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O indígena na univers(c)idade: desafios, realidade e vivências.

Saída para novas perspectivas de vida, a cidade se tornou lugar para o qual a mente é
direcionada quando o assunto é maior oferta de trabalho e possibilidades de estudo.

Povos do campo, quilombolas e indígenas são grupos afetados por essa visão de benesses do
meio urbano. No que se refere aos índios, eles buscam nas cidades próximas de seus espaços
de vivência, nas capitais – como Recife – ou em regiões potencialmente atrativas, como o Sul
e o Sudeste, a fuga da escassez de água, da violência por conta da invasão das terras e também
a falta de condições necessárias para a atividades laborais sob a terra que garantam sua
reprodução física e social, consequência da desvalorização do trabalho no campo. A busca
pelo novo é ativada e a cidade acaba gerando um fascínio por novas possibilidades.

O Doutor e Historiador Edson Silva, prof. do Colégio de Aplicação do Centro de Educação


da Universidade Federal de Pernambuco (CAP/CE-UFPE), conta que é importante ressaltar o
espaço urbano como o fim último e possível para a maioria desses indígenas. Sem
escolarização adequada, “eles são mão de obra barata, desqualificada. Em sua maioria, vem
ocupar as periferias da cidade”. Mesmo em contextos marcados pela violência urbana,
pobreza e falta de condições básicas de sobrevivência, são indivíduos que reafirmam sua
identidade e se reinventam.

De acordo com informações do


prof. Edson, a reelaboração cultural Porcentagem de indígenas por zona
e afirmação étnico-identitária, em
Recife, não seria diferente. Da
mesma forma que em cidades como Rural
Manaus (AM), Belém (PA), Boa 36,2%
Vista (RR) Crateús (CE), Dourados Urbana
(MS), São Paulo (SP), entre outras, 63,8%

nas quais a presença indígena é


marcante, no perímetro da região
metropolitana de Recife também há Fonte: Censo IBGE 2010

uma expressividade de indígenas


morando em contextos próximos dos citados pelo pesquisador. A capital pernambucana fica
em décimo lugar entre as capitais com maior contingente populacional de indígenas do Brasil.

Número de indígenas
Brasil 896.917 305 povos; 274 línguas faladas
Nordeste 232.739 2ª região com maior quantidade de indígenas
Pernambuco 34.639 9º Estado do Brasil - 2° da Região Nordeste
Recife 3.665 10º lugar entre as capitais com maior número de índios
Fonte: Censo IBGE 2010

O historiador finaliza dizendo que as pesquisas sobre os indígenas em contexto urbano


apresentam obstáculos a ser transpostos dentro da acadêmica. “A temática indígena é ainda
residual na academia. Se há essa dificuldade de pensar o indígena nesse espaço, imagine
pensar aqueles que migraram para os centros urbanos? São vários paradigmas que precisam
ser quebrados. Primeiro, o fato da temática indígena ser do âmbito somente da Antropologia;
daquele [pesquisador] que vai atrás do outro exótico, diferenciado, do estranho – que é a ideia
clássica do indígena primitivo”.

Pensar os indígenas que migram ou aqueles que afirmam sua identidade na realidade urbana é
uma proposta da Pedagoga e Mestra Maria da Penha. No âmbito da Educação, a professora
enfatiza que há três décadas (entre os anos 1970 e 1980), “no Nordeste, os indígenas têm se
interessado pela cidade como um meio de buscar uma qualificação educacional, voltada,
geralmente, para as demandas dos seus povos, mas isso não exclui a sua pretensão
individual”, destaca.

Inicialmente, visando as Escolas Técnicas Agrícolas para atender as pretensões das suas
etnias, muitos jovens indígenas vindos do campo migraram para áreas urbanizadas. Pensando
outro tipo de formação, de acordo com a educadora, já no final dos anos 1970 – antes da
Constituição de 1988, marco do reconhecimento dos direitos indígenas – já havia um grupo de
índios Terena reivindicando, em Brasília, o direito à educação superior para os seus parentes.

A professora e pesquisadora ainda conta, com base nos


estudos com os quais se aproxima, sobre a negação
histórica ao direito ao ensino superior para os povos
originários, destacando o pensamento colonial de
limitação do ensino superior para grupos socialmente
invisibilizados. “Não vamos alimentar cobras para nos
morder”, era um fala utilizada por representantes das
políticas públicas, afirma a pedagoga.

Com o avanço nas políticas de educação – Lei de cotas


(12.711/2012), vestibulares diferenciados, cursos de
Fonte: Arquivo pessoal

Educação Intercultural – dois foram os motivos


prioritários para inserção de indígenas no universo da
cidade, mais especificamente na graduação: 1)
formação e capacitação de professores para o ensino diferenciado nas aldeias; 2) formação em
cursos universitários universais, de diversas áreas, para atender outras demandas para além da
educação, como a saúde, direito, comunicação, meio ambiente, gestão e etc.

Ridivânio Procópio da Silva (37) é um dos indígenas que entende bem esses motivos
prioritários do seu povo. Conhecido como Juruna, do povo Xukuru do Ororubá –
Pesquiera/PE, ele nasceu na cidade, mas não perdeu a relação com seus parentes indígenas, o
que o motivou a fazer retorno às origens assim que adquiriu sua consciência identitária.

Segundo ele, por conta da falta do reconhecimento pelo Estado Brasileiro, nos anos 80, da sua
etnia e também por conta das perseguições dentro do território hoje reconhecido como do
povo Xukuru, muitos indígenas migraram para os centros urbanos, incluindo Recife, na busca
por outros meios de sobrevivência, o que não foi diferente com a sua família. Atualmente,
Juruna é artesão, estudante de Letras na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap),
professor particular de Inglês e mora com Valquíria, sua mulher, também Xukuru do Ororubá,
no Coque, comunidade dentro do bairro de Joana Bezerra, na capital pernambucana.

Mesmo não exercendo nenhuma


função de liderança dentro do povo,
Ridivânio tem uma atitude militante
dentro do espaço urbano e participa
de vários coletivos, colocando, por
conta disso, a demanda dos povos
indígenas em pauta. Além de
colaborador do NEABI (Núcleo de
Estudos Afro-brasileiro e Indígena),
da Universidade Católica de
Pernambuco (Unicap), o indígena
também atua no Conselho de
Igualdade Racial, da Prefeitura do Recife, onde busca mapear os indígenas que vivem no
perímetro urbano para ajudar na promoção de políticas públicas voltadas paras esses
indivíduos.

Ridivânio fala que fazia trabalhos voltados para a promoção da visibilidade do seu povo na
cidade antes mesmo de ser reconhecido enquanto Xukuru pelas lideranças da sua etnia. “Isso
ajuda muito a tirar e a quebrar esses paradigmas, estereótipos que as pessoas ainda carregam”.
Morar na cidade, para ele, permite “criar novas alianças e novos aliados que antes não
conheciam ou não sabiam da existência dos povos indígenas tanto na capital quanto no
interior. O povo aqui em Recife está aceitando mais a presença de indígenas na cidade, mas
ainda não estão preparados pra ter um verdadeiro acolhimento, no sentido dos direitos”.

Enquanto estudante da graduação, Juruna pretende ajudar no resgate do idioma falado pelo
seu povo, que mesmo não tendo mais fluentes, carregam muitas palavras do vocabulário da
língua.
Além de Juruna, jovens, como Ziel Mendes (23), também são indivíduos potenciais a
ocupação do espaço urbano.

Fonte: Arquivo pessoal


Indígena Karapotó, da Aldeia Terra
Nova, do agreste alagoano, Ziel veio
para Recife em 2015, especificamente
para estudar na Licenciatura em Artes
Visuais na UFPE (Universidade Federal
de Pernambuco).

Ele acrescenta que atua desde 2012 no


desenvolvimento de trabalhos voltados
para a área das artes visuais e que
Recife era o único local próximo para o
qual ele poderia prestar vestibular, já Figura 1 Ziel realiza intervenção no Instituto Ricardo Brennand
que em Alagoas o curso não é ofertado.

Em Recife, o indígena Karapotó mora no bairro de Piedade com não indígenas, com os quais
Ziel diz ter presenciado um olhar de surpresa quando se afirma como indígena. Segundo o
jovem, ainda há um estranhamento das pessoas com relação as suas características físicas, que
muitas vezes não o vincula ao indígena dito “puro”, um dos principais equívocos que o
estudante costuma vivenciar no que diz respeito a sua identidade indígena. “Existem dúvidas
de várias formas. Toda essa questão da educação, esse olhar eurocêntrico, do índio exótico,
mítico. A primeira dúvida é porque eles ficam me questionando se eu sou realmente indígena,
por causa da minha aparência - por eu ter esse fenótipo do índio ‘caboclo’, diferente. E
depois, eles ficam muito focado nessa questão dos rituais, de como é ser índio. Eles
perguntam muito sobre ervas, sobre os conhecimentos tradicionais”, destaca o estudante.

Ziel reconhece que por ter estudado em um Instituto Federal, numa cidade há 50 Km distante
do local onde vivia com seus parentes indígenas, fez com que esse tipo de educação o levasse
à universidade. Como a escola diferenciada só tinha na Terra Indígena (TI) Karapotó Plak-ô,
o jovem indígena precisou estudar a partir de uma educação não diferenciada, que ele chama
de “ensino de branco”.

Questionado sobre como a cidade impactava na sua identidade étnica, Ziel é bem enfático. –
Eu não sei afirmar até onde é prejudicial e até onde é benéfico. Para mim, tem que viver esse
processo de ocupar o espaço urbano para potencializar essa forma de entender o que eu sou.

O principal estranhamento vivenciado pelo estudante é o movimento da cidade do Recife. “A


movimentação, o fluxo é outro. É impressionante, você está no metrô e várias coisas
acontecem. Vendedores de todos os tipos, várias religiões num mesmo espaço de tempo,
vários toques”.

Mesmo sendo uma pretensão individual vir cursar a graduação em Recife, Ziel acredita que é
importante dar a contribuição para o povo, mesmo que de forma indireta. Ao trabalhar com a
construção de outras narrativas por meio da arte, o jovem acredita que pode contribuir para
desfazer equívocos e estereótipos que são reproduzidos nos livros didáticos e no campo
midiático.
Outra vivência no perímetro urbano é a
de Soraya Barreto, publicitária,
professora universitária e indígena do
povo Fulni-ô. Enquanto indígena urbana,
ela destaca que vivencia a afirmação
identitária a todo tempo. “Minha avó saiu
do povo e eu tenho uma relação um
pouquinho mais distante. Então, as
pessoas lhe colocam enquanto
descendente e não como indígena. E,

Fonte: Arquivo pessoal


muitas vezes, você precisa afirmar essa
identidade pra que as pessoas lhe
reconheçam enquanto tal”.

Na vivência em contexto urbano, Soraya


destaca que há uma total invisibilidade
com relação às questões indígenas. “Quando as pessoas sabem que eu sou indígena,
automaticamente elas colocam um cocar na cabeça para poder pertencer, de alguma forma, a
essa identidade. Além disso, o fato de eu ter trocas genéticas com não indígenas, eu não
carrego muitos dos traços para que as pessoas possam me reconhecer. Por isso, muitos não me
reconhecem”.

Na cidade, ela acrescenta que há uma naturalização do preconceito com indígenas por meio da
brincadeira. Equívocos, segundo a professora, se repetem inclusive na educação. “O dia 19 de
Abril não é um dia de conscientização e reconhecimento, é, na verdade, um dia folclórico. A
gente sabe que há um tipo de vestimenta que é utilizada em ocasiões especiais, não é uma
fantasia, uma estereotipia”.

Soraya finaliza a conversa levantando problemáticas da identidade étnica vivenciada na


cidade – produto de uma invisibilidade e apagamento de qualquer coisa que vincule ao
indígena no contexto urbano. Para ela, há dificuldades para o reconhecimento da existência,
pelo fato de não ter registro e reconhecimento da FUNAI (Fundação Nacional do Índio) e não
ter uma proximidade muito forte com o povo, o que gera uma sensação de não pertencimento.
“Você nem se sente pertence à urbanidade completamente, nem sente totalmente pertencente
ao povo. Aí, há um hibridismo de sentimento que você não sabe como levar”.

Pensar o indígena em contexto urbano, como destaca Soraya, Ziel e Ridivânio, direciona para
desafios de pensar estratégias que abarquem indivíduos outros que experienciam variadas
formas de ser e estar na realidade de cidades como Recife. Tantos outros povos têm sua
realidade fincada na experiência com não indígenas da cidade e isso torna mais plural as
várias práticas e costumes vivenciadas no meio urbano que cada etnia traz dos seus aportes
sociocultural, que os diferenciam de outras etnias, mas que os tornam integrados quando lhes
são atribuídos o pertencimento a categoria de povos originários. Desafios para o não
apagamento, o silenciamento e a invisibilidade são barreiras a ser superadas para não relegar
esses indivíduos a massa amorfa que é o pertencimento à brasilidade fabricada, que os
distanciam de um pertencimento étnico-racial.