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Marcelo de Mello Rangel; Marcelo Santos de Abreu; Rodrigo Machado

da Silva (Orgs.). Anais do 8º Seminário Brasileiro de História da


Historiografia - Variedades do discurso histórico: possibilidades para além
do texto. Ouro Preto: EDUFOP, 2014. (ISBN: 9788528803372)

Do IHGB a universidade: um diálogo entre os interpretes da geração de 30


do Brasil

André Augusto Abreu Villela*

Um diálogo entre Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Caio Prado Júnior

Durante o ano de 1998, Antonio Candido disse a respeito de Sérgio Buarque de Holanda,
que “nunca houve homem mais sábio, nunca houve homem mais erudito, nunca houve homem
de maior seriedade intelectual. Mas também nunca houve ninguém mais brincalhão, alegre e
até moleque, quando fosse o caso”. Sérgio Buarque nunca foi militante político
propriamente, mas sempre teve tendências política de esquerda, onde dizia ele que o poder
viria de baixo, emanaria do povo, era nisso que Sérgio acreditava, ele se revelava como um
liberal-democrata, ou como também alguns o preferem chamar de esquerdista- emocrata, como
cita FHC. Pode-se dizer que Raízes do Brasil é um livro extremamente político, em que, a todo
o momento, a discussão em torno de democracia, política, visão acerca de futuro é tratado na
obra.

Todo o pensamento liberal-democrático pode resumir-se na frase célebre de


Bentham: "A maior felicidade para o maior número". Não é difícil perceber-
se que essa ideia está em contraste direto com qualquer forma de convívio
humano na base emocional. (HOLANDA, 2011: 156).

Sérgio foi militante do Centro Brasil Democrático desde sua fundação em 1978,
juntamente com Oscar Niemeyer entre outros. Anteriormente já tinha participado também de
outro partido, o PSB, fundado logo após a queda do Estado Novo, juntamente com outros

*
Graduando pelo Centro Universitário UNI-BH andrevillela2000@hotmail.com
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Marcelo de Mello Rangel; Marcelo Santos de Abreu; Rodrigo Machado
da Silva (Orgs.). Anais do 8º Seminário Brasileiro de História da
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intelectuais, entre eles Guilherme de Figueiredo (irmão do general João Batista de Figueiredo),
o poeta Manuel Bandeira, o crítico literário Antonio Candido, Jânio Quadros e Oscar Pedroso
Horta. Em entrevista ao jornal, Sérgio relata sobre a criação do partido:

A linguagem do partido não atingiu a grande massa. Era a chamada esquerda


democrática, era um partido cheio de intelectuais. Talvez, fosse organizado
hoje, teria maior sucesso. (JORNAL DIÁRIO DO GRANDE ABC, Santo
André, 13 de Abril de 1980).

Figura 1: Sérgio Buarque de Holanda e Oscar Niemeyer, na Instalação do Centro Democrático, Rio de Janeiro,
1978.

Fonte: Sérgio Buarque de Holanda Perspectivas, 2008.

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Já na década de 1980, participa também na fundação do Partido dos Trabalhadores,


admitindo que suas experiências políticas contribuíssem para romper o caráter oligárquico da
nação brasileira.

Sérgio se revelava, portanto, um liberal-democrata, inspirando-se nas


burguesias revolucionárias francesa e americana. Acredita nos valores de
cidadania e do individualismo norte americano-capitalista, quer para o Brasil
uma constituição que de estabilidade as relações sociais, que as discipline e
organize de forma universal, abstrata, racional, neutra e impessoal. (REIS,
1999, p.138).

Figura 2: Sérgio Buarque de Holanda, ao lado de Lula na fundação do PT, ano de 1980.

Fonte: Livro Sérgio Buarque de Holanda Perspectivas, 2008.

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Figura 3: Sérgio Buarque de Holanda assina a ata de fundação dos Partidos dos Trabalhadores em 10 de
fevereiro de 1980, no Colégio Sion, em São Paulo.

Fonte: Livro Para uma Nova História, Textos de Sérgio Buarque de Holanda, 1996.

Porém Sérgio Buarque em Raízes do Brasil constata o seguinte. “A democracia no


Brasil foi sempre um lamentável mal entendido”. (HOLANDA, 2011: 160). Como diz Antônio
Cândido no prefácio de 1967 de Raízes do Brasil, usando a figura de um viajante chamado
Hebert Smith, que ainda no tempo da monarquia falava da necessidade de uma “revolução
vertical”, diferente das reviravoltas meramente de cúpula, que trouxesse a tona elementos mais
vigorosos, destruindo para sempre os velhos e incapazes, pois embora estimáveis os senhores
dos grupos dominantes, os membros dos grupos dominados “fisicamente não há duvida que são
melhores do que a classe mais elevada, e mentalmente também o seriam se lhes fossem
favoráveis as oportunidades”. (HOLANDA, 2011: 19).

Apesar de tudo, não é justo afiançar-se, sem apelo, nossa compatibilidade


absoluta com os ideais democráticos. Não seria mesmo difícil acentuarem-se
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zonas de confluência e de simpatia entre esses ideais e certos fenômenos


decorrentes das condições de nossa formação nacional. Poderiam citar-se três
fatores que teriam particulamente militado em seu favor, a saber:
1- a repulsa dos povos americanos, descendentes dos colonizadores e da
população indígena, por toda hierarquia racional, por qualquer composição da
sociedade que se tornasse obstáculo grave a autonomia do individuo;
2- a impossibilidade de uma resistência eficaz a certas influências novas (por
exemplo, do primado da vida urbana, do cosmopolitismo), que, pelo menos
até recentemente, foram aliadas naturais das ideias democrático-liberais;
3-a relativa inconsistência dos preconceitos de raça e de cor. (HOLANDA,
2011: 184).

Acredito que um dos enfoques principais da obra de Sérgio seja definir o que é o Brasil,
o que é o brasileiro, ou seja, é uma busca incessante através de nossa identidade nacional. Por
isso torna-se interessante fazer uma analise mais apurada, em torno de alguns interpretes do
Brasil, principalmente os da década de 30, como Freyre, Sérgio Buarque e Caio Prado Júnior.
Então se pode concluir como cita Antônio Cândido, que essa será a tríade do pensamento
brasileiro, aqueles que de certa forma “inventaram” e “imaginaram” a construção de um
sentimento de nação chamado Brasil. Como ele próprio cita brilhantemente no prefácio
“imortalizado” de 1967 da obra Raízes do Brasil.

Os homens que estão hoje um pouco pra cá ou um pouco pra lá dos cinquenta
anos aprenderam a refletir e a se interessar pelo Brasil sobretudo em termos de
passado e em função de três livros: Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre,
publicado quando estávamos no ginásio; Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque
de Holanda, publicado quando estávamos no curso complementar; Formação
do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior, publicado quando estávamos
na escola superior. São estes os livros que podemos considerar chaves, os que
parecem exprimir a mentalidade ligada ao sopro de radicalismo intelectual e
análise social que eclodiu depois da Revolução de 1930 e não foi, apesar de
tudo, abafado pelo Estado Novo. (CANDIDO, 2011:.9).

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Todos os três interpretaram o Brasil de acordo com suas visões políticas e influências,
Freyre se baseando na Antropologia Cultura de Franz Boas, Sérgio Buarque no historicismo e
na Sociologia alemã, principalmente em nomes como Simmel, Dilthey e Weber. E por último
o autor de Formação do Brasil Contemporâneo, que baseou sua obra na visão marxista dos
fatos.
Cabe aqui analisarmos o modelo de nação prospectado e imaginado por cada um deles, para
assim chegarmos a uma síntese sobre o que imaginavam cada um desses autores e o que
prospectavam acerca do projeto chamado Brasil.
Carlos Guilherme Mota, em seu livro Ideologia da Cultura Brasileira, considera que os
anos 1930 foram decisivos na reorientação da historiografia brasileira. Segundo coloca Renato
Ortiz (2012), a partir das primeiras décadas do século XX, o Brasil sofre mudanças profundas.
O processo de urbanização e de industrialização se acelera, uma classe média se desenvolve, e
através desse processo acaba por surgir uma nova classe, o proletariado urbano.
Ortiz faz uma breve análise entre as obras de Freyre, Holanda e Prado Júnior, e mostra
como se deu o processo de construção do pensamento de cada um. E como o novo modelo de
instituição chamado universidade e o local social de onde cada um escrevia tornaram-se
importantes na configuração e na concepção na obra dos três autores.
Apresenta Sérgio e Caio Prado como homens urbanos, da sociedade moderna, enquanto
Gilberto Freyre, um escritor mais regionalista, ligado principalmente a um modelo antigo de se
fazer história, baseando-se nos antigos modelos dos Institutos Históricos e Geográficos.

A meu ver, Sérgio Buarque e Caio Prado Júnior estão na origem de uma
instituição recente da sociedade brasileira, a universidade. Neste sentido eles
são fundadores de uma nova linhagem, que busca no universo acadêmico uma
compreensão distinta da realidade nacional. Não é por acaso que a USP é
fundada nos anos 1930; ela corresponde a criação de um espaço institucional
onde se ensinam técnicas e regras especificas ao universo acadêmico. Gilberto
Freyre representa o ápice de uma outra estirpe, que se inicia no século anterior,
mas que se prolongou até hoje como discurso ideológico. Sérgio Buarque e

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Caio Prado Júnior significam rupturas não tanto pela qualidade de pensamento
que produzem, mas sobretudo pelo espaço social que criam e que dá suporte
as suas produções. Gilberto Freyre representa continuidade, permanência de
uma tradição, e não é por acaso que ele vai produzir seus escritos fora desta
instituição “moderna” que é a universidade, trabalhando numa organização
que segue os moldes dos antigos Institutos Históricos e Geográficos. (ORTIZ,
1985: 40,41).

A diferença básica entre eles acaba sendo a metodologia usada por cada um na busca de
nossas raízes brasileiras. Assim como a obra de Freyre é inspirada na Antropologia Cultural,
do judeu alemão Franz boas, em que Freyre mostra em Casa Grande e Senzala, que a
mestiçagem entre as três raças que formaram o Brasil não era o nosso mal, mas pelo contrario.
Freyre vai enaltecer essa mistura, pois segundo ele a mestiçagem não era só racial, mas sim
também no âmbito cultural. Freyre proclama que nós somos mestiços e que ser mestiços é bom,
é algo no qual deveríamos nos orgulhar, e não nos depreciarmos por isso, ele coloca o negro,
junto com o português, como parte fundamental da plasticidade da cultura que aqui se foi
construindo. Aqui nesse trecho Freyre explora de forma sintomática a miscigenação racial
existente na sociedade brasileira.

Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não no
corpo – há muita gente de jenipapo ou mancha mongólica pelo Brasil – a
sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro. No litoral, do
Maranhão ao Rio Grande do Sul, e em Minas Gerais, principalmente do negro.
A influência direta, ou vaga e remota do africano. (FREYRE, 2002: 300).

Assim diz Freyre em relação a seu professor Franz Boas, na universidade de Columbia
em Nova York, e como este o influenciou sobremaneira na autoria de sua obra. Foi Boas quem
ensinou Freyre a diferenciar raça de cultura. Publicado em 1933, ano de ascensão de Hitler na
Alemanha, Casa Grande e Senzala, sinalizava de maneira clara a divergência existente entre o
Brasil e o racismo predominante no ocidente da primeira metade do século XX, onde as teorias
eugenistas estavam em voga naquele momento.
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O professor Franz Boas é a figura de mestre de que me ficou até hoje maior
impressão [...]. Foi o estudo de Antropologia sob a orientação do professor
Boas que primeiro me revelou o negro e o mulato no seu justo valor –
separados dos traços de raça os efeitos do ambiente ou da experiência cultural.
Aprendi a considerar fundamental a diferença entre raça e cultura; a
discriminar entre os efeitos de relações puramente genéticas e os de
influencias sociais, de herança cultural e de meio. (FREYRE, 2002: 7).

Para Freyre é a família patriarcal e não o Estado que constituiria a mola central do Brasil.
Outro relato interessante de Freyre que cabe aqui analisarmos, é quando este logo na introdução
do livro observa a figura de três marinheiros brasileiros cafuzos e mulatos na neve mole do
Brooklyn, onde ali ele os via como caricaturas de homem, porém mais tarde, Freyre veio a
perceber que aquele aspecto físico não era da miscigenação como era até então ensinado nos
congressos de eugenia, e por pensadores como Spencer, Goubineau, Chamberlain, Galton e o
darwinismo social, mas sim de uma má alimentação no decorrer dos anos, principalmente se
levarmos em conta o tempo de escravidão no Brasil. Acerca da obra de Freyre, Sérgio assim
escreveu no Jornal Correio da Manhã, de 1951, onde o autor fala da trilogia de Freyre, como
Casa Grande e Senzala, Sobrados e Mocambos e da obra que ainda estava sendo escrita quando
Sérgio publicou o artigo, Ordem e Progresso de 1957.

Novo e generoso impulso aos estudos interpretativos, com base em amplo


material histórico, deu-o o Sr. Gilberto Freyre, a partir de 1933, com a
publicação de Casa Grande e Senzala. Um conhecimento extenso do passado
rural, sobretudo de seu nordeste, orientado pelo estimulo que lhe forneceram
os métodos difusionistas desenvolvidos por Franz Boas e seus discípulos
norte-americanos, e por numerosos estudos norte-americanos e europeus
sobre contatos sociais e miscigenação, abriu-lhe perspectivas ideais para
abordar nossa formação histórica. Para isso, tomou como ponto de partida o
triângulo representado pela família patriarcal, a grande lavoura e o trabalho
escravo, analisando suas repercussões sociais em uma série de estudos cujo

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último volume ainda se encontra em preparo. (JORNAL CORREIO DA


MANHÃ, 15 de julho de 1951).

A partir da década de 50, a obra de Freyre começou a ficar “demonizada” em alguns


meios acadêmicos, principalmente com a escola de sociologia da USP, em que acusavam Freyre
de ter “romanceado” a escravidão, fora isso acusaram-no de cunhar o termo democracia racial,
dizendo que no Brasil as três raças formadoras da nação, o negro, o europeu e o índio, viviam
em total harmonia, termo esse que nunca foi usado na obra de Freyre, e por fim na década de
60 o acusaram de apoiar o golpe militar no Brasil, sendo esse um governo autoritário que
destituía toda forma de arte criativa, liberdade cultural e musical no Brasil, além disso
demonstrou saudosismo da monarquia e da ordem senhorial. Segundo Magnoli, a partir da
publicação da obra de Florestan Fernandes, inaugura-se uma nova etapa de revisão da obra de
Freyre.

A publicação da obra de Florestan inaugurou uma etapa de revisão ideológica


implacável de Casa Grande e Senzala, na qual se perdeu de vista a diferença
entre a mestiçagem e a ideologia da harmonia social. A confusão teórica
repercutiu até na escritura de uma analista sofisticada como Lilian Schwarcz,
que, embora reconhecendo a dupla realidade da mestiçagem de "um racismo
invisível", viu em Freyre o intelectual "que construiu o mito", enquanto um
outro projeto identitário - o da raça - alcançava o estatuto de realidade.
(MAGNOLI, 2009: 158).

Significativo analisar o fato de um sociólogo da USP, da década de 60, escrever o prefácio de


uma das mais novas edições de Casa Grande e Senzala de 2004, e não só escreveu, como
elogiou também teceu longos elogios a toda a obra de Freyre. Porém hoje, mais maduro,
consegue refletir acerca das críticas fomentadas contra Freyre na época da faculdade.

A crítica a Gilberto Freyre referindo esse fato porque fui reler - faz lá uns
quinze anos isso, não sei - o Casa Grande e Senzala e aconteceu a mesma

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coisa. Uma releitura do Casa Grande e Senzala, feita não com o olhar do
jovem sociólogo militante, que quer, naturalmente, cobrar dos outros uma
postura de recusa da ordem estabelecida, mas uma releitura de alguém mais
maduro - a idade inevitavelmente acalma - , uma releitura um pouco mais
serena do Casa Grande e Senzala, sem que se fique na torcida para saber qual
é o método, mas simplesmente tratando de ver o que diz o livro, apaixona. E
apaixona, em primeiro lugar, pela leitura, porque Gilberto Freyre faz com as
palavras o que quer. (CARDOSO, 2013: 266-267).

Aqui FHC discorre um pouco mais sobre as criticas da Escola de Sociologia da USP a figura
de Freyre, em seu livro, Pensadores que inventaram o Brasil. Já Florestan Fernandes afirmou
em sua obra O Negro no Mundo dos Brancos, de 1972, o seguinte em relação a questão racial
no Brasil: “O brasileiro tem preconceito de não ter preconceito”

Pois não fomos nós, os chamados sociólogos da “escola paulista”, Florestan


Fernandes a frente, quem mais criticamos aspectos importantes da obra
gilbertiana, notadamente a existência de uma democracia racial no Brasil,
frequentemente atribuída a ele?. (CARDOSO, 2013:91).

Figura 4: Sérgio Buarque de Holanda e Fernando Henrique Cardoso, no lançamento de sua candidatura ao
Senado, São Paulo, 1978.

Fonte: Livro Sérgio Buarque de Holanda Perspectivas, 2008.

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Já a obra de Caio Prado Júnior é inspirada no marxismo não ortodoxo, mais na obra
marxiana do que no marxismo-leninista propriamente. Ele é de origem aristocrática; saiu de
uma família cafeicultora paulista para se tornar o intelectual orgânico do movimento operário
brasileiro. Disse ele em certa entrevista à revista da UNESP Transformação, antes de morrer,
em que um entrevistador perguntou por que ele, atuando em 1940, escrevia um marxismo não
ortodoxo, já que era membro do Partido Comunista. Ele deu a seguinte resposta: “O meu
assunto sempre foi o Brasil. Eu adotei o marxismo porque acho que é um bom instrumento para
entender o Brasil. Se eu chegasse a convicção de que não era, adotava outros instrumentos. O
objeto vem antes do método pra mim”. Autor de um clássico da historiografia brasileira de
1942, A Formação do Brasil Contemporâneo, enxergava na colonização brasileira pelos
portugueses, um sistema exploratório, onde os europeus viam o Brasil como uma grande
empresa, que deveria dar o lucro necessário aos colonizadores. Além disso, descrevia que havia
colônias de exploração e colônias de povoamento, mostrando o Brasil como colônia
exploratória e os EUA como colônia de povoamento. Observa-se, portanto, que esse
pensamento se torna um pouco retrógrado em relação à análise recente da historiografia, quando
analisa tais fatos com maiores cuidados. Porém não deixa de ser uma referência para os estudos
atuais, pois clássicos sempre serão clássicos e isso não se discute.
Segundo descreve Reis (2007), a obra de Caio Prado Júnior e a sua “redescoberta” do
Brasil foi mais radical do que a de Gilberto Freyre e a de Sérgio Buarque de Holanda, nos anos
1930. Cabe destacar como a obra de Caio Prado Júnior, foi de fundamental importância no
processo da disseminação do marxismo no meio acadêmico brasileiro, como cita Reis (2007),
“A escola marxista universitária brasileira é pradiana”. (REIS, 2007: 176).
Ao fazermos uma leitura mais apurada de Caio Prado, percebe-se que sua obra se foca
principalmente em bases economicistas, talvez fazendo uma releitura do jesuíta italiano
Antonil. Escritor do século XVIII, que em 1711, lançou sua obra, Cultura e Opulência do Brasil
por suas drogas e minas, que descrevia pormenorizadamente o processo de exploração do

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estado português no Brasil, principalmente pela descoberta das minas entre os anos de 1697 a
1705. E no último capitulo, Antonil faz um balanço de tudo que entrava e saia do Brasil para
Portugal. Porém logo após seu lançamento, a uma ordem da coroa portuguesa para recolher a
obra, temendo principalmente países rivais como a França, de descobrirem as riquezas do
Brasil.
Caio Prado Júnior, irá ser muito criticado por alguns autores como o faz Nelson
Werneck Sodré, onde segundo afirma Caio Prado Júnior, o Brasil já era capitalista já na sua
descoberta, sendo que nem havia ainda um sistema capitalista europeu formado naquele
momento, como cita Sodré.

Sodré ironiza Caio Prado: ele afirma que o Brasil é capitalista desde a origem,
quando nem a Europa era capitalista entre 1500 e 1700! O capitalismo, então,
chegou primeiro ao Brasil e só depois a Europa? Antes da Revolução
Industrial, que só se iniciou no século XVIII, na Inglaterra, as relações
capitalistas de produção não predominavam ainda na Europa, e o que
identifica um modo de produção, segundo a teoria marxista, são as relações
de produção predominantes. É na esfera da produção, onde as classes em luta
se definem, que se encontra a identidade de um modo de produção. (SODRÉ,
1980).

Para Caio Prado Júnior, as elites não fizeram a história do Brasil sozinhas. O sujeito da
história do Brasil não são as elites isoladas, mas as classes sociais em luta. (REIS, 2007). Assim
escreveu Sérgio Buarque acerca de Caio Prado Júnior, no Jornal Correio da Manhã, no dia 15
de julho de 1951.

Ao lado dos estudos de “formação” já abordados deveria alinhar-se


naturalmente ao que devotou o Sr. Caio Prado Júnior, em 1942, a interpretação
e explicação do Brasil dos nossos dias, através de sua evolução histórica,
desde as vésperas da independência. Obra corpulenta e ambiciosa, pois o
volume de amplas proporções já publicado quer ser apenas o primeiro de uma
série talvez considerável, poderia tomar lugar entre os vastos estudos

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histórico-sociológicos dos Srs. Oliveira Vianna, Gilberto Freyre e Fernando


de Azevedo. (JORNAL CORREIO DA MANHÃ, 15 de julho de 1951).

Já Sérgio Buarque tinha toda uma influência da sociologia alemã, principalmente através de
Max Weber, no qual o autor teve o mérito de introduzi-lo no Brasil, e o qual chama na primeira
versão de Raízes do Brasil de “o mais iminente sociólogo moderno”. Além da influência
Weberiana dos tipos ideias, traçados por Sérgio em Raízes do Brasil. Como cita Reis.

Segundo Weber, um tipo ideal é uma síntese, um quadro ideal não


contraditório de relações pensadas, uma utopia lógica, uma forma, uma
construção de realidades objetivamente possíveis, um meio de conhecimento,
um conceito limite, puramente ideal, visando a apreensão de individualidades
históricas. (REIS, 2012: 221).

Em seu livro, Sérgio Buarque mobiliza, sobretudo, a Sociologia: é um ensaio


sociológico, mas para classificar a História. Marca essa advinda dos Annales na França, que
institucionalizou um diálogo entre a História e a Ciências Sociais. Cabe aqui um parêntese para
destacar o fato de Raízes do Brasil ter sido escrito três anos após Casa Grande e Senzala, e
como Sérgio era fluente em alemão, traduziu para Freyre varias obras escritas nesse idioma,
para que Freyre pudesse usa-las na concepção de sua obra. Enquanto um usou radicalmente em
sua obra a democracia, o outro se manteve docemente como conservador, não tinha interesse
em uma mudança de paradigma, preferia que as coisas se mantivessem exatamente e se
perpetuassem exatamente como estavam, desde a chegada do colonizador português.
Como já dizia Marc Bloch “o apego à comparação é a varinha mágica da história”.
Dessa forma, torna-se necessário, essa pequena comparação entre esses três pensadores de suma
importância na historiografia brasileira, para assim podermos chegar a uma analise contundente
acerca do que é o Brasil, visto por esses interpretes. O laço mais comum entre os três é tentar
formular uma hipótese acerca da construção do Brasil ao longo desses longos anos de
descobrimento, tentando construir uma ideia de identidade nacional.

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Tanto Freyre como Sérgio Buarque fazem uma releitura de obras já consagradas, como
cita bem o historiador José Carlos Reis, onde ele diz que Freyre seria uma releitura de uma obra
de 1850 chamada a História Geral do Brasil de Varnhagen, onde esse autor, escrevendo para o
IHGB, escrevendo uma história positivista, oficial, faz um elogio a colonização brasileira,
exaltando a figura do colonizador branco, dos heróis portugueses e do império português, e Reis
mostra que Freyre em Casa Grande e Senzala fará um reelogio a colonização, inspirando-se na
obra de Varnhagen. (REIS, 2007).
Já no caso de Sérgio Buarque de Holanda, o autor vai nos mostrar como ele busca na
obra de Capistrano de Abreu, Capítulos de História Colonial de 1907, a base para a construção
mais tarde de Raízes do Brasil de 1936.

Capistrano foi o pioneiro na procura das identidades do povo brasileiro, contra


o português e o Estado imperial e as elites luso-brasileiras [...] O conceito de
“cultura” substitui o de “raça” e nesse aspecto, ele é precursor de Gilberto
Freyre e de Sérgio Buarque de Holanda. (REIS, 2007: 95).

Assim como Sérgio anos mais tarde irá dizer que o nosso problema foi a nossa colonização,
Capistrano já falava isso 29 anos antes, sem dúvida essa será uma das fontes onde Sérgio irá
beber para formular sua tese em relação a “desastrosa” colonização portuguesa no Brasil. Não
obstante no Jornal Correio da Manhã, de 1951, no artigo intitulado Cultura Brasileira, Sérgio
irá tecer longos elogios a Capistrano de Abreu, comparando a sua forma de fazer história a
Marc Bloch, principalmente no uso dos documentos, e de como interrogar as fontes, fazendo
as falar, mesmo a contra gosto.

Capistrano de Abreu, pesquisador constante e nunca inteiramente satisfeito,


tendo trabalhado mais do que qualquer outro depois de Varnhagen, para
revelar, valorizar e bem aproveitar testemunhos escritos de nossa formação
nacional, ele sabia, no entanto, que esses documentos só falam
verdadeiramente aos que ousam formular-lhes perguntas precisas e bem
pensadas. Sabia, em outras palavras, palavras de um grande mestre moderno
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– Marc Bloch, que em todo pesquisa histórica supõe, desde os passos iniciais,
que o inquérito tenha uma direção definida. (JORNAL CORREIO DA
MANHÃ, 15 de julho de 1951).

Varnhagen fez o elogio da vitória dos portugueses, defendeu os interesses e os


sentimentos lusitanos no Brasil e não via com bons olhos a diferença que volta e meia explodia
entre esses valores e poder europeus e os autóctones. Capistrano escreverá uma “outra história
do Brasil”; antiportuguesa, anti-reinol, antieuropeia, anti-Estado Imperial, anti político
administrativa. Ele ecoará as vozes de Antonil e dos rebeldes de todo o período colonial.
Redescobrindo o Brasil, Capistrano fará o elogio da rebelião brasileira. (REIS, 2007: 97).
Analisando a obra de cada um, torna-se muito claro a importância de onde nasceram,
onde viveram, o que leram e quais foram as redes de sociabilidade cultivadas durante a vida.
Sérgio é um homem nascido na cidade, levou sobretudo uma vida urbana, acompanhou o
crescente êxodo rural, a partir daquele momento o interior perdia o foco, o palco naquele
momento eram as cidades, onde o homem livre, o profissional liberal, o empresário, o
industriário já não dependia do senhor de engenho, do colono português para sobreviver, ele
encontrou nas cidades uma forma de sobreviver. (REIS, 2007).
Já Freyre nascido em Pernambuco, em 1900, no bairro de Apipucos, de família
aristocrática, de linhagem de senhores de engenho. Olha pra trás e sente saudade daquele Brasil
que ficara pra trás, quando em 1888 estabelecia-se uma revolução no Brasil, lenta como diz
Sérgio Buarque de Holanda, porém importante na consolidação de uma identidade nacional
formada na libertação do Brasil de Portugal.

Se a data da Abolição marca no Brasil o fim do predomínio agrário, o quadro


político instituído no ano seguinte quer responder a conveniência de uma
forma adequada a nova composição social. Existe um ele secreto
estabelecendo entre esses dois acontecimentos e numerosos outros uma
revolução lenta, mas segura e concertada, a única que rigorosamente, temos
experimentado em toda nossa vida nacional. (HOLANDA, 2011: 171).

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Marcelo de Mello Rangel; Marcelo Santos de Abreu; Rodrigo Machado
da Silva (Orgs.). Anais do 8º Seminário Brasileiro de História da
Historiografia - Variedades do discurso histórico: possibilidades para além
do texto. Ouro Preto: EDUFOP, 2014. (ISBN: 9788528803372)

Outro fator importante de ser analisado nessas duas obras é o fato de serem escritas
durante o governo Vargas, logo após a Revolução de 1930, onde o Brasil lentamente começava
a se configurar de forma diferente, longe do patriarcalismo, do bacharelismo e do coronelismo
que imperavam no Brasil até então. Com o fim do pacto das oligarquias cafeeiras e da velha
república que de certa forma ditavam os passos da jovem nação, tudo isso se torna importante
no contexto em que foram escritas, como afirmam alguns historiadores: "toda história é a
historia do tempo presente", por isso o contexto político se torna absolutamente importante,
tendo a cidade agora primazia sobre o interior rural brasileiro. O que Sérgio está propondo é
usarmos os EUA como modelo de sociedade urbana a ser construída no Brasil, uma sociedade
urbana, não rural e antiibérica. Outro problema que segundo Sérgio atrasava o Brasil era questão
do público e do privado, não tínhamos a noção de quando terminava um e começava o outro,
fazíamos do público uma ampliação do circulo familiar, prestigiando não a meritocracia, mas
sim nossas redes de amizade e de sociabilidade.

O Estado não é uma ampliação do circulo familiar e, ainda menos, uma


integração de certos agrupamentos, de certas vontades particularistas,
de que a família é o melhor exemplo. Não existe, entre o circulo familiar
e o Estado, uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma
oposição. (HOLANDA, 2011: 141).

O Homem Cordial

O homem cordial é a base e o sustentáculo de toda a obra de Sérgio em Raízes do Brasil,


por isso é interessante analisá-la com espírito crítico, para entendermos realmente o que Sérgio
quis dizer com "O Homem Cordial". Engana-se quem pensa que cordial quer dizer bondade,
amabilidade ou compaixão, até porque percebe-se que o brasileiro não era assim, os anos onde
imperou a escravidão diz tudo a respeito do significado da maldade, da violência e da crueldade
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da Silva (Orgs.). Anais do 8º Seminário Brasileiro de História da
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em relação ao próximo, cordial do latim significa aquele que age ou é movido pelo coração, ou
seja, o homem cordial não é movido pela razão, ele é movido pelo coração, pelo
sentimentalismo, pela amizade. O homem cordial é um homem que reage segundo seu coração,
tanto para o bem quanto para o mal, tem dificuldade de seguir hierarquias estabelecidas, é
avesso as formalidades, tenta encurtar as distâncias tentando se fazer intimista, seja no culto
com os santos ou mesmo com as relações de amizade que o rodeiam, por isso sempre favorece
o grupo de amigos, em vez de zelar pelo interesse público, nosso pendor acentuado com o
emprego de palavras no diminutivo, fazendo uso excessivo da terminação "inho".
Ele previne que “a vida em sociedade – para o brasileiro – é, de certo modo, uma
verdadeira libertação do pavor que ele sente de viver consigo mesmo”, e profere a máxima:
“Ele é antes um viver nos outros”, concluindo, citando Nietzsche: “Vosso mau humor de vós
mesmos vos faz do isolamento um cativeiro”, como cita o psicanalista Forbes (2008), em seu
artigo, intitulado O homem cordial e a psicanálise.
O próprio Sérgio Buarque relata que Ribeiro Couto (autor esse que já tinha feito uso da
expressão antes de Sérgio e Freyre) teve uma expressão feliz quando disse que a contribuição
brasileira para a civilização será de cordialidade: "Daremos ao mundo o homem cordial",
vislumbrando no homem cordial uma autêntica herança latino americana. Contudo na visão de
Sérgio Buarque, o homem cordial era uma sobrevivência do passado agrário e, portanto, um
anacronismo vivo. A urbanização e a vida moderna inevitavelmente levariam a superação da
cordialidade. Logo, o conceito não poderia definir uma brasilidade atemporal. Ninguém se
surpreenderia mais do que o autor de Raízes do Brasil com a atualidade do conceito. (FORBES,
2008).

O Catolicismo plástico do português

O catolicismo também se tornou uma arma importante na colonização brasileira. Como


descreve Sanches (2001) em seu artigo, A questão da democracia em Raízes do Brasil, ele

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analisa como a religião calvinista holandesa, muito mais rígida, também não se identificou com
o povo, ao contrario do catolicismo português, muito mais "plástico", que nos transformou na
maior nação católica do mundo. Desde o inicio o colonizador português, com sua "plasticidade
social", deixou-se levar caprichosamente pela natureza irriquieta do trópico. Em lugar de impor
a paisagem a marca de sua vontade, como bem fizeram os espanhóis na colonização da América
Hispânica, o colonizador lusitano não impôs sua marca, sua força e simplesmente se
emaranhou-se nela. (SANCHES, 2001).
Holanda aponta que, entre os fiéis, há pouca devoção, respeito e atenção para com os
ritos religiosos. "É que o clima não favorece a severidade das seitas nórdicas. O austero
metodismo ou o puritanismo jamais floresceram nos trópicos". (Thomas Eubank, citado por
Holanda, pág. 151). Também nesse ponto deixa claro como o português tinha a facilidade de
adaptação aos trópicos, seja no modo de agir, de estabelecer relações ou mesmo na constituição
do culto, adaptação essa que seria quase impossível se tratando de outras culturas fria e fechada,
como os europeus nórdicos.

Nosso velho catolicismo, tão característico, que permite tratar os santos com
uma intimidade quase desrespeitosa e que deve parecer estranho as almas
verdadeiramente religiosas, provém ainda dos mesmos motivos. A
popularidade, entre nós, de uma santa Teresa de Lisieux - santa Teresinha -
resulta muito do caráter intimista que pode adquirir seu culto, culto amável e
quase fraterno, que se acomoda mal as cerimônias e suprime as distâncias. É
o que também ocorreu com no nosso Menino Jesus, companheiro de
brinquedo das crianças e que faz pensar menos no Jesus dos evangelhos
canônicos do que no de certos apócrifos, principalmente as diversas redações
do Evangelho de infância. Os que assistiram as festas do Senhor Bom Jesus
de Pirapora, em São Paulo, conhecem a história do Cristo que desce do altar
para sambar com o povo. (HOLANDA, 2011: 149).

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Sérgio Buarque de Holanda como Monarquista

Merece destaque a simpatia nutrida por Sérgio pelo sistema de governo monarquista. A
monarquia havia terminado 13 anos antes do nascimento de Sérgio, talvez ainda na sua
juventude, o Brasil respirava os ares da monarquia, representada principalmente pela figura de
D. Pedro II. No qual os brasileiros tinham extremo respeito e simpatia pelo monarca, sendo o
maior governante em relação de anos a governar o Brasil, sendo quase 50 anos a frente da
nação. O que de certa forma foi benéfico, pois sua presença trouxe centralidade e não permitiu
a fragmentação do território brasileiro, como se percebe na América Espanhola. Talvez também
a ínfima participação popular na derrubada da monarquia para a República, não trouxera muita
simpatia as classes mais pobres da população, como bem disse Aristides Lobo, no Jornal Diário
Popular de 18 de novembro de 1889: “O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso,
sem conhecer o que significava. Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada”.
A primeira alusão de Sérgio ao tema é descrito no Diário Carioca de 11 de junho de
1952, por Rodrigo M. F. Andrade. Na ocasião comemorava-se o cinquentenário de Sérgio,
assim escreve o amigo a respeito das convicções políticas do intelectual naqueles anos.

Assim foi sempre, desde muitos anos: diverso e autêntico. Há quem o recorde
ao chegar ao Rio adolescente louro e monarquista maurrasiano, de monóculo.
Depois já de óculos, prócer destacado do movimento modernista.
(EUGÊNIO, 2008: 428).

Na segunda alusão, Sérgio narra de próprio punho tal afirmação no Jornal Estado de
São Paulo. “Naquela época (a juventude) eu tinha uma certa inclinação monarquista”. (O
ESTADO DE SÃO PAULO, 19 de maio de 1977, Suplemento Literário número 877). Já na
revista A Cigarra, Sérgio publicou em 1920, com apenas 18 anos de idade, três pequenos artigos
em que demonstra em seus escritos muita simpatia pela figura do imperador. Assim descreve
Sérgio: “É meu anelo e, creio, de todos os bons brasileiros que possamos, ainda uma vez, [...]

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fazer reboar o Viva o Imperador em nada extemporâneo”. (HOLANDA, 1920: s.p.). E


finalizando, um artigo publicado na Revista do Brasil de 1920, no texto chamado Ariel, onde
Sérgio mais uma vez vai lembrar com saudades do tempo do Brasil monarquia, e a nossa cultura
tendenciosa de imitar tudo que é estrangeiro, como assim descreve.

Um outro fator que influiu sobremodo para o desenvolvimento do utilitarismo


no povo brasileiro e dessa nossa tendência natural para imitar tudo que é
estrangeiro, foi a importação do regime republicano. A Strauss não passou
despercebida a superioridade da monarquia sobre a república, na formação e
no desenvolvimento intelectual de uma nacionalidade. (REVISTA DO
BRASIL, maio de 1920).

Segundo Sérgio, quando ainda jovem, dizia que a república se deixava enredar por
ilusões, como o pan americanismo, que resultam do hábito de imitar o estrangeiro que botou
abaixo “o regime ao qual devemos setenta anos de prosperidade”. Como cita Sérgio em seu
arquivo
Ariel de 1920. Segundo ele a monarquia foi substituída pela forma de governo que era “a menos
digna de nossas simpatias, a mais imprópria para ser imitada; [...] a república dos
Estados Unidos”. (REVISTA DO BRASIL, maio de 1920).

Como citou o próprio Sérgio Buarque de Holanda no livro Raízes do Brasil, “somos como
desterrados em nossa própria terra”. (HOLANDA, 2011).

Referências Bibliográficas

ANTONIL, André João. Cultura e Opulência no Brasil, por suas Drogas e Minas. São Paulo.
Edusp, 2008.

CANDIDO, Antonio. Raízes do Brasil. In: HOLANDA, Sérgio Buarque. São Paulo:
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Marcelo de Mello Rangel; Marcelo Santos de Abreu; Rodrigo Machado
da Silva (Orgs.). Anais do 8º Seminário Brasileiro de História da
Historiografia - Variedades do discurso histórico: possibilidades para além
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CARDOSO, Fernando Henrique. Pensadores que Inventaram o Brasil. São Paulo:


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Abril de 1980.

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MAGNOLI, Demétrio. Uma Gota de Sangue: História do Pensamento Racial. São Paulo:
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ORTIZ, Renato. Cultura Brasileira e Identidade Nacional. São Paulo: Editora Brasiliense,
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___________. Teoria e História: Tempo Histórico, História do Pensamento Histórico


Ocidental e Pensamento Brasileiro. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2012.

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(Tese de Mestrado).

SODRÉ, Nelson Werneck. Modos de Produção no Brasil. In: Lapa, J. R. A. Modos de


Produção e realidade brasileira. Petrópolis, Vozes, 1980.

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