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CONTENTAMENTO

UM SERMÃO DE CHARLES SPURGEON

Pregado na noite do Sabbath em 25 de março de 1860, pelo Reverendo Charles


Haddon Spurgeon na Capela da Rua New Park, Southwark.
Fonte: http://www.spurgeon.org/sermons/0320.htm Acesso em 29 dez. 2011.
Tradução: Caramuru Afonso Francisco (texto original em inglês)
“Não digo isto como por necessidade, porque já aprendi a contentar-me com o que
tenho” (Fp.4:11)
O apóstolo Paulo era um homem muito erudito, mas entre as suas várias
aquisições de conhecimento, nenhuma teve maior importância que esta: a de ter
aprendido a ser contente com o que tem. Tal aprendizado é muito melhor do que
muito do que é adquirido nas escolas. O aprendizado das escolas pode nos fazer olhar
cuidadosamente de volta para o passado, mas também frequentemente aqueles que
selecionam as relíquias do passado com entusiasmo são descuidados a respeito do
presente e negligenciam os deveres práticos da vida diária. Seu aprendizado pode abrir
as línguas mortas para aqueles que nunca tirarão algum benefício delas. Muito melhor
o aprendizado do apóstolo. Era algo de utilidade sempre presente e que é aproveitável
da mesma maneira para todas as gerações, uma das mais raras, mas das mais
desejáveis realizações. Ponho o mais antigo polemista e o mais instruído de nossos
homens de Cambridge [1] num patamar mais baixo, comparado com este erudito
apóstolo, pois este, certamente, é o mais alto grau em humanidades que um homem
pode possivelmente obter, ter aprendido, seja em que estado estiver, a se contentar
com o que tem. Vocês verão, ao mesmo tempo em que leem o texto, não
superficialmente, que o contentamento em todos os estado não é uma natural
propensão do homem. Ervas daninhas crescem rapidamente; cobiça,
descontentamento e murmuração são tão naturais ao homem como os espinhos para o
solo. Vocês não têm necessidade alguma de semear cardos nem espinhos, eles surgem
naturalmente, porque são nativos à terra, sobre a qual persiste a maldição; também
vocês não têm necessidade alguma de ensinar os homens a se queixarem, eles se
queixam rapidamente o suficiente sem qualquer educação. Mas as preciosas coisas da
terra precisam ser cultivadas. Se quisermos ter trigo, devemos arar e semear; se
quisermos flores, deve haver o jardim e o cuidado do jardineiro. Ora, o contentamento
é um das flores do céu e, se quisermos tê-lo, ele deve ser cultivado. Ele não crescerá
em nós pela natureza: somente a nova natureza pode produzi-lo e, mesmo assim,
devemos ser especialmente cuidadosos e vigilantes para que mantenhamos e
cultivemos a graça com a qual Deus no-la semeou. Paulo disse: “aprendi a me
contentar com o que tenho”, o que é o mesmo que dizer que ele não sabia como numa
determinada época de sua vida. Isto lhe custou algumas dores para alcançar o mistério
desta grande verdade. Sem dúvida, algumas vezes ele pensou que tivesse aprendido e
falhou. Frequentemente também, como as crianças na escola, ele foi censurado;
frequentemente ele achou que esta questão não era de fácil aprendizado e, quando,
finalmente, ele o adquiriu, pôde dizer: “eu aprendi, seja qual for o estado em que
estiver, a estar contento com o que tenho”. Ele era, então, um homem grisalho à beira
da morte, um pobre prisioneiro encarcerado em uma masmorra de Nero em Roma.
Nós, meus irmãos, bem poderíamos estar dispostos a suportar as enfermidades
de Paulo e compartilhar a fria masmorra com ele, se também pudéssemos de alguma
forma atingir tal grau de contentamento. Não se permita, qualquer de vocês, a tola
noção de que você pode se contentar sem o aprendizado, ou aprender sem disciplina.
Não é um poder que possa ser exercido naturalmente, mas uma ciência que é
adquirida gradualmente. As genuínas palavras do próximo texto podem sugerir isto,
até se nós não tivermos aprendido pela experiência. Não precisamos ser ensinados a
murmurar, mas devemos ser ensinados a aquiescer com a vontade e o bom desejo do
Senhor nosso Deus.
Quando o apóstolo proferiu essas palavras, ele imediatamente fez um
comentário sobre elas. Leiam o versículo 12: “Sei estar abatido, e sei também ter
abundância: em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter
fartura, como a ter fome, tanto a ter abundância como a padecer necessidade”.
Notem, por primeiro, que o apóstolo disse que sabia como estar abatido. Um
maravilhoso conhecimento este. Quando todos os homens nos honram, então
poderemos estar muito bem contentes com o que temos, mas quando o dedo do
escárnio é apontado para nós, quando o nosso caráter é julgado como de má
reputação e os homens nos vaiam às margens das ruas, requer muito conhecimento do
evangelho para sermos capazes de suportar isto com paciência e com satisfação.
Quando estamos aumentando e crescendo em posição, em honra e em consideração
humana, é fácil trabalhar para se contentar com o que se tem, mas quando temos de
dizer como João Batista, “Eu preciso diminuir”, ou quando vemos algum outro servo
alcançando nosso lugar ou um outro homem obtendo a vitória que nós todos
almejamos ter, não é fácil ainda permanecer e, sem um sentimento invejoso, gritar
como Moisés: “Tomara que todos os servos do Senhor fossem profetas”. Ouvir que um
outro homem foi elogiado à custa de seu próprio sacrifício, achar suas próprias virtudes
feitas como uma derrota para publicar a excelência superior de algum novo rival e,
então, ser capaz de suportá-lo com alegria e gratidão, e bendizer a Deus — isto, digo, é
estar além da natureza humana.
Deve haver algo nobre no coração do homem que é capaz de renunciar a todas
as suas honras tanto quanto estar disposto a liquidá-las quando pode tão
satisfatoriamente submeter-se a Cristo para humilhar-se diante d’Ele, enquanto O
levanta e O coloca em um trono. E mesmo assim, meus irmãos, nós não aprendemos
coisa alguma que o apóstolo aprendeu, se nós não estivermos prontos do mesmo
modo a glorificar a Cristo na vergonha, ignomínia ou reprovação, quanto na honra e na
estima entre os homens. Temos de estar prontos para desistir de tudo por Ele. Temos
de estar dispostos a andar por baixo para que o nome de Cristo possa subir e ser o mais
conhecido e glorificado entre os homens. “Sei estar abatido”, disse o apóstolo.
Esta segunda parte do conhecimento é igualmente valiosa: “Sei ter abundância”.
Há uma grande quantidade de homens que sabem um pouco como ser abatidos, mas
não sabem de modo algum ter abundância. Quando eles são postos na cova com José,
eles olham para cima e veem a promessa iluminada e a esperança por um escape. Mas,
quando são postos no topo do pináculo, suas mentes ficam perturbadas e eles estão
prontos a cair. Quando eram pobres eles costumavam batalhar contra isto, como um
de nossos maiores poetas nacionais tem dito:
“Ainda que muitas coisas, impossíveis de pensar,
Tenham sido trazidas à perfeição completa pela necessidade,
A audácia da alma procede daquele lugar,
Da aspereza do juízo e da ativa diligência;
Ela dá, ao mesmo tempo, prudência e fortaleza
E, se tomadas na paciência, melhora nossas vidas.”
Mas observem os mesmos homens depois de o sucesso ter coroado suas lutas.
Seus problemas acabaram, estão ricos e acrescidos de bens. E vocês não têm visto
frequentemente como um homem que surgiu do nada para a riqueza se torna
orgulhoso de seus bens, vão e intolerante? Ninguém teria pensado que este homem
alguma vez teria uma loja; você não creria que ele, alguma vez, se acostumaria a
vender uma libra [2] de velas, não é? Ele é tão grande aos seus próprios olhos que
pensa que o sangue de todos os Césares corre em suas veias. Não conhece seus antigos
companheiros. Agora passa pelo amigo familiar dos dias passados com um quase
imperceptível acesso de reconhecimento. Este homem não sabe ter abundância,
tornou-se orgulhoso, está exaltado além da medida. Tem havido homens que
cresceram em popularidade na Igreja por um tempo. Pregavam bem e fizeram um
trabalho poderoso. Por causa disso, o povo os honrou, e com razão. Mas, então, eles se
tornaram tiranos, desejaram autoridade, passaram a ter um olhar altivo para todas as
demais pessoas, como se os outros homens fossem pequenos pigmeus e eles, grandes
gigantes. Sua conduta tornou-se intolerável e, rapidamente, foram retirados de seus
lugares altos, porque não souberam ter abundância. Havia, uma vez, um pequeno
pedaço de papel quadrado no púlpito de George Whitfield [3], na forma de uma nota,
para este efeito: “Um jovem que recentemente ganhou uma grande fortuna pede as
orações da congregação”. Muito corretamente pedida foi a oração, pois quando nós
subimos a montanha precisamos orar para que sejamos mantidos de pé. Não há
metade do temor de tropeçar em descer da montanha da fortuna. O cristão muito mais
frequentemente desgraça sua profissão na prosperidade do que em sendo abatido. Há
um outro perigo — o perigo de crescer de modo mundano. Quando um homem acha
que a sua riqueza aumenta, é maravilhoso como o dinheiro gruda em seus dedos. O
homem que tinha o suficiente, pensava que se ele tivesse mais do que precisava então
ele seria excessivamente liberal. Com uma bolsa de um xelim [4], ele tinha um coração
de um guinéu [5], mas, agora, com uma bolsa de um guinéu, ele tem um coração de
um xelim. Ele acha que o dinheiro é como um adesivo e não pode removê-lo. Vocês
ouviram falar de uma aranha que é chamada “fiandeira de dinheiro”. Não sei porque
ela é chamada assim, a não ser que é uma das espécies de aranha que não pode ser
removida de seus dedos: ela anda em u’a mão, depois na outra mão e, então, na sua
manga, aqui e ali, você não consegue se livrar dela a não que você a esmague
completamente: assim é com muitos que têm abundância. O dinheiro é uma coisa boa
quando posto para uso — a força, a energia do comércio e da caridade — mas uma
coisa má no coração, uma “ferrugem podre e maligna”. O dinheiro é uma coisa boa
para ter a seus pés, mas uma coisa má para se carregar nos lombos ou na cabeça. Não
importa quanto uma terra é preciosa quando alguém é enterrado vivo. Oh, quantos
cristãos têm se assemelhado a pessoas enterradas vivas por terem sido destruídos pela
sua riqueza! Quanta pobreza de alma e negligência das coisas espirituais têm sido
provocadas através da genuína misericórdia e generosidade de Deus! Embora não
fosse um assunto de necessidade, mesmo assim o apóstolo Paulo nos diz que ele sabia
ter abundância. Quando ele tinha muito, ele sabia usá-lo. Ele pediu a Deus que pudesse
se manter humilde — para que quando ele tivesse um uma vela completa, ele pudesse
ter muito lastro — para quando sua xícara transbordasse ele não se apressasse em
gastá-la — que, neste tempo de fartura, ele pudesse estar pronto a dar àqueles que
precisavam — e que como um administrador fiel ele pudesse pôr tudo o que tinha à
disposição do seu Senhor. Este é um aprendizado divino. “Sei estar abatido, sei ter com
abundância”. O apóstolo continua dizendo: “em toda a maneira, e em todas as coisas,
estou instruído tanto a ter fartura como a ter fome”. É uma lição divina, deixe-me
dizer, saber ter fartura, pois os israelitas uma vez tiveram fartura e, enquanto a carne
ainda estava em suas bocas, a ira de Deus veio sobre eles. Há muitos que pediram por
misericórdia para se satisfazerem com o desejo de seu próprio coração e está escrito:
“o povo assentou-se a comer e a beber; depois levantaram-se a folgar”. Fartura de pão
tem frequentemente gerado fartura de sangue e isto tem trazido devassidão de
espírito. Quando os homens têm demasia da misericórdia de Deus — é estranho que
devamos dizer isto, mas é a realidade — quando os homens têm muito da providencial
misericórdia de Deus, frequentemente acontece que passam a ter pouco da graça de
Deus e uma pequena gratidão pela generosidade que têm recebido. Estão fartos e se
esquecem de Deus: satisfeitos com a Terra, estão contentes em viver sem o céu.
Fiquem certos, meus caros ouvintes, que é mais difícil saber ter fartura do que saber
ter fome. Saber ter fome é uma lição dolorida, mas saber ter fartura é uma lição ainda
mais difícil. Como é desesperada a tendência da natureza humana ao orgulho e ao
esquecimento de Deus! Tão rapidamente quanto tenhamos uma porção dobrada de
maná, começamos a acumulá-la, ela produz vermes e se torna mal-cheirosa às narinas
de Deus. Cuide para que, em suas orações, vocês peçam a Deus que os ensine a ter
fartura.
O apóstolo sabia ainda como experimentar os dois extremos da fartura e da
fome. Que desafio é este! Ter um dia o caminho espalhado com a misericórdia e, no dia
seguinte, achar o solo debaixo de você infrutífero, sem qualquer conforto. Eu posso
prontamente imaginar o pobre contente em sua pobreza, pois ele foi criado nela. Ele é
como um pássaro que nasceu em uma gaiola e não sabe o que significa liberdade. Mas
um homem que tenha tido muitos bens do mundo, e que teve fartura, ser trazido para
a penúria absoluta, é como um pássaro que uma vez voou a grandes alturas com suas
asas mas que agora está engaiolado. Estes pobres divertem-se, vocês algumas vezes
veem nas lojas, sempre parecem como se estivessem procurando e constantemente
bicando os fios, batendo as assas e querem voar. Assim acontecerá com vocês a menos
que a graça o evite. Se você tiver sido rico e foi levado à pobreza, você achará difícil
“saber ter fome”. Na verdade, meus irmãos, deve ser uma lição dolorida. Nós nos
queixamos algumas vezes dos pobres que eles murmuram. Ah! Nós murmuraríamos
muito mais do que eles se a sua sorte caísse sobre nós. Sentar-se à mesa quando não
há coisa alguma para comer, e cinco ou seis crianças gritando por pão, é o suficiente
para quebrar o coração de um pai, ou de u’a mãe, quando seu marido é levado para a
sepultura, olhar fixamente para a casa atacada de escuridão, apertar sua criança
recém-nascida junto ao seu peito, considerar as outras, com o coração enviuvado
lembrando que elas estão sem um pai para buscar sua sobrevivência. Oh! É preciso ter
muita graça para saber ter fome. E para o homem que perdeu o emprego e andou por
toda Londres — talvez milhares de milhas — para encontrar um local de trabalho e não
conseguiu coisa alguma, voltar para casa e saber que quando encarar a sua mulher, sua
primeira pergunta será “Você trouxe pão? Você não conseguiu nada?” e ter de dizer
para ela: “Não, não havia portas abertas para mim”. É duro provar a fome e suportá-lo
pacientemente. Eu tive de admirar e olhar com um tipo de reverência para alguns
membros desta igreja, quando aconteceu de ouvir posteriormente a respeito de suas
privações. Eles não contaram para ninguém, elas não vieram a mim, mas suportaram
suas aflições em segredo, lutaram heroicamente contra todas suas dificuldades e
perigos e se tornaram mais do que vencedores. Ah, irmãos e irmãs, parece uma lição
fácil quando a vemos em um livro, mas não é tão fácil assim quando ela é posta em
prática! É difícil saber ter fartura, mas é uma coisa dolorida saber ter fome. Nosso
apóstolo aprendeu ambas — tanto a ter abundância quanto a sofrer necessidade.
Tendo, então, exposto o comentário do próprio apóstolo Paulo, que alargam as
palavras do meu texto, deixe-me retornar para a passagem em si. Vocês podem agora
me perguntar por qual curso de estudo ele adquiriu esta estrutura pacífica de mente? E
de uma coisa nós podemos estar completamente certos, não foi por nenhum processo
estoico de autogoverno, mas simples e exclusivamente pela fé no Filho de Deus.
Vocês podem facilmente imaginar um nobre cuja casa é a habitação do luxo,
viajando através de países estrangeiros para fins de descoberta científica, ou indo para
comandar alguma expedição militar ao serviço de seu país. Em qualquer dos dois casos,
ele pode estar bem contente com sua comida e sentir que não tem do que se lamentar.
E por quê? Porque ele não tem direito de esperar nada melhor, porque ele não leva em
conta qualquer comparação com sua posição, sua fortuna ou sua posição social em
casa. Assim o nosso apóstolo. Ele disse: “Nossas relações ou nossa cidadania está nos
céus”. Ele estava contente em pagar a passagem de viajante, viajando através da Terra
como um peregrino e estrangeiro. Ou, entrando no campo de batalha, ele não tinha
espaço para se lamentar com os perigos e aflições que algumas vezes circundavam seu
caminho, enquanto que, em outras oportunidades, uma trégua lhe dava alguns
intervalos pacíficos e agradáveis.
Novamente, chamando atenção para o texto, vocês notarão que a palavra
“herewith” [6] está escrita em itálico. Se, apesar disto, não a omitimos, nós não
precisamos pôr nela uma influência predominante na interpretação. Não há coisa
alguma na fome, na sede ou na nudez, ou no perigo, que nos convida ao
contentamento. Se nós estamos contentes debaixo destas circunstâncias, deve ser por
motivos maiores que a nossa condição mesma proporciona. A fome é um espinho
dolorido quando nas mãos da necessidade severa. Mas a fome pode ser
voluntariamente suportada por mais de uma hora quando a consciência faz um homem
disposto a jejuar. A reprovação pode ter uma presa amarga, mas pode ser
corajosamente suportada, se estou animado por um sentimento de justiça da minha
causa. Agora Paulo está nos contando que todos os males que vieram sobre ele eram
incidentes justos para o serviço de seu Senhor. Então, foi por amor que ele tinha ao
nome de Jesus que as misérias da servidão ou a automortificação assentaram-se
luminosamente em seus ombros e foram suportadas com satisfação pelo seu coração.
Há, ainda, uma terceira razão porque Paulo estava contente com o que tinha, eu
a ilustrarei. Muitos já viram como um velho veterano de guerra tem grande prazer em
recontar os perigos e sofrimentos de seu passado. Ele olha para trás com muito mais
contentamento, frequentemente com autocongratulação, sobre os terríveis perigos e
aflições de sua carreira heroica. Apesar do sorriso que brilha o seu olho e do orgulho
que é estampado nas dobras de sua imponente testa enquanto ele reconta suas
histórias, eles não estavam lá quando ele estava no meio das cenas que ele agora está
descrevendo. É somente porque os perigos são passados, que os medos cessaram e o
resultado é completo, que o entusiasmo brilha. Mas Paulo está em vantagem ainda
aqui. “Em todas estas coisas” — disse ele — “somos mais do que vencedores”.
Testemunhe sua viagem para Roma. Quando o navio no qual ele estava embarcado foi
tomado e dirigido por um vento tempestuoso, quando a escuridão velou os céus,
quando nem sol nem estrelas apareceram durante muitos dias e a esperança
desapareceu de todo coração, ele apenas se levantou com coragem humana. E por
quê? O anjo do Senhor esteve com ele e disse: Não temas. Sua fé foi predestinatária e,
por isso, ele teve contentamento pacífico em seu peito enquanto a tribulação durou e
até ela terminar.
E agora, eu quero confiar a lição do meu texto muito brevemente para os ricos,
um pouco mais para os pobres, e então, aconselhar com simpatia os doentes —
aqueles que são feridos pessoalmente pelo sofrimento.
Primeiro, para os RICOS. O apóstolo Paulo disse: “Aprendi, em qualquer estado
que esteja, a me contentar com o que tenho”. Agora alguns de vocês têm, dentro do
que as suas circunstâncias permitem, tudo o que seu coração pode desejar. Deus pôs
vocês em uma posição tal que vocês não precisam trabalhar com as suas mãos nem
suar o seu rosto para sobreviver. Vocês talvez pensem que qualquer exortação para
que vocês se contentem como que têm seja desnecessária. Meu Deus! Meus irmãos,
um homem pode ser muito descontente com o que tem embora ele seja muito rico. É
igualmente possível um descontente sentar em um trono como um pobre se assentar
numa cadeira com seus pés quebrados em uma choupana. Lembre-se que o
contentamento de um homem com o que tem está em sua mente, não na extensão de
suas posses. Alexandre, com todo o mundo a seus pés, chorou porque não havia um
outro mundo a conquistar. Ele estava triste porque não havia mais outros países para
os quais ele pudesse levar as suas armas vitoriosas e passar seus lombos no sangue de
seus seguidores, para satisfazer a sede de sua ambição insaciável. Para vocês que são
ricos, é necessário dar a mesma exortação para os pobres: “aprendam a se contentar
com o que têm”. Muitos ricos que têm uma terra não estão satisfeitos, porque há um
pequeno pedaço de terra que pertence ao seu vizinho, como a vinha de Nabote que o
rei de Israel necessitava para que pudesse ter uma horta vizinha ao seu palácio. “Não
importa” — disse ele — “que eu tenha todos estes acres [7], enquanto eu não puder
ter a vinha de Nabote”. Certamente um rei deveria se envergonhar de suspirar por um
terreno de meio acre do patrimônio de um pobre. Mas assim é: homens com vasto
patrimônio, que eles dificilmente são capazes de dominar, podem ter esta velha
sanguessuga em seus corações e sempre gritar: “Dá, dá! Mais, mais!” Eles pensavam,
quando tinham pouco, que se eles tivessem dez mil libras seria o suficiente. Agora eles
as têm, mas eles querem vinte mil libras. Quando eles as tiverem, eles ainda vão querer
mais. Sim, e quando eles tiverem mais, eles ainda vão querer “um pouquinho mais”. E
isto seguirá continuadamente. Quanto as suas posses aumentam, assim também
aumentará a cobiça de adquirir mais e mais propriedades. Devemos, então, pressionar
os ricos com esta exortação: “Aprendam em seu estado a se contentar com que vocês
têm”.
Além disso, há um outro perigo que frequentemente aguarda o rico. Quando ele
tem riquezas e propriedades suficientes, nem sempre ele tem honra suficiente. Se a
rainha pudesse fazer justiça para com ele para a paz do país, como glorioso este meu
senhor se tornará! Feito isto, ele não se satisfará enquanto não se tornar um cavaleiro,
e, quando ele for um cavaleiro, ele não ficará contente enquanto não se tornar um
barão, mas o meu senhor nunca se satisfaria enquanto ele não fosse um conde; nem
quando ele se tornasse um, ele ficaria plenamente satisfeito, a não ser quando se
tornasse um duque; mas, então, ele não ficaria satisfeito enquanto não houvesse um
reino para ele em algum lugar. Os homens não se satisfazem facilmente com honrarias.
O mundo pode se colocar aos seus pés e, então, ele pedirá para que o mundo se
levante e se abaixe novamente e que o faça continuadamente, para sempre, pois a
cobiça da honra é insaciável. Os homens podem ser honrados e, embora o rei Assuero
tenha feito Hamã o primeiro no império, este considerou que isto era nada enquanto
Mardoqueu no portão do palácio não se dobrasse diante do seu senhor Hamã. Oh,
aprendam, irmãos, em qualquer estado que estiverem, estejam contentes com o que
têm!
E aqui deixe-me falar com os presbíteros e diáconos desta igreja. Irmãos,
aprendam a se contentar com o ofício que vocês têm, não invejando alguma honra
superior para se exaltarem. Eu me viro para mim mesmo, para o ministério, para todos
nós em nossas posições e ofícios na igreja de Cristo. Devemos nos contentar com a
honra, mas contentes para dá-la totalmente, sabendo que é apenas um sopro. Sejamos
dispostos a ser servos para a Igreja e servi-la por nada, se necessário mesmo sem a
recompensa de seus agradecimentos, mas que possamos receber por fim a boa e
correta sentença dos lábios do Senhor Jesus Cristo. Nós devemos aprender, em
qualquer estado que estejamos, a nos contentar com o que temos.
Com um pouco mais de extensão eu tenho de aconselhar os POBRES. “Eu
aprendi” — disse ao apóstolo — “em qualquer estado em que esteja, a me contentar
com o que tenho”.
A grande maioria desta congregação pertence a estes que trabalham duro e que,
talvez, sem qualquer reflexão indelicada, podem ser postos no catálogo dos pobres.
Eles têm o suficiente — apenas o suficiente e, algumas vezes, estão mesmo reduzidos à
necessidade. Agora, lembrem-se, meus queridos amigos, vocês que são pobres, há
duas espécies de pobres no mundo. Há os pobres do Senhor e os pobres do diabo. Para
os pobres do diabo: eles se tornaram empobrecidos porque causa de sua preguiça, seu
próprio vício, sua própria extravagância. Não tenho nada a dizer-lhes esta noite. Há
uma outra classe, os pobres do Senhor. São pobres enquanto tentam provisões,
pobres, mas trabalhadores — trabalhando para achar todas as coisas honestas aos
olhos de todos os homens, mas ainda assim continuam por uma providência
inescrutável sendo contados com os pobres e necessitados. Vocês me perdoem, irmãos
e irmãs, em exortá-los para que se contentem com o que têm, e, porque deva eu pedir
desculpas, já que não é senão parte do meu trabalho animá-los para tudo o que é puro
e amável e de boa fama? Eu lhes imploro, em sua esfera humilde, que cultivem o
contentamento com o que têm. Não sejam preguiçosos. Busquem, se vocês puderem,
por habilidade superior, perseverança constante e economia moderada, para subir
desta sua posição. Não sejam extravagantes para viver inteiramente sem cuidado ou
com descuido, pois aquele que não provê para a sua própria família com previdência
cuidadosa é pior que um gentio e um publicano; mas, ao mesmo tempo, seja contente
com o que tem e quando o Senhor lhe tiver colocado em melhor posição, esforce-se
por adorná-la, seja grato a Ele e bendiga o Seu nome. E devo lhe dar razões para fazê-
lo?
Lembrem-se que, se vocês são pobres neste mundo, assim foi o seu Senhor. Um
cristão é um crente que tem semelhança com Cristo; mas o cristão pobre tem, em sua
pobreza, uma veia especial da semelhança com Cristo aberta para ele. Seu Mestre
vestiu um traje de camponês e falou a linguagem do camponês. Seus companheiros
eram pescadores que trabalhavam arduamente. Ele não era alguém que se vestia com
púrpura ou linho fino nem que se alimentava suntuosamente todos os dias. Ele sabia o
que era ser faminto e sedento, não, Ele era mais pobre do que vocês, pois Ele não tinha
onde reclinar Sua cabeça. Deixe isto consolar você. Por que deveria um discípulo estar
acima de seu Mestre, ou um servo acima de seu Senhor? Na pobreza de vocês, além
disso, vocês são capazes de comungar com Cristo. Vocês podem dizer: “Cristo foi
pobre? Agora eu posso ter compaixão com Ele na Sua pobreza. Ele estava cansado e,
então, Se sentou no poço? Eu estou cansado também e eu posso ter semelhança com
Cristo naquele suor que ele enxugou de Sua testa”. Alguns de vocês, irmãos, não
podem ir até onde vocês podem; seria errado para eles tentar fazer isto, pois pobreza
voluntária é iniquidade voluntária. Mas, visto que Deus os tem feito pobres, vocês têm
uma facilidade de andar com Cristo que outros não podem ter. Vocês podem andar
com Ele através de todas as profundezas de cuidado e de aflição e segui-l’O quase que
no deserto da tentação, quando vocês estão em seus apertos e dificuldades de falta de
pão. Que isto possa sempre satisfazer e confortar vocês, como também fazê-los felizes
em sua pobreza, porque o seu Senhor e Mestre é capaz tanto de ter compaixão quanto
de socorrer.
Permita-me lembrá-los novamente que vocês devem se contentar com o que
têm, porque, de outro modo, vocês desmentirão suas próprias orações. Vocês se
ajoelham de manhã e dizem: “Seja feita a Tua vontade”. Suponha que vocês se
levantem e desejem sua própria vontade e se rebelem contra a dispensação de seu Pai
celestial. Vocês não se fizeram hipócritas? A linguagem de sua oração está em
desacordo com o sentimento de seu coração. Seja isto sempre suficiente para vocês
pensarem que estão onde Deus lhes pôs. Vocês não ouviram a história do menino
heroico a bordo do navio em chamas? Quando seu pai lhe disse para ficar em uma
certa parte do navio, ele não se moveu até que seu pai lhe ordenou, mas se manteve
no local mesmo quando o navio estava pegando figo. Embora avisado do perigo, ele
manteve a sua posição até que seu pai lhe disse para se mover, ele ali ficou. O navio
afundou, mas ele pereceu em sua fidelidade. E uma criança seria mais fiel a um pai
terreno do que nós ao nosso Pai que está nos céus? Ele ordenou todas as coisas para o
nosso bem e pode Ele Se esquecer de nós? Creiamos que seja o que for que Ele decide
é o melhor; escolhamos antes a Sua vontade que a nossa própria. Se houvesse dois
lugares, um lugar de pobreza e um outro de riquezas e honra, se eu pudesse fazer
minha escolha, seria um privilégio para mim dizer: “Contudo, não se faça a Minha
vontade, mas a Tua”.
Uma outra reflexão se sugere por si mesma. Se vocês são pobres, vocês
devem estar bem contentes com sua posição, porque, dependendo dela, é o melhor
para você. Uma sabedoria inerrante lançou esta sua sorte. Se vocês fossem ricos, não
teriam tanta graça quanto vocês têm agora. Talvez Deus soubesse que se Ele não lhes
fizesse pobres, jamais vocês obteriam o céu e se Ele lhes mantiver como vocês estão,
Ele poderá lhes conduzir para lá. Suponha que há um navio de grande tonelagem para
ser trazido para um rio e, em uma parte do rio, há um lugar raso, alguém poderia
perguntar: “Por que o capitão pilota através da parte profunda do canal?”. Sua
resposta seria: “Porque eu não entraria no porto de forma alguma se eu não tomasse
este curso”. Então, talvez, vocês ficassem encalhados e sofressem a ruína do navio se o

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