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30/12/2002

A PROSTITUTA DEVASSA

O que acha o leitor dos frutos que, diante dos nossos olhos, diariamente nos contristam e
nos desrespeitam?

A QUALIFICAÇÃO _ ou desqualificação _ que encima este artigo é, sem dúvida,


chocante, e seria imperdoável se aplicada à democracia, tal como ela se configura como
ideal. Ideal que, como temos dito em outras oportunidades, exprime o desejo dos seres
humanos, para os quais a sociabilidade é necessidade insubstituível de organizar
superestruturas e mecanismos institucionais o mais e o melhor possível, aptos a proteger,
amparar e, onde útil ou indispensável, promover os interesses justos e as aspirações
legítimas daqueles que irão viver sob a sua jurisdição.

Como também já temos oferecido mais de uma vez à consideração da análise pela
inteligência e pela consciência dos que nos honram com a sua leitura, ao falarmos de justos
e de legítimos, estamos estabelecendo, implicitamente, a necessidade da existência de um
referencial axiológico fixo, em relação ao qual possa ser estabelecida a diferença entre o
que é justo e o que não é, entre o que é legítimo e o que não é.

Ocorre, porém, que, como vimos em artigo nosso aqui mesmo publicado, a Assembléia
Nacional Francesa, reunida em conseqüência da vitória da Revolução de 1789, promulgou
uma "Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão", constituída por 17 artigos, o 6º
dos quais estabelecia que "a lei é a expressão da vontade geral, expressa diretamente ou por
intermédio de representantes". Em outros artigos, afirmava-se que "ninguém seria obrigado
a fazer, ou a deixar de fazer alguma coisa, a não ser em virtude de lei".

À primeira vista, tudo parece justo e perfeito. Ocorre, porém, que, com tal manobra, o
processo civilizatório do Ocidente foi desvinculado da fonte cultural de que ele resultou,
indiscutivelmente representada pela tradição judaico-cristã, principalmente expressa nas
escrituras sagradas. Repare o leitor que não estamos discutindo o mérito da questão, mas
registrando o que, factual e não apenas opinativamente, existe e não pode ser contestado.

O art. 6º, a que uma vez mais nos reportamos, desconsiderou aquele referencial fixo e o
substituiu pela elaboração legislativa, dependente de maiorias eventuais e volúveis, tal
como seria mais próprio de uma civilização pagã, regida pela visão de Protágoras, para
quem o homem seria a medida de todas as coisas. Com isso, forças existentes no contexto
social, capazes de influir dominantemente na composição dos quadros legislativos,
passariam a controlar os rumos do processo civilizatório. Coroava-se, assim, o longo
esforço realizado no correr de séculos para desvincular das peias éticas e morais
decorrentes da religiosidade ancorada nas escrituras as atividades dos adoradores do
mercado, versão agnóstica do bezerro de ouro.

A partir de então, as necessidades de manter sob controle a composição dos corpos


legislativos, tudo quanto possa ser eficaz no rumo de tal objetivo, passou a ser prestigiado
pelos interessados naquele controle. Interessados cujo apetite, aparentemente insaciável,
colide com ideais de promoção do bem comum e resulta na concentração cada vez maior
das riquezas do mundo e dos povos em mãos do número reduzido dos adoradores do
bezerro de ouro.

Claro que tal concentração, assente no pauperismo crescente da maioria, encerra um perigo
intrínseco e estrutural, representado por uma eventual tomada de consciência da maioria
progressivamente pauperizada. Como antídoto, então, ao erro crasso que transformara
maiorias eventuais em fontes de verdade, acrescentou-se outro erro crasso, consistente na
confusão, deliberadamente estabelecida, entre liberdade como conceito, em plano
metafísico _em que aquele conceito refere-se a algo cujo atributo caracterizador é o de não
sofrer restrições, com o uso da liberdade por seres imperfeitos como somos todos, com as
nossas tendências altruístas e socialmente positivas e as nossas tendências egoístas,
desagregadoras, ameaçadoras e anti-sociais.

Com base em tal equívoco, tudo quanto prestigie e favoreça o que inebria os sentidos
corpóreos e robustece, no homem, o seu componente meramente material passa a ser
consentido, promovido, amparado legalmente, sobretudo quando tal amparo resulte em
número de eleitores capaz de ajudar a formação das maiorias legislantes.

E, não bastassem os erros gravíssimos a que nos estamos referindo, cuja instrumentalização
supôs a instituição de mecanismos institucionais que deveriam ser apenas instrumentos para
a consecução do ideal democrático, acrescentou-se o outro erro crasso consistente na
confusão, propositalmente promovida, entre tais mecanismos, de resto viciados e
corrompidos, e o ideal democrático. Então, hoje, quando se fala de democracia e de sua
defesa, o que se está defendendo é a intocabilidade de mecanismos viciados, geradores e
mantenedores da "democracia" que temos, aqui e alhures, e que não passa de uma prostituta
devassa. Vejam como lhe vai caindo, escancaradamente, a máscara nos EUA e no famoso
Primeiro Mundo.

Afinal, dando uma oportunidade ao referencial axiológico que está nos alicerces da nossa
civilização, em nosso entender, em irreversível declínio, repetiremos a singela e imortal
lição que ali se ensina: "Pelos frutos os conhecereis". O que, em consciência, acha o leitor
dos frutos que, diante dos nossos olhos, diariamente nos contristam e nos desrespeitam?

Jorge Boaventura de Souza e Silva, 80, ensaísta e escritor, é conselheiro do Comando da


Escola Superior de Guerra.

Site: www.jorgeboaventura.jor.br

E-mail: brasil@jorgeboaventura.jor.br

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