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3 desculpas para não

ler livros de contos


(e 3 respostas-livro)
Da Casa

Luisa Geisler
3 de Março de 2020 às 18:28

Como autora, tenho cinco livros publicados. Meu primeiro, Contos de mentira, é de
contos. Um dos últimos, De espaços abandonados, apesar de categorizar como
romance, gosto de pensar que é um híbrido — em especial por incluir um livro (fictício)
de não-ficção que é um manual de escrita. De qualquer forma, sou grande leitora de
contos, não apenas livros de contos isolados, mas livros de contos. Há uma beleza
numa unidade de várias histórias, independente de terem uma unidade temática ou
não. O fato de unirmos contos A, B e C na ordem X, Y e Z é uma narrativa complexa
também, cria um efeito no leitor.

Na minha experiência como autora, muitas vezes o conto é estudado na escola por ser
uma leitura mais rápida, mais fácil de dividir entre alunos, uma forma de conhecer
apenas um recorte do autor. Não pela beleza e propriedade do gênero em si.

Mas o fato é que livros de contos vendem menos que romances — o que quer dizer
que há menos leitores interessados. Aos que estão nos comentários dizendo “pois eu
leio contos pipipi popopó”, pergunto: quantas pessoas vocês conhecem que leem livros
de contos? Eu sei que já estamos num recorte de pessoas que leem ficção, mas este é
o blog da Companhia das Letras. Estou partindo do princípio que meu querido leitor
aqui também é leitor fora daqui.

Resolvi, então, compilar as desculpas que ouço ao longo da minha vida e carreira de
gente que não gosta de ler livros contos, ou que opta por ler romances. Talvez você só
não tenha o hábito de ler livros de contos e este seja o convite ideal.
A desculpa que mais ouço é a de que “eu prefiro me envolver com uma história inteira”.
Ora, se este é o caso, eu convido a ler Alice Munro. Alice Munro, a única ganhadora
do Nobel de Literatura a escrever única e exclusivamente contos. Precisa de um livro?
Recomendo Felicidade demais, de 2010. Mas, pessoalmente, recomendaria todos de
Alice para quem tem este tipo de mentalidade. As histórias têm uma prosa gostosa na
sua simplicidade, observando complexidades humanas a cada parágrafo. Não são
muito curtas, mas não são exatamente novelas. São novelinhas — noveleletas, como
uma vez brincou João Vereza em um título seu. Se o que você sente falta em um
conto, ou livro de contos, é essa aproximação, este mergulhar na história, não vai faltar
isso nos contos de Alice Munro.
Por outro lado, muitos não gostam do formato do conto contemporâneo pela sensação
de que “nada acontece”. Para começo de conversa, é uma afirmação falaciosa, porque
tudo sempre acontece — só nem sempre na superfície. Mais falacioso ainda é achar
que este fenômeno do subtexto só existe no conto. Mas, se você quer um pouco de
ação na superfície além de na interioridade dos personagens, sugiro a leitura de A
fúria, de Silvina Ocampo. Irmã de Victoria Ocampo, esposa de Adolfo Bioy Casares,
amiga íntima de Jorge Luis Borges, Silvina Ocampo não é muito difundida no Brasil. É
elogiada por Bolaño, com uma voz muito particular em seu olhar das normas
cotidianas, com ares um pouco mágicos. Tem crianças endiabradas, aniversários
perturbados, platitude e caos. Não se pode dizer que “nada acontece” nos contos de
Ocampo — pelo contrário.
Por último, uma queixa que ouço de não-leitores de livros de contos é que eles gostam
de se “apegar a um personagem”, de segui-lo. Para estes, sugiro As pequenas
virtudes, de Natalia Ginzburg. Não sei se chamaria de coleção de contos, de coleção
de ensaios autobiográficos, mas são sempre com olhares e flertes potentes com a
ficção. Há uma personagem e há vários personagens. Finda leitura, o leitor acaba se
sentindo muito próximo do narrador no final da leitura, de uma Natalia Ginzburg fictícia,
de uma eu-lírico precisa nas informações que nos dá. O leitor se sente perto de um
tema, da falibilidade humana como protagonista; quer a nomeie Natalia ou a nomeie
uma entidade que nos une.
Se nenhum desses livros ou argumentos convenceu, ou se você já lê contos com
assiduidade e achou as indicações até mesmo óbvias, se você quer algo inesperado,
também tenho uma solução: Sobre os canibais, de Caetano Galindo. São 42 relatos
rápidos de um autor que me dá raiva pelo excesso de talento. Além de traduzir
belamente de James Joyce a T.S. Eliot, ele consegue desafiar o próprio formato do
conto. Se você não gosta de contos por causa de todos os contos que já leu, este livro
certamente vai ser diferente. Se você gosta de contos por causa de todos os contos
que já leu, este livro certamente vai ser diferente. E por isso é excelente.
Há uma beleza em livros de contos que nenhum outro gênero nos traz. O conto permite
uma participação maior do leitor, não apenas por ser “uma história mais curta”.
Inclusive, muitos romances englobam menos tempo que um conto, com personagens
menos complexos. Se você não lê muitos livros de contos, convido a repensar os
preconceitos. Não é um gênero de “quem está começando”. A única pessoa que estará
sempre começando em seus preconceitos será o leitor.

***
Luisa Geisler nasceu em 1991, em Canoas, Rio Grande do Sul. É escritora e
tradutora. Autora de Luzes de emergência se acenderão automaticamente (Alfagura,
2014), De espaços abandonados (Alfagura, 2018) e Enfim, capivaras (Editora Seguinte,
2019), foi duas vezes vencedoras do Prêmio Sesc de Literatura, além de finalista do
Prêmio Machado de Assis, semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura e duas vezes
finalista do Jabuti. É mestre em processo criativo pela National University of
Ireland. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa
imagem simpática.