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Taís Bravo

Houve um ano
chamado 2018

camafeu 5
© Taís Bravo, 2019

Este livro segue as normas do Novo Acordo


Ortográfico da Língua Portuguesa

coleção camafeu

Produção editorial
Fred Spada
Otávio Campos

Projeto gráfico
Fred Spada
Otávio Campos

Revisão
Fred Spada

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

B826h Bravo, Taís, 1990 - .


Houve um ano chamado 2018 /Taís Bravo – Juiz de Fora:
Edições Macondo, 2019.

isbn 978-85-93715-31-0

1. Ensaio I. Título
cdd: B869.4

[2019]
edições macondo
Rua Dom Silvério, 302/302a
Alto dos Passos – Juiz de Fora – mg
36026-450
contato@edicoesmacondo.com.br
www.edicoesmacondo.com.br
houve um ano chamado 2018
para as que perderam
“I am talking here about a time when I began
to doubt the premise of all the stories I had
ever told myself (...)”

Joan Didion

“A dor deriva do fato de que, em volta delas,


simultaneamente, em uma espécie de acronia,
amontoam-se o passado de suas precursoras e
o futuro daquilo que elas procuram ser (...)”

Elena Ferrante
bandeiras vermelhas no bairro da glória

Don’t let the chlorine in your eyes


Blind you to the awful surprise
That’s been waitin’ for you at
The bottom of the bottomless blue, blue, blue pool

the b-52’s, “private idaho”

você dança subindo escadas


no escuro
o céu desaba
sem estardalhaço
chega ao fim
um verão que não foi

você insiste
em dar mergulhos
dentro d’água reconhece
o eletrocardiograma das montanhas
se aproxima da muralha faminta
lambe o sal de cada pedra
batiza a redoma com o gosto do que pode erodir

um álbum branco
um encontro marcado
um boteco na lapa
um aniversário de dez anos
sem conquista alguma
há muito tempo
a cidade desvia do amarelo
em tons de sépia te vejo

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ouvindo todos os gritos que foram nossos
ali

aquele tweet reverbera feito o som da queda


uma árvore centenária como tantas que perdemos
neste mês onde o mormaço é a textura dos eixos
partidos entre o desejo e o que jamais voltaremos a ser

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uma vez ouvi que a queda das torres gêmeas fez com
que muitos casais americanos adiassem seus proces-
sos de separação. Parece que continuar junto se torna
uma tentativa urgente ou os erros são redimensionados
quando atingimos um nível ainda inédito de horror. Ou
que a vulnerabilidade absoluta é o que torna possível
ceder.
Não sei.
Tinha só 11 anos quando um dia cheguei da escola
e encontrei na tv uma imagem estranha. Uma imagem
fora do sentido. O suor colando o uniforme em meu
peito ainda livre de sutiãs, enquanto uma confusão de
fogo, poeira e ferro desabava sem parar. Almocei ten-
tando juntar fragmentos, a voz de uma jornalista dizia
que era algo terrível. A imagem de um avião e depois
outro não cabia em qualquer repertório. Até o final da-
quela semana, no entanto, já sabia o que poderia contar.
O Gugu levava um médium para analisar supostas ima-
gens demoníacas entre as nuvens de fumaça. Meu pai
fazia questão de me explicar o que significa os Estados
Unidos serem uma potência imperialista. O fantástico
se debruçava sobre a dor alheia. Minhas professoras da-
vam respostas vagas. Já se dizia que ali, naquele dia, o
mundo tinha atingido um novo marco; a história, mais
uma vez, se dividia. Estávamos dentro de uma fratura,
encarando o que foi e o que viria a ser. Mas em Inhaúma
a realidade continuava intacta. O casamento dos meus
pais, desequilibrado o bastante para dispensar qualquer
salvação. O calor manchando blusas. O almoço sempre
com a tv ligada. E as mudanças invisíveis como o ritmo
de um corpo.

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aos 13 anos, já usava sutiã e os pelos das pernas ras-
pados. O corpo se desfazia no banheiro do posto de
atendimento da Linha Amarela. Acontecia a primeira
fratura que poderia sentir e contar. No dia seguinte as
pessoas riam porque alguém quase misturou açúcar
com sal. A possibilidade de qualquer risada me parecia
tão difícil de explicar quanto um atentado terrorista.
Por que eles não podiam admitir que nada mais fazia
sentido?

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no dia seguinte vou precisar te mandar uma mensa-
gem. Vou precisar mandar muitas mensagens. A falta
de uma imagem faz minha cabeça simular voltas até
talvez encontrar o alívio de alguma certeza. Mas não sei
como isso aconteceu. Tiraram todas as câmeras da rua.
Nossos desastres têm sido diferentes. Ainda não se sabe
quem matou, quem mandou matar. O acontecimento
persiste fora da forma de um fato. Já são nove meses. Às
vezes cai como uma ficha ou como a queda de uma ár-
vore centenária. Nos acerta e, então, nos deixa. E nunca
vai embora isso que falta. Nos apegamos aos detalhes,
compartilhamos imagens, relatos, prints, nos apegamos
à memória, nos apegamos a algo que possa ser uma
história. Mas, eu admito, todos os dias tenho convivido
com a falta. Vou precisar mandar muitas mensagens.
A tela de um celular nunca foi uma coisa tão perigo-
sa. Vou precisar contar como foi aquele momento. Vou
precisar inventar como foi aquele momento. Nunca vou
me lembrar de como foi aquele momento. Não consigo
esquecer esse momento.

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eu estava
eu estava no brt
eu estava no bar
eu estava comendo arroz e feijão
eu estava saindo do cinema
eu estava chegando em casa
eu estava sem bateria
eu estava ao seu lado
eu estava
quando
quando
quando
quando
quando
quando
quando
quando
quando

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maio de 2018

eu estava no metrô pensando


em como uma pessoa pode ser
arremessada

quando me dei conta


de que já estava quase na minha estação
mas antes da hora de saltar
pude ler a notícia ou a tentativa de notícia

na tv do metrô dizia
a normalidade só retornará dentro de uma semana
quase me esqueço de novo de onde deveria ir
pensando em como
a normalidade só pode estar agora
suspensa

mas talvez não


talvez não seja de agora essa falta de sentido
talvez seja desde sempre e a volta da normalidade seja
[enfim nada
além de um movimento nada além
do fim da possibilidade de não continuar
do fim dos dias em que só foi possível parar
a normalidade que está a caminho
e retorna vem com a calma
de nada estar em falta
desde que se possa pagar
eu estava pensando nisso
quando voltei ao livro

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e me perguntei quanto deve custar arremessar uma
[pessoa
quanta gasolina é necessária para arremessar uma
[pessoa
como se repara o custo de arremessar uma pessoa
e como se calcula o lucro que se tira
das cirurgias
do material das chapas
dos lençóis das camas
e de tudo que não se repõe facilmente
por exemplo a quantidade de sangue perdida

eu estava pensando nisso quando ia atravessar a


[avenida das américas
bem no meio da pista
longe dos sinais
e achei que era melhor avaliar os riscos
e fiquei para trás

enquanto os outros corriam

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o lugar mais perigoso para uma mulher é
sua própria casa

talvez fizesse contas


pensando nos doces que o filho ia pedir
nas coisas que ela mesma ia desejar

talvez olhasse para ele


distraído entre outras crianças
e sentisse paz pelo esquecimento

talvez seu olhar fixo não enxergasse


nada além de um borrão

com a cabeça perdida em outro lugar


talvez os planos fossem de mudança

não se sabe

não era nada


além de uma mulher
quando se tornou
nada
além de uma notícia

me pergunto o que pensava


se não compreendeu
ou se já não tinha dúvidas

não sei

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o que imagino é um gesto
olhos que afiam a história
enquanto se desfaz o que um dia
disseram ser
amor

18
relaxing washing machine sound

acordo e
existo

acordo e
existo com
o turbilhão na cabeça

o ruído é perto de uma máquina

não sei como


se passa isso
que faz o corpo
apagar e
emergir
mas assim que acordo
voltam as engrenagens

não sei de onde vem


a força
obsessiva das ondas
mas já há algum tempo

acordo
e quando acordo
acordo dentro
de uma quebra

yesterday I wake up sucking on a lemon


só que ontem foi hoje e parece ser depois de amanhã
[também

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há um ano entro
no metrô calculo
a temperatura no pulso
hesito assim que a espuma
encosta nos pés dou um passo
para trás atenta ao medo
o medo da sensação de frio
que é sempre maior
o medo é sempre maior
do que o próprio frio
repito protejo
meu ponto fraco ou
mais sensível
fecho os braços ao redor
entro
e espero

quando um trem de faixas verdes chega deixo que


[me leve

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uma mulher mergulha*

para Carol Benjamin

1.

confia na força dos pulmões


mergulha
com os sentidos todos despertos
como uma estranha
notando tudo
em toda parte tudo anda ainda mais
estranho as pessoas sorriem para a
eternidade com as mãos sujas
fazem pose os dentes em contra
dição com os dedos apontam
um futuro trincado
os dentes despertos os dedos cansados o sentido
pergunta
por quanto tempo
até quão fundo
a frequência torna tudo mais difícil
debaixo d’água não se escuta
tão bem é preciso
gritar
para se comunicar
não se consegue mais
viver
sem essa camada entre os corpos
a adaptação passa por pulmões fortes
e tímpanos estourados
mergulha
por quanto tempo?
até quão fundo?

21
2.

os rituais de
entrada
permanência
e saída
da água
fazem parte da rotina
a tradição é um exercício
de expansão torácica
se pratica todos os dias
a adaptação passa
por ter pulmões
fortes e contidos

[a liberdade logo ali num abismo]

mergulha
sem reconhecer
quem era
o que fazia
o que queria
antes

[a liberdade logo ali num abismo]

os rituais de
entrada
permanência
e saída
da água
não deixam dúvidas

não se consegue mais


viver

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sem essa camada
entre
os corpos

ou se
mergulha
seguindo as tradições
ou não se
mergulha

a frequência torna natural


tudo ser tão difícil
mas enquanto mergulha
reconhece

a liberdade
[logo ali num abismo]

3.

se lembra de quando quis


transformar
todos os papéis do mundo
em retratos de mulheres?

4.

os rituais de saída da água são rituais de entrada não


se sai sem algum custo os rituais de saída da água são
sempre rituais de retorno à água os rituais de saída são
rituais de permanência do silêncio estourado tímpanos
cegos de luz trincada de excesso os rituais de saída não
são um despertar não são um recomeço não são uma
quebra os rituais de saída são o vínculo da frequência

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dos pulmões adaptados os rituais de saída um túnel de
duas vias ao fim as pessoas sorriem para a eternidade
já com as mãos limpas os dentes cansados os dedos
trincados reconhece entre os rituais de saída entrada e
permanência
um abismo
só se sai
seguindo as tradições do passado
ou não se sai?

5.

as coisas vão se repetindo


queria que tivesse acontecido
algo
um acidente
uma sensação
o pressentimento de um risco

nada acontece
além do imenso tempo
em que fica
mergulhada

nada acontece
além do imenso tempo
em que fica
fora
da superfície

nada acontece além


da volta com vida direto para o fogo
a volta
gelada surda estourada

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mas ainda quase intacta
morrer o estritamente necessário
leva muito tempo
leva um imenso tempo
aprender a permanecer
debaixo d’água o corpo vai
mudando
ao longo do tempo
até fincar uma nova irreparável
espécie de força torácica
até vingar uma nova irreparável espécie
de força

6.

os mares mudaram muito nos últimos 20 anos


mas não tanto quanto as mulheres.

* Série escrita a partir de entrevistas com a cineasta Cláudia Varejão


sobre o documentário Ama-San.

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esboço de uma ideia ou de um desejo

entre Gloria Anzaldúa e Simone Brantes

no dia 13 de outubro perdi


um 485 e por isso consegui ir
sentada em outro 485 que passou
em seguida por esse golpe de sorte
pude enquanto estava sentada dentro
do 485 digitar em meu celular
o esboço de uma ideia
ou de um desejo

[ou algo que seja o caminho entre ideia


e desejo como acho que podem ser os poemas]

nesse dia queria muito


ter tempo
silêncio
calma
mas também alguma energia
um corpo estável
sem sentir
fome ou calor
em condições favoráveis
à escrita
queria
um corpo que pode escrever
sem ser interrompido
queria e pensava
enquanto um poema continuava
entre o tempo perdido
das esperas

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em pé
dos caminhos
em pé
das distâncias contínuas
de uma rotina
interrompida queria
sentar para poder
escrever mas desde esse dia
tenho pensado em abdicar
da espera ou da ideia de um tempo
em que seja possível se sentar para apenas
escrever um poema
tenho sentido que isso já não é
mais possível
e ainda assim continuamos
de pé

desde esse dia


penso e sinto
que agora é preciso contar com o risco
de ser interrompida
e continuar enquanto se é
interrompida
e escrever enquanto se é
interrompida
e que escrever enquanto sou interrompida
talvez seja a condição
de uma outra forma de escrita

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eu estou com ela

Aquele dia queria te contar essa parte da história. Tem


esse momento em que Lenu decide. Ela resolve que pre-
cisa seguir Lila. Ela se convence de que andar junto com
Lila é a sua saída. Lenu é uma menina que quer algo que
ainda não conhece. Acha que se seguir Lila vai escapar
de ter o mesmo destino que a mãe. Lenu está sozinha
nesse dia. Nesse dia em que os garotos são derrotados,
ela vê em Lila um outro caminho. É quando vai atrás
dela que se depara com a história. Lila está sozinha.
Cercada pelos mesmos garotos que acabou de derro-
tar. Eles lançam as pedras. Lila não é querida nem pe-
los meninos nem pelas meninas. Ela sempre vai longe
demais. Mas são eles que perseguem. Ela revida como
pode. Lenu ainda é só alguém que narra a história. Até
esse momento. A decisão vem como um golpe. Os olhos
cerrados de Lila, os braços firmes de Lila. É a coisa mais
bonita que já viu. É naquele momento, o momento em
que Lenu só queria a beleza de Lila, que algo acontece.
Naquele momento, ela não pode mais ser quem observa
a história, quem tenta entender a história, ela precisa
entrar. Uma pedra cai muito perto. E então já não é mais
possível se esconder. Ela pega a pedra, caminha até ela,
não lança a pedra, entrega nas mãos de Lila, é ela quem
arremessa e acerta. São elas duas. Contra todos. Elas
estão juntas. Algo acontece depois disso. Depois dessa
vitória. Depois dessa pequena vitória. A mesma pedra
que fere um deles acerta a cabeça de Lila. É tudo por
um instante. Lenu tinha tentado ir embora. Mas ficam,
porque Lila não foge, Lila continua. Elas estão juntas.

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Então, não há mais como escapar. A mesma pedra
volta. A mesma pedra atinge a testa de Lila. Ela cai. O
uniforme de Lenu estanca o sangue. Elas estão juntas.
Depois dessa derrota. É que a história começa e Lenu já
não é mais só alguém que narra a história. Alguma coi-
sa acontece porque elas estão juntas. Os limites da his-
tória se borram. Depois dessa derrota, penso que somos
como elas. Somos ao mesmo tempo Lila e Lenu. Sozi-
nhas no front. Somos nós duas revidando as pedras.
Somos todas as que entraram na história para escapar
de um destino. Somos Lenu entregando a pedra. Somos
Lila arremessando a pedra. Somos a pedra, as mãos, o
ímpeto, o desejo, o movimento dos braços, os braços, o
medo. Somos maiores do que o medo. Estamos juntas.
E porque estamos juntas alguma coisa acontece. Entre
os limites borrados. São os nossos corpos a história. E é
essa a parte que ainda quero contar.

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Sumário

Bandeiras vermelhas no bairro da Glória 9

Uma vez ouvi que a queda das torres... 11

Aos 13 anos, já usava sutiã e os pelos... 12

No dia seguinte vou precisar te mandar... 13

eu estava 14

Maio de 2018 15

O lugar mais perigoso para uma mulher é


sua própria casa 17

Relaxing Washing Machine Sound 19

há um ano entro 20

Uma mulher mergulha 21

Esboço de uma ideia ou de um desejo 26

Eu estou com ela 28


Foram impressos 50 exemplares
de Houve um ano chamado 2018
para as Edições Macondo em
Julho de 2019. Uma cópia desta
publicação está disponível em
www.edicoesmacondo.com.br

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