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Lição 1 - A Importância e Validade do Credo Apostólico

Caderno: Alterações conflitantes


Criada em: 06/01/2020 22:34 Atualizada … 08/01/2020 00:00
Autor: renato.pgf@gmail.com
Etiquetas: Credo, Teologia Histórica

Lição 1 - A Importância e Validade do Credo


Apostólico
“Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres
que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se
crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação”

– Romanos 10.9,10

Introdução

A palavra “Credo” é derivada do latim “credo”, que denota uma postura ativa
de “eu creio”, uma  confiança perene em Deus. Portanto, há na declaração
credal um ato de adoração a Deus a quem damos  crédito. Assim, os credos
são antes de tudo uma confissão de gratidão à glória de Deus.  No credo
a  Igreja declara a sua fé em Deus visto que somente ele é absolutamente
digno de crédito.

Quando nos referimos ao Credo Apostólico, que será nosso objeto de estudo
pelos próximas semanas, estamos falando de ensino bíblico, ortodoxo e
consensual a respeito das crenças professadas pela Igreja Cristã em toda a sua
história. O Credo, portanto, não deve ser entendido como uma reza a ser
repetida sem reflexão, mas como uma proclamação vívida dos elementos
cridos por nós como povo de Deus. 

Enquanto a Bíblia é o falar de Deus aos homens, o Credo é a resposta do


adorador ao seu Criador. 

Até aqui todos estamos de acordo, mas ocorre que na América Latina algumas
igrejas evangélicas não dão muito valor ao Credo Apostólico. Não se
interessam em estuda-lo, nem em confessar a sua fé através dele. Esta atitude
surge de três erros:
1. As pessoas se enganam ao identificar o Credo com a Igreja Católica
Romana, crendo que é um documento inventado por ela;
2. Segundo, como a Igreja Católica Romana tem a prática de conferir
autoridade divina a muitos de suas tradições, então, se teme que ela
conceda tanta importância ao Credo dos apóstolos, que se lhe estime na
mesma altura que a Bíblia;
3. Uma boa parte da igreja evangélica carece de consciência histórica. Se
existe algum interesse pelo passado, este se concentra no período da
Igreja primitiva, a qual se pretende chegar passando por toda a história
que media entre nós e a Igreja do livro de Atos.

Tal entendimento equivocado sobre os Credos e Confissões deriva geralmente


de um entendimento equivocado de um dos lemas da Reforma Protestante, a
saber, o Sola Scriptura. Em momento alguns os reformadores negaram a
importância da tradição na interpretação bíblica; antes, eles a afirmaram
repetidas vezes. A Reforma protestante alegou a superioridade da Escritura em
relação à Escritura, sem contudo deixar de lado a tradição na interpretação
bíblica.

Portanto, para a Reforma, a Escritura é a norma normans (“a norma que rege”)
de todas as decisões  de fé e vida; os credos e as confissões são a norma
normata (“a norma que é regida”). Somente a Escritura é a suprema autoridade
em matéria de vida e doutrina; só a Bíblia é o árbitro de todas as
controvérsias. Ou seja, para os herdeiros da Reforma, não há nenhuma
autoridade acima da Bíblia.

I. O CREDO DOS APÓSTOLOS

A origem do Credo Apostólico é bastante discutida. A que parece ser mais


coerente afirma que ele foi elaborado a partir de um consenso entre as várias
igrejas locais cristãs do primeiro século. A ideia é que ele serviria como uma
fórmula a ser repetida nos momentos onde os sacramentos (Batismo e Ceia do
Senhor) eram ministrados. Assim, o fiel declararia estar em plena comunhão
com o Senhor mediante a confissão pública de sua crença nestes elementos
fundamentais da fé cristã.

O Credo, como comumente é recitado por católicos, ortodoxos e protestantes,


é o seguinte:
Creio em Deus o Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra.
E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor,
Que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria,
Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado;
Desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia;
Subiu aos céus; está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso,
Donde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo,
A santa Igreja universal, 
A comunhão dos santos,
A remissão dos pecados,
A ressurreição da carne,
A vida eterna.
Amém.

É importante destacarmos que há algumas mudanças na versão do Credo que


iremos utilizar para nossos estudos:

Na parte final do Credo, substituímos a preposição "em" nas sentenças


referentes à igreja, à comunhão, à remissão dos pecados, à ressurreição do
corpo e à vida eterna. Assim fazemos (em consonância com o Prof. Franklin
Ferreira), pois não entendemos que não cremos na igreja, por exemplo.
Cremos, sim, na verdade explicitada na ideia de que a Igreja Cristã é fruto da
obra do Espírito Santo.

II. O CREDO E AS ESCRITURAS

A pergunta que surge, então, é: Por que não há “creio... na Escritura”? Por que
não há uma afirmação deste tipo? Nós cremos que a Escritura é a Palavra de
Deus. Cremos que, quando paramos  para meditar no texto sagrado, Deus
mesmo fala conosco por meio do Espírito Santo às nossas mentes e coração.
Por que não há, então, “creio na Escritura Sagrada”?

Não há “creio...na Escritura” porque todo o Credo depende da Sagrada


Escritura. A  Escritura, por assim dizer, é o que dá a linguagem e a estrutura
ao Credo. A Escritura oferece os subsídios que formam o Credo.

III. O CREDO COMO SÍMBOLO DE FÉ

O Credo é chamado algumas vezes de “Símbolo de Fé”


(Symbolum Apostolicum), e ainda é conhecido assim por algumas igrejas. No
mundo romano  antigo, quando o imperador tinha problemas nas fronteiras,
por exemplo, com os povos bárbaros, ele enviaria suas legiões para proteger
aquela fronteira das invasões bárbaras. Então, quando as tropas precisavam se
separar para fazer  algum tipo de movimento de cerco, por exemplo, os
comandantes dessas legiões quebrariam um vaso, pegariam dois cacos que se
encaixassem perfeitamente e cada um ficaria com um dos cacos. Se as tropas
tivessem que se comunicar,  como saber que o mensageiro não foi
interceptado e a mensagem verdadeira não foi modificada?

O legado mandaria o mensageiro para alcançar a outra  tropa militar com o


pedaço do caco do vaso. Ao chegar no acampamento, ele  entregaria a
mensagem com o caco do vaso, que seria unido com o caco do  legado que
estava recebendo a mensagem, e atestaria que a mensagem vinha realmente
do comandante da outra unidade; que seria realmente uma
mensagem  legítima e que ele precisava acatar essa mensagem. A este
reconhecimento dava-se o nome de “símbolo” (symbolum). Esta era, portanto,
uma palavra de uso militar, que era empregada para impedir a interceptação
da mensagem ou a corrupção da mensagem por algum inimigo. Essa palavra
foi adaptada para o âmbito da fé cristã.

A Igreja Primitiva, por exemplo, usou o símbolo do peixe para expressar a sua
fé e, ao mesmo tempo para ocultá-la aos seus perseguidores. Peixe, em grego,
se escreve: ιχθύς; todavia, os cristãos primitivos tomaram a palavra e
a escreveram em forma de acróstico: ̓Ιησου̑ς Χριστός Θεός υἱός Σωτήρ.

I – ̓Ιησου̑ς (JESUS)
X – Χριστός (CRISTO)
Q – Θεός (DEUS)
U – υἱός (FILHO)
S – Σωτήρ (SALVADOR)

Assim temos:
“JESUS CRISTO, FILHO DE DEUS, SALVADOR”

“O símbolo é um veículo de comunicação que contribui para romper as


barreiras linguísticas, permitindo a identificação sem o uso necessário de
palavras, as quais por sua vez também são símbolos” (Hermisten Maia)

Conclusão

Lembrar-nos do Credo é nos lembrarmos de nossas bases de fé. Em dias


de  instabilidade e relativização, afirmar categoricamente que crê em algo é,
pelo  menos, pouco comum. Para crer, é preciso entender aquilo como
verdade.  Para crer na fé cristã como base de sua fé, é preciso crer que o
cristianismo é a verdade de fé suficiente para o homem. Não porque seja uma
religião melhor, mas porque é única: prega a única forma aceitável a Deus de
se achegar a ele, que é através de Jesus Cristo, com a iluminação e condução
do Espírito Santo.

É essencial que os crentes entendam a necessidade de confessar a sua fé (Mt


10:32; Rm 10:9). Confessamos a nossa fé no batismo, na Ceia do Senhor, ao
testificar aos incrédulos, ao dar bom testemunho na vida pública e privada, e
ao recitar o Credo no culto de adoração. Toda confissão pública da fé deve ser
feita com sinceridade, e deve vir acompanhada de uma vida de compromisso
com os valores do reino de Deus.

"Ao recitar os credos, o  propósito não é apenas declarar um conjunto de


verdades proposicionais. A  ação é bem mais rica que isso: para afirmar o
óbvio, ao recitar em conjunto as  palavras do credo, cada membro da
congregação identifica-se de maneira pública com todos os outros membros,
expressando a unidade corporativa da fé no Evangelho comum. Eles também
estão expressando sua fé em comum com todos os outros cristãos da história
que usaram essas palavras para testemunhar a respeito de Cristo. Além disso,
eles estão lembrando a si mesmos, e uns aos outros, de quem Deus é e do que
ele fez. Em outras  palavras, no contexto litúrgico, os credos tornam-se um
meio de cumprir a declaração pública exigida dos crentes por Romanos 10: a
confissão (o  documento) torna-se uma confissão (o ato de testemunhar a
respeito de Cristo diante da igreja e do mundo)" - Carl L. Trueman