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Morrer ou desencarnar?

Faremos duas perguntas semelhantes na forma, porém diferentes no significado:


1ª. É possível morrer e não desencarnar?
2ª. É possível desencarnar e não morrer?
É comum aos espíritas substituirmos o termo morte por desencarnação, entendendo
que na terminologia espiritista os dois vocábulos são sinônimos. Interpreta-se, assim,
que o termo desencarnação pode ser usado livremente para traduzir o conceito
de morte. Mas, ao estudarmos mais profundamente o assunto, podemos perceber
diferenças entre os dois termos.
A morte significa extinção da vida física, cessação completa e definitiva da vida
orgânica.
A desencarnação, por outro lado, refere-se à libertação espiritual, ao desprendimento
do Espírito das coisas terrenas, sejam físicas, emocionais ou psicológicas.
Então, após essas reflexões, chegamos à seguinte conclusão:
se o corpo do indivíduo morre, porque se extinguiu o fluido vital relativo à quota de
existência orgânica para aquela vida material, o caminho natural é de que ele em
essência, o Espírito, que já não mais continuará com aquela vida física, também
pudesse se libertar em definitivo das questões materiais. Deveria
igualmente desencarnar. Mas, não é assim que ocorre na prática. Pelo contrário.
Morrer e não desencarnar é muito mais comum do que poderíamos imaginar à
primeira vista. Existem os que permanecem apegados a questões materiais, presos a
preocupações cotidianas, sentimentais e materiais.
Porém, não há como desencarnar sem morrer. É a morte do corpo físico que provoca
o afastamento do Espírito e não o contrário. A desencarnação implica no
desprendimento completo da vestimenta que o indivíduo ocupava para o desempenho
de suas funções na existência carnal (o corpo).
Então, consideramos: é possível morrer sem desencarnar; mas não é possível
desencarnar sem morrer.

E como entender o desencarne?

De acordo com O Livro dos Espíritos, na questão 150, a alma apenas leva deste
mundo "Nada mais do que a lembrança e o desejo de ir para um mundo melhor. Essa
lembrança é cheia de doçura ou de amargura, segundo o emprego que fez da vida.
Quantos mais pura, mais compreende a futilidade do que deixa sobre a Terra."
Também em O Livro dos Espíritos, questão 155, temos: "(...) a alma se liberta
gradualmente e não escapa como um pássaro cativo que ganha subitamente a
liberdade. (...) o Espírito se liberta pouco a pouco de seus laços: os laços se desatam,
não se quebram."
Em nota para a questão acima, Kardec explica: "A observação prova que no instante
da morte o desligamento do perispírito não se completa subitamente, mas
gradualmente e com uma lentidão que varia muito segundo os indivíduos. Para alguns,
esse desligamento é muito rápido, podendo ocorrer no momento da morte ou algumas
horas após. Para outros, em especial os que suas vidas foram voltadas para o
material, o desligamento é muito menos rápido e dura, algumas vezes, dias, semanas
e mesmo meses, o que não implica existir no corpo a menor vitalidade(...)".
Quanto mais nos apegamos e nos identificamos com a matéria, maior será nosso
sofrimento ao nos separarmos dela. Pior ainda: em alguns casos, a afinidade entre o
espírito e seu corpo carnal é tanta que ele pode experimentar toda a sensação da
decomposição!
A expectativa da morte também pode fazer com que a pessoa perca a consciência
antes do suplício. Frequentemente a alma sente se desatarem os laços que a ligam ao
corpo. Antes mesmo do desligamento, muitas pessoas entram numa fase de transição.
Por exemplo: quantos doentes terminais que, ainda no leito hospitalar, relatam a
aparição de parentes que já morreram, dizem que estes vieram buscá-los e que não
sentem mais temor da morte. Isso acontece geralmente porque os laços energéticos
que o ligam ao corpo já começam a se desatar.
Em O Livro dos Espíritos, questão 160, vemos que, conforme a afeição  entre a
pessoa que desencarna e seus parentes desencarnados, "(...) eles o vêm receber em
sua volta ao mundo dos Espíritos e ajudam  a libertá-la das faixas da matéria;
reencontra, também, a muitos que havia perdido de vista em sua permanência sobre a
Terra. Vê aqueles que estão na erraticidade, aqueles que estão encarnados, e os vai
visitar".
Mas nem todos encontram direto com seus parentes falecidos. Há casos em que,
devido à perturbação espiritual, não há possibilidade do encontro.
É preciso ficar claro que, geralmente, o instante da morte ocorre de forma simultânea
ao da separação da alma. O que ocorre de forma gradativa é o desatamento dos laços
energéticos que ligam a alma ao corpo, tanto nos casos de morte abrupta, quando ela
não resulta da extinção gradual das forças vitais, assim como nos de Espíritos muito
apegados à matéria.

Perturbação Espiritual

A maioria das pessoas, após a morte, passa por um estado de perturbação durante
algum tempo. Devido a essa perturbação pós-morte, muitas não conseguem entender
o que está acontecendo; outras não entendem por ignorância ou por simplesmente
não aceitarem. A compreensão da realidade do mundo espiritual exerce influência
sobre a duração da nossa perturbação após a morte, porém, os espíritos afirmam a
Kardec que a prática do bem e a pureza da consciência são os que exercem maior
influência.
Em O Livro dos Espíritos, questão 165, Kardec nos esclarece: "No momento da morte
tudo, à princípio, é confuso. A alma necessita de algum tempo para se reconhecer. Ela
se acha como aturdida e no estado de um homem que despertando de um sono
profundo procura orientar-se sobre sua situação. A lucidez das ideias e a memória do
passado lhe voltam, à medida que se apaga a influência da matéria da qual se libertou
e se dissipe a espécie de neblina que obscurece seus pensamentos."
Esta perturbação pode durar desde horas, dias... até muitos anos. Existem espíritos
que julgam ainda viver como encarnados e não aceitam que "morreram". Outros
observam o corpo físico ao lado, mas não entendem como podem estar separados
dele. Tentam se comunicar com as pessoas, sem obter resposta, o que aumenta cada
vez mais seu estado de perturbação. Muitos Espíritos que, enquanto encarnados,
acreditavam que a morte era sinônimo de extinção da vida, não entendem como
podem estar " mortos" se ainda falam, ouvem, veem. Nunca ouviram falar de
perispírito e acham que o corpo que possuem ainda é o corpo carnal, que muitas
vezes nem existe mais, já se decompôs. 
E o que acontece com os espíritos que desencarnam em situação de mortes
coletivas? Depende. Cada caso é um caso. A regra geral do desenlace energético
continua valendo em casos de morte coletiva e cada espírito reage de acordo com
seus interesses ou evolução.

Desencarne à luz dos conhecimentos espíritas


Situação bem diversa acontece com o Espírito que durante a existência se deixou
conduzir por uma vida mais simples, sem ganâncias ou ambições exageradas; que
procurou desenvolver virtudes, combatendo imperfeições; que praticou a caridade,
promovendo o bem; que cumpriu os seus deveres familiares, profissionais e sociais.

 A sua desencarnação será mais amena, os sofrimentos e as angústias do período de


transição serão passageiros e breves, a adaptação na nova moradia será tranquila,
sabendo administrar com serenidade a saudade dos entes queridos que permanecem
reencarnados.

 Ajustado à vida no plano espiritual, o Espírito colherá, então, os frutos, bons ou


amargos, do que semeou durante a experiência reencarnatória, se submetendo, no
final das contas, à lei de progresso.
Em O Céu e O Inferno, Segunda Parte – Capítulo I, item 15, temos a seguinte
orientação:
O Espiritismo, certamente, não é indispensável para que se chegue a esse resultado;
por isso não tem a pretensão de ser o meio exclusivo, a garantia única de salvação
para as almas. Contudo, pelos conhecimentos que fornece, pelos sentimentos que
inspira e pelas condições em que coloca o Espírito, fazendo-lhe compreender a
necessidade de melhorar-se, facilita enormemente a salvação. Além disso, ele dá a
cada um os meios de auxiliar o desprendimento dos outros Espíritos no momento de
deixarem o invólucro material, abreviando-lhes a duração da perturbação pela
evocação e pela prece. Pela prece sincera, que é uma magnetização espiritual,
provoca-se a desagregação mais rápida do fluido perispiritual; pela evocação
conduzida com sabedoria e prudência, com palavras de benevolência e conforto,
combate-se o entorpecimento do Espírito, ajudando-o a reconhecer-se mais cedo, e,
se é sofredor, incutindo-lhe o arrependimento, que é o único meio de abreviar seus
sofrimentos.

Qual o procedimento ideal perante a morte de


alguém?
Orar para Deus possa enviar os bons Espíritos para ajudar o indivíduo a compreender,
aceitar e prosseguir na caminhada. Sendo assim, podemos interferir diretamente com
nossas preces, impulsionada pela nossa fé e pelo nosso amor, que funciona como
veículo de comunicação com nosso Pai. Podemos reverte em forma de bênçãos ao
Espírito a qual dirigimos a nossa prece.
Fé e amor: eis a energia pulsante e atuante no universo.
Morrer nem sempre significa desencarnar, mas, em si, representa uma etapa vencida
e uma nova etapa iniciada, assim como nascer ou reencarnar.

Viver e desencarnar...

A lição da morte é a do desprendimento, do desapego, da renúncia. A existência


terrena é valiosa oportunidade de evolução espiritual. E, enquanto aqui estivermos,
devemos cumprir disciplinadamente as etapas a que somos submetidos pela
necessidade de melhoria e evolução.
Viver bem cada dia, fazer sempre o melhor ao nosso alcance, agradecer a Deus a
dádiva da trajetória física, enxergar com “olhos de ver” a Providência Divina e buscar a
sintonia plena com os valores do Bem são algumas das qualidades para que
encontremos a felicidade ainda nessa existência.
E, cumprindo o dever e a rotina, reformando-nos moralmente e nos transformando
intimamente segundo os padrões do Evangelho de Jesus, poderemos ter a segurança
de afirmar: “O Pai pode me chamar assim que O desejar; estou de ‘malas prontas’,
pois, pelo que consta na consciência, minha tarefa está cumprida.”

http://www.febnet.org.br/blog/geral/morrer-ou-desencarnar/
O Livro dos Espíritos, Allan Kardec
O Céu e o Inferno, Allan Kardec (Segunda Parte – Capítulo I)