, pelas condições e peculiaridades pedológicas,
geológicas e geomorfológicas aliadas à ocupação desordenada do solo no meio urbano.
Contudo, a expansão urbana de forma desorganizada somada com a especulação imobiliária
cria potenciais para o aumento e evolução de feições erosivas. Por conseqüência há o aumento de
áreas de risco nas cidades. Segundo a Secretaria de Defesa Civil do Distrito Federal, o Distrito
Federal (DF), no ano de 2011, encontrava com 26 setores considerados áreas de riscopor
apresentarem ameaças à saúde e integridade física da população, ao patrimônio público ou privado,
além do meio natural. Das 26 áreas classificadas pela Defesa Civil do Distrito Federal, 16 estão
ligadas a processos erosivos ou consequências destes.
A área de risco é o ponto de partida para discutir os processos erosivos lineares, que são
acelerados pela expansão urbana sem um entendimento da dinâmica do meio natural. A escolha da
“Voçoroca Condomínio Privê” se deu, principalmente, pelos problemas ambientais e sociais e pelo
caráter histórico peculiar de sua formação. O interesse em compreender a evolução da voçoroca
deve-se as implicações para Condomínio Privê.
2PROCESSO EROSIVO NO BRASIL

O termo etimologicamente erosão: do latim erodere: corroer, devorar, portanto sendo


definida, segundo as colocações do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do estado de São Paulo –
IPT (1986), como o processo de desagregação e remoção de partículas do solo ou de fragmentos e
partículas de rochas, pela ação combinada da gravidade com a água, vento, gelo e/ou organismos
(plantas e animais). Guerra (1972) apud Cerri, Silva e Santos (1997) conceitua erosão como "[...]
destruição das saliências ou reentrâncias do relevo, tendendo a um nivelamento ou colmatagem, no
caso de litorais, de enseadas, de baías e depressões.". Salienta, também, que para o geólogo e o
geógrafo o termo erosão significa um conjunto de ações que modelam uma paisagem, enquanto
para o pedólogo e o agrônomo consideram-no como destruição do solo.
Carvalho (2005) aponta que os processos erosivos constituem-se numa forma natural de
modelagem do relevo e atuam de modo conjugado aos processos pedogenéticos. De maneira geral,
sob condições naturais, estes dois processos atuam equilibradamente, havendo certa equivalência
entre solo erodido e a quantidade produzida de solo
De acordo com sua origem, o processo erosivo pode ser classificado em erosão pluvial (ação
das chuvas), erosão fluvial (ação das águas dos rios), erosão por gravidade (movimentação de
rochas pela força da gravidade), erosão eólica (ação dos ventos), erosão glacial (ação das geleiras),
erosão química (alterações químicas no solo) e erosão antrópica (ação do homem).
A erosão pode ser natural ou geológica, que se desenvolve em condições de equilíbrio com a
formação do solo; e acelerada ou antrópica, cuja intensidade é superior à da formação do solo, não
permitindo a sua recuperação natural em virtude dos desmatamentos, queimadas, urbanização,
impermeabilização do solo, drenagem de estradas, linhas de plantio e as demais ações que
modificam o meio natural.
Entretanto, Mortari (1994) destaca que “qualquer que seja o agente, a erosão se processa em
três fases, nem sempre muito distintas uma das outras: desagregação, transporte e sedimentação”. A
desagregação constitui-se na fase de desprendimento das partículas do solo ou da rocha. Depois de
desagregadas as partículas são transportadas considerando o tamanho, a energia do agente, a
topografia e os obstáculos. A deposição é a sedimentação do material.
A erosão eólica consiste no transporte aéreo, ou por rolamento, de partículas de solo pela
ação do vento. Bertoni e Lombardi Neto (1999) salientam que a erosão eólica, ocasionada pelos
ventos, ocorre em geral em regiões planas, com pouca chuva, onde a vegetação natural é escassa e
sopram ventos fortes. Constitui problema sério quando a vegetação natural é removida ou reduzida;
os animais, insetos, moléstias e o próprio homem contribuem para essa remoção ou redução. As
terras ficam sujeitas a erosão pelo vento quando desnuda. Exemplo disso ocorre quando são
colocadas em cultivo com um manejo inadequado. O meio mais eficiente para o controle da erosão
eólica é manter uma cobertura protetora na superfície do solo.
Os processos erosivos no Brasil têm a água como o maior agente causador. O clima tropical
agrava mais a situação. A chuva, associada às características geológicas e fisiográficas, constitui-se
em um dos principais elementos desencadeadores dos processos de erosão hídrica. Com isso, a
erosão hídrica é a que mais afeta os solos brasileiros. A erosão hídrica é conceituada como sendo o
transporte, por arrastamento, de partículas do solo pela ação das águas.
Segundo as colocações de Infanti Jr &Fornasari Filho (1998) dependendo da forma como se
processa o escoamento superficial, ao longo de uma encosta, podem-se desenvolver dois tipos de
erosão: erosão laminar ou em lençol, causada pelo escoamento difuso das águas das chuvas,
resultado na remoção progressiva e uniforme dos horizontes superficial do solo, sendo menos
notada e, por isso, a mais perigosa, e a erosão linear, causada pela concentração das linhas de fluxo
das águas de escoamento superficial, resultado em incisões na superfície do terreno, em forma
sulcos inicialmente, que podem evoluir, por aprofundamento, para ravinas.
O processo erosivo, em sua maior parte (erosão hídrica), inicia-se quando as gotas de chuva
impactam a superfície do solo e destroem os agregados.
Bertoni e Lombardi Neto (1999) destacam que; as gotas de chuva contribuem para o
processo erosivo de três formas: a) desprendimento de partículas do solo, b) transporte, por
salpicamento, das partículas desprendidas e c) imprimem energia, em forma de turbulência, ao fluxo
superficial.
3 EROSÃO URBANA

A erosão tem provocado vários problemas para o homem, desencadeando uma série de
problemas socioambientais nas áreas urbanas brasileiras: deslizamentos, enchentes, assoreamento
dos rios, soterramento de casa, fechamento de rodovias, ferrovias e outras vias de transportes, danos
econômicos, entre tantos outros.
O acelerado processo de urbanização das cidades brasileiras, associado com à falta de
estrutura adequada nas áreas de expansão do perímetro urbano (novos loteamentos e conjuntos
habitacionais) junto com áreas suscetíveis à instabilidade, configura uma situação a favor da
evolução de processos erosivos. As conseqüências das ocupações em áreas instáveis criam graves
problemas ambientais, ligado a perdas econômicas, que oneram o poder público e a sociedade.
Dentre as modificações geradas pela ocupação do espaço urbano, e que são responsáveis por
importantes alterações no ciclo hidrológico nessas áreas, destaca-se a impermeabilização do terreno,
através das edificações e da pavimentação das vias de circulação.
Os processos erosivos em áreas urbanas promovem situações de risco em relação a
integridade física dos cidadãos. O poder destrutivo de uma erosão, ameaça a infra-estrutura das
habitações e obras públicas, além de ser um local de acúmulo de vetores quando está associada com
lixo doméstico e o lançamento de esgoto, assim transformando a erosão em foco de doenças.
O entupimento das bocas de lobo, ausência de uma ampla rede de galerias para águas
pluviais e a pavimentação sem drenagem promovem maior volume e velocidade das enchentes e
concentração de escoamento. Além disso, ocorre a perda de capacidade de armazenamento d’água
em reservatórios agravando ainda mais os problemas causados pelos processos erosivos e o
aceleramento das erosões. Pelo escoamento superficial o assoreamento dos cursos d’águas e
reservatórios urbanos está interligado com o aumento da magnitude do transporte de sedimentos
provenientes das erosões.
Com o aumento do grau de urbanização, aumenta também em proporção à degradação
ambiental decorrente da concentração da população nas áreas urbanas como afirma Del Grossi
(1991):
As décadas de 60, 70 e 80 foram palco de várias decisões políticas e econômicas que
concorrem para uma grande expansão do sítio urbano. (...) Como resultado dessa expansão,
processos geomorfológicos são alterados, e, em conseqüência, cheias, ravinas, voçorocas e
desabamentos passam a constituir problemas afetando toda a comunidade. (DEL GROSSI,
1991)

Assim, através da expansão urbana os problemas ambientais aumentaram, também nessa


proporção a Geomorfologia Ambiental começa, então, a ganhar força na década de 1980, em todo o
mundo, contribuindo para análise e compreensão dos fatores condicionantes dos impactos
ambientais. Para que as ações de atuação contra os reflexos dos processos erosivos em áreas
urbanas sejam contidos é necessário a manutenção de uma equipe multidisciplinar na gestão
ambiental que buscarão soluções dentro do conhecimento geomorfológico.
A erosão urbana esta intrinsecamente associada ausência de planejamento satisfatório, que
considere as particularidades do meio físico, as condições sociais e econômicas das tendências de
desenvolvimento da área urbana (FRENDRICH, 1984).
Contudo, Guerra (2004), salienta que a erosão urbana no Brasil, está relacionada à falta de
um planejamento adequado, que leve em conta não só o meio físico, mas também condições
socioeconômicas. Por isso mesmo, a erosão urbana é um fenômeno típico dos países em
desenvolvimento.
A interação entre Geomorfologia e o planejamento urbano reduz as conseqüência negativas
do crescimento urbano e as suas transformações nos processos dinâmicos da paisagem.
Segundo Guerra e Marçal (2006), a Geomorfologia Ambiental significa a aplicação do
conhecimento técnico-cientifico e de análise para resolver problemas de planejamento, manejo
ambiental e engenharia, ou outros problemas similares. O estudo da Geomorfologia Ambiental
auxilia para os problemas ambientais urbanos, fornecendo conhecimento dos aspectos físicos e do
uso e apropriação do solo urbano. Os dois autores salientam também que a Geomorfologia
Ambiental tem como discussão integrar as questões sociais na procura de relacionar as questões
urbanas e rurais ao planejamento da gestão ambiental.
Botelho (2002) acrescenta que dentre as modificações geradas pela ocupação do espaço
urbano. e que são responsáveis por importantes alterações no ciclo hidrológico nessas áreas,
destacam a impermeabilização do terreno, através das edificações e da pavimentação das vias de
circulação.
Segundo Salomão (2007) o controle da erosão urbana envolve aspectos geotécnicos e
urbanísticos. O primeiro é a caracterização dos fatores e mecanismos relacionados às causas dos
processos erosivos, e o segundo envolve as possibilidades de ocupação urbana. Para o autor, as
principais causas de erosão urbanas são: a) plano de obra inadequado do sistema viário; b) traçado
inadequado do sistema viário; c) deficiência do sistema de drenagem de águas pluviais; d) expansão
urbana descontrolada.
Casseti (1991), ao abordar preocupação com resultados de derivações processadas pelo
homem na área urbana de Goiânia-GO aponta que os
Problemas de escoamento são constantes no período das chuvas, não existindo estrutura de
vazão em relação à quantidade de água pluvial que se intensifica em função do crescimento
da impermeabilização de superfícies e consequentes tendências de disritmias
pluviométricas. As atividades erosivas caracterizadas por ravinas e boçorocamentos são
observadas de forma generalizadas por nas áreas desprovidas de pavimentação (erosão
acelerada). Processos de dessoloagem são evidenciados em áreas desmatadas, ao mesmo
tempo em que o assoreamento dos cursos d’águas favorece a tendência crescente de
enchentes. (CASSETI, 1991, p. 114)

Almeida e Guerra (2004), em estudo sobre erosão dos solos e impactos ambientais na cidade
de Sorriso-MT destacam que “As instituições públicas são responsáveis, em vários casos, por
processos de degradação ambiental. [...] tanto a esfera federal como municipal contribuíram
significativamente para o impacto ambiental na área urbana”.
Coelho (2011), ao discutir o espaço urbano e a distribuição espacial dos impactos ambientais
afirma que
A suscetibilidade dos solos à erosão correlaciona-se com as relações sociais de propriedade
e com o acesso das diferentes classes sociais às técnicas de conservação do solo. Enquanto
a classe alta dispõe de grandes áreas que lhe permitem manter a vegetação e preservar o
solo, a classe pobre se aglomera e, ao aumentar a densidade populacional, altera a
capacidade de suporte do solo. (COELHO, 2011, p. 28)

Almeida e Guerra (2011) salientam que para ocupação de uma área devem ser analisadas e
complementadas informações através de estudos sobre a dinâmica ambiental, assim as análises
devem servir de base para as políticas públicas (programas, planejamento, projetos e planos).
Para evitar que mais áreas urbanas sejam degradadas pela ampliação de processos erosivos,
é fundamental o uso de práticas conservacionista no uso e manejo dos solos. Segundo Lepsch
(2002, p. 160): “[...] as práticas conservacionistas evitam, entre outras vantagens, o impacto da água
da chuva e/ou o escoamento das enxurradas”.
As erosões em áreas urbanas e periurbanas necessitam de um correto entendimento de sua
dinâmica. A ausência da compreensão e controle dos processos dinâmicos da erosão pode
desencadear atividades intensas de degradação ambiental. O planejamento urbano e a infra-estrutura
podem reduzir as ocorrências dos processos erosivos. O plano de prevenção da erosão urbana
consiste basicamente, no ordenamento do assentamento urbano, que estabelece as normas básicas
para evitar problemas futuros, além de planejar situações que inibam o desencadeamento do
processo erosivo, e, no caso de espaços já ocupados, reduzir ou eliminar os possíveis efeitos
negativos dessa ocupação. Igualmente importante é o desenvolvimento de soluções normativas de
projetos de obras adequadas para cada situação de meio físico encontrado.
4CONDOMÍNIO PRIVÊ NO ENTENDIMENTO DA GEOMORFOLOGIA AMBIENTAL

Os processos erosivos acelerados no entorno do Condomínio Prive é o resultado do histórico


de uso e ocupação do solo. Desde o inicio da ocupação, com o desmatamento para delimitação do
perímetro do condomínio, pavimentação de ruas e avenidas (que aumentou escoamento superficial),
e o uso de áreas próximas para extração de areia, geraram o atual quadro de degradação com uma
grande voçoroca na margem esquerda, sentido norte, e o assoreamento do Ribeirão das Pedras, um
dos afluentes que deságua na Barragem do Santo Antônio do Descoberto, que abastece toda
Brasília.
A ocupação da área ocorreu através da grilagem de terra que desconsiderou a suscetibilidade
do solo para processo “erosivo”.
Neste histórico de degradação, o uso inadequado de técnicas para extração de areia em
forma de barranco foi um dos condicionantes que induziu a aceleração do processo erosivo, em
contraposição ao processo de pedogênese. A pavimentação de ruas e avenidas que auxiliaram para o
aumento do volume d’água e a velocidade do escoamento superficial também é um condicionante
antropico que acelerou a evolução da voçoroca. O ritmo do tempo dos processos naturais do meio
foi alterado pelas atividades socioeconômicas.
Tricart (1977), na obra Ecodinâmica, estabelece a relação entre morfogênese e pedogênese,
e classifica os meios como estáveis, em transição e instáveis. De acordo com esta proposta, os
meios estáveis são caracterizados pelo predomínio da pedogênese sobre a morfogênese devido o
estado de clímax, cuja cobertura vegetal é suficiente para evitar os processos mecânicos nas
vertentes. Os meios instáveis existem onde a morfogênese prevalece sobre a pedogênese, resultam
de causas naturais e principalmente, de causas antrópicas com a retirada da cobertura vegetal e
ausência de práticas conservacionistas no manejo do solo. Portanto, no local onde evoluiu a
voçoroca do Condomínio Privê a perda de solo foi superior à capacidade de sua formação, fazendo
com que os processos dinâmicos entre pedogenéticos e morfogenéticos na área tendam para
morfogênese.
Os impactos e irregularidades no Condomínio Privê no atual momento histórico, no que
tange a Geomorfologia, é uma prova que os geógrafos dar mais importância “[...] à analise dos
processos morfodinâmicos (curto tempo) em detrimento dos processos morfogenéticos (longo
tempo)” (SUERTEGARAY; NUNES, 2001, p. 17). Guerra e Marçal (2006) sintetizam esse novo
paradigma da Geomorfologia que apresenta maior ênfase na escala do local, com uma tendência da
aplicação de metodologias e propostas de planejamento no sentido de compreender a magnitude dos
impactos causados pela ação humana no relevo e nos solos, com as seguintes palavras:
A Geomorfologia está cada vez mais empenhada com a questão ambiental e desenvolve-se
a partir da demanda crescente da sociedade, com relação à necessidade de buscarem
conhecimentos que apontem na direção de inúmeras possibilidades de soluções ou
amenizações que os impactos exercem, tanto em áreas urbanas como rurais. (GUERRA e
MARÇAL, 2006, p.15)

O modo irregular de uso e ocupação da área do Condomínio Privê, e do seu entorno, pelos
cidadãos e a negligencia do Poder Público gerou uma paisagem degradada em seu entorno e um
novo ritmo nos processos naturais na localidade. Em decorrência destes problemas ambientais e de
cidadania, cria-se a necessidade de introdução de medidas de fiscalização, analise entendimento dos
novos processos dinâmicos da sub-bacia hidrográfica do Ribeirão das Pedras, políticas públicas de
preservação de uso e uma gestão de ocupação do território adequada.
A Geomorfologia é um dos suportes da ciência geográfica que auxiliará no entendimento
dos novos processos dinâmicos no que envolve as questões ambientais no Condomínio Prevê. A
Geomorfologia não se restringe somente a Ciência da Terra, mas há o dialogo com as Ciências
Humanas e Sociais, no que se refere ao meio natural transformado pelo homem. Com isso, diante
das intensas alterações provocadas pela forma de uso e ocupação do solo, o Homem (sociedade)
torna-se um importante agente geomorfológico, atuando na aceleração dos processos naturais,
agindo diretamente na morfologia terrestre através de inúmeras ações transformadoras do relevo,
surgindo à necessidade da intervenção consciente sobre o mesmo (SUERTEGARAY, 2002).
As modificações da paisagem em volta do Condomínio Privê se deram pelo poder de
transformação geomorfológica dos homens que usaram a área para extração de grande quantidade
de areia e para implementação do setor de mansões da cidade satélite de Ceilândia.
O reconhecimento do homem como agente geomorfológico e a as reflexões geográficas
sobre Sociedade e Natureza instigou o conhecimento geomorfológico a um novo ciclo de
pensamento e atuação, desenvolvendo novos estudos, a fim de diagnosticar a situação atual de
degradação e prever novos impactos, aliando o referencial teoricoa capacidade de transformação do
meio físico
As questões ambientais no âmbito geomorfológico aparecem na escola germânica com as
pesquisas de Passarge (1922) e Troll (1932) numa proposta geoecológica (CASSETI, 1991).
Segundo Penteado (1980, p. 149), o objetivo da Geomorfologia Ambiental é “minimizar as
distorções topográficas, entender e atuar nos processos inter-relacionados para a restauração ou
manutenção do balanço natural”. Contudo, a Geomorfologia Ambiental pode ser conceituada da
seguinte maneira:
Geomorfologia Ambiental tem como tema integrar as questões sociais às análises da
natureza e deve incorporar, em suas observações e análises, as relações políticas e
econômicas que são fundamentais na determinação dos processos e nas possíveis mudanças
que possam vir acontecer (GUERRA e MARÇAL, 2006 p. 15)

Portanto, a Geomorfologia Ambiental compreende as modificações ambientais produzidas


no entorno do Condomínio Privê pelas ações antropogênicas sobre o relevo, que levou a alteração
da dinâmica morfológica da área e que redefiniu numa grande voçoroca, além do assoreamento do
Ribeirão das Pedras. Para que seja alcançado, o equilíbrio do meio natural e a qualidade de vida dos
moradores privense, são de importância o entendimento de como os diferentes elementos naturais e
o homem age sobre o relevo.
5CONSIDERAÇÕES FINAIS

A problemática dos processos erosivos em áreas urbanas é complexa, é merece atenção do


poder público e da sociedade. A retirada da cobertura vegetal e a impermeabilização do solo
contribuem para o aceleramento das feições erosivas, criando um quadro de degradação. A
constante expansão das cidades em áreas suscetíveis aos processos erosivos gera um desequilíbrio
do meio natural. A criação e aplicação de um planejamento urbano que visualiza a particularidade
do meio físico, as condições sociais e econômicas das tendências de desenvolvimento, são
essenciais para o não aumento das áreas de risco.
A ciência geográfica pode auxiliar no entendimento sobre esse tema, que é ao mesmo tempo
físico e social. Através do geoprocessamento (acompanhamento da evolução e cadastro das feições
erosivas), planejamento urbano e ambiental (escolha de melhores áreas para expansão urbana sem
grandes impactos ambientais), geomorfologia (análise dos novos processos dinâmicos da superfície
após ocupação do homem). O geógrafo pode atuar na identificação, análise e monitoramento de
processos erosivos.
O presente artigo buscou contribuir, mesmo que de forma incompleta, com o entendimento
da dinâmica do processo de voroçocamento do Condomínio Privê - Ceilândia (DF). Dentro de uma
escala espacial e temporal. A escassez de tempo e falta de experiência pode repercutir na limitação
quanto ao objeto de estudo. As informações contidas nos condicionantes que levou o surgimento da
voçoroca carecem de um aprofundamento no conhecimento teórico e técnico e a análise pedológica
do talude.
Diante do cenário de degradação sobre a voçoroca do Condomínio Privê se faz necessário
um estudo sobre a quantificação da perda dos solos e um estudo geosistêmico da sub-bacia do
Ribeirão das Pedras, e a aplicação de técnicas de contenção de voçorocas em ambiente urbano. E
um maior comprometimento das políticas públicas para recuperação da área degradada.
O custo da recuperação, em algumas áreas urbanas que apresentam feições erosivas, pode
ser economicamente inviável, contudo devemos praticar a ação de prevenção. Através de
instrumentos legais como planejamento urbano, estudo de impacto ambiental, delimitação da
expansão urbana, elaboração do Plano diretor e estudos geotécnicos nas novas áreas ocupadas.
Outras atividades auxiliam na prevenção, como; garantir um destino adequado às águas pluviais,
delimitar zonas de recarga e estabelecer taxa de impermeabilização.
As medidas de controle do processo de voroçocamento e recuperação de área degradada
podem seguir os seguintes aspectos: isolamento da área a ser recuperada para regeneração da
cobertura vegetal, levantamento planialtimétrico e implantação adequada de terraceamento em
curvas de nível e de bacias de captação das águas pluviais e implementação de barreiras físicas
(barramentos com pneus e bambus, sacos com terras, paliçadas) nos sulcos e ravinas.
O controle dos processos erosivos e recuperação das áreas degradadas envolve uma equipe
multidisciplinar. Além de técnicas de engenharia e gastos econômicos. Entretanto, as áreas
degradadas não se aplicam somente a técnicas de engenharia, mas nas políticas públicas. Criação de
legislação específica sobre delimitação do uso e ocupação do solo urbano e áreas de preservação
permanente. A conscientização das novas gerações sobre aspectos da educação ambiental é uma
forma ao longo prazo de se evitar o crescimento dos processos erosivos nas áreas urbanas.

REFERÊNCIAS

AB SABER, A. N. Um conceito de Geomorfologia a serviço das pesquisas sobre o Quaternário.


Geomorfologia, Instituto de Geografia da Universidade de São Paulo, n.18, 1969.
BERTONI, J.; NETO, L. F. Conservação do solo. 5. ed. São Paulo: Ícone, 2005. 355p.
CARVALHO, J. C.; SALES, M. M.; SOUZA, N. M.; MELO, M. T. S. (Orgs.) Processos erosivos
no Centro-Oeste brasileiro. Brasília: FINATEC, 2006. 464p.
DEL GROSSI, S.R. De Uberabinha a Uberlândia: Os Caminhos da Natureza – Contribuição ao
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Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São
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LIMA, E.; JEVAN, M. A Ceilândia Hoje. Brasília: Pop Art, 2007. 46p
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GUERRA, A. J. T.; MARÇAL, M. S. Geomorfologia Ambiental. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil,
2006. p. 13-91

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