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A inspiração divina da Bíblia

Arthur Walkington Pink


Dedico carinhosamente este livro
aos meus queridos pais,
com grande apreço e gratidão,
por me ensinarem desde criança
a reverenciar as Sagradas Escrituras.
Nota do editor brasileiro:

Este livro (A inspiração divina da Bíblia) foi o primeiro livro escrito


por Pink. Ian Murray, seu biógrafo, acredita que em 1914 ele já
estava finalizado. O motivo é que numa carta de 1944, Pink
escreveu o seguinte: “Meu livro sobre Inspiração foi o primeiro livro
que escrevi ― há mais de trinta anos”. Veja The Life of Arthur W
Pink (Revised and Enlarged Edition), p. 27.
Copyright @ 2020, de Editora Monergismo
Publicado originalmente em inglês sob o título
The Divine Inspiration of the Bible ■
Todos os direitos em língua portuguesa reservados por
E M
SCRN 712/713, Bloco B, Loja 28 — Ed. Francisco Morato Brasília, DF, Brasil — CEP
70.760-620
www.editoramonergismo.com.br ■
1ª edição, 2013
Tradução: Odayr Olivetti
Revisão: Felipe Sabino de Araújo
Conteúdo PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA
INTRODUÇÃO
CAPÍTULO1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO 6
CAPÍTULO 7
CAPÍTULO 8
CAPÍTULO 9
CAPÍTULO 10
CAPÍTULO 11
CAPÍTULO 12
CAPÍTULO 13
CAPÍTULO 14
PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA

Arthur W. Pink foi o meu mentor. Acompanhou meus passos


na formação de minhas convicções da veracidade da fé reformada.
Não. Eu não o conheci. Na realidade ele faleceu alguns anos após o
meu nascimento. Mas os seus livros tiveram grande impacto na
minha formação teológica, especialmente por sua cuidadosa e
lógica exposição da Palavra de Deus. De especial valor, foi o seu
livro “A Soberania de Deus” (edição original ― 1918), onde ele
apresenta de forma suave, mas magistralmente contundente, a
pessoa de Deus, em todo o seu poder e no exercício de toda sua
onipotência, em todos os aspectos, inclusive na salvação do seu
povo das garras do pecado.
Se existe algo que caracteriza os escritos de Pink, é o apreço
pelas Escrituras Sagradas. Quando estamos mais propensos a nos
levar pelos devaneios da especulação teológica, pelo “achismo” do
que se encaixa em nossa pequenina mente, Pink nos traz de volta à
Bíblia ― com abundantes citações, mostrando que o que importa é
o que diz a Palavra; nós, cristãos, temos é que nos render às
evidências e ensinamentos da Palavra Inspirada. Pink (1886-1952)
é chamado de um puritano nascido fora de época. Tendo vivido 250
anos após a era de ouro daqueles gigantes de Deus, ocasião em
que o marco da Confissão de Fé de Westminster foi firmado, por
grandes e eminentes teólogos, Pink escreve no mesmo espírito,
com a mesma riqueza de detalhes e com o mesmo insight espiritual
que marcaram aqueles servos. Este livro é a prova cabal disso,
tratando das Escrituras Sagradas, da doutrina da Inspiração, ele
reafirma e confirma a base de todo o nosso conhecimento religioso.
Essa é a característica da fé reformada ― as Escrituras são nossa
única regra de fé e prática; inspiradas que foram pelo Espírito Santo
de Deus, são inerrantes, confiáveis e infalíveis. Todos os desvios
doutrinários, cultos e seitas, atração pelo liberalismo teológico, ou
pelo racionalismo, no seio da igreja cristã, começaram com um
desprezo pela inspiração da Bíblia, culminando em considerá-la
uma produção meramente humana, a ser estudada por seus
aspectos éticos, literários e históricos. O resultado é a distorção
também da ética, da integridade literária e da própria história.
Ao tratar da inspiração divina da Bíblia, portanto, Arthur Pink
traz uma mensagem extremamente pertinente aos nossos dias.
Especialmente, porque ao lado daqueles que começam os desvios
desprezando as Escrituras, temos aqueles que se desviam das
Escrituras, porque procuram outras fontes de conhecimento
religioso e outras formas de revelação. Pink demonstra que é o
próprio Deus que sempre nos leva de volta à Palavra: (a) acima das
experiências; (b) acima das tradições; (c) acima dos sinais e
maravilhas.
Realmente, na maioria das vezes o interesse pelos
fenômenos sobrenaturais não procede do sério estudo da palavra
de Deus, mas de sentimentos carnais presentes na fraca visão do
homem natural. Quando Jesus foi pressionado para que realizasse
algum sinal sobrenatural fora do contexto e do propósito soberano
de sua missão, apenas para atender o desejo pelo extraordinário,
presente na multidão (Mt 12.39), ele deu o seguinte direcionamento
aos solicitantes:
primeiro, indicou que deviam examinar as suas vidas
(chama os interlocutores de “geração má e adúltera”)
depois, mandou que eles se dirigissem às Escrituras, à
história previamente revelada e escriturada, (deviam
considerar “o sinal do profeta Jonas”) para obtenção do
conhecimento teológico e prático que diziam procurar.

É o próprio Deus que não admite adições à sua Palavra, pois


no final das Escrituras, no último capítulo do último livro da Bíblia
(Apocalipse 22.18 e 19), temos essa advertência: Eu, a todo aquele
que ouve as palavras da profecia deste livro, testifico: Se alguém
lhes fizer qualquer acréscimo, Deus lhe acrescentará os flagelos
escritos neste livro; e, se alguém tirar qualquer coisa das palavras
do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida, da
cidade santa e das coisas que se acham escritas neste livro.
Assim, observando o cenário evangélico atual e a questão da
inspiração da Bíblia, não posso deixar de trazer à memória, palavras
que escrevi em outra ocasião, nas quais destaquei essa
necessidade de apreço às Escrituras Sagradas, pois esse é o
escopo e o cerne deste livro do Pink.
Vivemos em uma era de subjetivismo que tem mirrado as
mentes cristãs. Precisamos voltar à revelação proposicional e
objetiva da Palavra de Deus. Não podemos trilhar os passos
dessa suposta super-espiritualidade contemporânea.
Atualmente, sob a pretensão de se estar mais próximo de
Deus, em um enlevo místico-misterioso, procura-se dialogar
com Deus; proclama-se o recebimento de novas revelações;
fala-se muito em amor, em vida, em ministério, em pregação,
em poder, em maravilhas, em atividades, em louvor; enquanto
o que constatamos, progressiva e paralelamente, é a
demonstração do afastamento e desprezo para com a única
fonte de revelação objetiva que Deus nos legou: As Sagradas
Escrituras.
As Escrituras não se constituem em uma mera compilação ou
registros das formulações e reflexos do pensar teológico
humano, ao longo dos tempos. A Bíblia não representa a
apreensão subjetiva, e estritamente humana, de comunidades
“lucanas”, “petrinas”, “paulinas” ― eivadas de erros, mitos e
cacoetes próprios, que precisam ser “descontruídos” para se
chegar ao cerne de uma mensagem desfigurada e anacrônica.
Muitos livros existem que tratam a Bíblia dessa maneira.
Esses não servem ao proveito de ninguém, a não ser à
suposta intelectualidade dos autores, antigos e
contemporâneos, que assim pretendem se colocar como
juízes sobre os textos inspirados.
Fica a nossa mais calorosa recomendação deste livro, aos
cristãos que encaram a sua fé com seriedade, pois a Bíblia, para
Arthur W. Pink é a palavra inspirada de Deus — merecedora de toda
confiabilidade; livre de erro; fonte confiável de instrução ao homem
sobre Deus e seus atos criativos, de justiça e redentivos, na história.
E como precisamos dessa mensagem em nossos dias!
Pb. Solano Portela
Escritor, tradutor e conferencista
INTRODUÇÃO

O cristianismo é a religião de um Livro. O cristianismo baseia-


se na inexpugnável rocha da Escritura Sagrada. O ponto de partida
de toda discussão doutrinária só pode ser a Bíblia. Sobre o alicerce
da inspiração divina da Bíblia permanece ou cai todo o edifício da
verdade cristã —
“Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o
justo?” (Salmo 11.3).

Renuncie ao dogma da inspiração verbal, e você será


deixado como um navio sem leme num mar tempestuoso, à mercê
de todo vento que sopre. Negue que a Bíblia é, sem nenhuma
condição ou restrição, a verdadeira Palavra de Deus, e você ficará
sem nenhum padrão para avaliação e sem nenhuma autoridade
suprema. É inútil discutir qualquer doutrina ensinada pela Bíblia,
enquanto você não estiver disposto a reconhecer, sem reserva, que
a Bíblia é o supremo e final tribunal de recursos. Conceda que a
Bíblia é uma revelação e comunicação divina dos pensamentos e da
vontade de Deus aos homens, e você terá fixado um ponto de
partida do qual poderá avançar rumo aos domínios da verdade.
Conceda que a Bíblia é (em seus manuscritos originais) inerrante e
infalível, e você chegará ao lugar onde o estudo do seu conteúdo é
praticável e proveitoso.
É impossível exagerar a importância da doutrina da
inspiração divina da Escritura. Este ponto constitui o centro
estratégico da teologia cristã, e precisa ser defendido, custe o que
custar. É o ponto contra o qual o nosso inimigo satânico dirige
constantemente os seus batalhões infernais. Aí foi feito o seu
primeiro ataque. No Éden ele perguntou: “É verdade que Deus
disse?”, e hoje ele continua usando a mesma tática. Através de
todos os séculos a Bíblia tem sido o objeto central dos seus
assaltos. Todas as armas disponíveis no arsenal do diabo têm sido
empregadas em seus determinados e incessantes esforços para
destruir o templo da verdade de Deus. Nos primeiros tempos da era
cristã os ataques do inimigo eram feitos abertamente — sendo a
fogueira o principal instrumento de destruição — mas, nestes
“últimos dias” o assalto é feito de maneira mais sutil, e vem de uma
parte mais inesperada. A origem divina das Escrituras agora é
contestada em nome da “erudição especializada” e da “ciência”, e
isso também por muitos que se declaram amigos da Bíblia e
campeões em sua defesa. Grande parte dos estudos e da atividade
teológica da presente hora estão concentrados na tentativa de
desacreditar e destruir a autenticidade e a autoridade da Palavra de
Deus, e o resultado é que milhares de cristãos nominais estão
imersos num mar de dúvidas. Muitos dos que são pagos para
ocupar os nossos púlpitos e defender a Verdade de Deus são agora
justamente aqueles que estão dedicados a semear as sementes da
incredulidade e a destruir a fé das pessoas para quem eles
ministram. Mas esses métodos modernos não se comprovarão mais
vitoriosos em seus esforços para destruir a Bíblia do que os que
eram empregados nos séculos iniciais da era cristã. Nem se fosse
possível que as aves demolissem a rocha granítica de Gibraltar com
seus bicos —
“Para sempre, ó S está firmada a tua palavra no
céu” (Salmo 119.89).

Pois bem, a Bíblia não teme investigação. Em vez de temê-la,


a Bíblia atrai e desafia consideração e exame. Quanto mais
amplamente for conhecida, quanto mais for lida, quanto mais for
estudada cuidadosamente, mais aberta e completamente ela será
aceita como a Palavra de Deus. Os cristãos não são um bando de
entusiastas fanáticos. Não são amantes de mitos. Não desejam
acreditar numa ilusão. Não querem que suas vidas sejam
modeladas por uma superstição vazia. Não desejam tomar uma
alucinação por inspiração. Se estão agindo mal, querem ser postos
no caminho certo. Se estão enganados, querem ser libertados de
sua ilusão. Se estão errados, desejam ser corrigidos.
As primeiras perguntas que o leitor pensante da Bíblia tem
que responder é: Que importância e valor eu atribuo ao conteúdo
das Escrituras? Eram os escritores da Bíblia outros tantos fanáticos
movidos por uma insanidade oracular? Foram eles meramente
inspirados poeticamente e elevados intelectualmente? Ou eles
foram, como se arrogavam ter sido, e as Escrituras afirmam que
foram, movidos pelo Espírito Santo para agirem como a voz de
Deus a um mundo pecador? Os escritores da Bíblia foram
inspirados por Deus de um modo como nenhum outro homem de
qualquer outra era do mundo foi? Foram eles investidos e dotados
de poder para descerrar mistérios e orientar os homens para o alto e
para diante, em direção a algo que de outra maneira teria sido para
eles um futuro impenetrável? Facilmente se vê que a resposta a
essas perguntas é de suprema importância. Se a Bíblia não é
inspirada no sentido estrito da palavra, ela não tem valor, pois ela se
declara Palavra de Deus, e, se a sua alegação é espúria, significa
que não se pode confiar em suas declarações e o seu conteúdo não
merece confiança. Se, por outro lado, for possível mostrar de
maneira que satisfaça a todos os inquiridores imparciais que a Bíblia
é a Palavra de Deus, inerrante e infalível, temos aí um ponto de
partida do qual podemos avançar rumo à conquista de toda a
verdade.
Um livro que se arroga ser uma revelação divina —
reivindicação que, como veremos, é consubstanciada pelas
credenciais mais convincentes — não pode ser rejeitado, nem
mesmo negligenciado, sem grave risco para a alma. A verdadeira
sabedoria não pode negar-se a examiná-lo com cuidado e com
imparcialidade. Se as reivindicações da Bíblia são bem fundadas, o
diligente estudo das Escrituras, com oração, é da mais alta
importância: ela tem então um direito à nossa observação e ao
nosso tempo que nada mais tem, e ao lado dela tudo quanto há
neste mundo perde seu lustre e imerge na mais completa
insignificância. Se a Bíblia é a Palavra de Deus, significa que ela
transcende em valor todos os escritos dos homens e, na razão
exata da sua imensurável superioridade em relação às produções
humanas, é nossa responsabilidade e nosso dever dedicar-lhe a
mais reverente e séria consideração. Como uma revelação divina a
Bíblia deveria ser estudada; contudo, este é o único assunto sobre o
qual a curiosidade humana não deseja informação. Em todas as
outras esferas o homem impulsiona as suas investigações, mas o
Livro dos livros é negligenciado, e isso não somente pelos
ignorantes e iletrados, mas também pelos sábios deste mundo. Os
diletantes lidos e doutos se jactam de sua familiaridade com os
sábios da Grécia e de Roma, mas pouco ou nada querem saber de
Moisés e dos profetas, de Cristo e seus apóstolos. Mas a
negligência geral da Bíblia confirma as Escrituras e fornece uma
prova adicional da sua autenticidade. O desprezo com que a Bíblia é
tratada demonstra que a humanidade é exatamente o que a Palavra
de Deus afirma que ela é — caída e depravada — e é uma
inequívoca prova de que a mente carnal é inimiga de Deus.
Se a Bíblia é a Palavra de Deus; se ela ocupa um plano
infinitamente exaltado, totalmente sozinha; se ela transcende
imensuravelmente todas as maiores produções do gênio humano,
então, devemos naturalmente esperar ver que ela tem credenciais
únicas, que há sinais internos que provam que ela foi produzida por
Deus, que há uma prova conclusiva que mostra que o seu Autor é
super-humano, divino. Que essas expectativas se concretizam,
agora vamos nos esforçar para mostrar; é propósito deste livro
demonstrar que não há razão nenhuma para que alguém duvide da
inspiração das Escrituras. Quando examinamos o mundo natural,
vemos inumeráveis provas da existência de um Criador pessoal, e o
mesmo Deus que se manifestou por meio das suas obras também
revelou sua sabedoria e sua vontade através da sua Palavra. O
Deus da criação e o Deus da revelação escrita são um só, e há
argumentos irrefutáveis que mostram que o Todo-poderoso, que fez
os céus e a terra, também é o Autor da Bíblia.
Vamos agora sujeitar à atenção crítica do leitor algumas das
linhas de demonstração que argumentam em favor da inspiração
divina da Bíblia.
CAPÍTULO1

EXISTE UMA PRESUNÇÃO EM FAVOR DA BÍBLIA

Este argumento pode ser simples e concisamente exposto


assim — O homem precisava de uma revelação divina recoberta
pela linguagem humana. Deus tinha previamente dado ao homem
uma revelação de si em suas obras criadas, isto é, na criação —
que os homens gostam de denominar “natureza” — obras que dão
inconfundível testemunho da existência do seu Criador. Contudo,
apesar de ser revelado de Deus, por meio das obras criadas, o
suficiente para tornar todos os homens “indesculpáveis”, tais obras
não apresentam uma manifestação reveladora completa do caráter
de Deus. A criação revela a sabedoria e o poder de Deus, mas nos
faz uma apresentação muito imperfeita da sua misericórdia e do seu
amor. Atualmente a criação está sob maldição; ela é imperfeita
porque foi corrompida pelo pecado; portanto, uma criação imperfeita
não pode ser um meio perfeito para revelar Deus; e, também em
decorrência disso, o testemunho da criação é contraditório.
Na primavera, quando a natureza veste seus mais belos
trajes e vemos a bela folhagem da região campestre e ouvimos os
alegres cantos do passaredo, não temos dificuldade em inferir que o
Deus de misericórdia e graça governa o nosso mundo. Mas, que
dizer do inverno, quando os nossos campos ficam desolados e as
árvores ficam desnudas e desamparadas, quando o pálio da morte
parece repousar sobre todas as coisas? Quando nos pomos à beira-
mar e observamos o sol se pôr e tingir de carmesim as plácidas
águas num tranquilo entardecer, não hesitamos em atribuir o quadro
à mão do Artista divino. Mas quando ficamos no mesmo lugar da
costa numa noite de tempestade e ouvimos o rugir das ondas no
quebra-mar e o uivar do vento, vemos os barcos lutando com as
ondas furiosas e ouvimos os gritos lancinantes dos marinheiros
quando afundam nas profundezas das águas, somos então tentados
a perguntar se, afinal de contas, um Deus misericordioso está no
leme.
Quando alguém passeia pelo Grand Canyon ou se põe diante
das Cataratas do Niágara, a mão e o poder de Deus lhe parecem
muito evidentes, mas, quando testemunha as devastações
causadas pelo terremoto em São Francisco ou os efeitos mortais
das erupções vulcânicas do Monte Vesúvio, de novo a pessoa fica
perplexa e estupefata. Então, numa palavra, o testemunho da
natureza é conflitante, e, como dissemos, isto se deve ao fato de
que o pecado entrou em cena e estragou as obras das mãos de
Deus. A criação exibe os atributos naturais de Deus, mas pouco ou
nada nos diz sobre as suas perfeições morais. A natureza
desconhece o perdão e não mostra nenhuma misericórdia, e, se não
tivéssemos outra fonte de informação, jamais descobriríamos que
Deus perdoa pecadores. Segue-se, pois, que os homens têm
necessidade de uma revelação de Deus escrita.
Nossas limitações e nossa ignorância revelam a nossa
necessidade. O homem está no escuro no concernente a Deus. Se
riscássemos a Bíblia da existência, que saberíamos sobre o caráter
de Deus, sobre a sua atitude para conosco, ou sobre as suas
exigências a nós impostas? Como vimos, a natureza é apenas um
meio imperfeito de revelação de Deus. Os antigos tinham diante
deles a mesma natureza que temos, mas, que descobriram eles
sobre o seu caráter? Que conhecimento do único Deus verdadeiro
eles alcançaram? O capítulo dezessete de Atos responde essa
pergunta. Quando o apóstolo Paulo estava na cidade de Atenas,
famosa por sua cultura douta e filosófica, ele descobriu um altar no
qual estavam inscritas as palavras: “ao Deus desconhecido”. A
mesma condição prevalece hoje. Visite aquelas terras que não
foram iluminadas pela luz da Escritura Sagrada, e verá que os seus
povos não sabem sobre o caráter do Deus vivo mais do que sabiam
os egípcios e os babilônios antigos.
O homem está no escuro no que se refere a si próprio. De
onde sou? Que sou eu? Sou algo mais que um animal racional?
Tenho uma alma imortal, ou nada mais sou do que um ser dotado de
sentidos e sensações? Qual é o propósito da minha existência? Por
que estou neste mundo, afinal? Quais serão o fim e o objetivo da
vida? Como devo empregar meu tempo e meus talentos? Vou viver
só para o dia de hoje, para comer, beber e me divertir? Após a
morte, que será? Vou perecer como os animais do campo, ou o
sepulcro é o portal de outro mundo? Se assim é, a qual estou
ligado? Essas perguntas parecem sem sentido e irrelevantes? Se
aniquilarmos as Escrituras e eliminarmos toda a luz que foi
derramada sobre esses problemas, para onde iremos, em busca de
solução? Se a Bíblia não tivesse sido escrita, quantas dessas
perguntas poderiam ser respondidas satisfatoriamente?
Um notável testemunho da necessidade que o homem tem
de uma revelação divina foi dado pelo célebre, mas cético
historiador Gibbon. Ele observou: “Portanto, desde que os mais
sublimes esforços da filosofia não podem ir além da capacidade de
indicar debilmente o desejo, a esperança, ou, no máximo, a
probabilidade de um estado futuro, não existe coisa alguma, exceto
uma revelação divina, que possa certificar a existência de outro
mundo e descrever a região invisível destinada a receber as almas
dos homens depois de se separarem do seu corpo”.
As nossas experiências revelam a nossa necessidade.
Existem problemas a serem encarados que a nossa sabedoria é
incapaz de resolver; há em nosso caminho obstáculos que não
temos meios para sobrepujar; defrontamo-nos com inimigos que não
temos possibilidade de subjugar. Estamos em tremenda
necessidade de conselho, força e coragem. Há provações e
tribulações que nos sobrevêm, submetendo à prova os mais bravos
e audazes, e nós precisamos de consolo e encorajamento. Há
tristezas e privações que esmagam os nossos espíritos, e
precisamos da esperança da imortalidade e da ressurreição.
A nossa vida social revela a nossa necessidade. Que é que
deve governar e regular os nossos procedimentos uns com os
outros? Cada pessoa deve fazer o que lhe parece direito? Isso
destruiria toda lei e toda ordem. Devemos elaborar algum código
moral, algum padrão ético? Mas, quem deve fixar tal código ou
padrão? As opiniões variam. Temos necessidade de um tribunal final
de recursos: se não tivéssemos a Bíblia, onde encontraríamos esse
tribunal?
Quer dizer, então, que o homem tem necessidade de uma
revelação divina; Deus pode suprir essa necessidade; portanto, não
é razoável supor que ele o faça? Certamente Deus não zomba da
nossa ignorância e não nos deixa andar às apalpadelas na
escuridão! Se é mais difícil acreditar que o universo não teve
nenhum criador do que crer que “no princípio criou Deus os céus e a
terra”; se custa muito mais à nossa fé imaginar que o cristianismo,
com todos os seus gloriosos triunfos, não teve um Fundador divino,
do que crer que ele se firma na Pessoa divina do Senhor Jesus
Cristo, então não é também fazer maior exigência à credulidade
humana imaginar que Deus teria deixado a humanidade sem
nenhuma comunicação inteligível de si, do que crer que a Bíblia é
uma revelação procedente do Criador a suas criaturas caídas e
errantes?
Se existe um Deus (e só um “insensato” negará sua
existência [Sl 14.1]), e se nós somos obras de suas mãos,
certamente ele não nos deixaria em dúvida quanto aos grandes
problemas relacionados com a nossa felicidade temporal, espiritual
e eterna. Se um pai terreno aconselha seus filhos e filhas em seus
problemas e perplexidades, adverte-os dos perigos e armadilhas da
vida que ameaçam a felicidade deles; se os aconselha quanto a seu
bem-estar diário e lhes dá a conhecer seus planos e propósitos
concernentes ao futuro deles, certamente é inacreditável supor que
o nosso Pai celeste faria menos por seus filhos!
Muitas vezes ficamos inseguros quanto ao curso certo que
devemos seguir; frequentemente ficamos em dúvida quanto ao real
caminho do dever; estamos constantemente cercados pelas hostes
da iniquidade que procuram conseguir a nossa queda; e diariamente
confrontamos experiências que nos causam pesar e tristeza. Os
mais sábios dentre nós necessitam de direção que a nossa
sabedoria falha em fornecer; a melhor expressão da humanidade
precisa de misericórdia ou graça que o coração humano é impotente
para oferecer; os mais refinados dentre os filhos dos homens
necessitam livrar-se de tentações que eles mesmos não conseguem
vencer. Deus, então, fará mofa de nós em nossa necessidade?
Deus nos deixará sozinhos na hora da nossa fraqueza? Deus se
recusará a prover para nós um Refúgio dos nossos inimigos? O
homem precisa de um Conselheiro, um Consolador, um Libertador.
O simples fato de que Deus tem cuidado paterno por seus filhos
torna necessário que ele lhes dê uma revelação escrita que
comunique seu pensamento e sua vontade com relação a eles, e
que lhes indique aquele que quer e pode supri-los de todas as suas
necessidades.
Resumindo o argumento: O homem tem necessidade de uma
revelação divina; Deus tem poder para dar-lhe uma; por
conseguinte, não é razoável supor que ele o faça? Há, então, uma
presunção em favor da Bíblia. Não é mais razoável crer que aquele
cujo nome e natureza é Amor nos supra de uma lâmpada para os
nossos pés e de uma luz para o nosso caminho, do que nos deixar a
vagar às apalpadelas no meio da escuridão de um mundo caído e
arruinado?
CAPÍTULO 2

O PERENE E SEMPRE RENOVADO VIGOR DA BÍBLIA DÁ


TESTEMUNHO DO SEU DIVINO INSPIRADOR

A força total do presente argumento só atrairá os que estão


intimamente familiarizados com a Bíblia. Quanto mais o leitor
conhecer o Cânon Sagrado, mais sincera e ardorosamente
endossará as declarações que se seguem. Justamente como o
conhecimento do latim é necessário para que se possa entender as
técnicas expostas por um tratado de patologia ou de fisiologia, ou
assim como certo grau de familiaridade com a cultura e com o saber
acadêmico é um adjunto indispensável para que o interessado
possa acompanhar inteligentemente os argumentos e apreender as
ilustrações de uma dissertação sobre filosofia ou psicologia, assim
também um conhecimento de primeira mão da Bíblia é necessário
para que se possa apreciar o fato de que o seu conteúdo jamais se
tornou um lugar-comum.
Um dos primeiros fatos que prende a atenção do estudioso
da Palavra de Deus é que, à semelhança do azeite da viúva e o
alimento que sustentou Elias, o conteúdo da Bíblia nunca se exaure.
Diversamente de outros livros, a nunca vem a apresentar mesmice,
e jamais diminui em seu poder de responder aos necessitados que
recorrem a ela. Justamente como o sempre novo suprimento de
maná era dado cada dia aos israelitas no deserto, assim também o
Espírito de Deus sempre parte de novo o Pão da Vida para os que
têm fome de justiça, ou, justamente como os pães e os peixes nas
mãos do Senhor foram mais que suficientes para alimentar a
multidão faminta — ainda ficando sobras — assim o mel e o leite da
Palavra são mais que suficientes para satisfazer a fome de toda
alma humana — e as sobras ainda permanecem sem diminuir para
novas gerações.
Ainda que alguém saiba, palavra por palavra, todo o
conteúdo de um capítulo da Escritura, e ainda que tenha tomado
tempo para ponderar atentamente cada sentença ali presente, em
cada ocasião subsequente, dando por certo que essa pessoa o
estude de novo com espírito de humilde inquirição, cada nova leitura
revelará novas gemas nunca antes vistas ali, e novos prazeres,
nunca antes sentidos nessa passagem, serão experimentados. As
passagens mais conhecidas ainda darão muito sabor novo, na
milésima vez em que forem bem examinadas, como deram na
primeira. A Bíblia tem sido comparada com uma fonte de águas
vivas: a fonte é sempre a mesma, mas as águas são sempre novas.
Nisso a Bíblia difere de todos os outros livros, sacros ou
seculares. O que o homem tem para dizer pode ser colhido dos
seus escritos na primeira leitura que se faça deles; não acontecendo
isso, a falha indica que o escritor não conseguiu expressar-se com
clareza, ou então o leitor não conseguiu apreender o que ele quis
dizer. O homem só tem capacidade de lidar com coisas superficiais,
e daí ele só trata de aparências que estão à tona;
consequentemente, seja o que for que o homem diga está logo ali,
na superfície dos seus escritos, e o leitor competente pode esgotá-
los com um único exame cuidadoso. Com a Bíblia não é assim.
Apesar de a Bíblia ter sido estudada mais microscopicamente do
que qualquer outro livro (até suas letras já foram contadas e seu
número já foi registrado) por muitos dos mais agudos intelectos nos
dois mil anos passados, e apesar de bibliotecas completas de obras
terem sido escritas como comentários dos seus ensinos, e apesar
de milhões de sermões terem sido pregados e impressos na
tentativa de expor cada parte das Letras Sagradas, ainda assim o
seu conteúdo não foi esgotado, e neste século vinte[1] novas
descobertas estão sendo feitas cada dia!
A Bíblia é uma inesgotável mina de riquezas: é o El Dorado
dos tesouros celestiais. Ela tem veios de minério que jamais se
esgotam e bolsões de ouro que nenhuma picareta pode esvaziar;
contudo, como acontece com os tesouros terrestres, as gemas de
Deus precisam ser diligentemente procuradas, se é que devam ser
encontradas. As batatas ficam bem perto da superfície do terreno,
mas os diamantes exigem laborioso trabalho de escavação; assim
também as preciosidades da Palavra só são reveladas ao estudante
devoto, perseverante e diligente.
A Bíblia é como uma fonte que nunca seca. Não importa
quantos bebam de sua corrente vivificante, e não importa quantas
vezes eles mitiguem sua sede com suas refrescantes águas, seu
fluxo continua e nunca deixa de satisfazer as necessidades de todos
os que vêm dessedentar-se com a água do seu manancial perene.
Ainda há na Bíblia todo um continente da Verdade para ser
explorado. Um douto erudito que morreu durante este ano da graça
de Jesus Cristo tinha lido a Bíblia não menos de quinhentas vezes!
Que outro livro, antigo ou moderno, oriental ou ocidental,
compensaria ler sequer cinquenta vezes?
Como podemos explicar essas maravilhosas características
da Bíblia? Que explicação podemos dar quanto a esse estonteante
fenômeno? Apenas repetimos um lugar-comum quando afirmamos
que o que é finito é possível sondar. O que a mente do homem
produz a mente do homem pode exaurir. Se mortais humanos
tivessem escrito a Bíblia, seu conteúdo teria sido “dominado” há
séculos. Em vista do fato de que não se pode esgotar o conteúdo
das Escrituras, elas nunca adquirem mesmice ou caducidade para o
estudioso devoto, e, considerando que elas sempre falam com
renovado vigor à alma que se apressa em buscá-la, não é evidente
que nenhuma outra coisa, senão a mente de Deus pôde criar um
Livro tão maravilhoso como a Bíblia?
CAPÍTULO 3

A INEQUÍVOCA HONESTIDADE DOS ESCRITORES DA BÍBLIA


ATESTA A SUA ORIGEM CELESTE

O título deste capítulo sugere um vasto campo de estudo,


cujos limites agora só podemos cotejar aqui e ali, começando pelos
escritores do Antigo Testamento.
Se as partes históricas do Antigo Testamento fossem
forjadas, ou fossem uma produção de homens não inspirados, seu
conteúdo seria muito diferente do que é. Cada um dos seus livros foi
escrito por um descendente de Abraão, mas em parte alguma
vemos a exaltação da bravura dos israelitas, e nunca suas vitórias
são consideradas como resultado da sua coragem ou do seu gênio
militar; ao contrário, o sucesso é atribuído ao S , o Deus de
Israel. A essa declaração se poderia replicar que muitas vezes os
escritores pagãos atribuíam as vitórias dos seus povos à
intervenção dos seus deuses. É verdade, mas não há paralelo
nenhum entre os dois casos.
A comparação é impossível. Os escritores pagãos
invariavelmente apresentam os seus deuses como cegamente
parciais em favor dos seus amigos, e sempre que os seus favoritos
falhavam e não saíam vitoriosos, a sua derrota é atribuída à
oposição dos outros deuses ou a um destino cego e inflexível.
Contrariamente a isso, as derrotas de Israel, tanto como as suas
vitórias, são consideradas como procedentes do S . Seus
sucessos não se deviam meramente à parcialidade de Deus, mas
são uniformemente vistas como ligadas a uma zelosa observância
das suas ordens; e, de igual modo, as suas derrotas são retratadas
como resultantes da sua desobediência e dos seus descaminhos.
Se eles desobedeciam às leis do seu Deus, eram derrotados e
humilhados, muito embora sendo o seu Deus o Todo-poderoso.
Mas fizemos alguma digressão. O fato para o qual desejamos
dirigir a atenção é que foram os seus próprios patrícios que
escreveram as crônicas históricas dos israelitas, e nelas registraram
suas derrotas atribuindo-as, não a um destino inexorável, nem a um
mau comando e a fiascos militares, mas sim aos pecados do povo e
à sua iniquidade contrária à santidade de Deus. Este Deus não é
criação da mente humana, e os historiadores do seu povo não
agiam movidos pelos princípios comuns da natureza humana.
Não somente os historiadores judeus narraram as derrotas
militares do seu povo, mas também registraram fielmente os muitos
extravios morais do povo de Israel e suas repetidas experiências de
declínio espiritual. Uma das verdades proeminentes do Antigo
Testamento é que a Unidade de Deus, o fato de que Deus é Um, é
Único, que além dele não há nenhum outro, que todos os outros
deuses são falsos e que prestar-lhes honra é cometer o pecado de
idolatria. Contra o pecado de idolatria esses escritores judeus
bradam repetidamente. Com harmoniosa uniformidade, eles
declaram que esse é um pecado sumamente odioso, segundo o
juízo do céu. Contudo, esses mesmos escritores judeus registram
que uma e outra vezos seus ancestrais (contrariamente à tendência
universal de prestar culto e adoração aos ancestrais) e seus
contemporâneos foram culpados dessa grande iniquidade. Não
somente isso, mas também assinalam que alguns dos seus heróis
mais famosos cometeram esse pecado. Arão e o bezerro de ouro,
Salomão e os derradeiros reis são exemplos notáveis dessa falácia
espiritual.

“No monte que fica a leste de Jerusalém, Salomão


construiu um altar para Camos, o repugnante deus de
Moabe, e para Moloque, o repugnante deus dos
amonitas. Também fez altares para os deuses de todas
as suas outras mulheres estrangeiras, que queimavam
incenso e ofereciam sacrifícios a eles” (1Rs 11.7,8, NVI).
Além disso, eles não fazem nenhuma tentativa para
desculpar o mau procedimento deles; em vez disso, seus atos são
censurados abertamente e condenados intransigentemente. Como
se sabe muito bem, os historiadores humanos tendem a ocultar ou a
atenuar as culpas dos seus protegidos. Uma história forjada teria
vestido os amigos com toda sorte de virtudes, e não ousaria
prejudicar o efeito visado pela revelação dos defeitos dos seus
personagens mais distintos. Nestes fatos fica manifesta a
singularidade da história registrada na Escritura. As suas
personalidades são pintadas com as cores da verdade e da
natureza. Mas essas personalidades nunca foram esboçadas por
algum lápis humano. É preciso reconhecer que Moisés e os demais
escritores da Bíblia escreveram por inspiração divina.
O pecado de idolatria, o pior dos pecados dos quais Israel se
fez culpado, não é o único mal registrado contra eles — toda a sua
história é uma longa narrativa de repetida apostasia contra o
S , o seu Deus. Depois que foram emancipados da escravidão
do Egito e que foram libertados milagrosamente dos seus cruéis
senhores no Mar Vermelho, começaram sua jornada rumo à Terra
Prometida. Entre eles e sua meta havia uma extensão que exigiu
dura marcha através do deserto, e ali se manifestou plenamente a
depravação dos seus corações. Apesar do fato de o S , tendo
destroçado os inimigos dos israelitas, demonstrar claramente que
era o seu Deus, assim que sua fé era posta à prova, seus corações
lhes falhavam. Primeiro, suas reservas de alimento começaram a
esgotar-se, e eles temeram perecer de fome. Circunstâncias
atribuladas baniram o Deus vivo dos seus pensamentos. Eles se
queixaram da sua sorte e murmuraram contra Moisés.
Contudo, Deus não os tratou segundo os seus pecados, nem
lhes retribuiu de acordo com as suas iniquidades: com misericórdia,
deu-lhes pão do céu e lhes forneceu o suprimento diário de maná.
Mas logo ficaram descontentes com o maná e cobiçaram as panelas
de carne do Egito. Todavia, Deus os tratou segundo sua
misericórdia e graça.
Pouco depois da intervenção de Deus pela qual deu alimento
aos israelitas, o que deveria ter fechado as suas bocas para nunca
mais murmurarem, eles acamparam em Refidim, onde “não havia
água para beber. Por essa razão queixaram-se a Moisés e exigiram:
‘Dê-nos água para beber’. Ele respondeu: ‘Por que se queixam a
mim? Por que colocam o S à prova?’ Mas o povo estava
sedento e reclamou a Moisés: ‘Por que você nos tirou do Egito? Foi
para matar de sede a nós, aos nossos filhos e aos nossos
rebanhos?’ Então Moisés clamou ao S : ‘Que farei com este
povo? Estão a ponto de apedrejar-me!’” Qual foi a resposta de
Deus? Sua ira os consumiu? Recusou-se a continuar suportando
um povo de tão dura cerviz? Não. Eis o que ele fez — ordenou a
Moisés: “Passe à frente do povo. Leve com você algumas das
autoridades de Israel, tenha na mão a vara com a qual você feriu o
Nilo e vá adiante. Eu estarei à sua espera no alto da rocha do monte
Horebe. Bata na rocha, e dela sairá água para o povo beber” (Êxodo
17, NVI).
Os episódios acima descritos foram lamentavelmente típicos
e ilustrativos da conduta geral de Israel. Quando os espias foram
enviados para ver como era a Terra Prometida e voltaram e
apresentaram relatório, dez deles agigantaram as dificuldades com
que se defrontaram e aconselharam o povo a não tentar fazer a
ocupação de Canaã; e, apesar dos dois restantes lembrarem
fielmente aos israelitas que o poderoso S poderia e pode
superar facilmente todas as dificuldades, não obstante, a nação só
deu ouvidos a seus conselheiros céticos. Vez após vez os filhos de
Israel provocavam o S e, em consequência, toda aquela
geração pereceu no deserto. Quando a geração subsequente
cresceu, o povo entrou na Terra Prometida, sob a liderança de
Josué, e, com a ajuda de Deus, derrotou muitos dos seus inimigos e
ocupou grande parte do território deles. Mas, depois da morte de
Josué, lemos: “… surgiu uma nova geração que não conhecia o
S e o que ele havia feito por Israel. Então os israelitas fizeram
o que o S reprova e prestaram culto aos baalins.
Abandonaram o S , o Deus dos seus antepassados, que os
havia tirado do Egito, e seguiram e adoraram vários deuses dos
povos ao seu redor, provocando a ira do S . Abandonaram o
S e prestaram culto a Baal e a Astarote” (Juízes 2.10,13).
Não ha nenhuma necessidade de seguirmos a flutuante sorte
dos filhos de Israel: como se sabe, no período dos juízes a história
deles foi uma série de retornos ao Senhor e subsequentes
afastamentos dele; repetidos livramentos das mãos dos seus
inimigos, voltando a infidelidade da parte deles, seguindo-se novo
livramento do jugo dos inimigos, e assim por diante. No período dos
reis não foi melhor. O primeiro deles pereceu por sua voluntária
desobediência e apostasia; o terceiro rei, Salomão, violou a lei de
Deus e se casou com mulheres pagãs, que fizeram seu coração
voltar-se para falsos deuses. Salomão, por sua vez, foi seguido por
vários governantes idólatras, e os passos de Israel se distanciaram
cada vez mais do Senhor, até que ele os entregou a
Nabucodonosor, que capturou Jerusalém, que seu povo tanto
amava, destruiu o seu templo e levou o povo de Israel em cativeiro.
Na repetida menção que fizemos, compulsando o Antigo
Testamento, dos pecados de Israel, descobrimos, numa luz tão clara
como o dia, a absoluta honestidade e sinceridade daqueles que
registraram a história de Israel. Nenhuma tentativa, qualquer que
seja, é feita para ocultar a insensatez dos israelitas, a sua
incredulidade e a sua iniquidade; em lugar disso, é manifestada
plenamente a condição corrupta dos seus corações, e isso por
escritores que pertenciam a essa mesma nação e dela tinham
nascido. Não há paralelo dessa realidade em todos os domínios da
literatura. O registro da história de Israel é absolutamente único. O
leitor atento concluiria, a princípio, que Israel, como nação, foi a
mais depravada do que qualquer outra. Contudo, um pouco mais de
reflexão mostrará que essa inferência é falsa, e o fato real e
concreto é que a história de Israel foi transmitida mais fielmente do
que a de qualquer outra nação. O que queremos dizer é que, tendo
em conta a história registrada na Escritura Sagrada, consideramos
que, em chocante contraste com o que acima foi escrito e
exemplificando os fatos ali expostos, merece notar que Josefo
passa por alto, em silêncio, tudo quanto poderia parecer
desfavorável à sua nação!
Passando agora ao Novo Testamento, começamos com a
personalidade de João Batista e com a posição ocupada por ele.
João Batista é apresentado como um personagem muito eminente.
Somos informados de que o seu nascimento deveu-se a uma
intervenção miraculosa de Deus. Sabemos que ele era “cheio do
Espírito Santo, já do ventre materno” (Lc 1.15). João Batista foi
objeto de predição do Antigo Testamento. O ofício por ele exercido é
o mais honroso já dado a qualquer membro da raça de Adão. Ele foi
o precursor do Messias. Ele antecedeu o nosso Senhor para
preparar o seu caminho. Teve a honra de batizar o nosso bendito
Redentor. Pois bem, onde a sabedoria humana o teria colocado
entre os assistentes do Senhor Jesus? Que posição lhe teria
atribuído? Certamente ele seria exposto como o mais distinguido
dentre os seguidores do nosso Senhor; certamente a sabedoria
humana o teria colocado à destra do Salvador!
Entretanto, que é que vemos? Em vez disso, descobrimos
que ele não teve nenhuma conversa familiar com o Salvador. Ao
contrário, vemos que ele foi tratado com aparente negligência;
vemos que ele foi apresentado como ocupando a posição de
alguém que está em dúvida e que, tendo sido preso, foi
constrangido a enviar uma mensagem a seu Mestre, inquirindo-o se
ele era ou não o Messias prometido. Se a sua personalidade ou o
seu caráter fosse uma invenção humana, algo forjado, nada se
ouviria a respeito da sua vacilação na fé. Na verdade, essa
franqueza é tão contrária aos ditames da sabedoria humana, que
muitos acham chocante atribuir dúvidas ao eminente precursor de
Cristo e têm empregado o máximo do seu engenho e arte para
forçar o sentido óbvio do registro bíblico e inserir outro e diferente
significado. Mas toda essa engenhosidade da arte humana de fazer
sofismas é dissipada pela resposta que o nosso Senhor deu na
ocasião em que lhe foi feita a consulta enviada por João (Mt 11),
resposta que mostra que a pergunta de João Batista foi feita, não
em benefício dos seus discípulos, mas porque o coração do profeta
estava sendo acossado por dúvidas. Novamente dizemos que
nenhuma mente humana poderia ter inventado a personalidade de
João Batista, e que a fidelidade dos seus biógrafos bíblicos é outra
prova de que os escritores da Bíblia eram movidos por algo mais,
algo superior aos princípios que regem a natureza humana.
Outra ilustração notável do título deste nosso capítulo —
ilustração assinalada por muitos — é o tratamento que o Filho de
Deus recebeu enquanto tabernaculou entre os homens. Durante
dois mil anos as esperanças de Israel se haviam centralizado no
advento do seu Messias. O ponto mais alto da ambição de toda
mulher judia era que fosse selecionada por Deus para ter a honra de
ser a mãe da prometida Semente. Durante séculos, todo hebreu
piedoso tinha esperado e anelado pelo dia em que se manifestaria
aquele que ocuparia o trono de Davi, e governaria e reinaria com
justiça. Contudo, quando ele se manifestou, como foi recebido o
Prometido? Foi “desprezado e o mais rejeitado entre os homens”.
“Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.” Aqueles que
eram seus irmãos segundo a carne o “odiaram sem motivo”. A
própria nação que lhe deu o berço e à qual ele serviu, ministrando-
lhe infinita graça e bênção, exigiu que ele fosse crucificado.
O fato espantoso que desejamos salientar particularmente é
que os narradores dessa medonha tragédia eram concidadãos
daqueles sobre cujas cabeças pousou a culpa por perpetrá-la.
Foram escritores judeus que registraram o pavoroso crime da nação
judaica contra o seu Messias! E tornamos a dizer que, no registro
desse crime, não é feita nenhuma tentativa de amenizar ou atenuar
a iniquidade cometida pelos judeus; ao contrário, seu crime é
denunciado e condenado nos termos mais livres e firmes. Israel é
acusado abertamente de ter tomado e, com “mãos ímpias”, ter
matado o “Senhor da glória”. Tão honesta e imparcial exposição do
pecado máximo de Israel só pode ser explicada no sentido de que o
que esses homens escreveram foi inspirado por Deus.
Mais uma ilustração deve bastar. Depois da morte e
ressurreição do nosso Senhor, ele comissionou os seus discípulos
para que saíssem levando dele uma mensagem, primeiro à sua
nação, e depois, a “toda criatura”. Essa mensagem, é bom que se
note, não foi uma maldição invocada sobre as cabeças dos seus
assassinos desumanos, mas sim uma proclamação sobre a graça.
Era uma mensagem de boa notícia, de alegres novas — era
pregado o perdão em seu nome para todos os homens. Como então
a sabedoria humana teria imaginado que tal mensagem seria
recebida? Deve-se observar, ademais, que aqueles que foram assim
comissionados para levar o Evangelho aos perdidos, foram
investidos de poder para curar enfermos e expulsar demônios.
Certamente um ministério tão benéfico encontraria em
universal gesto de boas-vindas! Todavia, por incrível que pareça, os
apóstolos não encontraram melhor apreciação do que o seu Mestre
tinha encontrado. Eles também foram desprezados e rejeitados.
Eles também foram odiados e perseguidos. Eles também foram mal
tratados e aprisionados, e sofreram humilhante morte. E isso, não
somente das mãos de judeus fanáticos, mas também dos cultos
gregos e dos romanos democráticos e amantes da liberdade.
Apesar de esses apóstolos levarem bênção por onde iam, eram
amaldiçoados; apesar de emanciparem os homens da servidão do
pecado e de Satanás, eles mesmos eram capturados e lançados em
prisões; apesar de curarem enfermos e ressuscitarem mortos, eles
sofreram martírio. É certo e seguro que toda mente imparcial vê
claramente que o Novo Testamento não é mera invenção humana;
e, seguramente, a honestidade dos seus escritores em retratarem
fielmente a inimizade da mente carnal contra Deus evidencia que as
suas produções só podem ser explicadas com base nesta verdade:
eles falaram e escreveram, não “de si mesmos”, mas “movidos pelo
Espírito Santo” (2Pe 1.21).
CAPÍTULO 4

O CARÁTER DO SEU ENSINO EVIDENCIA A AUTORIDADE


DIVINA DA BÍBLIA

Tomemos os seus ensinos sobre Deus. Que é que a Bíblia


nos ensina sobre Deus? Ela declara que ele é Eterno:
“Antes que os montes nascessem e se formassem a
terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus”
(Sl 90.2).

Ela revela que Deus é Infinito:


“Mas de fato, habitaria Deus na terra? Eis que os céus e
até o céu dos céus não te podem conter” (1Rs 8.27).

Vasto como sabemos que o universo é, ele tem seus limites;


mas nós temos que ir além deles para mentalizar uma concepção
sobre Deus:
“Porventura desvendarás os arcanos de Deus ou
penetrarás até à perfeição do Todo-poderoso? Como as
alturas dos céus é a sua sabedoria; que poderás fazer?
Mais profunda é ela do que o abismo; que poderás
saber?” (Jó 11.7-9).

A Bíblia faz menção da sua Soberania:


“Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que
eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há
outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio
o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas
que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho
permanecerá de pé, farei toda a minha vontade” (Is
46.9,10).

Ela afirma que Deus é Onipotente:


“Eis que eu sou o S , o Deus de todos os viventes;
acaso haveria coisa demasiadamente maravilhosa para
mim?” (Jr 32.27).

Ela declara que ele é Onisciente.

“Grande é o Senhor nosso e mui poderoso; o seu


entendimento não se pode medir” (Sl 147.5).

A Bíblia ensina que Deus é Onipresente.

“Ocultar-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu


não o veja? ― diz o S ; porventura não encho eu
os céus e a terra? ― diz o S ” (Jr 23.24).

Ela declara que Deus é Imutável:


“Ontem e hoje, é o mesmo, e o será para sempre” (Hb
13.8).

Sim, e afirma que nele


“Não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tg
1.17).

A Bíblia revela que Deus é

“O Juiz de toda a terra” (Gn 18.25)


e que cada ser humano ainda “dará contas de si mesmo a Deus”
(Rm 14.12). A Bíblia anuncia que Deus é inflexivelmente justo em
todos os seus procedimentos, pelo que de modo nenhum “inocenta
o culpado” (Nm 14.18); todos serão julgados “segundo as suas
obras” (Ap 20.12), e vão colher o que semearem (Gl 6.7). Ela revela
que Deus é absolutamente santo, habitando na luz inacessível. Tão
santo é ele que até os serafins têm que velar seus rostos em sua
presença (Is 6.2). Tão santo que os céus não são puros a seus
olhos (Jó 15.15). Tão santo que os melhores homens, quando se
veem frente a seu Criador, sentem-se forçados a gritar: Senhor, eu
“me abomino”! (Jó 42.6); “Ai de mim! Estou perdido!” (Is 6.5).
Esse delineamento da Divindade acha-se tão remotamente
além da concepção humana como os céus estão acima da terra.
Homem nenhum, e nenhum número de homens, jamais inventaram
um Deus como o único Deus vivo e verdadeiro revelado na Bíblia.
Esquadrinhem as bibliotecas dos antigos, examinem os êxtases
contemplativos dos místicos, estudem as religiões dos pagãos, e
nada encontrarão que, por um momento, possa ser comparado com
a sublime e exaltada descrição do caráter de Deus suprida pela
Bíblia.
Os ensinos da Bíblia sobre o homem são únicos.
Diferentemente de todos os outros livros do mundo, a Bíblia
condena o homem e tudo o que ele faz. Ela nunca elogia a sua
sabedoria, nem louva as suas realizações. Ao contrário, ela declara:
“Todo homem, por mais firme que esteja, é pura vaidade” (Sl 39.5).
Em vez de ensinar que o homem é um caráter nobre que evolui em
sua peregrinação pra o céu, ela lhe diz que toda a sua justiça (suas
melhores obras) são “como trapo da imundícia” (Is 64.6), que ele é
um pecador perdido, incapaz de melhorar sua condição; que ele só
merece o inferno.
O quadro que as Escrituras pintam do homem é
profundamente humilhante e inteiramente diferente de tudo quanto é
desenhado por lápis humanos. A Palavra de Deus descreve o
estado do homem natural com a seguinte linguagem:
“Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda,
não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à
uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há
nem um sequer. A garganta deles é sepulcro aberto;
com a língua urdem engano, veneno de víbora está nos
seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de
amargura; são os seus pés velozes para derramar
sangue,nos seus caminhos há destruição e miséria;
desconheceram o caminho da paz. Não há temor de
Deus diante de seus olhos” (Rm 3.10-18).

Em vez de fazer de Satanás a origem de todos os tenebrosos


crimes de que somos culpados, a Bíblia declara:
“Porque de dentro, do coração dos homens, é que
procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos,
os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o
dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a
loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e
contaminam o homem” (Mc 7.21-23).

Essa concepção sobre o homem — tão diferente das ideias


do próprio homem sobre si, e tão humilhante para o seu orgulhoso
coração — nunca poderia emanar do próprio homem.
“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e
desesperadamente corrupto” (Jr 17.9).

O conceito expresso por essas palavras nunca se originou


em nenhuma mente humana.
Os ensinos da Bíblia a respeito do mundo são únicos. Em
nada, talvez, os ensinos da Escritura e os escritos do homem
divergem tanto como neste ponto. Fazendo uso do termo no sentido
de sistema do mundo em contraste com a terra, que direção tomam
os pensamentos do homem concernentes ao mesmo? O homem
tem altas ideias sobre o mundo, pois o considera seu mundo.
Segundo os pensamentos do homem, o mundo é aquilo que os seus
labores produzem e que ele contempla com satisfação e orgulho.
Ele se gaba de que “o mundo está melhorando”. Ele declara que o
mundo está se tornando mais civilizado e mais humanizado. Os
pensamentos do homem sobre este assunto foram bem resumidos
pelo poeta com as conhecidas palavras ― “Deus está no céu: Tudo
está bem com o mundo”.
Mas, que dizem as Escrituras? Também sobre este assunto
descobrimos que os pensamentos de Deus são muito diferentes dos
nossos. A Bíblia, uniformemente, condena o mundo e fala dele
como algo pertencente ao mal. Não tentaremos citar todas as
passagens que fazem isso, mas vamos apenas destacar algumas
amostras.
“Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós
outros, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o
mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do
mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso o
mundo vos odeia” (Jo 15.18,19).

Essa passagem ensina que o mundo odeia tanto Cristo como


os seus seguidores.
“A sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus”
(1Co 3.19).

Certamente nenhuma pena não inspirada escreveu essas


palavras.

“Adúlteros, vocês não sabem que a amizade com o


mundo é inimizade com Deus? Quem quer ser amigo do
mundo faz-se inimigo de Deus” (Tg 4.4, NVI).

Aí também vemos que o mundo é algo mau, condenado por


Deus, e deve ser evitado por seus filhos.

“Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo.


Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele;
porque tudo que há no mundo, a concupiscência da
carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida,
não procede do Pai, mas procede do mundo” (1Jo
2.15,16).

Temos aí uma definição do mundo: é tudo o que se opõe ao


Pai — em seus princípios e em sua filosofia, em suas máximas e em
seus métodos, em seus objetivos e em suas ambições, em sua
tendência e em seu fim — “O mundo inteiro jaz no Maligno” (1Jo
5.19). Aqui ficamos sabendo por que é que o mundo odeia Cristo e
seus seguidores; por que sua sabedoria é loucura para Deus; por
que o mundo é condenado por Deus e deve ser evitado por seus
filhos — é porque o mundo está sob o domínio daquela antiga
serpente, o diabo, que a Escritura denomina especificamente “O
príncipe deste mundo” (Jo 12.31; 14.30; 16.11).
Os ensinos da Bíblia sobre o pecado são únicos. O homem
considera o pecado como um acontecimento infeliz e sempre
procura minimizar a sua enormidade. Nos dias atuais, o pecado é
mencionado por alguns como ignorância ou como um estágio
necessário do desenvolvimento do homem. Outros veem o pecado
como mera negação, o oposto do bem. Já a Sra. Eddy[2] e os seus
seguidores vão tão longe que chegam a negar totalmente a
existência do pecado. Mas a Bíblia, diversamente de todos os
demais livros, despoja o homem de toda e qualquer desculpa e
enfatiza a sua culpabilidade. Na Bíblia nunca o pecado é amenizado
ou atenuado, mas, ao contrário, desde o princípio até o fim, a
Escritura Sagrada insiste em sua enormidade e em sua hediondez.
A Palavra de Deus declara que o pecado é muito grave (Gn
18.20) e que os nossos pecados provocam a ira de Deus (1Rs
16.2). Ela fala do “engano do pecado” (Hb 3.13) e insiste em que o
pecado é “sobremaneira maligno” (Rm 7.13). A Escritura declara
que todo pecado é contra Deus (Sl 51.4) e contra o seu Cristo (1Co
8.12). Ela descreve os nossos pecados como “a escarlata” e
dizendo que são “vermelhos como o carmesim” (Is 1.18). Ela
declara que o pecado é mais que ato, é atitude. Igualmente afirma
que o pecado é mais do que um não cumprimento da lei de Deus —
é rebelião contra aquele que deu a lei. Ela ensina que “o pecado é a
transgressão da lei” (1Jo 3.4), o que significa que o pecado é uma
anarquia, um aberto desafio ao Todo-poderoso. Além disso, a Bíblia
não faz nenhuma distinção ou discriminação de pessoas ou de
classes, no que se refere ao pecado; condena todos igualmente. Ela
anuncia que “todos pecaram e carecem da glória de Deus”, e que
“não há justo, nem um sequer” (Rm 3). Algum homem alguma vez
escreveu tal acusação contra si próprio? Que mente humana
alguma vez inventou tal descrição do pecado como a que se vê na
Bíblia? Ninguém poderia ter imaginado que o pecado é algo tão vil e
terrível aos olhos de Deus que nada, senão unicamente o sangue
de seu amado Filho, poderia fazer expiação por ele, e fez!
O ensino da Bíblia sobre a punição do pecado é único. Um
conceito defeituoso do pecado leva necessariamente a uma
concepção inadequada do que cabe ao pecado sofrer. Minimize a
gravidade e a enormidade do pecado e, inevitavelmente, você
estará reduzindo proporcionalmente a sentença que ele merece. Há
hoje muitos que clamam contra a injustiça da punição eterna contra
o pecado — as penas eternas. Eles se queixam de que a pena não
condiz com o crime. Argumentam eles que é injusto o pecador sofrer
eternamente em consequência de um breve período vivido na
prática do mal. Considere-se, porém, que nem neste mundo é a
extensão do tempo que se leva para cometer um crime que
determina a severidade da sentença. Muitos têm sofrido prisão
perpétua por um crime que tomou só alguns minutos para sua
perpetração.
Contudo, independentemente dessa consideração, a punição
eterna é justa, desde que o pecado seja considerado do ponto de
vista de Deus. Mas é justamente isso que a maioria dos homens se
recusa a fazer. Eles só olham o pecado e seus merecimentos do
lado humano. Uma razão pela qual a Bíblia foi escrita foi para
corrigir as nossas ideias e os nossos conceitos sobre o pecado,
para nos ensinar quão indescritivelmente terrível e vil coisa ele é,
para mostrar-nos o pecado como Deus o vê. Por um único pecado
Adão e Eva foram banidos do Éden. Por um único pecado Canaã e
toda a sua posteridade foi amaldiçoada. Por um único pecado Coré
e seu grupo foram lançados vivos num abismo. Por um único
pecado Moisés foi barrado e não pôde entrar na Terra Prometida.
Por um único pecado Acã e sua família foram apedrejados até à
morte. Por um único pecado o servo de Eliseu foi ferido com lepra.
Por um único pecado Ananias e Safira foram cortados da terra dos
viventes. Por quê? Para nos ensinar que é um mal infinito revoltar-
nos contra o Deus três vezes santo. Tornamos a dizer que, se os
homens tão somente vissem a terribilidade do pecado — se tão
somente vissem que foi o pecado que levou a uma morte
ignominiosa o Senhor da Glória — compreenderiam, então, que
nada menos que a punição eterna pode satisfazer as exigências que
a justiça impõe aos pecadores.
Mas a grande maioria dos homens não vê a propriedade ou a
justiça das penas eternas; ao contrário, eles gritam contra elas. Nas
terras que não foram iluminadas pelas Escrituras do Antigo
Testamento, nas quais não existia nenhuma fé na vida futura,
sustentava-se que, na morte, os maus passavam por algum
sofrimento temporário para fins de correção e purificação, ou então
eram exterminados. Mesmo na cristandade, onde a Palavra de Deus
teve um lugar público e proeminente durante séculos, a grande
massa do povo não crê nas penas eternas. Eles argumentam que
Deus é por demais misericordioso e bom para enviar qualquer de
suas criaturas a uma miséria sem fim. Sim, não poucos homens e
mulheres do povo do Senhor temem tomar ao pé da letra os ensinos
das Escrituras sobre este assunto. É, pois, evidente que, se a Bíblia
fosse escrita por homens não inspirados, fosse tão somente uma
composição humana, certamente não ensinaria a doutrina dos
tormentos eternos e conscientes de todos os que morrem sem
Cristo. O fato de que a Bíblia ensina tal verdade é prova conclusiva
de que foi escrita por homens que não falavam de si mesmos, mas
que foram “movidos pelo Espírito Santo”.
Os ensinos da Palavra de Deus sobre as penas eternas são
tão claros e explícitos quanto são sérios e temíveis. Tais ensinos
declaram que o destino de quem rejeita Cristo é um tormento
consciente, interminável e indescritível. A Bíblia descreve o local da
punição como um lugar “onde não lhes morre o verme, nem o fogo
se apaga” (Mc 9.48). Fala sobre esse lugar como um lago de fogo e
enxofre (Ap 20.10), onde até uma gota d’água é negada ao sofredor
em agonia (Lc 16.24). A Bíblia declara que
“A fumaça do seu tormento sobe pelos séculos dos
séculos, e não têm descanso algum, nem de dia nem de
noite” (Ap 14.11).

Ela representa o mundo dos perdidos como um cenário no


qual não penetra luz nenhuma — “a negridão das trevas, para
sempre” (Jd 1.13) — um amargo destino não aliviado por nenhum
raio de esperança. Em resumo, a porção que cabe aos perdidos
será insuportável, e, no entanto, terá que ser suportado, e terá que
ser suportado para sempre. Que mente mortal poderia ter concebido
tal destino? Essa concepção é repugnante e repulsiva demais para
o coração humano, para ter tido seu nascimento na terra.
O ensino da Bíblia acerca da salvação do jugo do pecado é
único. Os pensamentos do homem sobre a salvação, como sobre
todos os outros assuntos que exigem o envolvimento da sua mente,
são defeituosos e deficientes. Daí a força da seguinte admoestação

“Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo, os seus
pensamentos” (Is 55.7).

Em primeiro lugar, entregue a si mesmo, o homem não


percebe sua necessidade de salvação. No orgulho do seu coração,
ele se imagina pessoalmente suficiente, e, devido ao
obscurecimento do seu entendimento, causado pelo pecado, ele
não compreende a sua situação de ruína e perdição. Como o fariseu
que confiava em sua justiça própria, ele dá graças a Deus por não
ser como os outros homens, por ser superior aos selvagens e aos
criminosos, e se recusa a acreditar que, quanto à sua posição diante
de Deus, não há “nenhuma diferença”. Só quando o Espírito age no
homem, este é constrangido a gritar: “Ó Deus, sê propício a mim,
pecador!”.
Em segundo lugar, o homem ignora o caminho da salvação.
Mesmo quando o homem é levado ao ponto em que reconhece que
não está preparado para encontrar-se com Deus, e que, se
morresse em seu presente estado, estaria perdido eternamente,
mesmo então, ele não tem uma correta concepção do remédio.
Ignorando a justiça de Deus, ele procura estabelecer a sua própria
justiça. Ele imagina que deve fazer alguma reparação pessoal por
suas más ações passadas, que deve trabalhar para sua salvação,
fazer algo para merecer a boa estima de Deus, e, assim, ganhar o
céu como recompensa. O mais alto conceito da mente do homem é
o conceito sobre méritos. Para ele a salvação é um salário que se
espera ganhar, uma coroa que se deve cobiçar, um prêmio que se
deve conquistar. Vê-se a prova disso no fato de que, mesmo quando
o perdão e a vida são apresentados como dádivas gratuitas, a
tendência universal, a princípio, é considerar esse presente como
“bom demais para ser verdade”. Todavia, este é o claro ensino da
Palavra de Deus —
“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não
vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que
ninguém se glorie” (Ef 2.8,9).

E mais:

“Não por obras de justiça praticadas por nós, mas


segundo a sua misericórdia, ele nos salvou” (Tt 3.5).

Se é certo que o homem, entregue a si mesmo, nunca se


daria conta da sua necessidade de salvação e nunca descobriria
que a salvação é pela graça e não pelas obras, muito menos a
mente humana seria capaz de subir ao nível daquilo que a Palavra
de Deus ensina sobre a natureza da salvação e sobre o glorioso e
maravilhoso destino dos salvos! Quem pensaria que o Criador e
Governador do universo tomaria posse de pobres, caídos e
depravados homens e mulheres, e os elevaria do barro lamacento
para torná-los seus filhos e suas filhas, e os faria sentar-se à sua
mesa?! Quem alguma vez teria sugerido que os que nada merecem
senão a vergonha e o desprezo eterno seriam feitos “herdeiros de
Deus e coerdeiros com Cristo”?! Quem teria sonhado que mendigos
seriam retirados do monturo do pecado e seriam convidados a
sentar-se com Cristo nos lugares celestiais?! Quem teria imaginado
que a corrompida prole do desobediente Adão seria exaltada e
ocuparia uma posição mais alta que a ocupada pelos anjos que não
caíram?! Quem teria ousado afirmar que um dia seria “feito como
Cristo” e que “estaria para sempre com o Senhor”?! — Esses
conceitos achavam-se tão além do alcance do mais alto intelecto
humano como do mais rude selvagem.
“Mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos
ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o
que Deus tem preparado para aqueles que o amam. Mas
Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a
todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de
Deus” (1Co 2.9,10).

Outra vez perguntamos: Que intelecto humano poderia ter


imaginado um meio pelo qual Deus seria misericordioso e, contudo,
justo? Que mente mortal teria sonhado com uma salvação gratuita e
completa concedida a pecadores merecedores do inferno, “sem
dinheiro e sem preço”? E que voo da imaginação carnal poderia
conceber que o Filho de Deus seria “feito pecado” por nós,
morrendo o justo pelos injustos?!
O ensino da Bíblia concernente ao Salvador dos pecadores é
único. A descrição que as Escrituras oferecem da Pessoa, do
Caráter e da Obra Redentora do Senhor Jesus Cristo não tem coisa
alguma que nem de longe se lhe compare em todos os domínios da
literatura. É mais fácil supor que o homem poderia criar um mundo
do que acreditar que ele inventou o caráter do nosso adorável
Redentor. Dado algum mecanismo delicado, complexo e exato em
todos os seus movimentos, logo sabemos que é produto de um
competente mecânico. Dada uma obra de arte bela, simétrica e
original, logo sabemos que só pode ser produto de um artista
magistral. Ninguém senão um Miguel Ângelo poderia ter projetado o
retrato de Pedro que ele desenhou; ninguém senão um Rafael
poderia ter pintado a “transfiguração”; ninguém senão um Milton
poderia ter escrito algo como Paraíso Perdido. E ninguém senão o
Espírito Santo poderia produzir o incomparável retrato do Senhor
Jesus que vemos nos evangelhos. Em Cristo se combinam todas as
excelências imagináveis e inimagináveis.
Temos aí um dos muitos aspectos em que Jesus difere de
todas as outras personalidades da Bíblia. Em cada um dos grandes
heróis da Escritura algum traço sobressai com peculiar nitidez —
Noé, testemunho fiel; Abraão, fé em Deus; Isaque, submissão a seu
pai; José, amor por seus irmãos; Moisés, altruísmo e mansidão;
Josué, coragem e liderança; Jó, vigor e paciência; Daniel, fidelidade
a Deus; Paulo, zelo no servir; João, discernimento espiritual — mas
no Senhor Jesus encontram-se todas as graças. Além disso, nele
todas essas perfeições eram proporcionais e equilibradas. Ele era
manso, e contudo régio; era gentil, e contudo destemido; era
compassivo, e contudo justo; era submisso, e contudo possuidor de
autoridade; era divino, e contudo humano.
Acrescente-se a essas perfeições o fato de que ele era
absolutamente “sem pecado”, e sua singularidade se evidenciará
clara e patente. Em parte alguma de todos os escritos da
antiguidade se acha a apresentação de um caráter tão maravilhoso
e inigualável.
Não somente o retrato do caráter de Cristo é sem rival, mas
também o ensino da Bíblia concernente à Sua Pessoa e à Sua obra
é inteiramente inacreditável sobre qualquer outra base que não o
fato de que faz parte de uma revelação divina. Quem se atreveria a
imaginar o Criador e Sustentador do universo tomando sobre si a
forma de servo e se fazendo à semelhança dos homens? Quem
teria concebido a ideia de o Senhor da Glória nascer numa
manjedoura? Quem teria sonhado que o divino Objeto da adoração
dos anjos se faria tão pobre que não teria onde pousar sua cabeça?
Quem teria declarado que aquele diante de quem os serafins
velavam seus rostos seria levado como um cordeiro para o
matadouro, seria humilhado tendo o seu bendito rosto contaminado
pelo cuspe vil do homem, e se deixaria açoitar e esbofetear por
criaturas feitas por suas mãos? Quem teria concebido a ideia de o
Emanuel fazer-se obediente até a morte, e morte de cruz?!
Temos aí um argumento que os mais simples podem
compreender. As Escrituras contêm sua própria evidência de que
são inspiradas por Deus. Cada página das Sagradas Letras leva a
estampa do autógrafo do S . O caráter único dos seus ensinos
demonstra o caráter único da sua Origem. Os ensinos das
Escrituras acerca de Deus, do homem, do mundo, do pecado, das
penas eternas, da salvação e do Senhor Jesus Cristo são uma
prova de que a Bíblia não é produto de nenhum homem, nem de
nenhum grupo de homens, mas é, de verdade, uma revelação de
Deus e oriunda de Deus.
CAPÍTULO 5

AS PROFECIAS DA BÍBLIA CUMPRIDAS INDICAM A


ONISCIÊNCIA DO SEU AUTOR

Em Isaías 41.21-23 temos o que provavelmente é o maior


desafio que se pode achar na Bíblia: “Apresentai a vossa demanda,
diz o S : alegai as vossas razões, diz o Rei de Jacó. Trazei e
anunciai-nos as coisas que hão de acontecer; relatai-nos as
profecias anteriores, para que atentemos para elas e saibamos se
se cumpriram; ou fazei-nos ouvir as coisas futuras. Anunciai-nos as
coisas que ainda hão de vir, para que saibamos que sois deuses”.
Essa passagem tem valor tanto negativo como positivo:
negativamente, sugere um critério infalível pelo qual podemos testar
as pretensões dos impostores religiosos; positivamente, ela chama
a atenção para um irrespondível argumento em favor da veracidade
da Palavra de Deus. O S exige que os profetas de falsas
crenças façam com sucesso predições de acontecimentos de um
distante futuro, e o seu sucesso ou fracasso mostrará se eles são
deuses ou se são pretensiosos fingidos ou enganadores. Por outro
lado, o fato demonstrado de que somente Deus abarca os séculos e
em sua Palavra declara o fim desde o princípio, mostra que ele é
Deus e que as Escrituras são a sua revelação inspirada para toda a
humanidade.
Repetidas vezes os homens têm tentado predizer
acontecimentos futuros, mas sempre com o mais desastroso
fracasso: as antecipações dos videntes mais abrangentemente
capazes, e as precauções dos mais prudentes são escarnecidas
repetidamente pela amarga ironia dos fatos. O homem se levanta
diante de uma parede de trevas; é incapaz de prever os
acontecimentos até mesmo da próxima hora. Ninguém sabe o que
um dia pode trazer. Para a mente finita o futuro está cheio de
possibilidades desconhecidas. Como então podemos explicar as
centenas de detalhadas profecias das Escrituras que foram
cumpridas literalmente, ao pé da letra, centenas de anos depois de
terem sido proferidas? Como explicar o fato de que a Bíblia
predisse, com pleno êxito, centenas, e em alguns casos, milhares
de anos antes, a história dos judeus, o curso dos gentios, e as
experiências da igreja? Os críticos mais conservadores e os mais
atrevidos agressores da Palavra de Deus são compelidos a
reconhecer que todos os livros do Antigo Testamento foram escritos
centenas de anos antes da encarnação do nosso Senhor; daí, o
cumprimento real e preciso dessas profecias só pode ser explicado
com base na hipótese segundo a qual “nunca jamais qualquer
profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos
falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo”.
O Inspirador das Escrituras nos disse que
“Temos assim, tanto mais confirmada a palavra profética,
e fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que
brilha em lugar tenebroso” (2Pe 1.19).

No espaço limitado de que dispomos só podemos recorrer a


algumas dentre muitas profecias da Palavra de Deus cumpridas, e
vamos limitar-nos às que se referem à Pessoa e Obra do Senhor
Jesus Cristo. Confiamos em que a força cumulativa dessas
profecias será suficiente para convencer todo e qualquer inquiridor
imparcial de que unicamente a mente de Deus, e nenhuma outra,
pôde ou poderia descerrar o futuro e pôr a descoberto, de antemão,
acontecimentos muito distantes no tempo.
“O testemunho de Jesus e o Espírito de profecia.” O Cordeiro
de Deus é o único objeto e assunto da Palavra Profética. Em
Gênesis 3.15 temos a primeira palavra sobre a vinda de Cristo.
Dirigindo a palavra à serpente, o S disse: “Porei inimizade
entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente.
Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. Note-se que o
ser que havia de vir seria “descendente” ou “semente” da mulher.
Significa que o caráter miraculoso do nascimento do nosso Senhor
foi predito quatro mil anos antes de ele nascer em Belém!
Em Gênesis 22.18 temos a segunda distinta profecia
messiânica. A Abraão o anjo do S declarou: “Nela [em tua
semente] serão benditas todas as nações da terra”. O Salvador dos
pecadores não somente seria humano, mas também divino; não
somente seria semente ou descendente “da mulher”, mas também,
na passagem supra, foi declarado que ele seria descendente de
Abraão ― um israelita. Pode-se ver como isso se cumpriu por uma
referência ao primeiro versículo do Novo Testamento, onde nos é
dito (Mt 1.1) que Jesus Cristo era “filho de Davi, filho de Abraão”.
Mas o limite foi reduzido ainda mais, pois nos é comunicado
pelas Escrituras do Antigo Testamento qual seria a tribo específica
da qual surgiria o Messias — o nosso Senhor viria da tribo de Judá
(a tribo da realeza). Ele seria descendente de Davi. Deus mandou o
profeta Natã dizer a Davi:
“Farei levantar depois de ti o teu descendente, que
procederá de ti, e estabelecerei o seu reino. Este
edificará uma casa ao meu nome, e eu estabelecerei
para sempre o trono do seu reino” (2 Samuel 7.12,13).

E novamente, no Salmo 132.11, Davi declara, a respeito do


Messias prometido: “O S jurou a Davi com firme juramento e
dele não se apartará: Um rebento da tua carne farei subir para o teu
trono”.
Não somente a nacionalidade do nosso Senhor foi definida
centenas de anos antes da sua encarnação, mas também até o
lugar do seu nascimento. Em Miqueias 5.2 somos informados:
“E tu, Belém Efrata, pequena demais para figurar como
grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de
reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos
antigos, desde os dias da eternidade”.
Cristo haveria de nascer em Belém, e não somente em
qualquer das diversas vilas que tinham esse nome na Palestina,
mas Belém da Judeia seria o lugar de nascimento do Redentor do
mundo. Embora Maria fosse natural de Nazaré (muito longe de
Belém), graças à providência de Deus sua Palavra cumpriu-se
literalmente, pois seu Filho nasceu em Belém da Judeia.
Além disso, o tempo preciso da manifestação do Messias foi
dado por meio de Jacó e de Daniel (veja Gn 49.10 e Dn 9.24-26).
Agora, para que o leitor possa apreciar a força destas profecias
maravilhosas e sobrenaturais, procure predizer a nacionalidade, o
lugar e a data do nascimento de alguém que se supõe que venha a
nascer no século vinte e cinco d.C., e então certamente verá que
ninguém senão alguém inspirado e informado pelo próprio Deus
pôde e pode realizar tal proeza, que de outro modo seria impossível.
Tão definidas e distintas foram as profecias do Antigo
Testamento referentes ao nascimento de Cristo, que a esperança de
Israel tornou-se a esperança messiânica; todas as expectativas de
Israel foram centralizadas na vinda do Messias. É, pois,
extraordinário que as suas Escrituras Sagradas contenham outro
grupo de profecias que prediziam que ele seria desprezado por sua
nação e rejeitado por seus parentes. Agora só podemos chamar a
atenção para uma das profecias que declaravam que o Messias de
Israel seria tratado com descaso e seria escarnecido por seus
irmãos segundo a carne.
Em Isaías 53.2,3 lemos:
“[Nós, Israel], olhamo-lo, mas nenhuma beleza havia que
nos agradasse. Era desprezado e o mais rejeitado entre
os homens; homem de dores e que sabe o que é
padecer; e, como um de quem os homens [nós
escondemos] escondem o rosto, era desprezado,e dele
não fizemos caso!”

Façamos uma pausa aqui por um momento, para que


alarguemos nossa visão desse estranho e extraordinário fenômeno.
Por mais de cinco séculos a vinda do Messias tinha sido, por
excelência, a grande esperança nacional de Israel. Desde o berço
os filhos de Abraão recebiam instrução sobre orar e esperar o seu
advento. A avidez com que eles aguardavam o aparecimento da
Estrela de Jacó não tem paralelo na história de qualquer outra
nação. Como podemos explicar que, quando ele veio, foi
desprezado e rejeitado? Como podemos explicar que bem ao lado
da intensa expectação pela manifestação do seu Rei, um dos
profetas predisse que quando ele viesse os homens esconderiam
dele o rosto e não teriam nenhuma estima por ele? Finalmente, que
explicação temos para oferecer quanto ao fato de que tais coisas
foram preditas séculos antes da sua vinda à terra e que foram
cumpridas literalmente, ao pé da letra? Como alguém disse:
“Nenhuma predição poderia parecer mais improvável, e, contudo,
nenhuma recebeu mais triste e mais completo cumprimento”.
Passemos agora àquelas predições que se referem à morte
do nosso Senhor. Se foi maravilhoso que um profeta israelita
predissesse a rejeição do Messias por parte de sua própria nação,
que diremos do fato de que as Escrituras do Antigo Testamento
profetizaram em detalhe a maneira ou a forma de sua morte?
Todavia, vezes repetidas vemos que foi isso que se deu.
Examinemos alguns exemplos típicos.
Primeiro, foi anunciado que o nosso Senhor seria traído e
vendido pelo preço de um escravo comum. Em Zacarias 11.12
lemos: “Pesaram, pois, por meu salário, trinta moedas de prata”.
Quem seria capaz de declarar, séculos antes de dar-se o
acontecimento, a quantia exata que Judas receberia por seu
covarde ato? Em Isaías 53.7 temos outra linha deste quadro
estupendo que nenhuma sabedoria humana poderia suprir —
“Como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda
perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca”. Quem poderia
ter previsto esta cena tão incomum de um prisioneiro em pé, diante
dos seus juízes, com sua vida em jogo, e, todavia, sem tentar
apresentar defesa alguma? Contudo, foi precisamente isso que
aconteceu com o nosso Senhor, pois em Marcos 15.5 nos é dito:
“Jesus, porém, não respondeu palavra, a ponto de Pilatos muito se
admirar”. De novo: Setecentos anos antes de suceder a maior
tragédia da história humana, quem poderia saber dela e promulgar
que o Filho de Deus, o Rei dos reis, o homem mais gentil e mais
meigo que já pisou a nossa terra, seria açoitado e cuspido? No
entanto, essa experiência foi predita:
“Ofereci as costas aos que me feriam e as faces, aos
que me arrancavam os cabelos; não escondi o rosto aos
que me afrontavam e me cuspiam” (Is 50.6).

E mais: A forma da pena capital reservada para os


criminosos judeus era “o apedrejamento”, e no tempo de Davi a
experiência de “crucifixão” era inteiramente desconhecida;
entretanto, no Salmo 22.16, que o rei de Israel foi inspirado a
escrever, vemos: “traspassaram-me as mãos e os pés”. De novo:
Que previsão humana poderia ter visto que nas agonias do Messias
na cruz seriam dados fel e vinagre para o nosso Senhor beber?
Todavia, mil anos antes de o Senhor da Glória ser cravado no
madeiro, foi declarado:
“Por alimento me deram fel, e na minha sede me deram
a beber vinagre” (Sl 69.21).

Finalmente perguntamos: Como Davi pôde prever, a não ser


que fosse inspirado pelo Espírito Santo, que o nosso Senhor seria
escarnecido por seus inimigos e desafiado a descer da cruz?
Contudo, no Salmo 22.7,8 lemos:
“Todos os que me veem zombam de mim; afrouxam os
lábios e meneiam a cabeça: Confiou no S ! Livre-o
ele; salve-o, pois nele tem prazer”.

Exemplos como os que acima foram dados poderiam ser


multiplicados indefinidamente, mas as ilustrações oferecidas são
suficientes para nos habilitar a dizer que as profecias da Bíblia
cumpridas nos afiançam a onisciência do seu Autor.
Se fosse necessário, e tivéssemos o espaço sob o nosso
comando, dúzias de profecias cumpridas adicionais relacionadas
com a História de Israel, com o curso dos gentios e com as
experiências da igreja — profecias tão definidas, acuradas e
notáveis como as que se relacionam com a Pessoa do Senhor
Jesus Cristo — poderiam ser apresentadas, mas o nosso limite e o
nosso propósito nos proíbem fazê-lo.
Tendo examinado algumas das impressionantes profecias
que tratam do nascimento e da morte do nosso Salvador, agora só
nos resta aplicar numa palavra a significação deste argumento.
Muitos leram essas passagens antes, e talvez as tenham
considerado como maravilhosamente descritivas do advento e da
paixão de Jesus Cristo, mas quantos terão sopesado o fato de que
cada uma dessas passagens estava incontestavelmente em
existência havia mais de quinhentos anos antes de o nosso Senhor
vir à terra?
O homem é incapaz de predizer acuradamente
acontecimentos que estão apenas vinte e quatro horas distantes; só
a Mente Divina poderia ter predito o futuro com séculos de
antecedência. Por isso afirmamos com a máxima confiança que
centenas de profecias da Bíblia cumpridas atestam e demonstram a
verdade segundo a qual as Escrituras são a Palavra de Deus
inspirada, infalível e inerrante.
CAPÍTULO 6

A SIGNIFICAÇÃO TÍPICA DAS ESCRITURAS DECLARA SUA


AUTORIA DIVINA

“No rolo do livro está escrito a meu respeito” (Hb 10.7). Cristo
é a Chave das Escrituras. Disse ele: “Examinai as Escrituras… são
elas mesmas que testificam de mim” (Jo 5.39), e as “Escrituras” às
quais ele se referiu não eram os quatro evangelhos, pois eles ainda
não tinham sido escritos, mas sim os escritos de Moisés e dos
profetas. Portanto, as Escrituras do Antigo Testamento são algo
mais que uma compilação de registros históricos, mais que um
sistema de legislação social e religiosa, mais que um código de
ética. As Escrituras do Antigo Testamento são fundamentalmente
um palco no qual é exposto, com vívido simbolismo e ritualismo, o
plano geral da redenção. Os acontecimentos registrados no Antigo
Testamento foram ocorrências reais e concretas, mas também eram
prefigurações típicas. Em todo o curso da dispensação do Antigo
Testamento, Deus fez com que fosse figurada em representação
parabólica a obra completa da redenção, por meio de um constante
e vívido apelo aos sentidos. Isso estava em plena harmonia com a
lei fundamental da economia de Deus. Nada é levado
imediatamente à maturidade.
Como acontece no mundo natural, assim acontece no mundo
espiritual: primeiro há o talo, depois a espiga, e depois o trigo
enchendo a espiga. Concernente à Pessoa e à Obra do Senhor
Jesus, primeiro Deus fez uma série de representações pictóricas,
mais tarde um número maior de profecias específicas, e, por último,
tendo chegado a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho. Não
discernir a significação típica das Escrituras do Antigo Testamento é
um erro que tem feito com que grande parte delas seja tratada com
descaso por muitos leitores da Bíblia. Para multidões de Pessoas o
Pentateuco é pouco mais que uma compilação de ritos cerimoniais
sem sentido e estéreis, e, se não há nele nada mais excelente do
que sua aparência externa, então, certamente, é muito estranho que
elas encontrem lugar na Palavra de Deus. Tire Cristo do ritual do
Antigo Testamento, e você ficará sem nada, exceto a casca seca e
vazia de uma noz. É, pois, razão pra pouca surpresa que aqueles
que veem tão pouco de Cristo nas Escrituras do Antigo Testamento
subestimem a instrução e a edificação que se pode obter de cada
parte delas, e tenham ideias tão degradantes da sua inspiração.
Negue que há um sentido espiritual em todas as leis e em todos os
costumes dos israelitas, que alimento para a alma você poderá
obter do estudo delas? Negue que há muitas representações típicas
de Cristo e do seu sacrifício pelo pecado, e você lançará vitupério
sobre o nome e a sabedoria de Deus por sugerir que ele instituiu as
ordenanças carnais, as aborrecidas cerimônias, os atos de
propiciação mediante sacrifício de animais, registrados nos livros
iniciais da Bíblia.
A significação típica e o valor espiritual da economia judaica,
tanto em geral como em suas numerosas partes, são afirmados
expressamente no Novo Testamento. Referindo-se às narrativas e
aos acontecimentos registrados no Antigo Testamento, o apóstolo
Paulo declara que
“Tudo quanto outrora foi escrito, para nosso ensino foi
escrito” (Rm 15.4).

Posteriormente, ao fazer menção do êxodo de Israel do Egito


e sua jornada pelo deserto, ele afirma: “Essas coisas ocorreram
como exemplos (margem: “tipos”)” e “Essas aconteceram a eles
como exemplos e foram escritas como advertências para nós” (NVI).
E também, ao comentar e expor o sentido espiritual do tabernáculo,
ele declara que o mesmo era “figura e sombra das coisas celestes”
(Hb 8.5). No capítulo seguinte ele declara que o tabernáculo era
uma figura para a época então presente” (9.8,9, VA), e em Hebreus
10.1 ele estabelece que “a lei” tinha “[uma] sombra dos bens
vindouros”. Com base nessas declarações, fica evidente que Deus,
pessoalmente, fez com que o tabernáculo fosse erigido exatamente
de acordo com o modelo que ele tinha mostrado a Moisés, com o
expresso propósito de que fosse um tipo para simbolizar coisas
celestiais. Daí decorre que é nosso privilégio e forçoso dever
procurar, com o auxílio do Espírito Santo, averiguar o sentido dos
tipos do Antigo Testamento.
Em acréscimo às declarações expressas do Novo
Testamento acima citadas, há várias passagens que também
ensinam a mesma coisa. João Batista saudou o nosso Senhor como
“o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”; isto é, como o
grande Antítipo dos cordeiros sacrificiais do ritual do Antigo
Testamento. Em seu diálogo com Nicodemos, o nosso Senhor fez
alusão à serpente de bronze levantada no deserto como o tipo do
seu levantamento na cruz. Escrevendo aos coríntios, disse o
apóstolo Paulo: “Cristo, nosso Cordeiro pascal” (1Co 5.7; VA:
“Cristo, nossa páscoa”), querendo dizer com isso que Êxodo 12
apontava para o Senhor Jesus. Escrevendo aos gálatas, o mesmo
apóstolo faz menção da história de Abraão, suas mulheres e seus
filhos, e depois declara: “Estas coisas são alegóricas” (Gl 4.24).
Pois bem, há muitos irmãos que captarão o significado típico
destas coisas, mas que se recusarão a reconhecer que qualquer
outra coisa existente no Antigo Testamento tem significado típico,
salvo as que são expressamente interpretadas no Novo. Mas
entendemos que isso é um erro, e é colocar limite no escopo e no
valor da Palavra de Deus. Antes, devemos considerar esses tipos
do Antigo Testamento que são expostos no Novo Testamento como
amostras de outros que não são explicados. Não há no Antigo
Testamento mais profecias do que aquelas que, no Novo
Testamento, são ditas “cumpridas”? É certo que há. Então
admitamos o mesmo que admitimos quanto aos tipos.
Encheríamos vários volumes se nos demorássemos em tudo
o que, no Antigo Testamento, tem significado típico e aplicação
espiritual. Tudo o que podemos tentar fazer agora é destacar
algumas ilustrações como amostras, deixando com os nossos
leitores a busca mais ampla para este fascinante estudo.
Já o capítulo primeiro de Gênesis é rico de conteúdo
espiritual. Não somente ele nos dá o único confiável e autêntico
relato da criação deste mundo, mas também revela a ordem de
Deus na obra da nova criação. Em Gênesis 1.1 temos a criação
original ou primitiva — “no princípio”. Do versículo dois em diante
inferimos que em seguida houve uma terrível calamidade.[3] A obra
das mãos de Deus foi corrompida e desfigurada: “a terra tornou-se”
(não “estava”) sem forma e vazia” — uma desolada vastidão e uma
ruína vazia. A terra foi submergida. Um cenário de tristeza e morte
introduziu-se — “e havia trevas sobre a face do abismo”. Essa
história não é somente a história da terra; é também a do homem.
No princípio ele foi criado por Deus — criado à imagem e
semelhança do seu Criador. Porém seguiu-se uma terrível
calamidade. Um inimigo apareceu em cena. O coração da criatura
foi seduzido, vindo como consequência a incredulidade e a
desobediência. O homem caiu, e sua queda foi pavorosa. A imagem
de Deus no homem foi quebrada; a natureza humana foi arruinada
pelo pecado; desolação e morte tomaram o lugar da semelhança e
da vida de Deus. Em consequência do seu pecado, a mente do
homem ficou cega e as trevas pousaram sobre a face do seu
entendimento.
A seguir lemos em Gênesis 1 sobre a obra de reconstrução.
A ordem seguida é profundamente significativa — “O Espírito de
Deus se movia sobre a face das águas. Disse Deus: ‘Haja luz’, e
houve luz” (versículos 3,4, NVI). O paralelo é válido quanto à
regeneração. Na obra do novo nascimento, realizada dentro do
pecador entenebrecido e espiritualmente morto, o Espírito de Deus
é o primeiro e o principal motor, convencendo a alma da sua
condição perdida e arruinada e revelando a necessidade da ação do
Salvador. O instrumento por ele empregado é a Palavra escrita, a
Palavra de Deus, e em cada conversão genuína Deus diz: “Haja
luz”, e há luz.

“Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a


luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para
iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face
de Cristo” (2Co 4.6).

Poder-se-ia seguir o paralelo muito mais, mas foi dito o


suficiente para mostrar que, sob a história espiritual de Gênesis 1,
os olhos ungidos podem discernir a história da nova criação do
crente, e, como tal, essa história traz a estampa do seu Autor divino
e evidencia o fato de que o capítulo inicial da Bíblia não é mera
compilação humana.
Nas vestes de pele com as quais o Senhor Deus vestiu os
nossos primeiros pais temos um incidente repleto de instrução
espiritual que jamais poderia ter sido inventado pelo homem. Para
se obterem essas peles foi necessário tirar vida, foi preciso
derramar sangue; os inocentes (animais) tiveram que morrer no
lugar de Adão e Eva, que eram culpados, para prover uma cobertura
para eles. Assim as verdades evangélicas da redenção pelo
derramamento de sangue e da salvação mediante sacrifício
substitutivo, foram pregadas no Éden. É preciso notar que o homem
não fez melhor que o “filho pródigo” em sua tentativa de prover-se
de uma cobertura. Tampouco lhes foi pedido mais que ao pródigo
que se vestissem. Quanto àquele caso, lemos:
“Fez o S vestimenta de peles para Adão e sua
mulher e os vestiu” (Gn 3.21);
e nestoutro caso a ordem foi: “Trazei depressa a melhor roupa,
vesti-o” (Lc 15.22), e ambos falam do “manto de justiça” (Sl 61.10),
que o salvo recebe em Cristo.

Nas ofertas que Caim e Abel apresentaram ao Senhor, e na


resposta que eles receberam, descobrimos uma prefiguração das
verdades do Novo Testamento. Abel trouxe das primícias do seu
rebanho e da gordura deste. Ele reconheceu que estava alienado de
Deus e que não podia aproximar-se dele sem uma oferenda
apropriada. Ele viu que a sua vida sofrera a perda de direitos por
meio do pecado, que a justiça clamava por sua morte, e que a sua
única esperança estava em outro (um cordeiro) morrer em seu lugar.
Pela fé Abel apresentou a sua oferta cruenta a Deus, e ela foi
aceita. Por outro lado, Caim recusou-se a assumir o lugar de
pecador perdido diante de Deus. Ele se recusou a reconhecer que
lhe era devida a morte. Recusou-se a colocar sua confiança num
substituto sacrificial. Trouxe como oferta a Deus os frutos da terra —
o produto dos seus trabalhos e, em consequência, sua oferta foi
rejeitada. Dessa forma, considerando o começo da história humana,
nós mostramos o fato de que a salvação é pela graça, mediante a
fé, e inteiramente à parte das obras (Ef 2.8,9).
No grande Dilúvio e na arca na qual Noé e sua casa
encontraram abrigo, temos a tipificação de grandes realidades
espirituais. Deles aprendemos que Deus toma conhecimento dos
feitos das suas criaturas, que ele é santo e o pecado lhe é
abominável, que a sua justiça requer que ele puna o pecado e
destrua os pecadores. Contudo, aqui aprendemos também que, no
juízo exercido por Deus, ele se lembra da misericórdia, não tem
prazer na morte dos ímpios, sua graça provê um refúgio — se tão
somente as suas criaturas pecadoras aproveitarem a sua provisão.
Todavia, somente num lugar se pode achar livramento da ira divina.
Unicamente na arca houve salvamento e segurança. E, de igual
modo, hoje, há somente um Salvador para os pecadores — o
Senhor Jesus Cristo:
“E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do
céu não existe nenhum outro nome, dado entre os
homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At
4.12).

Na libertação de Israel do jugo do Egito e em sua jornada no


deserto vemos retratada a história do povo de Deus na presente
dispensação. Nós também vivemos num mundo “sem Deus e sem
esperança”. Também estamos numa escravidão sob os cruéis
feitores de obras do pecado e de Satanás. Nós também estivemos
em eminente perigo de cair sob a espada do Anjo vingador da
justiça. Mas também para nós foi providenciado um meio de fuga.
Para nós também um Cordeiro foi morto. Para nós também foi feita
a preciosa promessa: “Quando eu vir o sangue, passarei por vós”
(Êx 12.13). E nós também fomos redimidos pelo poder do Todo-
poderoso:
“Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou
para o reino do Filho do seu amor” (Cl 1.13).

Depois do nosso êxodo do Egito, estende-se diante de nós


uma jornada de peregrinação através de um deserto árido e hostil,
em nossa viagem para a Terra Prometida. Temos que passar por
terra estranha e enfrentar forças inimigas que não podemos vencer
com nossa força. Para essas labutas os nossos recursos — as
coisas que trouxemos conosco do Egito — são inteiramente
inadequadas; por isso nós também nos apoiamos na suficiência do
Deus de Israel. E, bendito seja o seu nome, ampla provisão é feita
para nós, e nos é dada graça para todas as necessidades.
Porquanto há um maná celestial nas grandiosas e preciosas
promessas de Deus. Para nós sai água da Rocha Ferida, na Pessoa
do Espírito Santo (Jo 7.38,39), que renova e revigora as nossas
almas tomando das coisas de Jesus Cristo e no-las mostrando, e
que nos fortalece com poder no homem interior. Para nós há
também uma coluna de nuvem e de fogo para nos guiar de dia e de
noite na Escritura Sagrada, que é uma lâmpada para os nossos pés
e uma luz para o nosso caminho. Para nós também há aquele que
nos aconselha e nos dirige, que intercede por nós e que nos ajuda a
vencer os amalequitas na pessoa do Capitão da nossa salvação,
que disse: “Eis que estou convosco todos os dias até à consumação
do século”. E no fim da nossa peregrinação entraremos numa terra
mais bela e melhor do que aquela da qual fluíam leite e mel, pois
fomos gerados “para uma herança incorruptível, sem mácula,
imarcescível, reservada nos céus para vós outros”.
Oxalá o leitor atento e imparcial pondere bem e
completamente o que acima foi dito, e por certo lhe ficará evidente
que as numerosas semelhanças entre a história de Israel e a
história espiritual dos filhos de Deus nesta dispensação não podem
ser outras tantas coincidências, e que só podem ser explicadas com
base em que os escritos de Moisés foram inspirados pelo Deus vivo
e verdadeiro.
A história de Israel em Canaã, como história do povo de Deus
confesso e professo, corresponde à história da igreja confessante e
professante, na dispensação do Novo Testamento. Depois de
Moisés, que conduziu Israel livrando-o da escravidão egípcia, veio
Josué, que conduziu Israel em sua conquista de Canaã. Assim
também, depois que o nosso Senhor deixou esta terra, ele enviou o
Espírito Santo que, por meio dos apóstolos, derrotou a Jericó e a Ai
do paganismo e promoveu a evangelização da maior parte do
mundo. Mas, depois da ocupação de Canaã, a história de Israel veio
a ser uma história triste, caracterizada por decadência espiritual e
por abandono de Deus. Foi o que também aconteceu com a igreja
professante. Após a morte dos apóstolos, muito rapidamente a
heresia corrompeu a profissão de fé cristã e, justamente como
aconteceu com Israel na antiguidade, que foi se cansando da
teocracia e exigiu um chefe e rei humano, à semelhança das nações
que viviam a seu redor, assim também a igreja professante,
insatisfeita com a forma de governo da igreja apresentada pelo
Novo Testamento, sujeitou-se ao domínio do papa. E, justamente
como os reis de Israel se tornaram cada vez mais corruptos,
chegando ao ponto de Deus não os suportar mais e vender seu
povo para o cativeiro, assim também, depois do estabelecimento da
Sé Papal, seguiu-se o longo período da Idade das Trevas, quando a
Europa foi submetida a uma escravidão espiritual e quando a
Palavra de Deus foi acorrentada, e presa ficou.
Então, justamente como Deus levantou Esdras e Neemias
para a recuperação do oráculo vivo e tirar do cativeiro o
remanescente do povo de Deus, assim também, no século
dezesseis d.C., Deus levantou Lutero e honrados contemporâneos
dele para efetuarem a grande Reforma do Protestantismo. Por fim,
justamente como após os dias de Esdras e Neemias os judeus da
Palestina testificaram um marcante declínio espiritual, caindo por
último no ritualismo dos fariseus e no racionalismo dos saduceus,
dos quais os eleitos de Deus só foram libertados pelo aparecimento
do seu Filho, a história se repetiu. Desde a Reforma e dos
derradeiros puritanos, a cristandade moveu-se rapidamente em
direção à profetizada apostasia, e hoje reproduzimos o antigo
farisaísmo na rápida propagação do catolicismo romano e o antigo
saduceísmo nos efeitos amplissimamente abrangentes da infiel Alta
Crítica. E, como aconteceu no passado, assim será de novo — os
eleitos de Deus só serão libertados pelo reaparecimento do nosso
Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Vemos, pois, quão maravilhosa e acuradamente a história do
Antigo Testamento corre paralelamente e antecipa a história da
igreja professante da dispensação do Novo Testamento. Já foi dito
acertadamente que “os acontecimentos que sucedem lançam suas
sombras antes deles”, e quem, senão aquele que conhece o fim
desde o princípio e que sustenta todas as coisas pela palavra do
seu poder, poderia fazer com que a sombra do Antigo Testamento
tomasse a forma que tomou, propiciando-nos um cenário parabólico
verdadeiro e compreensivo de fatos que ocorreriam milhares de
anos depois!
Mas não são somente os largos delineamentos da história do
Antigo Testamento que possuem significação típica; tudo o que há
nas Escrituras do Antigo Testamento tem valor espiritual.
Toda batalha em que os israelitas combateram, toda
mudança ocorrida na administração do seu governo, todo detalhe
em seu cerimonialismo elaborado, e cada biografia pessoal narrada
na Bíblia ― todo o seu conteúdo foi designado para nossa instrução
e edificação. Nada do que a Bíblia contém é supérfluo. Do começo
ao fim, as Escrituras testificam Cristo. Objetos inanimados como a
arca, que nos fala da segurança em Cristo em meio às tempestades
da ira divina; como o maná, que fala de Cristo como o Pão da Vida;
como a serpente de bronze levantado numa haste; como o
tabernáculo, que o apresenta como o lugar de encontro de Deus
com os homens — todas essas coisas prefiguraram o Redentor.
Criaturas vivas como o Cordeiro Pascal, os bois, os bodes e os
cordeiros sacrificiais — todas essas criaturas apontam em geral e
em detalhe para o grande Sacrifício pelos pecados. Instituições
como a Páscoa, que prefigurava a morte de Cristo; como o mover
das primícias, que prenunciava sua ressurreição; como o jejum de
Pentecoste, com seus dois pães assados com levedo, falando da
união em um só Corpo de judeus e gentios; como as ofertas
queimadas, da comida, e da paz, com “aroma suave”, as quais
proclamavam a excelência da pessoa de Cristo na estimativa de
Deus — todos serviram de emblemas do nosso bendito Salvador. E
muitos dos personagens principais da biografia veterotestamentária
ofereceram um extraordinário delineamento do caráter e do
ministério terreno do nosso Senhor.
Abel foi um tipo de Cristo. Seu nome significa vaidade e
vacuidade, o que prefigurou o Senhor Jesus, que “se fez alguém
sem nenhuma boa reputação” (VA), literalmente, “esvaziou-se” (Fp
2.7), quando assumiu a natureza do homem, que é “somente
vaidade” (Sl 62.9). Por vocação Abel foi pastor de ovelhas, e foi em
seu caráter de pastor que ele trouxe uma oferta a Deus, a saber, as
primícias do seu rebanho — falando do Bom Pastor que se ofereceu
a Deus. A oferta que Abel trouxe a Deus é chamada “excelente” (Hb
11.4) e, como tal, ela apontava para o precioso sangue de Cristo,
cujo valor não pode ser avaliado em prata e ouro. A oferta de Abel
foi aceita por Deus, e Deus deu “testemunho” de sua aprovação; de
igual modo, Deus deu testemunho público de sua aceitação do
sacrifício de Cristo quando o ressuscitou dentre os mortos (At 2.32).
A oferta de Abel ainda fala de Deus — “mesmo depois de morto,
ainda fala”; assim também a oferta de Cristo “fala” a Deus (Hb
12.24). Embora sem culpa de qualquer ofensa, Abel foi odiado por
seu irmão e morto cruelmente por suas mãos, prefigurando o
tratamento que o Senhor Jesus recebeu das mãos dos judeus —
seus irmãos segundo a carne.
Isaque foi um tipo de Cristo. Ele foi o filho da promessa. Seu
nascimento foi anunciado por um anjo. Ele foi gerado
sobrenaturalmente. Nasceu no tempo predito. Deus lhe deu o nome
(Gn 1.18,19). Ele foi a “semente” a quem as promessas foram feitas
e por meio de quem elas se cumpriram. Isaque foi obediente até a
morte. Levou sobre seus ombros a lenha sobre a qual ele seria
oferecido em sacrifício. Foi amarrado firmemente no altar
improvisado. Foi ofertado a Deus como sacrifício. Foi oferecido no
Monte Moriá — o mesmo no qual, dois mil anos depois, Jesus Cristo
foi oferecido em sacrifício. E foi no “terceiro dia” que Abraão o
recebeu de volta, “figuradamente”, dentre os mortos (Hb 11.19).
José foi um tipo de Cristo. Ele foi o filho mais amado de Jacó.
Prontamente atendeu ao desejo de seu pai quando este lhe pediu
que fosse em missão ver os seus irmãos. Enquanto os procurava,
ele “andava errante pelo campo” (Gn 37.15) — “campo” figurando o
mundo (ver Mt 13.38). Ele encontrou seus irmãos em Dotã, que
significa “a lei” — como o Senhor Jesus encontrou os seus irmãos
sob a escravidão da lei. Seus irmãos zombaram dele e se negaram
a recebê-lo. Seus irmãos se aconselharam juntos contra ele,
desejando matá-lo. Judá (Judas é a forma grega da mesma palavra)
aconselhou seus irmãos a venderem José aos ismaelitas. Depois de
ter sido rejeitado por seus irmãos,[4] José foi levado para o Egito,
para que se tornasse o Salvador do mundo. No Egito, José foi
tentado, sem nenhuma chance de poder livrar-se da maligna
solicitação. Falsamente acusado e sem culpa nenhuma, José foi
lançado na prisão. Ali ele foi o intérprete de sonhos — homem que
lança luz sobre mistérios. Na prisão ele se tornou o aroma de vida
para o copeiro e o aroma de morte para o padeiro. Depois de sofrer
um período de humilhação e vergonha, José foi exaltado ao trono do
Egito. Do trono ele serviu pão para uma humanidade faminta e que
estava a perecer. Subsequentemente, José deu-se a conhecer a
seus irmãos e, em cumprimento ao que anteriormente ele lhes tinha
anunciado, eles se curvaram diante dele e reconheceram a sua
soberania.
Moisés foi um tipo de Cristo. Moisés se tornou filho adotivo da
filha do faraó — de sorte que, legalmente, ele teve mãe e não teve
pai, tipificando assim o miraculoso nascimento do nosso Senhor de
uma virgem. Durante a sua infância sua vida foi posta em perigo
pelos maus desígnios do… governante real. À semelhança do que
aconteceu com Cristo, a primeira parte da sua vida transcorreu no
Egito. Mais tarde ele renunciou à posição de realeza, recusando ser
chamado filho da filha do faraó, e aquele que era rico, por amor do
seu povo se fez pobre. Antes de começar a realizar a obra da sua
vida, ele passou um longo período em Midiã, na obscuridade. Ali
Moisés recebeu o chamado e a comissão de Deus para libertar os
seus irmãos de uma terrível escravidão. As credenciais da sua
missão foram vistas nos milagres por ele realizados. Embora
desprezado e rejeitado pelas autoridades no Egito, ele, não
obstante, conseguiu libertar o seu povo. Subsequentemente, ele se
tornou o líder e chefe de todo o Israel. Quanto a seu caráter, Moisés
foi o homem mais manso de toda a terra. Em toda a casa de Deus
ele foi fiel como servo. No deserto, ele enviou doze homens para
espiarem Canaã, como o nosso Senhor enviou os doze apóstolos
para pregarem o Evangelho. Jejuou durante quarenta dias. No
monte ele foi transfigurado, de modo que seu rosto resplandecia.
Ele atuou como profeta de Deus para falar ao povo, e como
intercessor em favor do seu povo diante de Deus. Moisés foi o único
homem, dos mencionados no Antigo Testamento, que foi profeta,
sacerdote e rei. Foi ele que deu a Lei, que construiu o tabernáculo e
que organizou o sacerdócio. Seu último ato foi “abençoar” o povo
(Dt 33.29), como o último ato do nosso Senhor foi “abençoar” os
seus discípulos (Lc 24.50).
Sansão foi um tipo de Cristo — veja o Livro de Juízes. Um
anjo anunciou seu nascimento (Juízes 13.3). Desde o seu
nascimento ele foi nazireu (Juízes 13.5) — separado para Deus.
Antes de Sansão nascer foi prometido que ele seria um salvador
para Israel (Juízes 13.5). Ele foi maltratado por sua nação (Juízes
15.11-13). Foi entregue aos gentios por seus próprios patrícios
(Juízes 15.12). Foi escarnecido e tratado cruelmente pelos gentios
(Juízes 16.19-21, 25); mas, apesar disso tudo, Sansão foi um
poderoso libertador de Israel. Seus milagres foram realizados sob o
poder do Espírito Santo (Juízes 14.19). Sansão realizou mais em
sua morte do que em sua vida (Juízes 16.30). Ele foi aprisionado na
fortaleza do inimigo; as portas foram trancadas, e foi montada uma
guarda para vigiá-lo. Todavia, ele se levantou a desoras, bem antes
de amanhecer — “bem antes de romper o dia” — e arrebentou as
trancas, rompeu a porta e abriu-a, e saiu triunfante — um
extraordinário tipo da ressurreição do nosso Senhor. Sansão ocupou
a posição de “juiz”, como o nosso Senhor o fará com perfeição no
último grande dia.
Davi foi um tipo de Cristo. Nasceu em Belém. Ele é descrito
como “ruivo, de belos olhos e boa aparência”. Seu nome significa
“amado”. Sua ocupação era de pastor de ovelhas. Durante sua vida
de pastor ele lutou com animais selvagens. Matou Golias — o
adversário do povo de Deus e um tipo de Satanás. Da obscuridade
do pastoreio ele foi exaltado ao trono de Israel. Foi ungido rei antes
de ser coroado. Foi preeminentemente um homem de oração (veja
os Salmos), ele é o único personagem denominado na Escritura,
“homem segundo o coração de Deus”. Davi foi um homem de dores
e que sabe o que é padecer, sofrendo principalmente dos que
pertenciam à sua própria família. Repetidas tentativas foram feitas
contra a sua vida pelo chefe da nação de Israel. Quando o seu
inimigo (Saul) estava em seu poder, Davi recusou-se a matá-lo; em
vez disso, tratou-o com misericórdia e graça. Davi libertou Israel de
todos os seus inimigos e subjugou todos os seus opositores.
Salomão foi um tipo de Cristo. Foi rei de Israel. Seu nome
significa “pacífico”, e ele prefigurou o reino milenário do Senhor
Jesus, quando ele reinará como Príncipe da Paz. Salomão foi
escolhido e ordenado por Deus antes de ser coroado. Ele cavalgava
uma mula alheia, não como guerreiro, mas como o rei da paz,
humildemente (1Rs 1.33). Gentios participaram da coroação de
Salomão (1Rs 1.38), tipificando a homenagem universal que Cristo
receberia durante o milênio. Os queretitas e os peleteus eram
soldados, de modo que Salomão foi seguido por um exército na
ocasião em que foi coroado (1Rs 1.33; cf. Ap 19.11). Salomão
começou o seu reinado mostrando misericórdia e, contudo, exigindo
justiça de Adonias (1Rs 1.51) — essas vão ser as características
principais do governo milenário de Cristo. Salomão foi o construtor
do templo (cf. At 15.16). Na dedicação do templo, Salomão foi o
único que ofereceu sacrifícios ao Senhor; dessa forma o rei cumpriu
o ofício de sacerdote (1Rs 8.63), o que tipifica o Senhor Jesus, que
“será sacerdote no seu trono” (Zc 6.13). A “fama” de Salomão
espalhou-se por toda parte, e “todo o mundo procurava ir ter com
ele” (1Rs 10.24). A rainha de Sabá, representando os gentios, veio a
Jerusalém para lhe prestar homenagem (1Rs 10), como todas as
nações irão a Cristo durante o milênio (ver Zc 14.16). Toda a terra
de Israel gozou descanso e paz. A glória e a magnificência do
reinado de Salomão nunca foram igualadas, nem antes nem depois

“O S engrandeceu sobremaneira a Salomão
perante todo o Israel; deu-lhe majestade real, qual antes
dele não teve nenhum rei em Israel” (1Cr 29.25).

Na exposição dos tipos acima feita não procuramos ser


exaustivos, mas o nosso interesse foi sugerir ideias destacando
somente as linhas principais de cada figura típica. Há muitos outros
personagens do Antigo Testamento que foram tipos de Cristo e que
não podemos considerar extensamente: Adão tipificou Cristo como
o Cabeça; Enoque, tipificou a sua ascensão; Noé o tipificou como o
provedor de um Refúgio; Jacó o tipificou como alguém que serviu
outrem para obter esposa; Arão, como o grande Sumo Sacerdote;
Josué, como o Capitão da nossa salvação; Samuel, como o Profeta
Fiel; Elias, como o operador de Milagres; Jeremias, como o
desprezado e rejeitado Servo de Deus; Daniel, como a Fiel
Testemunha de Deus; Jonas, como aquele que ressuscitou dentre
os mortos no terceiro dia.
Ao encerrarmos este capítulo, apliquemos o argumento. Das
numerosas pessoas típicas do Antigo Testamento que prefiguravam
o Senhor Jesus Cristo, as notáveis, acuradas e multiformes luzes
sob as quais cada uma delas o exibe, são verdadeiramente
extraordinárias. Nem duas delas o representam exatamente do
mesmo ponto de vista. Cada uma delas contribui com uma ou duas
linhas necessárias para compor um delineamento completo. O fato
de uma história autêntica dispor de uma série de personagens de
diferentes épocas, cujos caracteres, ofícios e histórias
correspondam exatamente a outro personagem que não apareceu
na terra senão séculos mais tarde, só pode ser explicado pela
suposição de que houve designação divina. Quando consideramos
a total dessemelhança dessas pessoas típicas umas das outras;
quando notamos que elas tinham pouco ou nada em comum umas
com as outras; quando lembramos que cada uma delas representa
alguma característica de um Antítipo — descobrimos que temos
diante de nós um fenômeno literário verdadeiramente extraordinário.
Abel, Isaque, José, Moisés, Sansão, Davi, Salomão (e todos os
demais), cada um eles é diferente, quando os examinamos
separadamente; mas, vistos em conjunto, formam um todo
harmonioso e nos propiciam uma representação completa do
nascimento miraculoso do nosso Senhor, do seu caráter sem par, da
sua missão que envolveu toda a sua vida, da sua morte sacrificial,
da sua ressurreição triunfante, da sua ascensão ao céu, e do seu
reino milenário.
Quem poderia ter inventado tal caráter? Quão extraordinário
é que a história primitiva do mundo, estendendo-se desde a criação
e alcançando o último profeta — escrita por diversas mãos através
de um período de quinze séculos — haveria de concentrar-se num
único ponto, qual seja, a pessoa e a obra do bendito Redentor!
Verdadeiramente, tal livro só pode ter sido escrito por Deus —
nenhuma outra conclusão é possível. Por baixo do histórico
discernimos o espiritual; por baixo do incidental contemplamos o
típico; por baixo das biografias humanas vemos a forma de Cristo, e
nestas coisas descobrimos em cada página do Antigo Testamento a
“marca de fundo” do céu.
CAPÍTULO 7

A MARAVILHOSA UNIDADE DA BÍBLIA ATESTA A AUTORIA


DIVINA

A maneira pela qual a Bíblia foi produzida milita contra a sua


unidade. A Bíblia foi redigida em dois continentes, foi redigida em
três idiomas, e sua composição e compilação estendeu-se em lento
progresso através de dezesseis séculos. As diversas partes da
Bíblia foram escritas em diferentes épocas e nas mais variadas
circunstâncias. Partes dela foram escritas em tendas, em desertos,
em cidades, em palácios, em prisões; em tempos de iminente perigo
e em ocasiões de arrebatadora alegria. Entre os seus escritores
havia juízes, reis, sacerdotes, profetas, patriarcas, primeiros-
ministros, boiadeiros, escribas, soldados, médicos e pescadores.
Contudo, apesar desses variados artífices, circunstâncias e
condições, a Bíblia é um só Livro; por trás de suas muitas partes há
uma inconfundível unidade orgânica. A Bíblia contém um sistema de
doutrina, um código de ética, um plano de salvação e uma regra de
fé.
Pois bem, se hoje fossem selecionados quarenta homens
diferentes de posições e vocações tão variadas que incluíssem
funcionários, autoridades, políticos, juízes, clérigos, médicos,
agricultores e pescadores, e a cada um se pedisse para contribuir
com um capítulo de um livro sobre teologia ou sobre governo da
igreja, quando as suas diversas contribuições fossem coligidas, se
houvesse alguma unidade quanto a eles, poder-se-ia dizer
verdadeiramente que era um só livro; ou, que se diria se as suas
diferentes produções variassem tanto quanto ao valor literário, ao
fraseado e ao conteúdo, que seria uma simples massa heterogênea,
uma coleção multiforme, uma verdadeira miscelânea?
Mas não é isso que vemos no Livro de Deus. Apesar de a
Bíblia ser um volume de sessenta e seis livros, escritos por quarenta
homens diferentes, e de tratar de uma tão larga variedade de temas
que cobrem quase toda a gama da pesquisa humana, vemos que
ela é um só Livro, o Livro (não os livros) — a Bíblia.
E mais: Se selecionássemos espécimes de literatura dos
séculos terceiro, quinto, décimo, quinze e vinte da era cristã, e os
juntássemos num só tomo, que unidade e harmonia veríamos nessa
coleção? Os escritores refletem o espírito do seu tempo e da sua
geração, e as composições de homens que vivem no meio de
influências muitíssimo diversas e separados por séculos, têm pouco
ou nada em comum uns com os outros.[5] Contudo, embora as mais
antigas porções do Cânon Sagrado tenham tido sua origem num
passado remoto, no mínimo no século quinze a.C., ao passo que os
escritos de João só foram concluídos no fim do século primeiro d.C.,
não obstante vemos uma perfeita harmonia em todo o conteúdo das
Escrituras, desde o primeiro versículo de Gênesis até o último
versículo de Apocalipse. As grandes lições éticas e espirituais
apresentadas na Bíblia, quem quer que as tenha ensinado,
concordam umas com as ouras.
Quanto mais a pessoa realmente estuda a Bíblia, mais
convicta fica de que por trás das numerosas bocas há uma só
Mente que domina e controla tudo. Imagine o dileto leitor quarenta
pessoas de diferentes nacionalidades e possuidoras de diferentes
graus de cultura musical visitando o órgão de alguma catedral e, a
longos intervalos de tempo e sem nenhum conluio prévio, tocando
sessenta e seis notas, as quais, quando combinadas, transmitiriam
o mais grandioso oratório jamais ouvido; isso não indicaria que por
trás dessas quarenta pessoas havia uma só mente presidindo a
execução, um só maestro? Quando ouvimos uma grande orquestra,
com uma imensa variedade de instrumentos executando suas
diferentes partes mas produzindo melodia e harmonia, vemos que
por trás desses musicistas há a personalidade e o gênio do
compositor. E quando adentramos o recinto da Academia Divina e
ouvimos os coros celestiais cantando o Cântico da Redenção, tudo
em perfeita consonância e harmonia, sabemos que foi o próprio
Deus que escreveu a música e que pôs o cântico nas bocas dos
cantores que a executam.
Submetemos agora à apreciação do leitor duas ilustrações
que demonstram a unidade das Escrituras Sagradas. Algumas
grandes concepções percorrem toda a Bíblia como uma fieira de
pérolas preciosas. A primeira e principal pérola é o Plano Divino de
Redenção. Justamente como o fio escarlate bordeja todo o cordame
da armada inglesa, assim uma aura carmesim circunda cada página
da Palavra de Deus.
Nas Escrituras o Plano de Redenção é central e fundamental.
Em Gênesis vemos registradas a criação e a queda do homem para
mostrar que ele é passível de redenção e dela necessita. A seguir
vemos a promessa do Redentor, pois é preciso que o homem tenha
diante de si a esperança e a expectação de um Salvador. Segue-se
depois um elaborado sistema de ofertas e sacrifícios que
representam pictoricamente a natureza da redenção e a condição
sob a qual se concretiza a salvação. No começo do Novo
Testamento temos os quatro evangelhos, e eles expõem a Base da
redenção, a saber, a encarnação, a vida, a morte, a ressurreição e a
ascensão do Redentor. Em seguida vem o Livro de Atos, que ilustra
repetidamente o Poder da Redenção, mostrando que é um poder
adequado para operar seus grandes resultados na salvação tanto
de judeus como de gentios. Finalmente, em Apocalipse são-nos
expostos os triunfos finais da redenção, a Meta da Salvação ― os
redimidos habitando com Deus em perfeita união e comunhão.
Vemos assim que, embora grande número de meios humanos
tenham sido empregados nos escritos da Bíblia, suas produções
não são independentes umas das outras, mas são partes
complementares e suplementares do grande todo; e vemos que
uma só sublime verdade é comum a todos elas, a saber, a
necessidade que o homem tem da redenção e a provisão de Deus
de um Redentor. E a única explicação deste fato é a seguinte: “Toda
a Escritura é inspirada por Deus”.
Em segundo lugar, dentre todas as numerosas
personalidades apresentadas na Bíblia, vemos que uma sobressai a
todas, sendo não meramente proeminente, mas também
preeminente. Exatamente como na cena revelada no capítulo cinco
de Apocalipse vemos o Cordeiro no centro das multidões celestes,
assim também vemos que nas Escrituras é dado o lugar que só é
próprio para a sua singular Pessoa. Consideradas de um certo
ponto de vista, as Escrituras são realmente a biografia do Filho de
Deus.
No Antigo Testamento temos a Promessa da encarnação do
nosso Senhor e da sua obra mediadora. Nos evangelhos temos a
Proclamação da sua Missão e as Provas das suas reivindicações e
da sua autoridade messiânicas. Em Atos temos uma demonstração
do seu Poder de salvar e a execução do seu Programa missionário.
Nas epístolas vemos uma exposição e ampliação dos Preceitos de
Cristo para a educação do seu Povo. Ao passo que em Apocalipse
contemplamos a revelação ou Apresentação da sua Pessoa e a
Preparação da terra para a sua Presença. Vê-se, pois, que a Bíblia
é peculiarmente o Livro de Jesus Cristo. Cristo não somente deu
testemunho das Escrituras, mas também cada seção das Escrituras
dá testemunho dele. Cada página do Santo Livro traz estampada a
sua fotografia, e cada capítulo traz o seu autógrafo. Ele constitui o
único grande tema da Bíblia, e a única explicação deste fato é que o
Espírito Santo superintendeu a obra de todos e de cada um dos
escritores das Escrituras.
Vê-se, ademais, a unidade das Escrituras no fato de que ela
é inteiramente isenta de reais contradições. Apesar de diferentes
escritores muitas vezes terem descrito os mesmos incidentes —
como, por exemplo, o registro que os quatro evangelistas fizeram do
ministério e da obra redentora do nosso Senhor — e apesar de
haver considerável variedade nas narrativas de tais incidentes, não
há reais discrepâncias. A harmonia existente entre eles não aparece
na superfície, mas muitas vezes só se descobre mediante um
prolongado estudo, embora seja um fato que, queira-se ou não, a
referida harmonia existe.
Além disso, há perfeito acordo doutrinário entre todos os
escritores da Bíblia. O ensino dos profetas e o ensino dos apóstolos
sobre as grandes verdades da justiça de Deus, das exigências da
sua santidade, da completa ruína do homem, da imensa
malignidade do pecado, e do caminho da salvação, são inteiramente
harmoniosos. Isso pode parecer coisa fácil de realizar. Mas quem
tem bom conhecimento da natureza humana e tem lido amplamente
os escritos dos homens, reconhecerá que nada senão a inspiração
dos escritores pode explicar esse fato. Em parte alguma vemos dois
escritores não inspirados, por mais parecidos que sejam em seus
sentimentos religiosos, que concordem em todos os pontos de
doutrina. Na verdade, inteira coerência de sentimentos não se
encontra nem sequer nos escritos do mesmo autor em diferentes
períodos. Em seus últimos anos, a exposição de Spurgeon de
algumas doutrinas foi muito modificada em relação às suas
declarações dos primeiros tempos do seu ministério. O aumento de
conhecimento faz com que os homens mudem suas ideias sobre
muitos assuntos. Mas entre os escritores da Escritura há realmente
a mais perfeita harmonia, porque obtiveram seu conhecimento da
verdade e do dever, não por esforços de estudo, mas da inspiração
feita pelo Santo Espírito de Deus.
Logo, quando vemos que na produção de quarenta diferentes
homens há perfeita concordância e concórdia, consonância e
unidade, harmonia em todos os seus ensinos, e vemos que os
mesmos conceitos permeiam todos os seus escritos, é impossível
resistir à conclusão de que por trás de suas mentes, e guiando suas
mãos, havia a mente soberana do próprio Deus. Não é verdade que
a unidade da Bíblia ilustra a inspiração divina da Bíblia e demonstra
a veracidade da sua própria asserção de que
“Havendo Deus, outrora, falado muitas vezes e de
muitas maneiras, aos pais pelos profetas…” (Hb 1.1)?
CAPÍTULO 8

A MAGNÍFICA INFLUÊNCIA DA BÍBLIA PROCLAMA SEU


CARÁTER SUPER-HUMANO

A influência da Bíblia é de âmbito mundial. Seu poder tem


afetado todos os departamentos da atividade humana. O conteúdo
das Escrituras deu temas para os maiores poetas, artistas e
musicistas que o mundo já produziu, e tem sido o mais poderoso
fator na modelagem do progresso moral da raça. Consideremos uns
poucos exemplos da influência da Bíblia como se vê manifesta nos
vários domínios do empreendimento humano.
Tome peças sublimes como os oratórios “Elias” e “O
Messias”, e terá destacado da esfera da música algo que jamais
será duplicado; destrua os incontáveis hinos que derivaram sua
inspiração das Escrituras, e terá deixado poucas composições
dignas de serem entoadas.
Elimine das composições de Tennyson, Wordsworth e
Carlisle todas as referências às verdades morais e espirituais
ensinadas na Palavra de Deus, e as terá despojado da sua beleza e
lhes terá roubado sua fragrância. Tire das paredes das nossas
melhores galerias de arte as pinturas que retratam cenas e
incidentes da história de Israel e da vida do nosso Senhor, e terá
removido as mais ricas gemas da coroa do gênio humano. Retire de
nossos livros estatutários ou constitucionais toda lei que se funda
nas concepções éticas da Bíblia, e terá aniquilado o maior fator da
civilização moderna. Furte das nossas bibliotecas todo livro
dedicado à obra de desenvolver e disseminar os preceitos e
conceitos dos Escritos Sagrados, e terá tirado de nós algo que não
pode ser avaliado em dólares e centavos.
A Bíblia fez mais para a emancipação e civilização dos
pagãos do que todas as forças que o braço humano pode manejar
juntas. Alguém disse: “Trace uma linha ao redor das nações que têm
a Bíblia, e você terá feito divisão entre o barbarismo e a civilização,
entre a prosperidade e a pobreza, entre o egoísmo e a caridade,
entre a opressão e a liberdade, entre a vida e a sombra da morte”.
Até mesmo Darwin teve que conceder o elemento de milagre nas
vitórias dos missionários da cruz.[6]
Eis dois ou três homens que aterrissam numa ilha selvagem.
Seus habitantes não possuem literatura nem linguagem escrita.
Consideram o homem branco seu inimigo e não desejam que seja
exibido “o erro dos seus caminhos”. São canibais por instinto e
pouco melhores que os animais da selva em seus hábitos de vida.
Os missionários que entraram no meio deles não têm dinheiro que
compre sua amizade, nem exército para os compelir à obediência,
nem mercadoria que desperte sua cobiça. Sua única arma é “a
Espada do Espírito”, seu único capital são “as insondáveis riquezas
de Cristo”, sua única oferta é o convite do Evangelho. Entretanto, de
algum modo eles têm bom êxito, e, sem derramarem uma gota de
sangue, conquistam a vitória. Dentro de poucos anos o nudismo
selvagem transforma-se no garbo de uma bela civilização, a lascívia
é transformada em pureza, a crueldade em bondade, a avareza e a
cobiça, em altruísmo, e onde dominava o espírito de vingança,
agora se vê mansidão e o espírito de amoroso sacrifício próprio. E
isso foi realizado pela Bíblia! Esse milagre ainda se repete em toda
parte na terra! Que outro livro, ou que biblioteca inteira, poderia
produzir tal resultado? Não é evidente para todos que o Livro que,
sem rival, exerce tão singular influência só pode ser vitalizado pela
vida do próprio Deus?
Esta característica maravilhosa, a saber, a influência única da
Bíblia, ganha cores mais extraordinárias quando levamos em conta
a antiguidade das Escrituras! Os últimos livros que compuseram e
fecharam o Cânon têm atualmente mais de mil e oitocentos anos de
idade; todavia, as operações da Bíblia são tão poderosas hoje em
seus efeitos como eram no século primeiro da era cristã.
O poder dos livros do homem logo se desvanece e
desaparece. Com raras exceções, as produções do intelecto
humano gozam breve existência. Como regra geral, os escritos do
homem, dentro de cinquenta anos desde o seu primeiro
aparecimento púbico, jazem intocados no alto das estantes das
nossas bibliotecas. Os escritos do homem são como o próprio
homem ― criaturas mortais. O homem chega a este mundo numa
certa era, desempenha seu papel no drama da vida, influencia
algum auditório enquanto está em atividade, mas é esquecido tão
logo a cortina cai sobre a sua breve carreira; é o que acontece com
os seus escritos. Enquanto são atuais e novos, eles divertem,
interessam ou instruem conforme a sabedoria que contenham, e
depois sofrem morte natural. Mesmo as poucas exceções a esta
regra só exercem influência muito limitada, pois o seu poder é
estritamente circunscrito; a grande maioria não os lê; sim, a maior
porção da nossa raça os desconhece. Mas, quanto ao Livro de
Deus, que diferença! A Palavra escrita, atuando como a Palavra
Viva, é “a mesma ontem, hoje e para sempre”, e, diferentemente
dos demais livros, abriu caminho e entrou em todos os países e
línguas com igual clareza, objetividade e força para todos os
homens em suas respectivas línguas maternas. A Bíblia jamais se
torna antiquada, sua vitalidade jamais diminui e sua influência é
mais irresistível e universal hoje do que há dois mil anos. Fatos
como esses declaram com firme e inconfundível voz que a Bíblia é
caracterizada pela mesma vida e energia divina que a do seu Autor,
porquanto de nenhum outro modo podemos explicar a sua
maravilhosa influência através dos séculos, e o seu vigoroso poder
sobre o mundo.
CAPÍTULO 9

O PODER MIRACULOSO DA BÍBLIA DEIXA PATENTE QUE O


SEU INSPIRADOR É O TODO-PODEROSO

Em Hebreus 4.12 temos uma passagem que chama a


atenção para esta peculiar característica da Bíblia — “Porque a
Palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer
espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e
espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e
propósitos do coração”. Os escritos dos homens podem às vezes
despertar as emoções, sondar a consciência e influir na vontade
humana, mas, de maneira e num grau que nenhum outro livro
possui, a Bíblia convence os homens da sua culpa e do estado de
perdição em que se encontra. A Palavra de Deus é o espelho divino,
pois nela o homem lê os segredos de sua alma culpada e enxerga a
vileza de sua natureza má. De maneira absolutamente peculiar, as
Escrituras discernem os pensamentos e intenções do coração e
revela aos homens que eles são pecadores perdidos e que estão na
presença de um Deus santo.
Há uns trinta anos, residia num dos templos do Tibete um
sacerdote budista que não tinha conversado com nenhum
missionário cristão, não tinha ouvido nada a respeito da cruz de
Cristo e nunca tinha visto um exemplar da Palavra de Deus. Um dia,
quando estava procurando alguma coisa no templo, ele topou com a
transcrição do Evangelho de Mateus que anos antes tinha sido
deixada ali por um nativo que o tinha recebido de um missionário em
viagem. Com a curiosidade despertada, o sacerdote budista
começou a ler o texto, mas quando chegou ao versículo oito do
capítulo cinco, fez uma pausa e ponderou sobre esse versículo, que
diz: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus”.
Apesar de nada saber sobre a justiça do seu Criador, apesar de
ignorar completamente as exigências da santidade de Deus, não
obstante ele foi convencido dos seus pecados na hora, e uma obra
da graça divina começou a operar-se em sua alma. Mês após mês
essa obra divina continuou, e cada dia ele dizia a si mesmo: “Nunca
vou ver Deus, pois sou impuro de coração”. Lenta, mas firme e
constantemente, a obra do Espírito Santo aprofundou-se em seu
ser, até que ele se viu como pecador perdido, vil, culpado e
arruinado.
Depois de permanecer por mais de um ano nessa condição,
em petição de miséria, um dia soube que um “demônio estrangeiro”
estava visitando uma cidade próxima e estava vendendo livros que
falavam sobre Deus. Na mesma noite o sacerdote budista fugiu do
templo e foi para a cidade na qual o missionário estava residindo.
Assim que chegou a seu destino, procurou o missionário e logo lhe
perguntou: “É verdade que os que são limpos de coração verão
Deus?”. “É verdade”, respondeu o missionário, e continuou, “mas o
mesmo Livro que lhe diz isso também lhe diz como você pode obter
um coração puro”. Então lhe falou sobre a obra expiatória de Deus
em Cristo e lhe afirmou que “o sangue de Jesus, seu Filho, nos
purifica de todo pecado”. Rapidamente a luz de Deus inundou a
alma do sacerdote budista e ele encontrou a paz “que excede todo
entendimento”.
Agora, que outro livro do mundo, fora a Bíblia, contém uma
sentença, ou mesmo um capítulo, que, sem o auxílio de um
comentador humano, pode persuadir e convencer um pagão de que
ele é um pecador perdido? Não é esse o fato do poder miraculoso
da Bíblia, testemunhado por milhares de casos, plenamente
autenticados, semelhantes ao supra descrito, declarar que as
Escrituras são a Palavra de Deus, inspirada, vestida do mesmo
poder do seu onipotente Autor?

O PODER DA PALAVRA DE DEUS, DE LIBERTAR OS HOMENS


DO JUGO DO PECADO

Um único incidente que foi trazido à presença deste escritor


deve ser suficiente para ilustrar a verdade mencionada acima.
Há uns quarenta anos, um cavalheiro cristão ficou no cais
das docas de Liverpool distribuindo folhetos aos marinheiros. Em
meio a seu trabalho ele deu um folheto a um marinheiro que estava
embarcando para a China, e com uma praga o homem o pegou,
amassou-o e o enfiou no bolso. Umas três semanas mais tarde esse
marinheiro estava em sua cabine e precisava de algo para acender
seu cachimbo, e, ao apalpar o bolso para ver se encontrava o papel
necessário, tirou o folheto que recebera em Liverpool.
Reconhecendo o folheto, soltou uma praga terrível e picou o papel
em pedaços. Um diminuto fragmento do papel grudou em sua mão
encardida. Olhando de relance para esse pequeno pedaço do
folheto, o homem viu estas palavras: “Prepara-te para te
encontrares com o teu Deus”. Quando relatou o incidente a este
escritor, ele disse: “Naquele momento foi como se uma espada
fincasse em meu coração”. A frase “Prepara-te para te encontrares
com o teu Deus” ficou repicando repetidamente em seus ouvidos, e,
com a consciência golpeada, ele foi atormentado por sua condição
de pecador perdido. Logo depois de receber esse impacto, ele se
recolheu para passar a noite, mas não conseguiu dormir. Em
desespero, levantou-se, vestiu-se e subiu ao convés, e ficou
andando ali de um lado para outro. Hora após hora, ele ficou ali,
indo e vindo, para lá e para cá, mas, por mais que tentasse, não
pôde livrar sua mente das palavras: “Prepara-te para te encontrares
com o teu Deus”.
Durante anos esse homem tinha sido escravo de um vício,
dominado por bebida forte, e, conhecendo a sua fraqueza, ele dizia:
“Como posso preparar-me para me encontrar com Deus, sendo eu
tão incapaz de vencer o meu tormentoso pecado?”. Finalmente, caiu
sobre os seus joelhos e clamou: “Ó Deus, tem misericórdia de mim,
salvame do poder da bebida e ajuda-me a me preparar para me
encontrar contigo”. Mais de trinta e cinco anos depois, esse marujo
convertido contou a este escritor que desde a noite em que leu
aquela breve citação da Palavra de Deus, fez aquela oração, e
aceitou Cristo como o seu Salvador do pecado, nunca mais provou
uma gota de qualquer licor inebriante e nunca mais teve desejo de
beber bebida forte.[7] Como é maravilhoso o poder que a Palavra de
Deus tem de libertar os homens da escravidão do pecado!
Verdadeiramente, como disse muito bem o Dr. Torrey: “Um Livro que
eleva os homens para Deus, só pode ter descido de Deus”.

O PODER DA PALAVRA DE DEUS SOBRE OS SENTIMENTOS


HUMANOS

Em milhares de casos, homens e mulheres foram estendidos


sobre verdadeiras “grelhas”, tiveram amputados os seus membros,
foram lançados às feras, e amarrados na estaca e queimados vivos,
preferindo isso a abandonar a Bíblia e a prometer nunca mais lerem
suas páginas sagradas. Por qual outro livro os homens e as
mulheres ousariam sofrer e morrer?
Há mais de duzentos anos, quando um exemplar da Bíblia
custava muito mais caro do que hoje em dia, um camponês que
vivia no Condado de Cork, Irlanda, soube que um cavalheiro da sua
vizinhança tinha um exemplar do Novo Testamento na língua
irlandesa. Por conseguinte, visitou esse homem e lhe pediu que lhe
permitisse copiar o Novo Testamento. Sabendo quão pobre era o
camponês, o cavalheiro lhe perguntou onde iria conseguir papel e
tinta. “Vou comprá-los”, foi a resposta. “E onde você vai achar um
lugar para escrever?” “Se Vossa Senhoria permitir”, respondeu ele,
“usarei o vestíbulo da sua casa; virei depois do meu dia de trabalho
e copiarei de noite, um pouco por vez”. O cavalheiro ficou tão
comovido diante desse intenso amor pela Bíblia que lhe cedeu o uso
do vestíbulo e luz, e lhe forneceu também papel e tinta. Fiel a seu
propósito e a seu compromisso, o camponês trabalhou noite após
noite, até terminar de escrever uma cópia completa do Novo
Testamento. Posteriormente lhe foi dada uma cópia impressa, e o
Testamento manuscrito é preservado pela Sociedade Bíblica
Britânica e Estrangeira.
Tornamos a perguntar: Que outro livro do mundo poderia
cativar tão fortemente os sentimentos de afeto, conquistar tanto
amor e reverência e produzir um trabalho feito com tanto sacrifício
pessoal?
CAPÍTULO 10

A COMPLETITUDE DA BÍBLIA DEMONSTRA A SUA PERFEIÇÃO


DIVINA

A antiguidade das Escrituras milita contra a sua completitude.


A compilação da Bíblia completou-se há mais de mil e oitocentos
anos, quando a maior parte do mundo ainda não era civilizada.
Desde quando João selou o Templo da Verdade de Deus, houve
muitas descobertas e invenções maravilhosas, e, todavia, não
houve nenhum acréscimo às verdades morais e espirituais contidas
na Bíblia. Atualmente não sabemos nada mais sobre a origem da
vida, a natureza da alma, o problema do sofrimento ou o destino
futuro do homem do que aqueles que tinham a Bíblia há mil e
oitocentos anos sabiam. Através da era cristã, o homem conseguiu
aprender muitos dos segredos da natureza e tem aparelhado suas
forças para o seu serviço, mas na real revelação da verdade
sobrenatural, nada de novo foi descoberto. Os escritores humanos
não podem suplementar os registros divinos, pois estes são
completos e inteiros, “não faltando nada”.
A Bíblia não precisa de nenhum adendo. A Palavra de Deus
tem mais que o suficiente para satisfazer às necessidades
temporais e espirituais da humanidade. Apesar de ter sido escrita há
dois mil anos, a Bíblia ainda é atualizada e responde a todas as
perguntas vitais que interessam à alma do homem em nossos dias.
O Livro de Jó foi escrito há três mil anos antes de Colombo
descobrir a América, e, todavia, é tão novo e revigorante para o
coração do homem como se só tivesse sido publicado há dez anos.
A maioria dos Salmos foi escrita há dois mil e quinhentos anos antes
do nascimento do Presidente Wilson, e, no entanto, em nosso
tempo e em nossa geração eles são perfeitamente novos e
revigorantes para a alma humana. Fatos como esses só podem ser
explicados partindo da hipótese de que o Deus eterno é o Autor da
Bíblia.
A adaptabilidade das Escrituras é outra ilustração da sua
completitude maravilhosa. Para jovens e velhos, fracos e vigorosos,
ignorantes e cultos, alegres e tristes, orientais e ocidentais, confusos
e esclarecidos, santos e pecadores, a Bíblia é uma fonte de bênção,
atende a todos os necessitados e pode suprir todas as variedades
de necessidades. E a Bíblia é o único Livro do mundo a respeito do
qual se pode vaticinar isso. Os escritos de Platão podem ser uma
fonte de interesse e de instrução para a mente filosófica, mas são
impróprios para serem colocados nas mãos de uma criança. Com a
Bíblia não é assim; os mais jovens podem tirar proveito do bom
manuseio das Páginas Sagradas. Os escritos de Jerônimo ou de
Twain podem agradar, por uma hora, a quem aprecia o humorismo,
mas não trazem nenhum bálsamo ao coração ferido, e não dizem
palavras de fortalecimento e de consolação para os que estão
passando pelas águas da aflição. Como é diferente com as
Escrituras! Nunca um coração pesado procurou em vão a Palavra
de Deus em busca de paz. Os escritos de Shakespeare, Goethe e
Schiller podem ser proveitosos para a mente ocidental, mas
comunicam pouca coisa de valor para a oriental. Não é assim com a
Palavra de Deus; ela pode ser traduzida para qualquer língua, e
falará com igual clareza, objetividade e poder para todos os homens
em suas respectivas línguas maternas.

Citando o Dr. Burrell:

“Em todos os corações, bem abaixo de todas as outras


necessidades e aspirações, há um profundo anseio por
conhecer o caminho da vida espiritual. O mundo está
clamando: ‘Que farei para me salvar?’ De todos os livros,
a Bíblia é o único que responde adequadamente a esse
clamor universal. Há outros livros que expõem a
moralidade, uns mais outros menos corretamente; mas
nenhum outro livro sugere o cancelamento do registro da
vida errônea passada ou uma fuga da penalidade da lei
transgredida. Há outros livros que contêm poesia; mas
não há nenhum que cante o cântico da salvação ou que
dê a uma alma atribulada a paz que flui como um rio. Há
outros livros em que há eloquência; mas nenhum outro
há que nos capacite a ver Deus com suas mãos
estendidas e insistindo com os homens que se
convertam e vivam. Há outros livros que contêm ciência;
mas não há nenhum outro que possa dar à alma uma
clara e firme certeza da vida futura, de modo que ela
possa dizer: ‘Eu sei em quem tenho crido e que ele é
poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia’”.

Embora outros livros contenham verdades valiosas, eles têm


também uma mistura de erro; outros livros contêm parte da verdade,
mas somente a Bíblia contém toda a verdade. Em parte alguma dos
escritos do gênio humano pode se achar uma verdade moral ou
espiritual que a Bíblia não contenha substancialmente. Examine os
escritos dos antigos; rebusque as bibliotecas do Egito, da Assíria, da
Pérsia, da Índia, da Grécia e de Roma; verifique o conteúdo do
Corão, do Avestá ou do Bhagavad-Gita; reúna os pensamentos
espirituais mais exaltados e as concepções morais mais sublimes
contidos nessas obras, e verá que todos eles estão em dobro na
Bíblia! Disse o Dr. Torrey: “Se todos os livros, menos a Bíblia,
fossem destruídos, não se perderia nem uma só verdade espiritual”.
No pequeno espaço da Palavra de Deus está armazenada mais
sabedoria que resistirá ao teste da eternidade do que a soma total
dos pensamentos produzidos pelo homem, desde a sua criação. De
todos os livros do mundo, unicamente da Bíblia se pode dizer que é
completa, e esta característica das Escrituras é mais uma das
numerosas linhas de demonstração que testificam a inspiração
divina da Bíblia.
CAPÍTULO 11

A INDESTRUTIBILIDADE DA BÍBLIA É UMA PROVA DE QUE O


SEU AUTOR É DIVINO

Seria muito difícil explicar a sobrevivência da Bíblia, se ela


não fosse verdadeiramente a Palavra de Deus. Os livros são como
os homens ― criaturas mortais. Uma diminuta porcentagem dos
livros sobrevive mais de vinte anos, uma porcentagem ainda menor
dura cem anos, e somente uma fração muito insignificante
representa aqueles que viveram mil anos. Em meio ao naufrágio e
ruína da literatura antiga, as Escrituras Sagradas sobressaem como
o derradeiro sobrevivente de uma raça que, de outro modo, seria
extinta, e o simples fato da continuada existência da Bíblia é uma
indicação de que o seu Autor é indestrutível.
Quando trazemos à memória a lembrança do fato de que a
Bíblia tem sido objeto especial de interminável perseguição, o
encanto da sobrevivência da Bíblia transforma-se em milagre. A
Bíblia não é somente o livro que tem sido mais intensamente amado
em todo o mundo; também tem sido o mais odiado. A Bíblia não
somente recebeu mais veneração e respeito do que qualquer outro
livro, mas também tem sido objeto de perseguição e oposição mais
do que qualquer outro. Durante dois mil anos o ódio do homem pela
Bíblia tem sido persistente, determinado, implacável e assassino.
Todos os esforços possíveis têm sido feitos para solapar a fé na
inspiração e autoridade da Bíblia, e numerosos empreendimentos
têm sido efetuados com a determinação de consigná-la ao
esquecimento. Editos imperiais foram promulgados com o fim de
que todos os exemplares da Bíblia conhecidos fossem destruídos, e
quando essa medida falhou, não conseguindo exterminar e eliminar
a Palavra de Deus, ordens foram dadas para que toda pessoa que
fosse encontrada de posse de sequer um exemplar das Escrituras
fosse morta. O próprio fato de que a Bíblia tem sido destacada como
objetivo de implacável destruição faz com que a admiremos como
um fenômeno único.
Não obstante a Bíblia ser o melhor livro do mundo, ela tem
causado mais inimizade e oposição do que o conteúdo de todas as
nossas bibliotecas combinadas. Por quê? Certamente porque as
Escrituras convencem os homens de sua culpa e os condenam por
seus pecados. Poderes políticos e eclesiásticos têm-se unido na
tentativa de eliminar a Bíblia de sua existência, mas os seus
esforços concentrados têm fracassado completamente. Depois de
toda a perseguição que se moveu contra a Bíblia, é, humanamente
falando, uma verdadeira maravilha que ainda reste alguma Bíblia.
Toda máquina de destruição que a filosofia, a ciência, a força e o
ódio dos homens poderiam acionar contra um livro, foi acionada
contra a Bíblia, e, contudo, ela ainda hoje permanece inabalada e
ilesa.
Quando nos lembramos de que nenhum exército defendeu a
Bíblia e que nenhum rei jamais ordenou que os inimigos dela
fossem extirpados, nosso extasiado encantamento aumenta. Houve
ocasiões em que quase todos os sábios e grandes da Terra se
puseram contra a Bíblia, enquanto apenas uns poucos homens e
mulheres desprezados a honravam e a reverenciavam. Cidades
antigas foram iluminadas com fogueiras feitas com Bíblias, e por
séculos só os que se achavam ocultos ousavam lê-la. Como, então,
podemos explicar a sobrevivência da Bíblia em face de tão feroz
perseguição? A única solução para esse dilema está na promessa
de Deus: “Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não
passarão” (Mt 24.35).
A história da perseguição da Bíblia é assombrosa. Durante os
três primeiros séculos da era cristã os imperadores romanos
procuraram destruir a Palavra de Deus. Um deles, cujo nome é
Diocleciano, acreditou que teve sucesso. Ele tinha mandado matar
tantos cristãos e destruir tantas Bíblias que, quando os amantes da
Bíblia ficaram quietos por um tempo e se mantiveram escondidos,
ele imaginou que tinha dado cabo das Escrituras, e se envaideceu
tanto com essa realização, que mandou cunhar uma medalha com
estas palavras nela inscritas: “A religião cristã foi destruída e o culto
dos deuses foi restaurado”. A gente fica a se perguntar o que esse
imperador pensaria, se retornasse a esta terra e visse que foram
escritos mais livros sobre a Bíblia do que sobre outros mil livros
juntos, e que a Bíblia, que guarda como um tesouro a fé cristã,
agora está traduzida em mais de quatrocentas línguas e está sendo
enviada a todas as partes da terra!
Séculos depois das perseguições feitas pelos imperadores
romanos, quando a Igreja Católica Romana obteve o comando da
cidade de Roma, o papa e seus sacerdotes reencetaram a velha
guerra contra a Bíblia. A Escritura Sagrada foi tirada do povo,
proibiu-se comprar exemplares dela e todos os que foram
encontrados com sequer um exemplar da Palavra de Deus em sua
posse foram torturados e mortos. Durante séculos a Igreja Católica
Romana perseguiu cruelmente a Bíblia, e só no tempo da Reforma,
no fim do século XVI, a Palavra de Deus foi novamente dada às
massas em suas respectivas línguas.
Mesmo em nossos dias continua a perseguição da Bíblia, se
bem que o método de ataque mudou. Grande parte dos nossos
eruditos modernos está engajada na obra de procurar destruir a fé
na inspiração e autoridade divina da Bíblia. Em muitos dos nossos
seminários ensina-se à geração de clérigos que surge que Gênesis
é um livro de mitos, que boa parte do ensino do Pentateuco é
imoral, que os registros históricos do Antigo Testamento não são
confiáveis e que a Bíblia toda é criação do homem, antes que
revelação de Deus. E assim o ataque à Bíblia está sendo
perpetuado.
Imaginemos agora que houve um homem que viveu nesta
terra mil e oitocentos anos; que muitas vezes foi lançado ao mar, e
não morreu afogado; que frequentemente era atirado a feras, e
estas não puderam devorá-lo; que muita vezes foi forçado a beber
venenos mortíferos, e estes nunca lhe causaram dano algum; que
muitas vezes foi acorrentado e trancado em calabouços, e, contudo,
sempre pôde romper as correntes e escapar do seu cativeiro; que
foi enforcado repetidamente, e seus inimigos pensaram que ele
tinha morrido, mas, quando seu corpo foi baixado, ele se firmou
sobre seus pés e saiu andando como se nada lhe tivesse
acontecido; que centenas de vezes foi amarrado em estaca e
queimado vivo, até parecer que não lhe restava mais nada, e, no
entanto, assim que as chamas se apagaram, ele saltou das cinzas
tão bem disposto e tão vigoroso como sempre ― mas não
precisamos expandir mais esta ideia; tal pessoa seria um super-
homem, o milagre dos milagres. Contudo, é exatamente assim que
deveríamos sentir-nos com relação à Bíblia! É praticamente dessa
maneira que a Bíblia tem sido tratada. Ela tem sido queimada,
afogada, acorrentada, encarcerada e feita em pedaços, mas, apesar
disso tudo, nunca foi destruída!
Nenhum outro livro provocou tão feroz perseguição como a
Bíblia, e sua preservação é, talvez, o mais impressionante de todos
os milagres ocorridos com ela. Mas, há dois mil e quinhentos anos
Deus declarou: “Seca-se a erva, e caia sua flor, mas a Palavra de
nosso Deus permanece eternamente” (Is 40.8). Justamente como os
três hebreus passaram incólumes pela terrível fornalha de
Nabucodonosor, de modo que não foram nem feridos nem
chamuscados, assim a Bíblia tem emergido da fornalha do ódio
satânico, sem sequer pegar o cheiro do maligno fogo! Assim como
um pai terreno guarda como tesouros as cartas recebidas do seu
filho, assim o nosso Pai celeste tem protegido e preservado as
cartas de amor escritas para os seus filhos.
CAPÍTULO 12

A CONFIRMAÇÃO INTERIOR DA VERACIDADE DAS


ESCRITURAS

Vivemos dias em que a confiança falta; quando o ceticismo e


o agnosticismo vão prevalecendo cada vez mais; e quando a dúvida
e a incerteza se salientam como insígnias da cultura e da sabedoria.
Em toda parte os homens exigem provas. Hipóteses e especulações
não satisfazem; o coração não pode descansar contente enquanto
não pode dizer: “Eu sei”. A mente humana exige conhecimento
definido e certeza positiva. — E Deus condescendeu em atender a
essa necessidade.
Algo que distingue o cristianismo de todos os sistemas
humanos é que ele trata de certezas absolutas. Os cristãos são
pessoas que sabem. E é bom que seja assim. As questões
concernentes à vida e à morte são tão estupendas, os perigos
envolvidos na salvação da alma são tão grandes, que não podemos
permitir-nos ter incerteza sobre esses pontos. Só um tolo se
atreveria a atravessar um rio congelado enquanto não estivesse
seguro de que o gelo era suficientemente forte para suportar seu
peso. E nós vamos encarar o rio da morte sem nada senão uma
vaga e incerta esperança sobre a qual descansar? Certeza pessoal
é a clamorosa necessidade da presente hora. Não se pode ter paz e
alegria enquanto não se alcança essa firme e segura certeza. O pai
que fica em suspenso quanto à segurança do seu filho, sofre agonia
de alma. O criminoso que jaz numa cela de condenados e que
espera a absolvição da pena, fica em tormento mental enquanto não
lhe chega o perdão. E o cristão professo que não sabe se finalmente
vai para o céu ou para o inferno, está numa situação deplorável.
Mas nós tornamos a dizer: Os cristãos verdadeiros são
pessoas que sabem. Sabem que o seu Redentor vive (Jó 19.25).
Sabem que passaram da morte para a vida (1Jo 3.14). Sabem que
todas as coisas cooperam para o bem (Rm 8.28). Sabem que, se a
sua casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos um edifício
de Deus, casa não feita por mãos, eterna nos céus (2 Coríntios 5.1).
Sabem que um dia verão Cristo face a face e que se tornarão
semelhantes a ele (1Jo 3.2). Por enquanto eles sabem em quem
têm crido, e estão certos de que ele é poderoso para guardar o que
eles lhe confiaram até aquele dia (2Tm 1.12). ― Se alguém
perguntar: Como é que eles sabem?, a resposta é: Eles provaram
por si mesmos a fidedignidade da Palavra de Deus, que afirma
essas coisas.
A força deste presente argumento não atrairá ninguém, salvo
os que têm um conhecimento experimental dele. Em acréscimo a
todas as provas externas que temos da Inspiração Divina das
Escrituras, o crente tem uma fonte de evidências à qual nenhum
incrédulo tem acesso. Em sua própria experiência o cristão vê
confirmação pessoal dos ensinamentos da Palavra de Deus. Ao
homem cuja vida, julgada pelos padrões do mundo, parece
moralmente íntegra, a declaração de que “enganoso é o coração,
mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto” (Jr
17.9) parece a melancólica ideia de um pessimista, ou uma
descrição que não tem nenhuma aplicação geral. Mas o crente
repete com o salmista esta declaração feita a Deus: “a revelação
das tuas palavras esclarece” (Sl 119.130), ou “a entrada das tuas
palavras produz luz” (VA). E, engolfado pela luz da Palavra de Deus
e sob o poder iluminador do Espírito de Deus que nele habita, o
crente descobre que há dentro dele um poço de iniquidade. Para a
sabedoria natural, que gosta de filosofar sobre a liberdade da
vontade humana, a seguinte declaração de Cristo,
“Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o
trouxer” (Jo 6.44),
parece um duro pronunciamento; mas para quem aprendeu
do Espírito Santo algo sobre o impositivo poder do pecado, essa
declaração foi comprovada em sua própria experiência. Para o
cidadão do mundo que tem feito o melhor que pode para viver
segundo a luz que recebeu, a declaração de que “todas as nossas
justiças são como trapo da imundícia” (Is 64.6) parece pesada e
severa; mas para o homem que recebeu a “unção do Santo”, suas
melhores obras lhe parecem sórdidas e pecaminosas; e é o que
são. A confissão do apóstolo de que “em mim, isto é, em minha
carne, não habita bem nenhum” (Rm 7.18), que no passado parecia
absurda ao crente, este agora reconhece que essa é a sua condição
pessoal. A descrição que se acha em Romanos… é algo que
ninguém, exceto a pessoa regenerada, pode entender. As verdades
mencionadas como pertencentes ao mesmo homem ao mesmo
tempo, parecem loucura aos sábios deste mundo; mas o crente
compreende completamente a verdade sobre a sua própria vida.
As promessas de Deus podem ser submetidas a prova: sua
fidedignidade é passível de verificação. No Evangelho Cristo
promete dar descanso a todos os que se acham cansados e
sobrecarregados e veem a ele. Ele declara que veio buscar e salvar
o perdido. Ele afirma: “Aquele… que beber da água que eu lhe der
nunca mais terá sede” (Jo 4.14). Em resumo, o Evangelho
apresenta o Senhor Jesus Cristo como Salvador. O fato de ele se
arrogar o poder de salvar pode ser submetido a prova. Sim, e isso
tem sido feito por uma multidão tão grande de indivíduos que
ninguém pode contar. Muitos destes ainda vivem nesta terra. Todo e
qualquer indivíduo que leu nas Escrituras os convites dirigidos aos
pecadores e deles se apropriou pessoalmente, pode dizer, nas
palavras do conhecido hino: —
“Como eu estava, vim a Jesus,
Cansado, estropiado e triste;
Repouso e paz eu nele achei,
E alegre ele me tornou.”
Estas páginas deveriam ser lidas pelo cético que, apesar de
sua atual incredulidade, tem um desejo sincero e profundo de
conhecer a verdade. Saiba ele que também pode pôr à prova a
Palavra de Deus e compartilhar a experiência acima descrita. Está
escrito: “Crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo” — crê em
Cristo, leitor meu, e tu também serás salvo.
“Dizemos o que sabemos e testificamos o que temos
visto” (Jo 3.11).

A Bíblia testifica que “todos pecaram e carecem da glória de


Deus”, e a nossa consciência confirma isso. A Bíblia declara que
“não por obras de justiça que tenhamos feito, mas segundo a sua
misericórdia” Deus nos salva; e o cristão sabe que é
comprovadamente incapaz de fazer qualquer coisa para conquistar
a boa estima de Deus; mas, tendo clamado a Deus por misericórdia
com a oração do publicano, desce ou já desceu para casa
justificado. A Bíblia ensina que, “se alguém está em Cristo, é nova
criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas”, e
o crente já viu que as coisas que anteriormente ele odiava, agora
ama, e que as coisas que até então considerava ganho, agora
considera escórias. A Bíblia testifica que “somos guardados pelo
poder de Deus mediante a fé”, e o crente já comprovou que, embora
o mundo, a carne e o diabo estejam aparelhados contra ele, a graça
de Deus é suficiente para todas as suas necessidades. Pergunte,
então, ao cristão, por que ele crê que a Bíblia é a Palavra de Deus,
e ele lhe dirá: Porque ela me fez o que declara que faz (salvar);
porque eu provei pessoalmente as suas promessas; porque vejo
que os seus ensinamentos se verificam e se comprovam em minhas
experiências pessoais.
Para o não regenerado a Bíblia é praticamente um livro
lacrado e vedado. Mesmo as pessoas cultas e com alto grau de
educação são incapazes de entender os seus ensinos: parte destes
lhes parece claros e simples, mas grande parte é obscura e
misteriosa para elas. É exatamente isso que a Bíblia declara:
“Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito
de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-
las, porque elas se discernem espiritualmente” (1Co
2.14).

Mas para o homem de Deus é muito diferente:

“Aquele que crê no Filho de Deus tem, em si, o


testemunho” (1Jo 5.10).

Como o Senhor Jesus declarou:

“Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a


respeito da doutrina” (Jo 7.17).

Enquanto o infiel tropeça nas trevas, mesmo estando em


plena luz, o crente descobre a prova da veracidade da Palavra de
Deus nele próprio, com a clareza da luz do sol.

“Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a


luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para
iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face
de Cristo” (2Co 4.6).
CAPÍTULO 13

A INSPIRAÇÃO VERBAL

A Bíblia não somente se arroga ser uma revelação divina,


mas também assevera que os seus manuscritos originais foram
escritos
“não em palavras ensinadas pela sabedoria humana,
mas ensinadas pelo Espírito” (1Co 2.13).

Em parte alguma a Bíblia declara ter sido escrita por homens


inspirados — é fato inegável que alguns deles foram homens de
mau caráter — Balaão, por exemplo — mas insiste em que as
palavras que eles proferiram e registraram eram palavras de Deus.
A inspiração não tem que ver com as mentes dos escritores (pois
muitos deles não entenderam o que escreveram — 1Pe 1.10,11),
mas sim com os escritos propriamente ditos. “Toda a Escritura é
inspirada por Deus”, e “Escritura” significa “escritos”. A fé tem que
ver com a Palavra de Deus, não com os homens que a escreveram
— estes faz tempo que estão mortos, mas os seus escritos
permanecem.
Um escrito inspirado por Deus implica evidentemente, em sua
própria expressão, que as palavras são palavras de Deus. Dizer que
a inspiração das Escrituras aplica-se a seus conceitos e não às suas
palavras; declarar que uma parte da Escritura foi escrita com um
tipo ou grau de inspiração, e outra parte com outro tipo ou grau, não
somente é destituir qualquer fundamento ou suporte das Escrituras,
mas é uma declaração repudiada por cada afirmação da Bíblia que
dá suporte ao assunto agora em consideração. Dizer que a Bíblia
não é a Palavra de Deus, mas que meramente contém a Palavra de
Deus, é uma invenção resultante de uma habilidade mal empregada
e uma impura tentativa de depreciar e invalidar a autoridade
suprema dos Oráculos de Deus. Todas as tentativas que têm sido
feitas para explicar os argumentos racionais em prol da inspiração
nada fizeram para simplificar o assunto; antes têm tido a tendência
de falsear os fatos. Conceber como ideias poderiam ser
comunicadas sem o uso de palavras não é mais fácil do que admitir
que verdades divinamente reveladas são comunicadas por meio de
palavras. Tentar fazer aquilo, em vez de diminuir a dificuldade a
aumenta. Seria igualmente lógico falar de uma soma sem números,
ou de uma música sem notas, como falar de uma revelação e
comunicação divina sem palavras. Em vez de especular, o nosso
dever é receber e crer o que as Escrituras dizem de si mesmas.
O que a Bíblia ensina sobre a sua inspiração é puramente
matéria de testemunho divino, e o nosso dever consiste
simplesmente em aceitar o testemunho, e não especular ou
pesquisar a questão pretendendo bisbilhotar os segredos do seu
modus operandi. A inspiração é tanto matéria de revelação divina
como o é a justificação pela fé. Ambas se apoiam igualmente na
autoridade das Escrituras propriamente ditas, as quais devem ser o
nosso supremo tribunal de recursos, tanto sobre este assunto como
sobre toda e qualquer questão da verdade revelada.
O ensino da Bíblia concernente à inspiração das Escrituras é
claro e simples, como também é uniforme em toda a linha. Seus
escritores estavam cônscios de que suas declarações eram uma
mensagem enviada por Deus no sentido mais elevado da palavra.

“Respondeu-lhe o S (a Moisés): Quem fez a boca


do homem? Ou quem faz o mudo, ou o surdo, ou o que
vê, ou o cego? Não sou eu, o S ? Vai, pois, agora,
e eu serei com a tua boca e te ensinarei o que hás de
dizer” (Êxodo 4.11,12).

“O Espírito do S fala por meu intermédio, e a sua


Palavra está na minha língua” (2Sm 23.2).
“Depois, estendeu o S a mão, tocou-me na boca,
e o S me disse: Eis que ponho na tua boca as
minhas palavras” (Jr 1.9).

As passagens acima citadas são apenas algumas das


dezenas que poderiam ser examinadas.
O que é vaticinado a respeito das Escrituras propriamente
ditas demonstra que elas são inteira e absolutamente a Palavra de
Deus. “A lei do Senhor é perfeita, e converte a alma” (Sl 19.7, VA) —
esta declaração exclui por completo qualquer lugar na Bíblia para
fraquezas e imperfeições humanas. “Puríssima é a tua Palavra” (Sl
119.140), o que não pode significar menos do que isto: De tal modo
o Espírito Santo superintendeu a composição da Bíblia, e de tal
modo “moveu” os seus escritores, que todo erro foi excluído. “As
tuas palavras são em tudo verdade desde o princípio” (Sl 119.160)
— como essa declaração antecipou os ataques da Alta Crítica ao
Livro de Gênesis, particularmente aos seus capítulos iniciais!
O ensino do Novo Testamento concorda com o que citamos
do Antigo.
“Não vos preocupeis quanto ao modo por que
respondereis, nem quanto às coisas que tiverdes de
falar. Porque o Espírito Santo vos ensinará, naquela
mesma hora, as coisas que deveis dizer” (Lc 12.11,12)
— eram os discípulos que falavam, mas foi o Espírito que
lhes ensinou o que dizer. Poderia alguma outra linguagem expressar
mais enfaticamente a mais completa inspiração? E, se o Espírito
Santo controlou dessa maneira os pronunciamentos deles quando
na presença dos “magistrados”, é concebível que ele faria menos
por eles quando comunicavam os pensamentos de Deus a todas as
gerações futuras no tocante ao nosso destino eterno? Claro que
não!
“Mas Deus, assim, cumpriu o que dantes anunciara por
boca de todos os profetas: que o seu Cristo havia de
padecer” (At 3.18).

Nessa passagem o Espírito Santo declara, por intermédio de


Pedro, que fora Deus que tinha revelado pela boca de todos os seus
profetas que o Messias de Israel haveria de sofrer antes de a glória
se manifestar.

“Porém confesso-te que, segundo o caminho, a que


chamam seita, assim eu sirvo ao Deus de nossos pais,
acreditando em todas as coisas que estejam de acordo
com a lei e nos escritos dos profetas” (At 24.14).

Essas palavras evidenciam claramente o fato de que o


apóstolo Paulo tinha a máxima confiança na autenticidade de todo o
conteúdo do Antigo Testamento.

“A minha palavra e a minha pregação não consistiram


em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em
demonstração do Espírito e de poder” (1Co 2.4).

Poderia alguém ter empregado essa linguagem, a não ser


que estivesse plenamente cônscio de que estava proferindo as
próprias palavras de Deus?

“Nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade


humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte
de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1.21).
O Dr. Gray expôs extraordinária e vigorosamente a
necessidade de uma Bíblia inspirada verbalmente com o seguinte
linguajar: — “Uma ilustração o escritor utilizou várias vezes para
ajudar a esclarecer melhor o ponto. Foi solicitado a uma estenógrafa
de uma casa mercantil, por seu empregador, que escrevesse como
segue:
“Cavalheiros, entendemos mal a sua carta, e agora
vamos atender a seu pedido.”

Imagine a surpresa do empregador, porém quando uma


breve carta foi colocada diante dele para que a assinasse:
“Cavalheiros, entendemos mal a sua carta, e não vamos
atender a seu pedido.”

O erro foi só de uma letra,[8] mas alterou completamente o


sentido. E, todavia, o pensamento foi dado claramente à
estenógrafa, e as palavras também. Acresce que a estenógrafa era
competente e fiel, mas era humana, e errar é humano. Se o
empregador não tivesse examinado a carta ao pé da letra,
comparando-a com a que ditara, o pensamento que desejara
comunicar não seria transmitido”. Assim também foi preciso que o
Espírito Santo superintendesse a redação das próprias letras da
Escritura para garantir sua acurácia e sua inerrância.
Poderíamos dar muitas provas para mostrar que as
Escrituras são inspiradas verbalmente. Uma linha de demonstração
aparece no cumprimento literal e verbal de muitas das profecias do
Antigo Testamento. Por exemplo, Deus deu a conhecer, por meio de
Zacarias, que o preço que Judas receberia por seu medonho crime
era “trinta moedas de prata” (Zc 11.12). Temos aí um caso bastante
claro no qual Deus comunicou a um dos profetas, não meramente
um conceito abstrato, mas uma informação específica. E esse caso
é apenas um dentre muitos.
Outra prova da inspiração verbal vê-se no fato de que na
Escritura são empregadas palavras com a mais exata precisão e
discriminação. Isso é particularmente notório no que diz respeito aos
títulos divinos. Os nomes Elohim e Jeová [S , Iavé] acham-se
nas páginas do Antigo Testamento alguns milhares de vezes, mas
nunca são empregados leviana ou alternativamente. Cada um
desses nomes tem significado e escopo definidos e, se
substituíssemos um pelo outro, a beleza e a perfeição de
numerosas passagens seriam destruídas. Ilustrando: A palavra
“Deus” ocorre em todo o capítulo primeiro de Gênesis, mas a
expressão S Deus, ocorre no capítulo dois. Se invertêssemos
esses títulos ali, uma falha e uma mancha seriam a consequência.
“Deus” é o título relacionado com a obra de criação, ao passo que
“S ” implica relação pactual e mostra os procedimentos de
Deus para com seu povo. Decorre, pois, que em Gênesis 1, “Deus”
é o título empregado, e “S Deus” é empregado em Gênesis 2,
e em todo o conteúdo restante do Antigo Testamento esses dois
títulos divinos são empregados discriminativamente e em harmonia
com o sentido deles em sua primeira menção. Um ou dois outros
exemplos devem bastar.
“Eram macho e fêmea os que entraram de toda carne, como
Deus lhe havia ordenado” — “Deus”, porque era o Criador
ordenando, com respeito às suas criaturas como tais; mas, no resto
do mesmo versículo, lemos: “e o S fechou a porta após ele”
(Gn 7.16), porque o ato de Deus aqui, concernente a Noé, estava
baseado na relação pactual.
Outro exemplo: Quando Davi saiu para enfrentar Golias,
disse:

“Hoje mesmo o S te entregará nas minhas mãos;


ferir-te-ei, tirar-te-ei a cabeça e os cadáveres do arraial
dos filisteus darei, hoje mesmo, às aves dos céus e às
bestas-feras da terra; e toda a terra (que não tinha
relação pactual com ele) saberá que há Deus em Israel.
Saberá toda esta multidão que o S salva, não com
espada, não com lança; porque do S é a guerra, e
ele vos entregará nas nossas mãos” (1Sm 17.46,47).

Mais um:

“Vendo os capitães dos carros a Josafá, disseram: Este


é o rei de Israel. Portanto, a ele se dirigiram para o
atacar. Josafá, porém, gritou, e o S o socorreu;
Deus os desviou (os sírios) dele” (2Cr 18.31).

E assim é em todo o Antigo Testamento.


A linha de argumentação supra poderia ser estendida
indefinidamente. Existem mais de cinquenta títulos divinos no Antigo
Testamento que são empregados mais de uma vez, o sentido de
cada um dos quais tendo sido dado a entenderem sua primeira
menção, e cada um deles é empregado subsequentemente em
harmonia com o seu propósito original. Nunca são utilizados
imprecisamente ou um pelo outro. Em todos os lugares em que eles
ocorrem há uma razão para cada variação. Tais títulos são
Altíssimo, Todo-poderoso, o Deus de Israel, o Deus de Jacó, o
S nossa Justiça, etc. etc. etc., e não são empregados ao
acaso, mas em todos os casos são empregados em harmonia com
o seu sentido original e como mais bem se ajusta ao contexto.
A mesma coisa ocorre quanto aos nomes do nosso Senhor
no Novo Testamento. Em algumas passagens ele é mencionado
como Cristo, noutras como Jesus, Jesus Cristo, Cristo Jesus,
Senhor Jesus Cristo. Em cada exemplo há uma razão para a
variação, e em cada caso o Espírito Santo providenciou que fossem
empregados com significação uniforme. Sucede o mesmo com os
diversos nomes do grande adversário. Em alguns lugares ele é
chamado Satanás, noutros diabo, etc.; mas os diferentes termos são
empregados com inerrante precisão sempre que ocorrem. Outra
ilustração nos é fornecida pelo pai de José. Na parte inicial de sua
vida ele era sempre chamado Jacó, posteriormente recebeu o nome
de Israel, mas, depois disso, às vezes lemos Jacó e outras vezes
Israel. O que quer que seja dito de Jacó refere-se ao “velho
homem”; o que quer que se declare sobre Israel eram frutos do
“novo homem”. Quando ele duvidava, era Jacó que duvidava;
quando ele cria em Deus, era Israel que exercia a fé. Por
conseguinte, lemos:
“Tendo Jacó acabado de dar determinações a seus
filhos, recolheu os pés na cama, e expirou” (Gn 49.33).

Mas um próximo versículo nos informa do seguinte: “Ordenou


José a seus servos, aos que eram médicos, que embalsamassem a
seu pai; e os médicos embalsamaram a Israel” (Gn 50.2)! Aí vemos,
então, a maravilhosa precisão e perfeição verbal da Escritura
Sagrada.
De todos os argumentos e provas da inspiração verbal das
Escrituras, a mais convincente é que o Senhor Jesus Cristo as
considerava e sempre as tratou como tal. Ele próprio se sujeitou à
sua autoridade. Quando atacado por Satanás, respondeu três vezes
dizendo: “Está escrito”, e se deve notar particularmente que o ponto
focal de cada uma de suas citações e a força de cada uma de suas
respostas jazem numa única palavra — “Não só de pão viverá” etc.;
“Não tentarás o Senhor teu Deus”; “Ao teu Deus adorarás e só a ele
servirás”. Quando Cristo foi tentado pelos fariseus, que lhe
perguntaram: “É licito ao marido repudiar a sua mulher por qualquer
motivo?”, ele respondeu: “Não tendes lido?” etc. (Mt 19.3,4). Aos
saduceus ele disse: “Errais, não conhecendo as Escrituras” (Mt
22.29). Noutra ocasião ele acusou os fariseus dizendo que eles
estavam
“invalidando a Palavra de Deus pela [sua] tradição” (Mc
7.13).

Noutra ocasião, quando falava sobre a Palavra de Deus, ele


declarou: “A Escritura não pode falhar” (Jo 10.35). Foram citados
exemplos suficientes para mostrar que o Senhor Jesus considerava
as Escrituras como a Palavra de Deus no sentido mais absoluto. Em
vista deste fato, conclamo os cristãos a que tenham o cuidado de
não diminuírem no mínimo grau a perfeita e plena inspiração das
Escrituras Sagradas.
CAPÍTULO 14

APLICAÇÃO DO ARGUMENTO

Qual é a nossa atitude para com a Palavra de Deus? Saber


que as Escrituras são inspiradas pelo Espírito Santo envolve
definidas obrigações. A nossa concepção da autoridade da Bíblia
determina a nossa atitude e mensura a nossa responsabilidade. Se
a Bíblia é uma revelação divina, qual a decorrência desse fato?

TEMOS NECESSIDADE DE BUSCAR O PERDÃO DE DEUS

Se, com base em autoridade confiável, fosse anunciado que


em certa data futura um anjo do céu visitaria Nova Iorque e pregaria
um sermão sobre o mundo invisível, o destino futuro do homem ou o
segredo da libertação do poder do pecado, quantos ouvintes ele
teria sob o seu comando! Naquela cidade não há edifício
suficientemente grande para acomodar a multidão que se
atropelaria para ouvi-lo. Se no dia seguinte os jornais publicassem
uma reportagem registrando o discurso angélico tim-tim por tim-tim,
com que avidez seria lido! E, todavia, temos entre as capas da
Bíblia, não meramente uma comunicação angélica, mas uma
revelação divina. Como é grande a nossa iniquidade, se a
subestimamos e a desprezamos! E, no entanto, é o que fazemos.
Precisamos confessar a Deus o nosso pecado de
negligenciar a sua Santa Palavra. Temos tempo suficiente —
arranjamos tempo — para ler os escritos de nossos companheiros
pecadores, e, contudo, temos pouco ou nenhum tempo para as
Escrituras Sagradas. A Bíblia é uma série de cartas de amor e,
apesar disso, muitos que pertencem ao povo de Deus mal têm
rompido os selos. Vejamos como Deus se queixou na antiguidade:
“Eu lhe escrevi coisas grandiosas da minha lei, mas eles
a consideraram coisa estranha” (Os 8.12, VA).

Negligenciar dons de Deus é negligenciar o Doador.


Negligenciar a Palavra de Deus é virtualmente dizer-lhe que ele
cometeu um erro por se preocupar tanto em comunicá-la. Preferir os
escritos do homem é insultar o Todo-poderoso. Dizer que os escritos
do homem são mais interessantes é impugnar a sabedoria do
Altíssimo e uma terrível acusação contra os nossos perversos
corações. Negligenciar a Palavra de Deus é pecar contra o seu
Autor, pois ele nos ordenou que a leiamos, estudemos e sondemos.
Se a Bíblia é a Palavra de Deus, significa que —

A BÍBLIA É O SUPREMO TRIBUNAL DE RECURSOS

A questão não é o que eu penso, ou o que alguém pensa —


é: Que dizem as Escrituras? Não é questão sobre o que alguma
igreja ou algum credo ensina — é: Que é que a Bíblia ensina? Deus
falou, e isso põe fim à questão: “Para sempre, ó S , está
firmada a tua Palavra no céu” (Sl 119.89). Portanto, o que me cabe
fazer é curvar-me diante da sua autoridade, submeter-me à sua
Palavra, parar de sofismar e clamar: “Fala, S , porque o teu
servo ouve”! Uma vez que a Bíblia é Palavra de Deus, ela é o
supremo tribunal de recursos em todas as coisas pertinentes à
doutrina, ao dever e à conduta.
Essa foi a posição que mesmo o nosso Senhor assumiu.
Tentado por Satanás, declinou discutir com ele, recusou-se a
dominá-lo com a força da sua sabedoria superior, desprezou a ideia
de esmagá-lo impondo sobre ele o seu onipotente poder — “Está
escrito” foi a defesa diante de cada ataque. No princípio do seu
ministério público, quando foi para Nazaré, onde tinha vivido a maior
parte dos seus trinta anos de idade, ele não realizou nenhum
portentoso milagre, mas entrou na sinagoga, leu parte do Profeta
Isaías e disse: “Hoje se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir”
(Lc 4.21). Em seu ensino sobre o rico e Lázaro, ele insistiu em que
“Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco se
deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre
os mortos” (Lc 16.31).

— querendo dizer com isso que a autoridade da Palavra


escrita tem maior peso e valor do que o testemunho e o apelo dos
milagres. Quando estava vindicando diante dos judeus a sua
prerrogativa de Divindade (Jo 5), ele recorreu ao testemunho de
João Batista (v. 32), às suas obras (v. 36), ao testemunho do próprio
Pai em seu batismo (v. 37), e então — como que chegando ao
clímax — ele disse: “Examinai as Escrituras… são elas mesmas que
testificam de mim” (v. 39).
Essa foi a posição assumida pelos apóstolos. Quando Pedro
quis justificar o falar em outras línguas, ele recorreu a Joel (At 2.16).
Quando procurou provar aos judeus que Jesus de Nazaré era o
Messias deles, e que ele tinha ressuscitado dentre os mortos, ele
recorreu ao testemunho do Antigo Testamento (At 2). Quando
Estêvão fez sua defesa perante o “conselho” (Sinédrio), fez pouco
mais do que uma recapitulação do ensino de Moisés e dos profetas.
Quando Saulo e Barnabé encetaram sua primeira viagem
missionária, “anunciavam a Palavra de Deus nas sinagogas
judaicas” (At 13.5). Em suas epístolas, o apóstolo para
continuadamente para perguntar — “Que diz a Escritura?” (Rm 4.3
etc) — quer dizer, se a Escritura fez claro pronunciamento sobre o
assunto em discussão, isso pôs fim à questão: contra o testemunho
da Escritura não havia recurso.
Se a Bíblia é a Palavra de Deus — então

A BÍBLIA É O PADRÃO SUPREMO E FINAL PARA REGRAR A


CONDUTA
Como pode o homem ser justo diante de Deus? Ou, como
pode ser puro quem nasceu de mulher? Que devo fazer para me
salvar? Onde se pode achar paz e descanso verdadeiro e
duradouro? Essas são algumas das interrogações que faz toda alma
honesta e ansiosa. A resposta é — “Examinai as Escrituras”.
Procure e veja. Como devo empregar melhor meu tempo e meus
talentos? Como posso descobrir o que agrada mais ao meu
Criador? Como hei de saber o caminho do dever? E de novo a
resposta é — Que ensina a Palavra de Deus?
Ninguém que possui um exemplar da Bíblia pode alegar
legitimamente que desconhece a vontade de Deus. As Escrituras
nos deixam sem escusa. Foi providenciada uma lâmpada para os
nossos pés e a vereda da justiça está assinalada claramente. Um
mapa foi dado ao marinheiro no mar do tempo, e será sua culpa se
ele não chegar ao porto celestial. No dia do juízo serão abertos os
Livros, e segundo estes Livros os homens serão julgados; e um
destes Livros é a Bíblia. Em sua Palavra escrita Deus revelou sua
mente, expressou sua vontade, comunicou suas exigências — e ai
do homem ou da mulher que não tomar o tempo necessário para
descobrir quais são estas!
Se a Bíblia é a Palavra de Deus, significa que —

A BÍBLIA É UM FIRME E SEGURO ALICERCE PARA A NOSSA


O homem almeja certeza. As especulações e as hipóteses


são insuficientes quando interesses eternos estão em jogo. Quando
minha cabeça pousar no travesseiro mortuário, quero alguma coisa
mais segura do que um “talvez” sobre a qual repousar. E, graças a
Deus, eu a tenho. Onde? Nas Escrituras Sagradas. Eu sei que o
meu Redentor vive. Eu sei que já passei da morte para a vida. Eu
sei que serei transformado e feito semelhante a Cristo, e que
habitarei com ele na glória pelos séculos sem fim da eternidade.
Como sei disso? Porque a Palavra de Deus o diz, e não quero mais
nada: não preciso de mais nada.
A Bíblia não emite som incerto. Fala com absoluta segurança,
com dogmatismo e com finalidade. Suas promessas são certas e
não falham porque são promessas de Deus, que não pode mentir.
Seu testemunho é confiável, pois é a Palavra inerrante do único
Deus vivo e verdadeiro. Seus ensinamentos são dignos de
confiança porque são uma comunicação do Onisciente. O crente
tem, pois, um seguro alicerce no qual se firmar, uma rocha
inexpugnável sobre a qual edificar as suas esperanças. Para a sua
presente paz e para as suas perspectivas quanto ao futuro, o crente
conta com um, “Assim diz o S ”, e isso basta.
Se a Bíblia é a Palavra de Deus, então —

A BÍBLIA TEM DIREITOS SINGULARES, ÚNICOS, SOBRE NÓS

Um livro singular, único, merece atenção única. Como Jó,


devemos poder dizer: “Tenho apreciado mais as palavras da tua
boca do que o pão de que necessito” (Jó 23.12, VA). Se, afinal, a
história nos ensina alguma coisa, certamente ensina que as nações
que mais honraram a Palavra de Deus têm sido mais honradas por
Deus. E o que se pode dizer da nação, pode-se igualmente dizer da
família e do indivíduo. Os maiores intelectos de todos os séculos
hauriram sua inspiração da Escritura da Verdade. Os mais
eminentes estadistas têm testificado o valor e a importância do
estudo da Bíblia. Benjamin Franklin disse: “Jovem, meu conselho a
você é que cultive a familiaridade com as Escrituras Sagradas e
nelas tenha firme fé, porquanto fazer isso é do seu certo e seguro
interesse”. Thomas Jefferson fez esta declaração como sua opinião:
“Tenho dito e sempre direi que o estudo minucioso e aplicado do
Livro Sagrado fará melhores cidadãos, melhores pais e melhores
maridos”.
Quando perguntaram à finada rainha Vitória qual o segredo
da grandeza da Inglaterra, ela apontou para a Bíblia e disse: “Esse
Livro explica o poder da Grã-Bretanha”. Daniel Webster certa vez
afirmou: “Se cumprirmos os princípios ensinados na Bíblia, o nosso
país continuará próspero e prosperando, mas, se nós e a nossa
posteridade negligenciarmos suas instruções e sua autoridade,
ninguém poderá dizer que tremenda catástrofe nos sobrevirá
repentinamente e sepultará toda a nossa glória numa profunda
obscuridade. A Bíblia é, dentre todas as demais obras publicadas, o
Livro para advogados bem como para teólogos, e tenho dó do
homem que não consegue encontrar nela um rico suprimento de
pensamento e de regra de conduta”.
Quando Sir Walter Scott estava morrendo, chamou para o
seu lado o homem que o atendia e lhe pediu: “Leia-me algo do
Livro”. “Que livro?”, respondeu seu servidor. “Existe somente um
Livro”, foi a resposta do moribundo, e acrescentou: “A Bíblia!”. A
Bíblia é o Livro pelo qual viver e pelo qual morrer. Portanto, leia a
Bíblia para ser sábio, creia nela para ser salvo, pratique-a para ser
santo. Como outra pessoa disse: “É importante que você saiba a
Bíblia na cabeça, que a armazene no coração, que a mostre na vida
e que a semeie no mundo”.

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o


ensino, para a repreensão, para a correção, para a
educação na justiça, a fim de que o homem de Deus
seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa
obra” (2Tm 3.16,17).

[1] Quando esta obra foi produzida, provavelmente em 1914, segundo sugere
Ian Murray, em seu excelente livro The Life of Arthur W Pink (Revised and
Enlarged Edition). [N. do E.]
[2] Mary Baker Eddy (1821-1910), fundadora da “Ciência Cristã”. [N. do T.]
[3] Essa interpretação dos versículos iniciais de Gênesis é altamente
questionável. Sugerimos que o leitor aprenda mais sobre o assunto da criação
no excelente livro A Prova Definitiva da Criação (Editora Monergismo, 2012).
[N. do E.]
[4] Note-se que em contextos como este o autor emprega o termo brethren,
que indica ligação comunitária, e não brothers, que tem o sentido mais
comum de irmão. [N. do T.]
[5] Permito-me referir uma experiência pessoal. Em minha pré-adolescência li
um livro de John A. MacKay intitulado O Sentido da Vida. Poucos anos
depois, em 1947, estive no Mackenzie para ouvir o Dr. Mackay. Seu tema: “O
Sentido da Vida”. O admirado e querido preletor começou seu discurso
dizendo estas ou semelhantes palavras: “Há cerca de vinte anos escrevi um
livro sobre o sentido da vida. Peço aos que o leram que não estranhem se
esta noite eu emitir ideias ou conceitos diferentes dos que escrevi naquele
livro. Nunca mais o li, e pode ser que eu já não diga a mesma coisa em
alguns aspectos”. — No espaço de vinte anos, um homem honesto
reconheceu sua mutabilidade! [N. do T.]
[6] Li pessoalmente na famosa obra de Darwin, The Voyage of H.M.S. Beagle
― The Journal of Charles Darwin (New York: The Heritage Press, 1957),
principalmente nos capítulos X e XVIII, declarações do famoso autor sobre os
bons efeitos da obra missionária cristã em tribos selvagens, havendo enorme
diferença para melhor entre os atingidos pela obra missionária e os não
atingidos. [N. do T.]
[7] Sobre o assunto controverso de bebidas alcoólicas, veja O que Jesus
beberia?, da Editora Monergismo. [N. do E.]
[8] No original inglês: a estenógrafa escreveu now (agora) em vez de not
(não). [N. do R.]

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