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PODER JUDICIÁRIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Registro: 2019.0000071693

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Agravo de Instrumento


nº 2225189-35.2018.8.26.0000, da Comarca de Carapicuíba, em que é
agravante MARIA JOSEFA DA SILVA, são agravados SIMONE MARIA
DA SILVA, NOBERTO DE TAL, RAFAELA MARIA DA SILVA, JOÃO
ANTONIO MELO GUIA e EZEQUIEL ANTONIO DA SILVA.

ACORDAM, em 20ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de


Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: "Negaram provimento ao
recurso. V. U.", de conformidade com o voto do Relator, que integra este
acórdão.

O julgamento teve a participação dos Exmos. Desembargadores


ROBERTO MAIA (Presidente sem voto), CORREIA LIMA E LUIS
CARLOS DE BARROS.

São Paulo, 4 de fevereiro de 2019.

Álvaro Torres Júnior


Assinatura Eletrônica
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

VOTO Nº: 40368


AGRV.Nº: 2225189-35.2018.8.26.0000
COMARCA: Carapicuíba
AGTE. : Maria Josefa da Silva
AGDOS. : Simone Maria Da Silva e outros
DECISÃO DO JUIZ: João Guilherme Ponzoni Marcondes

POSSESSÓRIA Liminar Reintegração de


posse de imóvel Indeferimento
Admissibilidade Embora escoado o prazo legal,
tratando-se de ação de força velha, admissível a
concessão da tutela de urgência fundada na
probabilidade do direito dos autores e no perigo
de dano ou o risco ao resultado útil do processo
Precedentes Hipótese, porém, que não há
caracterização suficiente, nos limites próprios da
cognição sumária, da probabilidade do direito da
autora-agravante Exegese do art. 300 do
CPC/2015 - Decisão mantida Recurso
desprovido.

1. Agravo de instrumento contra decisão que indeferiu o


pedido liminar para reintegrar a autora-agravante na posse do imóvel.

A recorrente sustenta que estão presentes os requisitos


para a concessão da medida pleiteada.

Recurso processado sem efeito ativo, dispensadas a


intimação dos agravados para responder (pois ainda não foram citados) e a
requisição de informações ao juiz da causa.

2. O juiz tem ampla autonomia para conceder ou


denegar liminar em ação possessória e, para concedê-la, não se exige prova
exaustiva do direito, bastando o seu íntimo convencimento gerado por
elementos fáticos que o inculquem razoavelmente (fumus boni iuris).
Agravo de Instrumento nº 2225189-35.2018.8.26.0000 - Carapicuíba

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Os requisitos da medida (então enumerados no art. 927


do CPC/1973) foram mantidos na novel legislação processual (art. 561 do
CPC/2015): (i) a posse do bem, (ii) a turbação ou o esbulho praticado pelo
réu, (iii) a data da turbação ou do esbulho e (iv) a continuação da posse,
embora turbada, na ação de manutenção, ou a perda da posse, na ação de
reintegração. Suficiente, ademais, a cognição incompleta, destinada a um
convencimento superficial, dado o caráter provisório da medida.

Quando se trata de ação de força velha, porém, dispõe o


art. 558 do CPC/2015 que, passado o prazo de ano e dia da turbação ou do
esbulho afirmado na petição inicial, o procedimento será comum, não
perdendo, contudo, o caráter possessório.

Isso afasta a possibilidade da concessão da liminar nos


moldes dos arts. 560 e seguintes da lei processual, atraindo, porém, a
possibilidade da concessão da tutela de urgência nos moldes do art. 300,
cujos requisitos não se confundem com aqueles exigidos no art. 561.

Diante deste cenário, a jurisprudência admite a


possibilidade de reintegração do autor na posse seja deferida em ações de
força velha:

“Em relação à posse de mais de ano e dia (posse velha),


não se afasta de plano a possibilidade da tutela antecipada, tornando-a
cabível a depender do caso concreto” (cf. REsp. 201219-ES, rel. Min.
Sálvio de Figueiredo Teixeira, j. 25-06-2002).

“TUTELA PROVISÓRIA. Urgência. Satisfativa.


Incidental. Demanda possessória. Força velha. Procedimento comum.

Agravo de Instrumento nº 2225189-35.2018.8.26.0000 - Carapicuíba

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Requisitos gerais. Probabilidade do direito identificada. Perigo de dano ou


risco ao resultado útil do processo constatado. Requisitos do art. 300 do
NCPC preenchidos. Decisão reformada. Recurso provido.” (cf. A.I. nº
2062154-93.2018.8.26.0000, rel. Des. Gilson Delgado Miranda, 21ª
Câmara de Direito Privado do TJSP, j. 11-6-2018).

“AGRAVO DE INSTRUMENTO AÇÃO DE


REINTEGRAÇÃO DE POSSE POSSE VELHA TUTELA
ANTECIPADA DE URGÊNCIA CABIMENTO I Autores que
reconhecem se tratar de ação com força velha, que segue o rito ordinário, o
que não retira o seu caráter possessório Incabível falar-se em liminar e
nos requisitos do art. 561, do NCPC II Hipótese em que os autores, ora
agravantes, demonstraram ser os legítimos proprietários do imóvel em
questão, tendo perdido parte da posse, relativamente a 'Gleba A', em razão
de invasão clandestina Agravados que foram notificados
extrajudicialmente, para desocupação voluntária do imóvel, mantendo-se
inertes Prefeitura local que autuou os proprietários do imóvel, em razão
de construção irregular em área de mananciais - Tratando-se de posse
velha, possível a concessão de tutela antecipada de urgência para
reintegração de posse, desde que atendidos os requisitos do art. 300, do
NCPC, com correspondência no art. 273, do ACPC Presente a
probabilidade do direito invocado, bem como a possibilidade de dano ou
perigo ao resultado útil do processo Determinada a imediata expedição de
mandando de reintegração de posse em favor dos autores Decisão
reformada Agravo provido.” (cf. A.I. nº 2226443-14.2016.8.26.0000, rel.
Des. Salles Vieira, 24ª Câmara de Direito Privado do TJSP, j. 15-12-2016).

Conforme o art. 300 do CPC/2015 visa a tutela de


urgência a tornar efetiva, desde logo, a prestação jurisdicional, exigindo,
como requisitos essenciais, a probabilidade do direito e o perigo de dano
ou o risco ao resultado útil do processo. Não bastam meras alegações,
exige-se alguma coisa mais, a probabilidade do direito alegado - como a
própria denominação indica, a concessão da medida importa no quase
julgamento do mérito, com a diferença de ser reversível e dependente,

Agravo de Instrumento nº 2225189-35.2018.8.26.0000 - Carapicuíba

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ainda, do contraditório.

Probabilidade exige maior segurança do que a mera


verossimilhança, pois o seu conceito exige uma situação decorrente da
preponderância dos motivos convergentes, sobre os divergentes. É menos
que a certeza, porque lá os motivos divergentes não ficam afastados, mas
somente suplantados e é mais que a credibilidade ou verossimilhança, pela
qual na mente do observador os motivos convergentes e os divergentes
comparecem em situação de equivalência (cf. Cândido Dinamarco, A
Reforma do Código de Processo Civil, Malheiros Editores, 3ª ed., p. 143).

É da doutrina:

“Tratando-se de tutela de urgência, o diferencial para a


sua concessão o 'fiel da balança' é sempre o requisito do periculum in
mora. Ou, noutras palavras, a questão dos requisitos autorizadores para a
concessão da tutela de urgência compreendendo-se a tutela cautelar e a
antecipação de tutela satisfativa resolve-se pela aplicação do que
chamamos de 'regra da gangorra'. O que queremos dizer, com 'regra da
gangorra', é que quanto maior o 'periculum' demonstrado, menos 'fumus' se
exige para a concessão da tutela pretendida, pois a menos que se anteveja
completa inconsistência do direito alegado, o que importa para a sua
concessão é a própria urgência, ou seja, a necessidade considera em
confronto com o perigo da demora na prestação jurisdicional. O juízo de
plausibilidade ou de probabilidade que envolvem dose significativa de
subjetividade ficam, a nosso ver, num segundo plano, dependendo do
periculum evidenciado. Mesmo em situações que o magistrado não
vislumbre uma maior probabilidade do direito invocado, dependendo do
bem em jogo e da urgência demonstrada (princípio da proporcionalidade),
deverá ser deferida a tutela de urgência, mesmo que satisfativa.” (cf. Teresa
Arruda Alvim, Maria Lúcia Lins Conceição, Leonardo Ferres da Silva
Ribeiro e Rogerio Licastro Torres De Mello, Primeiros Comentários ao
Novo Código de Processo Civil, Artigo por Artigo, São Paulo: Ed. Revista

Agravo de Instrumento nº 2225189-35.2018.8.26.0000 - Carapicuíba

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dos Tribunais, 2015, comentário ao art. 300).

No caso, não estão presentes os requisitos da tutela


antecipatória.

As provas que acompanharam a petição inicial se


restringem (i) à suposta posse decorrente da partilha do imóvel em divórcio
e (ii) aos testemunhos escritos (sem o crivo do contraditório) que informam
que a autora teria sido agredida e expulsa da própria casa pelos filhos ao
tornar público o seu novo relacionamento.

Não há nem sequer boletim de ocorrência relativo a fato


de tal gravidade, nem foram juntados outros elementos informativos que
demonstrem, de maneira inequívoca, a posse anterior da autora-agravante.

Os elementos trazidos, por si só, não são suficientes


para caracterizar, nos limites próprios da cognição sumária, a probabilidade
do direito da autora, sendo necessário que se avance em termos
procedimentais para o deslinde do quadro fático da demanda.

Fica mantida, assim, a decisão recorrida.

3. Posto isso, o meu voto nega provimento ao recurso.

ÁLVARO TORRES JÚNIOR


Relator

Agravo de Instrumento nº 2225189-35.2018.8.26.0000 - Carapicuíba