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CRÍTICA LITERÁRIA: CONCEITO E EVOLUÇÃO

Cristina Botelho1
Luciana Cavalcanti Ferreira2
Resumo: O presente artigo é o resultado de uma pesquisa bibliográfica, cuja
finalidade é a discussão dos conceitos de crítica literária, sua evolução e as diversas
abordagens críticas, desde o século XIX até o século XX. Trata-se de uma discussão
que se propõe a esclarecer as semelhanças e divergências das diversas abordagens
críticas, numa perspectiva evolutiva que vai de Sainte-Beuve a Bakhtin.
Palavras - chave: crítica, abordagem, evolução.

INTRODUÇÃO
O estudo da literatura exige um conhecimento dos conceitos de
crítica literária e também de suas diferentes abordagens. Em decorrência
desse fato, a presente pesquisa torna-se válida, principalmente para os
estudiosos das letras, a quem cabe o papel de analisar, criticar e julgar a
produção literária. Por esta razão, neste artigo estão presentes os
conceitos de crítica literária e a evolução de suas várias e diferentes
abordagens, desde o século XIX até o século XX. Para isso realizamos
um levantamento de dados em autores tais como: Massaud Moisés,
Rogel Samuel, Jérôme Rogel e Terry Eaglaton .

CRÍTICA LITERÁRIA: CONCEITO E EVOLUÇÃO


Segundo Massaud Moisés (1967), a palavra “crítica” deriva do
grego Krínein significando julgar. Ao longo de sua evolução
enriqueceu-se e tornou-se universalmente usada como sinônimo de
interpretação, análise e julgamento da obra de arte ou de qualquer outro
objeto, ou ainda como sinônimo de modos de julgamento: crítica
1
A autora é Doutora em Teoria da Literatura, Professora de Teoria da Literatura e das
Literaturas de Língua Portuguesa na Faculdade de Ciências Humanas de Olinda e da Faculdade
de Formação de Professores de Nazaré da Mata da Universidade de Pernambuco.
2
Mestra em Literatura Brasileira, Professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira.

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histórica, crítica oral, crítica de processos penais. A palavra “crítica” foi
ainda corrompida pelo uso corrente, sendo empregada vulgarmente com
sentido negativo e por vezes pejorativo.
Com o passar dos séculos, este vocábulo acabou por adquirir um
sentido polissêmico, pois, atualmente, apresenta uma configuração
semântica muito elástica, e envolve atividades diferenciadas desde o
artigo de jornal, incluindo a resenha, até a tese universitária, passando
pelas monografias, ensaios, artigos de revistas, conferências, enfim,
tudo isso recebe indistintamente o nome de crítica. A crítica literária,
especificamente, tem a missão de apreciar o valor estético de uma obra
em todas as fases de sua realização, julgando, inclusive, sua
literariedade, sua excelência e a hierarquia do seu valor.
O histórico da crítica literária está longe de ser uma reta e de ser
composto por uma sucessão de obras escritas segundo um mesmo
padrão intelectual. Ao contrário, sua progressão acontece de forma
irregular, como um ziguezague, absorvendo o máximo possível de áreas
intelectuais ao longo de sua evolução. Devido a essa irregularidade não
há um único método para a abordagem de um texto literário e não há
métodos que possam servir para todos os textos. A obra é que determina
o método a ser empregado e este deve ser ainda, se necessário, adaptado
à obra, para não exigirmos que ela se acomode artificialmente a um
esquema predeterminado. Caberá ao crítico observar o que predomina
ou o que é importante em cada caso, aplicando o método correspondente
ou a adaptação desse método.
O crítico literário tem como objeto constante de estudo e
avaliação a obra literária. Essa relação, segundo Enrique Anderson
Imbert (1971), gera uma mútua dependência entre o escritor e o crítico,
já que ao escritor interessa, em muitos casos, a divulgação e o alcance
proporcionado pela análise de sua obra, e ao crítico interessa a obra
propriamente dita. Mas a crítica, apesar de depender da obra de arte, é
também a criação de uma nova obra que prolonga e completa a obra
criticada, além de analisá-la e avaliá-la. O crítico cria uma obra
dependente da outra, já que não existiria sem ela, mas ao mesmo tempo
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autônoma, bastando por si própria e regida por leis específicas diversas
das que comandam a obra de arte. Por isso que a crítica também é arte,
já que lida com dados subjetivos e imaginativos e o crítico, como o
artista, cria uma obra, embora com outra qualidade, essência e função.
A crítica, segundo Massaud Moises (1967), pode ser dividida de
acordo com o seu objetivo restrito, em dois tipos: a crítica descritiva ou
analítica, que seria a fase de pesquisa e análise do texto literário, com
enfoque em sua compreensão; a crítica avaliativa ou justificativa, que
pretende erguer juízo de valor. Um dos ideais da crítica literária seria a
junção dessas duas formas de aproximação do texto: o julgamento
erguido sobre dados fornecidos pela análise.
Assim, a crítica literária tem a função de caracterizar a obra, uma
atividade de investigação, através dos elementos que a compõem,
identificando suas diferenças. Sempre atenta aos processos
estruturadores da obra e articulada com a história e a literatura, ela seria
o lugar de encontro entre o texto e o público, em épocas e espaços
diferentes. Conjuga o modo de ser da obra com o modo de ver do
crítico, ambos envolvidos pela historicidade. As abordagens críticas, por
terem trajetórias irregulares, apresentam diferentes comportamentos ao
longo do tempo e priorizam diferentes aspectos (contexto
social/histórico, autor, obra e público) em seus vários momentos,
conforme divisão de Rogel (1997).
Nas primeiras décadas do século XIX, a crítica literária passa a
processar-se sistematicamente, destacando-se o crítico francês Sainte-
Beuve e seu método biográfico, que seria um processo de descrição que
procurava explicar elementos da obra fazendo uma abordagem da
biografia do autor. Com o desenvolvimento da teoria literária ficou
comprovado que essa análise era frágil e até contraditória, tanto que
Sainte-Beuve tenta dar mais consistência ao seu sistema e formula a
teoria de tipos psicológicos, que dá início ao que posteriormente seria
conhecida como a história da literatura: o estudo em conjunto de
escritores de uma época, assinalando as diferenças entre eles e
formando grupos de estilos parecidos. Essa abordagem crítica prioriza o
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autor, já que a partir da sua biografia poderíamos entender melhor os
elementos de sua obra.
Nascida em oposição ao idealismo romântico e inspirado pelo
extraordinário avanço das ciências da natureza durante a segunda
metade do século XIX e pelo positivismo de Auguste Conte, surge a
crítica determinista, destacando-se Hippolyte Taine, apontado como um
percussor da sociologia da literatura, pelo relacionamento que realiza,
no estudo da obra, entre o homem e o meio. Relaciona a produção
literária com as condições sociais, mostrando, nessa abordagem, a
valorização do contexto social na análise dos elementos literários. Taine
achava que o crítico deveria buscar a “faculdade matriz” de cada
escritor, como se pretendesse chegar à fonte psicológica de onde parte o
talento e a inspiração. Essa abordagem crítica também é caracterizada
pelo cientificismo, que aplica métodos científicos às ciências do
espírito, incluindo a literatura.
No final do século XIX, em oposição à postura cientifica e
objetiva do determinismo, desenvolveu-se uma tendência crítica
centrada na subjetividade do leitor, que seria o aspecto predominante da
Crítica Impressionista, segundo a qual, cabia ao leitor transmitir as
impressões que mais marcaram a sua sensibilidade. O crítico poderia
agir livremente, sem limitações metodológicas, seguindo os impulsos de
suas descobertas pessoais. Com isso a obra acabava ficando em segundo
plano, servindo apenas como um cenário para essas descobertas. Do
impressionismo crítico resultam textos antológicos, tendo-se em conta
que seus cultores mais notáveis foram também grandes escritores, como
Anatole France e Virginia Woolf. Teve como mais importante seguidor
Benedito Croce.
Opondo-se às tendências anteriores, pois recusa qualquer tipo de
elementos extratextuais, surge, no início do século XX, a Crítica
Formalista ou o Formalismo Russo, entendendo que a investigação
literária deve se fixar na própria obra. Para Terry Eagleton (2001)
caberia a essa crítica dissociar arte e mistério e preocupar-se com a
maneira pela qual os textos literários funcionavam na prática. Para eles
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a literatura não era uma pseudo-religião, psicologia ou sociologia, mas
uma organização particular de linguagem. A obra literária não era um
veículo de idéias, nem uma reflexão sobre a realidade social, nem
encarnação de uma verdade transcendental: era um fato material, cujo
funcionamento podia ser analisado mais ou menos como se examina
uma máquina. Com essas idéias, essa abordagem concentra-se apenas
na obra literária e tem como principais representantes Cheloveskg,
Tomachevski, Vladimir Propp, O. Brik, Eikhenbaum e Tynianov. Por
volta de 1924 e 1925, intelectuais marxistas exercem forte oposição aos
formalistas, que julgavam desligar-se do processo histórico e do
momento político na Rússia, decorrente da revolução de 1917. Por volta
de 1930 o Formalismo Russo se desintegra, deixando uma herança
teórica que seria logo mais revisada e aproveitada pelos estruturalistas.
Ainda na primeira metade do século XX, sofrendo influências
dos estudos de Charles Bally, discípulo de Saussure, aparece no cenário
da crítica literária a Estilística, inicialmente não voltada para os aspectos
da língua literária. Jules Marouzeu foi quem propôs uma estilística
voltada para a literatura, mas ainda muito ligada à lingüística de Bally.
Durante sua evolução, a estilística se mostra como uma abordagem que
analisa a obra literária a partir do autor e da própria obra, pois, ao
mesmo tempo em que propõe um estudo voltado para a lingüística, sofre
influência das teorias freudianas quanto à criação literária ligada ao
psiquismo do autor, apreendendo-a como expressão de uma
personalidade. Esse dado psicológico é até rejeitado por Leo Spitzer no
andamento da crítica, prevalecendo a visão da obra como organismos
poéticos em si. Mas Carlos Bousono, assim como Spitzer, também
procura fugir à apreensão somente sincrônica da obra literária e propõe,
a partir da interpretação do eu individual e do eu social do escritor, a
inclusão de elementos epocais, com o que procurou dar à crítica uma
dimensão diacrônica e ideológica.
Marcando, no contexto mundial, a passagem da crítica literária
para o meio universitário, caracterizando uma abordagem mais
“científica” ou metodológica temos a “Nova” Crítica que supera a

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impressionista ou intuitiva. A Nova Crítica não se preocupa com a
hermenêutica, a ontologia, a filologia e com o perfil biográfico do texto
literário, mas sim com uma leitura microscópica da obra que, assim
como a Crítica Formalista e, em parte, a Estilística, teria autonomia. O
testemunho do autor seria a própria obra e não um contexto histórico,
biográfico, psicológico ligado a ele. Essa nova abordagem deixa claro
que fixa a análise dos elementos a partir do próprio texto, quando busca
os significados denotativos e conotativos das palavras, ambigüidades e
tensões de vocábulos e sintagmas, imagens, metáforas e símbolos
dominantes ou recorrentes, processos retóricos na composição de cada
gênero a partir do enredo, personagens, atmosfera, temas principais e
secundários. Assim, o objetivo dessa forma de abordagem é aproximar o
crítico do texto poético, afastando-o de outras especulações que
extrapolam os limites do texto. A Nova Crítica tem como principais
nomes John Crowe Ransom, Allen Tate, Cleanth Brooks e Robert Penn
Warren, além de R. P. Blackmur e Kenneth Burke. Essa abordagem
crítica acontece concomitantente à Formalista e à Estilística, já que
todas ocorrem na primeira metade do século XX, confirmando a
progressão irregular da história da crítica literária.
A nova Crítica havia desempenhado satisfatoriamente seu papel,
mas era, num certo sentido, demasiadamente modesta e particularista
para atingir a condição de uma disciplina acadêmica rígida, pois deixava
de lado aspectos mais estruturais da literatura. Para suprir essas lacunas
surge o estruturalismo literário que floresceu por volta do final da
primeira metade do século XX, com a tentativa de aplicar à literatura os
métodos e interpretações do fundador da lingüística estrutural moderna,
Ferdinand Saussure. O estruturalismo, como disse Frediric Jameson, é
uma tentativa de “repensar tudo em termos lingüísticos”. É mais um
sintoma de que a linguagem, com seus problemas, mistérios e
implicações, se tornou tanto um paradigma como uma obsessão para os
intelectuais do século XX. Com a herança do Formalismo Russo,
também focado na análise do texto literário, o estruturalismo é guiado
pelo reconhecimento da obra como estrutura, pelos princípios da

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funcionalidade e da generalização, buscando o que as obras literárias do
mesmo gênero tinham em comum, numa postura descritiva, objetiva e
científica. Tem como principal nome Roman Jakobson, líder do Círculo
Lingüístico de Moscou, grupo formalista fundado em 1915. Jakobson
emigrou para Praga em 1920, tornando-se um dos principais teóricos do
estruturalismo tcheco. Houve ainda outros importantes estruturalistas
como Jean Cohen, Claude Lévi-Strauss, Tzvetan Todorov, dentre
outros.
Entrando na segunda metade do século XX e saindo da análise
mais objetiva da obra, aspecto predominante até então, a Sociologia da
Literatura volta-se para a crítica determinista que inclusive foi sua
precursora. Essa forma de crítica foi influenciada por Lukács que, ao
estudar o romance, verifica a existência de um herói problemático, em
um mundo inautêntico, pois segundo a teoria do romance esse herói
seria uma espécie de desajustado, cuja busca inautêntica de valores
autênticos, num mundo conformista e convencional, constitui o núcleo
do gênero literário romanesco. Essa abordagem tem como premissa que
toda forma literária nasce da necessidade de exprimir um conteúdo
essencial. Na busca dessa essência, a Sociologia da Literatura prioriza o
estudo do contexto como forma de analisar a obra; o texto literário não
seria um simples reflexo de uma consciência real e dada, mas a
conscientização e concretização das tendências de um grupo social. O
que se passa na sociedade acabaria sendo colocado no romance direta
ou indiretamente. O romance exprime uma consciência coletiva,
elaborada no comportamento global dos indivíduos da sociedade.
Na segunda metade do século XX, surge a Semiótica abordagem
em que o literário seria uma dinâmica que elabora a relação existencial
do homem com o mundo, no nível do imaginário, através da
ficcionalidade do espaço, do personagem e do acontecimento, podendo
ser apreendido na sua convenção em discurso lírico, narrativo ou
dramático. A Semiótica Literária pode ser dividida em dois níveis: no
primeiro teríamos o discurso como instância fundadora do processo
literário, podendo este ter o tempo, o espaço ou o acontecimento como

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lógica estruturante da imagem de mundo ficcional, e no segundo nível
teríamos o discurso contaminado pelas suas manifestações. Essa forma
de abordagem crítica privilegia o estudo dos elementos literários através
da obra, uma vez que mantém seu foco no estudo da estrutura do
discurso ou no estudo de suas manifestações.
Numa nova tentativa de superar o fechamento do estruturalismo
e buscando uma maior aproximação entre o leitor e a obra, é exposta a
Estética da Recepção. Essa crítica foi apresentada pela primeira vez, por
volta da década de 60, por Hans Robert Jauss que enfocava os efeitos
que a literatura provoca no leitor. Este leitor passa a fazer parte da
“construção” do texto através da leitura, podendo preencher os espaços
que ficaram abertos à plurissignificação. A Estética da Recepção
privilegia o receptor como aspecto fundamental no momento de analisar
os elementos da obra literária. Para esta crítica, o leitor seria também
como um co-autor com a possibilidade de ampliar os horizontes da
imaginação incentivada pela literatura. Um dos problemas dessa
abordagem crítica é o fato desse leitor ser “especial”, algumas vezes até
tratado como “leitor ideal”, o que torna a sua busca difícil por levantar a
dúvida: quais os parâmetros para a escolha desse leitor? Afinal nem
todos os leitores são iguais, nem têm a mesma bagagem de experiência
ou visão de mundo. Assim como houve diversos estruturalistas, também
existiram várias correntes dentro da Estética da Recepção representadas
por Jauss, Lucien Dallenbach, Hás Ulrich Gumbrecht, entre outros.
A crítica literária envereda novamente pelos caminhos que
partem da interpretação do texto literário, mas agora se encaminha para
uma maior reflexão sobre a essência humana, pois a Hermenêutica
propõe uma linguagem com o texto e não sobre o texto. Essa tarefa se
processa como um trabalho de criação, que ultrapassa os limites do dito
e penetra pelas entrelinhas, indagando, no silêncio, o sentido que
ultrapassa as possibilidades denotativas e conotativas do código
lingüístico. O texto poético seria sempre um entretexto resultante da
tensão texto/pré-texto. A hermenêutica buscaria a verdade existencial
através da própria obra, deixando que o poema fale por si, pois a

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imagem poética, como lembrou Octavio Paz, não pode ser explicada
com outras palavras, senão pelas da própria imagem, que, enquanto
imagem, já deixara de ser simplesmente palavras. Essa abordagem
crítica, presente no século XX, busca alicerces filosóficos que partem de
Wilhelm Dilthey, Martin Heidegger e Hans-Georg Gamdamer.
Já na Hermenêutica atual, desenvolvida nas idéias de Heidegger,
Ricoeur e Freud, e com isso mais filosófica e psicológica, acontece
também a reflexão sobre a essência humana, mas a busca não seria mais
na obra e sim no próprio ser humano. Nessa abordagem a obra seria um
veículo para que o homem pudesse se autodescobrir, ele seria atuante na
disposição do pensamento. Através da interpretação do texto literário o
homem poderia compreender-se e interpretar-se. Nessa crítica o aspecto
predominante é o leitor, assim como na Crítica Literária e na
Psicanálise, que absorvem ainda mais as influências de Freud quando
comparam a obra a um espelho. Nela o homem poderia se olhar e
refletir sobre sua existência. A obra cumpriria o papel de um analista e o
que dela se lê nada mais é que fala do analisando. A Crítica Literária e a
Psicanálise melhoram o conceito da psicologia dentro da análise do
texto literário, já que no início da evolução crítica o método psicológico
foi empregado por Sainte-Beuve, analisando o autor com o intuito de
explicar o texto. Diante das dificuldades dessa análise, até um pouco
esquecida no percurso evolutivo, I. A. Richards assegura que a
psicologia do ato de ler está mais próxima da crítica do que a psicologia
do ato de escrever. Tal posição levou Richards a investigar uma
psicologia do leitor em pleno século XX.
Outra forma de dividir a crítica literária seria a de Jérôme Roger
(2002). Para ele o papel da crítica não é só o de julgar a obra literária,
mas também o de se preocupar com os critérios desses julgamentos, fato
que acarreta uma busca intermitente das verdades específicas a cada
obra escolhida. Sendo assim, haveria diferentes planos referentes à
natureza e a pertinência das questões a serem levantadas, os quais
resultariam em métodos específicos para cada uma delas. Jérôme Roger
divide a crítica literária em: Crítica da Criação, Crítica Temática, Crítica

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e Psicanálise, Crítica e Sociologia, Crítica e Lingüística e a Crítica dos
Autores.
A Crítica da Criação, representada inicialmente por Sainte-
Beuve, tentava ressaltar a importância da personalidade do autor na
construção do texto literário. Como vimos anteriormente, com o nome
de crítica biográfica Sainte-Beuve pregava um ato descritivo da
linguagem literária, uma vez que esta teria uma viva e fiel ligação com o
seu criador, sendo um meio onde o autor expressaria seu “retrato”. Com
essa ligação autor-obra, Sainte-Beuve recebeu críticas como as de
Proust no livro Contre Saint-Beuve.
Proust acreditava na distinção entre o eu pessoal do poeta e o
que ele chamava de “eu profundo”, presente na construção do discurso
literário. Esse “eu profundo” seria responsável pela independência da
obra literária a ponto de transformá-la em um todo vivo, capaz de
alcançar o leitor, independentemente dos conhecimentos prévios quanto
ao universo de seu autor. A partir da Crítica da Criação, as críticas
contemporâneas irão perceber a intersecção que há entre a literatura e as
outras ciências humanas, tais como psicologia, sociologia e lingüística.
Já a Crítica Temática, segundo Roger, partir da noção de tema, o
qual corresponderia a um universo sensível abrigado pela imaginação
que produz imagens, sons, palavras, signos e sentimentos que na
linguagem, por vezes, não tem nome. Alguns de seus principais
representantes são: Gaston Bachelard, cujo trabalho equivale a uma
transposição da fenomenologia ao estudo da imaginação poética; Jean-
Pierre Richard, que mostrou como os temas de uma obra sugerem a
experiência de uma consciência única; Jean Starobinski, que elaborou
um modo de leitura esforçando-se em destacar a ordem ou a desordem
interna dos textos examinados, além dos símbolos e das idéias segundo
os quais o pensamento do escritor se organiza.
A partir da relação ambígua entre as teorias de Freud e a
literatura foram abertos caminhos para uma investigação crítica
relacionada com a psicanálise. Essa abordagem, Crítica e Psicanálise,
divide-se em dois momentos: a psicocrítica, de Charles Mauron e a
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textanálise, de Jean-Belle-min-Noël. A psicocrítica buscava uma psique
do autor. Para Mauron a obra falaria de uma maneira pessoal,
intermediada pelos personagens, pelas cenas, pelos versos e estrofes, o
que formaria o “mito pessoal”. Para a percepção desse mito, seria
necessário pesquisar sobre a biografia do autor e sobre a história
literária. Já a textanálise ou o texto “fora do autor” tinha bases no que
hoje chamamos de plurissignificação do texto literário, pois mostra que
na obra não há um único eu e sim vários observados nas diversas formas
de interpretação, que são descobertas através da entrega do leitor ao
inconsciente do texto que nunca se contenta com apenas um sentido.
Ainda envolvida com as ciências humanas, surge uma crítica
voltada para a relação entre a literatura e a sociologia, desenvolvendo,
no decorrer do século XX, dois momentos distintos: um voltado para a
leitura da obra como produção social, a Sociocrítica, e o outro voltado
para as sensações provocadas nos leitores, a Estética da Recepção. Para
a Sociocrítica o texto literário teria o papel de revelar uma visão de
mundo através das relações do indivíduo com as condições reais de sua
existência. Essa abordagem busca inspiração nos pensamentos de
Auguste Conte e Karl Marx, tendo como fundador o húngaro Georg
Lukacs, com a tarefa de mostrar que, nas obras literárias, os críticos não
deveriam buscar manifestações interiores do autor, mas sim
características sociais envoltas na história e na filosofia. Lucien
Goldemann continua os trabalhos de Lukacs, ampliando o universo da
Sociocrítica, antes focado no romance e na epopéia, para um conjunto
de obras. Já na Estética da Recepção, o meio que forma o autor passa a
ter menos significância do que o meio que forma o leitor. Segundo Jean-
Paul Sartre o público aparece com a função de convocar e questionar a
liberdade do texto literário.
Jérôme Roger agrupa as abordagens que trouxeram uma visão
formal à literatura sob uma perspectiva lingüística, na nomenclatura
Crítica e Lingüística.
A proposta de Roman Jakobson era livrar o texto literário do
enfoque psicológico e histórico, trazendo-o para um enfoque mais
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científico em relação à estética da linguagem. Já Bakhtin revela a idéia
de dialogismo do discurso que seria a marca de uma estética fundada na
relação de cada enunciado com os outros enunciados. Ele tentava
mostrar que o romance é um todo, um fenômeno pluriestilístico,
plurilingual e plurivocal. Émile Benveniste, por sua vez, esclarece
aspectos fundamentais da linguagem como a noção de enunciação,
referente a um processo de individualização pelo discurso da obra. Já
Henri Meschonnic relacionou a enunciação com o ritmo, que seria uma
inscrição do sujeito no conjunto da obra como sistema de valores da
linguagem, por meio do sentido.
Atualmente a crítica literária apresenta-se como crítica escritura
ou crítica dos autores. Essa abordagem contemporânea, segundo Roger,
é a reflexão de escritores a respeito da criação literária, nesse caso o
escritor e o crítico se juntam na mesma condição difícil, diante do
mesmo objetivo: a linguagem. A crítica escritura faz uma junção entre o
ato questionador, pertinente à crítica, e a busca de uma escrita pessoal,
trazendo a crítica para o lado da literatura. Dentre os seus principais
nomes estão Jean-Paul Sartre, Roland Barthes, Maurice Blanchot e
Julien Graco. Jean-Paul Sartre era bastante ligado aos pressupostos
teóricos das ciências humanas como a psicanálise e a sociologia
maxista, Sartre fazia inferências sobre a responsabilidade do autor na
formação da consciência dos seus leitores: “A função do escritor é fazer
com que ninguém possa ignorar o mundo e ninguém possa se dizer
inocente”.
Quanto ao estruturalismo aplicado na literatura, Sartre achava
que tal modalidade só poderia apreendê-la externamente. Roland
Barthes colocou sem subterfúgios a questão da crítica como forma de
literatura, revelando-se também um escritor. Já para Maurice Blanchot,
a literatura é vivida como um drama antológico, cujo segredo todo
escritor tenta decodificar solitariamente. Por fim, Julien Gracq
distingue-se dos críticos que o precederam por não buscar o apoio das
ciências humanas, sem, contudo, ignorá-las.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados ora apresentados está longe de ser conclusivo, pois
o estudo da crítica literária, de modo sistemático, antecede o século XIX
e, com certeza, vai além do século XX. A crítica, como vimos, depende
da produção da arte literária e esta, sendo uma criação humana,
permanecerá como forma de expressão dos sentimentos e das idéias do
homem. Desse modo, as idéias aqui expressas sobre o conceito, a
evolução e as abordagens críticas, encontram-se inconclusas, pois, como
a crítica, acompanha a dinâmica da produção literária e, como tal, estará
sempre surpreendendo com novas formas de abordagem, conforme o
mundo é mundo, como afirma Guimarães Rosa. Este artigo, tendo como
objeto a crítica literária, não pode ser conclusivo, em definitivo, mas
apenas naquilo que se liga ao recorte da evolução da crítica do século
XIX ao XX.
REFERÊNCIAS
EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. São
Paulo: Martins Fontes, 1983.
IMBERT, Enrique Anderson. Métodos de Crítica Literária. Livraria
Almedina, 1971.
MASSAUD, Moisés. A Criação Literária. São Paulo: Edições
Melhoramentos, 1967.
ROGEL, Samuel. Manual de Teoria da Literatura. 9ª ed. Rio de
Janeiro: Editora Vozes, 1997.
ROGER, Jérômer. A Crítica Literária. Coleção Enfoques Letras.
TADIÉ, Jean-Yves. A crítica Literária no Século XX. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 1992.
TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda Européia e Modernismo
Brasileiro. 14ª ed. Rio de Janeiro: 1997.

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