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JORGE VALA - MARIA BENEDICTA MONTEIRO COORDENADORES PSICOLOGIA SOCIAL 6." Edigao SERVICO DE EDUCACAO E BOLSAS FUNDACAO CALOUSTE GULBENKIAN JORGE VALA * MARIA BENEDICTA MONTEIRO. COORDENADORES PSICOLOGIA SOCIAL 6. Edigao SERVICO DE EDUCAGAO E BOLSAS FUNDAGC. AO CALOUSTE GULBENKIAN Apresentacdo da 4.° edic¢do Seis anos de uso ¢ a dupla reedigao da Psicologia Social ao longo desse periodo mostraram © valor deste volume, mas também algumas das suas lacunas ¢ limitagGes que agora vém preencher-se por ocasidio da publicagio da sua 4.” edigao. Para isso foram importantes tanto a experiéncia docente de todos os seus autores como a sugestdes de colegas e de estudiantes, a quem aqui deixamos o nosso agradecimento. O novo texto e os textos renovados que integram esta edigao tiveram como obj lar, actualizar e integrar mais e nova informagao dos varios dominios da Psicologia Social. Manteve- -se, no entanto, a estrutura inicial, que organizava os textos em torno de cinco questdes: |. A historia da disciplina - desde a sua origem no século XIX, a par das restantes ciéncias sociais, até as princ pais fases da sua construgao ao longo do século XX ~ e as suas orientagdes metodolégicas: 2. Os fend- menos € processos que intervém em vastas reas do comportamento, nas Suas dimensdes intrapessoal ¢ imterpessoal; 3. Os fenémenos e processos que intervém no comportamento, nas suas dimensdes de grupo e das relagdes entre grupos: 4. Os processos de construgdo colectiva dos signiticados sociais, © 5. Questaes de epistemologia e de validade ecolégica na investi ivos comple- o em psicologia social Esta 42 edicdo contém nao sé um novo capitulo sobre processos cognitivos € esterestipos sociais, como significativas alteragdes em dez dos restantes capitulos e ainda um Indice temitico que facilite a procura de temas ¢ de conceitos ao longo de todo o volume. Vejamos. entao, em sintese, essas novas contribt que tém fi de questoes. No capitulo V, sobre 0 tema ckissico da formagao de impressdes, Anténio Caetano introduz as teorias implicitas da personalidade e apresenta um modelo recente que explora 0 processamento paralelo da informagio. Com o objectivo de facilitar a pluralidade de propostas nesta drea, o texto adianta ainda uma sintese integrada dos diferentes modelos sobre formagio de impressdes. O capitulo VI, sobre atracgao interpessoal. sexualidade ¢ religdes intimas, de Valentim Alferes, alarga a apresentagdo da investigagao, nomeadamente ao t6pico da amizade. No capitulo VIL, que vers os processos de atribuigio causal, Elizabeth Sousa desenvolve sobretudo a discussdo sobre a especificidade dos processos de atribuigao social. As atitudes, no capitulo VIII, sofrem nesta edigéo um alargamento importante L gra neste capitulo as teorias da persuasio, complementando assim a ultima parte. que tratava das pro- postas tedricas sobre os processos de mudanga de atitudes. A fechar este conjunto de capitulos, e fazendo a transigd0 para Leonel Garcia Marques estende 0 capitulo IX sobre a influéncia social .4s teorias que reléem os fend- menos classicos de influéncia a luz de novos processos, como o de auto-categorizagao ou 0 do con flito sociocognitivo. Os processos de grupo. tema do capitulo > Correia Jes 1a partir da segunda area ‘a Lima inte- terceira drea de questoes. - apresentam também ino mostra agora de forma mais alargada fenémenos especificos da situaga lteragdes de relevo. Jorge 9 grupal, taiy como a polarizagao € 0 pensamento de grupo, e decisio. suas repercussdes sobre a tomada de Os esterestipos sociais ¢ os processos socio-cognitivos que 0s originam € mantém é uma drea de investigagdo que atravessa toda a psicologia social do século XX, com amplas ramificagdes € entrosamentos com muitos outros conceitos e areas da interacgdo social, constituindo, a partir do final do século XX uma das areas fortes da Cognigdo Social. Constituia, nas trés primeiras edigdes da Psicologia Social, uma lacuna que desde o inicio urgia colmatar. José Marques ¢ Dario Paez, no capi- tulo XI, sistematizam o percurso da investigagdo neste dominio, apresentando os processos cogni- tivos da construgdo dos esterestipos e a articulagdo contextual que thes confere s ido social O capitulo sobre a identidade social e as relagdes entre grupos, de Ligia Amancio, é agora 0 capitulo XILA par da exposigao critica das propostas teéricas mais classicas, as extensdes contem- porineas do modelo das relagdes de poder simbélico aparecem agora com novos desenvolvimentos decorrentes do eruzamento dos niveis de analise situacional e cognitivo, ilustrados com investigagao recente, nomeadamente na drea das relagdes de género. Ainda no dominio das relagdes entre grupos, o capitulo XII, de Maria Benedicta Monteiro, apresenta novas contribuigdes, sobretudo em dois pontos tedricos da resolucdo de conflitos: o que é expresso pela teoria da identidade social e das relagdes entre grupos o que ¢ estudado no quadro da negociagao formal. A quarta questo que estrutura a organizagdo deste volume — os processos de construgio cole tiva dos significados sociais ~ continua, nesta edi¢do, a ser tratada no capitulo sobre as representagdes sociais, agora o capitulo XIV. Jorge Vala alargou a sua apresentacao especialmente no dominio dos processos sociocognitivos que presidem a formagao dessas representagdes ~ a ancoragem e a objec tivagio — também eles agora ilustrados por investigagio mais recente Por fim, 0 capitulo XV continua, com alteracdes sobretudo de actualizagao da literatura rele- vante, propor-nos uma reflexdo de contornas epistemolégicos sobre o olhar e o pensar da psicolo- gia social, dividida entre as matrizes positivista e sistémica da sua forma de interrogar a interacga0 social. A sistematizagao das teorias € da investigagao sobre contextos territoriais. sobre densidade populacional ¢ distanciagdo interpessoal em meio urbano, a partir da qual Luis Soczka ilustra e defende a instaurago de uma perspectiva ecolégica em psicologia social, remata de novo este volume em jeito de desatio. O gosto com que agora trazemos 20 pablico de lingua portuguesa esta 4.* edigdo da Psicologia Social € aquele que esperamos que os nossos leitores partilhem connosco ao Ié-lo, Gosto pela reflexdo, pela pesquisa e pelo confronto critico. Gosto existencial pelo perguntar. Até porque, como diz. 0 Consul Honorario, de Graham Greene, «as tinicas perguntas importantes sao as que o homem faz a si proprio». Lisboa, Novembro de 1999 Maria Benedicta Monteiro Jorge Vala Prefacio a primeira edic¢do Em 1982 realizow-se em Lishoa, na Fundacdo Calouste Gulbenkian, um simpdsio sobre «Mudanga e Psicologia Social». Este simposio teve 0 apoio da European Association of Experi- ‘mental Social Psychology & nele participaram, entre outros psicdlogos sociais portugueses e estrangeiros, W. Doise, H. Tajfel ¢ J. Ph. Leyens. Na sequéncia deste encontro, iniciaram-se lagos de colaboragao estdveis entre os psicdlogos sociais portugueses ¢ os seus colegas que, desde 1963, vinham procurando uma refundacdo da Psicologia Social na Europa. Este manual de Psicologia Social reflecte os resultados dessa colaboracdo e é, em larga medida, uma expressdo das questoes que. pelo menos desde entéio, tém sido objecto de pesquisa tebrica e empirica por parte dos investi- gadores e docentes em Psicologia Social no nosso pats. A expansdio do ensino da Psicologia Social criow a necessidade da elaboragdo de um manual que apoiasse a formacao dos estudantes do ensino superior que, nas mais variadas licenciaturas, seguem cursos desta disciplina. A diversidade dos interesses destes estudantes ¢ a variabilidade dos graus de profundidade exigida na abordagem da Psicologia Social a nivel de licenciaturas tao dispares constitutram um dos constrangimentos que orientaram a programacdo desta obra. Por outro lado, pretendia-se fazer wm manual que reflectisse os interesses e as orientacdes da Psicologia Social no nosso pats. Ndo se trata, assim, de uma obra que abrange todas as temdticas desta disciplina, mas cuja preocupacdo é a de reflectir a especificidade do olhar psicossociolégico nas diversas teméticas que séo abordadas. Ora, uma das caracteristicas deste olhar é a sua pluridirec- cionalidade com uma coeréncia que the é conferida pela procura constante de novas articulagdes Este objectivo foi prosseguido através da colaboragao de diversos autores. A diversidade dos espe- cialistas que colaboram nesta obra procura garantir a diversificagao tedrica, a par de uma profun- didade equivalente ao longo dos diversos capitulos, o que dificilmente seria possivel caso a sua redacedo tivesse cabido apenas a um ou dois autores. Os organizadores deste manual vém ensinando Psicologia Social ao longo de quase vinte anos. Para os estudantes, cujo espirito critico e cuja criatividade os estimularam na sua progressdo inte- lectual, vao os primeiros agradecimentos. Agradecemos também aos colegas que desde a primeira hora nos apoiaram neste projecto ¢ que aceitaram colaborar nele, conferindo, assim, a este trabalho 0 que nele ha de positivo. O nosso papel foi o de simples gestores de uma ideia —a distancia que separa a qualidade possivel da qualidade conseguida é responsabilidade nossa. Jorge Vala Maria Benedicta Monteiro Fevereiro de 1993 Apresentacdo da primeira edicao A Psicol com a intervengao. Social € u at disciplina animada pela paixdo da investigagao e pela preocupagio Pode dizer-se que a paixdo pela investigacdo é uma caracteristica forte desta disciplina, na medida em que o seu saber se oferece claramente omo um saber em construcao, sujeito a reformu- lagdes continuas, em diilogo com a analise empirica. Para alguns, porém, isso nao & uma manifes- taco de maturidade epistemol6gica, mas de inconsisténcia te6rica. Fora maior a solidez terica desta disciplina, ¢ seria menor o seu recurso a investigagao empirica. Para outros, a presenga forte da inves tigagao empirica em Psicologi Social teria vantagens, sim, mas nio para esta disciplina — ela nao seria mais do que um Laboratorio das ciéncias sociais mais nobres, que daf retirariam as ilustragdes de que carecem sobre a dimensio individual dos fendmenos colectivos. Quanto a Psicologia Social, ela prépri m epifenémeno que desapareceria com a maturagdo anunciada das demais cién- sociais e humanas. . Seria Nao € este o lugar para descortinar as razdes da elevada produgdo emp nem para discutir 0 significado e o futuro dessa produgdo. Mas, tra portugueses, vale a pena sublinhar que aquela foi uma das caracteristicas desta disciplina a que se quis dar destaque. A apresentago de cada problema serd, assim. pautada por referéncias a estudos empiricos, Neste sentido ica desta disciplina, \do-se de apresentar o primeiro manual de Psicologia Social escrito por autores referencias a investigagdes empiricas ov, por vezes até, a sua apresentacio detalhada servem dois objectivos — ilustrar a andlise de um problema e ilustrar a estratégia de construgio de conhecimentos nesta disciplina E nosso propésito que este manual possa ser um pedagogo do jogo que consiste em lutar contra as hipéteses que se soube formular e, de uma forma mais geral, que possa contribuir para uma pers- iva no doutrinal ¢ nao opinativa em ciéneias sociais. Dissemos que a Psicologia Social era uma discipli intervengao, Este objectivo cedo a associou & ideia de tecnologia social ¢ em muito contribuiu para 4 identificagao desta disciplina com oy mecanismos de gestao dos sistemas dominantes, Dispen- samo-nos de entrar na polémica sobre a Psicologia Social como disciplina subversiva ou repressiva. Mas pretendemos que esta obra reflectisse a relevancia social desta diseiplina, Ora, poder parecer que esta preacupagio esta ausente na medida em que nao existe nenhum capitulo dedieado is apli- cagdes da Psicologia Social. Em nosso entender, dedicar um capitulo as aplicagdes desta disciplina estaria em contradis a. Na sua animada pela preocupagao com a Jo com a Sua propria gi tivas a st6ria, sempre que questdes rel problematicas sociais relevantes dominaram a Psicologia numa perspectiva qui Social, a abordagem dessas questoes fez-se Igo € a intervengao, Foi nessa perspectiva que traba- Iharam investigadores como os que. a partir de 1944, se retinem a K. Lewin e fundam o Research Center for Group Dynamics, num programa de investigagdes onde a preocupagiio com a democracia era um problema e um pressuposto importante, Ou os investigadores que. a partir de 1945, traba~ Iharam com Hovland sobre a influéncia social ¢ a comunicagio persuasiva, animados pela preo- a invest cupagao de esclarecer os mecanismos que haviam alimentado a forga da propaganda durante a Segunda Guerra Mundial. Ou ainda aqueles que. a partir de 1954, na esteira de Allport, estudaram i hip6tese do contacto como meio de contribuir para a fundamentagdo das politicas de dessegregacao. Na Europa, nao & possivel separar a teoria de Tajfel, sobre a categorizagiio ¢ a identidide social, das preocupagdes com a xenofobia € os preconceitos contra grupos culturais minoritérios. Da mesma forma, a teoria de Moscovici sobre a influéncia social dos grupos minoritirios e das minorias acti- vas. iniciada no dealbar de Maio de 1968, esté fortemente ligada as preocupagdes com a eficdcia dos novos movimentos sociais e com a mudanga social. A relevncia social desta disciplina encontra-se inscrita na sua prépt . € OS seus periodos de desenvolvimento tém sido, simultaneamente, periodos de aumento da sua relevancia social e, consequentemente, dat sua maturagdo te6rica. Importancia da investigagao e releviincia social foram dois dos eixos que organizaram a pro- gramagdo deste manual. O terceiro foi a atengao A producdo nacional. A Psicologia Social ¢ uma dis ciplina com uma historia breve entre nds. Como as demais is, esteve congelada pelo regime ditatorial que, até 1974, marcou a vida quotidiana, mas também a vida cientifica, do nosso pais. Por via das suas implicagdes na gestao das organiza algumas das preocupagdes da Psicologia Social puderam ser ensinadas no periodo pré-25 de Abril de 1974, quando o regime de o esbogou uma intencdo de reforma administrativa e os de modernizagao da esto ao nivel do sector privado. Mas essa vertente da Psicologia Social .que hoje, em larga medida, est na base dos estudos sobre o comportamento organizacional, nao € toda a Psicologia Social. Para além do mais, muita da utilizagdo dos conhecimentos da Psicologia Social a esse nivel 86 podia ser feita numa perspectiva de reproducdo, dado o ensino universitario desta disciplina se encontrar limi- lado e as condigdes para a investigacao serem nulas. Com 0 advento da democracia, foi possivel alterar este estado da disciplina — 0 seu ensino expandiu-se e dio-se os primeiros passos na investi gacio. Uma parte importante dos tabalhos empiri la reflexdo teérica realizados entre nds reflecte-se na programagao € nos contetidos deste manual. E evidente que nem essa produgdo € tanta que pudesse marcar de forma clara © manual, nem o seu cardcter de introdugio a uma disciplina 0 deveria permitir, caso tal fosse possivel, Procurou-se, assim, um equilibrio aceitavel entre as preo- cupagdes pedagégicas, as necessidades de uma certa coeréncia transversal ¢ a atencio & produgio nacional e as orientagoes de cada autor. Examinemos agora a estrutura do manual. Os trés primeiros ¢: da Psicologia Social. As raizes desta disciplina na filosofia social europeia e tual que, nos finais do século pasado, permitiu a emergéncia das diferentes ciéncias sociais do ana- lisadas por Alvaro Miranda Santos. Se tivéssemos que eleger uma questdo-chave nesse debate, a opcao recairia na tensdo entre o individual e 0 colectivo. Esta €, alids, uma das questoes retomadas por Orlindo Gouveia Pereira ao relatar os pontos de ancoragem da Psicologia Social nos Estados Unidos. E € ainda em tomo da resposta a esta mesma questo que Jorge Correia Jesuino situa a distintividade da nova Psicologia Social europeia. Estes trés primeiros capitulos contam-nos, afinal. como se foi constituindo o objecto da Psicologia Social e quais as orientagdes basicas das respostas desta disciplina as perguntas que foi formulando. Como qualquer disciplina, a Psicologia Social caracteriza-se pela natureza dos problemas que aborda e nao pelos seus métodos. Mas a abordagem metodolégica de um problema é ela propria con- figuradora desse problema. Este livro ndo poderia. por isso mesmo, deixar de conter um capitulo dedicado aos métodos. Combinando questoes epistemoldgicas e técnicas, Jorge da Gloria escolheu o ia teori enti os & sem problema da medida como aquele a partir do qual reflecte sobre as orientagdes metodold Psicologia Social. Apés estes capitulos introdutorios, dois capitulos abordam um problema nuclear na pesquisa psicossociol6gica — a percepgdo do outro ¢ as relagdes interpessoais, No capitulo sobre a formagao de impresses estd em causa a compreensao dos mecanismos basicos que nos permitem construir um retrato estvel e coerente acerca de outrem, nomeadamente quando a informago de que se dispoe & escassa. Mas sera mesmo necesséria qualquer informagao para que seja possivel formar uma impressio € predizer 0 comportamento futuro de uma outra pessoa? E este 0 tipo de quest6es analisadas por Ant6nio Caetano no capitulo V. Valentim Alferes propde-nos, no capitulo seguimte, uma aniilise dos factores que estdo na base de modalidades especificas de relagdes interpessoais — as relagdes de amizade e de amor € 0 seu contexto emocional Avaliar e explicar sto duas actividades qu povoam a nossa vida quotidiana. Avaliamos € explicamos fenémenos sociais, comportamentos de outros ¢ os nossos préprios comportamentos. A Psicologia Social dedicou muita da sua investigacao a anilise destas actividades quotidianas, no 86 porque elas se repercutem na programagio dos comportamentos individuais ¢ colectives, mas também porque constituem um lugar privilegiado de compreensio do funcionamento cognitive. O conceito de atribuigdo, abordado por Elizabeth Sousa no capitulo VII, é aquele que tem apoiado a compreenso dos factores que regem as imputagées de causalidade. O conceito de atitude, por sua vez, € aquele que da conta da dimensao avaliativa presente na apreensio de qualquer objecto. As ati- tudes so anatisadas no capitulo VIII por Maria Luisa de Lima, Praticamente no centro deste manual. o leitor encontra um capitulo sobre a influéncia social, da autoria de Leonel Garcia-Marques. Trata-se de uma temdtica também central na Psicologia Social Em sentido lato, poder-se-ia até definir esta disciplina como o estudo da influéncia social ¢ poder-se-ia dizer que este problema est presente em todos os capitulos. Mas exactamente porque esta tematica ¢ de tio grande importincia para este ramo de conhecimento, ela foi-se especificando ¢ assumindo progressivamente uma autonomia propria. E na sua dimensao restrita, embora percor- endo varios paradigmas, que a influéncia social & abordada no capitulo IX. Nos tiltimos anos. paradigma da cognicao social tem sido dominante em Psicologia Social e orientow o interesse desta disciplina para duas temiticas presentes em capitulos jd apresentados— a 0 causal. Mas estes tiltimos vinte anos de pesquisa ainda nao atingiram oy niveis de divulgagiio © popularidade alcangados por temas como as atitudes € os pro- cessos grupais. Alids, para alguns te6ricos da Psicologia Social, iremos entrar numa nova era no estudo das atitudes @ no renascer do interesse pela andlise da vida dos grupos, No capitulo X, Jorge Correia Jesuino apresenta os aspectos mais centrais na pesquisa sobre o funcionamento dos grupos. tomando como problema a relagao entre estruturas grupais, processos grupais ¢ eficiicia dos grupos. Na sua heterogeneidade. os quatro iltimos capitulos estdo ligados por uma clara mudanga de nivel de andlise relativamente aos precedentes, A interacgdo desloca-se dos niveis interpessoal ¢ intragrupal para objectos de andlise mais macrossociais, O manual termina, assim, com uma andlise das principais temdticas da Psicologia Social da vida social O desenvolvimento das teoriats das relagdes entre grupos, o significado das rupturas terie: tém pautado o seu discurso e a anilise critica do seu formagao de impressoes e a atribui que explicativo sio desenvolvidos no capi 10 € ai dada ao modelo da identidade tulo XI. apresentado por Ligia Amancio, Uma saligneia espec social © as suas extensdes contemporaneas. do contito ed de Maria Benedicta Monteiro. A identificagao dos sucessives niveis de andlise que tém sido adopta- rupos. bem como a forma de os reduzir, constitui, As direas mais espeetfica cooperagio entre grupos sao 0 tema do capitulo XI dos para explicar a génese dos conflitos entre neste capitulo, o fio de ligagdo das diferentes hipdteses que se desenrolam ao longo de meio século de investiga Num campo tensional entre © macrossocial e 0 psicolégico, a aniilise dos processos através dos quais as pessoas constroem teorias sobre os objectos sociais. configurando assim o seu préprio na da campo de signific Psicologia Social que Jorge Vala apresenta no capitulo XIII ~ as representagdes social em revista a literatura mais consensual neste dominio, mas também a mais polémica, tentando jos © de priticas. integra desde os anos 60 um conceito © um paradig Nele se passa traduzir a perspectiva de que estamos perante uma area de conhecimento em que se vivem as con- n construcdo. tradigdes € a fragilidade de um saber et No quadro do debate apresenta, no capitulo XIV. uma perspectiv epistemolégico entre 0 positivismo e o construtivismo social, Luis Soczka ecok a da Psicologia Social. Da densidade popula. cional & proxémica, percorre as temiiticas ckissicas e contemporineas que nos chegam dos estudos ambientais. E encaminha-nos dialecticamente. bem ao seu jeito, para uma nova discussio. 2 um caleidoscépio: 0 movimento de Convidamos 0 leitor a utilizar este manual como quem w uma leitura atenta ¢ critica produzird combinagoes € articulagdes de teorias € problemas que, espe- ramos, serdo ndo s6 agradaveis como também estimulantes da pesquisa. Jorge Vala Maria Benedicta Monteiro Fevereiro de 1993 AUTORES via ¢ de Ciencias da Educacde da Universidade Alvaro Miranda Santos, professor jubilado da Faculdade de Psive Coimbra + Anténio Caetano, professor auxiliar do Instituto Superior de Ciéncias do Trabalho ¢ da Empresa, Lisboa. Elizabeth Si fessora associada do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lisboa. «+ Jorge Correia Jesuino, professor catedritico do Instituto Superior de Ciéncias do Trabatho ¢ da Empresa, Lisboa: + Jorge da Gloria, professor da Universidade Luséfona. + Jorge Vala, professor cutedrdtico do Instinto de Ciéncias So «+ Leonel Garcia-Marques, professor auxiliar de Psicologia e de Ciéncias da Educagdo da Universidade de Lisbon. + Ligia Amine! * Luis Soceka, professor associado do Instituto Superior de Psicologia Aplicada. + Maria Benedicta Monteiro. professora catedratica do tnstituto Superior de Ciéncias do Trabalho ¢ da Empresa + Maria Luisa Pedraso de Lima, professora auxiliar do Instinto Superior de Ciéncias do Trabalho ¢ da Empresa Orlindo Gouveia Pereira, professor caredratico da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Valentim Rodrigues Alferes, professor auxitiar da Faculdade de Psicologia ¢ de Ciencias da Educagde da Universidade de Coimbra. José Marques, professor associado da Faculdade de Psicologia e de Ciéncias da Educagdo da Universidade do Porto Dario Paéz, professor catedrivicn da Faculdade de Psicologia da Universidade de San Sebastian. ais da Universidade de Lishoa -professora associada do Instituto Superior de Ciéncias do Trabatho ¢ da Empresa, Lisboa. CAPITULO! Os primérdios de uma disciplina A psicologia social realizou vitrios percursos a0 longo do seu caminhar em direcgao a sua defi- nigdo epistemolégica. Quase se poderia falar de caminhos € descaminhos da psicologia social. Nao seria vilido, no entanto. Com efeito, mesmo os descaminhos nao so descaminhos. Se bem reflectidos, se convenientemente reelaborados, em convergéneia, podem constituir etapas vali- das para a rigorosa afirmagdo da validade episte- moldgica da pratica tedrica e da pritica aplicad: da psicologia social em constante renovagio perante novos dados, encontrados na observacao experimental. Em consequéncia, na medida em que se nos deparam caminhos e descaminhos, 0 tecido desta breve apresentacdo vai patentear malhas que se li- gam entre si, umas de forma mais rigorosa, outras de forma menos rigorosa, ¢ algumas seguramente sem ligagdo aparentemente nenhuma, vistas duma forma isolada. Perspectivadas no seu conjunto até podem apresentar um tecido relativamente acei- Livel ou, mesmo, com subido interesse por deixar uma ou outra matha capaz de provocar um alarga- mento, uma diversificagao, um aprofundamento, Situando-nos no século XIX, por razdes faci mente compreensiveis. poderiamos apontar um, primeiro percurso, que iria da «fi ‘a social» & — CUISO © Perculso Alvaro Miranda Santos suas variantes (Comte,1828; Quételet,1869), até a «psicofisica social» (Lilienfeld, 1896; Braga, 1908). Um outro percurso mais ou menos para- lelo e bastante significative iria da «linguistica» (Lazarus,1882; Steinthal,1877; Waitz.1849) até 4 «psicologia dos povos ou popular» (Wundt 1960; Le Bon, 1894), Com McDougall (1908) € Ross (1908), enfim, «psicologia social» ou a «psi- cologia social» no fim? Seguramente duma certa nage ou ideia dessa mesma psicologia social. Haveria, portanto, um novo percurso, centrado em tomo da convergéncia polémica entre as «repre sentagdes» (Durkheim, 1898)e asinterpsicologia» (Tarde, 1890). Um dtimo ou um primeiro per- curso seria 0 duma psicologia social em moldes emificos»: Lundberg (1936), Kantor (1922), Mead (1934), entre os mais significativos. Esta possivel pré-hist6ria, talvez. proto-histé- ria, da psicologia social quer evitar a todo 0 custo, cair no lugar-comum de ir buscar 0 inicio da cigncia ou das ciéncias aos Gregos. Em primeiro lugar, essa ida uma confusdo entre 0 objecto sensorial e 0 objecto experimental ou cientifico. Para 0 caso presente, seria ficil remon- tar até ao dito «pai da histéria», Herédoto, para encontrar alusGes, apenas alusdes, & temdtiea da psivologia social, jd ndo falando de contempora- « eC 4 neos ¢ posteriores. como Hesiodo, Demédstenes. Sotocles Euripides e principalmente Aristételes. No mundo romano seria de realgar Tito Livio, Cicero, particularmente Plinio, « Moco. Mesmo nos medievais, Agostinho de Hipona, Ibn Sinna ¢ Ihn Kaldum, Tomas de Aquino ¢ Anselmo, ¢ mesmo Herbert de Salisbury. Entre os modernos, 0s p wiugueses das erénicas © dos relatos de via- gens €. entre O¥ estrangeiros, tantas vezes apoi dos nos relatos portugueses, como € 0 caso de sau de Campanella Montaigne, mesmo de Rous: ou Th, Morus, Vamos tentar compreender a historia da psi- cologia social, destiando os seus pereursos. Por ultras palavras: vamos procurar construir uma his (ria da psicologia social. inventariando algumas das suas diversas «imagens» ou «representagdes». \ primeira possibilidade Em 1908, McDougall publica An Introduction to Social Psychology. A primeira seccio desta Wiliom MeDougatt 1871-1938 ‘obra leva por titu humano (so) de primeira i ana sociedade». Ea déneia das tendéneias primarias do pensamento MeDoug dado como psiclogo. Ross. apresentado como socidlogo, publica no mesmo ano um outro livro: »: «As caracteristicas mentais do vi humano na vida das sociedades he Social Psychology, an Outline and Source Book. Ao contrario da forma tradicional «simpatia, im tagdo, sugestiion, Ross propde como que unidade de principio a «sugestao-imitac: MeDougall propde como unic: ‘© «instinto». E aqui se encontra a base para uma: distanciagaio com interesse. Por outras palaye aqui se encontra o fim da ambiguidade em psico- Jogia social, ambiguidade que durou demasiado tempo. No entanto, alterativas varias foram de- o>, assim como le de principio sabrochando ao longo dos anos, uma m nos € outras mais dominadas pelo bissubstancialismo, na forma particular que the imprimiu Comte (1828): o humano era perspectivado em divisio, ire © bidlogo — instintividade ~ e o sociélago — institucionalidade. Colocando em nomes, seria de er entre McDougall ¢ Ross. Em consequéncia. esta primeira possibilidade tem uma caracteristica muito especial: higiénica Comporta claramente © seu papel especifico. embora reforga ndo ora_um biologismo estreito na sequéncia da struggle for life. ora um socio- logismo sistemiitico de «as massas fabricam a histéria». ora uma jungao curiosa das duas pers- pectivas num «darwinismo social» de largas el divulgaga Neste ponto, vamos ficar por esta primeira parte dos caminhos ¢ descaminhos, lobrigando ao Jonge a possibilidade detinitiva da psicologia social como ciéncia e contetido cientifico espect ficos. O ponto seguinte iri demonstrar, adentro das perspec foi aplicagdes e de consider ‘as dos seus autores. como € que ela contecendo, Aqui ficari como € que ela se foi mostrando, a0 menos no que diz respeito « gran- linhas ou a grandes espagos da sua temiitica. 2. 0 individuo e a sociedade Ainda hoje se encontram estereotipias. mais ou menos avatares, da antinomia tradicionalista entre © individuo e a sociedade. Trata-se de antinomias variadas que Palante (1913) resume do seguinte modo: a antinomia psicoligica, na vida intelec- wal, na vida a tividade voluntitia: econémica, politica, juridica, sociolégica e moral. Tais antinomias encontram-se mais ou menos esquecidas ou, ao menos. postas de lado. Trat mesmo duma finguagem que. em algumas suas modalidades, ji nem sequer se encontra em- pregue. A um olhar mais atento para a actualidade, na sua manifestagdo global, encontra-se cl mente presente e, mais do que isso. claramente ex- tensiva a dicotomia criada pela diakéctica actual: a antinomia entre personalidade e cultura. Esta anti- nomia domina em muitas reflexGes acerca da pre- senga e interacgdo de culturas diferentes, acerca da aprendizagem escolar e, insensivelmente. passou para o linguajar do dia-a-cia. E nao admira: cil se toma observar a tal respeito uma quase unifor- midade de certoy dizeres © de certas perspectivaas em meios de comunicagdo social, quer escrit quer falada, quer televisiva, Toma-se, portanto, ‘operacional situar a antinomia de fundo € como é que se pensa superi-la. E, em primeiro lugar, de que constari ela na sintese praticada por Palante, As reflexdes de Palante sintetizam bem um certo niimero de ideias comentes nos fins de XIX ¢ inicios de XX. Assim, para os contetidos do vor bulo individuo, convém superar o que ainda hoje € vulgar, ou seja: no se trata do individuo dite primitivo, da natureza, & Rousseau («ideia.pri- meira de bondade natural, claramente peregrina» (Palante, 1913, n. 2). Menos ainda se pode tratar da individualidade, espécie de unidade absoluta esséncia espiritual, mais ou menos universal (Kant e Fichte). O mais frequente € a ideia de indi: Vidual. vindo do individualismo, particularmente re 15 ‘ado em contraste com o colectivismo de qual- quer cor que seja. [deia de individual que apre senta 0 individuo como claramente independente —certas ideias de liberdade — como podendo viver isolado na sua «torre de marfim», fora de qual- quer tipo de sociedade. Ora, como refere Palante tal individu nao se encontra em lado nenhum E aquele autor conclui com esta refle na-se indispensivel reconhecer que a conscién- cia individual & sempre, numa parte razodivel. 0 reflexo das opinid mesmo que se encontre em reaccdo contra essaas opinides e esses costumes» (Palante. 1913, n. 2) Por aqui se pode adivinhar quais vao ser os contetidos culturais presentes no voedibulo so dade. Nao somente nem principalmente 0 Estado, s ¢ dos costumes do seu meio. $ © Conjunto dos «circulos sociais» nos q Participa um individuo e as consequentes relagdes complexas. nas quais se encontra envolvido pelo facto mesmo da participagio, Em qualquer hipstese, convém procurar evitar os dois extre- ‘mos principais: «divinizar e anatematizar» a soci dade (Palante, 1913, n. 1), pois pode-se verificar sempre um sem-niimero de influ ora se adicionam e se reforgam, ona se opdem e até se neutralizam. Estamos numa certa actuali- dade, razoavelmente ambigua: «O homem ¢ pro- duto ¢ produtor da sociedade e/ou da cultura». Seria de perguntar, nesta sequéneia: tudo se equivale? E & resposta surge: nao, propriamente: Com efeito, hd uma diferenga aprecidvel entre as as que Se podem enumerar eo realgar mais fortemente das antinomias entre o individuo, jas. as quais © a sociedade. A primeira a ser equacionada vai ser a antinomia psicolégiea, pois constitu «a antinomia fundamental». Compreensivelmente todas as outras nada mais so do que extensdes, ou aplicagdes dessa. E torna-se interessante, para a andlise que aqui me proponho, perspectivi como algo na dependéncia da antinomia psi colégica: 0 sujeito & 0 ponto de partida dos fac tos, no que ao humano diz respeito. assim como. 16 das leituras de tudo o resto e dele proprio. Ac tece até un itura particularmente significativ mo representativa a este respeito, AS anti- e me nomias sao inevitaveis. Com efeito, quanto mais diversificada ¢ a sociedade mais se torna compli- cado favorecer um minimo de «ordem», a partir da acgao rot neira, mais ou menos imposta, ¢ da egulam ntagdo crescente com vista a uma certa conformidade, por maior ou menor preméncia. AA vontade do individue aspit 4 independé Iriplice esforge da vontade individual, ( municabilidade. instantaneidade. insaciabidade huma snteren sociabilidade perfeita smo Um pouco aperfeigoada ..corrigir © mats pov: Sivel 4 unidade pelo conformismo. espontaneidade pela dade pelo seguidismo. a instabilidade do, slo € plas perspectivas dos paraisos humanitirios (Palante 1913, p. 80), diversidade € a0 poser ja a sociedade esforga-se por teprimir este J unieidaude. ineo- desejo pelo apelo a res Igualmente no que diz respeito a afectividade. Duas perspectivas opostas © dois tipos de expres sdes vio aparecer com uma certa nitidez, Dum lado, vai surgir a perspectiva sociologista, segundo a qual © facto social & tem de ser, preponde: rante no que toca & expressdo dos sentimentos e emogoes, tendo em vista a possibilidade duma uniformizagao, por uma socializagao progressiva das «sensibilidades». Do outro lado, encontramos at perspectiva individualista, por vezes dita psico- logista, em forma tradicional, evidentemente. a qual afirma a sensibilidade de cada um constituir um fundo irredutivel a qualquer influéncia social Impossivel se forma, portanto, acabar com as diferengas no que toca & expresso dos sentime 10s e/ou das emogdes. O fundamento desta dit renga encontra-se na sua base: 0 individualismo, Com efeito, os individualistas tentam apoiar-se nas reflexdes fisiolégicas, segundo as quais se forma quase impossivel a unificagdo sentimental Pelo contririo, os sociologists apoiam-se nas afirmagdes daqueles, poder-se-ia dizer intelectu: listas, segundo as quais a sensibilidade individual pode ¢ deve dobrar-se perante © poder e/ou a clareza das ide’ mos, a sensibi inferior da «inteligéneia». como que uma razio confusa ¢ escondida, Com efeito, segundo viirios autores, referidos por Palante (1913), encontra- mos: «A raziio nada mais € do que um sistema de categorias impostas @ priori ao individuo pela conscigneia social» (n. 74). Por conseguinte, afirma o primado e a preponderancia do «espirito soe individual s. Até porque. segundo os mes- idade é uma espécie de forma » sobre a «alm ‘Como se pode depreender a questdo funda- mental, em termos de antinomia. & para Palante ‘a seguinte: «As relagdes entre a vida espiritual & o estado da sociedade. A vida espiritual no seu Iriplice aspecto, iteligéncia, semimento € von- lade € redutivel as influéncias sociais? E favore- cida ou contrariada por elas e em que medida?» (1913, pp 75-80). ‘Toma-se compreensivel. na ciéncia psicolgica actual, que na vontade, que é actividade-manifes- tugdo de afectividade, assim como no sentimento e na emogao, igualmente expressdes afectivas, se encontrem oposigdes, mais ou menos vincadas, entre 0 individu e a Sociedade, Mas tom fortemente problemdtica a compreensibilidade da oposigo ou conilito ou antinomia entre as duas realidades que so a inteligéncia ¢ a sociedade. No entanto, para Palante, trata-se dum facto bem caracterizado. Com efeito, os partidirios do monismo sociol6gico — Durkheim e Daghicesco — tentam reduzir tudo, fisiologi € raga, ao determinismo soci por seu lado, criticam directamente 0 epifenome- nismo de Maudsley € Ribot (Palante, 1983, 8 ¢ 9 g,), os quais fazem derivar as formas supe- riores da intelectualidade humana do viver em sociedade, A cerebralidade & um produto do meio social. Em boa tradigao lamarckiana, afirmam: ‘0 meio e a necessidade de se adaptar tansformam € como que criam o érgdo. Nao € a sociabilidade que resulta da cerebralidade, é a cerebralidade que 1. Diferentemente. resulta da vida social. A consciéneia seri um epi- fendmeno. nao do orginico mas do social. Atir- mam textualmente: «A condigdo essencial que estahelece a diferenga entre o homem e os animais deve-se ao facto de © homem se desenvolver em sociedades em cre mento, enormes, ao passo que ‘© animal se encontra a maior parte do tempo iso- {ado ou também pode viver em bandos, mas desde sempre estaciondrios e restritos» (1913. p.9). Por outro lado, 0 seu cepticismo em relagao a hereditariedade, aos elementos fisialdgicos. corresponde a um acto de fé no factor tinico que € a socialidade, através da actividade educativa. Daqui. para o . & behaviourista ou a reflexiologista, é um passo de palavra. A hase da explicagao € o paralelismo, estabelecido entre a evolugao social. dum lado. e, do outro, o grau de aperfeigoamento € afinago. das inteligéncias. Ap6s uma longa andlise e do debate sobre a realidade do social ¢ a realidade do individual, Palante sintetiza: «As razdes que nos levaram a conceder ao individuo uma certa realidade fisiolégica e psicol6gica, independente da socie- dade, arrastam como consequéncia a possibi dade te6rica duma antinomia entre 0 individuo a sociedade» (1913, p, 27). Mas isto no que diz respeito & forma de manifestagdo da inteligén- cia, 0 que a torna menos compreensivel hoje. & nio ser para aqueles que advogam at «dissondn- cia cognitiva» (Festinger, 1957). Mas. se focar- mos 0 modo como essa inteligéncia se exerce. encontramos un novo tipo de antinomia., a qual consistiria no conflito entre a intuigao ea nogio, sendo esta constituida pelo senso comum ou «0 espirito social» e aquela pelo senso proprio ou sespirito individual» (1913, p. 30). Resta 0 problema da verdade. Este problema reveste, por sua conta, duas facetas: a verdade em perspectiva racionalista ou intelectualista, 0 mesmo € dizer. de clareza e distingio entre as ideias, concordincia entre as ideias e as coisas & aca, em suma, relativamente 7 ntre os juizos acerca das coisas; a verdade em perspectiva pragmatista apareceria com as carae- teristicas de utilidade e de eficiéncia. Em ambos ‘0s casos. porém, comporta sempre uma fungao social: unificagao das inteligéncias, disciplina intelectual e, consequentemente. factor de coe: social. Basta lembrar ter sido sempre ela, a ideia de verdade. a cidadela dos dogmatismos, a ped angular das ortodoxias ideoldgicas, desde a ci cia & moral, desde a filosofia a religido. Dos racionalismos correntes, claramente dogmaticos. © mais forte hoje & racionalismo «ciemtista». entendamos, experimentalista. E ele que hoje aspira & hegemonia social, quer sob a forma de exclusiva verdade, quer sob a forma de ou «racionalismo téenico» (Palante, 1913, p. 38). Finalmente. haveria a considerar 0 uso © os objectivos da inteligéncia depois de a termos considerado na sua origem ou génese e no objecto. Aqui encontr: antinomia entre socialidade e individualidade Uma pergunta fi amtinomias? A resposta & facil, se tomarmos 0 vocabulo antinomia no seu sentido mais viven- ial do que l6gico. Com efeito, em termos de pares de nogdes contraditérias, acontece uma exclusio reeiproca. Em tal sentido nao & pla sivel tal antinomia, pois nio s6 ndo ha sociedade sem individuo, nem acontece individuo humano algum a ndo ser que seja em grupo hum mais ou menos extenso. Em perspectivas con- traditorias. torna-se admissivel a antinomia, Com nem de ea mesn 10 eleito, a exclusdo reeiproca nao € tot totalidade I6gica nem de totalidade vivencial Trata-se apenas dum totalidade diddet pedagdgica. cujo objective consiste em realgar ‘5 fuctos e as perspectivas ou em realgar a alir- magao pessoal, a propésito ou a pretexto do tema, Restaria uma tiltima hipétese: a exclusio dos dois termos da antinomia. Aqui encontra- mo-nos perunte certas tomadas de posigao em que se procura proclamar o niilismo dos factos, is ou das perspectivas, ou dos dominios do saber. E aqui vem com particular propésito: seria a posigdo das antinomias em tomo da psicologia para impor a ideia da impossibilidade da cigneia psicolégica em moldes experimentais. Neste sen- tido: como é impossivel objectivar 0 subjectivo, nao pode haver psicologia, diz-se (Santos, 1972) No que ao texto de Palante se refere, temos que a antinomia entre individu e sociedade acontece em perspectiva mais. predominante- mente viveneial, de vivencia das pessoas, a par- tir da opgao efectuada coneretamente por um dos dados da antinomia. Por outras palavras, como o refere Palante: antinomia pode significar que duas coisas se encontram numa relago tal que o desenvolvimento duma acontece 2 custa do da outra, uma tende a destruir, a diminuir ou a enfraquecer a outra (Palante, 1913, p. 272), 3. Uma pergunta. Neste ponto ou momento seria de perguntar singelamente: em qualquer hipstese e em termos epistemoldgicos, sera legitimo falar de antino- mia entre individuo e sociedade? Tal pergunta pode justificar-se se tivermos presente uma ou- tra, subsequente e antecedente a0 mesmo tempo. Por outras palavras, uma pergunta radical: se a antinomia nao s manifesta ou nao encontra apoio nas vivéncias, a vivencia de cada perso- nalidade ou individuo traduz 0 qué? Comecemos pelo principio. Qual sera o funda- mento que leva G. Gurvitch (1957) a apelidar sim- plesmente de «falso problema» aquilo que consti- tui o problema de fundo em Palante,como resumo de tantos manuais de sociologia e de antropolo- gia, de psicologia € mesmo de psicossociologia? Gurviteh, por sua conta, & frontal no subtitulo que aduz: «O pretenso conilito entre individuo & sociedade» (Gurviteh, 1957, n, 36). E em hipétese de reflexdo a este propésito, a sua altemativa tem, imteresse, No entanto, € desviada do nosso objec: tivo por ser desviante, na medida em que nega validade epistemol6gica & psicologia social, por negar mesmo propria psicologia Convém notar que © pretenso conflito entre individuo e sociedade, muito antes do advento da sociologia, jd era um dos temas preferides dos mais variados exercicios de ret6rica. Por isso sub- siste, ainda hoje, uma razdo a mais para © demun- ciar no contexto desta reflexdo sobre os eaminhos da psicologia social. Gurvitch, no entanto, acres- centa algo de interessante: intimeros tecnicos, pen- sadores, fildsofos ¢ cientistas «agarravam» essas realidades como se fossem entidades abstractas, perfeitas e irredutiveis, facilmemte utilizadas em <«teses» ora individualistas ora colectivistas, ora nominalistas ora realistas, ora contratualistas, ora institucionalistas. Num passado proximo, encon- tramos Comte, Spencer, Tonnies. Spann, etc.,em perspectiva anti-individualista; Tarde, Mill, Ward, Giddings, etc.. em perspectiva individualista, Intermediariamente, véem_interdependéncia — immel, Van Wise, Weber, Park, Burgess, Mac Iver © muitos outros, ao passo que Durkheim tantos dos seus disefpulos, em Franga, Cooley & sua escola, nos EUA, se afirmam pela indepen- déncia do facto social, irredutivel aos individuos, exervendo uma coergo, maior ou menor, sobre cles (Gurvitch. 1957, p. 36). Se antinomias existem, sto-no mais na pers- pectiva do que na vivéncia, No entanto, poderia- mos formular a pengunta: a vivéneia 6 vivéneia de qué, manifesta, traduz o qué? Sem a menor diivida que a vivéncia waduz e manifesta uma de «leitura> se trata, partindo da perspectiva de que a propria realidade é a leitura que dela efectuamos, ha que a tomar como tal até que consigamos transtormé-la duma forma capaz de corresponder a totalidade do real em observa- Ho, na fundamentagao duma «leitura> diferente. Vai ser 0 caso do binémio individuo-sociedade e do outro, mais actual, o binémio personalidade- «leitura», $ -cullura, Este dhtimo a tocar-nos muito mais de Perto © muito rapidamente. Vamos ver porque. Toda a historia da ciéneia, como, alids, a historia em geral, encontra-se em maior ou menor proporgdo circunscrita a um grupo, a uma organizagao ou a ou menos ramificagdes. Toda a historia da muito particular mente, apresenta-se como uma historia apolo- gética das «conquistas do espirito humano», isto 6, das grandes descobertas ciemtificas. Claro © Perfeitamente compreensivel. Como € igual- mente claro ¢ compreensivel que, pela novidade da sua apresentagao, pelo realce que recebeu em termos de divulzagao, principalmente pelo britho das suas aplicagdes téenicas, cada descoberta ofusque com a sua fulgurdncia outras verdades ou outras realidades, outras pesquisas ou outras possibilidades de ir mais longe, ou mais diversi- ficada ou diferentemente, na captagao de qual- quer outra realidade em qualquer outro campo ow ramo do saber. Quase seguro, encontra-se aqui em forga a lei dos «trés estados» (Comte) a «, jd individual, js colectiva, particularmente pela sua possibilidade de afrontamento ou choque com as paixdes. Com efeito, o estado moral dum povo varia com a organizacio fisica, a raga, 0 modo de viver, 0 exemplo das classes dirigentes, a vida em familia, as variadas formas de religido, Finalmente, estado social e politico traduz ¢ a0 mesmo tempo incide sobre a Volksseele, as leis, 0s regulamentos, as normas. a seguranga ¢ as pos- sibilidades de exercer a liberdade individual. Toma-se vantajoso insistir noutras «represen- tagdes», Assim, acontece que um pouco antes de Reich, aparecia um outro som, embora mais ou menos no mesmo sentido sob proposta de Bastian (1968), revestindo-se de particular interesse para o presente propdsito: Beitrage zur vergleichenden Psychologie (Contributo para Uma Psicologie Comparada). Um tal contributo em termos com- parativos vai incidir sobre oy dados da etnogral subtitulo 0 confirma: «A Alma e Suas Mani- festagdes ¢ Aspectos na Etnografia». A reflexdo distribuiu-se por és partes principais as quais permitem a Bastian demonstrar © caminho per- corrido pela ideia de seele: © conceito dum ele- mento psiquiico: os antepassados e os manes; a patologia dos absessivos e os curandeiros, € fécil supor, a partir do que fica dito, qual 6 caminho seguido por Bastian. Com efeito, hii um fucto mais relevante @ apa indo este autor. E o seguinte: «Encontramo-nos rodeados de maravilhas varias. cujas explicagdes nos escapam. Deste modo, ao longo dos séculos. na variedade dos espagos, foram inventados, transmitidos e/ou transformados usos varios, rituais diversos.pré- ticas curiosas e “narrativas” intere: anto icularmente estéticas e duma faceta pedagdgica» (Bastian, 1868, p.45) De tudo isso Sao prova ou demonstracdo os variados com- portamentos humanos a permitirem uma psicolo- mais quanto pa gia comparada ou uma comparagio das expres- sOes pessoais. referenciadas a grupos diversos, Este estudo comparativo permite a qualquer in- vestigador libertar-se proveitosamente de «esque- mas» de observagao e de andlise. tio «correctos» quio parciais, permitindo-the atingir 0 humano. tanto quanto possivel na sua globalidade. Em Der Volkergedanke im Aufbau einer Wissenschaft vom Menschen (o pensamento do povo na construcio duma ciéncia dos humanos), Bastian (1881) pro- pode que, muito para além de muscus etnolégicos completos onde penduramos vestes, armas e uten- silios variados nos «preocupemos com estudar as diferengas inventariadas, em termos de linguas, costumes, tradigdes, instituigdes, leis, reli (Bastian, 1881, p. 28). Deste modo nao corremos © risco de perder tudo © que duma forma ou doutra nos pode falar do humano, no passado e no presente. Esta sim, seria a psicol ia dos povos, para melhor compreender a personalidade em grupo e assim chegar a psicologia, simplesmente, enquanto anilise cientifica do humano. Especifi- camente. ou Seja, ndo apenas a partir da vivéncia do contacto com esses produtos em grupo. Por outras palavras, a psicologia pode ser, correcta mente, uma ciéncia experimental, a tirar proveito desta gakixia de informagdes no sentide de ir construindo uma «ideia> mais adequada sobre 0 humano que somos: psicologia social Neste sentido, © servigo a prestar pela psi- cologia social ja se pode adivinhar. Desde hi bastante tempo, no entanto, A. Schaeffle (1881) sugeriu algo com bastante interesse. Num titulo @ deixar-nos indiferentes pela sua generosidade. Bau and Leben des socialen Koerpers (Orga- nizacao e Vida do Corpo Social), reflecte duma forma interessante. Apesar de tratar da «organi- zagio da vida», curiosamente, do «corpo social», mais contrastante ainda, pela em viirias. pus: da psivologia social. Para 0 autor, a sociedade compreende dois ele- mentos — um passivo e outro activo, ou s sagens para a importine ~~ coisas © as pessoas. Por outro lado, 0 humano, . Por nasee numa sociedade e para uma sociedad isso, € socidvel. cria novas formas de societ para aracterizar novas formas de interacgdi Schaeffle utiliza mesmo uma comparagao: os seres vivos compoem-se de moléculas mater no entanto, ay moléculas enquanto tais nao s vivas. Do mesmo modo, a sociedade & composta de individuos e de coisas. Nem uns nem outros sio sociedade, mas, ou por isso, intermediaria- mente. apareceu 0 grupo quer de referencia, quer de pertenga ou os dois. Consequentementee con- tinuando a comparacdo. assim como no corpo hi fibras e giinglios, etc.. no grupo as fibras sdo as formas € os meios de comunt em sag. 08 qua vez de movimentos nervosos, transmitem sim- bolos, veiculos das ideias, diversificadas quase aé a0 infinito, Por isso & que os individuos e/ou 8 grupos podem trocar ide’ E assim se forma a «vida psicol6; sociedade». Estamos em psicolo as. |. Mais propriamente, em psicologia da vida social ow «na vida psi- colégica da sociedade>. Por outras palavras: existe uma «consciéneia social de que emanam, ‘40 menos em parte, as consciéncias individuais» {(Schaetfle, 1881, p. 105). No entanto, estas nao silo ménadas independentes. Desta forma torna-se ficil explicar certos fendmenos do género «epi- demias morais», a falsear ou perverter as von- tades, a favorecer resolugdes comuns, ajuizamen- tos partithados sobre os outros, sobre as coisas ou sobre os acontecimentos, sobre os gostos publicos ou sobre os costumes (Schaeffle, 1881, p. 78). Encontra-se aqui uma perspectiva ainda hoje cortente, a do contagio social. No entanto, é bom notar, as ci ram-se abert ns S. por si mesmas, encon- consequentemente, as ideias e, transformagio. Curiosa forma de falar do que mais tarde foi, entre outras coisas, a «estrutura bdsica da personalidade» (A. Kardiner, 1939) € ainda a «sociogénese» (Santos, 1987). Por este lado, poderia dar-se realee a outro autor, Vierkandt (1896) inelina-se mais claramente para a psicolo; ial do que para a psivologia dos povos. Com efvito, no the interessam os drags» comuns as individuais, duma nagao, duma raga. O que pretende € dispor, regularmente, em torno dum centro psivoligico, a diversidade dos factos sociais. Um tal eentro € constituido por actividades, particularmente por estas duas: 0 instinto ow setividade irreflectida ¢ a vontade ou actividade reflectida. A primeira seria a dos selvagens & a segunda a dos eiviliza- dos, Esta perspectiva constitui o fundo do livro Naturvoetker und Kulturvoetker (Povos Primiti- vos ¢ Povos Civilizados). E em subtitulo: «Ein Betrag zur Socialpsychologie» («Contribute para a Psicologia Social»), Nesta perspectiva, mais ou menos dicotémica, se podem compreender as vit riagdes dos costumes, dos usos. das ciéncias e das como das religides: em conformidade wconsciéncias» com as actividades fundamentais dos humanos. Vierkandt, ao enumerar as caracteristicas do instinto, define © tipo de vida dos povos instin- tivos: Vida apaixonada, sem fins previstos, do que resulta a sua forma de deixar corer, a permitir uma forma de jogo de que resulta uma alegria con- fiante, despida de preocupagdes, agindo a0 sabor das circunstincias, fisicas € sociais. Por outro lado, a actividade de analogia e de metéforas. base das mitologias é-hes familiar, assim como um: pritica moral voltada para o exterior. O civilizado ser algo em contraste total com o selvagem De actividacles livres, forma projectos varios pars objectivos de interesse e, por isso, age indepen- dentemente das circunstincias. vive ocupado, sobretudo preocupado com futuro na maior parte dos dominios, capitalizando sob as-mais diversas formas para o depois. Em conseqi nia, mostra uma auséneia notéria de bom humor, de alegria de viver ¢ de dominio da inquietagao. As ideias so coerentemente ligadas e os actos apon- tam para valores que di ‘4 moral a forma de algo POF Sua Vez, Vali incidir Sobre a ‘ordem parece divina quando é Economia politica previdente, arte criativa. ciéncia explicativa, conscién valor eum a cumprir. religido. Toda moral 1 esclarecida pelo j0-moral constituem a predomi sobre 0 instinto. Vierkandt nao pretende. est’ bem de ver. que existam efectivamente estes dois grupos, nem apenas estes dois grupos. Trata-se mais propriai- mente de protétipos, a permitirem todos os matizes. quer neles mesmos quer entre os dois. E deste modo que poderfamos analisar a grande variedade de manifestagies societais € culturais. nancia da vontad n entre estes dois extremos depende Ancia do instinto ou da vontade, Dom nando © instinto, factor de atracgao e¢ de uniao I encontra- -se no maximo. Dominando a vontade, factor de desut diragdo entre os humanos. a sociedade que se civiliza caminha para o suicidio. entre os humanos, o sentimento soci Obomem & um animal social nd ¢ un animal eivilizado. O instinto une. a vomtade separa: onde domina o instinte 4 soviedade € forte © temos a bathsrie: onde a vontade c. E clara domina, na eivilizagio. 1 sociedade enfraquecs intinomia entee & sociedude e a eivilizagio e a harmoniat entre a moral A civilizagio. A vivilizagioé uma flor rara ¢ ofémera. nt Hist6ria da humanidade, come a sotividade voluntiria do individuo (Vierkanalt, 1896, pp. 5. 24-6 26), convém reter nesta caminhada: na diversidade das formas de interacgao ¢ des con- teidos interactives em foco, o humano encon- tra-se todo, por inteiro, a justificar, pela sua eria lividade, a diversidade das manifestagdes. Apesar de toda esta reflexdo, com um certo interesse. enfermar de generalidade pronuncis- da, € bom colocd-la em foco, pois encontra-s a frequéncia, sem as pessoas dela se darem conta. E, neste contexto duma aproxi- com magio a psicologia social, encontramos algo de mais explicito ¢ de mais significativo, ao menos historicamente, Antes de todos os autores, seria de focar com um certo relevo Lilienfeld (1873): Gedanken Ulber die Social Wissenschaft der Zukunft (Reflexdes sobre a Ciéncia Social do Futuro), Que 0 autor «olhe» a sociedade como um organismo, aceita-se embora se discuta. Apesar disso, no segundo tomo da sua obra as Leiy Sociais. j4 aponta para um sentido diferente do direito e da sua consagrago em termos de pre- ceitos. No terceiro tomo, no entanto, a come, pelo titulo hi algo de significativo: Psicofisica Social. Desde o inicio, adentro das tentativas de atribuir 4 psicologia um lugar no dominio dos saberes experimentais, logo apareceu um esboco de perspectiva psicolégica. Se Fechner (1860). qualquer que seja o significado da sua obra Ele: mente der Psychophysic (Elememos de Psicofi- sica). se propos realizar algo de diferente no domi- nio da investigagdo sobre 0 humano, em plena euforia da antropologia fisica, amplificada com a divulgag: ivas de Darwin e outros, do mesmo modo ¢ logo no inicio alguém se propos perspectivar a psicossociologia, qualquer que seja © valor da sua obra. Importa, isso sim, realgar que @ perspectiva psicossociolgica brota espontiinea em momentos de observagiio do humano. Indu- bitavelmente trata-se dium esbogo, claramente real, do que pode v pricologia social, quer quanto ao objecto de estudo, a interacgdo, quer quanto ao método rigorosamente cientifico, dentro dos quadros representacionais da época, acilmente identificados no sentido da sua propria superagio. Como seri pratieado na sequéncia. Jai antes de Lilienfeld (1873) © mesmo de Fechner (1860), algo de interessante, mesmo de curioso. ra sera 40 menos para © nosso olhar de hoje. estava acontecendo, Ventilou-se, duma forma inédita ou significativa, no titulo € no contetido, duma obra: O Humano e 0 Desenvolvimento das Suas Potencialidades (Quételet 1835). A sua Wineim Wunatt 1832-1920 proposta, expressa no subtitulo «Ensaio de Fisica Social». consistia em aplicar a estatistica aos fenémenos «morais», para implementar a teoria do «homem médio» Neste contexto e sem afirmar nem infirmar a validade ~ para aqui irrelevante ~ convém praticar uma breve referéncia a Wund. © menos conhe- cido talvez mesmo simplesmente desconhecido pelas histérias da psicologia, tendo presente a divulgagio, através do paradigma fisico-mate- miatico ¢ biofisiolégico, da sua obra: Grundzu: der Psysiologischen Psychologie (Principios ow Elementos na Psicologia Fisioldgicay (Wundt, 1874). No entanto, basta e é fundamental lembrar a Voelkerpsychologie (Psicologia do Povo) (Wandt, 1900) para se nos deparar uma contra- partida notavel para uma ideia inadequada da psicologia e, no 0. redutora dum pensamento e de perspectivas largas e diversificadas. O proprio Wundt o afirma mais ou menos por estas palayras: so intimeras e ficas as fontes de informagao objectiva que se oferecem a psicolo |. promet » interior, engana- impraticdvel. Mesmo limitando-nos. a0 simples dominio dos facts, nada ha a temer. A sua vasta Volkerpsychologie encor aleance de todos ¢ apts a demonstrar que a vida, os costumes, as tradigSes, as crengas. a pripria linguagem dos «povos selvagens» oferecem uma matéria demasiado vasta i investigagio ciemtifica. oa Wundt vai mais além © quase preanuncia, insis- lindo que o estado psiquico destes poves € 0 resultado de circunstincias tao complexas que podem eseapar — escapam e escaparam — a obser- vagdo desarmada. E acrescenta: é lamentivel que até hoje 1 yrancado a estes documen- tos um tinico facto em perspectiva psicoligica. E, no entanto, encontram-se elementos dum ele- vado interesse psicoligico nas «cosmogonias» tradicionais dos «selvagens», assim como nas «mitologias» dos povos civilizados. Em ambos os casos, quanto hi a esperar duma releitura desses dados arqueolégicos v 10s ndo apenas como pro- dutos mortos, mas. como vivéncias vivas de pes- soas ¢ de grupos. Tais dados foram desconsider dos. desprezados por vezes, mesmo destruidos, até materialmente, sob pretexto de inutilidades supersticiosas, para uns e para outros, de crengas obscurantistas. No entanto, a partir duma inter- pretacao hicida e aprofundada ou diversificada de todos esses velhos documentos literirios ~ orais c/ou escritos ~ tio importantes se ndo mais. to Ficos se nao mais do que os monumentos em. materia dura, revelar-se-d algo bem desconhecido, Toda essa literatura, oral e/ou escrita, muito poderi: contribuir para mais adequada leitura- o, isto é, para mais especifica obser- vacdo cientifica, do humano ¢ dos humanos. atra- ves da andlise da linguagem e dos seus contetidos mais do que das suas formas, adentro da comu- nidade humana e de cada comunidade humana. Jd amtes, convém frisi-lo, se exprimia um por- igués lticido, em contacto com as populagdes kiokas que 0 maravilhavam: «Tendo-nos como modelos... as realidades que vemos, levamo-las & conta de selvajaria, para com desprezo tratarmos © negro e chegarmos 3 triste e errénea conclusao que queremos faga eco no mundo civilizado: de que os povos da Africa sao brutos e como tails $6 a liro se podem submeter aos nossos usos © cos- tumes; ou entio que deles nada Se pode fazer por serem rebeldes ao ensino» (Carvalho, 1890, p.45). Tinha afirmado paginas antes: «Se ha estudo que 1 mais sossego de espirito © maior impa alidade de opinido &, sem contestagao alg das tibos africanas com que se logra estar em contacto; e, sem este estudo despreocupado, a etnografia ndio pode progredir nem fixarse em bases seguras» (Carvalho, 1890, p. 4). Propostas preciosas contra 0 etnocentrismo, seja de qual cor for ou mesmo de cor neutra, este a negar validade e valiosidade A ciéneia e a pritica psicol6: particularmente de psicologia social Volkerpsychologie. Wundt realga a lagem que pode trazer para a com- preensio da personalidade a andlise dos fend- menos que resultam da acgio psicol6; proca. Consiste nisto © papel da «psicologia éinica: «Observar cuidadosamente os fenéme- nos psicolégicos que se encontram na base do desenvolvimento geral das sociedades humanas edo aparecimento dos produtos colectivos dum valor geral» (1901). A seguir avanga mais esta ideia curiosa: a psicologia étnica diz respeito a alma e nao ao espirito, A ideia de alma, com eleito, © de fendmenos psicoldgicos comporta sempre a relagdo a um corpo, os fendmenos ps coldgicos sdo-nos dados, ligados a um corpo. E a alma colectiva (Volksseele) € tio real como alma individual. Observagao mais pertinente ainda ¢ esta: os fenémenos sociais ndo sdo nada que possa acontecer fora das almas individuais a alma colect m_um produto (ndo um somatério) das almas individuais de que se compde (nao é mistura); estas, por sua vez, sio igualmente produto das almas colectivas de uma,o "aS, ae fa € ass que fazem parte. Wundt atribui_ mesmo como objecto cientitico & psicologia étnica: a) os problemas do mito, a pensar nos comegos das religides: b) os problemas dos costumes a pen- sar na ori em, formagio e desenvolvimento da cultura; c) os problemas da linguagem, a pen- sar nos movimentos de expresso (critieando Darwin e Spencer para realgur as expressoes de intensidade. de qualidade e de representacao das emogdes), a pensar na linguagem gestua |. com particular realce para a facets simbélica, a pen- sar nos son: na sua faceta natural ¢ na sua trans- I. © a pensar finalmente na palavra, particularmente na sua faceta espeeifica de linguagem, constituida pela lingua (Wundt, 1880). Este realee dado linguagem tem um significado especial: a linguistica pode ajudar a psicologia a atingir um ideal claro de objec: lividade, do qual beneficiaria, por sua vez. a propria linguéstica. Quem for capaz de analisar 4 histéria duma palavra, ao longo de milhares de anos. consegue captar a histéria duma ideia enquanto fenémeno cultural. Isto prende-se com a importancia atribuida por Wundt (1885) a representago (Vorstellung). Esta constitui, com feito, a faceta objectiva (curiosamente) em relagZo ao sentimento, posto, por sua vez, a sensagio (ou impressdes sensoriais directas). a constituir a faceta subjectiva. Ao contririo de Herbart (Ribot, 1876), 0 qual faz derivar 0 sen~ timento da representagio, Wundt v@ nas duas. expressdes humanas fenémenos coordenados dum s6 © mesmo processo. A dificuldade sub- siste em clarificar as diferengas entre fuhlen (sentir), begehren (desejar) € wollen (querer) ©, consequentemente, a relagdio de cada uma dessas actividades com a representagio. Pro- blema que se encontra em Novikov (1897) com a chamada «consciéncia social» e, particular mente, a «vontade so }». Social, como? Soma ou Sintese ou outra coisa? Assunto para outro espago (Santos, 1978). 26 5. A terceira possibilid radical Je ou polémica Encontramo-nos uma vez mais com o vocd- bulo sepresentacdo. A variedade dos seus contet- dos pode receber alguma elarificagao. se nos ati- vermos & sua primeira grande apli dominios, obra ot iniciativa de Durkheim (1898). Sugeriria que se trata duma reflexao fundamental PARI oO nosso propdsito, A psicologia social nao tem aqui nem camino nem descaminho. Pelo contratio, encontra aqui uma rampa de langa- ‘mento para muita da sua originalidade. E isto por varias razdes. A primeira, por exemplo, aquela que ressalta das posigdes de Durkheim (1898), dizendo nao ao sociologismo biol6gico, ao biolo- ismo psicoligico ¢ ao psicologismo bios légico (Durkheim, 1998. pp. 296-7 © 302). Mas ainda se encontra tanta gente a racio- cionar dentro destes esquemas tradicionalistas! E tudo isto, porqué? Por causa do abuso das ana- logias, por outras palavras. por virtude de conver- ter a analogia em demonstrago. Claramente: 10- A sem-ravaio dos socidlogos biologistay nd consiste, portanto, em usarem da analogia, mas de a terem usado ‘mal, Quiseram, no controlar as leis da sociologia pela da biologia. mas inducir as primeiras das segunda. Tas infe ilo possuem qualquer valor: com efeit da vida se encontram na sociedade. € sob formas novas e com caracteristicas especificas que a analogia nde permite sequer conjecturar e que. por outro lado. $6 podem atingir por observagio directa (Durkheim, 1898, p. 273) Uma segunda reflexao coloca-nos no objective que directamente procuro atingir, apoiando-me em Durkheim: Max € ainda muito mais sstural procurar as analogias ‘que podem existr entre as iis sociol6gicas ¢ as Ics psico- Porque estes dois reinos encomtram-se muito mais jamente vizinhos um do outro. Avid colectiva com) vida mental do individuo, consist et es: consequentemente, € presumivel que representag individuais ¢ represemagies sociais sejam. até cesta medida ‘compariveis. Vamos, efectivamente. tentar mostrar que umas € outras comportam © mesmo tipo de relagies com seu substrato respectivo, No entanto, esta aproximagdo. longe de justilicar « convepsao que red ja a ser apenas lum coloririo da psicologia individual, awentuard, pelo com Unrio.o realce da inelependéncia relatva destes dois mundos ias (Durkheim, 1898, pp. 273-4), ce destas das cién Muito mais facil se torna, deste modo, libertos das estereotipias do pasado. ainda cultivadas no presente. por anacronismo, evidenciar a especi- ficidade da psicologia social. especiticidade ja real ¢ ainda tomar muito mais real no futuro, Se tivermos presente que as representagdes comti- nuam a exist, jd porque se pode demonstrar essa persisténcia, jd porque agem umas sobre as ou- tras. autonomamente em relagdo ao estado dos centros nervosos... Ou Seja, a vida representativa, porque ndo é ineremte « para um individuo é, em certo grau, detectada pelo que € socialmente aceite «como tal», «A realidade difere de acordo com 0 grupo a.que 0 individuo pertence.» E interessante notar que estas investigagdes no partiram de uma hipotese completa e que se foram desenvolvendo, ao longo do tempo, de acordo com a intuigées de Lewin. De inicio apenas dois tipos de lideranga foram considerados, democri- ee 4 tico e autoritrio (uma vez que subjacente a inves- tigagdo psicolégica havia uma clara preocupagio de contrastar sistemas politicos, democraticos ¢ totalitarios), $6 mais tarde se reconheceu a ne sidade de avaliar © papel da lideranga laissez -faire (laxista). Por outro lado, por influéncia de Lewin, foram Lippitt ¢ White que desempenha- ram, cada um deles, os varios papéis de lideranga dos grupos de escuteiros. Lewin afastava-se aqui da postura classiva do investigador de fisica, como observador independente dos fendmenos, come- cando a estruturar a sua ideia de observador par- ticipante e de investigagao-accao (Lewin, 1951). Nestes estudos os grupos de rapazes eram avaliados em termos de produtividade (executa- vam tarefas tipicas de escuteiros), de satistagao e de comportamento emergente, tanto em cada uma das situagdes como quando mudavam de umas para outras. Se a lideranga demoeratica é a que induz maior satisfagao e cooperagao, nao é a que leva a maior produgao. Isto acontece na situa mas com muito menor satisfagao. Nela os escutei- ros perdem a iniciativa, tornam-se inquietos, des- confiados e agressivos criam bodes-expiatorios. A situagio laxista é a que produz piores resulta- dos em ambas as avaliag Quando os rapazes sdo transferidos da situa- do laxista para a autoritiria, ficam assustados ¢ perturbados ¢ distraem-se da finalidade do tra- balho em grupo. Lewin escreveu que 0 que mais o impressionou nestes estudos foi ver a cara dos rapazes no primeiro dia dessa transiga0. Verificou-se também que a mudanga da situa- 40 autocrética para a demoeritica, que & bem-vinda, demora mais tempo a estabilizar que a inversa. A este propésito, Lewin comenta que «. Contudo, 0 estado da arte nunca pareceu tao simples como aqui se esquematizou. Os psieslo- ' estiveram desde sempre interessados em algo mais complexo que © comportamento observiivel. isto é sempre visaram mais dispo- sigdes comportamentais. persistentes (atitudes, crengas, motivos, valores, ete.) que aquilo que simplesmente os sujeitos fazem e dizem, Por outro lado, ¢ também desde sempre, os estimu- los sociais virtuais, antecipados, imaginados ou SUMARIO DO «MANUAL DE PSICOLOGIA SOCIAL», DE ROGER BROWN, NAS EDICOES DE 1965 E DE 1985 (Roger Brown, 1965) ~ Uma base de comparagio 0 comportamento social dos animais Dimensdes bisicas das relagdes interpessoais Estratificagio apes e esterestipos © A socializagio da crianga ‘O desenvolvimento da intligéncia “Linguagem: o sistema de aquisiglo: 1 Fonologia e gramatiea H— Linguagem, pensamento e soviedade ~ Personaidade e soviedade O motivo do éxito “A personalidade autoritéria © a organizagio das at- tudes = Processos pricol6gicos sociais © principio da consisténcia na mudanga de atitudes Impressdes da personalidade, inclusive da propria inimica de grupo Aguisigdo da moraidade, ‘Comportamento coletivo e a psicologia da rultidio Roger Brown, 1985 ~ Forcas sociais na obestienciae rebeliio — Algumas questies da libertagao sexual = ‘A personalidade andrigina a eer cau ee Wes Sore I 6a personalidade ® Altruismo ¢ afecto aera es = hea ca ee = Linguagem ¢ comunicagio® © leigo como cientistaingénuo ASS AE Viés sistemitcos na atrbuigdo Lepaen Speen . ‘Comunicacio nio verbal eregisis de discursos ~ Algumas questdes psicolégicas ‘emificasio por testemanha ~ Coniito étnico [Nimoro de pessoas no jie a regra de decisio tnocenitismo e hostlidade sterestipos= Resolugo do confita ‘Saude € comportamento social. * Questdes com alguma eontinuidade, = Xi OO Inventados foram parte integrante da sua busca. A capacidade inventiva, a comegar em Lewin © em Festinger, permitiria estabelecer métodos especificos e € o seu éxito na situago de labo- ratério que ainda hoje explica a domi cognitivismo social. Pode. ainda, encarar-se o desenvolv imento da reia social americana como uma resposti fincia do ica e articulada para resolver problemas s. Esta vertente, mais ligada a relevancia da disciplina que & sua generalidade, ¢ mais ligada 40 método que teoria. foi acentuada por suces sivas crises, por diversos movimentos sociais, entre os quais © feminista ¢ 0 estudantil no final dios anos 60, pela necessidade de captar fundos Para a investigagao e ainda pela preocupacao ctescente com questdes éticas. (Os procedimen- {oy manipulatorios dos sujeitos praticados pelos a Pioneiros foram fortemente contestados.) O pa- pel de Lewin neste dominio foi também. como. se vin, de Roger Brown (1965 ¢ 1985). separadas por vinte anos. ndo teri di iperceber desta vertente (caixa 2). O mesmo se diga das edigoes do Handbook of Social Psychology. Na passa- gem dos cinco volumes anteriores aos dois da Presente edigdo (Lindzey e Aronson, 1985). 0 Primeiro retém as teorias © os métodes © os dezassete capitulos do segundo tratam dos cam- Pos especificos ¢ aplicagoes. Para onde vai a psivologia social americana’ Nada faz prever. nos préximos anos, uma infle- Xio estratégica. Comudo, assinale-se a pro siva comunicagio com a psicologia social euro- Peia. da qual se trata no capitulo seguinte. Os capitulos precedentes permitem ilustrar a muito citada observagao de Ebbinghaus (1908) sobre a psicologia e que, por mais forte razdo, se poderia aplicar a psicologia social: um longo passado e uma breve historia. Neste capitulo centramo-nos nos desenvolvi- mentos mais recentes da psicologia social, pro- curando situar ai a corrente da psicologia social curopeia, que constitui © quadro de referencia hisico, embora ndo exclusivo, das contribuigdes, para e je manual, Uma psicolo ial europeia? © conceito de psicologia social curopeia (PSE) é, de certo modo, controverso © houve mesmo alguma hesitagio em adopti-lo, Faz, com efeito, pouco sentido admitir que uma dis- ciplina cientifica possa estar submetida a cri- érios de geografia. Mas se isso é valido para as ciéncias fortemente paradigmaticas, como a . sensu lato, © mesmo nao acontece no dominio das ciéneias sociais, onde as questdes epistemolégicas esto mais sujeitas as influén- cias culturais ¢ sociais. No caso que aqui nos ocupa, e sem entrar em complexas questdes epistemolégieas, pode- CAPITULO Ill A psicologia social europeia Jorge Correia Jesuino mos aduzir vii Go de PSE, ias razOes para manter a designa- Em primeiro lugar, cla é corrente na literatura da especialidade, sobretudo europeia. Nao se trata duma categoria inventada por nés, mas a expresso duma pritica que a tradigao ja con- sagrou. Em seguida, a PSE corresponde a um movimento que se institucionalizou, ou seja, se preferirmos a terminologia de Moscoviei, é uma representacao social ja objectivada. Essa objec jo teve lugar através da criagio duma asso- ciagdo — a Associagio Europeia de Psicologia Social Experimental. A Associagao edita uma © European Journal of Social Psycho- logy (EISP), promove a publicagao duma série de monografias, organiza reunides periédicas frequentes ~ reunides plendrias, reunides Leste- -Oeste, seminarios especializados e ainda cursos de Verao, dirigidos a estudantes que preparam revis teses de doutoramento. Esta actividade institucional tem contribuido de forma significativa para a formagio dum rito de grupo e para a definigao duma iden- tidade social. Também aqui se aplicam coneei- tos desenvolvidos no Ambito da PSE, designada- mente por Tajfel e associados. De acordo com esta perspectiva, os grupos nio esto isolados, 50 mio existem no vacuo, pelo que a sua idemidade em grande parte, formada mediante meca- nismos de diferenciagao relativamente a outros grupos. No caso vertente, 08 psi logos euro- peus teriam adquirido a sua identidade reivindi- cando uma especiatidade que os diferencia da Psicologia social praticada pelos seus colegas norte-americanos. A PSE fornece um quadro ite explicar ¢ le car 0 SeU proprio movimento enquanto tal E essa é também outra razdo, porventura a mais forte. para utilizar o conceito da PSE. Uma con- firmagdo indirecta da identidade social da PSE € dada pelo facto de serem sobretudo os psies: logos europeus a recorrerem ao coneeito. Nos textos norte-americanos, a expresso nao apa de referéncia tedrico que pe rece por via de regra, nem tiio-pouco se reco nhece na pritica dos psicélogos europeus qual- quer semelhanga de estilo ou de preferéncia temitica. A psicologia social americana (PSA), po dominante ¢ homogéneo, tende ar, a ancorar como diria Moscovici, Henry Tait! 1920-1982 as priticas dos seus cole, as eUropeUs na repre: sentagao restritiva, mas com valor universal, do que deva entender-se por psicologia social 2. Orientagdes da psicologia social na Europa e nos EUA Scherer (1990), numa comunicagao recente, apresentadi numa conferénci Ciencias Sociais na Europa Ocidentab», que se realizou em Berlim, em Abril de 1990, reporta que enviou um questiondrio a cerca de oitenta psicdlogos dos Estados Unidos e da Europa seleccionados a partir cas fistas de enderegos: da Society for Experimental Social Psycholog (SESP) e da European Association of Experi- mental Social Psychology (EAESP) e onde thes sobre 0 tema pedia que identificassem os desenvolvimentos mais importantes bem como algumas das princi- pais insuficiéneias identificsiveis. na_psicolo; social nos titimos vinte anos, ou seja, a partir da déeada de 70, O questiondrio inclu‘a igualmente uma questo sobre as diferengas entre a PSA © a PSE, em que medida reconheciam os inquiridos um papel especial para a PSE, tanto no pa como no presente ¢ no futuro. As respostas obti- sssado, das por Scherer sao clucidativas: cerca de metade dos respondentes norte-americanos ndo reconhe ciam a existéncia ou a necessidade dum papel -special para a PSE, enquanto praticamente todos Os representantes europeus concordavam forte- memle tanto com a sua existeneia como p necessidade, Quanto & natureza das priticas, veri- icou-se acordo em que a PSE adoptava uma orientagao menos individualista, mais filosét ja Su € mais consciente da historia, e que se revelava particularmente forte no dominio das. relacoes iergrupo. Na melhor das hipéteses, o seu papel mitar-se-ia a dar diversidade cultural e linguis tica ¢ a moderar alguns dos excessos da PSA. As diferengas apuradas por Scherer sugerem de forma muito clara que a maioria dos psico nos adopta versal e perspectiva de que a ciéncia & u io ideoligica, pelo que nio teria sentido recorrer a critérios regionais em questdes de natureza substantiva. Em contrapartida, os seus colegas europeus re- yelam-se mais sensiveis a influgneia do factor ideolégico, determinando os temas, as teorias € 0s métodos adoptados na investigagio em cigncias sociais. E aquilo que aos olhos dos psicélogos americanos parece constituir cigneia universal revela-se, como procuram mostrar os seus colegas europeus, 0 de pressupos- tos implicitos decorrentes do sistema de valores € representagdes que determinam as suas prati- cas disciplinares. De acordo com esta perspectiva, a PSE nio se limita assim a um papel de diversificagao ou de especializagdo subdisciplinar. Ela vai mais longe. jd que, dessa forma, reivindica um maior aleance € um maior rigor epistemolégico para 0 produto que oferece. Sob esse aspecto, a PSE € nao apenas uma psicologia diferente mas tam- bém uma psicologia social alternativa, Com vista a especificar um pouco mais este aspecto Vamos analisar quais os temas predomi- nantes na PSA e PSE nos iiltimos vinte anos Recorremos para 0 efeito & comparagao estatis- tica feita por Jaspars (1986) com base na anaili de duas publicagdes — 0 European Journal of Social Psychology (EJSP) e 0 Journal of Expe- rimental Social Psychology (JESP), escolhidos Por Virlude das suas semelhangas no que se re- fere a ritmo de publicagio e énfase no método experimental. Jaspars agrupou os temas que aj reciam, com uma frequéncia dupla ou superior, numa e outra publicagiio e aqueles com frequén- cia sensivelmente idéntica em ambas. O quadro 1 4 08 resultados obtidos (laspars, 1986, p. 11). Esta comparagio, nao obstante as limitagdes de possivel falta de representatividade, fornec algumas oportunidades de comentirio. Os t6p $08 fortes da PSE so a influéncia social, asso- Ss Quapro I Popularidade dos temas no JESP e EJSP entre 1970 ¢ 1980 Gaspars, 1986) gesp>2 esp | sesp=risr | sesp>26ISP Teoria da avibuigio | Desvioparaorisco | talugncia social ‘Ajuda (helping) (rishy-shit) Processos Acie | rae” | ers Teona da cquidade: ae Autoconsciencia cates | Comparacio de teoias Corrlagio aitnde- | -comporiamento 1 ciada a0 nome de Moscovici, ¢ os processos mergrupo, associados ao nome de Tajfel. Sao, alids, os dois polos da PSE. No que se refere a influéncia social, hi que observar que se trata dum tema que fora anteriormente desenvolvido no Ambito da PSA por psicdlogos de origem e formagao europeia. E tradicional incluir nos pro- cessos de influéneia social © fenémeno da con- formidade, estudado por Asch, ¢ © fenomeno da convergéncia, estudado por Sherif. Moscovici veio enriquecer este dominio introduzindo um terceiro proceso — 0 processo de inovacio. © que hi de revolucionsrio na perspectiva de Moscovici foi ter relativizado os conceitos de maioria © de minoria em fungi do contexto social em que se inserem. Sendo assim, as expe- rigncias conduzidas por Asch prestavam-se uma reinterpretagao: 0 juizo do sujeito in; isolado, enquanto representante do senso com € 0 juizo da maioria, enquanto 0 juizo do grupo de comparsas, que emite um parecer obviamente discordamte de senso comum, passa a constituir, por isso mesmo, o juizo da minoria. E esta ci textualizagio do Jaborat6rio que permite uma reinterpretagio do fenémeno da conformidade e, ao Mesmo tempo, uma reorientagdo dos estudos énuo m, Foto: Luis Carvalho/Expresso de influéncia social centrados, a partir de entio, nos processos de mudanga veiculados pelas mi- norias activas. Hi todavia que notar que esta con- tribuigio de Moscovici viria a Ser amplamente reconhecida pela PSA. Ela inscreve-se no par digma da ciéncia normal sobretudo pelt meto- dologia experimental sofisticada que adoptou. dinica vor europeia na terceira edigdo do consa- grado Handbook of Social Psychology, editado por Lindzey © Aronson (1985), & justamente a de Moscovici & precisamente no capitulo sobre <«Influéneia social ¢ conformidade. Quanto aos processos intergrupo, tema desenvolvido sobre~ tudo a partir dos trabalhos de Tajfel, também ox podemos inserir numa linha de investigagiio ini cialmente centrada nos provessos interindividuais — 0 chamado movimento do New Look, prota gonizado por Bruner, ¢ que progressivamente se desloca para niveis de andilise mais societais A teoria da identidade social, a que ja fizemos referéncia anteriormente, € uma teoria centrada nos processos intergrupais, designadamente nos conflitos intergrupos. Mas, da mesma forma, 0 re- curso a0 metodo experimental funcionow aqui como proceso de legitimagio, permitindo a assi milagio das contribuigdes de Tajfel e seus associa- dos pela psicologia social da corrente dominante Note-se que a PSE tem uma historia ainda mais curta que a PSA, muito embora se invoque por vezes que esta beneficiou da contribuigao dos psicélogos europeus que emigraram para os EUA na altura da Segunda Guerra Mundial, enquanto a PSE, precisamente por isso, se interrompia, s6 voltando a re: iquirir expressdo a partir dos anos 60, ou seja, na altura em que comegam a ganhar forma os mecanismos de institucionalizagZo que referimos tras, Curiosamente. deve-se sobretudo a iniciativa de os sociais americanos, e designadamente de John Lanzetta, a constituig Europeia (Tajfel, 1972; Jaspars, 1980; Doise. 1982: Nuttin, 1990). pelo que por vezes se observa, ironicamente, que também aqui 0 cdo veio a mor- der a mao do dono. Esta emergéncia tardia da PSE ajuda, por outro lado, a explicar que. ndo obstante as zonas de distintividade relativa, haja igualmente uma série de temas que mobilizam idén- tica aos psicdlogos sociais de ambos os lados do Atlintico. E- mesmo quanto aos temas predomi- nantemente desenvolvidos sobretudo no Ambito da PSA. como designadamente a teoria da atrity 4 atracgo interpessoal © outros, também na PSE: se encontram numerosos estudos utilizando pa digmas © métodos idénticos aos dos seus colegas norte-americanos. Um trago que todavia marca toda ou pelo menos grande parte da PSE, mesmo, quando aborda temas como a atribuigdo causal, é a preocupagiio em inserir a explicagao num contexto social mais alargado, centrada nos grupos ¢ na sociedade (Doise, 1982). Numa palavra, wma psi- cologia social mais social (Tajfel, 1984). O quadro comparativo de Jaspars foi recente- mente actualizado por Scherer (1990) por forma a cobrir 0 periodo de 1981 a 1989. Os resultados constam do quadro Il. Quapro I Popularidade dos temas no JESP e EJSP entre 1981 ¢ 1989 (Scherer. 1990) JESP > 2 EISP JESP=EISP | JESP> 2 ESP Mudanga de atitwde | Cognigfo social | Processos ‘AuracgSe interpessoal | ‘Teoria. da atribui-| intergrupo ‘Autoconsciéncia | gio Comunicacio Covrelagio atitude- | Influéncia social | Agressio -comportamento Percepgio de grupo Emogio e smotivagio Viirios aspectos poderiio ser aqui salientados. Em primeiro lugar 0 abandono de temas como o risky-shift. a equidade © © comportamento de ajuda, ilustrando o fenémeno da moda, sempre muito referido como um dos calcanhares de Aquiles social, que os temas da comunie: ‘minantes neste periodo na PSE, refi mente tendéncias apenas conjunturais. Nao € de excluir Em seguida, ¢ talvez seja este 0 aspecto mais relevante, os dados parecem sugerir uma cena aproximag: PSA ¢ a PSE. Muito embora os processos inter- grupo continuem a construir um tema forte ni ntre a no mesmo convergénc PSE. tal como a atracgao interpessoal e a autocons- cigncia parecem interessar sobretudo os psivslo- £08 americanos. © que entretanto se verifica é uma frea alargada de convergéncia ¢ sobretudo: uma wengio igualmente panilhada para com os pro- ccessos cognitivos, evidenciando a aceitagdo gene ralizada da revolu Zajone. 1985). Idéntica convergéncia se verifica no te da influéncia social, af porventura com a contri- buigdo dos psicélogos curopeus, mas, insistimos, sem que tal signifique mudanga de paradigma. Esta convergéncia entre psicélogos. sociais pode, todavia, explicar-se pelo facto de a com- 1 33 » ser estabelecida em termos de psico social experimental. Jaspars (1986). no depoimento pessoal que nos deixou sobre este tema, também acabara por concluir que as duas psivologias sociais sto mais interdependentes do que antagénicas, limitando-se © papel social da PSE a contribuir para criar uma maior diver- sidade tematic Tais conclusdes poem novamente em a inovagdo duma PSE enquanto orientagao epis- temolégica especifica ¢ concorrente com a psi- e analitica usa cologia social normal. praticada no apenas pelos psicélogos sociais americans mas por todos aqueles que adoptam exclusiva ou pre- dominantemente 0 método experimental Esta dificuldade tem as suas raizes numa mbiguidade que percorre a PSE desde 0 seu inicio e que consiste justamente na tendéncia de conciliar 0 método experimental com wma psicologia social mais social. Tal conciliagio. 3 avaliar pela evolug%o que se verifica em psicologia social. parece todavia cada vez mais problemitica Note-se, com efeito, que a prépria Associa- 40 Europeia adoptou 0 qualificativo de expe- rimental, a exemplo do que se verifi O mesmo sua congénere norte-americana se verifica na publicagiio European Journal of Social Psychology, mas & bem conhecido que 4 politica editorial privilegia o método experi- mental, E tentador fazer aqui um processo de intengao: os psicdlogos sociais europeus preten- deriam, por um lado, beneficiar das vantagens que © método experimental oferece. e desde logo. duma maior aceitagao pela comunidade ntifica, mas procurariam evitar, por outro lado, os inconvenientes duma inevitivel perda m termos de pertingncia e relevancia do sew objecto de estudo. A chamada crise da psico- logia social, que periodicamente atormenta os psicélogos sociais dos dois lados do Atkintico, deriva, em grande parte, das diividas que se s4 colocam quanto a adequacao do método expe- rimental ais exigéncias do objecto, demasiado complexo, da disciplina. 3. Os pontos de debate Recentemente, 0 EJSP editou um mimero especial dedicado ao problema da crise ¢ que constitui um documento importante para uma melhor clarificagao da situagio da PSE PSA (EJSP, 1989, 19, 5). O debate foi organi zado por Rijsman e Stroebe, nele intervém, segundo a ordem dos artigos, Zajone, Nuttin, Doise, Moscovici. Harré e Gergen.e inclui igual- mente comentirios de Lemaine, Crano, Semin, Gergen, Gardner, ¢ Stroebe ¢ Kruglanski, Num comentario de sintese da autoria dos organiza- dores. concluiu-se que 6 panorama actual da dis- ciplina se caracteriza por dois paradigmas anta- velho paradigma, exempliticado por adores como Nuttin ¢ Zajone, baseado na perspectiva da psicologia social como ciéncia natural, De central neste paradigma a orientagao hipotético-dedutiva e a erenga nos meeanismos causais internos que podem ser detectados atra- vés duma investigago empirica rigorosa. No outro extremo, os representantes do nove para- digma, como Harré e Gergen que, embora difi rentes sob muitos aspectos, concordam em rejei tar 0 modelo hipotético-dedutivo, a crenga nos mecanismos causais internos © a ideia de que as leis da psicologia social tenham de ser desco- bertas através duma investi rosa (p. MD). Quanto as posigdes de Moscovici e de Doise, a conclusao global que se extrai, e também aqui salvaguardadas as diferengas, € a de uma tenta- tiva de compromisso, uma posigdo a meia distin- cia entre os dois paradigmas extremos. Tipico de ambos é a sua adesio & experimentagao ea imvestigagdo de campo. Ao seu construtivismo, te6rico nao corresponde uma metodologia para- lela (p. 342). Moscovici e Doise sio dois nomes do que consagrados , juntamente com o falecido Tajfel, constituem os pais: fundadores da PSE, A posigdo por eles sustentada neste recente debate sobre a crise da psicologia social vem claramente ilustrar ¢ confirmar a ideia duma tentativa de superagio de posigdes antagéni através duma sintese conciliando as vantagens epistemoldgicas de ambas as orientagdes. Nao é, todavia, claro que tais posigOes estejam isent: de ambiguidades, Um exame, necessariamente muito breve. dos projectos desenvolvidos no Ambito da PSE. e designadamente por estes dois autores € seus associados, mostra, com efeito, que 0 compromisso epistemoldgico é precario © instavel, se no mesmo insustentivel. Por outras palavras. entre objecto e método existiria uma solidariedade € uma determinagio reciprocas, dificeiy de contornar. Vejamos em primeiro lugar o caso de Moscovici. Em termos da sua contribuigdo, imensa, para a psicologia social, poderemos indicar em primeiro lugar os estudos. que levou a efeito sobre o tenémeno do risky- -shift, que revolucionou, ao mostrar que este era apenas um caso particular dos grupos para adop- tarem posigdes mais extremas do que a média das posigoes individuais (Moscovici e Zavalloni, 1969). Em seguida, os estudos sobre as minorias activas e a influéncia social que elas podem exercer sobre as maiorias. Deve-se a estes esttt- dos a abertura duma linha de investigagao extre- mamente importante sobre os processos de ino- vagdo ¢ mudanga social (Moscovici, 1976), que culminaram na formulagao da teoria da con- versio (Moscovici, 1980). Nestes dois grandes dominios de investigagdo ~ e limitamo-nos aos mais salientes — Moscoviei adoptou 0 método experimental. No que se refere designadamente aos estudos sobre as minorias activas, sio de relevar a notivel engenhosidade dos protocolos utilizados, constituindo um exemplo tipico da mail experiéncia inteligente. Estes trabalhos de Moscovici foram aceites et urbi et orbi e. para icano, seria bizarro con ‘o psicdlogo social amet sideri-los como cxemplo da psicologia social em ambos europeia. Poder argumentar-se qu ‘65 casos, 0 trago distintivo residiria numa maior preocupagaio sociais, mas nem sequer & © caso, De acordo situar 0 fenémeno a niv s mais com Doise, «a explicago da influénci minori tiria dada por Moscovici envolve os dois pri- meiros niveis de andilise. Mais precisamente, a influéncia minoritiria teria a sua origem na con- sisténcia diacrénica ou intra-individual (repeti go no tempo da mesma resposta ou do mesmo sistema de respostas) © na consisténcia sinero- ica ou inter-individual (consenso dos membros, a minoria)» (Doise, 1982, p. 99). linha E,todavia, de referir qu Jesenvolvida posteriormente por Mu: 1981,¢ Mugny er al., 1984) procura ir um pouco mais longe na explicagdo da influénci tiria a0 articular processos interindividuais com ny € associados (Mugny, minori representagdes ideoldgicas. Independentemente do nivel do fenémeno, bem como dos processos psicold; © que pode todavia salientar-se aqui € 0 partido que Moscovici vai tirar das experiéneias que realizou neste domi ‘os envolvidos. nio, extrapolando para fendmenos sociais com- plexos, como sejam a introdugao de novas teo- Tias cientificas ou de novas formas sociais © Politicas. No artigo que redigiu p 4.0 numero especial do ESP, afirma, a dado pass. que con- sidera a psicologia social como uma «antropolo- gia da cultura moderna», ¢ a este respeito acres. centa: «Dir-nos-do que os nossos métodos inadequados € que as nossas hipéteses foram exclusivamente verificadas & escala do lubora- torio. E que seria, pois, no cientifico extrapo- Lilos para uma maior escala. Mas sera conce- bivel o progresso sem tais. saltos’? Nao & isso © que se faz constantemente na ciéncia, seja na cosmologia, na economia ou na biologia”? ia. cujas prin- Para jo falar da propria psicol cipais teorias foram prockamadas com base num niimero limitado de protocolos ou de observa. Ges de pacientes hipnotizados. A extrapolagio € justificada desde que se mantenham trocas com outras disciplinas que levantem as mesmas ‘gam um conjunto de dados © questoes, for 1m algumas orientagdes te6ricas» (Moscovici. 1989. p. 411). A obra que Moscoviei escreveu sobre as mi norias activas (Moscovici,1976) documenta de forma eloquente ests coragem em extrapolar a partir da reduzida evidéneia empirica colhida no laborat6rio. Na ediga0 em francés inclui inclusi- vamente um apéndice com o titulo «A dissid cia dum s6», onde aplica a sua teoria 2 figura de Soljenitsyne. Os psicdlogos sociais de ser- vigo dirio, certamente cheios da razio que thes assiste. que jd ndo estamos no dominio da psi- 4 socitl, mas possivelmente 6 proprio Moscovici teri consciéneia disso, sendo o seu objectivo ir além dos limites estritos que a disci- plina impde. Tal como a passagem acima trans- rita Sugere, o que impor é estabelecer pontos com outras disciplinas que sobre 0 mesmo fend- meno poss: fornecer interpretagdes conver- entes ou alternativas. Mas, por muita simpatia que este ponto de vista nos inspire, continua a nao ser muito clara a necessidade do proprio recurso a0 laboratéri O que € que o Laboratorio acrescenta, em rigor, aum: leoria cujos contornos wltrapassam larga- mente os resultados experimentais? Este pro: blema vai colocar-se com maior acuidade ainda ao passarmos a terceira linha de inves langada por Moscovici relativa as representa- gHes Sociais (RS). ponde, alids, ao seu primeiro trabalho de fundo Cronologicamente corres- La Psychanalyse, son Image et son Public (1961). 1976. Desta obra, nao obstante a sua reconhecida importincia, nio reeditado em existe ainda verso em inglés, enquanto o livro 56 sobre as minorias activas foi primeiro editado em inglés © s6 cinco anos depois vertido para francés, Isto constitui um sintoma de audiénei € penetrago nao 56 das teorias mas dos objectos © métodos que Ihes estio associados. A teoria das RS tem tido uma difusdo até agora limitada aos investigadores com acesso e familiaridade com a lingua francesa ~ para uma bibliografia actualizada veja-se Jodelet (1989) — e um acolhi- mento timido, € nem sempre favordvel, dos in- vestigadores britinicos (Potter e Wetherell, 1987: Jahoda, 1988). Se compararmos dois manuais europeus de pricologia social, um editado por Moscovici (1984) € outro por um conjunto de dois autores britdnicos, um autor alemao e um autor francés (Hewstone, Stroebe, Codol e Stephenson, 1988). podemos verificar que neste ditimo # referéncia as RS ocupa apenas duas paginas. Curiosamente. © ainda neste tiltimo manual, © nico capitulo a cargo de autores de lingua francesa & 0 que res- peita & cognigao social (Leyens e Codol, 1989) Em contrapartida, 0 manual de Moscoviei dedica uma das quatro partes em que est organizado a0 tema do «Pensamento e vida social» ¢ nele se incluem varios capitulos sobre RS. entre eles um redigido por Jaspars e Hewstone sobre a teoria da atribuigdo. A cognigao social surge, assim. nesta perypectiva, subordinada as RS. A edigao recente do volume Social Repre- sentations, por Farr e Moscoviei (1984), na série dos «Estudos Europeus em Psicologia Social», correspondente a um coléquio sobre este tema realizado em Paris, poder, todavia. contribuir para sensibilizar um ptiblico mais alargado ¢ eventualmente despertar 0 interesse dos circulos norte-americanos. Mais do que uma teoria entre outras, as RS constituem um programa de investigagdo e um quadro de referéncia tedrico. Levado as suas extremas consequéncias. o conceito de RS pro- pOe-se como uma psicologia social alternativa. entendida esta como uma sociologia do comheci- mento pratico (Munné, 1989, p. 250). Reticente quanto sua definigao, conforme explica na sua réplica a Jahoda (Moscovici, 1988, p. 239). Moscovici aceita todavia as definigdes propos- tas por outros autores, e designadamente a pro- posta por Doise: «As representagdes soci: principios geradores de tomadas de posig20 liga- das a posigdes especificas no conjunto de rela- {G0es Sociais € organizam os processos simbdli- cos que intervém nessas relagdes» (1986, p. 85), A definigio de Doise estabelece convergéncias ¢ complementaridades entre RS e as nogoes de disposigdes © hibites propostas por Bourdieu (1972), acentuando, porém, Doise que 0s socié- logos nio se preocupam, por via de regra, com @ descrigdo dos processos psicolégicos subjacen- tes e necessirios para que um individu possa participar na vida social € que, por seu tumo, «08 psicdlogos tém todavia tendéncia para des- crever esses processos duma forma quase auto- noma, abstraindo da sua insergao num contexto social concreto» (Doise. 1986, p.91). Com a teoria das RS a psicologia social apro- ima-se mais da sociologia e, nessa medida, esta mais perto da sua vocagao inicial interdiscipli- nar, evitando tomar-se mera subdisciplina da psicologia. E esta subalternidade da psicolo; social que Moscovici se recusa a aceitar. Tal como escreve, «na medida em que a psi cologia social tende, eada vez mais, a tornar-se um ramo_subsididirio da psicologia, vé-se for- gada a ter cada vez mais em conta os factos bio logicos ¢ a afastar-se dos fendmenos sociais. Em vez. de criar uma continuidade dé origem a uma descontinuidade, cortando. por assim dizer, 0 ramo em que estava sentada» (Moscovici, 1989. p. 409). A esta tendénci iva, Mo contrapde um lugar central e inclusivamente uma funcdo unificadora para a psicologia social, «destinada a estudar a ligagdo entre a cultura e a natureza, bem como entre os fendmenos sociais € psiquicos». E os fenémenos que tem em mente, acrescenta, sao: «A religido. o poder. a comunicagao de massas. os movimentos colec- tivos, a linguagem ¢ as representacdes sociais» (Moscovici. 1989, p. 410) ‘Uma outra ligagao disciplinar que pode estabe- lecer-se, admitida pelo proprio Moscovici (1989, p. 409), simbolico, desenvolvida no dimbito da microsso- jologia americana (Mead. 1934; Blumer, 1969: Striker e Statham, 1985). Tal como observa Farr, «tanto 0 behaviourismo social de Mead como © interaccionismo simbélico de Blumer sio consonantes com a versao forte da investigagZo francesa contemporanea sobre representa sociais» (Farr, 1984, p. 147). Por verso forte entende-se aqui a representacio social na sua acepgao durkheimiana. Para além disso. e no obstante os paralelismos e convergéncias que possam estabelecer-se entre RS e interacgdes simboli 5 que se refere ao interaccionismo as, 08 cientistas sociais que traba nestes dominios parecem preferir trilhar vias paralelas. por vezes com programas conceptual- mente idénticos e apenas separados por diferen- {gas meramente terminolégicas No caso vertente, a incorporagio dos proces- sos de socializagao, tdo caros ao interaccionismo simbélico, poderiam contribuir para enriquecer © quadro de referéncia, porventura demasiado lewiniano, que caracteriza a teoria das RS. Para completar 0 exame, falta, porém, con- siderar um aspecto bisico — o da metodologia. E sobretudo aqui que vao colocar-se as maiores ambiguidades. Na sua formulagao actual, a teo- ria das RS nao impde quaisquer restrigdes e con- sidera que todos os métodos de investigacao. incluindo © laboratério experimental. sao nao apenas compativeis mas todos eles importantes Para a obtengdo de resultados ¢ de hipéteses E certo que Moscovici parece privilegiar a orientagio observacional & orientagdo experi- mental. Na réplica a Jahoda, observa, com efeito, 37 que «a abservagao desempenha um papel proe- minente no estudo das representagdes sociais Liberta-nos duma quantificagao ¢ experimenta- ¢40 prematuras, as quais fragmentam os factos em pegas minisculas ¢ levam a resultados sem ignificado. Por vezes. poderd ser uma espécie de observagio-do-voo-das-aves, sem diivida, mas pode dar lugar a progressos importantes, Esta orientagdo pode ocupar um lugar na psico- logia social (Von Cranach, 1980) comparavel a posigao ocupada pela orientaga biologia, ¢ exactamente pelas mesmas (1988. p. 241). Mas, por outro lado, acrescenta, nada impede © recurso a mMétodos quantitativos, tais como uso de esci ica em las € questiondrios, bem como o re- curso a téenicas estatistieas como a anilise facto- rial ou o MDS (multidimensional scaling), como, ‘des levadas a efeito gati, 1985: alids, muitas das investi claramente ilustram (Mugny e Carrug Di Giacomo, 1980; Soczka, 1985: Vala, 1981). Identicamente, «ndo ha qualquer dificuldade em usar o método experimental e. de facto, fo- ram conduidas numerosas experiéneias, sempre que surgiv uma hipétese que prestas- sem» (Moscovici, 1988, p. 240). Exemplos tipi elas si cos de tais experiéncias acham-se incluidos no volume editado por Farr e Moscovici, tais como as de Abrie (1984), Codol (1984) © Flament (1984), Mas é justamente esta abertura a todos os azimutes que levanta problemas. No que con- cere 10s métodos de inquérito, ¢ por sofisticada que seja a estatistica utilizada, é dificil captar os Processos que definem o micleo da represent social. Claro que & sempre possivel extrapolar €, Sob esse aspecto, o céu é 0 limite, mas nao faltarao obviamente guardides do templo para denunciar as arbitrariedades interpretativas, Para evitar tais arbitra experimental Mas quando se envereda por esta via de pro- curar detectar os mecanismos eausais explicati~ edades. s6 resta a verificagio Vos, recorrendo ao método experimental, no terreno armadilhado da cogni¢ao social. Por outras palavras, ise desce para os niveis individuais © interindividuais ¢ a psicologia social regressa ao seu estado de subdisciplina da psicologia ou, se se preferir, das cigneias cogni- tivas, Moscoviei parece aperceber-se disso 0 tar. a propdsito, © ponto de vista de Neisser: COM ats representa oconstrutivismo genét socials. Mas convém acentuar que, do ponto de Vista metodol6gico, a orientagdo de Genebra & inequivocamente experimentalista, Se & certo que Doise sempre procurou estabelecer articula- ges interdisciplinares, sobretudo com a sociolo- gia francesa, de que é leitor atento e conhecedor (Doise,1985; Doise e Cioldi,1989), também, por outro lado, as suas reservas quanto as orientag mais recentes da psicologia social, e designada- mente a revolucdo cognitivista, S20 mais. miti- gadas do que as de Moscovici. Enquanto este nay suas intervengdes mais recentes, vai ao pomto de por em causa que uma ciéncia hibrid 0 da psicologia social, possa ser explica- tiva (1989, p. 428). Doise. nesse mesmo debate, defende sem ambiguidade o recurso ao método experimental. admitindo todavia — e essa € uma ressalva. importante — uma maior flexibilidade “omo do jogo entre variiveis independentes, ou seja uma causatidade circular: «Num tal quadro de referencia, « causalidade deverd ser considerada al. também os efeitos das con- sequéncias antecipadas devem ser tides em con- ragao» (1989, p. 397), Esta andlise. muito breve. das actuais orien- como bidireccion sider tages ¢ tensdes na psicologia social leva-nos assim a concluir por uma versdo fraca da PSE ea diag nosticar uma progressiva polar dos paradigmas. O exame a que proced sugere, com efeito, que 0 espago interdiseiplinar articulando a psicologia ¢ a sociologia comporta problemas epistemoldgicos cuja solugio nao parece. de forn - evidente. A PSE. alisis, como vimos, muito dividida no seu interior, como foi sugerido por Jaspars (1986), menos uma alternativa do que um estilo traduzido em preteréncias temiticas ¢ formas de verifies Ko cempirica, Qualquer leitor medianamente experi- mentado € 20 az de reconhecer que um arti que tenha entre maos foi produzido por um autor norte-a no, britinico ou francés, merical Dum modo geral, os psieslogos sociais euro- peus, em contraste com os seus colegas norte -americanos, ¢ possivelmente isso também se ‘a noutras disciplinas sociais. manifestam, uma maior preocupagdo com os problemas do contlito © do papel que ele poder desempenhar na mudanga social. Esta t6nica esté presente na escola de Bristol, com a linha que desenvolveu sobre ay relagdes intergrupo. esté igualmente presente no construtivismo genético da escola de Genebra, através do lugar central atribuide ao conflito sociocognitivo como motor do desen volvimento, ¢ esté ainda presente, ¢ af duma forma insistente, em todas as linhas de investi » desenvolvidas por Moseovie Recorde-se que Moscoviei ndo se cansa de definir a psicolog 1 social € em varios momen- tos da sua vasta produgdo, como 0 conflito entre © individuo e a sociedade, Por outro lado, na réplica a Jahoda pode ler-se: «Quem tenha tido iéncia suficiente para seguir os meus escri 60. tos notard que o seu fio condutor & 0 enigma da mudanga e da criatividade» (Moscovici, 1988, E possivel especular que esta preocupag’o com 0 conflito € a mudanga na psicologia social. se no mesmo nas ciéncias sociais europeias, comporta a sua propria psicologia social ou, se preferirmos. coresponde a uma representagdo ciemtistas sociais europeus. Também num domi- nio muito préximo da psicologia social, € para alguns uma sua aplicag ong: reivindicagiio de especificidade epistemoldgic: regional ~. € todavia detectavel uma maior sensi- bilidade dos investigadores curopeus, em con- traste com os seus colegas norte-americanos, para © papel desempenhado pelo conflito na mudanga tanto interna como externa as organizagbes. Mas a psicologia social de tais especificida- des culturais remeter-nos-ia para outras alterna- livas que nos projectariam para além do quadro da PSE, com a sua adesdo, na melhor das hip6- teses hesitante, ao experimentalismo, Tal como adverte judiciosamente Munné, «0 sociocogni- tivismo europeu, quando pSe em causa 0 mono- polio norte-americano, tende de facto a mono- » possivel — 0 das zagdes, mas onde nao existe qualquer por seu tro a psicologia social na erigindo-se, como traduz a linguagem das suas instituigdes e de muitos dos seus au- lores, em representantes da psicologia social, quando na realidade 6 apenas uma psicologia > (Munné, 1989, p. 244). E, todavia, um facto que entre varias psico- logias sociais identificadas por este autor, tais como a psicand 1. 0 behaviourismo cial, 0 interaccionismo simbolico ¢ tendéncias afins, nas quais poderiamos incluir as represen- tages sociais na sua versio forte e a psicologia | marxista, é, sem duivida, © sociocognit vismo que mais mobiliza hoje em dia a atencao dos investigadores e & também neste dominio que se verifica uma produgao significativa € consistente. E nesta tradigao que o presente manual igualmente se inscreve Poderio, sem dtivida, identificar-s temas de regulagdo que detemminam que esta seja de facto a ciéncia normal praticada pela grande maioria dos psicdlogos soci E possivel que minorias activas venham um dia a revolucionar este estado de coisas e a impor um paradigma alternativo. Mas nem sem- pre, nao obstante 0 optimismo de Moscovici. as minorias tém uma vida Facil. soci metassis- 1. Método € teoria Tal como outros domi cologia social caracteriza-se pela natureza dos temas que aborda e no pelo uso de métodos espe- icos. O recurso a algumas ténicas proprias para além das utilizadas em psicologia geral. por exemplo, sociogramas (Moreno, 1949) ou proto- colos de observaco de interaccdes socials (Bales, 1950), situa-se no enquadramento metatedrico © epistemolégico do método das ciéncias naturais. bem que o dominio da psicologia social este} balizado por uma vasta literatura metodoligica aparentemente autnoma, esta impressiio de au- tonomia deve-se essencialmente a histéricas da formagao da disciplina e nao deve, de modo algum, conduzir 4 conclusao da existén- cia de um terreno metodolégico independent, por um lado, das elaboragées teéricas concretas e, por outro, do método das ciéneias naturais. Apesar de 0 aspecto mais saliente do método das ciéncias naturais residir na realizagao de expe- rigncias em laboratério, na psicologia como nes tas, simples observagdes passivas © experiéneias fora do laboratério constituet strumentos de ircunstaneias conhecimento validos € produtives. Assim, na sera tanto a realizagao de experiéncias em labo- rat6rio, ou simplesmente a realizagao de estu- CAPITULO IV Orientacées metodoldégicas na psicologia social Jorge da Gléria dos experimentais, que caracteriza a psicolo enquanto projecto de conhecimento cientifico, mas sim a elaboragdo de um discurso relativo determinados aspectos do real, seleccionados de tal forma que fique assegurada a corespondén- cia entre as observacdes destes e os termos e pro posigdes do discurso tebrico. E nesta concepgao que se fundamenta a construgao de um padrio de validade tinico do discurso cientifico, aplica- vel tanto as observagoes experimentais como aos dados da observacdo passiva, Segundo esta posi- Ho, a articulagdo essencial entre o real ¢ 0 dis- ia curso teérico, a qual constitui a pedra-de-toque do método cientifico, é a nogao de medida. quer esta seja entendida num sentido primitivo a0 qual a linguagem corrente nao atribui sequer 1, pois consiste na mera iden- tificagao de aspectos diserimindveis do real. per- mitindo efectuar contagens, quer num sentido derivado, consistindo na avaliagao de grandezas 6 indirectamente acessiveis 4 observacio. Dois aspectos do projecto de conhecimento da psicologia social tomam a medida uma tarefia par- ticularmente rua neste campo: por um lado. 6 psicdlogo social interessa-se.em geral, por fen6- menos complexos. tais como os comportamentos dos agentes sociais, cuja unidade ¢ linhas de cl vagem naturais assentam sobre uma determinada @2 cultura, ela propria resultante de uma evolugao hi térica: por outro lado, os comportamentos sociais traduzem significagdes. para as quais nao se identi ‘5 factores explicativos desses c les sociais, sam necessariamente com mportamentos, ‘ores cuja identificago constitui justamente objectivo do psicdlogo. Estas dificuldades tém sido, objecto de uma acesa polémica e levaram mesmo, por vezes, a por em diivida a possibilidade do conhecimento dos fendmenos sociais por meio de aplicagao do método das ciéncias naturais. Alguns anos ar que entao se chamou Criticava-se entio a psicolog 4 psivologia social experimental, por fendmenos de natureza cultural e histGrica formu- lando-os num quadro conceptual que, 20 ignorar a significagao e a historicidade (Gergen, 1973), con- duziria a um formalismo antficial, desinserido do mundo pratico. Dados os limites do método expe ‘imental, esses problemas deveriam ser estudados por métodlos de investigagao de cariicter histérico € sociolégico. Ao serem aplicadas a fenémenos soe imente historicos, as exigéncias do método experimental levariam a simplificagdes abusivas. dando origem a redugdes arbitririas de variiveis culturais © hist6ricas a , as quais, em virtude desta redugao de escala, perde- iam a sua natureza propria. Segundo os eriticos da psicologia social este seria o prego a pagar pela possibilidade da abordagem experimental dos pro- bblemas postos pelos experimentadores.Conelufam entao 0s eriticos. a psicologia social experimental nao pode constituir nem um modo de conhec mento de utilizagao pratica, nem uma construg ciemificamente valida, pois. por um lado, os seus, objectos de estudo so facticios e, por outro, a construgaio desses objectos assenta em distorydes idgol6gicas do real, traduzindo nao as proprieds des deste, mas idiossincrasias dos investigadores. Como outros temas, a critica da psicologia so- cial tomou-se um dominio de especialistas. pas- esteve na moda a discussdo daquilo «crise da psicologia social». .€ sobretudo soci S, essen Jo sando de moda na pritica cientifica geral sem afvetar esta de modo notivel. Nao seri talvez este © lugar proprio para uma avaliagao critica da dis- cussao sobre a validade da psicologia social expe- rimental, mas convém, no entanto, extrair duas conclusies desta discussao: em primeito lugar, uma parte importante das eriticas dirigidas & psi- cologia social experimental pelos partiddrios da perspectiva histérica e sociokigica dizem respeito relagdo entre os fenémenos sociais naturais € as representagdes te6ricas € empiricas destes na pritica cientifica, pondo em caus pritieas de inferéncia que. do ponto de vista do método cien- tifico, constituem, muitas vezes, se nao erros pelo menos procedimentos discutiveis: em segundo ugar, esta discuss deu azo a uma reflexdo sobre as fronteiras da psicologia social, a partir da dis- Lingo entre factos culturais enquanto produtos de uma evolucao histériea e enquanto resultados do processo de socializagdo, cujas implicagdes esto, por hora, longe de terem produzido os seus frutos. 1.1. O problema da redugao da escala Em muitos dos casos citados nas discussdes relativas 2 validade das pesquisas de psicologia social, por exemplo na polémica sobre 0 conflito © a sua representagio nos chamados jogos expe- rimentais, a reducdo de escala dos fendmenos naturais estudados experimentalmente nao parece assentar de facto sobre uma teoria coerente expli- cita das relagdes entre fendmenos de escalas dife- rentes, mas antes reflectir predilecgOes e suposi- gdes dos investigadores. No entanto, uma tal teoria constitui um passo indispensivel para uma utilizagao criteriosa do método experimental; com efeito, uma redugdo de escala s6 pode ser justificada quando € possivel demonstrar que os mecanismos implicados. por um fenémeno naturalmente situado numa deter- minada escala G0 idémticos aos implicados pelo fenomeno estudado experimentalmente situado Duas das ddimensies ao longo das quis se opera com mais frequéncia a redugd poral ¢ a dimensao valorativa dos objectivos pro- postos aos Sujeitos experimentais — geram dificul- dades que constituem ilustragdes claras do tipo de mal-entendido reinante neste dominio. Dada a numa escala eventualmente diferente o de escala — a dimensiio tem- jureza diferente dos processos mneménicos que intervém a curto, médio ¢ longo prazo, a generali- zagiio frequente de conchusdes tiradas de observa gdes fazendo intervir a meméria a curio prazo a fenémenos que naturalmente implicam a memoria a longo prazo constituem abusos de interpretagao que nada justifica, Paralelamente. so conhecidas as modificagdes introduzidas na percepgio e na avaliagZo intrinseca das tarefas, em fungao do va- lor das recompensas extrinsecas propostas aos su- jeitos para a execugaio destas. Em ambos 0s casos, Se-0 que interessa ao experimentador & um fend- ‘meno natural a longo termo ou implicando recom- pensas extrinseeas elevadas, a tinica experimen- 10 que pode permitir a extracgdo de conclusdes aplicaveis ¢ a que implica recompensas elevadas e se situa numa escala temporal implicando a inter- vengo dos mesmos mecanismos de memoria que os implicados no fenémeno natural visado. Em muitos casos, uma tal experimentagdo pode ser praticamente irrealizavel. Resta entio ao psicé- logo renuneiar & abordagem experimental do problema, ou, se os conhecimentos disponiveis 0 permitem, reformular aquele em termos tais que a memoria a longo prazo ou as variagdes do valor intrinseco das tarefas propostas aos sujeitos cessem de ter incidéncias sobre as explicagdes propostas, Os estudos sobre 0s comportamentos agressi: vos realizado no quadro da psicolos expe: rimental constituem uma excelente iTustragao das difieuldades. com as quais & confrontado o psicé- ia So go social ao tentar traduvir as representa turais em nogdes cientificas. Os estudos sobre este tema, numerosos ao ponto de constituir durante ns anos o principal conteido de alguns perié- 63 dicos especializados, foram alvo de critieas tanto, de pesquisadores afectos a uma orientagao his wica (Gergen, 1984; Lubek. 1979) como de pesquisadores figados a uma orientagao cognitivista (Tedeschi, Smith e Brown, 1974) ou ¢ Duda, 1979). Apesar desta variedade de oriemlagdes teéric: autores esto de acordo quanto ao facto de que © ponto de partida da nogio cientifica de agressio no & mais de que uma palavra da ling rente exprimindo um julgamento relative a uma conduta, Este termo teria sido abusivamente trans- térica e sociols: neobehaviourista (Da Gloria todos estes: em cor formado numa nogiio deseritiva de um comporta mento observavel, por via de uma definigio ar- bitraria privilegiando injustificadamente uma das mensdes do comportamento que interv processo natural de julgamento, Estes consideram ainda que. ferente exacto nos comportamentos observados nos estudos experimentais em que hipsteses rel tivas as suas determinagdes sto postas & prova, so, portanto, infundadas as generalizagdes dos resultados daqueles aos fenémenos usualmente chamados agressoes. A partir deste ponto, as posi- ges destes autores divergem, mas este acordo ini- cial significa que uma no a ndo pode ser onstituida por uma simples explicitagao dos refe- rentes na linguagem convencional de um termo supostamente denotativo, desembocando 0 seu es- tudo sobre uma reprodugdo controlada de alguns aspectos desses referentes, Um autor ckissico, que em seu tempo se apercebeu desta dificuldade (Brunswik, 1956). propés uma solugio consis- tindo nur Woria dos referentes it amostragem ale: implicados pela nogdo teérica, solugao infeliz~ sta dada a indefinigdo das fronteiras da nogao te6rica, quando construida por esta via. Este género de dificuldade comporta, contudo, 9: quando uma nogo te6rica provém do agrupamento de observagies empiricas manifes- tando a acgao de determinagdes homogéneas. ainda eventualmente © mente irrea outa solu que deste modo esta nogao perea

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