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Bezerra da Silva afirma em uma de suas composições que Malandro é Malandro e Mané é Mané, mas e a

Malandra? bom, é sobre isso que nós vamos falar hoje e para elucidar a analogia do título usaremos
alguns conceitos colocados em aula por Pai David Dias no curso Zé Pelintra e os Malandros.

SALVE NOSSAS MALANDRAS!!

Nomenclatura

Os nomes dados as malandras se assemelham e em muitos casos são idênticos aos das Pombagiras, isso
já configura um dos motivos para que haja tanta confusão ao distinguir essas duas manifestações.

Marias, Padilhas, Quitérias.. dentre outras conjunções são também o resquício de nomes e sobrenomes
vindos com as famílias portuguesas na época do Brasil Colônia, que se disseminaram na cultura popular
e hoje estão arraigados também nas nomenclaturas das falanges de Umbanda e a diversas divindades de
outros cultos como o Catimbó.

Para vocês terem noção do quanto alguns nomes são reproduzidos em nosso contexto cultural, damos o
exemplo das afamadas ‘Marias’. O último SENSO identificou no Brasil a presença de 11,7 milhões de
Marias, sendo este o nome feminino mais comum no país.

Malandra é Pombagira?

Mesmo existindo pombagiras e malandras com os mesmos nomes, por exemplo, Malandra Maria
Quitéria e Pombagira Maria Quitéria, (e para Maria Quitéria vamos ter baianas e até outras
denominações) cada uma delas vai manifestar um mistério que se organiza hierarquicamente no plano
astral e se divide por entre as linhas.

Nas palavras de Pai David Dias as “Marias Quitérias” são realmente “fenômenos” que podem carregar a
mesma nomenclatura de determinada pombagira, mas manifestam em si outra natureza, desenvolvendo
outra atuação na vida do consulente e trazendo consigo outro desígnio de trabalho. Por esse motivo os
elementos, o passe, os ensinamentos e até mesmo o “público” (vamos falar disso mais abaixo) se
diferem.
Em linhas gerais, para a Maria Quitéria que manifesta o mistério pombagira, vamos ter as características
deste mistério, tal como, a plenitude do ser feminino e o estímulo e desejo humano em todos os
sentidos da vida.

Por isso dentro dessa manifestação também podemos encaixar vários aspectos que permeiam o
empoderamento feminino, ao qual a malandra de certa forma se relaciona, mas no caso da Malandra
Maria Quitéria entendemos esse conceito em um ambiente mais ‘urbanizado’ no sentido dos conflitos
que se instauram nesse meio.

A malandra então vai viver sua autonomia, sua independência, vai quebrar as regras e diminuir as cargas
e dramas emocionais de uma mulher que não se submete aos padrões modernos excludentes postos
pode sofrer – até mesmo de autoaceitação.

Sua forma de se manifestar em relação as pombagiras podem exprimir “menos feminilidade” e em


contrapartida mais gingado, mas isso não quer dizer que elas não o sejam ou que essa característica seja
regra, porém é o que pode-se notar.

São ótimas em falar de assuntos relacionados a conflitos sociais vivenciado pela mulher e vêm para
trazer a mensagem de que o espaço social da mulher deve ser igual ao do homem. Pai David Dias dá o
exemplo das flappers ou melindrosas para exemplificar esse arquétipo comum nas malandras, vamos
conhecer um pouco mais sobre esse conceito?

Flappers ou Melindrosas

O arquétipo social das melindrosas chega ao país por volta dos anos 20 e 30 e com ele eclode no Brasil
uma manifestação que já estava acontecendo em outros países e que se referia a derrocada de valores
impostos à mulheres da época e a inversão desses papéis sociais. Esse fenômeno social nos ajuda a
entender um pouco do que as malandras trazem consigo.

As melindrosas são a presença feminina através da valorização da mulher, aquela que pode frequentar o
bar, a noite, aquela que pode fumar o seu cigarro, seu charuto, beber uísque e tudo isso sem perder a
sua integridade. Muitas malandras trazem esse arquétipo da valorização social da mulher e isso vai
permitir que a mulher possa ter também o direito de errar.
Pai David Dias, em Zé Pelintra e Os Malandros

Por isso as “flappers” demonstram a personificação do que o mistério das malandras evoca. Aos leitores
que desejam elucidar um pouco mais esse arquétipo indicamos o filme Coco avant Chanel ou Coco antes
de Chanel ~ tem no Netflix ~ que traduz muito bem esse espírito urbano de autonomia feminina que
envolve as mulheres dessa época.

flappers_01

Podemos dizer então que o fenômeno histórico das melindrosas está para as malandras como por
exemplo, Cartola e outros sambistas boêmios estão para os malandros. Claro que isso não quer dizer que
necessariamente as pessoas que manifestaram essa maneira de viver nesse plano, hoje são malandros e
malandras e nem que todas as malandras necessariamente se assemelham as flappers, mas sim, que
esses mistérios dialogam e expressam essa personificação.

Becos e vielas fazem sua passarela

Pois bem podemos entender que a diferença clara e pertinente, entre a manifestação de pombagira e a
de malandra – mesmo que elas tragam aspectos em comum – são o campo de atuação e a predisposição
do trabalho dessas duas manifestações, tal como a organização espiritual em que esses espíritos
pertencem no astral.

Pombagira fala com mais afinidade e seu trabalho se propõe junto do indivíduo que já passou por
diversos “estágios” de declínio em vida e que nesse momento se encontra em uma situação de
sofrimento e de flagelo, por isso em sua manifestação uma das características fortes é trazer à tona a
sombra do ser como uma maneira de promover o resgate da moral deste.

Podemos exemplificar pombagira como a redenção para a pessoa que já sucumbiu aos desvios da vida e
nesse momento tem um lapso de consciência (muitas vezes resultado do seu sofrimento mesmo) e
resolve se voltar para um resgate da sua saúde espiritual, emocional e/ou física.

Por isso a relação tanto de Exu como de Pombagira se dá com mais afinidade com esse ser, que se
encontra em uma situação de “quase morte” entretanto, antes de chegar a esse ponto a pessoa que vive
uma vida desregrada, seja ela em razão de vícios ou por qualquer outra ação negativa que esteja
cultivando, pode ter um encontro com uma outra presença… Essa fala com ela de igual, acompanha-a
em suas empreitadas e aí leitores, nesse momento do texto caímos em um beco e demos de frente com
as malandras.

Antes da pessoa chegar até o zero ela passa por um beco e nesse beco ela cruza com uma malandra e é
nesse momento que Maria Navalha vai sacar uma peixeira do lado da sua saia e vai cortar todo e
qualquer desequilíbrio.

Pai David Dias, Zé Pelintra e Os Malandros

O contexto das grandes cidades, da rua, dos becos e tudo que compreende esse universo urbano se
relaciona com a manifestação das malandras dentro da Umbanda, que assim como o malandro, vai falar
ao coração que muitas vezes se encontra fechado a palpites e recomendações alheias. Conseguem
adentrar nesse íntimo porque se identificam com esses dilemas e dialogam com todo o conhecimento de
causa que esse mistério carrega em si.

As malandras de forma particular vão ter uma identificação maior com o drama da alma feminina que
por alguma razão passa por esses devaneios em vida e que quando erra é julgada duas vezes mais pelo
simples fato de ser mulher. A palavra de ordem das Malandras então caminha pra isso: inserção,
valorização, respeito e o direito de errar da mulher.

E como já puxa o ponto.. “Cuidado, Cuidado Seu Zé não mexa com essa mulher..”