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A África

Durante a Guerra Fria, as nações do continente africano conheceram sua independência ao


longo dos anos 1950 e 1970, e se inseriram no sistema internacional segundo a lógica da
bipolaridade. Assim como a América Latina, a queda do Muro de Berlim representou o risco
da exclusão dos principais fluxos da política e economia internacional, retirando o poder de
barganha exercido entre os blocos Leste e Oeste. Os anos 1980 também foram uma “Década
Perdida” para o continente devido ao encolhimento económico apesar de seus recursos em
energia, mineração e capacidade de produção de alimentos. Enquanto no caso latino a
situação foi matizada pelas iniciativas dos EUA (que mesmo assim não impediram a crise) e
a razoável consolidação dos Estados locais, na África observou-se um descongelamento dos
conflitos internos, a reestruturação política e a marginalização externa. Como indica
Vizentini,

O fim da bipolaridade e do (...) conflito Leste-Oeste, agravado pelo desmembramento e


desaparecimento da União Soviética em fins de 1991, fizeram com que o continente africano
perdesse sua importância estratégica e capacidade de barganha, ao que se acrescentava a
própria perda de importância econômica(...) O resultado foi a marginalização da África no
sistema internacional e a desestrategização e tribalização dos conflitos e da política regional.
As sociedades africana estão passando por um processo semelhante ao atravessado por outras
regiões do mundo, qual seja, a construção dos modernos Estados nacionais (VIZENTINI,
2007, p. 203 e p. 219)

Estas pressões colocam o continente e a maioria de suas nações com baixos índices de
desenvolvimento humano e como outros Estados da Ásia Central figuram na lista da
diplomacia dos EUA como “Estados falidos” (a África negra é comummente apontada como
a “região mais pobre do mundo”). No início do século XXI esta situação altera-se
progressivamente por meio de iniciativas de reafirmação, crescimento e a busca de soluções
locais e alternativas globais, renovando o papel e a assertividade do continente, ainda que de
forma assimétrica.

A) As Crises: Um Breve Balanço (1989/2009)

De acordo com Vizentini (2007, p. 160), o continente africano pode ser dividido em três
subsistemas geopolíticos: o transaariano (Estados árabes do Mediterrâneo, ao Sul do deserto
do Saara, Golfo da Guiné e Chifre da África), a África Central (que engloba a região dos
Lagos e a região de Camarões ao Quênia) e a África Austral (correspondente ao sul do
continente e as regiões de colonização portuguesa e inglesa). Cada um destes subsistemas
possui realidades regionais específicas e crises localizadas ao longo dos anos 1990. Tais
crises relacionam-se a movimentos de reestruturação dos Estados nacionais a partir de
clivagens sociais e geopolíticas remanescentes do período colonial e de independência, que se
sobrepõem a dimensões étnicas e religiosas, muitas vezes instrumentalizadas para explicar a
eclosão da violência. Igualmente, envolvem elementos de poder nacional dos Estados
africanos como diamantes, petróleo e gás, além de extensões territoriais. A dimensão destes
conflitos é tanto interna quanto envolve a interacção de diversos Estados e ultrapassa
fronteiras. Nas últimas duas décadas, as tensões na Somália, Serra Leoa, Ruanda, Burundi,
Uganda, República Democrática do Congo, Sudão, a instabilidade no Zimbabué e o fim do
Apartheid na África do Sul foram alguns dos acontecimentos que caracterizaram o
continente. Outros fatos a serem mencionados são a retomada de crises entre a Etiópia e a
Eritreia dos anos 1980 e o encaminhamento da situação de Angola e Moçambique. Avaliando
as linhas gerais de alguns destes conflitos, o da Somália representa uma das mais prolongadas
no continente, sem ter alcançado uma situação de compromisso para a transição política.
Desde 1991, quando o governo estabelecido por Mohammad Barre em 1969 foi derrubado,
prevalece uma disputa pelo poder por clãs rivais (senhores da guerra) que acelerou a
desintegração política nacional. A ascensão do fundamentalismo islâmico e a rivalidade
doméstica resistem a tentativas de transição patrocinadas pela ONU e a actual União Africana
(antecedida pela Organização da Unidade Africana OUA), incluindo operações de paz. Em
1992/1993, a operação da ONU contou com elevada presença de tropas norte-americanas,
mas não obteve sucesso em suas tentativas de pacificação e teve custos directos para as
presidências Bush pai e Clinton nos EUA. Além da disseminação e continuidade da crise
humanitária, um subproduto foi a intensificação de actividades de pirataria patrocinadas por
grupos somalis (em particular no Golfo de Aden). Outro foco de crise disseminou-se a partir
de Ruanda. Ruanda representa um Estado pivô de uma das maiores crises políticas e
humanitárias regionais do continente, com foco na disputa entre a maioria hutu e a minoria
tutsi, que se estendeu ao Burundi, Uganda, Tanzânia e Zaire. De acordo com Vizentini
(2007), esta disputa possui origens na dinâmica sócio-político-econômica desigual imposta
pela minoria tutsi com apoio dos colonizadores alemãos e belgas. Com a independência e a
ascensão da maioria hutu ao poder, este processo começou a ser revertido transformando
estruturas internas, levando à eclosão do conflito nos anos 1990. O estopim da violência deu-
se com a resposta do governo ruandense a uma invasão de rebeldes tutsi vinda de Uganda
(Frente Patriótica Ruandesa- FPR) nos anos de 1991/1992. A guerra civil entre os grupos
rivais, tutsis e hutus, estendeu-se após os Acordos de Arusha, que passaram a ser
desrespeitados pelos envolvidos no conflito de forma sistemática. Episódios de genocídio,
crianças combatentes, estupros sistemáticos, expulsão de populações, fome e mutilações
passaram 92 Esta ascensão é fenômeno comum no continente, seja em Estados fragmentados
como em regimes mais estabilizados como Egito e Argélia que tem recorrido à forte
repressão e quebra da ordem institucional para barrar estes avanços. A ser a realidade
compartilhada pelas populações civis a partir deste conflito e a sua disseminação generalizada
(classificados de crimes contra a humanidade e abusos de direitos humanos). O auge da crise
ocorreu em 1994 quando, (...) teve início um gigantesco massacre de hutus, que fez entre 500
e 800 mil morto, e produziu um êxodo de 4 milhões de refugiados (numa população de 7,8
milhões), a maioria em direção aos países vizinhos, principalmente o fragilizado Zaire (....)
(VIZENTINI, 2007, p. 209).

A extensão dos conflitos teve como consequências a disseminação de larga crise humanitária
e a fragmentação política do Zaire que se tornou a República Democrática do Congo (RDC)
com a deposição de Mobutu e a ascensão de Laurent Kabila. A situação na RDC, contudo,
continuou se agravando devido à pressão dos rebeldes apoiados por Ruanda e Uganda. Em
resposta, Kabila recebe o apoio de Zimbabué, Namíbia e Angola, intensificando a guerra
civil. A primeira tentativa de encerrar este conflito ocorre em 1999 com o Acordo de Lusaka
para o cessar fogo e fim das hostilidades na RDC e o seu impacto na região dos grandes
lagos. Todavia, as tensões continuam a se intensificar e em 2001 Kabila é assassinado sendo
substituído por seu filho Joseph Kabila.

Em 2002/2003 novas tentativas de acordo para encerrar o conflito intra e extra RDC são
realizados sob o patrocínio da África do Sul. Apesar de alguns progressos, a estabilização
ainda não foi alcançada, com a retomada de contactos político diplomáticos e económicos
entre os Estados, sendo acompanhadas por permanentes disputas internas entre o governo e
os rebeldes. As marcas da guerra civil na RDC estendem-se ao entorno em termos
humanitários. A dinâmica de tensões hutus e tutsis pareceu ainda não se esgotar, assim como
as marcas da violência são bastante presentes nas sociedades por conta dos crimes contra a
humanidade abusos de direitos humanos sistemáticos realizados por todas as facções
beligerantes de todos os Estados. Entretanto, o Tribunal Penal Internacional para Ruanda
(Tribunal de Arusha, ICTR) que fora criado em 1994 pela Resolução 955 do CSONU como
parte das negociações de cessar fogo para julgar as graves violações do direito internacional e
humanitário cometidas em Ruanda vem apresentando resultados significativos. A prisão e o
julgamento de acusados de crimes de guerra é uma das conquistas dos últimos anos,
contribuindo para o processo de transparência e reconstrução nacional de Ruanda. Também é
preciso mencionar que encontra-se em actividade no Congo a MONUC (Missão da
Organização das Nações Unidas na República Democrática do Congo) para a implementação
dos acordos de cessar fogo de 1999.

É preciso mencionar os conflitos civis em Serra Leoa que se iniciaram em 1992 e terminaram
em 2002 mediante acordo de paz patrocinado pela ONU. Desde então, apesar das marcas da
guerra, o país tem buscado uma relativa estabilização. O julgamento de Charles Taylor em
Haia, ex-Presidente da Libéria, que teve participação direta no conflito do país, por crimes
contra a humanidade insere-se nos esforços de reconciliação nacional. Este conflito também é
conhecido pelas questões relacionadas aos “diamantes de sangue”, referentes ao contrabando
de diamantes ao ocidente pelas diversas facções da guerrilhas para o financiamento de sua
manutenção (armamentos, alimentos). Algumas companhias ocidentais passaram a certificar
seus diamantes como provenientes de zonas não afectadas pelos conflitos para indicar que
não estariam ilegalmente importando-os por preços menores e financiando as guerrilhas.

No lado positivo, é preciso mencionar o encerramento da guerra civil em Angola entre o


governo (MPLA) e os rebeldes (UNITA, uma vez que a FNLA já havia abandonado a
oposição). O primeiro passo para o fim desta guerra havia sido dado em 1994 com o
Protocolo de Lusaka, mas somente em 2002 com a morte de Jonas Savimbi principal líder da
oposição o conflito iniciado em 1975 pode encerrar-se. Actualmente, o país, assim como
Moçambique (cuja guerra civil foi de 1975/1992), atravessam um processo de reconstrução
nacional, política, social e económica. O Brasil detém um papel relevante nas missões de paz
da ONU em Angola (UNAVEM93 I- UNAVEM II- 1988/1991 e UNAVEM III 1995/1997) e
como parceiro político económico cultural via comércio, a CPLP e interações diplomáticas.

A situação de instabilidade no Zimbabué e seus conflitos internos causados pelo governo


Mugabe (2001/2002) também são episódios que marcaram o período. A situação da Líbia de
Khadafi revela momentos de incerteza igualmente, com o país transitando de Estado bandido
na classificação dos EUA para buscar sua reinserção no sistema internacional ao ter abdicado
de seus programas de destruição em massa. Somada aos conflitos mencionados, a crise de
Darfur94 no Sudão iniciada em 2003 vem sendo considerada a mais grave situação
humanitária do período 93 United Nations Angola Verification Mission- Missão de
Verificação das Nações Unidas para Angola. 94 A região de Darfur é composta por três
estados, Norte, Sul e Oeste. Antes da atual crise, guerras civis já haviam afligido a região.
contemporâneo, com mais de três milhões de refugiados e 300 mil mortes.

Bastante complexa, a crise de Darfur envolve elementos étnicos e territoriais e inúmeras


forças que se opõem ao governo central liderado por Omar al- Bashir no poder desde 1993.
Indiciado pelo Tribunal Penal Internacional, Bashir é acusado por crimes contra a
humanidade ao patrocinar milícias (janjaweed) que reprimem os movimentos de oposição ao
governo. Dentre os principais grupos opositores encontram-se o Movimento pela Justiça e
Igualdade-JEM e o Exército de Libertação do Sudão-SLA que representam as populações
não-árabes. Além disso, os janjaweed são acusados de patrocinar a limpeza étnica destas
populações e de cometerem abusos sistemáticos de direitos humanos. A crise se estende ao
Chade, seja em termos de deslocamento de refugiados como de conflitos armados (o país é
acusado pelo governo do Sudão de armar e abrigar rebeldes do JEM). A descoberta do
petróleo no território sudanês e a timidez da comunidade internacional em responder aos
primeiros movimentos do governo são apontados como os principais responsáveis pela
situação que vem sendo administrada pela ONU e agências internacionais de ajuda que atuam
nos campos de refugiados, oferecendo, ainda que em condições precárias, ajuda, saúde e
alimentos. A actuação da ONU no país ocorre desde 2005 com Missão das Nações Unidas no
Sudão e, a partir de 2007, as ações principais ficaram a cargo da UNAMID, Operação
Híbrida das Nações Unidas e da União Africana em Darfur. Até 2009, esta actuação dos
capacetes azuis e dos membros da UA é ainda insuficiente para detera crise humanitária.

Deve-se destacar, que o papel desempenhado pela China no Sudão e em outras nações
africanas no trato destas questões humanitárias também dificulta esforços de estabilização e
de elaboração de resoluções no COSNU. Paradoxalmente, a presença chinesa funciona como
uma válvula de escape e impulsionadora da recuperação africana nos últimos anos. Nem
todos os países africanos inserem-se neste quadro tradicionalmente negativo de crises como
acima descrito, destacando se o papel da África do Sul e a retomada de iniciativas regionais e
de estabilização que conduzem à premissa do renascimento africano. O renascimento é quase
concomitante às crises, demonstrando a contínua complexidade da situação político
estratégica do continente e seusEstados.
O Renascimento Africano: Dos Anos 1990 ao Século XXI

Cunhada pelo ex-presidente sul africano Thabo Mbeki, a expressão “renascimento africano”
surgiu como representativa de um processo de recuperação gradual do continente a ser
empreendido por suas nações a partir do reconhecimento de suas potencialidades e
dificuldades. Problemas sócio económicos, reconstrução interna, revitalização económica e a
retomada da autonomia nas relações internacionais fazem parte deste processo. Saraiva
(2007, p. 113-114) aponta como parte do processo de renascimento, (....) o avanço gradual
dos processos de democratização dos regimes políticos e contenção dos conflitos armados;
crescimento económico associado à performances macroeconómicas satisfatórias e
alicerçadas na responsabilidade fiscal e preocupação social; elevações da autoconfiança das
elites (...) Três dimensões podem ser analisadas como exemplos do renascimento africano: a
África do Sul pós-Apartheid, o multilateralismo africano e as relações internacionais
continentais. Embora não exaustivos desta dinâmica de recuperação, estes elementos ajudam
a melhor exemplificar o processo em andamento a partir de suas principais características
analisadas abaixo brevemente. No que se refere à África do Sul, o encerramento da Guerra
Fria representou o fim do regime de segregação racial adorado em 1948 pelo Partido
Nacional conhecido como política do Apartheid. A repressão contra o movimento de
resistência negro foi sistemática durante todo o período de vigência do regime, focada em
partidos representativos como o Congresso Nacional Africano (CNA). Alguns dos principais
líderes da oposição como Nelson Mandela foram condenados pelo regime segregacionista à
prisão perpétua (1964). Criticada pela ONU desde os anos 1960, esta política gerou o
isolamento do país na comunidade internacional e ações internas de repressão política e
social que culminaram na década de 1980 com uma série de revoltas internas, que tiveram
como ponto de partida a revolta de Soweto em 1976 (quando ocorreu o massacre de Soweto
devido à forte repressão governamental). Durante a vigência do Apartheid, a nação esteve
submetida a embargos económicos, exclusão de competições exportavas oficiais e sofria
boicotes na arena cultural. O peso deste isolamento global e regional (no continente a África
do Sul era vista com desconfiança e factor de desequilíbrio), do crescimento das revoltas
internas, da transição do pós-guerra Fria e da consolidação de uma posição norte-americana
Anti-Apartheid trouxeram um ponto de inflexão ao regime de minoria branca. Como indica
Vizentini (2007), a ascensão de De Klerk à presidência do país deu início a um processo de
libertação de líderes da resistência, incluindo a de Nelson Mandela em 1990. A eliminação
das restrições ao funcionamento dos partidos políticos, a reestruturação do CNA, as
conversações de reconciliação nacional, a eliminação das políticas do Apartheid e o fim do
isolamento internacional representam passos desta reconstrução que, em 1993, levaram ao
acordo para a constituição provisória. Em 1993, Mandela e De Klerk foram agraciados com o
Prémio Nobel da Paz por seus esforços na condução do encerramento do Apartheid de forma
pacífica e pela busca da reconciliação nacional.

No ano seguinte, 1994, o CNA de Mandela obteve uma vitória maciça nas primeiras eleições
não raciais (isto é, não segregadas e democráticas), instaurando o Governo de Unidade
Nacional. Enquanto isso, no campo externo, a África do Sul retornava à ONU.95 No poder
até 1999, Mandela conduziu os primeiros passos da transição e o renascimento africano é, em
grande medida, o renascimento da África do Sul em meio ao seu processo de reestruturação
interna, redemocratização e reconciliação que, como no conjunto africano, é caracterizado
por avanços e retrocessos. Em 1996, dentre os avanços, a nova Constituição foram adotada,
mas, ao mesmo tempo, o Partido Nacional intensificou sua oposição ao CNA, assim como
cresceram partidos ligados à maioria negra96. Estes desafios foram combinados com o
agravamento da situação de saúde gerada pela epidemia de HIV/AIDS e a permanência de
uma situação ainda de pobreza quase que generalizada entre a maioria da população negra. O
próximo governo a se deparar com este desafio foi o de Thabo Mbeki que, após a vitória nas
eleições de 1999, e a reeleição em 2004, esteve à frente do Executivo sul-africano até 2008
quando renunciou devido à perda de apoio parlamentar. Na oportunidade pesaram sobre
Mbeki alegações de que teria 95 Em 1995, instalou-se a Comissão Para a Verdade e
Reconciliação sob responsabilidade de Desmond Tutu, visando investigar os crimes
cometidos contra a humanidade e abusos de direitos humanos durante o período de 1960 a
1993. 96 Em 2008, o Congresso do Povo (COPE) foi criado a partir de uma dissidência do
CNA e cresce a influência de moderados da minoria branca igualmente. Prejudicado o actual
presidente Jacob Zuma, acusando-o injustamente de corrupção. O processo foi retirado em
Abril de 2009 e Zuma assumiu a presidência em Maio de 2009. O próprio Mbeki foi acusado
de corrupção durante o governo, mas igualmente inocentado. Em um balanço geral, o
governo Mbeki conseguiu consolidar o processo de recuperação económica (incluindo a
busca da diversificação económica e incremento das vantagens comparativas em sectores
como mineração) e fortalecer a transição. Mais uma vez, é preciso lembrar que este não é um
processo linear, sendo caracterizado pelo risco da recessão devido à crise económica mundial
e a permanência de desigualdades no país. Porém, observaram-se progressos na redução
lenta, mas gradual destas assimetrias, e conquistas no campo social como em iniciativas de
combate a AIDS por meio de programas governamentais (antecedido por significativa vitória
contra companhias farmacêuticas pelo acesso aos medicamentos). Neste campo, a parceria
bilateral com o Brasil e depois trilateral no âmbito do IBAS é fundamental para a ampliação
de programas de ajuda97. No campo externo, como sustenta Kornegay (2006), Mbeki
desenvolveu uma política externa baseada no desenvolvimento e autonomia no qual se
destacam iniciativas globais e regionais. Em termos globais, a África do Sul teve papel ativo
em 2001 quando da realização da Conferência da ONU em Durban e em 2010 sedia a Copa
do Mundo de Futebol, assim como consolidou o IBAS em 2003 com o Brasil e a Índia (ver
Capítulo 4). Além disso, buscou uma política de aproximação com a China, os EUA e a UE,
ampliando os eixos de acção diplomática Sul-Sul e Norte-Sul.

No que se refere apolítica regional, a reconciliação interna estendeu-se aos vizinhos e ao


desempenho de um papel mais positivo e activo no bi e multilateral, com destaque para as
organizações de carácter comercial e político como a SACU (União Aduaneira da África
Austral), SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral) e a Organização da
Unidade Africana (OUA). Estes esforços multilaterais referem-se ao segundo pilar do
renascimento africano e não só a África do Sul, mas outras nações desempenham papel
importante em sua consolidação. Analisando estes arranjos, a SACU98 composta por
Botsuana, Lesoto, Namíbia, Suazilândia e África do Sul, cujas origens datam de 1910,
atravessa 97 VISENTINI e PEREIRA, 2007 trazem análises detalhadas sobre o processo de
transição sul-africana. 98 O continente abriga a Comunidade Económica dos Estados da
África Ocidental (ECOWAS) composta por treze países desta região como Camarões,
Senegal, Gana, Guiné, dentre outros, criada em 1975. um período de aprofundamento. Este
aprofundamento é composto pela intensificação da promoção da integração económica e do
livre comércio, no qual se insere o Acordo Monetário Multilateral (MMA). A SACU tem
servido de base para a negociação de acordos extra continentais com outros blocos como a
UE e o Mercosul e parceiros individuais como a China e a Índia. Além da revitalização da
SACU, em 1992 foi criada a SADC99 composta por África do Sul, Botsuana, Lesoto,
Namíbia, Angola, Ilhas Maurício, Madagáscar, Malawi, Moçambique, República
Democrática do Congo, Tanzânia, Zâmbia e Zimbabué. A SADC engloba objetivos
comerciais e políticos.

No campo político a iniciativa mais significativa foi o estabelecimento da União Africana


(UA) em 2003, a partir da OUA de 1963. Tendo como modelo a integração europeia, a UA
define como objectivos a promoção da solidariedade, cooperação, estabilidade,
desenvolvimento e defesa intra buscando uma acção conjunta de seus países membros para a
resolução dos problemas comuns do continente. A fim de dar conta destes objectivos, os 53
Estados membros100 estabeleceram uma estrutura institucional na qual se encontram
previstos a criação de um Parlamento Pan-americano, um Conselho de Paz e Segurança
(PSC), um Conselho Económico, Social e Cultural, uma Corte de Justiça, somadas às
Assembleias Geral e Comités Técnicos. No campo económico especificamente, a proposta da
criação do Banco Central, do Fundo Monetário e do Banco de Investimentos encontram-se na
agenda, assim como a Força Africana.

Um dos projectos mais relevantes foi a Nova Aliança para o Desenvolvimento da África
(NEPAD). Os propósitos da aliança para o longo prazo sintetizam os principais desafios do
continente em termos de segurança humana e estabilidade, como o estabelecimento da ordem
civil e de mais governos democráticos; prevenção e redução de conflito na região da áfrica
subsaariana; maior respeito pelos direitos humanos aumento dos investimentos em recursos
humanos nas áreas da saúde e educação; políticas direccionadas à diversificação 99 A SADC
se origina a partir da SADCC (Conferência para o Desenvolvimento da África Austral).

NEPAD

Abrangentes, os alvos do NEPAD, associados à missão da UA foram considerados por alguns


analistas em descompasso com a realidade africana, alertando-se para o risco de seu rápido
esvaziamento em meio às dificuldades e conflitos descritos no início deste item. Entretanto, a
nova unidade africana tem demonstrado sinais de crescente assertividade, apesar de suas
limitações naturais aplicadas a qualquer OIG. Dentre estes sinais, destacam-se os esforços na
pacificação de conflitos localizados no continente. Além do patrocínio de reuniões e
conversações entre partes envolvidas em conflito a missão híbrida UA-ONU para Darfur é
um exemplo dos desenvolvimentos positivos associados a esta tomada de responsabilidade
interna. A existência de uma instituição africana para lidar com problemas africanos é
percebida como uma realidade concreta das atuais relações internas e externas do continente,
que se estende a suas parcerias internacionais. Como mencionado, a China tem se
consolidado desde o início do século XXI como uma potência africana, com destaque para o
incremento das trocas comerciais entre este país e o continente. A criação do Fórum de
Cooperação China-África, encontros de cúpula bi e multilaterais são intensos e revelam forte
complementaridade de interesses. Para a China, o continente representa, como visto, uma
fonte de matérias-primas e recursos minerais, energéticos e alimentos, assim como um
mercado consumidor de elevado potencial a partir da sua recuperação, sem deixar de
mencionar o apoio e peso político representado pelas nações africanas na ONU (Assembleia
Geral). Os investimentos em infra-estrutura no continente e programas de ajuda da China
consistem-se em um dos motores da recuperação africana.

A cooperação Sul-Sul na qual a China investe é caracterizada, como definem os analistas do


Council on Foreign Relations dos EUA, de “no strings attached”. Ou seja, em campos como
direitos humanos, problemas sociais, a China oferece ajuda sem condicionalidades. Esta
dimensão, como indicado, e a sustentação da aproximação somente em temas como
desenvolvimento e crescimento tem levado a críticas norte-americanas e da Europa
Ocidental, que classificam a China como tolerante às crises humanitárias continentais. Por
sua vez, a China mantém sua postura, priorizando o discurso do desenvolvimento e da
identidade terceiro-mundista com a África. Inclusive, esta presença chinesa compete com a
brasileira em algumas dimensões, ainda que a identidade histórico-cultural Brasil-África
detenha maior afinidade. Este avanço chinês foi responsável pela maior atenção da UE e dos
EUA ao continente, que, no caso deste último, reforçou-se com a posse de Barack Obama. As
primeiras sinalizações de Obama ao continente têm sido encaradas como positivas, mas como
outras iniciativas de seu governo em andamento, cercadas de expectativas. Finalmente, é
preciso destacar que a Índia, por motivos similares aos da China, visa também o
estreitamento de laços com a África, em meio a seus desafios asiáticos e do relacionamento
com os EUA. O continente africano apresenta uma síntese de crises e renascimentos na
consolidação de seu futuro, dando continuidade à transição de seus Estados Nacionais, à
reafirmação regional e à reinserção global.