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UNIVERSIDADE PAULISTA – UNIP

Instituto de Ciências Humanas


Curso de Psicologia
Disciplina: Psicopatologia Geral
Professor: Flávio Rossi Provazi
Aluno: Aline dos Santos Medeiros – RA: T910765

DALGALARRONDO, P. A Consciência e suas alterações. In: DALGALARRONDO, P.


Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais: Porto Alegre, Artmed, 2000.
Cap.10, p.88-101.

A CONSCIÊNCIA E SUAS ALTERAÇÕES - Capítulo 10


O termo consciência é utilizado para indicar o conhecimento compartilhado por
determinado individuo com o outro e consigo mesmo. Para o termo consciência temos
atribuídas três definições:
Definição neuropsicológica: iguala a consciência a um estado de vigília, o estado de estar
desperto, acordado, lúcido e com um grau de clareza do sensório;
Definição psicológica: a conceitua como a soma total das experiências conscientes de um
indivíduo em um determinado momento. É a dimensão subjetiva d atividade psíquica do
sujeito que o coloca em contato com a realidade e o faz perceber e conhecer seus objetos.
Definição ético-filosófica: o termo consciência desta perspectiva se refere à capacidade de
tomar ciência dos deveres éticos e assumir as responsabilidades, os direitos e de veres
concernentes a essa ética. Assim, a consciência ética filosófica é atributo do homem
desenvolvido e responsável, “consciente” dos seus atos e engajado na dinâmica social de
determinada cultura.
(A consciência para a corrente Fenomenológica)
A Fenomenologia é uma corrente que se debruçou fortemente nos estudos da
consciência. Enquanto a psicologia clássica determinava a consciência como uma entidade
passiva e sujeito a determinações do mundo, Husserl e a fenomenologia vem sugerir que essa
conceituação seja invertida, uma vez que em sua concepção a característica da consciência é
ser ativa, modificadora do mundo, produtora de sentidos. É a consciência de algo e carregada
de intencionalidade.
(A consciência para a filosofia contemporânea)
O filósofo contemporâneo John Searle se dedicou aos estudos da consciência
ressaltando a importância de articular o conceitual a concepção de consciência com os estudos
da neurociência atual acerca de relações neuronais com os estados conscientes. Segundo sua
premissa, o aspecto principal a ser explicado acerca da consciência é seu caráter de unidade
qualitativa, o que se refere a qualidade que damos às experiências, a prioridade e proporção
consciente que damos a cada uma. Essa característica da consciência, assim como
experimentar o estado de consciência é uma experiencia totalm8 ente subjetiva, realizada e
vivenciada em primeira pessoa, pelo sujeito, pois ninguém experimenta uma situação da
mesma forma. Segundo essas determinações, outras características do estado de consciência é
o caráter prazerosos ou desprazível, como experiencias totais e que globalizam e o senso de
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familiaridade, que consiste em ter conhecimento de algo, ciência de certos aspectos mesmo
que não do todo. Ex: Ver uma casa e mesmo sem nunca a ter conhecido ou visto, reconhece-la
como uma casa.
CAMPO DA CONSCIÊNCIA
Quando se volta para a realidade, a consciência marca um campo, no qual se pode
definir um foco, uma parte central mais iluminada da consciência, e uma margem, que seria a
parte menos iluminada, mais nebulosa da consciência. Segundo a psicopatologia clássica, é
nessa margem que surgem os chamados automatismos mentais. O inconsciente é um dos
pilares mais importantes da psicanálise e psiquiatria dita dinâmica.
Freud concluiu que existem duas classes de inconsciente: o verdadeiro
inconsciente (incapaz de consciência) e o inconsciente pré-consciente (composto por
representações, ideias e sentimentos suscetíveis de serem recuperados por meio de esforço
voluntário: fatos, ideias que esquecemos, deixamos de lado, mas se pode, a qualquer hora,
evocar voluntariamente).Para ele, o inconsciente verdadeiro só se revela por meio de
subprodutos que surgem na consciência, as chamadas formações do inconsciente: os sonhos,
os atos falhos, os chistes e os sintomas neuróticos, já o pré-consciente pode ser acessado
através de técnicas.
Características Funcionais do Inconsciente
Para Freud, o inconsciente é bem mais do que um simples estado mental fora da
consciência, ele é a estrutura mental mais importante do psiquismo humano. O sistema
inconsciente funciona regido pelo princípio do prazer por meio do processo primário e
funciona seguindo as seguintes formas:
1. Atemporalidade: No inconsciente não existe tempo. Os processos não são ordenados de
maneira temporal, não existe passado, presente ou futuro.
2. Isenção de contradição: No sistema inconsciente, não há lugar para a negação ou dúvida,
nem certeza ou incerteza. Tudo é absolutamente certo.
3. Princípio do prazer: Não segue as ordens da realidade, submete-se apenas ao princípio do
prazer. Toda a atividade inconsciente visa evitar o desprazer.
4. Processo primário: Uma ideia pode ceder à outra toda a sua energia (processo de
deslocamento) ou pegar de outras ideias de toda a sua energia (processo de condensação).
O inconsciente é dinâmico e este caráter se conclui pelo fato de encontrarmos uma
resistência para chegarmos ao inconsciente e pela produção renovada de sua resistência.
ALTERAÇÕES NORMAIS DA CONSCIÊNCIA
O Sono Normal: É um estado especial da consciência, que ocorre de forma recorrente
e em ciclos que se repetem segundo uma ordem. É também um estado comportamental e uma
fase fisiológica normal e necessária no organismo. Divide-se a fase do sono em duas:
Sono NÃO-REM: Sono sincronizado e sem movimentos oculares rápidos; com diminuição
da atividade do sistema nervoso e mantem nível fisiológico em funcionamento mínimo, tais
como frequência cardíaca, respiratória e pressão arterial
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Sono REM: Sono dessincronizado com movimentos oculares rápidos. O sono REM ocupa
25% de nosso total de sono, enquanto que o NÃO-REM, 75% do mesmo. Apresenta
instabilidade no sistema nervoso, variações de frequência cardíaca, respiratória e pressão
arterial e fluxo sanguíneo no cérebro. A maior quantidade desse sono ocorre na madrugada e é
nele onde ocorrem os sonhos.
O Sonho
Sonhos são alterações normais da consciência. Em tempos antigos consideravam-no
como uma forma de loucura, mas apesar dessas teorias terem sido abandonadas, o sonho
permanece sendo algo intrigante. Contudo, laboratórios tem mostrado que o sonhar não é algo
raro, a maioria das pessoas sonhas várias vezes na noite e apenas não se recordam. O
significado dos sonhos tem diversas interpretações segundo as culturas e religiões, alguns
inclusive os atribui a mensagens do além. Freud, contudo, determinou que o sonho não é
nenhum tipo de produto aleatório e sem fundamento, tampouco um mensageiro dos Deuses. O
sonho segundo ele é um fenômeno psicológico que revela desejos e temores e seu conteúdo
sempre tem um sentido. O sonho é um acordo realizado entre o inconsciente que precisa soltar
desejos para o consciente e o consciente que precisa que isso seja expulso com cautela,
impedindo que alguns desejos venham à tona sem critério.
ALTERAÇÕES PATOLÓGICAS DA CONSCIÊNCIA
A consciência pode se alterar por processos fisiológicos e por processos patológicos.
No sono normal, o indivíduo perde em vários graus, por um determinado a sua consciência.
Há também outros quadros que podem alterar ou reduzir patologicamente o nível de
consciência de um indivíduo.
Alterações Quantitativas da Consciência ou Rebaixamento d a Consciência
Em diversos casos neurológicos e psicopatológicos, o nível de consciência diminui de
forma progressiva. Há diversos níveis e graus de rebaixamento da consciência
Obnubilação da Consciência ou Turvação da Consciência: É o rebaixamento da
consciência em grau leve ou moderado. Há sempre uma diminuição do grau de clareza
sensorial, com lentidão da compreensão e dificuldade de concentração; nota-se também
dificuldades para integrar as informações sensoriais vindas do ambiente.
Sopor: É um estado de marcante turvação da consciência no qual o indivíduo pode apenas ser
desperto por um estímulo energético de natureza dolorosa. O paciente em estado de sopor se
apresenta evidentemente sonolento, embora ainda possa apresentar reações de defesa, ainda
assim é incapaz de qualquer ação espontânea.
Coma: É o estado mais profundo de rebaixamento do nível de consciência, onde nesse estado,
não é possível qualquer atividade voluntária consciente, além de várias falhas no sistema
neuronal.
Síndromes Psicopatológicas Associadas ao Rebaixamento do Nível de Consciência
Delirium – Rebaixamento do nível de consciência que pode ser de leve a moderado,
acompanhado de desorientação, ansiedade, agitação ou lentificação psicomotora, ilusões e/ou
alucinações visuais, dificuldade de concentração, perplexidade, discurso sem lógica, ilusões
ou alucinações. É importante lembrar que não se deve confundir delirium (alteração do nível
da consciência) com o delírio (que é uma alteração do juízo de realidade)
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Estado onírico – sonho muito vívido. Indivíduo vê cenas complexas, ricas em detalhes, às
vezes terríficas, com lutas, matanças, fogo, assaltos, sangue, etc. Caracteriza-se pela turvação
da consciência, onde o indivíduo entra em estado semelhante a um sonho muito vívido.
Predomina atividade alucinatória visual intensa com caráter fantástico. Há carga emocional
marcante na experiência, com angústia, terror ou pavor.
Alterações Qualitativas da Consciência
Além dos estados de redução global do nível de consciência, a psicopatologia
registra alguns estados alterados de consciência, nos quais se tem mudança parcial ou focal do
campo da consciência. Uma parte do campo da consciência está preservada, normal e outra
parte, alterada. De modo geral, há quase sempre, nas alterações qualitativas da consciência,
algum grau de rebaixamento do nível de consciência
Estados crepusculares – estado em que se restringe a um círculo de ideias, sentimentos ou
representações de importância particular para o sujeito acometido. Caracteriza-se por surgir e
desaparecer de forma abrupta e ter duração variável, de poucos minutos ou horas a algumas
semanas. Também podem ocorrem em intoxicações por álcool ou outras substâncias, quadros
dissociativos histéricos agudos, e eventualmente, após choques emocionais intensos.
Estado Segundo – estado transitório semelhante ao crepuscular, no qual os atos cometidos
durante o estado segundo são geralmente incongruentes, extravagantes, em contradição com a
educação, as opiniões ou a conduta habitual do sujeito acometido, mas nunca tão graves
quando no caso dos estados crepusculares. Caracteriza-se por surgir e desaparecer de forma
abrupta e ter duração variável, de poucos minutos ou horas a algumas semanas. Também
podem ocorrem em intoxicações por álcool ou outras substâncias, quadros dissociativos
histéricos agudos, e eventualmente, após choques emocionais intensos.
Dissociação da consciência: Designa a fragmentação ou a divisão do campo da consciência,
ocorrendo perda da unidade psíquica comum do ser humano. Ocorre nos quadros histéricos
(crises histéricas do tipo dissociativo). Nessas situações, observa-se uma dissociação da
consciência, estado semelhante ao sonho, geralmente desencadeada por acontecimentos
psicologicamente significativos (conscientes ou inconscientes) que geram grande ansiedade
para o paciente. Alguns pacientes têm crises ou estados dissociativos agudos iniciando devido
a quedas, abalos musculares e movimentações do corpo semelhante à crise convulsiva (da
epilepsia). Designa-se tal crise como crise pseudoepiléptica. A dissociação da consciência
pode ocorrer também em quadros de ansiedade intensa. A dissociação é vista como uma
estratégia defensiva inconsciente para lidar com ansiedade muito intensa; o indivíduo desliga
da realidade para parar de sofrer.
Transe – dissociação da consciência que se assemelha a sonhar acordado, diferindo disso,
porém, pela presença de atividade motora automática e estereotipada acompanhada de
suspensão parcial dos movimentos voluntários; O transe dito extático pode ser induzido por
treinamento místico-religioso, ocorrendo geralmente a sensação de fusão do eu com o
universo. Não se deve confundir o transe religioso, culturalmente contextualizado com o
transe histérico, estado dissociativo da consciência relacionado a conflitos interpessoais e
alterações psicopatológicas.
Estado hipnótico – consciência reduzida e estreitada e de atenção concentrada, que pode ser
induzido por outra pessoa; é um estado de consciência reduzida e estreitada e de atenção
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concentrada, que pode ser induzido por outra pessoa (hipnotizador). Estado de consciência
semelhante ao transe, no qual a predisposição a ser sugestionável do indivíduo está
aumentada, e a sua atenção concentrada no hipnotizador. Nesse estado podem ser lembradas
cenas e fatos esquecidos.
Experiência de quase morte – estado especial de consciência verificado em situações de
ameaça grave a vida, parada cardíaca, hipóxia grave, isquemia entre outros em que o sujeito
afirma ter vivenciado as chamadas experiências de quase morte. A EQM seria a consequência
de uma invasão maciça de atividade cerebral do tipo sono REM nas pessoas enquanto
passavam por tais experiências.