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Carlos Nelson Coutinho e a controvérsia sobre o neoliberalismo:

contrarreforma ou revolução passiva?

Rodrigo Castelo1

I. Introdução

Decifra-me ou devoro-te! Com estas palavras, a Esfinge grega, demônio em


forma híbrida de mulher e leão alado, ameaçava seus interlocutores a desvendar o
segredo do seu enigma. Em caso de erro na resposta, o demônio não hesitava em
estrangular a sua vítima. Somente Édipo escapou da sua fúria. Algo semelhante
acontece com a esquerda no final do século XX e início do XXI. Ainda hoje, mais de 30
anos após a sua consolidação como projeto de supremacia das classes dominantes, o
neoliberalismo é um mistério para intelectuais e ativistas dos movimentos populares. O
enigma criado pela burguesia permanece parcialmente não decifrado pelos subalternos.
O presente artigo busca trazer uma contribuição para o debate sobre o
neoliberalismo e suas múltiplas interpretações dentro do campo do marxismo e da teoria
social crítica, com destaque para a produção intelectual de Carlos Nelson Coutinho.
Para este objetivo, apresenta, em primeiro plano, a matriz teórico-metodológica que
Carlos Nelson construiu na sua interpretação sobre o Brasil da Era Vargas ao
neoliberalismo, para depois ingressar na controvérsia das definições sobre o
neoliberalismo, que giram em torno de conceitos como contrarreforma e revolução
passiva, dentre outros. Por fim, apresenta-se a hipótese do social-liberalismo, variante
ideológica do neoliberalismo que surgiu na década de 1990, como uma tentativa típica
de uma revolução passiva de renovar a supremacia burguesia em tempos de crises.

II. Carlos Nelson e a imagem do Brasil: via prussiana, revolução passiva e


contrarreforma (da Era Vargas ao neoliberalismo)

Carlos Nelson notabilizou-se no início da carreira como crítico literário e


historiador das ideias, utilizando as obras de Marx e Lukács como seus referenciais
teóricos e metodológicos. De acordo com as proposições mais gerais do materialismo
histórico, a obra de um autor deve ser contextualizada de acordo com a conjuntura do
seu tempo e espaço, isto é, das lutas de classes e do desenvolvimento material das forças
produtivas e das relações sociais de produção em uma determinada formação
1 Professor da Uerj e da Unirio. Pesquisador do Laboratório de Estudos Marxistas José Ricardo Tauile
(LEMA), do Instituto de Economia da UFRJ.

1
econômico-social. Por isto, o estudo de uma obra literária ou teórica é precedida por
uma análise do contexto histórico no qual foi produzida. Este método foi fielmente
seguido desde os seus primeiros escritos, tornando-o um marxista ortodoxo no sentido
emprestado por Lukács ao termo.
Em 1974, no artigo “O significado de Lima Barreto na literatura brasileira”,
Carlos Nelson fez uso do método marxiano/luckásiano de escrutinar uma obra literária a
partir do seu contexto histórico, sem abrir mão do estudo das especificidades dos
fenômenos estéticos. Para realizar esta tarefa, utilizou-se do conceito de Lênin de via
prussiana na análise da formação econômico-social brasileira, marcada por processos de
transformação social de largo alcance – Independência, Abolição da escravatura,
Proclamação da República, Revolução de 1930, Golpe militar de 1964, Abertura
democrática dos anos 1980 –, conduzidos pelo alto por acordos entre as classes
dominantes (latifundiários e burgueses) que excluem as classes subalternas de um
protagonismo efetivo nestes momentos históricos. Conforme explica o nosso autor,
Ao invés das velhas forças e relações sociais serem extirpadas através
de amplos movimentos populares de massa, como é característico da
“via francesa” ou da “via russa”, a alteração social se faz mediante
conciliações entre o novo e o velho, ou seja, tendo-se em conta o
plano imediatamente político, mediante um reformismo “pelo alto”
que exclui inteiramente a participação popular (COUTINHO, 1974,
p.3).

Um pouco depois, em 1979, Carlos Nelson serviu-se novamente do conceito de


via prussiana2 no famoso texto “A democracia como valor universal”. Nesta ocasião, o
uso do conceito ia além de uma análise da formação econômico-social brasileira, pois se
tratava de uma controvérsia teórica que embalava os rumos da luta política dos
socialistas pela democratização do país no período de abertura do regime ditatorial civil-
militar. Em termos teóricos, Carlos Nelson realça, em relação ao texto de 1974, que a
“via prussiana” brasileira conserva o latifúndio e amplia a dependência ao imperialismo,
bem como menciona outros intérpretes (Luiz Werneck Vianna, José Chasin, Ivan de
Otero Ribeiro) que empregam o conceito de Lênin. Uma outra novidade é que Carlos
Nelson (1980, p.33) relaciona de forma muito tênue, e pela primeira vez na sua obra, o
conceito de via prussiana com o de “revolução passiva” de Gramsci.

2 O conceito de Lênin também aparece – enriquecido com as determinações que Lukács agrega a ele – na
obra de Carlos Nelson nos textos “Cultura e sociedade no Brasil” (1979) e “Os intelectuais e a
organização da cultura” (1980). Ambos os artigos figuram no livro da sua lavra Cultura e sociedade no
Brasil: ensaios sobre ideias e formas, 4ª edição, editora Expressão Popular, 2011.

2
Na década de 1980, o conceito gramsciano ganhará cada vez mais espaço na sua
obra. Em 1985, a aplicação do conceito de revolução passiva fica explícita no texto “As
categorias de Gramsci e a realidade brasileira”, onde se discute a universalidade da
produção teórica de Gramsci no estudo das particularidades da nossa formação
econômico-social (COUTINHO, [1985] 1999). A partir de então, os conceitos de Lênin
e Gramsci serão usados conjuntamente, de forma complementar 3, no estudo das
transformações históricas que o Brasil passou no século XX, da Era Vargas à abertura
democrática dos anos 1980, passando pelo populismo e a ditadura militar inaugurada
com o golpe de 1964. Com o tempo, em especial nos anos 1990, o conceito gramsciano
ganha corpo e maior volume nos seus escritos, eclipsando largamente a luz do conceito
de Lênin.

II.1. Da Era Vargas à transição “fraca” na década de 19804


Nos Cadernos do Cárcere, o conceito de revolução passiva ou de “revolução-
restauração” é tido como um acordo firmado pelo alto entre antigas e novas classes
dominantes visando transformações na base econômica e na superestrutura político-
ideológica que excluam as classes subalternas da participação ativa na vida política. Ao
mesmo tempo em que opera este estilo de transformação conservadora, que atua sob os
desígnios de um Estado forte em detrimento de uma sociedade civil débil, os processos
de revolução passiva fazem concessões – parciais e focalizadas – por conta da pressão
espontânea e limitada dos dominados, naquilo que Gramsci intitulou de subversivismo
esporádico e elementar. Em síntese, nas revoluções passivas se constata um misto de
elementos renovadores e restauradores, fazendo emergir o novo enquanto perduram
aspectos dos antigos regimes sociais.
Na Revolução de 1930, ocorreu a consolidação do modo de produção capitalista
no Brasil a partir de uma forte intervenção estatal com o estímulo à aceleração da
industrialização e a subsunção real do trabalho ao capital, beneficiando amplamente os

3 “De qualquer modo, na medida em que se concentra prioritariamente nos aspectos infra-estruturais do
processo, o conceito de Lenin não é suficiente para compreender plenamente as características
superestruturais que acompanham – e, em muitos casos, determinam – essa modalidade [não-clássica] de
transição. Portanto, não é por acaso que essas tentativas recentes de aplicar ao Brasil o conceito de ‘via
prussiana’ são quase sempre complementadas pela noção gramsciana de ‘revolução passiva’”
(COUTINHO, [1985] 1999, p.197).
4 Para uma melhor caracterização dos conceitos de via prussiana e revolução passiva, bem como da
narrativa histórica da modernização capitalista no Brasil, consultar os artigos de Virgínia Fontes, Mauro
Iasi e Marildo Menegat publicados no presente livro. Faço aqui somente um resgate histórico-conceitual
dos anos 1930 aos 80 para retratar os antecedentes do neoliberalismo, que conserva e nega
simultaneamente elementos do passado, superando muitos deles em uma nova fase do desenvolvimento
capitalista no Brasil (e no mundo, em geral).

3
interesses privados. O processo de modernização foi conduzido pelo Estado, que soldou
uma aliança entre setores da oligarquia fundiária e uma nascente burguesia industrial,
quebrando com a antiga hegemonia das oligarquias exportadoras, que mesmo assim se
manteve no bloco de poder, embora de forma secundária. O país aprofundava-se na
direção do capitalismo, mantendo, todavia, estruturas agrárias pré-capitalistas com a
presença das velhas elites no poder.
Aos setores sociais resistentes, como a ala esquerda do tenentismo e o
movimento operário autônomo, o Estado valeu-se da sua máquina coercitiva. A reação
estatal à resistência dos trabalhadores, entretanto, não se limitou à repressão,
intensificada com o golpe do Estado Novo. O Estado varguista editou medidas de
atendimento de demandas pontuais do movimento operário, com a promulgação de leis
trabalhistas voltadas aos empregados urbanos, deixando de lado os trabalhadores rurais.
Além disso, a legislação sindical atrelou os sindicatos dos trabalhadores à burocracia
estatal, a partir de uma legislação influenciada pelo fascismo.
O golpe militar de 1964, realizado com apoio da burguesia e dos latifundiários,
foi mais um capítulo da revolução passiva brasileira. Naquela ocasião, o bloco de poder
dominante efetivou a mudança de patamar do capitalismo da sua fase concorrencial para
a monopolista, consolidando o capital monopolista de Estado 5 e a hegemonia das
multinacionais no país, processo este que já ocorria desde o governo JK. A estrutura
fundiária continuou extremamente concentrada, mas as relações sociais de produção e
as forças produtivas capitalistas entraram no setor rural, trazendo alterações substantivas
no campo brasileiro, que ainda combinava elementos arcaicos e modernos.
Mais uma vez, o Estado assumiu aquilo que Gramsci chamou de função
Piemonte na revolução passiva, isto é, um papel protagonista nas transformações da
sociedade, substituindo classes e grupos sociais na direção da modernização. O Estado
autocrático burguês liderou todo o processo de transição capitalista monopolista com o
uso intensivo da coerção aos grupos que resistiram ao golpe, dos trabalhistas aos
comunistas. Em paralelo, o governo ditatorial ensaiou medidas de construção do
consenso junto às camadas médias (COUTINHO, [1985] 1999, p.202), não somente
com o crescimento econômico (que mais tarde se revelaria um modelo de
desenvolvimento que aprofundava as desigualdades sócio-econômicas), mas também

5 Sobre o conceito de capitalismo monopolista de Estado e a política brasileira, ver o quarto capítulo do
livro A democracia como valor universal (COUTINHO, 1980, p.93-118).

4
com concessões pontuais nas áreas dos direitos sociais (previdência, habitação),
enquanto suprimia diretamente direitos civis e políticos.
O terceiro e último capítulo da revolução passiva brasileira, pelo menos no
entendimento de Carlos Nelson, foi a transição da ditadura militar para a Nova
República nos anos 1970-80. A abertura política do país iniciou-se como um projeto
formulado nos gabinetes do alto escalão da ditadura, particularmente pelo estrategista
do regime, o general Golbery do Couto e Silva, em parceria com Ernesto Geisel.
Segundo as suas formulações, o projeto de abertura deveria ser uma “transição segura,
lenta e gradual”, numa operação de ação repressiva aos setores mais radicalizados da
oposição e de cooptação dos moderados. A este projeto, contrapôs-se um processo de
abertura construído pelas bases e direções oposicionistas, que lutavam pela anistia
ampla, geral e irrestrita, pelo pluralismo partidário com agremiações dos trabalhadores e
por eleições livres e diretas. Neste embate entre a ditadura e a oposição, venceu a
primeira, que foi obrigada, todavia, por conta das forças de centro-esquerda, a fazer
determinadas concessões6. A resultante final foi, assim, uma transição “fraca”, na qual
prevaleceram aspectos autoritários na cultura política brasileira, bem como as
desigualdades sócio-econômicas. Nas suas palavras,

Uma transição desse tipo – que poderíamos chamar de “fraca” –


implicava certamente uma ruptura com a ditadura implantada em
1964, mas não com os traços autoritários e excludentes que
caracterizam aquele modo tradicional de se fazer política no Brasil.
Disso resultou a permanência, na nova situação política criada pela
transição “fraca”, pomposamente autobatizada de “Nova República”,
de claros elementos de “prussianismo”. (COUTINHO, [1991] 2000,
p.93)

A transição histórica ocorreu mais uma vez sob a máxima lampedusiana de


mudar para conservar. Esta etapa da via não-clássica do capitalismo brasileiro
comportava, porém, um aspecto relevante que não poderia escapar aos mais atentos
analistas e militantes interessados na luta pela democratização do país rumo ao
socialismo. Segundo Carlos Nelson Coutinho (2006a, p.187), desde meados dos anos
1970, o Brasil viveu uma contradição fundamental na sua superestrutura, a saber, o
florescimento de uma sociedade civil em face do gigantismo do Estado, em meio da

6 “Na prática, contudo, a sociedade civil emergente terminou por promover um processo de abertura ‘a
partir de baixo’, que certamente buscou se valer das novas condições geradas pela implementação do
projeto ‘pelo alto’, mas que o transcendeu, indo bastante além dele, e que terminou assim por dar lugar a
uma abertura bem mais radical do que a prevista no projeto originário do governo Geisel-Golbery”
(COUTINHO, 2006a, p.187, grifos originais).

5
repressão brutal aos aparelhos privados de hegemonia ligados à classe trabalhadora e
setores médios mais progressistas. A partir dos primeiros germes da decadência da
ditadura tecnocrático-militar, intensificou-se a ocidentalização da formação econômico-
social brasileira, isto é, uma relação mais equilibrada dentro do Estado ampliado a partir
da diversificação e complexificação da sociedade civil, ilustrada no fortalecimento do
MDB, no aparecimento do novo sindicalismo e dos novos movimentos sociais, na
fundação do PT e do MST etc.
Este processo sui generis de ocidentalização do Brasil tornou-se definitivamente
consolidado na década de 1980, que viu, na arena político-ideológica, a formulação de
dois grandes modelos de estruturação do poder e de representação dos interesses, o
liberal-corporativo e o democrático de massas (COUTINHO, 2006a, p.189-90). O
primeiro modelo, típico da sociedade estadunidense, é formado por sindicatos
corporativistas de resultados imediatos aos seus filiados e partidos políticos sem uma
definição ideológica muito clara, funcionando como federações de lobbistas de causas
específicas, que tendem a gerenciar a ordem existente a partir da pequena política. O
segundo modelo, originado na Europa ocidental, tem sindicatos classistas de maior
combatitividade, e partidos políticos com programas, ideologias e bases sociais distintos
e, muitas vezes, antagônicos, o que gerou uma intensa disputa pela direção intelectual-
moral das sociedades nacionais a partir da grande política. No Brasil, o modelo norte-
americano adquiriu a forma e o conteúdo do neoliberalismo; já o modelo europeu
tornou-se o projeto democrático-popular capitaneado pelo PT e seus aliados.
A disputa político-ideológica no Brasil deu-se, a partir dos anos 1980, entre os
modelos neoliberal e o democrático-popular. A novidade desta disputa era que as classes
dominantes reconheceram, diante do avanço das forças populares, a necessidade
histórica de se tornarem classes dirigentes, isto é, que precisavam construir consenso
junto às classes subalternas. Contra o projeto de democratização das esferas econômica,
política e cultural proposto pelos trabalhadores, a burguesia brasileira encampou o
projeto neoliberal na sua versão básica do Consenso de Washington, de política
econômica de juros altos, superávit primário, liberalização financeira, comercial e
produtiva e privatização dos bens públicos, bem como de despolitização da sociedade
civil via o “Terceiro Setor”, o enfraquecimento dos partidos políticos e a promoção do
sindicalismo de resultado. Conforme declara Carlos Nelson Coutinho (2006a, p.191-2),
(...) na medida em que a burguesia tem hoje consciência de que essas
soluções são inviáveis [ditadura militar], ela tem se esforçado por

6
combinar sua dominação com formas de direção hegemônica, ou seja,
por obter um razoável grau de consenso por parte dos governados. O
grande objetivo atual das forças do capital, no Brasil e no mundo, é
consagrar a pequena política e a pseudo-ética do privatismo
desenfreado como elementos fundamentais de um senso comum que
sirva de base à sua hegemonia. É essa, precisamente, a face ideológica
do neoliberalismo.

É importante ressaltar que, o processo de ocidentalização da sociedade brasileira


não eliminou traços prussianos da nossa formação histórica, antes os conservaram sob
novas formas. Daí a caracterização do nosso país como um Ocidente periférico e tardio
(COUTINHO, [1985] 1999, p.211-2, nota 21). Carlos Nelson destaca que, após a
transição “fraca”, o regime presidencialista nos governos Collor e Cardoso manteve
traços autoritários, como a edição sem critérios das medidas provisórias, o uso da
máquina estatal para cooptar lideranças de outros partidos via clientelismo e negociatas
no balcão do Congresso Nacional e uma relativa tutela militar (COUTINHO, [1991]
2000, p.99). A hegemonia, portanto, tornou-se, na época neoliberal, a principal arma da
supremacia burguesa no Brasil, que continuou a empregar subsidiariamente os
aparelhos de dominação de acordo com seus desígnios de classe.
Já nos anos 1990, com a hegemonia neoliberal que inaugura uma nova fase do
desenvolvimento capitalista no Brasil, Carlos Nelson abandona o conceito de revolução
passiva em favor do conceito de contrarreforma. Fiel ao seu método de investigação,
que tem o concreto como ponto de partida e a objetividade da análise processual do real
como um dos seus pressupostos, o filósofo baiano rascunha uma nova imagem do Brasil
de acordo com as transformações operadas na nossa formação econômico-social, ainda
com os instrumentais fornecidos por Gramsci.

II.2. Uma nova imagem do Brasil? Contrarreforma, “americanalhamento” e


hegemonia da pequena política na época neoliberal
Desde o último decênio do século XX, Carlos Nelson caracteriza o
neoliberalismo como uma contrarreforma. Nas suas primeiras formulações, o termo não
é definido conceitualmente e não há nenhuma referência a Gramsci ou qualquer outro
autor. Em linhas gerais, a contrarreforma neoliberal dos governos FHC é tida como uma
ofensiva burguesa de retirada de direitos sociais consagrados na Constituição de 1988 e
uma defesa das bases da acumulação capitalista sob o comando do Estado
(COUTINHO, [1991] 2000, p.95; [1998] 2000, p.121-2). O Estado brasileiro conserva,

7
desta maneira, alguns dos seus traços mais típicos, como o seu caráter privatista e anti-
democrático, para não dizer autoritário. Nas palavras de Carlos Nelson,
(...) o sentido último da “reforma” proposta pelo atual governo [FHC]
não aponta para a transformação do Estado num espaço público
democraticamente controlado, na instância decisiva da universalização
dos direitos de cidadania, mas visa submetê-lo ainda mais
profundamente à lógica do mercado. Trata-se, na verdade, de uma
“contra-reforma”, que tem dois objetivos prioritários: por um lado, em
nome da “modernização”, anular as poucas conquistas do povo
brasileiro no terreno dos direitos sociais; e, por outro, em nome da
“privatização”, desmontar os instrumentos de que ainda dispúnhamos
para poder nos afirmar como nação soberana em face da nova fase do
imperialismo, a da “mundialização do capital” (COUTINHO, [1998]
2000, p.123).

Com a eleição de Luís Inácio Lula da Silva em 2002, até então defensor do
modelo democrático-popular e crítico do neoliberalismo, acreditou-se numa reviravolta
na política nacional. A reviravolta, contudo, não veio e o PT rapidamente aderiu ao
projeto neoliberal (MACHADO, 2005), em particular pela manutenção da política
econômica herdada dos governos FHC7, blindando a acumulação rentista das
ingerências da democracia. Os resultados foram o aprofundamento e a consolidação da
inserção nacional na mundialização do capital, que agora não encontrava maiores
resistências no campo da esquerda e das forças populares. Assim, o Brasil caminhou
para o seu “americanalhamento” (COUTINHO, 2006a, p.193), isto é, a incapacidade
real de grupos políticos discutirem (e implementarem) alternativas de ruptura com os
nossos passado e presente de desigualdades sócio-econômicas e uma política autoritária
e anti-democrática. Vive-se, assim, a hegemonia da pequena política, definida por
Carlos Nelson da seguinte maneira: “existe hegemonia da pequena política quando a
política deixa de ser pensada como arena de luta por diferentes propostas de sociedade e
passa, portanto, a ser vista como um terreno alheio à vida cotidiana dos indivíduos,
como simples administração do existente” (COUTINHO, 2010, p.32).
De acordo com o nosso autor, a adesão do PT ao projeto neoliberal pode ser lida
a partir do transformismo, processo típico das revoluções passivas de cooptação de
lideranças das classes subalternas ao bloco de poder dominante. Isto significa, então,
7 “Todo o esforço teórico e prático do neoliberalismo tem se voltado no sentido de desqualificar a ‘grande
política’ (que seria ‘ideológica’, ‘utópica’, ‘universalista’ etc.) e reduzir a atividade política ao que
Gramsci chamava de ‘pequena política’. Faz parte desta redução o esforço para subtrair do debate político
as opções de política econômica, aquelas que envolvem um questionamento dos próprios lineamentos da
ordem social. Ora, tanto a atual crise como as soluções apontadas para ela fazem parte do universo da
‘pequena política’. Não me parece casual que a grande preocupação, tanto da oposição tucano-pefelista
quanto do governo, seja ‘blindar’ a economia, ou seja, impedir que questões de ‘grande política’ voltem a
ocupar a agenda” (COUTINHO, 2006b, p.156-7).

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que o neoliberalismo seria o quarto capítulo da revolução passiva brasileira? Carlos
Nelson expressa uma descrença quanto a esta hipótese:
Tenho dúvidas sobre a possibilidade de aplicar à atual conjuntura
brasileira, iniciada com o governo Collor, a categoria gramsciana de
‘revolução passiva’. Uma ‘revolução passiva’ implica algumas
concessões às classes subalternas, como foi precisamente o caso do
governo Vargas, do populismo em geral e até mesmo da ditadura
militar (a qual, por exemplo, estendeu direitos previdenciários aos
trabalhadores rurais e aos autônomos urbanos). Ao contrário, os
últimos governos têm tido como meta apenas desconstruir direitos
sociais já conquistados, o que talvez permita dizer que estamos numa
época de ‘contrarreforma’ (...). Mas, ainda que se trate de
contrarreforma e não de revolução passiva, a justeza da aplicação da
noção de ‘transformismo’ ao período que se inicia com o governo
Cardoso e prossegue no governo Lula me parece inegável
(COUTINHO, 2006a, p.198, nota 30).

No tocante à categorização do neoliberalismo, a sua argumentação é cuidadosa,


pois a hipótese de contrarreforma seria uma conclusão provisória. Além disso, pontua
que o conceito de contrarreforma tem uma presença marginal nos Cadernos do Cárcere;
quando usado por Gramsci, se referiria majoritariamente ao campo cultural. Por tudo
isso, merece cautela no seu uso, que só manifesta na obra de Carlos Nelson no segundo
mandato do governo Lula, mais precisamente em 2008, no artigo “A época neoliberal:
revolução passiva ou contrarreforma?”.
De todo modo, a atual fase do capitalismo pode ser caracterizada como uma
contrarreforma porque o neoliberalismo notabilizaria-se como um projeto de
restauração da classe capitalista, no qual o reestabelecimento de antigos elementos é
preponderante em relação aos novos, enquanto nas revoluções passivas, haveria um
reconhecimento limitado e seletivo das demandas das classes subalternas (COUTINHO,
2008, p.98, 102 e 104). Em curta passagem, Carlos Nelson também descarta o uso do
conceito de contrarrevolução, pois, nos países centrais, “o alvo da ofensiva neoliberal
não são os resultados de uma revolução propriamente dita, mas o reformismo que
caracterizou o Welfare State” (COUTINHO, 2008, p.103).
Apesar de tudo, o filósofo político marxista admite que o uso do conceito de
revolução passiva não seria totalmente descabido para caracterizar o neoliberalismo. A
principal razão que justificaria tal uso é o fenômeno massivo do transformismo de
intelectuais outrora de esquerda, hoje integrados ao sistema capitalista em funções de
comando tanto do capital quanto do Estado ampliado burguês.

9
III. Inventário de uma controvérsia: o neoliberalismo em debate

O termo “neoliberalismo” demonstrou vitalidade na década de 1990 a partir da luta


ideológica travada pela esquerda contra a mundialização do capital. Com ele, os críticos
das mutações gestadas nos últimos 30-40 anos conseguiram demonstrar, com alguma
dose de eficácia, os efeitos econômicos, políticos e sociais mais danosos do projeto
burguês. Por isso, muitos dos intelectuais neoliberais renegam a pecha, taxando seus
críticos de antiquados e anacrônicos, que não teriam percebido os ventos inevitáveis da
mudança no mundo. De acordo com Carlos Nelson,
nem mesmo os seus primeiros defensores – doutrinários duros e puros,
mas que tinham pelo menos o mérito da sinceridade – diziam-se
“conservadores”. Hoje, os ideólogos do neoliberalismo gostam de se
apresentar como defensores de uma suposta “terceira via” entre o
liberalismo puro e a social-democracia “estatista”, apresentando-se
assim como representantes de uma posição essencialmente ligada às
exigências da modernidade (ou, mais, precisamente, da chamada pós-
modernidade) e, portanto, ao progresso. A versão atual da ideologia
neoliberal faz assim da reforma (ou mesmo da revolução, já que
alguns gostam de falar de uma “revolução liberal”) a sua principal
bandeira (COUTINHO, 2008, p.99).

Apesar dessa vitória em denotar o termo ‘neoliberalismo’ como algo socialmente


destrutivo, muitos desses críticos tiveram dificuldades em criar um conceito rigoroso.
Difícil defender a tese de que o termo ganhou status de uma categoria conceitual
precisa, embora ainda seja de grande valia para os críticos da nova fase do capitalismo
nos confrontos ideológicos com os defensores da ordem burguesa. A verdade é que se
criou uma confusão em volta do termo. Pierre Salama (2000, p.142) é categórico ao
afirmar a sua inexatidão: “creio que não sabemos ainda precisar com exatidão o que é o
neoliberalismo, que acabou se tornando uma categoria muito difusa. Se por um lado é
claro que conhecemos os seus efeitos, em termos analíticos ele se transformou num
conceito muito escorregadio”.
Alguns críticos da nova fase imperialista chegam mesmo a duvidar do seu poder
heurístico. Francisco de Oliveira (2006, p.247) afirma que o termo estaria aquém da
tragédia, isto é, que não seria capaz de explicar teoricamente os múltiplos movimentos e
dimensões do real diante das transformações das últimas décadas. Virgínia Fontes
(2010, p.154) taxa-o de descritivo, com viés para a denúncia das iniquidades do
capitalismo, sem atentar para as continuidades do imperialismo no pós-guerra; daí a

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autora propor o conceito de capital-imperialismo para o entendimento das novas
determinações do modo de produção capitalista.
Diante da confusão teórica, o termo ganhou muitas facetas dentro do
pensamento social crítico. Na sua maioria, os intelectuais progressistas privilegiam
dimensões particulares do real, com ênfase nas esferas ideológicas e políticas. A
definição do neoliberalismo enquanto uma força ideológica é uma das mais difundidas.
Um dos textos sobre o neoliberalismo mais influentes no Brasil foi “Balanço do
neoliberalismo”, de Perry Anderson. Neste artigo, o intelectual britânico faz um
histórico do neoliberalismo e, ao final, propõe um balanço do mesmo, definido como
um movimento ideológico, em escala verdadeiramente mundial, como
o capitalismo jamais havia produzido no passado. Trata-se de um
corpo de doutrina coerente, autoconsciente, militante, lucidamente
decidido a transformar todo o mundo à sua imagem, em sua ambição
estrutural e sua extensão internacional (ANDERSON, 2000, p.22).

Em várias passagens, Anderson sobressalta a dimensão ideológica do termo, mas


sempre relacionando-a com as dimensões econômicas, políticas e sociais. Na mesma
linha, encontra-se a definição de Göran Therborn 8. Entre os autores nacionais, João
Leonardo Medeiros usa a categoria visão de mundo para defini-lo. De acordo com os
seus apontamentos, essa categoria também pode ser entendida como um sinônimo de
“sistema de crenças, paradigma, ontologia ou outra denominação semelhante”
(MEDEIROS, 2007, p.8). A sua linha de pesquisa sinaliza questões ideológicas que
envolvem o neoliberalismo, sem perder de vista os impactos sociais das políticas
neoliberais operadas por Estados, mercados e por organismos multilaterais de
desenvolvimento e governança. João Leonardo denuncia os efeitos devastadores do
neoliberalismo e explicita a ineficácia das políticas sociais propostas pelo Banco
Mundial e pelo Pnud/ONU. Por fim, também denuncia a falsificação e a manipulação de
dados e a inconsistência metodológica dos estudos dos organismos multilaterais na
mensuração da pobreza. Emir Sader (2000) também enfatiza a dimensão ideológica do
termo, afirmando-o como uma hegemonia das classes dominantes 9. Por fim, Lucia

8 “O neoliberalismo é um projeto sério e racional, uma doutrina coerente e uma teoria vinculada e
reforçada por certos processos históricos de transformação do capitalismo. É uma doutrina, pelo menos de
fato, conectada com uma nova dinâmica tanto tecnológica e gerencial quanto financeira dos mercados e
da competição” (THERBORN, 2000, p.182).
9 “Me parece que o essencial é caracterizar o neoliberalismo como um modelo hegemônico. Isto é, uma
forma de dominação de classe adequada às relações econômicas, sociais e ideológicas contemporâneas”
(SADER, 2000, p.146).

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Neves (2005) taxa o neoliberalismo, em especial sua vertente da Terceira Via, de uma
nova pedagogia da hegemonia para consolidar o consenso burguês.
Um segundo conjunto de definições sobre o neoliberalismo pode ser circunscrito
em torno dos seus aspectos políticos. Em linhas gerais, define-se o termo como uma
ofensiva da classe burguesa e seus aliados contra os trabalhadores diante da crise
capitalista no final dos anos 1970 e início dos 1980. Neste grupo, encontram-se autores
como Atilio Boron10, Immanuel Wallerstein11, Luciano Vasapollo12 e Pablo González
Casanova13. Com destaque, têm-se os textos de David Harvey (2008) e François
Chesnais (2002), que utilizam o termo como uma tentativa da burguesia rentista em
reverter a tendência a queda da taxa de lucro, além de combater outras causas das crises
capitalistas, atacando as organizações da classe trabalhadora, tidas como politicamente
responsáveis pela corrosão das bases da acumulação (os conflitos distributivos entre
rendas e riquezas do capital e do trabalho). Este conjunto de intelectuais assume a
hipótese da ofensiva neoliberal ser uma estratégia política que a classe burguesa –
hegemonizada por sua fração rentista –, projetou e colocou em ação para estancar o
processo de democratização política e social dos anos 1960 e 1970, cristalizado tanto no
Welfare State quanto no socialismo real. Para lograr êxito na reafirmação da sua
supremacia, as classes dominantes lançaram mão prioritariamente de recursos
hegemônicos e consensuais e, nos casos mais extremos (mas não tão raros), da
dominação-coerção, como repressão policial brutal, criminalização da pobreza e
invasões militares na periferia mundial. Vale ressaltar que tais autores, ao enfatizar os
aspectos políticos deste assalto do capital financeirizado, não obliteram os aspectos
econômicos e ideológicos do neoliberalismo.
10 “O neoliberalismo nos é apresentado como saída única, como a ‘solução técnica’, quando não se trata
de nada mais do que a expressão de uma coalizão de interesses das classes dominantes” (BORON, 2000,
p.174).
11 “O raciocínio é, portanto, o seguinte: o triplo processo [de tendência secular] de
desruralização/esgotamento ecológico/democratização produziu uma poderosa pressão sobre os níveis de
lucro, levando-os a um ponto crítico. Evidentemente, os capitalistas contra-atacam. O conjunto da
ofensiva neoliberal nos últimos 20 anos corresponde exatamente a uma tentativa de inverter o sentido da
corrente. Os capitalistas tentaram, deste modo, reduzir os salários dos trabalhadores
[deslocalização/relocalização das empresas na periferia], as exigências referentes à internalização de
custos [agressão ambiental] e os gastos do Estado providência [democratização]” (WALLERSTEIN,
2003, p.90).
12 “(...) A dominação mundial neoliberal é uma tentativa do capital de solucionar a crise de acumulação
que está presente com força desde os anos 1970 e determina a estrutura e a dinâmica do presente modo
com que o imperialismo se apresenta. Os países imperialistas devem responder cada vez mais aos
processos do capital financeiro internacional, que mais do que nunca é a forma de mostrar as
características mundiais do capitalismo com sua busca por superlucro” (VASAPOLLO, 2007, p. 67).
13 “A chamada ‘economia [neo]liberal’ é a nova forma da sociedade civil e da política social no que se
refere aos marginalizados e superexplorados, que de outro modo tenderiam a formar frentes coletivas. É
uma política de desestruturação da classe trabalhadora” (CASANOVA, 1995, p. 110, grifos originais).

12
No Brasil, o termo foi relacionado a conceitos da filosofia política que versam
sobre períodos históricos anteriores ao bloco histórico fordista-keynesiano. Francisco de
Oliveira (1999, p.80), antes de sugerir o abandono do vocábulo, tratou-o como uma
ideologia totalitária que anula a política e a fala dos subalternos, incutindo o consenso
neoliberal à força, como se houvesse uma (nova) “ditadura” no país. No dossiê
Neoliberalismo e neofascismo do nº 7 da revista Crítica Marxista, Octávio Ianni (1998,
p.118) traça um paralelo entre o neoliberalismo e o nazi-fascismo, apontando
similitudes entre as suas políticas de terrorismo de Estado, criminalização dos
movimentos sociais, xenofobia, racismo etc. Reginaldo Moraes (1998, p.125), por sua
vez, indica que a falência da contrarrevolução neoliberal poderia pavimentar o caminho
para saídas fascistas. Os conceitos de totalitarismo e fascismo usados por Chico de
Oliveira, Octávio Ianni e Reginaldo Moraes são mais relacionados ao uso da coerção do
que ao consenso ideológico dentro do mix de recursos utilizados pelas classes
proprietárias nos seus padrões de supremacia. É importante destacar a existência de
elementos ditatoriais na ofensiva neoliberal, mas não se deve perder de vista que tal
ofensiva se baseou fundamentalmente em táticas hegemônicas.
No prólogo do livro Poder & dinheiro, João Manuel Cardoso de Mello (1997)
narra a globalização capitalista como uma “contrarrevolução liberal-conservadora”, com
a qual as elites dominantes tentam controlar os setores tecnológicos, o sistema
internacional de moedas e finanças e o poder político-militar. Os resultados do controle
destas dimensões por parte dos governos centrais e suas elites são, para a periferia, o
aumento da heterogeneidade estrutural, da exclusão social e da dependência externa.
Kátia Lima (2008, p.2), a partir de um resgate dos textos de Florestan Fernandes, define
o neoliberalismo como uma “contrarrevolução preventiva e prolongada, indicando como
esse conjunto de ações da burguesia para enfrentamento de suas crises, reconstituição de
suas margens de lucro e reprodução do seu projeto de sociabilidade ganha novos
contornos e nova racionalidade nos anos de neoliberalismo, seja por meio do
‘neoliberalismo clássico’ ou do neoliberalismo de ‘terceira via’”.
Como se percebe, a controvérsia sobre o neoliberalismo vai muito além de um
maniqueísmo conceitual entre contrarreforma e revolução passiva. Daí a importância
desta cartografia ideológica sobre o atual projeto de supremacia burguesa, que permite
múltiplas leituras dentro do campo da teoria social crítica e, portanto, múltiplas ações de
transformação social, que ainda não colocaram em xeque a ordem burguesa em tempos
de crise.

13
IV. Social-liberalismo: a renovação na revolução passiva neoliberal (à guisa de
conclusão)

No Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels ([1848] 1998, p.17) anunciaram


que o rompimento de intelectuais burgueses com a concepção de mundo própria da sua
classe de origem é sinal de uma época de crise revolucionária, “(...) períodos em que a
luta de classes se aproxima da hora decisiva”. E o contrário, isto é, a passagem de
intelectuais socialistas para as fileiras da concepção de mundo burguesa, o que
significa? Como caracterizar, então, o neoliberalismo, época histórica de cooptação
massiva e molecular de influentes quadros do movimento operário, que aderem ao bloco
social hegemonizado e dominado pela burguesia rentista? Neste sentido, Guido Liguori
(2008, p.66, grifo original) contribui para o debate dizendo que
(...) as categorias interpretativas do pensamento socialista depois de
1989 se tornaram cada vez mais contíguas às categorias centrais do
pensamento liberal, submetendo-se à sua hegemonia, a partir de uma
forte subestimação do papel da política em favor da sociedade civil,
no âmbito de um renovado processo, obviamente inconsciente, de
“revolução passiva”.

A interrogação que Liguori suscita é se o processo de passivização das lutas das


classes subalternas à ordem burguesa – via o transformismo dos seus partidos políticos e
sindicatos, que se engajaram resolutamente no projeto neoliberal – teria sido
“obviamente inconsciente”. Há indícios que, em alguns casos moleculares, o
apassivamento pode ter sido inconsciente, com as mudanças do programa intelectual do
neoliberalismo serem incorporadas como algo “natural” diante das transformações do
capitalismo e da suposta falta de alternativas políticas à avalanche da ofensiva burguesa.
Entretanto, não parece verossímil que um processo tão massivo de apassivamento de
lideranças históricas do movimento operário internacional, que arrastou os maiores
partidos socialistas da Europa e da América Latina, não tenha sido um movimento
consciente. Tanto é assim que intelectuais coletivos e avulsos fizeram questão de passar
a limpo esta história e escrever documentos explicando seus processos de conversão,
mascarados como um rito de passagem necessário à integração a nova ordem.
No nosso país, autores como Luiz Werneck Vianna (2011) e Ruy Braga (2010)
defendem a tese de que o neoliberalismo pode ser caracterizado, de acordo com as
necessárias mediações históricas, como mais uma etapa da revolução passiva brasileira.

14
Na minha tese de doutorado, intitulada O social-liberalismo (CASTELO, 2011),
defendida na Escola de Serviço Social sob orientação do mestre Carlos Nelson 14,
também procuro edificar a mesma hipótese.
Ora, como o prof. Carlos Nelson admite, o neoliberalismo tem o transformismo
como uma das suas marcas. O que cabe perguntar é: diante do subversivismo esporádico
e elementar das classes subalternas surgido em meados dos anos 1990, a ofensiva
neoliberal não teria sido obrigada a adotar mecanismos de reformas passivas para além
da restauração do poder da classe burguesa e seus apoiadores?
O que se argumentará logo a seguir é que tais reformas não se configuram como
conquistas da classe trabalhadora como as ocorridas nos Trinta Anos Gloriosos, mas
como concessões que as classes dominantes fazem sob um invólucro de medidas
assistencialistas, totalmente desvinculadas da noção de direito, de organização de classe
e de luta político-cultural. Assim, defende-se que a ofensiva rentista ajustou sua
estratégia inicial de restauração para uma reforma-restauradora a partir da última década
do século passado, com o objetivo de manutenção do bloco histórico neoliberal.
Apesar da sua força, o neoliberalismo encontrou resistências na sua aplicação
“pura” e, por isto, não tomou exatamente o rumo idealizado pelos ideólogos de Mont
Pèlerin. Tais resistências – vindas dos subalternos e até mesmo de frações das classes
dominantes – ocorreram desde os primórdios da consolidação do neoliberalismo nos
governos Pinochet, Reagan e Thatcher. Na primeira variante ideológica do
neoliberalismo, intitulada de receituário-ideal, defendia-se uma intolerante doutrina do
controle dos gastos públicos, do arrocho salarial, das aberturas comercial e financeira,
do desmonte do Welfare State e de um amplo processo de privatização, dentro daquilo
que ficou consagrado nos anos 1990 como o Consenso de Washington.
Os planos de ajuste estrutural foram implementados de acordo com a correlação
de forças de cada um dos países. Na América Latina, por exemplo, a agenda neoliberal
foi aplicada com maior ênfase em países como Argentina, Bolívia, México e Venezuela.
No Brasil, diante de um complexo quadro nacional das lutas de classes, no qual a
esquerda – liderada pelo PT nos anos 1980 – formou um bloco de resistência
relativamente eficiente, o neoliberalismo só conseguiu se estabelecer tardiamente nos

14 Peço licença aos leitores para uma nota de cunho estritamente pessoal: apesar das divergências no
campo interpretativo sobre o neoliberalismo, Carlos Nelson, em momento algum, quis imputar qualquer
tipo de direção a minha tese. Ao contrário, estimulou – de todas as formas possíveis –, o debate franco e
aberto, defendendo a minha autonomia enquanto pesquisador. Creio que esta marca de generosidade o
distingue de muitos intelectuais da academia, e o torna um grande mestre.

15
anos 1990 com a cooptação de setores da social-democracia (PSDB), auxiliados por
conservadores (o então PFL, hoje DEM) e até mesmo ex-comunistas (PPS).
Operado por uma composição heterogênea de social-democratas, intelectuais e
executivos ligados ao setor rentista e oligarcas do agronegócio, o bloco de poder PSDB-
PFL, após a vitória presidencial de 1994, promoveu a inserção do Brasil na nova divisão
internacional do trabalho, adequando o país aos padrões globais da acumulação
capitalista, além de combater as organizações políticas e sociais dos trabalhadores com
repressão e cooptação das suas principais lideranças. A ofensiva neoliberal fundou um
novo bloco histórico capitalista no Brasil, com alterações tanto na base econômica
quanto nas superestruturas político-ideológicas. Do ponto de vista político, soldou-se
um bloco social com participações de distintas frações da burguesia – com hegemonia
do grande capital financeirizado nacional e internacional (FILGUEIRAS, 2006, p.183-
4) –, dos latifundiários, das classes médias, e, a depender do período, do
lumpenproletariado e da aristocracia operária (BOITO Jr., 2003).
O projeto neoliberal representou a derrota do movimento operário reconstruído
na década de 1980, o aborto de um Estado de bem-estar social nacional e, acima de
tudo, a vitória da burguesia liderada por sua fração rentista internacionalizada. À esta
vitória, seguiu-se uma ofensiva ideológica neoconservadora. Em uma estratégia
formulada e conduzida por universidades (na sua maior parte privadas e de cariz
eclesiástico), institutos de pesquisa, ONGs e pela mídia, o social-liberalismo chegou
aqui para reafirmar e reatualizar a direção intelectual-moral das classes proprietárias.
Não há um consenso entre os especialistas acerca da data de desembarque do social-
liberalismo no Brasil. Flávio Bezerra de Farias (2003) e Ruy Braga & Álvaro Bianchi
(2003) afirmam que tal ideologia chegou aos trópicos com a eleição de Lula em 2002.
José Luis Fiori (1995), em contraposição, observa que a social-democracia de Felipe
Gonzalez, que se auto-intitulava um social-liberal, funcionou como um modelo de
atuação prática para os tucanos. Segundo esta linha de raciocínio, o social-liberalismo
teria chegado ao Brasil durante o governo FHC: esta tese, todavia, não deve
desconsiderar a força legitimadora que o PT e seus aliados da antiga esquerda nacional
injetaram no neoliberalismo ao abraçarem à ideologia social-liberal.
No meu entender, este debate precisa ser encaminhado sob uma análise mais
dinâmica. Nos primeiros passos do neoliberalismo brasileiro, os elementos de
restauração prevalecem em larga medida nos governos FHC, mas já existiam, neste
momento, alguns embriões de projetos renovadores típicos do social-liberalismo que

16
seriam aprofundados nos governos Lula, como os programas experimentais de
transferência de renda, a universalização da educação básica (com péssima qualidade,
diga-se a verdade) e os aumentos reais do salário mínimo; já nos mandatos do PT,
alguns elementos de renovação são aprofundados e outros são inaugurados – não nos
moldes de reformas sociais, mas sim de atendimentos pontuais de algumas demandas
dos subalternos, como programas massivos de transferência de renda, aumento do
crédito para consumo de massa, sistema de cotas raciais e sociais para ingresso no
ensino superior, geração de empregos formais etc. (BRAGA, 2010, p.12). Ou seja, o
social-liberalismo consolida-se nos governos Lula e Dilma, mas seus germes estavam
sendo cultivados na gestão tucana.
Os resultados prometidos às populações pelos programas de ajuste do Consenso
de Washington não foram alcançados: as taxas de crescimento econômico continuaram
estagnadas, o desemprego cresceu, os empregos gerados foram de baixa qualificação e,
principalmente, os índices de pobreza e desigualdade aumentaram. Gradativamente
tomou-se consciência que o receituário-ideal do neoliberalismo não reunia condições
políticas e ideológicas para cumprir suas (falsas) promessas. Um mal-estar generalizado
começou a ser sentido pelas classes subalternas diante dessa situação de deterioração
social. Era hora, portanto, do neoliberalismo sofrer um suave ajuste na sua estratégia.
Apresento uma hipótese de trabalho que busca explicar os múltiplos nexos
estruturais do social-liberalismo: a deterioração do mundo do trabalho no centro e na
periferia do mercado mundial, as crises financeiras globais e as lutas e resistências
contra-hegemônicas da década de 1990 (zapatismo, Seattle, Fóruns Sociais etc.)
geraram um período de crises conjunturais. Estas crises, caracterizadas de acordo com a
teoria gramsciana15, exigem soluções renovadas de disciplina da classe trabalhadora –
subsunção formal e real do trabalho à lógica do capital, coerção direta promovida pelo
Estado e o poder da ideologia –, apagando tentativas de rebelião dos subalternos.
Por meio da rearticulação entre sociedade política e sociedade civil, as classes
dominantes pretenderam retomar a direção intelectual e moral do processo de expansão
imperialista, na medida em que a supremacia burguesa foi, gradativamente, perdendo
credibilidade e legitimidade a partir da degradação do mundo do trabalho, das crises
financeiras e econômicas e das lutas anti-sistêmicas na metade dos anos 1990. A
politização da “questão social” forçou as classes dominantes a se articularem em torno
15 Sobre os conceitos de crise orgânica e conjuntural nos apontamentos carcerários de Antonio Gramsci,
sugiro a consulta das notas 216 do caderno 8 (volume 1 da edição brasileira), 61 do caderno 9 (volume 4),
17, 23 e 24 do caderno 13 (volume 3), 5 do caderno 15 (volume 4) e 1 e 15 do caderno 22 (volume 4).

17
de uma nova tática de sua estratégia de supremacia para garantir o consenso e a
legitimidade do neoliberalismo, privilegiando os mecanismos de hegemonia sem,
contudo, abrir mão dos aparelhos coercitivos de dominação.
O diagnóstico apresentado pelas classes dominantes e seus representantes
ideológicos não foi o erro na prescrição do remédio, mas a sua baixa dosagem. Em
essência, o Consenso de Washington estaria correto: o problema residiria na aplicação
parcial do receituário, derivada das resistências que impediam o correto manejo das suas
políticas. Seria preciso remover tais barreiras e promover um aprofundamento das
medidas liberalizantes, dando ênfase aos mecanismos de mercado na produção da
riqueza, ao mesmo tempo em que se passaria a reconhecer as suas falhas no tocante à
distribuição de renda, além dos problemas ambientais.
A partir da correção de rumo dos programas de ajuste propugnados pelas
agências multilaterais de desenvolvimento, os projetos de refuncionalização do Estado
ganharam uma nova configuração: se antes das medidas corretivas defendia-se – pelo
menos no plano da retórica – um aparato estatal mínimo, o Estado, agora, teria uma
função reguladora das atividades econômicas e operacionalizaria, em parceria com o
setor privado, políticas sociais emergenciais, focalizadas e assistencialistas. De acordo
com esta reconfiguração, o Estado continuaria seguindo a lógica da retomada do
crescimento das taxas de lucro, da estabilidade monetária, do equilíbrio fiscal, da
desoneração dos impostos das classes dominantes, da desestabilização do poder dos
sindicatos e do controle social sobre a força de trabalho, tal qual vinha sendo feito de
acordo com o receituário-ideal. As políticas econômicas, que ocupavam um papel
central no projeto de retomada da supremacia burguesia, preservariam o seu rumo
original e seriam mantidas longe de qualquer ingerência popular.
Reconhece-se, em um primeiro momento, as falhas do mercado, em especial no
tocante ao pauperismo e à destruição ambiental e promove-se, consequentemente, um
sincretismo entre o mercado e o Estado, imaginariamente capaz de instaurar a justiça
social. Ou seja, as desigualdades sócio-econômicas passaram a ser um dilema a ser
tratado pela burguesia e seus intelectuais. Assim, as classes dominantes promoveram
uma ofensiva na direção das bandeiras ideológicas da esquerda, tradicionalmente
vinculadas ao igualitarismo. O que antes era um ideal progressista, passou a ter novos
significados culturais após a ofensiva conservadora. O objetivo burguês em retomar o
debate sobre a “questão social” consiste na reconstrução do nível de consenso usufruído
pelo neoliberalismo nos anos 1980, quando este se tornou mundialmente hegemônico.

18
As teorias da Terceira Via (Anthony Giddens), da Via 2 ½ (Alan Touraine), do
pós-Consenso de Washington (John Williamson), da “nova questão social” (Pierre
Rosanvallon), do desenvolvimento humano com liberdade (Amartya Sen) e das
informações assimétricas e falhas de mercado (Joseph Stiglitz) – que na sua totalidade
conformam aquilo que intitulo de social-liberalismo – são uma variante ideológica do
neoliberalismo, na qual as antigas teses do novo consenso burguês são conservadas e
ganham um verniz (pós)moderno e “progressista” com a adesão da social-democracia,
que já se nega a fazer uma crítica radical dos elementos primários do (neo)liberalismo,
aceitando-os quase integralmente.
A ideologia social-liberal é produzida e difundida por uma ampla rede de
aparelhos privados de hegemonia: agências multilaterais de desenvolvimento,
organizações não-governamentais, fundações filantrópicas laicas e religiosas, mídias
impressas e televisivas, intelectuais tradicionais e orgânicos da direita e business men.
São inúmeros agentes do social-liberalismo, desde os ideólogos ativos – os
formuladores das propostas neoliberais – até os passivos, que propagam esta ideologia
às vezes sem muita clareza do que realmente está em jogo, reproduzindo no nível do
senso comum (e próximo a ele) as teses formuladas no plano da filosofia.
Somem-se aos ideólogos tradicionais e orgânicos da direita, os intelectuais
egressos da social-democracia, do socialismo e do comunismo, integrados à supremacia
neoliberal por meio do transformismo. Os prêmios, honrarias, bolsas de pesquisa e
espaços midiáticos são fartos e amplamente oferecidos para os intelectuais que aderem
ao projeto neoliberal, especialmente as antigas lideranças dos movimentos populares.
Nesses casos, a cumplicidade nada tem de passiva: é ativa e consciente, com ganhos a
ambos os lados, cooptados e cooptadores. As perdas ficam para as classes subalternas,
que veem a decapitação das direções das suas principais organizações. Desarmados da
sua vocação utópica de uma práxis voltada para a transformação social, os intelectuais
progressistas vêm gradativamente perdendo sua identidade própria, e cada vez mais são
cooptados, objetiva e subjetivamente, pelas classes proprietárias. Parte dos ideólogos e
lideranças políticas mais representativas do social-liberalismo é composta por ex-
membros da esquerda. Alguns têm, inclusive, sua formação marcada por influxos da
tradição marxista e foram, em determinado momento da sua trajetória, intelectuais
orgânicos de organizações políticas da classe trabalhadora. Conferem, desta maneira,
uma legitimidade que, de outra forma, a supremacia neoliberal não gozaria
(BOURDIEU, 1998, p.111).

19
Em suma, os intelectuais do social-liberalismo tentam se diferenciar da vertente
do neoliberalismo chamada de receituário-ideal a partir de três eixos. Primeiro, tecem
críticas contra o liberalismo extremado da globalização que, sem maiores critérios, teria
desregulamentado mercados de países frágeis do ponto de vista econômico e
institucional, o que aumentou drasticamente as taxas de desemprego e,
consequentemente, a tensão social. Em segundo lugar, discordam da tese do Estado
mínimo, afirmando que a nova configuração global do capitalismo exigiria um Estado
ágil e eficiente, capaz de fazer intervenções pontuais nas falhas de mercado e nas
expressões mais agudas da “questão social”. Por último, dão destaque à participação dos
aparelhos privados da sociedade civil, em comunhão estreita com o Estado, na
formulação e implementação de políticas públicas, em especial as políticas sociais de
alívio à pobreza via a transferência de renda e o empoderamento dos indivíduos.
O propósito é motivar uma inflexão no pensamento hegemônico em relação ao
debate sobre mercado e bem-estar social, na qual uma epistemologia de direita –
maximização e otimização dos recursos, escassez relativa, capital humano – é
envernizada por uma ética de “esquerda”, com palavras de ordem como equidade,
justiça social, economia verde, solidariedade e voluntariado. O núcleo central das
políticas neoliberais – que consiste em políticas econômicas para a retomada das taxas
de lucro com ênfase na financeirização da riqueza – permanece como um dogma
inquestionável, não passível de alteração. Restaria, como alternativa “realista”, a
promoção de ações sociais nas fissuras provocadas pelas falhas de mercado, uma
espécie de operação microscópica sobre os mecanismos macroestruturais de produção
das desigualdades sócio-econômicas.
O bloco histórico neoliberal sofreu abalos nos anos 1990, mas foi remodelado
sobre velhas bases e uma nova roupagem: o que se vislumbra com as teorias do social-
liberalismo é um projeto ideológico classista de retomada da supremacia neoliberal que
ganhou impulso com o acoplamento de amplos setores da social-democracia e mesmo
dos comunistas cooptados ao reformismo-restaurador contemporâneo. O transformismo
social-democrata na supremacia neoliberal resultou no aprofundamento de pontos da
agenda neoliberal, e não a sua amenização.
O receituário-ideal neoliberal e o social-liberalismo, vale ressaltar, não são dois
projetos distintos, um conservador, e o outro reformista, que busca superar o primeiro;
trata-se, acima de tudo, do mesmo programa reformista-restaurador operado por forças
políticas diferentes do ponto de vista da sua história e das suas bases sociais, mas que

20
por meio da emergência da supremacia neoliberal, articulou um bloco social capaz de
aglutinar grupos até então adversários. O caso brasileiro do social-liberalismo liderado
pelo PT é, justamente, um dos mais paradigmáticos do mundo. Diante do transformismo
das forças progressistas, o neoliberalismo passou a atuar como um centrismo
conservador, ditando os mesmos objetivos às suas alas da esquerda e da direita, embora
cada uma delas tenha métodos ligeiramente diferenciados de dirigir o projeto burguês.
O social-liberalismo comporta, portanto, um duplo movimento: a decadência
política e ideológica da social-democracia, esvaziada das suas lutas reformistas na
construção de uma via democrático-institucional para o socialismo, e a incorporação de
uma agenda social ao neoliberalismo. A resultante destes dois movimentos
aparentemente paradoxais entre si, converge em um sentido único: a formação de um
novo senso comum, um consenso que ocupa o centro da política mundial e neutraliza as
lutas mais radicais de combate às expressões da “questão social”.
Em termos da dialética hegeliana, no bloco histórico neoliberal, grande parte das
forças da antítese abdicou do seu papel de negação radical da tese, conformando-se em
um papel secundário de consciência crítica acrítica da tese, sem negar seus pressupostos
básicos, apontando apenas seus defeitos, imprecisões e falhas. Com o enfraquecimento
da antítese, a tese não pode ser superada, e os choques entre os contrários –
transmutados no presente tão somente em diferenças – não são fortes o suficiente para
gestar uma nova síntese, daí a aparente incapacidade de mudanças estruturais. Do
acordo entre as diferenças (sem mais o choque dos contrários), surge a reafirmação da
antiga tese, repaginada sob uma nova aparência na qual os seus elementos essenciais são
reafirmados. “Na verdade, da oposição dialética entre tese e antítese só a tese
desenvolve suas possibilidades de luta, até o ponto de atrair para si os chamados
representantes da antítese” (BRAGA, 1995, p.63).
Em termos mais concretos, o que houve foi uma incorporação de antigos setores
socialistas e comunistas ao projeto burguês contemporâneo. O mais surpreendente nesta
incorporação foi que os social-democratas não se limitaram a ser uma linha de força
auxiliar no bloco social neoliberal: em algumas experiências nacionais, eles assumiram
o papel de condutores primários da supremacia burguesa. Os casos mais emblemáticos
são o inglês (Novo Trabalhismo), o brasileiro (PT) e o sul-africano (CNA).
No caso do transformismo, os grupos cooptados tornam-se aliados de segunda
mão do bloco social-ideológico dominante e não assumem o controle da direção
política. O que ocorreu no neoliberalismo em algumas formações econômico-sociais é

21
um pouco diferente. Chico de Oliveira (2010), na tentativa de teorizar sobre o ocorrido,
chamou o processo de conversão de setores de esquerda em dirigentes do bloco
histórico neoliberal de “hegemonia às avessas”. Ele vai além, afirmando que a força
teria desaparecido da hegemonia burguesa e as classes dominantes teriam consentido
em serem dirigidas pelos setores cooptados dos subalternos (OLIVEIRA, 2010, p.27).
O social-liberalismo é, em resumo, uma unidade eclética do receituário-ideal do
neoliberalismo com a consciência crítica acrítica da social-democracia contemporânea,
que entrou irremediavelmente em mais uma etapa do seu antigo processo de decadência
ideológica. A resultante é a gestação de um novo “conservadorismo reformista
temperado.” O social-liberalismo é avaliado não como uma conscientização humanista
16

da burguesia, mas uma ideologia de manutenção da ordem capitalista que embasa uma
série de intervenções políticas na “questão social”, como ações do voluntariado, da
filantropia empresarial, da responsabilidade social, do terceiro setor, de
desenvolvimento local e sustentável e de políticas sociais assistencialistas e
fragmentadas, que não questionam as bases da acumulação capitalista, produtora de
riqueza no topo e de miséria na base da hierarquia social.
Vivemos, desta forma, uma nova etapa da revolução passiva no Brasil (e no
mundo), com determinações inéditas e mediações históricas que ainda carecem de
estudos mais aprofundados, tarefa indispensável caso queiramos colocar um freio à
barbárie capitalista.

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16 A expressão é usada por Gramsci para definir a revolução passiva (GRAMSCI, 1999, p. 293 – C10
[1932-1935], §6).

22
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