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ESTADO DO RIO DE JANEIRO


PODER JUDICIÁRIO
Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro
Vigésima Sétima Câmara Cível

APELAÇÃO CÍVEL Nº 0107286-39.2017.8.19.0001


APELANTE : RAPHAEL DELMIRO BALTHAZAR
APELADO : ESTADO DO RIO DE JANEIRO
JUIZ SENTENCIANTE: CLAUDIA NASCIMENTO VIEIRA
RELATOR : JDS DES. JOÃO BATISTA DAMASCENO

APELAÇÃO CÍVEL. DIREITO ADMINISTRATIVO.


CONCURSO PÚBLICO.
- Cinge-se a controvérsia quanto ao direito de receber verbas e
efeitos retroativos ao Curso de Formação de Oficiais/2006,
além de danos morais em razão da declaração judicial de
nulidade do ato administrativo de inaptidão no exame
psicotécnico do referido certame, em cujo concurso
subsequente, realizado com as mesmas etapas, o apelante foi
aprovado.
- A análise do acervo documental revela que o apelante
buscou desconstituir o ato de reprovação no exame
psicotécnico nos autos do processo nº 2006.001.075619-0 e
medida cautelar nº 2006.001.031033-2, que tramitaram
perante a 9ª Vara de Fazenda Pública da Comarca da Capital.
O pedido foi julgado parcialmente procedente para anular o
ato de reprovação do Autor no exame psicotécnico. No
entanto, a medida cautelar, cujo objeto era a matrícula do
apelante no Curso de Formação de Oficiais/2006, foi julgada
extinta face à aprovação do apelante em concurso
subsequentemente realizado para Oficial da PM, porque o
juízo considerou que ocorreu a perda superveniente do
interesse de agir quanto a esse pedido.
- Declarada a perda superveniente do interesse processual em
decisão que não foi objeto de impugnação pelas vias próprias,
não há como reconhecer ou afirmar a existência de qualquer
direito retroativo.

HB-B228(2)

Assinado em 20/02/2020 15:59:28


JOAO BATISTA DAMASCENO:16691 Local: GAB. JDS. DES. JOÃO BATISTA DAMASCENO
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- Não restou demonstrado que dos fatos advieram ofensa a
direitos da personalidade. Ademais, a jurisprudência do
Superior Tribunal de Justiça é no sentido de que os candidatos
posteriormente nomeados em concurso público não fazem jus
aos vencimentos e demais vantagens referentes ao período
compreendido entre a data em que deveriam ter sido
nomeados e a efetiva investidura no serviço público, ainda que
a título de indenização, mesmo que a situação seja
reconhecida judicialmente. ReSP 1.519.761- Ministro
Napoleão Nunes Maia Filho – Primeira Turma – 10/12/2019 –
Dje: 12/12/2019. Igual entendimento deve prevalecer para o
caso em que o candidato não é nomeado, a despeito do
reconhecimento judicial da nulidade do ato de reprovação.
- O Supremo Tribunal Federal, no Tema 671, firmou tese em
repercussão geral no sentido de que é descabida a indenização
sob o fundamento de que deveria ter sido investido em
momento anterior, salvo situação de arbitrariedade flagrante,
que não se verifica no caso concreto.
-Majoração da sucumbência.
- Recurso conhecido e desprovido.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos os presentes autos da Apelação


nº. 0107286-39.2017.8.19.0001, em que figura como apelante e apelado as
partes acima nomeadas.

ACORDAM os Desembargadores que compõem a Vigésima


Sétima Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, por
unanimidade, em conhecer e negar provimento ao recurso, nos termos do
voto do Relator.

RELATÓRIO

Trata-se de ação de obrigação de fazer c/c pagamento de


quantia certa, pelo rito ordinário, proposta por RAPHAEL DELMIRO
BALTHAZAR em face do ESTADO DO RIO DE JANEIRO, requerendo
inicialmente os benefícios da gratuidade de justiça.

Alega, em síntese, que realizou concurso público em 2006


para a ocupação cargo de Oficial da Polícia Militar do Estado do Rio de
Janeiro, no qual foi aprovado em 86º lugar do certame escrito; se habilitou
para os exames específicos realizado no Auditório da Academia de Polícia

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Militar (APM); foi reprovado no exame psicotécnico que compreendia a
última etapa do certame, que em razão do exame em questão não ter
observado os critérios objetivos que o norteava; realizou novo concurso para
a PMERJ no certame seguinte, sendo aprovado no exame psicotécnico;
ingressou com uma ação judicial, distribuída junto a 9ª Vara de Fazenda
Pública da Capital, sob o número 0025844-37.2006.8.19.0001, visando a
anulação do ato administrativo de reprovação do exame psicotécnico de
2006; que o ato administrativo de inaptidão do autor foi reconhecido nulo por
sentença.

Requer seja determinada a inscrição do autor no Curso de


Formação de Oficiais da PMERJ/2006 e publicado no seu respectivo boletim,
no prazo de 24 horas, a contar da publicação da sentença, sob pena de multa
diária; condenação do Réu a providenciar a imediata inclusão do Autor ao
posto equivalente ao servidor mais graduado por antiguidade inscrito no
Curso de Formação de Oficiais da PMERJ/2006, no prazo máximo de 24
horas, a contar do trânsito em julgado desta decisão, sob pena de multa diária
não inferior a cifra de R$ 10.000,00 (dez mil reais) por dia em caso de
descumprimento; condenação do réu a pagar ao autor todos os proventos não
percebidos, relacionados as promoções preteridas e verbas trabalhistas não
recebidas, a contar da a inscrição do autor no Curso de Formação de Oficiais
da PMERJ/2006; a condenação da parte ré a pagar ao autor, a título de
compensação pelos danos morais, o valor de 20 salários mínimos, bem como
a condenação ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios.

Contestação (fls. 58/69), requer a improcedência do pedido.


Alega, em síntese, que: o edital do concurso público para ingresso no Curso
de Formação de Oficiais da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro
previu, dentre as etapas do certame de caráter eliminatório, o exame
psicológico, que se presta a identificar se o candidato reúne ou não o perfil
psicológico exigido dos futuros policiais do Estado; a exigência de exame
psicológico dentre as etapas do concurso é respaldada pela legislação
estadual; o edital é a lei do concurso; à época da submissão à fase do
concurso, no que concerne ao exame psicológico, o autor apresentava
critérios ensejadores de sua eliminação; cerca de cinco anos após a
reprovação, a realização de um novo exame para comprovar a sua capacidade
psicológica não se mostra viável a desconstituir a reprovação anterior; as
condições psicológicas mudam com o passar dos anos; conforme o edital do
concurso em questão, o exame psicológico tem validade de seis meses;
descabido o pagamento de vencimentos retroativos; não restaram
demonstrados os danos morais.

A sentença julgou os pedidos improcedentes nos termos da


fundamentação e dispositivo abaixo (indexador 167 – fls.152/154):
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Possui perfeita aplicação, na hipótese vertente, o artigo 355, I, do


Código de Processo Civil, que autoriza o julgamento antecipado da
lide, quando a questão de mérito for unicamente de direito, ou,
sendo de direito e de fato, não houver necessidade de produzir
outras provas.

É que, existindo elementos probatórios bastantes para o


pronunciamento do juízo decisório, o julgamento antecipado da lide
se impõe, uma vez que os elementos probatórios acostados aos
autos são suficientes para formar a convicção do Juiz.

Pretende a parte autora a inscrição do autor no Curso de Formação


de Oficiais da PMERJ/2006, em razão do cancelamento do ato
administrativo de inaptidão no exame psicológico.

Sustenta o autor que sempre esteve apto ao cargo aprovado, tanto


que foi aprovado no concurso subsequente ao questionado nestes
autos.

Acontece porém, que apesar do exame psicológico ter sido anulado,


fato é que o autor tomou posse no concurso posterior ao reclamado,
não demonstrado interesse à época em fazer o Curso de Formação
de Oficial de 2006, o que impede saber se o mesmo teria concluído
o curso, teria tomado posse no cargo e se teria sido promovido.

Trata-se, portanto, de elucubrações e de danos hipotéticos, o que


por si só impede o reconhecimento da pretensão autoral.

Isto posto, JULGO IMPROCEDENTE O PEDIDO e condeno a


parte autora ao pagamento das custas processuais e honorários
advocatícios, que fixo em 10% sobre o valor da causa, nos termos
do art.85, §2º do CPC, estando suspensa a condenação nos termos
do art. 98, §2º e 3º do CPC.

P.R.I.

Certificado o trânsito em julgado e cumpridas as formalidades


legais, dê-se baixa e arquive-se.

A parte Autora apresentou recurso de apelação (fls. )


alegando: 1) (....) “o fundamento da sentença se baseou no fato do
apelante não ter demonstrado interesse à época em fazer o Curso de
Formação de Oficial de 2006. Isso não condiz com a realidade. Na verdade
ficou provado nos autos que não houve ausência de interesse do apelante
em prosseguir, mas sim o mesmo ficou impedido de prosseguir no
certame por uma reprovação que não observou os critérios objetivos
elencados no edital, conforme sentença proferida pelo Estado Judicante à

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época”; 2) “melhor forma de demonstrar que o apelante teria condições de
ser aprovado, caso não houvesse ocorrido a prática dessa conduta ilegal por
parte da Administração Pública, foi que realizou o concurso seguinte no
qual tinha os mesmos critérios do anterior, logrando êxito em todas as
etapas e realizando a inscrição no Curso de Formação de Oficiais”; 3) “O
fato é verídico e o dano real, na medida em que foi impedido de se inscrever
nos quadros do Curso de Formação de Oficial de 2006, e com isso obter
todas as promoções e benefícios”.

Após a oposição de embargos de declaração pelo Estado, a


decisão foi integrada, considerando-se que a justiça gratuita havia sido
indeferida ao autor.

Por fim, pugnou pelo conhecimento e provimento do recurso


para reformar a sentença e julgar procedente os pedidos.

Contrarrazões ( fls.187/ 197).

VOTO

O recurso é tempestivo e preenche os demais pressupostos de


admissibilidade. Deve ser conhecido.

Cinge-se a controvérsia quanto ao direito de receber verbas e


efeitos retroativos ao Curso de Formação de Oficiais/2006, além de danos
morais em razão da declaração judicial de nulidade do ato administrativo de
inaptidão no exame psicotécnico do referido certame, em cujo concurso
subsequente, realizado com as mesmas etapas, o apelante foi aprovado.

A análise do acervo documental revela que o apelante buscou


desconstituir o ato de reprovação no exame psicotécnico nos autos do
processo nº 2006.001.075619-0 e medida cautelar nº 2006.001.031033-2, que
tramitaram perante a 9ª Vara de Fazenda Pública da Comarca da Capital.

O pedido foi julgado parcialmente procedente para anular o


ato de reprovação do Autor no exame psicotécnico. No entanto, a medida
cautelar, cujo objeto era a matrícula do apelante no Curso de Formação de
Oficiais/2006, foi julgada extinta face à aprovação do apelante em Concurso
subsequentemente realizado para Oficial da PM, porque o juízo considerou
que ocorreu a perda superveniente do interesse de agir quanto a esse pedido
(fls.34 – indexador 015).

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Com efeito, a questão relativa à matrícula do apelante no
curso de formação, requisito essencial para o reconhecimento de qualquer
direito decorrente da admissão no concurso, restou coberta pela preclusão.

Declarada a perda superveniente do interesse processual em


decisão que não foi objeto de impugnação pelas vias próprias, não há como
reconhecer ou afirmar a existência de qualquer direito retroativo.

Com relação aos danos morais, não restou demonstrado que


dos fatos advieram ofensa a direitos da personalidade. Ademais, a
jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é no sentido de que os
candidatos posteriormente nomeados em concurso público não fazem jus aos
vencimentos e demais vantagens referentes ao período compreendido entre a
data em que deveriam ter sido nomeados e a efetiva investidura no serviço
público, ainda que a título de indenização, mesmo que a situação seja
reconhecida judicialmente.

Veja-se:

ADMINISTRATIVO. AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS


DE DECLARAÇÃO NO RECURSO ESPECIAL. CONCURSO.
INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS E MORAIS.
INEXISTÊNCIA DE DIREITO À INDENIZAÇÃO DOS
VENCIMENTOS E DEMAIS VANTAGENS NO PERÍODO EM
QUE TEVE CURSO O PROCESSO JUDICIAL. AGRAVO
INTERNO DO PARTICULAR DESPROVIDO.
1. Os candidatos posteriormente nomeados em concurso público
não fazem jus aos vencimentos e demais vantagens referentes ao
período compreendido entre a data em que deveriam ter sido
nomeados e a efetiva investidura no serviço público, ainda que
a título de indenização, mesmo que a situação seja reconhecida
judicialmente, em razão da imprescindibilidade do efetivo
exercício do cargo. Nesse sentido: AgRg no REsp. 1.526.638/RN,
Rel. Min. OG FERNANDES, DJe 18.11.2015.
2. Agravo Interno do Particular desprovido.
(AgInt nos Edcl no ReSP 1.519.761- Ministro Napoleão Nunes
Maia Filho – Primeira Turma – 10/12/2019 – Dje: 12/12/2019).

Igual entendimento deve prevalecer para o caso em que o


candidato não é nomeado, a despeito do reconhecimento judicial da nulidade
do ato de reprovação.

Ademais, o Supremo Tribunal Federal, no Tema 671, firmou


tese em repercussão geral no sentido de que é descabida a indenização sob o
fundamento de que deveria ter sido investido em momento anterior, salvo
situação de arbitrariedade flagrante, que não se verifica no caso concreto:

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“Ementa: ADMINISTRATIVO. RESPONSABILIDADE CIVIL


DO ESTADO. INVESTIDURA EM CARGO PÚBLICO POR
FORÇA DE DECISÃO JUDICIAL.
1. Tese afirmada em repercussão geral: na hipótese de posse
em cargo público determinada por decisão judicial, o servidor
não faz jus a indenização, sob fundamento de que deveria ter
sido investido em momento anterior, salvo situação de
arbitrariedade flagrante.
2. Recurso extraordinário provido”. (RE 724347, Relator(a):
Min. MARCO AURÉLIO, Relator(a) p/ Acórdão: Min.
ROBERTO BARROSO, Tribunal Pleno, julgado em
26/02/2015, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO
GERAL - MÉRITO DJe-088 DIVULG 12-05-2015 PUBLIC 13-
05-2015).

Por fim, tendo em vista que o apelante sucumbiu, também, no


recurso de apelação interposto, cabível a majoração da verba honorária
recursal, em observância ao que dispõe o art. 85, § 11 do CPC/15.

Destaca-se que este entendimento foi adotado pelo STJ, no


enunciado administrativo nº 7, in verbis:

“Somente nos recursos interpostos contra decisão publicada a


partir de 18 de março de 2016, será possível o arbitramento
de honorários recursais, na forma do art. 85, § 11, do novo
CPC.”

Desta forma, considerando, ainda o trabalho adicional


realizado pelo advogado da parte apelada em grau de recurso, nos termos do
art. 85, §§ 1º e 11, do CPC/15, fixo os honorários recursais de sucumbência
em 2% (dois por cento) sobre o valor já arbitrado, perfazendo o total de 12%
(doze por cento).

Pelo exposto, voto no sentido de conhecer e negar provimento


ao recurso, majorando para 12% a verba fixada a título de honorários
advocatícios de sucumbência.

Rio de Janeiro, 19 de fevereiro de 2020.

JOÃO BATISTA DAMASCENO


JDS DESEMBARGADOR RELATOR

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