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Unidade I

GRAMÁTICA APLICADA
DA LÍNGUA PORTUGUESA

Profa. Ana Lúcia Machado da Silva


Linguagem e língua

 Língua e linguagem têm o mesmo


significado?
 Linguagem compreende toda e qualquer
forma de expressão (seja ela
manifestada linguisticamente ou não).
 Língua é entendida como um código, de
natureza social e coletiva, obedecendo
às leis do contrato estabelecido pelos
integrantes do grupo social em que
se instaura.
stau a
Linguagem e língua

Assim:
 Linguagem é toda forma de expressão,
como gestos, cores, sons, palavras etc.
 Língua é um sistema de signos.
Afinal, o que é gramática?

 Gramática normativa: conjunto de regras


que devem ser seguidas.
 Gramática descritiva: conjunto de regras
que são seguidas.
 Gramática internalizada: conjunto de
regras que o falante da língua domina.
Gramática normativa/prescritiva

 Conjunto de normas prescritas para o


“bem falar e bem escrever” do indivíduo.
 A Gramática é uma “receita” que deve
ser seguida.
 Oposição entre “certo”
certo e “errado”
errado .
Ex.: Eu amo, tu amas, ele ama, nós
amamos, vós amais, eles amam.
Gramática normativa/prescritiva

Gramática normativa:
 Estuda apenas os fatos da língua
padrão/culta, que se oficializou.
 Seu estudo baseia-se mais na língua
escrita dando pouca importância
escrita,
à oralidade, que é vista como idêntica
à escrita.
 É prescritiva: torna a língua culta
uma norma.
Gramáticas normativas
Gramática descritiva

 Conjunto de regras descritas a partir da


língua falada por um grupo social.
 Preocupação do linguista em identificar
e descrever regras que são seguidas
pelos falantes no uso efetivo da língua.
 Ligada à realidade, à naturalidade do uso
da língua.
Ex.: Eu amo, tu/ você ama, ele ama, nós/ a
gente ama, vocês ama, eles ama.
Gramática descritiva

 Descreve e registra as unidades e as


categorias da língua, os tipos possíveis
de construção e a função desses
elementos, o modo e as condições de
uso dos elementos em uma abordagem
sincrônica.
 Trabalha com qualquer variedade da
língua, observando o que se diz ou se
escreve na realidade e trata de explicitar
o mecanismo da língua.
Gramática internalizada

 Conhecimento linguístico internalizado


do falante.
 Conhecimento relacionado tanto ao
léxico como à organização sintático-
semântica dos enunciados.
 Produção e identificação de formas
linguisticamente aceitas pelo grupo
social.
 Cada um tem em mente os padrões
linguísticos do código.
código
Ex.: Eu comi, eu bebi, eu fazi (conjugação
verbal infantil do verbo “fazer”).
Interatividade

A função da gramática normativa é:


a) Estabelecer regras como forma de
padronizar a utilização da língua
materna.
b) Embasar a língua falada de acordo com o
estabelecido pela norma padrão.
c) Apresentar diversas formas e variedades
regionais segundo às necessidades do
falante.
d) Oficializar a ortografia nacional.
e) Analisar a língua como nos é
apresentada atualmente.
Resposta

A função da gramática normativa é:


a) Estabelecer regras como forma de
padronizar a utilização da língua
materna.
b) Embasar a língua falada de acordo com o
estabelecido pela norma padrão.
c) Apresentar diversas formas e variedades
regionais segundo às necessidades do
falante.
d) Oficializar a ortografia nacional.
e) Analisar a língua como nos é
apresentada atualmente.
Outras gramáticas

 Travaglia (1998) propõe outros três tipos


de gramática, com base na explicitação
da estrutura e do mecanismo de
funcionamento da língua.
 Gramática implícita: refere-se
refere se à
competência linguística internalizada do
falante. É também denominada:
gramática inconsciente ou gramática de
uso.

Gramática  atividades
implícita linguísticas
Outras gramáticas

 Gramática explícita/ teórica: busca


explicitar a estrutura, a constituição e o
funcionamento da língua.
Gramática  atividades
explícita/ teórica metalinguísticas
 Gramática reflexiva: volta-se mais ao
processo que ao produto do ato
linguístico. São atividades de observação
e reflexão que buscam a constituição e o
funcionamento da língua.
língua
Gramática  atividades
reflexiva epilinguísticas
Ex.: O rapaz bebia café. Ou melhor,
bebia chá.
Gramática explícita ou teórica

 É representada por todos os estudos


linguísticos que buscam explicitar a
estrutura, a constituição e o
funcionamento da língua.
 Ataliba Teixeira de Castilho: esta
gramática buscou ser concebida nos
moldes da teoria multissistêmica, de
cunho funcionalista-cognitivista.
Gramática reflexiva

 Refere-se mais ao processo do que aos


resultados: representa as atividades de
observação e reflexão sobre a língua que
buscam detectar, levantar suas
unidades, regras e princípios.
Gramática x atividades

 Gramática (explícita ou teórica, reflexiva


e implícita) relaciona-se à distinção entre
atividades: linguísticas, epilinguísticas e
metalinguísticas.
Atividades linguísticas

 São as que o usuário realiza quando


estabelece uma interação comunicativa
por meio da língua.
 O falante tem de organizar seu texto de
acordo com a situação, os objetivos de
comunicação, bem como de acordo com
o tópico discursivo (assunto ou tema).
 Trata-se de atividades de construção
e/ou reconstrução do texto que o usuário
realiza
ea a papara
a se co
comunicar.
u ca
 Podemos relacionar essas atividades
com a gramática de uso, uma vez que o
usuário utiliza de forma automática a sua
gramática internalizada.
Atividades epilinguísticas

 São as que possibilitam tratar dos


próprios recursos linguísticos que estão
sendo utilizados ou de aspectos da
interação por meio da suspensão do
desenvolvimento do tópico discursivo e
introdução do referido tratamento.
Exemplos de atividades epilinguísticas:
1. Achei o vestido de Joana lindo. Lindo
não, maravilhoso.
2 Vamos encerrar este assunto
2. assunto, pois o
horário da consulta já terminou.
Atividades metalinguísticas

 Compreendem aquelas em que se faz


uso da língua para analisar a própria
língua, ou seja, é a construção da
metalinguagem – conjunto de elementos
linguísticos próprios e apropriados para
se falar sobre a língua.
 A atividade metalinguística,
normalmente, está relacionada a teorias
linguísticas e métodos de análise da
língua, o que nos leva a relacioná-la
diretamente com a gramática teórica.
Outras gramáticas

 Gramática contrastiva ou transferencial:


útil para mostrar diferenças e
semelhanças entre as variedades
linguísticas, uma vez que descreve e
compara duas línguas ao mesmo tempo.
 Gramática geral: uma gramática de
previsão de possibilidades gerais por
comparar o maior número possível de
línguas, com o intuito de reconhecer
todos os fatos linguísticos e as
condições de realização.
Outras gramáticas

 Gramática universal: investiga as


características comuns a todas as
línguas do mundo.
 Obs.: nem sempre se distinguem
gramática geral e gramática universal.
Exemplos de universais linguísticos:
1. Todas as línguas têm vogais.
2. Todas as línguas têm dupla articulação.
3. Todas as línguas têm categorias
pronominais envolvendo pelo menos
três pessoas e dois números.
Interatividade

Assinale a alternativa incorreta:


a) Atividades linguísticas são de uso real da
língua.
b) Atividades linguísticas pressupõem o
diálogo, a conversa, a interação entre
interlocutores reais.
c) Atividades epilinguísticas levam os falantes
a operar e refletir sobre a própria linguagem.
d) Atividades epilinguísticas podem se efetuar
ao comparar expressões, textos e ao
transformá-los em outras possíveis
alternativas que a própria língua oferece.
e) Atividades metalinguísticas não
exigem um bom domínio do uso
da língua.
Resposta

Assinale a alternativa incorreta:


e) Atividades metalinguísticas não exigem
um bom domínio do uso da língua.
 Atividades metalinguísticas: só depois
que o aluno tiver um bom domínio do
uso da língua, são propostas atividades
que o levem a falar sobre a linguagem e
pesquisá-la como objeto de estudo e
descrição, utilizando uma linguagem
técnica
téc ca ((metalinguagem).
eta guage )
Outras gramáticas

 Gramática histórica: estuda a evolução


de um idioma, desde o seu surgimento
até o momento atual.
 “Gramática histórica”, de Ismael
Coutinho.
Gramática comparada

 Estuda uma sequência de fases


evolutivas de várias línguas, a fim de
buscar pontos comuns. Esses estudos
estabeleceram famílias de línguas e
descobriram parentescos entre línguas
aparentemente distantes, como o latim e
o sânscrito.
 Gramática Comparativa Houaiss:
destacam-se semelhanças entre quatro
idiomas que têm o latim como origem
comum - o português, o espanhol, o
francês e o italiano.
Gramáticas didáticas
Livros didáticos
Norma: normal e normativo

Bagno (2003, p. 41) chama a atenção para


o fato da norma derivar dois adjetivos.
Observe:
Norma

Normal Normativo
 Uso corrente  Preceitos
 Real  Ideal
 Comportamento  Reflexão consciente
 Observação  Elaboração
 Situação
Si ã objetiva
bj i  Intenções
I õ subjetivas
bj i
 Média estatística  Conformidade
 Frequência  Juízos de valor
 Tendência geral e  Finalidade designada
habitual
O que é norma culta?

1. Norma culta dos prescritivistas: tenta


preservar um modelo de língua ideal,
inspirado na grande literatura do
passado.
2. Norma culta dos pesquisadores: a língua
empregada no dia a dia pelos falantes
que têm escolaridade superior completa
e vivem em ambiente urbano.
3. Norma popular: designa um conjunto de
variedades
a edades linguísticas
gu st cas que nunca
u ca ou
raramente aparecem na fala (e na escrita)
dos falantes cultos.
Gramática tradicional vs variedade
oral do português

 A gramática tradicional não estuda a


variedade oral do português, mas a
variedade escrita dos textos literários
clássicos. Daí o distanciamento entre a
realidade e a prescrição da norma.
Ex.: “Correm as horas, vem o Sol
descambando; refresca a brisa, e sopra rijo
o vento. Não ciciam mais os buritis...”
(Visconde de Taunay, I, 33)
(
(CUNHA,, Celso;; CINTRA,, Lindley.
y “Nova
gramática do português contemporâneo”)
Variedades de prestígio e
variedades estigmatizadas

 Variedades de prestígio: correspondem à


norma utilizada pelos grupos de
prestígio e, portanto, pressupõem
falantes que tiveram uma boa formação
escolaridade.
 Variedades estigmatizadas: abrangem
todos os grupos sociais desprestigiados
do Brasil.
Preconceitos linguísticos

 A norma culta da classe de prestígio é a


única correta.
 O bom português é aquele praticado em
determinada região.
 O bom português é aquele
exemplificado nas chamadas épocas
de ouro da literatura.
 Diante da variedade linguística existente,
apenas uma é a correta e todas as outras
são erradas.
erradas
Interatividade

Qual afirmativa corresponde a uma visão normativa


da língua?
a) O padrão culto varia de um grupo para outro. Para
cada norma culta há, de acordo com a situação
comunicativa, várias formas consagradas por
pessoas que têm prestígio social.
b) O padrão culto da classe de prestígio é o único
correto, pois está pautado no ensino normativo
gramatical.
c) O falante ideal é aquele que sabe lidar com a
diversidade da língua.
d) O falante seleciona o padrão a ser seguido, de
acordo com a situação comunicativa.
e) O falante é um ator que representa papéis
sociais o tempo todo, em um meio democrático
de interação social.
Resposta

Qual afirmativa corresponde a uma visão normativa


da língua?
a) O padrão culto varia de um grupo para outro. Para
cada norma culta há, de acordo com a situação
comunicativa, várias formas consagradas por
pessoas que têm prestígio social.
b) O padrão culto da classe de prestígio é o único
correto, pois está pautado no ensino normativo
gramatical.
c) O falante ideal é aquele que sabe lidar com a
diversidade da língua.
d) O falante seleciona o padrão a ser seguido, de
acordo com a situação comunicativa.
e) O falante é um ator que representa papéis
sociais o tempo todo, em um meio democrático
de interação social.
Variedade linguística

 Não há regra para o uso da língua, mas


regras que variam conforme as situações
comunicativas do falante.
 Variação decorre de fatores como
diferenças entre grupos sociais
escolarizados e não escolarizados,
entre falantes de regiões diferentes,
entre sexos opostos, além das
diferenças de idade, posição social.
Variedade linguística

 Variação de uso dessa língua estará


ligada ainda ao grau de formalismo
que a situação requerer.
 Trata-se, primeiramente, de
diferenciarmos o que já foi tratado
como “vernáculo” ou como “português”
por alguns estudiosos.
 Variação dialetal: territorial (ou
geográfica), social, de idade, de sexo,
de ge
geração
ação e de função.
u ção
Variação dialetal

 Dialetos na dimensão territorial,


geográfica ou regional: variação entre
pessoas de diferentes regiões em que se
fala a mesma língua.
 Essa variação pode ocorrer por
influência da formação cultural do povo
ou pelo fato de os indivíduos
pertencentes geograficamente à mesma
comunidade apresentarem
comportamento linguístico que os
identifique.
 As diferenças podem ser no plano
fonético, no léxico ou no das
diferenças sintáticas.
Variação dialetal

 Do ponto de vista fonético: pronúncia do


[r] de “porta”; do /l/ em “Brasil” etc.
 Variações morfológicas: as variantes
podem opor o uso do morfema flexional
de um verbo à sua ausência, como
“andá” x “andar”, em que o –r constitui
a marca do infinitivo do verbo
e o falante pode colocá-lo ou subtraí-lo
no final.
 Léxico:
é co o que é mandioca
a d oca para
pa a u
uns
s pode
ser macaxeira ou aipim para outros.
Ou o pivete de São Paulo pode ser o
guri do Rio de Janeiro.
Dialetos na dimensão social

 São variações de acordo com a classe


social a que pertencem os usuários
da língua.
 São consideradas variedades dialetais
de natureza social os jargões
profissionais ou de determinadas
classes sociais bem definidas como
grupos (artistas, médicos, professores,
marginais, favelados, entre outros).
Nesse contexto, a gíria é uma forma
de dialeto social.
Variação

 Dialetos na dimensão da idade: são


variações relativas ao modo de usar a
língua por pessoas de idades diferentes,
em faixas etárias diversas – adultos,
velhos, crianças, jovens.
 Dialetos na dimensão do sexo: são
variações de acordo com o sexo de
quem fala. Um garoto pode expressar-se
diferentemente de uma garota em uma
mesma situação comunicativa.
 Ela poderá dizer “ganhei uma blusinha
maravilhosa!”, uma vez que o uso do
diminutivo é marca da fala feminina,
o que causaria estranhamento na
fala masculina.
Variação

 Dialetos na dimensão da geração (ou


variação histórica): são estágios no
desenvolvimento da língua.
 Dialetos na dimensão da função: são
variações na língua decorrentes da
função que o falante desempenha. Ex:
plural majestático, em que governantes
ou altas autoridades expressam seus
desejos ou intenções com o pronome
“nós”, que indica sua posição de
representante do povo.
 O mesmo falante pode variar sua
forma de comunicação de
acordo com o contexto.
Variação de registro

 Variação de registro: há 3 tipos


(grau de formalismo, modo e sintonia).
 Grau de formalismo: escala de
formalidade, isto é, uso dos recursos da
língua, variando o cuidado e o apuro de
acordo com a situação e com a maior
variedade de recursos utilizados e
aproximando-se cada vez mais da
língua padrão e culta em seus usos
mais “sofisticados”.
Variação de registro

Variação de modo: entendida como


a língua falada em contraposição à língua
escrita. Ex.:
1. A tarefa de lançar as bases da nova
gramática é muito longa
g g e complexa;
p ;
devemos, portanto, deixá-la para a
próxima semana.
2. A nova gramática do português, ela vai
ser muito difícil a gente escrever. Melhor
a gente deixar ela pra semana que vem.
 O exemplo 1 está mais próximo do texto
escrito; o exemplo 2 parece ser a
transcrição de uma fala
espontânea
(mais próxima da oralidade).
Variação de registro

Sintonia: status, tenacidade, cortesia


e norma.
 Status: variação de formas ou pronúncia,
tom de voz que denota respeito especial
à pessoa a quem nos dirigimos. Um
homem pode diferenciar sua linguagem
para falar com o filho e para falar com
sua esposa, por exemplo.
 Tenacidade: variação que ocorre em
função
u ção do volume
o u e de informações
o ações ou
conhecimentos que o falante supõe ter o
ouvinte sobre o assunto. Essa variação
ocorre entre um artigo de divulgação
científica (público leigo) e um artigo
científico (público especializado).
Variação de registro

 Cortesia: variação que ocorre de acordo


com a dignidade que o falante considera
apropriada ao(s) seu(s) interlocutor(es)
e/ou à ocasião. Essa variação vai da
blasfêmia/obscenidade ao eufemismo.
 Norma: ao se dirigir ao seu interlocutor,
o falante considera o que este julga
“bom” em termos de linguagem. Isto é, a
variedade linguística a ser utilizada será
selecionada de acordo com os
participantes da atividade comunicativa.
 Essa variedade pode ser selecionada de
acordo com critério regional, social, um
registro mais ou menos formal...
Interatividade

Você recebeu de um amigo o seguinte pedido:


“Venho mui respeitosamente solicitar-lhe o
empréstimo do seu livro Redação para Concurso,
para fins de consulta escolar”.
Essa solicitação se assemelha à atitude de uma
pessoa que
que:
a) Comparece a um evento solene vestindo
smoking completo e cartola.
b) Vai a um piquenique engravatado, com terno
completo e sapatos de verniz.
c)) Vai a uma cerimônia de p
posse usando um terno
completo e calçando botas.
d) Frequenta um estádio de futebol usando
sandálias de couro e bermudas de algodão.
e) Veste terno e usa gravata para proferir uma
conferência internacional.
Resposta

Você recebeu de um amigo o seguinte pedido:


“Venho mui respeitosamente solicitar-lhe o
empréstimo do seu livro Redação para Concurso,
para fins de consulta escolar”.
Essa solicitação se assemelha à atitude de uma
pessoa que
que:
a) Comparece a um evento solene vestindo
smoking completo e cartola.
b) Vai a um piquenique engravatado, com terno
completo e sapatos de verniz.
c)) Vai a uma cerimônia de p
posse usando um terno
completo e calçando botas.
d) Frequenta um estádio de futebol usando
sandálias de couro e bermudas de algodão.
e) Veste terno e usa gravata para proferir uma
conferência internacional.
ATÉ A PRÓXIMA!
Unidade II

GRAMÁTICA APLICADA
DA LÍNGUA PORTUGUESA

Profa. Ana Lúcia Machado da Silva


Estudo da gramática

Pronominais
“Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do p
professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro”
(Oswald de Andrade)
Estrutura da gramática

 Toda língua possui uma estrutura: a


sua gramática.
A gramática costuma ser apresentada em
diferentes capítulos, usualmente
organizados em diversos níveis:
 Fonologia/fonética, morfologia e sintaxe
(melhor denominada morfossintaxe),
semântica e estilística.
Fonologia

 Parte da gramática que estuda os sons


da língua quanto à sua função no
sistema de comunicação linguística,
quanto à sua organização e
classificação. Também cuida de
aspectos relacionados à divisão silábica,
à ortografia e à acentuação de palavras,
de acordo com o padrão culto da língua.
Estuda o aspecto fônico e tem como
unidade básica de estudo o fonema.
Ex.: cachorro = 8 letras/ 6 fonemas
Morfologia

 Nível de análise linguística que se ocupa


do estudo das palavras, de sua
formação, de sua classificação e de suas
flexões. Estuda palavras que pertencem
a grupos bem diferentes: substantivo,
adjetivo, artigo, numeral, pronome,
verbo, advérbio, preposição, conjunção
e interjeição.
Sintaxe

 A sintaxe é o estudo das combinações e


relações entre as palavras de um
enunciado e entre as frases de um texto.
 A morfossintaxe é a parte central da
gramática pura: é estudada em dois
domínios: a morfologia e a sintaxe.
Ex.: Eles cantavam muito bem.
Semântica

 É definida, de maneira genérica, como o


estudo do sentido das palavras e dos
enunciados.
 A semântica opõe-se com frequência à
sintaxe, caso em que a primeira se ocupa
do que algo significa, enquanto a
segunda se debruça sobre as estruturas
ou padrões formais do modo como esse
algo é expresso.
Estilística

 Estuda os aspectos afetivos que


envolvem e caracterizam a linguagem
emotiva que perpassa todos os fatos
da língua.
 Na estilística, analisa-se
analisa se a capacidade de
provocar sugestões e emoções usando
certas fórmulas e efeitos de estilo. Tenta-
se estabelecer os princípios capazes de
explicar as escolhas particulares feitas
por indivíduos e grupos sociais em seu
uso da língua, tal como a socialização, a
produção e a recepção do sentido.
Níveis de análise

Observe a frase:
Ana desprezou Ricardo.
 Fonologia: o vocábulo “Ana” tem a
primeira vogal /a/ como uma vogal nasal
por ser tônica e estar logo antes de uma
consoante nasal /n/; no vocábulo
“Ricardo”, pronuncia-se a vogal final
como /u/ e não como um /o/.
Níveis de análise

Ana desprezou Ricardo.


 Morfologia: constituição interna das
palavras. Observa-se que a palavra
desprezou é formada por mais de um
elemento: a sequência desprez
desprez- mais a
sequência -ou.
 Desprez- aparece em outras formas
como desprezo (substantivo ou verbo),
desprezível, desprezamos etc.
( o e a)
(morfema).
 Ou ocorre em outras formas verbais,
como amou, desmanchou etc.
(gramema).
Níveis de análise

Ana desprezou Ricardo.


 Sintaxe: associação das palavras para
formar frases. Observa-se que existe
uma regra pela qual a terminação de
desprezou depende do elemento que se
coloca no lugar de Ana.
 Nota-se que o elemento que governa a
forma de desprezou ocorre em primeiro
lugar na frase e que modificações no
último
ú t o elemento
e e e to ((Ricardo)
ca do) não
ão afetam
a eta a
forma do verbo desprezar.
Níveis de análise

Ana desprezou Ricardo.


 Semântica: leva-se em conta o
significado transmitido na frase.
 Observa-se que Ana, provavelmente,
designa uma mulher e Ricardo,
Ricardo um
homem; que a pessoa desprezada é
Ricardo, e não Ana; que o fato de Ana
desprezar Ricardo aconteceu no
passado e assim por diante.
Interatividade

“Maria olhou-o assustada”. Na frase, o


termo assustada possui um morfema
gramatical de gênero. O nível pertinente a
esse estudo é:
a) Fonológico.
b) Sintático.
c) Morfológico.
d) Semântico.
e)) Estilístico.
Resposta

“Maria olhou-o assustada”. Na frase, o


termo assustada possui um morfema
gramatical de gênero. O nível pertinente a
esse estudo é:
a) Fonológico.
b) Sintático.
c) Morfológico.
d) Semântico.
e)) Estilístico.
Recursos expressivos fonológicos

 A percepção da sonoridade ajuda a


captar o sentido que se quer traduzir
para um determinado texto, com a
disposição de palavras e frases.
 Podem-se
Podem se encontrar, em textos diversos,
sons que se repetem com maior
frequência, aproximando a imitação
fonética do enunciado àquilo que os
sons sugerem.
Recursos expressivos fonológicos

Ex.:
Relógio
“As coisas são
As coisas vêm
As coisas vão
As coisas
Vão e vêm
Não em vão
As horas
Vão e vêm
Não em vão”
(Oswald de Andrade)
Aliteração e assonância

 Aliteração: repetição da mesma


consoante ao longo do texto.
 Ex.: “O vento varria as folhas,/ O vento
varria os frutos,/ O vento varria as
flores.../ E a minha vida ficava/ Cada vez
mais cheia/ De frutos, de flores, de
folhas.” [...] (Manuel Bandeira)
 Assonância: é a repetição da mesma
vogal no texto.
 Ex
Ex.:: “Quando
Quando a manhã madrugava/
Calma/ Alta/ Clara/ Clara morria de
amor.” (Caetano Veloso)
Onomatopeia

 As onomatopeias representam certos


sons e ruídos produzidos por animais ou
coisas, ou mesmo certos sons humanos.
Têm como função “imitar” a realidade.
Ortoepia e prosódia

 Existe uma parte da fonologia que trata


da pronúncia adequada das palavras,
segundo o padrão culto da língua: a
ortofonia, que, para efeito de estudo,
costuma se dividir em ortoepia e
prosódia.
 As variações de pronúncia de uma
palavra dependem de fatores de ordem
social, regional, individual e estilística.
 Vício
c o de fala:
aa
“Para dizerem milho dizem mio/ Para
melhor dizem mió/ Para pior pió/ Para telha
dizem teia/ Para telhado dizem teiado/ E vão
fazendo telhados.”
(Oswald de Andrade)
Ortoepia e prosódia

 Ortoepia: trata da correta pronúncia


dos fonemas das palavras.
 Prosódia: trata da acentuação (acento
da fala) e da entoação adequada
dos fonemas.
Pronúncia de palavras, tomando-se como
referência o padrão culto da língua:
 Oxítonas: Nobel, refém, sutil, ruim.
 Paroxítonas: âmbar, avaro, ciclope,
clímax, filantropo, fluido (ui ditongo),
fortuito (ui ditongo), gratuito (ui ditongo),
ibero, libido, pudico, rubrica.
 Proparoxítonas: arquétipo,
autóctone, condômino, ínterim.
Dupla prosódia

Palavras que admitem dupla prosódia:


Acróbata ou acrobata.
Ambrósia ou ambrosia.
Crisântemo ou crisantemo.
Hieróglifo ou hieroglifo.
Homília ou homilia.
Madagáscar ou Madagascar (mais comum).
Oceânia ou Oceania.
Projétil ou projetil.
projetil
Conceituação

 Fonema: menor unidade sonora de


uma palavra.
 Letras: representação gráfica dos
fonemas da língua.
 Vogal: é o fonema produzido pelo ar que
faz vibrar as cordas vocais e que não
encontra nenhum obstáculo na sua
passagem pelo aparelho fonador.
Conceituação

 Semivogal: é fonema produzido como


vogal, mas pronunciado mais fraco,
com baixa intensidade, como se fosse
uma consoante.
 Consoante: é o fonema em cuja
produção o ar encontra obstáculo na
passagem pelo aparelho fonador.
 Palavra: unidade linguística de som e
significado que entra na composição dos
enunciados
e u c ados da língua.
gua
Interatividade

Qual é o recurso sonoro que representa o


voo do pássaro, presente no verso
“Vejo passar um voo de ave”?
a) Aliteração.
b) Assonância.
Assonância
c) Onomatopeia.
d) Prosódia.
e) Palavras paroxítonas.
Resposta

Qual é o recurso sonoro que representa o


voo do pássaro, presente no verso
“Vejo passar um voo de ave”?
a) Aliteração.
b) Assonância.
Assonância
c) Onomatopeia.
d) Prosódia.
e) Palavras paroxítonas.
Sintaxe

 A sintaxe é o estudo de combinações e


relações entre as palavras de um
enunciado e entre as frases de um texto.
 Estudar a sintaxe de uma língua implica
estudar “as
as maneiras como se associam
as palavras para formar frases”.
Sintaxe

 Os enunciados da língua constituem


unidades linguísticas que possuem
uma estrutura.
 Não podemos formar enunciados apenas
juntando palavras de maneira aleatória.
 Entender a noção de estrutura significa
entender os modos pelos quais se
podem combinar as palavras para
construir estruturas autorizadas
pela
pe a língua.
gua
Estruturas (im)possíveis para o
enunciado

 Na última semana, André, meu vizinho,


foi o vencedor do campeonato estadual
de tênis, em Campinas.
 Em Campinas, André, meu vizinho, foi o
vencedor do campeonato estadual de
tênis, na última semana.
 Vizinho meu, Campinas André em
vencedor o foi estadual na campeonato
tênis de última do semana.
Conceituação

 Frase é a unidade de texto que em uma


situação de comunicação é capaz de
transmitir um pensamento completo. A
frase pode ser curta ou longa e pode ou
não conter verbo.
 Oração é o enunciado que se organiza
em torno de um verbo. Na oração há
sempre a relação sujeito/predicado.
 Período é a frase sintaticamente
estruturada
est utu ada em
e torno
to o de umu ou outro
out o
verbo.
A semântica

 A semântica é definida, de maneira


genérica, como o estudo do sentido das
palavras e dos enunciados.
 Só atingimos o sentido dos enunciados
linguísticos, em qualquer contexto, por
meio de um exercício de interpretação, a
partir do qual os possíveis significados
das palavras e de suas combinações são
avaliados em situações específicas, na
busca daquele que melhor se ajusta ao
contexto de enunciação.
Semântica
Semântica

“Gol. Os argentinos merecem.”


 O enunciado dá uma impressão, no
mínimo, estranha, principalmente se
considerarmos que, tradicionalmente, a
rivalidade entre Brasil e Argentina no
futebol não admitiria a ideia de
julgarmos a seleção rival merecedora de
um gol. No entanto, no contexto
apresentado, é possível atribuir sentido à
palavra “gol”: empresa aérea.
Produção de sentido

 A compreensão é um processo ativo e


não depende apenas do sinal; depende,
igualmente, do portador desse sinal.
 É com ele, e não com a palavra em si,
que “negociamos”
negociamos os significados.
Diante de um dado sinal, somamos as
intenções do outro – o interlocutor – às
nossas intenções e, somente aí,
produzimos significado.
Conotação e denotação

As palavras e os enunciados de uma língua


operam em dois eixos de significação:
 Conotativo: sentido figurado, ampliado e
modificado.
 Denotativo: sentido literal
literal, primeira
significação atribuída à palavra nos
dicionários.
A polissemia semântica

 Polissemia, em geral, é definida como a


propriedade que uma palavra possui de
apresentar diferentes sentidos. É,
portanto, a multiplicidade de sentidos de
uma palavra ou locução.
 A polissemia é uma propriedade de itens
lexicais, que consiste na associação de
mais de uma leitura ou semema a um
determinado item do léxico.
Ex.: “Sua
Sua mãe
ãe merece
e ece u
um refresco!”
e esco
Conotação e denotação

Observe:

 Hagar faz o uso literal – denotativo – da


palavra corda. Sortudo deu uma outra
interpretação à mensagem: julgou que
“dar uma corda” seria distrair o
responsável pelo cais com uma
conversa sem maior importância.
Utilizou o sentido figurado – conotativo
– da palavra corda.
Interatividade

Sobre a palavra rede usada na tirinha:


a) Tem sentido literal, de objeto para
sentar.
b) Tem sentido metafórico, de virtualidade.
c)) É polissêmica,
li ê i com mais
i de
d um sentido.
tid
d) Tem apenas um sentido.
e) Recebe o nome de AOL,
rede virtual.
Resposta

Sobre a palavra rede usada na tirinha:


a) Tem sentido literal, de objeto para
sentar.
b) Tem sentido metafórico, de virtualidade.
c)) É polissêmica,
li ê i com mais
i de
d um sentido.
tid
d) Tem apenas um sentido.
e) Recebe o nome de AOL,
rede virtual.
Semântica: conceituação

Como já explicitado:
 Semântica é o ramo da linguística que se
ocupa do estudo da significação como
parte dos sistemas das línguas naturais.
 Trata de assuntos como sinonímia
sinonímia,
antonímia, ambiguidade, polissemia etc.
“O sono”, de Mário Quintana

“O sono é uma viagem noturna.


O corpo – horizontal – no escuro
E o silêncio do trem, avança.
Imperceptivelmente
Avança. Apenas
O relógio picota a passagem do trem.
Sonha a alma deitada no seu ataúde:
Lá longe
Lá fora
(Ela sabe!)
Lá no fundo do túnel
Há uma estação de chegada
Anunciam-na os galos, agora –
Com a sua tabuleta ainda toda úmida de orvalho,
AURORA.”
A polissemia semântica

A Vírgula (Associação Brasileira de Imprensa)


A vírgula pode ser uma pausa. Ou não.

Não, espere.
Não espere.
A vírgula pode criar heróis.
Isso só
só, ele resolve
resolve.
Isso, só ele resolve.
Ela pode forçar o que você não quer.
Aceito, obrigado.
Aceito obrigado.
Pode acusar a pessoa errada.
Esse juiz
Esse, juiz, é corrupto
corrupto.
Esse juiz é corrupto.
A vírgula pode mudar uma opinião.
Não quero ler.
Não, quero ler.
Uma vírgula muda tudo.”
A vírgula

 As pausas que a vírgula representa


podem ter valor sintático ou entoativo.
No primeiro caso, a vírgula é importante
para definir a estrutura sintática do
período. O segundo uso tem função
retórica e orienta a colocação de pausas
não sintáticas durante a elocução.
“A vírgula pode mudar uma opinião.
Não quero ler.
Não, quero ler.”
Análise semântica
O duplo sentido no anúncio

Garrafa de refrigerante, pratinho de bolo,


copo de plástico

Festa de aniversário

Garrafa de refrigerante, pratinho de bolo,


copo de plástico

Objetos altamente poluentes


Provérbios: linguagem conotativa

Provérbios populares, gênero de linguagem


predominantemente conotativa:
 Quem semeia vento colhe tempestade.
 Mais vale um pássaro na mão do
que dois voando
voando.
 Pimenta nos olhos dos outros é refresco.
Estudo semântico: considerações

 A linguagem: sistema de sinais


convencionais que nos permite realizar
atos de comunicação – lida com a
atribuição de sentidos em todas as suas
manifestações.
 Propiciar o estudo semântico passa a
ser, certamente, um eixo fundamental na
construção de uma prática pedagógica
que pretende favorecer a formação de
leitores e escritores competentes.
Interatividade

No anúncio publicitário “Supositórios


Dulcolax. No fundo, no fundo, a melhor
opção.”, qual alternativa não contribui para
o humor?
a) A repetição do termo “no
no fundo, no
fundo”.
b) O nome do produto “Dulcolax”.
c) A expressão “a melhor opção”.
d) O produto anunciado “supositório”.
e) O emprego de vírgula.
Resposta

No anúncio publicitário “Supositórios


Dulcolax. No fundo, no fundo, a melhor
opção.”, qual alternativa não contribui para
o humor?
a) A repetição do termo “no
no fundo, no
fundo”.
b) O nome do produto “Dulcolax”.
c) A expressão “a melhor opção”.
d) O produto anunciado “supositório”.
e) O emprego de vírgula.
ATÉ A PRÓXIMA!
Unidade III

GRAMÁTICA APLICADA
DA LÍNGUA PORTUGUESA

Profa. Ana Lúcia Machado da Silva


Estudo gramatical

“Escrever não é um exercício escolar


apenas, mas é sobretudo uma atividade de
linguagem, e linguagem é vida, e a vida
ultrapassa os limites da escola.”
((Lydia
y Bechara))
Conceito de texto

 Texto é, de acordo com Platão & Fiorin


(2006), um todo organizado de sentido,
delimitado por dois brancos e produzido
por um sujeito (ou sujeitos) num dado
espaço e num dado tempo.
Texto escrito versus texto oral

 Não apresentamos, geralmente,


dificuldades em nos expressarmos por
meio da fala cotidiana.
 Os problemas começam a surgir quando
temos necessidade de nos
expressarmos formalmente e se
agravam no momento de produzir um
texto escrito.
 Nessa última situação devemos ter claro
que há
áddiferenças
e e ças marcantes
a ca tes e
entre
t e falar
aa
e escrever.
Texto escrito versus texto oral

 Na linguagem oral, o falante tem claro


com quem fala e em que contexto. O
conhecimento da situação facilita a
produção oral. Nela, o interlocutor,
presente fisicamente, é ativo, tendo
possibilidade de intervir, de pedir
esclarecimentos, ou até de mudar o
curso da conversação.
 O falante pode ainda recorrer a recursos
que não são propriamente linguísticos,
como gestos ou expressões faciais. Na
linguagem escrita, a falta desses
elementos extratextuais precisa ser
suprida pelo texto, que se deve organizar
de forma a garantir a sua inteligibilidade.
Texto escrito versus texto oral

 Escrever não é apenas traduzir a fala em


sinais gráficos. A escrita possui
recursos específicos dessa modalidade.
 Assim, não basta saber que escrever é
diferente de falar, é preciso ter em mente
a figura do interlocutor e a finalidade
para a qual o texto foi produzido. Para
formalizar esse discurso em língua
escrita é, ainda, preciso considerar
que a escrita tem normas próprias, tais
como regras de ortografia, de pontuação,
de concordância, de uso de tempos
verbais etc.
Conceito de discurso

 Discurso é um ato de linguagem que


representa uma interação entre o
produtor do texto e seu interlocutor.
Qualidades de um bom texto

Para que um texto seja considerado de


qualidade, é necessário que ele apresente:
 correção;
 clareza;
 concisão;
 objetividade.
Emprego dos pronomes de
tratamento, demonstrativos e
possessivos

Pronomes de tratamento:
 Os pronomes de tratamento apresentam
certas peculiaridades quanto à
concordância verbal, nominal e
pronominal. Embora se refiram à segunda
pessoa gramatical, levam a concordância
para a terceira pessoa:
 Ex.: “Vossa Senhoria nomeará
o substituto”.
 Os pronomes possessivos referidos a
pronomes de tratamento são sempre os
da terceira pessoa:
 Ex.: “Vossa Senhoria nomeará
seu substituto”
(e não “Vossa ... vosso...”).
Interatividade

Dadas as assertivas, indique a alternativa


correta:
I. Escrever é apenas traduzir a fala em
sinais gráficos.
II Escrever é diferente de falar
II. falar.
III. A escrita tem normas próprias, tais como
regras de ortografia, de pontuação etc.
a) Todas estão corretas.
b)) Apenas
p I está correta.
c) Apenas II está correta.
d) Apenas I e II estão corretas.
e) Apenas II e III estão corretas.
Resposta

Dadas as assertivas, indique a alternativa


correta:
I. Escrever é apenas traduzir a fala em
sinais gráficos.
II Escrever é diferente de falar
II. falar.
III. A escrita tem normas próprias, tais como
regras de ortografia, de pontuação etc.
a) Todas estão corretas.
b)) Apenas
p I está correta.
c) Apenas II está correta.
d) Apenas I e II estão corretas.
e) Apenas II e III estão corretas.
Pronomes de tratamento

Quanto aos adjetivos referidos aos


pronomes de tratamento, o gênero
gramatical deve coincidir com o sexo da
pessoa a que se refere, e não com o
substantivo que compõe a locução.
Assim, se nosso interlocutor for homem,
o correto é:
 Ex.: “Vossa Excelência está atarefado”,
“Vossa Senhoria deve estar satisfeito”;
se for mulher, “Vossa Excelência está
atarefada”, “Vossa Senhoria deve
estar satisfeita”.
Uso de “sua” e “vossa”

Usa-se vossa quando estamos falando


diretamente com a pessoa e sua quando
falamos da pessoa.
Ex.:
 Lembrem
Lembrem-se
se dos pedidos que Sua
Excelência fez antes de partir.
 Vossa Excelência, conte-nos as
novidades.
Quadro de pronomes de tratamento
Pronomes demonstrativos

Pronomes demonstrativos:
 Os pronomes demonstrativos são
usados sempre em textos produzidos
por usuários da língua pertencentes a
todos os níveis socioeconômicos, são
também bastante usados em nossas
conversas cotidianas. Entretanto, em sua
utilização, tais usuários não o fazem de
conformidade com as recomendações da
gramática normativa.
Critérios de uso do pronome
demonstrativo
Empregos do pronome
demonstrativo

a) A primeira função é chamada pragmática


ou situacional, porque o pronome se
refere à situação, ao contexto em que a
fala ocorre, e seu emprego é paralelo e
equivalente ao dos advérbios
pronominais aqui (para a 1ª pessoa),
aí (para a 2ª pessoa) e ali (para a 3ª
pessoa):
1. O emprego de este equivale,
situacionalmente, ao de aqui.
2. O emprego de esse, ao de aí.
3. O emprego de aquele, ao de ali.
Empregos do pronome
demonstrativo

 Os demonstrativos também indicam


proximidade ou distanciamento temporal.
Assim, usamos este, esta, isto para
representar o tempo presente; esse, essa,
isso, para o passado recente ou para o
futuro; aquele, aquela, aquilo, para o
passado remoto.
 Dica: pretérito imperfeito do indicativo
(dançava, comia, dormia), usa-se aquele,
aquela, aquilo; pretérito perfeito do
indicativo (dancei, comi, dormi) é uma
questão de estilo: o que julgar que é
passado recente usará esse, essa, isso e
para o que julgar que é passado
distante usará aquele, aquela, aquilo.
Empregos do pronome
demonstrativo

b) A segunda função do demonstrativo é


chamada textual ou sintática. O pronome
demonstrativo, na função sintática,
refere-se ao que já foi dito ou ao que
ainda vai ser dito em um texto.
1. Este quando empregado sozinho, sem
oposição, se refere ao que ainda vai ser
dito no texto:
 Ex.: o lema da Revolução Francesa
é este
este: Liberdade,
be dade, Igualdade
gua dade e
Fraternidade.
Empregos do pronome
demonstrativo

2. Esse é sempre empregado sozinho, sem


oposição, e refere-se sempre ao que já
foi dito no texto:
 Ex.: Liberdade, Igualdade e Fraternidade
– esse é o lema da Revolução Francesa.
3. Aquele é empregado unicamente em
oposição a este e sempre em referência
ao que já foi dito no texto.
 Ex.: Pedro estuda e Maria se diverte.
Aquele passará no vestibular
vestibular, mas esta
ficará reprovada.
Atenção

As regras apresentadas têm exceção:


delas se excluem as formas cristalizadas
na língua e, portanto, inalteráveis, como:

 Isto é (nunca “isso é”).


 Por isso (nunca “por
por isto
isto”)).
 Posto isso (nunca “posto isto” e,
menos ainda, “isto posto”) etc.
Interatividade

O uso do pronome demonstrativo “aquele”


nos quadrinhos abaixo tem função:

a) Pragmática ou situacional.
b) Semântica ou estilística.
estilística
c) Textual ou sintática.
d) Pragmática ou sintática.
e) Gramatical ou estilística.
Resposta

O uso do pronome demonstrativo “aquele”


nos quadrinhos abaixo tem função:

a) Pragmática ou situacional.
b) Semântica ou estilística.
estilística
c) Textual ou sintática.
d) Pragmática ou sintática.
e) Gramatical ou estilística.
Pronomes possessivos

 São aqueles que se referem às pessoas


gramaticais e dão a ideia de posse.
Ambiguidade no uso do pronome
possessivo

Existem casos em que os pronomes


possessivos causam ambiguidade. Veja o
exemplo abaixo:
 Ex.: Ingrid encontrou Roberto e seu
irmão na praça.
 Dessa forma, não fica claro se o irmão é
o de Ingrid ou de Roberto. Para evitar
essa situação, é recomendável usar dele/
dela.
 Ex
Ex.:: Ingrid encontrou Roberto e o irmão
dela na praça.
Pronomes oblíquos com valor de
possessivo

Me, te, nos, vos, lhe, lhes podem


representar, em certas ocasiões,
ideia de posse.
Exemplos:
 Roubaram
Roubaram-me
me o carro.
carro
(Roubaram o meu carro).
 Cortaram-te as roupas.
(Cortaram as tuas roupas).
Sentidos de aproximação e afeto no
uso dos pronomes possessivos

Os pronomes possessivos podem


aparecer indicando:
 Ideia de aproximação.
Exemplo:
 O gerente deve ter seus cem ou
duzentos mil reais guardados.
 Ideia de afeto, cortesia.
Exemplo:
 Meu senhor,
senhor sente-se aqui,
aqui por favor!
 Cuidado, meu amor!
Uso dos tempos verbais do
pretérito

O pretérito imperfeito é empregado:


a) Para expressar um fato passado,
não concluído.
 Ex.: A testemunha reconhecia o réu,
mas não pode denunciá-lo.
denunciá lo
b) Para indicar um fato habitual.
 Ex.: Ele estudava de duas a quatro horas
por dia.
c)) Com valor de outros tempos:
p
 Presente do indicativo
(atenuação de pedidos).
 Ex.: Eu queria um livro
de receitas.
Pretérito perfeito

O pretérito perfeito é empregado:


a) Para indicar um fato passado concluído.
Ex.:
 Ele jogou uma ótima partida.
 Acordei cedo e fui ao mercado.
 Renata comeu todo o bolo de chocolate.
Pretérito mais que perfeito

O pretérito mais que perfeito é empregado:


a) Para expressar um fato passado anterior
a outro acontecimento passado.
 Ex.: Ele finalmente comprou o carro, o
mesmo que desejara durante tempos
tempos.
b) Em orações optativas (que expressem
desejo).
 Ex.: Pudera eu conseguir atingir minhas
metas.
Concordância nominal

a) As expressões “é bom”, “é necessário”,


“é proibido”.
 As expressões formadas pelo verbo ser
mais um adjetivo não variam.
Entretanto, se o sujeito vier antecedido
de artigo (ou palavra equivalente), a
concordância será obrigatória.
 Veja:
Concordância nominal

 Quando se generaliza, quando não se


determina, não se faz a concordância,
usa-se o masculino com valor genérico,
com valor neutro.
 Ex.: Sopa
p é bom/ É bom sopa.
p
 Se não existe um artigo ou uma
preposição antes de “entrada”, se não há
nenhum determinante, o particípio
passado dos verbos “proibir” e “permitir”
deve ficar no masculino.
Mas, se houver algum determinante, o
verbo deve, então, concordar com a
palavra “entrada”.
 Ex.: Não é permitido entrada/
Não é permitida a entrada.
Concordância nominal

b) Anexo – Incluso – Obrigado(a) –


Próprio(a) – Mesmo(a).
 São palavras adjetivas; devem, portanto,
concordar com o nome a que se referem.
Veja:
Interatividade

Com relação ao uso de sua e vossa, qual


enunciado não corresponde à norma
gramatical?
a) Vossa excelência, o café está servido.
b) Sua excelência não pode atendê-lo
atendê lo
agora, está nos seus aposentos.
c) Sua excelência, a refeição está do vosso
agrado?
d) Lembrem-se dos avisos que Sua
E
Excelência
lê i fez
f antes
t ded viajar.
i j
e) Sua excelência Dilma Rousseff identifica-
se como “presidenta”.
Resposta

Com relação ao uso de sua e vossa, qual


enunciado não corresponde à norma
gramatical?
c) Sua excelência, a refeição está do vosso
agrado?
“Vossa Excelência”: quando se fala com a
autoridade.
“Sua Excelência”: quando se fala da
autoridade.
Pronome de tratamento p precedido de vossa
leva o verbo e os demais pronomes para a
terceira pessoa (na prática, substitui-se
mentalmente por você).
Correto: Vossa excelência, a refeição
está do seu agrado?
Outros exemplos

Observe outros exemplos:


 Seguem anexos os acórdãos.
 A procuração está apensa aos autos.
 Os documentos estão inclusos no
processo.
 Obrigado, disse o rapaz.
 Obrigada, respondeu a menina.
 Elas próprias resolveram os exercícios.
 Eles
El próprios
ó i resolveram
l a questão.

Concordância nominal: meio

c) Meio
 Essa palavra pode ser numeral ou
advérbio.
1. Quando for numeral é variável e
concorda com a palavra a que se refere.
refere
Ex.: Tomou meia garrafa de champanhe.
(numeral)
Isso pesa meio quilo. (numeral)
2. Se for advérbio é invariável.
Ex.: A porta estava meio aberta.
Ele anda meio cabisbaixo.
Concordância verbal

1. Verbo com sujeito simples


 O verbo concorda em número e pessoa,
não interessando a posição.
Ex.:
 Ele chegou tarde.
 Nós voltaremos logo.
 Chegaram os alunos.
Sujeito composto antes do verbo

2. Sujeito composto antes do verbo


a) O verbo vai para o plural:
Ex.: Recife e Jaboatão dos Guararapes são
as principais cidades do litoral
pernambucano.
pernambucano
b) O verbo poderá ficar no singular:
 Se os núcleos do sujeito forem
sinônimos.
Ex.: A decência e honestidade é coisa rara
nos dias atuais.
Sujeito composto antes do verbo

 Quando os núcleos formam uma


gradação.
Ex.: A angústia, a solidão, a falta de
companhia levou-o ao vício da bebida.
 Quando os núcleos aparecem resumidos
por tudo, nada, ninguém.
Ex.: Diretores, gerentes, supervisores,
ninguém faltou.
Sujeito composto depois do verbo

3. Sujeito composto depois do verbo


a) O verbo vai para o plural
 Ex.: Chegaram ao estádio os jogadores e
o técnico.
b) O verbo concorda com o núcleo mais
próximo.
 Ex.: Chegou ao estádio o técnico e
os jogadores.
Verbos impessoais

 Concordância dos verbos impessoais


fica na 3ª pessoa do singular, pois não
possuem sujeito.
 Ex.: Havia cinco anos que moravam em
Portugal.
 Chovia muito naquela noite.
 Faz dois meses que recebemos a carta.
Verbos impessoais

Observação
 Quando acompanhado de verbo auxiliar,
esse fica invariável na 3ª pessoa do
singular.
Ex :
Ex.:
 Devia haver cinco anos que não
falávamos com Rita.
 Verbos que exprimem fenômenos da
natureza usados em sentido figurado
deixam de ser impessoais.
Ex.: Choviam lágrimas de seus olhos.
Ordem direta e ordem inversa

 Ordem direta: costumamos dispor os


termos na seguinte ordem: sujeito –
verbo – complemento do verbo –
adjuntos adverbiais.
 Ordem inversa: a inversão na disposição
dos elementos constituintes da frase
marca a ênfase que se quer dar a um
determinado elemento, pois tal ênfase
costuma recair no termo que aparece no
início da frase. A tal inversão dá-se o
nome de “topicalização”.
Estudo crítico da metodologia de
ensino/aprendizagem da gramática
normativa em sala de aula

Questionamentos:
 É possível ensinar gramática?
 É desejável ensinar gramática?
 Por que ensinar gramática?
 Que gramática ensinar?
Reflexões

Para encerrar nossas reflexões, deixamos


aqui as palavras de Paulo Freire:
“Sou professor a favor da boniteza de
minha prática, boniteza que dela some se
não cuido do saber que devo ensinar, se
não brigo por este saber, se não luto pelas
condições materiais necessárias sem as
quais meu corpo, descuidado, corre o risco
de se amofinar e de já não ser testemunho
que deve ser do lutador pertinaz, que
cansa, mas não desiste”.
Interatividade

Em qual dos enunciados abaixo os


princípios normativos da concordância
foram violados?
a) O concurso selecionará os melhores
candidatos.
b) Márcia olhou em torno de si. Seus pais e
seus irmãos observaram-na com carinho.
c) O juiz olhou para o auditório. Ali estavam
os parentes e amigos do réu, aguardando
ansiosos o veredicto final.
final
d) Um policial que segurava uma arma
aproximou-se do desconhecido.
e) O estranho, ao vê-la, lançou-se
a teus pés.
Resposta

Em qual dos enunciados abaixo os


princípios normativos da concordância
foram violados?
a) O concurso selecionará os melhores
candidatos.
b) Márcia olhou em torno de si. Seus pais e
seus irmãos observaram-na com carinho.
c) O juiz olhou para o auditório. Ali estavam
os parentes e amigos do réu, aguardando
ansiosos o veredicto final.
final
d) Um policial que segurava uma arma
aproximou-se do desconhecido.
e) O estranho, ao vê-la, lançou-se
a teus pés.
ATÉ A PRÓXIMA!
Gramática Aplicada da
Língua Portuguesa
Autora: Profa. Siomara Ferrite Pacheco
Colaboradoras: Profa. Joana Ormundo
Profa. Cielo Griselda Festino
Profa. Tania Sandroni
Professora conteudista: Siomara Ferrite Pacheco

É mestre em Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), professora
na Universidade Paulista (UNIP) de disciplinas ligadas à área de Língua Portuguesa e doutoranda pela mesma
instituição desde o início de 2010. Além da experiência no nível superior, já lecionou no ensino básico, tanto
em escolas particulares quanto em escolas públicas. Participa de bancas de correção como Enem, Enade, entre
outras.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

P116 Pacheco, Siomara Ferrite

Gramática Aplicada da Língua Portuguesa. / Siomara Ferrite


Pacheco. - São Paulo: Editora Sol.
100 p. il.

Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos


e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XVII, n. 2-012/11,
ISSN 1517-9230.

1.Gramática 2.Norma 3.Variedade Linguística I.Título

CDU 801.5

© Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou
quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem
permissão escrita da Universidade Paulista.
Prof. Dr. João Carlos Di Genio
Reitor

Prof. Fábio Romeu de Carvalho


Vice-Reitor de Planejamento, Administração e Finanças

Profa. Melânia Dalla Torre


Vice-Reitora de Unidades Universitárias

Prof. Dr. Yugo Okida


Vice-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa

Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez


Vice-Reitora de Graduação

Unip Interativa – EaD

Profa. Elisabete Brihy


Prof. Marcelo Souza
Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar
Prof. Ivan Daliberto Frugoli

Material Didático – EaD

Comissão editorial:
Dra. Angélica L. Carlini (UNIP)
Dra. Divane Alves da Silva (UNIP)
Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR)
Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT)
Dra. Valéria de Carvalho (UNIP)

Apoio:
Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD
Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos

Projeto gráfico:
Prof. Alexandre Ponzetto

Revisão:
Simone Oliveira dos Santos
Sumário
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa
Apresentação.......................................................................................................................................................7
Introdução............................................................................................................................................................8
Unidade I
1 Da linguagem à gramática – conceitos e preceitos.............................................................9
1.1 Linguagem, sistema, língua e fala.....................................................................................................9
2 A natureza das regras do sistema da língua e das regras da
língua padrão.................................................................................................................................................. 10
2.1 Outras gramáticas................................................................................................................................. 13
2.2 Conceito de norma e gramática...................................................................................................... 14
2.3 A seleção da norma.............................................................................................................................. 20
3 Níveis da linguagem e registros..................................................................................................... 21
3.1 A variedade linguística: primeiros conceitos............................................................................. 22
3.2 As variações do vernáculo e do português................................................................................. 22
3.2.1 Variação dialetal....................................................................................................................................... 23
4 Variação de registro............................................................................................................................... 28
Unidade II
5 O Estudo da Gramática: âmbito da Fonologia, da morfologia, da
sintaxe e da semântica............................................................................................................................... 36
6 Níveis gramaticais..................................................................................................................................... 37
6.1 Âmbitos de estudo da gramática: fonologia e morfologia.................................................. 37
6.2 Âmbitos de estudo da gramática: a sintaxe e a semântica................................................. 46
Unidade III
7 NORMA CULTA.................................................................................................................................................. 54
7.1 Estudo gramatical: uso da norma culta na expressão escrita do texto.......................... 54
8 Estudo crítico da metodologia de ensino‑aprendizagem da
gramática normativa em sala de aula.......................................................................................... 81
Apresentação

Caro aluno e leitor,

A nossa disciplina tem como foco a gramática, entretanto, é preciso compreendê‑la de modo amplo
e sem as restrições que advêm do preconceito social. Por isso, iniciaremos com definições como a de
linguagem/língua, de sistema, de norma e de fala.

Além dessas definições, veremos os níveis de linguagem e os registros da língua, assim como
observaremos normas do padrão culto que devem ser seguidas na produção de textos, ampliando nossos
conhecimentos linguísticos.

É preciso, também, refletir sobre o ensino da língua portuguesa e os aspectos relevantes da


metodologia de ensino dessa disciplina, entendendo‑a como uma área ampla e complexa, mas que
precisa ser vista com maior atenção por aqueles que estão se preparando para ser profissionais
nessa área.

Dessa forma, apresentamos nossos objetivos e conteúdos a seguir.

Como objetivos gerais, temos:

• Propiciar o desenvolvimento e o aperfeiçoamento da competência linguística.

• Aprimorar a intelecção e produção de textos.

• Introduzir a reflexão e o estudo de questões relevantes ao ensino-aprendizagem da língua


materna.

Para atingirmos nossos objetivos gerais, temos por objetivos específicos:

• Desenvolver a habilidade de observação e de análise das estruturas e dos processos


sintático‑semânticos na organização de textos em diferentes tipologias.

• Aprimorar o conhecimento da gramática em seus diferentes registros.

• Refletir sobre a metodologia de ensino da gramática da língua materna, direcionando‑a


para a conscientização do uso adequado das diversas possibilidades ou modalidades de
uso.

Assim, nosso conteúdo programático consiste em:

• Linguagem, sistema, língua e fala.

• Divisões da gramática e disciplinas afins. Âmbitos de estudo da gramática (fonologia, morfologia,


sintaxe e semântica).
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• Conceito de norma padrão e desvios., conceito de gramática normativa e de gramática descritiva
e outros conceitos.

• Descrição da língua portuguesa em seus aspectos morfológicos: formação de palavras, processos


de derivação e composição e classes de palavras.

• Níveis de linguagem. Registros. Norma culta.

• Estudo gramatical: casos produtivos da norma culta para a expressão escrita do texto.

• Emprego de pronomes, uso dos tempos verbais, concordância nominal e verbal, regência nominal
e verbal e colocação ou ordem dos termos na oração e das orações no período e seus efeitos
estilísticos.

• Estudo crítico de metodologia de ensino-aprendizagem da gramática normativa em sala de aula.

Além de acompanhar o conteúdo teórico deste material e fazer os exercícios, leia também obras
sugeridas na bibliografia (indicada no final deste livro‑texto) para ampliar seu conhecimento.

Bom estudo!

Introdução

A disciplina Gramática Aplicada da Língua Portuguesa tem por objetivo principal desmitificar os
conceitos que se têm sobre a gramática, tornando‑a um instrumento de construção do conhecimento
linguístico para aquele que gostaria de saber mais sobre a sua própria língua, e não apresentá‑la como
um instrumento de tortura, como muitas vezes tem sido feito na educação básica. Por isso, iniciaremos
o nosso material tratando de conceitos referentes à gramática, para que possamos pensá‑la em sua
forma plural, até chegarmos às questões da norma de prestígio, selecionada como padrão de uso do
falante que deseja ser reconhecido socialmente.

É importante observar que, enquanto estudante do curso de Letras, você está sendo preparado
para formar outras pessoas que também terão contato com essas questões e, portanto, lhe
caberá a responsabilidade de desvendar os mistérios que assombram o mundo da gramática e
acabam desestimulando nossos jovens adolescentes a terem interesse pelo estudo da Língua
Portuguesa.

Como já apresentamos inicialmente, esses conceitos de linguagem, sistema, língua e fala são
importantes para compreendermos a gramática nesse contexto. Por isso, passemos a essas definições
no primeiro item da primeira unidade.

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Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Unidade I
1 Da linguagem à gramática – conceitos e preceitos

1.1 Linguagem, sistema, língua e fala

A primeira questão a ser considerada quando nos propomos a estudar uma língua é o que isso
significa, ou ainda: língua e linguagem têm o mesmo significado? Eis a primeira questão a ser respondida
antes de prosseguirmos na busca do entendimento de outros conceitos, como o de gramática, por
exemplo.

Nessa perspectiva, é preciso compreender que o significado de linguagem abarca um número maior
de signos envolvidos que aquele referente à língua. Qualquer forma de expressão pode ser considerada
linguagem, ao passo que a língua é um código que pressupõe o uso de palavras e é organizado de
acordo com a estrutura e as regras de cada grupo que o utiliza.

Nessa perspectiva, a língua é entendida como um código social, portanto de natureza coletiva
e não individual como a linguagem. Se esse código é de natureza social e/ou coletiva, ele obedece
às leis do contrato estabelecido pelos integrantes do grupo social em que se instaura.

Devemos lembrar ainda que esse código que é a língua pode ser descrito, o que nos diferencia
de um animal, podendo‑se chegar a seus elementos mínimos depreendidos, os fonemas. Ao se
analisar tal código, pode‑se observar que ele tem um sistema de funcionamento. Desse modo,
de acordo com o elemento a ser descrito nesse sistema, o estudo da língua pode ser dividido em
fonologia, morfologia e sintaxe (o que retomaremos mais adiante).

Lembrete

Linguagem é toda e qualquer forma de expressão, como gestos, cores,


Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
sons, palavras etc.

Língua é um sistema de signos e um código convencionado na e pela


sociedade.

Fala é a língua em uso.

Sistema é a organização do código utilizado, bem como sua descrição.

Temos, por exemplo, a linguagem de sinais, usada na comunicação entre pessoas surdas.
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Unidade I

Veja a seguir:

A B C D

E F G H

I J K L

M N Ñ O

P Q R S

T U V W

X Y Z
x

Figura 1 – Alfabeto Manual LGP

2 A natureza das regras do sistema da língua e das regras da


língua padrão

Tendo em vista ser amplo o conceito de linguagem, uma vez que abarca tanto a humana quanto a
animal e tanto a verbal (que tem por base a palavra) quanto a não verbal (gesto, dança, entre outras
formas de expressão), torna‑se importante ressaltar que a linguística propõe‑se a estudar a linguagem
verbal humana.

Tal estudo opõe‑se aos estudos da gramática tradicional, na medida em que aquela tem por objetivo
descrever os mecanismos de funcionamento e uso da língua sem a preocupação de estabelecer um
padrão, enquanto esta estabelece padrões e descreve os desvios deles, considerando‑os erros. A primeira
tem por objetivo descrever e explicar os padrões sonoros, gramaticais e lexicais em uso, sem avaliar esse
uso em relação a outro padrão, o que é feito pela segunda.
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Ao contrário do que se defende pelo senso comum, a linguística não é uma ciência que se opõe à
gramática. Ela é a “ciência mãe”, da qual se originaram outras vertentes, inclusive novos olhares para os
estudos relacionados à gramática.

A(s) gramática(s) da língua: a normativa, a descritiva e a internalizada

Passemos, então, a conceituar a gramática, a fim de desmascarar o conceito que se arraigou na


sociedade, o qual compartilhamos muitas vezes sem nos darmos conta e tampouco sabermos o porquê.
Para tanto, torna‑se necessária a questão: afinal,o que é gramática?
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Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Se procurarmos responder a essa questão, chegaremos à resposta de que se trata de um “conjunto


de regras”. É com base nesse princípio que Possenti (2005, p. 64) entende a gramática sob três
perspectivas:

As três definições correspondem, respectivamente, às gramáticas normativa, descritiva e


internalizada:

a) conjunto de regras que devem ser seguidas;

b) conjunto de regras que são seguidas;

c) conjunto de regras que o falante da língua domina.

A primeira definição corresponde à visão que normalmente temos da gramática, ou seja, de um


conjunto de normas prescritas para o “bem falar e bem escrever” do indivíduo. Nessa perspectiva, a
gramática é como uma “receita” que deve ser seguida e jamais questionada e/ou modificada. Aquele
que não faz uso dessa gramática fica à margem da sociedade. Por isso, essa gramática é denominada
normativa ou prescritiva.

Para exemplificar, se alguém disser “nóis vai lá amanhã”, sob o ponto de vista dessa gramática
prescritiva, é considerado um sujeito que não conhece a gramática da língua portuguesa por não seguir
o padrão de concordância do verbo “vamos” com o sujeito “nós”. Se fosse visto de outro ponto de vista
(como veremos mais à frente), esse indivíduo não ficaria marginalizado, apenas haveria adequação do
uso da gramática ao contexto social, tendo em vista a situação comunicativa.

Daí a definição de gramática como algo que “deve ser seguido”, sob esse ponto de vista normativo,
prescritivo, em que há o “certo” em oposição ao “errado”.

A segunda definição de gramática diz respeito a um conjunto de regras que são descritas a partir da
língua falada por um grupo, isto é, trata‑se da preocupação do linguista em identificar e descrever regras
que são seguidas pelos falantes no uso efetivo da língua. Portanto, essa noção de gramática está ligada
à realidade e, consequentemente, à naturalidade do uso da língua e não à artificialidade imposta pela
prescrição de uso dessa língua.
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
Por exemplo, a gramática normativa (ou prescritiva) do português institui uma forma verbal
correspondente a cada pessoa do discurso. Assim, o correto seria “eu amo”, “tu amas”, “ele ama”, “nós
amamos”, “vós amais”, “eles amam”. Essa prescrição não admite que os falantes tenham uma variação
dessa norma e utilizem as formas “eu amo”, “tu/você ama”, “ele ama”, “nós/a gente ama”, “vocês ama”,
“eles ama”. No entanto, no português falado no dia a dia, é o que encontramos.

Os linguistas que se preocupam com a variedade de uso da língua, chamados de sociolinguistas,


pesquisaram e identificaram essa “economia” na conjugação dos verbos no português não padrão, em
que vemos a redução das seis formas previstas pela norma padrão em apenas duas. Esse fato leva
à caracterização dessa língua falada como mais enxuta que a outra. Trata‑se de constatação feita a
11
Unidade I

partir de investigações na sociedade, no caso, a brasileira, que utiliza o mesmo código, ou seja, a língua
portuguesa. É a análise desse tipo de fenômeno a que se propõe a gramática descritiva.

Há gramáticas que, ao descreverem o sistema linguístico, propõem, ainda, a “forma correta”. Essas
gramáticas, além de descritivas, são normativas também. Uma gramática que seja apenas descritiva não
tem a pretensão de julgar o “certo” e o “errado”. Aliás, essa noção de erro é de caráter muito mais social
que linguístico, uma vez que sua definição tem por base a norma instituída pela classe de prestígio (que
é determinada pelo poder econômico).

Seguindo o raciocínio proposto inicialmente, a terceira definição de gramática está relacionada ao


conhecimento internalizado que o falante tem da língua. Esse conhecimento está relacionado ao léxico
e à organização sintático‑semântica dos enunciados, tanto para a produção quanto para a identificação
de formas linguisticamente aceitas pelo grupo social.

Exemplificando, se alguém disser “dufens vornasam mo léu”, essa estrutura não será gramaticalmente
reconhecida pelo falante, sobretudo em sua organização fonética e semântica. Sintaticamente, até
poderíamos dizer que corresponde à ordem SVC de nossa língua, ou seja, que “dufens” é o sujeito,
“vornasam”, o verbo e “mo léu” é o complemento. Todavia, se tivéssemos, então, “nuvens formam‑se
no céu”, esta seria uma oração, digamos, “plenamente” reconhecida do ponto de vista gramatical pelo
falante de língua portuguesa.

São essas questões que ratificam a tese de que o indivíduo é dotado de uma gramática internalizada,
isto é, de que cada um tem em mente os padrões linguísticos do código (no caso, a língua portuguesa) e os
ativa no momento de elaborar e/ou reconhecer enunciados gramaticalmente produtivos nesse código.

Nessa perspectiva, tendo em vista o paradigma atual – a pragmática, – há estudos que estão sendo
realizados de um ponto de vista funcionalista, isto é, de um ponto de vista que busca descrever o
modo como as pessoas conseguem comunicar‑se pela língua e, portanto, tem por base a competência
comunicativa do falante.

Para esse tipo de investigação, a ordem dos elementos no enunciado é fator relevante, uma vez que,
por exemplo, a inversão da posição do sujeito pressupõe uma intenção; a de dar ênfase a um elemento em
relação aos outros na sintaxe da oração.
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Ilustrando, se em vez de se dizer “João é um sujeito bacana”, diz‑se “um sujeito bacana é o João”,
observamos que, na primeira oração, a ênfase é dada ao sujeito, ao passo que, na segunda, dá‑se ênfase
à caracterização desse sujeito.

É desse tipo de questão que trata a gramática funcional, uma vertente atual que já tem um grupo
representativo aqui no Brasil.

Como vimos, definir gramática não se reduz à simplificação de um conjunto de regras “que devem
ser seguidas”. É preciso ampliar nossa visão, bem como aceitarmos os outros pontos de vista sobre essa
definição e concluirmos que eles se complementam e não se excluem.
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Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

2.1 Outras gramáticas

Além dos tipos de gramática apresentados, Travaglia (1998, p. 33) propõe outros três tipos, com base
na explicitação da estrutura e do mecanismo de funcionamento da língua. São eles:

• Gramática implícita: a competência linguística internalizada do falante, que é implícita


porque este não tem consciência dela. É também denominada gramática inconsciente e, por
possibilitar o uso automático da língua — além de estar diretamente relacionada com o que se
chama no ensino de gramática e no trabalho escolar com a gramática —, também é chamada
de gramática de uso.
• Gramática explícita ou teórica: todos os estudos que buscam, por meio de uma atividade
metalinguística sobre a língua, explicitar sua estrutura, constituição e funcionamento.
• Gramática reflexiva: gramática em explicitação. Trata‑se de uma gramática voltada mais
ao processo que ao produto do ato linguístico. São atividades de observação e reflexão
que buscam constituição e funcionamento da língua. Essa gramática parte das evidências
linguísticas para tentar dizer como é a gramática implícita do falante, que é a gramática da
língua.

Travaglia relaciona esses tipos de gramática (explícita ou teórica, reflexiva e implícita) à


distinção entre atividades linguísticas, atividades epilinguísticas e atividades metalinguísticas.
Segundo esse autor:

As atividades linguísticas são as que o usuário realiza quando estabelece uma interação
comunicativa por meio da língua. Para tanto, o falante tem de organizar seu texto de acordo com
a situação, os objetivos de comunicação, bem como de acordo com o tópico discursivo (assunto ou
tema). Trata‑se, pois, de atividades de construção e/ou reconstrução do texto que o usuário realiza
para se comunicar. Daí podermos relacionar essas atividades com a gramática de uso, uma vez que
o usuário utiliza de forma automática a sua gramática internalizada.

Quanto às atividades epilinguísticas, são as que possibilitam tratar dos próprios recursos linguísticos
que estão sendo utilizados ou de aspectos da interação por meio da suspensão do desenvolvimento do
tópico discursivo e introdução do referido tratamento.

Vejamos exemplos de atividades epilinguísticas: Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

1. Achei o vestido de Joana lindo. Lindo, não, maravilhoso.


2. Vamos encerrar este assunto, pois o horário da consulta já terminou.

E, finalmente, as atividades metalinguísticas compreendem aquelas em que se faz uso da língua


para analisar a própria língua, ou seja, é a construção da metalinguagem – conjunto de elementos
linguísticos próprios e apropriados para se falar sobre a língua. Portanto, a atividade metalinguística
normalmente está relacionada a teorias linguísticas e métodos de análise da língua, o que nos leva a
relacioná‑la diretamente com a gramática teórica.
13
Unidade I

Travaglia (1998, p. 35) chama a atenção para a existência ainda de outros tipos de gramática, que
são definidos tanto por seus objetos de estudo quanto por seus escopos. São elas:

• Gramática contrastiva ou transferencial – útil para mostrar diferenças e semelhanças entre


as variedades linguísticas, uma vez que descreve e compara duas línguas ao mesmo tempo.
• Gramática geral – uma gramática de previsão de possibilidades gerais por comparar o maior
número possível de línguas, a fim de reconhecer todos os fatos linguísticos realizáveis, bem como
as condições em que se realizarão.
• Gramática universal – gramática que investiga as características comuns a todas as línguas do
mundo. Nem sempre se distinguem gramática geral e gramática universal.

Veja alguns exemplos de universais linguísticos:

1. todas as línguas têm vogais;


2. todas as línguas têm dupla articulação;
3. todas as línguas têm categorias pronominais envolvendo pelo menos três pessoas e dois números.

• Gramática histórica – estuda o desenvolvimento de um idioma, isto é, estuda a origem e a


evolução de uma língua por meio do acompanhamento de suas fases desde seu aparecimento até
o momento atual.
• Gramática comparada – estuda uma sequência de fases evolutivas de várias línguas, a fim de,
normalmente, buscar pontos comuns. Foram esses estudos que estabeleceram famílias de línguas
e também propiciaram o descobrimento de parentescos entre línguas aparentemente distantes,
como o Latim e o Sânscrito.

Saiba mais

Há uma gramática interessante, que trata do uso da língua portuguesa


no Brasil. Procure saber mais a respeito consultando a obra de Neves, M.
H. de M. Gramática de uso do português. São Paulo: Editora UNESP, 2000.
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Disponível em: < http://books.google.com/books?id=6XPNR3WkygEC&pri


ntsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_similarbooks_s&cad=1#v=one
page&q&f=false>. Acesso em: 24 mai. 2011.

2.2 Conceito de norma e gramática

Quando pensamos em gramática, pensamos em “norma”, ou seja, a relação entre ambos os conceitos
está tão arraigada em nossa cultura que não conseguimos dissociá‑los.

14
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Nesse sentido, Bagno (2003) chama‑nos a atenção para o fato de desse substantivo derivar
dois adjetivos, os quais o autor, com base em reflexões de outros estudiosos do assunto, assim os
distingue:

Norma

Normal Normativo

Uso corrente Preceitos


Real Ideal
Comportamento Reflexão consciente
Observação Elaboração
Situação objetiva Intenções subjetivas
Média estatística Conformidade
Frequência Juízos de valor
Tendência geral e habitual Finalidade designada

(BAGNO, 2003, p. 41)

Bagno chama atenção para o fato de que o conceito norma geralmente está acompanhado do
adjetivo culta e que, para essa qualificação, há vários critérios, contudo, o mais antigo e que teve mais
adeptos é o que estabelece a relação entre culta e literária em termos de língua.

Esse critério de padrão da linguagem literária como referência remonta à Antiguidade e até fazia
sentido naquela época, em que apenas os falantes pertencentes ao grupo social de prestígio tinham
acesso ao texto escrito e, consequentemente, ao texto literário.

A partir do advento da imprensa, esse quadro mudou, uma vez que houve uma popularização da Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

leitura. Hoje, temos acesso a textos jornalísticos, que variam sua linguagem, apresentando desde a mais
coloquial até a mais formal, de acordo com o gênero (e tudo que este implica).

No Brasil, devemos considerar que a influência de textos literários é ínfima se comparados a outros
textos, como o jornalístico.

Todavia, ressaltamos que a gramática tradicional não estuda a variedade oral do português, e sim
a variedade escrita, mais especificamente a dos textos literários clássicos. Daí o distanciamento entre a
realidade e a prescrição da norma.
15
Unidade I

Nesse sentido, há gramáticos contemporâneos que adotam como linguagem padrão a dos textos
jornalísticos e técnicos. É o caso de Gramática descritiva do português, de Mário A. Perini. O autor assim
justifica seu critério:

(...) existe uma linguagem padrão utilizada em textos jornalísticos e técnicos


(...) linguagem essa que apresenta uma grande uniformidade gramatical, e
mesmo estilística, em todo o Brasil (PERINI, 2005, p. 26).

A concepção tradicional dos gramáticos em relação à norma culta isola a língua da sociedade, isto é, coloca‑a
em uma redoma de vidro, como se fosse um ser sobrenatural, ao qual apenas os “iluminados” têm acesso.

Essa visão da língua e, consequentemente, da norma culta, torna‑a uma língua ideal, um modelo
abstrato e leva a conceitos que qualificam as variantes linguísticas em certas vs. erradas, elegantes vs.
grosseiras, cultas vs. ignorantes.

Nessa perspectiva, o português corresponde apenas a esse ideal abstrato de língua certa, que não
aceita nenhuma outra realização verdadeira, autêntica, da fala dos nativos. Daí a crença de que não
sabemos português, um mito que é oriundo dessa visão coercitiva da gramática.

Atualmente, como já dissemos, há outros critérios para se estabelecer a “norma culta”, como, por
exemplo, os que são empregados por pesquisadores que estudam a norma culta no projeto Nurc (Norma
Urbana Culta).

Trata‑se de um grupo de linguistas que investiga, desde 1970, a linguagem efetivamente usada
pelos falantes cultos de cinco grandes cidades brasileiras: Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e
Porto Alegre. O critério de classificação “falante culto” está atrelado à escolaridade superior completa e
à inserção no contexto cultural urbano da cidade investigada.

Desse ponto de vista, o conceito de norma culta passa a relacionar‑se com algo concreto, que existe na
realidade social. Com base nessa investigação, podem‑se verificar mudanças no uso da língua, como, por
exemplo, a quase inexistência do pronome cujo(a) na língua falada pelos brasileiros considerados cultos.

Tendo em vista os dois conceitos de norma culta apresentados, um do ponto de vista prescritivo e outro
do ponto de vista descritivo da língua, podemos apresentar o seguinte quadro proposto por Bagno (2003):
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Quadro 1

Norma culta prescritiva (normativa) Norma culta descritiva (normal)


• “Língua” prescrita nas gramáticas normativas, inspiradas • Atividade linguística dos “falantes cultos”, com
na literatura “clássica”. escolaridade superior completa e vivência urbana.
• Preconceito (baseia‑se em mitos sem fundamentação na • Conceito (termo técnico usado em investigações empíricas
realidade da língua viva, inspirados em modelos arcaicos sobre a língua, correlacionadas com fatores sociais).
de organização social).
• Doutrinária (compõe‑se de enunciados categóricos, • Científica (baseia‑se em hipóteses e teorias que devem ser
dogmáticos, que não admitem contestação). testadas para, em seguida, serem validadas ou invalidadas).

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Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

• Pretensamente homogênea. • Essencialmente heterogênea.


• Elitista. • Socialmente variável.
• Presa à escrita literária, separa rigidamente a fala da escrita. • Manifesta‑se tanto na fala quanto na escrita.
• Venerada como uma verdade eterna e imutável (cultuada). • Sujeita a transformações ao longo do tempo.

(BAGNO, 2003, p. 54)

Como vemos, a questão da norma culta pode ser vista desses dois pontos de vista: um que
corresponde ao normativo, ou seja, a um caráter prescritivo da língua, e outro que corresponde
ao que é normal, isto é, ao que é colocado em prática pelos falantes cultos e que é descrito pelos
linguistas.

Poderíamos associar esses dois pontos de vista do conceito de norma culta aos dois tipos de gramática
já apresentados anteriormente: a gramática normativa e a gramática descritiva, lembrando que uma
está ligada à outra. Para sabermos qual é a prescrição, qual é o normativo, temos que primeiro descrever
o que é normal. Daí a relação entre normativo‑prescritivo e normal‑descritivo.

Então, nessa perspectiva, para sabermos qual é a norma de determinado grupo, temos de descrever
a língua falada pelos seus integrantes. Foi assim que os linguistas observaram a variedade de uso da
mesma língua, além da variedade de um mesmo indivíduo no uso da língua.

Devemos lembrar, entretanto, que há um ponto de vista pelo qual se distingue norma culta
de norma popular. Trata‑se geralmente de uma visão deturpada em que o que é popular está
ligado a uma desclassificação social, isto é, tudo que é popular corresponde ao oposto do que é
culto, erudito. É uma forma negativa de avaliação do que é popular em relação ao que é culto,
uma vez que deixa subentendido que o primeiro tem uma conotação pejorativa, depreciativa,
ao passo que o segundo corresponde a tudo que seja sofisticado e aceito por uma classe social
privilegiada.

A fim de solucionar esse problema de rotulação do que é (e o que não é) culto, Bagno (2003) propõe
refletirmos sobre a relação entre língua e sociedade no Brasil a partir de três chaves principais, sobre as
quais reproduzo as palavras do autor:

1. A primeira é a “norma culta” dos prescritivistas, ligada à tradição gramatical


Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
normativa, que tenta preservar um modelo de língua ideal, inspirado na
grande literatura do passado.

2. A segunda é a “norma culta” dos pesquisadores, a língua realmente


empregada no dia a dia pelos falantes que têm escolaridade superior
completa, nasceram, cresceram e sempre viveram em ambiente urbano.
3. A terceira é a “norma popular”, expressão usada tanto pelos tradicionalistas
quanto pelos pesquisadores para designar um conjunto de variedades
linguísticas que apresentam determinadas características fonéticas,
morfológicas, sintáticas, semânticas, lexicais etc., que nunca ou muito
17
Unidade I

raramente aparecem na fala (e na escrita) dos falantes “cultos” (BAGNO,


2003, p. 63).

Essa noção de norma popular está ligada às classes sociais que não têm acesso à escolarização
(como as comunidades rurais, por exemplo) e, também, àquelas que são marginalizadas e encontram‑se
nas periferias dos grandes centros urbanos.

Há uma variedade de termos para a classificação do que seja a língua “certa”, quer dizer, a que é
instituída socialmente. Variam entre “língua padrão”, “dialeto padrão”, “variedade padrão”.

Além dessa classificação, é preciso utilizar termos que diferenciam o que é do que não é padrão. Para
tanto, Marcos Bagno propõe os termos “variedades de prestígio” e “variedades estigmatizadas”.

A primeira classificação corresponde à norma utilizada pelos grupos de prestígio e, portanto,


pressupõe falantes que tiveram acesso à escolarização e que, naturalmente, do ponto de vista social,
passaram pela seleção de pertencerem a um grupo privilegiado que já cumpriu todas as etapas de
formação escolar, critério este, aliás, utilizado pelos linguistas para definir o falante culto.

Quanto à segunda classificação, esta abrange todos os grupos sociais desprestigiados do Brasil.
Esse desprestígio, assim como o prestígio, não é determinado internamente por meio das estruturas
linguísticas utilizadas, uma vez que ele está fundamentado em critérios socioeconômicos e de relação
de poder.

Enfim, essa questão da norma de prestígio lembra‑nos aquele dito popular que diz “manda quem
pode, obedece quem tem juízo”. Se buscamos a aceitação na sociedade, temos de ter consciência de que,
apesar das diversidades, há uma tendência à uniformização de nossa maneira de utilizar a língua, a qual
muitas vezes acabamos acreditando não conhecer em virtude de tanta estigmatização e preconceito
(que não é linguístico, mas social).

Nesse sentido, de acordo com Lucchesi (1994, apud PERINI, 2000), há uma polaridade entre normas
vernáculas e normas cultas. As primeiras corresponderiam ao uso da língua por falantes menos
escolarizados, enquanto as segundas corresponderiam aos usos dos falantes mais escolarizados.

Perini (2000) expõe as diferenças entre o que o autor denomina “portuguê s” e “vernáculo” e questiona
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

sobre qual seria a língua que falamos no Brasil.

Nessa distinção, o autor chama de vernáculo brasileiro a língua falada no país, aquela que é utilizada
no dia a dia, em situações rotineiras de comunicação do brasileiro. A outra língua, o português, ficaria
mais restrita a situações formais, principalmente de uso da língua escrita, em que o falante tem de
recorrer às normas prescritas pela gramática.

Portanto, o vernáculo corresponderia ao conceito de “normal”, de acordo com a definição de norma


culta da língua, ao passo que o português estaria diretamente ligado à norma culta de cunho prescritivo,
isto é, normativo. Para cada situação comunicativa, o falante deve selecionar que norma deve utilizar.
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Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Podemos dizer que saber a norma prescritiva da língua não significa dominar o uso dessa mesma
língua. Ou seja, um escritor, por exemplo, não tem necessidade de saber de cor todas as regras da gramática
normativa, no entanto, deve ter capacidade de utilizar a língua para expressar seus pensamentos e
fazer‑se compreender pelo leitor.

É o que veremos no texto que segue:

Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá


em casa numa mesma missão, designada por seu professor de português:
saber se eu considerava o estudo da gramática indispensável para aprender
e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu gravador
cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava
arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta
coluna, se descabelava diariamente com suas afrontas às leis da língua,
e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até
preparando, às pressas, minha defesa (“Culpa da revisão! Culpa da revisão!”).
Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos
tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que
não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente.

Respondi que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação


e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras
básicas da gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são
dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever
bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer
“escrever claro” não é certo mas é claro, certo? O importante é comunicar.
(E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas aí entramos
na área do talento, que também não tem nada a ver com gramática). A
gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de
interesse restrito a necrólogos e professores de latim, gente em geral pouco
comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias
em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação
pelo português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o
português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada,
como a gramática é a estrutura da língua mas sozinha não diz nada, não
tem futuro. As múmias conversam entre si em gramática pura.

Claro que eu não disse isso tudo para meus entrevistadores. E adverti
que minha implicância com a gramática na certa se devia à minha pouca
intimidade com ela. Sempre fui péssimo em português. Mas – isso eu disse –
vejam vocês, a intimidade com a gramática é tão indispensável que eu ganho
a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria. Sou um gigolô
das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de um
19
Unidade I

cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas


são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço
delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato‑as,
sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida
particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o
que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenho o mínimo escrúpulo
em roubá‑las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras,
afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo
calão. Não merecem o mínimo respeito.

Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas


palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo
seu plantel. Acabaria tratando‑as com a deferência de um namorado ou
a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa! Com
que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com
elas em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e
colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A gramática precisa
apanhar todos os dias pra saber quem é que manda (VERÍSSIMO, 1982).

2.3 A seleção da norma

Afinal, perguntamo‑nos: que norma devemos seguir?

O conceito de norma é visto ainda em sentido amplo e em sentido restrito por alguns estudiosos da língua.
O primeiro corresponde a um fator de coesão social, ou seja, à necessidade que o grupo social tem de manter
a identidade de sua língua, a relativa uniformidade linguística de importância política para as nações. Já o
sentido restrito estabelece o padrão linguístico adotado por uma sociedade, ou seja, corresponde aos
usos, atitudes e aspirações da classe social de prestígio de uma nação em virtude de razões políticas,
econômicas e culturais.

Tendo em vista o conceito de norma (ou padrão) que vigora nas gramáticas normativas utilizadas no
ensino de língua, alguns preconceitos são gerados, tais como:

• A norma culta da classe de prestígio é a única correta.


Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Isso não é verdade, uma vez que todas as variedades da língua são eficazes. O que há são modalidades de
prestígio e modalidades desprestigiadas (ou estigmatizadas, como já vimos) em função do grupo social
que a utiliza. Portanto, não há certo ou errado em termos de língua, todavia, o ideal é que o falante
conheça todas as variedades para selecionar a que deve usar no momento da comunicação.

• O bom português é aquele praticado em determinada região.


Esse preconceito apenas desloca o caráter social para o caráter regional. No Brasil, pelo fato
de termos vários centros de prestígio cultural, encontramos mais de uma norma culta válida,
principalmente na língua falada.
20
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

• O bom português é aquele exemplificado nas chamadas épocas de ouro da literatura.


Essa crença limita o português culto à variedade escrita, ao passo que, de acordo com estudos
realizados atualmente, temos o português culto falado nos grandes centros urbanos.
Além disso, na escrita, há outras variedades do português, como a que é utilizada em textos
jornalísticos e técnicos (revistas semanais, jornais, livros didáticos e científicos).
E, por fim, essa afirmação leva‑nos a uma atitude conservadora e saudosista de que o português
culto é o de épocas passadas.

• Diante da variedade linguística existente, apenas uma é a correta e todas as outras são erradas.
Se acreditarmos nessa afirmação, derrubamos todos os conceitos de gramática desenvolvidos
até então e voltamos a acreditar que existe apenas uma norma a ser seguida, a prescritiva, que
não admite nenhuma outra forma de expressão a não ser a determinada por ela como certa.
E, como já foi dito, até o padrão culto varia de um grupo para outro, isto é, para cada norma culta há,
de acordo com a situação comunicativa, várias formas consagradas por pessoas que têm prestígio
social em razão de pertencerem a grupos privilegiados social, econômica e politicamente.

Mais uma vez reforçamos que o falante ideal é aquele que sabe lidar com a diversidade e selecionar
adequadamente o padrão a ser seguido, de acordo com cada situação comunicativa vivenciada por ele.

Nós somos atores, representando papéis sociais o tempo todo. Para cada um, devemos saber o script.
Assim, não correremos o risco de sermos excluídos socialmente, ao menos do ponto de vista linguístico,
que, se analisarmos por essa perspectiva, acaba se tornando um meio democrático de interação social.

Embora não seja nosso objeto específico de estudo, não podemos deixar de considerar a variedade
na língua, tendo em vista os conceitos de norma de gramáticas, no plural, como vimos anteriormente.
Portanto, apresentaremos uma breve descrição dessa variação, visto que esse assunto também faz parte
da disciplina linguística, na qual haverá um estudo mais detalhado sobre isso.

Saiba mais

Veja a obra Bagno, M. A norma oculta - língua & poder na sociedade Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

brasileira. 2ª ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2003, sobre a qual você
encontra uma resenha de Jeferson Correia Dantas disponível em: <http://
www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-44502004000100009&script=sci_
arttext>. Acesso em: 24 mai. 2011.

3 Níveis da linguagem e registros

Afinal, qual é o português que devemos usar? Em que situação(ões)? Essas e outras questões surgem cada
vez que nós, falantes da mesma língua – a portuguesa –, temos de utilizá‑la nas mais variadas situações.
21
Unidade I

Para melhor compreendermos essas questões, precisamos ter conhecimento de alguns conceitos
(e teorias) que dizem respeito às variedades linguísticas e às gramáticas do português, sobretudo do
Brasil.

3.1 A variedade linguística: primeiros conceitos

A partir dos conceitos de gramática apresentados, podemos verificar que não há regra para o uso da
língua, mas regras que variam conforme as situações comunicativas do falante. Essa variação decorre
de fatores como diferenças entre grupos sociais escolarizados e não escolarizados, entre falantes de
regiões diferentes, entre sexos opostos, além das diferenças de idade, posição social, enfim, de fatores
que determinam as regras (no plural).

Do ponto de vista da gramática tradicional, há apenas a variedade padrão – a norma culta – em


oposição à popular. A primeira corresponde à variedade que segue as regras instituídas pela gramática
normativa, prescritiva da língua, enquanto a segunda diz respeito a toda e qualquer variedade que se
oponha ao “bem falar” e “bem escrever” instituídos pelo padrão.

Todavia, temos de considerar a pluralidade linguística para desenvolvermos a competência


comunicativa enquanto usuários da língua. Essa pluralidade está diretamente ligada às variedades
linguísticas. Portanto, não podemos desconsiderar que os falantes variam o uso da língua, seja de região
para região, entre faixas etárias diferentes, de um sexo para outro, enfim, há grupos que se diferenciam
de acordo com o seu modo de falar.

Saiba mais

Veja a polêmica sobre o assunto em: <http://oficinadetravessias.mg.gov.


br/preconceito-contra-a-educacao>. Acesso em: 24 mai. 2011.

Assista ao filme Língua - Vidas em Português. Brasil, Portugal. Direção:


Victor Lopes. 105 minutos, 2004. Um documentário belíssimo!
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

3.2 As variações do vernáculo e do português

Além das variedades tratadas no item anterior, o falante de língua portuguesa, no caso, do Brasil,
também encontra diversidade no uso dessa língua de acordo com as situações comunicativas em que
se encontra.

Desse modo, a variação de uso dessa língua estará ligada ainda ao grau de formalismo que a situação
requerer. Trata‑se, primeiramente, de diferenciarmos o que já foi tratado como “vernáculo” ou como
“português” por alguns estudiosos.

22
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

RR AP

Amazônico UA CF
AM PA Nordestino RN
PI PB
PE
AC Al
RO TO BA SE
Inderindo
Baiano
MT MG
oo
ur Mineiro
Culdta fr
s= Fluminense
rn r
sl
ns

Figura 2 – O português no Brasil


3.2.1 Variação dialetal

O primeiro grupo de variação, que alguns pesquisadores chamam de variação dialetal, compreende
basicamente as diferenças regionais, de nível social, de idade e de sexo. Nesse sentido, Travaglia (1998)
propõe seis dimensões de variação dialetal: territorial (ou geográfica), social, de idade, de sexo, de
geração e de função.

• Dialetos na dimensão territorial, geográfica ou regional: variação entre pessoas de diferentes


regiões em que se fala a mesma língua. Essa variação pode ocorrer por influência da formação
cultural do povo ou pelo fato de os indivíduos pertencentes geograficamente à mesma comunidade
apresentarem comportamento linguístico que os identifique. As diferenças podem ser no plano
fonético, no léxico ou no das diferenças sintáticas.

Portugal

Cape verde Macau Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Guiné - Bissau
Equatorial Guinea
São Tomé and Prícipe
East Timor
Angola Mozambique
Brasil

Figura 3 – O português no mundo

23
Unidade I

É preciso considerar, então, que esse código chamado língua portuguesa apresenta, no Brasil (sem
levar em conta outros países), diversidade de uso. Basta pensarmos naquele que vive no sertão nordestino
e o falante que vive em uma metrópole como São Paulo, por exemplo.

Do ponto de vista fonético (talvez a diversidade mais evidente entre os falantes), um indivíduo
que viva na primeira região citada pronunciará o [r] de “porta” diferentemente do outro indivíduo,
bem como haverá outras realizações do mesmo fonema (variantes) para indivíduos de outras regiões
do país.

Vejamos as marcas da oralidade, a fim de caracterizar o nordestino, personagem focalizado no


texto de Luiz Gonzaga, um grande representante da música de raízes, a sertaneja, pela qual tomamos
conhecimento da cultura do povo dos sertões do Brasil.

Quando oiei a terra ardendo


Qua fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, uai
Por que tamanha judiação

Que braseiro, que fornaia


Nem um pé de prantação
Por farta d’água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Até mesmo a asa branca


Bateu asas do sertão
Então eu disse adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração

Hoje longe muitas léguas


Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Para eu voltar pro meu sertão
Quando o verde dos teus oio
Se espalhar na prantação
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Eu te asseguro não chore não, viu


Que eu voltarei, viu
Meu coração

(GONZAGA, 1971).

Nesse texto, podemos observar a troca do fonema /lh/ por /i/ em “oiei”, “fornaia”, assim como a troca
do /l/ pelo /r/ em “farta”, fenômenos que marcam a fala dos moradores do sertão, constituindo uma
variante linguística no nível fonético.

24
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Há ainda variações morfológicas, cujas variantes podem opor o uso do morfema flexional de um
verbo à sua ausência, como, por exemplo, “andá” vs. “andar”, em que o –r constitui a marca do infinitivo
do verbo e o falante pode colocá‑lo ou subtraí‑lo no final.

Vejamos um texto em que essas variantes são bem explícitas:

Moi de Repoi nu ai iói

Ingridienti:

5 den di ái
3 cuié di oi
1 cabêss di repôi
1 cuié de mastumati
Sali a gosto
Me qui fais?!

Casca u ái, pica u ái e soca o


ái cum Sali. Quemnta o oi; foga
o ái no oi quentim.
Pica o repôi bemmm finimm, foga
o repôi.
Poim a mastumati mexi ca cuié
Pra fazê o moi.
Prontim!1

Verifiquemos que há novas construções de palavras como “mastumati”, variante de “massa de


tomate”, uma palavra composta, em que, a partir da aglutinação dos fonemas, deu‑se uma nova forma
da palavra. A redução de palavras é uma marca da fala mineira, como “ai”, “oi”, “den di”, “cabess”.

Quando se trata de léxico, podem também ocorrer variantes. O que é mandioca para uns pode ser
macaxeira ou aipim para outros. Ou o pivete de São Paulo pode ser o guri do Rio de Janeiro.

Podemos, ainda, encontrar variação sintática no uso da língua. É o caso, por exemplo, do uso do
pronome relativo nas seguintes sentenças: Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

• Este é o amigo em cuja casa estive ontem.


• Este é o amigo que eu estive na casa ontem.
• Este é o amigo que eu estive na casa dele ontem.

Verifiquemos que as três formas de uso do pronome relativo expressam o mesmo significado, todavia,
a construção sintática é que varia.
1
Este texto não possui referência pelo fato de estar veiculado na internet e ter sido obtido via e-mail.

25
Unidade I

Essas e outras variedades caracterizam o português falado no Brasil, tendo em vista a


nossa geografia e os falantes situados em toda extensão territorial. De norte a sul, de leste a
oeste, a língua portuguesa é o nosso idioma, mas sua diversidade de uso é que marca a nossa
identidade.

Não é, porém, apenas o fator geográfico que determina as diferenças do “nosso português”. Há
diversos fatores, como os que já foram destacados no início da unidade (sexo, idade, escolaridade, entre
outros), que podem marcar essa diversidade linguística.

Entre outros, o uso de pronomes pode ser também uma marca. Assim como determinadas regiões,
entre elas o Rio Grande do Sul, são reconhecidas pelo uso do “tu”, os paulistanos são identificados pelo
uso de “você”, assim como o mineiro pelo uso de “ocê”.

• Dialetos na dimensão social: são variações de acordo com a classe social a que pertencem
os usuários da língua. São consideradas variedades dialetais de natureza social os jargões
profissionais ou de determinadas classes sociais bem definidas como grupos (artistas, médicos,
professores, marginais, favelados, entre outros). Nesse contexto, a gíria é uma forma de dialeto
social.

Figura 4 – Dimensão social

O uso do plural varia de um falante escolarizado para um que não o seja. O primeiro dirá “os meninos”,
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

enquanto o segundo dirá “os menino”. A marcação do plural apenas em uma das palavras (normalmente
o artigo ou outra palavra que acompanhe o substantivo) é característica da fala do indivíduo não
escolarizado.

Entretanto, esse mesmo recurso pode ser utilizado por falante considerado culto (cujo critério de
classificação é o nível universitário de escolaridade) em situação informal de comunicação.

• Dialetos na dimensão da idade: são variações relativas ao modo de usar a língua por pessoas
de idades diferentes, em faixas etárias diversas – adultos, velhos, crianças, jovens.

26
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Figura 5

• Dialetos na dimensão do sexo: são variações de acordo com o sexo de quem fala.

Um garoto pode expressar‑se diferentemente de uma garota em uma mesma situação comunicativa.
Ela poderá dizer “ganhei uma blusinha maravilhosa!”, uma vez que o uso do diminutivo é marca
da fala feminina, o que causaria estranhamento na fala masculina.

Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Figura 6

Veja que o uso do aumentativo é uma marca da fala masculina, especialmente do jovem que necessita
expressar sua virilidade.

• Dialetos na dimensão da geração (ou variação histórica): são estágios no desenvolvimento


da língua.

27
Unidade I

Figura 7
• Dialetos na dimensão da função: são variações na língua decorrentes da função que o falante
desempenha. Exemplo: plural majestático, em que governantes ou altas autoridades expressam
seus desejos ou intenções com o pronome “nós”, que indica sua posição de representante do
povo.

O mesmo falante pode variar sua forma de comunicação de acordo com o contexto. Daí a noção de
registro da língua, para a qual há uma primeira divisão entre o que é formal e o que não é. Esse grau de
formalismo está ligado aos padrões da escrita e da oralidade. Quanto mais próximo do primeiro, mais
formal, quanto mais próximo do segundo, mais informal e/ou coloquial.

4 Variação de registro

O segundo grupo de variação é o das variações de registro, que são classificadas por Travaglia (1998)
em três grupos: grau de formalismo, modo e sintonia.

• Grau de formalismo: escala de formalidade, isto é, uso dos recursos da língua, variando o
cuidado e apuro de acordo com a situação e com a maior variedade de recursos utilizados e
aproximando‑se cada vez mais da língua padrão e culta em seus usos mais “sofisticados”.

• Variação de modo é entendida como a língua falada em contraposição à língua escrita.


Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Exemplos:

(1) A tarefa de lançar as bases da nova gramática é muito longa e complexa; devemos, portanto,
deixá‑la para a próxima semana.

(2) A nova gramática do português, ela vai ser muito difícil a gente escrever. Melhor a gente deixar
ela pra semana que vem (Perini, 2005).

O exemplo 1 está mais próximo do texto escrito, ao passo que o exemplo 2 parece ser a transcrição
de uma fala espontânea, portanto, mais próxima da oralidade.
28
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

A língua escrita e a falada apresentam as seguintes diferenças, segundo Travaglia (1998, p. 52):

• A língua falada pode usar recursos do nível fonológico que na escrita não podem ser usados
(entonação, ênfase de termos ou sílabas, duração dos sons, entre outros).

• Na língua falada aparecem truncamentos (de palavras e frases), hesitações, repetições, retomadas
e correções que não aparecem na língua escrita.

Para Travaglia (1998), na interação face a face, no texto oral, é possível:

que o locutor observe as reações do interlocutor e formule, explicações,


repetições, reformulações, cortes da frase etc. Observar marcas de
relação entre o falante e o ouvinte na conversação como os marcadores
conversacionais, tais como “uhm”, “certo?”

Sempre se valer de elementos do contexto imediato de situação e formular


frases que seriam incompreensíveis na escrita sem a formulação de um prévio
quadro de referência, o que não é necessário na língua falada (TRAVAGLIA,
1998, p. 52).

O texto de Millôr ilustra bem essa questão.

“As mulheres têm uma maneira de falar


que eu chamo de vago‑específica”.
Richard Gehman

–Maria, ponha isso lá fora em qualquer parte.


–Junto com as outras?
–Não ponha junto com as outras, não. Senão pode vir alguém e querer fazer
coisa com elas. Ponha no lugar do outro dia.
–Sim senhora. Olha, o homem está aí.
–Aquele de quando choveu?
–Não, o que a senhora foi lá e falou com ele no domingo.
–Que é que você disse a ele? Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
–Eu disse pra ele continuar.
–Ele já começou?
–Acho que já. Eu disse que podia principiar por onde quisesse.
–É bom?
–Mais ou menos. O outro parece mais capaz.
–Você trouxe tudo pra cima?
–Não senhora, só trouxe as coisas. O resto não trouxe porque a senhora
recomendou para deixar até a véspera.

29
Unidade I

–Mas traga, traga. Na ocasião nós descemos tudo de novo. É melhor, senão
atravanca a entrada e ele reclama como na outra noite.
–Está bem, vou ver como.
(MILLÔR, 1956)

Quadro 2

Variedades de modo
Língua falada Língua escrita
Oratório Hiperformal
Variantes de grau de Formal (Deliberativo) Formal
formalismo Coloquial Semiformal
Coloquial distenso Informal
Familiar Pessoal

(TRAVAGLIA, 1998, p. 54)

A língua escrita apresenta um conjunto de variedades de grau de formalismo, assim como a língua
oral. Na língua escrita, há maior tendência à regularidade e, geralmente, à maior formalidade do que
na língua falada.

Não podemos, entretanto, relacionar formalidade/informalidade a texto escrito/oral, respectivamente.


Há uma variação desse grau de formalidade e/ou informalidade tanto na escrita quanto na oralidade.
Podemos ter textos com grau extremo de formalidade na língua falada, bem como textos informais na
língua escrita.

Além desses, há outros casos de variação no uso do mesmo código – a língua portuguesa. Para cada
um, poderíamos dizer que há uma gramática própria, tendo em vista a adoção de uma norma pelos
falantes de cada grupo. O que existe, portanto, são diferenças, variações de uso do mesmo código, não
havendo melhor ou pior.

Como dito anteriormente, para a gramática tradicional há apenas a variedade padrão – a norma
culta – em oposição à popular.
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Todavia, temos de levar em consideração a pluralidade linguística para desenvolvermos a competência


comunicativa enquanto usuários da língua. Essa pluralidade está diretamente ligada às variedades
linguísticas.

Desse modo, Travaglia (1998, p. 54), com base em estudos já realizados por outros pesquisadores,
propõe uma classificação do grau de formalismo:

• Oratório: elaborado, enfeitado, utilizado por especialistas, tais como advogados, sacerdotes,
políticos e outros. É sempre reconhecido como apropriado para uma situação muito formal. O
equivalente escrito do oratório é o hiperformal.

30
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

• Deliberativo: quando se fala a grupos grandes ou médios, em que se excluem as respostas


informais (conferências científicas normalmente são realizadas com esse nível de formalidade). O
formal apresenta características semelhantes, numa forma de linguagem cuidada, na variedade
culta e padrão, mas dentro do estilo escrito (bons jornais e revistas, por exemplo).

Observação

O falante seleciona qual das modalidades deve usar no evento


comunicativo. Se ele se encontrar em uma situação que exija a formalidade,
utilizará o modo oratório; caso contrário, escolherá o modo deliberativo.

• Coloquial: comumente utilizado no diálogo, em que os participantes interagem sem planejamento


prévio, mas continuamente controlado. Caracteriza‑se por construções gramaticais soltas,
repetições frequentes, frases bem curtas, conectivos simples e léxico mais comum. Na escrita, o
semiformal corresponde ao coloquial, mas aquele apresenta mais formalidade que este.

• Casual (coloquial distenso): completa integração entre falante e ouvinte, em que pode aparecer,
por exemplo, o uso de gírias, indicador de relacionamento próprio de um grupo fechado. Exemplos
desse nível são as conversações descontraídas entre amigos, colegas de trabalho etc. Quando esse
nível corresponde à relação entre membros de uma família ou amigos íntimos, temos o grau
informal.

• Íntimo: inteiramente familiar, particular, pessoal. Aparecem, portanto, elementos da linguagem


afetiva com função emotiva. Esse grau íntimo pode tornar‑se pessoal quando escrevemos recados
para pessoas de nosso círculo familiar, em bilhetes ou lista de compras, por exemplo.

A partir das definições dadas, podemos verificar que hierarquicamente temos o oratório e o
hiperformal como extremos de formalidade, seguidos do deliberativo e do formal. Do outro lado, temos
o familiar e o pessoal e, um pouco acima, o casual (coloquial distenso) e o informal.

• Sintonia: quanto à terceira dimensão da classificação de registro, a sintonia, há pelo menos


quatro distinções feitas por Travaglia (1998). São o status, a tenacidade, a cortesia e a norma.
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
• Status: um funcionário não fala da mesma forma com seu colega de trabalho e com seu chefe.
Há variação de formas ou pronúncia, tom de voz que denotam respeito especial à pessoa a quem
nos dirigimos, com a finalidade de se definirem as posições relativas de cada falante. Um homem
pode diferenciar sua linguagem para falar com o filho e para falar com sua esposa, por exemplo.

• Tenacidade: variação que ocorre em função do volume de informações ou conhecimentos que


o falante supõe ter o ouvinte sobre o assunto. Podemos observar esse tipo de variação entre um
artigo de divulgação científica, que é veiculado para um público leigo, e um artigo científico,
destinado a um público específico, o acadêmico‑científico.

31
Unidade I

• Cortesia: variação que ocorre de acordo com a dignidade que o falante considera apropriada
ao(s) seu(s) interlocutor(es) e/ou à ocasião. Essa variação vai da blasfêmia/obscenidade ao
eufemismo.

• Norma: ao se dirigir ao seu interlocutor, o falante considera o que este julga “bom” em termos
de linguagem. Isto é, a variedade linguística a ser utilizada será selecionada de acordo com os
participantes da atividade comunicativa.

Essa variedade pode ser selecionada de acordo com critério regional, social, um registro mais ou
menos formal e assim por diante.

Por assim, podemos sintetizar as variações apresentadas no seguinte quadro:

Quadro 3

Variação dialetal Variação de registro


Territorial (ou geográfica) Grau de formalismo
Social Modo
De idade Sintonia
De geração
De função

Enquanto falantes do português, devemos usar adequadamente a variação, seja ela dialetal ou
de registro. Enquanto interlocutores (ouvintes ou leitores), devemos respeitar as diferenças que
não são erros, como vimos, mas apenas formas diferentes de realização do mesmo código: a língua
portuguesa.

Saiba mais

Leia Bagno, M. A língua de Eulália: novela sociolinguística. São Paulo,


Contexto, 1997.
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Consulte o site: <http://educacao.uol.com.br/portugues/ult1693u60.


jhtm>. Acesso em: 24 mai. 2011.

Resumo

Lembre‑se de que, nesta unidade, vimos que língua é um código


convencionado na e pela sociedade e linguagem é qualquer forma de
expressão, portanto, o conceito do segundo abarca o primeiro.
32
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Vimos também que o conceito de gramática deve ser considerado


no plural, lembrando que todos temos uma gramática internalizada
(a que dominamos e utilizamos espontaneamente), além de se poder
classificar a gramática como descritiva (a que descreve a língua),
tanto como normativa (a que institui o padrão de uso). Há ainda
outras propostas de classificação: implícita, explícita e reflexiva,
às quais se relacionam atividades linguísticas, epilinguísticas e/ou
metalinguísticas.

Levando em consideração tanto o objeto de estudo quanto os


objetivos, temos ainda: gramática contrastiva, gramática geral,
gramática universal, gramática histórica e gramática comparada.

Quanto ao conceito de norma, ele pode ser associado ao


adjetivo normal ou ao adjetivo normativo. O primeiro corresponde
às normas de uso da língua, estabelecidas no interior das
comunidades linguísticas, o que pode sofrer variação. Já o adjetivo
normativo corresponde à gramática que prescreve “o bem falar e o
bem escrever”. Cada uma dessas gramáticas pode ser vinculada ao
termo “culta”, havendo, assim, a norma culta “normal” e a norma
culta “normativa”.

A variação linguística pode ser vista do ponto de vista da dimensão


dos dialetos (ou falares) e, nesse caso, variar de uma região para outra, ou
de uma classe social para outra, bem como entre os sexos, gerações, faixas
etárias ou funções sociais. A língua pode, ainda, variar enquanto registro,
isto é, o mesmo falante pode variar o uso dela tendo em vista o grau de
formalismo, o modo e a sintonia.

Questões

Questão 1 (Enade, 2007). Vamos supor que você recebeu de um amigo de infância e colega de
escola um pedido, por escrito, vazado nos seguintes termos: Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

“Venho mui respeitosamente solicitar‑lhe o empréstimo do seu livro Redação para Concurso, para
fins de consulta escolar”.

Essa solicitação em tudo se assemelha à atitude de uma pessoa que:

A) Comparece a um evento solene vestindo smoking completo e cartola.


B) Vai a um piquenique engravatado, vestindo terno completo e calçando sapatos de verniz.

33
Unidade I

C Vai a uma cerimônia de posse usando um terno completo e calçando botas.


D) Frequenta um estádio de futebol usando sandálias de couro e bermudas de algodão.
E) Veste terno completo e usa gravata para proferir uma conferência internacional.

Resposta correta: alternativa B

Análise das alternativas:

A) Alternativa incorreta.

Justificativa:

Comparecer a um ato solene com roupa social é adequado.

B) Alternativa correta.

Justificativa:

Estabelecendo‑se uma analogia entre o tipo de roupa e o nível de linguagem, podemos considerar
que o nível formal corresponde ao traje social, enquanto que o informal corresponde ao traje do
dia a dia. No caso do enunciado, o rapaz usou uma linguagem excessivamente formal em uma
situação que exigia a coloquialidade. Trata‑se, portanto, de uma inadequação. O piquenique exige
uma vestimenta mais à vontade, é inadequado ir a um passeio desse tipo com traje social, como
ilustra a questão.

C) Alternativa incorreta.

Justificativa:

O uso de botas destoa do terno completo, seria como falar uma gíria no meio de um discurso formal.
D) Alternativa incorreta.

Justificativa:
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Ir a um jogo com esse tipo de roupa é adequado.

E) Alternativa incorreta.

Justificativa:

O uso do traje social é adequado em uma conferência internacional.

Questão 2 (adaptada – Enade, 2006). Analise a charge reproduzida na figura:


34
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Considere as seguintes afirmativas:

I – Pelo texto, observa‑se que os sinônimos produzem sempre o mesmo efeito de sentido no texto.

II – Observa‑se que o personagem valoriza a cultura regional.

III – Pelo texto, percebe‑se que o personagem se refere a dois doces distintos.

Assinale a alternativa que contém a(s) afirmativa(s) correta(s):

A) I.
B) II.
C) III.
D) I e II.
E) II e III.

Resolução desta questão na Plataforma.

Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

35
Unidade II

Unidade II
5 O Estudo da Gramática: âmbito da Fonologia, da morfologia,
da sintaxe e da semântica

Dê‑me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
(ANDRADE, 2003)

Depois de falarmos em variação no uso da língua, podemos ver que, ao abrirmos uma gramática,
encontramos a descrição dela em todos os seus níveis: o fonético, o morfológico, o sintático e
o semântico. Apresentaremos, então, o que trata cada um deles. Ao abrirmos uma gramática
descritiva, verificamos que esta se encontra dividida nesses níveis, fazendo‑se a descrição de
cada um.

Se pensarmos que os sons articulados constituem o nosso primeiro contato com a língua,
podemos verificar que o nível fonético é o mais expressivo por apresentar marcas do que
seja cada língua devido à sua pronúncia e à articulação dos sons para se pronunciarem as
palavras.

O morfológico corresponde às unidades que representam, por exemplo, um radical, uma desinência
de gênero e/ou de número ou um afixo (prefixo e sufixo).
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Já no nível sintático, observamos como as palavras se relacionam na organização de um texto, de


acordo com a estrutura sintagmática de nossa língua.

Do ponto de vista semântico, verificamos os significados que as palavras podem assumir, de acordo
com cada contexto em que se encontra inserida.

Esses são os principais aspectos dos estudos que encontramos em uma gramática descritiva da
língua e dos quais passaremos a tratar.

36
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Observação

Gramática: compreendida aqui como o sistema de regras da língua em


funcionamento.

Sabe‑se que toda língua tem uma estrutura – a sua gramática. Esta, por sua vez, ao registrar e
descrever os aspectos de uma língua em particular, costuma ser apresentada em diferentes itens,
usualmente organizados em diversos níveis. Identificamos, assim, a fonologia; a morfologia e a sintaxe
(melhor denominada morfossintaxe); e a semântica e a estilística.

6 Níveis gramaticais

Vejamos a conceituação básica de cada um desses níveis:

Quadro 4

É o nível de descrição da linguagem em que


encontramos os sons que fazem parte do
sistema linguístico, tendo cada um sua função
no sistema comunicativo. Também cuida
Fonologia de aspectos relacionados à divisão silábica,
à ortografia e à acentuação de palavras, de
acordo com o padrão culto da língua. Estuda o
aspecto fônico e tem como unidade básica de
estudo o fonema.
É o nível de análise linguística que se ocupa do
estudo das palavras, de sua formação, de sua
classificação e de suas flexões. Estuda palavras
Morfologia que pertencem a grupos bem diferentes:
substantivo, adjetivo, artigo, numeral, pronome,
verbo, advérbio, preposição, conjunção e
interjeição.
A sintaxe é o estudo das combinações e relações
Sintaxe entre as palavras de um enunciado e entre as
frases de um texto.

Semântica É definida, de maneira genérica, como o estudo


do sentido das palavras e dos enunciados.

Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11


Estuda os aspectos afetivos que envolvem e
Estilística caracterizam a linguagem emotiva que perpassa
todos os fatos da língua

Vejamos, a seguir, como o sujeito trabalha com elementos próprios de cada um desses níveis de
organização linguística a fim de obter os efeitos de sentido que deseja.

6.1 Âmbitos de estudo da gramática: fonologia e morfologia

Observar a sonoridade de um texto ajuda a captar o sentido que se quis traduzir com a disposição de
palavras e frases. Nos enunciados em geral, seja um poema, um texto em prosa, uma propaganda, histórias
37
Unidade II

em quadrinhos etc., podemos encontrar sons que se repetem com maior frequência, aproximando a
imitação fonética do enunciado àquilo que eles sugerem.

Acompanhe o poema de Oswald de Andrade:

As coisas são
As coisas vêm
As coisas vão
As coisas
Vão e vêm
Não em vão
As horas
Vão e vêm
Não em vão
(ANDRADE, 1978)

No texto, o poeta “traduziu” o som e o movimento pendular do relógio pela utilização de determinadas
combinações sonoras de palavras e, ainda, pela disposição delas no texto.

Aliteração e assonância

A repetição da mesma consoante ao longo do texto – a aliteração – provoca efeitos sonoros variados
conforme o caso. Observe:

Canção do vento e da minha vida

O vento varria as folhas,


O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.

(...)
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

O vento varria os sonhos


e varria as amizades...
O vento varria as mulheres...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia

De afetos e de mulheres.
O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!

38
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

E a minha vida ficava


Cada vez mais cheia
De tudo.
(BANDEIRA, 1985)

Nesse poema, Bandeira explora um recurso expressivo fonológico para provocar o efeito
desejado: a aliteração. Nesse caso, a repetição dos fonemas /v/ e /f/ no início ou meio de um
significativo número de palavras permite que se associe o texto lido em voz alta ao som produzido
pelo vento.

De acordo com as teorias que descrevem a língua, o fonema representa a sonoridade e a letra
representa a grafia do som, por isso, não devemos confundir ambos. Quando se trata de transcrição do
fonema, este deve ser representado entre “/ /”, como, por exemplo, /s/ em “sol” ou /z/ em “casa”. Portanto,
não devemos confundir letra com fonema e vice‑versa.

Veja, também, como ocorre a aliteração em outro texto, agora provocada pela repetição do fonema
/k/:

Colar de Carolina
Com seu colar de coral,
Carolina
corre por entre as colunas
da colina
O colar de Carolina
colore o colo de cal,
torna corada a menina.
E o sol, vendo aquela cor
do colar de Carolina,
põe coroas de coral
nas colunas da colina.
(MEIRELES, 1990)

A assonância é a repetição da mesma vogal no texto. Note a repetição do /a/ neste trecho da letra
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
de Clara, de Caetano Veloso:

Quando a manhã madrugava


Calma
Alta
Clara
Clara morria de amor
(VELOSO, 1990)

39
Unidade II

Onomatopeia

As onomatopeias, outro recurso fonológico, representam certos sons e ruídos produzidos por
animais ou coisas ou mesmo certos sons humanos. Têm como função “imitar” a realidade. O uso de
onomatopeias é bastante comum nos quadrinhos e, muitas vezes, delas se extrai o pretendido efeito
de humor.

É comum encontrarmos expressões como “pof” e “paf” para indicar que um personagem está batendo
no outro, ou, por exemplo, quando alguém está admirado ou em dúvida sobre algo, é comum vermos
“hum”. Enfim, há uma série de representações dos sons, muito frequentes em tipos de texto que se
denominam história em quadrinhos.

Observe onomatopeias traduzindo vozes de animais e sons das coisas:

O tique‑taque do relógio, o marulho das ondas, o zunzunar da abelha, o arrulhar dos pombos.

Ortoepia e prosódia

Vício na fala

Para dizerem milho dizem mio


Para melhor dizem mió
Para pior pió
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados.
(ANDRADE, 1978)

O texto da epígrafe mostra algumas transformações fonéticas que as palavras podem sofrer na
pronúncia de alguns falantes da língua. Veja, por exemplo, os pares milho/mio, pior/pió, telha/teia,
telhado/teiado. Essas variações de pronúncia de uma palavra dependem de fatores de ordem social,
regional, individual e estilística.
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Lembrete

Fonema: menor unidade sonora de uma palavra.

Letra: representação gráfica dos fonemas da língua.

Existe uma parte da fonologia que trata da pronúncia adequada das palavras, segundo o
padrão culto da língua: a ortofonia, que, para efeito de estudo, costuma se dividir em ortoepia e
prosódia.
40
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Assim:

• Ortoepia: trata da correta pronúncia dos fonemas das palavras.

• Prosódia: trata da acentuação (acento da fala) e da entoação adequada dos fonemas.

Algumas palavras de nossa língua oferecem dúvidas quanto à posição da sílaba tônica. Veja
algumas das infrações mais frequentes de pronúncia, tomando‑se como referência o padrão culto da
língua:

• são oxítonas: Nobel, refém, sutil, ruim, ureter;

• são paroxítonas: âmbar, avaro, ciclope, clímax, filantropo, fluido (ui ditongo), fortuito (ui ditongo),
gratuito (ui ditongo), ibero, libido, pudico, rubrica;

• são proparoxítonas: aeródromo, arquétipo, autóctone, barbárie, boêmia, condômino, etíope,


ínterim.

• admitem dupla prosódia: acrobata ou acróbata, ambrósia ou ambrosia, crisântemo ou crisantemo,


hieróglifo ou hieroglifo, homília ou homilia, Madagáscar ou Madagascar (mais comum), Oceânia
ou Oceania, projétil ou projetil.

Lembrete

Vogal: é o fonema produzido pelo ar que faz vibrar as cordas vocais e


que não encontra obstáculo na sua passagem pelo aparelho fonador.

Semivogal: é fonema produzido como vogal, mas pronunciado com


baixa intensidade, como se fosse uma consoante. Veja:

saudade/boi
| | | |
v sv v sv Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Consoante: é o fonema em cuja produção o ar encontra obstáculo na


passagem pelo aparelho fonador.

Palavra: unidade linguística de som e significado que entra na


composição dos enunciados da língua.

Além de recursos expressivos no nível fonológico, podemos também encontrar recursos expressivos
morfológicos. Vejamos:

41
Unidade II

(AUGUSTO DE CAMPOS, 1956)

Como vimos, a morfologia é o nível de análise linguística que se ocupa do estudo das palavras, de
sua formação, de sua classificação e de suas flexões.

As palavras, assim, não constituem unidades indivisíveis. Elas, na maioria das vezes, decompõem‑se
em elementos menores: os morfemas, unidades elementares de significação que entram na constituição
das palavras da língua.

Em nossa língua há palavras formadas por um só morfema (como sol, por exemplo) e palavras
constituídas de mais de um morfema (des + espera + da + mente).

Quanto aos morfemas, aqueles que correspondem ao radical da palavra são os morfemas lexicais, pois
são eles que garantem a produtividade lexical da língua e, a partir deles, formam‑se novas palavras.

Em relação às palavras, os grupos de substantivos, adjetivos e verbos são os lexemas da língua.


Alguns advérbios, como os que derivam de um adjetivo + sufixo ‑mente (sutilmente), também são
considerados morfemas lexicais.

Há dois processos básicos de formação de novas palavras: a derivação e a composição. No primeiro,


acrescenta‑se um morfema gramatical, que corresponde a um afixo (prefixo e sufixo). Já no segundo,
tem‑se ao menos dois lexemas que formam um novo: são as palavras compostas.
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Observação

Neologismo: atribuição de um novo sentido assumido por uma palavra


que já existia.

Observe:

Pedro, pedra, pedreira, pedrinha, pedregulho, apedrejar, empedrar.


I
Canto, cantar, canta, cantamos, cantáveis, cantam, cantaria, cantei.

42
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Desfazer, desaparecer, desmontar, desenrolar, desapropriar, desmentir.


II
Felizmente, docemente, delicadamente, atualmente, calmamente.

Em I, temos, em destaque, os radicais aos quais se acrescentou, em cada caso, um morfema diferente,
responsável pelas diferenças de significação entre as palavras.

Já em II, o prefixo des –e o sufixo ‑mente foram acrescentados a radicais diferentes, determinando,
em cada caso, um sentido específico para as palavras.

Assim como podemos explorar os recursos fonológicos da língua, também é possível explorar seus
recursos morfológicos para obter efeitos de sentido particulares.

Observe o que fez Millôr Fernandes num texto em que cria neologismos engraçados a partir da
combinação de elementos mórficos da língua.

Dicionovário (palavras que precisam ser inventadas)

Abacatimento: redução no preço do abacate.


Abensuado: louvado cristãmente por ter feito um grande esforço físico.
Abrilgar: dar morada em abril.
Altaração: modificação no oratório.
Anãofabeto: pequenininho que nem sabe assinar o nome.
Anthepático: sujeito desagradável porque sofre do fígado.
Assassinatura: a rubrica de um criminoso de morte.
Cálcoolar: dosar a batida.
Caligrafeia: letra ruim.
Calvício: mania de estar ficando careca.
Cãodência: um latido rítmico.
Capetão: oficial diabólico.
Cartomente: uma adivinha que nunca diz a verdade.
Comemoriação: festa em regozijo por ter boa memória.
Difaculdade: empecilho para entrar na academia.
Dozistência: uma dúzia de pessoas que não querem mais.
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
Equilébrio: o balanço do bêbado.
Fãtigado: admirador cansado.
Filhosofia: sabedoria do descendente.
Fronthospício: fachada do manicômio.
Instintor: aparelho para aplacar as nossas ânsias.
Larbuta: o trabalho doméstico.
Martrapilho: marinheiro muito mal vestido.
Miltidão: uma reunião de mais de 999 pessoas.
Nortícia: informação vinda do Norte.
Novocábulo: uma palavra deste dicionovário.
43
Unidade II

Pavãoroso: ave horrorosa da família dos galináceos.


Repulgnante: pulga nojenta.
Sacrotário: um auxiliar de igreja que é facilmente enganável.
Soltão: dono de harém, mas inteiramente livre de compromissos.
Velhocidade: pressa do ancião.
Xalafrário: governador persa safado.
(MILLÔR, 2006)

Note, por exemplo, que em “calvício”, o autor trabalha com duas palavras da nossa língua: calvo e
vício e explora o fato de que uma delas – calvo – termina com a sílaba marcada pela consoante v, assim
como a primeira sílaba da palavra vício. A partir dessa coincidência fonológica, o autor junta as duas
palavras e forma uma “nova” palavra – calvício ‑, com o sentido que se propõe: mania de estar ficando
careca. Apesar de essa palavra não existir em nossa língua, somos obrigados a reconhecer o humor
presente nessa surpreendente criação.

Podemos formar novas palavras para compor o léxico por meio de dois processos básicos da língua:
a derivação e a composição. Vejamos alguns detalhes importantes sobre esses processos.

Os processos de derivação propiciam a produtividade na língua e esse fenômeno ocorre devido à


possibilidade de combinações de radicais e afixos, os quais, muitas vezes, implicam mudança de classe da
palavra (pesar – pesagem) ou na ideia de negação (imoral), assim como de grau (fininho), de designações
para indivíduos (trapezista) ou de substantivos abstratos (beleza).

Quando há acréscimo apenas de prefixo, o processo é denominado derivação prefixal (in + feliz =
infeliz). Ao se acrescentar apenas sufixo, denomina‑se sufixação ou derivação sufixal (feliz + mente
= felizmente).

Pode‑se ainda, no processo de derivação, acrescentar tanto sufixo quanto prefixo. Esse tipo de
derivação corresponde a dois tipos diferentes. Um é denominado prefixação e sufixação (derivação
prefixal e sufixal) o outro é a parassíntese (derivação parassintética).

A diferença é que no primeiro processo, o de prefixação e sufixação, a ideia é a de que houve


primeiro um e depois o outro, por isso podemos separar a palavra em duas outras que têm sentido.
Por exemplo, “infelizmente” pode ser desmembrada em “infeliz” e “felizmente”. Já na parassíntese,
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

isso não ocorre. Por exemplo, “amanhecer” não pode ser decomposta em duas palavras que
tenham significado no léxico, daí a noção de que ambos (prefixo e sufixo) foram acrescentados
simultaneamente.

A parassíntese é um processo bastante utilizado na formação de verbos, principalmente os que


representam mudança de estado, como endurecer, amadurecer, anoitecer, escurecer etc.

Além dos dois processos de derivação já apresentados, podemos nos lembrar também da derivação
regressiva (também conhecida por deverbal), pela qual há redução de morfemas na palavra. Por exemplo,
de falar, obtemos fala. São normalmente verbos que originam substantivos abstratos.
44
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

A derivação imprópria é assim denominada porque há mudança de classe gramatical da


palavra. Todavia, esse processo implica relação sintático‑semântica da palavra para que se possa
identificar tal processo. Por exemplo, se dissermos “o meu viver é repleto de alegria”, podemos
observar a derivação imprópria em “viver”, pois o determinante “meu” transformou “viver” de verbo
para substantivo, ou seja, há mudança de classe da palavra na organização sintática e esta passa a
nomear uma ação por meio de sua classe não habitual, a do substantivo, no lugar da mais comum,
que é um verbo.

No processo de composição, juntam‑se ao menos dois radicais para se formar uma nova palavra, por
isso denomina‑se palavra composta. E isso pode ocorrer pela simples justaposição ou pela aglutinação
desses radicais. Por exemplo, “malmequer” é uma palavra composta por justaposição, enquanto “fidalgo”
(filho de algo) é composta por aglutinação.

Para sabermos se houve aglutinação de radicais, é preciso termos conhecimento das palavras
primitivas que formaram a palavra. Disso podemos tomar conhecimento por meio de dicionários,
principalmente o do tipo etimológico.

Com a nova ortografia, depois da realização do acordo ortográfico entre os países lusófonos, houve
mudanças nas regras do hífen em palavras compostas. Portanto, consulte um material específico que
trate desse assunto. Atualmente, há vários deles em circulação e, entre eles, encontra‑se o de José
Carlos Azeredo. Há outros autores que também trataram do assunto, como Evanildo Bechara. Procure o
material com o qual você mais se identifique.

Além desses processos básicos de formação de palavras na língua portuguesa, há outros recursos que
produzem novas palavras em nosso léxico. É o caso da abreviação (foto, moto, micro), da reduplicação
(nenê, Zezé), da sigla (INSS, CNH, CPF, RG), assim como do neologismo, já exemplificado em texto
anterior.

Esse assunto pode ser aprofundado por meio de pesquisa em uma boa gramática de língua portuguesa.
Para tanto, há referências bibliográficas no final do livro‑texto que você pode adotar para ampliar seus
conhecimentos.

Ao selecionar as palavras, o usuário da língua deve considerar não apenas o sentido e a função
que assumem na frase, mas também sua forma, isto é, sua respectiva classe gramatical: substantivo,
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
adjetivo, verbo, pronome, advérbio etc. O agrupamento das palavras de acordo com sua forma deve ser
feito observando‑se a função sintática que elas assumem nas frases.

Observe a seguinte expressão: “Eu não posso ver ninguém passando mal e “devolvendo o que comeu”
porque tenho estômago fraco”.

A palavra fraco, por exemplo, pode pertencer a mais de uma classe gramatical. No enunciado, fraco
é um adjetivo, caracterizando o substantivo estômago. Já num outro contexto, como, por exemplo, “o
fraco mostrou‑se arrependido ao final da batalha”, fraco é substantivo.

45
Unidade II

6.2 Âmbitos de estudo da gramática: a sintaxe e a semântica

A sintaxe

Antes de se apresentarem os conceitos básicos da sintaxe, lembremo‑nos de que, combinadas


sintaticamente, as classes de palavras da língua portuguesa formam frases que comporão o texto.

A sintaxe é o estudo das combinações e relações entre as palavras de um enunciado e entre as frases
de um texto. Assim, estudar a sintaxe de uma língua implica estudar “as maneiras como se associam as
palavras para formar frases”.

Os enunciados da língua constituem unidades linguísticas que têm uma estrutura, o que significa
dizer que não podemos formar enunciados apenas juntando palavras de maneira aleatória. Em
sintaxe, entender a noção de estrutura significa entender os modos pelos quais se podem combinar as
palavras para construir estruturas autorizadas pela língua. Para ilustrar essas informações, considere o
enunciado:

Na última semana, André, meu vizinho, foi o vencedor do campeonato estadual de tênis, em
Campinas.

Veja que é possível alterar a ordem dos termos constituintes desse enunciado. Podemos dizer, por
exemplo:

Em Campinas, André, meu vizinho, foi o vencedor do campeonato estadual de tênis, na última
semana.

Em Campinas, na última semana, André, meu vizinho, foi o vencedor do campeonato estadual
de tênis.

André, meu vizinho, foi o vencedor do campeonato estadual de tênis em Campinas, na última
semana.

Meu vizinho, André, na última semana, foi o vencedor do campeonato estadual de tênis em Campinas.
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Certamente, esses exemplos não esgotam as possibilidades de alterações aceitáveis na ordem dos
constituintes do enunciado. No entanto, há modificações nessa ordem que são impossíveis na língua
portuguesa. Com esses mesmos elementos, não seria aceitável dizer, por exemplo:

Foi campeonato semana vizinho de estadual o meu Campinas André em última vencedor na tênis do.

Apesar de reconhecermos todas as palavras acima, verificamos de imediato que tal combinação
constitui um enunciado que não se realiza na língua portuguesa. Isso nos leva a entender, definitivamente,
que as combinações são sempre reguladas por uma sintaxe, que define as ordens possíveis dos elementos
lexicais no interior de estruturas sintáticas. Daí a importância desse estudo.
46
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Fazer a análise sintática dos enunciados da língua passa, necessariamente, pelo reconhecimento das
estruturas sintáticas e estudo das relações e funções dos termos que as constituem. Sem a compreensão
clara dessas noções básicas, de nada adianta decorar termos, conceitos, regras e tentar aplicá‑los aos
exercícios de análise.

Esse estudo será feito em disciplina específica que haverá no curso, na qual será tratada a morfossintaxe
enquanto objeto de estudo linguístico. Por ora, podemos nos lembrar de que a nossa língua tem um padrão
SVC (sujeito – verbo – complemento) e tudo que fugir a esse padrão não se encontra na ordem direta. É
preciso observar se a ordem usada não modificou o sentido e, se foi o caso, até que limite isso ocorreu.

Temos que ter atenção ainda quanto aos seguintes elementos:

Frase é a unidade de texto que, numa situação de comunicação, é capaz de transmitir um pensamento
completo. A frase pode ser curta ou longa e pode ou não conter verbo. Observe:

Socorro!

Atenção!

Choveu todo o final de semana.

Oração é o enunciado que se organiza em torno de um verbo. Na oração, há sempre a relação


sujeito/predicado.

O ferimento provocou uma inflamação no organismo.

A plateia não questionou o palestrante durante o evento.

Período é a frase sintaticamente estruturada em torno de um ou outro verbo.

“Sonhei que estava sonhando e que no meu sonho havia um outro sonho esculpido.” (Carlos
Drummond de Andrade)

Intencionalmente, pode‑se inverter a sintaxe em um texto. Por exemplo, o autor pode colocar em
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
primeiro lugar o objeto, se a intenção for focalizá‑lo.

Veja:

A moral, o homem não preservou naquele momento.

No exemplo, o termo a moral é complemento do verbo preservou. Entretanto, na organização da oração,


ele foi colocado em primeiro lugar, invertendo‑se a ordem direta. Esse processo é chamado de topicalização.

Pode ocorrer também, principalmente em textos mais informais, o uso da clivagem, como no exemplo:
47
Unidade II

Foi aquele garoto que comentou o fato.

A construção foi... que... é denominada clivagem.

Esses processos de topicalização e/ou clivagem são utilizados para se dar ênfase a um determinado
termo na oração. Aí se encontram a riqueza da língua e a capacidade humana de lidar com ela.

Esse assunto será abordado na unidade III, na qual trataremos da sintaxe de colocação dos termos.

A semântica

Como já afirmamos, a semântica é definida, de maneira genérica, como o estudo do sentido das
palavras e dos enunciados.

Só atingimos o sentido dos enunciados linguísticos, em qualquer contexto, por meio de um exercício
de interpretação, a partir do qual os possíveis significados das palavras e de suas combinações são
avaliados em situações específicas, na busca daquele que melhor se ajusta ao contexto de enunciação.
Para exemplificar essas considerações, leia o enunciado abaixo, trecho de uma propaganda brasileira.

Toma que o BB é seu.

A leitura desse enunciado, num primeiro momento, dá‑nos uma impressão, no mínimo, estranha,
pois a sigla BB rompe com o dito popular, no qual temos o enunciado “toma que o filho é seu”.

Observamos que a articulação sonora da sigla foi usada como um meio de produzir o significado de
“bebê” no lugar de filho. Entretanto, a sigla representa a abreviatura do nome de um banco, atualmente
o maior do Brasil. É o que podemos observar no texto completo da propaganda:
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Figura 8 – Campanha publicitária do Banco do Brasil

No contexto do anúncio publicitário, rapidamente recuperamos o sentido que nos parecia estranho
quando tomamos o texto isoladamente. A metáfora foi produzida pelo processo já descrito e há
ambiguidade no verbo tomar também, pois pode‑se entender tanto como assumir a responsabilidade
do bebê quanto como assumir o lugar de cliente desse banco.
48
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Como vemos, a compreensão é um processo ativo. Ela não depende apenas da palavra, mas do
contexto em que está inserida. É com ele, e não com a palavra em si, que “negociamos” os significados.
Diante de uma dada palavra, somamos as intenções do outro – o interlocutor – às nossas intenções e,
somente então produzimos significado.

Veja:

–Olha aí, cuidado!

O valor unicamente linguístico é insuficiente para completar a significação. É preciso, também,


recorrer à situação da fala: o “objeto” do olhar pode ser algo perigoso perto do ouvinte, dependendo do
lugar (uma pedra, um buraco, um abismo etc.).

De modo geral, as palavras e enunciados de uma língua operam em dois eixos de significação:
o conotativo – sentido figurado, ampliado e modificado – e o denotativo – sentido literal, primeira
significação atribuída à palavra nos dicionários.

Em um diálogo entre os personagens Hagar e Sortudo, numa de suas viagens pelo mar,
o primeiro solicita ao segundo que “dê corda”, com intuito de que ele lance a corda para
que possam atracar, mas ele entende que era para distrair o responsável pelo cais e inicia
uma conversa banal, perguntando ao outro sobre uma mulher que o acompanhava na noite
anterior.

Hagar faz o uso literal – denotativo – da palavra corda. Já Sortudo deu outra interpretação
à mensagem: julgou que “dar uma corda” seria distrair o responsável pelo cais com uma conversa
qualquer, sem maior importância. Utilizou, então, o sentido figurado – conotativo – da palavra corda. É
exatamente nesse jogo de significação que se atinge o humor da tira.

O usuário da língua – bem diferente do personagem – estabelece, desde cedo, uma relação natural
entre esses dois eixos de significação, devido, em grande parte, ao fato de participamos das mais diversas
situações de interação comunicativa, prática que, gradativamente, leva‑nos a reconhecer que o sentido
das palavras e expressões não é fixo e imutável. Ao contrário, ele se define e ganha significado preciso
nos contextos específicos em que se realiza.
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
Veja como isso também ocorre em alguns provérbios populares, gênero de linguagem
predominantemente conotativa:

Quem semeia vento colhe tempestade (as pessoas devem arcar com as consequências dos próprios
atos).

Mais vale um pássaro na mão do que dois voando (é melhor contentar‑se com o que já tem, sob
risco de ficar sem nada).

Pimenta nos olhos dos outros é refresco (o sofrimento dos outros, em geral, não nos afeta).
49
Unidade II

Ressaltamos que, diferentemente dos estudos de fonologia, morfologia ou sintaxe, os estudos


semânticos constituem uma área bastante complexa, pois tratam da relação entre as estruturas
linguísticas e a sua significação. Tal fato, entre outros, leva‑nos a considerar a importância desse estudo
nas aulas de língua materna, item que, infelizmente, é muitas vezes considerado secundário. A linguagem
– sistema de sinais convencionais que nos permite realizar atos de comunicação – lida com a atribuição
de sentidos em todas as suas manifestações.

Propiciar o estudo semântico passa a ser, certamente, um eixo fundamental na construção de uma
prática pedagógica que pretende favorecer a formação de leitores e escritores competentes.

Esse estudo será mais detalhado em uma disciplina que faz parte do curso e que consta da grade
curricular. Você terá oportunidade, então, de aprofundar, futuramente, seus conhecimentos nessa área
da semântica.

Saiba mais

Consulte a obra de Perini, M. A. Princípios de linguística descritiva:


introdução ao pensamento gramatical. São Paulo: Parábola Editorial, 2006.

Resumo

Vamos rever os pontos principais desta unidade.

A descrição da língua pode ser realizada desde seu nível mais elementar
até o mais alto, que compreendem o fonológico, o morfológico, o sintático
e o semântico. Há também a descrição de estilo no uso da língua, o qual é
feito pela estilística.

No nível fonológico, podem‑se descrever diferenças de pronúncia,


enquanto no morfológico pode‑se ver a estrutura e formação das palavras
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

(derivação e composição), as quais são organizadas sintaticamente e


carregam semanticamente um significado.

Assim, no nível sintático, podemos observar a relação entre sujeito,


predicado, complementos verbais, nominais e outras funções dos termos da
oração. Esse assunto será visto com mais detalhes (retomando‑se também
a morfologia) em disciplina do curso que faz parte da grade curricular.

Quanto à semântica e à estilística, também haverá uma disciplina


específica que tratará do assunto.
50
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Nessa fase, o importante é ter entendido que há diferentes níveis de


análise para o mesmo objeto – a língua portuguesa. Então:

Fonologia – estuda o aspecto fônico e tem como unidade básica de


estudo o fonema.

Morfologia – estuda a estrutura e a classe das palavras.

Sintaxe – estuda a relação entre as palavras.

Semântica – estuda o sentido das palavras na oração, período, texto.

Estilística – estuda outros aspectos que se relacionam à produção de


significado das palavras, como, por exemplo, a emotividade.

Questões

Questão 1 (FUVEST 1998). A mesma relação semântica assinalada pela conjunção e na frase
“Detenho‑me diante de uma lareira e olho o fogo” encontra‑se também em:

A) E, a cada dia, você tem mais lugares onde pode contar com a comodidade de pagar suas despesas
com cartões de crédito.
B) Realizada pela primeira vez em outubro do ano passado, a Semana de Arte e Cultura da USP tenta
conquistar seu espaço na agenda cultural de São Paulo.
C) Carro quebra no meio da estrada e casal pede ajuda a um motorista que passa pelo local.
D) Quisera falar com o ladrão, e nada fizera.
E) E seu irmão Dito é o dono daqui?

Resposta correta: alternativa C.

Análise das alternativas:


Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
A) Alternativa incorreta.

Justificativa:

O “e” indica adição com o período anterior.

B) Alternativa incorreta.

Justificativa:

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Unidade II

O “e” liga dois termos coordenados do adjunto adnominal de “semana”.

C) Alternativa correta.

Justificativa:

A conjunção indica um processo de causa e consequência. O fato de o narrador deter‑se diante de


uma lareira provoca que ele olhe o fogo. O mesmo ocorre nesta alternativa.

D) Alternativa incorreta.

Justificativa:

O “e” tem sentido de uma conjunção.

E) Alternativa incorreta:

Justificativa:

O “e”, neste caso, pode ser considerado como uma partícula expletiva, pois não é necessário na
construção da oração.

Questão 2: Leia o poema abaixo, de Paulo Leminski:

O assassino era o escriba

Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito


Inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida,
regular com um paradigma da 1ª conjugação.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito
assindético de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conectivos e agentes da passiva, o tempo todo.
Um dia, matei‑o com um objeto direto na cabeça.

52
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Considere as afirmativas a seguir:

I – A narrativa é construída a partir de termos utilizados na análise sintática, o que provoca efeito
de humor.

II – Em “sujeito inexistente”, a expressão, normalmente utilizada na análise sintática, adquire outro


sentido, qualificando o professor.

III – A compreensão adequada da brincadeira do poeta não exige do leitor o conhecimento em análise
sintática.

Está correto o que se afirma em:

a) Todas as afirmativas.

b) I e II.

c) I e III.

d) II e III.

e) I.

Resolução desta questão na Plataforma.

Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

53
Unidade III

Unidade III
7 NORMA CULTA

A norma culta é uma dentre várias outras normas de uso da língua. No entanto, ela foi a escolhida
como padrão de uso da língua e por isso devemos aprendê‑la para que sejamos inseridos na sociedade.
Iremos, então, nesta unidade, tratar de questões relacionadas à gramática do padrão ou ao que se
denomina norma culta.

Como vimos na unidade I, precisamos pensar em gramática no sentido plural, pois vimos que há a
variedade no que diz respeito ao uso efetivo da língua, todavia, há uma seleção de norma como padrão,
aquela considerada de prestígio social, como já dito anteriormente. Esse padrão segue determinadas regras,
daí chamarmos essa gramática de normativa. São essas regras que veremos a seguir.

7.1 Estudo gramatical: uso da norma culta na expressão escrita do texto

A luta que enfrentamos com relação à produção de textos escritos é muito especial. Em geral, não
apresentamos dificuldades em nos expressarmos por meio da fala coloquial. Os problemas começam a
surgir quando temos necessidade de nos expressar formalmente e se agravam no momento de produzir
um texto escrito.

Quando a interação verbal realiza‑se face a face, o falante tem domínio sobre a situação comunicativa,
o que facilita a produção oral. No processo de interação, o interlocutor pode intervir, solicitando
esclarecimentos, por exemplo, ou pode até tomar o turno e mudar o curso da conversação.

Além dos recursos linguísticos, nesse tipo de comunicação o falante tem a possibilidade de utilizar
elementos paralinguísticos, como gestos ou expressões faciais. Já na comunicação escrita, tais recursos
terão de ser supridos por outros, próprios desse tipo de uso da língua, como, por exemplo, a pontuação.

Entretanto, não basta apenas traduzir o que foi expresso em língua oral por sinais gráficos, é preciso
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

dominar a modalidade escrita para que o texto seja eficiente e cumpra a finalidade comunicativa.

Assim, não basta saber que escrever é diferente de falar. Além de ser necessário preocupar‑se com a
constituição de um discurso, entendido como um ato de linguagem que representa uma interação entre
o produtor do texto e seu interlocutor, é preciso ter em mente a figura do interlocutor e a finalidade
para a qual o texto foi produzido.

Para formalizar esse discurso em língua escrita, é ainda preciso considerar que a escrita tem normas
próprias, tais como regras de ortografia – que, evidentemente, não é marcada na fala –, de pontuação,
de concordância, de uso de tempos verbais etc.
54
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Dentre os inúmeros casos de desvios da norma culta que mais comumente aparecem nos
textos escritos, selecionamos alguns que consideramos influenciar negativamente aquelas que
são tidas como qualidades de um “bom” texto: a correção, a clareza e a concisão.

Emprego dos pronomes de tratamento, demonstrativos e possessivos

Um dos problemas apresentados no texto escrito é o uso adequado de pronomes. Trataremos,


portanto, desse assunto neste item.

Pronomes de tratamento

Quando se trata de concordância, os pronomes de tratamento têm suas peculiaridades. Por exemplo,
pronomes que correspondem à segunda pessoa, como “vós”, fazem a concordância na terceira pessoa:
Vossa Senhoria receberá (e não recebereis) os documentos ainda hoje.

O uso de sua e vossa.

Usa‑se vossa quando estamos falando diretamente com a pessoa e sua quando falamos da
pessoa.

Exemplo:

Lembrem‑se dos pedidos que Sua Excelência fez antes de partir.

Vossa Excelência, conte‑nos as novidades.

Quadro de pronomes de tratamento:

Quadro 5

Pronome Abreviatura Usado para


Você V. Tratamento familiar
No tratamento respeitoso às
Senhor (a) Sr. ou Sra. pessoas que se mantém um certo
distanciamento. Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
Pessoas de cerimônia,
Vossa Senhoria V.S.ª principalmente em
correspondências comerciais.
Altas autoridades: presidentes da
Vossa Excelência V.Ex.ª República, senadores, deputados.
Vossa Eminência V.Em.ª Cardeais
Vossa Alteza V.A. Príncipes e duques
Vossa Santidade V.S O Papa
Vossa Majestade V.M. Reis e rainhas

55
Unidade III

Pronomes demonstrativos

Os pronomes demonstrativos são usados sempre em textos produzidos por usuários da língua
pertencentes a todos os níveis socioeconômicos e também são bastante usados em nossas conversas
cotidianas. Entretanto, em sua utilização, tais usuários não o fazem em conformidade com as
recomendações da gramática normativa.

Para entender os critérios de uso do pronome demonstrativo, atente para o que se segue:

Quadro 6

Pronomes Espaço (lugar) Tempo No texto


Este, esta, isto Aqui Presente Apresentam um elemento
Esse, essa, isso Aí Passado recente ou futuro Retomam um elemento
Aquele, aquela, Ali, lá, acolá Passado remoto -o-
aquilo

O pronome demonstrativo tem duas funções ou dois empregos distintos:

a. Na função pragmática (ou de uso de acordo com o contexto situacional), seu emprego envolve a
relação dêitica, assim como ocorre com os advérbios pronominais – aqui para 1ª pessoa, aí para 2ª
pessoa e ali para a 3ª pessoa do discurso. Então:

• emprego de “este” equivale, situacionalmente, ao de “aqui”;

• o emprego de “esse”, ao de “aí”;

• e o emprego de “aquele”, ao de “ali”.

Observe o exemplo:

A empregada pergunta à patroa:


–Onde ponho as roupas passadas?
E a mulher responde:
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

–Ponha lá na cadeira.

Em relação a essa primeira função, os demonstrativos também indicam proximidade ou distanciamento


temporal. Assim, usamos “este, esta, isto” para representar o tempo presente; “esse, essa, isso”, para o
passado recente ou para o futuro; “aquele, aquela, aquilo”, para o passado remoto. O grande problema
é distinguir o passado recente do remoto, pois duas pessoas podem ter interpretações diferentes para
a mesma frase.

Obs.: quando o verbo estiver conjugado no pretérito imperfeito do indicativo (dançava,


comia, dormia), usa‑se aquele, aquela, aquilo; com o pretérito perfeito do indicativo (dancei,
56
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

comi, dormi) é uma questão de estilo: aquele que julgar que está se referindo ao passado recente
usará esse, essa, isso e aquele que julgar que está se referindo ao passado distante usará aquele,
aquela, aquilo.

Exemplos:

Essa noite dormi mal.

Essa noite vou sair.

Naquele tempo, os filhos das classes abastadas iam estudar em Portugal.

b. A segunda função do demonstrativo é chamada textual ou sintática. O pronome demonstrativo,


na função sintática, refere‑se ao que já foi dito (anafórico) ou ao que ainda vai ser dito num texto
(catafórico).

• “Este”, quando empregado sozinho e sem oposição, se refere ao que ainda vai ser dito no texto:

O lema da Revolução Francesa é este: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

• “Esse” é sempre empregado sozinho, sem oposição, e refere‑se sempre ao que já foi dito no
texto:

Liberdade, Igualdade e Fraternidade – esse é o lema da Revolução Francesa.

• “Aquele” é empregado unicamente em oposição a este e sempre em referência ao que já foi dito
no texto:

Pedro estuda e Maria se diverte. Aquele passará no vestibular, mas esta ficará reprovada.

Veja o esquema abaixo:

1º termo 2º termo este aquele


Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
Figura 9

Observação

Repare que nunca se deve dizer esse em oposição a aquele.

Na língua em uso há exceções, como formas já cristalizadas na língua – isto é, por isso, posto isso
– que nunca são usadas como isso é, por isto, posto isto.
57
Unidade III

Lembrete

São considerados demonstrativos o, a, os, as e tal. As formas o, a, os e as são demonstrativos quando


precedem as formas “que” e “de”. A forma tal é considerada como demonstrativo quando estiver
substituindo as formas “esse(a)”, “isso”, “aquele(a)”, “aquilo”.

Pronomes possessivos

São aqueles que se referem às pessoas gramaticais e dão a ideia de posse.

Quadro 7

Pessoa do discurso Pronome possessivo


1ª pessoa singular Meu, minha, meus, minhas
2ª pessoa singular Teu, tua, teus, tuas
3ª pessoa singular Seu, sua, seus, suas
1ª pessoa plural Nosso, nossa, nossos, nossas
2ª pessoa plural Vosso, vossa, vossos, vossas
3ª pessoa plural Seu, sua, suas, suas

Há casos em que o uso dos pronomes possessivos causa ambiguidade, como, por exemplo, em:

Renato encontrou Joana e seu amigo na festa.

O pronome “seu” pode se referir a Renato ou a Joana.

Nesse caso, é melhor o uso de “dele” ou “dela” para evitar ambiguidade.

Além de posse, ao serem utilizados, os pronomes possessivos podem:

Indicar proximidade, intimidade:

Exemplo:
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Ele deve ter seus motivos para essa decisão.

Indicar afeto ou cortesia.

Exemplos:

Minha senhora, não foi isso que eu disse.

Meu filho, preste atenção!


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Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Colocação dos pronomes átonos

Uma das dúvidas constantes no texto escrito é a colocação dos pronomes átonos me, te, se, o, a, lhe,
nos, vos, os, as e lhes.

Quando colocamos esse pronome depois do verbo, isso é denominado ênclise, se o colocamos antes
do verbo, próclise e caso fique no meio, mesóclise.

Atente para os exemplos:

Vou‑me embora daqui. (ênclise)

Nunca se viu tanto entusiasmo. (próclise)

Dar‑te‑ei uma resposta amanhã. (mesóclise)

Pela norma culta, não se inicia oração com pronome oblíquo, por isso é necessário que haja algum
outro termo que o aproxime.

Vejamos, de acordo com a gramática normativa, as regras de colocação pronominal.

Próclise

Usa‑se a próclise:

1. Em orações subordinadas:

O professor pediu que o aluno se comportasse. (substantiva objetiva direta)

Seria difícil identificar o estado em que se encontrava. (adjetiva restritiva)

Desci pelas escadas do sétimo andar, logo que o zelador do prédio me comunicou, pelo telefone,
o acontecimento. (adverbial temporal)
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
2. Com adjunto adverbial, sem pausa:

Naquela época se encontrava em sua casa uma visita ilustre.

Ele sempre nos diz as mesmas coisas.

Obs.: havendo pausa, não haverá próclise.

3. Oração iniciada por palavras interrogativa ou exclamativa:

59
Unidade III

Quem te fez isso?

Como se encantou!

4. Junto de palavra de sentido negativo (não, nada, nem, nunca...):

Nunca o vi tão feliz!

5. Junto de pronomes (relativos: que, quais, qual, onde etc.; indefinidos: alguém, muitos, todos,
poucos etc.; e demonstrativos: este, esta, aquele, aquilo...):

Alguns me deram apoio.

Este é o sujeito de quem lhe falei.

Essa notícia me deixou surpresa.

6. Com o verbo no infinitivo precedido de preposição:

Até se darem conta do ocorrido, passou muito tempo. (infinitivo)

7. Com o verbo no gerúndio, precedido da preposição em:

Em se falando do assunto, diga o que sabe.

Obs.: Se gerúndio não for precedido de em, deve ocorrer ênclise.

8. Em orações que exprimem desejo:

Os anjos te acompanhem!

9. Com conjunções (que, quando, embora, se, como...):

Espero que nos entendamos.


Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Mesóclise

A mesóclise é usada quando não houver nenhum caso que solicite a próclise e caso o verbo esteja
no futuro do presente ou no futuro do pretérito. Embora não vejamos tanto esse uso em textos
jornalísticos, por exemplo, em textos científicos esse uso é comum devido ao grau de formalidade
exigido.

Coloca‑se, portanto, o pronome no meio do verbo: (1) quando o verbo estiver no futuro; (2) quando
iniciar a frase; e (3) quando antes dele não houver palavra atrativa:
60
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Far‑me‑ia um favor?

Falar‑se‑á do assunto amanhã.

Encontrar‑nos‑íamos no clube ontem à noite.

Ênclise

São, portanto, casos de ênclise:

1. Início da oração ou período:

Contei‑lhe toda a verdade quando conversamos.

Obs.: na linguagem informal falada ou escrita, contudo, é comum iniciar a oração com pronome
oblíquo átono. A próclise ou a ênclise em início de oração dependerá do tipo de linguagem que a
situação e o contexto recomendam: formal ou informal, falada ou escrita.

Me diga aí qual foi o resultado do jogo.

2. Com verbo no imperativo:

Faça‑me um favor.

3. Com verbo no gerúndio sem a preposição em:

Olhando‑me fixamente, contou toda a verdade.

4. Com verbo no infinitivo não flexionado:

Eu prometi entregar‑lhe os documentos logo.

Uso dos tempos verbais do pretérito: imperfeito, perfeito e mais que perfeito
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
O pretérito imperfeito é empregado:

a. Para expressar um fato passado, não concluído.

Exemplo:

A testemunha reconhecia o réu, mas não pode denunciá‑lo.

b. Para indicar um fato habitual.

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Unidade III

Exemplos:

Ele estudava de duas a quatro horas por dia.

Nós escrevíamos apenas o necessário.

c. Com valor de outros tempos:

Presente do indicativo (atenuação de pedidos)

Exemplos:

Eu queria um livro de receitas.

Eu desejava saber se esse carro está à venda.

O pretérito perfeito é empregado:

a. Para indicar um fato passado concluído.

Exemplos:

Ele jogou uma ótima partida.

Acordei cedo e fui ao mercado.

Renata comeu todo o bolo de chocolate.

O pretérito mais que perfeito é empregado:

a. Para expressar um fato passado anterior a outro acontecimento passado.

Exemplo:
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Ele finalmente comprou o carro, o mesmo que desejara durante tempos.

b. Em orações optativas (que expressem desejo).

Exemplo:

Pudera eu conseguir atingir minhas metas.

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Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Concordância nominal

Na produção oral, é comum desvios de concordância que, pela gramática do padrão culto, são
considerados erros.

Em textos formais, esse tipo de erro gera má impressão no leitor mais exigente.

Selecionamos a seguir alguns casos para estudar neste tópico:

a. As expressões é bom, é necessário, é proibido

As expressões formadas de verbo ser mais um adjetivo não variam. Entretanto, se o sujeito vier
antecedido de artigo (ou palavra equivalente), a concordância será obrigatória.

Veja:

A comida caseira é boa. Comida caseira é bom.

Pela norma culta, quando a intenção é generalizar, prevalece o masculino no uso de expressões
como é bom, é proibido, é permitido etc.

Não é permitido entrada. Não é permitida a entrada.

b. Anexo, incluso, obrigado(a), próprio(a), mesmo(a)

São palavras adjetivas; devem, portanto, concordar com o nome a que se referem.

Veja, em:

“As pessoas pensam em si mesmas”, o pronome adjetivo mesmas concorda com o substantivo
pessoas.

Observe outros exemplos:


Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
Seguem anexos os acórdãos.

A procuração está apensa aos autos.

Os documentos estão inclusos no processo.

Obrigado, disse o rapaz.

Obrigada, respondeu a menina.

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Unidade III

Elas próprias resolveram os exercícios.

Eles próprios resolveram a questão.

Observação:

A expressão “em anexo” é invariável.

Exemplo:

Em anexo segue a procuração

Em anexo segue o despacho.

c. Meio

A palavra meio pode ter a função de numeral ou de advérbio.

Assim, temos as seguintes condições:

1. “Meio” como numeral varia e concorda com o termo a que se refere.

Exemplo:

Tomou meio prato de sopa. (numeral)

Comi meia torta sozinha. (numeral)

2. “Meio” como advérbio é invariável.

Exemplo:

Estou meio confusa com tudo isso.

Meu pai anda meio estressado.


Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

d. Só

1. “Só” como sinônimo de “sozinho/sozinha” é variável.

Exemplo:

Ela sentia‑se só naquele lugar.

As crianças ficaram sós na casa.


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Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

2. Quando só significa apenas/somente, torna‑se invariável.

Exemplo:

Depois de tudo que aconteceu só restaram lágrimas.

O menino queria comer só a sobremesa.

Observação

A locução adverbial “a sós” é invariável.

Exemplo:

Ficamos a sós naquela sala.

Concordância verbal

Observe este trecho da letra de “Música urbana”, do Capital Inicial. Nela, há um verbo que nem
sempre é flexionado corretamente:

Tudo errado, mas tudo bem.


Tudo quase sempre como
eu sempre quis.
Sai da minha frente, que
agora eu quero ver.
Não me importam
os seus atos
eu não sou mais
um desesperado.
Se eu ando por
ruas quase escuras
as ruas passam
(LEMOS, 1986)
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

O verbo “importar” está flexionado de acordo com o sujeito “os seus atos”, conforme prescreve
a norma culta. Entretanto, na língua falada, principalmente no cotidiano, esse verbo nem sempre é
flexionado, permanecendo no singular.

Sujeito simples e concordância verbal

De acordo com a norma culta, o verbo deve concordar com a pessoa expressa pelo sujeito. Essa
é a regra geral, principalmente quando se trata de sujeito simples, mesmo que este seja posposto ao
verbo.
65
Unidade III

Exemplos:

O povo protestou.

Os revoltados protestaram.

Sumiu um documento.

Sumiram vários documentos.

Sujeito composto antes do verbo

a. O verbo flexiona e passa para o plural

Exemplo:

Pedro e João são meus amigos.

b. O verbo poderá ficar no singular:

–Se os núcleos do sujeito forem sinônimos.

Exemplos:

A honestidade e a decência são virtudes de um ser humano.

–Quando os núcleos formam uma gradação.

Exemplo:

A dor, a tristeza, o desespero levou‑a àquela atitude.

–Quando os núcleos aparecem resumidos por tudo, nada, ninguém.


Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Exemplos:

Professores, alunos, coordenador, ninguém sabia o que acontecera.

A dificuldade de trabalho, a falta de dinheiro, as dificuldades pessoais, nada o desanimava naquele


momento.

Sujeito composto posposto ao verbo

a. O verbo flexiona para o plural.


66
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Exemplos:

Chegaram à festa os pais e os irmãos da aniversariante.

Sumiram do cofre o documento e a joia de estimação.

b. O verbo concorda com o núcleo mais próximo.

Exemplo:

Chegou à reunião o chefe e os subordinados.

Sujeito composto de pessoas diferentes

a. A 1ª pessoa do plural prevalece sobre o singular e o verbo flexiona para o plural.

Exemplos:

Bruna e eu sairemos amanhã.

Meus amigos e eu nos divertimos muito.

b. Se o sujeito for formado de segunda e terceira pessoas do singular, o verbo pode flexionar para a
2ª ou a 3ª pessoa do plural.

Exemplos:

Tu e ele recebereis o prêmio.

Tu e tua companheira conhecerão muitos lugares diferentes.

Núcleos do sujeito ligados por “ou”

a. Quando há ideia de exclusão ou retificação, o verbo fica no singular ou concorda com o núcleo do
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
sujeito mais próximo.

Exemplos:

Pedro ou Paulo será o nosso novo professor.

O corrupto ou os corruptos serão indiciados pela justiça federal.

b. Não havendo ideia de exclusão, o verbo flexiona para o plural.

67
Unidade III

Exemplos:

Frutas ou legumes são fontes de vitamina.

Núcleos do sujeito ligados por com

O verbo flexiona para o plural, mas admite‑se o singular quando se quer destacar o primeiro núcleo
do sujeito.

Exemplos:

O engenheiro com o auxiliar concluíram a obra.

O engenheiro com o auxiliar concluiu a obra.

Sujeito coletivo

Quando o sujeito é um coletivo, o verbo concorda com ele.

Exemplo:

A multidão implorava a renúncia do presidente.

Os bandos seguiam pela trilha.

Observação: se o coletivo vier especificado, o verbo pode ficar no singular ou ir para o plural.

Exemplo:

A equipe de trabalhadores da prefeitura escavou todo o terreno.

A equipe de trabalhadores da prefeitura escavaram todo o terreno.

Sujeito é substantivo que só tem plural.


Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Quando o sujeito é um substantivo usado somente no plural, há duas possibilidades:

a. Se o substantivo não vier precedido de artigo fica no singular.

Exemplo:

Minas Gerais é uma das regiões ricas em beleza natural.

b. Se o substantivo for precedido de artigo, o verbo vai para o plural.


68
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Exemplo:

As Minas Gerais são fontes de beleza natural do país.

Sujeito é um pronome de tratamento

Quando o sujeito é um pronome de tratamento, o verbo vai para a 3ª pessoa.

Exemplos:

Vossa Senhoria receberá a proposta por escrito.

Vossas Excelências receberão todas as informações.

Sujeito são os pronomes relativos que e quem

a. Se o sujeito for o pronome relativo “que”, o verbo concordará em número e pessoa com o
antecedente do pronome.

Exemplos:

Fui eu que dei a notícia a ele.

Fomos nós que contamos a verdade ao diretor.

b. Se o sujeito for o pronome quem, o verbo fica na 3ª pessoa do singular.

Exemplos:

Sou em quem fará o exame.

Fomos nós quem recebeu a notícia.

Observação: no uso coloquial da língua, é comum o verbo concordar com o antecedente do pronome
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
quem.

Exemplo:

Não fui eu quem fiz a lei.

O sujeito é uma oração

Quando o sujeito for representado por uma oração, o verbo fica na 3ª pessoa do singular.

69
Unidade III

Exemplos:

Ainda falta comprar vários livros.

Não adianta vocês ficarem parados na fila.

Sujeitos com verbos no infinitivo como núcleo

O verbo flexiona para o plural se os infinitivos forem determinados por artigos. Caso os infinitivos
não sejam determinados, o verbo poderá flexionar no singular.

Exemplos:

Comer bem e fazer exercício é uma ótima escolha.

O viver e o sonhar são necessários ao ser humano.

Verbo com a partícula apassivadora se

O verbo normalmente concorda com o sujeito.

Exemplos:

Aluga‑se um quarto.

Vendem‑se objetos usados.

Verbo com índice de indeterminação do sujeito

O verbo permanece na 3ª pessoa do singular e a partícula se está ligada a um verbo transitivo


indireto ou intransitivo.

Exemplos:
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Necessita‑se de esclarecimentos.

Vive‑se bem em São Paulo.

Sujeito formado por expressões

• Um ou outro

O verbo concorda no singular com o sujeito.

70
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Exemplos:

Um ou outro presente manifestou sua opinião.

Um ou outro conseguiu responder todo o questionário.

• Um e outro, nem um nem outro, nem... nem...

O verbo concorda preferencialmente no plural.

Exemplos:

Um e outro manifestante gritavam palavras de ordem.

Nem um nem outro aceitaram o convite.

• Um dos que, uma das que

O verbo vai, de preferência, para o plural.

Exemplo:

Aquele menino é um dos que tumultuam a aula.

• Mais de, menos de

O verbo concorda com o numeral a que se refere.

Exemplos:

Mais de uma pessoa contou‑me essa história.

Mais de mil pessoas participaram da manifestação.


Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
• A maior parte de, grande número de

Nessas expressões seguidas de substantivos ou pronome no plural, o verbo flexiona para o singular
ou para o plural.

Exemplos:

Grande número de pessoas manifestou‑se contra o candidato.

A maioria dos eleitores foram às urnas.


71
Unidade III

• Quais de vós, quantos de nós, alguns de nós

O verbo concordará com os pronomes nós ou vós ou pode concordar na 3ª pessoa do plural.

Exemplos:

Alguns de nós fizeram tudo certo.

Muitos de nós recebemos elogios do chefe.

Observação:

Se o pronome indefinido ou interrogativo estiver no singular, o verbo ficará na 3ª pessoa do


singular.

Exemplo:

Nenhum de nós é vítima da situação.

• Haja vista

Podem ocorrer as seguintes concordâncias:

– A expressão fica invariável.

Exemplos:

Haja vista aos documentos do inquérito. (atente‑se)

Haja vista os últimos prêmios recebidos pela equipe. (por exemplo)

―– A expressão vai para o plural.

Exemplo:
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Hajam vista as mudanças ocorridas na empresa. (vejam‑se)

Concordância dos verbos dar, soar, bater

Esses verbos concordam regularmente com o sujeito, a não ser que sejam usadas outras palavras
como sujeito.

Exemplos:

72
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Batiam duas horas no relógio da sala.

Deu três horas e não havia notícia dele.

O relógio bateu dez horas.

Concordância dos verbos impessoais

Ficam na 3ª pessoa do singular, pois não possuem sujeito.

Exemplo:

Havia dez anos que tudo acontecera.

Ventava bastante naquela tarde.

Faz cinco anos que não a vejo.

Observação:

Quando acompanhado de verbo auxiliar, esse fica invariável na 3ª pessoa do singular.

Exemplo:

Devia fazer quatro meses que não nos falávamos.

Verbos que exprimem fenômenos da natureza usados em sentido figurado deixam de ser impessoais.

Exemplo:

Choviam pétalas de rosa do teto da igreja.

No uso coloquial da língua, é comum usar o verbo ter como impessoal no lugar de haver ou existir.
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
Exemplo:

Tem três dias que não como direito.

Concordância do verbo ser

O verbo ser ora concorda com o sujeito, ora concorda com o predicativo.

Quando o sujeito for o pronome que ou quem, o verbo ser concordará obrigatoriamente com o
predicativo.
73
Unidade III

Exemplos:

Que são tristezas? Quem foram os culpados?

O verbo ser concordará com o numeral na indicação de tempo, dias e distância.

Exemplos:

É uma hora daqui até o local.

São oito horas da manhã.

Quando o sujeito for os pronomes tudo, o, isso, aquilo, isto o verbo ser concorda, preferencialmente,
com o predicativo, mas poderá concordar com o sujeito.

Exemplo:

Tudo são rumores.

Tudo é tristeza.

Quando aparece nas expressões é muito, é pouco, é bastante, o verbo ser fica no singular, quando
indicar quantidade, distância, medida.

Exemplo:

Cem reais é pouco para pagarmos a dívida.

Dois quilos de farinha é mais que suficiente.

Concordância do verbo parecer

O verbo parecer, antes de infinitivos, admite duas concordâncias:

• O verbo parecer se flexiona e o infinitivo não varia.


Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Exemplo:

As estruturas da obra pareciam ruir.

• Não varia o verbo parecer e o infinitivo é flexionado.

Exemplo:

Os presentes à reunião parecia concordarem com a decisão do síndico.


74
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

• O verbo parecer concordará no singular, usando‑se oração desenvolvida.

Exemplo:

As frutas parece que estão estragadas.

Saiba mais

Veja o site: <http://www.klickeducacao.com.br/2006/materia/21/display/


0,5912,POR-21-98-861-,00.html>. Acesso em: 24 mai. 2011.

Constituintes da frase

Você já deve ter estudado a estrutura da frase em suas aulas de gramática. A análise sintática é a parte
da gramática que se ocupa da estrutura da frase, procurando demonstrar como as palavras se organizam a
fim de formarem enunciados portadores de sentido. Nossa intenção aqui não é a de retomar o estudo da
análise sintática com a terminologia específica (sujeito, predicado, objeto direto etc.), embora entendamos
que esse estudo seja fundamental para o conhecimento da estrutura da frase.

Neste item, procuraremos mostrar como a estruturação de uma frase pode contribuir (ou não) para
a clareza e precisão do texto.

Colocação ou ordem dos termos na oração

Organizar as ideias de modo a ter sentido, com coesão e coerência, é uma dificuldade que tem se tornado
muito presente na realidade dos alunos, pois é preciso ter um conhecimento básico da estrutura da língua
para se obter sucesso, o que normalmente não ocorre com eles ao elaborarem um texto escrito.

Hoje em dia, é uma queixa comum dos professores que os alunos não constroem textos que expressem
suas ideias de forma clara, isso devido à deficiência no uso de elementos linguísticos de forma adequada,
o que torna o texto muitas vezes confuso, incoerente e sem a transmissão de um pensamento lógico.
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
Infelizmente, essa é a realidade que nos cerca atualmente. Então, vamos recordar os conceitos de
frase, oração e período:

Frase – todo enunciado de sentido completo, capaz de estabelecer comunicação. Podem ser nominais
ou verbais.

Oração – enunciado que se estrutura em torno de um verbo ou locução verbal.

Período – constitui‑se de uma ou mais orações. Podem ser simples ou compostos.

75
Unidade III

Observe que, embora possam existir frases sem verbo (frase nominal), a frase sintaticamente estruturada
é aquela que apresenta verbo e em torno do qual se agrupam outros termos: o sujeito que com ele estará
concordando, os complementos do verbo, termos que acrescentam informações acessórias etc.

Há frases simples (aquelas formadas por uma única oração) e frases complexas (aquelas formadas
por várias orações). Nas frases simples, costumamos dispor os termos na seguinte ordem: sujeito, verbo,
complemento do verbo e adjuntos adverbiais. É a chamada ordem direta.

Embora a ordem direta seja natural, nada impede que se altere a disposição dos elementos na frase.
Quando isso ocorre, temos a ordem inversa.

Observe como a disposição dos elementos da frase pode ser alterada:

O ser humano é o único animal inteligente na face da Terra.

O único animal inteligente na face da Terra é o ser humano.

Mas, se a ordem natural dos elementos da frase é a ordem direta, por que razão empregaríamos a
ordem inversa?

A resposta é bem simples: por uma questão de estilo.

Essa inversão na disposição dos elementos constituintes da frase marca a ênfase que se quer dar a
um determinado elemento, que é deslocado para o início da oração. Esse procedimento denomina‑se
topicalização e isso ocorre devido às intenções na situação comunicativa de se colocar em destaque um
constituinte da oração.

O fato é comum na língua oral, como quando, por exemplo, um falante diz: “Seu filho mais velho eu
vi hoje na praia. Estava muito bem acompanhado. De bobo ele não tem nada”.

Observe como funciona:

O governo Lula e o presidente em pessoa tiveram na quinta–feira o seu melhor momento desde a
reeleição. (O Estado de São Paulo, 17 de mar. 2007. A3)
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Tiveram, na quinta‑feira, o seu melhor momento desde a reeleição o governo Lula e o presidente
em pessoa.

O seu melhor momento desde a reeleição o governo Lula e o presidente em pessoa tiveram na
quinta‑feira.

Essas três frases trazem a mesma informação. No entanto, dependendo da ordem em que se dispõem
os termos, damos maior relevância a um em relação a outro.

76
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

No primeiro exemplo, a utilização da ordem direta confere maior relevância ao sujeito “o


governo Lula e o presidente em pessoa”. No segundo, a ênfase recai na ação expressa pelo
verbo. No terceiro, a antecipação do objeto direto para o início da frase confere destaque a esse
elemento.

A opção por uma construção na voz passiva ou na ativa está também relacionada ao
destaque que se quer dar a algum elemento da frase: o agente, o paciente ou a própria ação
verbal. Veja:

Provinha já é adotada por 4 estados. (O Estado de São Paulo, 17 de mar. 2007. A24)

4 estados já adotam a Provinha.

No primeiro exemplo, a construção na voz passiva dá maior relevância ao objeto da adoção (a


Provinha que foi adotada), que na frase funciona como sujeito.

Já no segundo exemplo, a construção na voz ativa dá maior relevância aos agentes da adoção (os
quatro estados, aqueles que adotaram), que na frase funcionam como sujeito.

Quando se opta pela voz passiva sintética (verbo transitivo mais o pronome apassivador se), a ênfase
recai sobre a própria ação verbal. Observe:

Consertam‑se sapatos.

Aluga‑se casa na praia.

Vendem‑se apartamentos.

Grafia das palavras

A grafia é uma representação dos sons, por isso ela é uma convenção social.

Enquanto a pronúncia das palavras pode sofrer variação (de acordo com fatores externos que
influenciam essas alterações, conforme visto na unidade anterior), a grafia padroniza a forma de
escrevê‑las. Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Para que essa padronização ocorra, há uma convenção estabelecida por instituições que normatizam
o uso da língua. É o caso, por exemplo, da Academia Brasileira de Letras.

Não podemos nos esquecer, entretanto, que a língua portuguesa não é nossa, dos brasileiros, há
outros países que a utilizam como língua oficial. Esses países são Portugal, Angola, Moçambique, Cabo
Verde, Guiné‑Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

Esses países participaram do que se denomina Novo Acordo Ortográfico, assinado em 1990 por seus
representantes e que deve estar em vigor até janeiro de 2013.
77
Unidade III

Vale ressaltar que o último país a assinar o Novo Acordo foi Portugal e o objetivo desse acordo é
unificar a ortografia da língua portuguesa, a qual atualmente é o único idioma do ocidente com duas
grafias oficiais, a do Brasil e a de Portugal.

Com o Acordo, estima‑se que 98% das diferenças sejam resolvidas. Quanto às alterações
na escrita, para o Brasil, elas representam em torno de 0,5%, ao passo que, para Portugal, elas
correspondem a 1,6%.

Chamamos de Novo Acordo porque já houve outros acordos em relação à ortografia e, para situar
você, caro aluno, nesse contexto, passamos a fazer uma breve retrospectiva.

Em 1907, a Academia Brasileira de Letras (ABL) elaborou um projeto de reformulação ortográfica


com base na ortografia nacional (1904) que foi oficializado por Portugal em 1911.

Em 1915, a ABL aprovou a proposta do projeto, ajustando‑o aos padrões do Brasil. Todavia, em 1919
a Academia voltou atrás e revogou o projeto de 1907, não havendo reforma.

O primeiro Acordo Ortográfico, de iniciativa da ABL, data de 1931. Ele foi também aprovado
pela Academia das Ciências de Lisboa, em Portugal. O governo brasileiro oficializou tal acordo em
1931.

Em 1934, a Constituição brasileira revogou o acordo de 1931 e estabeleceu a volta das regras
ortográficas de 1891, como, por exemplo, a grafia de pharmácia ou mesmo da palavra ortographia.

Em 1943, uma convenção luso‑brasileira retoma o acordo de 1931, com pequenas modificações.

No ano de 1945, as normas do novo acordo ortográfico passam a vigorar em Portugal, enquanto no
Brasil manteve‑se a ortografia de 1943.

Em 1971, um decreto do governo brasileiro altera algumas regras da ortografia de 1943. É o caso, por
exemplo, de palavras como saudade, antes grafada saüdade, ou de palavras como sòmente, cujo acento
diferencial marcava a pronúncia fechada ou aberta da vogal.

Houve uma reunião no Brasil de países que compõem a CPLP (Comunidade dos Países de Língua
Portuguesa), os quais correspondem aos oito países que têm a língua portuguesa como língua oficial.
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Dessa reunião resultaram as Bases Analíticas da Ortografia Simplificada da Língua Portuguesa, de 1945,
que nunca foram implantadas.

Em 1975, tanto a Academia Brasileira quanto a de Portugal elaboraram um texto com a


finalidade de diminuírem‑se as divergências dos acordos de 1943 e 1945, privilegiando‑se
este último, todavia, esse texto não se oficializou devido à situação política por que passava
Portugal.

Em 1990, nova reunião é realizada, dessa vez em Portugal, da qual resultou o Novo Acordo Ortográfico
da Língua Portuguesa, previsto para entrar em vigor em janeiro de 1994.
78
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

É esse acordo que tem previsão de ser implantado totalmente até janeiro de 2013 e, para tanto, a
sociedade deve se adequar às novas regras estabelecidas para a grafia das palavras.

Apresentamos, então, os principais pontos desse acordo:

Quadro 8

Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa


Alfabeto
Nova Regra Regra Antiga Como Será
Essas letras serão usadas em siglas,
O alfabeto é agora formado por 26 O “k”, “w” e “y” não eram consideradas símbolos, nomes próprios, palavras
letras. letras do nosso alfabeto. estrangeiras e seus derivados. Exemplos:
km, watt, Byron, byroniano.

Trema
Nova Regra Regra Antiga Como Será
Não existe mais o trema em língua Agüentar, conseqüência, cinqüenta, Aguentar, consequência, cinquenta,
portuguesa. Apenas em casos de qüinqüênio, frqüência, freqüente, quinquênio, frequência, frequente,
nomes próprios e seus derivados, por eloqüência, eloqüente, argüição, delinqüir, eloquência, eloquente, arguição, delinquir,
exemplo: Müller, mülleriano. pingüim, tranqüilo, linguiça. pinguim, tranquilo, linguiça.

Acentuação
Nova Regra Regra Antiga Como Será
Assembléia, platéia, idéia, colméia, boléia, Assembleia, plateia, ideia, colmeia, boleia,
Ditongos abertos (ei, oi) não são mais panacéia, Coréia, hebréia, bóia, paranóia, panaceia, Coreia, hebreia, boia, paranoia,
acentuados em palavras paroxítonas. jibóia, apóio, heróico, paranóico. jiboia, apoio, heroico, paranoico.
Obs.: nos ditongos abertos de palavras oxítonas e monossílabas o acento continua: herói, constrói, dói, anéis, papéis.
Obs. 2: o acento no ditongo aberto “eu” continua: chapéu, véu, céu, ilhéu.

Nova Regra Regra Antiga Como Será


Enjôo, vôo, corôo, perdôo, côo, môo, Enjoo, voo, coroo, perdoo, coo, moo,
O hiato “oo” não é mais acentuado. abençôo, povôo. abençoo, povoo.
Crêem, dêem, lêem, vêem, descrêem, Creem, deem, leem, veem, descreem,
O hiato “ee” não é mais acentuado. relêem, revêem. releem, reveem.

Nova Regra Regra Antiga Como Será


Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
Pára (verbo), péla (substantivo e verbo), Para (verbo), pela (substantivo e verbo),
Não existe mais o acento diferencial pêlo (substantivo), pêra (substantivo), péra pelo (substantivo), pera (substantivo),
em palavras homógrafas. (substantivo), pólo (substantivo). pera (substantivo), polo (substantivo).
Obs.: o acento diferencial ainda permanece no verbo “poder” (3ª pessoa do Pretérito Perfeito do Indicativo – “pôde”) e no verbo
“pôr” para diferenciar da preposição “por”.

Nova Regra Regra Antiga Como Será


Não se acentua mais a letra “u” nas
formas verbais rizotônicas, quando Argúi, apazigúe, averigúe, enxagúe, Argui, apazigue,averigue, enxague,
precedido de “g” ou “q” e antes de “e” enxagúemos, obliqúe ensaguemos, oblique.
ou “i” (gue, que, gui, qui).

79
Unidade III

Não se acentua mais “i” e “u” tônicos Baiúca, boiúna, cheiínho, saiínha, feiúra, Baiuca, boiuna, cheiinho, saiinha, feiura,
em paroxítonas quando precedidos de feiúme feiume.
ditongo.

Hífen
Nova Regra Regra Antiga Como Será
Ante‑sala, ante‑sacristia, auto‑retrato, Antessala, antessacristia, autorretrato,
anti‑social, anti‑rugas, arqui‑romântico, antissocial, antirrugas, arquirromântico,
O hífen não é mais utilizado em arqui‑rivalidae, auto‑regulamentação, arquirrivalidade, autorregulamentação,
palavras formadas de prefixos (ou auto‑sugestão, contra‑senso, contra‑regra, contrassenha, extrarregimento,
falsos prefixos) terminados em vogal + contra‑senha, extra‑regimento, extrassístole, extrasseco, infrassom,
palavras iniciadas por “r” ou “s”, sendo extra‑sístole, extra‑seco, infra‑som, intrarrenal, ultrarromântico,
que essas devem ser dobradas. ultra‑sonografia, semi‑real, semi‑sintético, ultrassonografia, suprarrenal,
supra‑renal, supra‑sensível. suprassensível.
Obs.: em prefixos terminados por “r”, permanece o hífen se a palavra seguinte for iniciada pela mesma letra: hiper‑realista,
hiper‑requintado, hiper‑requisitado, inter‑racial, inter‑regional, inter‑relação, super‑racional, super‑realista, super‑resistente etc.

Nova Regra Regra Antiga Como Será


Auto‑afirmação, auto‑ajuda, Autoafirmação, autoajuda,
auto‑aprendizagem, auto‑escola, autoaprendizagem, autoescola,
auto‑estrada, auto‑instrução, autoestrada, autoinstrução,
O hífen não é mais utilizado em contra‑exemplo, contra‑indicação, contraexemplo, contraindicação,
palavras formadas de prefixos (ou contra‑ordem, extra‑escolar, extra‑oficial, contraordem, extraescolar, extraoficial,
falsos prefixos) terminados em vogal + infra‑estrutura, intra‑ocular, intra‑uterino, infraestrutura, intraocular, intrauterino,
palavras iniciadas por outra vogal. neo‑expressionista, neo‑imperialista, neoexpressionista, neoimperialista,
semi‑aberto, semi‑árido, semi‑automático, semiaberto, semiautomático, semiárido,
semi‑embriagado, semi‑obscuridade, semiembriagado, semiobscuridade,
supra‑ocular, ultra‑elevado. supraocular, ultraelevado.
Obs.: esta nova regra vai uniformizar algumas exceções já existentes antes: antiaéreo, antiamericano, socioeconômico etc.
Obs2: esta regra não se encaixa quando a palavra seguinte iniciar por “h”: anti‑herói, anti‑higiênico, extra‑humano,
semi‑herbáceo etc.

Nova Regra Regra Antiga Como Será


Anti‑ibérico, anti‑inflamatório,
Agora se utiliza hífen quando a Antiibérico, antiinflamatório, anti‑inflacionário, anti‑imperialista,
palavra é formada por um prefixo (ou antiinflacionário, antiimperialista, arqui‑inimigo, arqui‑irmandade,
falso prefixo) terminado em vogal + arquiinimigo, arquiirmandade, microondas, micro‑ondas, micro‑ônibus,
palavra iniciada pela mesma vogal. microônibus, microorgânico. micro‑orgânico.
Obs.: esta regra foi alterada por conta da regra anterior: prefixo termina com vogal + palavra inicia com vogal diferente = não
tem hífen; prefixo termina com vogal + palavra inicia com mesma vogal = com hífen.
Obs. 2: uma exceção é o prefixo “co”. Mesmo se a outra palavra inicia‑se com a vogal “o”, não se utiliza hífen.
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Nova Regra Regra Antiga Como Será


Não usamos mais hífen em compostos Manda‑chuva, pára‑quedas, pára‑quedista, Mandachuva, paraquedas, paraquedista,
que, pelo uso, perdeu‑se a noção de pára‑lama, pára‑brisa, pára‑choque, para‑lama, para‑brisa, para‑choque,
composição. pára‑vento. para‑vento.
Obs.: o uso do hífen permanece em palavras compostas que não contêm elemento de ligação e constitui unidade sintagmática e
semântica, mantendo o acento próprio, bem como naquelas que designam espécies botânicas e zoológicas: ano‑luz, azul‑escuro,
médico‑cirurgião, conta‑gotas, guarda‑chuva, segunda‑feira, tenente‑coronel, beija‑flor, couve‑flor, erva‑doce, bem‑te‑vi etc.
Observações Gerais
O uso do hífen permanece Exemplos
Em palavras formadas por prefixos
Ex‑marido, vice‑presidente, soto‑mestre.
“ex”, “vice”, “soto”.

80
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Em palavras formadas por prefixos


“circum” e “pan” + palavras iniciadas Pan‑americano, circum‑navegação.
em vogal, M ou N.
Em palavras formadas com prefixos
“pré”, “pró” e “pós” + palavras que têm Pré‑natal, pró‑desarmamento, pós‑graduação.
significado próprio.
Em palavras formadas pelas palavras Além‑mar, além‑fronteiras, aquém‑oceano, recém‑nascidos, recém‑casados,
“além”, “aquém”, “recém”, “sem”. sem‑número, sem‑teto.

Não existe mais hífen Exemplos Exceções


Em locuções de qualquer tipo Cão de guarda, fim de semana, café com Água‑de‑colônia, arco‑da‑velha,
(substantivas, adjetivas, pronominais, leite, pão de mel, sala de jantar, cartão de cor‑de‑rosa, mais‑que‑perfeito,
verbais, adverbiais, prepositivas ou visita, cor de vinho, à vontade, abaixo de, pé‑de‑meia, ao deus dará, à
conjuncionais). acerca de etc. queima‑roupa.

(BRASIL, 2008)

E, para finalizar, não poderíamos deixar de falar sobre a metodologia de ensino da língua portuguesa
na Educação Básica, uma vez que você será habilitado, no final da curso, a exercer o magistério nesse
período de formação da criança e/ou adolescente. É do que trataremos no próximo item.

8 Estudo crítico da metodologia de ensino‑aprendizagem da


gramática normativa em sala de aula

É possível ensinar gramática?


É desejável ensinar gramática?
Por que ensinar gramática?
Que gramática ensinar?

Mais que responder a essas questões – e, certamente, a tantas outras que insistem em “povoar” o
pensamento de alunos e professores de língua materna –, esta seção destina‑se a provocar reflexões
acerca do ensino‑aprendizagem da gramática em nossas escolas.

Inicialmente, é preciso que apresentemos alguns aspectos centrais que darão base às reflexões propostas.

Desenvolver a competência comunicativa – oral e escrita – do aluno, a fim de que ele seja capaz
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
de usar cada vez com mais habilidade os recursos da língua para comunicar‑se, e produzir efeitos
de sentido numa determinada situação de interação comunicativa são os grandes objetivos a serem
atingidos nas aulas de língua portuguesa.

Tradicionalmente, no entanto, o ensino de língua portuguesa tomava a oração e o período como unidades
fundamentais para seu estudo e pretendia ensinar o aluno a ler e a escrever por meio do ensino sistemático
da gramática e das estruturas da língua escrita.

Atualmente, como resposta a estudos desenvolvidos especialmente a partir da década de 1980,


sabe‑se que o texto é a unidade básica do ensino da língua portuguesa. Assim, no que diz respeito à
81
Unidade III

gramática, é a língua em funcionamento que deve ser objeto de análise nas aulas de língua materna, isto
é, o estudo gramatical não pode estar desligado e distante de sua aplicação prática, hábito que, durante
muito tempo, artificializou sobremaneira o ensino da gramática em todos os níveis de escolaridade.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) são documentos lançados pelo MEC no final dos anos
1990, elaborados por educadores de todas as áreas do conhecimento, com a intenção de apoiar e ampliar
discussões de caráter pedagógico, visando a uma transformação positiva no sistema educativo brasileiro.

Saiba mais

Consulte o site <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro02.pdf>


para saber mais sobre os PCNs.

Veja o que dizem os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa a respeito dessa prática
pedagógica.

Reflexão gramatical na prática pedagógica

Na perspectiva de uma didática voltada para a produção e interpretação


de textos, a atividade metalinguística deve ser instrumento de apoio para
a discussão dos aspectos da língua que o professor seleciona e ordena no
curso do ensino‑aprendizagem.

Assim, não se justifica tratar o ensino gramatical desarticulado das práticas


de linguagem. É o caso, por exemplo, do tipo que só serve para ir bem na
prova e passar de ano – uma prática pedagógica que vai da metalíngua
para a língua por meio de exemplificação, exercícios de reconhecimento e
memorização de terminologia. Em função disso, discute‑se se há ou não
necessidade de ensinar gramática. Mas essa é uma falsa questão: a questão
verdadeira é o que, para que e como ensiná‑la.

Deve‑se ter claro, na seleção dos conteúdos de análise linguística, que


Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

a referência não pode ser a gramática tradicional. A preocupação não é


reconstruir com os alunos o quadro descritivo constante dos manuais de
gramática escolar (por exemplo, o estudo ordenado das classes de palavras
com suas múltiplas subdivisões, a construção de paradigmas morfológicos,
como as conjugações verbais estudadas de um fôlego em todas as suas
formas temporais e modais, ou de pontos de gramática, como todas as
regras de concordância, com suas exceções reconhecidas).

O que deve ser ensinado não responde às imposições de organização


clássica de conteúdos na gramática escolar, mas aos aspectos que precisam
82
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

ser tematizados em função das necessidades apresentadas pelos alunos nas


atividades de produção, leitura e escuta de textos.

O modo de ensinar, por sua vez, não reproduz a clássica metodologia de


definição, classificação e exercitação, mas corresponde a uma prática que
parte da reflexão produzida pelos alunos mediante a utilização de uma
terminologia simples e se aproxima, progressivamente, pela mediação do
professor, do conhecimento gramatical produzido. Isso implica, muitas
vezes, chegar a resultados diferentes daqueles obtidos pela gramática
tradicional, cuja descrição, em muitos aspectos, não corresponde aos usos
atuais da linguagem, o que coloca a necessidade de busca de apoio em
outros materiais e fontes (BRASIL, 1998).

Saber regras gramaticais não significa saber escrever bem, pois muitas vezes escritores brilhantes
não são capazes de descrever a norma, porém, são capazes de produzir textos que nos comovem ou nos
divertem: eles não podem dizer “como”, mas sabem produzir textos de excelente qualidade.

É apenas na situação de trabalho com o texto, seja em seu processo de produção ou leitura, que o
aluno utiliza o conhecimento gramatical adquirido para garantir um texto claro, coeso, que cumpre sua
finalidade na medida em que assegura sua adequação e correção.

Os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) sugerem um ensino que priorize a prática de leitura de
textos diversificados, assim como a prática da produção de textos e a análise linguística dos textos. Esses
são os objetivos centrais propostos por esse documento.

Essas três práticas devem interligar‑se, isto é, não podem ser tomadas como atividades estanques,
ao contrário, devem estar em coocorrência e, para tanto, o professor tem de se libertar dos métodos
mecanicistas de ensino da língua.

Desse modo, há de se concordar que decorar regras e definição de conceitos gramaticais – por
exemplo, saber repetir que “verbos são palavras que indicam ação, estado ou fenômeno da natureza”
– definitivamente não assegura que o sujeito seja capaz de escrever um bom texto.

Pois então, aprender gramática não se resume a decorar regras arbitrárias e submeter‑se a elas.
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
Aprender gramática é agir sobre a língua para, gradativamente, construir sua teia de relações.

Veja o que diz Possenti (2005) a respeito de se ensinar ou não a língua padrão na escola:

Talvez deva repetir que adoto sem qualquer dúvida o princípio (quase evidente)
de que o objetivo da escola é ensinar o português padrão, ou, talvez mais
exatamente, o de criar condições para que ele seja aprendido. Qualquer outra
hipótese é um equívoco político e pedagógico. A tese de que não se deve
ensinar ou exigir o domínio do dialeto padrão dos alunos que conhecem e usam
dialetos não padrões baseia‑se em parte no preconceito segundo o qual seria
83
Unidade III

difícil aprender o padrão. Isto é falso, tanto do ponto de vista da capacidade


dos falantes quanto do grau de complexidade de um dialeto padrão.

[...] o problema do ensino padrão se põe de forma grave quando se trata


do ensino do padrão a quem não o fala usualmente, isto é, a questão é
particularmente grave em especial para alunos das classes populares, por
mais que também haja alguns problemas decorrentes das diferenças entre
fala e escrita, qualquer que seja o dialeto (mas, insisto sobre a hipótese de
que, provavelmente, tais problemas sejam mais de tipo textual do que de
tipo gramatical) (POSSENTI, 2005, p. 17‑18).

Luft (2000) acrescenta:

Uma das principais causas de um ensino de língua materna mal‑orientado,


na escola tradicional, é o pressuposto ingênuo de que o aluno não sabe
a língua. Isso leva a concentrar o esforço em “ensinar” coisas, sobretudo
teoria gramatical e regras. Tem‑se a impressão de que o professor de idioma
nacional está ensinando português a estrangeiros (LUFT, 2000, p. 65).

O ensino da gramática deve, assim, privilegiar a análise e a reflexão sobre a língua. Deve, do mesmo
modo, ser um espaço em que essa prática se revele como um elemento que contribui, sobremaneira, para
formar alunos usuários competentes de sua língua, verdadeiros “senhores” de sua atividade linguística.

Certamente, o aluno que fala, lê e escreve com competência será bem mais que um sujeito bem
informado; será um cidadão crítico, consciente, capaz de expressar o que sabe, o que pensa e o que
sente. E a todos deve ser reservado esse direito.

No texto de Gilberto Scarton, publicado no site da PUC/RS, há um quadro interessante, que trata
dessa questão da gramática e do ensino. Vejamos:

Quadro 9

Aspectos Tradicionalistas Não tradicionalistas


Língua portuguesa = conjunto de
Língua portuguesa = Língua culta formal (de um
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

1. Concepção de língua variedades = Língua culta formal +


período pretérito). informal+ popular + regional + gíria + etc.
— Critério histórico.
— Critério fundamentado nos usos atuais.
— Critério absolutista: só é aceito o uso formal culto.
— Critério relativista: todas as modalidades
— Critério irrealista: não é levada em conta a variação linguísticas são legítimas desde que
linguística, os novos usos. adequadas ao contexto.
2. Critério de correção — Incorre em distorções temporais: não aceita
linguística — Critério realista.
a evolução dos usos linguísticos; em distorções
espaciais: não aceita os usos regionais; em distorções — Defendem a aceitabilidade
sociais: não se aceitam as variações sociais; em contextualizada: todas as modalidades
distorções situacionais: não se aceitam as variações linguísticas desde que adequadas ao
determinadas ou condicionadas pelos contextos contexto.
diferentes na interação social.

84
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

— Repetem /copiam os registros tradicionais.


— São servos da língua e não seus senhores:
3. Papel do gramático, — Não observam / registram os usos reais, atuais. registram e explicam os usos linguísticos
do dicionarista
— Consideram‑se “autoridades” em questões de reais.
linguagem.
— Tornar o falante plurilíngue no interior
da própria língua: respeitar /apoiar
— Tornar o falante monolíngue: impor a modalidade todas as modalidades linguísticas dos
4. Papel da escola culta formal, erradicando /combatendo todas as alunos e, sob a forma de acréscimo,
demais modalidades linguísticas. ampliar a competência comunicativa
com o favorecimento da linguagem culta
formal.
Não julga os fatos da língua através da
perspectiva elementar do certo X errado,
mas informa sobre usos linguísticos,
distinguindo:
É o juiz, o árbitro da língua julgando todos os fatos — uso atual X uso antigo.
5. Papel do professor linguísticos mediante uma visão radical expressa na
seguinte dicotomia: isto está certo X isto está errado. — uso culto X uso popular.
— uso brasileiro X uso lusitano.
— uso formal X uso informal.
— uso adequado X uso inadequado.
Os não tradicionalistas são menos
conservadores, mais “liberais”, mais
Os tradicionalistas são conservadores, puristas, flexíveis, e distinguem o que é obrigatório,
6. Consequências inflexíveis, dogmáticos, irrealistas. o que é facultativo, o que é tolerável, o
que é inadmissível, o quê, o quando, o por
quê.
(SCARTON, 2005)

Enfim, antes de saber as regras na ponta da língua, o aluno, principalmente da educação básica, ou
seja, do Ensino Fundamental e Ensino Médio, precisa saber compreender e elaborar um texto. Estes são
pressupostos para um ensino eficaz da língua portuguesa.

Além disso, é preciso refletir sobre a concepção de linguagem, entendendo‑a como uma “atividade
constitutiva”, segundo Geraldi (2006). Como postula o autor

(...) a linguagem é uma atividade constitutiva: é pelo processo de internalização


do que nos era exterior que nos constituímos como os sujeitos que somos,
e, com as palavras de que dispomos, trabalhamos na construção de novas
palavras (GERALDI, 2006, p. 67). Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

O professor precisa ter essa visão da linguagem, como algo a ser construído e ao mesmo tempo um
instrumento poderoso nas mãos do aluno, se este for conduzido a exercitar essa prática de linguagem,
em que se sente também sujeito da ação.

Para tanto, o professor tem de propiciar o acesso a conhecimentos, por exemplo, de gêneros textuais,
de tipos de sequências textuais, da modalidade a ser usada (oral ou escrita), do registro, dos objetivos da
comunicação, enfim, de todos os elementos que garantam um bom desempenho tanto na compreensão
quanto na elaboração do texto.

85
Unidade III

Nesse contexto, os conhecimentos gramaticais auxiliarão na organização desse texto, mas


sabê‑los, como já dissemos, isoladamente, sem aplicação no uso, não garantirá a aquisição desses
conhecimentos.

Para que isso ocorra, esse professor tem, em primeiro lugar, de se libertar das amarras que um ponto
de vista purista da língua acaba construindo para si.

É preciso ir além da gramática normativa, além das normas de bom uso da língua; adentrar o mundo
linguístico que convida ao desafio de comunicar‑se sem medo, sem artificialismo, de modo claro,
coerente, para que se possa ser entendido pelo outro.

Somente assim o professor estará exercendo sua função verdadeiramente e oferecendo condições a
esse aluno de exercer a cidadania, no seu verdadeiro sentido.

Para encerrar – ao menos por ora – nossas reflexões, deixamos aqui as palavras do mestre Paulo
Freire:

O desrespeito à leitura de mundo do educando revela o gosto elitista,


portanto antidemocrático, do educador que, desta forma, não escutando o
educando, com ele não fala. Nele deposita seus comunicados (FREIRE, 1996,
p. 139).
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Figura 10 – Paulo Freire

86
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Resumo

Nesta unidade, vimos que a norma culta é a que padroniza o uso da língua
e o padrão selecionado foi o da classe de prestígio na sociedade. Portanto, há
outras gramáticas quando se pensa no uso efetivo da língua, mas a do padrão
institui regras que fazem com que todos usem da mesma forma essa língua.

Vimos também que é na escrita que o controle torna‑se maior, uma vez
que a língua falada é dinâmica e sofre transformações.

Para compreendermos as regras da norma culta, foram tratados os


seguintes assuntos:

Emprego de pronomes de tratamento.


O uso dos pronomes demonstrativos e dos possessivos.
Colocação dos pronomes átonos (próclise, ênclise e mesóclise).
Uso dos pretéritos (perfeito, imperfeito, mais‑que‑perfeito).
Concordância verbal e concordância nominal.
Colocação e ordem dos termos na oração.
Grafia das palavras e Acordo Ortográfico.

Por fim, vimos ainda alguns pontos de vista sobre o ensino da língua portuguesa na Educação
Básica, retomando autores que tratam do assunto e sugerem os Parâmetros Curriculares Nacionais.
Nesse sentido, pudemos verificar que o problema não é deixar de ensinar a norma culta, mas a questão
é a eficiência do método de ensino.

Questões

Questão 1 (Cespe – UnB: Pesquisador – Tecnologista – Inmetro – 24/01/2010, adaptada).


Considere o requisito abaixo:

A redação oficial deve caracterizar‑se pela impessoalidade, uso do padrão culto de linguagem,
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11
clareza, concisão, formalidade e uniformidade.

(Fonte: Manual de Redação da Presidência da República, 2002).

Assinale a opção em que o fragmento apresentado atende a esse requisito:

A) Ficamos felizes com o resultado da análise porque foi melhor do que imaginávamos.

B) Talvez seja bom rever o assunto do pedido de análise. Consideramos um tanto quanto questionável
a sua realização, que para nos daria muito trabalho.
87
Unidade III

C) A produção não atendeu à legislação, à qual deverá ser revista.

D) O presidente falou claramente de que a decisão é inteligente e mais simples do que a lei
vigente.

E) A adequação dos produtos às normas legais implica risco diminuído de acidentes aos
consumidores.

Resposta correta: alternativa E.

Análise das alternativas:

A) Alternativa incorreta.

Justificativa:

O manual recomenda a impessoalidade e, nesta alternativa, há o uso da primeira pessoa.

B) Alternativa incorreta.

Justificativa:

Além do uso da primeira pessoa, que causa efeito de pessoalidade, falta o acento no pronome
nós.

C) Alternativa incorreta.

Justificativa:

O manual recomenda o uso da norma culta e o acento indicativo de crase em à qual não está correto
no período.

D) Alternativa incorreta.
Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

Justificativa:

Há um problema no uso incorreto da preposição e, além disso, há eco no período.

E) Alternativa correta.

Justificativa:

O período está de acordo com todas as regras gramaticais.

88
Gramática Aplicada da Língua Portuguesa

Questão 2 (FUVEST 2010, adaptada). Considere o seguinte trecho de uma carta:

Belo Horizonte, 28 de julho de 1942.

Meu caro Mário,

Estou te escrevendo rapidamente, se bem que haja muitíssima coisa que eu quero te falar (a respeito
da Conferência, que acabei de ler agora). Vem‑me uma vontade imensa de desabafar com você tudo o
que ela me fez sentir. Mas é longo, não tenho o direito de tomar seu tempo e te chatear.

Fernando Sabino

Neste trecho de uma carta de Fernando Sabino a Mário de Andrade, assinale a alternativa que não
está de acordo com a norma culta:

A) “(...) se bem que haja”.

B) “(...) que acabei de ler agora”.

C) “Vem‑me uma vontade”.

D) “(...) tudo o que ela me fez sentir”

E) “(...) tomar seu tempo e te chatear”.

Resolução desta questão na Plataforma.

Revisão: Tatiane - Diagramação: Karen - 29/04/11

89
FIGURAS E ILUSTRAÇÕES

Figura 1

ALFABETO_MANUAL_LGP.JPG. Largura: 377 pixels. Altura: 371 pixels. 24 KB. Formato: JPEG. Disponível
em <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/53/Alfabeto_Manual_LGP.jpg>. Acesso em: 22
abr. 2011.

Figura 2

MAPA‑DOS‑DIALETOS.GIF. Largura: 300 pixels. Altura: 294 pixels. 5,40 KB. Formato: GIF. Disponível
em <http://linguagemcontemporanea.files.wordpress.com/2008/06/mapa‑dos‑dialetos.
gif?w=300&h=294>. Acesso em: 25 abr. 2011.

Figura 3

MAP‑LUSOPHONE_WORLD‑EM.PNG. Largura: 1357 pixels. Altura: 628 pixels. 47,0 KB. Formato: PNG.
Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Map‑Lusophone_World‑en.png>. Acesso em: 22 abr. 2011.

Figura 4

P_SOCIETY_VIOLET.PNG. Largura: 200 pixels. Altura: 183 pixels. 18,2 KB. Formato: PNG. Disponível em
<http://commons.wikimedia.org/wiki/File:P_Society_violet.png >. Acesso em: 19 abr. 2011.

Figura 5

STOCK‑VECTOR‑VERY‑MANY‑HIGH‑QUALITY‑BUSINESS‑PEOPLE‑SILHOUETTES‑72423382.JPG. Largura:
447 pixels. Altura: 470 pixels. 78,4 KB. Formato: JPEG. Disponível em <http://www.shutterstock.com/
cat‑23‑Illustrations‑Clip‑Art.html#id=72423382>. Acesso em: 23 abr. 2011.

Figura 6

BATTLEOFTHESEXES.JPG. Largura: 1659 pixels. Altura: 1655 pixels. 554 KB Kb. Formato: JPEG. Disponível
em <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Battleofthesexes.jpg>. Acesso em: 23 abr. 2011.

Figura 7

MH900409711.JPG. Largura: 325 pixels. Altura: 325 pixels. 12,9 KB. Formato: JPEG. Disponível em
<http://office.microsoft.com/pt‑br/images/educacao‑CM079001901.aspx#ai:MP900409711>. Acesso
em: 23 abr. 2011.

Figura 8

09146.JPG. Largura: 318 pixels. Altura: 450 pixels. 27,4 KB. Formato: JPEG. Disponível em <http://www.
humortadela.com.br/imagens/view_imagens.php?num=09146>. Acesso em: 23 abr. 2011.
90
Figura 9

TERMOS.GIF. Largura: 357 pixels. Altura: 87 pixels. 3,13 KB. Formato: GIF. Disponível em < http://www.
pucrs.br/manualred/pronomes.php>. Acesso em: 25 abr. 2011.

Figura 10

PAULO_FREIRE.JPG. Largura: 297 pixels. Altura: 375 pixels. 105 KB. Formato: JPEG. Disponível em
<http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Paulo_Freire.jpg>. Acesso em: 25 abr. 2011.

Audiovisuais

GONZAGA, L.; TEIXEIRA, H. Asa Branca. Intérprete: Luiz Gonzaga. In: GONZAGA, L. O Canto Jovem de
Luiz Gonzaga. São Paulo: RCA Victor, 1971. 1 disco sonoro. Lado A, faixa 6. Disponível em <http://
letras.terra.com.br/luiz‑gonzaga/47081/>. Acesso em: 25 abr. 2011.

LEMOS, F.; RUSSO, R. et al. Música urbana. Intérprete: Capital Inicial. In: INICIAL, C. Capital Inicial. São
Paulo: Polygram, 1986. 1 disco sonoro. Lado A, faixa 1. Disponível em <http://www.vagalume.com.
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VELOSO, C.; ALBUQUERQUE, P. Clara. Intérprete: Caetano Veloso. In: VELOSO, C. Caetano
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caetano‑veloso/144330/> Acesso em: 25 abr. 2011.

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Textuais

ANDRADE, O. Cântico dos cânticos para flauta e violão: relógio. In: Poesias reunidas. Rio de Janeiro,
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___. Vício na fala. In: Poesias reunidas. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978. Disponível em:
<http://www.jornaldepoesia.jor.br/oswal.html#vicio>. Acesso em: 25 abr. 2011.

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São Paulo: Cortez, 1998.

VERÍSSIMO, L. F. O gigolô das palavras. Porto Alegre: L&PM Editores, 1982. Disponível em: <http://
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WEEDWOOD, B. História concisa da linguística. Trad. Marcos Bagno. São Paulo: Parábola Editorial,
2002.

Exercícios

Unidade I - Questão 1: INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO


TEIXEIRA (INEP). Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE) 2007: Formação Geral.
Questão 6. Disponível em: <http://download.inep.gov.br/download/enade/2007/provas_gabaritos/
prova.FG.pdf>. Acesso em: 23 mai. 2011.

Unidade I - Questão 2: INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO


TEIXEIRA (INEP). Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE) 2006: Formação Geral.
Questão 3. Disponível em: <http://download.inep.gov.br/download/enade/2006/Provas/PROVA_DE_
FORMACAO_GERAL.pdf>. Acesso em: 23 mai. 2011.

Unidade II - Questão 1: FUNDAÇÃO UNIVERSITÁRIA PARA O VESTIBULAR (FUVEST). Vestibular 1998 1ª


fase: Português. Questão 4. Disponível em: <http://www.fuvest.br/vest1998/provas/1fase/dia1/port1f.
pdf>. Acesso em: 23 mai. 2011.

Unidade III - Questão 1: CESPE-UnB. CONCURSO INMETRO – 24/01/2010. Cargo Pesquisador-


Tecnologista.

Unidade III - Questão 2: FUNDAÇÃO UNIVERSITÁRIA PARA O VESTIBULAR (FUVEST). Vestibular 2010
1ª fase: Conhecimentos Gerais. Questão 20. Disponível em: <http://www.fuvest.br/vest2010/1fase/
p1f2010v.pdf>. Acesso em: 23 mai. 2011.

Sites

http://books.google.com/books?id=6XPNR3WkygEC&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_
similarbooks_s&cad=1#v=onepage&q&f=false

94
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-44502004000100009&script=sci_arttext

http://oficinadetravessias.mg.gov.br/preconceito-contra-a-educacao

http://educacao.uol.com.br/portugues/ult1693u60.jhtm

http://www.klickeducacao.com.br/2006/materia/21/display/0,5912,POR-21-98-861-,00.html>. Acesso
em: 24 mai. 2011.

95
96
97
98
99
100
Informações:
www.sepi.unip.br ou 0800 010 9000
Não Corrigido
Não Corrigido
Prova 13548292 – Questão 1
1) Leia atentamente o trecho a seguir, retirado do livro “Emília No País da
Gramática”, de Monteiro Lobato. No trecho o rinoceronte Quindim, eleito por Emilia
como um grande conhecedor da gramática, apresenta seu ponto de vista sobre as
mudanças na língua:
- Parece muito simples, mas não é. Os gramáticos mexem e remexem com as palavras
da língua e estudam o comportamento delas, xingam-nas de nomes rebarbativos, mas
não podem alterá-las. Quem altera as palavras, e as faz e desfaz, e esquece uma e
inventam novas, é dono da língua – o POVO. Os gramáticos, apesar de toda a sua
importância, não passam dos “grilos” (1) da língua.
(1) Grilos: como (eram) chamados, em São Paulo, os guardas policiais das ruas.
Analise as afirmativas a seguir:
I – O trecho em destaque explica o que afirma Sausurre sobre o papel da língua como de
caráter social, modificável a partir do uso que dela faz uma determinada comunidade de
falantes.
II – Considerando o signo lingústico “grilo”, é possível afirmar que ele é usado no trecho
com um determinado significado figurado. Mantém-se o significante, porém, o significado
assumido difere daquele usualmente atribuído – espécie de inseto.
III – No trecho, Lobato revela sua visão de língua: uma entidade viva, dinâmica, em
constante construção não pelos gramáticos e estudiosos da língua, mas pela comunidade
de falantes, que a utilizam em situações sociais.
IV – Fica caracterizada nesse trecho a impossibilidade de os gramáticos impedirem a
evolução dos sistemas lingüísticos.
Escolha a resposta correta:
a) Estão corretas as afirmativas I, II e III
b) Estão corretas as afirmativas I, II e IV
c) Estão corretas as afirmativas I e III
d) As afirmativas I, II, III e IV
e) As afirmativas II e IV.

Prova 13548292 – Questão 2


2) Em qual das alternativas abaixo todas as palavras correspondem (1) ao modo de
articulação nasal e (2) ao modo de articulação fricativa?
a) (1) macaco, nariz; (2) farofa, xícara.
b) (1) pato, gato; (2) dia, tia.
c) (1) tomate, noite; (2) pai, mãe.
d) (1) zebra, prato; (2) maçado, mãe.
e) (1) viajar, velho; (2) estrela, gato.

3) Fonética e fonologia correspondem, respectivamente, a áreas da Linguística que


se preocupam com:
a) A descrição dos sons da fala e a interpretação dos resultados obtidos por meio
da descrição desses sons.
b) A interpretação dos sons da fala e a descrição desses sons.
c) A explicação dos sons da fala e a interpretação desses sons.
d) O valor dos sons de uma língua e a transcrição desses sons.
e) A descrição das palavras usadas na fala e o sentido produzido por essas palavras.

4) Leia as seguintes afirmações:


I – No final da década de 1950, os estudos sobre a aquisição da linguagem ganham novo
impulso com as pesquisas de Noam Chomsky.
II – Na abordagem behaviorista norte-americana sobre a linguagem verbal, cujo principal
representante é Leonard Bloomfield, considera-se que o processo de aquisição da língua
ocorre igualmente à aquisição de outros comportamentos e por influência do meio.
III – A postura adotada por Chomsky em relação à aquisição da linguagem opõe-se à
perspectiva behaviorista, pois o estudioso adota a perspectiva inatista.
IV – Para Chomsky, os enunciados produzidos pelo falante resultam de mecanismos de
estímulo-resposta – reforço que se situam na base da estrutura do comportamento.
Sobre as quatro afirmações acima apresentadas, podemos considerar corretas:
a) I e II.
b) I, II e IV.
c) Somente I
d) I e III
e) I, II e III.

5) Leia o texto que segue:


No estádio de futebol, a comunicação aparece nos gritos da torcida, nas cores das
bandeiras, nos números das camisetas dos jogadores, nos gestos, apitadas e cartões do
juiz e dos bandeirinhas, no placar eletrônico, nos alto-falantes e radinhos de pilha, nas
conversas e insultos dos torcedores, em seus gritos de estímulo, no trabalho dos
repórteres, radialistas, fotógrafos e operadores de TV. O próprio jogo é um ato de
comunicação. Dias antes já tinha provocado dúzias de mensagens e durante dias a fio ele
continuará sendo objeto de comunicação nos botequins, nos escritórios, nas fábricas, nos
rádios e nos jornais. (BORDENAVE).
No trecho transcrito acima, encontram-se exemplos variados de linguagem.
Considerando o objeto de estudo definido pela Linguística em sua constituição
como ciência da linguagem verbal humana, pode-se dizer que são objetos de
análise lingüística:
a) Os atos de comunicação constituídos de gritos de torcida, cores das bandeiras,
números das camisetas dos jogadores.
b) Os atos de comunicação constituídos de conversas e insultos dos torcedores, gestos,
apitadas e cartões do juiz e dos bandeirinhas.
c) Os atos de comunicação constituídos de transmissões dos radialistas, dúzias de
mensagens nos rádios e jornais, apitadas do juiz.
d) Os atos de comunicação constituídos de conversas e insultos dos torcedores,
gritos da torcida, transmissão do jogo pelos radialistas, dúzias de mensagens no
rádio.
e) Apenas os atos de comunicação constituídos de conversas dos torcedores.

6) Observe o trecho a seguir:


Ela é um objeto bem definido no conjunto heteróclito dos fatos da linguagem. Pode-se
localizá-la na porção determinada do circuito em que uma imagem auditiva vem associar-
se a um conceito. Ela é a parte social da linguagem, exterior ao indivíduo, que, por si só,
não pode nem criá-la nem modificá-la; ela não existe senão em virtude duma espécie de
contrato estabelecido entre os membros de uma comunidade. (SAUSSURE).
Nesse trecho, Ferdinand de Saussure expõe sua perspectiva sobre:
a) A escrita
b) A fala
c) A gramática
d) A língua
e) A sincronia.
Prova 13548292 – Questão 7
7) Observe o trecho a seguir, transcrição do personagem Chico (Rodrigo Lopes) na
novela Ti-ti-ti, apresentada na Rede Globo:
Vô contá pra você, porque nóis é truta, manoooo! É que eu to parado numa mina aí (...)
Mina, meu! Miiiiiinnnaaaaa! Mina! Mulher! Gatinha! Ou !!! (...) Assim.. num é garota, NE.
Ela é tipo assim... ais velha (...) Que casada, meu! Soltira, Solteiríssima dasilva.
Nooooossa, mano!!! (...) Esse lance aí mano. Maior soooonho, meu! Cê tá pensando o
què, tá ligado?
A respeito das forma mmiiiiiiannaaaa, manoooo, soooonho e noooossa, observa-se
que a transcrição registrada procura suprir afalta de símbolos específicos que
representam fenômenos prosódicos usados pelo ator Rodrigo Lopes. Há aí, uma
diferença entre linguagem oram e escrita, e a análise desse texto seria própria da
área de:
a) Fonética e fonologia, pois a transcrição, embora não utilize marcas características do
sistema de transcrição fonética, diz respeito a fenômenos sonoros da língua.
b) Morfologia, pois a transcrição diz respeito às regras de formação das palavras.
c) Pragmática, pois a transcrição focaliza, principalmente, as condições em que o
enunciado foi proferido.
d) Semântica, pois a transcrição diz respeito ao significado atribuído ao texto.
e) Sintaxe, pois a transcrição diz respeito às regras de organização do enunciado.

8) Leia a tirinha a seguir:


(“Isso é pleonasmo.”)
O mal-entendido presente na comunicação entre paciente e enfermeira pode ser
teoricamente explicado da seguinte maneira:
a) A paciente desconhece a doença a ela atribuída.
b) Dada a arbitrariedade do signo lingüístico, o signo pleonasmo não poderia ser utilizado
no contexto hospitalar.
c) Paciente e enfermeira atribuem ao signo lingüístico pleonasmo, diferentes
significados.
d) Paciente e enfermeira atribuem ao signo lingüístico pleonasmo, diferentes significantes.
e) Tanto paciente quanto enfermeira desconhecem o significado de pleonasmo.

9) Considere as afirmativas a seguir:


I – A lingüística apresenta-se como uma área de estudos da linguagem que se mostra
preocupada com os diferentes pontos de vista sobre a língua e sobre a linguagem,
considerando o entrecruzamento entre elas.
II – Considerando-se os estudos lingüísticos hoje, pode-se afirmar que um aprendiz da
língua não deve aprendê-la apenas para conhecer seu funcionamento, mas, acima de
tudo, para entender como ela funciona social e culturalmente.
III – Não há sociedade sem linguagem e todo o produto da linguagem é obtido em
situação de uso social, Nesse sentido, a gramática normativa pode ser considerada a
responsável por todo o produto lingüístico obtido socialmente.
Escolha a alternativa correta:
a) Estão corretas as afirmativas I e II
b) Estão corretas as afirmativas I e II
c) Estão corretas as afirmativas II e III
d) Estão corretas as afirmativas I, II e III.
e) Estão correta somente a afirmativa I.

Prova 13548292 – Questão 10


10) Os sons da fala podem ser descritos, basicamente, em três dimensões:
articulatória, auditiva e acústica. A dimensão articulatória corresponde:
a) Ao estudo da estrutura física dos sons da fala, classificando os sons segundo a
freqüência, a amplitude e o tempo de propagação das ondas sonoras.
b) A descrição dos sinais acústicos produzidos no momento da fala.
c) A descrição da maneira como os sons da fala são percebidos pelo sistema auditivo
humano, em termos de sua altura, intensidade e duração.
d) Ao estudo da forma como os sons são produzidos e articulados na glote.
e) A descrição dos movimentos dos órgãos do aparelho fonador ao produzirem os vários
sons da fala.

11) Leia as afirmativas a seguir, relacionadas ao gerativismo:


I – Para Chomsky, a linguagem é adquirida a partir de um dispositivo inato inscrito na
mente humana, que é desencadeado a partir da exposição da criança aos modelos
linguísicos de sua comunidade.
II – Para Chomsky, a linguagem é independente do estímulo, ou seja, os falantes têm
liberdade para produzir enunciados imprevisíveis.
III – Na visão mais recente do gerativismo, Chomsky destaca os princípios e parâmetros
que constituem, respectivamente, a gramática universal e a gramática normativa da
língua.
IV – Aquisição da linguagem e aprendizagem da linguagem são termos com significados
diferentes no contexto do gerativismo: o primeiro diz respeito ao processo que resulta no
conhecimento da língua nativa em situação natural; o segundo é empregado para
designar o processo que resulta no conhecimento da língua, porém, em ambiente não
natural.
V – Denominamos aquisição da linguagem à aprendizagem que ocorre quando a criança,
em situação de exposição a uma dada língua, em ambiente escolar, aprender essa língua
para uso em sua comunidade lingüística.
Escolha a alternativa correta:
a) Está correta somente a afirmativa IV.
b) Estão corretas as afirmativas I e II.
c) Estão corretas as afirmativas I, II e III.
d) Estão corretas as afirmativas I, II e V.
e) Estão corretas as afirmativas I, II e IV.

Prova 13822446 – Questão 3


12) Leia atentamente o trecho a seguir:
O estudo da linguagem comporta, portanto, duas partes: uma, essencial, tem por objeto a
língua que é ________________ em sua essência e ____________ do indivíduo; esse
estudo é unicamente psíquico; outra, secundária, tem por objeto a parte ________ da
linguagem, vale dizer, a fala, inclusive a fonação e é psico-física 9SAUSSURE,
Ferdinand....)
Qual dentre as alternativas a seguir completa corretamente as lacunas do trecho
citado?
a) Social; independente; individual.
b) Individual; independente, social.
c) Social; dependente; individual.
d) Escrita; independente; social.
e) Falada, dependente; social.

Prova 13822446 – Questão 5


13) Observe as afirmativas a seguir:
I – Os gerativistas estão preocupados em depreender na análise das línguas
propriedades comuns, universais da linguagem, que constituem a gramática universal.
II – A gramática gerativa é assim chamada porque ela considera que de um número
limitado de regras é possível gerar um número infinito de sentenças. Assim, a partir de
uma experiência finita e acidental da língua, um locutor pode produzir e compreender um
número infinito de frases novas.
III – Para a gramática universal, as propriedades formais das línguas e a natureza das
regras exigidas para descrevê-las são consideradas mais importantes do que a
investigação das relações entre a linguagem e o mundo.
IV – A lingüística histórica, ao estudar em profundidade as transformações da linguagem,
mostrou que as mudanças lingüísticas têm origem na fala popular. Assim, muitas vezes, o
errado de uma determinada época passa a ser considerado como correto em época
seguinte.
Indique a resposta correta:
a) Todas as afirmativas estão corretas.
b) Estão corretas as afirmativas II e IV.
c) Estão corretas as afirmativas I, III e IV.
d) Estão corretas as afirmativas II, III e IV.
e) Apenas a afirmativa II está correta.

14) A língua e a fala são concebidas por Saussure a partir de elementos que se
contrapõem. Aponte para a afirmativa que apresenta características de ambas, se
contrapondo:
a) A fala não pode ser modificada individual e conscientemente, ao passo que a língua
sim.
b) A fala, por ser estática, não faz evoluir a língua.
c) A língua é uma instituição social, de caráter abstrato, exterior aos indivíduos que a
utilizam, que somente se concretiza através da fala, que é, por sua vez, um ato individual,
que depende da vontade do indivíduo.
d) Língua e fala são diferentes, mas ao mesmo tempo, interdependentes.
e) Podemos afirmar que a língua tem apenas um caráter privado, enquanto a fala tem
caráter público e privado.

15) Em relação aos estudos sobre a linguagem, é incorreto afirmar que:


a) A Gramática Comparada, ao justapor línguas distintas, como o sâncrito, o grego e o
latim, concluiu que todas essas línguas pertenciam à mesma família indo-europeia.
b) A partir do Estruturalismo, cujo marco é a publicação póstuma do Cours de Linguistique
Générale de Ferdinand de Saussure, a Linguistica adquiriu caráter científico.
c) Não havia, na Antiguidade, investigação prática, somente teórica. A gramática era parte
da filosofia geral, cujo objetivo era explicar o universo como um todo.
d) Os conceitos da Linguistica moderna dependem por completo das discussões
filosóficas, desde os tempos das antigas civilizações. A ciência lingüística, como
atualmente concebida, remonta do início do século XX.
e) Os estudo sobre as línguas, no que se refere à gramática tradicional, que
remonta à Antiguidade clássica(Greco-romana, apresentavam caráter científico,
pois se baseavam em pesquisas sobre o uso da língua pelos povos.

16) Assinale a alternativa que completa a seguinte afirmação: A dupla articulação da


linguagem __________________:
a) Relaciona-se à divisão de um enunciado em unidades significativas.
b) Relaciona-se ao uso de regras da língua, convencionadas com base na morfologia.
c) Corresponde ao princípio da economia lingüística, através do qual é possível ao
falante produzir um número infinito de enunciados com base em seu conhecimento
de unidades significativas da língua e de um número limitado de unidades sonoras
da língua.
d) Corresponde à divisão de um enunciado em fonemas, ou seja, em unidades mínimas
do plano de expressão que não contêm em si mesmas nenhum significado.
e) Caracteriza-se pela presença de unidades distintas, não significativas, denominadas
morfemas.

17) Escolha a alternativa que apresenta uma informação INCORRETA:


a) O que diferencia uma teoria empirista de uma teoria racionalista de aquisição da
linguagem é que a primeira tenta descrever uma língua apenas com os dados
observáveis e por processos indutivos, ou seja, procurando construir o sistema de regras
da língua apenas pela observação direta dos dads, enquanto para a segunda, o
conhecimento da língua nem sempre se dá pela observação direta dos dados, mas sim a
partir do que está além da observação, isto é, a partir de um conjunto de informações
internas, inatas, que possibilitam chegar a uma representação de uma determinada
língua.
b) A gramática gerativa considera que os seres humanos nascem dotados de uma
faculdade da linguagem, que é componente da mente / cérebro especificamente
dedicado à língua. Essa faculdade, porém em seu estado inicial, isto é, no estado
em que ela está quando a criança nasce, não se apresenta de modo uniforme, ou
seja, é diferente em cada criança.
c) De acordo com a teoria denominada cognitivismo construtividta, a linguagem está
vinculda à cognição. Piaget, representante dessa concepção de aquisição da linguagem,
afirma que os universais lingüísticos são reflexos das estruturas cognitivas universais.
Assim, o conhecimento lingüístico de uma criança em um determinado momento reflete
as estruturas cognitivas que foram desenvolvidas antes e que determinam esse
conhecimento.
d) De acordo com a teoria denominada interacionismo construtivista, defendida por
Vygotsky, grande relevância é dada à função social da fala e, portanto, ao papel do
interlocutor no desenvolvimento da linguagem. Nessa abordagem, o interlocutor adulto
cria a intenção comunicativa, facilitando o processo de aquisição da linguagem pela
criança.
e) Inspirado nos trabalhos de Vygotsky sobre aquisição da linguagem, surgiu o que tem
sido chamado de interacionismo social. Essa abordagem entende a aquisição da
linguagem como um processo pelo qual a criança se firma como sujeito da linguagem – e
não como aprendiz passivo. A partir daí, ela constrói seu conhecimento de mundo,
passando pelo papel do outro, seu interlocutor. A aquisição da linguagem leva em conta,
portanto, fatores sociais, comunicativos e culturais.

18) Leia os trechos a seguir, retirados respectivamente dos livros Marcelo Marmelo
Martelo, de Ruth Rocha e Curso de Linguistica Geral de Ferdinand de Saussure.
TRECHO A – Ruth Rocha
TRECHO B – Saussure
Podemos dizer que o personagem Marcelo, de Ruth Rocha, faz uma reflexão sobre
a língua, muito parecida com a de Saussure. Marcelo está preocupado com a forma
como as coisas são nomeadas. Já para Sausurre, essa discussão está relacionada
a um dos princípios do signo lingüístico, que está revelado na alternativa:
a) Ambos os trechos estão relacionados ao caráter linear do significante.
b) Os trechos dizem respeito aos conceitos dicotômicos de sincronia e diacronia.
c) O trecho A aborda a diferença entre língua e fala. O trecho B trata da linearidade do
signo lingüístico.
d) Os dois trechos tratam da arbitrariedade dos laços que unem o significado e o
significante.
e) Saussure aborda os subsistemas fonológicos e morfológicos que compõem o sistema
da língua.

19) Leia as afirmativas a seguir e escolha a resposta correta:


I – Pesquisas recentes têm se dedicado ao estudo da linguagem falada em diferentes
contextos, com o propósito de mapear diferenças que correspondem às diversas
situações sociais de uso da língua. Nesse sentido, os estudos lingüísticos mostram o
entrecruzamento de diferentes pontos de vista sobre língua / linguagem e a abrangência
de possibilidades para análise das situações de linguagem presentes socialmente.
II – Um aprendiz de língua não deve aprender a língua apenas para conhecer suas regras
e seu funcionamento, mas acima de tudo, para entender como essa língua funciona social
e culturalmente.
III – A ciência lingüística tem se preocupado em entender, descrever e explicar o papel da
linguagem no desenvolvimento humano, Saiu de uma posição de ciência que se
preocupava em mostrar como a língua deveria ser comportada, para uma ciência que se
preocupa em estudar as transgressões da língua.
Assinale a alternativa correta:
a) Somente a afirmativa I está correta.
b) Estão corretas as afirmativas II e III.
c) Estão corretas as afirmativas I, II e III.
d) Estão corretas as afirmativas I e II,
e) Somente a afirmativa II está correta.

20) Em relação à dupla articulação da linguagem, podemos afirmar:


a) A primeira articulação, considerando-se o signo lingüístico sapo, é constituída de
elementos na dotados de significado, ou seja, dos lexemas /s/, /a/, /p/, /o/.
b) A segunda articulação, considerando-se o signo lingüístico sapo, é constituído de
elementos não dotados de significado, ou seja, dos lexamas /s/, /a/, /p/, /o/.
c) A segunda articulação, considerando-se o signo lingüístico sapo, é constituída de
elementos dotados de significado, ou seja ds fonemas /as/ e /po/.
d) A primeira articulação, considerando-se o signo lingüístico geralmente, é
constituída de elementos dotados de significado, ou seja, dos morfemas geral e
mente.
e) A primeira articulação, considerando-se o signo lingüístico sapato, é constituída de
elementos dotados de significado, ou seja, dos morfemas sa e pato.

21) De acordo com os estudos chomskyanos, há uma distinção entre competência e


desempenho:
a) A competência corresponde a capacidade do falante de usar as normas da língua
adequadamente; desempenho corresponde à maneira como o falante corrige as
inadequadções em relação ao uso das normas que regem a língua.
b) A competência corresponde ao conhecimento que um falante tem sobre o
sistema lingüístico tal como ele é, e a forma domo usa esse conhecimento para
produzir sentenças, constituindo sua língua; desempenho corresponde ao
comportamento lingüístico e é determinado por fatores lingüísticos e nao
lingüísticos, como por exemplo, fatores sociais, emocionais, etc.
c) Competência corresponde a forma como o falante usa a língua em situação de
comunicação; desempenho corresponde a forma como, ao usar a língua, o falante dá
conta de convencer / persuadir seus interlocutores.
d) Competência e desempenho correspondem ao mesmo fenômeno lingüístico, ou seja, a
forma como um falante corrige seus próprios erros no uso da língua.
e) Competência corresponde ao conhecimento das diferentes regras gramaticais que
envolvem a língua, desempenho corresponde ao uso correto dessas regras gramaticasi.

22) Analise a situação: Você está em um restaurante, ouve uma conversa, mas não
vê quem está falando. A pessoa diz ao garçom: por favor, mim querer creme
sorvete. Esse jeito de falar chama sua atenção e logo você imagina que deva ser um
estrangeiro, porque brasileiros não falam assim. Ao chegar a essa conclusão, você
se aproximou do que, nos estudos lingüísticos, faz parte da área:
a) Fonética, principalmente porque você, como falante do português brasileiro, não
conseguiria reproduzir o que essa pessoa falou.
b) Morfologia e sintaxe, ou morfossintaxe, porque o pronome empregado, a
terminação do verbo e a ordem das palavras acaba, por constituir uma sequência
estranha para os falantes do português brasileiro.
c) Semântica, principalmente porque é difícil entender o significado das palavras
produzidas por esse falante.
d) Fonologia, principalmente porque é difícil entender o significado das palavras
produzidas por esse falante.
e) Sociolinguistica porque esse jeito de falar caracteriza uma informalidade própria para
restaurantes.

23) Leia as seguintes afirmações sobre o pensamento racionalista inalista


(chomskyano) a respeito da Aquisição da Linguagem:
I – O inatismo chomskyano defende que o ser humano é dotado de uma gramática inata
que explicaria a competência e a criatividade/desempenho do falante. Chomsky afirma
que a linguagem não é um módulo de cognição e que a criança possui um dispositivo de
aquisição da linguagem inato que é ativado pelo input, gerando como output a gramática
da língua de tal criança.
II – Uma perspectiva mais recente do inatismo chomskyano defende que a Gramática
Universal é formada por princípios, ou seja leis invariantes, que se aplicam da mesma
forma em todas as línguas, e parâmetros, leis cujos valores variam entre as línguas e dão
origem tanto à diferença entre as línguas, como a mudança numa mesma língua. O
trabalho da criança está em escolher, a partir do input, o valor que um determinado
parâmetro deve tomar.
III – O inatismo chomskyano defende que o conhecimento é construído pela criança
através de sua experiência com o mundo físico, está na ação sobre o ambiente (interação
entre a criança e o mundo). Um dado conhecimento lingüístico de uma criança é reflexo
de estruturas cognitivas que foram desenvolvidas e determinadas anteriormente.
Marque a alternativa correta:
a) Apenas I está correta.
b) Apenas II está correta.
c) Apenas III está correta.
d) I e II estão corretas.
e) I, II e III estão corretas.

24) Observe o texto a seguir, publicado na Folha da Manhã, domingo, 10 de agosto


de 1947
A gíria dos vagabundos.
Neste texto, o professor Silveira Bueno sugere que seu estudo:
a) Focaliza a língua e seu funcionamento enquanto sistema simbólico.
b) Focaliza a língua priorizando as características inatas e universais das línguas naturais.
c) Focaliza a língua priorizando as características individuais dos falantes.
d) Focaliza a língua com o objetivo de estudá-la, a partir dos lugares sociais de
seus interlocutores e dos movimentos dos eixos da sincronia e diacronia.
e) Focaliza a língua com o objetivo de defini-la, a partir das regras de formação das
palavras.

25) Leia os trechos a seguir:


Se a Linguistica é o estudo da linguagem em todos os seus aspectos (...), então a história
da Linguistica deve abranger todas as abordagens passadas do estudo da linguagem,
quaisquer que tenham sido os métodos usados e os resultados obtidos.
(...) é impossível separar a história da ciência da própria história. Ao teorizar as relações
entre as línguas, pensa-se as relações entre as comunidades, e a ideologia dominante da
época está, então, amplamente presente.
Em relação a esses trechos, podemos afirmar que:
a) A visão de linguagem presente nos trechos apresentados enfatiza o caráter normativo
da língua em detrimento do caráter explicativo da língua.
b) Enquanto Weedwood considera relevante estudar a língua diacronicamente, Calvet,
por sua vez, focaliza em seus estudos os aspectos sincrônicos da língua.
c) Os autores Weedwwod e Calvet concebem a língua como uma entidade viva que,
ao perpassar os deiferentes momentos históricos, carrega em si características que
dependem da cultura dos povos.
d) Tanto Weedwood quanto Calvet vêem a língua como submissa à cultura dominante.
e) Weedwood acredita que a ciência lingüística deva sempre tomar como base os
conhecimentos anteriores advindos de outras épocas e pesquisadores. Já Calvet vê a
língua como um conjunto independente de teorias relacionadas a uma dada comunidade.

26) Considerando as relações sintagmáticas e paradigmáticas, leia as afirmativas a


seguir:
I – No ato da enunciação estabelecem-se seleções entre vários elementos de uma
mesma classe, um dos quais é selecionado pelo falante.
II – Mostra uma combinação entre elementos lingüísticos, como por exemplo: posso
combinar seis (que representa seis unidades) com centos (que representa grupos de
cem) e obtenho seiscentos.
III – Decorre do fato de um elemento poder figurar em lugar de outro, mas não
simultaneamente, como por exemplo: poso escolher entre dizer dei-lhe um auspicioso
abraço de paz e dei-lhe um esperançoso amplexo de paz.
IV – Baseia-se no caráter linear do significante, ou seja, posso combinar as letras A, O, M,
R de diferentes maneiras, mas, uma vez combinadas, para preservar o significante não
posso modificar a combinação feita.
V – Baseia-se na dependência que existe entre dois elementos seqüenciais de uma
mesma cadeia de elementos lingüísticos.
A alternativa que indica a relação correta entre afirmativas e relações sintagmáticas
(RS) / relações paradigmáticas (RP) é:
a) I – RS / II – RP / III – RS / IV – RP / V – RP
b) I – RS / II – RS / III – RP / IV – RS / V – RS
c) I – RP / II – RP / III – RP / IV – RS / V – RS
d) I – RP / II – RS / III – RS / IV – RS / V – RP
e) I – RS / II – RS / III – RS / IV – RP / V - RS