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SOCIEDADE INDUSTRIAL AVANÇADA E A ATUALIDADE DA TEORIA

MARXISTA DE HERBERT MARCUSE

John Karley de Sousa Aquino - UFC1

Resumo

O presente artigo pretende demonstrar a proposta de Marcuse para atualizar o marxismo no


contexto da sociedade industrial avançada. Para Marcuse o marxismo é uma teoria dinâmica,
comprometida com a transformação histórica e por isso incompatível com qualquer pretensão
dogmática. Assim entendemos que algumas teses, diagnósticos e prognósticos marxistas não
são imunes a revisão, mas precisam ser revistos conforme as mudanças ocorridas no seu
objeto de estudo, a saber, na sociedade capitalista. Propomo-nos expor a atualidade do
marxismo revisitado de Marcuse.

Palavras – Chave: Marcuse; Marxismo; Atualidade do marxismo;

I. Delimitação do problema

Em 1966 o filósofo Herbert Marcuse foi conferencista no simpósio Marx and the
Western World na Universidade de Notre Dame (Indiana, Estados Unidos) e dessa
conferência resultou o artigo A Obsolescência do marxismo2 publicado no Brasil em 1972 na
coletânea As opções da esquerda da Editora Paz e Terra. O texto citado será a referência
principal desta conferência que tem por finalidade expor o que Marcuse considera necessário
ser revisto na teoria marxista como forma de mantê-la adequada as mudanças subjetivas e
objetivas ocorridas no capitalismo.
Marcuse inicia o texto afirmando que é evidente que a teoria marxista3 tal como foi
desenvolvida por Marx e Engels possui alguns conceitos e categorias ultrapassados e que
precisam ser atualizados (por exemplo, a identificação marxista do operário fabril como o
sujeito revolucionário strictu sensu) para não perder o bonde da história o que seria uma
contradição com a própria proposta original do materialismo histórico. Porém Marcuse faz
questão de frisar que são alguns conceitos e categorias que estão obsoletos, mas não a teoria
marxista como um todo e defende que essa mesma teoria contém em si antecipações teóricas
1
Mestrando em Filosofia da Universidade Federal do Ceará/UFC. Bolsista/Capes, membro do GP Atualidade do pensamento
político de Marcuse/UECE e do GP Dialética e Teoria Critica/UECE. johnksousa@gmail.com
2
Em original o título do artigo é mais coerente, pois é interrogativo The Obsolescence of Marxism? Publicado
em 1967.
3
Segundo Marcuse o que ele entende por teoria marxista não se restringe aos escritos de Karl Marx e Friedrich
Engels, mas, diz Marcuse, cito, “na minha apresentação não faço distinção – como muitos de meus colegas -
entre Marx e Engels em pessoa e as teorias marxistas mais recentes. Ao contrário, considero as teorias sobre o
imperialismo de Rosa Luxemburgo, Hilferding e Lênin, por exemplo, como autênticos desenvolvimentos da
teoria marxista original” (MARCUSE, 1978, p. 194).
FORTALEZA - V. 1, N. 1, 2016
ISSN: 2526-7515
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TEORIA MARXISTA DE HERBERT MARCUSE

do que viria a acontecer, isto é, o prognóstico da teoria marxista mostrou-se em diversos


pontos (e em pontos essenciais) acertado e correto, “numa linguagem mais simples: os fatores
que conduziram a superação e à obsolescência de alguns conceitos marxistas decisivos foram
antecipados na própria teoria marxista como alternativas e tendências do sistema capitalista”
(MARCUSE, 1972, p. 193). O objetivo de Marcuse é identificar onde a teoria marxista
permanece atual e quais prognósticos foram corretos e quais foram equivocados e onde a
teoria tornou-se obsoleta. Nessa conferência abordaremos as seguintes questões, a saber,
(1) a integração crescente da classe trabalhadora ao status quo, (2) as mudanças diagnosticas
por Marcuse no modo de produção capitalista e na classe trabalhadora e (3) a necessidade da
oposição internacional ao sistema de dominação. Nosso objetivo é expor o que Marcuse
identifica como pontos que permanecem atuais e os pontos a serem atualizados e qual sua
proposta de atualização.

II

O primeiro ponto a ser problematizado é o espinhoso tema da capacidade dos


trabalhadores de realizarem a revolução. Marx e Engels esperavam que a revolução comunista
acontecesse primeiramente nas sociedades com condições objetivas necessárias, isto é, nas
sociedades mais prósperas, industrializadas e “civilizadas” (com certa cultura burguesa) e
onde a classe trabalhadora fosse predominantemente urbana (e mais especificamente
industrial), organizada em sindicatos e partidos etc., porém no século XX a primeira
revolução dita “socialista” se deu em uma sociedade atrasada e rural, na Rússia, e as
revoluções autointituladas socialistas no decorrer do século XX repetiram esse padrão, China,
Leste Europeu, Cuba, Vietnã, África portuguesa, etc., sociedades rurais, com mão de obra
predominantemente agrícola, diminutas indústrias etc., em síntese, exatamente o contrário do
que Marx e Engels esperavam e haviam previsto4.
Nas sociedades com as condições objetivas necessárias, como a Europa Ocidental e os
Estados Unidos o que ocorreu foi justamente o contrário do previsto por Marx e Engels: a
integração da classe trabalhadora ao status quo, ou seja, se anteriormente os dois autores viam
na classe trabalhadora dos países industrializados (principalmente a Inglaterra) uma classe
realmente revolucionária pronta para cumprir sua “missão histórica”5, no século XX e com a

4
A carta rascunho de Marx a Vera Sassulitch de 1881 é permeada de indecisões referente à possibilidade de uma
revolução socialista na Rússia. Marx nem diz que é impossível, nem diz que é possível, mas afirma que tal
revolução dependeria de uma conjunção de fatores (MARX: 2005).
5
Qual seria a missão histórica do proletariado? Segundo Marx sua “missão histórica é a derrubada do modo de
produção capitalista e a abolição final das classes” (MARX: O Capital, pág. 18).

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passagem do capitalismo liberal ao monopolista “precisamente nestes países, as classes


trabalhadoras não constituem em nenhum sentido – um potencial revolucionário”
(MARCUSE, 1972, p. 194). Marcuse não afirma que os trabalhadores perderam a condição
histórico-social de classe revolucionária no capitalismo, mas que o status quo foi capaz de
integrá-los ao sistema, paralisando a oposição dos trabalhadores ao capitalismo, tornando-os
momentaneamente incapazes de serem o que podem ser e com isso inviabilizando a
revolução. Segundo Marcuse, cito,
O conceito marxista de revolução baseava-se na existência de uma classe
que não só é empobrecida e desumanizada, mas que é também isenta de
qualquer interesse adquirido no sistema capitalista, representando por isso
uma nova força histórica com necessidades e aspirações qualitativamente
diferentes. Em termos hegelianos, essa classe é a ‘negação determinada’ do
sistema capitalista e das necessidades e satisfações constituídas
(MARCUSE, 1972, p. 195).
O capitalismo tardio conseguiu com êxito reverter esse quadro sem resolver a
contradição entre as classes, isto é, sem abolir as classes sociais e mantendo a estrutura de
dominação intacta, a classe dominante conseguiu garantir aos trabalhadores certo nível de
conforto material que o tornou dependente do modo de produção capitalista, fez da classe
trabalhadora uma classe com interesses sociais (falsos, porém existentes) na perpetuação do
stabilichment. Em outras palavras: o capitalismo integrou os trabalhadores através da entrega
eficiente das mercadorias, através das benesses materiais, de modo que se tornou pouco
atraente a promessa de uma sociedade livre (que é apenas possível) em relação a uma
sociedade da abundância baseada em relações de dominação, porém realmente existente e
segura. Porque trocaríamos a segurança de um emprego, salário, automóveis e entretenimento
pela inserção em grupos e partidos radicais que prometem a revolução ou guerra civil? Porque
trocarmos a segurança da nossa casa pela perseguição policial, a censura e a tortura? Apesar
de a pobreza relativa persistir o aumento no nível de vida da classe trabalhadora tornou pouco
convincente e atraente (nas sociedades industriais avançadas) os argumentos e propostas dos
revolucionários.6

6
A teoria marxista se baseava na tese de que as condições materiais de vida da classe trabalhadora se tornariam
tão insuportáveis e miseráveis que não restaria outra solução para a mesma a não ser a revolução, afinal, tal
classe não teria nada a perder, mas tudo a ganhar. Ora, na “sociedade da opulência” em que o consumismo
desenfreado é uma falsa necessidade e os benefícios materiais pela aceitação passiva da dominação são
relevantes e não podem ser desconsiderados, torna-se cada vez mais difícil tomada de atitude revolucionária por
parte do trabalhador, cito, “pode-se ainda falar de pauperização quando o trabalhador possui não um, mas dois
automóveis, não apenas um televisor, mas três; todavia não acredito que se possa defender a tese de que esse
gênero de pauperização torne ativa a necessidade vital de um pensamento e de uma ação radicais”. Ou seja, nas
condições atuais os trabalhadores tem alguma coisa a perder e isso é comprometedor (MARCUSE, 1976, p.
196). Ainda segundo Rosdolsky, cito, “Não queremos dizer que na realidade capitalista inexistam tendências de
empobrecimentos; elas existem, mas é preciso saber onde buscá-las. Essas tendências manifestam-se claramente
em dois casos: em primeiro lugar, temporariamente, em todos os períodos de crise; em segundo,
permanentemente, nas chamadas regiões subdesenvolvidas do mundo (...)” (ROSDOSLKY, 2001, p. 255).

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Pelo menos desde o final do século XIX já era perceptível em determinados setores da
classe trabalhadora uma tendência a adaptar-se e conformar-se ao capitalismo o que significou
a adoção de uma postura cada vez mais reformista (ou mesmo conservadora) em substituição
a postura revolucionária até então existente, principalmente na classe trabalhadora inglesa,
como já havia notado Engels7. Tal mudança na realidade social exigia uma explicação teórica
por parte dos marxistas. A primeira e mais famosa explicação é a de Lênin que diz que o
reformismo no interior da classe trabalhadora decorre da influência política da chamada
“aristocracia operária” entre os trabalhadores. Segundo Lênin a aristocracia operária é
resultado do suborno que a burguesia oferece aos dirigentes políticos e sindicais dos
trabalhadores para que traiam os interesses de classe8 e segundo Lênin,
Essa camada de operários aburguesados ou de “aristocracia operária”,
inteiramente pequenos burgueses pelo seu género de vida, pelos seus
vencimentos e por toda a sua concepção do mundo, constitui o principal
apoio da II Internacional e, hoje em dia, o principal apoio social (não
militar) da burguesia. Porque são verdadeiros agentes da burguesia no seio
do movimento operário, lugar-tenentes operários da classe dos capitalistas
(labor lieutenants of the capitalist class), verdadeiros veículos do
reformismo (...) (grifo nosso) (LÊNIN, 2012, p. 148).
Na avaliação de Marcuse o conceito explicativo de “aristocracia operária” defenderia
que a integração social da classe trabalhadora ao capitalismo seria de interesse apenas desse
setor diminuto, o dos dirigentes da classe, e não das bases da classe trabalhadora. Segundo
Marcuse essa explicação de Lênin defende que “a integração da classe trabalhadora no
sistema capitalista interessa efetivamente apenas a alguns grupos privilegiados dos
trabalhadores, os pertencentes à burocracia sindical e os que controlam os aparelhos do
partido, enquanto os quadros (sic) não são submetidos a essa integração” (MARCUSE, 1972,
p. 196). Para Marcuse tal explicação era válida no contexto histórico de Lênin, pois de fato no
início do século XX a integração social da classe trabalhadora era de interesse fundamental
dos “dirigentes” e não das “bases”, porém, atualmente segundo Marcuse, a integração social
via cooptação material (aumentos salariais, oportunidades de consumo, emprego, estabilidade
etc.) se generalizou de modo que Marcuse considera essa explicação superada, segundo o
mesmo “a integração não continua absolutamente limitada à pequena aristocracia operária,
mas se estende também aos quadros (sic)” (MARCUSE, 1972, p. 196).

7
Segundo Eric Hobsbawn em Lenine e aristocracia operária in:. http://acomuna.net/index.php/contra-
corrente/4542-lenine-e-a-aristocracia-operaria-por-eric-eric-hobsbawn
8
Segundo Lênin tal suborno decorreria do superlucro que a burguesia é capaz de obter nessa nova fase do
capitalismo. Esse superlucro permitiria, segundo Lênin, cito, “subornar os dirigentes operários e a camada
superior da aristocracia operária” (LÊNIN, 2012, p. 148).

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Outra explicação para Marcuse também insatisfatória é a que diz que a integração ou
conformismo da classe trabalhadora é temporária, pois decorreria de “estímulos temporários”
ao consumo por parte dos trabalhadores. Porém esse “temporário”, segundo Marcuse,
permanecendo por tempo indeterminado foi capaz de paralisar a classe trabalhadora das
sociedades industriais avançadas em mais de meio século, de modo que esse temporário já
dura tempo demais, convertendo-se nas condições atuais do capitalismo em um estímulo
permanente9.
Apesar da integração cada vez mais crescente da classe trabalhadora ao status quo, não
significa que não exista contestação, pelo contrário, a contestação existe, o problema é que via
de regra a contestação é desorganizada e sem impacto político relevante. No interior das
sociedades capitalistas Marcuse identifica polos oposicionistas, primeiro a radicalização
política da intelectualidade (incluindo aqui não são só os intelectuais “profissionais”, mas a
mão-de-obra qualificada que executa o trabalho intelectual) e da juventude, dos estudantes
colegiais e universitários10, a persistência de um forte (ainda que não revolucionário, mas
potencialmente revolucionário) movimento dos trabalhadores, principalmente em sociedades
onde já existe uma certa tradição de luta11 e acrescente a isso a contestação dos setores sociais
marginalizados pelo capitalismo e por vezes mesmo pelos movimentos e grupos de esquerda,
os negros, os gays, as mulheres, os ecologistas, os desempregados e não-empregáveis, os
estrangeiros etc12. Ou seja, persiste, ainda que adormecido, um potencial contestatório no
interior do capitalismo tardio, apesar das tentativas de contenção desse potencial ou mesmo de
sua anulação.

II

9
“No que diz respeito à noção de ‘estímulo temporário’, pode-se apenas observar que, ao que saibamos, tudo é
temporário na história; ademais, de um ponto de vista semântico, o conceito não tem muita significação: de fato,
qual é a duração do ‘temporário’?” (MARCUSE, 1972, p. 196).
10
“No interior do sistema da prosperidade repressiva, tem lugar uma notável radicalização dos jovens e da
intelectualidade. Isso nada tem a ver com um fenômeno ideológico; trata-se de um movimento que, malgrado
todas as suas limitações, tende para uma fundamental transmutação dos valores” (grifo nosso) (MARCUSE,
1972, p. 202).
11
MARCUSE: 1972, pág. 200 – 202.
12
“Os estratos não privilegiados da população na própria sociedade do bem estar social” (MARCUSE, 1972, p.
202). Na sua última entrevista, com Habermas em 1977, Marcuse nega que em algum momento da sua trajetória
tenha dito que o proletariado não é mais o sujeito revolucionário e que as “minorias radicais” tivessem assumido
essa posição anteriormente ocupada pelos trabalhadores. Para Marcuse (em 1977) esses grupos radicais que se
apropriaram do que foi chamado de “nova esquerda” não substituem a classe trabalhadora, mas seriam “grupos
antecipadores, que poderiam atuar como catalisadores, nada mais” (MARCUSE, 1977, p. 278).

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Assim como é espinhosa a questão tratada por Marcuse referente à integração da


classe trabalhadora no interior do status quo, também é um ponto polêmico entre os marxistas
a tese de que existe uma nova classe trabalhadora, diferente da existente no contexto de Marx
e Engels. Certo dogmatismo impede a análise social da nova configuração da produção e dos
produtores no capitalismo tardio, determinados grupos marxistas que reclamam a ortodoxia
teórica se recusam a reconhecer que o trabalhador padrão não é mais o operário fabril e que a
indústria já não é o principal setor produtivo como era no capitalismo clássico. Para Marcuse
essa questão é imprescindível, pois caso a teoria não seja capaz de atualizar-se assim como a
realidade se atualiza essa teoria se tornará ultrapassada, obsoleta, e para Marcuse os marxistas
devem fazer um esforço de conhecer a realidade tal como ela é, afinal o conhecimento é o
pressuposto da prática revolucionária.
No capitalismo liberal, clássico, descrito por Marx no século XIX, a mão-de-obra era
empregada predominantemente na indústria, o trabalho manual era superior ao trabalho
mecanizado, a miséria decorria do baixo nível de produtividade e a maioria das sociedades da
época (mesmo as europeias) eram agrárias e desindustrializadas. Atualmente no capitalismo
tardio (ou monopolista) “essas considerações foram superadas”, isto é, “essa sociedade
superou as condições do capitalismo clássico” (MARCUSE, 1972, p. 199). Nas sociedades
industriais avançadas (EUA, Europa Ocidental e Japão) o setor terciário é o setor que mais
emprega mão-de-obra, as máquinas substituem e superam quantitativamente o trabalho
manual (o setor primário e secundário está quase todo mecanizado13), os benefícios materiais
ofertados a classe trabalhadora são consideráveis a ponto de elevar seu nível de vida e a
maioria das sociedades atuais é urbanizada, mesmo em várias sociedades atrasadas14. A teoria
marxista precisa se atualizar conforme estas mudanças reais, insistir na tese da aristocracia
operária, no fetichismo da “produção pela produção” e mais ainda, na tese de que apenas o
operário fabril é capaz de realizar a revolução, sendo apenas esse operário o sujeito
revolucionário é um equívoco teórico com graves consequências práticas.

13
Nos Estados Unidos, por exemplo, mais de 80% da mão-de-obra é empregada no setor terciário, sendo que nos
anos 20 mais de 1/3 da mão de obra norte americana era empregada no setor secundário. Segundo Marcio
Pochmann “desde a segunda metade do século passado a nova transição da sociedade industrial aponta para a
concentração dos postos de trabalho no setor terciário (serviços e comércio). Nas economias desenvolvidas, o
setor de serviços responde por 83% do emprego da mão de obra.”
(http://www.redebrasilatual.com.br/economia/2014/08/o-desafio-do-emprego-no-novo-mundo-dos-servicos-
1253.html). No censo do ano 2000 realizado pelo IBG no Brasil a mão-de-obra estaria empregada da seguinte
maneira, o setor primário empregava 18,7% da força de trabalho, a indústria 21,4% e os serviços 59,8%. Se
apenas o setor secundário for considerado produtivo, significa que no ano 2000 mais de metade dos
trabalhadores brasileiros estava empregada em trabalhos improdutivos e não compõem o sujeito revolucionário
por não fazerem parte da classe operária, isto é, por não estarem empregada na indústria?
14
Segundo um relatório da ONU de 2014 54% da população mundial vivia em cidades.

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Nos escritos O Homem Unidimensional e no texto A esquerda sob a contra revolução


e também no texto aqui analisado, A Obsolescência do Marxismo, Marcuse defende que existe
uma tendência no interior do capitalismo a substituição constante do trabalho vivo pelo
trabalho morto, isto é, a substituição do trabalho manual por máquinas, “em suma, a tendência
básica do capitalismo avançado no sentido da automação” (MARCUSE, 1972, p. 198).
Segundo Marcuse o progresso quantitativo do modo de produção capitalista propiciou uma
superprodutividade que permitiu uma melhora sensível no nível de vida da classe
trabalhadora, assim como mecanizou progressivamente o trabalho no setor secundário, isto é,
a indústria tornou-se cada vez mais automatizada, diminuindo a quantidade de mão-de-obra
nesse setor produtivo15.
No contexto histórico e social de Marx e Engels a mão-de-obra predominante era a
industrial, o operário fabril constituía a maioria absoluta do proletariado nas sociedades
industrializadas. Marx e Engels identificaram no operário fabril (setor majoritário da classe
trabalhadora da época) o responsável por dirigir a última revolução da pré-história da
humanidade, responsável por instaurar o reino da liberdade a partir da superação da luta de
classes e socialização da produção,
Para Marx, o proletariado é primariamente o trabalhador braçal que
despende e exaure sua energia física no processo de trabalho, mesmo se ele
trabalha com máquinas. A compra e o uso dessa energia física, sob
condições sub-humanas, para a apropriação privada da mais-valia, acarretou
os revoltantes aspectos desumanos da exploração; a noção marxiana
denuncia a dor física e miséria do trabalho. Esse é o elemento material e
palpável da escravidão assalariada e da alienação – a dimensão fisiológica e
biológica do capitalismo clássico (MARCUSE, 2015, p. 59).
O operário fabril foi definido pela teoria marxista clássica como sujeito histórico
porque na época, de fato, ele era numericamente relevante e seu trabalho era (juntamente com
o trabalho agrícola, que estava progressivamente sendo mecanizado) o único produtivo. Nem
Marx nem Engels identificaram nos trabalhadores do setor de serviços um potencial
revolucionário, não sendo um trabalho manual nem um trabalho produtivo (mas, improdutivo,
entrando no setor de custos) seu impacto político era diminuto, quase inexistente, pois não
afetava a produção, nem eram numericamente relevantes, mas constituíam o menor setor da
classe trabalhadora.
Somente na segunda metade do século XX é que progressivamente a mão-de-obra
empregada no setor terciário irá começar a superar (até superar) quantitativamente a mão-de
15
Nas palavras de Marcuse, “o desenvolvimento técnico das forças produtivas no interior do sistema capitalista
atingiu um nível no qual o uso do trabalho físico humano como instrumento de produção se torna inútil”
(MARCUSE, 1972, p. 198). O frankfurtiano Friedrich Pollock dedicou um livro inteiro ao assunto Automation:
A Study of its Economic and Social Consequences (de 1956).

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-obra empregada no setor secundário e segundo Marcuse “essa evolução é de grande


significado para o conceito marxiano de trabalhador (proletário)” (MARCUSE, 2015 p. 59).
Diante da diminuição quantitativa de trabalho vivo empregado na indústria, determinados
autores anteriormente filiados à tradição de esquerda irão duvidar da teoria marxista e na
insistência da mesma em definir o proletariado como o único sujeito revolucionário. Ora, se
Marx e Engels definiam o trabalhador da indústria, o operário, como o único capaz de realizar
a revolução proletária, como se demonstra a validade teórica dessa teoria diante da
diminuição acelerada de empregados no setor secundário? Com a diminuição numérica e
quase desaparecimento do operário fabril, a teoria marxista não ficaria comprometida e por
isso mesmo ultrapassada? André Gorz, Jürgen Habermas e outros autores responderam
afirmativamente essa questão16. No extremo oposto, teremos autores que tentaram defender a
teoria marxista dos ataques dos críticos da centralidade do trabalho, porém se apoiaram na
tese (não demonstrada) de que o operário fabril permanece sendo o único sujeito
revolucionário e que apenas o trabalho no setor primário e secundário é produtivo.
Marcuse tentará solucionar essa oposição. Primeiramente Marcuse acata a tese de que
o setor secundário torna-se progressivamente esvaziado, enquanto o setor terciário emprega
cada vez mais mão-de-obra. Mas Marcuse não recusará, como Gorz ou Habermas, o fim da
centralidade do trabalho, mas pelo contrário irá reafirmá-la: para Marcuse o capitalismo tardio
propiciou de forma acelerada a proletarização crescente da sociedade atual, hoje a quantidade
de proletários é infinitamente maior que no século XIX. Na sociedade avançada o prognóstico
marxista da proletarização geral da sociedade foi historicamente comprovado, as profissões
anteriormente não assalariadas tornaram-se profissões assalariadas, e “cada vez mais camadas
oriundas das classes médias anteriormente independentes estão se tornando as servidoras do
capital, ocupadas na criação e realização da mais-valia, ao mesmo tempo que permanecem
separadas do controle dos meios de produção” (MARCUSE, 1973, pág. 18).
Segundo Marcuse17 no capítulo VI (inédito) d’O Capital, Marx projetou as mudanças
produtivas no interior do capitalismo, “Marx projetou as mudanças estruturais que ampliam a
base de exploração para incluir o trabalho e serviços previamente ‘improdutivos’”
(MARCUSE, 1973, p. 21). O que seria trabalho produtivo e trabalho improdutivo? Segundo o
próprio Marx “é produtivo o trabalhador que executa o trabalho produtivo, e é produtivo o

16
Vide por exemplo Claus Öffe, principalmente seu ensaio Trabalho: A Categoria-chave da Sociologia? (in:.
Capitalismo Desorganizado), os livros de André Gorz Adeus ao Proletariado e de Jürgen Habermas Teoria da
Acção Comunicativa (mas desde trabalhos da década de 60 Habermas já propõe uma “reconstrução” do
materialismo histórico).
17
MARCUSE: Contra-Revolução e Revolta, p. 21.

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trabalho que gera diretamente mais-valia, isto é, que valoriza o capital (grifo nosso)”18.
Segundo Marcuse por necessidades internas, para poder se manter, o capital não pode
prescindir do trabalho vivo, como bem revelou Hegel na Fenomenologia do Espírito na
dialética do senhor e do escravo, é o primeiro que depende do segundo e não o contrário. Para
Marcuse o processo de terciarização da produção (a ampliação do setor de serviços paralela à
diminuição do setor industrial) demonstra que o capitalismo se baseia não somente na
exploração do trabalho fabril, mas na exploração do trabalho enquanto tal19.
A terciarização da economia capitalista converte a improdutividade em produtividade
(no interior do modo de produção capitalista), o que antes era considerado custo torna-se
trabalho produtivo, “o processo de realização do capital atrai camadas cada vez mais extensas
camadas da população para a sua órbita – excede os limites da classe trabalhadora operária”
(MARCUSE, 1973, p. 20-21). Vendedores, técnicos de laboratório, administradores,
advogados, seguranças, professores, motoristas etc, diversos empregos anteriormente
considerados improdutivos se tornaram no capitalismo tardio (onde o setor secundário é
paulatinamente mecanizado e a produção de serviços torna-se cada vez mais lucrativa) em
postos de trabalho produtivos, criadores de mais-valia.
A importância econômica dos trabalhadores empregados no setor de serviços (que
Marcuse também chama de ‘colarinho branco’) demonstra que a esquerda não pode
negligenciar a importância política desses trabalhadores, pensemos no impacto social e
político de uma greve de caminhoneiros ou de motoristas de ônibus ou mesmo a paralisação
dos bancários (setor de serviços que já encontrasse bastante mecanizado) para o capitalismo
tardio. Na época que escreveu e publicou O Homem Unidimensional (década de 60) Marcuse
afirmava que até então a consciência política dos trabalhadores do setor terciário se limitava a
filiação crescente dos mesmos aos sindicatos20 e diagnosticava que essa organização coletiva
“caso tenha êxito, poderá resultar no crescimento da consciência sindical desses grupos, mas
dificilmente em sua radicalização política” (MARCUSE, 2015, p. 71), pelo fato desse

18
MARX: Capítulo VI (inédito), p. 71.
19
Segundo Vinícius de Oliveira Santos, orientando de Jesus Ranieri, no capítulo VI d’O Capital Marx indica que
o setor de serviços tenderia a se tornar produtivo (referindo-se principalmente aos serviços de transporte e
comunicações), mas que era apenas uma hipótese, porque na prática, no contexto de Marx, os únicos setores
produtivos eram o da agricultura e indústria, majoritariamente o setor industrial, e nesse contexto o setor de
serviços permanecia improdutivo. Diz Santos, “em um de seus textos não publicados em vida, o chamado
capítulo VI inédito de O Capital, ao discorrer sobre os serviços e incluir determinadas atividades de produção
imaterial dentro da conceituação de trabalho produtivo (...), ele afirma a possibilidade de este tipo de trabalho ser
explorado segundo o modo de produção capitalista, mas faz uma observação: o número insignificante da
produção imaterial na totalidade da produção capitalista indicava naquele momento ‘que deve-se pôr de lado
esses trabalhos e trata-los somente a propósito do trabalho assalariado que não é simultaneamente produtivo”
(SANTOS: Trabalho imaterial e teoria do valor em Marx, p. 13).
20
Marcuse: O Homem Unidimensional, p. 71.

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trabalhador ser mais facilmente integrado ao status quo que o proletariado tradicional. Porém,
Marcuse insiste que longe da esquerda se resignar diante desse quadro político, deve trabalhar
mais e mais junto a esse novo proletariado, que (como ponto positivo) é mais esclarecido.

IV

Abordaremos agora a questão da dimensão internacional da luta contra o capital,


conforme a definição marxista da mundialização do capitalismo e por consequência a
necessidade da organização internacional dos trabalhadores. Para Marcuse permanece atual a
insistência marxista no caráter internacionalista da teoria e da prática marxista. Sem citar
explicitamente a teoria stalinista do socialismo em um só país, tece críticas à tentativa de
isolar as contestações locais ao status quo da dinâmica internacional, para Marcuse a teoria
marxista não pode restringir sua análise a um contexto social específico, mas deve contemplar
a totalidade capitalista em sua dimensão internacional, ou seja, “o conceito marxista de
passagem do capitalismo ao socialismo só pode ser discutido de uma maneira significativa tão
somente no interior da moldura internacional global, na qual o sistema capitalista avançado
opera efetivamente” (MARCUSE, 1972, p. 195). Abstrair do caráter internacional do
capitalismo é um equívoco teórico e prático, afinal a experiência histórica demonstra que
todas as revoluções (ou tentativas de revolução) enfrentaram a hostilidade internacional da
burguesia, desde o cordão sanitário imposto a recém-fundada União soviética até o bloqueio
econômico a Cuba (esses são exemplos de intervenções imperialistas não militares,
diferentemente do que ocorreu no Vietnã onde o imperialismo interviu diretamente). Em
síntese, se a classe dominante se organiza internacionalmente para conter as perspectivas de
emancipação, a classe dominada também deve organizar sua oposição e contestação ao
capitalismo internacionalmente. Assim é correto o prognóstico marxista de que é impossível
socialismo em um só país21.
A teoria marxista considera indispensável para o sucesso da revolução socialista a
internacionalização da contestação do mesmo modo que a contenção a oposição se organiza
internacionalmente, assim, no contexto atual “o que ocorre na África ou na Ásia não é exterior
ao sistema, mas se tornou parte integrante do próprio sistema” (MARCUSE, 1972, p. 202). O
21
“Para Lênin, tanto quanto para Marx e Engels, a revolução socialista, por essência, é mundial, mesmo que a
tomada do poder pela classe operária não possa se realizar simultaneamente em todos os países, nem mesmo
em vários ao mesmo tempo, salvo raras conjunturas. Esse caráter mundial da revolução socialista, em Marx,
deriva da própria natureza das forças produtivas, em virtude da qual o capitalismo é um sistema mundial, um
mecanismo econômico que tende a integrar a sociedade humana em escala planetária. Em última instância,
produto do trânsito em um nível mais alto das forças produtivas, o socialismo não pode adquirir existência real,
com maior razão que o capitalismo, senão como sistema mundial” (grifo nosso) (CLADÍN: A crise do
movimento comunista, pág. 63-64).

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SOCIEDADE INDUSTRIAL AVANÇADA E A ATUALIDADE DA
TEORIA MARXISTA DE HERBERT MARCUSE

que acontece nas sociedades atrasadas ou em desenvolvimento tem impacto “histórico-


mundial” (para dizermos como Hegel): o que levaria os Estados Unidos e os seus poderosos
aliados a invadirem sociedades atrasadas e pauperizadas na África e na Ásia? Qual a
importância do Vietnã para a burguesia internacional? O mesmo questionamento é válido para
o Afeganistão, Iraque, Cuba, Nicarágua, etc. Segundo Marcuse as “guerras de libertação
nacional” que se desdobraram e se desdobram nessas sociedades pobres e subdesenvolvidas é
uma ameaça econômica e política ao capitalismo internacional, primeiro porque “combatendo
contra as guerras de libertação, a sociedade do bem-estar combate pelo seu futuro, pelo seu
potencial de matérias-primas, pelo trabalho a baixo custo e pelos seus investimentos”
(MARCUSE, 1972, p. 202). E o impacto político de uma revolução (mesmo que nacionalista)
bem sucedida, apesar da ameaça da máquina de guerra do capital, é tremendo, um prejuízo
nos interesses das classes dominantes, pois quando Cuba fez a revolução ou o Vietnã venceu a
guerra desigual serviram de exemplos as classes dominadas das demais sociedades
subdesenvolvidas, foram de fato um “mau exemplo” internacional, “um triunfo do movimento
de libertação nacional pode ser também o sinal para o início de movimentos similares em
outras zonas do mundo” (MARCUSE, 1972, p. 202). Desse modo, para Marcuse, a luta da
classe dominada contra a classe dominante deve se organizar internacionalmente para que a
luta dos trabalhadores tenha êxito. Como bem disse Lênin, arguto avaliador da conjuntura
política e da luta de classes, “nossos procedimentos táticos e estratégicos estão ainda
atrasados (julgados à escala internacional) diante da magnífica estratégia da burguesia, que
aprendeu com o exemplo da Rússia e não se deixará pegar de surpresa (grifo nosso)”22. Essa
insistência de Marcuse no caráter internacional da luta de classes e da revolução contrasta
com a defesa pós-moderna da luta por resistências localizadas (o chamado devir menor de
Deleuze).

Para finalizar gostaríamos de tematizar dois pontos que não podem ser negligenciados,
mas que por questão de tempo não poderemos abordar em detalhes, a saber, a necessidade de
redefinir o conceito de progresso e a relação do intelectual com a luta de classes.
Em Eros e Civilização Marcuse propõe uma redefinição de progresso, pois segundo o
mesmo a noção de progresso (predominantemente burguesa) que estava contida tanto no
liberalismo clássico quanto na teoria marxista estava ultrapassada. Ambas as teorias, apesar

22
LÊNIN apud CLAUDIN, 2013, pág. 147.

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AQUINO, J. K. S.

de divergentes politicamente, entendiam que o progresso exigia o desenvolvimento das forças


produtivas e o aumento da produção, isso criou certo fetichismo da produção pela produção,
de modo que o stakhanovismo soviético seria um resultado prático de certa idealização do
progresso como aumento ininterrupto da produção contida na teoria marxista. Segundo a
leitura de Marcuse, Marx atribuía a miséria do proletariado tanto à exploração social por parte
da burguesia, quanto ao uso irracional das forças produtivas no capitalismo, avaliava que o
primeiro passo da revolução socialista deveria ser “libertar” as forças produtivas das
limitações que o modo de produção capitalista impunha, pois o aumento da produção era para
Marx o pré-requisito do socialismo23, pois sem riqueza a ser socializada a revolução tendia a
tornar-se inviável e, segundo Marcuse, essa tese marxista (e hegeliana) permanece válida: o
progresso qualitativo pressupõe o progresso quantitativo24. Porém, nem Marx nem Engels
poderiam ter previsto o progresso técnico e científico descomunal do capitalismo, assim como
não eram capazes de prever os altos níveis de produtividade das sociedades industriais
avançadas. Hoje a revolução exigiria uma redefinição de progresso e uma paralisação nessa
produção desenfreada, pois nas sociedades de capitalismo tardio (Europa Ocidental, EUA e
Japão) o progresso quantitativo já é mais que o suficiente, a revolução hoje seria para
possibilitar o progresso humano e redefinir a produção e as necessidades humanas, diz
Marcuse,
Na época de Marx, essa visão era efetivamente prematura e pouco realista,
razão pela qual seu conceito básico para a transição ao socialismo continuou
a ser aquele desenvolvimento e racionalização das forças produtivas; a
libertação dela das forças repressivas e destrutivas devia ser a primeira tarefa
do socialismo (MARCUSE, 1972, p. 199).
Para Marcuse nem toda produção implica progresso ou geração de riqueza, se
aceitarmos a tese de Marcuse que apenas o progresso técnico que preserva e promove a vida é
racional e por isso bom e necessário, a produção de armamentos (segundo Mandel a indústria

23
Essa necessidade do progresso nas forças produtivas como condição para o socialismo fez com que Marx
identificasse na colonização britânica da Índia um fator progressivo. Para Marx a colonização britânica apesar da
violência do colonizador, do seu caráter predatório e xenofóbico libertou as forças produtivas na Índia do modo
de produção asiático e modernizou a sociedade indiana, de modo que “senão, quaisquer que fossem os crimes da
Inglaterra, ela foi um instrumento da História ao provocar esta revolução” (MARX:
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ma000035.pdf). Para maiores detalhes o excelente texto do
professor Jadir Antunes Marx e a questão da dominação britânica na Índia
(https://jadirantunes.files.wordpress.com/2014/12/marx-e-a-questc3a3o-da-dominac3a7c3a3o-britc3a2nica-na-
c3adndia.pdf).
24
Para a teoria marxista clássica o desenvolvimento das forças produtivas é que garantiria as condições objetivas
para a o socialismo, por isso que nas sociedades atrasadas em que ocorreram revoluções autointituladas
socialistas no século XX havia uma ênfase na industrialização e no aumento da produtividade, pois na
perspectiva clássica do marxismo “a passagem do capitalismo ao socialismo seria inicialmente uma modificação
quantitativa, uma produtividade maior. Então, a transformação da quantidade em qualidade, a negação
determinada, deveria ser a reestruturação do aparato produtivo, orientando-o para o desenvolvimento integral e
para a satisfação das exigências e capacidades humanas” (MARCUSE, 1972, p. 199).

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Anais
II Encontro Nacional Herbert Marcuse
Contenção, Contestação e Perspectivas de Emancipação

mais lucrativa do capitalismo tardio25) é totalmente irracional e desnecessária e antes de ser


progressiva, seria na verdade um retrocesso: estaria conduzindo a civilização a barbárie, mas
uma barbárie tecnológica e sofisticada, onde as degolas e decapitações seriam substituídas por
napalm e câmaras de gás.
Para finalizar gostaríamos de tematizar um tema sempre retomado por Marcuse, a
saber, a questão do intelectual de esquerda. Assim como em O Homem Unidimensional e em
diversos textos menores, em A Obsolescência do Marxismo Marcuse também reafirma a
importância política do intelectual de esquerda. Para Marcuse o intelectual tem a tarefa
política de esclarecer a classe trabalhadora sem, no entanto substituí-la. Segundo o mesmo
“no nível em que a consciência crítica foi absorvida e coordenada pela sociedade do bem-
estar, a libertação das consciências da manipulação e do doutrinamento impostos pelo
capitalismo torna-se uma tarefa primária e requisito essencial” (MARCUSE, 1972, p. 203).
Nas sociedades subdensenvolvidas e nas sociedades em desenvolvimento a vanguarda política
da esquerda tem papel de destaque relevante, pois a miséria e pobreza material atrofia a
sensibilidade e racionalidade da maior parte da classe trabalhadora e uma das formas de
controle da classe dominante é manter na ignorância e na inércia o proletariado. Em estado de
permanente brutalidade, a ignorância é um obstáculo para que a classe dominada participe
ativamente dos movimentos contestatórios26. Nesse contexto Marcuse reafirma a importância
do papel político e social do intelectual orgânico, o esclarecimento político torna-se essencial
no contexto da sociedade da administração total,
e, dado que a repressão foi ampliada e estendida à totalidade da população, a
tarefa do intelectual, a tarefa da educação e da discussão, a tarefa de romper
não apenas o véu tecnológico, mas também todos os demais véus atrás dos
quais operam a dominação e a repressão. Todos esses fatores (...) tornam-se
fatores realmente materiais de transformação radical (MARCUSE, 1972, p.
203).
Essa é a responsabilidade da teoria, seja científica ou filosófica, contribuir com o que
pode com a luta dos oprimidos, contribuir com o esforço do proletariado na realização da
emancipação humana, contribuir com a conservação e promoção da vida boa, da vida feliz. A
função da teoria (cumprida pela teoria marxista) é erótica: preservar e promover a vida. Nesse
sentido a teoria marxista nem só não está obsoleta como permanece como bússola teórica da
25
MANDEL: O Capitalismo Tardio.
26
MARCUSE: 1972, pág. 203. O Jovem Marx nos Manuscritos de Paris já nos alertava para a insensibilidade
do trabalhador assalariado que forçado a realizar jornadas de trabalho extenuantes tem pouco ou nenhum tempo
para desenvolver suas faculdades inteligíveis e sensitivas, torna-se de fato um ser humano insensível, rude,
grosseiro, mesmo desumanizado, cito, “o sentido preso na necessidade prática rude tem também somente um
sentido tacanho. (...). O homem necessitado, cheio de preocupações, não tem nenhum sentido para o espetáculo
mais belo” (MARX: 2015, pág. 352). Marcuse em diversos escritos irá alertar para a necessidade de uma nova
sensibilidade, por uma nova forma de sentir e experimentar o mundo.

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TEORIA MARXISTA DE HERBERT MARCUSE

prática emancipatória, de uma prática que pretende contribuir para a vitória de Eros, da pulsão
de vida, sobre a morte, pois racional é quando a preservação e promoção da vida supera a
degradação e destruição da vida.

Referências Bibliográficas

CLAUDIN, Ferdnand. A Crise do movimento comunista. Tradução de José Paulo Netto.2°


Edição. São Paulo: Expressão Popular, 2013.
MARCUSE, Herbert. A obsolescência do marxismo. In:. ADORNO, MARCUSE,
HUBERMAN et alii. As opções da esquerda. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972.
MARCUSE, Herbert. A Esquerda sob a contra revolução. In:. Contra Revolução e Revolta.
Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973.
MARCUSE, Herbert. O Homem Unidimensional: Estudos da Ideologia da Sociedade
Industrial avançada. Tradução de Robespierre Oliveira, Deborah Christina Antunes e Rafael
Cordeiro Silva. São Paulo: EDIPRO, 2015.
MARCUSE, Herbert. Conversando com Marcuse. In:. Perfiles sociales e politicos
(Habermas). Vérsion castellana de Manuel Jimenes Redondo. Madrid: Taurus Ediciones,
1975.
MARX, Karl. Capítulo VI (inédito). São Paulo: Ciências Humanas, 1978.
MARX, Karl. Manuscritos Econômicos filosóficos. Tradução de José Paulo Netto e Maria
Antônio Pacheco. 1° Edição. São Paulo: Expressão popular, 2015.
ROSDOLSKY, Roman. Gênese e estrutura de O capital de Karl Marx. Tradução de César
Benjamin. Rio de Janeiro: EDUERJ; Rio de Janeiro: Contraponto, 2001.
SANTOS, Vinícius Oliveira. Trabalho imaterial e teoria do valor em Marx. São Paulo:
Expressão Popular, 2013.

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