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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES


DISCIPLINA: Educação e Movimentos Sociais
PROF. DR. Jose Vaz Magalhaes Neto

Alunos: Isaque da Silva Moraes


Matheus Pereira de Freitas

CARTA AOS DIRIGENTES EDUCACIONAIS BRASILEIROS

João Pessoa, 2020


Caros representantes governamentais,

Como futuros professores, acreditamos na importância de compreender o


contexto social em que nossos alunos estão inseridos e, principalmente, atentar para as
questões estruturantes que permeiam a nossa sociedade. No Brasil, são diversas as
problemáticas que enfrentamos diariamente, no entanto, nesta carta, direcionamos o
nosso olhar para o racismo que perpassa a conjuntura atual. Para tanto, devemos
conhecer a história e perceber a luta que o movimento negro enfrenta desde a abolição
da escravatura para dar voz aos seus. Diante disso, afirmamos a importância de
conhecer a sua história, pois aquele que não a conhece, está fadado a repeti-la.
Tendo em vista que a abolição ocorreu no ano de 1888, discorreremos sobre
alguns apontamentos históricos relacionados ao movimento negro posteriormente. A
primeira fase desse movimento é estabelecida, historicamente, entre 1889 e 1937,
período que se desdobra da Primeira República ao Estado Novo. A população negra
após a abolição foi marginalizada pelos regimes governamentais da época, levando em
consideração que não houve nenhum tipo de auxílio para inserção social desses
indivíduos. Desse modo, diversos grupos foram criados pelos ex-escravos, como
maneira de demonstrar força e resistência. Dentre eles, podemos destacar o Clube 28 de
Setembro (1897), o Centro Literário dos Homens de Cor (1903) e a Associação
Brasileira dos Homens Pretos (1917), todos em São Paulo, mas também existiram
grupos em outros estados como Rio de Janeiro e Santa Catarina. Essas associações eram
de cunho assistencialista, recreativo e/ou cultural. Também evidenciamos a imprensa
negra, que surge para estabelecer um espaço em que as mazelas que aquela população
sofria pudessem ser discutidas, como exemplo podemos mencionar os jornais: O
Exemplo (1892), em Porto Alegre; e Raça (1935), em Uberlândia. Em sua segunda fase,
o movimento negro estava organizado no período da Segunda República à Ditadura
Militar (1945-1964), nessa época de intensa repressão, o movimento sofreu com a
inviabilização de qualquer questionamento. No entanto, isso também fez com que novas
organizações surgissem principalmente a União dos Homens de Cor (UHC) e o Teatro
Experimental do Negro (TEN), que foram crescendo progressivamente e mesmo com a
chegada de seus términos, serviram para estabelecer a organização do movimento.
Nessa etapa, a imprensa negra também foi impulsionada, com os jornais Alvorada
(1945) e Níger (1960), em São Paulo, além de A Voz da Negritude (1952), no Rio de
Janeiro.
Embora a ditadura tenha representado uma derrota, mesmo que temporária, para
esse movimento, em sua terceira fase – que parte da Redemocratização até a República
Nova (1978-2000) – encontrou um novo fôlego, juntamente com a ascensão do
movimento sindical e estudantil. Surgiu, então, o Centro Cultural de Arte Negra (1972),
o Instituto de Pesquisas da Cultura Negra (1976) e o Movimento Negro Unificado
(1978), que reafirmaram a luta do negro contra o racismo. Ademais, várias outras
entidades negras foram surgindo. Destacamos aqui o Movimento Negro Unificado, pois
com ele todos os grupos e organizações anti-racistas se unificaram em escala nacional.
A busca de valorização, espaço e voz, começaram também a permear a educação e a
religião, sempre com o objetivo de mostrar a importância do papel social do negro na
nossa sociedade. Apesar de todo o esforço da população negra ao decorrer da história,
ainda nos deparamos com diversas situações em que o racismo se mostra, pois sabemos
que ele está enraizado.
Diante dessas considerações, torna-se vital entendermos claramente a política de
“ações afirmativas”, nas quais amparam a desigualdade e o preconceito gerado pelo
racismo. Primeiramente, devemos considerar alguns dados extáticos retirados pelo
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) “De 22 milhões de brasileiros que
vivem abaixo da linha de pobreza, 70% são negros. Do total dos universitários, 97% são
brancos, sobre 2% de negros e 1% de descendentes de orientais” (DOMINGUES, 2005,
p.165). Portanto, torna-se evidente a situação de desigualdade racial no país, o cidadão
negro determina suas escolhas à revelia de sua vontade, permanecendo refém de uma
melhora ou reforma educacional e política que nunca chega. Nesse sentido as ações
afirmativas, sobretudo as cotas, permitem uma saída adequada para amenizar a
problematização da desigualdade.
As cotas possuem uma intenção reformista, todavia, antes, mais nada, sua
natureza é democratizante, num país em que, desde seus primórdios, a desigualdade e o
preconceito vetam oportunidades e arruínam vidas, um sistema de cotas revela-se um
dever moral e ético. Em contrapartida, ainda é comum, não apenas em contexto
universitário, mas também nas escolas, presenciarmos críticas desajustadas contra o
programa de cotas. O discurso da meritocracia, além do argumento de que o ingresso de
alunos desfavorecidos pelo ensino e pelo preconceito, podem declinar a qualidade de
ensino, são alguns dos discursos contra a ação afirmativa. Vemos que, nessas falas, há
um claro racismo estrutural, a meritocracia, antes de mais nada, é um discurso
ideológico, não conseguimos delimitar o “esforço” com precisão, além dele mesmo ser
um elemento secundário, de forma alguma ele delimita as verdadeiras dificuldades
psíquicas e físicas que cada sujeito, em seu contexto e individualidade, passam. Quanto
ao discurso da queda do ensino, em primeiro lugar, o vestibular (ENEM) apenas
determina a entrada nas universidades, mas o sucesso na prova, não garantem a
permanência e nem a bom desempenho nos cursos, numa pesquisa feita no campus
principal da UERJ, na qual concentra a maior parte dos cursos, 47% dos estudantes que
entraram sem cotas foram aprovados em todas as disciplinas do primeiro semestre. Em
contrapartida, os alunos que entraram pelas cotas, o resultado fora de 49%
(DOMINGUES, 2005).
Nesse sentido, pedimos não apenas a permanência do sistema de cotas, mais sua
ampliação e aprimoramento, visto que, algumas peculiaridades ainda não são atendidas.
A relação entre os Estados que detêm uma maior população negra, não é agraciada
proporcionalmente em relação aos grandes centros urbanos do país, São Paulo, por
exemplo. As cotas, são as primeiras políticas afirmativas que agraciam a população
negra, um país cujos matizes da escravidão continuam a reverberar nos contextos
sociais e institucionais. Uma reparação é um projeto paliativo, mas que deve ser
administrado da melhor forma possível e de maneira mais compensatória.
As cotas são o reflexo da constante luta dos movimentos sociais negros, tanto a
origem, quanto a permanência dessa ação afirmativa, devem-se aqueles que não aceitam
uma realidade mascarada, preconceito e o racismo estrutural perduram na mente do
brasileiro e de seus órgãos públicos. Os Estados, bem como seus cidadãos, devem estar
cientes do racismo e do preconceito que ainda perdura no Brasil, os movimentos sociais
apontam-nos para a realidade e objetivam um caminho para a ruptura das desigualdades.
Nosso dever é recompensar e acabar com as desigualdades alarmantes em que vários
cidadãos se encontram.

Atenciosamente,
Isaque da Silva Moraes e Matheus Pereira de Freitas
Referências

DOMINGUES, Petrônio. Ações afirmativas para negros no Brasil: o início de uma


reparação histórica. Revista Brasileira de Educação, 2005;