Você está na página 1de 68

ANO 13

# 34
ISSN 24467995

DEMOCRACIA AMEAÇADA?
TRUMP, BREXIT E EXTREMA DIREITA NA EUROPA
COLOCAM O MUNDO DEMOCRÁTICO EM RISCO
ESCOLAS OCUPADAS EVOLUÇÃO EM TRÊS ATOS
O QUE MOTIVA AS OCUPAÇÕES A COLABORAÇÃO DE WALLACE, MENDEL E
DE ESCOLAS PELO PAÍS? DARWIN PARA A EVOLUÇÃO NATURAL
Entre nós Diretora editorial
Renata Mascarenhas

Qual democracia? Coordenação Editorial


Bárbara Muneratti e
Cantada em prosa e verso como o melhor sistema político já inventado pela Renato Luiz Tresolavy
humanidade, a democracia, em sua forma representativa e alicerçada em
grandes partidos políticos, vem dando sinais de esgotamento. Em vários paí- Jornalista responsável
ses, inclusive no Brasil, muitos eleitores, não se sentindo mais representados Jayme Brener
(Mtb 19.289-78-61-SP)
por nenhum partido, deixam de votar; outros acabam endossando candida-
tos populistas, que ora se apresentam como “apolíticos”, ora como “salvado- Produção editorial
res da pátria”, acima do bem e do mal. Nessa situação, a mídia substitui os Ex Libris Comunicação Integrada
partidos políticos no papel de mediação entre o eleitor e o representante. Tel. (11) 3266-6088
contato@libris.com.br
O presidente dos EUA, Donald Trump, é apenas o sintoma mais recente des-
se fenômeno. No Brasil, dois representantes dessa espécie se destacaram, Edição
com experiências desastrosas na Presidência: Jânio Quadros e Fernando Cláudio Camargo
Collor de Mello. Será que chegamos ao fim desse sistema representativo
Revisão
cujas origens estão nas grandes revoluções burguesas do século XVIII — a
Hélia de Jesus Gonsaga (ger.),
inglesa, a americana e a francesa? Ou será que o que está em crise é apenas Kátia Scaff Marques (coord.),
a forma partidária dessa representação? Este é o tema de capa desta edição. Rosângela Muricy (coord.),
Outro destaque é a crise da União Europeia evidenciada pelo Brexit, a saída Claudia Virgilio, Gabriela Macedo
de Andrade, Luís Maurício Boa
do Reino Unido do bloco. O sonho de uma Europa próspera, pacífica e soli-
Nova e Raquel A. Taveira
dária que embalou os idealizadores da União Europeia nos anos 1950 deu
lugar a um pesadelo com economia estagnada e alto desemprego, agrava- Projeto gráfico
dos por pressões imigratórias. O resultado é a xenofobia, a rejeição cres- Buono Disegno
cente da Europa e o crescimento da extrema direita. www.buonodisegno.com.br

Você poderá ler também sobre a ocupação, em 2016, das escolas pelos es- Diagramação
tudantes de São Paulo para protestar contra o fechamento de estabeleci- Regina Beer
mentos e sobre os 50 anos do movimento tropicalista, que revelou Caetano,
Gil, Bethânia e Gal, entre outros. Em Ciências da Natureza, explicamos o Infográficos
Área Design
crescimento do consumo de medicamentos antidepressivos, a diferença
entre bombas atômicas e de hidrogênio e entre progressão aritmética e Capa
geométrica, e a evolução da Biologia desde as teorias de Lamarck e Darwin Daniel Elias
até as de Mendel, o Pai da Genética.
Foto da capa
Boa leitura! Robyn BECK/AFP

Gente que fez Impressão e acabamento

Divisão de Sistemas de Ensino


Av. das Nações Unidas, 7221
Pinheiros – CEP 05425-902
São Paulo – SP
Arquivo pessoal

Arquivo pessoal
Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

Reprodução proibida.
Todos os direitos reservados.

CLÁUDIO CAMARGO FERNANDO PORFIRIO JULIO MOREIRA IAN PELLEGRINI


Jornalista e sociólogo, DE LIMA Jornalista formado Jornalista graduado pela
formado pela Escola Jornalista graduado pela pela Universidade Universidade Metodista
de Sociologia e Universidade Federal de Metodista de São Paulo. (SP). Foi repórter do Guia
Política de São Paulo. Alagoas, com atuação Produtor de TV, trabalhou Quatro Rodas e colaborou
Trabalhou como nos jornais Gazeta, Jornal na TV Record, SBT, TV para as revistas Viagem
redator e subeditor de Alagoas, DCI, Folha da Manchete e CBN. Foi e Turismo e O Biólogo.
no jornal Folha de Tarde e Diário Popular. Foi secretário de comunicação Produziu conteúdos
S.Paulo e como assessor de imprensa na da Prefeitura de Lorena, para o Instituto Natura Central de
Atendimento às Escolas
editor da seção Prefeitura de São Paulo e SP, e professor de e para o Centro de
0800 770 1996
“Internacional” no Ministério Público de telejornalismo na Referências em
na revista IstoÉ. São Paulo. Fisp-FMU. Educação Integral.

MAIO 2017 | ATUALIZA


Índice
TROCANDO
06
IDEIAS
O produtor brasileiro de
cinema Pablo Torrecillas conta
que atualmente é muito mais fácil
optar pela carreira do que há
20 anos, quando a indústria
cinematográfica nacional estava
em crise. Ele explica que hoje os
cursos de cinema estão entre
os mais procurados
do país.

09
NUVEM
TECH A CRISE DA
DEMOCRACIA
Nunca houve tantos países
democráticos e tanto repúdio a
ditaduras. Paradoxalmente, nesses
países, os eleitores estão cada vez
mais desencantados, abstendo-se de
votar ou votando em candidatos que 10
se dizem não políticos, ameaçando
assim a própria democracia.
O sistema representativo
está em crise?

18
MALTHUS E
A MATEMÁTICA
Em 1798, o economista
britânico Thomas Malthus previu
uma catástrofe alimentar se a
população mundial continuasse a
crescer em progressão geométrica
enquanto a produção de alimentos
crescia em progressão aritmética.
Saiba por que essa previsão
catastrófica nunca
se concretizou.
A EUROPA TEM
FUTURO?
Há 60 anos, os principais países
22
europeus criaram a Comunidade
Econômica Europeia, projetando
uma futura unificação. Nos anos 1990,
ENTENDA A LÍNGUA
PORTUGUESA BIOLOGIA vieram a moeda única e a adesão
REVISTA maciça ao projeto. Hoje, em meio
INGLÊS FÍSICA a uma grave crise econômica e a
Os ícones temáticos
ESPANHOL QUÍMICA
um enorme fluxo de refugiados,
relacionam as
muitos europeus rejeitam o
matérias às áreas do projeto de união.
ARTE GEOGRAFIA
conhecimento. A seção
“Em foco” contempla EDUCAÇÃO
FÍSICA SOCIOLOGIA
as competências e as
MATEMÁTICA FILOSOFIA
habilidades do Enem.
HISTÓRIA

LINGUAGENS MATEMÁTICA CIÊNCIAS CIÊNCIAS


DA NATUREZA HUMANAS
O NOVO
MOVIMENTO
ESTUDANTIL
A ocupação de escolas no Estado
de São Paulo em 2016 para protestar
contra o fechamento de várias
delas mostra a emergência de um
movimento estudantil bem diferente
do passado. Agora, os estudantes
lutam mais pela melhoria da
qualidade do ensino do que
por reivindicações de
caráter mais geral.
26

UMA MANIA
34
O QUE FOI O PERIGOSA
O aumento das vendas de
TROPICALISMO?
medicamentos como o Rivotril,
Há 50 anos, artistas como Gilberto
Gil, Caetano Veloso, Rogério Duprat,
para combater casos de depressão e
Tom Zé, Os Mutantes e outros ansiedade, revela uma sociedade cada vez
sacudiram o Brasil com um movimento mais dependente de remédios do tipo tarja
30 que buscava a universalização da preta para enfrentar distúrbios psíquicos.
linguagem da MPB, incorporando No Brasil, segundo dados da Anvisa, o
novos elementos, como o rock e consumo de Clonazepam, princípio
a guitarra elétrica. Mas isso foi ativo do Rivotril, era de 29 mil caixas
mesmo um movimento? por ano em 2007; hoje, 2017, é
de 23 milhões de caixas
por ano.

38
DIFERENÇA
LETAL
As bombas atômicas lançadas
pelos estadunidenses nas
cidades japonesas de Hiroshima
e Nagasaki em 1945 foram letais,
mas insignificantes diante daquelas
42 que o homem foi capaz de produzir
depois disso. Conheça a diferença
TODA MÍDIA entre bombas atômicas, produzidas
por fissão (quebra de núcleo de
átomos), e bombas nucleares,
produzidas por fusão.
LAMARCK,
DARWIN E
MENDEL
44 Uma trilogia de naturalistas é
responsável por assentar as bases
científicas da Biologia: Lamarck
(1744-1829) destacou a influência
49
das modificações do ambiente nos ENCARE
ESSA!
animais, Darwin (1809-1882) formulou
a teoria da evolução com base no 50
conceito da seleção natural DIÁLOGO
e Mendel (1822-1884) é COM A ARTE
considerado o Pai
da Genética.

MAIO 2017 | ATUALIZA


06 | TROCANDO IDEIAS
por jULIo moreIrA
Arquivo pessoal

Pablo Torrecillas
Uma ideia na cabeça, uma câmera na mão e
um mundo a ganhar
Ao contrário dos anos 1990, quando o cinema nacional enfrentava uma
grave crise na esteira do Plano Collor e da extinção da Embrafilme, hoje o
mercado cinematográfico se consolidou e oferece muitas oportunidades

os 40 anos, o produtor de cinema Pablo Comunicação e Artes (ECA) é uma boa mostra do

A
Torrecillas já se considera um veterano. sucesso da profissão de cineasta. Com o boom
Formado em cinema pela Faap (Fun- do cinema nacional e as facilidades da produção
dação Armando Álvares Penteado), ele digital, a formação em audiovisual é hoje uma das
é um típico representante da nova sa- mais procuradas do país.
fra de talentosos cineastas brasileiros.Torrecillas, A seguir, os principais trechos da entrevista.
que antes pretendia cursar Medicina, lembra como
era difícil fazer cinema profissionalmente nos anos Atualiza: O que o levou a estudar cinema? Se
1990. “Hoje a decisão é bem mais simples.” O esforço você estivesse fazendo vestibular hoje, optaria
compensou; ele já ostenta na bagagem profissional pela mesma disciplina?
a participação na produção de vários filmes de su- Pablo Torrecillas: Sempre gostei de ver filmes, e
cesso: pela TC Filmes, da qual ele é sócio, Operações quando descobri que podia trabalhar neles, não tive
Especiais; O lobo atrás da porta; Riocorrente; Mari- a menor dúvida de que era cinema o que eu queria fa-
ghella; Boca; Meu País; entre outros. Também pro- zer. Eu me preocupava com a sobrevivência, pois em
duziu séries para televisão. Antes, trabalhou em di- 1995 vínhamos de uma grande crise no cinema após a
versas produções, com destaque para Até que a sorte passagem do governo Collor. Mas decidi seguir a car-
nos separe 2, Amazônia (coprodução com a França), reira mesmo assim. Antes, durante todo o colegial,
Alice (série da HBO), Carandiru — outras histórias eu pensava em prestar Medicina. Eu estudava no co-
(série da Globo). légio Bandeirantes, que é considerado [uma institui-
Quinto curso mais procurado do vestibular da ção] de excelência, e tinha certeza de que era Medi-
USP, com notas de corte de 60 em 2016 e 56 em cina que eu queria. Cheguei até a prestar vestibular
2017, o Curso Superior de Audiovisual da Escola de na Unicamp e Unesp, mas, na hora de me inscrever

ATUALIZA  |  MAIO 2017
Denis Rozhnovsky/Shutterstock
08 | TROCANDO IDEIAS

fabiodevilla/Shutterstock
durante toda sua história e conti-
nua nos dias de hoje. A dramatur-
gia da televisão brasileira é suces-
so, e o cinema beber dessa fonte é
saudável.

As recentes produções brasilei-


ras de seriados para a Netflix
conseguiram uma boa recepti-
vidade internacional. Pode ser
um novo caminho? Nossa expe-
riência com novelas ajuda?
Produzimos somente a série 3%
para a Netflix, que tem confirma-
da a 2a temporada e que é suces-
so aqui e lá fora. O [José] Padi-
na Fuvest, optei por Cinema. Hoje, bom. Hoje produzimos bons fil- lha tem um papel central na série
acho que a decisão seria bem mais mes de autor, mas também óti- Narcos, mas não foi produzida no
simples, pois o mercado cresceu e mos filmes de entretenimento, Brasil. Outros profissionais (di-
continua crescendo muito. Falar onde se destacam as comédias, A grande retores, fotógrafos etc.) têm par-
em prestar vestibular para Cine- mas também policiais, aventura, mudança é ticipado de produções da Netflix.
ma em 1995 era um desafio, causa- terror etc. Ano passado, Aquarius
que hoje são É um caminho sensacional e que
va desconfiança, pois não era visto concorreu à Palma de Ouro em será cada vez mais importante
como uma alternativa economica- Cannes. Este ano temos quase 10 poucos os dentro do nosso mercado. As sé-
mente viável. Acho que hoje não filmes no Festival de Berlim, em profissionais ries da Netflix se aproximam mais
existe muito isso, pois o merca- Sundance, Rotterdam... Ao mes- que do cinema do que da novela, desta
do se consolidou e oferece muitas mo tempo, Minha mãe é uma peça 2 dramaturgia tradicional de nos-
trabalham
oportunidades. está com mais de 6 milhões de in- sa televisão. Experiências com
gressos vendidos. São conquistas só com séries para a HBO ou mesmo mi-
Como a globalização, as novas que nos deixam otimistas. cinema. nisséries para a Globo são mais
tecnologias e a crise econômi- Acredito próximas da Netflix. A produção
ca afetaram o mercado cine- O que a grande bilheteria das destas séries está muito mais pró-
que essa
matográfico no Brasil? comédias dramáticas pode ren- xima de uma produção de cinema
O cinema continua sendo a vitri- der para o cinema nacional? diversificação do que de uma novela, e os profis-
ne mais importante do audiovi- Ela nos ajuda a ganhar mercado e é muito sionais envolvidos também.
sual. Diretores, fotógrafos, pro- isso é muito importante. Reforça positiva, e
fissionais da área gostam de fazer a certeza de que o público gosta Como o cinema nacional vem
também
cinema, talvez mais do que séries, do filme nacional, pois se comu- retratando a crise — do país e
comerciais ou um programa para o nica bem, fala de uma realidade irreversível do mundo?
YouTube, por exemplo. Mas a gran- próxima. Precisamos de suces- Acho que já temos alguns fil-
de mudança é que hoje são poucos sos para consolidar produtores, mes que retratam essa crise ge-
os profissionais que trabalham só distribuidores, exibidores, num ral pelo qual o mundo passa. Vejo
com cinema. Acredito que essa di- mercado onde a concorrência é em Aquarius, por exemplo, uma
versificação é muito positiva, e ela com grandes players globais. crítica ao capitalismo atual, um
é irreversível. Isso só foi possível filme muito contemporâneo. Po-
graças às mudanças observadas a Você acredita que roteiristas e deria citar outros exemplos, eles
partir da década de 1990 e acele- diretores de novelas que estão estão por aí. Os filmes falam do
radas nos últimos anos. migrando para o cinema reali- seu tempo ou têm relação com ele
zam uma “novelização” do ci- na maioria dos casos. Alguns são
Como você vê a retomada da nema nacional? mais explícitos, outros mais sutis,
produção cinematográfica no Não acredito nisso. Acho que a te- mas acho que já temos uma safra
Brasil? levisão sempre se utilizou muito de filmes que são frutos dessa cri-
Acredito que o momento é muito bem de profissionais do cinema se pela qual estamos passando.

ATUALIZA  | MAIO 2017
StarShot Initiative/Divulgação
09

Missão interestelar
O European Southern Observatory (ESO) assinou um acor-
do com a Breakthrough Initiatives para adaptar os instru-
mentos do maior telescópio do mundo, o VLT, instalado no
Chile, para torná-lo capaz de procurar planetas em nosso
sistema estelar vizinho, Alfa Centauro.
Esses exoplanetas poderão ser alvos de futuros lançamen-
tos das sondas espaciais miniaturas pelo Projeto Starshot. Macacos
Estimativas indicam que essas nanonaves espaciais podem ferramenteiros
chegar a Alfa Centauro em apenas 20 anos.
O acordo aporta recursos para que o instrumento Visir Pesquisadores de um projeto
(VLT Imager and Spectrometer for mid-InfraRed) possa
de conservação na Costa do Mar-
ser modificado de modo que aumente significativamente
sua capacidade de procurar potenciais planetas habitáveis fim conseguiram flagrar chimpanzés
em torno de Alfa Centauro. das florestas locais fazendo e usando
Saber onde estão os exoplanetas mais próximos de nós é ferramentas para beber água. O Comoe
crucial para o Projeto Starshot, programa de pesquisa que Chimpanzee Conservation Project instalou
pretende desenvolver o conceito de nanossondas es- câmeras automáticas que revelaram como es-
paciais ultrarrápidas, movidas por luz. ses animais adaptam os pedaços mais finos de
Fonte: <http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/ galhos de árvores.
noticia.php?artigo=nanonaves-espaciais-chegar-alfa-
centauro-20-anos&id=010130160413#.WMqtfRQvz4I>
Eles mastigam a ponta desses materiais,
transformando-os em uma espécie de pin-
NUVEM cel que consegue absorver líquidos.
TECH Os pesquisadores examinaram essas fer-
ramentas e concluíram que elas foram
<http://revistapesquisa.fapesp.br>/Eduardo Cesar

TECNOLOGIA E
INOVAÇÃO SEM
criadas especificamente para que os ani-
TURBULÊNCIAS mais conseguissem obter água. As desco-
bertas foram divulgadas na revista especiali-
zada American Journal of Primatology.
O pesquisador que liderou o estudo, Juan
Lapuente, explicou que outras populações de
chimpanzés na África já usam uma técnica
Um robô semelhante para coletar mel de colmeias
de abelhas. “Mas o uso dessas varas
cadeira de rodas com o que é parecido com um pincel
Na Universidade Federal do ABC na ponta para coletar água é com-
(UFABC), em Santo André (SP), o pesquisa- pletamente novo e nunca tinha
dor Luís Alberto Martinez Riascos desenvolve dois sido descrito antes”, contou.
projetos ousados: uma cadeira com rodas omnidirecionais Fonte: <http://onlinelibrary.
(que rodam em qualquer direção) e outra que sobe escadas. wiley.com/doi/10.1002/
A primeira pode-se deslocar em todas as direções, ficando ajp.22628/full>

mais fácil se locomover em ambientes pequenos. Todas as qua-


tro rodas têm o mesmo tamanho e elas “têm roletes no contor-
no da roda com eixo de rotação a 45° em relação ao da cadeira,
mas com tração no sentido transversal. Combinando adequa-
damente a tração das quatro rodas, é possível obter qualquer
movimento ou rotação”, explica Riascos.
A segunda permite superar dificuldades como escadas, meios-
-fios, irregularidades e buracos no terreno. Essa cadeira é ba-
Sergey Uryadnikov/Shutterstock

seada no princípio de rodas delta ou estrela. Elas são compostas


de três rodas pequenas que giram sobre um eixo comum, tor-
nando possível a subida e a descida de degraus. Cada roda delta
tem um motor elétrico acionado de forma independente. Em
superfícies planas, tem a mesma autonomia de uma cadeira de
rodas convencional.
Fonte: <http://revistapesquisa.fapesp.br/2016/12/16/solucoes-para-os-cadeirantes/>

MAIO 2017 | ATUALIZA


10 | CIÊNCIAS HUMANAS
por cláudio camargo
Banco de Imagens/Ex Libris

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, elegeu-se com um discurso populista e
autoritário contra todo o establishment político.
Desde a época em que Entre o nascimento das Vários pensadores Hoje a maioria dos
o britânico Winston democracias, com a clássicos, como eleitores dos países
Churchill disse que eclosão das revoluções Montesquieu, Rousseau democráticos
a democracia era o burguesas no século 17 na e os federalistas deixou de se identificar
pior sistema político, Inglaterra, nos Estados estadunidenses do com programas e partidos
à exceção de todos os Unidos e na França, e a século 18, como Thomas políticos, passando a se
demais existentes, o nível formação dos grandes Jefferson e Alexander comunicar diretamente
das lideranças políticas sistemas de partidos Hamilton, afirmavam com seus líderes
em todo o mundo só tem políticos de massa, que a democracia e o por meio da mediação
piorado, a ponto de os a partir de meados do regime parlamentar dos grandes veículos
Estados Unidos elegerem século 19, houve representativo não eram de comunicação de
um populista demagogo uma notável ampliação necessariamente massa. Assim, a política
como Donald Trump dos direitos políticos e a mesma coisa. Explique torna-se cada vez mais
à Casa Branca. O que sociais em vários países quais as razões para que personalista e menos
explica essa decadência? europeus e nos Estados eles pensassem assim e o partidária. Pode-se
Unidos. Explique quais porquê de hoje os dois afirmar, então, que a
foram as principais razões conceitos serem mídia substituiu o papel
desse fenômeno. considerados dos partidos políticos?
inseparáveis.

A grande transformação da
democracia Ao mesmo tempo que
vivemos uma “onda
democrática”, crescem
a abstenção eleitoral, o
desprezo às instituições
políticas e o esvaziamento
dos partidos, o que
fortalece a emergência de
candidatos populistas
12 | CIÊNCIAS HUMANAS

Banco de Imagens/Ex Libris

O primeiro-ministro britânico Winston Churchill, para quem a democracia


era o "pior regime", exceto os demais.

primeiro-ministro britânico lastimáveis exemplos de “lideran-

O
Winston Churchill (1874-1965) ças” do naipe de Donald Trump,
disse logo depois da Segunda Silvio Berlusconi, Marine Le Pen
Guerra Mundial que a democra- ou Boris Johnson, por exemplo.
cia é a pior forma de governo, Nas últimas décadas, a demo-
mas acrescentou: “exceto todas cracia representativa vem se ex-
as outras que têm sido tentadas pandindo pelo mundo todo. Na
de tempos em tempos”. Na época, o nazifascismo definição do cientista político Sa-
tinha acabado de ser derrotado no mais sangren- muel Huntington, essa “terceira
to conflito da História e a sombra do totalitarismo onda democrática” teve início em
stalinista pairava ameaçadoramente sobre a Euro- 1974, com a Revolução dos Cravos,
pa. A boutade [expressão francesa cujo significado em Portugal, e culminou com o
é tirada espirituosa ou engraçada] de Churchill foi fim das ditaduras militares latino-
pronunciada em um ambiente dominado por per- -americanas e o colapso do comu-
sonalidades políticas democráticas excepcionais, nismo, entre os anos 1980 e o início
do porte de Franklin Delano Roosevelt, Charles de dos anos 1990. Simultaneamen-
Gaulle, Konrad Adenauer e Alcide de Gasperi. Ima- te, ocorreu um processo contra-
gine-se o que o “velho buldogue” teria dito hoje, com ditório: a deterioração da adesão

aTualiZa | MAIO 2017


Imagens: Banco de Imagens/Ex Libris

de paz na Colômbia e a saída do


Reino Unido da União Europeia
(Brexit), denotam claramente esse
mal-estar dos cidadãos contempo-
râneos com a democracia repre-
sentativa.
Das evidências listadas por Mi-
guel, a última é a mais significa-
tiva. Afinal, os grandes partidos
políticos de massa tomaram for-
ma na Europa na segunda metade
do século XIX, como consequên-
cia da ampliação do sufrágio, que
permitiu a incorporação da maio-
ria dos cidadãos ao processo elei-
O chanceler alemão Konrad Adenauer (à esquerda) e o
presidente francês Charles de Gaulle, em Paris, 1963.
toral, antes restrito apenas aos
mais ricos. Foi uma verdadeira
revolução, como assinala o poli-
ticólogo francês Bernard Malin,
pois os governos representativos,
nascidos das revoluções ingle-
sa, americana e francesa, tinham
sido instalados inicialmente sem
a presença de partidos organiza-
dos. “A maioria dos fundadores do
governo representativo chegava a
pensar que a divisão entre parti-
dos ou facções era uma ameaça ao
sistema que pretendiam estabe-
lecer. A partir da segunda metade
do século XIX, porém, a presen-
A nova extrema direita europeia (da esq. para a dir.): Matteo Salvini (Itália), ça de partidos políticos na orga-
Harald Viliminsky (Áustria), Marine Le Pen (França), Geert Wilders (Holanda) e
nização da expressão da vontade
Gerolf Anemans (Bélgica), no Parlamento Europeu (Bruxelas), 2014.
do eleitorado passou a ser vista
popular às instituições represen- De acordo com o sociólogo Luis como um componente essencial
tativas. “A expansão global da de- Felipe Miguel, a crise de represen- da democracia representativa”,
mocracia liberal coincidiu com tação política ocorre tanto nas ve- diz Malin no ensaio As metamor-
uma crise grave desta nos países lhas quanto nas novas democracias foses do governo representativo.
centrais, onde mais se tinha con- e se sustenta sobre três conjun- E tem mais. Hoje, governo re-
solidado. É uma crise que ficou tos de evidências: o crescimento presentativo e democracia são
conhecida como a da dupla pato- da abstenção eleitoral (mesmo em sinônimos, mas eles nasceram
logia: a patologia da participação, países onde o voto é obrigatório, opondo-se um ao outro. “Para o
sobretudo em vista do aumento como o Brasil); a ampliação da des- pensamento clássico — na verda-
dramático do abstencionismo; e a confiança da população em relação de, até Montesquieu, Rousseau e
patologia da representação, o fato às instituições democráticas, medi- os federalistas, no século XVIII —,
de os cidadãos se considerarem da por pesquisas; e o esvaziamento democracia e eleições não se con-
cada vez menos representados dos partidos políticos, que são (ou fundiam. Enquanto a democracia
por aqueles que elegeram”, escre- foram, como veremos) os princi- se apoia na premissa da igualda-
vem os sociólogos Boaventura de pais agentes da representação po- de fundamental entre todos os ci-
Souza Santos e Leonardo Avritzer pular. Episódios recentes, como dadãos, a eleição contempla uma
no artigo Para ampliar o cânone a eleição de outsiders da política seleção; implicitamente, postula
democrático. como Trump, a rejeição do acordo a existência de indivíduos mais

MAIO 2017 | aTualiZa


14 | CIÊNCIAS HUMANAS

Banco de Imagens/Ex Libris


em 3D. Curiosamente, essa ideia
da necessidade de uma elite guian-
do as massas era compartilhada
por Vladimir Lênin, o líder da Re-
volução Bolchevique (comunista)
na Rússia, em 1917.
O sociólogo alemão Robert
Michels (1876-1936), analisando
a evolução do Partido Social De-
mocrata alemão (SPD, socialista),
escrevia, em 1912 (em Sociologia
dos partidos políticos), que os par-
tidos estavam submetidos a uma
“lei de ferro das oligarquias” que
criava uma elite dirigente comple-
tamente afastada dos interesses
O Juramento do Jogo da Péla (Le Serment du Jeu de Palme), quadro de Jacques Louis dos filiados e eleitores. (Soa fami-
David (1748-1825) que retrata a formação da Assembleia Nacional em 1789 em um liar?). A essa extensa lista é preci-
recinto onde se jogava péla (jogo ancestral do tênis), em Paris. so acrescentar ainda o economis-
ta austríaco Joseph Schumpeter
Para James bem preparados para ocupar os domínio de uma delas (a burgue- (1883-1950), para o qual a vontade
Madison, um cargos públicos e é, portanto, um sia) sobre a maioria explorada (o popular não é genuína, mas “arti-
dos pais mecanismo aristocrático”, escre- proletariado). Por isso, para gran- ficialmente fabricada” por “polí-
ve o professor Luis Felipe Miguel. de parte dos autores dessa corren- ticos profissionais, expoentes de
fundadores “As instituições representativas te de pensamento, a democracia interesses econômicos, idealistas
dos Estados não surgiram como solução para liberal não passava de uma “de- de um tipo ou de outro ou de pes-
Unidos, o a impossibilidade da democracia mocracia burguesa” — na verdade, soas interessadas em montar e di-
sistema direta em grandes Estados; foram, uma ditadura de classe disfarça- rigir espetáculos políticos” (Joseph
desde o início, pensadas como for- da. Já pensadores conservadores, Schumpeter, em Capitalismo, So-
representativo ma de reduzir a presença popular na esteira de Alexis de Tocque- cialismo, Democracia).
foi criado no governo, reservando-o para ho- ville (1805-1859), que temia uma
para colocar mens com características de eli- “tirania da maioria”, desancavam As formas de governo
no poder te”, conclui. Bernard Malin afirma a democracia porque duvidavam representativo
que James Madison, um dos pais da capacidade das “massas” de te- O já citado trabalho de Bernard
pessoas mais fundadores dos Estados Unidos, rem qualquer discernimento polí- Malin faz uma análise perspicaz
aptas a resistir sublinha que “um dos objetivos do tico. Incapazes de autonomia, elas sobre a evolução do governo re-
às "paixões sistema representativo, conforme sempre precisariam ser “guiadas” presentativo. “Frequentemente,
desordenadas" proposta na Constituição estadu- por uma elite para não fazer bo- se afirma que a representação po-
nidense, é colocar no poder pes- bagem. “[Vilfredo] Pareto indi- lítica está passando por uma cri-
soas mais aptas a resistir às ‘pai- cava a circulação das elites como se nos países ocidentais”, escreve
xões desordenadas’”. cerne de qualquer transformação ele. “Durante décadas, a represen-
Não por acaso, desde o seu iní- social, isto é, no fundo se mani- tação parecia estar fundamenta-
cio, a democracia representativa festava a eterna permanência da da em uma forte e estável relação
— ou liberal — teve muitos críti- dominação sobre a massa. [Gae- de confiança entre o eleitorado e
cos. Os marxistas, por exemplo, tano] Mosca estabelecia que o do- os partidos políticos”, continua.
afirmavam que, nesta, a liberdade mínio da minoria sobre a maioria “Hoje, porém, o eleitorado tende
era “formal”, porque a sociedade consistia em regra sociológica in- a votar de modo diferente de uma
estava dividida em classes antagô- variável”, escreve Luis Felipe Mi- eleição para outra, e as pesquisas
nicas e o Estado era a expressão do guel em Representação política de opinião revelam que tem au-

aTualiZa | MAIO 2017


Imagens: Banco de Imagens/Ex Libris
O líder socialista francês Jean Jaurès discursa em um comício em Pré-Saint-Gervais (proximidades de Paris), em 25 de maio de 1913.

mentado o número de eleitores dida em três etapas: a parlamentar,


que não se identificam com par- a democracia de partidos de massa
tido algum.” Ao contrário do pas- e a atual, que ele chama de “demo-
sado, quando os partidos propu- cracia de público”. No governo re-
nham aos eleitores um programa presentativo de tipo parlamentar,
político que se comprometiam a os eleitos eram pessoas que goza-
cumprir, hoje a estratégia eleito- vam da confiança de seus cidadãos
ral dos candidatos e dos partidos em virtude das relações pessoais e
repousa na construção de ima- locais e da notoriedade social. No
gens vagas que projetam a perso- Parlamento, eles votavam em fun-
nalidade dos líderes. “Os políti- ção de suas convicções pessoais e
cos chegam ao poder por causa de não como representantes de seus
suas aptidões e de sua experiên- eleitores. Nessa situação, cresce-
Reunião de deputados do Reichstag (Câmara dos
cia no uso dos meios de comuni- ram, à margem do Parlamento, di- Deputados) alemão realizada em Berlim em 1914.
cação de massa, não porque este- versas organizações e associações
jam próximos ou se assemelhem para a defesa de direitos, forman-
aos seus eleitores. O abismo en- do o que se chama de “sociedade
tre o governo e a sociedade, entre civil” ou “opinião pública”. Na de-
representantes e representados, mocracia parlamentar, as decisões
parece estar aumentando.” fundamentais eram tomadas den-
Para Malin, a história do gover- tro do Parlamento, depois de in-
no representativo pode ser divi- tensos debates.

MAIO 2017 | aTualiZa


16 | CIÊNCIAS HUMANAS

Olmo Calvo / SUB Coop


No segundo tipo de governo
representativo, a democracia de
partidos de massa, nascida em
decorrência do aumento do elei-
torado, os cidadãos não votavam
mais em alguém que conheciam
pessoalmente, mas em partidos
com visões de mundo e platafor-
mas claramente definidas. A re-
presentação torna-se um reflexo
da estrutura social, tanto que os
partidos socialistas e social-de-
mocratas são considerados ar-
quétipos dos partidos de massa.
Os deputados não são mais livres
para votar segundo sua consciên-
cia, mas estão presos à disciplina
de seus partidos. Nesse sistema,
é essencial o consenso para que
seja possível formar governos
por meio de coalizões partidá-
rias. As associações e órgãos de
imprensa são geralmente parti-
dários e não mais independentes.
E as decisões são tomadas pela
cúpula dos partidos, e não mais Manifestação contra as políticas de austeridade do governo na Espanha, em Madri, 2011.
no Parlamento.
O último tipo de governo re-
presentativo descrito por Malin presidentes no presidencialis- A mídia é hoje caracteriza-se “pela presença
é a “democracia de público” ou mo; primeiros-ministros no par- de um novo protagonista, o elei-
o principal
“democracia de plateia”, surgi- lamentarismo. “As plataformas tor flutuante, e pela existência de
do a partir dos anos 1970, em meio eleitorais não se articulam mais mecanismo um novo fórum, os meios de co-
a profundas mudanças econô- em torno de projetos abrangentes de difusão de municação de massa”. Trata-se,
micas, sociais e culturais que le- de organização da sociedade, e sim conteúdos para usar a expressão cunhada
varam os eleitores a deixar de se por temas específicos, aos quais
simbólicos nas por outro sociólogo, o francês Guy
identificar em termos partidá- os eleitores respondem pontual- Debord, da “sociedade (e a políti-
rios. Os candidatos passam a se mente, tópico por tópico”, escreve sociedades ca) do espetáculo”.
comunicar diretamente com os o professor Igor Fuser. “Os even- contemporâneas, A questão do papel dos meios
eleitores por meio do rádio e da tos políticos se deslocam das ma- detendo um de comunicação de massa nes-
TV, dispensando a mediação dos nifestações de rua e dos palanques se novo formato de democracia é
quase-
partidos. O elo entre o eleitor e dos comícios para a casa dos elei- o ponto fundamental. Mas a afir-
seu representante volta a ter ca- tores, na forma de imagens de TV. -monopólio mação de Malin de que a mídia,
ráter pessoal, como no modelo Daí a imagem de ‘palco e plateia’ da difusão das na democracia de público, seria
parlamentarista, agora não mais utilizada por Malin”, continua. E informações e neutra, é absolutamente questio-
por meio do contato direto, mas os meios de comunicação, segun-
dos discursos nável. “Os meios de comunicação
pela mídia. Os partidos conti- do o politicólogo francês, tornam- não são canais neutros que ‘re-
nuam a desempenhar um papel -se “apartidários”. “Eles podem gistram’ uma realidade que lhes
fundamental, porém tendem a se até ter preferências políticas, mas é externa”, explica o professor
tornar instrumentos a serviço de não estão estruturalmente ligados Luis Felipe Miguel. Sua interfe-
um líder. A política personaliza- a partidos que disputam votos”, rência na política é bem maior do
-se cada vez mais, fortalecendo escreve Malin. Resumindo: a nova que aquela que Malin admite. Se-
os chefes do Poder Executivo — forma de governo representativo gundo o sociólogo Venício Lima,

aTualiZa | MAIO 2017


EM FOCO

C2    C
  ompreender as
transformações dos
espaços geográficos como
ELEIÇÕES EUROPEIAS: OS NÃO VOTANTES 52,1 ALEMANHA produto das relações
Porcentagem estimada de não votantes (2014) 55 ÁUSTRIA socioeconômicas e culturais
< 70%
10 BÉLGICA de poder.
59,8 BULGÁRIA
61 a 70%

51 a 60% UE
57,6 CHIPRE * H9    C
  omparar o significado
75,7 CROÁCIA
31 a 50% 43,1 histórico-geográfico das
45 DINAMARCA
> 30% organizações políticas e
87 ESLOVÁQUIA
socioeconômicas em escala
79 ESLOVÊNIA
local, regional ou mundial.
? ESPANHA
63,6 ESTÓNIA
59,1 FINLÂNDIA As eleições europeias confirmaram
56,5 FRANÇA
uma tendência observada já há alguns
42,6 GRÉCIA *
70,8 HUNGRIA
anos na maior parte dos países do
48,8 IRLANDA continente: o crescimento espetacu-
40 ITÁLIA lar da extrema direita. Esse é um fenô-
70 LETÔNIA
meno sem precedente desde os anos
62,7 LITUÂNIA
10 LUXEMBURGO
1930. Em muitos países, essa corrente
25,2 MALTA obtinha entre 10% e 20%. Hoje, em
63 PAÍSES BAIXOS
três países (França, Inglaterra e Dina-
77,3 POLÔNIA
marca), ela já atinge entre 25% e 30%
65,5 PORTUGAL
64 REINO UNIDO dos votos. [...] O caso francês é o mais
80,5 REP. CHECA grave; o avanço da Frente Nacional ul-
65,3 ROMÊNIA
trapassa todas as previsões, mesmo
49 SUÉCIA
as mais pessimistas. Como escreveu
* voto compulsório
o site Mediapart em um editorial re-
cente: “São cinco para meia-noite”.
Michael Löwy. Dez teses sobre a ascensão
da extrema direita europeia.
Disponível em: <www1.folha.uol.com.
fonte: TNS/Scyt/Parlamento Europeu br/ilustrissima/2014/06/1469890-
-dez-teses-sobre-a-ascensao-da-
-extrema-direita-europeia.shtml>
(acesso em: 28 jan. 2017).
hoje a mídia substituiu os parti- [...] Os meios de comunicação de
dos políticos na função de media- massa detêm o quase-monopó- A grande preocupação das correntes
dor entre os candidatos e os elei- lio da difusão das informações, mais à esquerda do espectro político,
tores nas campanhas eleitorais, de discursos e de representações como fica claro no texto, principal-
desempenhado outras funções simbólicas do mundo social; são a mente em sua citação final, reside no
tradicionalmente atribuídas aos fonte, direta ou indireta, da esma- fato de que a ascensão da extrema
partidos, como definir a agenda gadora maioria das informações direita europeia pode, entre outros
dos temas relevantes para dis- de que os cidadãos dispõem para aspectos,
cussão pública, transmitir infor- compreenderem o mundo social a) descaracterizar aspectos nacionais.
mações políticas, fiscalizar a ação em que vivem”, escreve o profes- b) fortalecer a adesão a um modelo
das administrações públicas e ca- sor Luis Felipe Miguel. econômico comum.
nalizar as demandas da popula- Concluindo, Bernard Malin diz c) abrir espaço para correntes islâ-
ção junto aos governos. “A mídia que, quando se reconhece que micas.
é, de longe, o principal mecanis- existe uma diferença fundamen- d) acirrar a xenofobia e o ódio aos imi-
mo de difusão de conteúdos sim- tal entre democracia e sistema re- grantes.
bólicos nas sociedades contem- presentativo, o que está em crise e) possibilitar o retorno do comunismo.
porâneas e, uma vez que inclui o não é a representação em si, mas
jornalismo, cumpre a função de apenas uma modalidade desse
difundir as informações consi- sistema, o regime de partidos de Resposta: d
deradas socialmente relevantes massa.

MAIO 2017 | aTualiZa


18 | MATEMÁTICA
por fernando porfirio de lima

A Matemática 
malthusiana
Apesar de catastrofista,
a visão do economista
britânico sobre crescimento
populacional usou a
Matemática para criar uma
nova ciência, a demografia
tai11/Shutterstock

aTualiZa | MAIO 2017


Em seus estudos, Mais do que uma Na sua obra, Malthus diz Malthus era uma pessoa
o economista britânico doutrina econômica, que, com a diminuição extremamente religiosa
Thomas Malthus a teoria malthusiana é do número de guerras e abominava a ideia de
previu uma grande uma teoria demográfica, e o maior controle de controle artificial da
catástrofe social se concebida numa doenças como a peste, a natalidade. No entanto,
a população Inglaterra no contexto população mais pobre ele acreditava que
continuasse a crescer da Revolução Industrial. cresce de maneira somente uma política
no mesmo ritmo, pois Esse fenômeno provocou descontrolada, antinatalista, dirigida
não haveria comida um intenso deslocamento o que levaria à escassez sobretudo aos setores
suficiente para da população rural em de alimentos e mais pobres da
sustentá- la. Qual era direção às cidades, à eclosão de revoltas. população, poderia evitar
a explicação matemática reduzindo a taxa de Explique quanto tempo a catástrofe da grande
desenvolvida por Malthus mortalidade. Quais seria necessário, segundo fome. O que ele
para formular essa foram as principais Malthus, para que a propunha para realizar
previsão? consequências negativas população dobrasse? o controle da natalidade?
desse deslocamento?

Banco de Imagens/Ex Libris


Hertfordshire. Até os dias atuais
ele é considerado o Pai da Demo-
grafia por sua teoria sobre o au-
mento populacional, conhecida
como malthusianismo. Apesar de
hoje ser amplamente contestada,
s problemas de principalmente por não ter levado

O
superpopulação em consideração a influência da
já preocupavam revolução tecnológica na produ-
economistas eu- ção agrícola, a teoria de Malthus
ropeus do sécu- fez com que a demografia conquis-
lo XVIII, quan- tasse um espaço importante nos
do foi publicada estudos sobre a sociedade.
a obra An Essay on the Principle of Portanto, mais do que econômi- Thomas Robert Malthus
Population (1798), do economista ca, a teoria malthusiana é uma teo-
britânico Thomas Robert Malthus ria demográfica. Foi construída no
(1766-1834). Nela, Malthus afirma- contexto de uma Inglaterra — e Eu-
va que a população do mundo cres- ropa — mergulhada na Revolução a evoluir de forma acelerada, em
cia em progressão geométrica (PG) Industrial. Esse fenômeno históri- progressão geométrica (1, 2, 4, 8,
enquanto a produção de alimen- co, econômico, tecnológico e social 16, ...), sendo ilimitado seu cres-
tos crescia em progressão aritméti- provocou um intenso movimento cimento, provocando a duplica-
ca (PA). Ou seja, a população cres- da população rural para as cidades. ção da população a cada 25 anos.
ceria em um ritmo muito maior do Tal deslocamento em massa levou Já a produção de alimentos, na
que a produção de alimentos, o que, à redução da taxa de mortalidade, visão do economista inglês, cres-
em sua previsão, traria fome, peste mas em compensação trouxe pro- ceria em ritmo lento, em progres-
e guerras. Se nada fosse feito, só com blemas como o desemprego e o au- são aritmética (1, 2, 3, 4, 5, ...), sen-
tais desgraças a sociedade conseguiria mento da população, provocando do restrita aos limites naturais do
reequilibrar produção e consumo. revoltas e escassez de alimentos. planeta, ou seja, sendo limitada.
Graduado na Universidade de No ensaio, Malthus atribui a cul- Para a teoria malthusiana, o
Cambridge, Thomas Malthus pa por essa escassez ao crescimen- crescimento populacional seria
foi sacerdote anglicano e profes- to excessivo da população mais 28 vezes maior do que o cresci-
sor de História Moderna e Políti- pobre. Na ausência de guerras e mento de alimentos disponíveis
ca Econômica no Colégio da Com- doenças como a peste, “predado- em um período de dois séculos,
panhia das Índias Orientais, em ras” da população, esta tenderia ou seja, não haveria alimento para
MAIO 2017 | aTualiZa
20 | MATEMÁTICA
EM FOCO

C5    M
  odelar e resolver problemas que

bikeriderlondon/Shutterstock
envolvem variáveis socioeconômicas ou
técnico-científicas, usando representações
algébricas.

H20    Interpretar gráfico cartesiano que represente


relações entre grandezas.

O trabalho do economista britânico Thomas Malthus,


que influenciou a obra evolucionista de Charles Darwin
ao nele incutir a ideia de “luta pela vida”, pode ser resu-
mido no gráfico a seguir.

Alimento
requerido

Quantidade de alimento
T Alimento
suprir as necessidades de toda a a taxa de fertilidade; e as políticas produzido
população. O resultado, segun- de bem-estar social nos países eu-
do Malthus, seria uma catástrofe ropeus, que, de certa forma, dimi- Armadilha
malthusiana
mundial, na qual grande parte da nuíram significativamente a taxa
humanidade morreria de inanição de natalidade.
(estado de debilidade provocada O impacto das ideias de Malthus
pela falta de alimentos). Haveria decorreu, em grande parte, de uma Tempo t1
também propagação de doenças, combinação de argumentos que
guerras por territórios para a ex- procuravam conciliar as ideias das Como a população cresce exponencialmente, assim
pansão da produção alimentícia e ciências da natureza com a moral também crescem suas necessidades alimentares
desestruturação da vida social, en- anglicana. Assim, Malthus recor- (curva “Alimento requerido”). De acordo com Mal-
tre outros problemas. reu ao uso de fenômenos naturais, thus, o alimento produzido cresce de forma constante
Para evitar tal catástrofe, Mal- como a tendência a procriar da (curva “Alimento produzido”). Nesse caso, após a “ar-
thus propunha uma política an- raça humana e a falta de capaci- madilha malthusiana”, alcançada no tempo t1, haveria
tinatalista, chamada de Controle dade de resposta da agricultura, a) excedente alimentar para a população.
Moral, na qual a natalidade dos po- para demonstrar que existe uma b) ampliação da produção de alimento em razão do
bres seria diminuída por meio da pressão natural sobre as condições desenvolvimento tecnológico.
redução de programas sociais aos de vida. Paralelamente, ele con- c) inversão na progressão de crescimento da popu-
desassistidos, do incentivo à abs- cluiu que argumentos morais po- lação e da produção de alimento.
tinência sexual e do aumento da dem atuar como “obstáculos pre- d) equilíbrio entre o crescimento da população e a
idade média dos casamentos das ventivos”, ou seja, realçou o papel produção de alimento.
pessoas pobres. Por ser religioso, da conduta individual como sendo e) falta de alimento para abastecer a população.
Malthus era visceralmente contra capaz de regular o equilíbrio entre Resposta: e
a utilização de métodos contra- população e meios de vida e, assim,
ceptivos, pregando apenas a obe- manter a ordem social.
diência às normas impostas para a
diminuição do crescimento popu-
lacional.
A teoria malthusiana não imagi-
nava os avanços tecnológicos que
aconteceriam nas décadas seguin-
tes, como a mecanização do cam-
po, que aumentou substancial-
mente a produção de alimentos; a
entrada das mulheres no mercado
de trabalho, que ajudou a diminuir

aTualiZa | MAIO 2017


O CHAMADO DO MONSTRO
Patrick Ness
22 | CIÊNCIAS HUMANAS
por cláudio camargo
Lightspring/Shutterstock


A União Com a persistência da
crise, o sonho generoso
de uma comunidade de

Europeia
países prósperos e pacíficos
mostrou-se um pesadelo
para grandes parcelas da
população europeia, abrindo

tem futuro?
caminho para a xenofobia

aTualiZa | MAIO 2017


No início dos anos 1990, com o fim
o fim dos anos 1980, o colapso do catastrofistas empedernidos, ago- do bloco soviético e a globalização

N
bloco soviético e a reunificação ra povoam cada vez mais cora- econômica, os sonhos de integração
da Alemanha alimentaram a ideia ções e mentes comuns. europeia iam de vento em popa.
de que a unificação — econômica, A guerra civil na Iugoslávia e,
social e política — da Europa esta- Alemanha, o coração da mais tarde, a crise econômica de
va, finalmente, ao alcance da mão. Europa 2008 mostraram que o edifício da
A criação do Euro, a moeda única A chave para se entender tan- unificação europeia se assentava
europeia, dez anos depois, parecia dar razão aos otimis- to o sucesso quanto o fracasso do em bases muito frágeis. Explique
tas. Poucos notaram as fissuras desse projeto ambicio- projeto europeu é a Alemanha, o os motivos dessa fragilidade.
so, gestado nos primórdios da Guerra Fria com o obje- país mais poderoso da Europa.
tivo declarado de impedir novos conflitos na Europa. Em 1953, o escritor alemão Tho- A ideia de uma Comunidade
A guerra civil na Iugoslávia, no início dos anos 1990, mas Man exortou os estudantes Econômica Europeia surgiu depois
mostrou que a Europa não controlava sequer o pró- em Hamburgo a lutar não mais da II Guerra Mundial, como forma
prio quintal. Foi preciso a intervenção da Otan por uma “Europa alemã, mas por de evitar novos conflitos, integrando
(Organização do Tratado do Atlântico Norte, aliança uma Alemanha europeia”. Esta a Alemanha na Europa e dando
militar ocidental liderada pelos Estados Unidos) para seria a única maneira, acreditava protagonismo político à França.
fazer cessar o conflito. o autor da Montanha Mágica e Além disso, pesava na balança o
Mas a tragédia iugoslava não arrefeceu a euforia Doutor Fausto, de evitar novas papel hegemônico dos Estados
com a ideia da Europa unida, que levou ao cresci- catástrofes como as duas guer- Unidos. Explique as razões pelas
mento desordenado e assimétrico do bloco — de 12 ras mundiais, que tiveram seu quais a Guerra Fria foi determinante na
para 27 membros em pouco mais de duas décadas —, país como protagonista. Era a construção da CEE.
acentuando seu desequilíbrio. E a crise econômi- mesma percepção dos franceses,
ca iniciada em 2008 mergulhou a União Europeia inimigos históricos dos alemães, A primeira iniciativa rumo à
na mais grave recessão da sua história. Em 2016, o para os quais apenas uma Ale- unificação europeia foi a criação da
impensável aconteceu: um dos principais membros manha contida nos marcos de Comunidade Europeia de Carvão
da UE, o Reino Unido, abandonou o clube — cami- uma Europa unificada evitaria e Aço (Ceca), em 1951, concebida
nho que pode ainda ser trilhado por outros países, que o Estado criado por Bismarck em conjunto pelos franceses Jean
como Holanda e França. Diante do impasse, cada voltasse a ameaçar o velho con- Monnet e Robert Schuman. O acordo
vez mais analistas se perguntam se o Euro ou a tinente. Era a única maneira de previa a administração comum desse
própria União Europeia têm futuro. Tais dúvi- o galo francês se defender da material estratégico, evitando-se os
das, antes alimentadas apenas por eurocéticos ou águia alemã. conflitos. Quais foram os países que
aderiram ao tratado?
Banco de Imagens/Ex Libris

Nos anos 1990, depois da euforia


com o colapso do comunismo e a
adesão de inúmeros países à União
Europeia, os cidadãos de vários
países começaram a perceber
que decisões fundamentais sobre
seus destinos eram tomadas sem
consulta pelos burocratas de
Bruxelas. Quais os países que mais
se ressentiram desse “déficit
democrático”?

Yves-Thibault de Silguy, comissário de assuntos monetários europeus (à esquerda)


e Jacques Santer, presidente da Comissão Europeia, no lançamento do Euro, 1999.

MAIO 2017 | aTualiZa


24 | CIÊNCIAS HUMANAS

Reunião para a assinatura do Tratado de Roma em 1957, que criou a CEE. Assinatura do Tratado de Lisboa, em Lisboa, 2007.

Mais do que os temores da Alemanha, Itália e Benelux (Bél- O Euro, ma como a inserção da Alemanha
França, entretanto, foi a Guerra gica, Holanda e Luxemburgo), na CEE tinha contido o apetite
concebido
Fria que permitiu o surgimen- colocava sob uma autoridade co- geopolítico dos “tedescos”.
to da União Europeia. O mundo mum a administração do carvão pela França Só que o tiro saiu pela culatra,
que emergiu dos escombros da e do aço, evitando-se que os con- para manter pois no médio prazo o Euro forta-
Segunda Guerra Mundial estava flitos de interesses em torno des- os alemães leceu ainda mais a poderosa eco-
dividido entre as duas potências ses materiais estratégicos provo- nomia alemã, em detrimento dos
vencedoras, os Estados Unidos, lí- cassem novas guerras. O passo
sob controle, demais países da União Europeia,
deres do bloco capitalista, e a União seguinte foi o Tratado de Roma, foi um tiro no sobretudo os mais frágeis, incapa-
Soviética, que comandava o campo em 1957, pelo qual os membros da pé, pois em zes de fazer frente à produtivi-
socialista. Com a parte oriental da Ceca criaram a Comunidade Eco- dade germânica. A única maneira
pouco tempo
Europa sob a esfera de influência nômica Europeia (CEE), a “Euro- de competir com os alemães no
soviética e o lado ocidental de- pa dos seis”, um mercado comum a Alemanha mercado mundial seria via câm-
vastado pela guerra, os Estados com livre circulação de mercado- se fortaleceu bio, no entanto esse caminho es-
Unidos temiam que os partidos rias, serviços e capitais. ainda mais tava vedado aos que aderiram ao
comunistas ocidentais chegas- Em 1973, entraram o Reino sistema monetário europeu, pois,
sem ao poder. Então, em vez de Unido, a Irlanda e a Dinamarca; a com isso, eles abdicavam de suas
transformar a Alemanha em um Grécia, a partir de 1981; e a Espa- moedas e de políticas econômi-
país agrícola, como pretendiam nha e Portugal, a partir de 1986. cas próprias.
inicialmente, os Estados Uni- Formavam então a “Europa dos Nesse período prosperou, entre
dos resolveram criar condições 12”. A queda do Muro de Berlim, muitos socialistas e social-demo-
para que os europeus ocidentais em 1989, e a unificação da Ale- cratas, o mito de que o projeto co-
pudessem enfrentar o desafio do manha, no ano seguinte, fizeram munitário da UE seria uma con-
comunismo: a reconstrução da ressurgir os temores da França traposição ao projeto econômico
Europa ocidental com os dóla- e do Reino Unido de uma nova neoliberal liderado pelos Estados
res do Plano Marshall (1947) e os hegemonia alemã na Europa. Foi Unidos, na medida em que com-
tanques e aviões da Otan, criada daí que nasceu a ideia da união portava elementos da “economia
em 1949 para fazer frente às divi- monetária, que seria consolida- social de mercado” da Alemanha.
sões soviéticas no Velho Mundo. da sob o Tratado de Maastricht, Na verdade, como mostraram di-
A primeira iniciativa rumo à de 1992. Na visão do então versos estudiosos, a construção da
unificação foi a Comunidade Eu- presidente socialista francês, União Europeia, particularmente
ropeia de Carvão e Aço (Ceca), François Mitterrand, o sistema depois de Maastricht, obedeceu
concebida pelos franceses Jean monetário europeu e a moe- a um figurino neoliberal e fi-
Monnet e Robert Schuman. O tra- da única controlariam o marco nancista, que priorizou a movi-
tado, assinado em 1951 pela França, (a moeda alemã) da mesma for- mentação de capitais, serviços

aTualiZa | MAIO 2017


EM FOCO

Imagens: Banco de Imagens/Ex Libris


C2    Compreender as transformações dos espaços
geográficos como produto das relações
socioeconômicas e culturais de poder.

H8   nalisar a ação dos estados nacionais no que


A
se refere à dinâmica dos fluxos populacionais
e no enfrentamento de problemas de ordem
econômico-social.

Se os governos europeus facilitassem travessias seguras e


procedimentos que permitissem solicitar asilo a partir dos
países limítrofes com as zonas de conflito, como determi-
nam os tratados internacionais, os refugiados não precisa-
riam cair nas mãos de máfias de traficantes nem arriscar
suas vidas para cruzar o Mediterrâneo.
Após a fracassada tentativa de coordenar uma resposta
única à crise de refugiados, a União Europeia assinou, em
Bombardeio em Sarajevo na Guerra da Bósnia, 1992. março de 2016, um tratado com a Turquia para que este
país contivesse o fluxo de refugiados em seu litoral por
e mercadorias em detrimento fluxo de imigrantes decorrente 3 bilhões de Euros. Em junho de 2016, destinou fundos ao
da circulação de pessoas. E, nesta das guerras civis no Oriente Mé- treinamento da guarda costeira líbia para que ela mesma
moldura, a Alemanha destaca-se dio e na África, o que pressiona evitasse a saída de barcos da costa. Negociações com o
como a potência dominante, que ainda mais as combalidas econo- Egito concederam também a este país 12 milhões de Euros
não hesita em sacrificar ao altar da mias comunitárias, exacerban- (40 milhões de reais) para trabalhos de contenção. Outro
austeridade países arrasados pela do sentimentos xenófobos e es- tratado, com o Afeganistão, permitirá a devolução de refu-
crise, como os chamados PIIGS maecendo a ideia de uma União giados afegãos barrados na Europa por 5 milhões de Euros
(acrônimo depreciativo utilizado Europeia próspera e pacífica. O (17 milhões de reais). De acordo com dados da agência
pela imprensa britânica para desig- crescimento da extrema direita Reuters, foram construídos na Europa 1.200 quilômetros
nar Portugal, Itália, Irlanda, Grécia em vários países europeus reve- de cercas anti-imigrantes desde a queda do muro de Ber-
e Espanha — Spain em inglês). la uma rejeição crescente à UE e lim. A maior parte, levantada a partir de 2015. A essa altura,
Além disso, nos anos 1990, os ao Euro. E a ideia de “Europa” qualquer um pode se perguntar se os valores de solida-
cidadãos de diversos países co- representa, cada vez mais, os riedade sobre os quais a UE foi construída chegaram ao
munitários começaram a ques- vencedores, os mais ricos. “O seu fim. No momento em que a Europa vive talvez o maior
tionar o “déficit democrático” da risco que existe é o de restar desafio desde sua criação, qualquer um pode afirmar que
União Europeia, devido ao fato para os perdedores — os pobres, algo definitivamente se quebrou nela.
de as decisões econômicas serem marginalizados e desprezados Adaptado de: Fernando Del Berro. A viagem dos
adotadas em gabinetes fechados europeus — apenas ‘a nação’, ou refugiados rumo ao nada.
em Bruxelas, sem nenhuma con- mais precisamente, o naciona- Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/
sulta à população. Os burocratas lismo”, escreveu o historiador 2017/01/23/internacional/1485186262_856877.html>
tiveram de recorrer a plebiscitos, britânico Tony Judt. (acesso em: 28 jan. 2017).
alguns dos quais expressaram tal
descontentamento: em 1992, a Di- De acordo com o texto, na questão dos refugiados, a União
namarca rejeitou a adesão ao Euro; Europeia
Banco de Imagens/Ex Libris

em 2001, a Irlanda não quis ratifi- a) cumpriu o que definem os tratados internacionais.
car o Tratado de Nice, que expan- b) terceirizou o problema para outros países e construiu
dia o bloco para a entrada de paí- muros.
ses do Leste Europeu; e em 2005, c) agiu contra as máfias de traficantes e os perigos da
a França e a Holanda rejeitaram a travessia marítima.
Constituição europeia, substituí- d) assinou tratados com países que respeitam os direitos
da pelo Tratado de Lisboa. E, em humanos.
2016, veio o Brexit, a saída do Rei- e) colocou em risco sua existência para receber os imi-
no Unido da União Europeia. grantes.
Hoje, além da persistência da Refugiados da Síria em Resposta: b
crise econômica, há o aumento do direção à Alemanha, 2015.

MAIO 2017 | aTualiZa


26 | CIÊNCIAS HUMANAS
por ian pellegrini
Fotos Públicas/Rovena Rosa/Agência Brasil

Estudantes seguram cartazes de protesto contra o fechamento da Escola


Estadual Fernão Dias Paes, em Pinheiros, em 13 de novembro de 2015.

aTualiZa | MAIO 2017


Em novembro de O movimento de No auge de sua Os secundaristas não
2015, quando o resistência dos expansão, nos anos elegeram lideranças
governo do Estado estudantes de São 1960, o movimento ou representantes e
de São Paulo Paulo, por sua vez, estudantil brasileiro decidiram tudo em
publicou o decreto inspirou protesto unia bandeiras assembleias,
para transferir semelhantes no Rio específicas da formando comissões
funcionários e alunos de Janeiro, em Goiás educação com voluntariamente.
para outras escolas, e no Ceará. Quais reivindicações de A organização da
os estudantes são as principais caráter nacional. resistência também
ocuparam vários semelhanças entre Explique quais as se manteve distante
edifícios na Grande essas mobilizações principais razões por tanto de partidos
São Paulo. Em quem de 2015 e a luta pela que as mobilizações políticos quanto de
os secundaristas reforma da atuais se movimentos sociais.
paulistas se Universidade liderada concentram em Explique as razões
inspiraram para pela UNE nos anos questões estritamente dessa autonomia
adotar suas táticas 1960? específicas aos quase absoluta.
de ocupação? estudantes.

Occupy
São Paulo
Ao resistir ao fechamento de escolas Os estudantes do Cefam Diade-
em 2016, os secundaristas ressuscitaram ma começaram a planejar a ocu-
pação depois que as famílias re-
o movimento estudantil, embora de um ceberam ligações da direção da
modo diferente do passado escola orientando que seus filhos
fossem matriculados em outro
colégio no ano de 2016. Os alunos
a noite de 9 de novembro de então decidiram ocupar uma par-

N
2015, alunos ocuparam a Escola te do prédio do Cefam, que fica na
Estadual Cefam Diadema, na re- região central de Diadema, e pro-
gião do ABC paulista, iniciando meteram sair apenas quando o fe-
uma onda de protestos contra a chamento das turmas noturnas
Reorganização Escolar proposta do Ensino Médio fosse cancelado.
pelo governo de São Paulo. A me- Seguindo a estratégia dos alu-
dida, anunciada em setembro de 2015, acarretaria na nos de Diadema, no dia 10 de no-
transferência compulsória de mais de 300 mil alu- vembro de 2015, estudantes ocu-
nos e o fechamento de 93 escolas em todo o Estado a param a Escola Estadual Fernão
partir do início do ano letivo de 2016. Dias Paes na primeira movimen-
A Secretaria da Educação de São Paulo informou tação desse tipo na capital. A Fer-
à época que o objetivo da proposta era ampliar o nú- não Dias está localizada em Pi-
mero de escolas que funcionam em ciclo único, isto é, nheiros, bairro nobre da zona
colégios que têm turmas apenas do Ensino Médio, ou oeste de São Paulo, e deixaria de
então apenas classes do Ensino Fundamental II (do 6o oferecer vagas para os anos finais
ao 9o ano). O governo também disse que as 93 escolas do Ensino Fundamental, ficando
não seriam fechadas, mas transformadas em esco- apenas com turmas do Ensino
las técnicas ou transferidas à administração municipal. Médio. Ao contrário dos estudantes

MAIO 2017 | aTualiZa


28 | CIÊNCIAS HUMANAS

Fotos Públicas/Rovena Rosa/Agência Brasil


Escola Estadual Cefam Diadema ocupada por estudantes contra a reorganização escolar, em 18 de novembro de 2015.

Ainda é cedo de Diadema, que se instalaram estudantes de São Paulo passa- semelhantes no Rio de Janeiro,
para afirmar apenas no refeitório, os alunos ram a organizar protestos em em Goiás e no Ceará.
da Fernão Dias ocuparam o pré- ruas movimentadas da capital na Ainda que as ocupações fos-
que a dio todo e passaram a controlar primeira semana de dezembro de sem inspiradas em experiências
resistência dos o acesso de estudantes e funcio- 2015. Seguindo a experiência de outros países sul-americanos,
secundaristas nários. A Polícia Militar chegou a de uma revolta estudantil ocor- a luta por melhores condições de
cercar o edifício ainda no mesmo rida no Chile em 2006, os secun- ensino em São Paulo guarda algu-
paulistas dia da ocupação, mas os alunos daristas paulistas fecharam o trá- ma semelhança com a Reforma da
representa o conseguiram uma decisão judi- fego de veículos em diversas vias Universidade, uma das primeiras
renascimento cial favorável à ocupação no dia da maior cidade do estado, equi- bandeiras defendidas pela União
13 de novembro. pados apenas com as cadeiras e as Nacional dos Estudantes (UNE),
do movimento
No fim do mês de novembro de mesas das escolas. ainda no início dos anos 1960.
estudantil 2015, quando o governo de São Uma semana após a onda de Após uma intensa expansão no
no país Paulo publicou o decreto que re- manifestações de rua, que foram número de vagas no Ensino Supe-
gulamentaria a transferência de duramente reprimidas pela PM, o rior na década 1950, o movimento
funcionários e professores para governador Geraldo Alckmin vol- estudantil consolidou-se no iní-
a reorganização, o número de es- tou atrás e suspendeu a reorgani- cio dos anos 1960 a partir de or-
colas ocupadas havia explodido e zação escolar. ganizações representativas, como
chegado a 194 em todo o estado. os Diretórios Centrais Estudantis
As táticas de ocupação dos edifí- Experiência do passado (DCEs), as Uniões Estaduais dos
cios eram baseadas em uma car- A vitória parcial dos estudan- Estudantes (UEEs) e a União Na-
tilha escrita por secundaristas da tes contra o governo de São Paulo cional dos Estudantes (UNE).
Argentina e do Chile, que se espa- foi um marco na história das lutas As lideranças estudantis que emer-
lhou rapidamente pela internet. estudantis no Brasil. O movimen- giram das eleições para os DCEs
Em resposta ao decreto que to de resistência dos secundaris- eram de fato militantes políticas,
iniciava a reorganização escolar, tas paulistas inspirou revoltas identificadas principalmente com

aTualiZa | MAIO 2017


EM FOCO

C3     C
  ompreender a produção
e o papel histórico das
posições políticas de esquerda e, em alguns casos, tomadas em cada escola eram instituições sociais, políticas e
até com inspiração marxista. Percebendo a cres- decididas em assembleias econômicas, associando-as a
cente insatisfação dos jovens com as condições do nas quais os alunos votavam. diferentes grupos, conflitos e
movimentos sociais.
Ensino Superior em todo o país, o movimento estu- Voluntariamente, os estudan-
dantil começou a mobilizar um grande contingen- tes formavam comissões que H13      Analisar a atuação dos
te de estudantes, que viria a participar ativamente se encarregavam das tare- movimentos sociais que
da vida política nacional. Mesmo a ditadura mili- fas de manutenção das es- contribuíram para mudanças
ou rupturas em processos de
tar instalada em 1964 só conteve o movimento em colas durante a ocupação, disputa pelo poder.
1968, depois do AI-5. como limpeza, cozinha e co-
“Quando se analisa o movimento estudantil da dé- municação. As ocupações
cada de 1960, podemos observar que há um equilí- mantinham-se autônomas, Uma das principais forças de resis-
brio entre reivindicações educacionais e reivindica- principalmente em relação a tência à ditadura militar brasileira foi
ções políticas mais amplas, que não necessariamente partidos políticos ou outros o movimento estudantil, cujas ações
têm relação com as condições do Ensino Superior”, movimentos sociais, e prati- sempre foram cuidadosamente acom-
explica o doutor em Ciências Sociais pela Universi- cavam ações diretas na de- panhadas pelos governos dos gene-
dade Federal de São Carlos, Renato Cancian. fesa e afirmação do espaço rais-presidentes. A repressão violen-
escolar. ta levou alguns estudantes à morte,
UNE ⤫ secundaristas Contudo, ainda é cedo muitos aos hospitais e diversos à luta
O modelo de organização da UNE era completa- para afirmar que a resis- armada. O ano de 1968 foi emblemáti-
mente diferente da forma adotada pelos secundaris- tência dos secundaristas co: em março, o estudante Edson Luís
tas paulistas. “Se observarmos o Brasil daquela épo- paulistas representa o re- Souto foi morto em choque com a po-
ca [os anos 1960], vamos perceber que o movimento nascimento de um ativis- lícia após a invasão de um restaurante
estudantil brasileiro era muito organizado graças mo estudantil. “Só o tempo estudantil no Rio de Janeiro; em junho,
à rede de entidades representativas de âmbito uni- vai determinar se essa mo- uma passeata reuniu 100 mil pessoas
versitário, local, regional e nacional: DCEs, UEEs e vimentação embrionária (e nas ruas do Rio de Janeiro; em agosto,
UNE”, explica Renato Cancian. E, graças à ligação de certo modo espontânea) agentes da repressão invadiram aos ti-
dessas entidades com organizações de esquerda, elas será capaz de se fortalecer a ros a Universidade de Brasília; em ou-
conseguiram manter a mobilização dos estudantes ponto de criar as condições tubro, conflitos entre grupos de direita
mesmo tendo sido proscritas pela ditadura militar. para um movimento estu- e de esquerda nas ruas de São Paulo
Já os secundaristas não elegeram lideranças ou dantil organizado”, conclui provocaram a morte do estudante
representantes, mas todas as decisões estratégicas Cancian. José Guimarães; no mesmo mês, um
congresso clandestino da União Na-
cional dos Estudantes (UNE) foi inva-
dido pela polícia militar, que prendeu
toda a cúpula da organização.
Em reação a esta série de eventos
marcantes, o governo militar propôs
um ato institucional que determinou
a) a aceleração da retomada demo-
crática, com o agendamento de
novas eleições.
b) a mudança na cúpula do governo
federal, com a troca do presidente.
Fotos Públicas/Rovena Rosa/Agência Brasil

c) a supressão das liberdades indivi-


duais, institucionalizando a ditadura.
d) a troca de comando nas cúpulas
das polícias militares.
e) a elaboração de uma nova Consti-
tuição.

Resposta: c
Ocupação por estudantes da Escola Estadual Fernão Dias Paes, em Pinheiros,
em 13 de novembro de 2015.

MAIO 2017 | aTualiZa


30 |LINGUAGENS
por luiZ cHagaS

A tropicália
existiu?
Movimento surgido em 1967
não durou dois anos nem
deixou herdeiros, mas marcou
definitivamente a Música
Popular Brasileira

a série Antholo-

N
gy, sobre os Bea-
tles, realizada nos
anos 1990, Geor-
ge Harrison conta
que levou anos e
anos para enten-
der o porquê da reverência, do encan-
tamento, da subserviência provocada
por sua banda. Chegou a uma conclusão
Banco de Imagens/Ex Libris

simples. “Nós éramos, de longe, as figu-


ras mais fotografadas, os rostos mais re-
produzidos do planeta, em um período
em que o mundo passava por transfor-
mações incríveis em todas as áreas. Ou
Tropicália ou Panis et Circencis é um álbum lançado por Caetano Veloso, seja, tudo o que acontecia era projetado
Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé, em julho de na gente, nós nos tornamos a imagem
1968 pela gravadora Philips Records (atual Universal Music). daquele tempo. E pagamos por isso”.

aTualiZa | MAIO 2017


Explique a importância No clima de debate Durante o III Festival de Apesar de todo o
da peça Opinião, de da época, os artistas Música Popular na TV sucesso de público e
Oduvaldo Vianna Filho ligados à música e aos Record, em 1967, de crítica e da grande
e Paulo Pontes, e das festivais se propunham Gilberto Gil e Caetano agitação na cena
cantoras Nara Leão a mudar as regras e os Veloso eletrizaram a cultural que causou,
e Maria Bethânia rumos da MPB, cada qual plateia com Domingo o tropicalismo durou
no processo que à sua maneira. Explique no Parque e Alegria apenas dois anos e não
acendeu o rastilho quem eram aqueles que Alegria, respectivamente. deixou herdeiros ou
de pólvora do movimento queriam conquistar as Explique por que, apesar influência decisiva na
musical que massas; quem queria do sucesso estrondoso, MPB. Na verdade, ficou
posteriormente viria a apenas proibir a guitarra nenhuma das canções reduzido às figuras de
ser chamado de elétrica na MPB e quem conseguiu ganhar Caetano e Gil. Explique
tropicalismo eram os que não o festival. as razões desse
ou “tropicália”. estavam nem aí. fenômeno.

Imagens: Banco de Imagens/Ex Libris


O mesmo ocorreu com o cha- Caetano Veloso e Gilberto Gil e
mado movimento tropicalista, uns poucos à sua volta.
aquele que foi sem nunca ter sido. Quem acendeu o rastilho de
Na segunda metade dos anos pólvora, involuntariamente, foi
1960, o país estava sob uma di- Nara Leão. Em turnê pela Bahia,
tadura militar. O marketing cul- ela conheceu uma menina de voz
tural começou a se aperfeiçoar, e personalidade fortes, a qual se
surgiu a Jovem Guarda gestada lembrou de chamar quando adoe-
em uma agência de publicidade e ceu encabeçando o elenco de Opi-
a música brasileira passou a viver nião. A peça, recém-estreada no
em função dos festivais de música Rio, tinha sido escrita por Odu-
e de suas fórmulas. Até João Gil- valdo Vianna Filho, Paulo Pon-
berto mostrou sua insatisfação tes e Armando Costa; era dirigida
Gilberto Gil (à esquerda), Gal Costa,
com os sambas-jazz do programa por Augusto Boal e estava desti-
Caetano Veloso e Maria Bethania, 1968.
O Fino da Bossa, de Elis Regina, nada ao sucesso. Já a garota que
dizendo que “é melhor tocar iê iê Nara escolheu e que logo surpre-
iê do que esse jazz retardado”. enderia o Brasil cantando Car-
Músicos eruditos como Júlio cará era nada menos que Maria
Medaglia, Rogério Duprat, San- Bethânia, que, por sua vez, vinha
dino Hohagen e Damiano Cozze- de um meio agitado. Pertencia a
la, recém-chegados da Alema- um grupo de teatro onde brilha-
nha, onde frequentaram cursos vam seu irmão, Caetano, e uma
ao lado de Frank Zappa, queriam turma de amigos como Gilber-
que o cenário mudasse; cantores to Gil, Tom Zé, a tímida Maria
relativamente populares, como da Graça (Gal), Capinam e, com
Edu Lobo e Geraldo Vandré, que- o tempo, Torquato Neto e Jards
riam que o cenário mudasse. Chi- Macalé. Quando os conheceu, o
co Buarque odiava usar smoking próprio Boal pirou, inventou um
no palco. Paralelamente, o cine- Arena conta Bahia e trouxe todo
ma e o teatro ferviam. O mundo mundo para São Paulo — Gil e
fervia. Um tempo vertiginoso. Os Caetano viriam de qualquer jei- Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1968.
debates eram contínuos e incan- to, o primeiro como estagiário da
sáveis, todos tinham uma posição, gerência da Gessy-Lever e o ou-
contudo, a exemplo dos Beatles, tro como acompanhante da irmã
o foco acabou concentrado em famosa. Era 1965.

MAIO 2017 | aTualiZa


32 | LINGUAGENS

E, aqui, Gil e Caetano logo caí- O nome de Caruaru e Naná Vasconcelos; Do segundo disco de cada um
ram na boca da moçada. Gil foi tropicália o outro, Terra em transe, de Glau- às portas da cadeia propriamente
gravado por Elis Regina, Caetano ber Rocha, e Jean-Luc Godard, e dita. E até aquele momento nin-
foi defendido em festivais — era surgiu do ambos consideravam os trabalhos guém tinha falado em tropicália,
o ano de A banda e Disparada. acaso, mais recentes dos Beatles e de seu porque não havia tal coisa, nada
Ambos gravariam seus primei- quando o produtor George Martin o que que sinalizasse um movimento,
ros LPs em 1966. Detalhe: Cae- havia de melhor. Para completar, um grupo, uma tendência. Ao ou-
tano não era considerado bom de
produtor Caetano, o patinho feio, emergiu vir uma composição nova de Cae-
palco devido à sua timidez e teve Luiz Carlos como cisne em um programa de tano, cheia de referências a matas,
de dividir a estreia com Gal Cos- Barreto perguntas e respostas, Esta noite Iracemas, bananas e Carmens Mi-
ta no disco Domingo. Quando os se improvisa. randas, ainda sem título, o futuro
sugeriu que
dois discos foram lançados, no Então o III Festival da Música produtor Luiz Carlos Barreto sen-
meio do ano seguinte, o panora- o segundo Popular Brasileira da TV Record tenciou: “batize de Tropicália!”
ma era outro. Em acaloradas dis- disco do de 1967 marcou a consagração da Muito a contragosto, Caetano
cussões, os artistas ligados à mú- grupo fosse dupla que apresentou duas can- pôs esse nome e, dias depois, ele
sica e aos festivais propunham ções com letras cinematográficas e Gil foram atingidos pela coluna
mudar as regras, os rumos, mas batizado e arranjos beatlemaníacos. Do- de Nelson Motta do jornal cario-
cada um à sua maneira. Havia com essa mingo no parque, de Gil, com ar- ca O Globo, decretando o reinado
desde quem quisesse conquistar designação ranjo de Duprat, que trouxe consi- da tropicália, códigos de condu-
as massas e aqueles que queriam go Os Mutantes; e Alegria alegria, ta, de vestimenta, gírias, manias, o
simplesmente banir as guitarras de Caetano, acompanhado pelos que fazer e o que não fazer em um
elétricas. Gil e Caetano não es- Beat Boys. Não ganharam o festi- ambiente tropicalista. Tudo ha-
tavam nem aí. O primeiro havia val, mas abriram as portas de uma via sido decidido em uma cerveja-
descoberto a Banda de Pífanos infinidade de coisas. da na qual estiveram presentes,
Banco de Imagens/Ex Libris

Cena do documentário “Tropicália”, de Marcelo Machado, 2012.

aTualiZa | MAIO 2017


EM FOCO

C4     C
  ompreender a arte como
saber cultural e estético

Banco de Imagens/Ex Libris


gerador de significação e
integrador da organização
do mundo e da própria
identidade.

H13     A
  nalisar as diversas
produções artísticas como
meio de explicar diferentes
culturas, padrões de beleza e
preconceitos.

Era 12 de setembro de 1968 e, acom-


panhado pelos Mutantes, Caetano
Veloso estava tentando apresentar a
Maria Bethania, Caetano Veloso, Gal Costa e Gilberto Gil. canção É proibido proibir. A música,
inscrita no 3o Festival Internacional
entre outros, Barreto e, claro, Os que mais se aproximaram dis- da Canção, fora inspirada pelos gra-
Glauber Rocha, Cacá Diegues, Ar- so foram os Novos Baianos e Jor- fites que cobriram os muros de Paris
naldo Jabor, Nelson Motta. Os dois ge Mautner. A tropicália em si na rebelião estudantil de maio de 68.
compositores ficaram pasmos, foi mais um sintoma do que uma Ironicamente, a canção prenunciava
principalmente por serem aponta- “doença”. Vejamos um rápido ba- o início da época em que, no Brasil,
dos como líderes disso tudo. lanço. Bethânia nunca chegou se tornaria permitido proibir. [...] o
Além dos dois, todo o mundo nem perto de qualquer coisa tro- que levou o público a vaiar Caetano
saiu ganhando. Duprat ganhou picalista. Capinam e Nara segui- naquela noite foi justamente o con-
disco com uma tal “banda tropi- ram suas vidas. Torquato Neto se fronto entre a juventude “engajada”
calista”, Os Mutantes ganharam suicidou. Os Mutantes se auto- e de esquerda e a vanguarda artís-
disco e o movimento ganhou dis- dissolveram. Duprat declarou- tica que Caetano e Gilberto Gil (que
co. Na capa, Gil, Caetano, Gal, -se surdo e afastou-se da música. logo subiria ao palco para se solida-
Mutantes, Torquato Neto, Du- Macalé brigou com Caetano de- rizar com o amigo e conterrâneo)
prat, Tom Zé e as fotos de Nara pois de Londres e ganhou a pecha representavam. [...] pouco antes, os
Leão e Capinam. A Rhodia entrou de “maldito”. Tom Zé nunca dei- dois baianos tinham criado o mo-
nessa, Chacrinha virou tropicalis- xou de ser um pesquisador, um vimento Tropicalista [...] Baseados
ta, as televisões brigaram por um inovador, contudo foi sendo esque- – na verdade, muitíssimo baseados –
programa da trupe — que acabou cido e estava a ponto de voltar para em tudo que acontecia de novo e de
sendo Divino Maravilhoso, trans- sua Irará quando, no fim dos anos jovem em um país ainda fervilhante
mitido pela TV Tupi, onde a tropi- 1990, foi “redescoberto” por [...], Caetano e Gil fermentaram a
cália foi “enterrada”. David Byrne, Beck, Sean Lennon geleia geral brasileira, acima e além
Os tropicalistas, também co- voltando a brilhar. Caetano, Gil e da caretice.
nhecidos como “os baianos”, do- Gal vão bem, obrigado. Eduardo Bueno. Brasil: uma história.
minaram o festival da Record de Em tempo: Tropicália era uma São Paulo: Editora Ática, 2007.
1968 onde lançaram Gal Costa — e obra de Hélio Oiticica exposta no
que foi vencido por Tom Zé. Gil MAM carioca em 1967. Consistia A leitura atenta do texto permite
e Caetano “causaram” em festi- de duas cabanas chamadas pelo ar- inferir que o movimento cultural ci-
vais, em shows, o segundo teve um tista de “penetráveis”, cercadas de tado estava esteticamente relacio-
casamento hippie público, tan- areia, araras, vasos. Seu intuito era nado com
to agitaram que acabaram sendo discutir a miscigenação. Caetano a) o romantismo indianista.
presos e banidos do país em 1969, só conheceu Oiticica bem depois. b) a rejeição ao movimento hippie.
voltando em 1972. Nessa linha, o baiano também co- c) o engajamento político de direita.
Em suma, apesar de sua esmaga- nheceria Augusto de Campos, d) a oposição à Bossa Nova e à Jo-
dora e incontestável presença, não apresentado pelo maestro Júlio vem Guarda.
se pode falar em herança, ou mes- Medaglia. Existindo ou não, a e) a linguagem pop e o concretismo.
mo influência, do movimento tropi- tropicália nunca careceu de res- Resposta: e
calista. Não houve continuadores. paldo intelectual.

MAIO 2017 | aTualiZa


34 | CIÊNCIAS DA NATUREZA
por fernando porfirio de lima

Uma mania 
perigosa
O aumento de vendas de medicamentos como
o Rivotril revela uma sociedade que busca
soluções rápidas para a ansiedade e o estresse
Gordana Markovic/Shutterstock

aTualiZa | MAIO 2017


Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) o
consumo brasileiro de Clonazepam subiu de 29 mil caixas por ano
Clonazepam é um medicamen- em 2007 para 23 milhões de caixas em 2015. Esse grande

O
to usado para tratar transtor- crescimento em pouco tempo assustou os especialistas. Explique
nos psicológicos e neuroló- as razões para tal crescimento.
gicos, como crises epilépticas
ou ansiedade, devido à sua O Clonazepam, conhecido pelo nome comercial de Rivotril, é usado
ação anticonvulsivante, de re- para tratar transtornos psicológicos e neurológicos, como crises
laxante muscular e tranqui- epilépticas e ansiedade. Quais são os dois distúrbios específicos
lizante. Este remédio é muito conhecido pelo para os quais esse tipo de medicamento tem sido prescrito com
nome comercial de Rivotril, sendo encontrado bastante intensidade?
nas farmácias sob a forma de comprimidos co-
muns, comprimidos sublinguais e gotas. E ele Os compostos benzodiazepínicos foram sintetizados na década de
também pode ser encontrado na forma de ge- 1960 e promoveram uma revolução na forma de tratar distúrbios
nérico ou com outros nomes, como Clonatril, psíquicos. No entanto, pesquisas mostram o crescimento do
Clopam, Navotrax ou Clonasun. número de mortes nos Estados Unidos em consequência do uso
Segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilân- excessivo desse medicamento. Quais são as causas disso?
cia Sanitária), o consumo brasileiro do Clonazepam
em 2007 era de 29 mil caixas por ano. Já em 2015 No Brasil, não existem estatísticas sobre as mortes relacionadas
este número atingiu os 23 milhões, de acordo com ao uso de medicamentos controlados, mas os números de
a IMS Health, consultoria especializada em dados consumo de benzodiazepínicos indicam que o problema aqui
da área de saúde. O crescimento significativo em pode ser igual ou até maior do que nos Estados Unidos. Em que
pouco tempo despertou as suspeitas por parte de está baseada essa hipótese assustadora?
especialistas de uso excessivo e desnecessário. Ain-
da segundo a IMS Health, até abril do ano passado
a venda do medicamento tinha alcançado 24,3 mi- Com a promessa de aliviar as Embora seja muito utilizado, este
lhões de unidades no Brasil. pressões e as ansiedades coti- medicamento só deve ser ingerido
dianas, psiquiatras e médicos em com indicação médica, pois quan-
geral receitam o remédio “tarja do usado em excesso pode pro-
preta”, ou seja, que pode causar de- vocar dependência e crises epi-
pendência física e psíquica, mes- lépticas frequentes. O consumo
mo que o paciente não apresen- do princípio ativo sem prescri-
te um caso clínico de ansiedade. ção médica pode causar proble-
mas mais graves, como depressão
e até a morte, alertam médicos e
psicólogos.

MAIO 2017 | aTualiZa


36 | CIÊNCIAS DA NATUREZA

O psiquiatra Amaury Cantilino, de alerta foi apontado por um O Clonazepam nervoso central) mais usados no
doutor em neuropsiquiatria e ciên- estudo publicado em 2016 no Ame- mundo.
cias do comportamento e profes- rican Journal of Public Health. A
é muito Embora sejam muito mais se-
sor adjunto do Departamento de pesquisa identificou uma explosão eficaz para guros que as opções anteriores,
Neuropsiquiatria da Universidade no número de vítimas de overdose tratar dois como os chamados barbitúri-
Federal de Pernambuco (UFPE), associada ao uso de medicamentos cos (que tiveram entre suas víti-
distúrbios
explica que o Clonazepam é pres- benzodiazepínicos, popularmente mas mais famosas a atriz Mari-
crito para tratar dois distúrbios conhecidos como calmantes, nos psíquicos lyn Monroe, morta em 1962), seu
específicos: transtorno do pânico Estados Unidos, entre 1996 e 2013. específicos: a consumo indiscriminado, princi-
e transtorno de ansiedade gene- O número de mortes ultrapassou síndrome do palmente quando aliado ao uso
ralizada. em muito o crescimento, também de outras drogas lícitas e ilícitas,
“Enquanto o transtorno do pâ- significativo, no consumo dessas pânico e o em especial álcool e analgésicos
nico se caracteriza por crises de substâncias no mesmo período. transtorno opioides, pode ser extremamente
ansiedade aguda, com medo in- Sintetizados pela primeira de ansiedade perigoso.
tenso e sensação de perda de con- vez no início da década de 1960, Assim, segundo os pesqui-
generalizada
trole, o transtorno de ansiedade os compostos benzodiazepínicos sadores liderados por Marcus
generalizada ocorre quando o pa- trouxeram uma revolução na for- Bachhuber, professor da Faculda-
ciente maximiza as preocupações, ma de lidar com distúrbios psí- de de Medicina Albert Einstein, em
passando a causar sofrimento no quicos. Chamados de ansiolíticos, Nova York, esses medicamentos
dia a dia. O remédio é muito eficaz e também apelidados de “drogas estão por trás de nada menos que
no tratamento desses transtor- da paz”, eles são receitados para 31% das quase 23 mil fatalidades
nos, aliviando os sintomas desses tratar de ansiedade a insônia, pas- relacionadas a remédios controla-
distúrbios, considerados extrema- sando por estresse, tristeza, fo- dos nos Estados Unidos em 2013,
mente incapacitantes”, afirma o bias e outros transtornos de hu-

Fotyma/Shutterstock
médico. mor muito comuns na sociedade
Entretanto, o que a depres- moderna. Com isso, eles logo se
são tem a ver com o aumento do tornaram os medicamentos psi-
uso de drogas como o Clonaze- cotrópicos (que agem no sistema
pan, princípio ativo do Rivotril?
E o que esses medicamentos po-
dem causar a uma pessoa? O sinal

aTualiZa | MAIO 2017


EM FOCO

Bignai/Shutterstock
C4     C
  ompreender interações
entre organismos e
ambiente, em particular
aquelas ligadas à saúde
humana, relacionando
conhecimentos científicos,
aspectos culturais e
características individuais.

H13     I dentificar padrões em


fenômenos e processos
vitais dos organismos,
como manutenção do
equilíbrio interno, defesa,
relações com o ambiente,
sexualidade, entre outros.

Geralmente encontrado na forma


de uma pílula colorida e consumi-
do em festas dançantes de longa
duração – conhecidas como ra-
ves – a partir da década de 1980,
o ecstasy é uma droga da família
das anfetaminas que aumenta a
levando a uma taxa de 3,14 mor- Lorazepam (vendido no Brasil com disposição do usuário por meio
tes a cada 100 mil adultos na- a marca Lorax). da eliminação do apetite e da ele-
quele ano, um aumento de mais No Brasil, não há estatísticas so- vação do vigor. Seu uso prolon-
de quatro vezes diante de taxas de bre as mortes relacionadas ao uso gado destrói neurônios produtores
0,58 morte por 100 mil adultos re- de medicamentos controlados, do neurotransmissor serotonina e
gistrada em 1996. Enquanto isso, mas os números do consumo de estimula a produção de outro neu-
nesses mesmos 18 anos, o núme- benzodiazepínicos indicam que o rotransmissor, a dopamina. Alguns
ro de prescrições subiu 67%, de problema aqui pode ser igual ou de seus efeitos, que incluem altera-
8,1 milhões para 13,5 milhões. até maior que nos Estados Unidos. ções cognitivas, na frequência car-
Ainda de acordo com os pes- E não é para menos. Distribuído no díaca e na temperatura corporal,
quisadores estadunidenses, outra país sob a marca Rivotril, um des- são potencialmente fatais.
explicação para a maior mortali- ses compostos, o Clonazepam, foi Alterações na química cerebral
dade associada aos benzodiaze- o sétimo remédio mais vendido em provocadas pelo ecstasy podem
pínicos pode estar ligada à quan- 2012 de acordo com a IMS Health. levar a um quadro depressivo pelo
tidade ingerida. Assim como Por aqui parece haver um exa- fato de alterarem a produção de
muitas outras drogas psicoati- gero na prescrição dessas subs- substâncias que
vas, legais ou não, esses compos- tâncias, avaliam especialistas da a) permitem o tráfego de impul-
tos causam dependência e au- área, como a psiquiatra Analice sos nervosos entre neurônios
mentam a tolerância, ou seja, é Gigliotti. Segunda ela, o Clonaze- através das sinapses.
preciso, a cada vez, tomar mais pan, que tem venda controlada, é b) promovem regeneração dos
para obter o mesmo efeito. Des- receitado de maneira indiscrimi- neurônios, as células do tecido
sa forma, a quantidade total de nada. “Os pacientes muitas vezes nervoso.
benzodiazepínicos consumi- pedem aos médicos para conti- c) transmitem impulsos nervosos
da nos Estados Unidos mais que nuar a tomar os medicamentos e por meio do contato físico en-
triplicou no período da pesquisa, alguns deles dão a receita sem se tre neurônios.
saltando de 1,1 quilo por 100 mil dar conta de que essas substân- d) bloqueiam a passagem de impul-
adultos em 1996 para 3,6 quilos cias geram tolerância e depen- sos nervosos entre neurônios.
em 2013, em cálculo que traduziu dência. E essas prescrições são e) aceleram a condução de impul-
as dezenas de princípios ativos muito comuns no Brasil, muito sos nervosos entre neurônios.
dessa classe de medicamentos na mais do que deveriam ser”, criti-
equivalência a apenas um deles, o ca a médica. Resposta: a

MAIO 2017 | aTualiZa


38 | CIÊNCIAS DA NATUREZA
por fernAndo porfIrIo de LImA
Banco de Imagens/Ex Libris

Teste com bomba nuclear em


Fangataufa, Polinésia francesa, 1970.

Uma diferença
letal
Há uma desproporção no poder destrutivo
da bomba atômica e da bomba de
hidrogênio. A primeira é produzida por
reações de fissão; a segunda se dá por
fusão, o que a torna muito mais potente

ATUALIZA  |  MAIO 2017


Little Boy, a bomba A bomba atômica é A bomba de nêutron, Uma bomba
atômica que explodiu produzida por um construída durante nuclear produz
em Hiroshima processo chamado a guerra fria, é uma energia térmica,
em agosto de 1945, fissão nuclear, espécie de bomba liberação de
tinha 15 kilotons de enquanto que a atômica que tem a radiação e pulso
potência (um kiloton bomba de hidrogênio capacidade de matar eletromagnético.
corresponde a é produzida por fusão apenas organismos Os efeitos térmicos
1 milhão de toneladas nuclear. No primeiro vivos como seres desses artefatos
de dinamite). Hoje, caso, os núcleos de humanos, preservando são semelhantes
qualquer bomba é urânio ou plutônio construções como aos das bombas
no mínimo dez vezes são desintegrados em edifícios, pontes convencionais.
mais potente do elementos mais leves e torres. Explique de Então, qual é a
que aquela. Qual por um bombardeio que forma funciona principal diferença
foi o mais poderoso de nêutrons. Explique esse mecanismo de entre as bombas
artefato nuclear já como funciona o destruição seletiva. convencionais e
produzido? processo de fusão as nucleares?
nuclear.

s artefatos nu- Em termos de comparação, a

Imagens: Banco de Imagens/Ex Libris


O
cleares — bom- Bomba Tzar era 3 mil vezes mais
bas atômicas e potente do que o artefato que os
termonucleares Estados Unidos lançaram sobre
— são as armas Hiroshima em 6 de agosto de 1945,
de destruição a primeira vez que uma arma nu-
em massa mais clear foi usada em situação de con-
poderosas e mortíferas já inven- flito. A Little Boy (‘garotinho’, em
tadas pelo ser humano. Podem ser tradução literal), como foi batizada Little Boy
lançadas a partir de aviões de caça, a bomba que devastou aquela cida-
bombardeiros, submarinos e mís- de japonesa, tinha 15 quilotons (15
seis balísticos de curto, médio e toneladas de TNT). Já o artefato
longo alcance — estes últimos de- Fat Man (‘homem gordo’), lançado
nominados “mísseis interconti- sobre Nagasaki três dias depois do
nentais”. bombardeio de Hiroshima, tinha
Até hoje, nenhuma explosão su- 21 quilotons. Um dado curioso é
perou a potência da Bomba Tzar, que apenas 7 kg de urânio-235, que
nome dado à bomba RDS-220, a foi a massa usada nas bombas de
mais potente arma nuclear já deto- Hiroshima e Nagasaki, equiva-
nada no mundo. Desenvolvida pela leram, em poder de destruição, a
antiga União Soviética, o artefato 15 mil e 21 mil toneladas de TNT.
tinha 58 megatons (equivalente Tanto a Little Boy quanto a Fat Fat Man
a 58 milhões de toneladas de trini- Man foram produzidas pelo
trotolueno, mais conhecido como processo de fissão nuclear, que é
TNT), e foi testada em 30 de outu- a quebra de um núcleo atômico
bro de 1961, em Nova Zembla, uma instável em dois átomos meno-
ilha do oceano Ártico. res pelo bombardeamento de

MAIO 2017  |  ATUALIZA


40 | CIÊNCIAS DA NATUREZA

nêutrons. Quando ocorre a sepa- bomba-H — armas termonu- A energia absorvidos pelo interior da bom-
ração, libera-se uma grande quan- cleares que conseguem ser até liberada ba, mas sim libertados para o ex-
tidade de energia, e a cada colisão 750 vezes mais potentes do que terior. As emanações de raios X e
são liberados novos nêutrons, que qualquer bomba de fissão nuclear. na explosão de nêutrons de alta energia são o
vão colidir com novos núcleos, Nesse processo, os núcleos le- das bombas seu principal mecanismo destru-
provocando a fissão sucessiva de ves de átomos de hidrogênio e atômicas tivo. Os nêutrons são mais pene-
outros núcleos e estabelecendo, hélio se combinam para formar trantes do que outros tipos de ra-
então, uma reação em cadeia. elementos mais pesados, liber-
segue a diação, de tal forma que muitos
Na fissão nuclear, os pesados tando enormes quantidades de equação materiais de proteção que blo-
núcleos atômicos do urânio ou energia. Esses artefatos são tam- de Albert queiam raios gama são pouco efi-
plutônio são desintegrados em bém denominados termonuclea- Einstein: cientes contra eles.
elementos mais leves, quando res, pois a fusão requer uma tem- A bomba de nêutron tem uma
são bombardeados por nêutrons. peratura muito elevada para que E = mc2 ação destrutiva apenas sobre or-
Quando se processa ao bombar- a reação em cadeia ocorra. ganismos vivos, mantendo, por
deamento de um núcleo, produ- exemplo, a estrutura de uma cida-
zem-se mais nêutrons que bom- A bomba de nêutron de intacta. Do ponto de vista estri-
bardeiam outros núcleos, gerando Em outra frente, a bomba de tamente militar, isso representa
uma reação em cadeia. Estas são nêutron é a última variante da uma vantagem, visto que se pode
as chamadas bombas-A. bomba atômica. Ela tem uma par- eliminar os inimigos e apoderar-se
Já artefatos como a Czar-Bom- ticularidade diabólica: é capaz de de seus recursos.
ba são produzidos pelo processo matar “apenas” seres humanos,
de fusão nuclear, que é a união de poupando toda infraestrutura, Efeitos devastadores
pequenos núcleos atômicos, dois como edifícios, ruas, instalações, Os efeitos predominantes de
isótopos de hidrogênio, o deu- etc. Seu inventor, Samuel Cohen, uma bomba atômica são a explosão
tério e o trítio, que formarão um chegou a dizer, em razão disso, que e a energia térmica (calor), a liber-
núcleo maior e mais estável. Esta a bomba de nêutron era a “única tação de radiação (raios X, gama,
é a fonte de energia e vida das es- arma sã e moral”. A propriedade, nêutrons) e o pulso eletromagnéti-
trelas. Um exemplo é o Sol: em em nossa sociedade, vale bem mais co. Em relação aos efeitos térmicos
seu núcleo ocorrem reações ter- que vidas humanas... da bomba, estes são muito seme-
monucleares de fusão de hidrogê- Em geral, a bomba de nêutron lhantes aos dos explosivos conven-
nio originando núcleos de hélio, é um dispositivo termonuclear cionais de alta potência. A principal
elemento químico mais pesado. pequeno, com corpo de níquel ou diferença é a capacidade de libe-
Esse tipo de bomba é designado crômio, no qual os nêutrons ge- rar uma quantidade imensamente
como bombas de hidrogênio, ou rados na reação de fusão não são maior de energia de uma só vez.

Shutterstock
A EVOLUÇÃO DA POTÊNCIA DAS BOMBAS NUCLEARES
1 kiloton = 1.000.000 TNT Tsar (57 megatons)
( 1 megaton = 1.000.000 kilotons (
40.000 metros

Estratosfera
Castle Bravo (15 megatons)
30.000 metros

20.000 metros B83 (1,2 megaton)


Vôos comerciais

10.000 metros Fat Man (21 kilotons) Everest


Little Boy (13 kilotons)

Hiroshima, 1945 Nagasaki, 1945 não testada Los Alamos, 1954 Oceano Ártico, 1961

ATUALIZA  |  MAIO 2017


EM FOCO

C6 Apropriar-se de conhecimentos

Banco de Imagens/Ex Libris


da Física para, em situações-
-problema, interpretar, avaliar ou
planejar intervenções científico-
-tecnológicas.

H23 Avaliar possibilidades de geração,


uso ou transformação de energia
em ambientes específicos,
considerando implicações
éticas, ambientais, sociais e/ou
econômicas.

No final de 2016, a renomada revista Na-


ture apresentou resultados positivos dos
testes realizados no Wendelstein 7-X, um
reator de fusão nuclear do tipo “stellarator”
(inspirado na produção energética das es-
trelas) localizado na Alemanha. A boa-nova
é que a máquina, com formato similar
A cidade japonesa de Hiroshima, depois de atingida por uma bomba atômica de 15 kilotons, 1945. ao de uma rosquinha com mais de 15 me-
tros de diâmetro e ao custo de 1 bilhão de
libras, conseguiu isolar o plasma, substân-
O dano produzido pelas três for- porém afeta os sistemas eletrônicos — cia resultante da fusão nuclear dos átomos
mas iniciais de energia liberada foi criada para liberar energia eletro- de hidrogênio. [...] Entretanto, por mais
(calor, pulso eletromagnético e ra- magnética na faixa das micro-ondas. que o Wendelstein 7-X tenha se comporta-
diação) difere de acordo com o ta- A energia libertada na explo- do bem até o momento, os cientistas afir-
manho da arma. A bomba de nêu- são das bombas atômicas segue mam: ainda vamos levar um bom tempo
tron, por exemplo, foi criada para a equação de Albert Einstein, para termos o nosso próprio sol, raiando
produzir o máximo possível de ra- E = mc2, em que E é a energia liber- energia por toda a Terra. Por ora, a ideia
diação, enquanto a bomba eletro- tada, m é a massa da bomba que “de- do W-7X, como é carinhosamente cha-
magnética (e-bomb) — chamada saparece” na explosão e c (em latim mado o reator alemão, é “apenas” conse-
de “bomba invisível” porque não celeritas, que significa ‘rapidez’) é a guir controlar o plasma e simular reações
provoca destruição nem mortes, velocidade da luz. energéticas. Trata-se de um importante le-
gado construído para nossos filhos e netos,
que provavelmente serão os responsáveis
pela produção em escala e implantação
de uma rede de distribuição desse tipo de
energia para a população do futuro.
A bomba atômica também é nuclear Adaptado de: Natasha Pinelli.
A rigor, o termo bomba atômica não é lá muito ade- Fonte eterna de energia.
quado, pois as bombas tradicionais, lançadas por aviões Disponível em: <http://revistagalileu.
ou mísseis, também têm suas energias libertadas a par- globo.com/Caminhos-para-o-futuro/
tir de átomos. Por isso, o termo bomba nuclear mostra- Energia/noticia/2017/01/fonte-eterna-de-
-se certamente mais adequado para classificar ambos os energia.html> (acesso em: 29 jan. 2017).
artefatos. Na realidade, tanto a bomba atômica quanto
a bomba de hidrogênio são produzidas a partir de uma O processo descrito no texto gera energia
combinação. É que no interior das bombas de hidrogênio, da mesma forma que
uma bomba de fissão em tamanho menor é usada para a) uma bomba atômica.
fornecer as condições de temperatura e pressão ele- b) uma usina nuclear.
vadas que a fusão requer para se iniciar. Por outro lado, c) uma bomba de hidrogênio.
uma bomba de fissão é mais eficiente quando um dispo- d) uma usina hidrelétrica.
sitivo de fusão impulsiona a energia da bomba. e) uma usina termelétrica.
Resposta: c

MAIO 2017  |  ATUALIZA


42

Filmes

Divulgação

Divulgação
Biblioteca Digital Mundial
Criado pela Unesco, o portal reúne
arquivos de literatura, mapas e
fotografias de vários países. Trata-se de
uma iniciativa de várias bibliotecas para
criar uma versão pública e acessível da
Biblioteca Digital Mundial. Mais de duas
dezenas de instituições forneceram
conteúdo para o lançamento do site. Eu, Daniel Blake Elle
<www.wdl.org/pt/> De Ken Loach (Reino Unido, De Paul Verhoeven
França, Bélgica, 2016) (Alemanha, Bélgica,
Biblioteca Nacional Digital Depois de sofrer um infarto França, 2016)
Criada pela Fundação Biblioteca Nacional, e ser desaconselhado pelos Isabelle Huppert é
a Biblioteca Nacional Digital agrupa grande médicos a voltar ao trabalho, Michèle Leblanc,
parte das obras digitalizadas de um dos o marceneiro Daniel Blake uma executiva
maiores acervos do Brasil. O destaque tenta receber benefícios do bem-sucedida e
fica por conta de diversas publicações governo, mas depara-se excêntrica que é
periódicas, além de muitos com uma burocracia estuprada em sua
mapas e fotografias. infernal. Ao conhecer casa. Estranhamente,
<https://bndigital.bn. uma mãe solteira de no início ela se mantém
gov.br/>
TODA duas crianças, ele
passa a ajudá-la.
indiferente e só depois
arquiteta sua vingança.

Sites MÍDIA
UM UPGRADE
EM SEU
CONHECIMENTO Livros

A garota do trem A Quinta Onda Viva a língua brasileira

Divulgação
De Tate Taylor (EUA, 2016) De J. Blakeson (EUA, 2016) Sérgio Rodrigues
Emily Blunt faz o papel de Uma nave alienígena inicia (São Paulo, Companhia das Letras, 2016)
Rachel, mulher desempregada uma série de ataques à Terra, Neste livro, o jornalista e escritor Sérgio
que se divorciou recentemente chamados de ondas. A primeira Rodrigues insurge-se contra a ideia de
e está muito deprimida. ataca o sistema elétrico; que só os portugueses sabem tratar
Para espantar o tédio, ela faz a segunda causa tsunamis; a última flor do Lácio de maneira
diariamente o percurso de a terceira traz um vírus que mata inteiramente correta, dando dicas
trem de Ashbury a Londres e 98% dos humanos; na quarta, os fundamentais de como escrever e
começa a fantasiar sobre a vida aliens disfarçam-se de humanos fazendo críticas ácidas ao juridiquês, ao
de um casal que ela observa. Até para eliminar os sobreviventes. corporativês e aos estrangeirismos.
que um dia Rachel testemunha Cassie (Chloë Grace Moretz)
Divulgação

uma cena chocante. tenta resgatar o irmão. A Resistência


De Julián Fuks
Divulgação

Divulgação

(São Paulo, Companhia das Letras, 2015)


Do drama da Argentina sob a última
ditadura, desenvolve-se a história de uma
família na qual dois irmãos, filhos
de pais argentinos que se exilaram no
DVDs

Brasil em 1977, suspeitam que o mais


velho, adotado, seja filho de desaparecidos
políticos. Cabe então ao irmão mais
novo reescrever o enredo familiar.

ATUALIZA  |  MAIO 2017


44 | CIÊNCIAS DA NATUREZA
 por cLáUdIo cAmArgo
David Havel/Shutterstock

ATUALIZA  |  MAIO 2017


Na Antiguidade, A primeira Em meados do Entre os séculos XIX
prevaleceu grande teoria do século XIX o e XX, desenvolveu-se
uma concepção evolucionismo foi monge austríaco uma pseudociência
conhecida como formulada Gregor Mendel fez denominada “social-
“fixismo”, pela qual pelo francês experiências com -darwinismo”, que
todos os seres vivos Jean-Baptiste de ervilhas para buscava transpor
que existem Lamarck, para quem entender as mecanicamente
hoje existiram modificações no características as conclusões de
sempre. ambiente provocam hereditárias Charles Darwin
Essa concepção alterações nos transmitidas de uma sobre a natureza
começou a ser seres vivos que são geração para outra. para os indivíduos
abalada no século transmitidas aos Suas descobertas e para as sociedades
XVIII. Explique o que seus descendentes. abriram caminho humanas. Quais
evidenciou a Qual são as para uma nova foram as principais
falsidade da diferenças entre ciência, a genética. consequências
antiga teoria sobre essa teoria e as de Por que Mendel não práticas dessa
os seres vivos. Charles Darwin? foi reconhecido em falsificação grosseira
sua época? do evolucionismo
darwinista?

A Biologia,
de Lamarck
a Mendel
Nascida no século o princípio era a imutabilidade.

N
Desde a Grécia antiga, os filóso-
XVIII, a Biologia fos interessavam-se pela origem
consolidou-se no e natureza dos seres vivos, mas
a ideia de evolução não existia
século XIX com o e só viria à luz a partir do sécu-
evolucionismo de lo XVIII. Na Antiguidade pre-
valecia uma concepção denominada “fixismo”, que
Charles Darwin postulava que todos os seres vivos que existem hoje
e a genética de existiram desde sempre, não evoluíam. A maioria
acreditava que estes seres eram criados por Deus,
Gregor Mendel embora os pré-socráticos (Parmênides, Empédocles
e Demócrito) e, principalmente, Aristóteles (384 a.C.-
-322 a.C.), defendessem a hipótese de que os organis-
mos surgiam por geração espontânea, ou seja, fos-
sem originados de matéria orgânica, inorgânica ou de
uma combinação de ambas. Assim, insetos e vermes,
por exemplo, poderiam surgir a partir de roupas sujas.

MAIO 2017  |  ATUALIZA


46 | CIÊNCIAS DA NATUREZA

Darwin
postulou
que os seres

Usagi-P/Shutterstock
humanos
têm um
ancestral
comum com Segundo Darwin, o homo sapiens evoluiu de um ancestral comum ao macaco.

algumas
espécies A partir do século XVIII, estu- A primeira grande teoria do evo- a primeira lei, seres vivos perdem
de macacos. dos de fósseis e rochas sedimen- lucionismo nasceu com outro na- características que não mais ne-
tares evidenciaram que as espé- turalista francês, Jean-Baptiste cessitam e desenvolvem aquelas
Então,
cies de hoje não poderiam ser as Pierre Antoine de Monet, o Che- que são mais aptas para enfrentar
segundo mesmas de milhões de anos atrás. valier [cavaleiro] de Lamarck mudanças das condições naturais,
sua teoria, O naturalista francês George (1744-1829). Em sua obra Philoso- aperfeiçoando-se. O exemplo mais
isso não Louis Leclerc (1707-1788), conde phye Zoologique (1806), ele afir- famoso é o do pescoço das girafas
de Buffon, pode ser considerado mava que modificações no am- que, segundo ele, se desenvolvem
significa que precursor de Lamarck e Darwin, biente provocam alterações nas na medida em que elas precisam
o homem pois foi o primeiro a formular a necessidades dos seres vivos, le- comer folhas de árvores mais al-
descenda ideia de evolução. Em sua volu- vando a alterações de órgãos e tas. Em consequência, diz Lamarck,
mosa obra História natural, Buffon funções. Lamarck formulou dois as características físicas de deter-
do macaco,
afirmou que os seres vivos sofriam princípios básicos: a lei do uso e minados animais modificadas em
mas que é modificações no decorrer do tempo, do desuso e a lei dos caracteres razão de mudanças no ambiente
seu parente embora não demonstrasse como. adquiridos por herança. Segundo seriam transmitidas às gerações
futuras.
O britânico Charles Darwin (1809-
-1882) formulou a mais consistente
Imagens: Banco de Imagens/Ex Libris

e ampla teoria da evolução, exposta


em sua obra-prima A origem das
espécies (1859). A preocupação
com a evolução dos seres vivos
vinha do berço, pois seu avô,
Erasmus Darwin (1731-1802),
contemporâneo de Lamarck, tam-
bém escrevera que a mudança
das espécies se devia a transfor-
mações do ambiente, sendo uma
resposta dos organismos a essa va-
riação. Darwin pesquisou por lon-
Lamarck Charles Darwin Gregor Mendel gos anos — ele esteve até mesmo
no Brasil —, mas manteve sigilo

ATUALIZA  |  MAIO 2017


Presente

HOMO SAPIENS

O social-darwinismo, uma
1
falsa ciência
Uma das maiores aberrações do século
HOMO HOMO ERECTUS XIX, com repercussões trágicas no sécu-
2
lo XX, foi uma deturpação grosseira das
PARANTHROPUS
Milhões de anos atrás

ideias de Charles Darwin, o chamado “so-


AUSTRALOPITHECUS

3
cial-darwinismo”. Seus teóricos tentaram
transportar para a sociedade as conclu-
4 HOMO HABILIS
sões do cientista britânico sobre a natu-
reza, postulando assim a “superioridade”
HOMINÍDEOS

5
da raça branca para justificar a eugenia e
o imperialismo.
6
O sociólogo britânico Herbert Spencer
(1820-1903), seguidor do positivismo de
7
Auguste Comte, foi o primeiro a tentar
transpor a ideia de seleção natural para a
sociedade, afirmando que a “lei do mais
forte” fazia com que não apenas o indi-
sobre suas pesquisas, pois ele temia incapazes de competir com as de víduo, mas o grupo social mais forte de-
que suas conclusões fossem, como pescoço comprido. vesse ser dominante. Influenciado por
realmente foram, atacadas por de- Em relação aos seres humanos, Spencer, um primo de Darwin, o natura-
molir dogmas religiosos. O que le- Darwin postulou que temos um lista Francis Galton (1822-1911) criou a
vou Darwin a publicar sua obra ancestral comum com algumas es- eugenia (cujo significado é ‘bem-nasci-
foi uma carta recebida de outro pécies de macacos, como o chim- do’), teoria que busca intervir na reprodu-
naturalista, Alfred Russel Wallace panzé. Pesquisas recentes de de- ção de cidadãos dde forma que selecione
(1823-1913), que havia chegado às codificação do genoma indicam e elimine “espécies inferiores” — isto é, os
mesmas conclusões sobre a ori- uma semelhança de 98% entre os não brancos — para promover a “melho-
gem e evolução das espécies. Quais genes de seres humanos e chim- ria” da sociedade.
eram essas conclusões? Basica- panzés. Isso não significa que o ho- Essa pseudociência era muito popular
mente, a ideia da seleção natu- mem descenda dos macacos, como no início do século XX e foi aplicada tanto
ral. Na verdade, o nome comple- crê o senso comum, apenas que po- por governos democráticos, como os Esta-
to do livro que deu notoriedade a demos ser considerados “paren- dos Unidos e a Suécia, quanto por regimes
Darwin já trazia a ideia no título: tes” deles. Com isso, o darwinismo totalitários, como a Alemanha nazista. A di-
A origem das espécies por meio rompeu definitivamente com o ferença é que, enquanto nos primeiros paí-
da seleção natural ou a preserva- criacionismo, a crença na origem ses os “indesejáveis” eram esterilizados, na
ção das raças favorecidas na luta divina do ser humano. Alemanha eles eram enviados a campos de
pela vida. A teoria da evolução de Darwin extermínio.
Usando esse postulado, Darwin explana que as características pes- No Brasil, as ideias eugenistas foram
explicava o exemplo das girafas soais são transmitidas de pai para abraçadas por intelectuais de reno-
de Lamarck de uma maneira com- filho em medidas iguais. Contudo, me, como Nina Rodrigues, Silvio Rome-
pletamente diferente. Para ele, estudos posteriores mostraram ro e Monteiro Lobado, que defendiam o
numa população de girafas, as que que as espécies não evoluíam de “branqueamento” da população. O maior
tinham pescoço comprido tinham forma mecânica e igual, mas por crítico dessas teorias foi Manoel Bomfim
mais chance de escapar à escassez meio de mutações. Ironicamen- (1868-1932), uma notável exceção na-
de folhas próximas ao solo, tendo te, quem deu um passo funda- quela época.
assim mais chances de sobrevi- mental para resolver essa contra-
ver. No longo prazo, as girafas de dição e ampliar o evolucionismo
pescoço curto desapareceriam, por seleção natural como teoria

MAIO 2017  |  ATUALIZA


48 | CIÊNCIAS DA NATUREZA
EM FOCO

C4 Compreender
interações entre
organismos e ambiente,

Imagens: Banco de Imagens/Ex Libris


em particular aquelas
inerentes à saúde
humana, relacionando
conhecimentos
LAMARCK

científicos, aspectos
culturais e características
individuais.

H16 Compreender o
papel da evolução na
produção de padrões,
processos biológicos
ou organização
taxonômica dos seres
vivos.
DARWIN

Os habitantes da Terra do Fogo,


no extremo sul da América
do Sul, apresentam uma taxa
metabólica basal superior à
da maioria das populações
Para Lamarck, o pescoço alongado das girafas era decorrência da necessidade delas de esticá-lo humanas, o que favorece seu
para se alimentar das folhas na parte alta das árvores; para Darwin, apenas as girafas mais altas modo de vida – deslocamento
conseguiriam sobreviver, enquanto as menores acabariam “eliminadas” pela seleção natural. em canoas no meio do oceano
gelado para executar atividade
pesqueira e de coleta de mexi-
lhões. Isso é explicado pela teo-
científica foi um monge austríaco, manifesta-se em uma geração, ou- ria sintética da evolução, a união
Gregor Mendel (1822-1884), consi- tra não. Esta última é denominada da teoria da evolução por meio
derado o Pai da Genética. gene recessivo, que só reaparecerá da seleção natural, de Charles
No jardim de um mosteiro na na segunda geração. Pela segunda lei, Darwin e Alfred Russel Wallace,
cidade de Brno — que hoje fica em seres de linhagem pura, embora com as leis da hereditariedade
na República Tcheca, mas que na com uma unidade diferente, os genes resultantes da redescoberta
época fazia parte da Áustria —, distribuem-se de maneira indepen- dos trabalhos de Mendel, no iní-
entre 1856 e 1865, Mendel fez ex- dente para os gametas e retornam cio do século XX.
perimentos com ervilhas com o aleatoriamente, formando várias com- De acordo com essa explicação,
objetivo de entender como as ca- binações. A terceira lei diz que seres a peculiar característica dos ha-
racterísticas hereditárias eram híbridos têm um gene dominante bitantes da Terra do Fogo resulta
transmitidas de uma geração para que encobre o gene recessivo. da contínua ação do ambiente
a outra. Mendel observou as ervi- Embora revolucionárias, as des- sobre a variabilidade da popula-
lhas e como se diferenciavam por cobertas de Mendel permaneceram ção, que é determinada por
um tempo e depois passou a inter- praticamente ignoradas até o início a) resistência às variações
ferir em sua reprodução. Assim, do século XX, em parte porque Men- ambientais.
ele formulou três grandes leis: a lei del, no fim da vida, abandonou os es- b) uso e desuso.
da segregação dos fatores (monoi- tudos para se dedicar ao sacerdócio, c) modificação ativa.
bridismo), a lei da segregação in- em parte porque suas descobertas d) mutações e recombinação
dependente (di-hibridismo) e a não foram compreendidas. Os prin- gênica.
lei da dominância. cipais responsáveis pela redescober- e) alterações genéticas di-
A primeira lei postula que ge- ta foram Hugo de Vries, Carl Correns recionais.
nes são unidades passadas de e Erik von Tschermak. As teorias de
geração a geração sem altera- Mendel enriqueceram o darwinismo
ções. Em um cruzamento com e abriram caminho para uma nova
Resposta: d

linhagens puras, uma unidade ciência, a Genética.

ATUALIZA  |  MAIO 2017


ENCARE ESSA! 49
DESAFIOS PARA O SEU RACIOCÍNIO

Em progressão
Os cálculos de progressões estão presentes no cotidiano das pessoas, nas mais diversas situações,
como as exemplificadas a seguir, nas quais você deverá apresentar o resultado numérico esperado.

I. Em 2016, a quantidade mensal de passagens


vendidas por uma empresa aérea foi a seguinte: janeiro
–> 33.000, fevereiro –> 34.500, março –> 36.000. Esse
padrão de crescimento se manteve nos
meses subsequentes. Quantas passagens
foram vendidas pela empresa em
julho de 2016?

II. Uma pessoa financiou a compra de uma


casa de tal maneira que as prestações mensais

Mocoo/Thinkstock - Megin/Shutterstock - Tupungato/Shutterstock


passam por uma amortização constante: a III. Depois que seu filho nasceu, um pai abriu
primeira vale R$ 600,00; a segunda vale uma caderneta de poupança e passou a
R$ 597,00; a terceira é de R$ 594,00; a quarta depositar mensalmente os valores de R$ 1,00,
é de R$ 591,00; as demais seguem o mesmo R$ 2,00, R$ 4,00, e assim sucessivamente, até
critério. Qual será, então, o valor da o mês em que o valor do depósito atingisse
100 a parcela? R$ 2.048,00. No mês seguinte, o pai
recomeçaria a efetuar os depósitos como de
início, e assim o faria até seu 21o aniversário.
Sabendo que os depósitos não falharam um
mês sequer, qual seria o montante total dos
depósitos realizados?

Música para
a todos
todo
todos Português Inglês
Guitar
Guitarra acústica
Arrangement
nt
O gosto pela música é
universal, o que faz com
om que
qu e Balada
Balad
movimentos regionais, c como
omo o Bass
o Tropicalismo brasileiro,
o, Beat
sejam apreciados em Metais
Metai
diversos outros lugares Violoncelo
Viol
do mundo. A linguagemem ddaa
Compositor
Comp
música, no entanto, varia
aria co
com
om
Drums
cada idioma. Enriqueça s seu
eu
vocabulário
abulário em língua inglesa
ingl esa
ingles a Coro
Cor
completando o quadro Flauta
Flaut
com o significado dos Keyboard
Teclado/Keyboard
termos musicais.
Metais/Brass
Flauta/Flute Tempo/Beat
Coro/Choir Baixo/Bass
Bateria/Drums Balada/Ballad
Compositor/Composer Arranjo/Arrangement III. R$ 85.995,00
Violoncelo/Cello Guitarra acústica/Acoustic guitar II. R$ 303,00
Português/Inglês I. 42.000
Música para todos Em progressão
Respostas:
50 DIÁLOGO COM A ARTE
EXPRESSÕES DA SENSIBILIDADE HUMANA

Banco de Imagens/Ex Libris

O quadro Noite da eleição foi pintado em 1954 por Jack Levine


(1915-2010), um pintor realista estadunidense que atuou em
numa época em que a pintura abstrata de Jackson Pollock e
Mark Rothko se tornava popular. A obra é uma crítica cáustica
ao sequestro da política pelas classes dominantes.
ATUALIZA  |  MAIO 2017
MATEMÁTICA
SEQUÊNCIA DE FIBONACCI
LINGUAGENS
ARTE MODERNA: TRADIÇÃO, CONTESTAÇÃO E RUPTURA

CIÊNCIAS DA NATUREZA
QUÍMICA VERDE

CIÊNCIAS HUMANAS
CIDADANIA E MOVIMENTO SOCIAIS

REDAÇÃO
ANÁLISE RACIONAL, ENTENDIMENTO E TOLERÂNCIA
#atualize-se

A Reforma do Ensino Médio


Quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017, foi um dia importante para a Educação
brasileira. Nessa data, o presidente Michel Temer sancionou o projeto de Lei da
Reforma do Ensino Médio, ato que promoverá impactos significativos nessa eta-
pa final da educação básica e também no Enem. Comemorada por diversos seg-
mentos da sociedade, e criticada por outros, que enxergam falhas na medida, a
Reforma busca alternativas para minimizar diversos problemas que afetam o
Atualiza Enem é um suplemento da revista Ensino Médio no país, como a evasão escolar, que atinge mais de 1,7 milhão de
Atualiza. adolescentes brasileiros, segundo dados do Unicef. A intenção, segundo o gover-
no, é universalizar e flexibilizar o Ensino Médio com qualidade permanente, ofe-
Diretoria editorial
Renata Mascarenhas recendo uma aprendizagem cada vez mais personalizada, atrativa e profissional
ao estudante. Para isso, o governo visa alterar essencialmente três variáveis en-
Coordenação editorial volvidas na composição do segmento: carga horária, currículo escolar e formação
Bárbara Muneratti e Renato Tresolavy
de professores.
Autores Sobre a carga horária, a mudança prevê que as atuais 800 horas anuais que for-
Linguagens e Redação: mam a carga alcancem 1 000 horas, ou seja, 5 horas-aula diárias. Com o tempo, a
José Ruy Lozano
Reforma prevê mais 400 horas-aula dentro da carga, ampliando para 1 400 horas
Matemática:
Rafael Zattoni o tempo de aula total por ano, isto é, 7 horas por dia. A favor da medida, especialis-
Ciências da Natureza: tas e professores ressaltam que haverá mais tempo para preparação da sala para
Rodrigo Pires de Morais aula e organização de conteúdos. Professores contrários ao aumento da carga se
Ciências Humanas:
Rafael Gomes queixam das condições de trabalho para atuar na escola por um período tão longo
e argumentam que boa parte das escolas do país não conta com infraestrutura nem
Edição recursos suficientes para sustentar o ensino integral. O limite de gastos imposto
Renato Tresolavy
pelo governo, apontam os críticos, é também um entrave para a adoção das práticas
Revisão previstas na Reforma.
Hélia de Jesus Gonsaga (ger.), Kátia Scaff Com relação ao currículo, as tradicionais 13 disciplinas obrigatórias do Ensino
Marques (coord.), Rosângela Muricy (coord.),
Médio cedem lugar a 2 disciplinas obrigatórias nos três anos: Língua Portuguesa e
Claudia Virgilio, Diego Carbone e Patricia
Cordeiro Matemática. Críticos da medida protestam contra o fim da obrigatoriedade do en-
sino de História, por exemplo. Em números, o currículo será dividido da seguinte
Diagramação forma: 60% dele será coberto pela Base Nacional, documento ainda em constru-
Daniela Amaral (coord.), Daniel de Paula Elias
ção, com previsão de conclusão ainda neste ano; 40% correspondem a itinerários
Capa formativos, momento em que o aluno poderá personalizar sua experiência escolar,
Daniel de Paula Elias ou seja, escolher sua área de especialidade para aprofundar seu conhecimento aca-
dêmico. As 5 áreas disponíveis são: Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza,
Foto da capa
maforche/Shutterstock Ciências Humanas e Formação Técnica e Profissional.
Na formação de professores, cai a obrigatoriedade de diploma de licenciatura
Impressão e acabamento para ministrar aulas no Ensino Médio, desde que os profissionais façam comple-
SER, GEO, MAXI e ÉTICO
mentação pedagógica. Professores classificados pelo governo como detentores de
DIVISÃO DE SISTEMAS “notório saber”, isto é, peritos em suas áreas de atuação mas sem experiência pe-
DE ENSINO dagógica específica, estão autorizados a lecionar no Ensino Técnico e Profissional.
Av. das Nações Unidas, 7221
Para você, aluno de Ensino Médio que concluirá o curso neste ano, nada muda.
Pinheiros – CEP 05425-902
São Paulo – SP A previsão do governo é que a Reforma seja implantada de fato em 2019, sendo que
em 2018 as escolas passarão ainda por adaptação, considerando que nem mesmo a
Reprodução proibida. Base Nacional Comum Curricular está consolidada. Com o Enem acontece o mes-
Todos os direitos reservados.
mo: mudanças só serão sentidas em 2019, ou seja, nada muda nas duas próximas
edições do exame. Aos professores e futuros alunos de Ensino Médio, vale a reco-
Uma publica•‹o mendação de acompanhar de perto toda a discussão que envolve tanto a Reforma
quanto a Base, pois as duas iniciativas já são realidade e prometem mudar a cara do
Central de atendimento às escolas
0800 772 0028
Ensino Médio no Brasil.

Renato Tresolavy

52
L
Linguagens
L inguag

Arte moderna:
Em profundidade
tradição, contestação e ruptura Livros
A passagem do século XIX para o século XX representou enorme mudança na consciên-
cia e na percepção do ser humano sobre si mesmo e sobre a sociedade. A expansão do ca-
pitalismo industrial, o crescimento das cidades e o desenvolvimento das ciências consu-
maram o processo de desencantamento do mundo, ou seja, o fim do pensamento mágico,
mítico ou religioso como formas legítimas de entendimento da realidade, supostamente
substituindo-os pela racionalidade.
O pretenso racionalismo do mundo moderno, porém, logo apresentou fissuras e contradi-

Divulgação/Cia. das Letras


ções. A marcha do progresso não escondia seus deserdados. Massas urbanas empobrecidas
e embrutecidas pelo trabalho, ou pela falta dele, fizeram germinar o socialismo e suas revo-
luções. A colonização da África e da Ásia demandava brutal repressão e produzia constantes
conflitos. As disputas de poder pelos Estados nacionais europeus, por fim, fizeram eclodir a
Primeira Guerra Mundial, e a Europa foi palco de barbáries até então inéditas.
Como a racionalidade, o progresso e a civilização redundaram em genocídio, massacres,
miséria e fome? No livro Arte moderna (São
Em função dos desdobramentos sociais e políticos da modernidade industrial, outros Paulo: Companhia das Letras,
fenômenos se apresentam. A constituição de uma sociedade de massas modifica formas 1992), o crítico de arte italiano
Giulio Carlo Argan apresenta
de lazer e entretenimento. O embrião da indústria cultural se forma com as mudanças téc-
um amplo panorama das artes
nicas, como a invenção da fotografia, do registro sonoro e do cinema. A representação dita plásticas no Ocidente desde
realista da natureza começa a ser superada. o Iluminismo, mas enfoca
O nascimento da Psicanálise, a partir das investigações dos neurologistas Breuer e especialmente o fim do século
Freud, delimita uma nova forma de compreensão das ações humanas, cujas motivações XIX e o século XX. Com mais
nem sempre são racionais ou conscientes. A conceituação do inconsciente e suas sombras de 700 ilustrações, é obra de
referência obrigatória no estudo
recalcadas, reprimidas e submersas no discurso aparente, revolucionou o entendimento
da modernidade artística.
do ser humano e da própria vida coletiva.
As artes plásticas e a literatura responderam dialeticamente às transformações sociais
nesse período particularmente significativo. A denúncia das mazelas do trabalho e das
classes subalternas, por exemplo, marcou o movimento Naturalista. A descrição da po-
breza adquire traços embrutecidos, sendo o ser humano reduzido à situação de precarie-

Reprodução/Editora Cia. das Letras


dade e animalização (zoomorfismo).
No interior de uma
Reprodução/Finnish National Gallery, Helsinki, Finlândia.

mina de carvão
Por um instante, Etienne
permaneceu imóvel,
ensurdecido e cego. Sentia-se
gelado, havia correntes de ar
por todos os lados. Em seguida,
deu alguns passos, atraído pela
máquina da qual via reverberar O subtítulo do livro
agora aços e cobres. Ela ficava Modernismo (São Paulo:
por trás do poço, a vinte e Companhia das Letras, 2009),
cinco metros, numa peça mais do professor britânico Peter
alta e tão solidamente assente Gay, é revelador: o fascínio da
sobre seu maciço pedestal de heresia. Conhecido biógrafo
tijolos que mesmo trabalhando
de Freud e estudioso da
a todo vapor, com toda a força
de seus quatrocentos cavalos psicanálise, Gay analisa
e com o movimento de sua especificamente a literatura
biela, enorme, emergindo e moderna, da poesia de
mergulhando numa suavidade Baudelaire ao teatro de
oleosa, não conseguia Samuel Beckett.
fazer com que as paredes
JÄRNEFELT, Eero. Subjugados (queimando o mato). Óleo estremecessem.
sobre tela, 1893. Ateneum Art Museum, Finnish National ZOLA, Émile. Germinal. São Paulo:
Gallery, Helsinki, Finlândia. Abril Cultural, 1981. p. 30-31.

53
Reprodução/Museu Marmottan Monet, Paris, França.
Não somente a denúncia social, mas No caminho de Swann
também novas configurações de per- Para me distrair nas noites
cepção do real desenvolveram-se nes- em que me julgavam muito
infeliz, haviam inventado
se período. O Impressionismo muda
de me dar uma lanterna
profundamente as formas de repre- mágica, com a qual cobriam
sentação pictórica ao investir na di- minha lâmpada, enquanto
versidade das cores sob efeito do sol, esperávamos a hora de
jantar; e, à maneira dos
libertar as figuras de contornos nítidos primeiros arquitetos e
e priorizar a sensibilidade e as percep- mestres vidraceiros da era
ções individuais do artista sobre os ob- gótica, a lanterna substituía
a opacidade das paredes
jetos retratados. por irisações impalpáveis,
Já no início do século XX, as van- aparições sobrenaturais
guardas estéticas tematizam de for- multicores, onde eram
pintadas legendas como
ma mais radical a perda de sentido da num vitral vacilante e
tradição clássica nas artes, propondo instantâneo.
transformações intensas no universo MONET, Claude. Impressão: nascer do sol (1873). Este quadro PROUST, Marcel. No caminho de
marca o início do movimento impressionista. Swann. São Paulo: Globo, 1992.
da representação. Movimentos como
Reprodução/The Bridgeman/Keystone
o Cubismo abandonam noções de si-
Teresa
metria, harmonia e equilíbrio ao geo-
A primeira vez que vi Teresa
metrizar formas e volumes, suprimir Achei que ela tinha pernas estúpidas
a perspectiva e superpor planos. Achei também que a cara parecia uma perna
Arte e literatura modernas dialoga- Quando vi Teresa de novo
ram com as mudanças sociais não só Achei que os olhos eram muito mais velhos que o
como experiência de linguagem e veí- [resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando
culo de sensibilidade, mas também [que o resto do corpo nascesse)
como meio de conhecimento, de to-
Da terceira vez não vi mais nada
mada de consciência do mundo. Nesse Os céus se misturaram com a terra
sentido, ambas alteraram radicalmen- E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face
te as concepções de representação ar- das águas.
tística, de forma que colocaram em xe- BANDEIRA, Manuel. In: <www.casadobruxo.com.br/
poesia/m/teresa.htm>. Acesso em: 4 fev. 2017.
que os ditames da tradição.
PICASSO. Dora Maar numa poltrona (1939).
Óleo sobre tela, Metropolitan Museum.

Em foco C5 Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto
histórico, social e político.

(Enem-2016)
Texto I Texto II
Tenho um rosto lacerado por
The Bridgeman/Keystone Brasil

BACON, F. Três
estudos para um rugas secas e profundas,
sulcos na pele. Não é
autorretrato. Óleo
um rosto desfeito, como
sobre tela, 37,5 cm acontece com pessoas de
× 31,8 cm (cada), traços delicados, o contorno
1974. Disponível é o mesmo mas a matéria foi
em: <www. destruída. Tenho um rosto
metmuseum.org>. destruído.
Acesso em: 30 DURAS, M. O amante. Rio de
maio 2016. Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

54
Linguagens

Na imagem e no texto do romance de Marguerite Duras, os autorretratos apontam para o modo de representação da subjetividade moderna.
Na pintura e na literatura modernas, o rosto humano deforma-se, destrói-se ou fragmenta-se em razão
a) da adesão à estética do grotesco, herdada do Romantismo europeu, que trouxe novas possibilidades de representação.
b) das catástrofes que assolaram o século XX e da descoberta de uma realidade psíquica pela psicanálise.
c) da opção em demonstrarem oposição aos limites estéticos da revolução permanente trazida pela arte moderna.
d) do posicionamento do artista do século XX contra a negação do passado, que se torna prática dominante na sociedade burguesa.
e) da intenção de garantir uma forma de criar obras de arte independentes da matéria presente em sua história pessoal.

Alternativa: b
O conhecimento dos contextos histórico e social da arte moderna garantiriam o acerto da questão: a barbárie inédita do século XX e a influência da
psicanálise impactaram profundamente as formas de representação artística, como afirma a alternativa b. A alternativa a menciona o grotesco, de fato
uma influência do Romantismo, mas presente antes dele na história da arte. Portanto seus princípios não eram exatamente novos, tampouco foram
determinantes da arte moderna. A alternativa c indica o contrário do que as obras de Bacon e Duras representam, pois ambos se mostram herdeiros
das mudanças na representação trazidas pela arte moderna, e não seus opositores. As duas afirmações contidas na alternativa d estão erradas: o
artista do século XX se opõe à tradição e ao passado, ao contrário justamente da burguesia, mais conservadora (a leitura apressada dessa alternativa
pode conduzir o aluno a erro, pela inversão das posições). Já a alternativa e afirma uma pretensa intenção de abolição da história pessoal dos artistas,
que em nada dialoga com o apresentado tanto nas pinturas quanto no texto literário.

Atividades
Os textos a seguir fundamentam as questões 1 e 2.

Texto I Texto II
O monumento é de papel crepom e prata
© Projeto Hélio Oiticica/César Oiticica Filho

Os olhos verdes da mulata


A cabeleira esconde atrás da verde mata
O luar do sertão
O monumento não tem porta
A entrada é uma rua antiga,
Estreita e torta
E no joelho uma criança sorridente,
Feia e morta,
Estende a mão
Viva a mata, ta, ta
Viva a mulata, ta, ta, ta, ta
No pátio interno há uma piscina
Com água azul de Amaralina
Coqueiro, brisa e fala nordestina [...]
OITICICA, Hélio. Penetrável Tropicália (1967). (VELOSO, Caetano. Tropicália — trecho)

1 C4/H12 O conceito de antropofagia surgiu no contexto do primeiro modernismo brasileiro e foi resgatado pelo movimento tropicalista. A
obra Penetrável Tropicália é representativa da ideia de antropofagia, entre outros fatores, porque:
a) apropria-se de manifestações artísticas surgidas no mundo desenvolvido, como a instalação e a arte sensorial, e lhes dá criticamente
contornos brasileiros.
b) manifesta seu desprezo por opções estéticas estrangeiras, destacando a cor local e a celebração nacionalista da brasilidade.
c) enfatiza elementos indígenas e africanos, de forma que recuse a herança europeia na formação da cultura brasileira e celebre as raízes
populares do país.
d) realça a cultura popular nordestina em seus aspectos mais típicos, reunindo elementos pitorescos da arte popular local.
e) associa as manifestações artísticas europeias exclusivamente às elites, tentando tornar a arte brasileira mais próxima de suas raízes
nacionais.

2 C4/H12 A canção de Caetano Veloso (texto II) remete à obra de Hélio Oiticica (texto I), interpretando alguns de seus significados, derivados
do contexto histórico em que Penetrável Tropicália foi produzida. Na letra da canção, fica explícita
a) a alegria despreocupada característica da pop art dos anos 1960.
b) o caráter alienante da sociedade de consumo de massas.
c) a dimensão crítica das mazelas sociais brasileiras.
d) o juízo de valor negativo sobre a cultura popular tradicional.
e) o descritivismo realista típico da arte contemporânea.

Gabarito 1. a 2. c
Confira as resoluções no Portal de seu Sistema de Ensino.

55
m
M atemática
Matemática

Sequências e progressões
Em profundidade A Matemática está sempre em busca de padrões e regularidades, e essa é, sem dúvida,
Livro uma de suas características mais marcantes e belas. Algumas dessas regularidades são
tão interessantes que passam a ser intrigantes e misteriosas, chamando a atenção de ro-
mancistas.
Por exemplo, em O código Da Vinci, Dan Brown faz uso da sequência de Fibonacci em
Reprodução/<http://www.obmep.org.br>

meio aos mistérios investigados pelo professor de simbologia Robert Langdon, interpre-
tado, no filme homônimo, por Tom Hanks.

Reprodução/Columbia Pictures
Indução matemática, de
Abramo Hefez
Essa apostila, destinada
ao programa de iniciação
científica (PIC), para os alunos
classificados na Olimpíada
de Matemática das escolas
públicas, está disponível
gratuitamente no link <www. Cena do filme O código Da Vinci (2006), em que os primeiros termos da sequência de Fibonacci
obmep.org.br/docs/apostila4. são usados como senha de um cofre, num banco de Zurique.
pdf> (acesso em: jan. 2017)
e serve para aprofundar o Mas, afinal, o que é essa tal sequência de Fibonacci?
assunto. O matemático Fibonacci viveu de 1170 a 1250 e, na verdade, chamava-se Leonardo de Pisa. Filho
Site do diplomata italiano Guglielmo, membro da família Bonacci, Leonardo ficou conhecido como
<www.cienciamao.usp.br/tudo/ Fibonacci, corruptela de filius Bonacci (“filho de Bonacci”).
Fibonacci nasceu na Itália, mas foi educado no norte da África, onde seu pai trabalhou por algum
exibir.php?midia=tex&cod=_ tempo. Viajando ao lado do pai, Fibonacci teve contato com os sistemas numéricos que dariam
fibonacciproblemadoscoelhos> origem a nosso sistema hindu-arábico, enquanto na Europa os números ainda eram representados
(acesso em: jan. 2017) apenas pelos algarismos romanos. Fibonacci percebeu as vantagens destes sistemas e, quando
Nesse link há um aplicativo regressou à Europa, escreveu sobre eles em seu livro mais famoso, o Liber Abaci, de 1202.
simples que mostra a evolução Disponível em: <www.uff.br/sintoniamatematica/matematicaenatureza/matematicaenatureza-html/audio-
da população de coelhos para flores-br.html>. Acesso em: jan. 2017.
o problema que trabalhamos
neste artigo. No Liber Abaci, Leonardo explorou quase todo o conhecimento de álgebra e aritméti-
Vídeo
ca da época, mostrando as vantagens do novo sistema de numeração e suas aplicações na
O vídeo The magic of Fibonacci contabilidade, no trabalho com grandezas e medidas, entre outras coisas. Alguns proble-
numbers (A magia dos números mas são propostos no decorrer do livro. Um deles, enuncia, em latim:
de Fibonacci), disponível “Quot paria coniculorum in uno anno ex uno pario germinentur?”
em <www.youtube.com/ Em uma tradução livre, temos: “Quantos pares de coelhos são gerados por um casal em
watch?v=SjSHVDfXHQ4>
um ano?”
(acesso em: jan. 2017), com
legenda, mostra outras Estudiosos da história da Matemática afirmam que esse problema, resolvido no capí-
interessantes curiosidades sobre tulo 12 do Liber Abaci por Leonardo, tem origem muito mais antiga e era enunciado da
a sequência de Leonardo de Pisa. assim:
Um casal de coelhos recém-nascidos foi posto num lugar cercado. Determinar quantos casais
de coelhos ter-se-ão após um ano, supondo que, a cada mês, um casal de coelhos produz outro
casal e que um casal começa a procriar dois meses após o seu nascimento.
Disponível em: <www.obmep.org.br/docs/apostila4.pdf>. Acesso em: jan. 2017.

Para resolver esse problema, vamos começar elaborando algumas conjecturas:


• Nenhum dos coelhos morre no prazo de 1 ano.
• Um casal de coelhos recém-nascidos torna-se adulto em um mês e procria no mês seguinte.
• Cada nova cria de um casal é sempre outro casal.
56
Assim, temos a seguinte situação, mês a mês: Assim, podemos notar que, para se determinar um termo
qualquer (an) de uma PA, basta somar ao primeiro termo (a1)
Mês Casais recém-nascidos Casais adultos Total uma quantidade de razões (r) igual a (n − 1).
Portanto, temos a fórmula do termo geral:
1 1 0 1
an = a1 + (n − 1) · r
2 0 1 1 Veja um exemplo de PA de 11 termos, para a qual a1 = 5 e r = −2:
(5, 3, 1, −1, −3, −5, −7, −9, −11, −13, −15)
3 1 1 2 Observando-a, podemos notar duas propriedades importantes:
• Termo médio
4 1 1+1 3 Quando uma PA tem uma quantidade ímpar de elementos, o
termo médio é a média dos elementos extremos. No exemplo
5 2 1+2 5
anterior: 5 − 15 = −10 = − 5
2 2
6 3 2+3 8
O mesmo funciona se você considerar qualquer fragmento
7 5 3+5 13 dessa sequência; veja: (−7, −9, −11, −13, −15); −7 − 15 = −22 = − 11
2 2
Tomando apenas os totais de casais, temos a sequência: 1, 1, 2, • Soma dos termos equidistantes
3, 5, 8, 13... A soma dos dois termos equidistantes do centro de uma
Ao perceber como esses números variam, ou seja, qual a lei PA é sempre constante. Na PA (5, 3, 1, −1, −3, −5, −7, −9, −11,
de formação dessa sequência, podemos continuar escrevendo-a −13, −15), temos: 5 + (−15) = −10; 3 + (−13) = −10; 1 + (−11) =
indefinidamente, sem a ajuda do esquema. Matematicamente, = −10, e assim por diante. Se a PA tiver uma quantidade ím-
essa sequência pode ser definida desse modo: par de termos, o valor dessa soma será igual ao dobro do
a 1 = a 2 = 1 termo central.
 O fato de essa soma ser sempre constante nos possibilita infe-
a n = a n − 1 + a n − 2 , para n ≥ 3
rir que, dada a PA (a1, a2, a3, a4, a5, ..., an), de n termos, a soma de
Essa lei de formação pode ser interpretada do seguinte todos os termos corresponde a n parcelas iguais a (a1 + an), ou
modo: temos uma sequência (a1, a2, a3, a4, a5, ..., an) em que os n(a 1 + a n ) 2
seja, Sn = .
dois primeiros termos são iguais a 1 e cada termo, a partir do 2
terceiro, é igual à soma dos dois imediatamente anteriores a ele. Por exemplo:
Assim, para saber a quantidade de pares de coelho no oitavo Artur e Beto são irmãos e querem montar um time de fu-
mês, basta fazer n = 8, na lei de formação: tebol, com 11 titulares e 3 reservas. Artur gosta muito de usar
a8 = a8 − 1 + a8 − 2 ⇒ a8 = a7 + a6 ⇒ a8 = 13 + 8 = 21 a camisa de número 7 e Beto a de número 31. A ideia deles é
Continuando, para resolver o problema, temos: fazer a camisa dos outros 12 do time, formando, ao todo, uma
a9 = 21 + 13 = 34; a10 = 34 + 21 = 55; a11 = 55 + 34 = 89; a12 = 89 + 55 = 144 PA com a3 = 7 e a11 = 31. Quais são o menor e o maior número?
Quando uma lei de formação determina os termos de uma se- Quanto vale a soma dos números de todas essas camisas?
quência em função de seus anteriores, ela é chamada de fórmu- Primeiramente, escrevemos os termos conhecidos em função
la de recorrência. Outro modo de escrever a lei de formação de de a1 e r:
uma sequência é usar uma fórmula que leva em consideração a
a 3 = 7 a + 2r = 7 (I)
posição do número nela.  ⇒ 1
A sequência de Fibonacci também tem uma fórmula dessas, a 11 = 31 a 1 + 10r = 31 (II)
chamada de fórmula de Binet:
Fazendo (II) − (I), temos: 8r = 24 ⇒ r = 3 e a1 = 1 (menor número).
 1+ 5   1 − 5 
n n

  −  Como a PA é crescente, e são 14 jogadores ao todo, o maior


 2   2  número corresponde ao termo a14:
an =
5 a14 = a1 + 13r ⇒ a14 = 1 + 13 · 3 ⇒ a14 = 40
Nesse tipo de fórmula, basta fazer n = 1 para se obter o primei- Por fim, a soma dos números de todas as camisas é igual a:
ro número da sequência, n = 2 para se obter o segundo, e assim n(a 1 + a n ) 14 ⋅ (1 + 40) ⇒ S = 7 · 41 = 287
por diante. Sn = ⇒ S14 = 14
2 2
Aproveite para testar suas habilidades algébricas, verificando
a validade dessa fórmula para alguns valores de n ∈ ℕ. Progressão geométrica (PG)
Na Matemática do Ensino Médio, as sequências mais impor- Numa PG, cada termo da sequência, a partir do segundo, é
tantes, cujas leis de formação podem ser dadas em função da igual ao anterior, multiplicado por uma razão q qualquer, ou
posição ocupada pelo número, são as progressões aritmética e seja, por recorrência: an = an − 1 · q, para n ≥ 2.
geométrica. Vamos verificar as principais características e pro- Assim, semelhante à estrutura da PA, para se determinar
priedades dessas progressões. um termo qualquer (an) de uma PG, basta multiplicar o pri-
Progressão aritmética (PA) meiro termo (a1) por uma quantidade de razões (q) igual a
Em uma PA, cada termo da sequência, a partir do segundo, (n − 1).
é igual ao anterior, acrescido de uma razão r qualquer, ou seja, Desse modo, temos a fórmula do termo geral:
por recorrência: an = an − 1 + r, para n ≥ 2. an = a1 · qn − 1
57
Matemática

3
Veja um exemplo de PG de 5 termos, para a qual a1 = 2 e q = − : Somas dos termos
2
 9 27 81  Assim como na PA, a progressão geométrica também
 2, − 3, , − ,  tem uma fórmula para a soma de seus finitos n termos:
2 4 8
a (q n − 1 )
Observando-a, podemos notar duas propriedades importantes: Sn = 1
q −1
• Termo médio
Quando uma PG tem uma quantidade ímpar de elementos, No entanto, a maior particularidade da PG é que, quando a
o módulo do termo médio é a média geométrica dos elemen- razão q é um número entre 0 e 1, quanto maior o valor de n,
menor o valor de an. Esse tipo de PG, quando considerados in-
81 81 9
tos extremos. No exemplo anterior: 2⋅ = = finitos termos, é denominado convergente, pois quando n ten-
8 4 2 de ao infinito, o fator qn − 1 tende a zero e an = a1 · qn − 1. Portanto,
• Produto dos termos equidistantes apesar de ter infinitos termos, a soma deles converge para um
O produto dos dois termos equidistantes do centro de uma a1
PG é sempre constante, e se a quantidade de termos for ím- único e determinado valor dado por: S =
1 −q
par, esse produto é igual ao quadrado do termo central. Na PG
Veremos alguns exemplos de aplicações de progressões nas
 27   9 
2
81
anterior, temos: 2 ⋅ = − 3 ⋅ −  =   atividades a seguir.
8  4  2

Em foco C1 Construir significados para os números naturais, inteiros, racionais e reais.


H3 Resolver situação-problema envolvendo conhecimentos numéricos.
(Enem) Sob a orientação de um mestre de obras, João e Pedro Alternativa: d
trabalharam na reforma de um edifício. João efetuou reparos na De acordo com os dados do enunciado, temos uma PA para João e
parte hidráulica nos andares 1, 3, 5, 7, e assim sucessivamente, outra para Pedro.
de dois em dois andares. Pedro trabalhou na parte elétrica nos • Para a PA de João (1, 3, 5, 7, 9, 11, 13, ...), temos j1 = 1, r1 = 2.
andares 1, 4, 7, 10, e assim sucessivamente, de três em três • Para a PA de Pedro (1, 4, 7, 10, 13, ...), temos p1 = 1, r2 = 3.
andares. Coincidentemente, terminaram seus trabalhos no último Observando essas sequências, notamos que eles trabalham
andar. Na conclusão da reforma, o mestre de obras informou, em juntos nos andares (1, 7, 13, ...), que é uma PA de a1 = 1, r = 6 (que
seu relatório, o número de andares do edifício. Sabe-se que, ao corresponde ao MMC entre 2 e 3) e n = 20, pois eles trabalharam
longo da execução da obra, em exatamente 20 andares, foram juntos em 20 andares.
realizados reparos nas partes hidráulica e elétrica por João e Assim, basta determinar o termo a20 dessa PA:
Pedro. a20 = 1 + (20 − 1) · 6 ⇒ a20 = 1 + 19 · 6 ⇒ a20 = 1 + 114 = 115
Qual é o número de andares desse edifício? Portanto, como trabalharam juntos pela última vez no último andar,
a) 40 b) 60 c) 100 d) 115 e) 120 concluímos que o prédio possui 115 andares.

Atividades
1 C1/H4 Entediada de ficar em casa, por causa da chuva, Ana ficou observando vários detalhes de seu quintal pela janela. Em certo momento,
ela percebeu que uma aranha tentava subir pelo muro, mas tinha muita dificuldade para enfrentar a água. Com base nas marcas dos tijolos,
Ana pôde estimar que, num primeiro movimento, a aranha subiu uma altura correspondente a dois tijolos e, em seguida, escorregou o
correspondente a um tijolo; então, subiu um tijolo e escorregou meio.
Quando Ana percebeu o padrão do movimento (escorrega metade da distância que acabou de subir e, em seguida, sobe exatamente o quanto
escorregou, sempre em linha reta, perpendicular ao chão), pôde inferir corretamente que, após infinitos movimentos, a aranha estaria numa
altura correspondente a
a) nenhum tijolo. b) um quarto de tijolo. c) meio tijolo. d) um tijolo. e) dois tijolos.

2 C5/H19 Paulo está empolgado com seu primeiro emprego e de olho em seu futuro. Sabe que precisa se planejar financeiramente para que possa
realizar seus sonhos e tentar não ser pego desprevenido por nenhum acontecimento que prejudique suas finanças. Assim, ele está avaliando uma
proposta de investimento que consiste em depósitos mensais de 100 reais e tem rendimento de 1% após 30 dias de cada depósito.
Para avaliar o investimento, simulando prazos e verificando a evolução do montante, por meio de gráfico cartesiano, Paulo pode usar a função:
a) M(n) = 100 ⋅ 1,01n d) M(n) = 100 ⋅ (1,01n − 1 − 1)
b) M(n) = 100 ⋅ (1,01 − 1)
n
e) M(n) = 1 000 ⋅ (1,01n − 1 − 1)
c) M(n) = 1 000 ⋅ (1,01n − 1)

Gabarito 1. e 2. c
Confira as resoluções no Portal de seu Sistema de Ensino.

58
Ciências daNatur
Natureza

Química Verde
Em profundidade
O século XX foi marcado por um grande desenvolvimento científico e tecnológico. A in- Site
dústria química apresentou soluções práticas e de baixo custo para a produção de diver-
sos compostos, como medicamentos, combustíveis, fertilizantes e novos materiais para a Acesse o link <www.epa.gov/
confecção de roupas. Essa realidade trouxe uma nova perspectiva para a sociedade, que greenchemistry> e obtenha
passou a ter acesso a compostos que trouxeram conforto e praticidade. Porém, com esses informações mais detalhadas
novos processos, surgiram resíduos poluentes, subprodutos tóxicos, poluição do ar e dos sobre a EPA (Environmental
rios, criação de produtos não biodegradáveis. Protection Agency).
Em 1987, a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da Organiza-
Artigo
ção das Nações Unidas (ONU) defendeu “a necessidade de se conservar o que temos atual-
mente para que as futuras gerações também possam desfrutar”. Leia o artigo Os 12 princípios

Murilo Rezende/Futura Press


da Química Verde. Química
Nova, v. 26, n. 1, 123-129,
2003, que traz exemplos
de rotas sintéticas que
correspondem à aplicação da
Química Verde.

Vídeo

Assista ao vídeo
disponível em: <www.
youtube.com/watch?v=I-
MmIL0DaaM> e veja
como uma nova tecnologia
para processamento de
minérios chamada de nano-
hidrometalurgia magnética
(NHM), desenvolvida na
Em 1991 é criada a Agência de Proteção Ambiental nos Estados Unidos, com base em Universidade de São Paulo
uma política estabelecida para interromper a produção de poluentes. Definiu-se a partir (USP), poderá tornar a
daí a criação de novas vias sintéticas para a prevenção da poluição. A relação entre cresci- mineração, sobretudo a de
cobre, mais eficiente e menos
mento econômico, desenvolvimento humano e proteção do ambiente é estabelecida. Sur- danosa ao meio ambiente.
ge então o conceito “Química Verde”, que visa à concepção e à produção de substâncias
que sejam competitivas economicamente e que atinjam o nível mais elevado na hierar-
quia de prevenção da poluição, reduzindo-a em sua origem.
A Química Verde estabelece 12 princípios que norteiam a produção industrial:
P1 – Prevenção: é melhor prevenir a formação de resíduos do que ter de tratá-los após
sua produção para eliminar suas propriedades tóxicas.
P2 – Economia atômica: os métodos sintéticos devem ser planificados de modo que ma-
ximizem a incorporação no produto final de todas as substâncias utilizadas ao longo do
processo. Por exemplo, a síntese do óxido de etileno a partir da oxidação do eteno tem uma
elevada economia atômica:
2C2 H4 + O2 catalisador
→ 2C2 H4 O

P3 – Sínteses menos perigosas: a síntese do ácido oxálico a partir do ácido ascórbico (vi-
tamina C) é menos perigosa do que se utilizarmos ácido sulfúrico concentrado.
P4 – Planificação em nível molecular de produtos mais seguros: obtenção de produtos
que cumpram as funções desejadas minimizando sua toxidade. Por exemplo: substituição
dos CFCs (clorofluorcarbonos) por HCFCs (hidroclorofluorcarbonos).
P5 – Utilização de solventes e outras substâncias auxiliares mais seguras: evitar o uso
de solventes ou, quando usados, estes devem ser agentes inócuos. Por exemplo: a lavagem
a seco tradicional utiliza o tetracloroetileno (cancerígeno), que pode ser substituído por
CO2 líquido (inócuo).

59
P6 – Planificação para conseguir eficiência energética: os métodos devem empregar a menor quantidade de energia possível
(aumenta a importância do desenvolvimento de catalisadores eficientes e não tóxicos).
P7 – Uso de materiais renováveis: combustíveis de fontes renováveis devem ser utilizados em detrimento dos de fontes
não renováveis.
P8 – Redução de derivatizações: deve-se minimizar a quantidade de etapas dos processos, porque requerem reagentes adicionais e
podem produzir resíduos.
P9 – Catalisadores: os catalisadores reduzem a energia necessária para o processo ocorrer e aumentam seu rendimento, de-
vendo ser inócuos.
P10 – Planificação para a degradação: os produtos químicos devem ser produzidos de modo que não persistam no ambiente e
que se decomponham em produtos de degradação inócuos.
P11 – Análise para a prevenção da poluição em tempo real: os métodos analíticos dos processos de produção devem permitir a
monitoração direta dos realizados em tempo real e o controle precoce da formação de substâncias perigosas.
P12 – Química inerentemente mais segura quanto à prevenção de acidentes: os processos devem ser organizados de tal ma-
neira que evitem acidentes químicos, como fuga, explosões e incêndios.
A partir desses princípios, conclui-se que a Química Verde reduz a poluição na própria fonte, minimizando os perigos das
matérias-primas, reagentes e solventes.
Isso a difere do processo de despoluição. Para se qualificar como uma tecnologia Química Verde, o processo deve reduzir ou
eliminar os produtos químicos perigosos.
Tais princípios também norteiam uma busca mundial pela química autossustentável (eficiência econômica e energética e re-
dução do impacto ambiental).
No Brasil, porém, ainda não existe uma política de incentivo ao desenvolvimento e à implantação desses princípios.

Em foco C3 Associar intervenções que resultem em degradação ou conservação


ambiental a processos produtivos e sociais e a instrumentos ou ações científico-tecnológicos.
H10 Analisar perturbações ambientais, identificando fontes, transporte e (ou) destino dos poluentes ou prevendo
efeitos em sistemas naturais, produtivos ou sociais.

(Enem-2015) A Química Verde permite o desenvolvimento tecnológico com danos reduzidos ao meio ambiente, e encontrar rotas limpas
tem sido um grande desafio. Considere duas rotas diferentes utilizadas para a obtenção de ácido adípico, um insumo muito importante
para a indústria têxtil e de plastificantes.
Rota tradicional (marrom):

OOH O OH
Co Cr (III)
+
180 °C lavagem
cáustica
120 °C HNO3 60%
V5+, Cu

O
O + CO2 + N2O
OH
OH

Rota verde: O
Na2WO4, 4H2O2 O + 4H2O
OH
75-90 °C
OH

LENARDÃO, E. J. et al. Green chemistry – os doze princípios da química verde e sua inserção nas atividades de ensino e pesquisa. Química Nova, n. 1, 2003 (adaptado).

Que fator contribui positivamente para que a segunda rota de síntese seja verde em comparação à primeira?
a) Etapa única na síntese. d) Ausência de elementos metálicos no processo.
b) Obtenção do produto puro. e) Gasto de energia nulo na separação do produto.
c) Ausência de reagentes oxidantes.

60
Ciências da Natureza

Alternativa: a
Percebemos que a rota tradicional ocorre em três etapas:
Etapa 1 Etapa 2
OOH O OH
Co Cr (III)
+
180 °C Lavagem
cáustica

Etapa 3 120 °C HNO3 60%


V5+, Cu
O
O + CO2 + N2O
OH
OH
Já a rota verde ocorre em apenas uma etapa:
O
Na2WO4, 4H2O2
O + 4H2O
75-90 °C OH
OH
Química Nova. “Green Chemistry”. Os 12 Princípios da Química Verde e sua inserção nas atividades de Ensino e de Pesquisa. Disponível em: <www.scielo.br/scielo.php>. Acesso em: 11 ago. 2010.

Conclusão: o fator que contribui positivamente para que a segunda rota de síntese seja verde em comparação à primeira é o fato de
ocorrer em uma única etapa, gerando menos resíduos tóxicos ou subprodutos e utilizando menos reagentes nocivos ao meio ambiente.
Além disso, tem-se uma economia de tempo na execução do processo.

Atividades
1 C5/H17 “Em um laboratório de síntese orgânica, por exemplo, os estudantes devem calcular o rendimento teórico, com base no reagente
limitante e, então, calcular o rendimento experimental da sua reação através da razão entre o rendimento obtido/rendimento teórico × 100. Em
geral, rendimentos de 90% são considerados excelentes, 60% um rendimento razoável e 20% ou menos, um rendimento baixo. Entretanto,
este cálculo de eficiência, ou de rendimento, não considera todo o material (resíduo ou subprodutos) obtido além daquele que se deseja, bem
como os reagentes e auxiliares não incorporados no produto final. Em outras palavras, ele nos diz apenas parte do que realmente aconteceu
durante o procedimento experimental.”
Química Nova. Os 12 princípios da Química Verde. v. 26, n. 1. São Paulo, jan./fev. 2003.
Considerando a reação de síntese do óxido de etileno:
2C2H4 + O2 w 2C2H4O
assinale a alternativa que apresenta a porcentagem de economia atômica, considerando um rendimento de 80% da reação. Dados:massas
atômicas: C = 12u, H = 1u, O = 16u e % EA (economia atômica) = (massa do produto desejado/massa total de todos os reagentes) × 100.
a) 40% b) 60% c) 80% d) 90% e) 100%

2 C5/H19 O ácido adípico é uma substância utilizada na fabricação do nylon. A seguir, estão representados dois processos de síntese desse
composto: um tradicional e uma síntese verde.
Síntese tradicional do ácido adípico (Síntese marrom): Síntese verde:
OOH OH O O
“Co” Cr (III) Na2WO4, 4H2O2 HO
+ + 4H2O
180 °C com NaOH OH
[CH3(n-C8H17)3N] HSO4 O
75-90 °C, 8h
Ácido adípico
120 °C HNO3 60%
5+
V , Cu metálico

O
N2O + CO2 + HO
OH
O
Ácido adípico
Química Nova. “Green Chemistry”. Os 12 Princípios da Química Verde e sua inserção nas atividades de Ensino e de Pesquisa. Disponível em: <www.scielo.br/scielo.php>. Acesso em: 11 ago. 2010.
Assinale a alternativa que traz o princípio que faz com que a segunda síntese seja considerada verde.
a) Economia atômica. d) Síntese menos perigosa.
b) Utilização de catalisadores não tóxicos. e) Uso de materiais renováveis.
c) Maior rendimento.

Gabarito 1. c 2. d
Confira as resoluções no Portal de seu Sistema de Ensino.

61
cCiências
Ciências
HHumanas
Humanas

Cidadania e movimentos sociais


Em profundidade
Cidadania, termo central no vocabulário sociopolítico da atualidade, pressupõe a igual-
dade de direitos e deveres entre os seres humanos. Um exemplo é a Declaração dos Direi-
tos do Homem e do Cidadão, anunciada pela Organização das Nações Unidas em 1948. Seu
texto é refratário a todas as formas de discriminação preconceituosa e consagra a liberda-
de como aspecto essencial da dignidade humana.
Sob o ponto de vista da Sociologia, as discussões em torno da cidadania são pautadas
por significativo repertório de questões. Em que medida a cidadania fixada nos domínios
Divulgação/Ed. LOYOLA

da democracia formal e representativa é negativamente afetada pelas desigualdades so-


cioeconômicas? Como se articulam a igualdade jurídica e as modalidades tradicionais de
hierarquização e exclusão social, baseadas, por exemplo, em relações de gêneros, padrões
de sexualidade e critérios étnicos? Qual é a importância da atuação dos movimentos so-
ciais na redefinição dos horizontes da cidadania e na construção de uma autêntica esfera
pública de cidadãos? Essas são algumas das interrogações que mobilizam as investigações
Livros sociológicas contemporâneas.

Em Novas teorias dos


movimentos sociais,
a socióloga Maria da
Glória Gohn examina
criteriosamente os
movimentos sociais
contemporâneos e suas
relações com a cidadania,
apresentando, ainda,
o mapeamento das
interpretações sociológicas
sobre essa temática (GOHN,
Maria da Glória. Novas
teorias dos movimentos
sociais. São Paulo: Loyola,
2008).

No livro História dos


movimentos e lutas sociais: Mulheres 
a construção da cidadania protestam 
contra o 
dos brasileiros, a mesma
presidente 
autora investiga a formação, dos Estados 
a composição e a atuação dos Unidos, Donald 
movimentos sociais no Brasil, Trump, que 
especialmente sob o ponto de constantemente 
se pronuncia de 
vista da questão da cidadania
forma machista 
em nossa sociedade (GOHN, e contrária à 
Maria da Glória. História dos igualdade de 
movimentos e lutas sociais: a direitos entre 
construção da cidadania dos homens e 
mulheres.
brasileiros. São Paulo: Loyola,
1995).

62
Referência fundamental para essas reflexões são os estudos do sociólogo britânico Thomas Marshall, que, sobretudo em seu
livro Cidadania, classe social e ‘status’, examina o desenvolvimento da noção de cidadania em suas intersecções com as trans-
formações da sociedade contemporânea. Marshall identifica a ampliação histórica do conceito de cidadania no estabelecimen-
to de diferentes tipos de direitos: civis, políticos e sociais.
Os direitos civis são compreendidos como os direitos naturais de cada indivíduo sobre seu próprio corpo, pensamento e vida,
implicando a liberdade de expressão, locomoção e associação, bem como a concepção de que todos os cidadãos são iguais pe-
rante as leis. Os direitos políticos concernem à livre atividade política dos cidadãos na sociedade, envolvendo a possibilidade
de participação em movimentos sociais, e em processos eleitorais e do exercício de cargos públicos, enfim, tanto os canais de
atuação política direta quanto os mecanismos característicos da democracia representativa. Os direitos sociais referem-se ao
bem-estar social, isto é, à satisfação de necessidades naturais e culturais dos seres humanos, tais como o direito à alimentação,
ao transporte, ao trabalho, à saúde, ao lazer e à educação.
Esses diferentes direitos de cidadania não são, contudo, realidades completamente independentes, compartimentadas, mas sim cons-
tituídas historicamente em relações de reciprocidade, intersecionando-se no interior das transformações sociopolíticas da Era Contem-
porânea. A institucionalização de direitos civis, políticos e sociais, por seu turno, situa-se no âmbito das articulações entre sociedade civil
e Estado. Afinal, os conflitos sociais e as demandas produzidas nos círculos da sociedade civil influenciam consideravelmente as decisões
políticas elaboradas no plano estatal. Nessa dinâmica social e política, é decisiva a presença dos movimentos sociais.
Christopher Penler/Shutterstock

A atuação, as práticas e as reivindicações dos movimen-


tos sociais são elementos relevantes nas disputas socio-
políticas centradas nas questões da cidadania. Em linhas
gerais, os movimentos sociais expressam o descontenta-
mento de determinados grupos da sociedade com aspectos
específicos da realidade ou com a realidade em seu conjun-
to, bem como sua aspiração à conquista de direitos e à efe-
tivação de mudanças econômicas, políticas e culturais que,
de acordo com seu ponto de vista, são capazes de promover
a justiça nas relações sociais. Nessa perspectiva, tais movi-
mentos desenvolvem estratégias, mobilizações e ações co-
letivas que exprimem suas plataformas reivindicatórias,
com o propósito de realizar as transformações sociais e po-
líticas pretendidas.
Nas modernas sociedades industriais, a expressão pri-
mordial mais ampla de mobilizações sociais dessa nature-
za é protagonizada por trabalhadores assalariados urbanos
— em especial por operários de fábricas —, que, submetidos
a precárias condições de trabalho e de vida, protestam con-
tra a exploração capitalista e a exclusão sociopolítica. Esses
trabalhadores se organizam em sindicatos e se mobilizam
em lutas sociais por melhores salários, pela regulamenta-
ção da jornada de trabalho e por participação política.
Ao longo do século XX, nota-se a diversificação dos mo-
vimentos sociais, em sua composição social e horizonte te-
mático, sobretudo com o fortalecimento e a mobilização so-
ciopolítica das diferentes minorias — o vocábulo “minoria”,
em seu sentido sociológico, refere-se a grupos sociais tradi-
cionalmente excluídos e inferiorizados nas relações sociais.
Nesse contexto, o movimento negro, o movimento feminista
e o movimento LGBT — para mencionarmos alguns exemplos
— adquirem maior repercussão no âmbito das lutas sociais e,
questionando radicalmente a dominação social sob múltiplas
perspectivas, suscitam a ampliação das discussões sobre cida-
dania.

63
Ciências Humanas

Na atualidade, portanto, os movimentos sociais organizam-se a partir de segmentos sociais diversos e de múltiplas reivindi-
cações, com a inclusão de questões culturais, étnicas, sexuais, feministas e ecológicas, versando, assim, sobre as várias relações
dos seres humanos entre si e as relações da humanidade com a natureza. Modificam-se ainda suas estratégias e formas de mo-
bilização — em larga medida, sob o influxo da tecnologia da informação —, configurando-se, dessa maneira, transformações na
correlação de forças sociais e novas tendências sociopolíticas no mundo contemporâneo.
Contudo, a mudança mais relevante diz respeito à cidadania. Conforme sabemos, a concepção de igualdade de direitos con-
siste no eixo da conceituação de cidadania. A atuação dos novos movimentos sociais enfatiza, simultaneamente, a defesa de di-
reitos iguais para os seres humanos e o direito à diversidade ou, em outros termos, preconiza a vigência de direitos civis, políti-
cos e sociais que considerem a pluralidade de seres humanos existentes em sociedade.

Em foco C1  Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as a 
diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais. 
H12 Analisar o papel da justiça como instituição na organização das sociedades. 

(Enem-MEC)
Tenho 44 anos e presenciei uma transformação impressionante na condição de homens e mulheres gays nos Estados Unidos. Quando
nasci, relações homossexuais eram ilegais em todos os Estados Unidos, menos Illinois. Gays e lésbicas não podiam trabalhar no governo
federal. Não havia nenhum político abertamente gay. Alguns homossexuais não assumidos ocupavam posições de poder, mas a tendência
era eles tornarem as coisas ainda piores para seus semelhantes.
ROSS, A. Na máquina do tempo. Época, ed. 766, 28 jan. 2013.
A dimensão política da transformação sugerida no texto teve como condição necessária a:
a) ampliação da noção de cidadania.
b) reformulação de concepções religiosas.
c) manutenção de ideologias conservadoras.
d) implantação de cotas nas listas partidárias.
e) alteração da composição étnica da população.

Alternativa: a
A conquista de direitos pelas minorias sociais, referenciada no texto pela menção à condição dos homossexuais nos Estados Unidos,
conjuga-se necessariamente com a ampliação da noção de cidadania, que se torna mais inclusiva com o aprofundamento e a extensão da
igualdade de direitos. O texto-base da questão não indica reformulação de concepções religiosas (b). A transformação apontada no texto
não é propiciada pela manutenção de ideologias conservadoras (c). No texto-base da questão, não há indicação sobre implantação de cotas
nas listas partidárias (d). A transformação mencionada no texto não se relaciona com alterações na composição étnica da população (e).

Atividades
1 C5/H24 2 C3/H12
As pessoas tendem a pensar a cidadania apenas em termos dos Muitas vezes, as leis ou as políticas sofrem alterações em
direitos a receber, negligenciando o fato de que elas próprias podem consequência da ação dos movimentos sociais. Essas mudanças na
ser o agente da existência desses direitos. […] Se existe um problema legislação podem produzir efeitos de amplo alcance. Por exemplo,
em seu bairro ou em sua rua, por exemplo, não se deve esperar que a houve um tempo em que era ilegal grupos de trabalhadores reunirem
solução venha espontaneamente. seus membros para uma greve, a punição para isso seguia vários
COVRE, Maria de Lourdes Manzini. O que é cidadania. São Paulo: graus de severidade em diversos países.
Brasiliense, 1991. p. 10-11. GIDDENS, Anthony. Sociologia. Porto Alegre: Artmed, 2005. p. 357.
De acordo com o texto, a cidadania consiste em um processo A leitura desse trecho permite constatar que, para o sociólogo
dinâmico que exige: Anthony Giddens, a atuação dos movimentos sociais promove:
a) o reconhecimento da primazia dos deveres sobre os direitos. a) a extinção gradual das relações sociais capitalistas.
b) a articulação dos movimentos sociais com partidos políticos. b) a efetivação de transformações referentes à cidadania.
c) a precedência dos direitos sociais sobre os direitos políticos. c) a plena remoção dos mecanismos políticos coercitivos.
d) a efetivação institucional de ações afirmativas e reparadoras. d) a permanente instabilidade jurídica na sociedade.
e) o compromisso dos cidadãos com a realização de seus direitos. e) a concentração de poder nos partidos políticos.

Gabarito 1.  e      2.  b


Confira as resoluções no Portal de seu Sistema de Ensino.

64
RRRedação
Análise racional, entendimento, tolerância
A proposta de redação do Enem de 2016 quebrou uma espécie de tabu em relação aos Em profundidade
temas de produção escrita para o acesso ao Ensino Superior. Ao apresentar a questão da
(in)tolerância religiosa, a prova solicitou ao aluno uma análise de um problema real de
nossa sociedade, além de propostas para solucionar tal dificuldade.
Aos professores mais experientes, não surpreendeu que apenas 77 alunos tenham ob-
tido nota máxima na redação, bem como o expressivo número de notas zero (mais de 200
mil). Por quê? Sabemos que é difícil até para nós, adultos, fazer uma análise racional sobre
um assunto tão ligado ao campo da afetividade e do pertencimento cultural. O que dirá
para os jovens redatores do Enem.

Companhia das Letras


Mas isso não tira a pertinência do tema, sua adequação para o momento político em que
vivemos nem a relevância dele para o debate público brasileiro. O ponto que defendemos
é justamente a dificuldade da ponderação, ainda mais em meio ao ambiente ríspido de po-
larização ideológica das redes sociais.
Sabemos que muitos alunos utilizam menções a Deus e citações de textos sagrados
como argumentos de autoridade, ou seja, manifestações consensuais de autoridades reco-
nhecidas socialmente. Tais menções aparecem na abordagem de temas ou problemas vá- Em A invenção dos direitos
rios, e imagina-se que tenham ocorrido com maior frequência no último Enem. humanos (São Paulo:
Ao fundamentar a argumentação em uma divindade única ou em seus textos sacros, Companhia das Letras,
fonte de “toda a verdade”, renuncia-se a análise racional e confunde-se a esfera pública — 2009), a historiadora
leiga, necessariamente aberta à diversidade de opiniões e crenças — com a esfera privada, norte-americana Lynn
domínio em que as escolhas de ordem pessoal, familiar ou comunitária prevalecem. Hunt investiga as origens
Em sentido oposto, a condenação de manifestações religiosas com as quais não concor- de conceitos como liberdade
damos também pode ter interferido na avaliação dos textos. Muitos são aqueles que con- religiosa, igualdade de
sideram tal ou qual confissão religiosa intolerante ou preconceituosa, ou todos os mem- todos perante a lei e direito
bros de um determinado credo violentos e perigosos. ao trabalho. Encarados
A condenação da intolerância alheia, nesse caso, revela uma intolerância ainda maior de por vezes como naturais e
quem escreve, uma vez que não distingue individualidades e coloca toda uma comunidade autoevidentes, tais direitos
(ou às vezes uma civilização inteira) na mesma categoria, de modo reducionista. Também apresentam uma trajetória
não busca compreender as razões pelas quais certas formas de pensamento são adotadas difícil e acidentada na
por alguns, em função de condicionamentos sociais, políticos ou econômicos. História da humanidade.
Ou seja, abandona-se a análise racional dos eventos e adota-se uma postura particula- Trata-se de um profundo
rista, pouco fundamentada em fatos ou evidências. Trata-se da mera opinião, mais basea- estudo sobre o surgimento e o
da em percepções e sentimentos que em argumentos razoáveis. Esse é um erro grave em desenvolvimento dos direitos
um texto dissertativo-argumentativo. humanos fundamentais e sua
Muitos são os que confundem compreensão com justificativa, como se o entendimento implantação, sempre lenta e
das razões pelas quais um determinado fenômeno surgiu fosse uma maneira de legitimar desigual.
ou autorizar esse fenômeno.
É possível investigar as origens de um regime autoritário como o fascismo, por exemplo,
para tentar entender como ele se manifestou e se consolidou. Isso não quer dizer que o es-
tudioso ou especialista goste do fascismo ou o justifique moral e eticamente.
No mesmo sentido, é possível compreender as razões pelas quais o radicalismo encon-
tra terreno fértil no Oriente Médio, o que não absolve aqueles que eventualmente pra-
tiquem ou estimulem o terrorismo. Também não se deve encarar o mundo muçulmano
como um bloco unitário, de pensamento único, sem lembrar suas tendências e fissuras in-
ternas. Isso seria ignorar a situação complexa e múltipla do Islã, passar por cima da reali-
dade e mostrar desconhecimento dos fatos, pouca informação e precária formação.
Quanto mais estudamos e nos informamos, menos certezas temos. Tal redução das cer-
tezas é bastante produtiva para a produção de textos argumentativos. Em razão disso
deixamos de ser portadores de afirmações simplistas, típicas do senso comum, para abordar
os problemas sociais de maneira mais aprofundada, levando em consideração visões de
mundo opostas e argumentos contrastantes.

65
Redação

Ao se despedir do cargo de presidente dos Estados Unidos, Barack Obama lembrou uma célebre passagem da literatura norte-
-americana: “Você nunca entende uma pessoa a menos que considere as coisas do ponto de vista dela, que entre na pele dela e dê
uma volta por aí”. O trecho pertence ao romance O sol é para todos, da escritora Harper Lee. O enredo transcorre nos anos 1930
e o personagem principal, Atticus Finch, é um advogado do Alabama, que defende um jovem negro, acusado de violentar uma
garota branca em pleno auge do racismo no sul dos EUA.
O ex-presidente americano defendia o reconhecimento racional da alteridade: para efetivamente entender realidades dife-
rentes, é preciso distanciar-se criticamente de nossa própria realidade, de nossas próprias crenças e certezas, buscando infor-
mação e colocando-se com empatia no lugar do outro.
É pela análise racional que conseguimos atingir um patamar de entendimento razoável do mundo (nunca sua revelação com-
pleta e absoluta, diga-se). E apenas por meio desse entendimento razoável conseguimos de fato desenvolver uma postura to-
lerante e inclusiva. Só assim estaremos de acordo com a competência 5 da prova de redação do Enem, que envolve o respeito à
diversidade e aos valores humanos.

Proposta de redação
Texto I
“O maior desafio é conciliar a preservação dos diversos biomas e dos recursos naturais com o desenvolvimento social e econômico. [...] O
modelo de desenvolvimento, seguido pelo mundo nas últimas décadas, criou um passivo ambiental e social incalculável, e, se mantido, gera
barreiras aos produtos nacionais e é ineficiente do ponto de vista do aproveitamento dos recursos naturais e ambientais. O pior risco desse tipo
de desenvolvimento é que pode inviabilizar a própria atividade econômica. Sem o entendimento de que desgasta solos, recursos hídricos, gera
mudanças no clima, está se criando uma nova fonte de custo para se adaptar a esse esgotamento do ambiente.”
Ipea. Desafios do desenvolvimento. Disponível em: <www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&view=article&id=1261:catid=28&Itemid=23>.
Acesso em: 5 fev. 2017.
Texto II
“A pressão do agronegócio sobre as áreas de preservação ambiental é muito grande. De um lado, os agricultores reivindicam a diminuição
da cota de preservação, visando maior espaço para produção; de outro, ambientalistas defendem que as Áreas de Preservação Permanente
(APPs) são benéficas não apenas para o meio ambiente, mas também para a produção agrícola.”
MONTEIRO, Isabella. Preservar para lucrar. Disponível em: <www.agsolve.com.br/noticias/preservar-para-lucrar>.
Acesso em: 5 fev. 2017.
Texto III
1996 2006

Limite da Amazônia Legal


CABEÇAS DE GADO POR MUNICÍPIO
0 – 50 000
50 001 – 200 000
200 001 – 400 000
400 001 – 1 000 000
1 000 001 – 2 000 000

Expansão da Pecuária na Amazônia Legal entre 1996 e 2006. Disponível em: <http://cabana-on.com/Brasil/images/artigos/graficoexpansao.gif>.
Acesso em: 23 fev. 2017.
A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação escolar, redija um texto
dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema “Expansão do agronegócio e proteção ambiental:
como resolver esse dilema?”, apresentando proposta de intervenção que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de
forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.
Confira as resoluções no Portal de seu Sistema de Ensino.

66