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Compilação de textos extraídos OXALÁ

OṢÀLÚFỌN, O SÁBIO
da série “Orixás,” originalmente
Aquele que existia antes do mundo ser mundo,
com imagens e textos, da antes dos seres o habitarem. Aquele que existia
antes dos caminhos se desenharem traçando
destinos para a humanidade. Oṣàlúfọ-n é Òrìṣà
página do facebook do terreiro funfun, um dos deuses primordiais, o mais velho
do Panteão yorùbá.
Casa de Oxumarê.
Velho sábio, sente nas costas o peso do tempo.
Acumulou experiências, entendeu que a
sabedoria não menospreza os sentimentos vitais.
Aprendeu a não desdenhar de Èṣù. Oṣàlúfọ-n
ensina que o etéreo e o carnal devem se
equilibrar, se completar, se respeitar.

Oṣàlúfọ-n rege o início e o final de todos os


ciclos. O vemos na cor branca. No branco do
pombo, no branco do traje, no sentimento puro.
O branco está onde Oṣàlúfọ-n está: no
nascimento do iniciado, na despedida do rito
fúnebre.

Com seu cajado mítico, ọNpá ṣóró, une céu e


terra, homens e deuses, esperança e realidade.
Purifica as almas, torna as águas fecundas.

Oṣàlúfọ-n está na ética, no bom senso, na


paciência, na tranquilidade de quem conhece o
caminho. Oṣàlúfọ-n rege o dia, a clareza dos
pensamentos, a luz da sabedoria.

É lento como a prudência, decidido como o


caracol. Oṣàlúfọ-n está na serenidade do ancião,
na verdade absoluta.

Oṣàlúfọ-n é o bom ouvidor, o grande pai


ponderado. Não se exalta, não se surpreende,
não tem pressa; sabe que o tempo certo chega,
quando tem que chegar.

O àlà, seu manto branco, é símbolo de sua


pureza. Oṣàlúfọ-n é nosso sentimento mais
límpido, é a sinceridade das intenções, é o
desejo de acertar.

Eèpàà Bàbá! (Saudamos o Pai!). Ẹ ṣe é o!


(Obrigado!). Obrigado Pai de Bondade, por nos
mostrar a dádiva da sabedoria!
OXAGUIÃ LÓGUN
ÒṢÀGIYÁN, O GUERREIRO DA PAZ O PESCADOR ENCANTADO

De adaga em punho, não aceita a tirania. Desfaz Adolescente de vontades próprias; peixe
os conflitos, dissolve as mágoas. Pacifica as dourado que a todos fascina; flexa ligeira que
tensões. Òṣàgiyán faz o branco reinar. surpreende; Lógunède, divindade encantada.

Òṣàgiyán é aquele que age quando a impiedade Lógun é filho da beleza. Jovem fruto nascido do
não dá trégua. É a paz que se impõe pela guerra. amor entre ErinlẹN e ÌpọNndá, nasce na beira do
rio, herança e talento dos pais. Lógun é caçador
Rei de Èjìgbò, comedor de inhame pilado. como o Pai, um Ọdẹ; e dono dos segredos das
Òṣàgiyán é a jovialidade aguerrida de Òṣàlá. águas doces como a mãe, ỌNṣùn.

Está na água, está no ar. Òṣàgiyán é puro, mas Voluntarioso, libertário, Logún está na rebeldia
astuto, sabe onde quer chegar. do adolescente, no questionamento que nos faz
pensar.
Òṣàgiyán é a sensação do dever cumprido, da
vitória do bem sobre o mal. Ele é a superação Ninguém domina Lógun. Para tê-lo, é preciso
das tristezas, a vontade que sobrepõe o seduzi-lo, pescá-lo numa rede de amor, de
desânimo. carinho e reverência.

Na luta pela paz, Ògúnjà forjou as armas para A beleza o atrai. Logún está no brilho dourado,
ajudar Òṣàgiyán a vencer. Para eternizar no encanto das águas, na inteligência arguta do
gratidão, Òṣàgiyán usa o azul de Ògún em suas caçador.
contas sagradas. E este, traja branco para
reverenciar Ògiyán. Dança feliz, arracando sorrisos de
contentamento de quem pode apreciá-lo. Lógun
A desavença o atrai, pois ele não a tolera. Assim é a alegria despreocupada do jovem, é a criança
como não aceita os perturbadores da ordem. se tornando adulta, é o adulto que ama ser
Òṣàgiyán luta até desfazê-la, quer o império da criança.
paz.
Não há quem não se apaixone por ele, não há
Òṣàgiyán está na simpatia, na generosidade, no quem não o repare.
perfeccionismo, no alívio do justo, na
consciência tranquila. Doce, meigo, caprichoso. É o mimo dengoso
que amolece a rocha. Filho que provoca, mas
Òṣàgiyán é o Pai da Paz. Luta por ela, vence por sabe cativar os corações.
ela, por ela nos dá esperanças. Eèpàà!
(Saudamos!). Saudamos o guerreiro branco da Lógunède, o Lógun, é a rebeldia construtiva, o
paz! incômodo criativo, a amplitude do vôo.

Quando estes sentimentos brotam em nós,


Lógunède nos abençoa. Lò sí, lò sí! (O
reverenciamos neste momento!). Olúwà o! (Oh,
Mestre!), dono do amor filial!
ṢÀNGÓ ÌBÉJÌ
O DONO DA JUSTIÇA OS GÊMEOS

Justiça é dom divino. Resista o quanto quiser, As crianças que nascem da mesma gravidez são
teime o quanto puder, iluda com razões e especiais, raras; por isso, divinas. Abençoada a
motivos, mas sempre a justiça de Ṣàngó irá se família escolhida por Ìbéjì! Abençoada a família
impor, pois ela nunca falha. escolhida para a felicidade nascer em dobro!

Ninguém segura o fogo da verdade, ninguém Os gêmeos são donos de um único rosto, mas de
engana a Justiça que mora dentro de nossas duas individualidades. Cada qual tem suas
próprias consciências. próprias pernas, mas andam sempre juntos.
Aproximam a família, fazem o trabalho
Ṣàngó está no que é justo. É o rei que cospe aumentar e assim trazem prosperidade.
fogo pela boca quando vê ingratidão. Não tolera
injúria, não aceita maledicência. Ìbéjì é a inocência infantil, é o riso solto, a
alegria de brincar.
Luta com seu oṣé, o machado de dois gumes.
Incansável, incorruptível, Ṣàngó mostra que a Ìbéjì está na criança pura que não se prende a
justiça não pode ser tendenciosa. Ṣàngó não mágoa, que não tem vergonha de perdoar; no
descansa, enquanto o erro não for reparado. carinho singelo, no abraço de saudade.

Rode o ṣẹNrẹN, clamando por justiça. Ṣàngó O culto a Ìbéjì começa em ỌNyọ-, quando a
responderá falando com a força dos trovões. Ele esposa do rei Dàda Àjàká (irmão de Ṣàngó) dá a
estará presente, sempre ao lado de quem dele luz a filhos gêmeos. Era um presente de Ìbéjì!
necessitar. Começa o culto à alegria! E os dois filhos
gêmeos são reconhecidos como um só: um
Ṣàngó é o calor do fogo, a magia da labareda único presente do Criador!
que arde e consome o mal. Ele é o vigor, a ânsia
de viver, é a rocha inabalável que impõe a Ìbéjì está nos irmãos que ensinam união.
grandiosidade do seu poder. Dividem o útero, o leite, mas multiplicam o
amor e a felicidade.
Ṣàngó é intenso, vibrante. Ṣàngó está na
eloquência, na exaltação do debate, no império Divindade da pureza infantil que é cultuada,
das opiniões. para que este sentimento se faça presente em
qualquer idade, em qualquer lugar.
Glutão, Ṣàngó gosta de saciar-se pela boca.
Aprecia o que é farto, quer o prato quente; como Ìbéjì está dentro de nós que, mesmo adultos, nos
quente é sua personalidade. permitimos que a criança que fomos, sorria
novamente.
Ṣàngó gosta de vida, de amar e de ser amado. Que a alegria dos gêmeos nos alcance! Oní
Rei de ỌNyọ-, cria a dinastia dos Aláàfin. Ṣàngó é Ibéjì! (Salve Dono dos Gêmeos!). Saudemos
vivo até hoje. Ṣàngó sempre vive na feitura de sempre Ìbéjì! Béjèrò! (Ibéjì têm o Ritual!).
justiça.

Káwò ó kábiyèsí lé! (Permita-nos olhar para


Vossa Majestade!) Permita-nos, Ṣàngó, enxergar
o fogo da Justiça!
YEMỌJA NÀNÁ
A MÃE DEVOTADA A MATRIARCA

Amor profundo como o mar, devoção infinita Mãe austera que conhece as surpresas da vida e
àqueles que ama. A mãe dos filhos peixes é um os mistérios da morte. Matriarca que não se
oceano que abraça o grande cardume. ilude, não teme a dor, pois já viveu para vencê-
la. É a mulher sábia que olha as coisas com a
Yemọja faz de seus grandes seios, rios que distância dos anos. Sabe o começo, conhece o
levam para o mar, acalentando seus filhos, final.
refrescando-lhes o suor.
Nàná rege os pântanos de água salgada e as
Yemọja está presente no instinto de mãe, no águas paradas. É a dona da lama que dá origem
ardor pelos filhos, na água que contorna os à vida e dá forma à morte.
obstáculos para alcançar seu paradeiro.
Velha Senhora, Nàná é ave noturna que voa
Yemọja faz das espumas um gesto delicado de acima das árvores, impondo respeito por onde
carícia, mas cresce em ondas empunhando passa, aonde pousa.
espada quando luta pelos seus.
Ela é a sabedoria doída de quem muito viveu. É
Porto seguro dos navegantes, sustento da alma, a certeza amena, de quem conhece a força do
colo do pranto, mãe de todas as cabeças. tempo.

Yemọja está na lucidez do pensar, no bom senso Da água faz seu elemento. Do ìbírí, seu
ao agir. Quem lhe conhece aprende com ela, instrumento. Útero, berço da vida. O início da
quem não a vê se perde em si mesmo. jornada, que a mãe paciente, prepara para
aqueles que virão. No fim do destino, lá está ela,
Filha de Olókun, a Dona dos Oceanos, Yemọja Nàná, para novamente amparar, acolher,
herda os mares, ganha o Brasil. preparar para uma nova etapa.

Navega nas águas doces, impera nas águas Existiu antes do ferro. Dele não faz utensílio.
salgadas. Yemọja é mãe que acolhe seus filhos Nàná tem seu próprio jeito, tem suas manias.
onde eles estão.
Em Okuni, no Dassa Zumé, há milhares de
Muitas as habilidades de mãe, muitas as anos, inicia seu culto. Mas a força da matriarca
saudações a Yemọja: Odò Fẹ- Ìyá Àgbà! (Amada ganha outras terras. Ganha força com os
Matriarca do Rio!); Odò Ìyá (Mãe do Rio!); Orí, iorubas. Ganha filhos, no Brasil.
o! (Oh, Senhora das Cabeças!); Èérú Ìyá! (Mãe
das Espumas!) [Mãe que possui cauda] Para que a vida permaneça, a Grande Mãe
sempre deve saudada: “Sàlúgbá!”(Venha em
nosso auxílio!). Salve Nàná, a poderosa Mãe
Ancestral!
YẸWÀ ỌYA
A BELA A GUERREIRA

A delicadeza das águas, magicamente se Brisa suave que refresca, se transforma de


transforma na pureza do ar. Yẹwà é assim, sutil, repente em vendaval que destelha. Ninguém
encantadora, transformadora. Yẹwà muda tarde, sabe quando o vento vira tempestade... Ninguém
em noite. Ela é o crepúsculo que pinta o céu de sabe quando Ọya é brisa, ou vendaval.
grená.
Ọya é o vento em todas as suas intensidades, em
Yẹwà está na transmutação dos elementos. É todos os seus humores. O vento de Ọya faz o
bela, tímida, solitária, introspectiva. Yẹwà é o mundo se mover. Não há estagnação onde Ọya
botão que se tornará flor. É a menina que se está.
transformará em mulher.
Ọya não se esconde, não dissimula. Ọya é, o
Ninguém entende perfeitamente Yẹwà. Só ela que é. É intensa, espontânea. É borboleta que
sabe o que sente. Só ela sabe onde quer estar. Só voa pelo mundo, que ama a liberdade, que quer
ela faz a água dançar no ar, virando vapor. mostrar sua beleza por onde passar.

Para alguns, aparece como uma cobra fêmea. Dona dos nove céus, Ọya conduz os espíritos. É
Para outros se revela como o vermelho do arco a mãe que recebe os mortos e os leva pela mão,
íris. deslizando no vento, deslizando no tempo.

Yẹwà se esconde. Só se mostra a quem ama. E Corajosa guerreira, vira um búfalo no campo de
só quem a ama consegue percebê-la em sua batalha. Destemida, determinada, enfrenta leões
delicadeza. lutando pelos seus.

Yẹwà está no poder de transmutação da dor em Ọya está na sensualidade da mulher. Seu olhar,
sabedoria, da experiência em aprendizado, da fé seus gestos, sua dança, encantam e apaixonam.
em realização. Ela é vibrante, intensa, sedutora. É mulher que
arrebata, é furacão de emoções.
Ela sabe manejar o arco, a flexa e a lança. Yẹwà Conheceu os segredos do fogo e dele fez uma
caça e luta, em busca do amor idealizado. arma. Ọya come fogo, cospe fogo e das bolas de
fogo fez comida, fez àkàrà, para alimentar seus
Foi na cidade yorùbá de ẸN gbádò que começaram filhos. O àkàrà é comida do corpo, é comida da
a reverenciar Yẹwà. Se encantaram por ela. alma.
Yẹwà os conquistou. ẸN gbádò hoje se chama “Àkàrà n´jẹ!” (Venha comer àkàrà!), gritava
Yẹwà, no Estado nigeriano de Ogun. Ọya para alimentar suas crias. Até hoje com o
àkàrà Ọya nos dá forças, nos aquece e nos
Yẹwà é a pureza que há em nossos corações. proteje. Eèpàà hey, Ìyá MẹNsàn ỌNrun (Salve,
RírọN! (Brandura!). Que nossos corações sejam Mãe dos Nove Céus!).
sempre puros como o seu!
ỌBÀ ÌRÓKÒ
O PACIENTE

Ọbà é a paixão que cega, a devoção desmedida, O yorùbá não vê na planta apenas um elemento
a fidelidade ao Ser amado. É um rio turbulento para lhe servir, mas um irmão que com ele
que corta a Nigéria, como o amor que corta o coabita o planeta. Consegue enxergar numa
coração. árvore um deus, Ìrókò.

Esposa mais velha de Ṣàngó, Ọbà é a síntese da Ìrókò, a árvore sagrada que é Òrìṣà. Se finca na
mulher madura que se vê rejeitada por outra terra para crescer frondoso em direção ao céu.
pessoa. Suas raízes nascem dos galhos, de cima para
baixo, como cordas para que os espíritos
É caçadora e guerreira incansável. Usa o arco, possam descer por elas.
usa a flexa, usa a espada. Não se humilha, não
se abate, mas quer a reparação. Ìrókò é paciente. Entende o tempo das coisas.
Sabe esperar os pequenos príncipes se tornarem
Ọbà rege as águas agitadas dos rios, as quedas d reis, a tempestade passar, a maré subir e descer,
´água, as enchentes, as paixões. Ọbà está no o sol se pôr e renascer, a lua apontar no céu
ciúme, na fúria feminina, na dor da perda semana após semana, iluminando o sono de toda
amorosa. a Humanidade. Ìrókò sabe que tudo passa. Sabe
que o futuro existe e que sempre chegará. A
O rio Ọbà até hoje atravessa ỌNyọ-. Caudaloso, árvore que assistiu ao começo do mundo, ensina
barulhento, perigoso. Abastece de água e de “sùúrù”, a virtude da paciência.
ameaças a quem não souber nadar nas suas
águas de mistério. Ìrókò pode tombar, mas sempre irá renascer. É o
pilar que sustenta o céu. É a copa que dá
Ọbà é a dona do lado esquerdo do corpo. É sombra, acolhe, abraça e ameniza o calor. É
incompreendida, enigmática. Madura, é Senhora morada de espíritos. Ìrókò é a divindade que se
que participa da sociedade secreta das mulheres. veste de árvore.
É a mãe dos Àbíkú.
Ìrókò, a árvore dos ancestrais que foi plantada
Seu culto é originário da cidade yorùbá de no passado, existe até hoje no presente e
Elẹkò, mas se estendeu mundo afora. Onde há enxerga do alto, o porvir que aponta no
paixão, está Ọbà. Onde há a mulher sofrida, Ọbà horizonte.
irá protegê-la.
Árvore que fala, aconselha, ensina, depura.
Ọbà ṣiré! (Festejemos Ọbà!). Ìrókò é árvore que anda, que dança, que
incorpora.

Saudamos Ìrókò dizendo: ẸN rọN! (Calma!). Nos dê


a sua calma, Grande Árvore! Que possamos
também aprender com paciência os mistérios do
tempo!
Ọ5ṢÙN ÒṢÙMÀRÈ
A SEDUTORA O TRANSFORMADOR

Quando a água toca nosso rosto, é a mão de A divindade encantada que colore o céu em arco
ỌNṣùn que nos acaricia. Quando um beijo nos íris. Aquele que faz da chuva, renovação. A
acalenta a alma, é ỌNṣùn que enche de mel o serpente que se estica no horizonte, mostrando o
coração. Quando sentimos em nós o amor, infinito das possibilidades.
sentimos ỌNṣùn.
ṢàpọNnà tomou Savalu e expulsou Boku. Com
ỌNṣùn está presente na maternidade, no charme, isso, inúmeros sacerdotes de Dan daquelas
na vaidade de querer ser a primeira, a mais bela. terras fon, se refugiaram na cidade yorùbá de
ỌNyọ-. Lá, Dan se transforma em Òṣùmàrè. Desde
Gerar uma vida dentro de si, guardando no útero aqueles idos, a cobra se encanta, se tranforma,
um novo Ser, é experimentar o poder gerador de se renova levando consigo a riqueza de sua
ỌNṣùn. cultura.

O amor lhe pertence. Assim como o encanto, o Òṣùmàrè é o risco de cores que pinta o
mimo. ỌNṣùn é dona do gesto delicado, da firmamento chuvoso, enchendo de júbilo e
palavra macia, das artimanhas de mulher. surpresa a todos que o vêm. Deslumbra,
embevece, tráz esperança. Òṣùmàrè renova,
ỌNṣùn é a sedução que convence. É a água que movimenta, desperta para o novo.
contorna suavemente os obstáculos, dando feitio
à pedra sem a pedra sentir. É o espelho dágua Òṣùmàrè une céu e terra em um único arco. A
que reflete a beleza. píton real que é pai e é mãe, que é deus e
encantamento. O “Gbèsèn” (“O princípio vital
Mas apesar de tanto enlevo e candura, ỌNṣùn é o cultuado”).
rio profundo que arrasta em correnteza. É
cachoeira que encanta de longe, mas que A serpente que fascina, que se fecha em círculo
surpreende e afoga ao descuidado. Assim, a e mostra o eterno. A serpente que indica o
delicadeza da água se transforma em arma. E a caminho e atrai seguidores, mostrou a Tàlábí
doce ỌNṣùn se mostra poderosa guerreira, que seu propósito e ele funda a Casa de Òṣùmàrè do
usa seus encantos para vencer as guerras que lhe outro lado do Atlântico. A cobra que se estica no
convém. céu, se expandiu também na Terra. Òṣùmàrè
ganha seu reino na Bahia.
ỌNṣùn é bela, é doce, mas é Senhora. Conhece os
feitiços de mulher. É sábia. Guarda em si a força Salve nosso Rei! Ahò! (Rei!). Ahògbógbóyi!
e a resistência da das donas do ventre. (“Saudamos o Grandioso Rei da Terra!”).

Oore yèyé, o! (Oh Mãezinha da Bondade!),


guarde-nos em teus braços de mãe!
Ofyderimán! (Muito doce!) – Adoce nossas
vidas!
ỌMỌLU Ọ5ṢỌỌ5SÌ
O MISTERIOSO O ASTUTO

Coberto de palha, Ọmọlu mantém-se sempre em A sagacidade, a coragem, a vontade de prover


mistério. A beleza de seus traços, a grandeza de aqueles que ama. Sinta isso e estará sentindo a
seus gestos somente a poucos é revelelada. fibra do caçador ỌNṣọ-ọNsì.
Ọmọlu e Ọbalúwáiyé são cultuados no Brasil
como energias de um mesmo Òrìṣà. O primeiro ỌNṣọ-ọNsì é astuto, atento, perceptivo. Dança
mais velho e o segundo mais novo. Mas em furtivamente para frente e para trás, como quem
ambos, a marca física da superação. Ọbalúwáiyé engana a caça. Afinal, ser mais ágil do que um
lutou contra a Àrùn (a doença). Foi o primeiro a animal selvagem em seu próprio habitat é uma
vê-la de frente. Conhece sua face. Por isso arte. Por isso ỌNṣọ-ọNsì é um artista.
consegue derrotá-la. Ọbalúwáiyé é o guerreiro
da saúde. Assim, amadureceu como Ọmọlu se ỌNṣọ-ọNsì, o caçador (ọdẹ), é aquele que vai em
tornando sábio e conhecedor das curas. busca do alimento para prover seu clã. Gosta do
desafio, aprecia ainda mais o reconhecimento
Dono do interior da terra, acolhe os mortos em por seus feitos.
seus braços, dando ao corpo um local de
descanso, quando se encerra a jornada da vida. ỌNṣọ-ọNsì é preciso, certeiro, vislumbra de longe as
Ọmọlu é calado, circunspecto. Prudente, coisas. Contorna as situações e os perigos, com
entende que é possível ver, sem dizer e ouvir, a habilidade do caçador que deve atingir o alvo
sem falar. Mas quando fala, faz a terra tremer. com uma flexa só.

O ritmo litúrgico que o saúda, o ọpanijẹ, traduz ỌNṣọ-ọNsì é caçador, mas não é destruidor. Caça,
a personalidade enigmática deste Òrìṣà. abate, vence, mas não destrói. Sabe que não
Acompanhando a batida cadenciada dos pode extinguir sua presa, pois senão lhe faltará
atabaques, Ọmọlu vai pelo mundo, atravessando alimento. E ỌNṣọ-ọNsì aprecia a fartura. A
continentes de dor, distribuindo a dádiva da prosperidade lhe pertence.
saúde a quem fizer por merecer. Traz na pele a
marca de todas as agruras. Mas resistente e Em torno da mesa farta, ỌNṣọ-ọNsì agrega os seus.
persistente, morre e revive sobrepujando da Ele une, diverte, alegra, pois ele trás felicidade.
doença à rejeição, da pobreza à solidão, da
ingratidão à mágoa. O Olóore (O Senhor da Conhece as matas, reconhece os cheiros,
Bondade) nunca se cansa de fazer o bem. enxerga com precisão, ouve o que lhe interessa,
Ọmọlu é assim um grande médico, que cura as caça do seu jeito (e de mais ninguém). Este é
doenças do corpo e cicatriza as mazelas da ỌNṣọ-ọNsì. O líder da etnia dos arò, primeiro rei e
alma. fundador da cidade yorùbá de Kétu.

Originário da região de Empe, no território Tapá Salve o caçador que nos provê! Salve o Òrìṣà da
do antigo Daomé, Ọmọlu é saudado no fartura, que põe comida em nossa mesa e agrega
Candomblé em uma grande celebração de a família! Arò lè! (“O poderoso dos arò!”).
comunhão: o Olúbájẹ (O Banquete do Rei).
Nela, todos comem juntos, louvam juntos,
rezam juntos, para juntos construírem um
mundo melhor, com as bênçãos do Senhor da
Terra. Pisamos com os pés descalsos no chão e
sentimos a força de todas as possibilidades que
a terra tem: o sustento, a base, a vida, o berço da
morte. Pisamos com os pés descalsos no chão e
sentimos a força de Ọbalúwáiyé. Atótóo!
(Silêncio em Respeito a Ele!).
ÒGÚN ÈṢÙ
O DESBRAVADOR O CONTROVERSO

O ímpeto, o impulso realizador, a coragem de Quando sentimos em nós o caos, sentimos Èṣù.
empreender, o rompante da guerra. Eis a Quando somos tomados pelo turbilhão de
presença de Ògún! emoções, Èṣù está presente. Mas o que
decidimos fazer desses sentimentos, não é Èṣù
Ògún é o ferreiro: o que constrói as armas para quem resolve. Somos nós...
guerra e as usa na contenda com habilidade.
Impetuoso, age por rompantes. Não adia a Èṣù representa o que há de mais visceral no Ser
guerra, não teme o inimigo. Humano: a energia sexual, a comunicação, a
ambição.
Desbravador, amplia os horizontes e não se
acomoda. Inventa a técnica da forja, transforma Nem por isso Èṣù deve ser confundido com o
o minério em ferro, faz a liga, faz a guerra, Diabo, nem com Satanás, pois ele não
desenvolve a tecnologia. representa o opositor ao Criador. Èṣù não é bom
e nem mau: é a própria ambiguidade humana.
Além da arma, Ògún também faz a ferramenta Compreender isso nos liberta, pois passamos a
da agricultura. A pá, a enxada, a foice, o entender que a culpa por nossos tropeços muitas
ancinho... Os instrumentos agrícolas lhe vezes resulta de nossas próprias ações e não de
pertencem. É com eles que a agricultura se entes malignos.
realiza e com eles a faz prosperar.
No Candomblé Èṣù é cultuado como o dono dos
Inquieto, além de tudo isso Ògún ainda caça. caminhos, o procriador, o realizador, o
Foi ele quem ensinou a seu irmão ỌNṣọ-ọNsì os revolucionário, o interlocutor das divindades, o
segredos do arco e da flexa. dono do mercado, o portador das oferendas aos
deuses. É o irmão primogênito de Ògún e
Ògún não pára. Ògún não se cansa. Luta, planta, ỌNṣọ-ọNsì, filho de ỌNṣàlá e Yemọja, originário da
caça e ama. Ama muito e sem medida. cidade yorùbá de ÌgbẹNtì. Denominado também
como Bara (“Aquele que está escondido no
Ògún nos dá caminho: o caminho do corpo”).
desenvolvimento. Entender Ògún, é
compreender que para se obter o que se quer, é Sua saudação resume a personalidade e a
preciso lutar. energia desse Òrìṣà: Làròyé! (“Ele é a
controvérsia!”). Salve a capacidade realizadora
Saudamos Ògún dizendo: Ògún yè! (“Ògún é do Ser Humano! Salve o poder de reconstrução!
vida!”). Salve o ímpeto que nos dá vida! Salve o Salve o Dono dos Caminhos! Làròyé Èṣù!
desbravador que promove o pioneirismo! Salve
Ògún! Pàtàkòrí! (“O Importante!”).

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