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Sociologia: Aspectos

Iniciais
Material Teórico
Karl Marx

Responsável pelo Conteúdo:


Profa. Dra. Andréa Borelli

Revisão Textual:
Profa. Esp. Vera Lídia Cicaroni
Karl Marx

·· Introdução
·· Anos Iniciais: A Influência de Hegel
·· E Surge o Proletariado
·· O Movimento da História
·· A Questão da Economia: Algumas Observações Sobre O Capital

Nesta unidade, vamos tratar da doutrina desenvolvida pelo pensador alemão


Karl Marx, cuja obra exerce profunda influência nas mais diversas áreas do
conhecimento humano, como economia, filosofia, artes, história, sociologia e
educação.

Para um bom aproveitamento do curso, leia o material teórico atentamente antes de realizar as
atividades. É importante também respeitar os prazos estabelecidos no cronograma.

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Unidade: Karl Marx

Contextualização

Você reconhece este rosto?

(2)(3) Thinkstock/Getty Images


(1)Wolfgang Sauber/Wikimedia Commons;
Este é Karl Heinrich Marx, provavelmente um dos autores mais conhecidos, discutidos e,
mesmo, temidos da história do pensamento humano.
Vamos discutir, nesta unidade, os aspectos centrais de sua obra e, através disso, avaliar a
repercussão de sua obra.

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Introdução

Um dos nomes mais conhecidos e menos entendidos

Thinkstock/Getty Images
do pensamento moderno é o do alemão Karl Marx.
Durante boa parte do século XX, muitas pessoas viviam
em sistemas que se diziam inspirados por princípios do
pensamento de Marx e o restante vivia com medo da
disseminação desses princípios.
Concordando ou discordando de seus postulados, a
maior parte dos cientistas sociais não tem como descartar
a força de seus insights sobre a economia e a vida
intelectual assim como de sua influência em áreas como
filosofia, artes, história.

Biografia
Karl Heinrich Marx nasceu em 5 de maio de 1818 na cidade de
Wikimedia Commons

Trier. Era filho de um advogado bem sucedido, Heinrich Marx,


e de sua esposa Henrietta. O casal tinha uma vida confortável
e defendia visões liberais, mas não radicais, sobre temas como
religião e política.
Marx realizou seus estudos em Bonn e Berlin, onde tomou contato
com os trabalhos de Hegel e Fuerbach.
A morte de seu pai levou-o a procurar uma carreira, já que não
podia mais contar com a ajuda da família.
Com esse objetivo, iniciou seu doutorado em Filosofia, obtendo
Marx e Jenny o título em 1841. Sua tentativa de conseguir um emprego como
professor não se concretizou e ele passou a dedicar-se ao jornalismo.

Em 1843, depois de um curto período trabalhando como editor


Thinkstock/Getty Images

em Cologne, ele mudou-se para Paris e, no mesmo ano, casou-se


com sua namorada de infância, Jenny von Westphalen.
A mudança tornou-se possível porque Karl, nesse momento, já
considerado um escritor promissor, recebeu uma proposta para
se tornar coeditor da publicação “Anais Franco-Alemães”. Além
disso, ele considerava que poderia se expressar mais livremente
na França.
Em 1844, ele iniciou a amizade com Friedrich Engels, que se
Friedrich Engels tornou seu parceiro intelectual mais constante.

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Unidade: Karl Marx

Engels era filho de um rico industrial alemão, que tinha fábricas, inclusive,
em Manchester. Apesar de sua origem, ele circulava nos mesmos círculos
intelectuais de Marx e era considerado um revolucionário socialista. Ainda
Você sabia? nesse ano, iniciaram a produção de um trabalho conjunto, publicado em
1845, chamado “A Sagrada Família”.

O governo da Prússia, enquanto isso, solicitou ao governo francês que controlasse as


atividades dos comunistas prussianos que viviam em Paris e, como resultado, Marx foi expulso
do país. A família mudou-se para Bruxelas, onde viveram por 3 anos.
Nesse período, recebeu a encomenda de um livro que deveria ser uma crítica à política e à
economia de seu tempo. Esse livro deu origem ao mais famoso trabalho do autor: O Capital.
O editor não recebeu o livro na data estipulada e rescindiu o contrato além de exigir o
adiantamento de volta.
As condições financeiras de Marx eram péssimas e a família passou a contar com a ajuda
financeira de Engels. Durante esse período, Marx iniciou o seu trabalho sobre o pensamento
filosófico alemão, que deu origem ao livro A Ideologia Alemã.
Em 1847, Marx viajou a Londres para acompanhar o Congresso da Liga Comunista, que
tinha sido formada recentemente. O grupo solicitou a Marx e Engels que produzissem um texto
que apresentasse, em linhas gerais, os conceitos sobre o comunismo, que foram discutidos no
encontro. No ano seguinte, foi publicado O Manifesto do Partido Comunista.
Os movimentos de 1848 mudaram a situação política da Europa.
Diante dessa nova situação, Marx retornou a Paris e seguiu para a cidade de Colônia, onde
iniciou um jornal radical, o New Rhenish Gazette. O jornal floresceu por um curto período e seu
declínio levou a família a partir para o exílio novamente, desta vez em Londres.
Esses primeiros anos em Londres foram marcados por uma situação financeira precária e
somente a generosidade de Engels impediu que chegassem à miséria. Em 1852, a situação da
família melhorou, pois Marx conseguiu um lugar como colunista no jornal New York Tribune.
Nos dez anos seguintes, o jornal publicou artigos semanais do autor.
Em 1867, Marx finalmente publicou o primeiro volume de O Capital, que teve uma recepção
morna, apesar de todas as críticas positivas que recebeu. O livro que trouxe fama a Marx, entretanto,
foi publicado em 1871: A Guerra Civil na França, que era endereçado à Comuna de Paris.
Em 1871, o segundo volume de O Capital foi publicado e, finalmente, as ideias de Marx
começaram a se espelhar pela Europa.
As polêmicas sobre seu trabalho e os caminhos que o movimento comunista estava trilhando
marcaram seu interesse nos anos posteriores.
Nesses anos, a vida de Marx foi marcada por momentos de profunda tristeza, como a morte
de sua esposa e de sua filha Jenny.
Em 14 de março de 1883, Marx morreu depois de desenvolver uma série de problemas respiratórios.

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Anos Iniciais: A Influência de Hegel

Um dos pontos centrais para iniciarmos nossa discussão sobre

Wikimedia Commons
Marx é determinar a influência da filosofia de Georg Hegel.
Em Fenomenologia do Espírito, Hegel propunha que o Espírito
era formado de forma dialética. A noção de dialética é um
termo/conceito sempre associado a Marx, mas que nasceu de sua
leitura de Hegel.
Segundo Hegel, o desenvolvimento do Espírito acontece quando
ele vence a contradição ou oposição presente em uma determinada
realidade histórica. Georg Hegel

O Espírito, como definido por ele, é universal e, geralmente, os indivíduos não percebem que
fazem parte dele. Segundo Hegel, eles são “alienados” de si mesmos, ou seja, as pessoas consideram
outras pessoas como diferentes delas, quando, na verdade, são partes do mesmo todo.
O desenvolvimento dialético do Espírito indica o progresso em direção à liberdade1.
Em suas palavras: a história do mundo nada mais é que o progresso da consciência da liberdade.
A leitura das obras de Hegel gerou muitas polêmicas e interpretações, entre as quais a do
grupo chamado de “Jovens Hegelianos”, formado por intelectuais como Ludwig Feuerbach e
Bruno Bauer. Esse grupo propunha a apropriação do método dialético proposto por Hegel, mas
rejeitava suas conclusões.
Nesse ambiente, o trabalho de Ludwig Feuerbach foi o que mais chamou a atenção de Marx.
Entre os trabalhos desse autor, o livro Teses Preliminares para a Reforma da Filosofia foi o que
teve o maior impacto sobre a formação intelectual de Marx.
Nesse texto, Feuerbach continua sua tentativa de reformar o sistema construído por Hegel.
Segundo Feuerbach, Hegel considera que o Espírito é a força que movimenta a história e, como
consequência, os seres humanos são manifestações do Espírito. Essa premissa, para Feuerbach,
coloca a essência humana fora do indivíduo e essa noção provocaria a alienação do indivíduo.
Para ele, a filosofia deveria direcionar suas perguntas iniciais ao mundo material, portanto a
existência precede o pensamento.
Feuerbach coloca o homem no centro de sua filosofia!
A perspectiva de Marx acompanha Feuerbach na sua reinterpretação de Hegel e foca sua
análise no ser humano, contudo o centro de suas preocupações está na análise dos aspectos
mentais, como sua consciência. Por volta de 1843, a perspectiva de Marx começou a
mudar,quando ele analisou dois trabalhos de Bruno Bauer sobre os direitos civis e políticos dos
judeus. Nesses textos, ele postula que a vida econômica, e não a religiosa, deve ser considerada
como a principal forma de alienação humana.
A partir desse momento, Marx passou a insistir que o “dinheiro” é a principal barreira para a
liberdade do ser humano e essa constatação levou-o ao campo das análises econômicas.

1 Hegel, G.W.F. Introdução à história da filosofia. Lisboa: Edições,1991. p. 90

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Unidade: Karl Marx

E Surge o Proletariado

Em 1844, Marx publicou um artigo em que iniciava uma crítica ampla ao livro Princípios da
Filosofia do Direito, de Hegel.
A introdução desse trabalho, publicada nos Anais Franco-Alemães, e o texto “Sobre a
questão judaica”, de 1843, formam um momento intelectual central no pensamento do autor: a
centralidade da vida econômica e o papel central dos trabalhadores na libertação da humanidade.
No entanto, a crítica e a teoria filosófica, somente, não são capazes de mudar a condição
humana, pois é necessário que uma força prática seja direcionada a isso e essa força vem
da classe operária. O proletariado, informado pela filosofia radical, vai completar o processo
dialético em que os seres humanos foram criados, alienados de si mesmos, tornando-se escravos
dessa alienação.

Os proletários não possuem mais nada que não

Charles Chaplin, Tempos Modernos, 1936.


seja sua condição de seres humanos e, por isso, para
se libertarem, devem libertar toda a humanidade.
O proletariado seria o responsável por isso
exatamente por ser um personagem universal,
que se caracteriza pela total privação, e por não
representar nenhuma classe social, mas sim a
humanidade como um todo.
Para Marx, a total privação e o desespero é que
destruirão a sociedade em que vivemos, portanto
a opressão dentro dessa sociedade vai gerar sua
destruição. Em outras palavras: uma situação
contém em si as raízes de sua destruição final. Charlie Chaplin

Marx cria seu conceito de proletariado como parte integrante de sua filosofia e esta desenvolve-
se sob a influência de seu envolvimento com o movimento operário.
Neste momento, podemos detectar duas ideias centrais do pensamento de Marx: a de que a
economia é a principal forma de alienação humana e a de que os proletários formam o grupo
que vai liberar a humanidade dessa dominação.
Esses conceitos já tinham aparecido nos trabalhos de Marx, mas, a partir desse momento,
começam a se transformar na base de uma nova e sistemática visão de mundo, que suplanta o
sistema criado por Hegel e suas transformações.

Em 1844, ele iniciou seu grande estudo de crítica


econômica, que culminou em sua obra mais importante,
Você sabia? O Capital, publicado em 1867.

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Marx iniciou suas reflexões pelo estudo de autores clássicos da economia política, como
Adam Smith. Sua crítica a esses pensadores, segundo Geoffrey Pilling2 , pode ser percebida em
todo o seu texto e centra-se na sua percepção de que esses autores utilizam conceitos de forma
acrítica, sem observar sua historicidade. Nesse sentido, Pilling cita o próprio Marx:

Economistas consideram as relações de produção burguesa, a


divisão do trabalho, crédito, dinheiro, etc., como fixas, imutável,
categorias eternas [...] Os economistas explicam como a produção
tem lugar nas relações acima mencionadas, mas o que eles não
explicam é como estas relações em si são produzidas, que é o
movimento histórico que lhes deu origem. [...] estas categorias são
tão pouco eternas quanto as relações que exprimem. São produtos
históricos e transitórios3.

Outra conclusão que Marx constrói com base nesses autores é a de que os trabalhadores
também se tornaram alvo, como qualquer produto, das chamadas leis da oferta e da procura,
ou seja, quando o número de trabalhadores é maior que o de postos de trabalho, os salários
tornam-se menores e reduzem essas pessoas à miséria.
Outro ponto construído a partir dessa crítica é o de que os capitalistas constroem sua riqueza
através da riqueza produzida por seus trabalhadores. Isso acontece porque eles detêm parte do
valor produzido pelo trabalho das pessoas.
Esse capital, utilizado para a construção de novas fábricas e máquinas, amplia a divisão do
trabalho e a competição entre os trabalhadores. Ao longo de suas reflexões, Marx observa que
a maior parte das pessoas ficou reduzida ao que ele chama de trabalho abstrato. Ele entende
trabalho abstrato como a atividade realizada para a obtenção de um salário e não para atender
a uma necessidade do produtor e esta seria a característica da realidade em que vivemos.
Segundo o próprio Marx:

A exteriorização do trabalhador em seu produto não significa apenas


que seu trabalho se torna um objeto, uma existência externa, mas
também que existe fora dele, de forma independente, alienígena,
um poder autônomo, em oposição a ele. A vida que ele deu ao
objeto o confronta como hostil e estranho4.

Segundo Marx, o trabalho, no sentido de atividade produtiva livre, é a essência da vida


humana, e qualquer coisa produzida nesse contexto é, por conseguinte, a essência da vida
humana feita em um objeto físico.
Esses objetos deveriam pertencer ao seu produtor para fazer com eles aquilo que achasse
melhor, contudo, no mundo capitalista, os trabalhadores criam objetos sobre os quais eles não
têm controle e, portanto, estão alienados de sua própria humanidade:

2 PILLING, Geoffrey. Marx’s Capital, Philosophy and Political Economy: Londres: Routledge & Keagan Paul, 1980.
3 MARX, Karl. Capital, Philosophy and Political Economy: Londres: Routledge & Keagan Paul, 1980.
4 SINGER, Peter. Marx: a very short introduction. Londres: Oxford University Press, 1980

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Unidade: Karl Marx

O trabalho alienado: (1) aliena a natureza do homem; e (2) aliena o


homem de si mesmo, de sua própria função ativa, de sua atividade
de vida; por isso afasta-o das espécies5.

Esse processo de alienação de sua essência humana também aliena os homens de si mesmos,
ou seja, os outros passam a ser vistos como hostis e inimigos. Nesse contexto, os homens
passam a ver os outros como instrumentos para conquistar seus próprios interesses, ignorando
a condição humana que une a todos.
Segundo Marx, essa situação somente se resolveria pela abolição do trabalho alienado e da
propriedade privada.

5 MARX, Karl. Manuscritos econômicos e filosóficos. São Paulo: Boitempo. 2008. p.84

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O Movimento da História

A concepção materialista da História está entre as contribuições mais significativas do


pensamento de Marx e já aparece, ainda que de forma embrionária, no livro A Sagrada Família
e, de forma mais consistente, no livro A Ideologia Alemã, escrito em parceria com Engels. Essa
concepção pode ser condensada nesta ideia presente na famosa passagem: “A consciência não
determina a vida, mas a vida determina a consciência.”
Segundo Peter Singer, esse conceito pode ser definido da seguinte forma: a concepção
materialista da história é a teoria que considera que, na história do mundo, a atividade humana
concreta, e não o pensamento, desempenha o papel central6.
Esse conceito permite considerar que, para Marx, os seres humanos não podem ser livres se
estão sujeitos a forças externas que determinam seu pensamento, suas ideias, sua natureza e
que não podemos controlar.
Outro ponto a destacar é o conceito de que essas forças são fruto de relações humanas
concretas e que podem ser alteradas.

No prefácio a Contribuição à crítica da economia política, Marx declara:

[...] na produção social da sua própria existência, os homens


entram em relações determinadas, indispensáveis, independentes
de sua vontade; essas relações de produção correspondem a um
grau determinado do desenvolvimento de suas forças produtivas
materiais. O conjunto dessas relações constitui a estrutura econômica
da sociedade, a base real sob a qual se eleva uma superestrutura
jurídica e política [...]7

Considerando essas características, é importante observar como Marx percebe o movimento


da história.
Vamos começar discutindo um termo muito presente em sua obra: forças produtivas. As
forças produtivas forjam as relações de produção e essas relações formam a estrutura econômica
da sociedade. A estrutura econômica, por sua vez, gera o que Marx chama de superestrutura.
Segundo Cohen8, as forças produtivas podem ser entendidas da seguinte forma:

6 SINGER, Peter. Marx: a very short introduction. Londres: Oxford University Press, 1980, p.57
7 COHEN, Gerald. Forças produtivas e relações de produção. Revista Crítica Marxista. Campinas: Ed. da UNICAMP, n.31, p.63-82, 2010
8 COHEN, Gerald. Forças produtivas e relações de produção. Revista Crítica Marxista. Campinas: Ed. da UNICAMP, n.31, p.63-82, 2010

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Unidade: Karl Marx

As forças produtivas são os recursos materiais e os meios utilizados no processo produtivo. Os


meios de produção são os recursos físicos, como matéria-prima, ferramentas, máquinas, espaço
físico, etc., e a força de trabalho é representada pela força física da produção e pelas habilidades
técnicas envolvidas no processo de transformação.
As forças de produção determinam as relações de produção. As relações de produção são as
relações entre os indivíduos - como no caso em que “o João emprega Antônio” - e as relações
entre os indivíduos e as coisas – como, por exemplo, as relações entre o tecelão e o tear.
Marx destaca o poder da dimensão concreta nos caminhos da humanidade, contudo é
necessário destacar que sua visão sobre esse processo não é determinista.
Isso fica especialmente claro em suas obras históricas, como O 18 de Brumário de Luiz
Bonaparte, onde se encontra:

Os homens fazem a sua própria História, mas não fazem como


gostariam; eles não a fazem dentro das circunstâncias escolhidas
por eles mesmo, mas de acordo com as circunstâncias encontradas,
dadas e transmitidas pelo passado9

Depois da morte de Marx, Engels negou que ele tivesse afirmado que a economia é o único
elemento que determina o movimento da História, afirmando que Marx sempre destacou a
relação entre a economia e as outras estruturas da sociedade.
Isso acontece porque Marx vê a sociedade como totalidade em que todos os elementos estão
conectados. A vida produtiva dos seres humanos, e não as ideias ou o espírito, como pensava
Hegel, é que são, em última análise, reais.
O desenvolvimento das forças produtivas e o desenvolvimento das capacidades humanas,
no seu sentido mais amplo, são os objetivos da História para ele.

9 SINGER, Peter. Marx: a very short introduction. Londres: Oxford University Press, 1980, p.50.

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A Questão da Economia: Algumas Observações Sobre O Capital

O Capital é, provavelmente, a obra-prima e o texto mais conhecido de Karl Marx.


Ele finalizou e participou da publicação do primeiro volume do trabalho. O segundo e o terceiro
volumes foram publicados sobre os cuidados de Engels, e o quarto, sob a direção de Kautsky.
Ao longo de suas reflexões, Marx afirmou que o capitalismo era um sistema econômico que
criava uma forma de vida humana alienada.

Nesse sistema, os proletários precisam vender sua força de


trabalho aos capitalistas para sobreviver, e os capitalistas
enriquecem explorando o trabalho dessas pessoas, através
Você sabia? da exploração do valor produzido pelo trabalho delas.

Essa situação leva os indivíduos a condições degradantes e cria uma massa de despossuídos
que levará à destruição do sistema.
Nesse sentido, como observado por Peter Singer, Marx considera que a importância das
análises da esfera econômica está na visão que nos permite ter da construção do processo de
alienação e nos caminhos que apontam para o final dessa situação.
Sua análise inicia-se pela questão do trabalho. Marx considera que a atividade produtiva
define a vida humana, contudo, no mundo capitalista, o trabalho transforma-se em uma
mercadoria, que o indivíduo entende como um meio de garantir sua subsistência e não como o
elemento definidor de sua condição humana.
O trabalho, nesse contexto, é uma mercadoria como outra qualquer e seu valor varia com a
relação entre oferta e demanda.
Nesse sentido, como observou Engels em texto publicado em 1891:

A força de trabalho é, na sociedade capitalista dos nossos dias, uma


mercadoria como qualquer outra, mas, certamente, uma mercadoria
muito especial. Com efeito, ela tem a propriedade especial de ser
uma força criadora de valor, uma fonte de valor e, principalmente
com um tratamento adequado, uma fonte de mais valor do que ela
própria possui10.

Como observamos com o trabalho, todos os produtos na sociedade capitalista são considerados
mercadorias, portanto agregam dois tipos de valor: o valor de uso e o valor de troca.

10 ENGELS, Friedrich. Introdução ao Capital – Edição de 1889. Disponível em http://www.marxists.org/portugues/marx/1849/04/05.htm

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Unidade: Karl Marx

O crescimento do capital acumulado somente acontece com a contenção dos salários e isso
amplia a oposição entre burgueses e proletários e aprofunda a exploração/dominação de um
grupo sobre outro. Essa dominação torna-se ainda mais evidente com a questão da divisão do
trabalho, que leva os indivíduos a se especializarem em partes específicas da produção.

Assim, a divisão do trabalho:


1) aumenta a produtividade devido ao processo de especialização;
2) simplifica o “ato de trabalhar”, eliminando as habilidades especiais e tornando o trabalho
monótono e repetitivo;
3) diminui o espaço dos pequenos capitalistas, que não têm como competir com as novas
formas de produzir;
4) aumenta a escala de produção, e a necessidade de novos mercados se apresenta. Isso
leva a uma crise de produção que será, inicialmente, resolvida pela procura de novos
consumidores, contudo a situação está fadada a gerar uma crise definitiva para o sistema.

As mercadorias, que são produtos da ação humana, passam a ser percebidas como
independentes dos seres que a produzem. Isso acontece porque os trabalhadores deixam de
produzir para atender às suas necessidades e passam a fazê-lo para obter um salário a ser
utilizado na compra de outras mercadorias.
O objetivo de O Capital é revelar como isso acontece, ou seja, como os processos de
alienação e de dominação ocorrem. O primeiro volume, com destaque aos capítulos sobre a
vida do trabalhador, mostra como a situação se torna cada vez mais desesperadora e, em algum
momento, a massa de explorados expropriará os exploradores.
O segundo volume é uma discussão técnica sobre as origens das crises econômicas. Já, no
terceiro, Marx procura reforçar que o capitalismo não é uma condição permanente da sociedade.

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Material Complementar

Sugestões para aprofundar seus estudos:


Vídeo:
“Clássicos da Sociologia – Karl Marx”
http://youtu.be/I2AZAbg1rLw

Site:

http://www.marxists.org

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Unidade: Karl Marx

Referências

COHEN, Gerald. Forças produtivas e relações de produção. Revista Crítica Marxista.


Campinas: Ed. da UNICAMP, n.31, p.63-82, 2010

MARX, Karl. Capital, Philosophy and Political Economy. Londres: Routledge & Keagan
Paul, 1980.

MARX, Karl. Manuscritos econômicos e filosóficos. São Paulo: Boitempo. 2008.

SINGER, Peter. Marx: a very short introduction. Londres: Oxford University Press, 1980.

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Anotações

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