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Imaginário do medo

Felipe Botelho Corrêa


Editora Multifoco
Simmer & Amorim Edição e Comunicação Ltda.
Av. Mem de Sá, 126, Lapa
Rio de Janeiro - RJ
CEP 20230-152

Capa
Luiza Romar

Diagramação
Guilherme Peres

Textos das orelhas e da quarta capa:


Alexandre Mendes

Imaginário do medo - 1ª edição


CORRÊA, Felipe Botelho
Agosto de 2009
ISBN: 978-85-7961-010-3

Todos os direitos reservados.


É proibida a reprodução deste livro com fins comerciais sem
prévia autorização do autor e da Editora Multifoco.
Felipe Botelho Corrêa

Imaginário do medo
Imprensa e violência urbana

dimensões
ficção

luminária
academia

redondezas
Editora Multifoco
Rio de Janeiro, 2009
contos

representa
teatro
Agradecimentos

É imperativo e ao mesmo tempo gratificante relembrar


o nome de algumas pessoas e instituições que foram
fundamentais para esta pesquisa.

Desejo, assim, expressar um sincero agradecimento a


Renato Cordeiro Gomes, Vera Lúcia Follain de Figueiredo,
Fernando Resende, Luiz Fernando Valente, Marcia Paterman,
Dinaldo Almendra, Fernando Henrique de Oliveira,
Paulo da Costa e Silva, Priscilla Régis, Gustavo Giareta,
Maria Amaral, Alexandre Mendes e Clarisse Gurgel.

Agradeço, também, ao editor Thiago França,


que acolheu a proposta editorial, e à Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES),
que concedeu incentivo financeiro ao longo da pesquisa.

Aos meus pais e familiares, agradeço por todo apoio e afeto.


Nota de esclarecimento

Devido ao exorbitante valor cobrado pelo jornal O Globo, não foi


possível reproduzir imagens das edições que são analisadas neste livro.
Lamentamos tal atitude dos dirigentes do periódico, que acaba por di-
ficultar o debate e a circulação de ideias sobre uma questão que muito
afeta as grandes cidades brasileiras nesse começo de século.
Sumário

Prefácio ..................................................................................... 15

Introdução

Medo e violência ..................................................................... 23


A segurança no mundo contemporâneo ............................... 31
Narrativa e imaginário do medo ........................................... 35
Metodologia ............................................................................ 38

Primeira parte:
Cidade, cotidiano e violência

A fala do cotidiano ................................................................... 43

Instante, imprensa e violência urbana

A busca do instante ................................................................. 47


Do primeiro ao último minuto ............................................... 57
Jornalismo e literatura: relatos de ocorrência ...................... 82

Mapas do medo

A cidade e os mapas ............................................................... 95


Geografia da violência ............................................................ 109
Mapas ...................................................................................... 115
Relatos testemunhais .............................................................. 118
Rubrica ..................................................................................... 121
Segunda parte:
Violência urbana como guerra

A guerra como metáfora ......................................................... 131

Calvário carioca

Imaginários da favela ............................................................. 133


Rasgando o velho seio urbano .............................................. 135
Um século de leituras e conotações ....................................... 138
Uma metáfora da desordem .................................................. 144
A guerra do Rio ....................................................................... 157
Um outro relato ...................................................................... 165

A vitimização da ordem

O medo político ...................................................................... 172


Guerra urbana ........................................................................ 176
A cidade e o acontecimento ................................................... 179
“Infelizmente, a gente tem uma lei para respeitar” ............. 187

Considerações finais

Ao fim da travessia ................................................................. 197


Uma interpretação do imaginário do medo ......................... 206
Post-Scriptum ......................................................................... 209

Referências bibliográficas ................................................. 213


Congresso internacional do medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,


que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade


Prefácio

:: Falas do medo: Uma guerra de relatos urbanos


Um livro que experimenta articular medo, violência, cida-
de, imaginário e imprensa, inscreve-se na ordem do dia, sobre-
tudo se elege o presente como categoria organizadora. Aí está a
sua contemporaneidade, que cruza tempo e espaço, ao tratar de
temas que afetam todos os habitantes de grandes centros urba-
nos, onde o medo vem do convívio social. Assim se constitui o
fio que conduz Imaginário do medo: imprensa e violência urba-
na, em que Felipe Botelho Corrêa analisa séries de reportagens
sobre crimes violentos, publicadas entre 2004 e 2007, em peri-
ódicos da grande imprensa do Rio de Janeiro e de São Paulo,
relacionando-as com a produção de imaginários urbanos, vistos
enquanto produção material com imagens e textos, que as mí-
dias fabricam e veiculam, mas que se completam, concretamen-
te, no cotidiano do cidadão.
A pólis que assiste, perplexa, à corrosão da philia, condição
a priori da existência urbana, torna-se a pólis perversa, cujo ima-
ginário social é campo minado pelo medo. “Provisoriamente não
cantaremos o amor [...] Cantaremos o medo, que esteriliza os abra-
ços” – diz os versos de Carlos Drummond de Andrade citado em
epígrafe, anunciando o tema que, entretanto, ganhará outra dimen-
são no contexto contemporâneo, re-atualizando o que fala o poeta
em “Congresso internacional do medo”, como a nos advertir que a
guerra está aqui e agora; está entre nós.

15
Certamente o medo é algo inerente ao ser humano. Mas é tam-
bém certo que o medo pode ser historicizado, referido às socieda-
des que com esse sentimento constroem um imaginário que, por
sua vez, alimenta o próprio medo. Os medos são representações vo-
lúveis e ganham configurações distintas ao longo do tempo. Antes
teológicos-políticos, com a modernidade tornam-se sociopolíticos,
ou seja, são mais provenientes do próprio convívio social, sendo
distribuídos em doses diárias nas sociedades contemporâneas. Os
medos, desse modo, fazem parte do cotidiano das cidades e tor-
nam-se pauta obrigatória de todas as mídias.
Essas observações já são lugares-comuns, que ganham novos tra-
ços quando observamos hoje as metrópoles, com condomínios fecha-
dos (verdadeiras micrópolis), edifícios gradeados, vidros blindados,
muros que o poder público constrói para separar as favelas (como se
assiste no Rio de Janeiro), seguranças que a iniciativa privada contra-
ta para vigiar suas lojas, residências ou mesmo quarteirões do espaço
público, além de circuitos fechados de televisão que vigiam a todos o
tempo todo, entre outros aparatos de vigilância e controle que afetam
a vida dos habitantes. Tais mecanismos não evitam a tensão e o medo
que tomam conta das cidades. As regras sociais mudam, e a inseguran-
ça fixa-se como obsessão da vida urbana contemporânea.
É neste quadro geral que se inscreve o estudo de Felipe Cor-
rêa que elege um formato importante da cultura midiática, as
séries, para mostrar como as reportagens assim formatadas e
veiculadas em jornais diários impressos contribuem para a ins-
tituição de um imaginário do medo contemporâneo por meio
da narração da violência urbana. As reportagens serializadas
– “24 horas”, “Geografia da violência” e “A guerra do Rio”, pu-
blicadas por O Globo, e “Guerra urbana”, pela Folha de S. Paulo,
são analisadas enquanto artifícios estruturados com o intuito de
dar sentidos a crimes violentos, tomando como fundamentais
dois traços das narrações: a violência como parte do cotidiano
da cidade e a violência como metáfora da guerra.
A estratégia usada nas séries lança mão da narrativa justamen-
te para tentar representar um tipo de experiência urbana que burla
a própria representação. É a impossibilidade da representação que,

16
justamente, leva a mobilizar os recursos discursivos que entrelaçam
jornalismo e literatura, na tentativa de atribuir sentidos àquilo mes-
mo que escapa à representação, mas que afeta a concretude dura
do cotidiano das conturbadas metrópoles contemporâneas. Daí a
metaforização da “guerra”, guerra que corrói a convivência social
e suspende os significados que garantiam o sentido da existência
urbana. A metáfora torna-se complexa, pois semanticamente arti-
cula tempo (24 horas), espaço (a geografia da violência, os mapas,
um Rio de Janeiro que não é mais o mito da Cidade Maravilhosa,
uma São Paulo paralisada sob o comando do PCC) e os sujeitos
afetados pela violência e pelo medo, personagens reais, homens co-
muns, como o leitor. Nesses meandros das narrativas, a vitimização
emerge como discurso que, em meio ao apelo de realidade, demar-
ca locais de fala.
As reportagens têm como tema o medo e o texto do medo,
que inclui palavras e imagens, articulados pelos modos de nar-
rar (a enunciação que ordena os enunciados). Como diz Felipe
Corrêa, ao discorrer sobre a estratégia adotada para ler a série
não como imagem do medo (pura representação que confirma-
ria o já estabelecido, o estereótipo, o clichê, o lugar-comum),
mas como andaimes que tornam possíveis as falas do medo
no espaço urbano: “sabemos que as formas a partir das quais é
possível falar o medo na cidade não nos levam a um somatório
geral. Esse imaginário do medo não é uma unidade totalizável:
trata-se menos de uma representação e mais de um ‘vocabulário’
e de uma ‘gramática’ com a qual são produzidos significados.
Assim, ao tratarmos de imaginário, estamos, em certo sentido,
pesquisando as linguagens e os textos do medo”. Desse imagi-
nário deriva-se o recurso da repetição, a começar pelo redun-
dante tópico da violência urbana; daí o mesmo recurso do uso
recorrente da “série” como um gênero midiático, que possibi-
lita articular diferentes acontecimentos em um mesmo espaço
narrativo. Neste sentido, as séries estudadas demonstram farta-
mente como a mídia se apropria dos procedimentos narrativos
de outras áreas (o que Felipe Corrêa faz ao chamar, estratégica e
pertinentemente, para seu estudo, textos da literatura).

17
O estudo debruça-se, assim, sobre as construções discursivas
do medo na imprensa brasileira contemporânea, em que há uma
recorrente referência à idéia de guerra nos conflitos armados, e por
outro lado a uma idéia de insegurança constante atrelada ao coti-
diano urbano. Violência/guerra/insegurança/cidade conjugam-se
na constituição do imaginário do medo, afetando as práticas de de-
mocratização do espaço público.
Por tal viés, a abordagem contundente e bem aparelhada teo-
ricamente, sem cair num jargão acadêmico fechado, aponta para
problemas fundamentais da ordem social, política, econômica e
cultural no Brasil contemporâneo que não pode dispensar as ques-
tões que os imaginários, esse patrimônio invisível, impõem. A eles
se conjuga a categoria de alteridade social, quase sempre vista como
ameaçadora, dimensionada enquanto a grande produtora do medo
moderno e contemporâneo – o que faz este estudo brasileiro atar-
se às reflexões de Zygmunt Bauman no livro Confiança e medo na
cidade, lançamento recente no Brasil, e citado na edição espanhola
por Felipe Corrêa.
O livro do sociólogo polonês dá continuidade aos seus estudos
sobre as transformações das relações socioculturais de nosso tem-
po. O volume, ao articular o medo, as metrópoles, a insegurança,
a alteridade, a globalização e o que ela implica no mundo local das
cidades, objetiva exortar a recuperação da cidade enquanto lugar
possível e necessário da philia, condição propulsora do diálogo,
função precípua das cidades, como já havia sublinhado a filósofa
francesa Anne Coquellin em seus textos sobre filosofia urbana.
O último ensaio do livro de Bauman, originalmente uma con-
ferência proferida no congresso “Confiança e medo na cidade”, re-
alizado em Milão, em 2004, parece dar uma dimensão humanista
ao livro, funcionando também como mote temático e fio secreto
que costura os três ensaios que o constituem. Ao revelar as difi-
culdades contemporâneas de conviver com estrangeiros, que pelas
diásporas e deslocamentos motivadas por questões políticas, eco-
nômicas e sociais aportam nos centros mais desenvolvidos, o so-
ciólogo destaca como se dá “a busca de diferenças justamente para
legitimar as fronteiras”, num espaço global, “espaço selvagem”, sem

18
controle (como a atual crise contemporânea do capitalismo vem
demonstrando). As cidades, nas quais vive hoje mais da metade da
população mundial, “são de certa forma os depósitos onde se des-
carregam os problemas criados e não resolvidos no espaço global”.
Como resultado cria-se a underclass, os indesejados, os excluídos
do mundo globalizado, gerando tendências a criar muros, “os espa-
ços vedados”, concretizados na arquitetura das metrópoles contem-
porâneas. Irresistível indagar se tal fato seria uma volta, de certa
forma, às fortalezas com seus fossos que buscam a proteção contra
o inimigo exterior?
O estudo de Felipe Corrêa também evoca tais questões, quan-
do trata da segregação espacial, portanto também segregação dos
sujeitos que ocupam esses espaços, em nome da segurança públi-
ca que promove o controle social – o que busca legitimar a atua-
ção autoritária, e, ao mesmo tempo, é obrigado a enfrentar o que
escapa aos próprios mecanismos de controle. Tais mecanismos,
como as séries de reportagens deixam ver, possibilitam as falas do
crime ao lado dos textos do medo, que reorganizam simbolica-
mente um universo que foi desordenado. O discurso da mídia em
sua narratividade assume o papel de instância reorganizadora de
um universo que perdeu o sentido. Nesse âmbito, há uma guerra
de relatos (para usar a feliz expressão de Michel de Certeau) que
também engloba as falas das vítimas em suas narrativas. Narra-
tivas estas que têm como palco a cidade; palco que se transfigu-
ra em cenário nas narrativas midiáticas, estas que são formas de
vivenciar a cidade, de representá-la, de significá-la, mesmo que
enfrentado a crise da representação.
Nessa guerra de relatos urbanos, a “mixofobia” parece ser
prática dominante. Chamando atenção para esse horror à mis-
tura, à alteridade, reeditado em contextos diversos, Bauman
aponta, entretanto, para a tensa coexistência entre “mixofobia”
e “mixofilia”, ressaltando que esta deveria ser incrementada em
detrimento daquela, recuperando o sonho utópico da comuni-
dade orgânica, da cidade compartilhada. Para o pensador, as
cidades são também campos de batalha e laboratórios para as
soluções dos problemas globais, gerados em ambientes muitas

19
vezes longínquos ou impalpáveis, mas cujos efeitos se dão nas
realidades locais das cidades. Diz ele: “o que poderemos e deve-
mos fazer é contribuir para aumentar a mixofilia e diminuir a
mixofobia (...) As raízes já existem, estão na natureza humana.
(...) a tarefa de tornar humana a comunidade dos homens”.
O fundo humanista, portanto, poderia ser a salvaguarda para
combater a sensação de insegurança que surgiu justamente com a
corrosão da philia, motivada pela sobrevalorização do indivíduo
que se liberou dos laços que uma densa rede de vínculos sociais
lhe impunha e que possibilitou a emancipação e a auto-superação
para algumas pessoas. Por outro lado, com o afrouxamento ou o
desaparecimento das redes de proteção de parentesco e vizinhan-
ça, a “modernidade sólida” (a que se deu em torno da fábrica e
que possibilitou a administração do medo pelo controle estatal)
criou todos os tipos de associações, sindicatos e agrupamentos.
É nesse contexto que a nação vai sendo erigida como forma de
firmar e narrar, no imaginário social, a idéia de comunidade
(“comunidade imaginada”, para Benedict Anderson), visando
lutar contra os medos, fazendo com que a solidariedade ocu-
passe o lugar do pertencimento.
Por este viés, quando a solidez da modernidade torna-se terre-
no instável e a idéia de progresso perde sua positividade, assiste-se
à corrosão e dissolução dos laços comunitários e o imaginário do
medo associado aos diversos tipos de violência urbana condicio-
na as falas do medo, que, por sua vez, alimentam o imaginário do
próprio medo, engendrando uma indiferenciação entre fala (indi-
vidual) e imaginário (conjunto). Por outro lado, num sentido mais
concreto, tornam-se visíveis na cidade contemporânea traços dos
usos políticos e mercadológicos do capital do medo, que afetam
desde a arquitetura aos espaços públicos. As arquiteturas do medo
e da intimidade espalham-se pelos espaços de circulação coletiva.
Com a insegurança e as fobias, tendem a desaparecer das ruas os
atrativos da vida urbana.
O quadro descrito e analisado, no contexto europeu por Bau-
man e no brasileiro por Felipe Corrêa, aponta, desta forma, para
certo desencanto em relação à modernidade, aqui revestida de um

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tom pessimista, sobretudo com os efeitos da globalização na vida
das metrópoles contemporâneas. O medo aliado à insegurança in-
cide sobre as condições da vida urbana e sobre como percebemos
a existência na cidade. Mas, enquanto, no fundo o sociólogo res-
gata resíduos utópicos e humanistas capazes de serem acionados
para tentar valorizar o espaço público que deveria ser o lugar da
tolerância, da philia, pelo reconhecimento da humanidade do ou-
tro, o jovem estudioso brasileiro e carioca revela que no cotidiano
das cidades brasileiras a situação da segurança pública é de fato
preocupante; aqui, os processos de institucionalização do controle
social são quase sempre autoritários. Enquanto Bauman, na busca
de tornar o presente precário mais habitável, vê a cidade como um
laboratório em que o agora trama o nosso futuro, Felipe Corrêa,
ao sublinhar que o problema da violência não é uma fantasia cria-
da pelos relatos jornalísticos, vê o imaginário do medo afetando as
práticas de democratização do espaço público. Conclui ele: “Nesse
sentido, ao problematizarmos a fala do medo em função do con-
texto urbano da violência, prezamos por uma imprensa que faça
pressão por mudanças sociais. Narrar a violência exigindo apenas
a repressão é aprofundar ainda mais as marcas negativas da nossa
formação social: o autoritarismo e a imensa desigualdade”.
Esse belo ensaio, enquanto experimentação que testa um
refinado aparato teórico para analisar, via séries jornalísticas, o
imaginário do medo das maiores metrópoles do país, não deixará
indiferentes os leitores, também eles habitantes dessas cidades, mo-
bilizados e afetados por tal imaginário, para além dos discursos que
o constituem e alimentam, eles mesmos que morrem de medo da
violência que desorganiza a vida urbana e seus significados.

Renato Cordeiro Gomes


PUC-Rio/CNPq

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Introdução

:: Medo e violência
O congresso internacional a que se refere Carlos Drummond
de Andrade parece ter perdido a temporalidade provisória que o
definia. O ato de cantar o medo é diário e constante nos grandes
centros urbanos do mundo contemporâneo. Neste coral de cantos
que compõem o imaginário social1, há uma melodia que soa des-
tacada e repetidamente, e que solfejamos todos os dias através da
imprensa: o medo da violência urbana.
Por esta perspectiva, é impossível deixar de notar que, em
praticamente todos os noticiários inseridos na cultura de massa,
as histórias relacionadas a crimes ganham um espaço destacado e
cotidiano. Seja nos já tradicionais diários impressos, nos hebdoma-
dários, nos telejornais, no rádio ou mesmo na Internet, a violência é
sempre uma pauta muito explorada, por vezes, sustentando grande
parte das edições de um meio impresso ou de um telejornal. Não
só no Brasil, mas, também, em um grande número de países, as
agências de informação dão grande atenção a acontecimentos que
conjugam crime e violência.

1. O conceito de imaginário é controverso e passível de diferentes abordagens. Optamos por


utilizar a ampla definição formulada por Jean-Jacques Wunenburguer: “imaginário [é] um
conjunto de produções, mentais ou materializadas em obras, com base em imagens visuais
(quadro, desenho, fotografia) e lingüísticas (metáfora, símbolo, relato), formando conjuntos
coerentes e dinâmicos, referentes a uma função simbólica no sentido de um ajuste de senti-
dos próprios e figurados” (Wunenburguer, 2007:11).

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Isso constatado, o que nos traz a esta pesquisa é uma inquie-
tação em relação às formas discursivas do jornalismo contempo-
râneo e às conseqüentes mediações a que estão inexoravelmente
imbricadas estas representações do cotidiano. Partimos, então, da
hipótese de que há uma conjugação entre as narrativas jornalísticas
sobre os crimes violentos e uma construção do medo no imagi-
nário social das grandes cidades brasileiras. Por essa perspectiva,
acreditamos que este imaginário é, em grande parte, nutrido pelas
“representações do real”2 narradas nas práticas de reportagem da
imprensa de massa.
A concepção de que o medo poderia ser um legítimo objeto
de estudo ganhou atenção no final da década de 1970, quando o
historiador Jean Delumeau lançou a sua célebre obra História do
medo no ocidente (1989). Aluno de Fernand Braudel e seguidor do
que ficou conhecida como a história das mentalidades, vertente da
nouvelle histoire3, Delumeau começou a se dedicar a uma temática
que não se alinhava à tradição historiográfica francesa até então.
Como Peter Burke enumera em seu livro A escola dos Annales4
(1990), as principais preocupações dos historiadores que fundaram
a revista e, posteriormente, encabeçaram o movimento historio-
gráfico, tinham um foco diferenciado em relação ao cânone. A
proposta era investigar o passado utilizando uma metodologia que

2. Coloco entre aspas a expressão ‘representações do real’ pois, neste trabalho, também serão
discutidas algumas tensões contemporâneas relacionadas às convenções do discurso jorna-
lístico hegemônico e também à idéia de real construída por tais discursos.

3. Esta vertente historiográfica teve inicio com a consagrada revista Annales d’histoire eco-
nomique et sociale, que propunha a escrita de uma história voltada para outras questões que
não só os fatos políticos e econômicos, mas para as práticas sociais e o cotidiano. Foi marcada
por nomes como Lucien Febvre, Marc Bloch, Fernand Braudel, Jacques Le Goff, Emmanuel
Le Roy Ladurie e diversos outros que gravitaram em torno do grupo, além de um grande
número de historiadores, antropólogos e sociólogos influenciados pela perspectiva histórica
do grupo, incluindo Michel Foucault e Michel de Certeau.

4. Segundo Peter Burke, essa vertente que ficou conhecida como nouvelle histoire buscava
“a substituição da tradicional narrativa de acontecimentos por uma história-problema; [...] a
história de todas as atividades humanas e não apenas a história política; [...] e a colaboração
com outras disciplinas” (Burke, 1990:12).

24
focalizasse menos a tradicional historiografia política, e mais o es-
tudo das atitudes psicossociais e seus efeitos comportamentais.
Estes pensadores trabalhavam, em linhas gerais, por uma re-
formulação do paradigma que se encontrava estritamente aliado a
uma tradição de história escrita que focava o estudo da política, da
economia e dos eventos político-militares. A tradição metodoló-
gica da historiografia, até o aparecimento da nouvelle histoire, era
marcada por uma escrita dos vencedores, ou seja, aqueles que esti-
veram no poder. Nesse sentido, a busca era por reinventar um fa-
zer historiográfico que pudesse pesquisar outras práticas que com-
põem um senso de história por detrás das versões oficiais. Desde a
ruptura epistemológica do grupo, ainda nos anos 1920, a história
vem sendo escrita sob perspectivas variadas, em oposição à forma
dominante até meados do século XX, apresentada como a história
dos grandes feitos dos grandes homens, i.e., chefes militares e reis.
Influenciado pelas metodologias da nouvelle histoire, Delume-
au tece um rico panorama dos medos na transição da Idade Média
para a Idade Moderna, ou seja, entre os séculos XIV e XVIII na
Europa. O historiador francês lança mão do argumento de que, ao
longo deste período de transição, as intempéries da natureza res-
pondiam pelo imaginário do medo que se criava no meio social.
As epidemias de peste e de cólera, as colheitas arrasadas que pro-
duziam miséria e fome, os incêndios provocados por raios, os ter-
remotos e outras catástrofes que não podiam ser controladas e nem
facilmente remediadas pelo ser humano, eram as grandes ameaças
que circundavam o cotidiano desta época.
No entanto, os medos não são representações estáticas e, como
as sociedades que os imaginam, eles também adquirem outras fei-
ções ao longo do tempo. Se, em linhas gerais, podemos afirmar que
o que conceituamos como modernidade5 trouxe avanços tecno

5. Ben Singer aponta três aspectos fundamentais para a conceituação do que estamos chaman-
do de modernidade. (1) Como conceito moral e político, a modernidade pode ser entendida
como um “desamparo ideológico” de um mundo pós-sagrado e pós-feudal no qual todas as
normas e valores estão sujeitos a questionamento. (2) Como um conceito cognitivo, entende-se
que esse conceito aponta para o surgimento da racionalidade instrumental como (...)

25
lógicos às sociedades, tendemos a ver que tais desenvolvimen-
tos giraram, muito em parte, em torno de um domínio dos me-
dos de outrora.
Como conseqüência desta prática e condição social que carac-
terizam a modernidade, os medos, que eram construídos em fun-
ção de uma indefencibilidade em relação aos imprevisíveis ataques
da natureza, tornaram-se medos muito mais sociais, ou seja, pro-
venientes do próprio convívio em sociedade6. As guerras, que tam-
bém concorriam com os eventos naturais como potenciais perigos,
a partir da invenção das armas de fogo, no final da Idade Média,
foram responsáveis por uma grande mudança. Segundo Delumeau,
no conjunto das ameaças que se formaram ao longo da Idade Mo-
derna, as guerras ganharam posição de destaque.
Eventos tais como a Revolução Francesa, as guerras napoleô-
nicas, a guerra de Secessão, as duas Grandes Guerras Mundiais, as
bombas atômicas de 1945 e a corrida armamentista da Guerra Fria
resultaram em um número estarrecedor de mortos. A constatação
imediata do historiador é de que as guerras fazem cada vez mais
vítimas indiscriminadamente. Prova disso é o terrorismo atual,
forma inédita de guerra, que se vale de civis, prática incabível há
duzentos anos.
Neste sentido, mesmo outras catástrofes como as epidemias de
AIDS, as secas, as tsunamis, os terremotos e o suposto aquecimento
global (que ganha cada vez mais espaço nos debates internacionais),

(...) a moldura intelectual por onde o mundo é percebido e construído. (3) Como um concei-
to socioeconômico, a modernidade designa uma grande quantidade de mudanças tecnológi-
cas e sociais que tomaram forma nos séculos XIX e XX (Singer, 2001:115).

6. “O que muda com o advento da sociedade moderna? Agora, porque o social, o político e
a história são percebidos como obras dos próprios homens, verifica-se também que as rela-
ções sociais não foram ordenadas por Deus ou pelo diabo, mas nasceram da ação social de
grupos divididos (na linha de Maquiavel), da reunião de indivíduos isolados (na linha das
teorias do contrato social). Assim, ao lado do medo de Deus e do diabo (pois a sociedade
moderna é cristã) e do medo da natureza, os homens passam a ter um medo fundamental:
temem uns aos outros enquanto seres humanos. Donde as teorias modernas do ‘homem lobo
do homem’ e da situação pré-política como ‘guerra de todos contra todos’. O medo, antes
teológico-político, torna-se medo sociopolítico, medo do humano” (Chauí, 2006:91).

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ou seja, catástrofes da natureza que continuam sendo incontrolá-
veis, mas que podem, mesmo que precariamente, ser remediadas,
não recebem tanta atenção como os conflitos e as guerras. A ca-
tegoria alteridade social, já então ameaçadora, tornou-se a grande
produtora do medo moderno e contemporâneo.
Esse é o mote, por exemplo, do livro Confianza y temor en
la ciudad (2006), de Zygmunt Bauman. Este autor aponta na
mesma direção de Jean Delumeau ao colocar sua base de análise
nos três grandes sofrimentos do ser humano: a natureza, o cor-
po e a sociedade. Para Bauman, a degradação da natureza e do
corpo humano são inevitáveis e, por isso, o homem, mesmo com
todo o esforço empreendido, só consegue meramente aliviar a
dor e o medo que vêm destas causas. É preciso conviver com
isso. Por outro lado, a sociedade não tem um caráter de inevita-
bilidade. As regras sociais mudam7 e os sofrimentos também, e
o que parece ser o grande sofrimento dos habitantes das cidades
do mundo contemporâneo é a insegurança.
Para ele, essa sensação de insegurança não poderia ter surgido
sem dois fatores: (1) a sobrevalorização do indivíduo que se liberou
dos laços que uma densa rede de vínculos sociais lhe impunha –
abriu portas para a emancipação e a auto-superação para algumas
pessoas; (2) sem a proteção da rede de vínculos sociais, o indivíduo
se tornou frágil e vulnerável como nunca havia sido – vetou-se a
emancipação para a maioria (Bauman, 2006:10).

7. Marilena Chauí comenta a mudança sofrida na concepção de medo a partir do surgimen-


to da burguesia na Europa. “Nas sociedades aristocráticas, fundamentalmente guerreiras, o
medo sempre foi articulado à covardia diante dos perigos da guerra e contraposto à coragem
como virtude própria dos guerreiros, ou seja, da aristocracia. O medo, vício dos covardes,
aparecia como excepcional e vergonhoso entre os aristocratas, mas como algo natural e es-
sencial à plebe, tradicionalmente definida como covarde e temerosa. O advento da sociedade
burguesa introduz a mudança dos valores éticos e sociais, transformando também a maneira
de definir e de localizar o medo, que deixa de ser o vício característico da plebe para tornar-se
um sentimento comum a todos os homens” (Chauí, 2006:87).

27
Os medos atuais nasceram ao aparecer simultaneamente a liberta-
ção e o individualismo, quando já haviam se afrouxado ou desapa-
recido os laços de parentesco e vizinhança que uniam com firmeza
comunidades e associações, laços que eram tidos como eternos ou
que ao menos existiam desde tempos imemoráveis. Para lutar con-
tra o medo, o método que adotou a modernidade sólida foi tentar
substituir os laços naturais, irreparavelmente danificados, por seus
equivalentes artificiais, isto é, todos os tipos de associações, sindi-
catos e agrupamentos, a tempo parcial, embora quase de dedicação
contínua, unificadas por atividades diárias comuns; a solidariedade
ocupou o lugar do pertencimento, erigindo-se na principal defe-
sa contra as mudanças de uma existência cada vez mais arriscada8
(Bauman, 2006:12) [Tradução livre].

Bauman atesta que as classes perigosas originárias, ou seja,


época em que o convívio social se tornou parte substantiva do
imaginário do medo, eram formadas pelo excesso de população
excluída temporariamente, mas que existia uma concepção de
que essas pessoas seriam integradas no futuro. Eram grupos des-
pojados de uma função útil em conseqüência de uma sociedade
que seguia a rapidez do progresso econômico e que acabara por
não fornecer proteção alguma àqueles que sofriam a desintegra-
ção veloz dos laços sociais.

8. “Los miedos actuales nacieron al brotar simultáneamente la liberalizacíon y el individualismo,


cuando ya se habían aflojado o roto los lazos de parentesco y vecindad que unían con firmeza
a comunidades y corporaciones, lazos que se tenían por eternos o que al menos existían desde
tiempos inmemoriales. Para luchar contra el miedo, el método que adoptó la modernidad sólida
tendió a sustituir los lazos naturales, irreparablemente dañados, por sus equivalentes artificiales,
es decir, toda clase de asociaciones, sindicatos y agrupaciones, a tiempo parcial aunque casi de
dedicacíon continua, unificadas por actividades diarias comunes; la solidariedad ocupó el lugar
de la pertenencia, erigiéndose en la principal defensa contra los avatares de una existencia cada
vez más azarosa”.

9. Ainda pela perspectiva dos laços comunitários artificiais, além das associações, sindicatos e
agrupamentos, podemos acrescentar que a nação foi, por muito tempo, uma forma de firmar
e narrar, como imaginário social, a idéia de comunidade. Mas, hoje, diante da mundialização e
das reconfigurações que a constituem, isso já não é uma certeza. No mundo contemporâneo, as
linguagens da violência, por exemplo, como palavras de ordem, classificam e projetam alteridades
não mais somente em relação à nação (na figura de bárbaros e estrangeiros), mas em relação a
uma identidade cosmopolita provida pelos discursos presentes na cultura das mídias.

28
As classes perigosas do mundo contemporâneo9, por outro
lado, são as que, julgadas como não-aptas para a integração, são
declaradas inassimiláveis; não são somente excedentes, mas tam-
bém supérfluos. Não há mais a expectativa de que sejam integrados
à sociedade produtiva: são eternos marginais (Bauman, 2006:15).
Essa marginalidade “inevitável” está corriqueiramente relacionada
à narração do medo na cidade contemporânea através dos crimes
violentos contra a vida e contra o patrimônio.
Nessas divisões há duas fronteiras: uma normativa e outra eco-
nômica. Ambas, porém, se complementam. Os marginais da eco-
nomia (os inassimiláveis) são os que mais são marginalizados pela
lei criminal. Assim, os aparatos que o Estado dispõe para manter a
ordem são utilizados não mais para combater somente a delinqüên-
cia, mas, também, essa marginalização econômico-social10.
É preciso, então, diante dessas constatações, pensar quais
caminhos uma reflexão como essa pode apontar em um contex-
to diferente, como o latino-americano e, mais especificamente, no
contexto brasileiro. Por este viés, a proposta, aqui, é pensar como a
construção do medo se dá, hoje em dia, em função dessa conjun-
tura explicitada, focalizando, neste estudo, a questão das narrativas
jornalísticas sobre crimes violentos nas duas maiores cidades do
Brasil – São Paulo e Rio de Janeiro.
Em certo sentido, como veremos na análise do corpus desta
pesquisa, a violência urbana é intimamente associada aos termos
guerra e cotidiano, e é a partir desta estratégia narrativa da impren

10. Esta é a tese do pesquisador Loïc Wacquant: “A polícia foi instituída para combater a de-
linqüência, o flagelo do banditismo ou da criminalidade. Pede-se bem mais a ela atualmente:
combater o mal da exclusão social e seus efeitos tão destrutivos, responder aos sofrimentos
provocados pela inatividade, a precariedade social e o sentimento de abandono, colocar um
freio na vontade de destruir para mostrar que existimos. E aí que se situa hoje em dia a linha
principal de nossas instituições, a linha de frente onde se situa a ação cotidiana dos senhores.
Em termos claros, embora sua vocação não resida nisso e ela não tenha nem competência
nem meios para isso, a polícia deve daqui em diante fazer a tarefa que o trabalho social não
faz ou já não faz mais desde que se admite que não há(verá) trabalho para todos. À regu-
lamentação da pobreza permanente pelo trabalho assalariado sucede sua regulamentação
pelas forças da ordem e pelos tribunais” (2001:129).

29
sa que desenvolvemos essas duas categorias que são, conceitual-
mente, muito diferentes.
A observação inicial é de que nas construções discursivas do
medo na imprensa brasileira contemporânea – principalmente
àquelas marcadas pela temática da violência urbana que assola as
grandes cidades no Brasil – há uma recorrente referência a um vo-
cabulário de guerra nos conflitos armados e, por outro lado, uma
idéia de insegurança constante atrelada ao cotidiano da cidade.
A violência na perspectiva cotidiana e a violência como
guerra são as duas formas de narrar o crime violento mais utili-
zadas pela imprensa diária. Em ambas as abordagens que os jor-
nais propõem, os eventos compõem um imaginário identificado
pela repetição incessante, que se torna marca do próprio ato de
narrar nestes meios de comunicação. A diferença entre as duas
perspectivas está no potencial dramático das ações. Exemplifi-
quemos: qual a diferença entre um confronto armado envolven-
do policiais e bandidos, e um assalto a pedestre? São situações
que possibilitam tratamentos diferenciados, mas que produzem
significados parecidos: medo e insegurança.
Com a ênfase dada às mediações do jornalismo, não queremos
negligenciar a complexidade dos problemas relacionados à segu-
rança pública no Brasil. Porém, é preciso debater a função política
que exercem os meios de massa ao tratarem deste tema que nos é tão
caro. Deslocamos, assim, o foco de atenção para os sentidos e sig-
nificações dos atos, e não propriamente para os atos. Entendemos,
dessa forma, que os modos de enunciação da violência influenciam
as práticas sociais que estão envolvidas nessa problemática11.

11. “Pelo procedimento da ampla visibilização, os meios de comunicação agem como cons-
trutores privilegiados de representações sociais e, mais especificamente, de representações
sociais sobre o crime, a violência e sobre aquelas pessoas envolvidas em suas práticas e em
sua coibição. Estas representações sociais se realizam através da produção de significados que
não só nomeiam e classificam a prática social, mas, a partir desta nomeação, passam mesmo
a organizá-la de modo a permitir que se proponham ações concretas em relação a ela. Por-
tanto, o modo como a mídia fala sobre a violência faz parte da própria realidade da violência:
as interpretações e os sentidos sociais que serão extraídos de seus atos, o modo (...)

30
Em outros termos, podemos dizer que as produções de sig-
nificados através dos discursos sobre a violência organizam as
práticas sociais. Assim, se o medo é uma constante referência ao
lermos os jornais, precisamos avaliar as bases dessas estratégias,
que, como veremos, tendem a afirmar a política autoritária que
clama pelo aparato policial militarizado para conter problemas
econômicos e sociais. Nessa perspectiva, medo, terror, violência,
cotidiano, jornalismo, narrativa e imaginário social são concei-
tos chaves que emergem como instâncias de entendimento da
mobilidade dos sentidos (ou não-sentidos) que a violência ex-
pressa na sociedade contemporânea.
Se os ciclos do medo da sociedade ocidental empreenderam
um movimento das catástrofes naturais a um medo do outro, ou
seja, um alter propriamente social, enfatizado pela “era da insegu-
rança” em que vivemos, nos deparamos, hoje, com um imaginário
histriônico que, tomado de fechamento em relação ao seu outro
social, constrói nós identitários em meio a um crescente processo
de intensificação dos fluxos de informação e reconfigurações cultu-
rais, que muitos denominam pelo termo mundialização.

:: A segurança no mundo contemporâneo

A segurança, nos dias de hoje, é um tema amplamente debati-


do mundialmente. Mas por que se fala tanto sobre essa necessidade
de segurança? Decerto que os medos construíram sociedades e mo-
vimentaram relações sociais ao longo dos séculos, mas a que leitura
podemos nos ater sobre os medos contemporâneos? Tarefa nada
simples e de conclusões precárias.

(...) como certos discursos sobre ela passarão a circular no espaço público e a prática social
que passará a ser informada cotidiana e repetidamente por estes episódios narrados. Revela-
se, aqui, o caráter estruturador dos discursos” (Rondelli, 2000:150).

31
Nesta ordem do discurso de onde nos propomos a falar, os
imperativos são muitos. É necessário, por questões até mesmo de
capacidade produtiva dentro de uma temporalidade determinada,
definir um objeto de estudo que capacite o desenvolvimento de es-
tratégias ligadas à produção acadêmica. Neste sentido, o jornalis-
mo torna-se um campo de concentração de onde partiremos em
busca de alguns encontros. Estudar, então, a construção do medo
na imprensa brasileira pela temática da violência urbana implica,
desde já, em caminhos que nos levam a questões como: narrativa,
espetáculo, série, cotidiano e escrita do jornalismo. Essas estraté-
gias discursivas a que estamos sujeitos cotidianamente serão foco
de análise sistemática neste livro.
Se diante da constatação de Jean-Claude Chesnais (1982)
de que vivemos em tempos muito menos violentos que antes da
modernidade, por que a violência torna-se potente substância da
construção do medo social? Questão genérica esta, se não nos dis-
pusermos a definir de que violência estamos falando, e a que medo
estamos nos referindo.
Mas como, de fato, podemos conceituar e abordar a violência12,
tendo em vista que tal termo se tornou genérico e abrangente, sen-
do, hoje, amplamente utilizado nos discursos de variados setores
da sociedade? Seja em pesquisas acadêmicas sociais, em estudos
estatísticos, na imprensa, nas falas dos representantes dos governos
ou no dia a dia das ruas, a generalização da expressão acabou por
esvaziá-la, ou mesmo diversificá-la demasiadamente.
Apesar disso, o termo vem sempre acompanhado de um teor
negativo que geralmente alardeia um aumento dos crimes violentos
e suas conseqüências imediatas, como a sensação de medo. Dessa
maneira, seguiremos a definição de violência no modo como ela é

12. Segundo Ingo Schröder e Bettina Schmidt, há três linhas de pensamento sobre a violência
nas pesquisas atuais: (1) a perspectiva operacional, que focaliza as características dos antago-
nismos, em particular aqueles que são mensuráveis materialmente e que têm conflitos base-
ados em causas políticas. A perspectiva operacional relaciona a violência com propriedades
gerais da natureza e da racionalidade humanas, e com conceitos gerais de adaptação social a
condições materiais. Esta abordagem pretende explicar a ação violenta pela comparação (...)

32
veiculada na imprensa e não através de perspectivas e abordagens
teóricas da bibliografia especializada. O objetivo, então, não é apli-
car um modelo teórico, mas, antes, analisar a abordagem jornalís-
tica em relação à problemática da violência nas cidades e, com isso,
apontar as conseqüências da produção desse um imaginário.
Destarte, tendo em vista a problematização das formas como
são construídos os significados em relação à violência, examina-
remos algumas representações da imprensa de massa: lugares de
produção de discurso, nos quais certas enunciações, através da re-
petição cotidiana, tornam-se instituidoras de um imaginário social
do medo. São práticas narrativas produtoras de sentido e de orde-
namento, de afirmação de fronteiras, de divisões, que acabam por
guiar a ação e o pensamento dos agentes sociais.
Nesse sentido, o conceito de medo com o qual estamos traba-
lhando tem menos uma conotação psicológica ou subjetiva relacio
nada aos indivíduos, e mais uma perspectiva política de controle
social. Estamos lidando não com algo concreto e palpável, mas com
o nível simbólico, com narrações que atribuem características e que
lançam pontos de mediação entre ações e significações sociais.
O imaginário do medo é a própria forma com a qual narramos
a idéia de medo, ou seja, a maneira como ordenamos e atribuímos
sentidos a determinados processos sociais e econômicos. Essa for-
ma de imaginar o medo é o que utiliza e cria o vocabulário com o

(...) entre diferentes condições estruturais e como estas estruturas são as causas que afetam
as condições históricas específicas; (2) a perspectiva cognitiva, que focaliza o funcionamento
dos elementos internos (emics) da construção cultural da guerra em uma dada sociedade.
Esta é a abordagem mais usada para explicar a violência. Ela aborda a violência como, antes
de tudo, uma construção cultural, como uma representação de valores culturais. Assim, a
violência é vista como contingente em seu significado cultural e em sua forma de represen-
tação. Ela deve ser abordada com grande atenção à especificidade sociocultural do contexto
histórico. (3) a perspectiva experimental, que olha para a violência como não necessaria-
mente confinada em situações de conflitos entre grupos, mas como algo relacionado à sub-
jetividade do indivíduo, algo que estrutura a vida cotidiana das pessoas, mesmo quando não
há um real estado de guerra. Essa abordagem focaliza as qualidades subjetivas da violência.
A violência, nessa abordagem, é altamente contingente nas subjetividades dos indivíduos, e
seus significados são desdobrados principalmente através da percepção do indivíduo de uma
situação violenta do indivíduo (Schröder & Schmidt, 2001: 17) [tradução livre].

33
qual tentamos projetar o que nos aflige. O medo existe, principal-
mente, nesse âmbito da significação, do simbólico. Do contrário,
quando o perigo é ignorado, não há medo13.
Por esse viés, ao optarmos por uma perspectiva crítica do ima-
ginário do medo, a tarefa imperativa que se apresenta é a leitura
das bases que possibilitam as maneiras de narrar o medo através
da violência. A leitura crítica tenta abrir portas, desautomatizando
o pacto de leitura que se dá cotidianamente entre texto e leitor de
jornal. Lendo as reportagens sob outra perspectiva, tanto tempo-
ral quanto funcional, a análise se depara não com a “informação”,
mas com o texto e os significados que se desdobram a partir dele.
O texto, aqui, não é tratado como a evidência, a clareza, o natural.
Quando tratamos esse imaginário cotidiano como texto, a proposta
é lê-lo criticamente, ressaltando as razões de serem da maneira que
são, e, também, seus efeitos e conseqüências. Enfim, o texto não é
algo dado, mas uma construção cultural constante.
Nesse processo incessante de construção de significados é pos-
sível produzir outros textos através da interpretação. Ler é encontrar
sentidos, mas não todos os sentidos. É preciso, também, afirmar o
esquecimento de alguns deles, pois não há um “total matemático-
virtual” no texto14.
O que propomos como leitura do imaginário do medo nos
jornais está relacionado com a uma perspectiva singular diante do
texto jornalístico que se baseia na violência criminal do cotidiano.

13. No caso da conjugação entre medo e violência, podemos dizer que esta tem um caráter per-
formático muito explorado no fait divers. “Violência sem audiência continuará deixando pessoas
mortas, mas não tem significado social. Atos violentos são, provavelmente, mais eficientes por
sua demonstração de poder e legitimidade, do que por suas conseqüências físicas. Em outras
palavras, a guerra como um processo de longa duração só culmina em reais atos de violência
ocasionalmente, e ambas as partes têm indivíduos que não são confrontados com a violência real
de nenhuma maneira, mas a violência como performance estende sua eficácia pelo espaço e pelo
tempo, e leva sua mensagem para outras pessoas que, em sua maioria, não são afetadas fisicamen-
te pela violência. Além disso, a qualidade performática faz da violência uma experiência diária
(com todas as conseqüências para a sociedade) sem que ninguém sofra, de fato, danos físicos
todos os dias” (Schröder & Schmidt, 2001:6) [Tradução livre].

14. “Ler é um trabalho de linguagem. Ler é encontrar sentidos, e encontrar sentidos é nomeá-los; (...)

34
O objetivo não é apontar falhas, mas ler através do texto, criando,
assim, relações, conexões, articulações, ou seja, um texto que escre-
ve a partir de outro: texto-leitor.

:: Narrativa e imaginário do medo

Se optamos por analisar as reportagens sobre crimes violentos que


são veiculados na imprensa, estamos, inexoravelmente, lidando com
narrativas e, por isso, outra questão precisa ser desenvolvida: quais são as
implicações da estratégia da série jornalística na construção do medo? A
análise dessa construção é elaborada, nesse caso, pelo campo de estudo
das mediações. Estamos trabalhando com as mediações sociais nas quais
se inserem os discursos jornalísticos, isso que poderíamos chamar, tam-
bém, de historiografia do cotidiano. Se não podemos atestar uma “von-
tade de construir o medo”, podemos, com a ajuda de Foucault (2005),
arriscar a cartografia de uma ordem do discurso, no caso, jornalístico e
suas imbricações com o par já muito disseminado saber/poder.
Os traços de narrativa do real e da construção de um real con-
tínuo através da serialização descontínua dos diários são complexas
problemáticas. O cotidiano que os jornais diários constroem é, como
pressuposto, sempre o mesmo: ele é empiricamente alcançável por

(...) mas, esses sentidos nomeados são levados em direção a outros nomes; os nomes mutuamente
se atraem, unem-se, e seu agrupamento quer também ser nomeado: nomeio, re-nomeio: assim
passa o texto: é uma nomeação em devenir, uma aproximação incansável, um trabalho metoní-
mico. – Em presença do texto plural, o esquecimento de um sentido não pode, pois, ser conside-
rado uma falta. Esquecer em relação a quê? Qual é a soma do texto? Alguns sentidos podem per-
feitamente ser esquecidos, mas caso se tenha optado por observar o texto com um olhar singular.
No entanto, a leitura não consiste em fazer cessar a cadeia dos sistemas, a fundar uma verdade,
uma legalidade do texto e, por conseguinte, em provocar as ‘faltas’ do leitor; consiste em imbricar
esses sistemas, não de acordo com sua quantidade finita, mas de acordo com sua pluralidade (que
é um ser, não uma redução): passo, atravesso, articulo, provoco, não conto. O esquecimento dos
sentidos não é um erro; é um valor afirmativo, uma maneira de afirmar a irresponsabilidade do
texto, o pluralismo dos sistemas: é precisamente porque esqueço que leio” (Barthes, 1992:44).

35
todos, ou pela maioria, que os lêem. O espaço público do cotidiano
torna-se, então, um espaço contínuo dentro da narrativa que se ins-
creve diariamente. Aí está colocado, portanto, o problema da série no
jornalismo. Se estamos neste diapasão, a própria escolha do objeto
coloca como critério uma explicitação desta construção serial, não
somente pela temática (violência urbana), mas pela dramatização de
conflitos que se desenrolam por mais de um dia.
A violência atual parece ser “mais violenta”, pois acreditamos,
pela reiteração constante, que determinadas conquistas modernas
(democracia, produção material/industrial, controle técnico, plane-
jamento) extirpariam a violência. No entanto, ela sempre se renova
e se traveste de outras personagens. Ela é o indecifrável, o que, em
última instância, exibe a derrota de um projeto de estabilização. A
violência, assim, movimenta a história, é mola propulsora que não
cessa de trabalhar e saltar no tempo. Se é a busca do desconhecido
que nos impulsiona a escrever, a esclarecer, a incorporar conheci-
mento, o desconhecimento das causas ou do sentido do que vivemos
no cotidiano é o que nos inquieta e nos coloca em concerto com as
narrativas da violência da cidade urbana contemporânea.
A violência do dia-a-dia é desconhecida para o jornal: um tra-
balho estatístico certamente pode demonstrar que o número de
casos ocorridos é muito maior do que os casos noticiados. Rou-
bos de automóvel, assaltos, furtos e brigas são exemplos de crimes
cotidianos que não ganham espaço e, portanto, não são elementos
que compõem a “realidade” narrada pelos meios. A produção de
realidade não está atrelada à violência ‘miúda’ e sim, à violência
como conflito ou à violência associada aos crimes contra o patri-
mônio (principalmente) e contra a vida. Sendo que este último tem
um potencial dramático muito maior e, conseqüentemente, possi-
bilita uma produção imagética espetacular da realidade. O ponto
principal de definição do caráter espetacular é sua ampla eficácia
como representação que utiliza a sedução como principal valor de
referência, sendo esta sedução atrelada intimamente à vontade de
eficiência que permeia a idéia de cultura de massa.
A inquietante familiaridade da violência – a chamada “escalada
da violência” – está ligada menos às estatísticas e mais às represen-

36
tações que nos chegam cotidianamente, seja através dos jornais, da
televisão, do cinema ou mesmo da Internet. Ao nos debruçarmos
sobre o jornalismo, estamos lidando com um campo discursivo que
vai do diário ao semanal, do mensal ao instante – jornalismo que
chega a apresentar notícias com hora e minuto estritamente demar-
cados. Atravessando todos esses meios e suas periodicidades, lemos
as narrativas histriônicas que apavoram o leitor, criando mesmo
uma “polisfobia”15.

A produção imagética do terror cumpre um papel disciplinador


emergencial. A ocupação dos espaços públicos pelas classes su-
balternas produz fantasias de pânico do “caos social”, que se an-
coram nas matrizes constitutivas da nossa formação ideológica
(Batista, 2003:34).

O controle social, numa época como a nossa, é feito por uma


hierarquização rígida e excludente, que se impõe, também, pela
produção disciplinadora das imagens do terror: são produções de
realidade que evocam um imaginário do medo e, propriamente, o
constituem pela repetição. O espaço público sendo dividido com as
classes subalternas é motor da disseminação de pânico e de ojeriza
em relação a esse “outro” social, este que não pode ser assimilado, e
que encarna todos os dias a figura da barbárie.
Essas imagens do medo, por esse viés, compõem um espaço
simbólico marcado por um tipo de disciplina que está relacionada
com as paixões humanas. Hoje, subjetividades são formadas não
pelo discurso definido e doutrinador (como era o papel do intelec-
tual de outrora), mas pela suposta narração objetiva do real, pela
sedução da realidade, ou ainda, por um poder libidinal16. Rejeita-se
a absorção de uma verdade discursiva e abre-se para a formação da

15. O medo de habitar a cidade está relacionado com a idéia de insegurança que o espaço público
representa. Essa insegurança, por sua vez, está baseada na coexistência e na mistura entre pessoas
de classes sociais diferentes. Essa variedade acaba sendo uma fonte de temores.

16. “No capitalismo tardio a cultura midiática se transformou no lugar onde as batalhas ideológi-
cas pelo controle dos imaginários ocorrem. Pelo seu raio de alcance e por seu formato visual, os (...)

37
consciência através de discursos em forma de representações. No
entanto, há lógicas nessas representações. Travestem-se, os discur-
sos, em representações de realidade e de objetividade.
Essas representações formam o que chamamos de imaginá-
rio. Este, por sua vez, não é o espaço onde se estabelece o jogo
entre o falso e o verdadeiro. Não estamos tratando de deforma-
ções da realidade ou de verdades essenciais. Isso, porém, não
desvincula o imaginário produzido pelos meios de comunica-
ção de massa de uma perspectiva política, pelo contrário. Este,
quando lido criticamente, torna-se o palco onde a luta pelo con-
trole dos significados ocorre17.

:: Metodologia

É importante delimitarmos o porquê da forma de construção


da metodologia utilizada neste estudo. Com o intuito de analisar
narrativas jornalísticas, optamos por trabalhar séries de reporta-
gens que tratassem do tema focalizado na pesquisa. O que chama-
mos de série é o conjunto de reportagens sobre um ou mais eventos
que são unificadas por uma rubrica específica. Todas as séries têm
como tema principal crimes violentos.

(...) meios contribuem em grande medida para a delineação de novas formas de subjetividade,
estilo, visão de mundo e comportamento. A cultura midiática é o aparato ideológico dominante
hoje em dia, substituindo a cultura letrada em sua capacidade para servir de árbitro do gosto, dos
valores e do pensamento. A vantagem da cultura midiática sobre os outros aparatos ideológicos
situa-se, precisamente, no fato de que seus dispositivos de sujeição são muito menos coercitivos.
Diríamos que por eles não circula um poder que ‘vigia e castiga’, mas um poder que seduz. Não
estamos, portanto, frente ao poder disciplinário da modernidade, criticado por Foucault, mas
frente ao poder libidinal da globalização” (Castro-Gomez, s/d) [tradução livre].

17. “Os meios produzem e fortalecem ‘sistemas de crenças’ a partir dos quais umas coisas são mais
visíveis e outras não, alguns comportamentos são induzidos e outros evitados, umas coisas
são tidas como naturais e verdadeiras, enquanto outras são tidas como artificiais e mentiro-
sas” (Castro-Gomez, s/d:18) [tradução minha].

38
O livro está dividido em duas partes: a primeira trata da
violência no cotidiano e a segunda trata da violência espetacu-
lar. As séries de reportagens são, assim, equacionadas de acor-
do com o critério da construção narrativa. Das quatro séries,
“A Guerra do Rio” (O Globo) e “Guerra urbana” (Folha de S.
Paulo) se constroem a partir de eventos cuja cobertura não fora
planejada. Além disso, trata-se de acontecimentos que geraram
uma grande repercussão tanto em suas cidades, como no país, e
que foram associadas ao termo guerra. O resultado das análises
constitui a segunda parte deste estudo.
As duas outras séries, analisadas na primeira parte, se agru-
pam por serem fruto de uma elaboração antecipada que orga-
nizou a cobertura jornalística. Estas séries são pautas sugeridas
que poderiam ou não ser acatadas pelo editor. Ambas são extre-
mamente baseadas em estatísticas e utilizam estratégias narrati-
vas que puderam ser trabalhadas com um pouco mais de tempo,
que não a pressa da rotina.
Desse modo, a proposta metodológica aqui empreendida é de
análise discursiva. Uma análise que é remetida à construção de um sis-
tema de significação social, que denominamos de imaginário social.
Esse sistema é algo do tipo orgânico: é flexível, moldado no tempo por
ações, mas que, acreditamos, é ainda passível de análise, se nos manti-
vermos atrelados a um período histórico determinado que, no caso, é
o que optamos por chamar de período contemporâneo.
O que fizemos foi, então, elaborar tabelas que dividiam os
blocos narrativos de cada série. Estes blocos narrativos foram
formados de três maneiras distintas, de acordo com as neces-
sidades analíticas de cada série: (1) reportagens que estão na
mesma página do jornal (“Guerra do Rio”); (2) reportagens que
foram publicadas na mesma edição (“24 horas” e “Geografia
da violência”); (3) cada reportagem forma um bloco narrativo
(“Guerra urbana”). Estes blocos narrativos foram formados de
acordo com as características de cada série analisada, e analisa-
dos em função de alguns parâmetros estabelecidos: títulos, cita-
ções, recursos visuais, testemunhos, marcas textuais, analogias/
derivações, observações. Esta foi a metodologia empregada em

39
todas as reportagens selecionadas com o intuito de destacar os
pontos principais de cada uma.
Diante dessa abordagem inicial, surgiu um questionamento:
como trabalhar a relação da teoria com o recorte da pesquisa sem que
isso se torne um movimento de mão única, ou seja, partir do geral para
o particular ou do particular para o geral? Considerando esta preocu-
pação, optei por tentar ativar uma perspectiva que transitasse nos dois
sentidos, que seguisse uma idéia de deslocamento. A partir disso, cada
série foi analisada em sua especificidade, sem o intuito de aplicar um
modelo, e sim de ensaiar uma abordagem. Portanto, os resultados são
frutos de uma leitura que tenta articular e expandir as significações,
num movimento que transforma a “informação” em texto.
Essa forma de tratar a pesquisa, na qual o esforço de recomeçar
está presente na análise de cada série, acaba, inevitavelmente, lidando
com a repetição, pois esta é característica do objeto selecionado (a nar-
ração da violência pela imprensa segue os caminhos da redundância).
Os quatro capítulos que compõem o desenvolvimento deste estudo
tratam do mesmo tema (o imaginário do medo constituído pela vio-
lência urbana que é narrada nos jornais), mas tentando abordar cada
série em sua diferença.
O objetivo de nossa análise, contudo, não é propriamente buscar
as estruturas das formas de narrar o cotidiano da cidade, mas, sim,
identificar e analisar as relações que são estabelecidas para a produ-
ção dos sentidos da violência quando narrada nos periódicos massivos
aqui pesquisados. A produção de sentido é, assim, o próprio ato de
articular e de estabelecer relações.
Seguindo esse procedimento, os capítulos exploram algumas
questões que compõem o debate atual no campo da comunicação so-
cial e, mais especificamente, no campo do jornalismo, tendo em vista
que não é possível defini-lo como um campo autônomo. Nesse senti-
do, as análises privilegiaram uma abordagem multidisciplinar que tem
como ponto de partida questões do jornalismo, mas também de outras
áreas como sociologia, antropologia, história e literatura.

40
Primeira parte
Cidade, cotidiano e violência
:: A fala do cotidiano 1

Na Atenas contemporânea, os transportes coletivos se chamam


metaphorai. Para ir para o trabalho ou voltar para casa, toma-se
uma “metáfora” – um ônibus ou um trem. Os relatos poderiam
igualmente ter esse belo nome: todo dia, eles atravessam e organi-
zam lugares; eles selecionam e os reúnem num só conjunto; deles
fazem frases e itinerários.

Michel de Certeau

A modernidade, como conceito cognitivo, conforme explicita-


do na introdução, caracteriza-se pela tentativa de ordenação e ca-
tegorização da sociedade através da técnica. Nesse sentido, o ato de
narrar a violência urbana nos diários impressos é algo que emerge
tendo como paradigma esse contexto disciplinador. É o momento
em que o cotidiano passa a ser representável e, logo, classificável. O
dia-a-dia surge como um objeto de análise possível.
A consolidação do cotidiano como objeto passível de repre-
sentação, através dos textos panorâmicos, é o que poderíamos
mencionar como primórdio da imprensa de massa. Nesses termos,
podemos atentar para a estreita ligação que há entre as narrativas
panorâmicas que retratam o cotidiano e o conteúdo sobre a violên-
cia presente nestes espaços literários.
Ao lermos as notícias veiculadas na imprensa atual, tendo
como foco de análise as representações da violência urbana, pode-
mos inferir algumas interpretações sobre complexas problemáticas
que transpassam as dimensões social, cultural e econômica dos ha-
bitantes das metrópoles que, em diferentes graus e escalas, lidam

1. Duas séries de narrativas que focalizam a violência urbana em seu aspecto cotidiano (“24
horas” e “Geografia da violência”) são os índices de análise escolhidos como corpus desta
primeira parte. Estas séries são relatos que pretendem ordenar e construir sentidos no âm-
bito da cultura de massa. As linguagens da violência no jornalismo emergem como questão
de fundo para proporcionar análises da sociedade e da cultura, através de uma visada que
está focada na produção de um imaginário do medo em íntima relação com os relatos sobre
a violência do dia-a-dia.

43
com os crimes violentos, seja empiricamente, por meio de estatís-
ticas, pela fala do crime2 (que se dissemina nas conversas com os
outros habitantes) ou, como será enfatizado aqui, pelas narrativas
jornalísticas da violência urbana, que nos estimulam diariamente.
É importante pensar as formas de enunciação que são utiliza-
das e quais elementos podem nos levar a perceber como a impren-
sa trabalha a questão da violência em relação a um imaginário do
medo. Se partirmos do que o historiador Michel de Certeau elabora
em relação aos modelos totalizadores que privilegiam a leitura, ou
seja, o panoptismo como forma de análise e articularmos isso com
o que atesta Muniz Sodré, podemos começar a esboçar caminhos
sobre as articulações entre imprensa, violência e imaginário do
medo. Sodré, em entrevista, diz:

[A imprensa] está preocupada com a violência visível, que se resolve ju-


ridicamente, como ilegalismo, com o Código Penal, cível. A imprensa de
hoje se concentra na conseqüência, no efeito, dramatiza o seu discurso,
entra numa narrativa com princípio, meio e fim e com efeitos de dra-
matização. Essa teatralização tem uma história no ocidente moderno,
que dramatiza a violência desde o teatro elizabetano, sempre mobilizou a
consciência com o sofrimento do outro. A violência nas obras de ficção
é um recurso narrativo bastante econômico. Há uma economia discur-
siva. [...] A violência tem um poder de mobilização imenso, porque ela
faz uma elipse na narrativa. Em vez de você pontuar logo ali, você pas-
sa de um plano para o outro e a questão do mal se resolve ali mesmo
(Sodré, 2003:182).

A violência tem um grande impacto social que se reflete no coti-


diano e, nesse sentido, é importante atentarmos para as produções de
sentido que discursos massificados, como o jornalismo aqui focaliza-
do, propõem. O modo como se enuncia faz toda a diferença, principal-
mente quando o tema tem um forte teor político. O fato das notícias se
aterem ao aspecto visível ou, se podemos dizer, ao viés jurídico-penal
do problema da segurança pública tem íntima relação com a constru-
ção de uma ordem simbólica que é repetida cotidianamente.

2. Ver conceito de fala do crime em Caldeira, 2003:27.

44
Contudo, há algo de inapreensível na violência como confli-
to, algo que escapa a qualquer fala e que, por isso, sempre retorna
como tema através de outras formas e outras histórias. Tanto nas
conversas do dia-a-dia quanto nos jornais que lemos, o espaço pú-
blico da cidade aparece como espaço da violência, da insegurança e
do medo. São falas e representações que circulam como epidemias,
mesmo que de forma descontínua. Os medos são relembrados e
criados a cada narrativa e a repetição torna-os concretos. O ima-
ginário guia o caminhante pelas ruas, como placas de sinalização.
Táticas surgem como formas de driblar o medo que ronda o imagi-
nário do perigo da violência.

A vida cotidiana e a cidade mudaram por causa crime e do medo, e isso


se reflete nas conversas diárias, em que o crime tornou-se um tema cen-
tral. Na verdade, medo e violência, coisas difíceis de entender, fazem o
discurso proliferar e circular. A fala do crime – ou seja, todos os tipos
de conversas, comentários, narrativas, piadas, debates e brincadeiras que
têm o crime e o medo como tema – é contagiante. [...] A fala do crime é
também fragmentada e repetitiva. Ela surge no meio das mais variadas
interações, pontuando-as, repetindo a mesma história ou variações da
mesma história, comumente usando apenas alguns recursos narrativos.
Apesar das repetições, as pessoas nunca se cansam. Ao contrário, pare-
cem compelidas a continuar falando sobre o crime, como se as infindá-
veis análises de casos pudessem ajudá-las a encontrar um meio de lidar
com suas experiências desconcertantes ou com a natureza arbitrária e
inusitada da violência. A repetição das histórias, no entanto, só serve
para reforçar as sensações de perigo, insegurança e perturbação das pes-
soas. Assim, a fala do crime alimenta um círculo em que o medo é traba-
lhado e reproduzido, e no qual a violência é a um só tempo combatida e
ampliada. (Caldeira, 2000:27).

O que a autora chama de “fala do crime” são relatos coti-


dianos das pessoas que foram vítimas de qualquer situação vio-
lenta. A oralidade e o grande envolvimento com a memória são
características importantes desses relatos. No caso específico da
pesquisa de Teresa Caldeira, esses relatos foram coletados em
entrevistas com moradores de bairros de São Paulo. No entanto,
há muitos pontos de contato entre essas falas e as representações
que a imprensa nos fornece diariamente. O que a antropóloga

45
define como fala do crime pode ser uma chave de leitura das
narrativas jornalísticas sobre a violência urbana que cotidiana-
mente são apresentadas a nós. Nesse caso, estamos trabalhando
com representações e formas de dar sentido à desordem. Narrar,
como no caso dos relatos de vítimas de crimes violentos, é a
tentativa de ordenar algo que é desordenado por si só. A experi-
ência da violência é algo muito diferente de sua representação.
Decerto que a vida cotidiana e a cidade mudaram em função
da busca por segurança. Não somente pela violência como prática,
mas, também, pelo imaginário do medo que foi sendo insuflado
à medida que as próprias estatísticas da criminalidade cresciam a
partir dos anos 1980 nas grandes cidades brasileiras. O que de fato
constrói o imaginário do medo em relação à violência são as narra-
tivas, sejam elas relatos de rua ou relatos de massa.
Na imprensa massificada, em todos os suportes que a contem-
plam, a violência tem um amplo espaço cativo e isso, no entanto,
não tem uma relação direta com as variações dos índices crimi-
nais. Nas páginas dos jornais há sempre a idéia de uma escalada
da violência a cada evento conflituoso. O mesmo tema se repete
com variações e vai, cotidianamente, produzindo memórias, ma-
pas, imaginários e medos. Fragmentada e repetitiva, como a fala do
crime que Caldeira conceitua, a narrativa da violência na imprensa
nos fornece diariamente significados para ações da ordem do in-
dizível, como é o caso da violência, através de recursos narrativos
padronizados que são explorados de acordo com a dimensão que se
quer dar ao acontecimento.
Repetindo-se sem cessar, no entanto, sem cansar, as reporta-
gens tentam restabelecer ordem e significado em meio à sensação
de caos e de insegurança que estão associadas à ampla disseminação
da violência no espaço urbano contemporâneo. Como os mapas, os
jornais nos ajudam a lidar com o desconhecido. Nos guiam, simbo-
licamente, pelas ruas instituindo trajetórias e formulando perigos.
Assim, vivenciar a cidade não é somente caminhar ou mesmo estar
em contato com outras pessoas no espaço público; é também ler o
espaço e o tempo da cidade. Os relatos são, eles mesmos, caminha-
das pela cidade, são meios de transporte.

46
1 Instante, imprensa
e violência urbana

1.1 A busca do instante

Neste momento, enquanto escrevo estas linhas, as notícias so-


bre crimes violentos abundam pelos vários meios de comunicação
a que temos acesso no mundo contemporâneo. No portal virtual
de um dos maiores jornais brasileiros3 três notícias estão em des-
taque: no Rio de Janeiro um tiroteio matou ao menos dez pessoas
no bairro do Catumbi (“Guerra do tráfico no Rio mata, gera pânico
e provoca caos no trânsito”); nos Estados Unidos da América um
universitário matou mais de trinta pessoas na Universidade Virgi-
nia Tech (“EUA: Sul-coreano teria feito massacre por amor”), em
Porto Alegre um homem matou uma jovem e, no momento, amea-
ça se matar dentro de uma igreja evangélica (“Homem mata jovem
em ponto de ônibus e fere 4 em Porto Alegre”).
Tendo a Internet como suporte de alcance instantâneo e mun-
dial, os portais de diversos jornais, como também as edições im-
pressas diárias, freqüentemente utilizam os crimes violentos como
notícias de destaque. As narrativas de cada instante – ou, como são
comumente chamadas, em tempo real – esperam por outras que lhe
tirarão a efêmera visibilidade.
Esses três eventos que são veiculados no mesmo instante – já
que não podemos, no caso da Internet, utilizar o termo edição, que

3. Portal do jornal O Globo em 17 de abril de 2007, às 13h50.

47
designa o conjunto de exemplares de um periódico impressos de
uma só vez – são enunciações que nos apresentam fatos de violên-
cia exacerbada e que poderíamos definir, em uma primeira visada,
como extraordinários. No entanto, a leitura diária destas narrativas
jornalísticas não nos deixa outra conclusão, senão a de que tais fa-
tos, talvez numa atitude blasé4, sejam da ordem do que não ultra-
passa o ordinário. Essas leituras compõem a forma de vivenciar
o medo através do ato de narrar a violência, que cotidianamente
atravessa os meios de comunicação de massa que dão suporte ao
jornalismo hegemônico.
Diante de tais notícias sobre tiroteios, mortes, caos, pânico,
guerras, massacres, assassinatos, poderíamos retomar as palavras
hiperbólicas com que Charles Baudelaire marcou seu diário no iní-
cio da década de 1860:

É impossível folhear qualquer jornal, de qualquer dia, mês ou


ano, sem descobrir em cada linha os traços mais pavorosos da
perversidade humana e, ao mesmo tempo, os elogios mais surpre-
endentes de probidade, de bondade, de caridade, e as afirmações
mais descaradas relativas ao progresso e à civilização. Qualquer
jornal, da primeira à última linha, nada mais é do que um teci-
do de horrores. Guerras, crimes, roubos, linchamentos, torturas,
crimes dos príncipes, das nações, de indivíduos; uma exaltação
da atrocidade universal. E é com este aperitivo intragável que o
homem civilizado diariamente acompanha sua refeição matinal
[tradução livre].

O homem civilizado apontado acima é aquele que lê, aquele


que, pela visão, torna-se interlocutor de um discurso. Ele “acompa-
nha sua refeição matinal” com notícias sobre horrores e violências
ocorridas na cidade. A “exaltação da atrocidade” de que nos fala o

4. Esse conceito foi utilizado por Georg Simmel no ensaio “A metrópole e a vida mental”
para designar a reação de defesa em relação aos diversos e rápidos estímulos a que a subjeti-
vidade do homem que habitava as metrópoles no século XIX estava sujeita. Nas palavras do
autor: “Não há talvez fenômeno psíquico que tenha sido tão incondicionalmente reservado
à metrópole quanto a atitude blasé. A atitude blasé resulta em primeiro lugar dos estímulos
contrastantes que, em rápidas mudanças e compressão concentrada, são impostos aos ner-
vos” (Simmel, 1987:15).

48
poeta propõe uma leitura da cidade tendo como síntese um estado
de desgoverno e desorientação marcado por uma crueldade de ca-
ráter universal, tendo em vista o contexto das idéias iluministas que
marcam a sociedade européia naquele momento.
À época de Baudelaire, esse homem se alimenta dessas narrati-
vas principalmente por meio de jornais que circulavam diariamente.
Trata-se de um olhar panorâmico, que usa as guerras, os crimes, os
roubos, os linchamentos, enfim, a violência como vocabulário para
operar uma leitura da cidade através dos desvios sociais. É a ordem
da cidade planejada e, conseqüentemente, as fronteiras simbólicas
já estabelecidas, que estão em questão nas páginas dos jornais.
Ao tentarmos especificar que tipo de ordem se estabelece na ci-
dade moderna, é imperativo que coloquemos a urbanização como
ponto chave de análise. Por esse viés, se buscarmos argumentos na
história das cidades ocidentais, constataremos que nem sempre o
conceito de cidade foi sinônimo de urbanização, ou seja, de organi-
zação tecnicamente planejada do espaço. No caminho para a cons-
trução da simbiose entre esses dois conceitos, temos, a partir do sé-
culo XVI, um avanço das técnicas, e da própria idéia de civilização,
que possibilitaram estratégias e planejamentos do espaço onde, no
século XIX, multidões habitariam. São conglomerados que foram
se desenvolvendo e que acabaram por conjugar dois conceitos dife-
rentes, um como sinônimo do outro.
Michel de Certeau identifica essa conjugação entre urbaniza-
ção e cidade nas ambições do conhecimento ótico que ganhou força
a partir da invenção da perspectiva pictórica e, também, com o de-
senvolvimento de técnicas de planejamento, que são chamadas, por
ele, de prospectivas (2005:23). Assim, a perspectiva, ao olharmos
para uma superfície bidimensional, designa a sensação de realidade
que se tem através da terceira dimensão ilusória.
A prospectiva, por outro lado, está relacionada à tentativa
de prever a evolução da sociedade em um tempo determinado.
É, em outros termos, a utilização da técnica como forma de pre-
visão e planejamento de diferentes aspectos de um determinado
meio social. Segundo o referido autor, foi a articulação entre es-
sas duas visões (prospectiva e perspectiva) que conjugou a ur-

49
banização com o conceito de cidade. “A visão em perspectiva e
a visão prospectiva constituem uma projeção dupla de um pas-
sado opaco e um futuro incerto numa superfície com a qual se
pode lidar. Elas inauguram a transformação do fato urbano no
conceito de cidade” (Certeau, 2005:23).
A tentativa de ordenar a cidade através de pequenos aparatos
técnicos disciplinadores, no sentido em que Michel Foucault (2006)
desenvolveu, constitui a própria idéia da urbanização. O que Cer-
teau coloca, por outro lado, é que a prospectiva e a perspectiva fize-
ram com que a visão se tornasse o grande articulador da ordem. Era
preciso, então, que tudo fosse passível de ser representado pelas ca-
tegorias que enfatizassem o olhar, e que estas pudessem obter uma
visão panorâmica, totalizante, através de uma posição distanciada.
A visão triunfou como método de conhecimento e, por conseqüên-
cia, modificou os tipos de disciplinas e relações de poder que bali-
zam a convivência cotidiana nas cidades.
O habitante das cidades torna-se, ao longo desse processo, um
homem urbano, sujeito que vive em meio aos pequenos aparatos
disciplinares que se proliferaram como formas de controle social. O
sujeito moderno seria conseqüência, desse modo, dos embates en-
tre, de um lado, estes movimentos que almejaram utilizar e desen-
volver técnicas que pudessem organizar a sociedade de uma forma
ampla e eficaz, e, de outro lado, dos conflitos sociais que surgiram
como oposição a esse processo5.
O que lemos nas palavras de Baudelaire é, nesse sentido, índice
dos tipos de sensibilidades que se formavam. As cidades, espaços que
abrigavam construções cujo propósito, nos tempos pré-modernos, era
garantir a segurança dos seus habitantes, tornaram-se sinônimos de
insegurança na modernidade. A cidade das multidões, que é o habi-
tat de Baudelaire, é o espaço em que desconhecidos convivem e que,
conseqüentemente, a alteridade torna-se fonte inesgotável de angústia,
medo e agressividade latente. Os aparatos de controle social surgem no
mesmo contexto em que a cidade, agora urbanizada, deixa de ter uma
estreita relação com o sentimento de segurança que as edificou.

5. Faço referência, aqui, à idéia de modernidade como crise desenvolvida em Império (Negri
& Hardt, 2001).

50
De um lugar relativamente seguro, a cidade vem sendo associada,
sobretudo nos últimos cem anos, mais com o perigo que com a
segurança. Hoje em dia, trocando sua função histórica da forma
mais curiosa, apesar de suas intenções e expectativas originárias,
nossas cidades estão passando rapidamente de ser um refúgio
contra os perigos para ser a causa principal destes perigos (Bau-
man, 2006:49) [tradução livre].

Com essa mudança nos modos de sociabilidade, que afeta


não só a geografia, mas todo o imaginário da cidade, a figura
do mensageiro que vem de fora para trazer notícias que paira-
vam nas cercanias é modificada radicalmente. Os perigos – fon-
te inesgotável do ato de contar histórias – estavam dentro da
própria ordem urbana. Surgia, deste modo, uma circulação de
mensagens muito mais intensa, marcada pelos acontecimentos
do cotidiano. Nessas circunstâncias, era (e ainda podemos dizer
que é) através da imprensa que o homem “civilizado” tomava
conhecimento dos acontecimentos da cidade.
Os jornais, quando inseridos no paradigma da imprensa de
massa, tornaram-se suportes para narrar a vida diária, um espaço
discursivo que elegeu o cotidiano como objeto de representação.
As multidões são, neste momento, colocadas em cena através de
narrativas pautadas pelas surpresas e imprevisibilidades a que es-
tamos sujeitos na vida urbana moderna. Os faits divers6 são essas
histórias que fogem ao cotidiano, pois têm um caráter fantástico,
improvável, sendo narradas como curiosidades pescadas diante da
previsibilidade do dia-a-dia urbano.

6. Utilizo, aqui, a conceituação formulada por Roland Barthes: “O fait divers [...] é uma in-
formação total, ou mais exatamente, imanente; ele contém em si todo seu saber: não é pre-
ciso conhecer nada do mundo para consumir um fait divers; ele não remete formalmente a
nada além dele próprio; evidentemente, seu conteúdo não é estranho ao mundo: desastres,
assassínios, raptos, agressões, acidentes, roubos, esquisitices, tudo isso remete ao homem, a
sua história, a sua alienação, a seus fantasmas, a seus sonhos, a seus medos. [...] No nível da
leitura, tudo é dado num fait divers; suas circunstâncias, suas causas, seu passado, seu desen-
lace; sem duração e sem contexto, ele constitui um ser imediato, total, que não remete, pelo
menos formalmente, a nada de implícito; é nisso que ele se aparenta com a novela e o conto,
e não mais com o romance. É sua imanência que define o fait divers. [Em nota de rodapé, Barthes
complementa]: Certos fait divers se desenvolvem por vários dias: isso não rompe sua imanência
constitutiva, pois eles implicam sempre uma memória extremamente curta” (1970:59).

51
Esses relatos do cotidiano, que um dia já foram diários, como
na época em que Baudelaire os lia, tornaram-se instantâneos no
mundo contemporâneo7. Narrar o instante tornou-se um imperati-
vo muito disseminado na malha tecnológico-informacional, trans-
nacional e incomensurável, que dá suporte aos meios de comuni-
cação na contemporaneidade. Em “tempo real” imagens e sons são
veiculados em grande parte do mundo a respeito de qualquer acon-
tecimento local de grande apelo mundial. Mas, mesmo diante de tal
aceleração dos processos comunicacionais e do crescente encurta-
mento da relação espaço-temporal que vivemos, através das novas
tecnologias, não podemos afirmar que a busca pela fixação do ins-
tante seja uma característica exclusiva dos agenciamentos atuais.
O instante é, propriamente, um complexo problema trazido
pela modernidade e seus pensadores. O projeto de resgatar a ex-
periência sensorial em meio a uma hegemonia dos pensamentos
racionalistas e positivistas encontra-se presente na obra de pensa-
dores como Walter Benjamin, Friedrich Nietzsche, Georg Simmel
e Martin Heidegger. O surgimento das grandes aglomerações ur-
banas na segunda metade do século XIX, com as suas sensações
fugazes e distrações efêmeras, além das descontinuidades e da
fragmentação resultante das acelerações de um momento auge da
industrialização, principalmente nos países europeus ocidentais,
estão entre alguns dos muitos aspectos que proporcionaram novas
formas de experimentação do tempo. O instante, naquele momen-
to histórico, já tornara-se um conceito a ser formulado e vivido: a
intensa e tangível sensação fortemente experimentada era algo que
ainda não havia sido elaborado nesse novo contexto.
Simmel em seu célebre ensaio “A metrópole e a vida mental”
já atentara para algumas das modificações que emergiam no seu
tempo relacionadas à vida urbana.

7. Um dos acontecimentos que foram citados do portal do jornal O Globo, que menciono logo
no início deste capítulo, ainda está em processo neste momento, ou seja, quase não se pode medir
a velocidade de transmissão dos relatos entre o momento em que ocorrem e o momento em que
lemos algo sobre o que se passou.

52
A base psicológica do tipo metropolitano de individualidade con-
siste na intensificação dos estímulos nervosos, que resulta da alte-
ração brusca e ininterrupta entre estímulos exteriores e interiores. O
homem é uma criatura que procede a diferenciações. Sua mente é
estimulada pela diferença entre a impressão de um dado momen-
to e a que a precedeu. Impressões duradouras, impressões que di-
ferem apenas ligeiramente uma da outra, impressões que assumem
um curso regular e habitual e exibem contrastes regulares e habituais
– todas essas formas de impressão gastam, por assim dizer, menos
consciência do que a rápida convergência de imagens em mudança,
a descontinuidade aguda contida na apreensão com uma única vista
de olhos e o inesperado de impressões súbitas. Tais são as condições
psicológicas que a metrópole cria (1987:12).

Tendo como viés de análise as conseqüências da vida urbana


na psique dos indivíduos, Simmel constata uma intensificação dos
estímulos nervosos na cidade moderna colocando como questão
central o tempo, através da ênfase na duração das impressões. “Gas-
tar mais consciência” é um dos resultados da rapidez com que as
imagens vão se sucedendo e estimulando as sensibilidades dos ha-
bitantes das metrópoles. Essa rápida diferenciação constatada por
Simmel é, em certo sentido, a busca por uma definição da menor
divisão do tempo possível: o instante.
O instante, então, como unidade mínima do tempo, só poderia
ser experimentado em meio a uma sensação forte, pois esta comu-
nicaria presença imediata em contraste com uma drástica diminui-
ção de intensidade que vem em seguida (Charney, 2001:386). Nesse
sentido, a experiência do choque, como designou Walter Benjamin
(2000), é incompatível com a cognição, pois antes de reconhecer-
mos tal choque/instante, o sentimos. Sendo assim, somente as sen-
sações conseguem capturar o instante sincronicamente. O presente,
como síntese do instante, só pode ser reconhecido depois de ter se
tornado passado.
De modo amplo, o surgimento dessa temporalidade relaciona-
da aos novos estímulos que a metrópole passa a proporcionar traz,
também, inquietações teóricas sobre as formas de apreensão da re-
alidade nessa nova era. Nesse sentido, W. Benjamin, S. Kracauer e
G. Simmel confluem ao afirmarem que a modernidade também de-
veria ser entendida como um registro fundamentalmente distinto

53
da experiência subjetiva, caracterizado pelos choques físicos e per-
ceptivos do ambiente urbano. Eles enfatizam, em suas respectivas
obras, os modos pelos quais as mudanças tecnológicas transforma-
ram a estrutura da experiência, e como a mudança da concepção de
tempo seria uma das características mais evidentes desse processo.
Assim, diante dessa constatação, tendo ainda como contex-
to geral as três conceituações de modernidade propostas por Ben
Singer (2001:115), podemos perceber uma mudança substancial
na relação do homem com o tempo – principalmente nos aspec-
tos cognitivo e socioeconômico –, tendo como pano de fundo a
cidade urbanizada. Esta, por sua vez, se tornou, pouco a pouco, o
palco principal dos perigos do acaso. O tempo industrial-urbano
que passou a predominar era marcado pela maior possibilidade de
controle, pela cronologia e pela alta produtividade. O acaso repre-
sentaria, neste contexto, justamente o que fugiria à ordem e ao pla-
nejamento e, portanto, era tido como o desconhecido, aquilo que,
em última instância, causava medo.
A imprensa, como historiografia do cotidiano, narra esse
novo tempo da cidade, através da busca pela produção de ima-
gens do instante.

Jornais sensacionalistas tinham uma predileção particular por


imagens de “instantâneos” de mortes de pedestres. Essa fixação
ressaltava a idéia de uma esfera pública radicalmente alterada,
definida pelo acaso, pelo perigo e por impressões chocantes mais
do que por qualquer concepção tradicional de segurança, conti-
nuidade e destino autocontrolado. A morte não natural, desne-
cessário dizer, também havia sido uma fonte de medo nos tempos
pré-modernos (em particular com relação a desastres epidêmicos
e naturais e a falta de alimentos), mas a violência, o caráter repen-
tino e aleatório (e, em certo sentido, a publicidade humilhante) da
morte acidental na metrópole parecem ter intensificado e focali-
zado esse medo (Singer, 2001:127).

Notamos, pelas palavras de Singer, que há uma estreita


relação entre tempo e segurança no auge da modernidade. Os
medos que outrora vinham da natureza, principalmente como
catástrofes, passaram a habitar o imaginário cotidiano das ci-

54
dades. A morte violenta, no contexto de uma vida urbana em
que a velocidade dos estímulos é vertiginosa, tornou-se fonte
inesgotável de insegurança.
Não obstante, se eram sociedades de multidões, como se
produzia o imaginário urbano do medo? Não podemos deixar
de assinalar a importante contribuição da imprensa para a cons-
tituição de tal imaginário. Os periódicos diários já circulavam
em grande escala e “caminhavam” de um lado a outro da cida-
de, disputando espaço com as conversas informais do dia-a-dia.
Acompanhar as notícias do cotidiano, como Baudelaire o fazia,
era estar em constante contato com narrativas da denominada
violência urbana das cidades européias.
Se continuarmos nessa perspectiva histórica, veremos que as
narrativas sobre a violência do cotidiano estiveram muito presentes
nos diários dos primórdios da imprensa e, até mesmo, nos gêne-
ros cotidianos da produção literária de meados do século XIX, na
França. As narrativas voltadas para o dia-a-dia surgiram como des-
dobramentos das modificações que o cânone literário da época, o
realismo, sofria em função das temáticas abordadas. Eram narrati-
vas que incorporavam elementos da vida diária e que privilegiavam
o tempo presente como forma de representar o instante. Grande
parte dessa virada temática e formal deveu-se às constantes buscas
de pensadores da época por definir o que seria esta menor unidade
do tempo. A fugacidade do presente havia se tornado, assim, uma
problemática em um contexto de mudanças aceleradas, de cresci-
mento das cidades e do surgimento das multidões.
Esses relatos híbridos, que já prenunciavam a imprensa de mas-
sa, foram caracterizados pelo pensador Walter Benjamin através
do termo literatura panorâmica8. A principal característica destas
narrativas era a mudança de foco temporal. Se na tradição

8. “Uma vez na feira, o escritor olhava a sua volta como em um panorama. Um gênero li-
terário específico faz suas primeiras tentativas de se orientar. É uma literatura panorâmica”.
Em nota, o tradutor define panorama: “Grande tela circular e contínua, pintada de maneira
enganosa sobre as paredes de uma rotunda iluminada por cima e que representa uma paisa-
gem” (Benjamin, 2000:33).

55
narrativa até o século XIX o tempo privilegiado era o passado, com
o narrador contando alguma história de outro tempo, na literatura
panorâmica o tempo privilegiado passa a ser o presente. Os gêne-
ros cotidianos surgiam, então, como conseqüência das narrativas
que tentavam representar a experiência do dia-a-dia. São relatos em
que a pretensão estética fica em segundo plano, importando mais a
observação da cidade, das pessoas e de tudo aquilo que de surpre-
endente poderia acontecer no cotidiano das metrópoles.
A busca pela fixação do instante era o motor de propulsão de
tal movimento de produção literária que emergia no auge da mo-
dernidade. A problemática da caracterização e conceituação do
instante tornara-se ampla e complexa entre os intelectuais, artistas
e escritores da época, sendo Charles Baudelaire uma das testemu-
nhas – para nós, referência – de tais mudanças.

Segundo os teóricos do cotidiano, podemos compreender os traços dis-


tintivos do gênero panorâmico como aqueles que trazem ao plano da
representação características distintivas da vida diária moderna. A des-
continuidade utilizada no texto panorâmico captura as descontinuida-
des existentes na percepção pelos sentidos, caracterizando a metrópole
urbana e os processos de produção industrial, que receberam de Benja-
min a famosa denominação de choques da vida moderna. Sua brevidade
traz à representação o modo como a lógica do capital penetra os interstí-
cios do cotidiano. Se a produção da mais-valia é a principal força motriz
do capitalismo, os processos econômicos capitalistas são caracterizados
pela construção da temporalidade como transformação – mais especifi-
camente, como expansão e inovação. Nos domínios da vida cotidiana,
esses processos assumem a forma de práticas do efêmero, e que o povo
é valorizado por um breve momento e, logo em seguida, descartado:
anúncios, moda, jornais (Cohen, 2001:331).

No movimento de surgimento e afirmação desta literatura pa-


norâmica, os leitores já se deparavam com os relatos dos aconteci-
mentos que transgrediam a ordem vigente no espaço urbano. As
narrativas que se pautavam na violência – nos perigos da cidade –,
e que estavam muito presente nos jornais da época, eram suportes
para a instituição imaginária do medo. Uma espécie de polisfobia –
ou seja, um medo da cidade – se desenvolvia em relação direta com
as sensações de perigo e de velocidade vertiginosa do cotidiano.

56
1.2 Do primeiro ao último minuto

A visão do alto de um arranha-céu

“O que se segue acontece entre meia-noite e uma da manhã.


[...] Os eventos ocorrem em tempo real9” [tradução livre]. Esta é
a frase, inserida em uma cartela, apresentada ao telespectador no
primeiro episódio da primeira temporada da série 24 horas, produ-
zida nos Estados Unidos pela empresa Fox. Trata-se de uma série
televisiva de amplo sucesso, que teve início em novembro de 2001,
dois meses após os atentados contra aquele país. No ano de 2007, a
série 24 horas já estava em sua sétima temporada, sendo exibida em
mais de cinqüenta países em todo o mundo10.
Logo em seguida à cartela inicial, o espectador vê uma imagem
aérea de dois arranha-céus – duas torres idênticas11, construídas
uma ao lado da outra. Como legenda, identificamos que se trata
da cidade de Kuala Lumpur (Malásia) e que a luz do sol é índice
do crepúsculo, pois na tela há um relógio em formato digital que
indica 4:00:01 pm. Este relógio não está inerte: os segundos vão
sendo contabilizados, e em determinados momentos da narrativa,
o relógio é novamente exibido, em andamento, sempre com a in-
tenção de guiar o espectador pelos diferentes espaços e situações
que rapidamente são mostrados.
Ao tentar se atrelar ao tempo real, a imagem quer convencer o
espectador de que o tempo diegético e o tempo não-diegético são
equivalentes, ou seja, a temporalidade da narrativa é a mesma do

9. “The following takes place between midnight and 1 a.m. [...] Events occur in real time”.

10. Cada temporada da série mostra os eventos de um período de vinte e quatro horas na
vida do agente Jack Bauer, onde ele, como membro da CTU (Counter Terrorist Unit, ou
Unidade Contra Terrorista) ou assistido por ela, deve evitar algum atentado terrorista, além
de proteger, lícita ou ilicitamente, os integrantes do alto escalão do governo norte-americano.
A série igualmente enfatiza as atividades dos agentes do CTU, as ações dos terroristas e as
reações do governo federal.

11. Trata-se das torres gêmeas Petronas Towers, cartão postal de Kuala Lumpur.

57
espectador. Por essa perspectiva, a cartela inicial que explica a du-
ração precisa dos eventos que irão ser apresentados coincide com
a duração de cada episódio, que tem exatos sessenta minutos, in-
cluindo os intervalos comerciais. A todo momento um relógio guia
o espectador mostrando que o tempo diegético continua corres-
pondendo ao não-diegético e que se trata de um tempo linear e
contável, i. e., racionalizado.
A imagem das torres passa, então, a dividir a tela da televisão
com imagens de um mercado popular da cidade. Por alguns segun-
dos, o que vemos são as duas imagens interagindo: uma imagem
panorâmica e uma imagem rente ao chão, com pessoas caminhan-
do e comprando frutas, legumes e verduras. Em vários momentos
da narrativa da série, a tela é dividida para mostrar a mesma ação,
ou ações diferentes que ocorrem ao mesmo tempo em espaços di-
ferentes. Quando na mesma cena o foco é dividido, uma imagem
trabalha com um plano geral da ação e a outra exibe um plano fe-
chado de algum detalhe da cena.
Temos, em seguida, um corte brusco que sai do espaço cênico
de Kuala Lumpur e vai para Los Angeles, com uma legenda iden-
tificando a cidade e o horário (em Los Angeles são 00:02:11 am).
Além de produzir um “tempo real” vinculado ao espaço, a narrativa
tenta trabalhar com a idéia de simultaneidade em espaços distintos
fazendo uso da diferença entre o fuso horário de Los Angeles e o
de Kuala Lumpur. Novamente uma imagem aérea é o que identifica
a cidade ao telespectador. Um helicóptero cruza o enquadramento
da tela. Ao fundo, vemos um emaranhado de luzes que formam um
mapa difuso da cidade americana. É a mesma perspectiva que terí-
amos se estivéssemos no último andar de um arranha-céu.
As cenas dos episódios da série vão se sucedendo sempre com
a preocupação de uma clara continuidade temporal. O espectador
passeia por espaços diferentes tendo como base uma linearidade
temporal, uma cronologia. Há uma forte distinção da ordem da
ocorrência dos fatos utilizando uma formatação narrativa que, an-
tecipadamente, oferece ao telespectador as regras daquilo que será
exibido. Assim, a técnica de narração através da montagem para-
lela, vinda da literatura e colocada em prática no cinema por D.

58
W. Griffith (Eisenstein, 1990), é utilizada de forma exacerbada –
chegando até a uma espécie de maneirismo – nesta referida série
televisiva. As ações vão sendo encadeadas com a extrema precisão
temporal guiando o telespectador.
As duas visões aéreas que apresentam as duas cidades ao es-
pectador podem nos levar à arguta análise que Certeau (1994) em-
preende ao se indagar sobre a vontade de totalizar a cidade por uma
vista panorâmica. Certeau, ao descrever a visão do alto das, hoje
não mais existentes, torres do World Trade Center, se pergunta:
qual seria o desejo de saber que está por trás dessa tentativa de ler a
cidade não pelas práticas, pela vivência, mas pelo olhar totalizante?
É esse olhar que lê de cima, que adora mapas e que não consegue
diferenciar a multidão lá embaixo. A questão seguinte é: “qual é a
fonte desse prazer de ‘ver o todo’, de continuar olhando, de totalizar
o mais imoderado dos textos humanos?” (Certeau, 1994:21). Do
alto do prédio, o leitor se torna um voyeur, pois se coloca à distância.

[Ele] transforma o mundo encantatório pelo qual ele foi “possuído”


num texto diante de seus olhos. E lhe permite lê-lo, ser um Olho so-
lar, olhando para baixo como um deus. [...] A ficção do conhecimen-
to está relacionada com essa luxúria de ser um ponto de vista e nada
mais (Idem, Ibidem).

Constatada essa vontade de tornar a cidade legível por


uma ficção panorâmica, Certeau diz que tal desejo “precedeu
os meios de satisfazê-lo”. Ele dá o exemplo de pintores na Idade
Média e no Renascimento que representavam a cidade através
de uma “perspectiva que olho nenhum havia ainda apreciado”
(Idem, Ibidem). Isto é, uma tentativa de dar ao espectador um
olhar divino, totalizante, onipresente.
O historiador francês se pergunta se, diante dos processos
técnicos que acabaram organizando um poder panóptico (que tudo
vê) – seguindo o pensamento de Foucault (2006) –, as coisas muda-
ram? Para ele, o olhar totalizador daquela época continua presente
nas realizações contemporâneas. “A torre de 1370 pés de altura que
serve de proa para Manhattan continua a construir a ficção que cria

59
leitores, torna a complexidade da cidade legível e imobiliza sua mo-
bilidade opaca num texto transparente” (Certeau, 1994:22).
Ao procurar trabalhar com a concretude do cotidiano, o
autor afirma que este foge completamente às imagens-panorâmi-
cas. “Fugindo às totalizações imaginárias produzidas pelo olhar, o
cotidiano tem uma certa estranheza que não vem à tona, ou cuja
superfície é apenas o limite superior, que se delineia contra o visí-
vel” (Certeau, 1994:23). Assim, a idéia de um cotidiano como ob-
jeto representável demanda, nesta perspectiva, uma redefinição da
distância a que se coloca o narrador em relação à cidade. As formas
de enunciação são índices desse modo de analisar e de se distanciar.
O narrador e, conseqüentemente, o espectador da série 24
horas são onipresentes. Passeiam por distintos lugares e acabam por
produzir uma narrativa que dialoga menos com as caminhadas, e
mais com a visão do alto de um prédio. Há um olho-solar que quer
ler a cidade do alto, colocando-a sob perspectiva, enquadrando-a.

Saltando pela cidade

Um homem ensangüentado sentado no chão de uma calçada,


ao lado de uma ambulância do Corpo de Bombeiros; três sombras
refletidas no chão e em um muro, ao fundo, policiais e viaturas em
uma rua à noite; fachada de uma delegacia, à noite, com as por-
tas fechadas e uma viatura policial em frente à entrada; infográfico
com estatísticas de violência registradas no dia 15 de julho de 2006
ressaltando que a média diária é o dobro do que o que foi contabili-
zado neste dia; corpo à beira de uma estrada com manchas de san-
gue, à noite, e faróis de um carro que trafega na pista; um velório;
um cachorro na entrada de uma delegacia.
Todas essas imagens são descrições de elementos contidos em
fotografias que compõem uma mesma rubrica. Aproveitando o am-
plo sucesso da série de televisão e do deslizamento entre diversas
mídias12, o jornal O Globo publicou ao longo de sete dias uma série
de reportagens que tinham como rubrica o mesmo nome da série
televisiva de que tratamos. Veiculada em televisão aberta, no Brasil,

60
pela Rede Globo, a série ganhou uma adaptação jornalística que
visou tratar de um tipo de violência que, normalmente, a imprensa
não tem interesse em narrar.
“A violência que não sai no jornal”. Assim era caracterizada,
pelos editores, as reportagens que foram publicadas entre os dias 23
e 30 de julho de 2006, sob a rubrica “24 horas”. Em uma inusitada
estratégia, estes jornalistas procuraram narrar a cidade carioca pelo
viés das ausências que os seus próprios textos cotidianamente pro-
duzem. Ao longo das vinte e quatro horas do dia quinze de julho,
uma equipe de onze repórteres e quatro repórteres-fotográficos foi
mobilizada para cobrir os acontecimentos violentos que, normal-
mente, não seriam noticiados. Divididos em dois turnos, espalha-
ram-se pela cidade visitando hospitais, delegacias e locais de crime
em busca de relatos de vítimas da violência e de suspeitos.
No editorial que antecedeu à publicação da série de reporta-
gens, há algumas explicações sobre os modos de fazer empregados
pela equipe. No dia vinte e dois de julho de 2006, a coluna “Por den-
tro do GLOBO”, que narra os bastidores das grandes reportagens
que serão publicadas no jornal e, também, de outras atividades que
ocorrem na redação do periódico, trazia a chamada para a série “24
horas”, que seria publicada a partir do dia seguinte. “No último sá-
bado, dia 15 de julho, 11 repórteres e quatro repórteres-fotográficos
percorreram cerca de 2.500 quilômetros de norte a sul da cidade
durante 24 horas para mostrar a violência como ela é”. Trata-se de
uma frase definidora de alguns aspectos que estão presentes nas
narrativas da série.
O primeiro ponto a que podemos nos ater está relacionado à
ênfase na questão das dimensões espaciais e temporais que guia-
ram os passos de uma grande equipe de reportagem. As expressões
“norte a sul” e “24 horas” são utilizadas com uma conotação de

12. A série 24 horas alcançou um enorme sucesso comercial, gerando produtos derivados
tais como um disco com a trilha sonora, jogos para videogame e para telefone celular, DVDs
com todos os episódios das temporadas que já foram exibidas, bonecos dos personagens da
série, histórias em quadrinhos, livros diversos, revista oficial, sites na Internet, camisetas, bo-
nés, jaquetas, relógios, mousepads, canecas, copos, chaveiros, fotos exclusivas, bolsa e óculos
usados por Jack Bauer. Tudo é vendido no site oficial da série.

61
completude e totalização. Argumenta-se, então, que o leitor terá
em mãos, ou melhor, ao alcance dos olhos, uma reportagem que
assume uma posição privilegiada, uma testemunha macro que
consegue abarcar toda a violência de um dia. O olhar panorâmico,
como aquele do alto de um arranha-céu, é a aspiração de uma série
descontínua de narrativas. A cidade é lida de forma fragmentada e,
então, costurada e reconstruída de uma forma totalizante através
das narrativas das violências e dos crimes que ocorreram ao longo
de um período estritamente determinado.
O segundo ponto que podemos aferir em relação a esse texto
inicial de O Globo, que citamos acima, é a definição de uma reali-
dade – talvez numa tentativa de enfatizar um caráter mais realista
da violência do que o normalmente oferecido pelas páginas da edi-
toria de cidade. “A violência como ela é” é a promessa que o jornal
faz para o leitor: um pacto de leitura. Essa determinação do discur-
so jornalístico cria uma realidade e solapa as formas de enunciação
ao se colar ao real, confundindo narrativa com vivência13.
É imperativo que quebremos o elo sinedóquico que o texto de
apresentação da série constrói, entre parte e todo, que envolve a
questão espacial e temporal, mas também a questão enunciação/
realidade. Os relatos colhidos tornam-se a verdade da violência de
um dia na cidade do Rio de Janeiro, ou ainda de algo mais: pelo ato
de arbitrariedade na definição do dia da cobertura e, também, am-
parado pelos números estatísticos, a violência de uma dia torna-se
a violência de todo e qualquer dia.
O terceiro ponto de análise que podemos extrair da afirmação
selecionada do editorial é a especificidade de tal série de reporta-
gens e o quanto isso sai da rotina do que é veiculado usualmente.
Uma característica fundamental das editorias de cotidiano, ou seja,

13. Não podemos deixar de notar, no entanto, que “a violência como ela é” é uma alusão às
crônicas da coluna “A vida como ela é...” escritas por Nélson Rodrigues nos anos 1950. Essas
crônicas foram idealizadas por Samuel Wainer, dono do jornal Última Hora. Ele queria que
Nélson Rodrigues escrevesse uma coluna diária que tratasse de histórias reais, mas que hou-
vesse, na forma de abordagem, um tom ficcional. Curiosamente, o cronista só seguiu essa
regra nos primeiros dois dias. Depois, passou a escrever sem se basear em “fatos reais”. Cem
crônicas dessa série foram reunidas em Rodrigues, 2006.

62
a seção do jornal que publica notícias variadas sobre fatos ocorri-
dos na cidade, é a temporalidade: os fatos relatados, majoritaria-
mente, ocorreram no dia anterior. Nesse sentido, a série “24 horas”
é algo inusitado no modus operandi das apurações de um periódico
diário. O valor da reportagem não está nos fatos e, muito menos,
em quando eles ocorreram, mas, sim, na estratégia de enunciação
proposta pelo jornal.
A série, que foi planejada e mobilizou um número inabitual
de repórteres, de certa forma descaracteriza a veiculação diária,
pois não se atém à atualidade da véspera. Altera-se o critério de
valoração da notícia, enfatizando a narrativa serial descontínua
que se fixa em um dia. A tentativa de totalização espaço-tempo-
ral ganha maiores dimensões do que o caráter inédito de um fato
ocorrido no dia anterior.
Ainda no editorial, um panorama do conteúdo das reporta-
gens e a forma como foi feita a apuração são anunciados antecipa-
damente. Este, por si só, já é um procedimento diferente do usual
nas reportagens sobre violência. O leitor, nesse caso específico, é
introduzido a um universo com o qual não está acostumado a lidar
na leitura diária, mas que, na perspectiva de O Globo, faz parte da
vida do carioca. Ao mudar as regras que definem o que deve ser
noticiado, muda-se, também, a forma como essas notícias devem
ser apresentadas.

Da redação, dois repórteres monitoraram o trabalho da polícia e dos


bombeiros por telefone e orientaram os colegas nas ruas. Na ma-
drugada, pelas ruas desertas, os repórteres perceberam o medo que
ronda moradores e até a polícia. Delegacias fechadas e outras com a
vigilância de cachorros. Patrulhas da Polícia Militar circulando total-
mente apagadas. Na Zona Sul, brigas em casas noturnas e furtos na
área boêmia do Centro do Rio. A equipe acompanhou, entre outros,
o drama dos pais que perderam o filho inocente numa guerra do trá-
fico em Santa Cruz e da mulher espancada pelo marido diante da
filha de 13 anos (O Globo, 22/07/06, p.2).

O detalhamento do esforço que os jornalistas empreenderam


para cobrir as vinte e quatro horas de uma noite e um dia tem algu-

63
ma relevância para a nossa análise. Desde o início, neste editorial,
há uma delimitação de lugares para os conteúdos do jornal. Desta-
ca-se determinadas narrativas através de uma série que é composta
por diagramação, redação e cobertura distintas das usuais. É uma
espécie de experimentação na forma de abordar a violência urbana,
tendo como suporte uma forma de enunciar, na televisão, de gran-
de eficácia e de amplo sucesso. Colocando-se em um entre-lugar,
como acontece, por vezes, na relação literatura-jornalismo, a série
abre espaço para um diálogo entre televisão e imprensa.
Ao nos remetermos aos acontecimentos violentos que foram
mencionados no início deste capítulo, veiculados no portal do mes-
mo jornal na Internet, em contraponto com os jornais diários, temos,
ao menos, uma constatação: os acontecimentos do dia anterior já não
são mais notícias “de primeira mão”. Coloca-se em questão, muito em
parte pela Internet e pela televisão, o caráter de atualidade dos eventos
da véspera. Um portal jornalístico, como é o caso de O Globo online14,
trabalha com a periodicidade do instante, enquanto o diário impresso
trabalha com a perspectiva panorâmica do dia anterior.
Sendo assim. qual seria a distância apropriada para narrar a
cidade? No caso do jornalismo, que está ligado ao cotidiano e ao
primeiro impacto dos fatos, que distanciamento é possível? Uma
característica da série “24 horas” é que, dentro dos parâmetros do
jornalismo periódico que lida com os fatos da cidade e do cotidia-
no, o distanciamento de uma semana da apuração para a publica-
ção tem alguma relevância.
Se pressupormos que os fatos cotidianos só interessam para o
dia seguinte ou, talvez, para dois dias depois, chegamos a um im-
passe, pois o retrato da violência de um dia não interessa mais como
fato, mas como forma narrativa e como argumento retórico que vai
em direção à insuflação do imaginário social do medo. É impor-
tante salientar que a reportagem dá muito mais peso à sua própria
forma de enunciar que propriamente aos fatos ocorridos. É uma
tentativa de redimensionar os parâmetros de leitura do cotidiano

14. www.oglobo.com.br

64
que coloca mais à mostra, ou ao menos se pretende que seja dessa
forma, os mecanismos de construção do cotidiano que diariamente
estão presentes nas narrativas dos periódicos.
Dar ordem à cidade, através do olhar sincrônico, temporal-
cronológico, é tentar ser totalizante. É o total que é suposto através
de amostras. São amostras em dois níveis e, com isso, uma dupla
metonímia: os repórteres não conseguem cobrir todos os crimes
registrados naquelas vinte e quatro horas (há ainda os crimes não
registrados) e, além disso, a narrativa a todo momento enfatiza o
caráter repetitivo e cíclico da violência, pois se baseia, para tal leitu-
ra da cidade, nas estatísticas. Os próprios títulos já denunciam tais
propostas: “A violência de um dia qualquer” (O Globo, 23/07/06,
p.20), “A violência como ela é” (O Globo, 24/07/06, p.9).
Dessa diferenciada abordagem, podemos concluir que, hoje,
as ferramentas de sedução de um diário para atrair leitores sofre-
ram algumas mudanças. Propostas como a série de reportagens
“24 horas” são índices de uma tentativa de atrair leitores através
de uma construção mais sedutora, mas são ainda pautadas nas re-
gras daquilo que ficou consolidado como o “discurso jornalístico
moderno”, trazido ao Brasil na década de 1950 por jornalistas que
estiveram nos Estados Unidos15.
Ainda no editorial de apresentação da série, torna-se evidente
a vontade de verdade de que nos fala Foucault (2005). “Divididos
em dois turnos, passaram por emergências de hospitais, locais de
crime e 38 delegacias, ouvindo os relatos de vítimas, policiais e até
suspeitos”. Fica explícita, nessa frase, a metodologia utilizada pela

15. “O jornal avançou muito, entre nós, particularmente desde o início da segunda metade
do século XX. O jornalismo norte-americano criou, por exemplo, o lead, cujos princípios
se fundaram na regra dos cinco W e um H; qualquer foca americano sabe que toda notícia
deve conter, obrigatoriamente, os seguintes elementos: who, quem; what, que; when, quando;
where, onde; why, por que; e how, como. Qualquer jornalista sabe, por outro lado, estabelecer
a distinção entre o que é notícia e o que não interessa, dentro daquela malícia de Charles
Dana que, para ensinar a alguém, essa diferença elementar, contou: se um homem vai andan-
do pela rua e um cão o morde, isso não é notícia, a não ser que esse homem tenha projeção
política, social, financeira, notoriedade por qualquer motivo; mas se um homem morde um
cão, isso é notícia” (Sodré, 1999:394).

65
equipe de reportagem. Não se trata, portanto, da experiência da
violência, mas dos relatos das vítimas que sofreram alguma violên-
cia ao longo do tempo determinado pela cobertura jornalística.
Inferimos, também, que a geografia percorrida “de norte a
sul da cidade” não é exatamente a de um caminhante percorrendo
ruas, mas, sim, percorrendo as instituições do Estado que adminis-
tram as conseqüências da violência urbana. Sendo assim, é a partir
de dados oficiais que o jornal se compromete a narrar a violência
cotidiana. O que está em pauta – como costumeiramente está – é a
violência que ocorre no espaço público e não a violência doméstica.
Assim, o que é chamado de violência urbana tem íntima relação
com o conceito de conflito e com o que se dá nesse espaço da rua
que, sendo ou não democrático, é de onde o jornal retira as notícias.

O objetivo da reportagem, uma série que começa a ser publicada


amanhã, é mostrar o varejo da violência, os casos que em geral não
são noticiados, mas que afetam os cidadãos, causam dor e prejuízo e
contribuem para aumentar a sensação de insegurança do carioca (O
Globo, 22/07/06, p. 2).

O que seria “o varejo da violência”? Um assunto trivial, de pe-


quena importância? Na perspectiva apresentada pelo texto selecio-
nado, parece ser essa a proposta: dar visibilidade a acontecimentos
violentos que, por não conterem um grau de notoriedade, acabam
não sendo noticiados. Contudo, a palavra varejo também pode sig-
nificar outra coisa. No dicionário Houaiss (2001), temos, também, a
definição de que varejo é o ato de realizar vistoria, busca, inspeção.
Este outro significado talvez explique com mais clareza os procedi-
mentos dos repórteres que produziram a série do que propriamente
a classificação de uma violência trivial.
“Mostrar o varejo da violência” tem, também, o sentido sub-
reptício de vistoriar as instituições do Estado que recebem vítimas
ou perpetradores de atos criminosos. Parece, então, que o olhar
jornalístico tem uma prancheta à sua frente com itens a conferir.
Pautados por dados estatísticos, eles inspecionam essas instituições

66
em busca de exemplos para o seu modelo de análise. Eles descem
do alto do prédio para provarem as certezas que avistaram lá de
cima, no último andar.
Começamos a perceber, então, que ao demonstrar as estraté-
gias de narração utilizadas, os jornalistas acabam por definir que
tipo de violência lhes interessa no cotidiano usual. A fala do crime
que está presente diariamente nos jornais tem íntima relação com
os crimes violentos ou de grandes proporções. Mas, além desses, há
outros crimes que “contribuem para aumentar a sensação de inse-
gurança do carioca”. O que o jornal pretende é potencializar a fala
da rua, o chamado boca-a-boca, disseminando, também, a sensa-
ção de insegurança.
Há uma estreita relação entre medo e sensação de segurança
no imaginário social. A imprensa diária, em geral, cresceu e se con-
solidou tendo como base a projeção dos medos, através da narra-
tiva, nos meios sociais onde atuam. A identificação de uma alteri-
dade social é tarefa permanente nas construções das notícias e essa
delimitação de posições é feita, em grande parte, hoje em dia, pela
forma de narrar a violência e definir personagens e estereótipos que
possam habitar um imaginário do medo. A violência urbana como
conflito é uma questão que envolve toda uma sociedade. Sem espec-
tadores, sem audiência, a violência continua a matar pessoas, mas não
tem o mesmo significado social (Schröder & Schmidt, 2001:5).

A relação entre imaginários e práticas é complicada, ainda mais, pelo


fato de que os imaginários estão inerentemente localizados no es-
paço social. As perspectivas de eventos violentos nunca podem ser
“neutras” ou objetivas. O triângulo fundamental da violência inclui
os perpetradores, as vítimas e os observadores, todos guiados por
suas interpretações fundamentais e suas prioridades. [...] À medida
que a escalada de conflitos ou novos confrontos são construídos por
cima de antigos antagonismos, vítimas podem se tornar perpetrado-
res e vice-versa, e observadores podem se tornar participantes (Idem,
Ibidem:12) [tradução livre].

Aí se encontra a importância do jornalismo como forma de


mediação dos conflitos sociais. Pela grande amplitude de alcance
e a conseqüente visibilidade, os meios de comunicação de massa,

67
aqui representado pela imprensa, agenciam representações sociais
que constituem a produção de significados. As linguagens da vio-
lência são, elas também, violência. O modo como a imprensa repre-
senta a violência não está separada da própria realidade desta. Os
significados que são extraídos das interpretações dos atos formam
um triângulo da violência que não deixa de fora o espectador. Este
é também um agente, talvez um dos mais importantes quando se
trata da questão do imaginário e de toda a significação política que
há nessas representações e nessas formas de narrar.

A visão panorâmica

Em “24 horas”, quais são os mecanismos que nos deixam ler a


cidade? Seria até certo ponto plausível se retomássemos a análise de
Michel de Certeau (1994). Do alto de uma das torres do World Tra-
de Center, que na época proporcionava leituras outras, e que hoje já
não permite nem física e nem simbolicamente o mesmo caminho
que o historiador francês trilhou, ele descreve o mar de concreto de
que é feita a ilha de Manhattan. Ele admira tal paisagem através de
sua própria escrita, mas em certo momento do texto começa a se
indagar: “Qual é a fonte desse prazer de ‘ver o todo’, de continuar
olhando, de totalizar o mais imoderado dos textos humanos?”
O que o autor coloca em discussão não só neste momen-
to, mas em todo o livro L’invention du quotidien (1990), é uma
problemática de cunho epistemológico, que está muito presente,
hoje em dia, no campo da História. No debate entre macro-his-
tória e micro-história, a pergunta se repete: com que distância se
deve olhar o objeto de estudo?
Ao olhar a cidade de Nova Iorque do alto do seu símbolo má-
ximo, Certeau está se indagando sobre tal questão epistemológica.
O cartaz enigmático que está no alto da torre reforça tal questio-
namento: “É difícil estar por baixo quando você está em cima16”
(1994:22). O autor, então, desenvolve o argumento de que o conhe-
cimento através das totalizações é uma ficção e que, na verdade,
essa visão “do alto” não consegue ler o que se passa nas calçadas, ou

68
seja, não consegue ler “as maneiras de fazer” do homem comum,
que transforma o lugar em espaço pelo simples fato de utilizá-lo de
uma maneira não planejada.
O olhar panorâmico é a própria produção da ficção para Certe-
au. Ele está interessado em ler o que está por baixo, o que é possível
ler ao andar pelas ruas, ao experimentar a cidade não só pela visão,
mas por todos os outros sentidos, abrindo novas possibilidades de
se “ler” as complexidades de uma cidade como Nova Iorque17.
Ao nos determos na análise da série de reportagens “24 horas”,
não podemos deixar de notar a vontade totalizante que acompanha
toda a narrativa, seja por meios gráficos ou escritos. É claro que não
se trata do olhar panorâmico que se tem do alto de um prédio de
110 andares. No caso, estamos focalizando narrativas jornalísticas
impressas veiculadas cotidianamente. Essas representações tornam
legível a cidade através de outros mecanismos que não a altura de
um gigante de aço e vidro. É um olhar panorâmico mais sutil, que
utiliza pequenos artifícios (textos e imagens, de variadas maneiras)
como forma de enunciação tomada pelo “prazer de ver o todo”, de
ser testemunha macro. Por esse viés, o que é enfático nesta série
é a questão temporal em seus vários aspectos: a sincronicidade, a
rapidez, a precisão do instante e a cronologia.
Nos dois primeiros dias de publicação, as reportagens narram
os acontecimentos do dia 15 de julho de 2006. Os outros cinco dias
que completam a série relatam os comentários de especialistas em
relação a alguns pontos: “banalização da violência”, “o drama das
vítimas da violência”, “o policiamento nas áreas onde ocorreram os
crimes”, “problemas com o 190 da PM” e as investigações dos cri-
mes que ocorreram no dia da cobertura da série.

16. A tradução literal não consegue capturar o sentido ambíguo que a expressão tem em
inglês. No original, a frase é: “it’s hard to be down when you’re up”. Que poder significar, em
tradução livre, “é difícil ficar triste quando se está em cima”.

17. Não é à toa que ele propõe tal perspectiva. Michel de Certeau é fruto de uma vertente
historiográfica conhecida como nouvelle histoire, que propunha uma revisão da escrita da
história, ou seja, a reformulação de uma epistemologia do campo historiográfico, optando
por um enfoque voltado para as questões da cultura, saindo um pouco do eixo do determi-
nismo econômico-político.

69
Adaptando o formato da série televisiva para o jornalismo im-
presso, O Globo opta por dividir as vinte e quatro horas em duas
edições: a primeira contempla de 00h até 12h e a edição seguinte
narra as violências de 12h até 00h. No seriado televisivo, porém,
cada episódio retrata uma hora de um dia, ou seja, ao todo, cada
temporada tem vinte e quatro episódios.
Os recursos visuais destacam a série das outras reportagens
da editoria Rio18. Há uma rubrica que acompanha todos as edições
e todas as páginas em que há reportagens relacionadas à temática
proposta. Esta rubrica é idêntica ao logotipo da série televisiva, que
é caracterizado pelo número 24 no formato de um relógio digital.
Nesse sentido, altera-se o projeto gráfico do jornal e cria-se um
novo padrão de diagramação.
A rubrica fica posicionada no alto da página, em cores, sem-
pre com uma citação abaixo, que destaca a fala de algum perso-
nagem que está presente em meio aos relatos. Essa, aliás, é uma
característica de todas as sete edições que formam a série: há
sempre uma ou duas citações que nos remetem ao conteúdo da
narrativa. São frases como: “Está tudo tranqüilo. Hoje não tem
nada para vocês [jornalistas]”, “Quando dei por mim, estava no
chão. Foi quando percebi que tinha sido assaltado”, “Felizmente
não aconteceu nada comigo, mas o carro não tem seguro”, “O
que mais me apavorou foi não conseguir abrir o vidro do carro.
Ainda bem que não atiraram”, “Eles arrancaram as crianças e a
adolescente do banco de trás pelos cabelos”.
Nas duas edições que relatam os fatos cronologicamente, há pe-
quenos retângulos na parte inferior da página, indicando, de forma
sucinta, a cronologia de todos os fatos que são relatados na narrativa
do texto corrido que ocupa boa parte da página. Na primeira edição
temos o relato das violências que ocorreram após a meia-noite.

18. Nome da editoria de cidade no jornal O Globo.

70
00:05
William Menezes dos Santos, de 25 anos, é baleado num confronto entre
bandidos e policiais militares no Morro da Cutia, no Andaraí. Ele chegou
morto ao hospital. Segundo a polícia, William fazia parte do grupo que
atirou contra uma equipe da PM num dos acessos à favela.

00:30
O auxiliar de conferência Júlio César Borges leva uma garrafada na cabe-
ça durante um assalto na Rua Carolina Machado, em Oswaldo Cruz. Ele
voltava do trabalho quando foi atacado por cinco menores. Socorrido por
um motorista de van, ficou no hospital até as 5:00 [grifo do jornal].

01:00
Traficantes matam com três tiros de fuzil o sargento da PM Wanderlei Jor-
ge da Silva, de 39 anos, na Vila Joaniza, na Ilha do Governador. O policial
foi levado pelos colegas no Caveirão para o Hospital da Força Aérea do
Galeão, mas não resistiu e morreu 40 minutos depois.

01:00
Morre no Hospital Pedro II, em Santa Cruz, Carlos Henrique Flávio, de 17
anos. Ele levou 13 tiros na Favela do Rola por volta das 22h30m, quando
saía da casa da namorada. O jovaem foi, provavelmente, confundido por
traficantes com um bandido rival.

01:40
Ao deixar uma casa de shows em Vila Valqueire, o universitário Carlos
Machado descobre que seu Corsa tinha sido furtado. Ele e namorada [sic]
foram de carona com policiais militares até a 41ª DP (Tanque), onde o
caso foi registrado. Foi o segundo carro de Carlos levado por bandidos.

01:45
Um cadáver é encontrado por policiais militares num matagal às margens
da Estrada de Jacarepaguá, perto de Rio das Pedras. Às 11h, o corpo ainda
não tinha sido recolhido pelo rabecão. Até sexta-feira, a vítima continuava
sem identificação no IML.

02:15
Policiais militares perseguem dois jovens num táxi na Estrada do Cam-
boatá, em Anchieta. Na fuga, o carro bate num poste e os dois são presos.
Eles tinham acabado de roubar o carro de um taxista em Nilópolis. O
dono do carro entrou em desespero ao ver o veículo batido.

04:30
Na volta para casa, um garçom de 29 anos é golpeado no rosto com um
copo por um bêbado dentro de uma van. Desesperado com os ferimentos,
a vítima atacou o agressor. Os dois desceram na Avenida Atlântica, no
Leme. Um policial separou a briga.

71
Ao longo das duas edições que cobrem as vinte e quatro ho-
ras, quarenta retângulos são utilizados para descrever os eventos,
separadamente, com ênfase na exatidão do instante, de forma cro-
nológica. Os fatos que usualmente estariam no corpo do texto estão
alocados em pequenos retângulos com o título e a hora em que
ocorreram. Além disso, o fato é narrado no tempo presente, ao in-
vés do costumeiro pretérito. O leitor parece acompanhar uma nar-
rativa que está ocorrendo naquele instante. Em alguns momentos,
como apontado acima, à 01h00, dois eventos ocorrem simultanea-
mente. A continuidade espacial de uma notícia, que normalmente
responde à pergunta “onde ocorreu o fato?”, se desfaz em função de
uma continuidade, ou melhor, de uma sincronicidade.

Duas mulheres que nunca se conheceram, saindo cada uma delas de


uma estação diferente do metrô, sofrem a mesma violência: foram
assaltadas às 23:30 [grifo do jornal] de sábado, dia 15 de julho. Uma,
na saída da estação da Lapa. A outra, na estação do Flamengo (O
Globo, 24/07/06, p.10).

Dessa forma, a série vai passeando pela cidade do Rio de Janei-


ro conferindo e anotando a violência exibida pelas estatísticas, que
aparecem no centro da página do primeiro dia da publicação: “414
casos de violência registrados nas delegacias da capital no sábado,
dia 15 de julho, enquanto a média nos primeiros cinco meses deste
ano é de 860 ocorrências por dia”. Desses 414 casos, alguns são des-
tacados: mortes, roubos de veículos, assaltos a transeuntes, assaltos
em ônibus e lesões corporais.
Ao longo da vistoria da violência “menor” da cidade, cons-
tata-se que há uma discrepância entre as estatísticas do dia e os
números que eram esperados. A violência de um dia qualquer
não é a mesma das médias que tanto habitam as páginas dos
jornais. Ao caminhar pela cidade, a violência toma outras di-
mensões, e o medo é personificado não por números, mas por
nomes ordinários, situações ordinárias.

72
O que os números da estatística policial não mostram é que o auxiliar de
escritório trabalhou sete anos para comprar o Tubarão, avaliado em R$
7,5 mil. E o perdeu em três meses. Sem seguro, ele só conta com a sorte
para recuperar o veículo.

A violência que atingiu mais de 400 pessoas no sábado não reflete a


rotina diária de crimes no Rio. Números oficiais do Instituto de Se-
gurança Pública (ISP) mostram que a média de casos nos primeiros
cinco meses de 2006 é de 860 por dia. Ou seja, mais que o dobro (O
Globo, 23/07/06, p.20).

O texto, mesmo utilizando a estatística como argumento e


como legitimação, acaba por reconhecer as cegueiras dos olhares
totalizantes, de caráter estrutural, que não compreendem o que se
passa nas ruas das cidades.
O objetivo da série é dar espaço para o tipo de violência que
atinge o homem comum e que proporciona histórias diversas que
não aquelas costumeiras que envolvem traficantes. São as violências
“menores” que, na verdade, formam a grande maioria. Por esse viés,
o que se espera de tal tipo de abordagem é uma complexificação
do olhar para o cotidiano, pois a perspectiva vai para o homem
comum. No entanto, as formas de enunciação encontradas apon-
tam para outras coisas. O excessivo uso de números estatísticos, a
remissão à série de televisão. Todos os casos são lidos com o auxílio
das, e em relação às, estatísticas, não importando a maneira como
ocorrem, mas o que eles representam numa perspectiva macro, que
totaliza a cidade por sua violência.
Há três tipos de enunciação que se repetem em uma mesma
edição, criando uma redundância, característica da imprensa co-
tidiana e também das séries descontínuas como o folhetim, que
precisam relembrar a trama a todo momento seja para aqueles que
a acompanham diariamente, seja para aqueles que acompanham
esporadicamente. A primeira enunciação é o texto panorâmico que
introduz a série, a segunda enunciação são os retângulos cronológi-
cos e a terceira enunciação é um texto corrido que “salta” por dife-
rentes pontos da cidade, também guiado pela ordem cronológica.
O texto introdutório tem características inusitadas, que dão
um caráter mais dramático à reportagem. É uma narrativa que não
se limita a descrever tais eventos, mas que encadeia diferentes his-

73
tórias de violência através de uma sucessão temporal como ordem
formal. As estratégias de reportagem são explicitadas e as estatísti-
cas do dia 15 de julho são apresentadas.

Quando o relógio marcar 24:00, não terão acontecido na cidade cri-


mes de repercussão como chacinas, invasões de grandes favelas por
bandos rivais, arrastões e fechamentos de vias expressas por “bon-
des” de traficantes. Mas terão sido registrados 414 casos de violência
nas delegacias da capital, sem contar 18 acidentes de trânsito com
vítimas, muitos causados por imprudência. Dramas que muitas vezes
parecem invisíveis no cotidiano do Rio.

Para mostrar a brutalidade embutida num dia como outro qualquer,


16 repórteres passaram 24 horas percorrendo delegacias e emergên-
cias de hospitais públicos e estiveram em locais onde ocorreram cri-
mes no Centro e nas zonas Sul, Norte e Oeste do Rio. Histórias de
homicídios, assaltos, furtos, agressões, ameaças e até que o que os po-
liciais chamam de feijoada (brigas entre vizinhos, principalmente nos
fins de semana) revelam a violência como ela é (O Globo, 23/07/06,
p. 20).

Análises e analogias são feitas a partir dos casos ocorridos


durante a cobertura dos repórteres. As descrições são pormeno-
rizadas, destacando sempre o instante exato em que ocorreram.
Há utilização de metonímias a todo momento: os casos ilustra-
dos são relacionados diretamente às estatísticas do dia e tam-
bém à média diária do ano. O texto faz articulações com casos
ocorridos, sentimento de insegurança e medo, rotina, cotidiano,
série televisiva, relatos inesperados, dramas pessoais, banaliza-
ção da violência, cronologia e, em alguns casos, sincronia. A ex-
periência urbana construída tem um forte vínculo com o tempo
e menos com o espaço do fato ocorrido; o espaço serve apenas
como aglutinador da violência sincrônica.
Nesse texto, aparecem algumas histórias que também estão narra-
das nos retângulos da parte inferior da página, como o primeiro caso,
ocorrido às 00h05. Assim começa o texto da reportagem:

74
Sábado, 15 de julho de 2006. O dia começou há apenas cinco minutos e
William Menezes dos Santos, de 25 anos, é baleado durante uma troca de
tiros com policiais no Morro do Andaraí, Zona Norte do Rio. Ele morre an-
tes de chegar no Hospital do Andaraí. Começa assim, de forma sangrenta, a
rotina de violência de um dia comum no Rio (O Globo, 23/07/06, p. 20).

E também repete o caso ocorrido às 04h30.

Os registros nas delegacias não são um espelho perfeito da violência de cada


dia. Exemplo disso é a briga em que se envolveu o garçom Carlos Augus-
to da Conceição, de 29 anos. Ele voltava do trabalho numa van quando, às
04:30 [grifo do jornal], na Avenida Atlântica, no Leme, o biscateiro Marcelo
Fábio de Mesquita, visivelmente embriagado e segurando um copo de vidro
cheio de caipirinha, embarcou e começou a perturbar os passageiros. Ten-
tando evitar confusão, Carlos pediu a Marcelo que se acalmasse. Recebeu
como resposta o copo no rosto. A agressão provocou cortes profundos e
uma explosão de raiva. Os dois rolaram para fora do carro e o caso só não
teve conseqüências mais graves devido à intervenção de um PM: - Um tra-
balhador voltando para casa é atacado de maneira covarde e por pouco não
mata o infeliz que o agrediu e desgraça a própria vida – comentou o policial.
Ensangüentados, os dois foram socorridos numa ambulância do Corpo de
Bombeiros. Como as partes não deram queixa, a agressão não foi registrada
e o drama do garçom, que estava trabalhando desde às 18h, ficou restrito ao
boletim de ocorrência da PM (O Globo, 23/07/06, p. 20).

Além de estar no texto introdutório e no retângulo, acima citados,


uma fotografia do garçom está em destaque no centro da página, com
a legenda: “Um homem envolvido numa briga em Copacabana”.
A redundância é uma estratégia muito utilizada nas enuncia-
ções da imprensa. Em relação ao tema violência urbana, há repe-
tições em vários sentidos: as séries de reportagens, os textos que
relembram outras situações parecidas com o que está sendo noti-
ciado, imagem e texto se sobrepondo, o discurso do medo, da esca-
lada da violência, a estatística como verdade e como referência.
A reportagem especial “24 horas” é algo fora do ordinário e da
dinâmica na qual são produzidas as notícias. A narrativa dessa série
elabora uma meta-visão da cidade do Rio de Janeiro com os óculos
da violência que ocorre nas ruas. São as notícias que já não cabem
no jornal. O Rio de Janeiro é uma metrópole, cidade polifônica,
onde milhares de ações acontecem todos os dias. Os resultados físi-
cos da violência tornam-se rotina e acabam não sendo passíveis de
publicação, tornando-se “normais”, triviais.

75
Mas, então, qual é a propriedade que a violência tem que a tor-
na passível de ser representada com tal diferenciação de enuncia-
ção, criando-se todo um aparato discursivo que não está presente
nos jornais diários?

A força expressiva desta linguagem da violência vem deste movimen-


to de os episódios deixarem os lugares particulares ou privados de
sua ocorrência para se extravasarem numa dimensão pública onde
se encontram, sobretudo, com instituições e discursos preexistentes,
que passam a produzir sentidos e a orientar práticas sociais sobre
a violência. Daí ser a violência mobilizadora e fundadora, expres-
sa conflitos, dá visibilidade a questões sociais ou políticas latentes,
provoca a produção de sentidos em diversas instâncias discursivas e
aciona práticas institucionais e políticas (Rondelli, 2000:152).

Há uma mediação entre o acontecimento e o amplo público


leitor: ao reportar as violências do cotidiano, os meios jornalísticos
acabam criando, inexoravelmente, um circuito de produção de sen-
tidos. Os relatos dos meios de comunicação têm a potencialidade
de atravessar uma sociedade seja ela de âmbito local ou mundial.
Essa não é uma travessia aleatória; é, sim, um esforço de organiza-
ção de significados.
O imaginário da violência é composto por essa produção de
significados, a partir de fatos conflituosos. São narrações varia-
das que utilizam a violência como vocabulário, ou seja, narra-
tivas que produzem frases, sentenças, afirmações, que ganham
um sentido na sociedade através da força expressiva que o ato
possui. A violência não é mero ato agressivo, é, também, lin-
guagem, ato de comunicação. Nesse sentido, se constatamos a
existência de um imaginário da violência, concluímos, também,
que há uma forte relação deste com um imaginário do medo que
atravessa as mediações da cultura de massa.
A narrativa do medo, no mundo contemporâneo das novas
tecnologias, invade o instante e não mais a contingência, a circuns-
tância. De diária, a representação passa a tomar como foco o tempo
acelerado, efêmero e regular, ou seja, enquanto o periódico diário
faz a cobertura dos eventos do dia anterior, esta reportagem faz a

76
cobertura dos instantes de um dia qualquer. Os casos não se referem
a um dia específico, ao contrário, tornam-se a consubstanciação de
uma idéia que perpassa socialmente o cotidiano: o imaginário do
medo da violência. A proposta não é complexificar as questões da
violência, mas produzir consensos através de definições e represen-
tações previamente existentes.

O mapa de Chronos

O instante, da forma como é construído e representado em “24


horas”, é apenas ingrediente de uma estratégia maior que é tornar
legível a cidade por meios totalizantes. O instante do kairos de que
fala Certeau (2005) tem a ver com o aproveitamento da ocasião
para operar de forma não-programada, utilizando a memória e a
razão do homem comum. Para contextualizar historicamente o que
significam as táticas através das maneiras de falar (retórica), Cer-
teau coloca os sofistas como ocupantes de um lugar privilegiado,
pois eles tinham como princípio tornar “mais forte” a posição “mais
fraca” e, além disso, pretendiam possuir a arte de vencer o poder (a
ordem estabelecida) por uma certa maneira de aproveitar a ocasião.
Nesse sentido, as teorias dos sofistas inscrevem as táticas em uma
longa tradição de reflexões sobre as relações que a razão mantém
com a ação e com o instante.
“24 horas” não se enuncia, de forma alguma, como represen-
tação que privilegia o fraco em relação ao forte. A própria criação
do espaço da série já é uma estratégia e um pacto de leitura com os
interlocutores. De modo algum podemos entender “24 horas” atra-
vés do que Certeau definiu como tática, mas, mesmo assim, ainda
é possível destacar as nuances de tal discurso em relação aos habi-
tuais que compõem a editoria de cidade. É preciso entender como
é articulada a categoria tempo como ênfase e âncora em relação a
todas as outras. O narrador se traveste de Chronos19 e sai pela cida-
de mostrando os horrores de um dia e uma noite.

19. De acordo com a teogonia órfica, Chronos surgiu no princípio dos tempos, formado por (...)

77
Na estratégia narrativa e na relação com o espaço urbano há
um olho totalizador que se guia pela ênfase no tempo e no instante,
não fazendo uso de mapas e lendo a cidade através da violência ur-
bana. Em sete dias de publicação da série de reportagens, passamos
por trinta e oito bairros do Rio de Janeiro. Percorremos, visualmen-
te, lugares pelo tempo, guiados pela precisão de Chronos. As narra-
tivas paralelas, simultâneas, vão se encadeando como planos cine-
matográficos. Como segue uma ordem cronológica, a reportagem
é a toda hora reterritorializada através de expressões como “à cerca
de 25 quilômetros dali”; “Vinte minutos antes da morte do PM”;
“Meia hora mais tarde”; “Bem longe dali”; “do outro lado da cida-
de”; “a quilômetros do Leblon”; “bem distante dali”; “no mesmo
horário”, “o dia também é violento para a digitadora Rosângela”.
Essas expressões iniciam a descrição de um outro episódio que
não tem ligação espacial com o primeiro. Saltamos pela cidade
em raccord temporal. Ela nos aparece como violência total, oni-
presente, constante, ficcional. O relato organiza e dá significado
à caminhada pela cidade.
Há uma curiosa ausência ao longo das reportagens. Em ne-
nhum momento mapas são utilizados como forma de enunciação,
ao contrário do que usualmente lemos nos jornais. Na falta destes,
os relatos acabam se tornando os guias da cidade. “Onde o mapa
demarca, o relato faz uma travessia. O relato é ‘diegese’, como diz
o grego para designar a narração: instaura uma caminhada (‘guia’)
e passa através (‘transgride’)” (Certeau 2005:215). Ao atravessar a
cidade, o texto acaba tornando-se metaphorai, como os meios de
transporte em Atenas. São metáforas que organizam itinerários
usando a cronologia como motor de locomoção.

(...) si mesmo. Era um ser incorpóreo e serpentino possuindo três cabeças, uma de homem,
uma de touro e outra de leão. Uniu-se à sua companheira Anaké (a inevitabilidade) numa es-
piral em volta do ovo primogênito separando-o, formando então o Universo ordenado com a
Terra, o mar e o céu. Entre os gregos antigos havia três concepções de tempo: chronos, kairos
e aión. A primeira refere-se ao tempo cronológico, quantitativo ou seqüencial; a segunda é
uma antiga palavra grega que significa “o momento certo” ou “oportuno”, e designa o instan-
te indeterminado no tempo em que algo especial acontece; a terceira é uma concepção de
tempo como fluxo eterno feito de instantes. Em Aión, o presente não existe, é apenas divisão,
refeita a cada instante, entre um passado e um futuro.

78
Os fatos narrados a seguir ocorreram entre o primeiro minuto e as 06:00
[grifo do jornal] de sábado. Uma equipe do Grupamento Tático-Móvel
(Getam) da PM patrulha a Avenida Ayrton Senna, na Barra da Tijuca,
quando uma quadrilha de traficantes em frente à Favela Gardênia Azul. Ao
perceberem a chegada da polícia, os bandidos fogem, deixando para trás
uma granada, apreendida pelos PMs.

À cerca de 25 quilômetros dali, à 00:20 [grifo do jornal], Maurício Varanda


Paiva, de 19 anos, tem seu carro roubado por dois homens quando deixava
a namorada em casa, no Andaraí. Dois dias depois, o carro seria recuperado
no Rio Comprido: - Eles só tinham roubado o rádio, mas, ao tentarem fugir
da polícia, bateram várias vezes com o carro, que foi parar na oficina. Apesar
do prejuízo, estou feliz por conseguir reaver o veículo – disse Maurício.

Passados apenas dez minutos do assalto sofrido por Maurício, o auxiliar de


conferência César Borges teve a volta para casa interrompida. À 00:30 [grifo
do jornal], quando ele descia do ônibus no subúrbio de Oswaldo Cruz, foi
abordado por cinco homens. Um deles o atingiu com uma garrafada na ca-
beça. Os ladrões levaram a sua bolsa e até um crachá (O Globo, 23/07/07, p.21).

Os relatos cotidianos tornam-se nossos meios de transporte


coletivo. Entre as micronarrativas que nos chamam a atenção para
um fato violento localizado, temos conectivos temporais ou quanti-
tativos que nos fazem correr os olhos pela cidade do Rio de Janeiro
com os óculos e as lentes que só destacam o espaço público através
das violências praticadas. De um lugar a outro da cidade, somos
conduzidos por relatos que centralizam a caminhada em torno da
relação entre violência e tempo.
Conta-se o tempo assim como a estatística enumera quantida-
des, costurando a idéia abrangente da violência urbana com o ima-
ginário do medo e com uma linearidade progressiva. É uma tempo-
ralidade baseada na concepção quantitativa do tempo. Um tempo
que é analisável, verificável, passível de classificação pela técnica.
Na junção da estatística com o relato cronológico, temos menos
uma caminhada pela cidade e mais uma cartografia da violência.
Instauram-se mapas mesmo na ausência gráfica destes.
O mapa, em sua representação moderna, a partir do século
XVII, tratou de esconder as operações que o produzem e o tor-
nam possíveis (Certeau, 2005:205). É uma visibilidade opaca que
não deixa ver as camadas que o sustentam. Um olhar fotográfico-

79
panorâmico acaba por tornar invisível toda a caminhada que o pos-
sibilitou. Retira-se da representação toda a complexidade de olhar
“por baixo”. É o mesmo tipo de operação que ocorre ao olhar Nova
Iorque do alto das extintas torres gêmeas.
O olhar cartográfico quer tornar tudo legível, afastando-se, as-
sim, de entender o mundo pelas práticas, pelas ações. O objetivo
desta forma de construir um saber é tornar o mundo apreensível
pela visibilidade. A idéia é que o mundo caiba no nosso espectro de
visão, para que, com isso, tenhamos a ilusão de totalizá-lo. Só que
o cotidiano não está aí nessa totalização, o cotidiano está no chão,
nos detalhes que se proliferam nas maneiras de fazer e de agir.

Visível em si, [a superfície da projeção, o mapa] tem o efeito de tor-


nar invisível a operação que a possibilitou. Essas fixações constituem
procedimentos para o esquecimento. O traço que se deixou para trás
é substituído pela prática. Ele exibe a propriedade (voraz) que o sis-
tema geográfico tem de ser capaz de transformar a ação em legibili-
dade, mas ao fazê-lo provoca o esquecimento de uma maneira de ser
no mundo (Certeau, 1994:29).

O mapa – o saber geográfico – da violência, i. e., forma visível


de significação dos conflitos, tenta juntar todas as violências em
uma só. São espaços e práticas heterogêneas que são narradas con-
juntamente através de modalidades específicas de ordenação (na
série de reportagens “24 horas” a ordenação cronológica sobressai).
Assim, as imagens, até então desconexas, entram em relação na pá-
gina impressa, sempre com a ordenação textual da legenda.
Produzir mapas da violência significa tornar legível, ou me-
lhor, visível, o instante através de sua reconstituição. A representa-
ção da violência é uma tentativa de reconstruí-la pela linguagem,
utilizando convenções narrativas, no caso do jornal, que produzem
um real urbano que habita as páginas e os leitores no dia-a-dia20.

20. Não podemos deixar de notar que nesse “real urbano” há um ideal de espaço público
como sinônimo de ordem, civilização e limpeza, principalmente no Rio de Janeiro, tem uma
estreita relação com a concepção autoritária que vê o uso da violência como a principal
forma de controle.

80
Trata-se da violência total de uma cidade, no caso, o Rio de Janeiro.
É uma violência imaginada, como as nações também o são21.
Não negamos o registro da violência nem tampouco a concre-
tude dos fatos, mas há de se deixar claro que, como Roland Barthes
o fez ao citar Nietzsche, “Não existe fato em si. É sempre preciso
começar por introduzir um sentido para que haja um fato.” (Nietzs-
che apud Barthes, 2004:176). Isso nos leva a crer que as formas de
enunciação da violência têm uma importância tão grande quanto a
própria ação violenta ou criminosa, pois são essas formas de narrar
e enunciar que balizarão as leituras possíveis de um fato.
O discurso jornalístico é uma elaboração da ordem do ima-
ginário, tendo o conceito de imaginário como sendo “a linguagem
pela qual o enunciante de um discurso (entidade puramente lingü-
ística) ‘preenche’ o sujeito da enunciação (entidade psicológica e
ideológica)” (Barthes, 2004:176). O sujeito da enunciação é aquele
que age, que enuncia um discurso, em contato com um imaginário. O
imaginário é a própria concretude da representação, não está em outro
mundo. São construções de significado que atravessam as sociedades e
que possibilitam os significados circularem em variados suportes.
Chegamos, então, ao imaginário da violência, que, nesse con-
texto de que estamos tratando, se confunde com o imaginário do
medo, confirmando a argumentação de Jean Delumeau (1989) de
que, ao longo da história do medo no ocidente, a modernidade re-
presenta uma ruptura: a fonte do medo foi deslocada da natureza
para a sociedade22. E como já dissemos acima, os fatos só são fatos,
se os preenchermos de sentido. A violência como fato não signifi-
ca muita coisa, mas enquanto violência enunciada, acaba por ser
introduzida na batalha do imaginário que, por conseqüência, é a
batalha do imaginário do medo também.

21. Cf. Anderson, 1989.

22. O argumento de Delumeau aborda com mais nuances essa questão, mostrando uma
mudança mais complexa. Contudo, em linhas gerais, essas modificações respeitam esse
movimento.

81
Nesse sentido, a idéia que propomos é a de que a imprensa co-
tidiana é uma das grandes balizadoras dos significados da violência
urbana. Digo balizadoras, pois não trabalhamos aqui com a idéia
de um leitor passivo e, sim, com a noção de que há desvios e leituras
múltiplas em relação às propostas pelos meios que as imprimem.
Os mapas que nos são propostos todos os dias, são mapas, também,
do imaginário. Sem mapa, a cidade não é perigosa, pois não pro-
duzimos sentidos. É só com os mapas imaginados que mudamos
nossas trajetórias, coordenadas, em grande parte, pelo medo do
desconhecido que habita a mesma urbes que nós.

1.3 Jornalismo e literatura: relatos de ocorrência


O intuito deste sub-capítulo é contrapor dois textos distintos
que tratam sobre o tema da violência urbana: a série de reporta-
gens “24 horas” e o conto “Relato de ocorrência” (1996), de Rubem
Fonseca. A análise das estratégias narrativas será o foco de atenção
que possibilitará uma leitura mais apurada dos textos. Por esse viés,
procuro investigar as estratégias de enunciação presentes nesta sé-
rie de reportagens do jornal O Globo e, em contraponto, as estraté-
gias do conto de Rubem Fonseca.
“Relato de ocorrência” ocupa poucas páginas e sua extensão é
bem semelhante a das notícias do cotidiano. O conto começa com
o relato de um grave acidente de trânsito provocado por uma vaca
que trafegava pela ponte de uma rodovia. O motorista de um ôni-
bus não consegue desviar da vaca que atravessou a pista, perde o
controle, bate no muro da ponte e o veículo cai no rio.
Nesse momento estamos diante de um acontecimento que, se
narrado através das estratégias de enunciação praticadas em função
dos “critérios de noticiabilidade” que regem o jornalismo hegemô-
nico, focaria o discurso no acidente e nos acidentados, que aparen-
temente são os fatos potencialmente espetaculosos do evento ocor-
rido. No entanto, Rubem Fonseca passa a narrar o que aconteceu

82
em cima da ponte após o acidente, ou seja, o que aconteceu com
a vaca. Não há, depois da descrição inicial, maiores dados sobre o
acidente ou os acidentados.

Na madrugada do dia 3 de maio, uma vaca marrom caminha na pon-


te do rio Coroado, no quilômetro 53, em direção ao Rio de Janeiro.

Um ônibus de passageiros da empresa Única Auto Ônibus, chapa RF


80-07-83 e JR 81-12-27, trafega na ponte do rio Coroado em direção
a São Paulo.

Quando vê a vaca, o motorista Plínio Sérgio tenta se desviar. Bate na


vaca, bate no muro da ponte, o ônibus se precipita no rio.

Em cima da ponte a vaca está morta (Fonseca, 1996:24).

O conto se desenvolve a partir do que é feito com a vaca morta.


Alguns transeuntes que passavam pelo local começam a disputar
as melhores partes da carne do animal. Em meio a essas ações que
caracterizam o conflito do drama, as personagens são apresentadas
somente por seus nomes e, em alguns casos, por seus graus de pa-
rentesco com outras personagens.
Assim, interessa ao autor narrar personagens anônimas,
das quais não temos qualquer referência de sua experiência, de
sua subjetividade e de sua história. São personagens que apenas
compõem a multidão desconhecida das cidades. A estratégia de
representação, dessa forma, prioriza menos a análise psicológica
que a ação das personagens. O leitor acompanha as personagens
em suas trajetórias orais (as falas, os diálogos) e em suas ações
pragmáticas. Não há aberturas para uma leitura que focalize os
pensamentos e as formas de subjetivação construídas, pelo au-
tor. A figura da personagem, então, acaba por exercer uma fun-
ção, primordialmente, descritiva, mas que acaba desenvolvendo
uma enunciação que escreve espaços, ou seja, que privilegia a
espacialidade que a narrativa pode construir.
No entanto, as formas de construção das personagens não são
as únicas estratégias de enunciação que formulam uma espaciali-
dade na narrativa. A presença, marcada, de um narrador é um fa-

83
tor preponderante para que “Relato de ocorrência” complexifique a
representação. Apesar do uso de uma linguagem bruta e sucinta, o
conto não investe no apagamento da figura do narrador em função
de uma estratégia que quer se colar ao real, que quer se estabelecer
como verdade. Pelo contrário, e ironicamente, o relato de ocorrên-
cia construído por Rubem Fonseca constrói um realismo em que a
figura do narrador surge em função das personagens e suas ações.

O desastre foi presenciado por Elias Gentil dos Santos e sua mulher
Lucília, residentes nas cercanias. Elias manda a mulher apanhar um
facão em casa. Um facão?, pergunta Lucília. Um facão depressa sua
besta, diz Elias. Ele está preocupado. Ah! Percebe Lucília. Lucília cor-
re.

Surge Marcílio da Conceição. Elias olha com ódio para ele. Apare-
ce também Ivonildo de Moura Júnior. E aquela besta que não traz
o facão!, pensa Elias. Ele está com raiva de todo mundo, suas mãos
tremem. Elias cospe no chão várias vezes, com força, até que a sua
boca seca (Fonseca, 1996:24).

Estabelece-se uma perspectiva definida tanto no ato de narrar


quanto no que se escolhe para narrar. O ônibus que caiu não é fato
a ser narrado, mas a briga pela carne de uma vaca é. Não se trata,
portanto, de um realismo do espetáculo, mas de um realismo bru-
tal23, que vai em busca do relato como construção, como ficção que
é alimentada pela experiência, pelo cotidiano.
Por outro lado, a série 24 horas publicada em O Globo, de certa
forma, é também uma tentativa de narrar não os “grandes” aconte-
cimentos do dia a dia, mas os pequenos furtos, os roubos, as brigas
e as mortes banais, enfim, percalços da experiência urbana carioca
contemporânea. Seria como uma tentativa de fazer a aproximação
do texto jornalístico com os relatos de bairro e também com os
relatos de ocorrência. Nesse sentido, trata-se de uma estratégia de
enunciação que prioriza os “micro-relatos” como forma de narrar
para o leitor “a rotina de violência de um dia comum no Rio” (O
Globo, 22/07/06, p.2).

23. Termo cunhado por Alfredo Bosi (1997).

84
Aliás, poderíamos interpretar a busca dessa série de repor-
tagens pelo relato de ocorrência por pelo menos dois sentidos: o
primeiro seria o fato dos jornalistas irem procurar o registro do
“varejo” da violência nas instituições públicas, principalmente de-
legacias de polícia, que produzem esses relatos padrões geralmente
nomeados como boletim de ocorrência. São as formas de registro
de documentação do Estado em caso de acidentes e atos de violên-
cia que ocorrem cotidianamente. A segunda interpretação, que não
nega a primeira, seria mais uma metáfora que o texto sugere através
da estratégia de aproximação com a ficção que essa série propõe;
por esse viés, podemos dizer que as reportagens buscam o “Relato
de ocorrência” literário, como o de Rubem Fonseca.
No primeiro sentido, o “critério de noticiabilidade” é alterado
em função da construção de uma série pré-estabelecida pelos edi-
tores do jornal. Não há, nessa perspectiva, qualquer disposição de
narrar o cotidiano e seus acontecimentos corriqueiros como algo
que, por si só, deva ser reportado e que tenha relevância dentro da
estrutura normal de um jornal de grande circulação. A série, nesse
caso, funciona como a estrutura que legitima qualquer representa-
ção de atos de violência dentro deste meio de comunicação. A cons-
trução textual, por esse viés, antecede à experiência. As formas de
enunciação já estão formuladas, delimitadas e legitimadas. O que
escapa à representação jornalística torna-se não-existência. Esse é o
paradigma em que circulam as notícias: a estratégia de enunciação
que é considerada eficaz é repetida à exaustão.
De fato, se a equipe de reportagem da série “24 horas” presen-
ciasse algo diferente do que esperavam, o esforço teria sido em vão,
já que essa série não comporta “grandes acontecimentos”. Apesar
da proposta das reportagens ser uma investigação (ou seja, tentar
descobrir algo) sobre as violências do cotidiano - aquilo que é espe-
rado e ao mesmo tempo inesperado -, há nessa “experimentação do
critério de noticiabilidade” uma regra bem estabelecida: somente o
varejo da violência, ou seja, as violências “menores” seriam noticiadas.
Essa estratégia tenta se diferenciar do que normalmente o jornal rela-
ta todos os dias, inclusive utilizando uma diagramação específica para
narrar a “violência de todos os dias” (O Globo, 24/07/06, p. 9).

85
No segundo sentido, o cotidiano torna-se notícia em função
de uma construção narrativa com estratégias outras, que não
aquelas normalmente utilizadas na imprensa hegemônica. Faz-
se uso da série e de seu caráter de diferenciação do resto do jor-
nal como uma estratégia de enunciação que flerta com a criação
literária de contos de, por exemplo, Rubem Fonseca, justamente
pela diferenciação das usuais formas de utilização das categorias
personagem, narrador e espaço.
Na série de reportagens, a construção narrativa é estabeleci-
da antes da apuração dos fatos. Parte-se de uma premissa estatís-
tica de que diariamente acontecem “x” casos de violência, e que os
repórteres narrariam esses fatos violentos miúdos como forma de
demonstrar a realidade brutal da cidade. Sendo assim, a própria
experiência do encontro dos jornalistas com as vítimas da violência
não acrescentaria, tornaria complexa ou enriqueceria o relato, pois
as formas de enunciação já estavam estabelecidas: a ordem do dis-
curso jornalístico não poderia ser alterada. O discurso jornalístico
seria, assim como Chronos, auto-suficiente, referência da realidade,
relato da verdade.
A formatação em série descontínua possibilita que as notícias
se descolem do jornal – até pelos modos de diagramação e cons-
trução textual –, mas, ao mesmo tempo, continuem com o mesmo
grau de legitimidade de uma outra reportagem qualquer. O jorna-
lismo, então, cruza e borra a fronteira com a ficção, pois utiliza o
cotidiano como foco e tema de uma narrativa através do processo
de narração em série.
Dessa forma, o acontecimento extraordinário não é mais o fato
a ser reportado, mas a própria forma de reportar o fato. Ao pen-
sar a estrutura da cobertura, tinha-se de antemão uma estratégia
de publicação do que seria presenciado ao longo da cobertura dos
jornalistas nas ruas do Rio de Janeiro. De certo modo, os aconte-
cimentos, eles próprios, são esvaziados de sentido, pois só servem
como exemplificação de um modelo já estabelecido e pensado. A
idéia de trabalhar por amostra e por metonímia da parte pelo todo
evidencia não só uma estratégia que tenta abastecer o imaginário
do medo, como narrá-lo de forma serializada, ou seja, represen-

86
tando a violência como uma prática que se repete. A leitura de um
dia torna-se a de todos os dias: “a violência como ela é” (O Globo,
24/07/06, p. 9).
Nesse sentido, a busca pela representação jornalística baseada
nos números estatísticos relacionados à violência urbana fracassa,
como já era de se esperar. A estrutura abstrata de números que se
remetem a uma média diária não dá conta de narrar o cotidiano,
pois este é feito de imprevisibilidades. A busca diária por repor-
tar “os grandes acontecimentos” violentos (“crimes de repercussão,
chacinas, invasões de grandes favelas por bandos rivais, arrastões e
fechamentos de vias expressas por bondes de traficantes”; O Globo,
23/07/06, p.20), como mencionado no texto de apresentação da sé-
rie de reportagens é índice de que o jornalismo de massa tem como
pressuposto um “real imaginário”, ou seja, algo abstrato que acon-
tece todos os dias da mesma forma, e que é construído através de
análises matemáticas que não levam em conta a experiência da vio-
lência, mas apenas seus resultados e seus números classificadores.
O foco de atenção recai, então, não em qualquer fato, mas em
fatos potencialmente espetaculares. Fatos que podem ser narrados
como drama; conflitos que são apresentados através de estratégias
textuais e imagéticas dos jornalistas com o intuito de despertar o
interesse do leitor. Desta forma, no mesmo sentido do drama li-
terário, a narrativa jornalística faz uso da série como elemento ar-
ticulador de dramas distintos, mas sincrônicos. Prioriza-se uma
perspectiva que cria um mapa e não um itinerário, como diferencia
Michel de Certeau:

A questão toca finalmente, na base dessas narrações cotidianas, a re-


lação entre itinerário (uma série discursiva de operações) e o mapa
(uma descrição redutora totalizante das observações), isto é, entre
duas linguagens simbólicas e antropológicas do espaço. Dois pólos
da experiência. Parece que, da cultura “ordinária” ao discurso cientí-
fico, se passa de um para o outro (2005:204).

A categoria tempo, evidenciada no próprio título da série, ga-


nha maiores dimensões e ordena a representação da cidade através
de suas violências. O tempo comprime o espaço e faz do narrador

87
uma figura onipresente e totalizante, reduzindo e simplificando a
complexa tarefa de narrar o cotidiano, a cidade.
A sincronicidade que a narrativa jornalística inspirada na série
televisiva propõe conjuga dois aspectos: os pequenos acontecimen-
tos do cotidiano e também um olhar panorâmico e onipresente de
um dia qualquer, de qualquer dia. Assume-se, no primeiro aspecto,
um jornalismo pautado em personagens que não habitam as pági-
nas dos jornais. No segundo aspecto, assume-se um dispositivo pa-
nóptico de vigilância total. O narrador passa do asfalto para o alto
do prédio em deslizamentos contínuos. Em um momento se coloca
em perspectiva o fato miúdo, por outro momento o narrador é a
voz onipresente que defende uma tese pré-concebida. O jornal, en-
tão, assume a perspectiva de denunciador de um terror presente em
todo e qualquer dia no Rio de Janeiro.
O próprio ato de narrar em série exige, como pressuposto, a
ordenação de um drama no seu sentido literário: qualquer narra-
tiva em que haja conflito ou atrito. Conduzida por acontecimentos
do dia a dia, a série tem uma construção textual muito peculiar
dentro do que geralmente acompanhamos nos jornais, a começar
por alguns títulos das reportagens: “Toda a violência de um dia
qualquer”; “Cinco minutos após a meia-noite, uma granada na
rua”; “É de manhã. Mais 3 mortes violentas”; “A violência como ela
é”. São títulos genéricos e abrangentes, características não prezadas
por jornalistas que lidam com os relatos extraordinários, pois o im-
perativo destes textos é a precisão e a clareza enunciativa.
No editorial que precede o primeiro dia de publicação da série,
há uma referência ao porquê dos editores se interessarem por abrir
um espaço nas páginas dos jornais para um tipo de violência que
não é normalmente noticiada.

O objetivo da reportagem, uma série que começa a ser publicada


amanhã, é mostrar o varejo da violência, os casos que em geral não
são noticiados, mas que afetam os cidadãos, causam dor e prejuízo e
contribuem para aumentar a sensação de insegurança do carioca (O
Globo, 22/07/06, p. 2).

88
Nesse texto de apresentação da série, fica claro o modo de clas-
sificação da violência com o qual este jornal trabalha. Estabelece-se
uma divisão bem definida do que deve ser levado ao leitor: somente
a “grande” violência. Neste sentido, os jornalistas problematizam os
seus próprios “critérios de noticiabilidade”, quando demonstram a
incapacidade, ou talvez o desinteresse, de uma cobertura jornalísti-
ca cotidiana de narrar os pequenos dramas. Esse texto, então, deixa
à mostra as fissuras das páginas que narram a cidade, pois acaba
por utilizar seu próprio critério de escrita como parte do texto.
Explicitar para o leitor quais são os critérios que o jornal utili-
za para decidir o que publica ou deixa de publicar é também uma
estratégia literária muito utilizada em ficções chamadas modernas,
que seguem o processo de problematizar o próprio processo da es-
crita. Processo este de construção narrativa que conhecemos a par-
tir da matriz inaugurada em Dom Quixote, ainda no século XVII,
por Miguel de Cervantes, quando o autor se remete às próprias his-
tórias que lê e faz do livro um espaço em que a própria escrita é
objeto de si mesma. Neste sentido, a matriz quixotesca se repete em
diferença no texto da série “24 horas”, mas não de forma explícita.
A problematização do ato de escrever e da precariedade da prática
jornalística de narrar o real pelo viés da metonímia (parte pelo todo),
ou de qualquer critério de caráter cientificista (ou seja, que esteja in-
serido no paradigma que tem uma verdade como meta), acontece, na
leitura que é feita neste presente artigo, pelo que Michel de Certeau no-
meou como in-audito (1994:211). O in-audito, se nos apropriássemos
de tal conceito, serviria como uma leitura que escapa ao controle de
quem produz um discurso, o que está recalcado no discurso totalizan-
te. É aquilo que só emerge quando uma leitura se estabelece não pelos
aspectos significantes explícitos, mas pelos aspectos não ditos, ou seja,
por uma leitura estética da narrativa.

O “in-audito” é o ladrão do texto, ou mais exatamente, é aquele que é


roubado ao ladrão, precisamente aquele que é ouvido, mas não com-
preendido, e portanto arrebatado do trabalho produtivo: a palavra
sem escrita, o canto de uma enunciação pura, o ato de falar sem saber
– o prazer de dizer ou de escutar (Certeau, 2006:227).

89
Ao lermos “24 horas” em busca do in-audito e pelo viés do pa-
radigma estético (Guattari, 1992), o que vem à tona são justamente
os “critérios de noticiabilidade” convencionados por uma prática
jornalística calcada em uma articulação que “cola” a representação
ao real. Lemos o fato não como texto, mas como fato mesmo. Des-
se modo, as possibilidades de interpretação que temos diante das
imagens técnicas24 são reduzidas, pois repetem o paradigma cienti-
ficista e evitam a ambigüidade. O in-audito, neste sentido, funciona
como a impossibilidade de se estabelecer um sentido único para os
discursos, por mais que se tenha a impressão de que o enunciador
tem o controle da significação.
As brechas, as ambigüidades, os in-auditos são poucos nos tex-
tos da série “24 horas”. A figura do narrador, que vê a história sob
uma perspectiva, perpassa alguns momentos do texto, mas, em li-
nhas gerais, prevalece a escrita jornalística hegemônica. Em alguns
momentos, a figura do repórter é evocada dentro da narrativa.

Numa cidade acostumada a histórias chocantes, como o tiroteio que


deixou 17 crianças feridas na Escola Municipal Henrique Fôreis,
no Complexo do Alemão, em junho, a violência do dia-a-dia acaba
banalizada. Uma funcionária pública que acompanhava um rapaz
acusado de agredir um segurança se surpreendeu com a presença de
repórteres na 14ª DP (Leblon): - Vocês vão noticiar isso? (O Globo,
23/07/06, p.20).

24. “O caráter aparentemente não-simbólico, objetivo, das imagens técnicas faz com que
seu observador as olhe como se fossem janelas, e não imagens. O observador confia nas
imagens técnicas tanto quanto confia em seus próprios olhos. Quando critica as ima-
gens técnicas (se é que as critica), não o faz enquanto imagens, mas enquanto visões do
mundo. Essa atitude do observador em face das imagens técnicas caracteriza a situação
atual, onde tais imagens se preparam para eliminar textos. [...] A aparente objetividade
das imagens técnicas é ilusória, pois na realidade são tão simbólicas quanto o são todas
as imagens. Devem ser decifradas por quem deseja captar-lhes o significado. Com efeito,
são elas símbolos extremamente abstratos: codificam textos em imagens, são metacódi-
gos de textos. A imaginação, à qual devem sua origem, é capacidade de codificar textos
em imagens. Decifrá-las é reconstruir os textos que tais imagens significam. Quando as
imagens técnicas são corretamente decifradas, surge o mundo conceitual como sendo
o seu universo de significado. O que vemos ao contemplar as imagens técnicas não é ‘o
mundo’, mas determinados conceitos relativos ao mundo, a despeito da automaticidade
da impressão do mundo sobre a superfície da imagem” (Flusser, 2002:14).

90
No entanto, a narração segue respaldada pela busca de um apa-
gamento da fronteira entre a representação e o real. A totalização e
a centralização que operam os textos jornalísticos acabam por ab-
dicar de uma visão mais plural da representação da cidade. Os mo-
delos estabelecidos, as normas, as ordenações, as legitimações e as
repetições fecham, em grande parte, os espaços de experimentação
e enriquecimento da linguagem jornalística, pois ir em busca de
novas formas de narrar é desafiar todo o aparato de otimização dos
agenciamentos de enunciação da imprensa contemporânea.
As “grandes violências” representadas pelos jornais não são mais
do que palavras que classificam e dão sentidos a uma realidade que está
muito além dos binarismos que estruturaram as ciências modernas.
Desse modo, os agenciamentos de enunciação do texto jornalístico de
“24 horas” projetam uma diferenciação entre os tipos de violência. Há
violências que interessam mais aos leitores: as representações que tra-
balham a construção dramática do fato através de uma narrativa que se
desenvolve por aproximações e repulsas simbólicas.
Ao contrapormos o texto de Rubem Fonseca e a série “24 ho-
ras”, podemos notar uma grande aproximação dos dois relatos com
uma realidade brutal que passa despercebida, porque cotidiana. A
representação da violência urbana, em sentido mais amplo do que o
focado pelas notícias do jornal O Globo, é pautada pela aproxima-
ção com o real em muitos aspectos, dentre eles o fato de serem re-
latos de fatos que realmente ocorreram. No caso de Rubem Fonseca
isso não é explicitado, mas em pesquisa realizada por jornalistas da
Folha de S. Paulo nos arquivos da polícia do Rio de Janeiro consta-
tou-se que um caso extremamente semelhante fora registrado por
Rubem Fonseca em 1953, época em que era comissário de polícia.

Vale para muitas histórias de Fonseca o título original do conto Relato


de ocorrência em que qualquer semelhança não é mera coincidência.
Saiu em Lúcia McCartney (1967) e após a sexta edição viraria Relato de
ocorrência. As coincidências abundam, a começar pelo próprio conto.
(...) O caso da vaca atropelada que é devorada por famélicos, contada
em Relato de ocorrência, aconteceu em 1953, quando Fonseca servia ao
24º Distrito Policial, em Madureira, zona norte do Rio. Quem confir-
ma a coincidência é o delegado aposentado Mário César da Silva, 71,
companheiro de Fonseca no DP de Madureira. “Foi a primeira vez que
sentimos a cruel realidade da fome” (Carvalho, 1995).

91
Essa utilização da experiência e do registro é uma estratégia
de enunciação do autor do conto, que prioriza a concretude e a re-
alidade dos fatos. Mas esse artifício, em momento algum, sugere
ao leitor tratar-se de uma escrita baseada em registros de aconte-
cimentos reais, pois está inserida em um contexto que a classifica
como ficção. Nos deparamos, então, com uma indecidibilidade da
conceituação do relato: ficção ou registro; conto-reportagem ou
reportagem-conto?
A escrita do contista é muito próxima do que a série “24 horas”
nos mostra. O aspecto mais evidente é na apresentação das perso-
nagens, pois há uma grande semelhança na forma de fazê-la em
ambas as narrativas. Sempre recortando e privilegiando as ações, os
fatos e as falas de cada personagem. No caso de O Globo:

Sábado, 15 de julho de 2006. O dia começou há apenas cinco minutos e


William Menezes dos Santos, de 25 anos, é baleado durante uma troca
de tiros com policiais no Morro da Cotia, no Andaraí, Zona Norte do
Rio. Ele morre antes de chegar ao Hospital do Andaraí. Começa assim,
de forma sangrenta, a rotina de violência de um dia comum no Rio. (O
Globo, 23/07/06, p. 20).

No caso do conto “Relato de ocorrência”, de Rubem Fonseca:

Debaixo da ponte estão mortos: uma mulher vestida de calça comprida


e blusa amarela, de vinte anos presumíveis e que nunca será identifica-
da; Ovídia Monteiro, de trinta e quatro anos; Manuel dos Santos Pinhal,
português, de trinta e cinco anos, que usava uma carteira de sócio do
Sindicato de Empregados em Fábricas de Bebidas; o menino Reinaldo
de um ano, filho de Manuel; Eduardo Varela, casado, quarenta e três anos
(Fonseca, 1996:24).

O esforço por dar conta das ausências a que as narrativas jor-


nalísticas estão sujeitas torna-se uma prática que dialoga muito
mais com a ficção urbana realista, como no caso de Rubem Fonse-
ca, do que propriamente com uma idéia de experiência do real. Ao
se depararem com o que normalmente não é relatado, os jornalistas

92
optam por utilizar uma estratégia que a todo momento se remete
a criações ficcionais da literatura e da televisão. Diante disso, será
que não poderíamos questionar se o próprio “critério de noticiabi-
lidade” não teria, ele também, uma constante remissão à idéia de
espetáculo como desenvolveu Guy Debord em seu notório ensaio
A sociedade do espetáculo (1997)?
A forma na qual o discurso classificador dos meios de comu-
nicação de massa, principalmente o jornalismo, é praticado, pode
ser problematizada pela questão da representação. O discurso das
mídias de massa pretende-se colado à realidade, como a represen-
tação, por excelência, da verdade. No entanto, há de se reafirmar
que o relato não é a realidade. A narrativa é apenas uma forma de
vivenciar a cidade, de representá-la.

Dentro de mais uma hora e vinte minutos começará um novo dia. O


Rio se prepara para sofrer mais algumas centenas de crimes ao longo de
24 horas. Outros nomes, outras histórias e a mesma violência (O Globo,
24/10/06, p.10).

O processo de atrelar o discurso jornalístico ao fato real está


totalmente comprometido com a espetacularização da existên-
cia. O real é transmitido através do espetáculo, relação social
mediada por imagens, que por sua vez se denomina como a re-
presentação irreal, o simulacro da realidade (Debord, 1997:15).
O filósofo francês nos provoca em seus aforismos, afirmando
que na sociedade contemporânea, em que há uma ampla disse-
minação dos meios de comunicação e de suas imagens, vivemos
um paradigma no qual tudo que “era vivido diretamente tornou-
se uma representação” (Idem, Ibidem:13).
Assim, apesar de se aproximar de estratégias de enunciação
da ficção, como a quebra da unidade espaço-temporal, um uso
um pouco mais elaborado da espacialidade das personagens e suas
ações, da figura do narrador emergindo do texto em alguns rápidos
momentos, a série “24 horas” repete majoritariamente as formas
de narrar do jornalismo hegemônico. Neste sentido, não há como

93
pensar essa série de reportagens sem considerar a constante cam-
panha que o jornal O Globo vem promovendo há alguns anos, que
consiste em exacerbar, de todos os meios cabíveis, que a cidade do
Rio de Janeiro vive na desordem e em meio a uma guerra. Esse
tipo de reportagem se propõe, analogamente, a estar na frente de
batalha, buscando narrar a violência tendo como respaldo uma ex-
periência, um empirismo.
Pergunto-me se essa experiência relacionada às conseqüências
da violência urbana carioca não indicaria mais explicitamente a
presença de um narrador? Mas a partir do momento em que tal
narrador se coloca em sincronia com outros espaços, tornando-se
um narrador pretensamente onipresente, que sentido de experiên-
cia tais reportagens podem nos proporcionar, senão o de um mapa:
uma redução totalitária, estática, que não se pretende dialética25. “A
violência como ela é” é uma forma de enunciar que submete todas
as experiências sociais a uma determinada visão panorâmica que
quer ser expressão perfeita, total e suficiente da realidade social.

25. “A totalidade é apenas um momento de um processo de totalização (conforme, já adver-


timos nunca alcança uma etapa definitiva e acabada). Afinal a dialética – maneira de pensar
elaborada em função da necessidade de reconhecer a emergência do novo na realidade hu-
mana – negar-se-ia a si mesma, caso se cristalizasse ou coagulasse suas sínteses, recusando-
se a revê-las, mesmo em face de situações modificadas” (Konder, 2000:39).

94
2 Os mapas do medo

2.1 A cidade e os mapas


Ao circularmos pelas ruas da cidade, que elementos nos
guiam? Essa é uma pergunta que normalmente não nos fazemos,
pois, como Walter Benjamin já atentara, o difícil não é se achar em
uma cidade, mas perder-se nela1. Os espaços urbanos estão carre-
gados de significados, de sentidos e de direções que normalizam a
circulação dos indivíduos. As placas com os nomes das avenidas,
praças e ruas criam caminhos pela cidade que podem ser percorri-
dos de diferentes maneiras e estilos. Mas há, inexoravelmente, um
mapa simbólico que opera fronteiras impalpáveis no cotidiano dos
habitantes. São formas discursivas que projetam caminhos a serem
seguidos, sejam eles concretos ou simbólicos.
É claro que estas trajetórias determinadas podem ser burladas
pela criatividade do homem comum no dia-a-dia, com as suas prá-
ticas desviacionistas e as suas inusitadas práticas do espaço, mas
não podemos negar que tais possibilidades são balizadas por estru-
turas mais amplas, instituídas no próprio imaginário da sociedade.
Há significações que são produzidas socialmente, por articulações
diversas, em vários setores, sendo os meios massivos importantes
lugares de produção desses significados.

1. “Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade,
como alguém se perde numa floresta, requer instrução” (Benjamin, 1995:73).

95
Ao apontarmos tal questão, precisamos olhar para a cidade não
por análises que privilegiam somente os aspectos funcionais2. Para
indagar-nos sobre os guias dos cidadãos, é preciso pensar a cidade
como linguagem, como nos propõe Nestor Canclini:

A problemática urbana como uma tensão entre realização e expres-


sividade tem levado a pensar as sociedades urbanas também como
linguagem. As cidades não são somente um fenômeno físico, um
modo de ocupar e um espaço de aglomeração, mas, também, lugares
onde ocorrem fenômenos expressivos que entram em tensão com a
racionalização, com as pretensões de racionalizar a vida social. Tem
sido sobretudo as indústrias culturais da expressividade, como cons-
tituintes da ordem e das experiências urbanas, as que têm tematizado
esta questão (Canclini, 1997:72) [tradução livre].

Assim, há atributos da cidade que fogem à racionalização,


esta que está presente na idéia de urbanização3, e só podem ser
alcançados por outro viés. A expressividade é uma das formas
de tornar explícito aspectos que são calados quando o “estatuto
da técnica” prevalece como única possibilidade. O imaginário
urbano, nesta perspectiva que abordamos, é esse conjunto de

2. Para definir os aspectos funcionais, poderíamos, por analogia, lançar mão da técnica em-
pregada na produção de mapas para sistemas GPS (Global Positioning System/ Sistema de
Posicionamento Global) de localização urbana, muito utilizado em automóveis atualmente.
Cartógrafos e geógrafos, já de posse de mapas gerados por satélites, percorrem as ruas dos
locais que estão sendo inseridos no sistema de navegação. O objetivo é anotar as variantes
dos atributos que estão em avaliação. Cada mapa digital pode ter mais de 260 atributos atu-
alizáveis, tais como sentidos do tráfego, faixas de rolagem, velocidade máxima permitida,
cruzamento em nível, numeração lado par e lado ímpar, presença de pontos de interesse (os
chamados na sigla em inglês POI) etc.

3. No prefácio da edição brasileira de Imaginários urbanos, Armando Silva argumenta: “Este


livro narra por diferentes vias uma relação estética entre cidadãos e cidade, e que, se hoje
estamos diante de um fenômeno novíssimo, que é a não-correspondência entre cidade e
urbanismo, pois o urbanismo excede o arcabouço citadino, os imaginários aparecem como
uma estratégia (precisamente mais temporal que espacial), para dar conta de processos ur-
banizadores que não são só manifestações de uma cidade, mas também do mundo que a
urbaniza. Enquanto a cidade concentra multidões de cidadãos em limites geográficos mais
ou menos precisos e territoriais, o urbano vem de fora para romper os limites físicos, da
cidade e, de certa forma, desterritorializá-la. O urbano, assim entendido, corresponderia a
um efeito imaginário sobre tudo isso que nos afeta e nos concebe para fazer-nos cidadãos do
mundo: os meios de comunicação, a internet, os sistemas viários, as ciências, a arte, e, enfim,
as tecnologias” (2001:X).

96
significações que não cessa de ser recriado cotidianamente atra-
vés de narrativas e imagens que dão sentido às práticas e, por
vezes, abrem um caminho para elas.
A cidade é esse “lugar” privilegiado de constituição do sim-
bólico: este que inexoravelmente cria diferenciações, separações e
fronteiras que só existem nas formas expressivas, na linguagem, na
narração. Essas fronteiras, que não se comportam de forma estática,
são formas de dar significado ao espaço urbano. A fluidez que estas
apresentam vem da própria forma de falar da cidade: as formas de
enunciar, articular e, se formos mais longe, de balizar significados.
A idéia de mapa, então, nos parece de grande valia para que
possamos mobilizar todo esse aspecto relacionado ao imaginário
urbano, pois o mapa nos remete ao olhar que preza por demarca-
ções, distinções, contrastes, que, com a ajuda da técnica, dão um
sentido macro ao espaço micro que é percorrido pelos cidadãos no
cotidiano. Além disso, pelos significados que carrega, o mapa é fer-
ramenta de conhecimento, algo que privilegia a visão em detrimen-
to da prática do espaço.
No entanto, sabemos que há outras cartografias que guiam
os habitantes. Essas são o que poderíamos chamar de mapas re-
ceptivos, que ganham significados no imaginário social através
das atividades expressivas ligadas ao cotidiano, como é o caso das
mensagens veiculadas nos meios de comunicação massivos. Essas
atividades fazem parte de uma economia de relatos que expressam
as percepções da cidade. É através desses processos de reconheci-
mento, de seleção e de expressão que o espaço urbano vai sendo
construído no imaginário social.
O habitante de uma cidade, por exemplo, ao contrário de um
turista ou um estrangeiro, não precisa de um mapa para se locomo-
ver e lê-la. Ele pratica o espaço tendo como guia o seu mapa recep-
tivo acumulado, que se confunde com a sua própria experiência.
Quando falamos em mapas receptivos, queremos suscitar que há
certos significados que só podem ser lidos quando há uma vivência,
quando o caminhante percorre cotidianamente os labirintos que as
ruas parecem formar e, conseqüentemente, acaba por se apropriar,
seletivamente, da cidade.

97
Em todas as cidades, seus habitantes têm maneiras de marcar seus ter-
ritórios. Não existe cidade, cinzenta ou branca, que não anuncie, de al-
guma forma, que seus espaços são percorridos e denominados por seus
cidadãos. Teríamos, desse modo, pelo menos dois grandes tipos de es-
paços a reconhecer no ambiente urbano: um oficial, projetado pelas ins-
tituições e feito antes que o cidadão o conceba à sua maneira; outro que
[...] proponho chamar de diferencial, que consiste numa marca territorial
usada e inventada na medida em que o cidadão o nomeia ou inscreve.
Haverá muitas e variadas combinações entre um e outro pólo; a noção
de limite pode ser útil para compreender que aquilo que separa o espaço
oficial do território é uma fronteira descoberta por quem ultrapassa as
suas margens. Isto é, porque existe o limite. Acreditamos que se possa
aceitar que algo separa o que nos é dado daquilo de que nos apossamos
(Silva, 2001:21).

Os mapas parecem ser, como suscitamos anteriormente, uma


chave de análise importante ao trabalharmos com a problemática
dos imaginários urbanos, ainda mais quando a proposta é fazer
uma leitura deste imaginário – que é criação expressiva incessante
– em relação aos medos da violência urbana. As cartografias, tanto
a receptiva quanto a que resulta em mapas materiais que guiam os
turistas ou os aparelhos de GPS, por exemplo, são escritas defini-
doras de fronteiras e limites4. No âmbito simbólico, os mapas pro-
movem a criação de fronteiras identitárias: dinâmicas do dia-a-dia
que são nutridas de conflitos e tensões. No âmbito da descrição dos
territórios, ou seja, no conjunto de estudos e operações científicas,
técnicas e artísticas que orientam os trabalhos de elaboração de car-
tografias, os mapas determinam fronteiras geográficas oficiais e po-
líticas, que não deixam de ser ao mesmo tempo físicas e mentais.
Em sua forma final, aquela que é visível, o mapa contemporâneo
não nos deixa ver os andaimes que possibilitaram sua construção.

4. As concepções de fronteira e de limite são, aqui, equivalentes e sugerem aquilo que


Armando Silva formulou: “Quando falo em limite quero apontar um aspecto não só
indicativo mas também cultural. O uso social marca as margens dentro das quais os
usuários “familiarizados” se auto-reconhecem e fora das quais se localiza o estrangeiro
ou, e outras palavras, aquele que não pertence ao território. Reconhece-se um territó-
rio precisamente em virtude da “visita” do estrangeiro, que sob diversas circunstâncias
deve ser-indicado fora do campo respectivo. Cumpre dizer que em nosso vocabulário
o território ‘territorializa-se’ na medida em que estreita os seus limites e não permite
(sobretudo exclui) a presença estrangeira” (Silva, 2001:19).

98
O produto da cartografia moderna é um tipo de representação que
atravessa os lugares e sai ilesa, sem marcas aparentes dos lugares
por onde passaram5, pois trabalham com uma linguagem que se
quer franca e universal, sem marcas do local. Obviamente, não po-
demos deixar de salientar que, de fato, os lugares são a própria pos-
sibilidade dessas representações, e é aí que é imperativo salientar o
artifício contraditório que a cartografia mobiliza, já que os mapas
– com suas regras de escrita – têm como característica esse olhar
distanciado, que apaga detalhes, itinerários e práticas de espaço:
uma negação da experiênica in loco. Os produtos cartográficos são
a consubstanciação da ficção de um olhar-total, uma ficção que é,
decerto, a ação de imaginar através de um ponto único e que se
quer verdadeira ou em fiel relação com o referente, como é próprio
da técnica pictórica da perspectiva (ou seja, a projeção em uma su-
perfície bidimensional de um determinado fenômeno tridimensio-
nal). Vejamos o que Michel de Certeau formula em relação a essa
“vontade de ver de cima”.
Este pensador francês, toma como exemplo os movimentos
pedestres em oposição aos mapas, argumentando que aqueles são
ações concretas, e que acabam por construir a cidade. Nós não
conseguimos localizá-los, pois eles se espacializam, ou seja, são as
táticas6 dos indivíduos sendo praticadas em um espaço. Essas ope-
rações de camadas podem ser traçadas em um mapa: transcrição

5. Ao descrever imagens de um viajante em um trem, Michel de Certeau nos fala sobre as condi-
ções para que alguma coisa circule nos diferentes espaços. A bolha da ordem panóptica atravessa
os espaços heterogêneos e consegue se manter independente das raízes locais, ou seja, as raízes
de onde está sendo reterritorializado. Trata-se do próprio movimento de desterritorialização, ou
seja, uma ordem que consegue atravessar características locais. Assim é definido o poder panóp-
tico. É o poder da imobilidade e da estabilidade da ordem. “Só viaja uma célula racionalizada.
Uma bolha do poder panóptico e classificador, um módulo do isolamento que torna possível
a produção de uma ordem, uma insularidade fechada e autônoma, eis o que pode atravessar o
espaço e se tornar independente das raízes locais” (2005:193).

6. Michel de Certeau propõe uma diferenciação entre os conceitos de tática e estratégia. “Com
respeito às estratégias, chamo de tática a ação calculada que é determinada pela ausência de um
próprio. A tática joga com o terreno que lhe é imposto, que é organizado pela lei de uma força es-
tranha. Ela não tem meios de se manter a uma distância que proporcione a previsão: a tática é mo-
vimento dentro do campo de visão do inimigo, como dizia Von Büllow, e no espaço por ele (...)

99
dos caminhos trabalhados e trajetórias seguidas. No entanto, estas
planificações da caminhada pela cidade deixam escapar o que pas-
sou, ou seja, o próprio ato de passar: o instante. A experiência se
reduz a algumas setas em meio a mapas, retirando todo e qualquer
grau de complexidade dessas trajetórias.

A operação de andar, perambular, ou “ver vitrines”, isto é, a atividade dos


passantes, transforma-se em pontos que traçam uma linha totalizante e
reversível no mapa [...] Visível em si, [o mapa; a superfície da projeção]
tem o efeito de tornar invisível a operação que a possibilitou. Essas fi-
xações constituem procedimentos para o esquecimento. O traço que se
deixou para trás é substituído pela prática. Ele exibe a propriedade (vo-
raz) que o sistema geográfico tem de ser capaz de transformar a ação em
legibilidade, mas ao fazê-lo provoca o esquecimento de uma maneira de
ser no mundo (Certeau, 1994:29).

Desse modo, o mapa, ou seja, o olhar fotográfico-panorâmico,


acaba por tornar invisível toda a caminhada que o possibilitou. Re-
tira-se da representação toda a complexidade de olhar “por baixo”,
ao rés do chão. É o mesmo tipo de operação que ocorre ao olhar-
mos a cidade do alto de um arranha-céu. O olhar cartográfico quer
tornar tudo legível, afastando-se, assim, de entender o mundo pelas
práticas, pelas ações.
A questão do “legível”, que também foi desenvolvida por Ro-
land Barthes (1992:38), é importante na medida em que tratamos o
mapa como texto. A alternativa ao legível é o escrevível, que é um
valor, algo que deve ser prezado. Entre o legível e o escrevível está

(...) controlado. Ela não tem, portanto, a possibilidade de dar a si mesma um projeto global nem
de totalizar o adversário num espaço distinto, visível e objetivável [...] Ela aproveita as ‘ocasiões’ e
delas depende, sem base para estocar benefícios, aumentar a propriedade e prever saídas. O que
ela ganha não se conserva” (Certeau, 2005:100). “As estratégias são, [por outro lado], ações que,
graças ao postulado de um lugar de poder (a propriedade de um próprio), elaboram lugares teó-
ricos (sistemas e discursos totalizantes), capazes de articular um conjunto de lugares físicos onde
as forças se distribuem. Elas combinam esses três tipos de lugar e visam dominá-los uns pelos
outros. Privilegiam, portanto, as relações espaciais. Ao menos procuram elas reduzir a esse tipo, as
relações temporais pela atribuição analítica de um lugar próprio a cada elemento particular e pela
organização combinatória dos movimentos específicos a unidades ou a conjuntos de unidades. O
modelo para isso foi antes o militar que o científico” (Certeau, 2005:102).

100
o leitor, o cidadão, aquele que vive a cidade. Portanto, enquanto
apenas legível, a relação do leitor com o texto é a de consumidor. De
outro modo, enquanto escrevível, o leitor é um produtor do texto.
O objetivo desta forma de construir um saber (o legível), que
Certeau e Barthes criticam severamente, é tornar o mundo apre-
ensível por um ponto de vista único. Isso quer dizer que há uma
centralização no texto legível. Essa hierarquia pretende minimizar
a função do leitor em sua relação com o texto. Em outras palavras,
de acordo com essa perspectiva, há um significado no texto que é
anterior à própria leitura. O texto legível é, então, uma aspiração de
totalidade, pois ignora a inexorável precariedade e parcialidade de
qualquer discurso. Só que o cotidiano não está aí nessa totalização,
o cotidiano está no chão, nos detalhes que se proliferam nas manei-
ras de fazer, de agir e de se apropriar dos textos (escrevível).
Em sua forma final, aquela que é visível, o mapa contempo-
râneo não nos deixa ver os andaimes que possibilitaram sua cons-
trução. O produto da cartografia moderna é um tipo de represen-
tação que atravessa os lugares e sai ilesa, sem marcas aparentes dos
lugares por onde passaram7, pois trabalham com uma linguagem
que se quer franca e universal, sem marcas do local. Obviamen-
te, não podemos deixar de salientar que, de fato, os lugares são a
própria possibilidade dessas representações, e é aí que é imperativo
salientar o artifício contraditório que a cartografia mobiliza, já que
os mapas – com suas regras de escrita – têm como característica
esse olhar distanciado, que apaga detalhes, itinerários e práticas de
espaço: uma negação da experiênica in loco. Os produtos carto-
gráficos são a consubstanciação da ficção de um olhar-total, uma

7. Ao descrever imagens de um viajante em um trem, Michel de Certeau nos fala sobre as


condições para que alguma coisa circule nos diferentes espaços. A bolha da ordem panóptica
atravessa os espaços heterogêneos e consegue se manter independente das raízes locais, ou
seja, as raízes de onde está sendo reterritorializado. Trata-se do próprio movimento de des-
territorialização, ou seja, uma ordem que consegue atravessar características locais. Assim é
definido o poder panóptico. É o poder da imobilidade e da estabilidade da ordem. “Só viaja
uma célula racionalizada. Uma bolha do poder panóptico e classificador, um módulo do isola-
mento que torna possível a produção de uma ordem, uma insularidade fechada e autônoma, eis o
que pode atravessar o espaço e se tornar independente das raízes locais” (2005:193).

101
ficção que é, decerto, a ação de imaginar através de um ponto
único e que se quer verdadeira ou em fiel relação com o referen-
te, como é próprio da técnica pictórica da perspectiva (ou seja, a
projeção em uma superfície bidimensional de um determinado
fenômeno tridimensional).
Não obstante, se a questão aqui é propriamente a produção de
um imaginário social do medo, que mapas estão presentes nessas
representações cotidianas da violência na imprensa de massa? O
que propomos, aqui, é uma análise dos mapas como escritas produ-
toras de significado do imaginário urbano, por isso, os mapas serão
tomados por sua potencialidade de organização de um imaginário
do medo, como forma expressiva, e, também, como vocabulário
que é utilizado para dar sentido às inúmeras violências – relaciona-
das majoritariamente, na imprensa, à idéia de criminalidade – que
são praticadas nas metrópoles contemporâneas.
Partimos da idéia de que essas representações influenciam as
práticas cotidianas das pessoas, que, por exemplo, praticam seus
itinerários de acordo com um mapa simbólico construído, inces-
santemente, por narrações que dão sentido aos elementos que com-
põem a cidade.

Cada cidade tem seu próprio estilo. Se aceitamos que a relação entre coi-
sa física, a cidade, sua vida social, seu uso e representação, suas escrituras,
formam um conjunto de trocas constantes, então vamos concluir que
em uma cidade o físico produz efeitos no simbólico: suas escrituras e
representações. E que as representações que se façam da urbe, do mesmo
modo, afetam e conduzem seu uso social e modificam a concepção do
espaço (Silva, 2001:XXIV).

Podemos visualizar melhor o que estamos expondo aqui ao


propormos, por exemplo, a idéia de um mapa da violência, que,
conseqüentemente, é também um mapa do medo. Com o cresci-
mento do número de crimes violentos no Brasil, principalmente a
partir da década de 1980, uma série de novas estratégias que simu-
lam proteção e segurança foram colocadas em prática. A constru-
ção de muros, como aponta a antropóloga Teresa Caldeira (2003),
foi a mais emblemática dessas reformulações do espaço urbano.

102
A autora elabora argumentos em torno da crescente segrega-
ção espacial que vem ocorrendo na cidade de São Paulo (e, também,
em outras metrópoles do mundo), levantando questões, sobretu-
do, em relação aos discursos que falam da violência e o que esses
discursos têm a explicar ou atestar sobre uma reconfiguração do
espaço público brasileiro. Além disso, a tese elaborada tenta anali-
sar o processo de redemocratização no Brasil pelo viés dos direitos
civis, mostrando como a violência e a utilização da força de forma
não-oficial ou privada sempre estiveram presentes na ordem social
do país. A democracia, da forma como se configurou no Brasil, é
caracterizada como disjuntiva, ou seja, como uma ordem social ex-
plicitamente segregada.
Segundo Caldeira, essas estratégias de proteção e reação em
relação à violência têm conseqüências em dois âmbitos principais:

Tanto simbólica quanto materialmente, essas estratégias operam de for-


ma semelhante: elas estabelecem diferenças, impõem divisões e distân-
cias, constroem separações, multiplicam regras de evitação e exclusão e
restringem os movimentos. Muitas dessas operações são justificadas em
conversas do dia-a-dia cujo tema é o que chamo de fala do crime. As
narrativas cotidianas, comentários, conversas e até mesmo brincadeiras
e piadas que têm o crime como tema contrapõem-se ao medo e à expe-
riência de ser uma vitima do crime e, ao mesmo tempo, fazem o medo
proliferar (Caldeira, 2003:9).

A proliferação do medo como fantasma da cidade está inti-


mamente ligada a esse avanço estatístico da violência nas metró-
poles brasileiras, pois a violência relacionada com o crime tem
a potencialidade de acumular uma tensão que, por vezes, não é
liberada através do sistema de compensações do Estado (sistema
judiciário), mas somente pelos relatos das vítimas. Quando as
tensões são fortes, as falas se disseminam rapidamente, criando
um contágio que estimula o fantasma urbano8, ainda que, em
grande parte, através de boatos9.

8. “Chamo fantasma urbano àquela presença indecifrável de uma marca simbólica na cidade, vi-
vida como experiência coletiva, por todos os seus habitantes ou uma parte significativa deles (...)

103
A partir desta formulação, concluímos que o medo se dissemi-
na, muito em parte, pelo ato de narrar. É o relato que o faz circular
pela cidade ou pelo mundo, com fundamentos concretos ou não.
O medo toma carona nos meios de transporte – os relatos –, de que
nos fala o historiador francês Michel de Certeau, atravessando e
organizando lugares. Essas narrativas do cotidiano, sejam elas orais
ou mesmo as disseminadas massivamente pelos meios de comu-
nicação, são por onde os significados são produzidos, e por onde
articulações simbólicas influem nas práticas sociais.
Nesse sentido, esses relatos são como mapas, que guiam os tu-
ristas e motoristas pelas ruas desconhecidas, organizando os lugares e
sugerindo significados tanto através de suas linhas, como também por
seus ícones e pela escrita que geralmente os acompanham10. Mas, se
concluímos que os relatos organizam lugares, então, que tipo de orga-
nização e de práticas geram os relatos da violência urbana?
Em reportagem do dia 05/11/06, intitulada “As cicatrizes da
violência” o jornal O Globo, utilizando a rubrica da série “A guerra
do Rio” (que será abordada mais à frente neste trabalho), mostra
o resultado de uma pequena pesquisa feita com sessenta pessoas,
dentre especialistas em segurança, representantes de setores da
economia, vítimas e pais, que definiram trinta e cinco hábitos do

(...) através da qual nasce ou se vive com uma referência de caráter mais imaginário do que de
comprovação empírica. Ou seja, na vida cidadã existem fatos, idéias ou projetos que dão maior
margem para a produção imaginária que outros” (Silva, 2001:55).

9. “O boato, ao conectar uma lógica possível ao acontecimento, tem base para ser aceito,
pois dá-se quando existe uma boa disposição para crer. A base para que um boato cresça
é que seja possível, porém quando o grupo social permanece alterado emocionalmente
muitas coisas impossíveis podem parecer fatalmente possíveis. Eis a chave do problema.
E na busca da sua simbologia há quem proponha a analogia do boato com o comporta-
mento deformador e de produção em cadeia dos chistes, as autobiografias, os testemu-
nhos ou as legendas” (Silva, 2001:51).

10. A empresa Navteq, que produz mapas baseados em GPS, optou pro classificar as fa-
velas da cidade do Rio de Janeiro como áreas de “baixa mobilidade”, o que determina que
a sugestão de itinerário nunca passe por tais localidades. Quando se aproxima de uma
região dessas, o usuário recebe a orientação de contornar a área. Na prática, uma área de
“baixa mobilidade” nunca aparece como meio para se chegar a um fim.

104
cotidiano que mudaram, por causa do medo da violência, em com-
paração com o começo da década de 1980, justamente a década que
se tornou o marco do avanço da violência entre alguns pesquisado-
res da área11. A reportagem começa com o seguinte texto:

Cantado em 1962 por Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal no “Barqui-


nho”, clássico da bossa nova, o Rio foi deixando aos poucos de ser sim-
plesmente um lugar de paz e de dias tão azuis. A Cidade Maravilhosa se
transformou no “Rio 40 graus” – o purgatório da beleza e do caos, retra-
tado por Fernanda Abreu na década de 90 – e aderiu aos “proibidões” do
funk, que cultuam o tráfico de drogas. A violência, que marcou o Rio so-
bretudo nos últimos 25 anos, deixou profundas cicatrizes físicas, na eco-
nomia e no comportamento dos cariocas (O Globo, 05/11/06, p.19)12.

As mudanças no cotidiano da cidade foram divididas em qua-


tro categorias: urbanísticas, físicas e comportamentais, além de
outras dezessete mudanças variadas.13 A ênfase é em relação aos

11. A antropóloga Alba Zaluar é uma das que defendem a idéia do avanço da violência nas gran-
des cidades brasileiras, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, a partir da década de
1980. Cf. Zaluar, 2006.

12. Essa visão de uma “escalada da violência” é, também, utilizada por Zuenir Ventura em seu
livro Cidade partida (1994), que narra a disseminação da violência na cidade do Rio de Janeiro,
ao longo do século XX, até o episódio que ficou conhecido como a “Chacina de Vigário Geral”,
no começo da década de 1990.

13. As trinta e cinco mudanças listadas pelo jornal são, em ordem: (1) noites vazias; (2) uso de táxi
e van para levar e buscar jovens em festas à noite; (3) maioria dos bares e restaurantes começa a
fechar às 23h30; (4) a troca do carro por táxis de cooperativas principalmente à noite; (5) guaritas
(mais recentemente blindadas) e cancelas; (6) câmeras por todos os cantos; (7) intensificação do
uso de grades; (8) blindagem de janelas, paredes e portões; (9) cercas eletrificadas; (10) crianças
deixam de brincar na porta de casa, mesmo nos subúrbios; (11) carros com alarme; (12) insulfim
nos carros; (13) blindagem de carros; (14) GPS em veículos; (15) crescimento de entregas à domi-
cílio; (16) entregadores deixaram de subir Santa Teresa após às 18h; (17) aumento da segurança
privada nas ruas e portas de lojas; (18) sensor de presença; (19) identificação eletrônica por car-
tão, placa de carro e até por digitais nos novos condomínios; (20) vaga de alerta de segurança em
condomínios; (21) expansão de shoppings; (22) surgimento de mais condomínios fechados; (23)
barricadas nos acessos de favelas; (24) câmeras em ônibus; (25) implantação de clubes em condo-
mínios e fechamento de clubes tradicionais; (26) de madrugada, farmácias passaram a atender por
uma janela blindada; (27) indústrias e estabelecimentos comerciais fecharam ou deixaram o Rio;
(28) proliferação de portas giratórias em bancos; (29) curso de segurança para porteiros; (30) (...)

105
dispositivos de segurança que se tornaram itens imprescindíveis no
dia-a-dia; ademais, há pontuações em relação aos modos de transi-
tar pela cidade. As mudanças comportamentais surgem, em grande
parte, pelo imaginário do medo, recriado e repetido massivamente
todos os dias. Essas narrativas afetam as próprias práticas sociais,
como as listadas nessa pequena pesquisa realizada pelos jornalistas
do periódico O Globo.
Há marcas precisas de ruptura que são representadas através da
elaboração de pequenos detalhes que, em conjunto, são articulados
de forma a criar sentidos ordenadores das mudanças na sociedade
carioca. A “escalada da violência” é tida como um processo traumá-
tico que possibilita a escrita de uma história por duas demarcações
temporais: um “antes” e um “depois”. Essa simplificação é um re-
curso retórico utilizado em muitos dos discursos que produzem a
guerra de relatos14 do cotidiano, inclusive, o próprio discurso jorna-
lístico. A divisão mencionada é uma tentativa de produção de fron-
teiras simbólicas que delimitam um “bem” e um “mal”, estrutura
muito comum nas reflexões sobre a violência urbana. A conseqü-
ência mais imediata dessa forma de narrar os crimes é a produção,
como mencionamos anteriormente, de uma fantasmagoria15.
Esse fantasma, que não é da ordem do visível, do totalizável, é uma
forma compartilhada de vivenciar a cidade (uma imaginário urbano),
e ele é, em grande parte, nutrido, no mundo contemporâneo, pelos

(...) ter celular, carteira e até bolsa para o ladrão; (31) ida à praia só de roupa de banho; (32) uso do
celular para monitorar os filhos; (33) depois de 20h, táxis evitam Linha Amarela, Avenida Brasil,
Túnel Zuzu Angel e Avenida Martin Luther king Jr.; (34) criação de códigos para familiares a fim
de identificar falsos seqüestros-relâmpagos; (35) saídas nas ruas à noite só em grupos.

14. Expressão utilizada por Michel de Certeau: “A cidade é o teatro de uma guerra de relatos,
como a cidade grega era o campo fechado de guerras entre os deuses. Entre nós, os grandes
relatos da televisão ou da publicidade esmagam ou atomisam os pequenos relatos das ruas
ou de bairros” (1994:203) [tradução livre].

15. “Será fantasmagórica qualquer cena que represente uma produção social do fantasma. O
cenário de fundo corresponde à cidade e sua realização, como ente fantasioso que afeta uma
conduta cidadã: corresponde ao efeito imaginário sobre o acontecer cotidiano da cidade”
(Silva, 2001:55).

106
relatos massivos. Dessa maneira, nossa perspectiva se propõe a foca-
lizar a questão da violência urbana e a analisar o fantasma do medo
que é socialmente vivenciado pelas percepções coletivas que temos
do espaço urbano. Destarte, quando falamos de percepções, inexora-
velmente mobilizamos a relação entre o imaginário e o simbólico: o
imaginário é manifestado, em linhas gerais, pelo simbólico, por aquilo
que expressa e ativa significados através da linguagem, do texto, das
imagens, da conversa, enfim, dos relatos de uma maneira geral.
O medo se dissemina, também, em outro âmbito, por essas
práticas de vigilância maquínica, em que câmeras e dispositivos
variados tentam suprir a “segurança perdida” (em referência ao
“antes” que mencionamos anteriormente), simulando e narrando
um porto seguro nos lugares privados em que as classes abastadas
circulam. O espaço público torna-se, de forma acentuada, o lugar
do encontro com o medo. Os desconhecidos da multidão tornam-
se criminosos em potencial16.
Dentre os relatos que compõem a reportagem “Cicatrizes da
violência”, destacamos uma inusitada narração em relação às mu-
danças de comportamento:

Vítima várias vezes de assaltantes, a professora aposentada Helena Mo-


reira, de 62 anos, resolveu criar seus próprios meios de defesa. Ela tem
até a bolsa do ladrão, que põe no banco do carona de seu carro. Nessa
bolsa coloca celular quebrado, carteira com alguns trocados, guarda-
chuva, batom, papéis e um tíquete do metrô. A bolsa com documentos,
dinheiro e cartões fica escondida sob o banco. – Saio preparada para o
ladrão – contou ela, que tem moedas no console, e notas no pára-sol do
carro, para entregar a pedintes que possam oferecer perigo (O Globo,
05/11/06, p.19).

Uma declaração como essa é indício de que a narração da vio-


lência pelos meios de massa – que é um importante contribuinte na
produção do imaginário social – sugere que a idéia de medo é uma

16. É preciso ressaltar, contudo, que, em grande parte, o estereótipo do bandido que é produzido
pelas imagens veiculadas na imprensa tem conotações de classe social.

107
forma de produzir subjetividades, ou melhor, uma forma de con-
trole social através de instâncias do imaginário. A maneira como se
narra a violência, as linguagens utilizadas, as escolhas realizadas, as
maneiras como essas narrativas chegam às pessoas são fundamen-
tais para entendermos a produção de uma realidade medonha.
Além disso, tal declaração nos fornece a referência de mapa
em relação ao imaginário do medo. A idéia de que a cidade é o
habitat do perigo e que é preciso mapear mentalmente os “lugares
perigosos” não vem somente da experiência da violência. Essa ex-
periência pode, de fato, produzir traumas, mas não podemos negar
que a repetição cotidiana das narrativas da violência e do medo
nos meios jornalísticos de massa são grandes formatadores e in-
centivadores da imagem da cidade em estreita relação com a peri-
culosidade extrema. Narrar os crimes não é uma prática somente
expressiva, mas, também, produtiva, pois têm essa conexão com as
práticas sociais.

O medo e a fala do crime não apenas produzem certos tipos de inter-


pretações e explicações, habitualmente simplistas e estereotipadas, como
também organizam a paisagem urbana e o espaço público moldando o
cenário para as interações sociais que adquirem novo sentido numa ci-
dade que progressivamente vai se cercando de muros. A fala e o medo
organizam as estratégias cotidianas de proteção e reação que tolhem os
movimentos das pessoas e restringem seu universo de interações (Cal-
deira, 2000:27).

Assim, o medo como fantasma urbano vem sendo mobilizado


incessantemente pelos meios de comunicação, gerando uma dis-
seminação que pode ser definida como contágio social. Práticas
que visam a segurança privada vão se espalhando e modificando
o espaço urbano tanto materialmente como no imaginário social.
A conseqüência desse avanço, no entanto, parece ser uma intensi-
ficação do conflito e uma evidente apologia de um espaço público
não-democrático, pois o medo passa a ser a linguagem utilizada
para justificar ações autoritárias.

108
Nesse caso, quando analisamos tanto os mapas quanto os re-
latos, estamos em busca das conseqüências dessas expressões do
imaginário urbano e, logo, da organização do espaço público. Nis-
so, não podemos deixar de mencionar, há uma idéia política que faz
do medo uma defesa e, ao mesmo tempo, uma arma de ataque.

2.2 Geografia da violência


Se no capítulo anterior tratamos de uma série de reportagens
que enfatizava um sentido temporal ao narrar a violência e o medo
na cidade, agora, seguimos com outra série que, em outro sentido,
aponta para a questão espacial-geográfica. No esforço jornalístico
de representar a cidade pela ótica da violência, tendo como con-
seqüência a produção de um imaginário do medo, as notícias se
repetem ao mesmo tempo em que se diferenciam: são repetitivas ao
representar o espaço público como o lugar da violência, da insegu-
rança e do medo; e são diferenciadas ao narrar os mesmos temas de
formas diferentes, com outras histórias, outras personagens.
O objetivo de nossa análise, então, não é propriamente buscar
as estruturas das formas de narrar o cotidiano da cidade, mas, sim,
identificar e analisar as relações que são estabelecidas para a produ-
ção dos sentidos da violência quando narrada nos periódicos mas-
sivos aqui pesquisados. A produção de sentido é, assim, o próprio
ato de articular, de estabelecer relações.
Por essa perspectiva, nos colocamos no papel de leitor anacrôni-
co – na medida em que lemos os jornais fora de suas especificidades
cotidianas (cronologia, fragmentação e periodicidade diária) – crian-
do, dessa forma, uma distância mais apurada em relação ao que se lê.
Abordaremos, neste capítulo, a série “Geografia da violência”, que foi
publicada no jornal O Globo, entre os dias 14 e 20 de maio de 2006.
Essa reportagem especial é baseada nos resultados de uma pes-
quisa realizada em 2006 pelo Centro de Estudos de Segurança e

109
Cidadania17 (Cesec), da Universidade Cândido Mendes, que pro-
duziu uma “Geografia da violência na região metropolitana do Rio
de Janeiro”18, através da análise de registros de ocorrência da Polícia
Civil, divulgados pela Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro
entre 2000 e 2005.
Para tecer, estatisticamente, a geografia da violência na Re-
gião Metropolitana, diante das poucas fontes disponíveis para
pesquisas de tal natureza, o grupo de pesquisadores do Cesec
utilizou sete variáveis relacionadas à violência urbana, sendo es-
tas variáveis divididas em:

crimes violentos contra a pessoa: (1) homicídios dolosos e


(2) lesões corporais dolosas;
crimes violentos contra o patrimônio: (3) roubo de veícu-
lo, (4) assalto a transeunte, (5) assalto a residência, (6) assalto em
transporte coletivo;
indicador de violência policial: (7) autos de resistência –
que registram mortes de civis pela polícia.

De forma complementar, foi utilizada a razão roubos/furtos de


automóveis como método para medir o “teor” de violência utiliza-
do com o mesmo fim, que, no caso, é a subtração do veículo, em
cada uma das regiões do Estado. Essas categorias foram definidas
pelo Cesec como a melhor forma de aferir os índices espaciais/geo-
gráficos da violência no Rio de Janeiro.
Partindo desses dados e de artigos publicados em decor-
rência deste estudo, a editoria Rio do jornal O Globo lançou
uma série de reportagens veiculando uma região da cidade a
cada dia. Em ordem cronológica, as seis regiões focalizadas fo-
ram: Zona Sul, Centro, Barra da Tijuca, Zona Norte, Niterói /
São Gonçalo e Vias expressas (Avenida Brasil, Linha Vermelha,
Linha Amarela). No sétimo dia da série, o jornal publicou as

17. www.ucamcesec.com.br
18. www.ucamcesec.com.br/arquivos/publicacoes/boletim11web.pdf

110
soluções propostas por especialistas e autoridades em relação
aos problemas de segurança pública apontados pelos jornalistas
com base na pesquisa quantitativa e nos relatos de moradores e
comerciantes da cidade.
É importante ressaltar que o jornal O Globo encomendou a
pesquisa ao Cesec tendo uma estratégia de publicação já elaborada
antecipadamente, explorando a especificidade dos jornais de bair-
ro que são editados a cada semana como suplemento. No relatório
publicado no site do Cesec, os pesquisadores apontam as particu-
laridades e diferenças entre o projeto inicial e o que de fato foi pu-
blicado pelo jornal.

No início de 2006, por solicitação do jornal O Globo, agregamos as


circunscrições policiais em 10 zonas maiores, correspondentes grosso
modo às áreas cobertas pelos cadernos de bairro que o jornal publica
semanalmente: Baixada, Barra, Centro, Ilha, Niterói, Serra, Tijuca, Zona
Norte, Zona Oeste e Zona Sul. O objetivo era traçar o perfil da segurança
de cada área, a ser divulgado nos respectivos cadernos, e ao mesmo tem-
po ressaltar as diferenças entre as 10 áreas em reportagem a ser publicada
na Editoria Rio, na mesma semana, contendo dados comparativos e opi-
niões de especialistas no tema. [...] Por razões editoriais, esse projeto so-
freu várias mudanças e resultou em uma seqüência de matérias publica-
das na própria editoria Rio, sob o título geral de “Geografia da violência”,
contemplando apenas cinco das 10 áreas e apresentando, na reportagem
de abertura, alguns dos dados comparativos produzidos pelo CESeC (O
Globo, 14 a 18 de maio de 2006). Além das áreas cobertas pelos cadernos
Serra e Ilha, foram excluídas as da Baixada, da Zona Oeste e da região de
subúrbios que apelidamos de Zona Norte 2, justo aquelas que aparecem
nos primeiros lugares em quase todos os rankings de criminalidade e
violência. Entretanto, como repercussão a esse conjunto de matérias, os
cadernos O Globo Zona Oeste e O Globo Baixada chegaram a publicar
alguns dos dados específicos das áreas, respectivamente nos dias 21 e 28
de maio de 2006 (Musumeci; Silva; Conceição, 2006:2).

Desde a escolha das regiões que seriam publicadas até a pró-


pria ordem de veiculação destas ao longo da semana indicam uma
hierarquia. Ao excluir cinco regiões da pauta, de um total de dez,
fica evidenciado o tipo de seleção feita pelos editores. Há lugares e
regiões que deixam de fazer parte da cidade nesta série que tenta

111
produzir uma análise da violência. A Zona Norte 219 foi eliminada,
assim como a Baixada Fluminense, apesar de serem regiões com
alto índice de ocorrências criminais. Esses bairros também têm
pouca inserção nas notícias do cotidiano. Um crime que aconteça
em qualquer um desses bairros terá menos atenção que um crime
que ocorra da Zona Sul.
Essa hierarquia está presente também na ordenação da série. A
apresentação de “Geografia da violência”, no primeiro dia de publi-
cação, é acompanhada do mapa da Zona Sul. Nos dias subseqüen-
tes, conforme a série vai se repetindo, as reportagens vão ganhando
menos espaço e um menor destaque. Logo, as regiões que são nar-
radas nos primeiros dias são privilegiadas pelos jornalistas.
As reportagens desta série não são apenas uma ilustração dos
números aferidos na pesquisa, pois outras estratégias de enuncia-
ção são utilizadas. Em uma nota muito pequena ao pé do gráfico,
o jornal exibe sua fonte e diz: “O mapa da violência foi feito com
base em depoimentos de moradores e comerciantes e os números
dos crimes fazem parte de uma pesquisa do Centro de Estudos de
Segurança e Cidadania (Cesec), da Universidade Cândido Mendes”.
É importante ressaltar que a série funde o aparato estatístico com o
testemunho/fala do crime. São dois discursos que, na reportagem,
tornam-se complementares. O testemunho torna-se um pequeno
exemplo que repete, em uma escala micro, um modelo de violência
desenhado pela estatística e pela cartografia, que são escalas macro.
Em vários momentos da série, os números são associados a
algum caso que está sendo reportado.

Os roubos no Centro são freqüentemente presenciados por Maxwell


Pinheiro de Araújo, de 35 anos, zelador-chefe do edifício Claridge, na
Avenida Presidente Antônio Carlos. Somente na última quarta-feira ele
viu três assaltos, todos cometidos pelo mesmo ladrão. O rapaz roubava
celulares ou carteiras, fugia e depois voltava para o mesmo local. O relato
é um retrato fiel das estatísticas: de 1º de janeiro a 8 de maio deste ano,
ocorreram ali 89 roubos de celulares, de acordo com a Policia Civil (O
Globo, 15/05/06, p. 14).

19. Na pesquisa do Cesec, corresponde aos bairros Vila Kosmos, Vicente de Carvalho, Vila da Pe-
nha, Vista Alegre, Irajá, Colégio, Rocha Miranda, Honório Gurgel, Coelho Neto, Campinho, (...)

112
É preciso notar a função do jornalista enquanto narrador das
estatísticas. Há um esforço retórico para sugerir que o discurso
testemunhal corresponde a uma realidade que pode ser provada
pelos números e vice-versa. Os números brutos não dizem nada.
O que dá sentido a tais informações são as articulações que o texto
contém: o testemunho das vítimas da região, a fala do crime que
indicou os pontos de maior sensação de perigo e de medo, as fotos
e suas legendas, a formatação das reportagens como série descon-
tínua, a própria relação de repetição entre os testemunhos citados
na reportagem.
“Geografia da violência” é uma série fechada20 que promove
uma representação da violência de forma menos fragmentada, e
mais fundamentada em números estatísticos, estabelecendo carto-
grafias que simbolizam crimes em associação com uma idéia espe-
cífica de violência: crimes contra o patrimônio e contra a pessoa.
Indo além dos números, a reportagem pontua dezenas de ruas,
praças e esquinas “onde o perigo bate ponto”21, nomeando tipos di-
ferentes, por exemplo, de assaltos a transeunte. Através de relatos
de moradores e comerciantes de cada região, os textos ressaltam as
modalidades de assalto “saidinha de banco” e “tampar”, que, respec-
tivamente, consistem em: assaltar alguém que tenha acabado de sa-
car dinheiro de um banco; agredir a vítima com um tapa na orelha
para desnorteá-la e roubar-lhe a bolsa ou o telefone celular.

(...) Quintino Bocaiúva, Praça Seca, Cascadura, Cavalcanti, Engenheiro Leal, Madureira,
Vaz Lobo, Turiaçu, Oswaldo Cruz, Bento Ribeiro, Marechal Hermes, Acari, Barros Filho,
Costa Barros,

20. Neste trabalho, optamos por definir as séries de reportagens em abertas e fecha-
das, segundo o critério de planejamento e continuidade. As séries “A guerra do Rio”
e “Guerra Urbana” são, aqui, classificadas como abertas por não terem uma delimita-
ção antecipada do número de edições em que seriam veiculadas. As séries “24 horas”
e “Geografia da violência” foram planejadas para serem veiculadas ao longo de uma
semana, cada uma.

21. Título principal utilizado na reportagem da série na edição do dia 15/05/06.

113
Além das 40 mil pessoas que escolheram o Centro do Rio para morar, os
trabalhadores que diariamente freqüentam a área – coração financeiro
da cidade – também convivem com o perigo. Uma população circulante
de dois milhões, boa parte empregados de empresas localizadas no bair-
ro, não tem escolha e se expõe diariamente ao risco de assaltos, que estão
em primeiro lugar no ranking de crimes na região, e também a roubo
de celulares, ao golpe conhecido como “saidinha de banco” e a roubos e
arrombamentos de carros (O Globo, 15/05/06, p.14).

Apesar disso [grande número de assalto a transeuntes], os espe-


cialistas estão preocupados com outros crimes que também têm
crescido e com o fato de os bandidos usarem táticas cada vez mais
ousadas de ataque. Uma delas, por exemplo, é um tipo de roubo
de celular chamado de “tampar”, em que a abordagem da vítima é
mais violenta. Menores dão um tapa na orelha da pessoa quando
ela está ao telefone e pegam facilmente o aparelho que cai no chão.
O roubo de celulares está em segundo lugar entre os crimes mais
freqüentes no Centro: a média anual foi de 1.208 casos de 2000 a
2005 (O Globo, 15/05/06, p.14).

Assim, três elementos básicos estão presentes em “Geografia


da violência”: (1) os mapas (com seus ícones e legendas), (2) os re-
latos testemunhais que servem como concretizações dos ícones dos
mapas, e (3) a rubrica estilizada que cria uma diagramação especí-
fica para a série. Esses elementos serão tomados como instâncias
que possibilitam análises da sociedade através do imaginário, ou
seja, partiremos desta formas de enunciação para mostrar certos
aspectos que estão ligados à violência criminal no Brasil, mas que
não aparecem nesses mapas propostos pela série.
É preciso, então, mobilizar estes textos através de interpre-
tações que leiam não somente o visível que está na superfície do
mapa, mas os próprios andaimes que possibilitaram a construção
de tal tipo de representação. A importância disso é mostrar que a
perspectiva que privilegia o Estado penal e militarizado é aquela
que não propõe mudança alguma, mas apenas reage aos conflitos
que surgem no seio da sociedade através de uma apologia ao auto-
ritarismo, que marca a própria história do país.

114
2.3 Mapas
A idéia de mapa simbólico apresentada no início deste ca-
pítulo é uma referência ao processo de ordenação e significação
da violência no imaginário social urbano. A série “Geografia da
violência” surge, então, como uma explícita expressão da pro-
dução de fronteiras guiadas pelo medo da violência. A combi-
nação entre estatísticas e testemunhos produz uma idéia de um
real que pode ser comprovado em todos os sentidos (tanto pela
experiência pessoal quanto pela visão matemática) e, por isso, é
concebido como insuperável: não há nada além.
Essa “imanência” que está atrelada à idéia de cotidiano e de
cidade na repetição diária dos jornais pode ser lida através das
sínteses operadas na escrita cartográfica em sentido estrito. O
mapa, com a sua forma peculiar de escrita e de esquecimento,
opera seleções em que os elementos que não são representados
não deixam de ter significado. As ausências são, também, pro-
dutivas, pois possibilitam o surgimento de trilhas legíveis no la-
birinto da cidade.
Trazer à tona o caminho principal ou, ainda, aquele que deve
ser evitado dá ao mapa um caráter muito específico: ele é instru-
mento de prevenção. Munidos de uma carta geográfica, estamos
aptos a planejar uma caminhada e, somente pela leitura, afirmar e
negar caminhos que ainda serão trilhados.
Nesse sentido, nos mapas veiculados na série de reportagens
“Geografia da violência”, o que vemos não são apenas linhas bran-
cas, traçadas em contraste com um fundo escuro, que formam um
emaranhado de retas e curvas que não têm nenhuma relação estrei-
ta com qualquer coisa concreta.
A síntese cartográfica, ao contrário, é meio de enunciação
para formalizar uma definição: a violência, por estar espalha-
da e disseminada ao ponto de captarmos suas marcas através
de mapas, torna-se um estado crônico da sociedade. Desse
modo, o mapa funciona não só como representação de padrões
que se repetem, mas, também, como ferramenta de antecipa-
ção, de salvaguarda.

115
Espalhados pelas linhas, há ícones22 numerados que são descri-
tos por uma legenda: assalto a transeunte e roubo de celular; roubo,
furto de veículos e arrombamentos; assalto a estabelecimento co-
mercial; assalto em ônibus, assalto à residência; Delegacia de Po-
lícia, Quartel General da Polícia Militar. Além desses elementos,
alguns nomes de ruas e praças delimitam lugares: avenidas princi-
pais, estações de metrô.
Por essa perspectiva cartográfica, lemos a cidade pelas lentes
dos crimes violentos. As ruas perdem os nomes e deixam de nos
guiar, como nas caminhadas. Apagamos todas as nossas referências
simbólicas que foram sendo apropriadas ao longo das vivências e
leituras da cidade, e destacamos apenas os riscos. Se caminharmos
por esse mapa, não há dúvida: seremos vítima de alguma violência.
A lógica que rege essa forma de dar sentido ao espaço urbano
se baseia na crença de que há uma condição crônica de violência,
quase como um ambiente em alerta generalizado: nós e os dispo-
sitivos de segurança estamos em estado de emergência a todo mo-
mento. A conseqüência disso é o desenvolvimento de uma urgência
generalizada. Essa, por sua vez, cria o espaço para a produção de
discursos e práticas que tentam circunscrever o perigo através de
alguma definição clara.
Esse tipo de demarcação é algo muito utilizado pela impren-
sa. Todos os dias podemos compor (ou já aparecem compostas)
listas de pessoas ou lugares que emanam essa periculosidade.
Essa estratégia preventiva faz com que as notícias sobre a violên-
cia estejam inseridas em um amplo processo de administração
de riscos e, logo, de medos.
Temos, portanto, uma relação muito evidente entre prevenção e
violência que, se formos além, é produzida pela concepção de que o
indivíduo passa a ser reconhecido como tal quando se torna vítima.

22. Apesar de se basear na pesquisa do Cesec, a reportagem não respeita criteriosamente as


sete categorias estabelecidas, utilizando, em alguns casos, o mesmo ícone para expressar cri-
mes diferentes. Além disso, nem todos os ícones estão presentes em cada região apresentada.
Há mapas, como o do Centro, em que apenas dois ícones representam os crimes, enquanto
que em mapas como o da Barra da Tijuca, seis ícones se espalham pela cartografia.

116
A sistemática de reconhecimento ou de identificação de riscos implica
também uma sistemática de reconhecimento do indivíduo como víti-
ma. Esse processo de vitimização generalizada faz com que todos rei-
vindiquem o tempo inteiro mais segurança, diante desse sentimento de
insegurança sempre presente. Os indivíduos pedem ao Estado proteção
cada vez mais forte; a um Estado que tem cada vez mais carências (Jeudy,
1994:71).

Porém, não necessariamente uma vítima direta do ato criminoso,


mas alguém que compartilhe o sentimento de insegurança, de an-
gústia, de ser alvo de algo que não sabe de onde vem.
Esse discurso que focaliza o risco retira da arena de debate ou-
tras formas de interpretar a problemática da segurança pública, cen-
tralizando a significação no pânico e no medo. Há um apagamento
da cidade fragmentada e, com isso, o aparecimento de uma escrita
da violência, que nos é representada como onipresente, descontro-
lada e repetitiva. Nos territórios desses mapas há um desequilíbrio
entre duas paixões que marcam o ser humano: o medo toma conta
do espaço e do tempo, deixando a esperança esmagada na forma de
um apelo transcendente que busca a salvação através da apologia de
uma não institucionalidade autoritária.
Por esse viés, “a geografia da violência” que está delineada por
mapas que localizam os riscos nos bairros cariocas é um artifício
que articula elementos que vão além das fronteiras que eles repre-
sentam: a vitimização, a gestão de riscos, o estado de alerta gene-
ralizado, a idéia de emergência. Isso mobiliza e põe em funcio-
namento este imaginário da prevenção, que usa o medo como
argumento para convencer.
Porém, isto é um sistema perigoso, pois funciona de acordo
com uma lógica de controle social que pretende defender certos
ideais humanistas, mas que, na verdade, apenas cria uma simplifi-
cação: um conflito entre bem e mal. Essa divisão autoriza, também
simbolicamente, a atuação da faceta policial que envolve a idéia de
proteção e prevenção. A partir do momento que indivíduos são
considerados um risco, eles passam, conseqüentemente, a ser ob-
jetos de controle. É preciso, dessa forma, que alguém ou alguma
instância cumpra esse papel de vigiá-los.

117
Precisamos ter uma certa distância crítica em relação a esse retorno do mora-
lismo atualmente. Ele é “tranquilizador”, claro. Ficamos muito contentes em
poder distinguir entre o bem e o mal, ver as coisas claras e parar essa máquina
mediática infernal, essa máquina de horror e morte. [...] O problema é que o
moralismo talvez inspire segurança, mas, ao mesmo tempo, é uma forma de
se entrincheirar nesses valores seguros. Determinar a ordem social perfeita a
partir de um “mapa” ou de uma “carta” evoca, para mim, a possibilidade de
uma regressão mortal (Jeudy, 1994:77).

A estrutura do mapa combinada aos relatos testemunhais e às


estatísticas, em “Geografia da violência”, produz menos uma “rea-
lidade da violência” e mais uma legitimação da atuação autoritá-
ria, pois há uma relativa independência entre o medo genérico da
criminalidade e as possibilidades reais de vitimização. O medo da
criminalidade não é exatamente influenciado pela experiência da
violência (Baratta, 1994:16). É um discurso que atua ativamente na
construção política da sociabilidade urbana.

2.4 Relatos testemunhais


Em cada edição da série, há a foto de uma testemunha que fala
sobre alguma violência que sofreu no bairro em que mora, trabalha
ou transita. O curioso nessa estratégia não é propriamente o des-
taque da fala de uma personagem – isso é uma prática comum na
construção da notícia –, mas a forma gráfica como é feita. Ao invés
de alinhar o texto e seguir um padrão tipográfico, os jornalistas op-
taram por diagramar as palavras de uma forma desalinhada e com
variações no tamanho das fontes.
Com uma mancha sobreposta à fotografia da testemunha, um
grande colchete delimita o espaço em que as palavras flutuam. As
palavras da citação parecem estar em movimento e suscitando com-
binações diversas, não restritas à própria ordenação da frase. As
linhas invisíveis que delimitam o alinhamento das palavras nas co-
lunas dos jornais – como pautas de um caderno – são utilizadas de
forma não-regular. Apesar de existirem, perdem a força de organi-

118
zação das palavras, pois as linhas deixam de ser paralelas e tornam-
se convergentes ou divergentes. As frases passam a se distanciar e se
aproximar e, assim, criam um olhar diferente em relação ao mesmo
conteúdo (que foi retirado do texto da reportagem).
O tipo de diagramação utilizada lembra-nos, de certa forma, as
representações de mensagens anônimas no cinema, quando vítimas
recebem cartas em que frases elípticas são compostas por diversas
palavras recortadas de jornais e revistas, com diferentes cores e for-
matos tipográficos. Cria-se, assim, uma impossibilidade de rastrear
a origem de tal mensagem; mas cria-se, também, a idéia de que se
pode articular um limitado vocabulário de várias maneiras. E é isso
o que, por um certo olhar, acontece nas representações jornalísticas
da violência. Há uma incansável repetição de temas e formas de
narrar através de um vocabulário da violência, que é, propriamente,
um imaginário da violência, que está, por sua vez, costumeiramen-
te associado ao medo.

As narrativas de crimes violentos são um tipo específico de representação


que gera um tipo de conhecimento. Elas tentam estabelecer uma ordem
num universo que parece ter perdido o sentido. Em meio aos sentimen-
tos caóticos associados à difusão da violência no espaço da cidade, essas
narrativas representam esforços de restabelecer ordem e significado. Ao
contrário da experiência do crime, que rompe o significado e desorga-
niza o mundo, a fala do crime simbolicamente o reorganiza ao tentar
restabelecer um quadro estático do mundo (Caldeira, 2003:28).

O conhecimento gerado pelas narrativas de crimes violentos é,


se podemos redimensionar, o equivalente ao que definimos como
imaginário do medo; essa forma de dar sentido ao espaço urba-
no através dos simbolismos ligados à violência. No caso do jornal,
podemos fazer uma leitura através das estratégias de enunciação
das reportagens. A diversidade tipográfica das citações destacadas,
como nos exemplos acima, não chega a ser a cada palavra ou letra,
mas a cada linha. Fontes diferentes, com tamanhos diferentes, de-
salinhadas, por cima de uma fotografia: o próprio vocabulário da
violência suscita uma idéia de desordem, que o jornal representa
como mapa estático da cidade.

119
Essa imobilidade que os mapas sugerem tem, por outro lado,
uma íntima relação com as estatísticas que formam a base da pes-
quisa e da série de reportagens. Os números estatísticos são resul-
tados de técnicas que foram pensadas para gerar um tipo de conhe-
cimento baseado na matemática, que é ciência abstrata, e que, por
isso, necessita, inexoravelmente, de um narrador que as interprete.
Os números que resultaram da pesquisa focalizaram os parâmetros
que pudessem indicar aumentos e declínios, mas, principalmente,
a regularidade nos números.
A regularidade e a constância são tanto para a estatística como
para a imprensa diária valores muito prezados. Com isso quere-
mos dizer que a repetição faz parte, com funções diferenciadas, da
linguagem de ambas as formas de conhecimento: imprensa e es-
tatística. Assim, ao articular os números da violência urbana em
determinada região da cidade com os testemunhos de cidadãos, a
série “Geografia da violência” faz uso, se podemos ir além, da mes-
ma estratégia da técnica estatística que mencionamos.
Os testemunhos destacados são aqueles que podemos ler quase
todos os dias nas páginas dos jornais. Se colecionássemos as edições
diárias e resolvêssemos montar um outro texto com os recortes dos
testemunhos que mais se repetem, estaríamos simbolizando uma
rotina da cidade e corroborando a regularidade (que, na prática,
não tem nada de regular) que a estatística toma como objetivo.
Assim, no par testemunho/estatística, notamos uma hierar-
quia que os concebe. Como formas de conhecimento, são pers-
pectivas que estão muito distantes entre si. O testemunho está
associado à individualização, à primeira pessoa, que nos remete
a uma temporalidade de performance. No outro termo do par,
temos a estatística, que tem a perspectiva das estruturas, das re-
petições, da totalização.
Diante disto, podemos notar que há uma complexa relação
nesse processo de reportar a fala de vítimas de crimes. Se, como nos
mostra Teresa Caldeira, a fala do crime23 reorganiza simbolicamen-

23. Esta expressão está relacionada às narrativas orais pesquisadas por Teresa Caldeira e que re-
sultou no livro Cidade de muros (2003).

120
te um universo que foi desordenado, a narrativa de “Geografia da
violência”, na posição de macrotestemunha, é que assume o papel
de instância reorganizadora de um universo que perdeu o sentido.
As palavras desalinhadas das citações são uma forma de enunciar
a própria desordem do testemunho em primeira pessoa como ex-
pressão instauradora de significado. “O quadro estático do mundo”
é transferido da fala para o mapa, da narrativa para os números.
A enumeração da violência torna-se, então, a narração pos-
sível da cidade, que é representada seguindo uma lógica balizada
pelas estatísticas que mensuram os crimes. Elas ditam as vozes,
regulam a guerra de relatos e criam as personagens – exemplos
que se adéquam às suas verdades.
Os números assumem a função de ordem ampla que precisa
ser nomeada e delimitada de forma estática. Os mapas das regiões
presentes em “Geografia da violência” traduzem essa tentativa de
materializar, narrar e, conseqüentemente, dar significado às estatís-
ticas. Essas cartografias dos perigos da cidade ganham um destaque
diferenciado nesta série de reportagens, pois são imagens centrais
da articulação de um olhar macro em relação ao espaço urbano.

2.5 A rubrica
Há vários elementos gráficos que são usados para compor a
diagramação da série, fugindo ao padrão do jornal. A utilização da
rubrica “Geografia da violência”, por exemplo, é fundamental para
a organização da série, pois destaca o conjunto de reportagens em
meio às notícias variadas sobre o cotidiano. A rubrica é estilizada,
com três linhas que riscam as palavras “Geografia da violência”, e
que remetem a uma bala de fuzil, dando a impressão de que a tra-
jetória da bala atravessou a expressão-título, simbolizando o movi-
mento, a velocidade.
A munição torna-se o ícone de um tipo de violência que é visí-
vel e que, assim como os relatos, atravessa a geografia da cidade. Seja

121
perdendo-se (através do discurso da “bala perdida”) ou localizando
(“Geografia da violência”), a bala utilizada em armas de fogo é uma
imagem que funciona como síntese do medo e da insegurança. Ao
riscar a própria escrita da geografia, atravessando-a, a bala de fuzil
atesta a onipresença do risco no espaço da cidade. O risco na escrita
(rubrica) está em articulação com o risco de viver na cidade.
A simbologia da bala perdida nos remete justamente à “não-ge-
ografia” da violência, pois o desconhecimento da origem do disparo
é a própria possibilidade de formular conjecturas que identificam
atores e territórios de onde a violência surge e onde está localizada.
Assim, a bala é perdida (de acordo com o sentido utilizado pelos
jornais) pois atingiu um alvo que não era meta.
O sentido ambíguo da expressão nos faz pensar que a bala
pode ser o sujeito da ação ([A] bala [está] perdida) ou, ainda, ser
paciente ([A] bala [foi] perdida [por alguém]). Em ambos os casos,
a munição é a principal preocupação, pois o perpetrador da ação
está ausente ou indefinido. Essa não-definição do sujeito da violên-
cia está, nesta série de reportagens, em articulação com a definição
da geografia do crime nos bairros do Rio de Janeiro.
Esse mapeamento geográfico, baseado nos números, individua-
liza quando focaliza os relatos testemunhais das vitimas e generaliza
quando menciona os atores da violência. O crime torna-se acaso: sem
objetivo, justificativa ou circunstâncias claramente definidas. Desper-
sonalizada, a criminalidade é narrada como uma instituição imaginá-
ria que é responsável pelo mal que assombra as ruas e que não respeita
fronteiras: ela é onipresente. Conseqüentemente, temos essa “certeza
do risco” através da soma – imaginada e produzida através da estatísti-
ca – do conjunto de crimes violentos registrados nos órgãos envolvidos
com a segurança pública no Rio de Janeiro.
A rubrica da série atua, como forma de enunciação, em con-
junto com os títulos das reportagens, que focalizam essa onipre-
sença e regularidade do risco em toda a cidade. As reportagens são
precedidas por títulos relacionados ao medo, perigo e repetição re-
gular: “Onde o perigo bate ponto”, “Um lugar onde o ladrão rouba,
foge e volta”, “Medo a pé ou de carro na Barra”, “Conheça as áreas de
risco”, “Os 77 pontos mais perigosos”, “Medo do outro lado da baía”,

122
“De olho no trânsito e no ladrão”. Essas frases, e o próprio texto da
série, repetem e recriam um vocabulário que, não necessariamente
relacionado à violência, dá sentido a ela.
Essa ênfase no risco é, quase sempre, acompanhada do discur-
so “científico”, que o atesta como “verdade evidente”. A estatística
ocupa nos jornais um importante lastro simbólico que possibilita o
desenvolvimento de uma mitificação do risco e do medo, pois pro-
duz fatos através de uma lógica que lhe é própria24. A criminalidade
é monitorada em seu nível macro e um aumento ou uma diminui-
ção tornam-se fatos, tão concretos quanto qualquer outro.
A bala perdida, como símbolo dessa onipresença (somos lem-
brados de que em qualquer circunstância poderemos ser atingidos
por ela), é desestabilizadora de fronteiras. Nessa “Geografia da vio-
lência”, o mapa delimita25 e a bala atravessa; assim como, em outro
âmbito, a lei do Estado delimita e as relações sociais atravessam as
fronteiras. Em outros termos, a escrita divide, delimita, e as práticas
sociais riscam, borram e, por vezes, tornam a fronteira ilegível.
Nessa perspectiva, através desse imaginário da violência pode-
mos levantar questões que são pouco discutidas na imprensa quan-
do o assunto é segurança pública. A vulgarização da (d)eficiência
da repressão policial deixa o debate anêmico e propício para a dis-
seminação do pânico – um medo que paralisa as pessoas e produz

24. “A observação estatística é um ‘processo de produção de fatos’. Contudo, é preciso não subestimar a
dificuldade de leitura proveniente da própria relação entre fatos e realidade: ‘...os fatos observados nun-
ca são a realidade verdadeira, mas uma certa imagem desta realidade’. Tais observações fundamentam
a elaboração de uma critica à objetividade e à falsa interpretação que os técnicos e práticos têm de si
mesmos e da ‘realidade’. Não se trata, certamente, de levantar problemas relativos à confiabilidade de
dados, mas de refletir sobre questões referentes à significação dos dados. O conhecimento produzido
por um conjunto de técnicas não é absoluto e, alem disso, ‘é condicionado pelos objetivos e pela lingua-
gem da organização’. Em outros termos, o conhecimento não corresponde absolutamente à realidade
da qual os dados são provenientes” (Hissa, 2002:204).

25. “O território denomina-se, mostra-se ou materializa-se numa imagem dentro de um jogo de ope-
rações simbólicas nas quais, por sua própria natureza, situa seus conteúdos e marca seus limites. Assim
nasceu a “cartografia física” que corresponde ao levantamento de mapas por parte dos funcionários
governamentais ou de técnicos peritos em desenho em relação aos limites oficiais ou reconhecidos
legalmente por uma comunidade, chama-se país, estado, cidade ou município” (Silva, 2001:24).

123
uma sociedade reacionária e autoritária. Questões fundamentais
que vão além do aparato policial passam ao largo do enfoque tópi-
co-hepidérmico da complexa questão da violência no Brasil.
Os limites que são impostos pela lei escrita, por exemplo,
balizam os procedimentos da burocracia e da ordem pública. No
entanto, há algo nas relações sociais brasileiras que atravessa essa
fronteira da lei, do texto ou mesmo do mapa: a indefinição entre as
esferas pública e privada26. Essa “não-geografia” das duas esferas,
ou melhor, uma geografia que não distingue claramente a fronteira
e o limite27, é, em um âmbito menos visível do que a violência que
nos mostram os jornais, o lastro do imaginário do medo na forma
como o lemos nas reportagens.
Assim, quando mencionada, a “bala perdida”, muito utilizada para
justificar o autoritarismo que caracteriza a sociedade brasileira, é uma
forma de falar, produzir e disseminar o medo, pois não respeita geografia
alguma, ela atravessa qualquer limite ou fronteira, assim como mencio-
namos em relação à sociabilidade no Brasil. A expressão torna-se, nessa
perspectiva, justificativa para a manutenção de uma ordem discursiva
que propõe a violação e a transgressão da lei ao invés da contestação ou
da transformação mais ampla da sociedade, ou seja, a manutenção de
uma ordem social que é altamente segregada e autoritária.

26. Segundo Marilena Chauí, a sociedade brasileira seria uma sociedade em que “o autorita-
rismo é social ou a forma mesma da estrutura da sociedade. É a estrutura do campo social e
do campo político que se encontra determinada pela indistinção entre o público e o priva-
do”. Ou ainda: “É uma sociedade, conseqüentemente, na qual a esfera pública nunca chega
a constituir-se como pública, definida sempre e imediatamente pelas exigências do espaço
privado, de sorte que a vontade e o arbítrio são as marcas dos governos e das instituições
públicas” (2006:106).

27. Essa ambigüidade é uma questão que foi central no pensamento de diversos autores que
tentaram produzir uma interpretação da sociedade brasileira. Muitos enfatizam a figura do
malandro como síntese dessa forma de relação social com a lei, tanto valorizando quanto
criticando. Luiz Eduardo Soares aponta: “Em sua versão minimalista e benigna, a valorização
da malandragem corresponde ao elogio da criatividade adaptativa e da predominância da
especificidade das circunstâncias e das relações pessoais sobre a frieza reducionista e ge-
neralizante da lei, cuja aplicação mecânica às vezes produz efeitos perversos e desrespeita
singularidades, que fazem toda a diferença. Em sua versão maximalista e maligna, porém, a
valorização da malandragem equivale à negação dos princípios elementares de justiça, como
a igualdade perante a lei, e ao descrédito das instituições democráticas” (Soares, 2000:25).

124
A violação da lei sem o intuito de contestá-la tem essa íntima
ligação com a prevalência de interesses particulares nos domínios
públicos: a lei ou a regra são seguidas de acordo com as circunstân-
cias, ou seja, não são encaradas como imperativas. Isso evidencia
que não há, em linhas gerais, qualquer identificação entre a lei e o
cidadão, caracterizando, segundo Marilena Chauí, uma sociedade
cujo regime politico é autoritário28.
No caso da violência urbana, a bala perdida é, se continuar-
mos com a analogia, símbolo da perspectiva que prefere obnubilar
causas e focalizar conseqüências. Não é à toa que o aparato policial
repressivo é usualmente o eixo pelo qual os textos jornalísticos (e
outros mais) abordam a questão da segurança pública. A comple-
xidade do controle da violência é resumida à eficiência (ou não efi-
ciência) do aparelho repressor comandado pelo Estado, quando, na
verdade, a questão passa por âmbitos outros.
Um exemplo corriqueiro disso é o “debate” que coloca em pau-
ta o desrespeito às regras de trânsito em função do risco de sofrer
um assalto29. A criminalidade é tida como institucionalmente in-
controlável e que cada cidadão passa a ser responsável pelas conse-
qüências dessa onipresença da violência, forçando uma “flexibiliza-
ção” (como eufemismo para impunidade) das leis.

28. Dirão muitos que um regime político é livre ou republicano quando nele os cidadãos
agem em conformidade com a lei porque se reconhecem como origem ou como autores das
leis segundo seus direitos; e será tirânico o regime político no qual os cidadãos obedecem às
leis por medo dos castigos, sendo por isso tomados como escravos, uma vez que, perante o
direito, é escravo aquele que vive sob o poder de outro homem e realiza os desejos de outrem
como se fossem os seus próprios (Chauí, 2006:97).

29. “RIO - O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil do Rio de Janeiro (OAB-RJ),
Wadih Damous, anunciou nesta sexta-feira que a entidade está disposta a ir ao Judiciário
requerer a anulação dos atos administrativos da Secretaria Municipal de Transportes do Rio,
que mantêm ligadas as lombadas eletrônicas e pardais durante a madrugada em trechos com
alto risco de assaltos na cidade. [...] O assalto que terminou com o ortopedista Lídio Toledo
Filho e sua mulher baleados no Alto da Boa Vista trouxe à tona a dúvida sobre a eficácia dos
pardais, pelo menos no que diz respeito à segurança. Dezenas de leitores do Globo Online e
do jornal ‘O Globo’ reclamaram do perigo de passar durante a noite pelos radares que forçam
a redução de velocidade a até apenas 40km/h, principalmente em áreas desertas e de risco.
Para grande parte desses leitores, para evitar assaltos, a solução seria desligar esses equipa-
mentos das 22h às 6h” (www.oglobo.com.br, acessado em 7/01/08).

125
Entretanto, não se trata de uma flexibilização para todos. Ao
cruzar a cidade, a bala evoca a reprodução de um discurso que é
fundamental na nossa sociedade: “a transgressão popular é violen-
tamente reprimida e punida, enquanto a violação pelos grandes e
poderosos sempre permanece impune” (Chauí, 2006:105). A tensão
de ser atingido por um disparo é aliviada pelo “direito” de transgre-
dir, que, por sua vez, é justificado pelo imaginário urbano do medo
relacionado ao risco da violência30.
Essa busca constante pelas conseqüências é, para Roland Barthes,
uma das características principais do fait divers31. Essa forma de abor-
dar o cotidiano tem como princípio a descontextualização dos fatos,
pois estes estão desvinculados de suas causas e, por isso, tendem a cau-
sar espanto, pânico e medo. A temporalidade enfatizada não é aquela
histórica, que prioriza causas e conseqüências, dando dimensões ma-
cro para o problema. Ao invés disso, o enfoque recai majoritariamente
sobre o acontecimento pontual, micro, carente de historicidade ou cau-
sas explícitas. Neste sentido, a temporalidade do fait divers tem mais
características de performance do que, propriamente, de pedagogia, ou
seja, mais fragmentada e repetitiva, do que continuísta e cumulativa32.

30. Um dos muitos cálculos que repetem os riscos da violência: “A pedido de Veja, o diretor do
Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF), Ronaldo Leão, cal-
culou as trajetórias possíveis desse tipo de disparo [disparar uma arma de fogo para o alto] e suas
conseqüências. [...] Um revólver calibre 38 é capaz de disparar balas a uma velocidade média de
1000 quilômetros por hora. Num ângulo de 90 graus, o projétil sobe 500 metros e volta ao chão a
400 quilômetros por hora. É o bastante para perfurar o corpo humano. Se atinge a cabeça, o pes-
coço ou o tronco até a altura do abdômen, pode ser fatal. Quando o tiro é disparado a 90 graus, a
bala pode cair em qualquer lugar numa raio de 10 metros. Mas, se a arma estiver levemente incli-
nada, a 80 graus, por exemplo, o projétil cairá a até 70 metros. Dependendo da inclinação, fuzis do
tipo AR-15, FAL ou AK-47, que são utilizados pelos traficantes cariocas, podem atingir pessoas a
mais de 1 quilômetro de distância. Em 2006, 205 pessoas foram feridas por balas perdidas no Rio.
A esmagadora maioria foi vítima de confrontos armados entre policiais e bandidos, e não de tiros
dados para cima” (Veja, edição 2042, ano 41, n. 1, p. 65).

31. “Os casos puros “e exemplares” [de fait divers] são constituídos pelas perturbações da causa-
lidade, sem deixar de ser afirmada, contém já um germe de degradação; como se a causalidade
não pudesse ser consumida senão quando começa a apodrecer, a desfazer-se. Não há fait divers
sem espanto” (Barthes, 1970:60).

32. Aproprio-me, aqui, de dois conceitos mobilizados por Homi Bhabha em outro contexto (1998:207).

126
O fait divers, nessa perspectiva, é a impossibilidade da explica-
ção racional do crime, criando uma indefinição e uma incerteza33
que potencializa as interferências do imaginário do medo nas práti-
cas da cidade, como afirma Teresa Caldeira ao analisar o crescimen-
to da utilização de segurança privada e aparatos de segregação em
referência ao aumento da criminalidade na cidade de São Paulo.
Assim, o medo contemporâneo vai tomando outras direções
em relação ao passado das sociedades. Se o medo era uma paixão
que possibilitava uma união política através da racionalidade, hoje,
nas grandes cidades, constatamos que a mobilização que ele provo-
ca não tem mais esse caráter racional. Adauto Novaes comenta:

O medo era considerado uma paixão que poderia ser racionalizada e até
se tornar auxiliar da razão. Podemos pensar na teoria de Hobbes que, no
século XVII, via o medo como um sentimento que obrigava os homens
a se unir, que fundava uma racionalidade política. No fundo, o medo
empurrava as pessoas para a razão. Mas agora é um pouco diferente. O
sentimento do terror é posto como algo que impõe limites ao poder de
racionalização. Hoje, não se tem muito a tendência a buscar estabelecer
uma relação de causa. É como se, em vez de procurar a causa particu-
lar do mal, na base houvesse algo irredutível (O Globo, Prosa e verso,
14/08/04, p. 2).

Esse imaginário do medo produzido pelas reportagens sobre


crimes violentos segue essa tendência de focalizar as emoções, re-
tirando as questões de fundo, e exacerbando as performances dos
conflitos, ou seja, a violência criminal que lemos todos os dias nos
jornais. Quando se perde o foco nas relações lastreadas pela racio-
nalidade, conseqüentemente, a figura fantasmagórica do medo vem
à tona com toda a força, como reação à desordem provocada pela
desvinculação entre causa e conseqüência.

33. Segundo Bauman, essa incerteza é o que chamamos de medo: “Medo é o nome que damos
a nossa incerteza: a nossa ignorância da ameaça e do que há para ser feito – o que pode ou não
pode – para deter isso em seu caminho – isto está além do nosso alcance” (Bauman, 2006a:2)
[tradução livre].

127
Notamos, portanto, que as falas da violência, sejam elas ima-
gens, testemunhos ou narrativas, aparecem de diversas formas ao
longo da série analisada, mas repetidamente articulando o medo
com essa falta de uma base racional-histórica para explicar a “bar-
bárie” de forma mais ampla e complexa. O espaço urbano é mape-
ado, então, segundo a idéia de risco, que usa os testemunhos e as
estatísticas dos crimes violentos como forma de legitimação, mas
acaba exibindo um panorama marcado pela visão reacionária do
medo, desestabilizando a relação de causa e conseqüência da vio-
lência criminal no Brasil urbano.

128
Segunda parte
A violência urbana como guerra
:: A guerra como metáfora 1

Quando chegamos em casa, podíamos ver na TV imagens das rebe-


liões no Iraque ao mesmo tempo em que, aqui, acompanhávamos, ao
vivo e em cores, a nossa guerra civil 2

Quando cheguei, era tiro para todo lado, uma coisa de louco. Pa-
recia faroeste. Não dá para dizer que havia clima de guerra. Era a
própria guerra3.

É impossível usar uma balança para medir o peso das palavras.


No entanto, todos os dias lemos, escrevemos, falamos ou ouvimos
expressões pesadas e desgastadas pela forma múltipla e indefinida
com que os diferentes discursos as utilizam. Guerra é uma dessas
palavras pesadas, que funcionam, corriqueiramente, como metáfo-
ras que solapam as gradações diversas de um conceito.
De certo modo, definir práticas com a metáfora da guerra é
produzir um campo de conflito entre, ao menos, duas partes. Um
resultado comum dessa escrita divisora é o binarismo antagôni-
co: uma fronteira simbólica é estabelecida como forma de definir
quem são os combatentes e, conseqüentemente, quem são os inimi-
gos que devem ser temidos.

1. Seguindo a divisão metodológica proposta na introdução do trabalho, esta segunda parte fo-
caliza as análises em séries de reportagens publicadas em dois jornais distintos. A primeira série,
que compõe o terceiro capítulo, é intitulada “A guerra do Rio” e vem sendo publicada no jornal
O Globo, fragmentadamente, desde 2003. A segunda série desta segunda parte, que compõe o
quarto capítulo, foi publicada no jornal Folha de S. Paulo no mês de maio de 2006, sob a rubrica
“Guerra urbana”.

2. Depoimento de Paulo Novaes, morador do bairro São Conrado, no Rio de Janeiro, em relação
aos conflitos ocorridos na Rocinha. Este é um dos depoimentos que foram veiculados na série de
reportagens “A guerra do Rio” (O Globo, 10/04/04, p.13).

3. Depoimento de uma pessoa que não quis se identificar, em relação ao mesmo conflito na Roci-
nha, também veiculado na série “A guerra do Rio” (O Globo, 10/04/04, p.12).

131
O termo guerra, quando lemos os jornais do cotidiano, pare-
ce ter deixado de significar um conflito militar entre nações, para
tornar-se elipse narrativa no ato de reportar os complexos conflitos
urbanos dos dias atuais. A diversidade do uso da metáfora é a pró-
pria prática incessante da criação de fronteiras simbólicas4 na vida
cotidiana. O espaço urbano da cidade é mapeado por zonas (fron-
teiras) e seus graus de periculosidade.
Os próximos dois capítulos focalizam não uma “violência co-
tidiana” (como é a proposta de “24 horas” e “Geografia da violên-
cia”), mas uma violência potencialmente espetacular, grandiosa.
Estamos, então, trabalhando com a mesma idéia de imaginário do
medo, mas em um outro nível. Os significados são produzidos por
outro tipo de narração, que não está intimamente ligada ao dia-a-
dia da maioria dos leitores, mas a um cotidiano do contato com as
imagens da violência – as linguagens da violência – e com todo o
didatismo que as envolve.
Assim, a violência urbana, personagem cativa dos relatos sobre
o cotidiano na imprensa, é prática militar mobilizadora de outras
práticas: os discursos. As narrativas são formas de dar significa-
ção aos atos, de promover sentidos. Esses relatos, que, como men-
cionamos, fazem uso da guerra como metáfora, são eles mesmos
uma guerra, um conflito através da linguagem. Não há um sentido
apenas, mas uma incessante busca por sobressair em meio a uma
multiplicidade de relatos.

4. Utilizo o termo “fronteiras simbólicas” à maneira que Antonio Arantes o utiliza: “Os habitan-
tes da cidade deslocam-se e situam-se no espaço urbano. Nesse espaço comum, cotidianamente
trilhado, vão sendo construídas coletivamente as fronteiras simbólicas que separam, aproximam,
nivelam, hierarquizam ou, em uma palavra, ordenam as categorias e os grupos sociais em suas
mútuas relações” (Arantes, 1994).

132
3 Calvário carioca

3.1 Imaginários da favela


Ao explorarmos a interpretação como prática crítica no capí-
tulo anterior, enveredamo-nos em questões relacionadas aos ma-
pas imaginários que organizam e dão sentido à violência urbana
que assola o Rio de Janeiro, assim como outras grandes cidades na
América Latina e no mundo. Levando os questionamentos adiante,
não poderíamos deixar de atentar para toda a problemática que en-
volve o termo “favela” em associação à violência.
Desde o final da década de 1980, há uma proliferação de livros,
filmes, músicas, notícias, seriados televisivos, que tentam, conflitu-
osamente, reconfigurar o imaginário da favela em relação à cidade.
Isto se deve, muito em parte, à chamada “escalada da violência”,
que tomava forma nas estatísticas de crimes violentos a partir do
processo de redemocratização política do país.
Sendo assim, a análise a seguir faz uma leitura dos mapas (lato
sensu) que delimitam fronteiras simbólicas entre a cidade e a favela.
Essa divisão binária é facilmente verificável nos discursos que serão
apresentados mais adiante, como se o binarismo fosse a ordem que
dá significado social ao espaço urbano. A geografia da violência é
tratada aqui de forma mais sutil, mas não menos explícita do que
a apresentada no capítulo anterior. A favela, como palavra de con-
fluência de significados, está carregada de conotações pejorativas e
discriminatórias, tanto relacionadas ao preconceito racial quanto
ao preconceito baseado nas condições econômico-sociais.

133
A tarefa crítica, nesse caso, tenta mobilizar os textos jornalís-
ticos com o objetivo de explorar e trazer à tona questões que se
perdem no próprio processo ao qual o leitor é submetido. Ler uma
série fora de sua cronologia já é, por si só, uma prática que vai con-
tra os pactos de leitura estabelecidos entre editores e leitores.
Faremos, antes, um breve passeio por alguns dos significados
que foram atribuídos às favelas ao longo do século XX, para, então,
nos determos nas questões contemporâneas sobre a violência urba-
na e a favela, através de reportagens jornalísticas. A série de repor-
tagens analisada neste capítulo foi intitulada “A guerra do Rio”, e
vem sendo publicada desde 2003 no periódico O Globo.
Como veremos, o imaginário do medo é, também, associado
a um tipo de geografia marcada por uma idéia de marginalidade
e que, historicamente, vem se repetindo desde, pelo menos, a
reforma que o prefeito Pereira Passos promoveu, no começo do
século XX, na cidade do Rio de Janeiro. A proposta, portanto, é
tentar ler criticamente as reportagens, com um foco mais apu-
rado em relação à construção de significados e, também, como
que, historicamente, continuamos repetindo a produção de uma
exclusão/diferença em relação à favela.
A favela é espaço mítico, assim como o sertão o foi em boa
parte dos grandes autores brasileiros, onde a ordem institucional é
subvertida em função de uma outra ordem: seja a da violência ou a
da marginalidade. A “desordem” destes espaços é um alter, i. e., um
espaço da diferença. É a geografia da ambivalência: lugar associado
ao sofrimento e às mazelas, mas, ao mesmo tempo, é o espaço onde
se produz algum tipo de “brasilidade”5.

5. A “brasilidade” aqui é em referência ao samba como gênero musical reconhecidamente brasi-


leiro e que, apesar de controvérsias, tem fortes associações, até mesmo em relação à sua origem,
com o imaginário da favela.

134
3.2 Rasgando o velho seio urbano
Em 1889 a República era proclamada no Brasil. A ordem e o
progresso, palavras tão em voga nessa época, passaram a bordar
a bandeira nacional. O projeto civilizador das pátrias adiantadas
baixava agora nos trópicos e, na virada do século XIX para o XX
deixava suas marcas no Brasil: a República simbolizava o esforço
de modernização calcado nos moldes europeus. Um esforço que
queria ser visto como nacional, mas que na melhor das hipóteses
afetava somente o centro da capital federal, o Rio de Janeiro6.
A ordem e o progresso simbolizavam não apenas o aspecto
modernizador, mas toda uma cidade que se partia: a construção
da Avenida Central cortava a cidade ao meio e a exclusão social,
daqueles que não podiam mais transitar pelo centro sem seus res-
pectivos trajes, rachava espacial e socialmente o Rio de Janeiro.
Em meio ao turbilhão da chegada da modernidade ao Brasil, as
reformas do prefeito Pereira Passos na capital, no início do século
XX, transfiguraram a cidade de um instante para o outro. A política
do “bota-abaixo” simulou, para o país e para o mundo, a tentativa
de se alinhar à ordem e ao progresso através da modernização da
polis. O novo espaço público, agora urbano, era a concretização dos
anseios elitistas dos donos da recém-inaugurada República.
Foi preciso remodelar a cidade para que esta pudesse encenar
a modernidade, mesmo que apenas camuflando o aspecto colonial
explícito. Ainda que fosse a capital e o centro financeiro do país,
o Rio de Janeiro era o reflexo de séculos de colonialismo (Gomes,
1996:14). Essa “necessidade” de modernização estava atrelada ao
interesse econômico em atrair capital estrangeiro. Acompanhar o
progresso da Europa era tido como essencial para que uma imagem
de credibilidade fosse construída frente aos investidores europeus

6. Margarida de Souza Neves comenta: “Naquele tempo – a virada do século XIX para o século
XX -, de olhos postos na belle époque européia, os grupos que imprimiam direção à sociedade
brasileira alimentavam o sonho de fazer o país despertar da “morrinha colonial” e abrir os olhos
à “visão civilizadora de pátrias adiantadas e progressistas” (1991:53).

135
e norte-americanos. Além disso, as camadas aburguesadas tinham
profunda admiração pelo modo de vida parisiense, apresentando-o
como modelo para o Brasil.
A mentalidade da classe dominante carioca que pairava
nessa época tinha intenções claras de transformar o Rio de Ja-
neiro em uma metrópole, retirando de cena o aspecto colonial
que regia a vida urbana local. A ruptura tinha de ser radical.
Os hábitos e costumes ligados à sociedade tradicional deveriam
ser todos extirpados, assim como todo e qualquer elemento da
cultura popular que pudesse interferir na imagem de sociedade
civilizada (Sevcenko, 1998:12).
Nesse âmbito, houve uma política de expulsão dos grupos
populares da área central da cidade. As conseqüências dessa in-
tervenção na urbanização fizeram com que esses grupos desa-
brigados se dirigissem para os morros, charcos e demais áreas
vazias em torno do centro.
Nas duas primeiras décadas do século XX, os grupos que ha-
viam sido despejados de seus cortiços no centro já respondiam pela
denominação de favela. Algumas letras de sambas do final da déca-
da de 1920 já apresentavam a nova expressão. Sinhô escreveu: “Co-
lônia/ Porque foi que tu deixaste/ Nossa casa na Favela?/ Mulata/
Não quero saber mais dela/ Não quero saber mais dela/ Colônia/ A
casa que eu te dei/ Tem uma porta e uma janela” (Silva, J.B. da apud
Oliveira & Marcier, 2003:65).
Na década de 1910 já havia referências ao morro da Favela
no nome das músicas, mas essas, por serem somente instrumen-
tais, não tinham letras. Jane Souto de Oliveira e Maria Hortense
Marcier documentam:

E é nessa acepção que se inscreve pela primeira vez na MPB, por


meio da polca Morro da Favella, de Passos, Bornéo e Barnabé,
cuja partitura original, ilustrada a bico de pena e dedicada pelos
autores a Lauro Muller Filho, data de 1916. Seu registro sonoro
foi feito em 1917, ano em que outra composição, coincidente-
mente com o mesmo nome, foi também gravada por Pixingui-
nha e seu grupo (Oliveira & Marcier, 2003:65).

136
Ao mesmo tempo em que se estabelecia na periferia da cidade,
a favela ia ganhando cada vez mais um tom negativo, por parte dos
que moravam no centro. Hoje, a visão que o asfalto tem da favela
não é muito diferente daquela do começo do século XX.
A favela, na conotação utilizada atualmente, pelo “senso co-
mum”, digo, pela imprensa massiva, teve seu início marcado nesse
momento da história do Rio de Janeiro. Os desdobramentos das
décadas posteriores a 1930 perpetuaram a conotação negativa atri-
buída a essas comunidades, criando um abismo crescente entre
“morro e asfalto”. Essa rachadura social seria radicalmente acentu-
ada na metade do século XX com a acelerada urbanização do país
que, com a implantação da chamada política desenvolvimentista
dos anos JK, instituiu nas grandes metrópoles os pólos industriais,
que somavam mão-de-obra barata ao desejo e à necessidade de tan-
tos camponeses e interioranos de terem melhores oportunidades de
vida na cidade grande.
O inchaço das favelas e a manutenção de uma política exclu-
dente criaram, ao longo das décadas do século XX, uma fissura
na cidade. O conceito de Cidade partida, explicitado por Zuenir
Ventura em 1994, veio exprimir a complexidade em que se en-
contra, atualmente, a dualidade entre favela e asfalto. O Rio de
Janeiro apresenta hoje uma cartografia que coloca em constante
tensão as exacerbadas desigualdades entre as classes sociais: os
bairros em que vivem as elites são rodeados por favelas, símbo-
los da pobreza. A geografia carioca segrega nos morros a miséria
que transborda do sistema de produção, refletindo a tamanha
desigualdade social.
Desde o início das favelas, o “morro” teve acentuado, grada-
tivamente, o seu ar de “estranho-social” (Rocha, 2000:9), como se
esse espaço não fosse parte integrante e atuante da sociedade. Há
um grande desconhecimento, por parte dos que não moram nessas
comunidades, de todo o modo de vida, dinâmica cultural e dimen-
são humana dos que residem nas favelas. A voz da favela que tem
espaço na grande mídia é a da violência e a do tráfico de drogas que
atormenta e amedronta a consciência da classe-média simbolizada
pela imagem, civilizadora, do asfalto.

137
Ao longo das décadas a favela teve várias conotações dis-
tintas, mas sempre sendo rotulada como uma cidade à parte,
expressão que Olavo Bilac utilizou em 1908 na crônica “Fora da
vida” (apud Zylberberg, 1992). Já foi representada como foco
de doenças; o local da desordem por excelência; já foi sítio de
malandros, ociosos e negros inimigos do trabalho honesto; foi
lida como lugar de vadios baderneiros; idealizada como o local
da pureza do samba e, mais recentemente, assumiu a conotação
de antro da marginalidade, habitat de classes perigosas. A fave-
la, agora mais do que nunca, carrega o peso de ser o território,
por excelência, de traficantes de droga. A violência, desde então,
tornou-se a associação mais corriqueira quando o assunto favela
é debatido, mencionado ou representado nos meios de comuni-
cação de massa.

3.3 Um século de leituras e conotações


Encravada no Rio de Janeiro, a Favela é mais uma cidade den-
tro da cidade7. A afirmação do jornalista Benjamin Costallat pode
servir de ponto de partida para a análise das representações da fa-
vela no Rio de Janeiro. Pensar a favela como algo que está à parte da
cidade. Mais do que isso, analisar o conceito de dualidade que está
presente nas representações da favela, desde os tempos do prefei-
to Pereira Passos, é o desafio proposto aqui. Uma divisão que cria
fronteiras pela linguagem.

7. “Encravada no Rio de Janeiro, a Favela é uma cidade dentro da cidade. Perfeitamente diversa
e absolutamente autônoma. Não atingida pelos regulamentos da prefeitura e longe das vistas da
Polícia. Na Favela ninguém paga impostos e não se vê um guarda civil. Na Favela, a lei é a do mais
forte e a do mais valente. A navalha liquida os casos. E a coragem dirime todas as contendas. Há
muito crime, muita morte, porque são essas as soluções para todos os gêneros de negócios - os
negócios de honra como os negócios de dinheiro” (Costallat, 1995:37).

138
Favela e asfalto; ordem e desordem; civilização e barbárie. Essas
são algumas das oposições que, corriqueiramente, estão presentes
em quase tudo que diz respeito à favela. Desde o início das transfor-
mações do “bota-abaixo”, já havia representações que apontavam
para um Rio de Janeiro partido. Um século se passou, as favelas
cresceram, mas nunca deixaram de ser alvo das tentativas de repre-
sentar uma cidade bipolar. De Olavo Bilac a Zuenir Ventura, a fave-
la recebeu conotações que alimentaram a construção do dualismo
entre ordem e desordem: classificação que ainda hoje paira no ima-
ginário social, principalmente, como veremos, quando focalizamos
as enunciações do medo.
O termo favela tem sua origem no sertão baiano onde se
concentravam os seguidores de Antonio Conselheiro, e foi difun-
dido no Rio de Janeiro por soldados que voltavam da campanha de
Canudos8. Desde que surgiu no morro da Providência, “a favela,
vista pelos olhos das instituições e dos governos, foi o lugar da de-
sordem” (Zaluar & Alvito, 2003:14). Espaço geográfico ocupado por
populações de baixa renda, de maioria negra, a favela foi a conseqü-
ência da necessidade da aristocracia carioca de se opor ao modelo
rural reinante até então. A remodelação da cidade influenciada pela
Paris daquela época era a quimera das classes aburguesadas locais,
pois assim podiam se afirmar como civilizadas. A cidade anterior à
“modernização” tinha uma rica tradição popular, mas não cabia na
versão da ordem proposta pelas elites (Sevcenko, 1998:20). O Rio
de Janeiro anterior às reformas não poderia fazer parte da cena mo-
derna. Aquela cidade era vista como obscena, isto é, deveria estar
fora da cena, fora do centro, para não manchar a imagem de cidade
civilizada (Gomes, 1994:103).
A modernização, liderada pela elite carioca, propunha um mo-
delo excludente que proporcionava para poucos a vida cosmopolita
tão em evidência na Europa daquela época. O passado precisava

8. Há outras explicações para a origem do termo, mas esta parece ser a mais difundida pelos pes-
quisadores atualmente. Cf. Zaluar & Alvito, 2003. O Morro da Favela é narrado constantemente,
por exemplo, em Os Sertões (2004), de Euclides da Cunha.

139
virar apenas um resquício na geografia urbana que estava sendo
planejada. A cidade seria transfigurada de uma hora para outra,
destruindo o passado e construindo o futuro, acertando os pontei-
ros do relógio (Neves, 1991). Nesse sentido, era necessária a ence-
nação da modernidade: retirar da cena todos os representantes do
atraso nacional e dos valores tradicionais. Era preciso afirmar que
a cidade estava pronta para adotar o “sistema capitalista industrial
progressista, fundado na concepção do lucro, na racionalização do
processo produtivo, na burocratização das instituições e na impes-
soalidade das relações interpessoais” (Zaluar & Alvito, 2003:12).
Com um intenso uso da força repressora, a cidade foi sendo re-
modelada para os novos tempos. Os cortiços da área central foram
removidos e seus moradores, desapropriados, não tiveram outra
alternativa: mudaram-se para a região periférica. O morro da Pro-
vidência foi o local onde grande parte dessa população desabrigada
se reergueu, dando início ao que hoje denominamos de favela.
A favela tornou-se, desde seu início, além de um habitat de
indivíduos pobres, uma representação do atraso daquela parcela
da população em relação ao mundo cosmopolita e civilizado, pois
não havia intervenção do Estado naquele espaço. Essa dualidade foi
sendo construída e usada em diferentes contextos e com diferentes
conotações, sempre expressando uma superioridade da cidade em
relação a essa geografia, marcada pela pobreza, como se esse espaço
não fosse parte integrante da própria cidade.
A noção de que a favela era uma cidade dentro da própria cida-
de já existia desde o início do século XX. A preocupação em delimi-
tar, em alto grau, a distinção do que era o espaço civilizado foi algo
muito presente na literatura dessa época, como mostra o trecho de
uma crônica de Olavo Bilac:

Fizemos cá embaixo a Abolição e a República, criamos e destru-


ímos governos (...) mergulhamos de cabeça para baixo no sorve-
douro do “Encilhamento”, andamos beirando o despenhadeiro
da bancarrota, rasgamos em avenidas o velho seio urbano, tra-
balhamos, penamos, gozamos, deliramos, sofremos – vivemos.
E, tão perto materialmente de nós, no seu morro, essa criatura
está lá 33 anos tão moralmente afastada de nós, tão separada de
fato da nossa vida, como se, recuada no espaço e no tempo, esti-
vesse vivendo no século atrasado, e no fundo da China (...) essas

140
criaturas apagadas e tristes, apáticas e inexpressivas, que vivem
fora da vida, se não têm a glória de ter praticado algum bem,
podendo ao menos ter o consolo de não ter praticado mal ne-
nhum, consciente ou inconscientemente (Bilac apud Zylberberg,
1992:110).

O que Bilac chama de vida é o convívio com a cidade moderna,


com as avenidas, com os carros. O autor desliga completamente
o morador dos morros da vida carioca, como se essa só existisse
enquanto cosmopolita. A civilidade era condição sine qua non para
o morador do Rio de Janeiro ser reconhecido como cidadão. Não
bastava morar na cidade, mas sim, estar em cena.
Ao longo do século XX, a favela teve conotações de acordo com
o interesse daqueles que não “moravam no morro” e comandavam
a “sociedade do asfalto”. Da precariedade urbana (falta de esgotos,
água, luz e regulamentação habitacional), intensificada pela pobre-
za dos seus habitantes e pelo descaso do poder público, a favela foi
sendo lida como o lugar da falta, do perigo, da violência. Lugar da
sujeira, da desordem, mas também, por outro lado, espaço da ele-
gância dos sambistas, da alegria do carnaval.
Apesar de a favela representar a herança da diferenciação e da
desigualdade provenientes da história escravocrata do Brasil (Cam-
pos, 2005), sua produção cultural sempre teve uma grande influên-
cia na cidade. A música do morro foi mediadora da relação entre a
favela e o asfalto, assim como foi, também, instrumento de afirma-
ção da cultura popular. A bipolaridade engendrada nas representa-
ções cariocas dividiu o espaço urbano em dois eixos: o da ordem e
o da desordem, simbolizados, respectivamente, pelo asfalto e pela
favela. O samba, como gênero musical, superou essa fissura criada
pelo discurso e criou pontes entre essas divisões.

Paralelamente à sua configuração como espaço do pobre, a fa-


vela viria a se consagrar também como o espaço do samba. (...)
Tal associação que na verdade se faz entre samba e morro, de
tão forte e recorrente na produção musical, tende a ser tomada
como elemento constituinte da própria definição de favela. No
imaginário da música brasileira, o samba é acionado para repre-
sentar simultaneamente meio de identificação e de valorização
do lugar: por seu intermédio, o morro se afirma positivamente...
(Oliveira & Marcier, 2003:82).

141
Mais do que ser reconhecido como produto do morro, o sam-
ba, ao longo do século XX, tornou-se um dos gêneros musicais mais
populares na cidade e no país, sendo referência internacional da
cultura brasileira. Isso demonstra que, através de sua produção cul-
tural, a favela interagia com o asfalto de uma forma menos tensa.
No entanto, a representação da favela nos sambas da primeira
metade do século era muito marcada pela relação de alteridade com
a cidade. Havia uma rígida demarcação na diferenciação entre os dois
espaços. “Inúmeras são as referências musicais que tratam a favela
como algo alheio, algo que não faz parte, algo, enfim, que é distinto da
cidade, não importa a situação, os personagens ou os sentimentos que
aí estejam envolvidos” (Oliveira & Marcier, 2003:90). Como pode ser
visto na canção Faceira de Ari Barroso, de 1931:

Foi num samba/ De gente bamba/ Que eu te conheci, faceira/


Fazendo visagem/ Passando rasteira/ E desceste lá do morro/ Pra
viver aqui na cidade/ Deixando os companheiros/ Tristes, loucos
de saudade/ Linda criança, tenho fé, tenho esperança/ Que um
dia hás de voltar/ Direitinho do teu lugar. (Barroso, Ari apud
Oliveira & Marcier, 2003:91).

Há uma fronteira entre a cidade e a favela, marcada pela geo-


grafia (as supostas ladeiras que ligam o alto ao baixo e vice-versa),
mas, também, marcada pela linguagem (o “lá” e o “aqui” definem,
além da distância, o lugar de onde fala o narrador).
Em contrapartida, a favela nem sempre adquiriu um sentido pe-
jorativo ao se distanciar da cidade. Em alguns sambas há, visivelmente,
uma exaltação da favela. Herivelto Martins em sua “Ave Maria no Mor-
ro” demonstra essa perspectiva: “Barracão de zinco/ Sem telhado, sem
pintura/ Lá no morro/ Barracão é bungalow/ Lá não existe felicidade
de arranha-céu/ Pois quem mora lá no morro/ Já vive pertinho do céu”
(Martins, Herivelto apud Oliveira & Marcier, 2003:73).
A “felicidade de arranha-céu” não é propriamente uma falta,
mas algo dispensável, secundário, em comparação com o que a ge-
ografia do morro já provê. Além disso, como vimos anteriormente
nesta dissertação, Michel de Certeau também nos fala de uma feli-
cidade de arranha-céu (ao comentar a visão que se tem de Manhat-

142
tan em cima do World Trade Center), mas com outras palavras. A
visão panorâmica da cidade cede lugar à religiosidade e à idéia de
paraíso que está presente na metáfora “pertinho do céu”. Há duas
alturas diferentes que se contrapõem: a do arranha-céu (sinônimo
da cidade urbanizada) é marcada pelo racionalismo e pela legibi-
lidade de uma totalidade; a outra altura, a dos morros “perto do
céu”, está voltada para a religiosidade, marcando a geografia por um
imaginário mítico.
Nessa mesma linha, mas décadas depois, há também o belo
samba “Alvorada” (1976), de Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio
Bello de Carvalho: “Alvorada lá no morro que beleza/ Ninguém
chora, não há tristeza, Ninguém sente dissabor/ O sol colorido é
tão lindo, é tão lindo/ E a natureza sorrindo/ Tingindo, tingindo a
alvorada” (Cartola apud Oliveira & Marcier, 2003:79).
Jane Souto de Oliveira e Maria Hortense Marcier acrescentam:

Ao mesmo tempo em que, por uma visão idealizada, as letras de


música enaltecem o lugar, enaltecem também os laços de vizi-
nhança, companheirismo e união existentes entre os moradores
da favela. Em nítida oposição à “cidade”, onde predominariam
as relações impessoais, a favela seria o locus, por excelência, das
relações personalizadas (2003:79).

A partir dos anos 1960, o samba já percorria todo Rio de Ja-


neiro, atravessando todas as classes sociais. Muitos cantores e com-
positores de samba da classe média cantavam o morro em suas
músicas e lamentavam a sorte dos favelados. Nessa época a favela
passou a ser representada como uma questão social. A cidade agora
protestava pelo morro:

Por seu crescimento e visibilidade social, a favela, sobretudo no


Rio, passaria a ser um objeto privilegiado pela produção musical,
embora do ponto de vista formal a categoria utilizada fosse basi-
camente morro. As músicas desse período enfatizam a temática
da carência e da fome, (...) e insinuam que esse quadro deve ser
mudado. O tom de lamento e de denúncia, a que se associam
quase que invariavelmente dor e tristeza, contagia o próprio
samba, que se transforma, ele também, num canto triste (Olivei-
ra & Marcier, 2003:99).

143
Na década de 1970 o esquema dualista começou a ser dura-
mente criticado por uma gama de intelectuais da época, dando lu-
gar a uma concepção na qual a favela era um complexo coesivo,
extremamente forte em vários níveis: família, associação voluntária
e vizinhança (Zaluar & Alvito, 2003:15). A favela era tida como um
espaço relativamente livre de crimes e violência. No entanto, nessa
mesma época já começava a surgir o que hoje é considerado um
dos principais problemas no Brasil.

Mas havia uma atividade subterrânea que na década seguinte


[1980] transformou a vida dos favelados e que veio mudar o dis-
curso sociológico sobre a favela, trazendo de volta as metáforas
dualistas. Com a chegada do tráfico de cocaína em toda a cidade,
a favela passou a ser representada como covil de bandidos, zona
branca do crime... (Zaluar & Alvito, 2003:15).

Hoje, estudar uma favela carioca significa mapear as etapas da


elaboração de uma mitologia urbana (Zaluar & Alvito:21). A favela
não é o mundo da desordem, tampouco antro da violência que há
na cidade. A idéia de carência e de falta é insuficiente para entendê-
la, assim como o estigma de ser um espaço dos bárbaros. A favela
atravessa a cartografia do Rio de Janeiro e se costura à cidade por
mediações tensas e complexas, tornando-se uma marca histórica
indelével no corpo da polis.

3.4 Uma metáfora da desordem


Em tempos onde os relatos da televisão, dos jornais ou da
publicidade tomam majoritariamente o espaço das comunica-
ções, os relatos de rua ou de bairro acabam se tornando restritos
e pouco presentes na vida cotidiana (Certeau, 1997: 201). Os
meios de comunicação de massa substituíram esses laços sociais
e tornaram-se porta-vozes dos relatos. Dessa forma, as práticas
sociais passaram a ter íntimas ligações com o processo de comu-
nicação massificado.

144
Conseqüentemente, os meios de comunicação de massa, me-
diadores dos discursos na atualidade, tornaram-se os grandes ár-
bitros das práticas sociais. Com a crescente monopolização dos
relatos pela mídia, efeito mais pragmático da sofisticação e disse-
minação da técnica, a cidade contemporânea passou a ser reconsti-
tuída e narrada pela linha de montagem planetária dos mass-media
e difundida como cenário de um relato unificador, como aponta
Argullol (1994:59).
A dificuldade, ou talvez a impossibilidade, de se construir
narrativas totalizadoras para representar a cidade dá ao discurso
massificado da mídia o poder de obter grande espaço na guerra de
relatos da cidade contemporânea. Não há um discurso, e sim, um
emaranhado deles, sendo que os meios de difusão de massa ocu-
pam a posição de prover visibilidade e, por conseqüencia, detêm
certos poderes, principalmente, ao contribuir substancialmente
para a produção do imaginário social.
A forma na qual o discurso nivelador dos meios de comunica-
ção de massa, principalmente o jornalismo, é praticado, pode ser
problematizado de variadas maneiras, sendo a questão da repre-
sentação o nosso foco de análise. O discurso midiático/jornalístico
pretende-se colado à realidade, como a representação, por excelên-
cia, da verdade. Por mais que a tentativa de caracterizar esse discur-
so bombardeie os indivíduos todos os dias, criando uma espécie de
esquecimento da impossibilidade de se colar à realidade, há de se
reafirmar que o relato não é a realidade. A narrativa é apenas uma
forma de vivenciar a cidade, de representá-a, de significá-la.
O processo de atrelar o discurso jornalístico ao fato real está
totalmente comprometido com a espetacularização da existência.
O real é transmitido através do espetáculo, relação social mediada
por imagens, que por sua vez se denomina como a representação
irreal, o simulacro da realidade (Debord, 1997:15).
O poder de articulação do discurso midiático está na própria
falência dos relatos de bairro e das relações interpessoais. O pro-
cesso de comunicação atual é caracterizado pelo isolamento e pela
crescente formação de redes que conectam os indivíduos. Os novos
laços de socialização requerem que as pessoas estejam afastadas e

145
isoladas fisicamente, sendo mediadas pelo espetáculo e integradas
pelas redes (Martin-Barbero, 2002:298).
As representações sociais sobre a violência e sobre os indi-
víduos e instituições que estão envolvidas em suas práticas e em
sua coibição são, hoje, majoritariamente construídas através do
processo de comunicação de massa. Esses discursos, que têm
ampla visibilidade, conseguem nomear e classificar as práticas
sociais através da produção de significados. Assim, a prática so-
cial passa a ser organizada por sua representação social, como
veremos na análise de reportagens sobre crimes violentos em
favelas do Rio de Janeiro.
A favela, como produto urbano, não tem como ter vida pa-
ralela à do asfalto. Por mais que se tente construir uma linha
divisória entre as duas partes, esse espaço se relaciona com todo
o resto da cidade, não há como excluir fisicamente esse contato.
Mas no campo do imaginário social, dominado em grande par-
te pelas representações midiáticas, as diferenças entre as partes
podem ser exacerbadas e construídas visando o direcionamento
do olhar do leitor.
É principalmente pela espetacularização da violência prove-
niente das favelas e da constante visibilidade que os meios dão a
estes eventos, que a favela passa a ser lida como o local da desor-
dem e da barbárie: geografia imaginária produtora do medo atra-
vés dos crimes violentos que se tornam legíveis pelas reportagens.
Essa classificação que aparece nos meios de comunicação consegue
interferir nas práticas sociais da cidade, principalmente quando
olhamos especificamente para as estratégias sociais que tentam li-
dar com o medo de estar no espaço público, ao lado de pessoas
desconhecidas
Nesse amplo leque de práticas que estão diretamente ligadas
aos significados construídos em relação à violência, é importante
destacar duas práticas: a construção de muros (condomínios fecha-
dos, grades, dispositivos de segurança); e as mudanças de hábitos9

9. O jornal O Globo, na edição do dia 5/11/06 publicou uma pesquisa sobre a mudança de hábitos (...)

146
do cotidiano para que a o sentimento de segurança seja encenado.
Quando a violência é associada às favelas, como é o caso da série de
reportagens “A guerra do Rio”, os muros são também erguidos, mas
com conseqüências ainda mais segregacionistas10.
A mídia desponta, então, como um dos mais eficazes meios
de construir sentidos sobre a violência nos dias atuais (Rondelli,
2000:144). Essa capacidade de definição, classificação e normatiza-
ção são produtos da convergência de vozes que, sem a mídia, não
teriam como se articularem com tal amplitude. Esses discursos tais
como o político, o religioso, o jurídico, o médico, o científico e o
próprio jornalístico necessitam do suporte midiático para se tor-
narem públicos e assim exercerem influência na formação de cada
indivíduo e conseqüentemente na sociedade.
Os mass-media, desse modo, são os palcos contemporâne-
os da encenação cotidiana. A guerra de discursos da favela, da
mídia e de toda a sociedade só se desenvolve pelas narrações
veiculadas nos meios de massa. Estar na mídia é condição es-
sencial na disputa pelo poder. Segundo Elizabeth Rondelli: “Os
meios constituem um campo, o lugar onde se dá visibilidade aos

(...) dos cariocas em função da violência. “Duas décadas de violência urbana impuseram pelo menos
35 mudanças físicas e de comportamento no Rio. Durante duas semanas, Selma Schmidt e Isabela
Bastos ouviram mais de 60 pessoas, entre especialistas em segurança, empresários, vítimas e pais.
Eles ajudaram a reconstituir a radical transformação da cidade por causa do medo da violência.
Desde 1980, cada vez mais os cariocas passaram a ter que conviver com grades, câmeras, vias
desertas à noite, carros blindados e um exército de mais de cem mil seguranças particulares. Cria-
ram até códigos de segurança em família e empregam o celular na proteção dos parentes. A mais
recente novidade é o equipamento para abrir a porta de apartamentos com o uso de impressões
digitais e senhas numéricas”.

10. Em um conflito em abril de 2004 na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, a possibili-


dade da construção de um muro ao redor da favela foi colocada pelo Vice-governador. O
jornal O Globo publicou a seguinte reportagem, inserida na série “A guerra do Rio”: “Vice-
governador volta atrás e se diz arrependido de ter falado em muro: Prefeito critica a proposta
e defende decretação do estado de defesa. De um dia para o outro, a palavra ‘muro’ virou
tabu para o Vice-governador Luiz Paulo Conde. Depois de anunciar a construção da barreira
com três metros de altura, para frear o crescimento da Rocinha e evitar que traficantes usem
a mata como rota de fuga, Conde voltou atrás ontem, diante da polêmica que a proposta
causou” (O Globo, 13/04/04, p. 15). Logo abaixo desta reportagem, há uma outra: “Barreiras
que deram e não deram certo”.

147
diversos discursos e onde cada um destes se articula, não só com
o discurso midiático, mas com os outros discursos presentes
neste espaço de mediação” (2000:153).
Nessa guerra de relatos que é sustentada pelos meios de co-
municação de massa há a predominância de uma polifonia, que é
filtrada pelos próprios meios, produzindo um seleto grupo de vozes
que terão visibilidade na sociedade. O que pode ser constatado, em
uma análise geral sobre as ressonâncias de um fato violento, é a res-
trita variedade de discursos, que são selecionados de acordo com o
sentido pretendido pelos comunicadores. O conceito polifônico de
debate, que representaria a aceitação da parcialidade de qualquer
discurso e que deveria estar presente nos meios, acaba se tornando
um movimento consensual que cria um imaginário social anêmico
de questionamentos, e que é constituído exacerbadamente pelo que
paralisa, ou seja, um pânico que gera reações ainda mais autoritá-
rias e não-democráticas.
A produção de sentidos, resultado da convergência de discur-
sos no campo midiático, faz dos meios de comunicação de mas-
sa instâncias de máxima importância. Essas narrativas atribuem
sentidos próprios aos atos de violência na forma de selecioná-los,
editá-los, classificá-los e ao opinar sobre eles. Ter em mãos o poder
de produzir sentidos através de seu próprio processo produtivo faz
da mídia a grande coordenadora dos modos de agir e pensar da
sociedade onde atua.
Ao focar seu discurso na exacerbação da violência urbana que
de algum modo interfere no cotidiano das elites, a mídia (in)for-
ma uma “sociedade que fica sabendo a quem temer, contra quem
se precaver, os lugares a evitar, com quem não conviver” (Manso,
2002:54). Mas o que tememos? Que lugares evitamos? Com quem
preferimos não conviver?
O jornal é ainda um dos principais meios que dão sentido de
pertencimento a uma coletividade. Ao lê-lo, o indivíduo se iden-
tifica com um coletivo. É esse um dos imaginários, desde o século
XVIII, que ajudam a construir a idéia de nação e, também, a idéia
de pertencimento a uma cidade. Junto com a novela é que o jornal,
nos seus primórdios, proverá os meios técnicos necessários para a

148
representação de uma classe, de uma comunidade (Martin-Barbe-
ro, 2002:268), mas, também, dos medos e dos perigos.
Ao reportar para o seu público, metonímia de sociedade, os
fatos violentos que ocorrem pela cidade, e que sem os meios de
comunicação estariam restritos ao espaço onde ocorreram, entra
em cena o confronto entre os discursos que são impelidos a expres-
sarem suas posições frente àquele fato. É através da administração
da economia dessas vozes que a produção de sentido pode ser dire-
cionada, somando a isso todo o processo inerente aos meios como
edição, seleção e classificação.
A legitimação dos meios de comunicação como instrumentos de
leitura da cidade acaba por criar uma sociedade que compra o medo
nas páginas dos jornais ou mesmo nos telejornais (Martin-Barbero,
2002:295). A mídia vende o terror e o medo, pois dessa forma, no âm-
bito das representações, é possível criar a diferenciação entre ordem
e desordem, como também perpetuar uma segregação do espaço pú-
blico e a exacerbação das diferenças sócio-econômicas. Ao evidenciar
cotidianamente a favela como o espaço da violência, a mídia dá àquele
que a sustenta o sentimento de que é um cidadão diferenciado, não
identificado com a barbárie mostrada nas favelas.

[...] é dos medos que vivem as mídias. Medos que provêm secre-
tamente da perda do sentido de pertencer, em cidades nas quais a
racionalidade formal e comercial dói, acabando com a paisagem
na qual se apoiava a memória coletiva, nas quais a normalização
das condutas, tanto quanto a dos edifícios, levam à erosão das
identidades, e essa erosão acaba roubando-nos o piso cultural,
arrojando-nos ao vazio. Medos, enfim, que provêm de uma or-
dem construída sobre a incerteza e a desconfiança que nos pro-
duz o outro, qualquer outro que se aproxime de nós na rua e é
compulsivamente percebido como ameaça (Idem, Ibidem).

Uma parcela do público, que não vive a realidade das favelas,


obtém grande parte das informações através dos meios de comu-
nicação de massa. No entanto, com grande contribuição para essa
segregação social, esses meios só salientam o espetáculo do tráfico
de drogas, ofuscando a promoção da cidadania nos morros, já que
esta parece “não interessar ao público”.

149
Representar a favela com uma conotação majoritariamente
violenta é um ato de violência por si só, pois acaba por criar um
símbolo que é renegado pelos habitantes da cidade urbanizada.
A favela, só pelo fato de ser chamada por outro nome que não o
do bairro onde se localiza, já é deslocada da cidade. Atribuir atos
de violência cotidianamente a esses locais é uma forma de vender
mais, pois a violência proporciona o espetáculo do qual a mídia
precisa. A cidade partida é, também, uma conseqüência do espetá-
culo exibido a cada dia. É através desse jogo de identificação com a
civilização em oposição à barbárie que os meios de comunicação de
massa conseguem viabilizar e manter sua estrutura de poder.
O jornal utilizado como corpus deste capítulo – O Globo –
deixa transparecer o mecanismo mencionado. A hierarquia da
importância dos acontecimentos para este meio é ditada pela
urgência dos fatos, pelo sensacionalismo da violência e pelos in-
teresses que o jornal representa. As favelas aparecem nos meios
de comunicação de massa através de um discurso sintético e ob-
jetivo, no entanto este propõe um subtexto que vai muito além
da notícia. O imaginário do leitor de jornal é povoado por esse dis-
curso que se diz imparcial, verídico e que não se reconhece como
incompleto e subjetivo, já que quem escreve é um indivíduo, um
jornalista, portanto, um mediador.
Nas análises que fizemos nos meandros dos textos das no-
tícias publicadas na série “A guerra do Rio”, pudemos perceber
que os discursos produzidos pretendiam alcançar seus leitores
através da identificação destes com o que está sendo publicado.
No específico conjunto de textos analisados (confronto entre
traficantes de droga e policiais em favelas cariocas), o fato ga-
nhava mais ou menos destaque no jornal de acordo com suas
conseqüências para o cotidiano do asfalto. Um confronto na
favela da Rocinha, em abril de 2004, esteve por sete vezes na
primeira página da edição em um espaço de vinte dias segui-
dos, pois modificou o trânsito, o cotidiano e paralisou aulas de
algumas escolas da Zona Sul carioca e, também, porque houve
vítimas do conflito que não moravam na favela.

150
A Sexta-Feira Santa foi de terror no Rio. Uma tentativa de inva-
são da Favela da Rocinha por 60 traficantes, recrutados em di-
ferentes morros da cidade, levou o medo ontem à Zona Sul. Na
Avenida Niemeyer, que ficou fechada por sete horas, um bando
matou de madrugada a mineira Telma Veloso Pinto, de 38 anos,
há apenas três meses no Rio. Em seguida, os bandidos partiram
para a Rocinha, onde mataram uma babá e um skatista. Por cau-
sa do tiroteio, o Túnel Zuzu Angel ficou fechado por mais de três
horas. Moradores da região viveram momentos de pânico. Balas
traçantes riscavam o céu de vermelho (O Globo, 10/04/04, p. 1).

Em nenhum momento o foco foi para as conseqüências para


os moradores da Rocinha, e sim para os moradores “da região”,
que compreende outros bairros, como Gávea, São Conrado e
Leblon, três dos mais caros lugares no Rio de Janeiro para mo-
rar. Dois símbolos do asfalto são mencionados, pois suas roti-
nas foram alteradas: o Túnel Zuzu Angel e a Avenida Niemeyer.
Nenhum símbolo das favelas é mencionado. A ênfase da notícia
não é o fato em si, mas as conseqüências que isso impôs ao asfal-
to. Ao falar das vítimas, apenas a mulher que morava na zona sul
é identificada com o nome completo e outros detalhes. As outras
duas vítimas são tratadas pelo nome de suas funções no trabalho
e no esporte. Não há interesse em identificar pelo nome, mas
pelo que essas pessoas representavam na sociedade. Isso é uma
forma de estereotipar moradores de favelas.
Na mesma edição, outra reportagem foi veiculada, com o titu-
lo “Calvário carioca: confronto na Rocinha fecha acesso a Barra e
deixa 5 mortos”:

Tiros, pânico e mortes marcaram a Sexta-feira Santa na maior


favela do Rio e na principal ligação entre a Zona Sul e a Barra.
De madrugada, uma tentativa de invasão de traficantes à Favela
da Rocinha terminou com três mortos e sete feridos. Uma das
vítimas foi uma motorista que teria tentado furar um dos blo-
queios montados na avenida Niemeyer por cerca de 60 bandidos
vestidos de preto e usando coletes a prova de balas para roubar
carros que seriam usados na invasão. A Niemeyer ficou fechada
por sete horas e o Túnel Zuzu Angel, por mais três, para evitar
que mais pessoas fossem feridas pelos tiros de fuzil: balas tra-
çantes riscavam o céu de vermelho. À noite, o tenente Rolim e
um soldado do Bope morreram num tiroteio com traficantes da
Rocinha. Os bandidos chegaram a lançar uma granada contra
um carro da PM (O Globo, 10/04/04, p. 11).

151
No subtítulo, os fatos que parecem ser os mais expressivos não
são as mortes ocorridas, mas os engarrafamentos no trânsito da
cidade. A notícia é o fechamento do principal acesso à Barra da
Tijuca, bairro nobre do Rio de Janeiro. Mas o intrigante nessa re-
portagem é a palavra calvário, usada para definir uma situação que
não é pontual. O calvário carioca é uma expressão generalista – dia-
logando com “a guerra do Rio” –, mas, ao mesmo tempo ambígua,
pois não aponta o que de fato seria o calvário: as favelas, a violência,
o tráfico de drogas?
Esse ponto de vista do título dá margens a várias interpreta-
ções, inclusive aquela religiosa (o conflito ocorreu em uma Sexta-
feira Santa), fazendo referência ao martírio de Jesus Cristo no Mon-
te Calvário, nas cercanias de Jerusalém, onde foi atormentado até
a morte. O fato de estar no singular nos leva a crer que o único
tormento da cidade (como metáfora humana ou, ainda, divina) são
as favelas ou a violência urbana.
Se olharmos no dicionário (Houaiss, 2001), acharemos algu-
mas outras definições para calvário. Uma possível interpretação nos
levaria a entender calvário como uma elevação ou encosta difícil de
subir, sendo uma metáfora em relação ao morro onde fica a Roci-
nha. Essa seria uma leitura que repetiria o dualismo que caracteri-
zou o imaginário da favela ao longo do século XX, pois marca uma
diferença em relação à cidade pela falta de mobilidade, da liberdade
de ir e vir. Na mesma edição, um outro titulo parece enfatizar tal
perspectiva: “Poder paralelo no Rio” (O Globo, 10/04/04, p. 1). A
favela seria uma elevação difícil de subir, pois há uma ordem não
institucionalizada, onde as regras são produzidas aleatoriamente,
de acordo com a vontade de quem “manda no morro”.
Por outro lado, se continuarmos nos guiando pela dicionarização
do termo, chegaríamos à conclusão de que se trata, também, de uma
tarefa que exige grande esforço e causa grande sofrimento. Que tarefa
seria essa? Extinguir o conflito através do aparato militar policial? Ou
o grande esforço seria conviver com um imaginário do medo povoado
por imagens de violência que acontecem cotidianamente?
Por fim, há ainda um outro sentido para calvário: dívida alta,
em grandes quantidades. Essa talvez seja a interpretação mais com-

152
plexa e a menos excludente, pois pensaria a favela como parte da ci-
dade. Uma geografia que foi negligenciada e que, agora, cobra uma
dívida cara demais, através da violência exacerbada
A ênfase do texto em relação ao público-alvo é muito clara.
Por trás de todo o aspecto econômico que envolve um jornal, essa
conotação acaba produzindo um sentido de segregação. A Rocinha
fica entre as duas regiões mais valorizadas da cidade do Rio de Ja-
neiro. É por isso que ela se torna um calvário, algo que não é tido
como parte do cenário da ordem idealizada.
Inúmeros atos de violência acontecem em todas as esferas da
sociedade. No entanto, a favela é o espaço mais focalizado como
fonte para as representações jornalísticas. Na economia dos discur-
sos que o jornal dá suporte diariamente, o que faz um fato ter maior
destaque é a identificação que o seu leitor terá com este aconte-
cimento. Para noticiar o conflito em uma favela há pressupostos
como: localização em relação aos bairros de classes média e alta;
influência do fato ocorrido para o asfalto, tais como alteração do
trânsito, vítima moradora do asfalto, confronto espetacular entre
traficantes e policiais ou ainda flagrante de algum ato criminoso
pelas lentes de um fotógrafo ou de uma câmera de televisão.
Destarte, raramente o morador da favela tem espaço para en-
cenar na mídia. A palavra que vem do morro é a da boca-de-fumo.
É esse o discurso que interessa aos meios. Do excluído não há o que
falar, somente quando esse retorna e invade o espaço da ordem é
que as narrativas proliferam. A violência dos desordeiros é a prin-
cipal ameaça à tranqüilidade da classe média. O discurso do terror
que paira no ar é, além dos fatos, a eterna criação dos meios, que
precisam vender: pressuposto básico que, segundo Guy Debord,
rege a sociedade do espetáculo.
Em outra edição, sob a mesma rubrica (“A guerra do Rio”), O
Globo veiculou a reportagem intitulada “Facções se unem contra as
milícias e aterrorizam o Rio”:

No pior ataque de bandidos no Rio, em 15 ações na madrugada


e na manhã de ontem, 18 pessoas morreram e 23 ficaram feridas,
quando criminosos queimaram ônibus, metralharam cabines da
PM e jogaram granadas em delegacias. Os ataques aconteceram

153
a quatro dias do reveillon. [...] No incêndio de um ônibus, na
avenida Brasil, sete pessoas morreram carbonizadas. A Secre-
taria de Segurança atribui os ataques à busca de regalias pelos
bandidos na mudança de governo, mas a hipótese mais provável,
por estar amparada por documentos, é a da Administração Peni-
tenciária: as ações foram cometidas por duas facções criminosas
que se uniram para combater as milícias, formadas por policiais
da ativa e da reserva, em favelas antes dominadas pelo tráfico (O
Globo, 29/12/06, p. 1).

A cidade partida é encenada todos os dias no momento em


que o discurso jornalístico emprega o adjetivo “violento” ou seus
similares para classificar a favela como um antro de selvagens,
como é o caso da reportagem acima, quando localiza a onda de
violência em favelas. A menção à guerra no titulo da rubrica “A
guerra do Rio” coloca a questão de uma maneira diversa, pois
cria uma idéia de continuidade, assim como a forma narrativa
utilizada: a série descontínua. Uma guerra não é um conflito
curto, mas, pelo contrário, um estado contínuo de violência, um
estado de exceção.
Decerto que não é somente a favela que recebe essa conota-
ção nos jornais, mas nenhum outro espaço urbano é tão atrelado
à violência no Rio de Janeiro quanto esse, que é, conseqüente-
mente, uma geografia associada ao medo: “o terror se espalhou
pela Região Metropolitana: traficantes deixaram as favelas para
matar, incendiar ônibus e atacar a tiros delegacias e cabines da
PM” (O Globo, 29/12/06, p. 17). Ou ainda, em referência às con-
seqüências de tais atos em relação às pessoas e ao cotidiano da
cidade, uma outra reportagem com o título “O velho problema:
medo bate às portas de 2007: moradores se trancam em casa,
deixando ruas vazias. Lojas fecham mais cedo e empresas libe-
ram funcionários”:

Em contagem regressiva para o Ano Novo, quando em todo


mundo se renovam as esperanças, o Rio viu o medo bater às por-
tas de 2007. Em vez de se despedir do ano que acaba em paz,
embora sem muito motivo para nostalgia, os cariocas tiveram
o desgosto de assistir a uma onda de ataques violentos. Por toda
a cidade, ruas vazias, clausura voluntária − entre sair e ficar em
casa, a opção foi não se arriscar no mundo cão −, e, sim, muita

154
indignação contras as autoridades públicas. Na Barra da Tijuca e
na Zona Oeste como um todo, onde as milícias são mais fortes,
as pessoas evitaram sair de casa e comerciantes fecharam as por-
tas mais cedo. A insegurança contagiou a Zona Sul, onde houve
ataques em Botafogo e na Lagoa (O Globo, 29/12/06, p. 17).

A favela como espaço geográfico estranho à cidade, por ter


uma organização com pouca ou nenhuma influência do Estado,
necessita de uma conotação distinta: esse é o imperativo que não
escapa às representações sociais contemporâneas. E essa conotação
está sempre ligada à questão da violência urbana proveniente do
tráfico de drogas. A figura do “traficante” tornou-se a marca da fa-
vela, sendo o próprio termo favela uma generalização para áreas de
baixa renda em que há tráfico de drogas.
Em outra reportagem, ainda na série “A guerra do Rio” a figura
do traficante passa a dividir a conotação de terrorista com policiais
que estariam formando milícias paramilitares11 para proteger terri-
tórios do comércio de drogas, mas, ainda assim, a favela é o espaço
definidor da narrativa:

Antes limitados a disputas territoriais entre traficantes de fac-


ções rivais ou entre a polícia e o crime organizado, os confron-
tos armados no Rio passaram a envolver um terceiro grupo: o
das milícias. No meio do fogo cruzado cada vez mais intenso, a
população indefesa. Dois tiroteios na Zona Norte neste fim de
semana, envolvendo traficantes, policiais e milícias − grupos pa-
ramilitares que expulsam o tráfico das favelas e depois passam a
cobrar taxas dos moradores pela suposta proteção − deixaram
um total de seis mortos e seis feridos no Morro do Barbante (Ilha) e

11. O texto do jornal define o termo milícia: “A ação das milícias. A cada 12 dias, uma favela do-
minada pelo tráfico no Rio é tomada por milicianos. Informações da Subsecretaria de Inteligên-
cia da Secretaria de Segurança revelam que as milícias já dominam 92 favelas no Rio. O modus
operandi das milícias é conhecido: invadem a favela, expulsam os traficantes, ocupam o lugar e
passam a cobrar pela suposta proteção que oferecem, ágio sobre venda de gás e percentuais em
vendas e locação de imóveis. A expansão desses grupos só é possível com o apoio da população
local e militares que moram ou atuam nessas regiões. Na maioria das vezes, os PMs se ausentam
no momento da invasão das milícias. Depois que elas se instalam, o policiamento retorna, desta
vez para impedir o retorno dos traficantes expulsos” (O Globo, 05/02/07, p. 10).

155
no conjunto habitacional Cidade Alta (Cordovil). Desde quinta-
feira, somando-se enfrentamentos entre traficantes nas favelas
Rocinha, Vila dos Pinheiros, Mineira e São Carlos, o número de
vítimas sobe para nove mortos e oito feridos (O Globo, 05/02/07,
p. 10).

A favela é, ainda, um espaço da diferença. Conotação essa que


hoje cabe à mídia expressar com a maior amplitude, posto que essa
consegue, com sua massificação, balizar as práticas sociais através
das suas representações. Investigar como um determinado meio de
comunicação representa a favela é também uma tentativa de enten-
der como os indivíduos que são atingidos por tal discurso lêem as
representações veiculadas.
Mais do que o abismo econômico, há, na guerra de discursos
produzida pelos meios, a tentativa de produzir a cidade partida. Duas
cidades distintas em guerra, onde a selvageria faria parte da outra cida-
de: uma necessidade de se distinguir e ordenar o dia-a-dia. Colocar a
violência atrelada aos morros e favelas é a forma de determinar quem
representa a civilidade de um lado e a selvageria de outro.

A fobia pelo diferente une-se ao temor, à insegurança, justamen-


te experimentados, conseqüência de formas diversas de impu-
nidade e pactos perversos de que a cidade é vítima, e passa a
tomar novas formas. Se as camadas subalternas não podem ser
totalmente excluídas do convívio social, resta a auto-exclusão como
forma de garantia do convívio limitado aos seus pares. A claustro-
filia instaura-se sem deixar de ser uma outra forma de rejeição à
democrática utilização do espaço urbano (Resende, 2003: 64).

Dessa forma, na cidade, vão sendo criadas ilhas herméticas,


verdadeiras fortalezas, onde as pessoas passam a se conectar por re-
des e se vêem representadas pelos meios de comunicação de massa.
No Rio de Janeiro, a favela é uma fortaleza assim como os condo-
mínios de luxo. Quem fica sem proteção é a classe média que vive
acostumada com o medo, que em grande parte é construído pelos
meios que ela mesma sustenta.

156
3.5 A guerra do Rio
Em 2003, quando os Estados Unidos da América, sob a presi-
dência de George W. Bush, invadiram o Iraque, em busca de armas
de destruição em massa, e promoveram uma guerra, o jornal O
Globo noticiava o assassinato de uma adolescente em uma estação
de metrô na Tijuca, bairro carioca. Lado a lado, ambos os títulos pa-
reciam querer contaminar o contexto de cada um: “A guerra de Bush”
e “A guerra do Rio”. A expressão relacionada à violência urbana era
uma clara alusão à guerra que o presidente norte-americano declarou
naquele mesmo ano. Dois conflitos com características diferentes eram
colocados quase como equivalentes, uma espécie de colagem.
Desde então, “A guerra do Rio” tornou-se uma rubrica que
nomeia conflitos entre traficantes de drogas e policiais em favelas
do Rio de Janeiro. Curiosamente, essa série não teve uma duração
planejada (diferentemente das duas outras séries analisadas na pri-
meira parte): um acontecimento foi sendo ligado a outro durante
anos, e a expressão deixou de ser apenas uma rubrica para se tornar
uma campanha política que perdura até o momento (2009).
Tendo em vista a extensão de tal série, selecionei para um capí-
tulo da pesquisa principal algumas edições que cobriram conflitos
em favelas cariocas em 2004, 2006 e 200712. As reportagens de 2004
tratam de um conflito ocorrido na favela da Rocinha entre trafican-
tes rivais e a polícia; as de 2006 tratam do conflito entre traficantes,
policiais e as chamadas milícias, em várias favelas da cidade; as re-
portagens de 2007 tratam de um extenso conflito entre traficantes
de drogas e policiais no conjunto de favelas conhecido como Com-
plexo do Alemão. Todas as reportagens têm como cenário uma ou
mais favelas da região metropolitana do Rio de Janeiro.
No dia 10/04/2004, o jornal O Globo publicou em sua primei-
ra página a seguinte manchete: “Guerra do tráfico mata 5 e impõe

12. As edições tabuladas foram as dos dias 10, 13, 15 e 16 de abril de 2004; 5 de novembro e 29
de dezembro de 2006; 5 de fevereiro e 12 de maio de 2007. O resultado final da pesquisa está
publicado em CORRÊA, 2009.

157
terror na Zona Sul”. Esse episódio marcou o início de uma série de
conflitos entre traficantes de drogas das favelas da Rocinha e do
Vidigal que seriam comandadas por facções rivais. Ao longo do ano
de 2004 esses conflitos estiveram regularmente nas páginas dos jor-
nais cariocas, proporcionando um amplo debate sobre a questão da
segurança pública e das favelas.
Na análise do conjunto de reportagens, a primeira coisa que
saltou aos olhos foi a demarcação de uma mesma chamada para to-
das as notícias que tivessem algum envolvimento com o fato prin-
cipal, que seria o confronto entre os traficantes de drogas. A frase
utilizada para essa chamada padronizada foi: “A guerra do Rio”.
Essa expressão tentou unificar episódios de violência, ocorridos em
favelas cariocas, por um fio condutor, uma narrativa contada em
capítulos, aproximando-se do formato folhetinesco. Durante onze
dias consecutivos os leitores acompanharam uma mesma história,
esperando a cada dia novos fatos e descobertas. Selecionamos tre-
chos de reportagens de cada uma das onze edições para demonstrar
o que a expressão “A guerra do Rio” abrangeu.

Calvário carioca
Tiros, pânico e mortes marcaram a Sexta-feira Santa na maior
favela do Rio e na principal ligação entre a zona Sul e a Barra.
De madrugada, uma tentativa de invasão de traficantes à Favela
da Rocinha terminou com três mortos e sete feridos (O Globo,
10/04/04, p. 11).

A violência na Rocinha
A guerra na Favela da Rocinha começou na madrugada de sex-
ta-feira. Numa ação violenta, cerca de 60 bandidos vestidos de
preto e usando coletes à prova de balas pararam motoristas na
Avenida Niemeyer por volta de 1h da manhã. A mineira Telma
Veloso Pinto, de 38 anos, tentou escapar do bloqueio, foi baleada
na cabeça e morreu na hora (O Globo, 11/04/04, p.31).

Limite da violência
Para acabar com a guerra pelo controle do tráfico na Favela da
Rocinha, que começou na madrugada da Sexta-feira Santa e já
deixou oito mortos, o governo do Estado anunciou ontem que
vai cercar parte do morro com um muro de três metros de altura
(O Globo, 12/04/04, p.8).

158
Cenas de uma guerra anunciada
São 10 horas da manhã de domingo de Páscoa. Foi uma noite
calma para os moradores da Gávea e de São Conrado, depois de
48 horas de guerra na Favela da Rocinha. A zona nobre do Rio
retoma a rotina. Os motoristas voltam aos poucos a transitar pela
Avenida Niemeyer e pelo Túnel Zuzu Angel (O Globo, 13/04/04,
p.13).

Agora a guerra é política


Alvo da guerra que já dura seis dias pelo controle do tráfico na
Rocinha, a população do Rio assiste a um confronto paralelo:
o tiroteio político entre as autoridades. Ontem, durante uma
reunião, o secretário de Segurança, Anthony Garotinho, tentou
acuar o governo federal e constrangeu o secretário nacional de
Segurança, Luiz Fernando Corrêa, anunciando estar disposto a
aceitar a oferta de envio de tropas das Forças Armadas para aju-
dar no combate a violência (O Globo, 14/04/04, p.14).

Policia mata chefe da Rocinha


Cem homens do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM
mataram na tarde de ontem o traficante Luciano Barbosa da Sil-
va, o Lulu, de 26 anos, e seu cúmplice Ronaldo de Araújo Silva,
de 27 anos, no alto da Favela da Rocinha, num lugar conhecido
como Laboriaux. Foram 15 minutos de intenso tiroteio (O Glo-
bo, 15/04/04, p.11).

“Bonde” de Lulu vai ao cemitério


O tráfico da Rocinha desceu o morro ontem e desafiou a polí-
cia no asfalto. Quinhentas pessoas – inclusive muitos bandidos,
segundo policiais – foram ao Cemitério São João Batista para o
enterro do traficante Luciano Barbosa, o Lulu, que comandava a
venda de drogas na favela (O Globo, 16/04/04, p.15).

A caçada a Dudu
A caçada ao traficante Eduíno Eustáquio de Araújo Filho, o
Dudu, de 31 anos, que chefiou a tentativa de invasão da favela
da Rocinha na Sexta-feira Santa, é agora prioridade da polícia do
Rio (O Globo, 17/04/04, p.15).

Nove pessoas são presas na caçada a Dudu


Nove pessoas acabaram presas ontem durante a caça ao trafican-
te Eduíno Eustáquio de Araújo Filho, o Dudu, de 31 anos, que
chefiou a tentativa de invasão da Favela da Rocinha na Sexta-
feira Santa (O Globo, 18/04/04, p.22).

159
O caráter folhetinesco pode ser visto pela fragmentação das
seqüências narrativas que formam uma série e pela constante re-
petição das mesmas informações a cada dia. Palavras como guerra,
violência, tiros e pânico são associadas a eventos ocorridos na fave-
la da Rocinha e seus arredores.
Se justapuséssemos os títulos das reportagens transcritos aci-
ma, teríamos algo como uma pequena história contada por tópi-
cos: calvário carioca; a violência na Rocinha; limite da violência;
cenas de uma guerra anunciada; agora a guerra é política; policia
mata chefe da Rocinha; bonde de “Lulu” vai ao cemitério; a caçada
a Dudu; nove pessoas são presas na caçada a Dudu. De certa forma,
o que lemos nesses títulos é uma cronologia que poderia estrutu-
rar um romance ou qualquer outra ficção: o enredo é apresentado
(calvário carioca; a violência na Rocinha), desenvolvido (limite da
violência; cenas de uma guerra anunciada; agora a guerra é política;
policia mata chefe da Rocinha; bonde de “Lulu” vai ao cemitério; a
caçada a Dudu) e resolvido (nove pessoas são presas na caçada a
Dudu), formando um arco narrativo clássico.
O desenrolar dos acontecimentos e as ações de governo e so-
ciedade passam todos pelo crivo da rubrica “A guerra do Rio”. As
pequenas narrativas são costuradas a esse padrão e ganham menos
ou mais espaço de acordo com a proximidade do fato principal – o
conflito na Rocinha – com a vida cotidiana do “asfalto”.
Por outro lado, a expressão é uma metonímia que faz com que
a Rocinha seja o símbolo de uma guerra do Rio de Janeiro com
ele mesmo. Nesse caso, O Globo toma a parte pelo todo e define
a guerra que ocorreu nas proximidades da Rocinha como sendo
a guerra do Rio de Janeiro inteiro. Ou, por outro lado, a guerra do
Rio contra os perigosos traficantes de droga das favelas. Isso impli-
ca um maior peso para as notícias, pois passa a dizer respeito a todo
e qualquer cidadão.
Olhando para trás, na história da Imprensa brasileira não há
como ficar surpreso quando hoje os jornais utilizam as técnicas de
folhetim em suas narrativas, como atos que beiram a campanhas
políticas para compartilhar inimigos e medos. O folhetim foi o for-
mato que ajudou a consolidar os jornais como meios regulares de

160
informação de massa. Por muito tempo esse formato foi a base da
notícia, tendo ainda resquícios no jornalismo atual. A imprensa
absorveu técnicas literárias de narrativa e reciclou-as, assim como
recicla a si mesmo ao longo dos anos.
Uma expressão parecida, decerto quase igual à “A guerra do
Rio”, esteve nos jornais cariocas no final da década de 1940. O então
jornalista Carlos Lacerda publicou uma série de artigos dramáticos
defendendo a “Batalha do Rio de Janeiro” ou a “Batalha das favelas”.
Essas expressões circularam em jornais como Correio da Manhã, O
Globo, Diário da Noite, Tribuna da Imprensa, que representavam,
em suas páginas, a favela como “reservatório de germes (potencial-
mente mais perigosos do que uma bomba atômica), trampolins da
morte, devido aos desabamentos” (Zaluar & Alvito, 2003:14).
A campanha “A Batalha do Rio” foi uma das inúmeras tentati-
vas do Estado de interferir nas favelas não com um ato integrador
dessas com a cidade urbanizada, mas com um intuito preconceitu-
oso de querer apagar da cartografia carioca aquele espaço estranho,
que não era condizente com a normalidade e a ordem idealizada.
A favela, mais do que qualquer outro espaço, representava o
papel do inimigo interno. Era preciso uma batalha para extirpar
o que desde o começo tinha sido o “lixo” da modernização do es-
paço urbano. Não havia a intenção de integrar as “duas cidades”. O
próprio Carlos Lacerda propunha uma expropriação dos grandes
edifícios sem, com isso, conectar os dois lados:

Aqueles que não quiserem fazer um esforço sincero e profun-


do para atender o problema das favelas, assim como aqueles que
preferirem encará-lo como caso de polícia, têm uma alternati-
va diante de si: a solução revolucionária, [pois os] comunistas
(...) oferecem a expropriação dos grandes edifícios e a ocupação
de todo o edifício como solução imediata, redutora e fagueira a
quem vive numa tampa de lata olhando o crescimento dos arra-
nha-céus (Lacerda apud Zaluar & Alvito, 2003:14).

Cumprindo o que havia prometido, Carlos Lacerda viria a por


em prática, quando eleito governador da Guanabara em 1961, uma
política de remoção de favelas da Zona Sul do Rio de Janeiro. Isso

161
demonstra que a questão das favelas foi e é, sobretudo, uma ques-
tão política e simbólica, gerando conseqüências na geografia e na
arquitetura do espaço urbano.
A “batalha do Rio” dos anos 1940 tornou-se “a guerra do
Rio” do começo dos anos 2000. O que muda são as persona-
gens do conflito, mas não a geografia, que é sempre destacada
pela linguagem. “De batalhas faz-se guerras” é uma expressão
que conota uma acumulação de tempo e, mais do que isso, uma
contínua situação de conflito que tende a se exacerbar. Desde
as batalhas até a guerra, a idéia é sempre a mesma: o conflito
caminha para um acirramento ou, como já mencionado, para
uma “escalada da violência”. Essa idéia de intensificação não ne-
cessariamente corresponde a uma realidade, mas, sim, a uma
contínua alimentação do imaginário do medo. São imagens que
estão sempre indo em direção a algo maior e mais assustador;
seguem um crescendo infinito de uma narrativa sem fim.
Em cinqüenta anos muita coisa mudou, e a favela acabou
adquirindo outras conotações no imaginário midiático. A par-
tir da década de 1980 e mais intensamente na década 1990, os
morros cariocas voltaram a ter espaço nos jornais. Dessa vez o
problema era mais complexo e tinha relação com a violência ur-
bana e com o crime organizado: as favelas tinham sido “eleitas”
como bases de distribuição de entorpecentes13. Até então isso
já acontecia desde meados dos anos 1970, mas a violência que
vinha da favela não era noticiada; talvez devido à rígida censura
colocada em prática pelo regime militar. Somente quando a ten-
são entre o morro e o asfalto foi se acirrando e invadindo a cena
é que a imprensa demonstrou interesse. Os traficantes de drogas
estavam se armando com artilharia sofisticada e as editorias de
cidade dos principais jornais cariocas passaram a publicar notí-
cias relacionadas ao tráfico de drogas e à violência sempre tendo
como cenário a favela. O delineamento dessa nova condição da
criminalidade urbana ocorreu ao longo dos anos 1990:

13. Distribuição essa que se expandiu no mundo globalizado sob o mesmo guarda-chuva da aber-
tura de mercados implementada nesta época.

162
Em 1994, armamentos sofisticados vieram incluir-se no rol de
mercadorias a serem traficadas. Certos grupos de traficantes, so-
bretudo nas favelas situadas nas proximidades do aeroporto e da
zona portuária, começaram a especializar-se na venda de armas
aos traficantes de outras favelas que queriam proteger-se contra
a invasão da polícia e de outros grupos rivais. Assim, havendo
condições favoráveis, o tráfico de cocaína e outras mercadorias
aumenta, e, com ele, o envolvimento das comunidades em que
se acham os traficantes (Leeds, 2003:239).

O livro de Zuenir Ventura, Cidade partida (1994), é fruto dessa


conotação que a favela passava a ter. Impulsionado pela chacina
em Vigário Geral (1993), favela carioca onde foram mortas vinte
e uma pessoas que não eram relacionadas ao tráfico de drogas, o
jornalista vivenciou durante nove meses o cotidiano dos moradores
dessa comunidade. A conclusão do livro-reportagem é a volta ao
pensamento bipolar que teve destaque no início do século XX no
Brasil14. A cidade partida de Zuenir é marcada pela divisão em dois
espaços: de um lado o tráfico de drogas exercendo poder, através de
ameaças, sobre as comunidades que vivem nos morros e, de outro,
a cidade sitiada, com medo das favelas e se afastando cada vez mais
do convívio com os moradores desses locais. A batalha contra as
favelas voltava à cena nos anos 1990, só que agora pelo viés da polí-
tica de segurança pública.
Se por um lado as expressões relacionadas às batalhas na ci-
dade estão presentes em tempos completamente diferentes e com
conotações distintas, por outro o cenário continua o mesmo. A fa-
vela acabou sendo legitimada pela ação do tempo. Em um século
esse espaço já criou sua história e, hoje, as políticas de remoção têm
cedido lugar às políticas de integração e urbanização. Mas a duali-
dade entre os dois espaços foi exacerbada. A imprensa aponta, hoje,
para um poder paralelo que estaria assumindo o lugar do Estado
nas favelas e na cidade, gerando assim, diariamente, um confronto
armado entre dois poderes. A cidade estaria mais do que partida,
estaria dividida e em guerra.

14. Na mesma esteira de pensamento dualista que teve como um de seus expoentes Euclides da
Cunha, autor do célebre Os sertões, publicado pela primeira vez em 1902.

163
Tentando superar o dualismo histórico, hoje há um pensamento
que vê a cidade mais do que partida, mas em estilhaços, um caleidos-
cópio que não se deixa ler. Totalmente fragmentada e desintegrada, a
cidade só consegue se reconstruir nos mass-media, através do espetá-
culo (Argullol, 1994:59). É pela narrativa desses meios que ela conse-
gue se ver representada. Eis, então, uma questão: se a cidade só conse-
gue se reconstituir através dos meios de comunicação de massa, e estes
exibem uma cidade em guerra, em que a violência e o terror vêm da
favela, como no caso aqui estudado, qual é a imagem desse espaço no
imaginário social, senão aquela relacionada a medo?
A conotação da favela ainda é pejorativa e cunhada de violên-
cia. Somado a isso, temos a imprensa de hoje, que é lastreada pela
sociedade do espetáculo, expressão inaugurada por Guy Debord
(1997). Imprensa essa que faz das imagens e do discurso sedutor
o pivô de suas práticas sociais. “O caráter ideológico do adjetivo
‘violento’ fica claro quando é utilizado sistematicamente para carac-
terizar o ‘outro’, o que não pertence ao mesmo estado, cidade, raça,
etnia, bairro, família, grupo, etc” (Zaluar, 2003:212).
É através do sistemático e cotidiano discurso que conota a vio-
lência do tráfico à favela que O Globo cumpre o papel de imaginar
uma geografia do medo que sustenta uma vitimização e, também,
conseqüentemente, uma ausência de culpa. De forma notável, na
grande maioria dos textos analisados as notícias se referiam às con-
seqüências e não ao próprio acontecimento, construindo uma vi-
timização da ordem. Isso pode ser constatado na medida em que
temas relacionados ao trânsito representaram uma grande parte da
massa de reportagens, e os moradores da Rocinha, em pior situação
que todos os outros, não receberam qualquer menção.
Além disso, o conflito só ganhou grande cobertura pois
transbordou das favelas para o asfalto. Isso demonstra que a am-
plitude do espaço cedido ao fato depende do local onde o mes-
mo ocorre. Se for dentro da cena - a cidade - os holofotes ace-
sos focam e transmitem o espetáculo. Caso contrário, quando
na maioria das vezes a obscena (Gomes, 1994:103) - a favela - é
o palco, os holofotes elegem outras práticas para fornecer o espe-
táculo de cada dia, deixando tais acontecimentos na penumbra.

164
3.6 Um outro relato
Um ano após os acontecimentos de abril de 2004 na favela da
Rocinha, Luiz Eduardo Soares, MV Bill e Celso Athayde lançam o
livro Cabeça de porco (2005), que tenta, através da junção de dis-
cursos produzidos pelos dois lados da “geografia da cidade racha-
da”, compreender e achar soluções para o problema da violência e
do tráfico de drogas nas favelas de várias cidades brasileiras.
Apesar de ser escrito a seis mãos, a autoria de cada texto é ex-
plicitada. MV Bill é um cantor de hip hop reconhecido nacional-
mente por seu pensamento crítico em relação à violência e ao trá-
fico de drogas nos guetos e favelas do Brasil. Bill, junto com o líder
comunitário e fundador da Central Única das Favelas (Cufa), Celso
Athayde, pesquisou pelo Brasil afora como o tráfico de drogas se
infiltrava nas comunidades de baixa renda. Acompanhados de uma
câmera, eles viajaram de norte a sul tentando descobrir esse mundo
marginal que se espalhou tão amplamente pelas grandes cidades.
Cabeça de porco engloba alguns desses relatos coletados na pesqui-
sa, bem como análises e depoimentos dos autores.
Esse projeto ainda rendeu um outro produto, que foi alvo de
muitos debates em vários setores da sociedade. O documentário
Falcão: meninos do tráfico (2006) foi produzido por MV Bill e Celso
Athayde, e exibido em cadeia nacional pela Rede Globo de televisão
no programa Fantástico15, que vai ao ar todos os domingos à noite.
Trata-se de entrevistas com crianças e adolescentes que estão envol-
vidos, de alguma forma, com o tráfico de drogas.
Em Cabeça de porco, há dois capítulos dedicados aos acon-
tecimentos reportados em “A guerra do Rio”. Escritos por Luiz
Eduardo, “Guerra na Rocinha” e “As voltas da vida”, títulos dos
capítulos, trazem à tona uma nova abordagem em relação aos
fatos em questão. O cientista social traça uma abordagem deixa-
da de lado pela grande mídia que cobriu tal episódio. Ele apenas

15. O documentário é fruto das filmagens feitas por MV Bill e Celso Athayde, mas a montagem
do filme exibido no programa de televisão foi feita pela Rede Globo com o aval dos produtores.

165
contextualiza os fatos em uma perspectiva histórica, que privilegia
uma lógica do encadeamento dos acontecimentos, enquanto que
os relatos veiculados na imprensa (incluindo aí o jornal O Globo)
trabalham com a lógica própria do espetáculo, que utiliza imagens
descontextualizadas, ou contextualizadas com outras imagens espe-
taculares. Dessa forma, a lógica e a ligação de um fato com o outro
se dá pelo próprio espetáculo, sem nenhum mediador que atravesse
esse elo; constituindo, ainda, a tentativa de eliminar a percepção de
que há uma mediação entre o real e o narrado.
Nos relatos de Soares, seguimos uma abordagem que coloca os
fatos como sendo conseqüências de contratos marginais que se es-
tabelecem entre a polícia (como representante do Estado) e os tra-
ficantes. A tese de Soares aborda o traficante Luciano, da Rocinha,
em uma perspectiva mais humanitária, resolvendo, assim, questões
que ficavam soltas em “A guerra do Rio”, como, por exemplo, o epi-
sódio do sepultamento de Luciano.

No Rio de Janeiro, em 2004, a comunidade da Rocinha teve de


reeditar Antígona16 para enterrar um de seus filhos. Não lhe foi
recusado o direito de sepultar Lulu, líder do tráfico local, mas a
impediram de fazê-lo com o necessário respeito e a devida ma-
nifestação de luto. A pequena multidão que compareceu ao ce-
mitério São João Batista para a cerimônia foi exposta a vexames e
humilhações, exibida com irônico despudor pela mídia, vigiada
e filmada ostensivamente pela polícia, tratada como um agru-
pamento de suspeitos. A imagem e o sentido transmitidos para
a opinião pública omitiram o sofrimento e a morte, como se o
cadáver de um homem não testemunhasse a vida suprimida de um
homem, mas a reincidência criminosa dos que o choram (Soares;
Bill & Athayde, 2005: 89).

Soares coloca em questão o direito ao sofrimento que aquelas pes-


soas tinham. Completa seu raciocínio afirmando que “esse direito é
vetado pela arrogância da polícia e da mídia, que expropriam a dor e a
dissolvem no espetáculo que protagonizam, devolvendo-a, nos notici-
ários, sob forma de entretenimento e desqualificação” (Idem, Ibidem).
16. Na mitologia grega, Antígona enfrentou o poderoso Creonte para conquistar o direito se se-
pultar seu irmão.

166
Há uma tentativa de desconstruir a imagem do traficante alimen-
tada pela mídia, que é a encenação de um bárbaro que é o culpado
pela violência que assola os cidadãos cariocas.
No decorrer do capítulo, Soares nos reporta sua trajetória à
frente da Secretária Nacional de Segurança Pública e, também, seus
primeiros contatos com Luciano. É explicitada a vontade desse de
deixar a vida marginal, pois sabia que estava condenado à morte
precoce. Em uma intrincada rede de comunicação, essa mensagem
de Luciano chegou até Luiz Eduardo Soares, quando esse ainda era
secretário. A resposta foi imediata:

Eu mandei lhe dizer duas coisas: como secretário, tinha obriga-


ção de cumprir a lei e prendê-lo. Mas, como ser humano, via
com alegria sua disposição de abandonar aquela vida e começar
de novo. Se dependesse de minha vontade estritamente pessoal
e privada, eu passaria a borracha no passado e o empurraria ao
futuro, como o segundo parteiro de sua biografia (Soares; Bill &
Athayde, 2005:90).

Meses se passaram e Soares acabou saindo da Secretaria


Nacional de Segurança Pública, em um episódio de crise po-
lítica em que policiais fizeram acusações graves ao secretário
e, propositalmente, segundo Soares, deixaram a informação
vazar para a imprensa. Tendo se desligado do cargo, o cientis-
ta social viajou para o Maranhão e lá se encontrou, por acaso,
com Luciano, que lhe reportou seus anseios, transcritos em
Cabeça de porco:

O senhor sabe quem eu sou? [Sou o] Luciano, da Rocinha.


Consegui sair de lá. Estou aqui de passagem. Vim buscar uma
bênção. Vou embora hoje mesmo, para bem longe. Quero
que o senhor saiba que respeito o senhor e os policiais ho-
nestos. Vocês estão fazendo seu trabalho, que é o certo. Vou
mudar de vida. Não concordo é com o achaque, a mentira,
a falsidade. Bandido fardado é o pior bandido. Eu dava mil
reais por dia para cada policial que fazia ronda embaixo da
Rocinha. De vez em quando eles subiam para capturar umas

167
armas e mostrar serviço. Era tudo arranjado. A gente dava
pra eles, eles mostravam para os repórteres e devolviam no
dia seguinte. Às vezes, eles ainda cobravam quando devol-
viam: vendiam pra nós nossas armas, na frente da comuni-
dade. Perderam a vergonha há muito tempo. Como é que
podiam querer respeito nosso ou da comunidade? Parece
que não tem jeito, não é? Mas agora eu quero ficar longe de
tudo isso e começar outra vida. Desejo que o senhor seja fe-
liz em sua nova vida. Vou buscar outra oportunidade em paz
(Soares; Bill & Athayde, 2005:92).

Em seguida, Soares conta como se seguiu a trajetória de Luciano, que


teve seu fim noticiado nos episódios relatados em “A guerra do Rio”:

Em 2004, a saga da Rocinha terminou com a morte de Luciano.


Informado sobre as intenções de seu rival e temendo, por para-
doxal que pareça, pela segurança da comunidade, renunciou ao
futuro e rendeu-se ao passado. Como teria sido fácil prever, o
retorno devolveu-o às armas e ao risco. Lulu tombou, diante de
dezenas de testemunhas, assassinado pela polícia, que o alimen-
tou e achacou por tantos anos. Localizado em seu esconderijo,
saiu com as mãos na cabeça, gritando: “Perdi, perdi.” Identifi-
cado pelos policiais que o cercavam, foi fuzilado pelas costas na
frente da comunidade. Encerrava-se um negócio cuja viabilidade
se extinguira para a polícia. (...) A covardia publicamente osten-
tada foi o desfecho de uma longa e próspera parceria. Eliminar o
sócio sem pudor é a virtude da banda podre, que assim propaga
sua superioridade (Idem, Ibidem).

O Globo, fazendo sua cobertura jornalística, relatou a morte


e o sepultamento de Luciano de outra perspectiva. Não havia nas
notícias qualquer tentativa de se estabelecer uma justificativa para
a ida da pequena multidão ao cemitério. As notícias, então, ten-
tam evidenciar que todos os presentes no cemitério fariam parte
do “bonde de Lulu”, o que significa, em outras palavras, que fazem
parte da quadrilha de Luciano. Diante do fato, o jornal imprimiu
um sentido descontextualizado, optando por evidenciar, através
das fotos e do texto, de que se tratava de bárbaros criminosos que
compactuavam com Luciano. A notícia de O Globo que relata o
sepultamento do traficante começa da seguinte forma:

168
O tráfico da Rocinha desceu o morro ontem e desafiou a polícia
no asfalto. Quinhentas pessoas – inclusive muitos bandidos, se-
gundo policiais – foram ao Cemitério São João Batista, assistir
ao enterro de Luciano Barbosa, o Lulu, que comandava a venda
de drogas na favela. Com pedras e garrafas cheias d’água, inte-
grantes do bando de Lulu agrediram repórteres e hostilizaram a
polícia (O Globo, 16/04/04, p.15).

A razão de toda a algazarra provocada pela multidão de mo-


radores da Rocinha foi completamente desconsiderada pelo jornal.
A informação mais urgente a ser dada era de que todos eram trafi-
cantes e bandidos. Essa afirmação está na primeira linha do texto,
sendo, dessa forma, caracterizada como a informação essencial a
ser dada para o leitor. O texto, dialogando com as fotos da multi-
dão subindo no teto de um ônibus, caracteriza tais pessoas como
vândalos e bárbaros, negando qualquer sentimento que aquelas
pessoas poderiam ter por Luciano. Luiz Eduardo Soares questiona
tal imperativo: “Curiosamente, a grande imprensa não descreveu o
triste fim de Lulu. Ninguém contou ao grande público por que a co-
munidade da Rocinha chorou aquela morte. A opinião pública não
entendeu tanta dor e revolta” (Soares; Bill & Athayde, 2005:93).
O jornal emitiu seu julgamento sobre o fato e, utilizando o dis-
curso da polícia, legitimou seu discurso condenador. Repudiando
a cena e não lhe conferindo a devida contextualização, o jornal fez
com que o fato se tornasse conseqüência do discurso espetacular do
dia anterior. A urgência em atribuir um sentido àquela cena acabou
por esvaziar seu conteúdo.
A tentativa de Luiz Eduardo Soares é de desconstruir esse dis-
curso, mostrando que por trás da pauta diária dos meios de co-
municação de massa há uma lógica tácita. Não interessa para esses
meios saberem as conjunturas dos acontecimentos de grande porte,
como foi o caso da onda de violência na favela da Rocinha no mês
de abril de 2004. O que interessa é que os atores envolvidos no fato
sejam rapidamente caracterizados e que se proponha um julgamen-
to nas entrelinhas do discurso, utilizando imagem e texto como su-
portes de sua retórica.

169
4 A vitimização da ordem

Figura 1

1. Folha de S. Paulo, 16/05/06, p. C1, fornecido pela Folhapress.

171
4.1 O medo político
No dia 30 de outubro de 2007, na entrevista coletiva que apre-
sentou o Brasil como país que sediaria a Copa do Mundo de 2014, a
pergunta de um jornalista canadense é, no mínimo, índice do ima-
ginário da violência urbana que se produz em relação ao Brasil2.
Não estamos, como nação, ligados às “ameaças do terrorismo”, que
é o “inimigo” mais temido dos tempos atuais, mas representamos
uma idéia que também provoca medo: a ineficiência dos aparelhos
repressores no combate à criminalidade.
A resposta dos dirigentes da FIFA tenta desmistificar este ima-
ginário, afirmando que o problema da violência urbana é onipre-
sente nas grandes cidades do mundo inteiro. Não se trataria, por-
tanto, de um mal local, mas de um problema crônico em escala
global. A intensa preocupação com a segurança estaria atrelada à
própria concepção do espaço público contemporâneo.
De fato, como apontado na resposta ao jornalista, a violência
é um problema mundial. Sabemos disso não por convivermos com
essas ameaças, mas por termos contato com as imagens e textos

2. “A entrevista coletiva sobre o anúncio do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014 come-
çou quente. Logo na primeira pergunta, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, foi questionado
sobre os problemas de violência no país, e se isso poderia atrapalhar a realização do evento. A
pergunta irritou não apenas o dirigente esportivo brasileiro como o próprio presidente da Fifa,
Joseph Blatter. Antes de responder, Teixeira quis saber a origem da jornalista que fez a pergunta,
e o órgão de imprensa que estava representando. Depois, já sabendo que tratava-se de uma ca-
nadense, afirmou que a violência é um problema mundial e não deixou de citar o Canadá como
exemplo, dizendo que uma delegação esportiva brasileira foi assaltada durante um evento no país.
Teixeira disse ainda que os Jogos Pan-Americanos do Rio, realizados em julho deste ano, prova-
ram que é possível organizar um grande evento esportivo livre de violência. – Durante o período
do Pan não tivemos nenhum acontecimento grave no Rio de Janeiro - afirmou. – Se a gente fosse
olhar assim (pela violência), seria muito difícil... Em grandes países como os Estados Unidos, a
gente vê garotos atirando dentro de escolas. Pelo menos isso a gente não tem no Brasil. O que
acontece no Brasil (em termos de violência) não é maior nem menor do que acontece em todas as
grandes cidades do mundo. A gente vê brasileiros sendo agredidos e assassinados até mesmo em
países tidos como de grande reputação - declarou o presidente da CBF. Em seguida, Joseph Blatter
pediu a palavra para reclamar do teor da pergunta. – Quando atribuímos a Copa de 2010 para a
África do Sul, a primeira pergunta foi sobre a alta criminalidade daquele país. E agora é a mesma
coisa. Senhoras e senhores, um pouquinho de respeito às instituições e à casa da Fifa – reclamou”
(O Globo Online, acessado em 30/10/2007 às 13h14).

172
que reportam conflitos em várias grandes cidades do mundo. Nessa
rede de informações, a violência urbana nunca perde espaço.
Essa vertente do jornalismo que abastece os grandes sis-
temas de comunicação e informação parece tomar para si, em
muitas ocasiões, o papel de paraninfo de uma “ordem”. É preciso,
então, seguindo esta lógica, estar constantemente enfatizando
desvios que possam caracterizar o oposto dessa ordem simbó-
lica que se baseia, é claro, nas leis, mas, também, na perspecti-
va política de determinados textos, que conseguem ser ampla-
mente disseminados.
Nesse jogo de delimitação do alter da ordem ideal, a violência
parece ser tema onipresente no trabalho de reportar acontecimen-
tos tanto para leitores locais quanto para a massa virtual que pode
acessar o texto no mundo todo. Esse vocabulário tem, dentre outras,
a força política de definir significados em associação ao medo.
Assim, o imaginário do medo é recriado incessantemente sem-
pre que uma ordem ideal é vitimizada ou ameaçada. Há uma relação
estreita entre a narração do medo e a estratégia de vitimização3, pois,
na perspectiva que adotamos, o medo é, sobretudo, uma idéia política.
Quando o texto denuncia, ele ataca e, ao mesmo tempo, defende.
Um crime violento, por exemplo, tem pouco significado social
se não for narrado para o público que não testemunhou, cometeu
ou foi vítima da violência. A importância dos meios de comunica-
ção de massa nessa questão está no poder que estes têm de, meto-

3. A idéia de vitimização em relação ao medo já foi desenvolvida por David Altheide: “Vítima é
um status e não uma pessoa, um lugar em um conjunto de relacionamentos, com direitos pre-
sumidos, obrigações e deveres. O discurso do medo envolve vítimas, de fato, precisa delas. Em
suma, vítimas – especialmente descrições visuais – são requeridas para a construção do proble-
ma. Conforme o discurso do medo se expande, os aparatos da cultura popular que contribuem
para agrupar identidades parece encontrar mais tipos de vítimas. Vítima é um status desejado
[…]. Vítimas não são mais do que o lado pessoal das crises; a crise é onde a vítima reside. Uma
crise pessoal pode afetar uma vítima, porém, geralmente, as crises se referem a ‘crises sociais’,
involvendo muitas pessoas. Tudo isso acontece em um tempo do medo. Tudo isso requer que
os cidadãos tenham informações e constantes lembretes das armadilhas e perigos da vida, sejam
eles potenciais ou reais. Os noticiários, as entrevistas, as revistas e toda uma realidade de crimes e
dramas policiais parecem querer atestar que todos são vítimas de alguma coisa, mesmo que eles
não saibam disso” (Altheide, 2002:89) [tradução livre].

173
nimicamente, ampliar a idéia de vitimização, que, de certa forma,
já está prevista na lei4. Assim, o ato de reportar um acontecimento
e denominá-lo como crime é, teoricamente, a tentativa de defender
uma ordem pública.
O controle social, como sabemos, não é feito somente pelo
aparato jurídico-policial. A ordem simbólica exerce função mais
ampla e fundamental, trabalhando não com o controle do corpo,
mas com o controle dos significados. As notícias policiais são uma
das formas de controle social através da significação: dos aconteci-
mentos do cotidiano extrai-se o lastro da construção do texto que,
pela repetição da forma de enunciar, alimenta apenas determinadas
formas de interpretar.
Essas duas formas de controlar não estão separadas, mas gran-
de parte da população só tem contato diário com o controle exer-
cido pelas narrativas. A outra parte, a menor delas, é a que fica,
também, sob o controle do aparato jurídico-policial através dos
aparelhos da justiça penal (tribunais, delegacias, penitenciárias,
policiais, juízes etc.).
Trabalhando de forma conjunta, o controle dos significados utili-
za a idéia do controle jurídico-policial como forma de impedir desvios,
pois, teoricamente, o regime de compensações faz com que as penas
sejam, no mínimo, equivalentes ao crime cometido. Alertados sobre as
conseqüências dos desvios, os indivíduos os evitariam.
Ao organizar o cotidiano através das reportagens, as séries
analisadas prezam pela estratégia da vitimização como função
básica na enunciação do medo. Não se trata de uma pessoa
como vítima, como costumamos entender os processos crimi-
nais. A vítima, como aponta David Altheide (2002), é, antes, um
status desejado.
As formas da vitimização explicitam o que de fato está sendo
ameaçado quando o medo torna-se a principal argumentação. No
caso da violência urbana, muitos fatores entram na discussão, que

4. Quando alguém comete um crime, o comete, em última instância, contra a sociedade e não
contra a vítima individual.

174
é complexa por si só. Com o intuito de fazer uma leitura dessa pro-
blemática através da imprensa, utilizamos um dos acontecimentos
mais discutidos nos últimos dois anos: os ataques violentos em vá-
rias cidades de São Paulo que foram atribuídos ao grupo Primeiro
Comando da Capital, que seria gerido por criminosos que estão
dentro do sistema carcerário, sob tutela do Estado5.
O periódico Folha de S. Paulo foi escolhido como fonte primá-
ria para o desenvolvimento da análise. Uma série de reportagens
unificou a ampla cobertura através da rubrica “Guerra urbana”, que
começou a ser publicada no dia seguinte aos primeiros ataques aos
distritos policiais e aos meios de transporte públicos.
O que chama a atenção nessa série é a intensa e explícita elabo-
ração do medo. Toda a cobertura se baseou nessa perspectiva, ten-
tando representar o “caos” que o medo dos ataques proporcionou.
É justamente através deste evento extraordinário que atentaremos
para o imaginário do medo, tentando pensar por onde caminha o dis-
curso jornalístico quando recria eventos de grande porte como este.
Se por um lado, nos primeiros dois capítulos trabalhamos com
o foco apontado para a violência no cotidiano, neste momento, des-
locamos a argumentação para a violência que é tratada como guer-
ra, não porque esta não seja cotidiana, mas pelo potencial de ser
um espetáculo de entretenimento que não requer uma elaboração
antecipada, como vimos nas séries analisadas na primeira parte, ou
seja, são acontecimentos que carregam o imperativo da publicação
nos jornais, que já são direcionados a cobrir eventos catastróficos.
Quando nos detemos nessa perspectiva da análise do imagi-
nário do medo criado pela imprensa em relação a eventos de vio-
lência urbana, não podemos deixar de lado a posição que o medo
tem como idéia política6. Nas entrelinhas de qualquer discurso que

5. “O PCC nasceu no interior dos presídios, em 1993, como uma espécie de irmandade monolí-
tica de oposição ao sistema correcional paulista, com estatuto e organização hierárquica perfeita”
(Revista Caros Amigos, ano X, n. 28, maio de 2006.

6. “O medo político, eu gostaria de sugerir, não é o agente salvador do indivíduo e da sociedade.


Tampouco ele reside além dos domínios políticos, sejam eles liberais ou não. É, ao invés de uma (...)

175
enfatiza o medo, há a defesa por ideais políticos que estão sendo
vitimizados por alguma ameaça. Nesse sentido, as perguntas que
nos faremos a todo momento no percurso deste capítulo são: que
ideais estão sendo vitimizados na série “Guerra urbana”? O que es-
tes ideais significam?
Com isto, a tarefa é tentar elaborar uma leitura do imaginá-
rio do medo, e o que isso pode nos dar como resultado para a
interpretação das funções simbólicas da violência criminal nos
grandes centros urbanos.

4.2 Guerra urbana


Nos capítulos anteriores, tratamos da produção do imaginário
do medo que utiliza o vocabulário da violência, ou seja, a narrativa
da violência urbana, como uma das estruturas para narrar o coti-
diano. O ponto principal está na produção de sentido na cidade,
na leitura, e, também, nas formas de expressão e disseminação dos
medos pelos meios de comunicação de massa.
Neste capítulo, o foco recai sobre a violência espetacular, que
não é exatamente cotidiana e que, por essa razão, é amplamente
divulgada quando ocorre, quase sempre associada ao termo guer-
ra. Em “Guerra urbana”, todas as reportagens narram, de diversas
formas, os violentos ataques aos policiais e ao sistema de transporte
público de São Paulo. Cadernos inteiros destinados ao cotidiano
foram impressos para fazer a cobertura dos eventos.
Em uma primeira análise, o que podemos definir são algu-
mas características da abordagem editorial utilizada. Em todas as

(...) ferramenta política, um instrumento da ordem ou do avanço das revoltas, criado e sustentado
por líderes políticos ou ativistas que esperam ganhar alguma coisa com isso, seja porque o medo
os ajuda a perseguir um objetivo político, seja porque ele reflete ou dá suporte às crenças morais
e políticas – ou ambos” (Robin, 2004:16) [tradução livre].

176
edições da série, as idéias de medo e de guerra são onipresentes;
apesar do grande número de reportagens, destaca-se a redundância
que estas produzem; o mesmo significado é carregado por vários signi-
ficantes, ou seja, no mesmo código há várias mensagens equivalentes.
Partindo dessa perspectiva, nota-se que a maior parte das reportagens
tem como tema não propriamente os ataques, mas o medo.
Este é um termo de significados múltiplos cuja possibilidade
de evocação ou referência só se dá com a ajuda de símbolos ou, ao
menos, através da palavra significante. Nesse sentido, os textos e
imagens que compõem a série fazem referência a esse sentimento
de diversas formas. No entanto, em linhas gerais, as estratégias nar-
rativas tentam evocar a idéia de medo a partir de circunstâncias e
histórias que fugiram ao cotidiano diante dos ataques ocorridos na
cidade de São Paulo – que foram atribuídos ao grupo organizado
Primeiro Comando da Capital (PCC) – além, é claro, de contabilizar e
explicar como os ataques foram realizados e quais foram as vítimas.
Se “Guerra urbana” parece fazer referência ao medo mais
explicitamente que as séries “24 horas” e “Geografia da violência”
(analisadas na primeira parte), é preciso buscar, através da leitu-
ra crítica, o que está em jogo quando esse imaginário é recriado.
Como Cornelius Castoriadis propõe, o imaginário não é imagem
de alguma coisa, mas, em outro sentido, é o “processo de criação
incessante [...] de formas/figuras/imagens a partir das quais somen-
te é possível falar-se de alguma coisa” (2007:13). O objetivo então,
não é ler a série como imagem do medo, mas, em outro sentido,
tentar analisar os andaimes que tornam possível a fala do medo no
espaço urbano da maior cidade brasileira. Sendo assim, quais são
os textos7 do medo?
Há, certamente, várias maneiras de responder a essa questão.
Mas, como ponto de partida, sabemos que essas formas a partir das

7. O termo texto é usado em um sentido amplo, ou seja, como estrutura significante, aquilo
que ativa o processo de significação. Assim, quando mencionamos “texto” não estamos nos
referindo somente às palavras, mas também às imagens e tudo aquilo que é utilizado para
expressar e significar.

177
quais é possível falar o medo na cidade não nos levam a um somató-
rio geral. Esse imaginário do medo não é uma unidade totalizável:
trata-se menos de uma representação e mais de um “vocabulário” e
de uma “gramática” com a qual são produzidos significados. Assim,
ao tratarmos de imaginário, estamos, em certo sentido, pesquisan-
do as linguagens e os textos, do medo.
Uma forma amplamente disseminada e repetida diariamen-
te para falar do medo é a violência urbana. Neste sentido, quando
analisamos a série “Guerra urbana” e constatamos a intensa repeti-
ção da palavra medo nas reportagens e títulos, não buscamos exa-
tamente a representação do medo, mas a partir de quê o significado
do medo é criado. Que imagens estão relacionadas ao medo da vio-
lência? Que narrativas são produzidas?
Em leitura panorâmica, o imaginário do medo nesta referida série
está intimamente relacionado com o que poderíamos denominar de
Estado-penal, que vem a ser a todos os aparelhos do Estado que, de
alguma forma, têm a função de julgar, punir, aprisionar, excluir ou di-
ferenciar8. Assim, a maior parte da cobertura é produzida com foco nas
ações policiais e na situação dos presídios na capital paulista.
Por outro lado, há outras estratégias para narrar o medo em
“Guerra urbana”, como, por exemplo, o vazio da cidade, o rito fu-
neral, problemas no transporte público, mapas que sintetizam
iconicamente as narrativas, os depoimentos em primeira pessoa,
declarações desencontradas de governantes, entrevistas com espe-
cialistas em segurança pública, pesquisas de opinião, estatísticas,

8. É através destes aparelhos que o Estado-penal opera, mas não somente através deles. Wac-
quant utiliza o conceito para entender a realidade pós-Estado de bem-estar social. Essa rea-
lidade se caracteriza por práticas e instituições que conformariam um novo “tipo” de Estado,
caracterizado, principalmente, por uma nova forma de administração dos conflitos sociais.
Esta “administração”, no Estado de bem-estar, era feita preponderantemente com políticas
públicas de corte econômico-social, de transferência de renda do capital para os trabalha-
dores, que amenizava as desigualdades do sistema capitalista. No Estado-penal, a prisão em
massa – com todas as conseqüências simbólicas e materiais que isso implica – é a forma
privilegiada de administração. Os aparatos repressores são essenciais para isso, mas é preciso
que sua operacionalidade seja redefinida socialmente, ou seja, é preciso gerar legitimação
para isso e criar um verdadeiro processo de “cooperação penal” entre os empresários e a
máquina pública, o que Wacquant (2001) chamou de complexo industrial-carcerário.

178
problemas com os sistemas de comunicação, dentre outras. Todas
essas formas utilizam imagens e palavras para evocar significados.
Diante dessa complexa teia a partir da qual a série fala do
medo, a estratégia analítica foi selecionar algumas dessas narrativas
e “esquecer” outras, pois o objetivo não é esgotar as possibilidades
de leitura da fonte primária em questão, mas desenvolver certos
aspectos relevantes para o debate aqui proposto.

4.3 A cidade e o acontecimento


A ampla cobertura jornalística dos ataques na cidade de São
Paulo que foi feita através da série de reportagens “Guerra urbana”
possibilita outras leituras através da idéia de medo social. A edição
do dia 16 de maio de 2006 tenta exibir um panorama da cidade a
partir das práticas que saíram da rotina. O título que inicia o ca-
derno “Folha Cotidiano” também trabalha especificamente com o
tema desta pesquisa: “Medo de ataques pára São Paulo”.
Em cada página da edição, a rubrica “Guerra urbana” foi as-
sociada a outro termo, com o intuito de reportar as conseqüências
dos ataques. Assim, temos quatorze diferentes seções9 que definem

9. (1) Trégua (sugere que integrantes do governo entraram em um acordo com o PCC para
que os ataques cessassem); (2) Transportes (que reportam a paralisação de ônibus e do ae-
roporto de Congonhas); (3) Comércio (que relata o fechamento de lojas e bancos em função
do medo de ataques); (4) Telefonia (narra uma pane corrida no sistema de telefonia celular
devido ao excesso de ligações); (5) Justiça (funcionários de fóruns de justiça foram autoriza-
dos a saírem do serviço antes do horário normal); (6) Escolas (40% dos colégios da cidade
fecharam); (7) Sistema prisional (fim de quase todas as 83 rebeliões que foram iniciadas ao
longo dos ataques); (8) Mortes (a morte de quinze suspeitos no quarto dia de ataques); (9)
Governo Federal (declarações de autoridades federais); (10) Versão oficial (declarações de
autoridades estaduais); (11) Perfil Marcola (narra a vida do prisioneiro que é apontado como
o principal líder do PCC); (12) Governo (divergência entre representantes do governo de
São Paulo); (13) Análise (declarações de diversas pessoas sobre as causas dos ataques); (14)
Estados (narra a prisão de suspeitos de outros estados de integrarem o PCC).

179
determinadas temáticas que vão sendo articuladas através de uma
unidade representada pela rubrica principal da série.
Em meio a essas seções, há uma página dupla em que a rubri-
ca não aparece com uma denominação complementar, como nas
outras páginas do mesmo caderno (Ex. “Guerra urbana/Justiça”).
Nela, um título simula a síntese proposta pela diagramação: “O dia
em que SP parou” (Folha de S. Paulo, 16/05/06, p. C10 e C11).

Figura 2 10

Ao nos determos na imagem acima, imediatamente podemos


definir a forma narrativa como um panorama. A visão panorâmica

10. Folha de S. Paulo, 16/05/06, p. C10 e C11, fornecido pela Folhapress.

180
proporciona essa curiosa possibilidade de enunciação, cujo
principal impacto é a capacidade que esta tem de articular dife-
rentes acontecimentos11 em um mesmo espaço narrativo, seja ele
textual ou imagético.
Mas, se o acontecimento é justamente a incompreensão do
que surge, e a narração panorâmica agrupa acontecimentos diver-
sos em um mesmo contexto, a conclusão a que chegamos é de que
há uma tentativa de compreender, ou melhor, dar significado ao
acontecimento. Dessa forma, se seguirmos o raciocínio de Derrida,
se essa apropriação (compreensão, reconhecimento, identificação,
descrição, determinação, interpretação com base em um horizon-
te de antecipação, conhecimento, denominação etc.) não falhar, o
acontecimento deixa de ser acontecimento e torna-se outra coisa:
algo que proporciona significado.
Por esta razão, quando falamos de imaginário do medo, esta-
mos nos referindo especificamente aos modos de apropriação da
violência na imprensa cotidiana, que se dão a partir das formas de
enunciação. A visão panorâmica, que é uma marca fundamental
da imprensa, e que, aqui, procuramos tratar através das séries de
reportagens (que são panoramas elas mesmas), é construída com

11. Jacques Derrida, em entrevista concedida a Giovanna Borradori tratando dos ataques ao
World Trade Center em 11/09/01, desenvolve o conceito de acontecimento tomando como
ponto de referência o pensamento de Martin Heidegger: “O acontecimento é o que surge,
e, ao surgir, surge para me surpreender, para surpreender e suspender a compreensão: o
acontecimento é antes de mais nada tudo aquilo que eu não compreendo. Consiste no aquilo,
em aquilo que eu não compreendo: aquilo que eu não compreendo e, antes de tudo, aquilo
que eu não compreendo e o fato de que não compreendo: minha incompreensão. Aquele é o
limite ao mesmo tempo interno e externo sobre o qual eu gostaria de insistir aqui: embora a
experiência de um acontecimento, o modo segundo o qual ele nos afeta, demande um movi-
mento de apropriação (compreensão, reconhecimento, identificação, descrição, determina-
ção, interpretação com base em um horizonte de antecipação, conhecimento, denominação
e assim por diante), embora esse movimento de apropriação seja irredutível e inelutável, não
há qualquer acontecimento digno desse nome, a não ser à medida que essa apropriação falhe
em alguma divisa ou fronteira. Uma fronteira, no entanto, sem frente ou confronto, uma
fronteira com a qual a incompreensão não colide de cabeça, uma vez que não assume a forma
de uma frente sólida: ela escapa, permanece evasiva, aberta, indecisa, indeterminável. Daí
a inapropriabilidade, a imprevisibilidade, a absoluta surpresa, a incompreensão, o risco de
mal-entendido, a novidade não-antecipável, a pura singularidade, a ausência de horizonte”
(Borradori, 2004:100).

181
base no mesmo metonímico sentido que a amostra proporciona em
análises estatísticas: fragmentos ou partes definem uma totalidade.
O medo parece estar relacionado a essa idéia de totalidade. Os
fatos narrados deixaram de ser circunscritos ao local onde ocorre-
ram para tornarem-se uma série, algo com uma unidade (no caso,
política). A estratégia de enunciação de “Guerra urbana” articula
essa ligação entre os ataques: a cidade é percorrida e unificada pelas
imagens e narrativas que se apropriam dos acontecimentos.
Uma das formas dessa apropriação é o panorama, como mencio-
nado acima. Mas é preciso investigar as articulações que o sustentam
enquanto texto. Se o medo é o “acontecimento maior” narrado pela
série de reportagens, ou seja, aquilo que suspende a compreensão, de
que forma essa fala do medo surge nas páginas do jornal?
O medo, que na maior parte da cobertura está relacionado de
alguma forma à polícia, aparece, neste panorama, a partir da re-
corrente estratégia que define pares. Esses pares são trabalhados
hierarquicamente como base de construção de um campo de signi-
ficações, que é mobilizado incessantemente através do ato de opor,
explícita ou implicitamente, duas formas simbólicas.
Uma primeira leitura nos mostra que o par de oposições que é
construído para delimitar o significado do medo tem relação com as
concepções de ordinário e de extraordinário no espaço urbano da ci-
dade de São Paulo. E, como Derrida salienta em sua metodologia des-
construtivista12, há sempre uma hierarquia nesses pares de oposição.

12. “A desconstrução primeiro identifica a construção conceitual de um dado campo teórico, seja
na religião, na metafísica ou na teoria ética ou política, que geralmente faz uso de um ou mais pa-
res de oposição irredutíveis. Em segundo lugar, ela destaca o ordenamento hierárquico dos pares.
Em terceiro, inverte ou subverte a ordem, mostrando que os termos colocados na base – material,
particular, temporal e feminino – poderiam justificadamente se mover para o topo – em lugar do
espiritual, universal, eterno e masculino. Enquanto a inversão revela que o arranjo hierárquico
reflete certas escolhas estratégicas e ideológicas, mais do que uma descrição das características
intrínsecas aos pares, o quarto e último lance está em produzir um terceiro termo para cada
par de opostos, o que complica a carga original da estrutura, tornando-a irreconhecível. Se os
primeiros dois lances assumem a descrição de uma dada construção conceitual, os dois últimos
pretendem deformá-la, reformá-la e afinal transformá-la. Como o trabalho de desconstrução é
tão minuciosamente adequado à especificidade do seu objeto, Derrida gosta de referir-se a ele
como ‘intervenção’” (Borradori, 2004:148).

182
Não estamos, no entanto, analisando oposições irredutíveis e, menos
ainda, aplicando a teoria proposta pelo filósofo argelino, mas sim to-
mando-a como uma referência de leitura e de interpretação, na medida
em que detectamos a presença de uma estrutura baseada em pares de
oposição na diagramação panorâmica que estamos analisando.
Quase toda composta por fotografias, a página dupla foi dia-
gramada utilizando uma estrutura simétrica exata. Se dobrarmos
a página, todas as formas se encontram, como se fossem duplos. A
única imagem que não tem seu simétrico está no centro da parte
superior da página, com a legenda: “Sem transporte: terminal de
ônibus Bandeira, que estava completamente vazio às 16h de ontem”
(Folha de S. Paulo, 16/05/06, p. C10 e C11).
De todas as imagens da página, esta é a que mais se destaca
não só pelo tamanho, mas pela expressividade. No espaço público
de uma megalópole, a ausência é um conceito que perturba, pois a
divisão espacial é sempre baseada na concentração e na multidão. A
essa imagem, somam-se outras quatro, que complementam a idéia
de vazio perturbador: uma rua comercial sem clientes; uma rua em
que a cabine da Polícia Militar foi retirada; um viaduto em que pe-
destres caminham pela via que seria destinada aos veículos; e uma
loja com as portas fechadas durante o dia.
Outras quatro imagens mostram o extremo oposto, que seria a
concentração caótica de pessoas: o intenso tráfego de veículos (que
está presente em duas fotografias); a superlotação de um vagão do
metrô; e passageiros que esperavam por transporte em um terminal
de ônibus. Ao centro, logo abaixo do título, um mapa da cidade
localiza todos os pontos mencionados nas imagens.
Todas as imagens que estão em simetria precisam da legenda
para expressar um significado relacionado ao tema da série “Guerra
urbana”. As palavras articulam as imagens em relação ao medo, as-
sim como há uma relação inexorável entre seus pares simétricos. A
única imagem cuja legenda é, de certo modo, dispensável é aquela
sem um par de oposições na diagramação: imagem que dispensa o
duplo e que surge como acontecimento a partir da estranheza que
causa através da abundância de espaços vazios.
Nesse jogo de contraposições geométricas, há, também, a opo-

183
sição simbólica: o vazio versus a concentração. E, como sugere a
diagramação, o vazio é destacado e hierarquizado em relação à con-
centração, e acaba por tornar-se vocabulário do medo que é susten-
tado ao longo da série. A multidão, que é um dos símbolos da idéia
de concentração proposta aqui, é a gênese da metrópole contem-
porânea, que racionaliza os espaços para que eles funcionem com
um objetivo definido, planejado. Ao vermos o espaço inútil – sem
ser utilizado para o fim ao qual foi pensado –, vemos, também, a
consubstanciação do imprevisível com o incompreensível.
O terminal de ônibus tem sua função urbana esvaziada e tor-
na-se espaço simbólico do medo através da linguagem jornalísti-
ca: o espaço prevalece sobre o tempo. O movimento, que nos dá a
marcação do tempo, está ausente. O tempo, marca privilegiada da
idéia de progresso, está morto. As palavras da legenda, que marcam
a hora em que a fotografia foi feita, apenas reafirmam isso. Sem a
hierarquização da temporalidade sobre a espacialidade, este se tor-
na estranho a nós e, ao mesmo tempo, passa a enunciar. Estático,
sem as práticas que o significam, a imagem que sobressai é como
aquela do alto do arranha-céu: imagem totalizante que pretende ser
a unificação dos fragmentos.
O desconforto atribuído ao espaço vazio, que faz parte da
forma de imaginar o medo proposta pela série jornalística ana-
lisada, tem relações com a idéia de progresso quando este é ma-
terializado nas cidades.

O progresso implica a conquista do espaço, a derrubada de todas


as barreiras espaciais e a “aniquilação [última] do espaço atra-
vés do tempo”. A redução do espaço a uma categoria contingente
está implícita na própria noção de progresso. Como a moderni-
dade trata da experiência do progresso através da modernização,
os textos acerca dela tendem a enfatizar a temporalidade, o pro-
cesso de vir-a-ser, em vez de ser, no espaço e no lugar (Harvey,
2006:190).

A ênfase na temporalidade, como vimos anteriormente na


análise de “24 horas”, é uma constante nas narrativas jornalísti-
cas. Nesta imagem panorâmica da cidade de São Paulo, o tempo

184
pode ser percebido nas outras imagens que compõem a página.
Em todas, há alguma referência ao movimento, principalmente
pela focalização nos meios de transporte. Apesar do título indicar o
contrário, que a cidade parou, as imagens sugerem a temporalidade
através do sentido de locomoção, mesmo que esta esteja prejudica-
da de alguma forma.
Por outro lado, a imagem destacada não deixa de expres-
sar alguma temporalidade, mas o que nos inquieta é o exces-
so de espaço sem qualquer movimento, ou seja, sem uma forte
referência temporal. Nesse sentido, quando o tempo nos es-
capa e o espaço surge como expressão da cidade contemporâ-
nea, a imagem do vazio em pleno seio urbano torna-se, também,
imagem do medo.
O espaço, que é concebido pelos sentidos cotidianos que lhes
são atribuídos, é uma forma complexa de ser compreendida. Este
pode, em certa medida, ser encarado como o conjunto de significa-
dos que são atribuídos a ele.

O espaço também é tratado como um fato da natureza, “natu-


ralizado” através da atribuição de sentidos cotidianos comuns.
Sob certos aspectos mais complexo do que o tempo – tem di-
reção, área, forma, padrão e volume como principais atributos,
bem como distância –, o espaço é tratado tipicamente como um
atributo objetivo das coisas que pode ser medido e, portanto,
apreendido. Reconhecemos, é verdade, que a nossa experiência
subjetiva pode nos levar a domínios de percepção, de imagi-
nação, de ficção e de fantasia que produzem espaços e mapas
mentais como miragens da coisa supostamente “real” (Harvey,
2006:188).

Se voltássemos aos termos de Michel de Certeau, diríamos que


a estratégia de enunciação colocada em prática pela imagem que
selecionamos efetuou uma transformação simbólica do terminal de
ônibus: de espaço (relacionado às práticas dos usuários) tornou-se
lugar (esvaziamento das práticas, espaço racionalizado). Em certo
sentido, a fotografia nos mostra o que poderia ser o projeto (a plan-
ta tridimensional) de um espaço urbano pensado e planejado para

185
exercer uma função. Nele não há práticas, o que é visível é apenas a
estratégia, a racionalidade, a disciplina.
Essa evidência da racionalização que surge com o esvaziamen-
to do espaço tem uma relação com a perspectiva panorâmica13:
esta, por sua vez, busca sempre essa imobilidade utópica que nos
é sugerida, curiosamente, pela imagem do terminal de ônibus. “A
cidade-panorama é um simulacro ‘teórico’ (isto é, visível), em resu-
mo, um quadro, cuja condição de possibilidade é um esquecimento
e um equívoco de práticas” (Certeau, 1994:22).
O esquecimento e o equívoco estão relacionados a um movi-
mento que, metaforicamente, poderíamos chamar de “movimento-
funerário”, pois lida com cadáveres. São “mortes” provocadas pela
opaca visibilidade que é apresentada. O vazio que vemos na ima-
gem central da figura, curiosamente, funciona como arquipaisa-
gem14 deste modelo de ficção.

13. Certeau, ao procurar trabalhar com a concretude do cotidiano, diz que, este, foge comple-
tamente às imagens-panorâmicas. “Fugindo às totalizações imaginárias produzidas pelo olhar,
o cotidiano tem uma certa estranheza que não vem à tona, ou cuja superfície é apenas o limite
superior, que se delineia contra o visível” (1994:23).

14. Utilizo esta expressão para designar a simbologia da imagem-panorama, que é o fato de mos-
trar uma exacerbação do espaço (legível) e uma anulação do movimento (práticas).

186
4.4 “Infelizmente, a gente tem uma lei para respeitar”
Dentre as várias reportagens que compuseram a série
“Guerra urbana”, há uma cujo título é justamente o tema do qual
estamos tratando.

Figura 3 15

Em letras garrafais, o título, sem fazer uso de subtítulos, defi-


ne sucintamente a narrativa que preenche a página e, metonimi-
camente, todas as edições que compõem a série de reportagens.

15. Folha de S. Paulo, 15/05/06, p. C16, fornecido pela Folhapress.

187
O medo é narrado a partir das ações da instituição policial diante
dos ataques que estavam sofrendo. A reportagem tenta testemunhar
o comportamento dos policiais militares que trabalhavam na noite
e na madrugada em que as ameaças de ataques, que se dissemina-
ram na cidade de São Paulo nos dias anteriores, eram iminentes. O
texto inicia da seguinte maneira:

A noite e a madrugada de sábado para domingo foram de alerta


máximo, medo e uma tensão infernal nas delegacias, postos e
bases policiais de São Paulo. Ao ponto de ter sido quase um alí-
vio quando, às 19h40 do sábado, duas motocicletas entraram na
avenida Silvio Ribeiro Aragão, no Campo Limpo, e os caronas
de repente sacaram as pistolas .40 e 9 mm e dispararam 40 tiros
contra a base comunitária da GCM (Guarda Civil Metropolita-
na), atingindo a mão direita do soldado Valdemar Lopes Ferrei-
ra, 50: “Um raio não cai duas vezes no mesmo local”, disse um
soldado. Caiu − às 6h, em uma nova rajada de balas, desta vez
sem vítimas (Folha de S. Paulo, 15/05/06, p. C16).

Após o “alerta máximo” e a “tensão infernal”, o “alívio” veio com os


ataques. Não pelo fato de que todos saíram com vida e apenas um po-
licial se feriu, mas pela crença de que um mesmo local só seria atacado
uma vez. Diante dessa construção, a tese principal parece ser a de que
a policia perdera não só o monopólio do uso da força (já repetido coti-
dianamente nas notícias), mas, além disso, estava acuada e com medo
dos criminosos. Do medo, nasce a superstição16.

16. Marilena Chauí, em análise da obra de Espinosa, aborda a relação que este autor propõe entre
medo e superstição. No caso do policial, a narrativa fala sobre o medo através dessa esquiva da
racionalidade que o policial atesta em sua fala. Chauí comenta Espinosa: “A gênese da superstição
encontra-se, portanto na experiência da contingência. A relação imponderável com um tempo
cujo curso é ignorado, no qual o presente não parece vir em continuidade com o passado, e nada,
nele, parece anunciar o futuro, gera simultaneamente a percepção do efêmero e do tempo descon-
tínuo, o sentimento da incerteza e da imprevisibilidade de todas as coisas. Desejantes e inseguros,
os homens experimentam medo e esperança. De seu medo nasce a superstição. Com efeito, a
incerteza e a insegurança geram o desejo de superá-las encontrando signos de previsibilidade e
levam à procura de sinais que permitam prever a chegada de bens e males; essa busca, por seu tur-
no, gera a credulidade em signos; essa credulidade leva à busca de sistemas de signos indicativos,
isto é, presságios, e, por fim, a busca de presságios conduz à crença em poderes sobrenaturais que,
inexplicavelmente, enviam bens e males aos homens” (2004:161).

188
Os ataques, como são descritos na parte da reportagem sele-
cionada acima, já eram esperados pelos policiais, o “alívio” nos dá
essa informação. Mas não há qualquer menção às justificativas dos
ataques às bases policiais. Com o apoio das outras reportagens, sa-
bemos apenas quem são os perpetradores das ações. Temos, então,
a informação de que os ataques foram orquestrados por integrantes
de um grupo intitulado PCC, que surgiu dentro do sistema carce-
rário paulista na década de 1990.
É a partir das referências à ineficiência do aparelho repressor que
o texto se esforça para imaginar o título que lhe foi conferido. Se o ór-
gão do Estado que é designado para administrar a segurança pública
está, ele mesmo, indefeso, a estratégia da vitimização começa a dar os
ares de sua graça. Apesar da maioria dos ataques serem direcionados
aos policiais, a vítima simbólica é outra: é a própria ordem disciplinar
que é colocada em xeque. No entanto, essa ordem ameaçada não é pro-
veniente de um processo histórico ou mesmo do funcionamento coti-
diano da instituição. A estratégia de vitimização, que está associada à
produção do imaginário do medo, toma como base uma outra ordem
social: ideal, formal, escriturística, que não condiz com a história da
instituição policial no Brasil17.
Ao seguirmos com a leitura da reportagem, vamos nos deparando
com outras circunstâncias selecionadas para fazer referência ao medo.

“O Valdemar corre o risco de perder os movimentos de dois de-


dos, mas é melhor isso do que morrer. Só o que eu espero é que
chegue logo 6 horas, quando vamos embora”, afirmou um solda-
do, olhos arregalados, abrigado atrás do vidro à prova de balas da
base. Esses guardas não queriam combate. Passivos, nem os re-
vólveres calibres 38 eles tiraram das cartucheiras. “Não dá tempo
de revidar, é um ataque rápido demais”, disse um agente.

17. “Ambigüidades, tratamentos diferenciados, regras e legislações excepcionais, privilégios, im-


punidade e legitimação de abusos são intrínsecos às instituições da ordem e não externos a elas
(ou seja, manifestações de uma prática desvirtuada). O problema não é nem de princípios liberais
versus uma prática personalista e violenta, nem de um macro constitucional versus uma prática
ilegal, mas sim de instituições da ordem que são constituídas para funcionar com base em exce-
ções e abusos. Como a história da polícia e as políticas recentes de segurança pública claramente
indicam, os limites entre legal e ilegal são instáveis e mal definidos e mudam continuamente a fim
de legalizar abusos anteriores e legitimar outros novos” [grifo da autora] (Caldeira, 2003:142).

189
Aos poucos vamos atentando para o medo de que trata o títu-
lo. O aparato policial, que teria a função fundamental de combater
ostensivamente a delinqüência através do sistema disciplinar, aca-
ba por se recolher às suas bases burocráticas, sem ação. Os vidros
blindados não evitam a tensão e o medo, assim como os muros que
segregam a cidade também não o fazem. Ambos apenas encenam a
idéia de segurança e fazem o discurso do medo proliferar, propor-
cionando vocabulário para essa fala.
Assim, o aparelho burocrático da polícia (que, teoricamente,
comportaria a parte de inteligência operacional também) vai se tor-
nando símbolo da inércia e da ineficiência em controlar a violência
dos criminosos pelo viés das regras institucionais. De certo modo,
o argumento do texto se baseia na idéia de que é preciso algo além
do disponível legalmente para deter a criminalidade. O foco volta-
do para a descrição do comportamento dos policiais dá embasa-
mento a essa forma de significar a violência: os revólveres que não
são capazes de revidar, os vidros blindados que não dão segurança,
enfim, um aparelho repressor que não tem eficiência de combate.
Em certos momentos, o depoimento de policiais sugerem uma jus-
tificativa para a rotina de proceder por vias não-institucionais.

Com a condição de não ser identificados, eles [alguns policiais]


desabafam: “Infelizmente, a gente tem uma lei para respeitar,
eles [os membros do PCC] não têm nenhuma. Eles invadem
sem mandado, portam as armas que querem. A gente tem de se
contentar com as porcarias obsoletas que o Estado fornece e au-
toriza”, afirmou um policial militar armado apenas com um “três
oitão” (Folha de S. Paulo, 15/05/06, p. C16).

A burocracia, que define os procedimentos relacionados às


leis, é interpretada como fator que dificulta o combate aos crimes
violentos, e não o contrário: “infelizmente, a gente tem uma lei para
respeitar”. De acordo com essa perspectiva que o soldado expõe,
a ordem escriturística (aquela que teoriza e formaliza as práticas)
seria um balizamento que não dá conta da realidade cotidiana. É
como se, utilizando um conceito de Michel de Certeau, a ordem

190
institucional demandasse práticas desviacionistas a todo momento.
Como conseqüência, a individualidade e a pessoalidade passam a
ser formas cultuadas de proceder dentro das instituições.

“O policial brasileiro tem garra. Pede para um americano entrar em


uma favela. Ele não entra. Quer ir com 50 junto. Este colete à prova
de balas, por exemplo. Custa R$ 4.000 e fui eu que comprei. É israe-
lense. Agüenta tiro frontal de fuzil. Os comuns, que a polícia recebe,
só seguram tiro de armas de mão. Não dá para combater” (Folha de
S. Paulo, 15/05/06, p. C16).

Essa forma de “pessoalidade”, se podemos arriscar, é uma das


marcas da história da instituição policial no Brasil. No caso acima
mencionado, a ação é justificada pela falta de condições de trabalho
compatíveis com a realidade. Mas, em muitos outros casos, essa forma
pessoal de agir usa a mesma justificativa para proceder de forma ilegal,
utilizando-se da violência18. Essas práticas acabam por desestabilizar as
instituições da ordem, incentivando um processo de proliferação e di-
fusão do crime violento. As instituições disciplinares acabam por con-
tribuir com o aumento da violência e, ao mesmo tempo, com a própria
deslegitimação da ordem disciplinar no Brasil.

18. “A história da redução do crime violento nas cidades européias nos últimos dois séculos é
também a história da consolidação da autoridade do Estado e de suas instituições da ordem –
a polícia e o sistema judiciário –, e do seu monopólio do uso da força. Esse processo coincide
com profundas mudanças culturais no que diz respeito ao controle dos instintos e do corpo, ao
disciplinamento das populações e à expansão e legitimação da noção dos direitos individuais.
A sociedade brasileira, apesar de ligada de maneiras complexas ao liberalismo europeu e a suas
instituições, tem uma história específica e diferente. Embora se possa falar de um monopólio pro-
gressivo do uso da força pelo Estado desde a Independência, as forças policiais brasileiras nunca
deixaram de usar a violência e nunca pautaram seu trabalho de controle da população civil em
termos de respeito aos direitos dos cidadãos. Durante o império e a vigência do sistema escravis-
ta, as tentativas de criação de uma ordem legal obviamente conviveram com a legitimidade das
punições corpóreas inerentes à escravidão. Mesmo depois do fim da escravidão e da ampliação
legal da cidadania com a primeira constituição republicana, a ação violenta da polícia continuou
a interligar-se de maneiras complexas com o estado de direito e com padrões de dominação. Essa
violência teve apoio legal em alguns contextos e foi ilegal em outros, mas na maior parte das vezes
tem sido praticada com impunidade e com significativa legitimidade, se por isso se entende o
apoio do público” (Caldeira, 2003:136).

191
Em certo momento do texto, o fato de atividades burocráti-
cas cotidianas – que segundo Michel Foucault (2006) constituem a
base do poder disciplinar e elemento central da tecnologia de poder
dos Estados modernos – estarem sendo realizadas sem interrupção
é colocado em questão.

Enquanto os policiais esperavam pelo pior na porta da delegacia,


lá dentro, como se nada estivesse acontecendo, três boletins de
ocorrência eram lavrados: um por roubo a coletivo, outro por
roubo de veículo e até um por perda de documentos (Folha de S.
Paulo, 15/05/06, p. C16).

A passividade, que surge como síntese de um pensamento


que atribui ao Estado toda e qualquer responsabilidade quanto
aos problemas sociais, é índice de uma interpretação das ins-
tituições no Brasil: estas agiriam de forma obscura, seguindo
regras outras que não aquelas estabelecidas pelos regulamentos
formais de conduta.
Essa idéia é a mesma que comanda o título da série. Quando
falamos em guerra, há sempre a possibilidade de cidadãos serem
imperativamente convocados a compor o efetivo das forças arma-
das. Isto é, eles são obrigados a largarem suas atividades cotidianas
e a assumirem os postos designados para enfrentar o inimigo.
A metáfora da guerra, que está presente na rubrica da série, é
artifício recorrente na construção do medo: entrincheirados, os po-
liciais esperavam o ataque dos inimigos que surgiriam da multidão
que habita a cidade. “Todos” são suspeitos e oferecem perigo.

O insulfilme preto fazia de cada carro uma ameaça e um suspense.


Todos os 14 olhos dos agentes que passaram a noite na base esca-
neavam cada máquina que passava, movimentos coordenados: “A
gente era caçador, agora é presa fácil”, afirma o guarda (Folha de S.
Paulo, 15/05/06, p. C16).

A estratégia de aproximação com a idéia de guerra que os jor-

192
nais utilizam de forma recorrente (como vimos no capítulo ante-
rior, em que analisamos a série “Guerra do Rio”) é um dos artifí-
cios a partir dos quais a fronteira entre o legal e o ilegal torna-se
extremamente maleável e instável. Atrelada à palavra guerra há o
significado de um estado de exceção, onde as regras estabelecidas
podem ser suspensas em função de um objetivo “maior”. Assim,
o termo guerra urbana como definição dos ataques justifica e in-
centiva, simbolicamente, ações “fora-da-lei” por parte das próprias
instituições que deveriam prezar pela ordem.
No contexto de ataques direcionados a policiais, a resposta
vem por vias obscuras, em que a vingança prevalece em relação ao
sistema de compensação disciplinar legal, que tem a função justa-
mente de evitar o ciclo de vinganças. No dia 17 de maio de 2006, a
série “Guerra urbana” é publicada com alguns números relaciona-
dos ao combate e à reação da polícia frente aos ataques. Na prin-
cipal manchete da primeira página, o título sugere ambigüidades:
“Polícia prende 24 e mata 33 em 12h: São Paulo começa a voltar
ao normal, mas atentados continuam no interior e litoral; governo
nega acordo, mas confirma conversa com PCC”.
Nota-se, sem muito esforço, que a “volta à normalidade” vem
não pelo número de prisões, mas pelo número de assassinatos efe-
tuados pela polícia. Em outras palavras, a contenção simbólica da
criminalidade veio através de uma ação que, no mínimo, pode ser
classificada como nebulosa. As declarações das autoridades suge-
rem uma forma de agir que está longe da transparência.

Na guerra declarada à facção criminosa PCC, a polícia de São Paulo


matou 71 pessoas. Apenas entre a noite de segunda-feira e a manhã
de ontem, em cerca de 12 horas, foram 33 mortes. Apesar de não re-
velar a identificação dos mortos, a Secretaria da Segurança Pública
afirma que todos eles tinham ligação com o grupo criminoso ou es-
tavam relacionados diretamente aos atentados do PCC nos últimos
dias (Folha de S. Paulo, 17/05/06, p. C1).

Dois dias depois, na edição do dia 19 de maio de 2006, a primeira


página da Folha de S. Paulo traz, através da articulação imagem-texto,
uma interpretação das ações e das declarações da Polícia Militar.

193
Figura 4 19

Pelo ângulo em que a fotografia foi tirada, tem-se a impressão


de que o policial militar está apontando a arma para a cabeça de uma
criança de colo, contrastando com o título da manchete. Na legenda
que acompanha a fotografia, há o seguinte texto: “Em meio a mora-
dores da favela do Jardim Elba, policial dá cobertura a colegas durante
ação que envolveu 400 homens” (Folha de S. Paulo, 19/05/06, p. A1).
Essa estratégia de enunciação segue a mesma abordagem ana-
lisada anteriormente: o medo é evocado a partir da vitimização de
uma ordem ideal e, ao mesmo tempo, de um esforço por tornar evi-
dente a fragilidade das instituições disciplinares no Brasil. Assim,
a ilegalidade, paradoxalmente, é afirmada e tratada como solução
possível. A polícia, como uma das mais importantes instituições da
ordem, funciona com base em procedimentos abusivos, que negam
as regras estabelecidas formalmente20.

19. Folha de S. Paulo, 19/05/06, p. A1, fornecido pela Folhapress.

20. A relação entre a confiança da sociedade na Polícia Militar e o apoio a punições ilegais foi (...)

194
A linguagem do medo nesta série de reportagens é, dentre ou-
tras, aquela que mobiliza uma falta de confiança no poder público
e que articula cenários políticos com as conseqüências da violência
urbana. Assim, como sustenta Corey Robin (2004), o medo, de for-
ma recorrente, é uma idéia que está intimamente relacionada à po-
lítica, ou em outras palavras, às formas de controle social. Quanto
mais simbolicamente fragilizadas as instituições estiverem na per-
cepção da sociedade, maior será a amplitude e rapidez da dissemi-
nação do medo entre as pessoas.
Os acontecimentos em São Paulo mostram, em certo sentido, que
o medo é narrado a partir de outras coisas que não somente crimes
e violência. O trabalho jornalístico, que tem grande contribuição na
mobilização incessante do imaginário do medo, narra, através do vo-
cabulário da violência, as ambigüidades e fragilidades que marcam as
instituições que asseguram a segurança pública no Brasil.
Contudo, na mesma reportagem que estampa o termo medo
como título há um momento em que o temor parece não ser
partilhado pela cidade inteira. Fazendo uso de depoimentos e
fotografias, a estratégia de enunciação vai definindo fronteiras
e binarismos. Utilizando-se da velha dicotomia centro vs. peri-
feria, o medo parece não atingir as populações de baixa renda.
Na fotografia que aparece logo abaixo do título, a legenda divide
simbolicamente a cidade: “Alheios aos ataques do PCC pela cida-
de, moradores do Jardim Ângela realizam baile de rua em fren-
te à panificadora A Francesinha”. Tanto na imagem quanto no
depoimento de um auxiliar de escritório21 que comprava flores

(...) aferida pela Pesquisa Social Brasileira (Almeida, 2007) e indica que em relação ao combate
ilegal do crime, “não há grande diferença entre os que avaliam a ação da polícia como péssima,
ruim, regular ou boa. Para todos eles, algo em torno de 30% consideram certo matar assaltantes
depois de prendê-los. Apenas na avaliação ótima é que o patamar de apoio à ilegalidade se eleva
bastante: 43%! Isso reforça o diagnóstico de que quando a população faz uma boa avaliação da
polícia e confia nela, há a tendência a ser mais tolerante com suas ações ilegais” (2007, 143). Esse
apoio às ações ilegais é explícito, por exemplo, na recepção do filme Tropa de elite (2007), em que
o protagonista é exaltado justamente por fazer “justiça” com policiais corruptos e com bandidos.

21. “Medo? Por que medo? Esses caras do PCC não estão errando o alvo, não. Com eles não
tem essa de bala perdida. Pode ver, é só polícia que eles estão ‘pegando’”.

195
às 3h40 em uma banca ao lado da base comunitária da PM, a
ordem parecia continuar a mesma.

A periferia da cidade não tem medo da guerra do PCC. Se os três


policiais (dois homens e uma mulher) presentes na base comu-
nitária de Guarapiranga estavam fincados em pé em seus postos,
dois “três oitão” e uma “doze” em alerta, a casa de espetáculos
Guarapirão, vizinha, bombava com 800 foliões chacoalhando
com a banda Fettynia, Carlos e Maciel, além das Mocréias e sua
trupe (Folha de S. Paulo, 15/05/06, p. C16).

O texto vai construindo o medo através de divisões e diferen-


ciações. A periferia da cidade parecia estar indiferente aos ataques,
pois, quando perguntados, não narravam o medo esperado e conti-
nuavam a vida normalmente. Ao lermos todas as reportagens da série,
nos deparamos com depoimentos de pessoas que alteraram suas roti-
nas em função das ameaças dos ataques. Assim, através da diferencia-
ção simplista entre duas áreas geográficas, a série parece indicar que a
fala do medo é, também, uma fala que exclui e diferencia.
O curioso é pensar que essa diferenciação ocorre, em grande
parte dos casos (como vimos, por exemplo, no capítulo anterior),
quando o Estado penal entra em ação22. O aparelho repressor não
funciona para todos os setores sociais da mesma maneira.

22. A violência policial inscreve-se em uma tradição nacional multissecular de controle de mi-
seráveis pela força, tradição oriunda da escravidão e dos conflitos agrários, que se viu fortalecida
por duas décadas de ditadura militar, quando a luta contra a “subversão interna” se disfarçou em
repressão aos delinqüentes. Ela apóia-se numa concepção hierárquica e paternalista da cidadania
fundada na oposição cultural entre feras e doutores, os “selvagens” e os “cultos”, que tende a assi-
milar marginais, trabalhadores e criminosos, de modo que a manutenção da ordem de classe e a
manutenção da ordem pública se confundem (Wacquant, 2001:9).

196
Considerações finais

:: Ao fim da travessia
As frases finais de uma pesquisa nos fazem percorrer todo o
trabalho desenvolvido, e isso não é nada simples na medida em que
não sabemos se a proposta inicial foi cumprida com êxito. Enquan-
to espreitamos o texto com a lupa que atenta para os detalhes, não
conseguimos mensurar a validade daquilo que propomos em cada
linha. Contudo, diante da forma como foi construído este livro, tan-
to as notas introdutórias quanto as considerações finais são impres-
cindíveis, pois funcionam como a costura da colcha de retalhos.
Os quatro ensaios que compõem este estudo analisaram, sepa-
radamente, mas com o mesmo enfoque temático, narrativas jorna-
lísticas sobre crimes violentos nas duas maiores cidades brasileiras.
Neste itinerário, o medo aparece como a linha condutora que cerze
os argumentos que procuraram focalizar séries de reportagens pu-
blicadas em dois dos mais importantes periódicos do país.
De forma transdisciplinar, como requer o próprio objeto
de pesquisa, de múltiplas facetas, caminhamos pelos textos que
organizam e dão significados às práticas que estão na mira da
lei. Como não podia deixar de ser, tendo em vista toda a discus-
são proposta por inúmeros teóricos no Brasil, a análise de um
tema como esse recaiu sobre um leque de questões que não se
resolvem e que, por isso, são desafiadoras: cotidiano, conflito,
imaginário, ordem, relações sociais, democracia, militarização,
segurança públcia, entre outros.

197
Por esse viés, as leituras das formas de enunciação tiveram
como objetivo uma interpretação de uma parcela do imaginário
que é produzido por estas narrativas que todos os dias estão pre-
sentes nas páginas dos jornais. O interesse em abordar as formas de
enunciar não pretendeu, contudo, negligenciar os conteúdos que
são veiculados. Ao abordar as séries como textos em um sentido
amplo, quisemos tratar de forma e conteúdo sem separações estan-
ques. Os significados são, na perspectiva adotada aqui, construídos
através da relação entre imagens e palavras diante das circunstân-
cias que propiciam a circulação dessas mensagens.
Foi isto que objetivamos ao analisar duas perspectivas adotadas
pela imprensa para narrar crimes violentos: aquela que aborda a violên-
cia no contexto do dia-a-dia da cidade e, por outro lado, aquela que vê
a violência urbana como metáfora de guerra. Em ambas, procuramos
salientar os artifícios utilizados para enunciar os sentidos da violência
e, com isso, analisar não somente a guerra a que estas reportagens se
remetem, mas a guerra que é travada na produção do imaginário.
É do controle de significados que estivemos tratando ao lon-
go de todo o estudo, e é por isso que as análises muitas vezes são
metafóricas, pois é preciso entrar nos textos e abrir portas: mobili-
zá-los. Através deste movimento, poderemos lê-los de uma forma
mais complexa, esquivando-nos do pânico que assalta o leitor ao
ler, como Baudelaire comentou, “o tecido de horrores” da repre-
sentação panorâmica diária. Neste sentido, é importante retomar
alguns aspectos já desenvolvidos.
Apesar de todas as quatro séries abordarem o cotidiano de
conflitos e crimes violentos na cidade, notamos algumas diferenças
nas formas de construção dos significados. A escolha do corpus da
pesquisa procurou destacar duas temáticas que são usadas corri-
queiramente nas edições de jornais, e que constituem formas de
interpretar o que chamamos de realidade urbana. Em uma pers-
pectiva, analisamos a violência “micro”, aquela que está presente no
cotidiano. Nessas práticas, notamos que a participação policial está
muito relacionada à burocracia. Em outro âmbito, focalizamos a
violência que é grandiosa, que exibe um conflito armado no qual o
aparato repressor do Estado aparece em combate.

198
Em “24 horas” e “Geografia da violência” tratamos de reporta-
gens especiais que adotaram perspectivas diferenciadas e ao mesmo
tempo repetitivas em relação ao que é mostrado todos os dias. Isso
foi fecundo para a interpretação que propomos, pois essas séries
acabaram exacerbando ou eliminando as estratégias corriqueiras
do jornalismo diário, tornando evidentes alguns desses mecanis-
mos ou pela ausência ou pela intensa presença. Assim, na primeira
parte deste estudo, analisamos a produção de mapas, a primazia da
estatística, a visão panorâmica, os elementos de ficção e a busca do
instante como as formas de enunciação mais presentes no ato de
narrar a violência do cotidiano.
O tempo é a categoria que organiza, centraliza e dá sentido
a todas as histórias que são narradas em “24 horas”. A cronologia
e o instante são usados em referência a um modelo narrativo de
uma série de televisão de mesmo nome, produzindo um cruza-
mento entre a ficção e o jornalismo. Essa “violência miúda” ganha
visibilidade quando está ligada a outras através de uma enunciação
que as relaciona menos pela categoria espacial e mais pela categoria
temporal. Dessa forma, saltamos pela cidade seguindo a linha da
diacronia e, por vezes, da sincronia de crimes violentos.
“Geografia da violência”, porém, aponta para uma outra forma de
organizar e dar sentido ao espaço urbano. O mapa, a estatística e o re-
lato testemunhal são articulados para compor um texto cujo esforço é
por demarcar, distinguir, contrastar e localizar. A pesquisa estatística é
articulada com a experiência individual na cidade. Desta forma, o co-
tidiano é relacionado à violência através de uma estratégia que hierar-
quiza duas formas de conhecimento. O testemunho apenas exempli-
fica o dado estatístico, exibindo algumas circunstâncias da “estrutura”
do dia-a-dia, daquilo que se repete sem cessar.
Essa forma de tornar o crime violento apreensível pela leitura
de números e mapas organiza o espaço urbano através da represen-
tação, da escrita, da fronteira, mas, ao mesmo tempo, enuncia uma
onipresença do risco. Apesar das delimitações que a escrita carto-
gráfica nos proporciona, ela transforma a cidade em um espaço
contínuo de perigo, que tem a “bala perdida” como símbolo. Sem
limites estabelecidos, a violência evoca o medo por estar no âmbito

199
do acaso, daquilo que é inexplicável, ou seja, trabalha no âmbito das
sensações, dos desejos, daquilo que não tem lógica definida.
A estetização da violência é uma característica do imaginário
do medo que analisamos. As formas de enunciação utilizam artifí-
cios que fazem do texto um espaço repleto de significações que têm
laços pouco consistentes com a lógica racional, marcada pela idéia
de causa e conseqüência. O medo, assim, é produzido por represen-
tações que ganham sentido no âmbito emocional de uma sociedade,
ou seja, é um poder que trabalha com desejos (um poder libidinal1).
A própria diagramação diferenciada, especialmente elaborada para
cada série, é a evidência de que a construção estética é um fator de
extrema importância no processo de sedução que caracteriza a pro-
dução do imaginário do cotidiano urbano pela imprensa.
Essa valoração estética também é afirmada nas duas séries ana-
lisadas na segunda parte. Porém, a emergência de fatores políticos
mais definidos acaba por contracenar com as enunciações. “Guerra
do Rio” e “Guerra urbana” não são coberturas, se podemos denomi-
nar dessa maneira, planejadas antecipadamente. Estas séries foram
construídas a cada dia, sem que houvesse um “total” delimitado
anteriormente. É um conjunto aberto e descontínuo que vai sendo
produzido de acordo com o desenrolar dos acontecimentos.
No caso de “Guerra do Rio”, que tem uma longa duração, a
construção simbólica de duas sociedades utiliza a violência como
vocabulário, designando um bem e um mal, ou seja, uma fronteira.
Não se trata de uma geografia física, mas, sim, de uma cartogra-
fia político-simbólica, que narra a favela como espaço mítico onde
a ilegalidade se sobrepõe à regra. Há um vocabulário específico
para definir essa “outra” ordem social: ausência de planejamento
do espaço, arquitetura improvisada, concentração de pobreza, au-
sência da polícia, distribuição de entorpecentes, área de repetidos
confrontos armados, habitat de criminosos etc. É uma construção

1. “A guerra das imagens sobre a guerra será ganha por aquele grupo que melhor utilize o poder
libidinal para imprimir sentido, ou seja, que ponha em marcha todos os mecanismos sedutores da
imagem para obter o consentimento não coercitivo dos consumidores” (Castro-Gomez, s/d:21)
[tradução livre].

200
binária que define, simbolicamente, essas regiões como áreas de
risco. O espaço físico diferenciado acaba se tornando a causa e a
cara do medo, como atestam as tentativas de remoção e de cercar as
favelas com muros.
A emergência de fatores políticos é, tanto em “Guerra do Rio”
quanto em “Guerra urbana”, a produção de um discurso de vitimiza-
ção a partir de conflitos violentos. A vítima não é o indivíduo, mas,
antes, um ideal que está sendo ameaçado. A guerra é a da “ordem”
contra a “desordem”. O discurso da vitimização, que é inexoravel-
mente o discurso do medo, está envolvido com o embate político
pela construção das significações no imaginário da violência. Nessa
perspectiva, a referência ao termo guerra que aparece nas rubricas
representa, também, o conflito de significados.
Em “Guerra urbana”, há uma idéia de que a organização do
crime e a audácia dos bandidos chegara a um patamar nunca an-
tes visto. O medo, nesse sentido, é explicitamente narrado através
das modificações que ocorreram na rotina da cidade de São Paulo.
Os pares de oposição eram lançados para dar sentido ao “dia em
que São Paulo parou”: imagens de lugares vazios durante o dia e
superlotação nos transportes; polícia ostensiva e ao mesmo tempo
acuada; o respeito às leis e a vingança latente.
Em certo sentido, as quatro séries buscam retratar a violên-
cia através de um panorama, que como vimos, é uma estratégia
inicialmente adotada por literatos ao tentar descrever os instantes
na cidade das multidões. Essa forma de narrar elege o tempo pre-
sente como categoria que organiza e centraliza todos os elementos
que produzem a significação e que, conseqüentemente, entram em
combate no plano do imaginário social.
Essa perspectiva temporal tende a priorizar a visibilidade
como forma de elaborar um texto em relação a um fato. Por
este viés, a violência que é evocada pela imprensa é de um tipo
bem específico. Trata-se daquele tipo visível, que deixa marcas
no corpo da vítima, seja ela um indivíduo ou mesmo a cidade.
Essa visibilidade é a propriedade fundamental para a produção
de textos legíveis, textos que mapeiam uma criminalidade que
paira sobre o espaço urbano.

201
Essa visibilidade, essa vontade de tornar estática uma realidade
movente, tende a negligenciar a condição de ser apenas um ponto de
vista e, por apontar sempre para o panorama, encena uma totalidade.
Assim, o mapa, como vimos, é esse artifício que produz uma realidade
ao alcance dos olhos. Mas o que significa narrar a violência urbana
através de artifícios que aspiram a essa totalidade da visão?
Michel Foucault (2006) já tratara desta questão em um ou-
tro contexto, quando analisou a história das instituições penais na
França2. A arquitetura panóptica, que para o filósofo francês foi
uma elaboração decisiva para toda uma mudança que ocorreu, so-
mada a outras, na relação do Estado com a punição dos corpos,
parece realmente ser uma referência possível para entendermos a
questão da narração jornalística focalizada neste estudo. Essa busca
pela visibilidade total através de um ponto de vista é, em certo sen-
tido, a mesma vontade de tornar legível um objeto dinâmico através
de um discurso que se coloca no centro. A ficção deste olhar está
nesta ilusão de prover uma perspectiva como a única que propor-
ciona a melhor visão em relação aos fatos. Há a encenação de um
esgotamento do tema, priorizando uma fala como a legítima, isto
é, o discurso que elabora a vitimização de um ideal. O significado
da violência passa ser simplesmente o da ilegalidade, aquela que é
passível de ser punida.
A focalização da violência como prática que deve ser estrita-
mente tratada pela eficiência ou ineficiência da penalização acaba
por simplificar o conflito cotidiano. Essa delimitação de perspecti-
va segue, de certa forma, a lógica do aniquilamento da relação entre
causa e conseqüência, como apontada por Roland Barthes (1970)
ao definir a estrutura do fait divers. Quando só temos acesso aos
efeitos da violência, ou seja, aquilo que é visível, que deixa marcas,
somos levados a interpretar uma fala que tenta organizar um mun-
do que perdeu o sentido. O crime violento tem, como aponta Teresa
Caldeira (2003), essa potencialidade de mobilizar explicações repe-
titivas para dar sentido a uma prática que é desnortedora.

2. Cf. Foucault, 2006.

202
Contudo, essa “fala jornalística do crime” se exime de reportar
além da ponta do iceberg. Sem tempo para reportar mais do que os
meros efeitos, o contexto da violência na cidade acaba se tornando a
própria repetição do cotidiano, ou uma simplificação que encontra
uma causa para todos os problemas. Os textos são explicados por
outros textos através de uma repetição descontínua: a redundância
ganha espaço em relação às causas, e passa a ser relacionada aos
efeitos. Os andaimes da questão da segurança pública são desloca-
dos do debate e só ficamos com o resultado final: o mapa da violên-
cia. Não se trata, porém, apenas de uma cartografia, mas, também,
de uma dramatização elíptica: a omissão de fatores outros que não
aqueles ligados ao cumprimento da lei faz com que a questão seja
tratada como a luta entre um bem e um mal.
O imaginário do medo é constituído, também, por essa forma
de enunciar que tende a formular uma polarização que identifica
pares de oposição: legal e ilegal; centro e periferia; cidade e favela;
ordem e barbárie; cidadãos e excluídos. Essa busca pelo mal cau-
sador de todos os horrores da violência urbana tem uma caracte-
rística que é bem fácil de ser detectada em uma rápida leitura das
reportagens. A impunidade parece ser reivindicada como a “raiz do
problema”. O cumprimento da lei sanaria o tormento.
Quando mencionamos o imaginário como esfera de conflito e
por onde valores circulam, estamos, especificamente, tratando de
argumentações em torno de uma problemática que atinge toda a
sociedade. A repetição da idéia de que só o aparato policial pode
resolver a questão da violência está presente não só na fala de deter-
minados grupos da população, mas na própria forma de enunciar
proposta pelos jornais analisados. Focalizar o problema somente
na atuação sucedida ou mal sucedida da polícia já é uma posição
política bem definida, mas que não é exatamente coercitiva. Não se
trata de clarificar o argumento, mas de levar a crer que o que lemos
é a própria totalidade da realidade.
Assim, para evitar uma análise que permaneça somente na es-
fera estética, é preciso interpretar o que esses posicionamentos nar-
rativos significam em um contexto mais amplo. Isto é, ao tentar evi-
denciar a construção de um discurso que forma subjetividades por

203
meio da sedução, estamos com a tarefa de interpretar a violência
por um ponto de vista mais complexo, que coloca em cena outros
fatores. Dessa forma, o crime violento continuará constituindo um
imaginário do medo, mas não aquele marcado pelo pânico, e sim
um imaginário que proporcione ferramentas de superação.
Essas ferramentas são aquelas que buscam caminhos democrá-
ticos de resolução de conflitos. O jornalismo, por sua importância e
amplitude de alcance, não pode negligenciar essa função de media-
dor e tradutor do problema da segurança pública. Apontar para a
(d)eficiência da repressão é o mesmo que traçar uma linha divisória
muito bem delimitada entre a ordem e a desordem, entre a lei e a
marginalidade. Essa posição constrói um imaginário binário que é
incongruente com a história brasileira das relações sociais e cultu-
rais com a lei3.
Por essa perspectiva, ao atentarmos para os artifícios a partir
dos quais a imprensa ajuda a desenvolver o imaginário do medo
(o panorama, a estatística, o mapa, o testemunho etc.), o papel da
violência ilegal, tanto por parte dos criminosos, quanto por parte
da polícia, surge como um ponto-chave, pois sabemos que a fron-
teira entre o legal e o ilegal é muito difícil de ser estabelecida em
países que vivem na periferia do capitalismo (Soares, 2000:23). Esse
ponto de vista vem sendo defendido por autores que interpretam
a violência e a utilização da força de forma não-oficial ou privada
como práticas que sempre estiveram presentes, de alguma forma,
na ordem social do país e que, se podemos arriscar, constitui, pro-
priamente, essa ordem.
O argumento de Teresa Caldeira, por exemplo, é de que a or-
dem social brasileira tem como elemento constitutivo a violência.
Segundo a antropóloga, não há como pensarmos uma ordem ideal
que nunca existiu ou que foi importada da Europa. Pensar a violên-
cia no Brasil é pensar uma mediação que percorre toda a história
tanto das relações pessoais, quanto das relações no espaço público.

3. A figura do malandro parece ser a mais recorrente entre os teóricos e literatos para representar
essa ambigüidade que perpassa as relações sociais no Brasil. Sobre o assunto, ver Dealtry, 2003.

204
Comenta a autora:

No Brasil, a lei e os abusos são simultaneamente constitutivos


das instituições da ordem. Tentar cristalizar essas dimensões
como pertencentes a universos opostos é não notar o caráter in-
trinsecamente flexível dos padrões brasileiros de dominação e o
fato de que no Brasil o Estado nunca foi formal e “impessoal” e
freqüentemente não se conforma às leis que cria (2003:142).

Dessa forma, a abordagem focalizada na repressão policial


tenta traçar uma linha definida pela lei, no entanto a própria
instituição que é responsável por fazer cumpri-la tem caracterís-
ticas ambivalentes e flexíveis, próprias das ambíguas diferencia-
ções entre o espaço público e o espaço privado que constituem
a nossa sociedade.
Em todas as quatro séries, como também na maioria das re-
portagens relacionados aos crimes violentos no dia-a-dia, a insti-
tuição policial é evocada como vértice entre o leitor e o crime. Em
“24 horas” a busca pela violência que “não sai no jornal” começa
nas delegacias policiais, na burocracia que documenta os crimes;
em “Geografia da violência” as estatísticas policiais pautam o mape-
amento da cidade; em “Guerra do Rio” a polícia combate o tráfico
de drogas; em “Guerra urbana” a polícia é atacada por bandidos.
De fato, seria muito difícil não inserir a polícia em qualquer
questão relacionada à violência, mas isso não implica numa simpli-
ficação do problema. Seja a violência no cotidiano, seja a violência
como “guerra”, os sentidos e interpretações que são apresentados,
apesar das diferenças, parecem chegar a um consenso: a “escalada
da violência” deve ser combatida com maior repressão.
Sabemos, no entanto, que a prática das leis no Brasil não
é um instrumento que iguala os indivíduos, como pretende a
tradição do pensamento liberal-democrático, gerando uma in-
definição crônica. Essa falta de contornos bem delimitados da
esfera pública é um aspecto que está presente todos os dias nas
entrelinhas das reportagens.

205
:: Uma interpretação do imaginário do medo
No momento de juntar alguns cacos que foram ficando pelo
caminho dos capítulos desenvolvidos, nos deparamos com uma
imagem eloqüente em meio às notícias do cotidiano. Um poli-
cial da Delegacia de Roubos e Furtos de Autos da Polícia Civil
do Estado do Rio de Janeiro carrega um bastão de beisebol, com
visíveis marcas de uso, contendo a inscrição “direitos humanos”.
Ao fundo, as sirenes que alertam a presença da autoridade poli-
cial nas ruas da cidade. O modo como o policial segura o bastão
é bastante semelhante ao do jogador nos momentos que ante-
cedem a tentativa de rebater o arremesso que vem do centro do
campo, para, com isso, percorrer o circuito e voltar ao ponto
de partida. De que maneira uma fotografia como essa pode nos
ajudar a interpretar o imaginário do medo?
O imaginário, em sua incessante produção, é uma esfera em
que circulam valores de uma sociedade. Por essa razão, podemos
considerá-lo uma instituição, se definirmos esta como uma repre-
sentação de valores que devem ser preservados. Não se trata, con-
tudo, de “um organismo público ou privado, estabelecido por meio
de leis ou estatutos que visa atender a uma necessidade de dada
sociedade” (Houaiss, 2001), mas, sim, de uma produção de signi-
ficados que circulam de forma dinâmica e que torna possível falar
sobre determinado tema. Assim, o imaginário tem como base os
discursos que são enunciados de diversas maneiras, mas que aca-
bam formando, não sem um embate, conjuntos que exprimem va-
lores, costumes e estruturas sociais.
Por essa tal amplitude do objeto, as formas de abordagem são
diversificadas e procuram, em geral, dar conta de determinado as-
pecto desse conflito que permeia a produção de significados atra-
vés dos relatos e narrativas que são produzidos diariamente. Nesse
sentido, a delimitação, no presente artigo, foi de uma das paixões
humanas que, historicamente, mais foram focalizadas em função
de formulações políticas e sociológicas.
Ao procurar entender os significados da violência urbana no
Brasil atual, ainda no início da pesquisa, nos deparamos com o que

206
definimos como imaginário do medo. Esse imaginário consistia na
produção de narrativas que articulavam medo e crimes violentos
de uma forma que não privilegiava uma mobilização social para
enfrentar o problema. O medo não estava relacionado à esperança.
A estrutura de enunciação da imprensa colocava o medo em estrei-
ta relação com o pânico, que é sentimento que não consegue ver os
seus fundamentos e, por isso, tem tendência totalizante: é um senti-
mento que restringe o pensamento e que acaba fazendo o indivíduo
agir de forma muito emotiva.
Partindo dessa constatação inicial, a pesquisa procurou, através de
um conjunto de reportagens e de um embasamento teórico, analisar
as formas de produção de um imaginário urbano do medo-pânico e
quais eram as implicações dessas narrativas em relação às práticas so-
ciais, políticas e culturais no Brasil contemporâneo.
A abordagem sobre o crime violento que os jornais apresentam tem
muita importância para a produção de significados e, consequentemen-
te, do imaginário. O desafio foi, então, contextualizar a fala da imprensa
em relação a outras falas que tratam do mesmo tema. Como o objeto era
a produção dos significados da violência urbana, tivemos que lidar com
outras áreas do pensamento. Por este caminho, chegamos a algumas
conclusões, ou melhor, a algumas contradições que precisam ser explici-
tadas diante da tarefa de interpretar o imaginário do medo.
A amplitude e a diversidade do tema fizeram com que, ao
longo do percurso, outras questões fossem surgindo, o que tor-
nava o trabalho mais complexo e desafiador. Algumas dessas
questões são ambivalentes e, por isso, nos levaram a análises
mais amplas, que dizem respeito não somente ao jornalismo ou
ao imaginário do medo, mas às práticas que estão envolvidas
com a questão da violência. A imagem do policial que carre-
ga um bastão de beisebol com a inscrição “direitos humanos”,
curiosamente, mobiliza estas problemáticas.
O medo, que em geral é um sentimento muito ligado ao des-
conhecido e ao inexplicável, surge, também, através das formas de
enunciação que focalizam a ineficiência das instituições de repres-
são, pois esta “ineficiência” está ligada às relações sociais no espaço
público. A sociedade brasileira (e aí faço uso da metonímia Rio-

207
Brasil) é facilmente caracterizável pela máxima já bastante conhe-
cida, qual seja, uma sociedade em que as circunstâncias tendem a se
sobrepor às regras, em outras palavras, mesmo que exista uma nor-
ma que reja determinada prática, essa prática é costumeiramente
guiada por uma “lógica” que está muito ligada ao imaginário social
e à vivência coletiva. O problema é que há uma contradição entre o
imaginário social e as leis nesse caso: eles não se relacionam harmo-
niosamente, mas conflitivamente. Na sociedade brasileira, segundo
interpretação de Marilena Chauí,

As leis sempre foram armas para preservar privilégios e o me-


lhor instrumento para a repressão e a opressão, jamais definindo
direitos e deveres concretos e compreensíveis para todos. [...] É
uma sociedade na qual as leis sempre foram consideradas inú-
teis, inócuas, feitas para ser violadas, jamais transformadas ou
contestadas; e onde a transgressão popular é violentamente re-
primida e punida, enquanto a violação pelos grandes e podero-
sos sempre permanece impune.

É uma sociedade, conseqüentemente, na qual a esfera pública


nunca chega a constituir-se como pública, definida sempre e
imediatamente pelas exigências do espaço privado, de sorte que
a vontade e o arbítrio são as marcas dos governos e das institui-
ções “públicas” (2006:105).

Assim, por essa perspectiva, percebemos que a chamada “ordem”,


que estampa a bandeira nacional desde o período de maior afirmação
do movimento positivista no Brasil, é uma encenação que constitui
apenas um ideal que é a todo momento vitimizado pelos discursos que
de forma míope preservam o debate no âmbito policialesco e militar,
quando, na verdade, sabemos que historicamente essa “integração na-
cional” nunca foi pacífica. Hoje, o que nos é novo não é a “escalada da
violência”, mas, sim, o contexto internacional ao qual estamos ligados.
O tráfico de drogas e de armas não são problemas “nacionali-
záveis”. Num circuito mercadológico transnacional, o comércio de
drogas ilegais atravessa o Brasil de forma perversa, intensificando
as relações sócio-econômicas já tão desiguais. Tratar da violência
no Brasil somente através de questões penais e militares é uma po-

208
sição reacionária que é contra qualquer iniciativa de democratiza-
ção social. De acordo com essa perspectiva, é preferível narrar o
medo exibindo somente os efeitos do cotidiano, do que incentivar
qualquer tipo de mudança que vá além do aumento da repressão.
Diante desse quadro, as tragédias de cada dia, quando evocadas
pelos textos analisados, elaboram uma cidade imaginária e carto-
gráfica, mas, ao mesmo tempo, concreta e palpável. As reportagens
são sobre lugares que existem e personagens reais, que não são he-
róis, mas homens comuns, ordinários, assim como o leitor. Nestas
perspectivas, os relatos jornalísticos que tratam do crime violento
nas grandes cidades produzem uma expressão e um vocabulário
que constituem um imaginário urbano do medo, afetando profun-
damente as práticas de democratização do espaço público.
O problema da violência certamente não é uma fantasia cria-
da pelos relatos jornalísticos. No cotidiano das cidades brasileiras
nesse começo de século XXI, a situação da segurança pública é re-
almente preocupante, chegando a ponto de ter mais espaço do que
assuntos tradicionais na agenda política do Brasil, como o desem-
prego e a pobreza. Nesse sentido, ao problematizarmos a fala do
medo em função desse contexto da violência, prezamos por uma
imprensa que faça pressão por mudanças sociais. Narrar a violência
exigindo e focalizando apenas a repressão é o mesmo que continuar
assistindo ao jogo de beisebol protagonizado pela imagem.
Ironicamente, o policial usa o bastão como substituto dos Di-
reitos Humanos, rebate o ataque do “oponente”, contorna todo o
ciclo do cotidiano e volta ao ponto inicial para marcar mais um
ponto diante do público pagante. Isso é o mesmo que aprofundar
ainda mais as marcas mais negativas da nossa formação social: o
autoritarismo e a imensa desigualdade.

:: Post-Scriptum
A tarefa de analisar criticamente as variadas facetas da violência
no Brasil atual é ambivalente. Como bem notou Luiz Eduardo Soares

209
(2000), o arcabouço teórico que comumente utilizamos no meio aca-
dêmico é valioso, mas não dá conta das especificidades da problemática
nacional. Muitos desses pensadores vêm de países cujas circunstâncias
históricas limitam as apropriações que poderíamos empreender com
o intuito de criar ferramentas teóricas de análise de nossa específica
conjuntura. Não podemos negligenciar o fato de que os pensamentos
destes autores, que circulam amplamente por vários países através de
livros ou mesmo pela Internet, estão, inexoravelmente, dialogando
com as sociedades nas quais foram concebidos.
Essa supremacia do pensamento europeu ou americano,
causa um estranhamento em quem focaliza a relação que a vio-
lência tem com a cultura no Brasil. As questões abordadas aqui
e lá convergem e divergem a todo momento, sendo preciso um
esforço analítico que seja, também, um esforço de tradução. Não
uma tradução da língua, mas, sim, uma tradução que mobilize
questões de forma coerente com as idiossincrasias locais. Assim,
o analista é também um tradutor: função que se depara com
dilemas, indecisões e impossibilidades.
Sem irmos muito longe, evocando um tempo não muito dis-
tante da nossa história política, já podemos delinear com mais
precisão quais são os componentes que criam essas contradições
com as quais os críticos-tradutores se confrontam ao longo do
trabalho de pesquisa:

Enquanto, na Europa e nos Estados Unidos, os estudantes luta-


vam contra a coerção das instituições e as múltiplas opressões
exercidas pelos micropoderes que elas engendram, nós aprende-
mos a lutar pela construção de instituições, mesmo reconhecendo
que elas trazem consigo, inexoravelmente, dimensões sombrias
e efeitos perversos, exclusões e pequenas tiranias. Enquanto a
nova esquerda européia criticava a democracia, entendida como
uma barricada anteposta ao desejo, aos seus fluxos, à emanci-
pação radical dos sujeitos, em sua múltipla diversidade interna
e externa, nós, ou muitos de nós, no Brasil e na América Latina,
nos dedicávamos a colaborar na construção da democracia, en-
tendida como uma barricada anteposta ao poder do Estado ou
ao poder absoluto das oligarquias econômicas. [...] Nós falamos
de um regime que nunca tivemos e, simultaneamente, temos de
apontar os riscos futuros, decorrentes do desdobramento do re-
gime que gostaríamos de ter, no presente (Soares, 2000:26).

210
Esse caminho duplo é a marca que ainda perdura no trabalho
crítico presente em vários campos de debate tanto na esfera acadê-
mica quanto em outros espaços de discussão, inclusive nos meios
de comunicação. De um lado a teoria internacional, de outro a re-
alidade nacional. Essa nossa dificuldade em lidar com teorias tra-
dicionais, desenvolvidas em outros contextos que não o brasileiro
ou latino-americano, é muito nítida quando abordamos, de alguma
forma, as instituições que criamos. Essas são aparatos que, pensados
em contextos específicos, foram disseminados pelo mundo através
do que costumamos chamar de tradição liberal-democrática. Na
base desta forma de organização social há certos princípios que são
narrados como “universais”.
Dentre esses princípios, o controle do arbítrio é um ponto-cha-
ve, pois ele asseguraria uma barreira contra o despotismo do Esta-
do. Para tal, é preciso que o arbítrio seja regido através de regras
institucionais. Porém, o funcionamento cotidiano é bem diferente
da teoria que embasa a criação das instituições4, e isso tem forte
relação com o tipo de sociedade que emerge destas formalizações
do controle social.
No Brasil, como apontam inúmeros autores, as instituições
públicas funcionam de maneira peculiar e, muitas vezes, de forma
autoritária, justamente por não respeitarem as regras que evitariam
o Estado ditatorial. Aí surge a ambivalência: regras “universais” são
confrontadas com valores locais que tendem a ser preservados atra-
vés destes aparatos de controle. Esse conflito mostra que o processo
de institucionalização, ou seja, de controle social no Brasil, além de
muito recente em comparação com os países de tradição democrá-
tica, é extremamente autoritário.

4. “As instituições representam o complexo de valores a serem preservados, o conjunto de nor-


mas a serem cumpridas, os padrões a serem seguidos, os modelos a servirem de referência e as
expectativas de comportamento. [...] São órgãos de controle social, compostos de normas – usos,
costumes, leis – que se organizam em torno de objetos culturais, aplicáveis a determinada con-
figuração social, e consagrando-se no desempenho de funções específicas nessa configuração”
(Castro & Falcão, 2004:37).

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Este livro foi composto
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