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Fake news e Internet: esquemas,

bots e a disputa pela atenção


Por Gabriel Itagiba
Depois de 2016 a menção ao fenômeno das fake news
parece sempre lembrar a eleição norte-americana e o
hábito do presidente eleito Donald Trump de afirmar
que os mais variados veículos de comunicação, ao no-
ticiar fatos críticos à sua campanha e programa de go-
verno, seriam propagadores de “notícias falsas”. Na
verdade, fake news seriam pretensas notícias veicula-
das com informações inverídicas e disseminadas com
objetivos simplesmente financeiros (mais cliques, mais
retorno) ou de direta manipulação da opinião pública.

consistentes, controvertidas ou apelativas é

A criação de notícias falsas é um negó-


cio. Selecionando bem o tema e o pú-
blico-alvo não faltam na rede (e fora dela)
até mesmo um meio de operação psicológi-
ca usada para fins militares. Durante a Se-
gunda Guerra Mundial, por exemplo, o Rei-
esquemas que buscam um retorno financei- no Unido criou uma série de rádios que se
ro rápido e fácil. Tudo às custas da credibi- passavam por estações alemãs. Além de sua
lidade de uns e crendice da alheia. Recen- programação com músicas e resultados de fu-
temente foi divulgado que dois adolescen- tebol, as rádios anunciavam notícias falsas e
tes teriam faturado US$ 60.000,00 em seis difundiam comentários contra Adolf Hitler. O
meses criando notícias falsas relacionadas a interlocutor inglês se passava por Der Chef e
Donald Trump, então candidato à presidên- constantemente criticava o líder nazista.
cia dos Estados Unidos.
Como lidar então com as notícias falsas?
Apesar da popularização do assunto, a prá- Propostas de regulação do tema já foram
tica não é exatamente nova. A manipulação apresentadas em diversos países, mas vale
de opiniões por meio de informações in- refletir para além da resposta essencialmen-

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te jurídica. Olhando para o passado pode-se por exemplo. Mas o que fazer na Inter-
perceber que a difusão de notícias falsas en- net quando qualquer pessoa pode criar
contrava alguns obstáculos, como: uma página e chamá-la imediatamente
de “jornal”, começando a compartilhar o
1 - Custo alto: praticamente todo ma- seu conteúdo?
terial precisava ser produzido e distri-
buído de maneira impressa. Os custos Com a popularização da Internet nos anos
para criação de estações de rádios, por 90, as quatro barreiras mencionadas come-
exemplo, também eram elevados e reti- çaram a ser superadas. Atualmente produ-
ravam do indivíduo isolado, em regra, a zir e distribuir notícias falsas se tornou prá-
possibilidade de alcançar uma audiên- tica acessível. O uso de bots, por exemplo,
cia expressiva. tem crescido durante os períodos eleitorais.
Bots são sistemas autônomos criados para
2 - Falta de flexibilidade: o material replicar ações básicas, como seguir pessoas,
precisava ser pensado no formato ide- postar e direcionar mensagens, inserir links
al para papel, depois impresso e distri- ou hashtags. Eles muitas vezes servem para
buído. A modificação de alguns conte- multiplicar as informações distribuídas na
údos era inviável. rede, passando-se por contas de pessoas re-
ais. Não raramente, tomando contato com a
3 - Falta de conhecimento sobre o lei- onda de informações disparadas por robôs,
tor: entender como o público pensa, muitos usuários reais acabam contribuin-
seus argumentos e principais pontos do para aumentar a divulgação e conferir
de radicalização é fundamental para a maior credibilidade para o conteúdo falso.
difusão de notícias falsas. Nunca hou-
ve tanto acesso a essas informações Imagine o seguinte cenário: O usuário X é
quanto hoje. contra o partido Y, que está na presidência
do País. Diariamente, X expressa sua opi-
4 - Ausência de contexto ideal: um fa- nião usando hashtags como #foraY ou #va-
tor importante para a eficácia de uma zaY. Diversos robôs controlando perfis fal-
notícia falsa é a impressão de credibi- sos são programados para varrer as redes
lidade de sua origem. Panfletos distri- sociais em busca de usuários que utilizam as
buídos por um avião, prática comum hashtags mencionadas. Após a identificação,
durante a Segunda Guerra Mundial, le- bots executam o resto de sua programação,
vantavam suspeitas sobre sua origem, enviando mensagens falsas sobre o partido Y

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para o usuário. O usuário então passa a com- notícias falsas na rede uma série de me-
partilhar essas informações com seus amigos. didas começam a ser tomadas. De início, é
preciso aumentar a transparência para faci-
As informações falsas também podem ser litar a atribuição das informações divulga-
editadas facilmente após publicação em si- das. Agências de checagem de fatos podem
tes, o que aumenta sua capacidade de atu- desempenhar um papel fundamental nesse
alização e adaptação. Com a grande quanti- momento. Outra medida é a conscientiza-
dade de informação sobre hábitos de uso e ção dos usuários da rede sobre notícias fal-
interesses de usuários nas mídias sociais é sas, elevando o nível de cuidado com o que
possível identificar grupos mais propícios a se lê e se compartilha.
certas mensagens e frases.
Uma medida adicio-
nal envolve a parti-
cipação direta das
plataformas para re-
ver em seus termos
de uso e políticas de
privacidade a utili-
zação de bots para a
divulgação de notí-
cias falsas. Esse é um
importante ponto
em que a inteligên-
Notícias falsas compartilhadas por um perfil cia artificial trabalha para a desinformação
amigo acabam lidas como confiáveis. Nesse e as plataformas podem atuar para reprimir
aspecto, a tendência é que cada vez mais as essa prática. Mas como grande parte des-
notícias falsas sejam naturalizadas. Com a sas plataformas são construídas a partir de
evolução da inteligência artificial, bots terão conteúdos de terceiros, cabe também aos
a habilidade de mimetizar o comportamento usuários denunciarem materiais suspeitos,
humano de forma quase perfeita, o que difi- alertando as plataformas sobre a difusão de
culta o processo de checagem de fatos. notícias falsas.

Mas nem tudo está perdido. Para combater A guerra da desinformação está em curso e

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a Internet pode ser não apenas o campo de
batalha, mas também a caixa de ferramen-
tas na qual vamos encontrar as soluções
para sair desse cenário. O primeiro passo
é entender como a tática de propagação de
fake news vem evoluindo com as atuais e
futuras tecnologias para que, em seguida, o
contra-ataque possa explorar o enorme po-
tencial da rede para promover o acesso ao
conhecimento e o melhor debate sobre os
mais diversos temas.

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