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Eduardo Moura Tronconi

Belatrix
Paradoxo das Sombras

Uberlândia / MG. - Brasil

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Índice
Aparte
0 - Ponto de Partida/Chegada ...........................................................................................................5

Parte I: O Tempo Que a Todos Envolve


1 - Alleghoria .....................................................................................................................................9
2 - Era uma vez... ..............................................................................................................................10
3 - A Princesa de Altair ...................................................................................................................11
4 - Uma breve história de Alleghoria ...............................................................................................13
5 - Lutando pela posse da realidade .................................................................................................16
6 - Como se apossar da real idade ....................................................................................................22
7 - Bel, a jóia negra de Altair ............................................................................................................25
8 - Um Mago da Luz Serena ............................................................................................................28
9 - A rosa que um abutre despedaçou .............................................................................................30
10 - Um Livro chamado Bel ............................................................................................................32
11 - A Carne com a qual engano o tempo .......................................................................................36
12 - Quando as estrelas te dizem quem és .......................................................................................41
13 - O Atrator de toda abstração .....................................................................................................43
14 - O instante em que o momento troveja ....................................................................................45
15 - Distâncias medidas em maldições ............................................................................................49
16 - A filosofia da viagem no tempo ................................................................................................50
17 - Uma dança louca no tempo .....................................................................................................53
18 - Uma contradança hilária ..........................................................................................................56
19 - Um jogo que se perde sem jogar ...............................................................................................59
20 - Vida breve, sono dos justos ......................................................................................................65
21 - Almas que se esparramam pelo universo ..................................................................................68
22 - Um jogo que se ganha sem jogar ..............................................................................................69
23 - O Despertar dos Mágicos ..........................................................................................................72
24 - A urgência de quem tem todo tempo do mundo ....................................................................75
25 - Cerne & Tempo .......................................................................................................................78
26 – Nigromancência .......................................................................................................................80
27 - O Feitiço do Decágono Paradoxal ............................................................................................85

Parte II: O Espaço Que Tudo Separa


1 – Tear da Transmigração ..............................................................................................................90
2 – Bipossessão .................................................................................................................................92
3- Conhece a ti mesmo ....................................................................................................................96
4 – Anarete Terra ...........................................................................................................................100
5 - Com a morte na alma ...............................................................................................................104
6 - Avatara ao inverso .....................................................................................................................108
7 – Litania das incertezas ...............................................................................................................110
8 - O Vinho das Almas ..................................................................................................................113
9 - Vésperas das sombras ................................................................................................................118
10 - Toda distância será permutada .............................................................................................. 120
11 - A Luz Negra ............................................................................................................................122
12 - O Sagrado Matrimônio Espiritual ..........................................................................................125
13 - Gnose Poética .........................................................................................................................128
14 - Rosas & Penumbras ................................................................................................................130
15 - O espelho de reflexão do tempo .............................................................................................136
16 - Os sonhos da realidade ...........................................................................................................141
17 - As Grandes Sombras ...............................................................................................................145
18 – Interseção ...............................................................................................................................153
19 - Cantando ciranda na beira do mar ........................................................................................157

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20 - A Voz do Trovão .....................................................................................................................159
21 - Quando lobos notívagos uivam juntos ...................................................................................163
22 - Jardim de Espinhos e Flores ...................................................................................................166
23 - A sombra que te ilumina ........................................................................................................173
24 - A sombra que te acorda ..........................................................................................................177
25 - O julgamento de toda carne ...................................................................................................179
26 - A noite escura do corpo ..........................................................................................................185
27 - A água de rosas e espinhos .....................................................................................................189
28 - A mente perfeita e o koan do conflito ...................................................................................191
29 - Iminência da partida ...............................................................................................................195
30 - Belatrix: a sombra do paradoxo ..............................................................................................197

Parte III: A Eternidade Que Em Tudo Se Revela


1 - Do Vórtice ao Horto .................................................................................................................202
2 - Sondando o Inconsciente .........................................................................................................204
3 – Æternum ..................................................................................................................................206
4 - Um adendo sobre as Idades dos Mundos ................................................................................210
5 – Infinitum .................................................................................................................................211
6 – Carangula .................................................................................................................................217
7 - Um conto de dois mundos .......................................................................................................221
8 - O Espelho de três mundos .......................................................................................................224
9 - A ponderação de toda consciência ...........................................................................................226
10 - Arcana Belatrix .......................................................................................................................233
11 - Amor de Si ..............................................................................................................................236
12 - A Infância no fim de toda loucura .........................................................................................240
13 - A véspera do fim do mundo ...................................................................................................243
14 - 21/12/2012 ............................................................................................................................247
15 - O X entre o Alfa e o Ômega ...................................................................................................250
16 - Todo amparo que houver nesses mundos ..............................................................................258
17 – BelatriXirtaleB .......................................................................................................................260
18 - Uma antiga nova mensagem ...................................................................................................265
19 - Um salto no escuro claro do conhecimento ..........................................................................269

Parte IV: A Finitude Onde Tudo Se Ajusta


1 - Quando eu voltei para seus braços ...........................................................................................273
2 - Ataduras da realidade cotidiana ...............................................................................................275
3 - Tempos e espaços que se perdem e que se ganham .................................................................280
4 - Aquele que atravessou o espelho ..............................................................................................285
5 - A exegese de duas almas ...........................................................................................................288
6 - Os que têm fome e sede de justiça ...........................................................................................291
7 - Consciências que se entrelaçam pela eterna Gnose .................................................................295
8 - Mundos que se entrelaçam pela eterna Gnose .........................................................................300
9 - A manhã de Belatrix .................................................................................................................306
10 - Paradoxos de Luz & Sombras .................................................................................................311

Aparte
0 - Um sonho de três humanidades ..............................................................................................315

Parte Final: O Início, o Meio & o Fim


α - A Fênix & a Nêmese ................................................................................................................317
- O Ponto Paradoxal ....................................................................................................................323
Ω - O Que Teus Olhos Nunca Viram ............................................................................................326

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Aparte

0 - Ponto de Partida/Chegada

Na incompletude, chegando ao limite da consciência em sua natureza de conhecer há


o nada da Eternidade.

Partindo em retorno daquele lugar onde o Limite se torna Eternidade, lá onde está a
fronteira entre os Universos, e rumando ao meio de tudo que paira no éter de todo o
Espaço, vem o Tempo permeando com sua inércia todas as coisas que ali se estabelece.

Tempo, Espaço, Universo, Galáxias, Estrelas, Planetas, Natureza, Consciência, Seres,


Pessoas, Coisas...

Uma coisa está no mundo, mas o mundo surge em um ponto indefinido entre o Tempo
e as Coisas, o mundo surge quando a consciência o estabelece. É no mundo que tudo se
desenrola para aqueles que podem perceber as coisas se desenrolarem e se
emaranharem infinitamente entre si.

O mundo, por ser algo do pensamento, uma própria coisa do pensamento, escapa ao
mesmo tempo que abrange todas as coisas dentro do limite de um universo.

Assim, nesse emaranhado de sutilezas que não é nada além de Energia que se
condensa ou que se dissolve a partir de condições naturais do Tempo e do Espaço,
acontece a Vida.

Tempo e Espaço são os primeiros fatores que se condensam entre si para


possibilitarem a experiência da Existência. Tempo-Espaço, ou Espaço-Tempo, permite
a Realidade, e nessa realidade nada foge da imanência dual, e tudo no Universo se
dispõe então deste modo, em Dualidade.

Toda uma Consciência deverá passar para que então um dia, tudo comece a se
ordenar para uma Totalização, ou seja, para que as coisas comecem a se integrar
novamente, que é o reflexo no tempo-espaço da Eternidade.

O “por que?” essas coisas acontecem assim estão além dos próprios limites do
Universo, e palavra nenhuma é capaz de dizer qual o sentido disso tudo, pois afinal
cada palavra em si, por mais precisa que seja, colocada no lugar certo, falada ou
escrita, comporta em si já a dualidade.

Um ser consciente, que pode pensar, falar e escrever, está apenas operando em um
limite intermediário naquilo tudo para o que o universo se dirige em finalidade, pois ele
mesmo passou pelos graus imponderáveis da existência, e em certo momento no
espaço-tempo pode por si próprio refletir sobre tudo.

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Os seres humanos são esse ponto central. Ou melhor, a consciência humana habita
no ponto central do Universo, tal consciência cedo ou tarde compreende que o próprio
Universo é constituído de forma tal que a consciência possa existir dentro dele.

Então a consciência percebe para sua surpresa, que nada nunca fora dual realmente,
mas que tudo esperava pela Completude que só uma consciência tal pode vislumbrar.

Mas... no meio disso tudo, acontece a História. E como somos gratos à palavra!

Elas são o que de mais paradoxal há, pois com as palavras podemos ao mesmo
tempo-espaço determinar e indeterminar, e se assim o é, o pensamento consciente tem a
mesma propriedade, pois o pensamento engendrou as palavras no mundo.

Desta forma, histrionicamente, a história é “história” e “estória”, e cabe apenas aos


seres conscientes decidir ao longo do espaço-tempo o que na disposição dos fatos que
se desenrolam sejam uma coisa ou outra. As próprias Línguas diferentes no mundo
abordam a realidade das coisas de formas diferentes, gerando assim no seio do real,
maneiras diferentes de se construir o mundo ao redor, pois é a consciência mesma que
tem o poder de construir a realidade humana. Assim a consciência gera a hestória…

Esse giro da Consciência poderia por si só provar aos seres que tudo o que se dispõe
a partir da Eternidade, ou seja, o que está no Tempo-Espaço, é Consciência. Mas a
história humana insiste em apontar, daquela forma histriônica particular que lhe
convém, que não é assim.

Iludidos dentro de sua divina comédia, construindo mundos que são sistemas de
diferenciação entre as particularidades, a humanidade volta todos seus esforços em
criar paisagens onde uns desfrutem dos sonhos e outros dos pesadelos da realidade.

Nessa disposição histórica em se encontrar a Verdade, os seres humanos divididos


pelas suas ínfimas particularidades, se agarram à glória da Definição quando tudo na
vida aponta para a incerteza, para a relatividade e para a interdependência.

Isso poderia ser admissível, pois se somos seres que visam entender e empreender o
processo de Totalização, nosso ponto de chegada bem que poderia ser a Verdade. Mas
paradoxalmente justamente por sermos seres tais, devíamos ter um pouco de
inteligência para compreender que a Verdade não é a ponto de chegada, mas o
momento crucial da virada.

Como seres que cavalgam na inércia espaço-temporal, não devíamos ter permitido
estacionar onde estacionamos. Mas isso também faz parte do jogo do Universo, pois a
consciência humana mesma é uma coisa passível de evolução, ela progride e regride,
avança e retrocede, novos influxos de energias permitem que ela assim o faça. E
energia para uma consciência vem em forma de uma inércia que propõe às
consciências humanas já estabelecidas no tempo-espaço qual rumo tomar.

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Assim as “consciências individuais estão estabelecidas em uma posição estacionária,
e o abismo que se abre diante delas vem propor não para o que elas estão preparadas,
mas ao que elas estão dispostas a continuarem se tornando, a se elevarem em um
ângulo acentuado ou a permanecerem avançando em linha reta.

Isso dito assim parece apenas uma alegoria que poderia querer dizer a mesma coisa
no final, isso porque as palavras são precisamente imprecisas, e o que se desvela à
consciência, o que se propõe à mente humana no tempo-espaço, é primeiro apreendido
por elas não em forma de palavras e conceitos, mas através de sentimentos, conceitos,
imagens, só depois se concatenando em palavra e escrita.

Ali no âmbito do sentimento é que se dá a proposta. Essa paragem, entretanto só é


possível de se fazer entender por imagens, pois ela opera na proximidade da
Eternidade.

Então poderíamos dizer que a Consciência é como aquele local divisório onde um
grande rio encontra o oceano, as marés diferentes refluem alterando a disposição dos
barcos que navegam rio acima, e é cada um desses barcos diferentes, que são o corpo
que abriga cada mente particular, cada partícula de consciência, que definem onde
ancorar, em qual barranco permanecerão, ou se continuam a navegar, pra cima e pra
baixo, alheios às condições dos refluxos e influxos da maré que se dá pelo encontro
entre o rio e o oceano.

Entretanto, em cada nau há um tipo diferente de navegador. Há os que aprenderam


com a observação cíclica dos fatos, há os que seguem outros barcos, há os que
navegam soltos pelo rio. Grandes frotas são definidas e às vezes afundam juntas ou
encalham, outras navegam para todos os pontos do rio, não obstante as condições, mas
no geral, todos parecem se contentar em ficar ali, na finitude navegável do rio,
vivenciando as agruras e os prazeres de existir assim.

As palavras que “definem” os locais onde se dá a chegada e a partida são as mais


especiais que existem, pois elas se referem com o mesmo “preciso termo” um local que
serve para duas disposições tão diferentes. Assim o “porto” pode ser onde se embarca
como onde se desembarca, a estação é aonde chegam e partem os veículos, a faixa de
largada é a mesma de chegada. Assim podemos perguntar se é do sol que parte ou
chega a luz solar, se é da alma que partem ou chegam os sentimentos, há nessas
palavras paradoxais uma espécie de nexo, uma junta imperceptível onde os rumo de um
termo inverte o sentido, ali na junta de um nada aparente tudo aparece e se completa.

Dessa forma a consciência humana dispõe a humanidade no mundo. Da consciência,


na consciência, a consciência é o nada ínfimo, o abismo eterno, a fonte e o sumidouro
da realidade. Os homens e as mulheres criam a disposição de se verem como o centro
do universo, ou como um ínfimo ser jogado em sua imensidão.

O que a grande maioria não sabe, mas que uns poucos já percebem, é que qualquer
coisa, um mínimo ato sobre a face do planeta está influenciando as estrelas, e são todas

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as estrelas acima de si que fazem homens e mulheres estarem no lugar que estão, uma
simples remada na água muda todo o rio e é todo o rio que define onde o barco estará.

Se a consciência através da história não se tivesse extraviado na confusão das


palavras de Verdade, que são apenas aparentes, ela poderia facilmente vislumbrar o
que agora necessitará de um grande paradoxo para que percebam, os seres humanos
poderiam entender que todos são um, que Coisas, Pessoas, Seres, Consciência,
Natureza, Planetas, Estrelas, Galáxias, Universos, Espaço, Tempo são tão só o “Si” de
uma espécie de sentimento final que irá a todos igualar e dispor em Completude.

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Belatrix - Parte I:

O Tempo Que a Todos Envolve

1 - Alleghoria

Debaixo de toda roseira há uma serpente, e acima dela existe o céu.

Esse céu acima de tudo, que vai desde onde a barriga das serpentes roçam até os
cumes onde o mundo termina aos pés da escuridão do espaço sideral, e para além,
compreendendo o Granatmos, a Grande Atmosfera, é o que empurra para baixo, tudo
que anda sobre a face de um mundo e que esse mundo empurra de volta para todos os
cantos.

Outrora, em um lugar e um tempo em que os antigos seres humanos fundamentais


começaram a pensar sobre tudo, se chamou os gases que circulavam por aí de atmos,
por isso depois se deu o nome de atmosfera à pequena esfera etérea de gases que
envolvem a rocha disforme sobre a qual todos pensam pisar, e um dia muito tempo
depois passaram a intuir que na verdade essa rocha é que nos atrai com sua força
magnética, e também aos gases que flanam por aí, dando a esse pedaço de pedra no
espaço a designação de Alleghoria, uma preciosa safira com sua cor azul clara dentro do
espaço e do tempo.

Não obstante ser neste palco etéreo da atmosfera que se desenvolve toda a ação da
história dessa humanidade, pelo menos a grande maioria dessa ação, sendo que aí se
instalam os agentes da vida e da morte, há, entretanto para além do conhecimento
humano em todos os mundos muitas outras coisas dentro daquilo que se compreende
como o céu do chão.

Há por exemplo o espaço interior dos homens e mulheres, o espaço físico e o mental,
assim como em todo ser vivo na face do planeta Alleghoria.

Esse é o mesmo céu azul que cobrem os reinos que foram edificados ao longo do
tempo e das Idades nesse planeta. Esses reinos são lugares onde existem povos iguais
todos os povos onde existem os seres humanos, e eles têm entre si um Reis, uma
Rainhas, Príncipes e Princesas, Sacerdotes, Magos, Guerreiros, pessoas comuns de
todos os tipos, pessoas ordeiras e criminosos, como em qualquer mundo onde haja
gente.

Nesse planeta em especial, ao longo de seu desenvolvimento e história podemos agora


encontrar três grandes reinos que dividem o chão desse mundo entre si, a saber: Altair,
Eusorama e Naltra.

Na ilha continente de Altair, cuja capital se chama Paradiso, a atmosfera é mágica,


tanto a atmosfera que abriga rosas e serpentes quanto a atmosfera mental, onde

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permanecem presas atraídas pela gravidade mental mística ali desenvolvida as coisas do
pensamento conforme esse povo aprendeu a pensar.

Em outras duas grandes ilhas se estabelecem os reinos de Eusorama, com sua capital
Ramanuma, com seu povo que há alguns séculos vem desenvolvendo no seio de sua
sociedade e cultura um pensamento religioso mais humano, pautado na graça divina. Na
ilha semi-selvagem onde o povo de Naltra vive em todo do centro de poder estabelecido
na cidade de Numaré, essa gente procura viver em disposição contemplativa para com
as forças da natureza.

Mas todos aqueles três povos diferente, cada um com sua particular religião e visão
de mundo, a muito tempo já desenvolvem suas tendências bélicas e há muito já lutam
entre si por poder uns sobre os outros. Buscam além de impor sua visão de mundo sobre
os outros, mais riquezas em forma de terras férteis, metais nobres e escravos para usar
em suas edificações como mão de obra gratuita.

2 - Era uma vez...

Esse lugar tem suas culturas, suas civilizações, e assim como em outros lugares
quando se vai contar uma estória de contos de fadas, começa-se dizendo “Era Uma
Vez...”, nos contos de fadas do mundo de Alleghoria se inicia os contos dizendo
“Debaixo de Toda Roseira Há Uma Serpente...”, pois em alguns lugares certas palavras
querem dizer coisas diversas, já que as palavras são simplesmente metáforas
condensadas, e digamos, no grau de desenvolvimento no tempo e no espaço das culturas
destes povos a frase “debaixo de toda roseira há uma serpente” ainda não se condensou
totalmente a ponto de querer dizer algo mais sintético, eles entendiam naquela frase
muitas coisas, tantas que talvez eu não conseguisse explicar e você não conseguiria
entender.

E apesar de cada povo de cada canto daquele mundo ter desenvolvido culturas
diferentes, ainda subsistia proveniente de tempos remotos, alguns fatores mentais e
culturais que provam que no passado todos os povos, agora diferentes, estiveram
ligados por um pensamento comum, uma cultura mundial. Isso se provava por muitos
fatores, mas curiosamente pela forma como ainda davam início à suas estórias
encantadas. Assim:

Debaixo de toda roseira há uma serpente...

Mas há quem entenda que debaixo de toda roseira ronronam gatos! Vai saber o que
cada um pensa que pode encontrar debaixo de uma rosa, além de espinhos! O mundo é
mesmo um ramalhete de interpretação e cada um de nós é um ponto de vista
independente em um universo paralelo que se encontram no nexo de toda observação
privilegiada que é a distância entre nossos dois olhos e os olhos de cada um.

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Infelizmente são esses mesmos fatores naturais que faz de cada ser humano um ser
especial em sua finalidade e posição no mundo é que depois, com o passar do tempo
começa a separar indivíduos, famílias, cidades, nações, povos, até que finalmente se
torne questão de honra a capacidade de dizer o que anda por ali debaixo de uma única e
neutra rosa.

Pois andam por ali debaixo mesmo de uma rosa formigas, calangos, feitiços, corações
partidos e gotas de sangue respingado, adubando o chão da rosa. Em volta e
interpenetrando, há o tempo e o espaço. Tudo que é único e belo e que se tornará um
dia questão de certeza para cada um, até que nem mais se dê importância a uma coisa
tão banal como essa.

Essa história que conto com esse começo parco é na verdade um caso bem estranho.

Queria escrever essa história com palavras novas, palavras que dissessem mais do que
as simples e comuns palavras dizem, mas se assim eu o fizesse esta história faria um
sentido primariamente só para mim, e a profundidade que eu quereria alcançar ao usar
estas palavras novas se tornaria obscura, quando não, inteligível. Pois eu a definiria só
pelo meu ponto de vista individual, e ao gerar novas palavras eu talvez quisesse tanto
fazê-la especial para todos como especial só para mim. E assim eu cairia nesse mesmo
erro crasso de separar as coisas em vez de unir.

Mas não posso me esquivar de engendrar esses erros, não sou eu que o faço, é o
próprio tempo e o próprio espaço que me abrangem.

Pois é necessário tempo dentro do tempo para que metáforas amadureçam e se tornem
palavras, mesmo quando irrigadas por um pouco de magia que paira no ar e chove com
a chuva. Mesmo que os espaços sejam arregimentados pelo pensamento que usa das
metáforas e de suas palavras condensadas para definir as coisas em certezas tácitas no
dito. Qualquer que seja minha intenção nisso, eu lhes garanto, só quero encher de beleza
e poesia um espaço e um tempo que grafo aqui.

Queria fazer isso, poder dizer palavras mais abrangentes e assim novas, para poder
chegar à essência das coisas e o cerne de uma mulher em questão: Bel. Chegar ao que
importa nela, ao sentimento que ela emana, preservando assim seus aspectos únicos
com os quais os homens de qualquer parte podem lidar. Pois Bel é um ser tal, que só
merece amor e paixão, mesmo que ela seja indolente quanto a tudo isso, e apropria
realidade deste mundo de Alleghoria queira a devorar para dentro de suas concretudes.

3 - A Princesa de Altair

Bel tem uma beleza humana impar, como o têm todas as mulheres, não só pelo seu
aspecto físico, com seu corpo moreno, pequeno e exuberante, mas tem algo que soma-se
a isso, a sua personalidade que expõe naturalmente sua latente indiferença para com

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certas coisas do mundo, principalmente com aquelas coisas que queiram fazer florescer
o mal e a fealdade ao seu redor.

Esse aspecto de sua personalidade cria uma aura poderosa com a qual ela lida com o
mundo. Não que ela seja uma pessoa indiferente e alienada, muito pelo contrário, ela só
usa suas forças superiores para estar atenta não aos nós, mas aos resultados causados
pelos vínculos. Pois eles estão a cerceando em sua existência de uma forma tal que seu
ser só pode optar por um certo tanto de seriedade para se portar no mundo.

Não que Bel seja uma mulher insensível, o fato é que ela é muito sensível a tudo que
lhe rodeia, e assim como, por exemplo, a maioria dos peixes refuga qualquer contato
com o ar da atmosfera, por não ser esse seu meio ambiente, Bel refuga o mal, a
violência, certas conveniências, e também qualquer abordagem masculina que lhe
pareça interesse ou paixão desvairada.

Sendo impossível a fealdade e a ruindade penetrar na aura de Bel, ela eventualmente


atrai para si muito dessas tentativas de macula, seja na forma de homens, idéias,
acontecimentos, coisas assim. Ela é um pára-raios para captar e reunir em sua volta tais
coisas. Pois parece que, assim como os gatos escolhem para repousar lugares onde
energias ruins se acumulam para as transmutar, Bel inconscientemente muitas vezes vai
repousar seu pensamento onde pulula energias destrutivas também, para combatê-las.
Ela faz isso até de um modo natural.

Poderíamos dizer que Bel é uma espécie de metáfora de carne, osso e alma que já
amadureceu e está só a esperar a sua significância inscrita em algum livro, algum
dicionário de palavras raras, para depois inundar as bocas dos outros com a palavra
agradável e bela que ela quer dizer. Mas ela ainda espera um tempo, ela espera um
instante conclusivo para que possa então significar.

Por sua habilidade pessoal de se isolar do mundo, do mal do mundo, ela só podia ser
amada quando o pretendente de seu amor isolasse também o desejo por ela nela mesma.
Isso causa a Bel a pulsão de uma divindade erótica e angélica, força qual ela lida com
sua grande indiferença, pois ao não fazer ciência de tal poder, ela prefere relegar tal
pulsão aos tempos de espera, onde esteja preparada para manipular tal força
conscientemente.

Ela cresceu então em personalidade como uma inalcançável deusa erógena indiferente
a toda erotização. Uma bela e única rosa com a mais terrível das serpentes rastejando
sob si e com espinhos de um veneno tão forte quanto carinhosos e atraentes. Há nesse
mundo quem creia que com o veneno de seus espinhos possa-se ser feliz, há quem veja
ali o anúncio de um grande vendaval na atmosfera, e talvez sua personalidade
indiferente seja mesmo o fruto reflexivo dessas observações das outras pessoas.

Muito disso porque ela é a herdeira mais jovem e direta do poder do reino de Altair.
Apesar de não ser filha do homem que detém sobre sua cabeça a coroa daquele reino,
ela é sua sobrinha, e única filha de uma família que parece que por desígnio do tempo, e

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de casamentos entre parentes, não pode dar ao rei um descendente. Tão menos o irmão
mais velho do rei o teve. Bel é a filha do irmão mais novo do rei, e quando veio ao
mundo, desde que nasceu chamou para si toda uma responsabilidade, pelo menos no
momento presente, de ser a continuadora de sangue de sua família real de Altair, a Casa
de Arox.

Assim Bel se mostra nesses tempos no reino de Altair, e agora no auge de seus vinte e
oito anos ela é a prenda mais cobiçada, tanto quanto temida pelos pretendentes daquelas
paragens. Loucos apaixonados pela energia daquela mulher, que os amantes não sabem
se é de vida ou morte, prazer ou dor. Mas todos inconseqüentemente pagariam o preço
de seu amor e sorrindo caminhariam para a chacina gozosa aos pés da rosa e seus
venenos, se ela permitisse em um sorriso.

Mas a própria vida dessa agora mulher nascida princesa não são só rosas. Na verdade
nos últimos tempos ela vem zelando de certos espinhos que agora a incomoda bastante,
e que estão a atormentar-lhe. Essas coisas que ela atrai para transformar ou destruir.

Os problemas que afligem seu pensamento se misturam com a própria história do


reino de Altair e com toda Alleghoria. E em sua visão, toda a história das civilizações de
Alleghoria se tornou um adendo que define sua própria história pessoal, ao ponto de que
nos dias de hoje ter que se esforçar profundamente para que ela se defina, e não os olhos
dos outros.

4 - Uma breve história de Alleghoria

Desde o ponto que a história do planeta Alleghoria mereça ser contata, da época que
nos interessa até esses dias de Bel, tudo se desenrolou mais ou menos assim.

Depois que os três grandes reinos de Alleghoria se consolidaram, dominando


pequenos grupos dispersos pelas terras do planeta em torno de três poderosas culturas
que partiram de uma base social e cultural já esquecida nas noites de um tempo que se
passou, na fase desse planeta pode se notar que um cultura baseada na mística e nos
poderes mágicos é o pensamento espiritual mais antigo ali.

Essa crença foi a que dominou o pensamento de Altair. Ali nessa sociedade crenças
mágicas se uniram em torno de uma seita chamada de Lux Gnose, pois era uma fé que
se pautava na busca extáticas do sagrado e do divino presente no mundo. Ao longo de
milênios essa religião foi se esfacelando e dando origem à muitas outras seitas, mas
todas girando em torno do ponto comum da gnose e da magia.

A Lux Gnose fora o agregador histórico em torno do qual se desenvolveu a civilização


de Altair e dela derivou a visão mágica de mundo que ainda reside na mente de boa
parte desse povo na atualidade.

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Apesar de muito fracionada em seitas mágicas diversas, ainda hoje, em torno de uma
seita chamada Igreja da Luz Serena ainda se cultivam os fundamentos espirituais dessa
antiga religião de mistério. Ela é dirigida por alto-sacerdotes que são também
conhecidos como Mestres dos Magos, por causa do poder mágico que detém em seus
conhecimentos, sendo ainda temidos e respeitados como pessoas que podem influenciar
a realidade com forças que manipulam.

A Casa Real de Arox deve às seitas mágico-gnósticas seu acesso ao poder e deve
muito à Igreja da Luz Serena sua permanência firme no poder. É inclusive de
entendimento popular que a princesa Bel fora concebida graças à rituais que os magos
dessa seita procederam, coisa à qual a seita prefere não se ligar por causa do
constrangimento de que se pudessem proceder tal ato, eles dariam ao Rei Arox, e não a
seu irmão mais novo. Assim tal estória é um das muitas que a seita procede no
imaginário popular, coisas que não afirma, mas nem tampouco faz questão de
desmentir, pois o maior poder é aquele que os outros nos dá.

Mas sigamos na história do mundo de Alleghoria para entendermos a real posição que
essa seita e seus magos e magas estão nos dias de hoje.

Outra grande civilização em termos de antiguidade cultural no planeta é a de Naltra.


Tal povo se desenvolveu em volta de centros de cultos à natureza, e depois de agregar
pequenos povos à sua religião panteísta, sendo que tal fato se deu muitos séculos depois
que a civilização de Altair já estava organizada com sua cultura, o povo de Naltra
paralelamente ao seu culto à natureza se viu obrigada a desenvolver também uma
faculdade guerreira bravia e selvagem, como convinha sua própria espiritualidade.

Desta forma quando arregimentaram sua religião em volta dos deuses que
representavam fatos naturais, eles firmaram também sua naturalidade belicosa e
conquistadora.

Naqueles tempos pré-contemporâneos Naltra e Altair lançaram seus esforços


expansivos sobre a outra única grande faixa de terra ainda sem civilização.

Mas o fato daqueles povos de outras paragens afluírem sobre as terras que a cidade de
Ramanuma era o principal centro econômico e social, as invasões propiciaram que
aqueles povos se organizassem em trono da autoridade ali erigida. Assim se uniram por
necessidade sob o comando daquela cidade e puderam organizar resistência aos
invasores que vinham de todos os lados.

Como os invasores também lutavam entre si, o povo de Ramanuma pode se organizar
melhor e deram inicio à civilização de Eurosama. Um fato histórico divisor de águas e
polêmico foi o nascimento ali de uma nova religião, vindo do meio dos camponeses,
onde um pastiche religioso se organizou em torno de lendas sobre um homem que
miraculoso, que era filho do deus Sol, e que pregava o amor entre as pessoas e amor a

14
um Deus que criou a todos, as elites de Ramanuma viram que poderiam usar tal crença
para unir sua sociedade.

Acontece que o povo desta ilha era dentre os demais povos desse planeta, aqueles que
tinham uma visão mais pragmática de mundo, logo viram que os centros religiosos eram
coisas lucrativas, e por causa da ascensão financeira das elites do seu centro principal,
logo seu pensamento religioso se disseminou, sendo de novo agregado por causa das
invasões e o surgimento de uma fé popular foi o ponto de união para o reavivamento da
espiritualidade naquelas terras de um povo que pensava mais em desfrutar da vida do
que cultuar deuses.

Com o passar do tempo todos esses povos foram se organizando, desenvolvendo suas
culturas, seus sistemas sociais, exércitos e logo três grandes forças dividiam o domínio
do planeta. Houve um período de séculos onde as lutas foram intensas e terríveis, mas
logo as elites de cada reino viram que era melhor proceder a luta de uma forma
diferente, já que a luta por poder internas estava se tornando maior do que as ameaças
exteriores.

Em períodos mais recentes as guerras na periferia dos reinos eram intensas, lutavam
por ilhas mínimas, mas a troca de pensamento era algo tolerado. Com as comissões de
diálogo entre os povos, junto aos mandatários ou dignitários de cada reino aos pouco foi
entrando em cada reino também os missionários das crenças distantes, e barganhavam
com certa liberdade a conquista de almas e não mais de riquezas.

Todas essas lutas históricas ficaram marcadas na memória de todos os povos, e agora
como seus governantes preferiam fazer negócios, cabia à elites ainda lutar
ideologicamente, o campo de batalha era a alma dos homens.

Há cerca de uns duzentos anos se deu a última grande guerra entre esses povos.
Aconteceu nessa altura que Eurosama estava com grande poder econômico
estabelecido, e os reis de Altair e Naltra conseguiram remendar um acordo militar e os
exércitos de ambas os reinos abateram o poderia e a soberba de Ramanuma em uma
terrível guerra. Destruida financeiramente e militarmente a terceira força, se achava que
era questão de tempo que Altair e Naltra voltassem a se agredir, mas o impacto social da
derrocada de Ramanuma foi tamanho e as perdas humanas e todos os lados grandes que
os vencedores costuraram mais um acordo, um laço de sangue.

Acordaram que tão logo se reorganizassem economicamente e socialmente seria


estabelecidos laços de sangue entre os regentes dos reinos.

Mas em Altair os esforços de guerra derrubaram também a antiga Casa Real, e a


família de Arox ascendeu ao poder. Querendo manter a paz e se fortalecer a promessa
de união foi mantida, tão logo aquela Casa Real instalasse no mundo seus herdeiros, o
que demorou a acontecer.

Naltra se folgou em seu ímpeto isolacionista e tornou as forças para a reconstrução de


seu a sociedade e cultura enquanto aguardava Altair também se organizar.

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Mas algo que nenhum deles esperava fosse que a religião dominante em Eurosama se
espalhasse pelo mundo. Aquela mesma religião que tinha como fundador um camponês
erigido à condição de Deus e que tinha como símbolo sagrado uma árvore, que era onde
o fundador fora pendurado, martirizado e morto, e ressuscitou depois de morto, como
diziam suas lendas. Essa mesma religião que pregava o amor entre os homens agora se
espalhava e conquistava adeptos.

Logo a religião dos que foram vencidos militarmente se tornou uma força mundial e
com o tempo, dois séculos, já era uma força dentro do reino dos vencedores. Como tal
religião era uma crença de paz e grande aceitação popular, a perseguição a seus adeptos
foi passageira, e logo os reis vencedores viram nela uma força que poderiam usar para
continuarem a se servir do povo através de seus sacerdotes, ávidos por reverência e
poder também.

De forma sucinta é assim que chegamos aos tempos atuais nesse mundo, e a condição
em que a princesa Bel está jogado, pois se de um lado ela é uma peça no jogo de união
entre Altair e Naltra, pela promessa de laços familiares ancestrais entre as famílias reais
de cada reino, foi permitido pela Casa Real de Arox que ela fosse cortejada pelos
príncipes sacerdotes da religião da árvores, o Vorismo, pois seus sacerdotes detinham já
uma grande influência espiritual e financeira dentro do reino de Altair.

Em torno da princesa girava então a responsabilidade de um dia assumir os laços com


um desses dois poderes, para que Altair, a civilização com uma cultura mais antiga
neste mundo continuasse sua proeminência sobre todo o mundo.

Poderia-se dizer sem palavras novas, que entorno dela giravam grandes interesses de
poder nesse mundo. Esperava-se não dela, mas das decisões de bastidores, que seu
destino contasse a decisão de toda a história recente deste mundo.

E é desse ponto que passamos a acompanhar o desenrolar da História de Alleghoria.

5 - Lutando pela posse da realidade

A vida de Bel e Bogomil se cruzaram definitivamente em uma ocasião desfavorável


no tempo para aquilo que o mago acreditava e defendia como um acólito iniciado na
Igreja da Luz Serena. Não fosse aquele o momento há dois anos em que Bogomil
conhecera pessoalmente a princesa Bel, toda aquela ocasião seria de uma completa
decepção para ele.

Naquela ocasião o recém iniciado Bogomil e a princesa Bel de Altair comparecem,


cada um em suas devidas funções a um evento promovido pelo Centro de Cultura Real
do Reino de Altair, que tinha por iniciativa fomentar debates filosóficos públicos em
torno de assuntos de interesse cultural e social em Altair.

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Neste evento em particular o Centro de Cultura Real visou reunir lideres das
principais correntes espirituais do planeta Alleghoria para debaterem sobre sua visão
particular a respeito do tema “O Tempo”.

As principais designações religiosas atuantes no reino sempre viam essas


oportunidades de debate para afirmarem publicamente seus respectivos credos, e de uma
forma ou de outra, imputarem intelectualmente e teologicamente a superioridade de sua
interpretação da realidade sobre as outras crenças.

Era dessa forma ultimamente que as seitas se insultavam umas às outras, através de
bons argumentos filosóficos pautados em sua visão de mundo e depreciando
inteligentemente em uns casos, e dogmaticamente em outros, as igrejas, principalmente
as dos credos estrangeiros.

Aconteceu naquela oportunidade que um mago-sacerdote da Igreja da Luz Serena e


um sacerdote-pastor da Igreja Vorista, essas duas as seitas que agregavam mais
influência no reino, iriam debater juntamente com um sacerdote do reino de Naltra à
respeito do Tempo.

O debate teve grande audiência, pois era a primeira vez na história que se reuniam
representantes das três maiores crenças de Alleghoria para debaterem sobre um assunto
específico e interessante. Até aquele dia nunca pessoas com visão da realidade tão
diferentes tinham se reunido em uma ocasião formal sob a chancela de uma Casa Real, e
apesar de em outras oportunidades, clérigos, cientistas e intelectuais leigos terem se
reunidos naquele fórum para discutir sobre assuntos diversos relativos à conceitos como
Amor, Sofrimento, Amizade, Saúde, Felicidade, Ética, Poesia, Ciência, e afins, naquele
assunto em especial, o Tempo, parecia que altas instâncias influentes na cultura e
sociedade nesta época queriam impor sua opinião particular, e talvez só por isso foi
possível reunir as três linhas de espiritualidade ali enfim.

Aquele tema em questão sempre fora motivo de muita especulação teológica e popular
no mundo por motivos que veremos, e quando Centro de Cultura o sugeriu por isso
mesmo, havia certa inferência que nos bastidores as igrejas mágicas de Altair e a
principal religião em expansão do mundo manipularam as peças para se verem frente a
frente debatendo tal tema.

Os relatórios de anotações finais sobre o que ali se debateu podem agora atestar tal
particularidade concernente aos motivos que cada um teve para aceitar comparecer ali
então. A princípio cada parte tinha consigo seus motivos particulares para irem debater
sobre um assunto tão caro na mente da humanidade, os clérigos tinham estratégias.

Faz parte da crença mundial desde a antiguidade distante em Alleghoria que o Tempo
se dividia em três estágios diferentes, pelos quais passam o mundo e a humanidade que
existem dentro dos limites temporais cíclico, e o Tempo trás consigo uma influência que
define materialmente e historicamente todas as coisas.

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Assim era da cultura mundial dessa humanidade a concepção de que existiam três
disposições temporais às quais chamavam Aion, Meon e Zion, cada um destes termos
nomeando um Era de Tempo característica.

O Aion designava uma Era onde o bem e a justiça imperavam no mundo, podia-se
dizer que tudo era perfeito e a relação entre os seres humanos e nações era de paz, assim
como para com a natureza. Nessa época existia uma só espiritualidade dirigindo todas as
consciências, e no Aion é como se o Divino pisasse no mundo.

No Meon, que na verdade se distinguia em dois momentos no ciclo temporal das Eras
designava o período de tempo onde a humanidade estava voltada a um esforço para
preservar ou reconstruir os tempos do Aion que passou naturalmente. Nesta época
necessitaria aprender a Sabedoria de outras pessoas, assim surgiria também as relações
de poder e a comunhão necessária com a natureza como imanência divina neste mundo.

Esta Era se distinguia, entretanto, em um Meon descendente e um Meon ascendente.


O primeiro era a Era que provinha depois do Aion, o segundo era a Era que avança de
volta ao Aion. Na visão de Tempo de Alleghoria eles representavam filosoficamente e
espiritualmente a mesma situação da humanidade no definido período de tempo.

O Zion é a Era em que tudo se degrada, as relações entre as pessoas, os povos e as


crenças, degrada-se inclusive a relação do indivíduo consigo mesmo e com relação ao
divino. Guerras, assassinatos, desrespeito, sofrimento é o comum nessa Era onde tudo
se divide e se dispersa.

O Zion se estabelece justamente entre os dois períodos de Meon, sendo o Zion que
define em qual Meon a humanidade passa a viver, pois ele marco no ciclo do tempo o
momento de retorno aos ideais maiores que uma humanidade possa ter conservado.

Eram todas essas Eras momentos necessários e naturais para o ser humano se
desenvolver em aprendizado e sabedoria em relação à Eternidade dos ciclos que sempre
retornam.

Assim como dias, lunações e estações da natureza modificam mas sempre retornam, a
humanidade de Alleghoria acreditava desde sempre que eles ascendiam e decaiam
dentro das Eras, de acordo com a própria natureza do universos edificado assim pelos
motivos inescrutáveis do Poder Superior.

Do Aion ao Meon descendente. do Meon ao Zion, do Zion ao Meon ascendente, e


desse Meon ao Aion novamente, eternamente. Reinos, filosofias, civilizações, religiões,
pessoas vão se sucedendo nas Eras de acordo com a matriz do Tempo em vigor, que
permite à cada época e seus seres ali estabelecidos a compreenderem, de forma
concernente com a matriz, o próprio tempo e a realidade de todas as coisas da vida.
Assim a mente da humanidade se vê no mundo de Alleghoria e no Granatmos.

E foi dentro desses parâmetros universais de concepção do Tempo que os


representantes das três grandes crenças do mundo partiram para debater ferrenhamente

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sobre o Tempo, e o ser humano em relação à ele, e principalmente, qual era a visão de
mundo que cada crença podia discernir a partir disso.

Naquele dia então, pela primeira vez, eles debateram entre si sobre o Tempo, e
justificaram a partir dele suas próprias crenças e autoridade sobre o mundo.

De acordo com a espiritualidade da natureza de Naltra, seu sacerdote começou


defendendo dando o tom do debate, que a humanidade de Alleghoria vivia nesse
momento no meio do Meon, se era descendente ou ascendente não fazia diferença para
ele, pois aquela extensão imensa de tempo resultaria ao final na certeza que a natureza
seria o fator aos quais os seres humanos deviam se voltar para alcançar a felicidade,
qualquer que fosse a Era seguinte.

Pois era assim que o povo de Naltra procedia no mundo, fiéis ao seu culto das forças
da natureza, que lhes retribuía a fidelidade fazendo-os prosperar como civilização e em
força material e cultural em disposição harmônica com o mundo natural.

Aquelas idéias dispostas diante de uma platéia onde não havia nenhum adepto daquela
religião natural foi logo relevada pela falta de interesse de todos. E o sacerdote de Naltra
passou logo de orador à espectador enquanto o debate foi seguindo.

O representante do Vorismo entrou em cena na sua vez quando o presbitério foi logo
dizendo que divergia do pensamento da religião natural. A posição da nova crença era a
de que eles eram os anunciadores para o mundo de uma revelação de seu próprio deus
para todos os homens.

Esse deus que chamavam apenas de Deus, pois era o único que existia, a qual
prestavam culto e se encarnou no mundo na figura de seu fundador, o Senhor Deusus,
que veio para anunciar que a humanidade estava para entrar em um Aion eterno, onde
encontraria definitivamente a felicidade e a paz.

O sacerdote declarou que era questão de pouco tempo que o Reino de Deus se
estabelecesse no mundo e graças aos voristas que o propagam e convertiam as almas,
seria feito logo justiça aos infiéis e seus perseguidores, e com choro e ranger de dentes
de seus inimigos, que seriam então jogados em um Zion eterno de sofrimento, uma
Alleghoria de justiça seria estabelecida para sempre e ao morrerem os crentes
ressurgiriam na Eternidade para ficarem juntas de Deus e seu Filho.

As reflexões expostas pelo sacerdote do Vorismo causaram grande comoção e


reboliço na platéia, pois metade dela era preenchida por seus acólitos e a outra por
crentes das demais seitas mágicas naturais de Altair.

Mas a surpresa dessa audiência seria maior ainda quando finalmente o mago da Luz
Serena começasse sua exposição inicial com a visão oficial que a seita tinha a respeito
daquele tema.

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O espanto maior foi porque até então o povo de Altair nunca vira exposto tão
firmemente em público que os tempos que se abatiam sobre o mundo era justamente o
fim do Meon descendente e que a humanidade rumava para o Zion.

Aquela questão nunca fora um ponto muito relevante para a seita e sua pregação em
seus templos porque eles raciocinavam que independente dos tempos, o que valia para
os seres humanos era estar claro sobre a origem do mundo, sendo o Tempo algo de
segunda importância na filosofia espiritual da seita, o que importava era a consciência
no Tempo, e não o Tempo da consciência, pois assim a alteridade poderia conduzir
dentro de qualquer situação a Chama Dupla da Gnose, lutando eternamente contra a
ignorância.

Mas ao aceitarem participar daquele debate eles visavam atacar no cerne do


entendimento popular a crença nova, usando visão das Eras para detratar tal religião,
como bem fizeram caber, mas para sua infelicidade própria.

O mago esclareceu que o surgimento no mundo de religiões como o Vorismo era a


maior prova que o mundo adentrava no Zion de trevas, seu sucesso na sociedade
apontava o grau de atrofia mental pela qual as pessoas passavam, ao aderirem tão rápido
à uma crença que exortava que cada indivíduo devia depositar nas mãos de seus lideres
a condução de seu crescimento espiritual e material, e que ao dividirem o mundo do
divino, pondo-o em um paraíso a se alcançar pela devoção incondicional e pelo
sacrifício de um homem só, eles implantavam a preguiça espiritual no mundo.

Dessa forma se delineava justamente a referida Era de Zion, onde só os escolhidos de


seu Deus tinham a proeminência para falar em seu favor e pior, falar por Ele. Tudo
aquilo o povo já sabia, pois era do entendimento popular que no Zion tudo se inverteria,
falariam em divisão para unir, falariam em punição eterna como preceito para paz
eterna, falar-se-ia do mal para invocar-se o bem, então tudo iria só piorar, as guerras
aumentarem, os sofrimentos multiplicarem-se por motivos banais, e o mundo
mergulharia cada vez mais em um Zion de promiscuidade moral em nome de uma ética
impossível.

Mas o que era para ser um crítica contundente e definitiva à crença nova tão bem
argumentada dentro do que todos até então assimilavam como verdade do mundo fez
efeito contrário. Logo se pode ver que as pessoas não gostavam de acalentar a idéia que
o mundo iria piorar ainda. Um breve período de progresso temporal era o suficiente para
achar-se uma brecha para conceitos antigos serem distorcidos com promessas apenas.

E o pior era que metade daquela audiência ali não concordava veementemente com
aquela visão da realidade e começava a se aventar vaias contra o mago que argumentava
radicalmente contra suas esperanças e experiências de vida cheias de submissão e
esforço material em uma fé que professava amor, e amor de Deus pelos seres que criara,
pelo menos era esse o discurso que logo se pôs em debate em seguida.

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O resultado do debate que se seguiu dali em diante foi funesto para o mago, pois
entraram em jogos argumentos de poder e dogma com os quais não se tinha condição de
debater. Tais conceitos eram usados para insuflar mais esperanças vãs contra opiniões
realistas, essas coisas ditas todas à pessoas que já estavam cansadas de ver tanta
desgraça.

Assim o resultado final que pode se entender foi que se uma fé prometia realização em
vida dos anseios pessoais e na morte prometia um encontro com Deus, isso era bem
melhor e mais aceitável do que outras que prometiam um mundo igual ou tempos piores
ainda.

O Vorismo saiu fortalecido popularmente daquele debate mais do que pretendia,


mesmo sem dar nenhuma prova de que o Aion adivinha. Aliás, ali na argumentação seu
prelado inverteu tudo e no momento do debate viu que era a hora de dar o golpe final
naquela visão do Tempo, anunciando mesmo que na visão do Vorismo e pela sua
concepção da divindade o Tempo era linear e não cíclico.

O mago da Luz Serena já combalido e premunindo como seus argumentos eram


atacados, pois fora naqueles momentos aventado em voz alta pelo clérigo do Vorismo
que de acordo com o que o mago defendia implicava indiretamente que os próprios
governos temporais, os reis e a nobreza participavam com suas decisões para
implantarem definitivamente os tempos do Zion, eles desrespeitavam frontalmente a
visão do Vorismo de que todo rei só o era por decisão do próprio Deus que distribuía o
poder no mundo.

Aquele golpe fora o mais sério e constrangedor, e o debatedor se recolheu em um


silêncio providencial quando humildemente o sacerdote vorista argumentou que aquilo
era possível apenas porque o argumentador contrario caia em erro ao levar em conta
aquela visão do tempo, não podendo culpar ninguém por pensar assim, já que
historicamente aquela visão de Tempo e Eras fora algo que circulava antes das
revelações que o Senhor Deusus trouxera por amor à humanidade.

Já constrangido em muitas implicações o mago agradeceu mentalmente o vorista por


panos quentes hipocritamente na situação. O mago se recolheu então esperando um
momento melhor ou acreditando no poder de discernimento das pessoas e acalentando a
esperança que aquele debate não repercutisse no reino.

Mas ali mesmo naquele debate diante de uma audiência pequena em comparação a
toda população do reino, estava definitivamente instalada uma distensão crucial na
história do planeta Alleghoria, estava se começando a propagar uma nova filosofia do
Tempo no mundo.

Tal idéia estava germinando nessa época, mas quem quer que entendesse um pouco
mais profundamente o que fora dito ali, e os magos da Luz Serena presentes entendiam
plenamente, e entre eles Bogomil, todos puderam ver que o Vorismo tendia a jogar por
terra tudo que aquela humanidade acreditava até então, e ao se começar pela concepção

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do Tempo, logo eles dividiram a história entre antes e depois deles, se tornando então a
referência temporal fundamental na mente de todos.

Até então ninguém se arrogava a controlar o Tempo, a humanidade apenas permitia-


se viver dentro dele ciclicamente, como tudo na natureza, mas agora os seres humanos
poderiam pensar em coisas fora dele. Se a crença mágico-gnóstica permitia-se pensar
que os indivíduos poderiam com seu esforço pessoal alçar chegar à Eternidade, mas
nunca ao fundamento da Eternidade, agora surgiam pessoas que diziam que o mundo
acabaria um dia e duas eternidades, como pode, seriam implantadas, uma em Deus para
seus fiéis, outra na danação para seus infiéis.

A mensagem mais forte que ficou daquele debate sobre o Tempo promovido pelo
Centro de Cultura Real de Altair foi que agora o Deus esperava a humanidade em um
ponto do futuro, enquanto seus fieis promoviam uma limpeza espiritual dentro do
presente de Alleghoria, e o passado era toda uma superstição cíclica que o Deus propôs
sanar em um momento do tempo linear.

6 - Como se apossar da real idade

Ao fim daquele debate a sagaz princesa Bel de Altair pode vislumbrar o


desacossoamento no olhar do mago auxiliar do debatedor da Igreja da Luz Serena. Ela
se aproximou de Bogomil então para poder passar por ele e cumprimentar o mago e
alto-sacerdote que defendera a posição da Igreja da Luz Serena na questão do Tempo,
mas se deteve observando aquele olhar de quem parecia ter tido uma paixão refutada
pela incongruência e pela ignorância alheia.

Ele tomou um choque ao se deparar cara a cara com a princesa, ao que então esforçou-
se em uma vênia como a situação exigia, deixando desajeitadamente algumas folhas de
papel caírem no chão. Ao reverenciar a princesa ele foi logo cortado pela informalidade
do sorriso que ela esboçou para ele.

- Erga a cabeça mago, parece que vamos precisar de agora em diante! - foi o que ela
lhe disse graciosamente, se referindo com a cabeça apontada na direção em que o
sacerdote vorista recebia efusivos cumprimentos das pessoas.

Em seguida a própria princesa se abaixo para apanhar no chão algumas folhas de


papel que o mago deixara cair dos braços ao lhe cumprimentar. Eram papeis com
anotações que tomara do debate, mas tinha algo mais ali no meio.

Bel concentrou sua atenção em uma folha em especial que continha um poema escrito
pelo mago ali mesmo, naqueles momentos finais do debate.

- Posso? - perguntou-lhe Bel, indagando se ele permitia que ela lesse a composição, ao
que o mago assentiu timidamente.

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- São apenas umas reflexões... - disse e logo calando-se para deixar a princesa ler em
paz.

Na folha estava escrito um poema cujo titulo o mago dera “Como Se Apossar da Real
Idade”. Estava escrito:

O Tempo sai de dentro


do peito dos homens que surgem & vão
Nós somos Aion & Meon & Zion
Lembrança, anseio, dureza
A Eternidade está em nós mesmos

O Tempo me recebe
sem bem nem mal
Eu sou aquele que passa
Memória, desejo, existência
Não preciso me preocupar
em voltar ao Verdadeiro Deus

Ele não está no Tempo


Ele não está no Espaço
Apenas seus reflexos
que somos todos nós, seus filhos

O Tempo mesmo existe


apenas para nos ensinar a Amar.

A princesa leu o poema, correndo os olhos pela folha de papel rebuscada, depois a
devolveu ao mago e perguntou:

- Quer dizer que a morte existe para aprendermos a amar?

- Assim parece ao poeta princesa. - respondeu ele.

- Me chame de Bel. Qual o nome do poeta?

- Bogomil, senhorita. - disse ele.

- Nada de senhorita ou senhora, por favor, Bogomil. - o mago respondeu sorrindo que
entendera definitivamente.

- E como fica nisso tudo Bogomil, nessa história dentro do Tempo, aprendendo a amar
com a morte, a questão da saudade? - ela perguntou. - Porque se afinal a Eternidade
quer nos ensinar a amar usando o Tempo, devia nos precaver de suas conseqüências
colaterais!

- A saudade Bel, começa mesmo antes da separação... - disse Bogomil fitando os


olhos negros da princesa, e emendou com audácia: - Começa mesmo antes do encontro.

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A princesa ficou pensativa, raciocinando e por fim retrucou:

- É! Parece que somos seres maravilhosamente imperfeitos.

- Temos apenas nossos erros para aprendermos com eles, e somos seres viciados em
amor! - retorquiu o mago poeta, pegando a princesa de surpresa.

Passou pela mente de Bel em indisposição com aquele “apenas viciados” os assédios
que ela vivia nos últimos tempos com alguns pretendentes que ela considerava
indigestos, aos quais Bel agia com indolência e bom humor para mascarar seu desprezo.
Quis ela argumentar em voz alta que parecia-lhe então que ela ainda não contraíra o
vício, mas preferiu ficar calada e não expor um assunto tão particular àquele estranho.

Bogomil percebendo o recolhimento de Bel, e vendo que ia se findar aquela curta mas
prazerosa e inesperada conversa, no intuito de prolongar esta mínima eternidade ainda
falou:

- Mas veja Bel, eu estou falando de a-mor! - disse assim, frisando separar as silabas da
palavra para explicar na sequência: - Estou falando de tudo que não comporta a-mor-te,
o verdadeiro amor que vivifica.

Bel olhava-o profundamente fazendo menção que compreendera o jogo semântico,


porém ela estava achando que tal diálogo estava tomando um rumo intimo demais,
mesmo que tivesse sido ela mesma que derrubara as barreiras que pudesse comportar
um respeito maior por parte do mago.

Desviando o foco de sua atenção de Bogomil para o mago-sacerdote palestrante que


agora se posicionara alguns metros atrás dele, a princesa pediu licença ao mago recém-
conhecido e foi cumprimentar o seu sacerdote superior então.

Bogomil abriu passagem, mas ficou pensando enquanto observava Bel conversar com
o sacerdote o que poderia causar saudade nela, por que aquilo seria importante para
princesa, se ela não estivesse apenas puxando conversa. Pois afinal qualquer um poderia
pensar que alguém como ela, que tinha tudo para ter uma vida perfeita, não tivesse
preocupações desse tipo. Mas interpolar sobre aquilo já demonstrava para Bogomil que
a princesa era de ponderações mais essenciais que a futilidade que poderia acudir na
vida de uma pessoa nascida em berço de ouro.

O que ele não podia saber era que Bel, ao ouvir com atenção todo aquele debate, foi
criando dentro de si o sentimento de uma saudade ancestral, saudade de um mundo que
nunca viu mas que lhe era saudoso nas menções de justiça e paz do Aion.

Se por um lado os argumentos do mago debatedor causaram furor e indignação na


audiência, ela se recolheu em saudade para com isto ponderar sobre o Zion que se
anunciava no futuro próximo, como fora argumentado. Sua saudade então seria uma
força para atravessar esse mundo degradado, mas chamou de saudade justamente para
não confundir com esperança, uma idéia que parecia-lhe muito pueril e vã.

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Quando na sequência ela lera a poesia de Bogomil, se sentiu mentalmente submetida à
um anticlímax de todo aquele debate nebuloso. A relação proposta no poema furtado do
mago entre tempo/morte - amor/vida a jogou de volta para a realidade, para o presente
onde saudade nenhuma seria uma força suficiente para sustentar qualquer luta com o
mundo, muito menos ainda esperanças, mas que era o próprio ser humano o ente que
deveria se estabelecer e reconhecer sua degradação junto com as Eras mesmas e fazer
com que o sentimento de “amor” tão depreciado por ela, que via nisso apenas paixões
materiais e suas dores.

Quando ela interpolara ao poeta por uma proteção as consequências da morte e da


separação ela queria, aí sim, ser atendida em vênias à sua realeza que exigia no caso,
para que a saudade fosse mais um distanciamento da realidade, como ela bem sabia
afastar o que lhe incomodava com sua frieza angelical contundente.

Mas aquela conversa terminara assim, sem as suas implicações profundas serem
ditas, terminou na vaga que comporta uma eternidade onde se há muitas coisas a dizer.

Ali Bogomil pode perceber como ela era mesmo especial, como rezava a lenda de seu
caráter que já se espalhava pelo reino. Ele pode ver que ela era uma pessoa
comprometida com as crenças de sua terra, e mesmo diante da intriga de poder que fora
exposta naquele debate, a princesa não se fizera de ofendida, pois tinha sede de
conhecimento, como daquela época em diante expôs passando a se aproximar mais
ainda da Igreja da Luz Serena e assim de Bogomil.

Bel era uma pessoa envolvida pelo seu tempo, e não teve roubada sua fé auto-
centrada, mesmo quando estrangeiros vieram lhes roubar o Tempo.

Naquele momento Bogomil se apaixonou pela princesa, e Bel ficara conhecendo o


mago, do qual depois foi fácil de se aproximar quando ela passou a freqüentar mais
assiduamente os cursos de filosofia da Luz Serena.

Aquele assunto porém, de Tempo, Morte e Amor, seria misticamente a tona da relação
daquelas duas pessoas lançadas em suas existências próprias, até que um dia, sabe-se lá
quando, os paradoxos do tempo influíssem em suas vidas novos vislumbres mais
acertados da realidade, para que eles se tornassem quem efetivamente a Eternidade
desejava que fossem.

Paradoxalmente assim, só o Tempo diria o que a Intemporalidade almejava, o lugar de


cada um deles na sua Era real.

7 - Bel, a jóia negra de Altair

A princesa Bel mal intuía, mas já partira em uma jornada que visava o confronto com
a sua realidade.

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O que ela bem intuía era que fora dado a permissão superior, por parte de sua família,
para que ela fosse disputada sutilmente em diversas instâncias do reino. Ela recebia a
corte de proeminentes sacerdotes da crença nova, como assim era chamado o Vorismo
de Eurosama que fazia carreira agora em Altair. Ela era também cobiçada por príncipes
de além mar do reino de Naltra, e por diversas vezes viajara com comissões culturais à
Numaré, onde pode receber a atenção dos príncipes reais daquelas paragens.

Entretanto para a realeza de Naltra a princesa morena de Altair não era tanto uma
prenda de poder, graças ao tempo que se passou no acordo entre aquelas nações. O fato
de ser a única princesa de Altair era quase irrelevante, pois os governantes de Naltra
estavam nesses tempos dedicados ao seu próprio mundinho fechado, ali ela era cobiçada
por ser bela em demasia, e qualquer condição de poder que ela pudesse representar era
subvalorizado por estar distante de se tornar efetivamente rainha um dia.

Mas para os sacerdotes da nova crença ela era além de um belo pedaço de carne, uma
chance dessa religião se instalar de vez no poder temporal daquele reino. E a troca era
muito bem vista pela Casa de Arox, mediante tal religião pagar seu tributo em respeito e
servidão aos seus reis.

A cabeça de Bel era atormentada brevemente por essas questões de poder real. Há
muito tempo já lhe havia sido passado que devia deixa de lado as questões dos homens,
pois o que eles decidissem nas esferas superiores, ela pouco poderia fazer para mudar,
então que relaxasse quanto ao seu futuro matrimonial.

Quanto a isso ela voltava sua orquestrada e já natural indiferença, de tanto usada. Ela
decidiu que muito provavelmente não podendo escolher seu parceiro de vida, ela pelo
menos poderia espantar-lhes o máximo possível, deixando que sofressem e brigassem
longe dela.

E como se calculasse uma resposta indireta à todos, ela era muito afeita às crenças
naturais de Altair, e chegara até insinuar nas rodas da alta sociedade do reino que um
pretendente tal seu devia a acompanhar nos cultos de sua fé, à qual se sentia mais
próxima da Igreja da Luz Serena, à qual frequentava as celebrações sempre que podia e
cursava regularmente suas aulas de teologia e filosofia.

Mas era outra coisa que preocupava demais a mente de Bel naqueles dias no reino de
Altair. E não era como forma de afastar sua consciência dos problemas concernentes à
si que vinha da corte, era porque em seu âmago a questão realmente lhe interessava.

Acontece que naqueles dias no reino de Altair acontecia o julgamento de um homem,


o qual a maioria das pessoas, digamos do jugo popular, tinham a certeza de ele ter
assassinado uma mulher, e o fato de que aquele homem terrível pudesse ser inocentado
remoia o âmago de Bel de uma forma tão intensa que ela estava obcecada por justiça no
caso.

26
O fato era que Bel, assim como o povo do reino tinham a certeza da culpa do acusado,
mas não havia provas materiais o suficiente que lhe incriminasse, e isso a adoecia
intensamente por dentro.

Desde pequena Bel foi educada para ter a mente aberta para com o mundo, para que
um dia se ela viesse a reinar sobre as terras de Altair, ela fosse pelo menos uma rainha
instruída, assim enquanto crescia teve contato com todas as instâncias que compunha
aquilo que construiu ao longo do tempo aquele reino, suas instituições sociais, as
organizações que dividiam o poder de educar e nutrir a mente daquele povo, e as
instâncias mais influentes no seio da sociedade eram as de caráter espiritual, depois da
própria realeza que participava.

Do contato dela então com os princípios espirituais norteadores da cultura ali ela tirara
um pouco de sua visão de mundo, e onde o caso daquele assassinato insidia era
justamente no meio de suas convicções espirituais mais profundas aprendidas.

Não obstante o fato de guerras terem varrido a história passada recente de seu povo e
de todo o mundo, agora ela começava a ver instalada no seio da própria sociedade uma
outra guerra, onde os homens se davam a liberdade de assassinarem-se a si mesmos uns
aos outros, e lhe incomodava que a agressão e a matança no meio social de crianças e
mulheres se tornassem tão comuns.

No seu tempo de estudo Bel nutrira afeição pela antiga uma seita da Luz Serena que
ensinava em seu cerne sobre uma fonte de poder humana transcendental conhecida
como a “Luz Serena”, o que era ensinado como sendo a fonte de energias masculinas e
femininas dispostas no granatmos, sua forma de se referir ao universo.

Nesse ensino sobre a “Luz Serena” ela aprendera que o respeito entre homens e
mulheres devia ser sempre mantido, para que a Luz Serena continuasse a fluir do
Sagrado para os seres humanos, e o fato de os seres humanos se matarem, e
principalmente o fato de homens assassinarem tantas mulheres, lhe provava que certos
fatores ancestrais de desequilíbrio ainda persistiam. Assim lutar por justiça, e
principalmente em um caso em especial, era lutar para manter o equilíbrio da Luz
Serena nos seres humanos.

Na verdade Bel tinha o dever de freqüentar todos os credos religiosos do reino, na


medida do possível, mas a amizade por um iniciado da Luz Serena, desenvolvido nos
últimos anos quando Bel freqüentava as aulas e as explanações públicas para debate e
divulgação do pensamento dos credos atuantes no reino, fez ela se afeiçoar mais pelos
ensinos daquela crença em especial cada vez mais profundamente.

Esse homem em si não tinha nada de especial além de ser uma pessoa incessível e ela
não tinha nenhum interesse secundário pelo homem, ele era a pessoa com quem podia
debater particularmente sobre as idéias da seita, recebendo orientação amistosa e não
oficial da filosofia da seita. Era só isso para ela, um amigo.

Esse iniciado tinha por nome Bogomil.

27
8 - Um Mago da Luz Serena

Na sombra de todo homem pulsa uma alma feminina para que ele viva, ou morra.

A maior sombra de qualquer homem está no seu interior. E o mundo interior de


qualquer homem é um campo de batalha entre a vida e a morte. Entre luzes, sombras e
reflexos de ambos.

Bogomil era um iniciado na Igreja da Luz Serena, um dos muitos aspirantes a Mestre
dos Magos que habitavam Altair. Mas efetivamente ele poderia se denominado como
um “sacerdote menor” e sem nenhuma influência na seita da qual fazia parte, apenas
passava como um bom aluno nas doutrinas formatórias dentro da seita. Na verdade ele
era um iniciado nos conhecimentos internos, mas tinha propensões leigas, por isso não
galgava ambições de ser um alto-sacerdote, e se aproximar de Bel lhe dera outras
ambições mais, digamos, de caráter familiar, apesar de ter plena consciência das
condições sociais que o separam.

A antiga seita gnóstica da Luz Serena tinha um pequeno e fiel número de adeptos
internos, estava entre a maiores religiões do reino, mas como uma seita discreta, apesar
de muito respeitada pela sua grande sabedoria em lidar com os fatos mundanos e os
divinos, seus trabalhos externos eram sempre conduzidos pelos seus Alto-sacerdotes
que eram em número suficiente para as exigências sociais do mundo. Não eram
proselitista, pois ao longo da história nunca precisaram dessa ferramenta para atrair
fiéis, até esses dias onde novas crenças estrangeiras penetravam furiosamente no reino
de Altair.

Como uma seita de caráter gnóstica, isso queria dizer que a Luz Serena zelava por um
conhecimento espiritual que ensinava que o mundo era criação de poderosos seres
malévolos, os quais criaram as coisas para terem o prazer de reinar sobre elas. Porém,
reza os livros da seita, que um ser feminino chamada Xokmah possibilitou que este
mundo de escravidão e sofrimento fosse penetrado na consciências dos seres humanos
por um tipo especial de Luz, essa luz denominada Luz Serena pela seita era a que
permitia a capacidade de superação de cada pessoa rumo a se libertar das agruras deste
mundo, através da sabedoria e da magia, podendo lidar com a realidade de forma
independente.

A Luz Serena pregava que cada homem e cada mulher tinham, graças a Luz Serena de
Xokmah, a capacidade espiritual de conduzir suas existências de modo tal que os
Arkontes, os criadores do mundo, não pudessem influir mais em seu destino. Assim,
quando morressem, as pessoas iriam diretas para junto da Xokmah e ela os conduziria
ao Verdadeiro Deus, onde finalmente descansariam todos e um dia julgariam os
próprios Arkontes e seu líder Doogheh, o imitador do Verdadeiro Deus.

Como sacerdote temporário e crente, cabia a Bogomil seguir e servir aos preceitos de
sua doutrina, e a doutrina da Luz Serena era bem efusiva, eles acreditavam

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principalmente na força da beleza das coisas e no poder da poesia para criar um estado
de consciência paralela que isolasse do julgo dos Arkontes, pois eles mesmos eram
cegos às belezas que criaram ou copiaram de uma fonte eterna, sendo que tais belezas
da natureza só foram iluminadas e reconhecidas graças à luz da Xokmah.

Isso era a filosofia de vida de caráter popularesco que a seita conclamava, mas esta
Igreja estava profundamente envolvida, no âmbito de seus Alto-sacerdotes, com os
jogos de poder do reino, mas do que qualquer iniciado ou leigo pudessem supor.

A Luz Serena, seus magos, praticavam magia poderosa, e era por essa magia que eram
ainda muito respeitados, mesmo que suas doutrinas religiosas não fossem mais tão
populares junto ao povo em geral, um Mestre dos Magos ainda causava certo temor
onde estivessem, e Bogomil cursava justamente essa escola de magia paralela à escola
de sabedoria gnóstica dentro da seita.

Mas a muito tempo já crescia no seio da população religiões derivadas do pensamento


gnóstico, sincresias de todos os tipos eram encontradas, inclusive certas instâncias do
Vorismo estrangeiro já começava a incorporar conceitos da Luz Serena para atrais mais
adeptos para seus templos.

Nessas crenças sincréticas e principalmente no Vorismo os seres humanos eram


vistos simplesmente como ovelhas fracas e que só poderiam se livrar do mal pelas mãos
de seus pastores, e agradava mais a grande parte das pessoas o estupor da facilidade de
se sentirem ovelhas do que os percalços da labuta de ser seu próprio salvador, deixando
nas mãos de outros aquilo que deveriam fazer, como por exemplo fortalecer seu próprio
espírito com conhecimento e amor.

Quanto a isso, diplomaticamente, a Luz Serena tinha um ditado: “a sede e a fome não
passa se olhando passivo os outros beberem água e se fartarem de pão”. E havia
muitos homens e mulheres fartas graças à sede e a fome alheia no reino de Altair e no
mundo todo. Mas isso era visto internamente na seita com júbilo também, pois era mais
uma prova do poder dos Arkontes no mundo, aquele Deus de amor reverenciado nos
novos credos era visto pelos adeptos da Luz Serena como o próprio chefe dos Arkontes.

Os adeptos alto-iniciados da seita da Luz Serena tinham um conhecimento


impressionante de certas dimensões da realidade humana e a manipulavam para manter
um controle sobre o que lhes interessava e o compromisso pelo equilíbrio das coisas no
mundo usando de magia, mas nem toda magia do mundo é suficiente contra a
ignorância humana, por isso a seita preferiu se tornar discreta em sua atuação na
sociedade, e com isso se mantinham respeitados, mas severamente atacados pelos
credos paralelos. Além disso, o isolamento levava certos setores da seita a pensar
apenas em poder temporal, e uma certa decadência começava a vicejar ali dentro,
justamente onde devia ser mantida viva a chama da receptividade. Acontecia que seus
alto-sacerdotes dirigentes ainda contavam com a graça da família real para manter sua
influência temporal, o que gradativamente ia diminuindo, e esses velhos homens

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estavam estancados diante de um mundo que mudava profundamente na sua forma de
domínio de poder secular.

Seguindo os parâmetros da sua seita, Bogomil participava das rodas de debates


filosóficos promovidos na corte do reino e lá conheceu e se aproximou da princesa Bel,
e ela, através dele se aproximou mais da seita.

Bogomil por causa de tal abertura de Bel se apanhou então apaixonado pela princesa,
ele se tornara pouco a pouco algo que pela visão de Bel fosse uma espécie de confessor
espiritual, mas para ele aquelas oportunidades de estar com ela deveriam ser usadas para
impressioná-la até que ela se apaixonasse por ele também, afinal o mago galgava seus
trinta e três anos e era o momento de decidir pela família mágica da Luz Serena ou
formar ele sua família com uma parceira, e ambos mantivessem juntos acesa a eterna
chama do amor.

Devido a natureza melancólica de Bel, aquele plano não ia muito bem, principalmente
nos últimos tempos, quando ela parecia cada dia mais mergulhar em um estado de
introspecção funesto graças à aquele julgamento que vinha se desenrolando na Corte de
Justiça do reino.

Se por um lado Bogomil fosse até um homem normal e de compleição física boa e
uma mente aberta, a própria Bel não sentia muita atração física pelo mago, pois na sua
mente, ele era um homem que se aproximara pelos fatores do pensamento, a era em
torno daquilo que girava a atração dela por ele, só isso. Mas isso mesmo sendo para
Bogomil pouco, para Bel era muito importante, pois ela achava que poderia contar com
o aprendiz de mago para conseguir enfrentar a realidade que na frente dela se revelava.

9 - A rosa que um abutre despedaçou

Há muitos meses vinha sendo preparado o cenário para um grande julgamento na


Corte de Justiça do reino de Altair, e todo o povo esperava ansiosamente pelo
desenrolar daquele júri. Circulava nas rodas sociais o debate intenso sobre o caso, com
os defensores de cada lado expondo suas prévias idéias a respeito, entretanto no grosso
da população já se havia uma certeza, da culpa e conseqüente condenação do acusado, o
que às vezes não era a mesma coisa entendida nos círculos mais altos da sociedade.

Cerca de três anos no passado aconteceram certos fatos nebulosos onde todos viam
indícios claros de um crime. Um homem chamado Ialdo Brialdo, conde e soldado
condecorado do Exército do Rei, tinha na época um caso tórrido de paixão com uma
mulher chamada Sheila Hagia.

Era do conhecimento de todos que pouco tempo antes de ser vista constantemente
com Ialdo, Sheila levava a vida como cortesã nos salões da nobreza. Ela fazia carreira
passando de mão em mão de uma ou de outra celebridade, que logo ia dispensando ou

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sendo dispensada, tudo no intuito de uma ascensão social que era difícil aos não
membros da nobreza de Altair.

O fato é que ela era uma mulher maravilhosa, e todos os homens eram capazes de
nutrir desejo por ela, ainda mais se fosse poderoso e rico, aí se poderia tê-la facilmente,
pagando o preço.

E foi o que Ialdo fez, a possuiu. Mas a sua relação começou a azedar. A beldade tinha
seus planos paralelos também, e o que se falava era que ela estava grávida do herói e
logo exigiu matrimônio.

A vergonha do herói foi pública quando na frente dos seus pares se viu humilhado por
cogitarem que eles se casariam. Mas Sheila dera a luz a uma menina que era a cara de
Ialdo, sendo vista passeando pelos balneários do reino com o bebê, e aquilo estava
sendo bancado à custa do nobre e sua pequena fortuna.

Sheila Hagia saiu falando em todas as altas rodas do reino sobre a filha do conde. Ela
queria se tornar nobre, e diante da recusa dele ela começou a chantageá-lo e fazer
pressão pública por compensações financeiras à ela e a filha deles.

A duvidosa idoneidade do conde estava evaporando, sua condição de guerreiro herói


era apagada diante de sua nova fama de crápula e pai desnaturado.

Um dia então, Ialdo levou Sheila e sua filha para uma estância de sua propriedade nos
arredores da capital do reino junto com alguns amigos e nunca mais Sheila Hagia foi
vista em lugar nenhum. A criança apareceu dias depois nas mãos da esposa de um
amigo de Ialdo, muito doente, tinha até alguns hematomas em seu corpinho. O bebê foi
devolvido à família de Sheila debaixo de grande escândalo.

Investigações se procederam depois do desaparecimento dela, denunciada pelo


aparecimento de sua filha naquela estranha situação. Requerida pela família, a pressão
da polícia e seus investigadores fizeram com que certos envolvidos e testemunhas
começassem a falar em assassinato, mas como não havia provas nem corpo, logo
começou a ser conchavada uma conspiração.

Os envolvidos foram detidos e parecia que de dentro da prisão firmaram um pacto de


silêncio e negação elaborado. Como não havia corpo que provasse o crime, eles
coordenaram de dizer que não sabiam de nada, que Sheila havia fugido por vontade
própria para fazer a vida em um lugar distante, o mundo era grande e quem quisesse que
provasse o contrário.

A história deles não foi assimilada pela maioria da população e Ialdo iria então a
julgamento, um júri popular iria apontar se era mesmo culpado ou não, mas o que se via
era que dentro dos parâmetros da lei ele poderia ser inocentado.

Aquele não fora o único crime desse porte naquelas terras. Nos últimos anos diversos
crimes contra mulheres, crianças e pessoas simples vinham sendo intinerantemente

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praticados. E mesmo que a justiça fosse feita em alguns casos e os culpados
condenados, ficava aquele sabor de injustiça, pois nada recuperava uma vida perdida,
nada compensava a tortura praticada contra um ser mais fraco, e era isso que conturbava
principalmente a alma de Bel naqueles dias.

Ela via naquele tipo de crime a ação de uma maldade inata no coração das pessoas e
lhe matava aos poucos saber que aquele fator era difícil de ser combatido, porque para
além do agente que cometia o crime, parecia estar se instalando um espírito de
destruição na sociedade, principalmente contra os fracos, e isso era de um nível que ela
como mulher não encontrava meios para lutar contra.

Poderia acontecer a qualquer uma, acontecia sem intermediação contra a natureza,


contra os animais, e se estendia contra aqueles que julgamos nossos inimigos, os ditos
“outros”. Tudo se justificava quando o outro não era eu, assim, simples. E o outro deve
servir a meus propósitos, principalmente se sou um príncipe empossado pela vida e
pelos meus poderes. Era assim que ela via o que vinha acontecendo.

E a falta de respostas sobre o que e como fazer dilacerava Bel mais ainda. E sua
impotência se tornava uma doença em sua torturada alma.

Bel não conheceu Sheila Hagia, mas se sentia ligada a ela por muito mais além do que
só o fato de serem mulheres, por entender e achar absurda a situação de vida que Sheila
adentrou, se prostituindo para viver na corte, vendo nisso uma saída para a miséria e a
solução para as dificuldades. Não devia ser esse o caminho de nenhuma mulher, de
nenhum ser humano, reconhecia a princesa, que não tinha nenhuma experiência com a
fome do corpo, mas já tinha uma experiência com a sede da alma.

Bel se ligava a Sheila pela condição de ser mulher e de poder se tornar objeto dos
jogos de prazer e poder dos homens, como ela mesma era ciente de estar sendo. Era a
destruição possível e passível de toda flor que fosse pisada pelas querências dos homens
que assombrava Bel, pois é sabido que quando os abutres devoram uma rosa, eles
cospem fora os espinhos, e seu perfume se torna fedor, pois aos olhos de muitos, uma
flor servia para isso mesmo.

10 - Um Livro chamado Bel

Pelo tempo em que Bogomil e Bel se conheciam, cerca de dois anos, paulatinamente
vieram criando uma relação de amizade e confidência que cada vez se tornou mais
profunda, na medida do possível em que pessoas tão diferentes a princípio poderiam um
dia finalmente estar ligados.

Como é comum a todas as pessoas que querem se conhecer melhor, eles começaram a
fazer permutas emocionais entre si.

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Bogomil contava a Bel seus projetos de vida para o futuro, depois do tempo de sua
preparação na Luz Serena, onde ele poderia escolher continuar seguindo a vida
sacerdotal, servindo como mago clérigo, provavelmente em uma localidade periférica
do reino, até ter a chance de ascender e servir como alto-sacerdote no próprio Templo
Central. Ou ele poderia tornar-se um mago liberal, vivendo de prestações de serviços
como aconselhamento espiritual, consultas de adivinhação, curandeiro, professor de
filosofia ou de ocultismo. Ele vislumbrava até ser escritor, ou tomar o rumo de uma
profissão comum, afastada da magia. Mas quanto a isso precisamente ele não se
enganava, a influência mágica da Luz Serena o acompanharia para sempre, e era isso
que ele queria mesmo.

Bel pensava por sua vez, como confidenciava em seus sonhos mais ousados a ele,
longe de ter como prioridades formar família, ter filhos, coisas assim, ela tinha como
objetivo principal na vida ajudar as pessoas, principalmente as massas de desprovidos
que aumentavam a cada dia no reino e mundo afora além das fronteiras. Era sua
principal preocupação a justiça social, a melhoria nas condições de vida das mulheres e
crianças. Ela nunca punha em evidência o fato de que necessariamente se casaria um
dia, pois achava que isso não era do âmbito de sua relação com aquele amigo, e mais,
temia que falando nesse assunto, sua vontade fosse contrariada pelo destino, que era o
fato de ela mesma poder então ter a decisão de escolher quem lhe desposaria.

A vida e o destino, porém eram mais generosos com Bel do que ela geralmente
gostava de mostrar aos amigos. Pois ela tinha uma improvável mas não impossível
chance de ser a regente maior do reino de Altair um dia, sendo a quinta nobre direta na
linha sucessória para o trono do reino.

O rei de Altair era seu tio paterno, como dois dos outros irmãos do rei, assim como
ele, o rei, não tiveram filhos e o pai de Bel ocupando a quarta posição na linha
sucessória, ela poderia vir algum dia herdar a coroa, pois todos seus tios eram homens
velhos e ela a primogênita de sua Casa Real. A esterilidade parecia ser uma sombra
sobre aquela família agora em sua terceira geração, e o nascimento da princesa foi visto
com muito gosto e um sinal de esperança para a continuação daquela Casa no poder
pela linha genuína de sangue.

Bel não conversava muito disso, pois afinal a qualquer momento um velho rei poderia
engendrar seu poder real em uma linha bastarda, mas do que na velha rainha, nascendo
assim um herdeiro direto na sucessão pelas leis antigas observadas no reino. Se nada
mudasse, talvez muito velha ela pudesse ter a chance de ser a rainha regente, mas havia
sempre o apelo para coroa iluminar a cabeça de um homem, e sabe lá o futuro, se ela
tivesse que abdicar em nome de um possível varão filho seu.

Sem pensar muito na coroa Bel então ia escrevendo sua vida, e apesar de ser educada
de acordo com o que essa eventualidade real exigiria dela, ela também viu que era
importante acrescentar novos horizontes em sua visão de mundo, e muito por isso que
ela se aproximou um dia de Bogomil, através das aulas de espiritualidade e filosofia que

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fora freqüentar nas aulas abertas da Luz Serena nos debates na corte e no próprio
complexo do Templo Central da Igreja.

Quando freqüentava as outras seitas, outras designações religiosas do reino, ela se


sentia incomodada pelo assédio financeiro e doutrinário moralista de seus eloqüentes
religiosos, e se afastava o máximo de tais pessoas pretensiosas e preconceituosas
religiosamente. À ela eles pareciam falar muito, mas não efetivamente agirem em prol
do bem geral.

Assim correu até a sombra do assassinato de Sheila Hagia entrar no enredo do livro de
sua vida, começando a inspirar capítulos nublados que alcançavam no presente até uma
forma exterior material no seu livro de vida que começava a ser lido exteriormente na
capa de seu corpo por Bogomil.

E era esse o livro do corpo de Bel que Bogomil começou a ler e se inteirar dessa
inspiração de tristeza e agonia que ela deixava fluir. Ele pode perceber corporalmente os
capítulos tristes e melancólicos que vinham à público sem que Bel se preocupasse mais
em censurá-los.

Bogomil passou a ficar a par das preocupações de Bel no período de um ano atrás
quando ela começou a lhe confidenciar suas preocupações com justiça de forma mais
veemente. Em um caso em especial, a violência crônica que as mulheres vinham sendo
vitima, ela começou a dedicar mais parágrafos em seu texto de idéias.

Uma mulher em particular fora lançada à égide de metáfora de todas as mulheres no


livro de Bel, ela veio ao mundo e como todo ser humano teve suas ambições e
finalmente foi cerceada de qualquer querer pela brutalidade de um mundo masculino.
No livro de Bel não se diferia a situação de venda consensual do corpo com estupro,
pois aquele ato era relativo à vontade de um outro, um homem no caso, que requeria
pelo seu poder aquilo que um corpo de mulher poderia lhe dar.

Ela tentou então escrever um capitulo decisivo que mudasse o curso das coisas
naqueles dias. E qual não foi a decepção de Bel quando pretendeu usar sua influência
nobre para interferir em certas decisões da justiça no reino, quando ela foi severamente
admoestada que o equilíbrio de poder no reino não permitia mais tanta intromissão do
rei nos tribunais. Então para que servia uma coroa na história da vida de uma pessoa,
pensava Bel, se ela não serve mesmo para fazer as coisas serem melhores em todos os
níveis?

Bel escrevia em seu corpo com tintas de tristeza a história trágica de Sheila, porque
implicava em destruição de mulheres abusadas, de pessoas arrasadas em seus sonhos de
vida.

Desta forma o Livro de Bel, seu corpo, ia ganhando contornos depressivos e


desesperados, e era isso que o mago Bogomil vinha lendo principalmente nos últimos
tempos.

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Ele por sua vez não intuía mudanças no enredo, seu aprofundamento, mais do que a
autora fornecia, e como aquela era uma obra em construção e Bogomil um leitor
passivo, ele se limitou a ir lendo, para ver onde a estória iria dar.

O mago interferia no livro, mas o fazia nas mudanças de seu ponto de vista do ângulo
em que lia a obra. Desviando os olhos do enredo principal dos sentimentos de Bel, ele
se afastava quando podia e corria os olhos na composição material e ornamental da
obra, no aspecto complementar daquela obra de arte que era Bel.

Aí seu senso estético se deliciava com a proximidade das formas naturais da obra
como um todo. A forma bela do livro do corpo de Bel então o absorvia em distração,
uma distração onde o núcleo melancólico da obra se tornava um ornamento de luxo para
a exuberância sensualista da composição aos olhos do mago.

Desse ponto de vista, Bogomil certa vez se pegou meditando de como mesmo a
tristeza de Bel fazia com que ela se tornava mais bela e atraente ainda, e esse gosto
bizarro despertado em Bogomil era tão intenso que ele não se envergonhava de tais
sentimentos, mas o cultivava escondido no fundo da alma como um gosto mórbido até
comum em certos magos, os quais lidavam muitas vezes com o lado escuro e tenebroso
das coisas em geral.

O que ele nunca se permitiu observar era que este seu sentimento poderia ser o tema
oculto profundo de parte da história viva do livro que Bel inscrevia em si, em seu
entendimento próprio da realidade.

Ela mais tarde intuíra sobre isso de uma forma clara em seu sofrimento, mas para
fazer Bogomil entender tal fato seria necessário que ele cruzasse tempos e mundos e
fosse até dilacerado pelo choque contra a realidade.

Porém essa nota de rodapé ao Livro de Bel não seria lida como está sendo agora se o
desenrolar do enredo não se complicasse para Bel, quando e como ela preferiu assumir a
autoridade de autora de sua vida. Só por isso um leitor do leitor pode inferir nesse
momento do passado sobre o que ainda irá se desenrolar para que tal menção pudesse
ser escrita, como se viajasse no tempo e aqui tivesse essa revelação.

Mas o Livro de Bel estava apenas aberto para Bogomil naqueles dias, talvez ela já
estivesse escrevendo um capitulo com um pedido de ajuda, mas as partes que Bogomil
queria “ler” escancarado realmente diante de si tinham os odores e a umidade erótica
que não estavam contidas naquelas páginas de sofrimento e de preocupações atuais da
autora.

Isso era o que fazia Bel estar tão perto e tão distante do mago, e talvez fosse por isso
mesmo que ele revertia as linhas onde lia as idéias de luta contra a realidade em
passagens de uma poesia mórbida de um conto erótico.

Mas como a realidade de uma pessoa é a sobreposição moierética do que se expõe


junto ao que os outros pensam dessa pessoa, o Livro de Bel era para Bogomil pelo

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menos um conto de carne bela e torturada que exalava um enredo policial que
apregoava então que os crimes perfeitos são apenas as guerras, enquanto que os crimes
individuais ainda carregam em si uma esperança, esperança essa, mesmo que mórbida
por ser esperança dentro de tal situação, pudesse se conseguir a condenação do
criminoso em questão e tudo ter um final feliz que fosse o começo de novos rumos para
as pessoas naqueles tempos, era o que Bel parecia querer escrever.

Era para isso que os capítulos recentes do livro do corpo de Bel pareciam
melancolicamente apontar, pelo menos assim ele lia as coisas.

Dentro da tristeza sem fim de Bel, acomodava-se em suas páginas de vida uma
procura por uma idéia à qual se apegar onde um vislumbre de desenlace de justiça
aparecesse na trama, como uma luz saindo da escuridão.

O que o leitor Bogomil não esperava era que Bel teria justamente nele essas
esperanças fundamentadas e assim talvez seu livro se tornasse uma obra de esperança,
como convém à toda obra realmente bela e necessária.

11 - A Carne com a qual engano o tempo

Bel e Bogomil estavam deitados sobre a grama em um campo calmo nos pomares
anexo ao Templo Central da Luz Serena. Por todos os lados floresciam roseirais e sebes
bem tratadas, algumas selvagens, todas cercando dezenas de árvores frutíferas.

Tinham ido para lá depois de terminada uma aula de filosofia que eles frequentavam
juntos, ela como ouvinte e ele como professor auxiliar. Desde a aula Bogomil já
percebia que Bel estava distante e exultou ao fim da aula quando ela pediu para irem
descansar nos jardins além dos muros.

Para lá foram silentes, seguia-os uma gatinha negra que era o animal de poder que
Bogomil zelava, uma prática na Luz Serena para magos que queriam desenvolver certas
técnicas de observação do mundo, para isso mantinham por perto algum animal de
estimação que quando necessário fazia às vezes de zoomédium para o mago, já que para
os animais era mais fácil observar e entrar em contato com o mundo astral.

Vendo o estado pesaroso da princesa que erguia uma barreira espinhosa a qualquer
aproximação afetuosa, Bogomil aproveitou a oportunidade para levar a gata para
passear enquanto podiam trocar idéias a respeito do que se passava.

Bel estava melancólica, esparramada no chão, e a gata negra brincava por debaixo das
roseiras caçando borboletas e outros pequenos insetos, devorando-os a todos com uma
fome selvagem que não tinha, apenas seguindo seus simples impulsos atávicos onde no
fundo de suas veiazinhas ainda pulsava um tigre ancestral.

Nem com a brincadeira felina Bel se entretinha, seus olhos, quando não estavam
fechados, miravam as nuvens do céu ou o azul aberto por entre os nimbos frescos que

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não prometiam chover. Os olhos de Bel, entretanto não viam nada além de sua
inquietação daqueles dias, sua atmosfera expandida. Já os olhos de Bogomil depois de
cansado com o entretimento da caçada da gata se voltaram não sem resistência para a
bela e triste expressão que Bel delnotava ali ao alcance de sua visão e longe de qualquer
compreensão.

- O que foi Bel? O que te incomoda? Você está tão triste! – perguntou ele finalmente.

Ela piscou lentamente, e seus olhos começaram a lacrimejar, como se sua tristeza
tivesse aumentado só pela menção dele a tal desassossego.

Viu que ela forçava um espesso nó pela garganta, que engolia a semântica de seu
choro enquanto lágrimas grossas escorriam pelo lado de sua face indo regar a grama
indigna, ele pensou rápido que até a tristeza daquela princesa era excitante.

Ele intuía que alguma coisa devia estar muito errada, mas não fazia idéia do que fosse,
pois nunca até então conversaram sobre coisas reservadas, intimas o bastante para se
fazer chorar em público, até então eram companheiros de troca de idéias sobre
espiritualidade, sobre questões gerais da sociedade e algumas frivolidades banais.

Chorosa ela revelou então o motivo de toda aquela tristeza.

- Aquele monstro será inocentado... – Aquela frase ela começou a dizer com tristeza e
choro e quando terminou um grande ódio parecia sair de sua boca. Como podia uma
frase tão curta de um ser tão belo poderia comportar dois sentimentos tão profundos, ele
indagou em pensamento.

Mas era então daquilo que se tratava. O que incomodava Bel naqueles dias era o
julgamento do acusado de assassinato de Sheila Hagia que já ia para o terceiro dia.
Bogomil sabia bem que Bel dava atenção especial ao caso, mas nunca a vira chorar por
isso.

Os defensores de Ialdo estavam se dando bem em provar que ele não tinha culpa no
caso, uma profusão de informações desencontradas e investigações desleixadas estavam
dando substância para defesa, os possíveis comparsas negaram tudo e criaram uma
imagem de Sheila como desvairada, orgulhosa e fanática por enriquecer.

Bogomil se preparava para dizer a Bel, mesmo sem querer, uma dessas frases feitas de
justiça do senso comum, um clichê dizendo que Ialdo poderia ser inocentado, mas que
“na visão das pessoas ele era realmente culpado”, ou algo como “sempre pagamos pelos
nossos erros um dia”, mas não teve forças para dizer aquelas bobagens.

Em “justiça divina” nesse mundo ele realmente não acreditava, e não iria desmerecer
a inteligência, e principalmente não iria afrontar a tristeza e a dor de Bel com aquelas
palavras banais. Ficou calado por alguns momentos para deixar aquele tipo de sintonia
mental passar e esperar vir do seu interior algo que realmente acreditasse sobre a
questão. Bel entretanto foi mais rápida na urgência.

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- Você não pode fazer nada Bogomil? – ela inquiriu com certa entonação que revelava
um genuíno pedido de ajuda e desespero.

- Como assim Bel?

- Você é um mago, tem poderes, não pode consultar um oráculo para saber a verdade,
ajudar a provar a culpa dele, algo assim! A Luz Serena não tem nenhuma posição oficial
sobre o caso?

- Nessas coisas de julgamentos, tribunais, nós não podemos... não temos poderes que
interfiram... – ele disse, se pegando na resignação que tentara interromper instantes
antes.

Ela não estava dizendo sobre influenciar o juiz e o júri, ela estava pensando em
descobrir o que realmente aconteceu, como ele fez para esconder o corpo de Sheila,
como fora ajudado, “coisas assim”, foi como ela lhe explicou o que queria dizer, já com
alguma força de ação na voz.

Bogomil lhe disse que poderia sim consultar oráculos como ela queria, obter respostas
em cartas, moedas, transe, mas de que ajudaria? As respostas oraculares eram sempre
obscuras e vagas, apontando direções muito pessoais e de interpretação ampla. Não
eram provas, mesmo que fossem uma exposição de uma fé.

Havia relatos de sessões espíritas consultando o espírito da morta, mas tais notícias
causaram comoção em círculos que não tinham nenhuma influência no tribunal, apenas
ratificavam a visão popular da culpa de Ialdo, mas não estavam ajudando em nada na
sua possível condenação.

Depois de ouvi-lo, Bel quedou-se novamente em amargura, deixando a cabeça afundar


na relva.

- É muito injusto, muito injusto... – disse ela com os olhos cheios de água e sal,
transbordando sem que pudesse aplacar sua sede de justiça.

E seguiu dizendo com um misto de tristeza, raiva e impotência:

- Aquela menininha linda... que foi jogada do alto de uma torre, aquela garota
esfaqueada depois de ficar refém uma semana com o imbecil do namorado antes de
morrer, aquela mãe que levou golpes de machado dos próprios filhos, aquela moça
estuprada por três homens e morta junto com o namorado que acampavam na floresta,
aquela mulher que foi afogada no lago de Nakxkon, a mulher que foi assassinada pelo
ex-marido porque ele devia dinheiro a ela, aquele bebê que foi estuprado pelos serviçais
dos pais e depois jogada na água, e o que mais, quantas mais? Todas mulheres, fracas,
umas indefesas, que estavam vivendo suas vidas, suas dores e alegrias, e então irrompe
uma força... desgraçada contra elas...

Ele sabia sobre ao que ela se referia, a cada um daqueles casos de muita comoção em
todo reino recentemente. E ele se lembrava de muitos outros crimes, crimes até onde

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mulheres haviam assassinado homens por ciúmes e por questões de riqueza, todos
crimes hediondos que não foram punidos à altura, mesmo porque não havia punição à
altura para assassinatos, ou estupros, matricídios, torturas, que pudessem ser punidos
exemplarmente. E punir exemplarmente queria dizer que a força da lei deveria impedir
que coisas assim se repetissem, é o que Bel queria dizer, é o que os dois concordavam
ali, ela pela indignação, ele pelo silêncio, impotência.

- Te entendo Bel! – ele finalmente disse, compartilhando genuinamente da tristeza


dela. – Não é só a justiça, não é? É o fato disso se repetir, de não parar, não é?

Com um aceno de cabeça afirmativo e chorando copiosamente ela concordou com ele.
O choro de Bel se tornou auto-de-fé quando ela continuou.

- Isso parece ser da essência do real, desde a Xokmah, violada pelos Arkontes, isso se
prolonga sobre nossa raça e entranha em nossa cultura e em nossas vidas... E será assim,
sabe o Verdadeiro Deus até quando! – ela disse como em transe, como se uma língua de
sibila a possuísse no mais profundo de sua tristeza e gritasse a impotência dos seres
humanos diante o destino decidido desde o passado.

Ele novamente entendia perfeitamente ao que Bel se referia. Ela falava sobre a crença
ensinada na Luz Serena, a sabedoria gnóstica ensinada nas aulas de cosmogonia, uma
revelação que ensinava que nos primórdios do mundo a própria filha de Xokmah, sua
imagem e semelhança mundana fora ofendida no intimo por seres poderosos que dela
fizeram objeto de moléstia preferencial. Os ensinamentos de uma fé agora em via de ser
proscrita pela maioria das pessoas, mas Bel a usava e a entendia em profundo saber para
referir-se a condição cotidiana das pessoas e principalmente das mulheres.

Bogomil percebeu então a dimensão que a tristeza de Bel e sua sede de justiça
sondava o âmago da condição humana e que seu pedido por justiça e pela perscrutação
de oráculos e tudo mais era uma forma dela insurgir originalmente dentro de uma
situação muito mais profunda. Uma forma que sua mente encontrou para aplacar o
impulso de todo seu ser, corpo e alma, de lutar contra os fatos.

Ele devia estar desconcertado com aquilo, se si permitisse entrar em sintonia com o
que Bel facultava, mas... como explicar? Ele estava plenamente operando na realidade,
em ações reais, em práxis. Mas aquilo era uma metafísica para ele! E apesar de ser um
mago, de ter crenças em poderes ocultos, foi-lhe ensinado que tudo convergia para a
realidade em padrões de operações físicas.

O estupro de Xokmah... Como ligar aquilo de uma forma produtiva ao presente, como
mudar ou analisar de uma forma positiva um caso que era para ele, um tipo de
sacerdote, um mito que explicava coisas psíquicas, como fazer para revelar o caráter
ontológico daquela história ancestral para ajudar ao ser humano ser diferente? E mais,
para fazer justiça?! Os magos desses tempos eram bem pragmáticos, pois sua
compreensão mágica do mundo tinha que ganhar novas instâncias no real para que a
própria magia não submergisse no oceano profundo da superstição, pois a superstição

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era justamente a morte da magia, era a principal frente de crítica contra a magia e ao
mesmo tempo o estofo de onde surgiam novas crenças ainda mais supersticiosas de
fanatismo ainda mais ignorante no mercado religioso em expansão daquelas terras.

Ele olhava para Bel sem saber o que dizer, só repousava seus olhos sobre seu corpo ali
largado na grama, tentava não pensar nela, mas no que conversavam e então se notou
observando a certa distância seus próprios pensamentos, como havia sido bem treinado
para fazer, em observar através do vácuo da mente os movimentos conflitantes do
pensamento na realidade existencial, ele notou a volição de seus pensamentos.

Ah! Uma força, um calor migrava do outro lado da mente, onde seu si observava as
convulsões do ego, um fogo, uma força inquietante, olhando Bel ali deitada, chorando.
Isso, ele queria tomá-la, queria possuí-la, penetrá-la, devorá-la como um lobo faminto,
rasgando sua carne morena e lisa!

Teve um sobressalto! Levantou-se ficando sentado na grama olhando em outra


direção. Ele fora pego em ação, em fragrante delito pessoal. Ele respirava apressado
olhando para baixo em volta de si, para a grama insignificante. Então com o canto do
olho percebeu que um vulto negro o observava ali adiante.

Assustado voltou os olhos naquela direção esperando ver ali seu demônio interior
materializado lhe observando e rindo, pronto para atacá-lo e destruí-lo por ele ser um
traidor de tudo, um mentiroso interesseiro. Ele estava sem controle, desamparado e
envergonhado. A grama que amassava não lhe merecia.

Então virando a cabeça viu, ali adiante, sentada na grama, observando-o calmamente
estava a sua gata, em sua postura de atenção, pendia de dentro da boca uma asinha
colorida de borboleta. Não incomodada com isso ela o observava como se olhasse
através dele, entendendo a seu modo a verdade que se passava com Bogomil, ele sabia
que ela, de sua forma, sabia o caráter da volição de sentimentos que tivera instantes
antes. Ele chegou a pensar que a gata iria falar com ele, que se desvencilharia ali um
evento de apantomancia.

“Meu Deus, que espetáculo de horror ela deve estar observando e me julgando dali”,
pensou em meio a náuseas que já o reviravam internamente, o nojo o inflamou e ele
desviou o olhar, “Meu Deus, estou com vergonha de mim na frente de um gato!”
pensou.

Mas em sua náusea Bogomil não percebeu o caráter sincrônico e epifânico daquele
sentimento. Quando ele tentava se desafogar intelectualmente do que entendia como
superstições, na verdade ele tentava ocultar em águas negras os verdadeiros sentimentos
ancestrais que permeiam a condição humana, e principalmente a voragem selvagem da
força masculina.

Bel estava ali deitada, alheia a tudo aquilo, alheia ao turbilhão dele.

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Deitou-se de novo, olhando céu, procurando o ar para respirar. Com o canto do olho
ousou vislumbrar Bel. Ela estava imóvel, talvez dormindo. Um fluxo de pensamento lhe
ocorreu novamente, será que ela não quer “fazer amor?”, será que ela ali, largada, não
quer ser penetrada, violada em beijos e... Interrompeu o que pensava. “Espasmos
reflexivos da luz negra...” admoestava, começando a intuir sua convulsão. Ele nunca
conseguiria encher de qualquer amor um sentimento de possessão como aquele, era
apenas uma lição que deveria tirar proveito.

Veio a sua mente uma frase: “ser destruído & destruir!”, era uma passagem de um
livro de sabedoria, algo sobre como os homens ao longo das eras destruíram o feminino
e o feminino então, se reerguendo, e na sua forma mais poderosa tornava destruindo o
masculino, os homens, seu mundo, através do erotismo, através da exuberância das
mulheres. “Tire isso da cabeça agora!” foi o que pensou com uma rapidez que o
assustou.

- Bel... – ele disse, não sem medo de pronunciar seu nome, disse com calma e
observando um autocontrole que nem sabia o que significava. – Vou ver o que posso
fazer... nesse... – tomou ar, não sabia como dizer. – Nesse caso de adivinhação.

Havia silêncio no lugar.

- Tá me ouvindo? – ele perguntou.

- Hãrran. – murmurou ela se virando para uma posição fetal. O feminino se


reconfortava no colo da natureza que a acolhia sempre.

Bogomil em nenhum momento pensou que ele mesmo podia se tornar um abutre, um
assassino que sucumbira à exuberância e abriu as portas do ego para o verdadeiro
inferno da destruição, ele ainda sentia que seu amor por Bel poderia afastar a força
devastadora da soberba, isso se um dia tivesse a chance de ser correspondido.

“Durma meu amor, durma e se refugie nos sonhos, longe de todos os meus
pesadelos...”, ele ainda pensou, e aquela tarde terminou de escorrer em silêncio, como
se o tempo urgisse em matar em sua calma todos os desejos da carne.

12 - Quando as estrelas te dizem quem és

Naquela noite, após o que deveria ter sido uma tarde de amor, com tal expectativa
frustrada pelas contorções dos tempos atuais na alma da pessoa que amava, Bogomil se
pôs a consultar alguns livros e a se perguntar o que poderia usar para adivinhar o que
acontecera no caso do assassinato de Sheila Hagia.

A simples menção mental da palavra “adivinhação” lhe fazia se sentir fraco, como se
fosse um vidente de barraca de circo que tentasse ganhar alguns vinténs fazendo uso de
uma bola de cristal ou de cartas com desenhos de sonhos, quando não pior, um

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incinerador de cadáveres tentando sorver das chamas de carne e ossos queimados algum
presságio.

Para ele, adivinhação sempre fora algo menor na atividade de um Mestre Mago,
apesar de muitas vezes já ter feito consultas pessoais no tarôt ou para outras pessoas
para animar uma festa ou impressionar alguém com seus poderes de vidência, mas
parecia que sempre as cartas revelam as coisas que já sabiam ou suspeitavam, e o
adivinho nele se passava apenas por uma espécie de psicologista ébrio que nunca fora.

Bogomil poderia recorrer, ao que se lembrava, a pelo menos três grossos livros cheios
de métodos de adivinhação, dos mais limpos aos mais macabros, ele mesmo poderia
dizer de memória e em ordem alfabética dezenas de métodos de adivinhação.

Aceuromancia. Apostamancia. Brizomancia. Ceraunoscopia. Cristalomancia.


Dendromancia. Enoptromancia. Filoromancia. Hidromancia. Lamapadamancia.
Margaritomancia. Molibidomancia. Omoplatomancia. Onicomancia. Sicomancia.
Sideromancia. E muitas outras “mancias” infindas disponíveis nos grimórios
empoeirados.

Havia muitos métodos conhecidos de adivinhação, e era sempre isso, ferramentas de


desmascaramento de funções psicológicas não observadas pelas pessoas que são
preguiçosas em se autoconhecer. Era o que ele achava que distinguia um simples mantis
de um mestre dos magos.

Ao horóscopo ele aprendera sozinho a desacretidar, não por não acreditar em sua
eficácia, mas primeiro pelo horóscopo revelar na verdade a influência dos Arkontes
sobre as pessoas, sendo assim um material que revelava não a liberdade de ação, mas a
escravidão planejada pelos Senhores do Mundo.

Meditando sobre o horóscopo, entretanto Bogomil raciocinou que aquele sistema de


adivinhação na verdade revelava sobre o passado de alguém, o constelado, o lugar onde
agrupamentos de estrelas e corpos celestes estavam no momento do nascimento de uma
pessoa, e dessa forma, ciente dessa informação sobre o passado a pessoa poderia criar
uma linha de ação para combater aquilo que era a decisão irrevogável dos Arkontes para
aquele ser que vinha ao mundo. Como todo bom mago esclarecido, devia-se inverter a
função original de uma coisa para que ela servisse aos fins mágicos de liberação.

Era essa mesma a explicação aprendida na Luz Serena sobre o horóscopo, mas aquele
raciocínio dentro da questão que Bogomil vinha meditando já tarde dentro da noite em
seus aposentos lhe revelou uma possibilidade, uma ferramenta que poderia ser usada na
questão que Bel lhe pedira para ajudar, mas era tão, digamos, audaciosa a idéia de
Bogomil, que ele se negava inicialmente a cogitar.

Levantando-se de sua cama no quarto já em penumbra, ele fez sua gata se lançar de
imediato no chão procurando nele o motivo de tal agitação. Bogomil não deu atenção a
ela e foi debruçar-se no parapeito da janela. Viu ao longe quase todo o céu estrelado

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com a lua já em final de quarto crescente, algumas nuvens negras ao longe faziam as
vezes de um véu para muitas constelações à oeste.

E como um vento que começa a soprar fraco pelo agitar de asas de uma simples
borboleta antes de ser devorada por um gato, uma idéia iluminada tomava força na
cabeça de Bogomil.

Havia algo que podia ajudar, mas as chances de ele conseguir permissão para realizar
aquilo eram improváveis, “impossíveis” ele declarou para si. E riu de seu pensamento
como se tivesse percebido uma piada geniosa que só ele sabia qual era a graça.

O que ele pensava era sobre um feitiço que em teoria podia ajudar a descobrir o que se
passou no dia em que Sheila Hagia desapareceu, um feitiço que dizia sobre a
possibilidade de alguém voltar fisicamente para aquele dia e observar tudo, na medida
do possível e da astúcia, mas a probabilidade de poder realizá-lo era a mesma que Bel
pela manhã vir lhe declarar seu amor incondicional.

Assim como um horóscopo fala sobre a influência do momento passado do


nascimento, aquele feitiço que ele se lembrara falava da possibilidade de se observar o
momento da morte dela. Ele anotou mentalmente que não falaria com Bel sobre tal
feitiço em condição nenhuma, pois seria uma esperança infundada, devido a
probabilidade de fazer uso dele como é simples fazer uso de um horóscopo. Foi dormir.

Nessa noite ele sonhou com Bel. No sonho ela tinha uma estrela muito brilhante que
tomava o centro de seu peito até ao umbigo, e ela vinha a ele dizer que jogaria aquela
estrela sobre ele porque o odiava. No sonho, Bogomil corria para dentro de uma concha
gigante e ao sair de lá de dentro todo o universo havia sido destruído, desesperado por
não haver ar para respirar então, pois tudo fora destruído, não havia mais realidade, não
havia mundo que comportasse uma atmosfera com seu precioso ar de safira gasosa, ele
acordou de supetão arfando e tremendo de medo.

Não dormiu mais, e assim começou o seu dia.

13 - O Atrator de toda abstração

Um bom feitiço não se faz sem um pouco de amor, uma motivação, que seja sinistra
ou mesmo proibida, ou desesperada. Um feitiço requer uma ligação, uma pulsão, e um
amor é o enlace ideal. Amor é poder e assim a paixão era um bom combustível para
qualquer ação radical. Seria por isso que os magos diziam que só há magia do amor?

Bogomil realmente não sabia, pois não se interessava por coisas de poder para além da
janela de seu quarto, ele não tinha essas ambições de poder tão comum ao ser humano,
talvez porque nunca realmente desejara nada que estivesse mesmo distante de suas
capacidades, nunca desejara nada que não fosse possível conseguir com uma boa
conversa ou com pouco dinheiro, e mesmo que tivesse uma princesa cobiçada ao

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alcance das mãos, suas ambições para com ela se tornavam sonhos quando ele se punha
a pensar em poder desposá-la realmente, pois ali entrava em sua consciência o que
aquilo realmente significa na conjunção atual de seu mundo.

Ele passou anos remoendo o idealismo da magia e praticando formas de magia tão
banais que realmente isso era indiferente para ele até o momento em que teve de pensar
em um grande feitiço.

“E o que aquilo lhe dera? Um bom pesadelo!”, caçoava de si mesmo.

Mas ao entrar no templo da Luz Serena ele achou melhor deixar tais idéias de lado e
friamente baniu de sua mente tais pensamentos, como muito comumente o fez com a
maioria das coisas que exigisse esforço sobre-humano, como atravessar marés por uma
paixão, como fazer uma guerra, como abdicar de um trono, isso tudo não era de sua
vida.

Ele encontrou o maior amor que podia desejar um dia ali, andando pelos corredores do
edifício em que passava aquela parte de sua vida adulta. Ela se aproximou dele tão
naturalmente como um pássaro pousa em um galho de árvores ao alcance de uma pedra.
Mas ele não se fazia de simplório, não podia em sua condição, ele deveria ponderar
também que estaria trabalhando com energias do amor, que poderia ter sido sim uma
função sua ter trazido Bel para seu caminho, talvez operando em um nível de energia
sexual que era sutil o bastante para passar despercebido, até ver realizando diante si
certos desejos brandos.

Mas aquilo se referia a Bel, e como a maioria das coisas que também comumente faz
em relação aos seus desejos e amores, aquilo não teria então que tomar um lugar
especial em seu pensamento e consumir muito de seu tempo?

Não estaria ele criando elos de responsabilidade também que nunca imaginou criar?
Se Bel estava triste e próxima dele, então ele não teria o dever de sobrepujar suas forças
e sua inércia para ajudá-la sob pena de se não o fizesse cair em desgraça acuado pelas
próprias energias que despertou inconscientemente e agora fluíam em volta dele e dela
como um atrator que pedia para ser harmonizado por uma certa dose de energia que só
podia ser conseguida com a realização da paixão de ambos os lados envolvidos?

Sim, eles tinham uma relação, ela poderia evoluir ou não, e ele não deveria ser
estúpido ao ponto de não a fazer ser como ele desejava, correndo o risco de granjear a
indiferença de Bel para com o ele, ou coisa pior.

Ele parou a linha de pensamento, pôs-se de sobreaviso. Quem o visse estancar


repentinamente aquela manhã rumo ao refeitório, diria que ele podia estar sendo
assombrado pelos sonhos da noite. E era isso exatamente que se passava na cabeça dele.

Bogomil encarou o fato de que poderia ganhar a aversão e o ódio de Bel se realmente
não fizesse tudo que estivesse ao seu alcance para ajudá-la naquela situação tão delicada

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na qual ela praticamente implorou sua ajuda, por achá-lo digno e capaz de executar tal
tarefa.

Viajar no tempo! Ele riu consigo estupefato. “É uma idéia!”, repetia consigo,
acreditava como cria em muitas coisas que estudara nos livros reservados da Luz
Serena, mas daí a fazer, mas daí a sequer sugerir isso a quem poderia conduzir tal
processo... Ele nem sequer sabia por onde começar.

14 - O instante em que o momento troveja

Na tarde daquele dia que começou com aquelas tribulações oníricas de Bogomil, ele
finalmente se encontrou com Bel nos jardins externos do templo da Luz Serena depois
de suas aulas.

Havia uma aglomeração de pessoas em volta de uma árvore, o assunto era que o
julgamento de Ialdo havia sido suspenso, a pedido dos encarregados de acusação, por
uma semana. Os advogados de defesa se exasperaram dizendo que o cliente não podia
mais esperar por liberdade e que ele devia então ser liberado da prisão até lá. O juiz
temendo o julgo popular não aceitou, havia além a possibilidade de fuga ou alguém
fazer justiça com as próprias mãos, mas era atencioso com a desolação dos acusadores e
resolveu ceder e suspender o julgamento, Ialdo seria transferido para uma cela onde
poderia receber mais visitas e assim ele equilibraria a situação.

O júri tinha sido posto em guarda, e eles que iriam amargar mais uma semana de
isolamento da sociedade, que fossem relaxar isolados em uma estância no campo,
protegidos pela guarda dos magistrados.

Bogomil se punha a par disso tudo quando viu Bel de longe se aproximando do
templo da Luz Serena. Ela parecia desolada, logo ele percebeu a gravidade que toda
aquela situação tinha causada a ela. Estava pálida. Desamparada.

Indo ao seu encontro, logo rumaram a um local do jardim onde pudessem conversar
com tranquilidade. Inteirando-se mutuamente da situação, da qual ambos já estavam a
par. Ela respirou fundo antes de falar.

- Bogomil, eu tenho um plano, e que me ajude o Verdadeiro Deus, vou ter que
executá-lo! – suas palavras diretas carregavam um temor de fatalidade, Bogomil temia
de precisar ouvi-las.

- Parece não haver outro modo, meu ser está destroçado... – dizia ela choramingando,
revelando desespero.

- O que foi Bel, o que está pensando fazer? Que plano é esse?

- Vou fazer um protesto radical no tribunal, senão ele vai ser inocentado e livre. – Bel
ia dizendo desconexamente. Mas aquilo de “protesto” acalmara Bogomil. Sim, ele a

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ajudaria, gritaria alto, jogaria batatas podres nos soldados, apoiaria Bel em qualquer
loucura deste tipo.

Bogomil estava tão ansioso e contente com aquilo que concordaria com qualquer linha
de ação que Bel quisesse fazer como protesto. Distribuiria panfletos, faria discurso...
Não, discursos não poderia fazer, não poderia se envolver com isso, pela Luz Serena,
mas sim, sim, carregaria faixas, ficaria nu, organizaria tudo, tudo pela alegria dela, era
só Bel pedir.

Bel ali do lado, perto do fogoso entusiasmo mental de Bogomil, se contorcia sobre a
própria barriga, como se uma febre ou uma fome a assaltasse. Ela estava reunindo
forças e sanidade para contar a Bogomil a loucura que queria dizer, coragem para
vocalizar na atmosfera o encadeamento de seus pensamentos e Bogomil tão alheio a real
situação da dor dela, que se revelaria nos momentos seguintes, olhava para ela alegre e
disposto. Até ela falar novamente.

- Eu me matarei Bogomil!

“O que foi isso? Um trovão no céu!”, pensou assustado Bogomil, como se não
entendesse o que Bel dizia, parecia que alguma coisa ruía através da voz dela, era um
soco que estava levando na boca do estomago?

- Eu me matarei Bogomil, me matarei e deixarei uma carta dizendo que me matei


porque libertaram aquele assassino! Já comprei um vidrinho de veneno!

Bogomil estava sem chão, onde ele foi parar depois do som do trovão, o que Bel
estava dizendo?

Agora ela era só soluços e insanidade momentânea.

Na mente de Bogomil, mais lentamente do que o normal, as palavras de Bel foram


ganhando significado, fazendo sentido como a coagulação de leite azedo, ganhando
forma em imagens mentais como um teatro de sombras que só lentamente percebemos
quando os olhos vão se acostumando com a escuridão.

- O que você está dizendo Bel?! – finalmente Bogomil perguntou com voz baixa, um
sussurro de susto depois do rugido do trovão de um raio que caiu bem perto.

Bel parecia então se recompor, ganhando uma força que ninguém invejaria ter se
soubesse exatamente de onde ela vinha, da coragem que assalta o condenado a morte no
momento em que recusa a venda nos olhos na hora do apedrejamento.

- Eu já tomei a decisão! – disse Bel e rapidamente passou pela cabeça de Bogomil o


que ela disse, o que ele achava mais estranho naquelas palavras dela era que disse “a
decisão”, não falou “a minha decisão”.

Aquilo soou para Bogomil como uma culpa a se carregar, ele conseguiu intuir naquela
frase daquele modo dita toda uma acusação, reviveu rápido seu sonho anterior, passou

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por seu pensamento como um raio que Bel lhe falava por uma linguagem além do
significado comum, algo que deveria ser cabal entre os suicidas que informavam a uma
outra pessoa seu destino.

Para Bogomil “a decisão” queria lhe dizer que aquilo se referia aos dois, como se
fossem parceiros naquele plano, ela por decidir morrer em protesto, ele por não ter feito
outra coisa que não fosse ela suicidar para ajudar na situação toda. A decisão era
comum a eles, ela por morrer, ele por não ter usado seus supostos poderes mágicos para
adivinhar uma prova irrefutável. “A Decisão” era o único recurso encontrado por Bel.

O chão voltara aos pés de Bogomil, e ele se erguia na forma de uma parede alta onde
encostar-se e se ver encurralado. Era a hora de Bogomil ser apedrejado e ele queria a
venda.

Bogomil deixou sua boca falar.

- Bel! Por favor! Olha... - era isso que acontecia quando deixamos só a boca falar,
Bogomil tomou ar e ordenou os pensamentos, queria desesperadamente vender uma
esperança para ela, como os novos religiosos faziam para o povo desesperado.

- Eu vou consultar um oráculo! Eu pensei a noite inteira, e há com certeza algo que eu
posso por as mãos... – ele pensou antes de continuar, tinha que convencê-la – Há algo
muito, muito poderoso que eu posso usar... – o que ele estava falando? Bogomil estava
assustado consigo mesmo, com suas promessas antes mesmo dele fazê-las. – Existe um
feitiço divinatório... – ele estava sendo técnico, pedante, querendo mostrar poder. – Um
feitiço de adivinhação! Eu pedirei permissão aos meus superiores e eles com certeza,
com certeza vão nos ajudar! – ele gaguejava, “meu Deus, ela vai se matar!”, pensava.

Falando e pensando ao mesmo tempo então, Bogomil ponderava. Ele estava no


caminho errado. “Que burro!”. Ele devia a dissuadir energicamente da idéia e não lhe
dar promessas. Ele deveria lhe bater para que ela acordasse. Deixasse aquela loucura de
lado e nunca mais tocasse no assunto. Bogomil viu que pensar também não estava
ajudando.

Acalmando-se, pondo as idéias em ordem, ele enfim falou como uma pessoa na sua
posição deveria proceder.

- Olha! Nós temos uma semana! Não pense nessa tolice... – e enfatizou seu desprezo
pela idéia na palavra “tolice” dizendo-a mais sagazmente. – Não pense nessa tolice
mais! Eu farei o que estiver ao meu alcance, o que estiver ao alcance da magia da Luz
Serena para nós conseguirmos incriminá-lo. Vou buscar onde quer que estiverem... – e
aí suas palavras começaram a ganhar a nuance de uma incerteza cheia de coragem que
Bogomil não entendia o sentimento que suas palavras diziam mais. Era outra coisa que
as diziam por si. – Vou buscar onde quer que estiverem as provas para condená-lo!

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Fez-se silêncio naquele canto do jardim onde o mundo e o tempo acabaram para Bel e
Bogomil e voltou a existir só com a força do amor que ele teve que concentrar
inconscientemente para dizer a ela o que deveria dizer.

Agora ele teria que dizer outras palavras. E antes de dizê-las ele já sabia que suas
próximas palavras não seriam só palavras vocalizadas no ar. Havia uma seriedade já na
pulsão de dizê-las que se Bogomil tivesse um ano para pensar sobre elas e sobre o
momento em que as dizia, para quem dizia e o que significava, ele entenderia que ali
estaria sendo dito a coisa mais importante que ele disse na vida.

Ele disse:

- Você confia em mim Bel? - e o com verbo o “confiar” na boca ele queria saber
muito mais dela.

Era isso, eles estavam fazendo um pacto, eles estavam traçando um trato, procediam a
uma aliança. Bel intuiu no fundo de sua alma o que se passava também, assim, de
maneira superficial como Bogomil, mas a implicância do momento e o que queria
realmente dizer jorrou nela como força e segurança.

“Será que é assim que um momento importante é construído no seio da realidade?”


Perguntar-se-ia um observador daquele momento, da distância em que estivesse.

Foi o momento que falou pela boca de Bogomil, e era o momento que falaria pela
boca de Bel agora.

- Confio em você Bogomil, e ponho em suas mãos a minha vida. E se você cumprir o
que disse, eu te amarei para sempre! - ela respondera no mesmo sentido que ele
implicou naquele verbo, era o que ele queria ouvir dela.

Assim falou o momento, pois o momento quando fala ele paradoxalmente, não fala do
aqui, ele fala através de todo o tempo e de todo o espaço que foi trilhado para que ele
fosse construído agora como é. O momento é tão somente a soma de toda a nossa
existência que se dirige ao ponto do agora onde ele se expressa e se vai, construindo o
momento posterior acrescido do momento que passou, e assim segue, se circularmente
ou em linha reta ninguém no mundo sabe, mas simplesmente segue.

Quando fala o momento, se cala o tempo! E estrelas desaparecem, mundos


sucumbem, o amor se rende, e um homem segue em frente e faz o que deve ser feito.

Bogomil só não percebeu a urdidura de uma artimanha que implicava de uma vida
estar em suas mãos, como era profunda e intricada a cumplicidade que exalava o
momento quando assim unia duas pessoas por laços de confiança e amor então. Que
dali, dando sentido à sonhos em uma sincronicidade macabra, que para momentos
seguintes poderia significar tanto uma coisa como outra, vida ou morte, amor ou ódio,
verdade ou mentira, incertezas que se firmam urdindo a próxima escolha a ser feita
inevitavelmente.

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15 - Distâncias medidas em maldições

Bogomil se despediu de Bel ali mesmo no jardim, ele não tinha tempo a perder. Uma
decisão fora tomada, não pela liberdade que uma escolha comporta dentro de seu
sentido, mas justamente por não haver liberdade quando só uma coisa a ser feita era o
que implicava a decisão.

Deveria falar com alguém, um superior seu, convencer com todos os argumentos que
tivesse, mesmo se não fossem convincentes, que deveria proceder a realização de um
feitiço antigo, nunca antes efetivamente testado ou registrado, para salvar a vida da
mulher que amava.

Ele tinha a certeza, e não podia ter nada mais além do que essa certeza que ela
morreria pelas próprias mãos ou pelas mãos do desespero se ele não conseguisse provas
conclusivas para condenar o tal de Ialdo Brialdo, “maldito seja ele por estar nos fazendo
passar por isso!”, imprecava Bogomil.

Ele não concebia nem que uma prova que pudesse arranjar poderia prová-lo ao
contrário inocente. Era inconcebível! Um homem que no desfrute de sua boa vida de
nobreza e regalias, que havia fornicado como uma cortesã e a exibido estupidamente
pelas rodas da realeza a tiracolo como prêmio por sua riqueza herdada, esse homem era
um criminoso, um assassino, era o que Bogomil pensava enquanto ganhava terreno
pelos corredores do templo da Luz Serena rumo aos andares de cima do prédio da
administração, onde se enfurnavam os altos sacerdotes da seita administrando tudo e
tomando suas decisões. Ela agia como as certezas fazem as pessoas agir.

Dez maldições e onze imprecações depois ele já havia chegado à área restrita onde
uma burocracia hierárquica mágica começava a dominar o espaço da construção.
Secretárias, mensageiros, mesas, portas, agendas começavam a se dispor no caminho de
Bogomil, ele já podia ver ao fundo do corredor.

“Onde está um bom feitiço de invisibilidade e de hipnose quando precisamos dele?”


pensava Bogomil geniosamente criando táticas de brincadeira na cabeça para chegar aos
seus objetivos. Resolveu compenetrar-se e ir em frente com uma seriedade que nunca
teve e nunca respeitou, pois ele acreditava que o mundo deveria ser descontraído e com
a beleza da poesia dominando as relações entre as pessoas em vez da moral carrancuda.
O que as certezas não fazem a um homem?!

Agora ele teria que ser sério como a filosofia de vida e alegria dos ensinos da Luz
Serena não instruía. “Aprende-se isso na marra quando os acontecimentos finalmente te
dizem que é hora!”, reconheceu já diante da mesa da secretária geral do escritório
administrativo da seita.

- Por favor, eu gostaria de falar com o Mago Mopso. – comunicou da forma mais
calma o possível à secretária. O Mago Mopso era um alto sacerdote da seita, sempre

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disponível, ele fora professor de Bogomil em Sigilos Mágicos, e eles tinham muita
simpatia mútua, apesar de fazer muito tempo que não conversavam particularmente.

Bogomil apelaria para ele em seu plano por ser o mais acessível do alto-sacerdócio a
ouvi-lo. Era seu começo e esperança. Bogomil só rogava secretamente que a secretária
não quisesse saber os motivos do assunto, mas depois que ela perguntou, a resposta que
lhe veio à mente lhe deixou até satisfeito.

- É questão de vida ou morte! E é particular! – “claro que é particular idiota!”, ainda


pensou, afinal quem não entenderia que uma questão de vida e principalmente de morte
não seja sequer um pouco particular?

Bogomil agradeceu mentalmente pela secretária concordar com ele e não fazer mais
perguntas, além de qual seria o nome dele, antes de se levantar e passar por uma porta
para depois de demorar alguns minutos retornar.

- Mago Bogomil, o Mago Sacerdote Mopso irá falar com o senhor depois do jantar no
salão de jogos. – disse-lhe polidamente a secretária com a voz de “assim será” tão bem
treinada em anos de atuação de seu cargo de confiança. - Disse para o senhor se manter
vivo até na hora do jogo de baduk! – emendou com toda a mensagem que o Mago
Mopso lhe disse cheio de gaiatice atrás das portas ali para dentro.

O Mago Menor, era essa a qualificação de Bogomil na hierarquia da seita, fez a cara
de decepção que pôde para germinar um sentimento de remorso na secretária no caso de
alguma morte ocorrer, mas estava feliz de ter conseguido uma audiência informal tão
rápido, podia ser pior e ele ter que cogitar apelar para outro membro do alto-sacerdócio,
o que só iria complicar sua tarefa.

E assim ele teria mais tempo para pensar no que dizer ao seu superior que havia
concedido-lhe certa honra de ter acesso ao salão onde os superiores se reuniam para
disputar jogos de tabuleiro, queimar incenso e tabaco, e trocar idéias, aliás, ele estaria
no meio da alta cúpula da chefia da seita, não podia querer lugar melhor para pedir a
autorização para a aventura desesperada que queria empreender. Ou lugar pior! Afinal,
uma questão particular como aquela seria tratada no ambiente em que ela se tornaria
bem pública e notória, tornando-se motivo de piada ou pior ainda, de uma severa
admoestação.

Bogomil saiu do escritório e foi munir-se de argumentos e informações para não ser
motivo de piadas então.

16 - A filosofia da viagem no tempo

Bogomil passou o resto da tarde na grande biblioteca do templo procurando o que


estaria disponível ali sobre o feitiço que ele queria executar.

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Procurando ele descobriu que estava realmente sem muitos recursos que pudessem
enriquecer seus argumentos para ser levado a sério, ele nem se lembrava o nome correto
daquele feitiço.

Um glossário de feitiços lhe lembrou afinal que na literatura da Luz Serena aquele
feitiço era referido como “O Grande Feitiço do Tempo”, e que seu nome técnico
original era “Feitiço do Decágono Paradoxal”, e aquele nome estranho, como poderia
parecer a um leigo curioso, tinha um significado maior e muito profundo na ciência da
feitiçaria.

Assim como “uma serpente debaixo de uma roseira” se referia ao ensinamento que
uma rosa tinha para as pessoas, e o réptil representava justamente que os mistérios da
flor e do espinho poderiam ser passados e entendido por quem observasse aquelas
imagens iluminando ou destruindo, o Decágono Paradoxal exigia um esforço mental de
percepção que só era revelado quando se aprofundasse na teoria do mistério.

Cruzando referências consultadas Bogomil encontrou a obra definitiva a se consultar


para se inteirar no básico sobre o assunto. Depois de se orientar ele pediu a bibliotecária
um livro da coleção de referência que era guardado à parte, pois ele não poderia levá-lo
da biblioteca, tendo que o ler ali dentro.

O livro tinha o insinuante título de “Clavicula Ætemporalis: A Filosofia da Viagem


no Tempo (Teoria & Prática)”, e apesar do titulo referindo-se à filosofia, o tomo falava
sobre a história do feitiço e as reflexões a respeito do assunto que tal feitiço havia
gerado nos meios intelectuais e mágicos da seita. Era o que ele precisava de início.

A obra explicava inicialmente que a ciência da viagem no tempo deve começar a ser
abordada e entendida pelos paradoxos que ela pode gerar, desde a forma de se executar
o feitiço para realizar tal ato até as conseqüências nefastas que uma ação desta,
preparada e executada de forma irrefletida, poderia gerar no seio da realidade. A obra
em suma abordava principalmente como que, ao longo dos anos, os magos encaravam a
viagem no tempo.

Como o nome do feitiço revelava desde o inicio, a operação se baseia em conceitos


geométricos para entender de um ponto de vista minimamente mágico, como opera a
magia naquela situação, como a coisa funciona. Mas entrava também na nomenclatura
um conceito revelador, para quem o soubesse ler.

E a revelação básica do nome era já uma charada mágica a se decifrar para o estudioso
curioso, e sabe-se lá o que seria, para o praticante efetivo do feitiço.

O “Decágono Paradoxal” era assim chamado justamente porque a execução do feitiço


gira em torno de que um decágono que tenha onze lados seja criado astralmente no
campo de operação. Então o paradoxo daquele decágono era que, de forma mágica no
ambiente astral requerido pela magia, ele era ao mesmo tempo um hendecágono. Isso se
dava, explicava-se na parte introdutória do livro, porque no ritual de execução do
feitiço, promovido por dez participante, haveria um decimo primeiro membro, que era

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justamente aquele que seria lançado no tempo. Estando e não estando ali no momento
de sua efetivação.

A isso tudo o livro se referia sem entrar em pormenores sobre a execução estrita do
feitiço. Aquela informação era restrita e estava exposta em obras só disponíveis de
acesso aos sacerdotes superiores da seita, e ao zelo de uma ordem interna de sacerdotes
superiores constantemente composta para os fins de execução do feitiço chamada a
“Ordem do Decágono”.

Tal ordem interna era na verdade uma junta de pessoas esclarecidas a respeito do
feitiço em questão, que eventualmente se reuniriam de forma extraordinária em uma
ocasião necessária à concecução do mesmo. Ou seja, eram membros da seita que teriam
recebidos instrução para lidar com tal operação.

Passado por essa parte da leitura, o livro começava a versar sobre caracteristicas de
implicância filosófica do feitiço, explicando que não havia outra abordagem do assunto
que pudesse ser mais esclarecedora. Era assim, filosoficamente, que “teoria e prática” se
apresentavam ao leitor, sendo que o lado puramente mágico do feitço era parte da
referência, digamos, secreta, conservada pela tal “Ordem do Decágono”.

“Primeiro”, o livro que Bogomil tinha em mãos enunciava de forma


sensacionalista, “quando você começar a cogitar o uso de tal
feitiço, saiba que uma série de eventos paradoxais já foram
desencadeados à sua volta. Esses eventos paradoxais é o que
poderíamos definir como „metarrealidade sincrônica‟, onde
as implicâncias dos efeitos relativos a uma viagem no tempo
passam a fluir...”. Se aquilo era para assustar os curiosos faria um efeito
contrário, pensou ele ao ir lendo, não deixando de reparar a confusão que ali já
começava a enunciar aquele feitiço.

“Segundo: fique avisado o pretendente à „cronosnauta‟...”,


era esse o nome técnico do viajante no tempo, “que isso se trata de magia
dos sonhos, e como para se operar magia dos sonhos se
necessita uma grande carga de energia onírica disponível no
âmago do mago, ele deve começar a atentar quando a sua
realidade começar a se confundir com seus sonhos noturnos,
com visões produzidas pelas substâncias expansivas, ou
processos de mentalização afins que o mago costuma fazer
uso na prática de seus poderes.” Isso sim causou arrepios em Bogomil,
o livro conseguira chamara sua atenção para algo que acontecia à sua volta, e ele sentiu
pela primeira vez que podia perceber certas energias serem movidas em torno dele
desde que aquele dia raiou e ele pulou sem ar da cama. Um estado de espírito alterado
começava a tomar conta de sua atenção.

Durantes seus anos de treinamento mágico básico Bogomil aprendeu que devia
sempre dar atenção às sincronias, não devia desmerecer sonhos, e principalmente devia

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observar o desenrolar de fatos importantes com o respeito quando eles começavam a se
concatenar em uma direção, pois era muito provavelmente ali que a serpente na roseira
ia dar seu bote, e a gnose, a iluminação, iria se revelar.

Esses processos de pensamento eram o básico que uma pessoa tinha que aprender a
detectar quando se torna um mago de verdade.

Bogomil então nutriu-se do sentimento de respeito que devia ter naquela situação,
pois era isso mesmo que o apelo de Bel implicava envolvendo ele, e leu interessado as
próximas páginas daquele livro, o “Clavicula Ætemporalis”.

17 - Uma dança louca no tempo

“Quando se trata de viagem no tempo, lendas e fatos servem


como importante material para reflexão. Os registros de
como esse feitiço foi tentado anteriormente, nas raras
vezes em que foi usado, registrados nos anais Superiores e
Secretos da Luz Serena, contam primeiramente sobre a junta
de Mestres dos Magos que executara o Feitiço do Decágono
Paradoxal no intuito de testar a eficácia do feitiço.

A primeira vez que o feitiço fora executado pela Luz Serena


foi justamente no intuito de provar sua eficácia, afinal de
que serve um poder teórico? Ele deve ser posto em prática e
testado, para então passar de uma simples alegoria de poder
para se tornar poder efetivo.

...

Esse feitiço já estava de posse de nossa seita há muito


tempo. Inscrito em um pergaminho de couro. Este pergaminho
poderá facilmente ser reconhecido em sua antiguidade e
mistério ao se pôr os olhos nele.

Ele se trata de um objeto primitivo, talvez composto um


antiqüíssimo xamã que um dia, escalando sua „Árvore do
Mundo,‟ sonhou com tal operação mágica. Sem saber
exatamente do que ela tratava, o xamã a gravou com pedras
pontiagudas quentes no coro de bisões extintos e o guardou
para esperar por tempos onde os homens pudesse novamente
barganhar com os deuses oníricos e obter mais informações
sobre o processo ali descrito.

Assim ocorreu e chegou até nós. Não temos registrados os


meandros de tal caminho, mas um dia estava em nossa posse
esse pergaminho original que vinha enrolado em outro

53
pergaminho com estilo diferente onde detalhava com nosso
Alfabeto Sagrado do Desejo o „Feitiço do Tempo‟ que depois
passou a ser conhecido como „Feitiço do Decágono
Paradoxal‟.

...

Cerca duzentos e cinquenta anos atrás, no intuito


científico de confirmar definitivamente a eficácia do
feitiço, pois nada sobre isso nunca havia sido relatado
antes dentro de nossa Sagrada Seita, foi organizada sua
execução.

Refletindo sabiamente sobre a natureza da operação de


viagem no tempo, certos preparativos teriam que ser
previamente organizados.

Assim foi construído na parte inferior do Templo Principal


da Luz Serena uma ala restrita composta de uma seção que
comportava um salão com uma sala adjacente. A esse salão
chamado „Salão Sempiterno‟ posteriormente fora acrescido
mais uma sala de acesso a um túnel ligando à floresta
exterior ao templo. Todas essas construções existem até
hoje e são parte da ala sul do templo, e cada uma teve seu
motivo para serem construídas e mantidas como são. O zelo
superior e a precaução foram inaugurados no seio de nossa
seita no momento em que concebemos ser possível nos
lançarmos no tempo.

Essas salas permitiriam se realizar o teste do feitiço e


todo o suporte material posterior que se necessitaria para
os tempos futuros na execução da operação. Ela visava
dispor de um espaço físico em determinado local onde o
cronosnauta estaria sempre atuando.

...

A descrição da primeira viagem no tempo nos permitirá


entender melhor porque foi feito dessa forma a construção.

Aconteceu assim: dentro do salão maior previamente


preparado, cinco horas antes da realização do feitiço não
se podia entrar mais ninguém naquele recinto, então duas
horas antes do momento crucial da viagem no tempo pelo
cronosnauta designado para a missão (que iria retornar
quatro horas ao passado), um grupo de onze pessoas
adentraram naquele salão levando todos os objetos

54
necessários para a execução do feitiço que se resumem à um
espelho especial, tochas para a iluminação do ambiente e
incensórios munido de material especial para queima
previamente preparado, assim, trancando o salão por dentro,
realizaram o requerido ritual gravado nos antigos
pergaminhos com sucesso.

Porém, „as implicâncias dos efeitos relativos a uma viagem


no tempo‟ já haviam começado a atuar quatro horas antes de
eles terem terminado de realizar com sucesso o feitiço.

Podemos relatar esse paradoxo esclarecendo que três horas


antes do final do feitiço o cronosnauta lançado havia
chegado aquele salão vazio e se dirigido para uma das salas
adjacentes, cerrando a porta e lá permanecendo. Ele passou
as próximas três horas copiando para um caderno o texto de
um livro que havia sido depositado ali antes.

Quando chegou o momento em que os magos terminaram o


feitiço e aquele outro mago desaparecera diante dos olhos
dos outros dez magos, em meio à uma nuvem de fumaça de
incenso, o mago cronosnauta que estava na sala adjacente
ouviu uma batida na porta, destrancando-a e saindo de lá de
dentro onde copiara diversas páginas do livro que tinha lá
dentro, confirmando que ele passara lá dentro cerca de três
horas.

O „Feitiço do Decágono Paradoxo‟ o lançara de volta ao


passado três horas com eficiência e segurança. O feitiço
funcionava.

Os sábios da Luz Serena estavam satisfeitos então, tinham


uma poderosa arma em seu poder.

...

Aquele poder requeria ser controlado com precisão. Tal


coisa necessitava de regras bem rígidas de uso, e foi sobre
isso que os sábios se debruçaram a partir de então, afinal
todo grande poder só é benfazejo quando um outro poder
maior atua sobre ele, para que ele se torne domínio e não
força descontrolada.

Criou-se então uma agenda de atuação para o cronosnauta que


devia ser observada sob juramentos sagrados. Esta agenda
controlava o campo de ação dentro de uma viagem no tempo ao

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passado. E essa agenda comportava uma linha severa de atos
a serem executados.

Veja as linhas de sucessão dos fatos para melhor entender


os procedimentos que a agenda exigia:

1- Lança-se o Feitiço,

2- O cronosnauta retorna no tempo e executa sua tarefa que


comporta duas fases:

a- contata o membro da Ordem do Decágono que fora


previamente indicado e informa sua missão,

b- executa a missão (que deve se limitar a ser levar uma


mensagem ou observar um fato, nunca interferir em nada
diretamente),

3- O cronosnauta será levado ao isolamento até que se


chegue o momento de seu lançamento (sendo liberado nos
minutos posteriores de realizado o feitiço).

...”

Bogomil continuava a leitura, afoito em sorver nas poucas horas que lhe restava para
audiência casual com o Mago Mopso, conhecimentos que lhe dessem uma base comum
na hora de argumentar.

Mas o que ia lendo enchia sua mente já de dezenas de dúvidas e implicações sobre a
implicação e realização de tal feitiço. Com esforço para se concentrar na leitura e deixar
de lado os fatores que por si só já deviam causar pesadelos diurnos em qualquer um, ele
seguiu no estudo daquele livro.

18 - Uma contradança hilária

“...

A construção do salão vedado da Ordem do Decágono foi


edificada se meditando sobre as implicações que o fato de
uma viagem no tempo constituiria, e apesar do feitiço dizer
da possibilidade de se saltar no tempo para qualquer
direção, os sábios da Luz Serena, através de muitas
indicações que conseguiram através de meios mágicos chegara
a conclusão que só seria viável e permitido a viagem rumo
ao passado.

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Era, pois estritamente vedado se lançar ao futuro no tempo
para que não acontecesse um choque nos acessos de saltos,
era o que os Mestres Astrais em contato com nossos médiuns
admoestavam. E a Ordem do Decágono tinha isso como uma das
premissas veladas em relação à operação da viagem no tempo.

É mister evitar que um cronosnauta do futuro retornando ao


passado se choque com um cronosnauta do presente que queira
se dirigir em direção ao futuro. A mecânica mágica da
viagem no tempo revelada pelos Mestres Astrais ensinava que
o canal de transporte temporal é uma espécie de constructo
natural da realidade que fora denominado “Campo
Unidimensional da Realidade”, e essa linha só pode ser
ocupada por um individuo de cada vez e a direção temporal
na qual ele viaja, assim como a água em uma vala só pode
correr em uma direção de cada vez.

Assim não sabendo o que se dá no futuro, devemos ter o


compromisso de deixar o canal aberto somente em uma
direção, desta forma a Ordem do Decágono da Luz Serena
concluiu que o melhor seria sempre se usar o poderoso
Feitiço do Decágono Paradoxal na direção de retorno no
tempo. Não há fatos pensáveis possíveis que justifiquem uma
viagem no tempo rumo ao futuro.

Para isso a Luz Serena usa estritamente meios de


divinização ditos comuns.

Curiosamente, entretanto é esse sentido de retorno que é


paradoxalmente mais perigoso nas conseqüências erradas que
uma viagem no tempo possa causar, mas é garantindo esse
sentido do tráfego intertemporal que podemos evitar muitos
outros paradoxos que surgiriam se o cronosnauta que se
lançou ao passado quisesse retornar ao seu ponto de
lançamento outra vez usando o feitiço.

Por isso mesmo o cronosnauta só pode retornar ao presente


usando o outro único modo conhecido de viagem no tempo além
do Decágono Paradoxal, que é viajando „um dia de cada vez‟.

...

Outras providências sérias foram tomadas como protocolo


para o lançamento no tempo ao passado.

O cronosnauta deveria ser uma pessoa de total confiança e


fidelidade comprovada às normas estabelecidas. Quando

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depois de retornar no tempo e executado a tarefa que ele
deveria executar, a Ordem do Decágono deveria proceder na
tarefa de seu retorno ao presente no tempo. O cronosnauta
deveria permanecer cativo e isolado de todo contato com o
mundo exterior a não ser pelo contato com membros da Ordem
do Decágono que zelaria por sua integridade no tempo de sua
detenção.

Esse fato por si propõe que uma viagem no tempo deve ser
executada tendo em vista um lapso de recuo no tempo curto
para se evitar o ônus de preocupação dos sacerdotes da
Ordem do Decágono incumbidos nessa tarefa, também para da
melhor forma se preservar a integridade física e mental do
cronosnauta.

Essa medida se faz necessária para evitar o contato do


cronosnauta com a sua existência pretérita. Crê-se por
inferência que tal evento não seria aconselhável nem
moralmente e nem tecnicamente, pois geraria uma série de
paradoxos de caráter operacionais para própria viagem no
tempo daquele individuo. Não será preciso me alongar em
demonstrar o que se passaria na cabeça de tal cronosnauta
se soubesse já previamente que em tal dia ele iria retornar
no tempo e os paradoxos aí implicados.

O resultado mínimo disso seria a criação de paradoxo tal


que resultaria na realização de tal lançamento e loucura
seria o diagnóstico mais brando com o qual o cronosnauta
teria que lidar.

Mas isso gerou outra questão paradoxal. A questão de uma


autorização presente para se retornar ao passado.

O paradoxo dessa vez é simples. A Ordem do Decágono deveria


autorizar a execução do feitiço apenas se o cronosnauta a
ser lançado já tivesse sido lançado no passado. Isso porque
o cronosnauta já estaria no poder de detenção da Ordem no
depois que entrou em contato para realizar sua tarefa. Ou
seja, pelos parâmetros irrevogáveis da Luz Serena só se
volta ao passado se você já retornou ao presente. Entenda
aqui „presente‟ como o „passado‟, que é o presente que já
se foi.

O fato paradoxo é que no momento do ato 1, da referida


agenda acima, o cronosnauta já realizara a muito tempo o
ato 3 do protocolo agendado, na verdade o ato 3 seria então
a premissa para se realizar o ato 1.
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Não posso deixar de exprimir aqui o caráter até anedótico
da viagem no tempo pelas implicações dos paradoxos que ele
gera já de início.

A piada é que se retornou no tempo por que se retornou no


tempo.

...”

- Rá rá rá! Estou rindo seu cretino! – berrou Bogomil cinicamente, como se referindo
ao autor do livro, um tal Mago Edonn. Disse-o em voz alta no salão da grande
biblioteca, perdendo aquela outrora requisitada aura de respeito à situação.

Bogomil interrompera a leitura. Aquilo já enchera seu estoque de desvarios. As coisas


iam se complicando e ele perdera todas as esperanças de realizar aquela proeza. Uma
centena de implicações pululava em sua mente cansada, e eram implicações profundas.

Ao ler só aquelas primeiras páginas do calhamaço de mais de quinhentas ele tomara


noção do que realmente implicava a realização daquele feitiço. Ele não queria pensar
em nada. E pensar só que não conseguiria nada com um pedido para aquilo era melhor
do que imaginar que ele naquele momento deveria estar isolado em uma cela em algum
lugar que não sabia onde, esperando o momento de ser liberado para continuar a sua
vida.

Mas não consegui deixar de imaginar. Se isso fosse possível, se um dia realizara o
salto no tempo no intuito de fazer o que queria, significaria dizer que ele deveria
retornar os três anos no passado, época do sumiço de Sheila Hagia. Bogomil
concentrou-se em evitar uma praga contra a cortesã e assumiu outra linha de
pensamento, enfim, primeiro faria o que tinha que fazer primeiro, conversar com o
Mago Mopso depois do jantar. Prosseguiria assim no seu plano sem desvios ou
distrações, era isso que o compromisso com Bel exigia.

Ele devia ser um homem sem ponderações inúteis, sua situação era critica ao nível
paradoxal, pensou gracejando. Fechou o livro e foi comer.

19 - Um jogo que se perde sem jogar

Depois do jantar Bogomil rumou ao salão reservado ao alto-sacerdotes, seu acesso já


estava liberado.

Ao entrar no salão Bogomil divisou a presença de diversos dos altos-sacerdotes da


Luz Serena, só isso já lhe embrulhara o estomago cheio ao caminhar até a poltrona vazia
onde do lado oposto da mesa com um tabuleiro de baduk o Mago Mopso o esperava
fumando um charuto, sem prestar atenção na chegada de Bogomil.

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O Mago Menor sentiu a atenção dos outros Alto-Magos voltada para ele, apesar de
não ser anormal a presença de membros da seita de postos inferiores ali, o fato era
sempre visto de forma gaiata pelos superiores. Faziam isso não por maldade, mas pela
experiência que denotava que quando um neófito, um leigo ou um Mago Menor
entrasse ali, seria para desafiá-los nos jogos ou proporcional outro qualquer
entretenimento cultural, coisas desse tipo.

Rumou Bogomil rápido e de cabeça baixa direto ao lugar onde o Mago Mopso estava,
sem dispensar vênias a nenhum outro sacerdote no local. Cumprimentou o Mago Mopso
com o devido respeito e atendeu ao cordial pedido dele para ir se sentando.

Enquanto seu superior pegava as pedrinhas para iniciar o jogo perguntou a Bogomil se
ele conseguia “falar e jogar ao mesmo tempo?”, em uma atitude para descontrair o
subalterno.

Bogomil sentiu-se fraquejar, um nó na garganta queria prender-lhe a fala, engoliu


seco. Seria melhor ser direto, e foi o que fez.

- Mago Mopso, o senhor é membro da Ordem do Decágono? – pronto! Não podia ser
mais direto levando em conta tudo, era um bom início de conversa, era o que já havia
tramado antes quando se encaminhava para encontrar o superior.

Mopso automaticamente mudou seu estado de atenção. Como um mago experiente, já


se revelara na mente dele o teor do pedido para conversar de Bogomil. Mas deveria
ponderar também, e levando em conta os diversos interesses que a pergunta direta de
Bogomil poderia querer sugerir, ele segui dando o primeiro lance no tabuleiro, curioso.

Quando percebeu que o mago menor não fez menção de jogar na sua vez, ele
considerou uma certa seriedade na pergunta de Bogomil. Decidiu ser didático.

- O que você quer saber meu rapaz? Está estudando o Grande Feitiço? – perguntou
enfim.

- Senhor, desculpe pela insolência, mas eu tenho que ser direto nessa situação. –
declarou Bogomil tentando parecer o mais são que pudesse para evitar que o alto
sacerdote não o levasse a sério.

Diante do silêncio de Mopso que enfim esperava que ele dissesse direto e rápido o que
queria, Bogomil seguiu.

- Senhor, o caso é este, existe uma pessoa que amo muito. Há dias e ela me pediu
ajuda mágica para provar a culpa de Ialdo Brialdo no assassinato de Sheila Hagia, e ela
jurou-me hoje nesta manhã que irá se suicidar para protestar contra o inocentamento
iminente dele. – Bogomil era apenas um canal por onde fluíam aquelas idéias, ele falaria
tudo até o final, depois deixaria para o superior o julgamento que lhe cabia.

- Então, diante disso senhor, e sabendo que qualquer meio de adivinhação disponível é
ineficaz nesse caso, eu só pude pensar no Feitiço do Decágono Paradoxal como forma

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possível para ajudar... – ele vacilava e riu, mas continuou. – Eu sei senhor, que é
loucura, mas não vejo outra forma de salvar a vida dela... – começava a demonstrar na
voz um tolo desespero. – Ela anda muito transtornada nos últimos dias, emagreceu, está
em profunda depressão, comprou venenos, e eu temo pelo que pode vir acontecer com
ela.

Mopso ouvia-o compassível, sério e pensante. Mas o que ele estaria pensando? O que
analisava na fala de Bogomil?

Finalmente, com Bogomil calado, parecendo que tinha dito tudo que queria dizer, mas
o que não era verdade, Bogomil apenas caíra em um estado onde a situação toda revelou
a si mesmo o absurdo que estava fazendo-o calar, mais por vergonha enfim do que por
não ter o que dizer.

Continuando então com a mente didática, Mopso falou a Bogomil.

- Meu filho, você faz noção do que está sugerindo, do que está propondo como
solução para este problema que está me contando? – falou calmamente.

- Senhor, eu faço idéia sim! – declarou Bogomil com humildade, ele sabia.

- Você não faz sequer idéia meu filho! – retrucou Mopso. Bogomil sentiu aquelas
palavras como um golpe de lucidez que às vezes a vida nos dá, quebrando nossas mais
profundas e doces ilusões.

- Você deve ter estudado sobre esse feitiço? – perguntou Mopso ao que Bogomil
respondeu com um sinal afirmativo tímido à pergunta do superior, sentia lágrimas
avisando a manifestação em seus olhos.

- Então, se você estudou seriamente sobre o feitiço você deve saber que ele foi até
hoje usado duas vezes no seio da Luz Serena. Uma para comprovar sua eficácia, a outra
vez você nem sabe por quais motivos, provando a seriedade de tal operação mágica.

Mopso era certeiro. Bogomil sabia por estudos no passado que “como rezava a lenda”,
o feitiço fora usado uma só vez em uma questão de poder dentro da seita, mas não havia
informação pública sobre o que se passou na missão, era por questões de extrema
segurança que tal fato ficasse no reino das lendas, pelas implicações que o uso de tal
feitiço pudesse ter na manipulação da realidade do mundo.

O Mago Mopso raciocinando rápido contornou habilmente todo um sermão que devia
passar em seu subalterno para se dirigir à questão prática da situação revelada por
Bogomil.

- Me diga mago Bogomil... – essa reverência mostrou a Bogomil que a conversa


encaminharia para questões práticas e realistas. – Quem é essa mulher?

- É Bel Arox, senhor. – disse como se compartilhasse um segredo. Bogomil pode


perceber a sutil mudança no brilho dos olhos do mago Mopso. O que ele estaria

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prevendo? Será que havia uma pequena chance de se conseguir algo? Ou será, como
Bogomil achou enfim que o seria, que agora Bel, sua amada Bel, passaria para os
cuidados e zelos particulares do seu superior naquela questão toda? Só podia ser, ele, o
mago Mopso iria querer ver a princesa, iria ser seu conselheiro, seu médico da alma na
questão. Era aquilo, ele perderia Bel, como conselheiro, como confidente e como
possível amante.

Raciocinando sabe-se lá o que, o mago Mopso tornou.

- Então a Princesa Bel... filha do irmão de nosso rei... tem este tipo de...
preocupação!? – foi dizendo Mopso ponderadamente como se jogasse mentalmente no
tabuleiro de baduk suas peças. Bogomil se sentia de certa forma impotente. O que se
passava na mente do alto-sacerdote?

- Ela disse que irá se matar? – Mopso perguntou com certa entonação de incredulidade
e espanto. – Por que ela se importaria com isso? Com a justiça a respeito do caso de
uma cortesã? – agora ele queria resposta de Bogomil.

Bogomil foi o mais límpido que pode.

- Senhor, Bel tem um coração puro, cheio de amor pela vida, cheio de preocupação
com os mais fracos, com as injustiças do mundo... - e resolveu trazer o jogo para o lado
do tabuleiro que pudesse explicar o porquê ele estava fazendo o que estava fazendo. – E
tenho certeza, observando seu estado nos últimos tempos, que ela seria capaz de
cometer a tolice que disse que fará. Ela está em profundo desespero!

Apesar de a conversa de Bogomil estar fluindo diretamente com Mopso, Bogomil no


calor da interpolação baixou a guarda sobre a certa privacidade que aquela conversa
deveria ter, e não foi sem surpresa o assalto o susto de ver uma terceira pessoa entrando
na conversa.

Acontece que ali na poltrona ao lado, a menos de metro e meio de distância, um outro
alto-sacerdote de nome Lucano ouvia a conversa enquanto bebia seu licor e fumava em
seu narguilé.

E na posse de uma embriaguez volúvel causada pelo licor e pelo fumo, entrou sem
meandros na conversa, expondo uma assertiva no mínimo contundente que desarmou de
vez a Bogomil.

- Meu rapaz... o fato de você não ter êxito nessa sua proposição... se revela pela
realidade de o senhor não estar detido nos porões de nosso templo! – foi o que falou
sem rodeios e com a inconseqüência dos bêbados ou daqueles que sabem mais que os
outros. Depois disso voltou ao seu mutismo contente por ter ajudado tão diretamente a
resolver o resultado da “partida de baduk” que se desenrolava na mesa ao lado onde
Mopso e Bogomil “jogavam”.

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Bogomil era um fantasma no salão de jogos dos alto-sacerdotes. O mago Mopso podia
olhar através dele e enxergar a transparente cadavérica decepção que tomara lugar de
sua carne e espírito.

O mago Mopso vendo se desfazer a linha de raciocínio que ele queria conduzir para
finalmente propor a Bogomil uma forma mais plausível de ajudar a princesa Bel, ficou
impassível e chateado pela intervenção do sacerdote vizinho, que com suas palavras
havia comunicado a quem tivesse ouvidos para ouvir muitos segredos velados que não
deveriam ser assim rusticamente, à toque de eflúvios alcoólicos, revelados.

Se Bogomil não fosse um fantasma então, ele poderia raciocinar que havia celas para
isolamento de cronosnauta, havia então sacerdotes que sabiam sobre uma agenda de
procedimento para eles, então havia mesmo a Ordem do Decágono, e havia a
possibilidade de se ajudar conclusivamente com magia à sua amada Bel.

Mopso ponderava tudo isso, afinal ele não era um fantasma ali. Agora ele queria mais
do que antes ser um bom conselheiro para o mago menor que viera pedir ajuda, ele
queria também o bem estar da princesa que fora posta em questão naquele caso, e ele
estava começando a querer pôr fim naquela partida de baduk.

Bogomil, juntando forças para sair da cova de seus pensamentos nulos e voltar
dignamente ao mundo dos vivos começou mexendo a cabeça para lá e para cá sobre seu
pescoço fantasma.

Qual deviam ser as palavras? O que devia argumentar? O que falar depois de ouvir a
certeza contundente da ausência da presença de uma incerteza paradoxal que
comprovaria de uma vez por todas sua razão, razão que não tinha mesmo. Como ele não
pensara nisso? Como não estava preparado para aquele lance do jogo depois de tudo o
que lera a respeito de tal feitiço?

O fantasma olhava para Mopso constatando verdades profundas que se revelam em


um salão de jogos depois do jantar. Se ele houvesse entendido a abrangência do caso, na
biblioteca teria desistido de vir falar com o seu superior, qualquer que fosse o contrário,
ele seria recebido de imediato em seu escritório quando o procurou no começo da tarde,
ou se tivesse um fio de esperança no que propunha ao cogitar a viagem no tempo, quão
diferente não teria sido sua entrada ali naquele salão de jogos diante de todos aqueles
alto-sacerdotes, os quais alguns deviam participar da Ordem do Decágono, para ser
reconhecido ali de imediato como o cronosnauta que vinha ter com eles para pedir para
se executar o feitiço que o faria voltar no tempo?

Mas ignorou tolamente ponto por ponto cada fator que deveria observar e assim
apenas ter jogado aquela partida de baduk trocando idéias banais com o mago Mopso.
Ele ignorou sua própria fé na possibilidade que havia arquitetado para ajudar Bel. Não
pôs sua mente de acordo com as “implicâncias dos efeitos relativos a uma viagem no
tempo” e desdenhou dos poderes da Luz Serena ao tocar inocentemente como o fez
naquele assunto.

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É claro, ele não ponderara sobre nada daquilo por que não tivera tempo, e porque
estava apaixonado. O fantasma se agarrou àquele argumento para voltar à vida, sua
paixão.

Aquele mutismo fantasmagórico já durará demais, “vamos encerrar o jogo”, pensou


Bogomil retornando do reino dos mortos.

- Eu... só queria ajudar Bel... – foi falando mediunicamente enquanto se materializava.


– Eu só queria... fazer com que ela me amasse... como ela prometeu-me. – foi dizendo
mais para si do que para explicar ao seu interlocutor suas razões, seus erros de avaliação
de uma “metarrealidade sincrônica” que não se desencadearam, distorcendo até a
posição da própria Bel, afinal fora ele que propusera barganhar amor em troca de ajuda,
e não Bel que propusera ajuda por amor.

Ele fazia um esforço para reviver a força daquela coisa mais importante de sua vida
que compartilhara com Bel mais cedo, mas agora só tinha na mente o som efêmero do
trovão que se perdera.

Mopso observando aquela ruína ressurreta que era Bogomil, enfim resolveu dar um
fim ao show que assistia, o lance final no jogo.

- Mago Bogomil, amanhã de tarde traga a princesa Bel a meu escritório para nós três
conversarmos. Eu sei que o Verdadeiro Deus nos ajudará nessa situação muito mais do
que qualquer feitiço. – foi o mais simpático que conseguiu dizer como aquela situação
passaria a se desenrolar dali para frente. Mopso tinha ainda obrigação de manter seu
mago menor ativo, por isso disse em seguida. – Você agiu dentro de sua esperança e na
fé que você tem na Luz Serena meu filho, não se abata, vamos resolver esse problema.

Mopso emendou aquilo porque lhe preocupava, mesmo sem saber com que
profundidade, com a integridade de uma princesa, principalmente se ela fosse tão
próxima ao rei. Ele devia, em suas atribuições sacerdotais, zelar de perto para que nada
de ruim e irreversível acontecesse a uma nobre que implicasse descaso da seita que
dirigia com relação a ela.

Bogomil se levantou então e despediu-se do alto-sacerdote carregando consigo um


misto de decepção e esperança. Pensando melhor enquanto se dirigia à saída do salão de
jogos rumo a seus aposentos, ele viu que havia chances de o mago Mopso vir ajudar a
ele e a Bel sem qualquer atitude radical como uma viagem no tempo.

Afinal, sabedoria servia para isso também. Uma conversa franca poderia ajudar Bel a
ser dissuadida de qualquer ato radical como uma viagem sem volta para o mundo dos
mortos.

O fato era que então ele não poderia contar com o “amor eterno” dela, pois amanhã a
tarde ele daria a ela, não provas irrefutáveis de um crime, mas lhe daria um conselheiro
espiritual superior a ele para conversar. Mas pondo um pouco de lado o egoísmo que se
revela naqueles seus pensamentos, Bogomil ficou feliz por então poder de alguma

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forma ajudar Bel, e pelo menos não tendo sua paixão correspondida, poder viver com a
certeza de que ela não fosse um fantasma real a lhe assombrar.

Distanciando-se do salão de jogos, onde lá dentro o alto-clero de sua seita estava


preocupado apenas com diversão de tabuleiro e jogos banais de cartas, Bogomil não
pode deixar de sentir uma sensação de estar penetrando noite adentro em grande solidão
e desamparo, e com ele levava a lembrança da mulher que amava e praticamente, ao se
ver assim, não podia deixar de sentir que a enganara em sua confiança.

20 - Vida breve, sono dos justos

Bogomil estava exausto.

Parecia-lhe que naquele dia ele tivesse enfrentado uma batalha contra um deus
poderoso que o jogou em um remoinho espaço-temporal onde ele fora do céu ao
inferno, do presente ao passado, e depois de virá-lo ao avesso, lançou-o de volta do
inferno ao mundo, e do passado ao futuro, o qual era agora o seu presente e às coisas
quais que tinha que lidar e constatar na tragicomédia em que se envolvera desde que
acordara de manhã.

Precisava dormir para descansar, precisava apagar a tocha do fogo que o consumia e
repousar nas cinzas esvoaçantes do sono justo.

“O que Bel estaria fazendo naquele momento?” Ele pensava. Estaria dormindo no seu
tormento flamejante, consumida no fogo da tragédia que estava tão fortemente propensa
a instalar.

Chegando a seu pequeno quarto na ala dos alojamentos para os aprendizes de Mestres
dos Magos, Bogomil deu atenção à sua gata que ficara ali o dia inteiro velando pelo seu
pequeno reino que era dona. Ela enroscou nas pernas nuas de Bogomil pedindo o
carinho que recebeu, além de um pouco de comida e água fresca na caneca.

Bogomil acendeu um incenso de meimendro e arruda e da mesma gaveta que retirou o


pauzinho de incenso tirou um pequeno pote de madeira. Dentro dele havia um rapé feito
de uma mistura de cogumelos e casca de certas plantas de poder. Aquele rapé era de uso
comum aos magos em suas meditações, eles usavam esse pó de poder mais brando
cotidianamente para inspiração e para dormir.

Naquele momento o mago desejou ter ali consigo um pouco uma bebida sagrada
usada em alguns rituais da seita que se chamava “Bahedariox”. Aquele líquido mágico
sim tinha força para dar a quem o bebesse as visões necessárias para desvendar qualquer
mistério, a bebida causava também um sono profundo com sonhos proféticos, mas era
muito restrita, por causa desses mesmos poderes, apesar de ser de fácil produção, pois
todos seus ingredientes estavam disponíveis na natureza.

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Contentando-se com seu rapé mágico então, rápido Bogomil aspirou duas doses
relativamente grandes do pó, uma em cada narina e se deitou na companhia da gata em
sua cama. Queria agora apenas dormir profundamente.

Porém a imagem morena de Bel veio ao pensamento suavemente expandido já tomado


pelo efeito do rapé e pela força do sono. De olhos fechados o éter do pensamento se
condensou e formou uma imagem muito nítida da bela princesa, Bogomil pode sentir o
cheiro de sua pele e ver gotinhas de suor condensado em seu buço.

“O que te direi amanhã linda Bel...?” foi pensando enquanto o mundo se desconectava
dissolvendo em ondas mistas de cansaço, volúpia, e sono.

Na fraca alucinação que Bogomil sentia, ele enxergava o rosto vívido e sorridente de
Bel, como só ela tinha lembrança, se aproximando de seu rosto. Ele alucinou o suave
perfume dela se aproximando também, e beijaram-se. Bogomil podia sentir um gosto
nulo de saliva alheia que deveria ser de Bel se misturando com um sabor amargo em sua
garganta do restolho de rapé que chegara até lá. Engoliu aquele caldo espesso e amargo
como punição por roubar um beijo de uma princesa alucinalizada em seus sonhos
expansivos.

Em uma última atividade mental vigilante, que ele tinha auto-alucinado, ainda lhe
veio um pensamento desconexo: “Um dia só é uma vida tão breve... e seria tudo...”

E dormiu profundamente em seguida.

No reino de Altair a grande lua cheia, no início de seu quarto, ia iluminando os


campos e a cidade espalhando seu pó de luz aos olhos de cada notívago que estavam ao
alcance de uma brecha ou janela por onde aquela luz pudesse se aspirada nos olhos.

A vida seguia no reino semi-adormecido e cada um recebia sua parte justa do digno
dia que cada um viveu. Nuvens negras altas não iriam se interpor entre a luz da lua e a
vista de ninguém que merecesse-a. Talvez uma ou outra estrela, mas não a lua.

Em sua mansão nos arredores do Castelo Real, Bel cheirava sua dose de luz da lua.
Deitada em sua cama, segurava um frasco de veneno. Ela nem imaginava que horas
antes em um salão do Templo da Luz Serena, seu amigo Bogomil intuíra que ela estava
de posse daquela arma nefasta, dizendo isso em uma conversa tresloucada com um
membro do alto-clero da seita.

Deitada ali em sua cama nobre, Bel observava o escuro iluminado pela luz da lua
cheia que invadia pela ampla janela todo o recinto. Seus pensamentos sonolentos
continham um estado de animo cheio de confusão e amargura profunda. O veneno já
fazia efeito em suas veias e em sua alma, mesmo que ela não tivesse bebido-o, o veneno
já atuava em seu ser.

A conversa com Bogomil naquele fim de manhã surtira efeito até o sol se por no
horizonte. A noite havia lhe trazido de novo o desespero, pois ela o tinha em abundância

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nutrido no corpo e no espírito. A conversa com Bogomil lhe parecia estranha agora,
cheia de uma menção subliminar a um sentimento que ela achava no mínimo
extravagante por parte dele, mas que ela dera força de forma imprudente também.

Misturado no turbilhão de sua dor e suas preocupações que dominava o limiar de sua
consciência, o pacto com Bogomil revelara-lhe outra faceta de toda aquela situação com
a qual amargurava-se. A abrangência de sua visão de mundo, a condição das mulheres.

E no estilo prático de pensar que aprendera a proceder em sua educação nos salões da
nobreza, diretamente ela via que aquilo era mesmo um pacto de amor, e em seu
raciocínio amor tinha a ver com relacionamento entre um homem e uma mulher, e tinha
a ver com todo um rol de ligações e afetividade que, de alguma forma o caso de Sheila
Hagia lhe atestava que estava na parte podre e violentada da alma humana e
principalmente da alma das mulheres, além é claro, de sua condição pessoal de princesa
cortejada por muitos homens do reino e do mundo.

A vida de uma pessoa, qualquer pessoa, a vida de uma mulher, poderia então estar sob
a influência, de ser breve ou não, de ser feliz ou triste, de ser uma vida digna ou não,
quando uma sombra doada por um homem estacionasse por ali tampando o sol tórrido
da realidade.

Mas a mulher deveria ser, e é, diferente, sentia Bel. Uma mulher não é melhor ou pior
em quaisquer de suas relações na vida graças à sombra de um homem, uma mulher
deveria ser e é como a lua cheia, que tem sua hora e lugar de brilhar, dentro da
escuridão, quando o sol baixou e deixou sua luz para que a mulher o refletisse sobre o
mundo.

Ambos juntos, Sol e Lua, cumpriam seu dever complementar e digno na mesma
proporção de iluminar o mundo. O Sol preponderante e até ofuscante, como uma fera
que impõe sua vontade a todos os seres fracos ao seu alcance, e a luz lunar ponderada,
com a sabedoria de suas diferentes gradações, quarto a quarto, iluminando
paulatinamente o mundo.

Se não pudesse ser mais assim para as mulheres, era melhor não mais existir, era
melhor a morte do que a submissão. Era melhor o fim do que a violação e o
constrangimento. Em uma guerra é preferível morrer a se tornar objeto, prêmio do
vitorioso.

Bel pensava que aquilo era severo demais em relação ao pacto proposto por Bogomil,
mas aquele pacto revelava uma faceta leve da situação feminina no mundo naqueles
dias terríveis. Era parte da dimensão assombrosa que ia aos pouco se instalando
totalmente no mundo, o que iria causar um conflito sem fim e funesto. Funesto era
exatamente o nome de como seria a relação entre homens e mulheres dali em diante,
assim como o é entre os povos daquele mundo.

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Uma época de relações muito mais ruins que envenenariam gradativamente tanto
homens quanto mulheres e os transformariam todos em algo diferente do que o conceito
de humano, conceito este que une os dois gêneros, poderia significar em sua asserção.

Extasiada com tais pensamentos à luz do luar pela janela, e pouco antes de finalmente
dormir, Bel ainda pensou qual poder na face do mundo poderia mudar tal destino? Que
força fantástica o bastante seria capaz de torcer mulheres e principalmente os homens
rumo a tal indulgência? Ela acreditava piamente na magia, havia muitas provas disso no
mundo, mas não sabia como a magia operava. Por isso ela, como uma leiga, devia se
agarrar não só a magia, mas a qualquer esperança plausível, esperanças de seu âmago de
intuições e esperanças emanadas do fundo de sua inteligência.

Já para além das bordas do sono, ou já nos sonhos justos de Bel, ela vagamente
pensou: “Talvez... algo... de outro mundo...”.

E dormiu profundamente em seguida.

A realidade separava e unia Bel e Bogomil.

Bogomil dormia no tempo. Bel repousava no espaço. Isso tudo os envolviam.

21 - Almas que se esparramam pelo universo

Como a noite se torna dia, da mesma forma podemos até acreditar, conforme a crença
comum naquelas paragens, que muitas outras coisas podem mudar da noite para o dia
também. Isso podia ser um sonho de Bogomil se ele não estivesse em sono tão
profundo.

Na noite que se findou Bel e Bogomil tiveram suas almas vagando por toda a extensão
do Granatmos, esparramados desde as paragens conhecidas do reino de Altair até as
zonas mais misteriosas onde o mundo termina em pântanos lodosos onde povos
diferentes habitam.

Bogomil alterado pela ação de fungos e resinas que inalara, e Bel pela proximidade
transcendental de um frasco de veneno mortal, puderam assim ultrapassar portais e se
lançarem através de negras nuvens em busca de uma verdade. Ele pelo portal de
promessas do Sol, ela pelo espelho de certezas da Lua.

Roseiras, serpentes, estrelas, abismos, gatos, cães, abutres, ventos, nebulosas, rios,
árvores, alienígenas, doces, deuses, paragens, zilhões de coisas sonhadas...

Assim ali dormindo, eles realizaram cada um de sua forma, a atividade de uma
faculdade arquetípica, que é edificar seu próprio próximo dia que vai começar.
Esparramados pelo seu universo, suas almas lubrificaram as engrenagens que movem
constantemente a máquina da existência onde o destino pode ser a todo o momento
gerado.

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Bel e Bogomil não fizeram nada demais. Era da crença popular no mundo de Altair e
ratificada pelos ensinamentos de seitas místicas e esotéricas como a Luz Serena que
toda a humanidade ao dormir realizava a aventura natural de esparramar a alma por todo
o universo, onde cada indivíduo podia sondar os limites de sua realidade para então
trazerem às suas vidas cotidianas da vigília as coisas que merecessem.

No mundo ainda mágico onde ficava Altair essas coisas acontecem com as pessoas,
por isso ali ainda existem seitas mágicas que atuam tão publicamente quanto podem.
Era uma pena que a justiça ali não fosse mágica, pensaria Bel se refletisse sobre isso.

Para Bel a noite de sono traria um despertar quase maçante, onde ela entraria de novo
em contato com a dor em seu peito e o frasco de veneno debaixo de suas cobertas. Seu
despertar seria tardio naquele dia, que aconteceria diversas horas depois do de Bogomil,
pois ele seria desperto muito cedo em seu catre.

Mas quando Bel abrisse os olhos naquela manhã, um envelope estaria depositado em
seu criado-mudo de cristal. Já Bogomil, teria à frente um mestre dos magos superior a
ele, lhe despertando com impaciência. Era dessa forma que a alma de cada um seria
recolhida de novo para dentro do lacre de seus corpos, do tempo e da vigília.

Um dia anormal raiava.

22 - Um jogo que se ganha sem jogar

O susto de Bogomil ao ser acordado muito cedo por outra pessoa, no caso um alto-
sacerdote da Luz Serena, só não foi maior do que seu esforço para tomar noção da
situação e afastar sua gata que tentava atacar com unhadas o madrugador invasor de seu
espaço sagrado.

Quando conseguiu arrefecer a fúria da pequena felina, Bogomil se concentrou na


penumbra do catre para reconhecer ali na sua frente aquele mago que na noite anterior,
refém dos eflúvios dos licores e de tabaco aromatizado, deu toques finais ao seu “jogo
de baduk” com o mago Mopso no salão de jogos.

Mago Lucano convocava-o a se levantar, espantar o sono, lavar o rosto e segui-lo


imediatamente sem fazer perguntas e nem orações matinais.

A cabeça de Bogomil estalava. “Alguma coisa aconteceu? A guerra tinha começado?


O mundo ia lá acabar?” Permaneceu calado e apenas obedeceu, se compôs e seguiu o
mago Lucano por corredores escuros afora já transbordando o cheiro de pão assado e
leite quente. Ele tinha certeza de que não iria comer.

Seguindo Lucano pelo caminho já longo Bogomil ia pensando o que aquele sacerdote
irônico queria com ele. Será que estaria bêbado ainda? Não parecia pelos seus passos e a
determinação que ia seguindo no caminho para a ala que chamavam de Colégio dos
Magos, onde ficavam as salas de aulas diversas.

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Não teve muito mais tempo nem espaço para conjecturar nada, logo Lucano
introduziu o mago menor para dentro de uma das salas de aula que trancou por dentro
depois de entrarem. Lá dentro já os esperavam mais cinco magos, todos eles, Bogomil
reconheceu, pertencentes ao alto-clero da seita.

Um olhar rápido antes de tudo, Bogomil se viu à frente com o mago Mopso,
acompanhando-o ali estavam o mago Bedu, o mago Ariolix, o mago Bhakys e a maga e
Handrea. Todos eles, alto-sacerdotes, olharam direto para Bogomil e o mago Lucano
quando chegaram.

Bogomil espantado, só pode dar um vago cumprimento de “bom dia” aos seus
superiores que lhe responderam o cumprimento mais vagamente ainda. O mago Mopso
tomou a frente de todos e foi logo falando:

- Bom dia mago Bogomil! Fique relaxado, não é um tribunal isso aqui! – Mopso disse
procurando evitar qualquer austeridade que carregasse o ambiente, via-se por isso que
devia haver serenidade ali para tratarem rápido do que vinham tratar.

- Mas vamos direto ao assunto... – disse em seguida o mago Mopso, pois magos não
perdem tempo recapitulando.

E para ir direto ao assunto o mago Bhakys que falou:

- Mago Bogomil, o mago Mopso e o mago Lucano nos contaram o teor de sua
audiência informal ontem à noite com eles... – disse recapitulando por fim e
acrescentando o fato de que mago Lucano tivesse algo além de intromissão ébria
naquela “audiência”. - ...onde vocês trataram de certos aspectos de assuntos que são
caros à nossa Igreja de uma forma bem espontânea e direta... – Bogomil já estava
impassível ao ouvir o alto-clérigo discursar e se concentrou então, como a situação
perecia exigir.

- O que se dá irmão..., ou o que se deu... – continuou o mago Bhakys, escolhendo as


palavras lançadas, aquilo servia para dominar a situação, reconhecia Bogomil. – O que
se dá é que nos interessamos pela sua situação! – terminou de falar com uma entonação
de quem compartilhava um segredo.

A maga Handrea revelando certa impaciência deu um pequeno passo a frente na nítida
indicação de que queria e devia ir mais rápido ao ponto da questão ali tratada.

- Mago Bogomil, o senhor deve saber, ou pelo menos deveria, que nós, mestres dos
magos, devemos estar sempre atentos e observando os tempos, observando o desenrolar
dos fatos que compõem a história que vai se desenrolando à nossa volta, em nosso reino
e em todo o planeta, e que nenhum mago deve estar alienado das coisas que acontecem,
nem as profundas implicações que urdem a teia da realidade do mundo...

Maga Handrea era direta à sua maneira, acrescentando o substrato da observação


atenta a tudo que lança o olhar, como bem lembrava Bogomil das aulas que tivera com

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ela sobre História da Magia da Igreja da Luz Serena. Mas ali ela estava sendo profunda
e ao mesmo tempo superficial, repetindo coordenadas de procedimento de atenção
mágica, a visão abrangente de mundo que um mago sempre deve ter e a posição de um
membro da Luz Serena no teatro da realidade.

Bogomil já podia reconhecer que o assunto tratado ali era bem sério e talvez de
implicância profunda, apesar dos rodeios aos quais seus superiores se limitavam, talvez
por receio de ir ao ponto da questão enfim. O que atestava mais ainda a profundidade do
assunto que queriam tratar com ele. A maga Handrea continuou no fio de sua
explanação.

- Fazemos isso para que nada no mundo pegue-nos de surpresa, para que possamos
sempre estar preparados para as mudanças nos rumos dos ventos da história, e no
quanto possível, possamos estar um passo ou mais à frente no jogo da realidade.

Ela era explicita no que queria dizer, sem consultar a anuência dos demais alto-
sacerdotes presentes e muito menos requerer a concordância do mago menor. Bogomil
entendia claramente queria dizer na sua oratória, transparecendo a essência do que
vieram ali tratar com ele. Em seu discurso de cunho mágico, mas também mundano-
temporal, ela deixava tácito que falava de poder, e poder político principalmente.
Tratava de interesses da Luz Serena enquanto influência social. Então o mago Ariolix
continuou dali.

- Irmão Bogomil! O fato é que nessa observação privilegiada dos acontecimentos, e


com a sua inusitada apresentação de certos fatos ao mago Mopso na noite passada, as
quais ele nos comunicou ali mesmo no salão de jogos depois de sua saída, nos
começamos a discutir sobre a questão e começamos então a vislumbrar certas
oportunidades...

Então era isso. Eles haviam debatido com um pouco de seriedade seu caso, o caso de
Bel principalmente, não é? Ia raciocinando Bogomil. Eles puseram em seu tabuleiro de
jogos de poder as peças que podiam mover, ali atuavam a princesa Bel, o julgamento de
Ialdo Brialdo, a busca de verdades no caso e o Feitiço do Decágono Paradoxal. Mas a
questão crucial para Bogomil, que só pensava em Bel, era: “Qual o lance exato em
relação a isso tudo e até em que nível, eles estavam dispostos a jogar? Qual era o cacife
em que a aposta estava?”, se perguntava Bogomil.

Qual a providência que aqueles altos sacerdotes e mestres dos magos superiores
haviam decidido tomar na noite anterior depois que ele abandonou o salão de jogos?
Parecia a Bogomil que era uma providência importante, senão eles não teriam o levado
até ali sem o café da manhã para lhe sustentar.

O que haviam mancomunado: serem terapêuticos em relação a Bel, atraindo-a mais


para a órbita deles, ou serem magos, propondo uma via de ação no sentido de
interferência mágica nos “ventos da realidade”?

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Então Bogomil tinha tido êxito onde achara que falhara ao ir conversar com o mago
Mopso na noite passada. Só faltava agora eles chegarem à parte decisiva do jogo e
revelarem enfim o lance final.

23 - O Despertar dos Mágicos

Bogomil, de barriga vazia e apreensão ao máximo, diante de seus seis superiores,


pensava que até agora escutara só o “Hum rum! Au au! Miau!”, mas quando enfim o
galo cantaria? O “Cócóróó có!”? Então o galo cantou. Ou melhor, enfim o mago
Mopso retomou a palavra:

- Mago Bogomil! O que o mago Ariolix que dizer, é que todos nós vislumbramos no
caso que o senhor me apresentou como uma oportunidade imperdível para a Luz Serena,
nós vemos uma chance de conquistar mais influência ao ajudar realizar a vontade da
princesa Bel em conseguir provas para incriminar o acusado de assassinato no
julgamento mais popular do reino no momento.

Bogomil nessa manhã inteira continuava calado, só concordando com seus superiores
com pequenos acenos de cabeça ou gestos de olhar, e assim continuou. Mas raciocinava
bastante sobre o que era dito ali.

Ele percebia o quadro que se formava, era claro para ele que aqueles altos dirigentes
da seita viam a chance de ajudar a princesa Bel e assim obter mais poder para a Igreja,
mas Bogomil entraria mesmo nesse plano que estavam urdindo? Pois ele estava
operando um pouco longe das ambições de seus superiores, ele agia por amor.
Parecendo ler a mente de Bogomil, o mago Mopso continuou.

- E sabendo de sua proximidade com a princesa, e da paixão que o senhor devota por
ela, e é claro, espera ser correspondido ajudando-a como propôs, a Luz Serena vê com
muito bons olhos e fará tudo para ajudar que um membro de suas fileiras venha a ter
chances de se unir com um membro da família real.

O galo cantou alto!

Com certeza aqueles mestres dos magos pensaram em todas as jogadas possíveis e a
implicância de cada fator relacionado no caso. Tinham uma chance de obter mais
influência no poder do reino que dia a dia era-lhe minado pela nova crença, se
desvencilhariam de qualquer implicação no caso de uma tentativa de suicídio de uma
nobre, demonstrariam seu poder e sabedoria ao tornar público que seus poderes
ajudaram a condenar um assassino já condenado pela sociedade. Com matrimônio ou
não, isso era com ele Bogomil, influenciariam de qualquer forma as esferas de poder,
assim planejavam.

O que restava então era só Bogomil saber o que aquela manhã guardava sobre até
onde esta questão de poder interno o levaria no campo de ação ao alcance dos ali

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presentes. Foi nesse ponto que ele então abriu a boca pela primeira vez, não sem temer
em falar qualquer coisa, mas tinha que arriscar.

- Então meus mestres, o que os senhores e a senhora decidiram fazer sobre o caso? –
disse fazendo o possível para não parecer insolente nem desrespeitoso. Parece que
conseguira. O mago Bedu, falando algo pela primeira vez também, foi quem lhe
respondeu:

- Mago Bogomil, nós seis aqui somos membros da Ordem do Decágono... – e ele
expressava-se como se anunciasse uma declaração oficial. O coração de Bogomil
disparava. – E resolvemos ajudar na questão da princesa Bel fazendo uso do Feitiço do
Decágono Paradoxal!

Por um momento Bogomil sentiu que estava sendo alvo de uma brincadeira, uma
pilheria de seus superiores. Talvez estivesse sendo testado. Mas seu coração quase
arrebentando lhe anunciava de forma não oficial que a coisa parecia séria.

Mas havia muitas implicâncias naquilo. Sua confusão aumentava. Ele a dispersou
fazendo a pergunta que não queria calar, mesmo não se saindo muito bem:

- Os senhores estão me dizendo... ajudar... com respeito a viajar no tempo... – foi


dizendo atrapalhadamente, apontado os polegares para suas costas mimeticamente,
outras coisas vinham na sua mente, logo agora que ele tinha que parecer sério e
centrado.

Para recobrar a compostura ele falou rápido antes que alguém lhe cortasse o fio da
meada.

- Mas o mago Lucano disse, que eu... quer dizer, que não há ninguém na área de
isolamento... ou tem? Eu estou?! – Bogomil não sabia ao certo como expressar sua
duvida. Era o paradoxo se formando e atestando que as coisas estavam em andamento
já?

O mago Lucano então declarou de sua forma sempre informal:

- Até onde podemos imaginar Bogomil, você a qualquer momento pode bater na porta
do templo hoje mesmo, e... – terminou a frase assim, mas Bogomil e todos os presentes
entenderam o que Lucano queria dizer.

O mago Lucano de forma simples resumira que diversos fatores poderiam influir em
uma quebra da agenda de ação da viagem no tempo ao passado. Diversas situações se
apresentavam em uma tal missão, desde ele não querer ficar isolado três anos e ter
decidido permanecer no anonimato por conta própria esse tempo todo, ou o que se
pudesse pensar. Bogomil só não cogitou, nunca lhe passou pela cabeça, que poderia
estar morto também, com o corpo desaparecido para sempre, em algum desafortunado
incidente no passado, talvez, por que não, enterrado em uma cova junto com Sheila
Hagia!

73
- Não há nenhum mago detido em isolamento. E os magos não se definem muito por
entregar facilmente sua liberdade, podemos decidir como agir por conta própria e
sermos muito responsáveis assim. – disse Lucano atestando parte do que Bogomil
entendera e atestando que como membro de uma ordem como a do Decágono ele era
uma péssima influência.

Mas aquilo se referia a um axioma antigo da Luz Serena que rezava: “O mago é o
senhor da aurora!” Ou seja, ele decide sobre seu dia, as explicações mais poéticas ou
exacerbadas desse aforismo, que ele ouviu da boca de muitos instrutores na seita, é que
“o mago era quem fazia o Sol despertar, não o contrário”.

- Nós todos, mago Bogomil, trocando idéias até tarde da noite sob a luz da lua cheia,
reconhecemos, que o que o senhor já havia intuído, que este é o único poder dentro da
Luz Serena que pode realmente ajudá-lo... a ajudar todos nós em nossos interesses
comuns. – quem falou foi a maga Handrea então.

Eles estavam jogando um jogo de alto-poder na busca de influência, e pagariam então


para ver naquele caso. Se Bogomil não estivesse tão excitado pela situação teria
percebido os perigos inerentes que aquelas condições se referiam. Os magos superiores
presentes ali tinham total noção disto, da implicância de não seguir os protocolos
admoestados pela agenda da viagem no tempo, mas como disse a maga Handrea no
começo da conversa, aquela era uma oportunidade única de unir um membro da seita à
realeza, a única princesa em linha de sucessão real.

Se Bogomil fosse mais astuto, e não um apaixonado, ele intuiria que devia estar se
desenrolando mais coisas nos “bastidores da aurora”, talvez uma luta de poder interna, e
aquela parte do alto-clero da Luz Serena estava jogando de acordo. Ele era só uma peça
disponível a se descartar nisso tudo.

O mago Mopso retornou a linha pragmática da conversa:

- Por sorte mago Bogomil, o senhor reúne todos os requisitos necessários para ser o
cronosnauta nessa missão. Até o calendário corre em sua ajuda.

Bogomil não tinha pensado em nada daquilo até que o mago Mopso citou a dupla
questão. Ora, não devia ser um integrante da Ordem do Decágono o cronosnauta? Foi a
respeito disso que inquiriu, fingindo certa humildade, pois em seu recôndito mais
profundo ele se via como o herói daquela história toda. Mopso respondeu:

- Cabe a Ordem do Decágono operacionalizar o feitiço, a parte ritual. Mas qualquer


mago pode ser o cronosnauta, basta observar que tal mago esteja ciente de todos os
fatores envolvidos relativos à missão que tem que executar, e o senhor é a pessoa
indicada, por todas suas relações no caso.

- E essa questão do calendário? – perguntou Bogomil, afinal parecia não estar ciente
de todos os fatores.

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- Ora! É lua cheia! E é na lua cheia que se deve executar o feitiço. – arrematou
Mopso.

Afinal, Bogomil havia então despertado (em) um dia auspicioso! Concluiu.

24 - A urgência de quem tem todo tempo do mundo

Havia providências a se tomar, e rápido.

Curiosamente o tempo corria contra aqueles magos que queriam lograr o tempo.

A primeira providência que Bogomil recebeu de seus superiores era simples e direta.

Ele devia mandar um mensageiro à Bel, não ir pessoalmente falar com ela, lhe
entregando o recado de que “no mais tardar no dia seguinte ela teria enfim em mãos as
provas para a condenação de Ialdo. Que a alta-cúpula da seita da Luz Serena tinha
decidido pessoalmente intervir na questão e executariam um poderoso feitiço secreto
que revelaria toda a verdade sobre o caso. Que ela ficasse serena e repousando sua
alma em confiança no Verdadeiro Deus”.

Bogomil assinou a pequena carta dizendo antes, “até amanhã”. Quando escreveu isso
uma dor lhe lacerou o coração, “até amanhã” então na verdade queria dizer “até daqui
três anos”. Os paradoxos começavam a mover a metarrealidade e esclarecer um ponto
crucial, que Bogomil entendeu porque ele estava sendo enviado como cronosnauta
naquela missão, o tempo longo de isolamento porque teria que passar, as os próprios
paradoxos brincavam com suas convicções, pois de imediato o mago se lembrou que
não havia, segundo seus superiores, ninguém no isolamento.

Deixando de lado a laceração dos paradoxos, Bogomil até que agradeceu a ordem de
seus superiores de não se encontrar pessoalmente com Bel naquele dia. Fora uma
decisão sabia enfim.

Mas lhe assustava muito a urgência que os altos mestres dos magos tinham instalado
na missão. Eles pretendiam executar o feitiço do Decágono Paradoxal naquela mesma
noite. Depois de remeter a missiva a Bel Bogomil já devia se recolher à ala sul do
templo onde uma sala o esperava, ali comeria e, na companhia do mago Lucano, ficaria
sendo instruido sobre questões técnicas relativas a sua participação no ritual do feitiço,
enquanto os demais magos reuniam-se a mais quatro magos da Ordem do Decágono,
pondo-lhes a parte da missão e fazendo os preparativos para o ritual.

O que Bogomil não sabia ainda é que o ritual era por demais simples, apesar da
grandiosidade do poder que ele colocava em movimento. Os objetos usados no ritual já
estavam todos à mão, prontamente armazenados esperando para serem usados.

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Tão logo saíram daquela sala no Colégio Mágico onde se reuniram antes mesmo da
aurora, o mago Mopso ordenou que fosse limpo rapidamente o Salão Sempiterno, que
era o nome pomposo do conjunto de salas sempre fechados na ala sul.

Enquanto isso o mago Ariolix retirava dos arquivos secretos da Ordem do Decágono
em sua sala um livro de notas, onde preencheu o registro de número 1.244, o qual tinha
a finalidade de informar e registrar para a posteridade que naquele dia nenhum mestre
dos magos do futuro deveria retornar no tempo ao Salão Sempiterno. Estava assim
reservada uma vaga no tempo para o uso do local. Em outro livro de registros ele anotou
a data exata para qual o cronosnauta do “registro paralelo número 1.244” iria retornar
no tempo, evitando-se assim outro congestionamento no salão. Os livros de registros
contam mais verdades sobre as coisas que os de filosofia então.

Um terceiro livro de registros da Ordem do Decágono ele não precisou consultar


naquele momento, pois já o haviam feito na madrugada que passou, e estavam de posse
da informação que ele proporcionava, que era a janela da data de retorno ao dia
especifico que a Ordem do Decágono instruiria Bogomil a retornar.

Durante a tarde o mago Bhakys foi à sala onde Bogomil estava. Quando ele chegou, o
mago Lucano já havia feito com que Bogomil tivesse decorado sua parte no ritual.

O mago Bhakys então o instruiu na sua agenda de ação “simples”:

Bogomil irá retornar no tempo a uma data precisa a três anos atrás. Ele surgirá
naquele mesmo salão onde realizariam o ritual à noite. Ali dentro encontrará uma chave,
a qual abrirá a porta do túnel que o levará para fora do templo da Luz Serena bem ao sul
no meio da floresta. A partir dali Bogomil se manteria anônimo e afastado de tudo e
todos. Conversaria o menos o possível com qualquer pessoa, esforçar-se-ia ao máximo
para não conversar com alguém que lhe conhecesse, evitaria todos os locais mais
comuns que ele frequentemente poderia ir. Andaria mais à noite, e rumaria para as
imediações de onde se desenrolou os fatos que tinham relação com Sheila Hagia e Ialdo
Brialdo, locais e fatos que eles revisaram didaticamente. Depois de testemunhar, e
apenas testemunhar os fatos que se desenrolaram na distância mais segura o possível, e
anotado todos os fatores implicantes que trouxessem provas irrefutáveis do crime, (e
devia levar em consideração, o “não-crime” também, mas isso seria outro caso para o
futuro), Bogomil devia retornar ao templo o mais ocultamente possível, voltar pelo
túnel ao salão de onde partiu e bater na porta de entrada do salão cinco vezes e anunciar
a quem perguntasse “quem bate?” que deveria falar com o mago Ciddon, que era o
membro da Ordem do Decágono isolado para questões de se evitar muitos possíveis
paradoxos temporais, daí para frente ele estaria de novo nas mãos da Ordem.

Passado tal agenda ao mago menor, Bhakys então revelou a Bogomil certos eventos
que ele desconhecia, aqueles anotados no terceiro livro de registros da Ordem do
Decágono. Tratava-se de um acontecimento especial que a alta cúpula da seita tinha
conhecimento.

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- Mago Bogomil, três anos atrás, dez dias antes de se tornar notório o desaparecimento
da cortesã Hagia, aconteceu uma chuva prodigiosa em uma vila ao norte da capital do
reino, em Minarrota. – disse Bhakys em tom sério. – Chovera por alguns minutos
milhares de sapos naquela localidade. A Luz Serena tomando conhecimento disso
investigou com todos seus meios mágicos na época o que o evento poderia sugerir.
Agora cremos que foi em torno desta data específica, no décimo oitavo dia da quarta
lunação, que deve ter ocorrido o assassinato. Cabe ao senhor retornar a dois dias
anteriores do tal evento, rumar para aquela localidade e ali se inteirar da presença de
qualquer envolvido no caso, então terá assim cerca de dez dias para se inteirar desse
teatro de operações. Entendido? Alguma dúvida?

Para Bogomil era claro o que aquela informação queria lhe dizer. Havia indícios
mágicos o suficiente que apontasse para as imediações daquela cidade chamada
Minarrota que pudessem então sugerir atividades ali relacionada a um evento
importante para os próximos tempos. E se Ialdo ou Sheila passassem por ali,
provavelmente esse seria o nexo de ligação com o suposto crime. Os Mestres dos
Magos, como lhe dissera a maga Handrea pela manhã, estavam realmente atentos aos
fatos pertinentes que lhe revelassem presságios sobre questões importantes no reino.

- Então retornarei ao décimo sexto dia da quarta lunação de duzentos e vinte Arox! -
assentiu Bogomil com decisão, assinalando a data que devia ter fixamente em mente no
momento conclusivo do feitiço: “16:04:220Arox”, como se grafa no calendário comum
de Altair.

Bogomil entendeu e memorizou tudo. Repassou verbalmente a agenda para os dois


magos superiores. Mas o paradoxo já começava a se instalar em sua cabeça. O mago
Bhakys tendo total clareza desse paradoxo então falou em tom de admoestação:

- Como sabemos que o senhor não executara a parte final da agenda que lhe passei, eu
só peço que o senhor se cuide muito bem e entre em contato quando achar mais
oportuno até a noite desse dia de hoje!

Bogomil se encabulou com o que ele disse e se viu na liberdade de dizer, já que
Bhakys prezava tanto por sua integridade:

- Talvez o ritual não funcione, por isso que eu não realizei a última parte dessa
agenda!

Bhakys o olhou nos olhos profundamente. Ele entendeu tudo e não precisava dizer
mais nada. Ambos ali sabiam, aliás todos os envolvidos no ritual daquela noite sabiam,
que a Ordem do Decágono estava mesmo “pagando para ver”. Mas Bhakys concluiu em
tom de severidade:

- Se assim for, o senhor não cumpriu nenhuma parte da agenda! - disse, e concluiu
com um indicio de esperança paradoxal e de admoestação ao mago menor - Então, a
partir de agora, se concentre mais, se quer ter seu quinhão positivo nisso tudo, e talvez o

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feitiço paradoxal engendre outros fatores na realidade. - disse o alto-sacerdote inferindo
que ainda era justo se ter qualquer esperança naquele esforço de todos.

O que os superiores não se importavam em pensar e Bogomil não queria pensar, era o
que diriam então para Bel no dia seguinte. Bogomil se agarrava à idéia de que realmente
não cumprira somente a parte final daquela agenda, aliás ele havia decidido, ou pensado
que decidira que iria fazer aquilo mesmo, mas o que sua mente não comportava era o
paradoxo de não saber se ele o havia decidido porque tal fato não se dera ou tal fato não
se dera porque havia decidido, e talvez fosse mais essa incerteza de fé que o mago
Bhakys encarou nos olhos de Bogomil no instante que se passou e atentou com sua
última frase.

Para aliviar a tensão que vinha aumentando na medida em que o tempo escoava,
Bogomil se recolheu. Já memorizara tudo que precisava saber. O que o animava era
apenas pensar que seus superiores, por motivos de segurança, lhe ocultavam algumas
informações.

Talvez ele estivesse mesmo isolado em algum lugar ali embaixo, talvez ele estivesse
naquele momento amargando as últimas horas de uma prisão voluntária, afinal não
havia nenhum motivo para a Ordem do Decágono se reunir tão rápido e levar adiante
aqueles procedimentos atropeladamente.

Os “talvezes” lhe eram mais caros que qualquer certeza então!

“Concentrar-se em Bel!”, foi a ordem que finalmente Bogomil deu a sua mente, e
calar tudo mais. Tudo que ele faria dali em diante seria em nome do seu amor. E no
amor não há “talvez”. Pronto! Ele havia achado seu fio em um mundo que o tempo se
escoava paradoxalmente, “que venha eminentemente então o fim das urgências!”, e que
tudo acabe começando logo.

25 - Cerne & Tempo

Quando Bel despertou naquele dia, um envelope lhe esperava no criado. Dentro dele
um pedaço de papel carregava uma mensagem do mago Bogomil para ela, “aguardar
um dia” era a essência da mensagem.

A princesa leu o conteúdo da mensagem duas vezes, ali mesmo em seu leito, depois
tirou seu frasco de veneno que naufragava por debaixo de seus lençóis e o guardou no
criado, dentro de uma caixinha de madeira. Ela daria tempo ao veneno.

Bel acordara e sentia-se como no dia anterior, mortalmente doente. Não tinha fome,
não via cor nenhuma no mundo e existir para ela continuava ser permanecendo ligada
naquela realidade da qual não conseguia fugir. Sentia-se combalida ao mesmo destino
que traçara no desespero do dia anterior.

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Porém um pouco de esperança lhe fora engendrada na noite de sonhos. Eles lhe
trouxeram uma vaga sensação de que alguma esperança lhe fora sussurrada no espírito,
e acordar com a mensagem de Bogomil ao lado parecia ser um sinal que alguma justiça
iria fluir para aqueles tempos terríveis.

“Qual seria então esse poder capaz de realizar tal tarefa?”. Ela cederia tempo ao
tempo, e esperaria pelo próximo dia. Pensando assim, um átimo de lucidez que há
muitos dias não sentia foi acolhido em seu coração, ela ponderou que coisas importantes
necessitam naturalmente de tempo para aparecerem em toda sua robustez, a ponto de
poderem influenciar algo.

Era de sua opinião própria, pela observação do âmago das coisas no mundo, que o
bem diferia do mal pela sua natureza construtiva, enquanto o mal apresentava uma
natureza puramente destrutiva. E esses termos, “construtivo” e “destrutivo” tinham
implicações bem pragmáticas e realistas, como covinha suster o pensamento das
pessoas destinadas à realeza, ou seja, a dominar o mundo em sua volta.

Ela extraia seu conceito de bem e de mal de fontes bem materiais. Achava que o bem
atuava como no exemplo do desenvolvimento de uma flor ou da construção de uma
casa, aconteciam de baixo para cima, sementes e projetos, raízes e alicerces, espinhos e
muros, caules e paredes, rosas e decoração, assim o que é bom é edificado.

Porém, o mal ela entendia como algo que vinha de cima para baixo, pisando uma flor,
ou derrubando uma construção.

Assim Bel somava à sua percepção de bem e de mal uma variante temporal, afinal.
Precisava-se de muito mais tempo para construir uma casa ou fazer crescer uma flor do
que para destruir essas mesmas coisas.

Lembrar e repassar aquele pensamento que nutria com orgulho para si pôs a princesa
em contato com o âmago da realidade na qual nos últimos tempos ela só conseguia ver
as pressões, as injustiças e o mal dominante.

Sentiu recobrar um pouco de esperança racional no mundo, e a mensagem de


Bogomil, analisada agora sobre esse prisma trazia para o seio de seus sentimentos a
afluência do mágico no mundo, onde coisas enfim se resolveriam de um dia para o
outro.

Aquilo a confundia, mas não o bastante para abalar sua fé na natureza boa das coisas,
que sempre era fortalecida justamente pela influência da magia das coisas, que ela tinha
em conta como verdadeiro também, pois aprendera frequentando a Luz Serena e
trocando idéias com Bogomil, que a magia no mundo se mostrava mais plenamente pelo
que o mago gostava de se referir como a “poesia das coisas”.

Ora! Ela não perdia nenhum pouco de sua majestade acreditando na “poesia das
coisas”, aquilo justamente elevava sua nobreza, pois ela se sentia maior e mais forte em
sua condição de princesa levando no coração aquela filosofia. Aquela essência mágica,

79
poética, era um dos fatores construtivos na vida das pessoas, e era o que faltava às
pessoas destrutivas, ou seja, a aquelas por onde o mal se apresentava no mundo.

Que o tempo que Bogomil lhe pediu fosse pouco para mudar o rumo das coisas não
significava, entretanto, que esse tempo fosse pouco para trazer ao mundo uma verdade.
Ele seria o tempo preciso, pois viria por magia, por poesia então, e essas coisas tinham o
poder de desafiar a essência das pessoas e o próprio tempo construtor de tudo. O próprio
alto-escalão daquela crença mágica estava envolvido, como dizia a mensagem.

Mal sabia Bel o quanto sua alma feminina intuía corretamente sobre fatores tão
verossímeis quantos os que Bogomil estava lidando naquele mesmo momento. E
paradoxalmente em sua intuição feminina dessas verdades estava, entretanto, vedado a
Bel saber, pois não havia como ninguém saber, o quanto de tempo, espaços e coisas
intimas que seu devoto Bogomil não teria que ultrapassar para lhe dar a flor já pronta
daquela poesia que estava sendo prometida, para dar um novo rumo em seu livro da
vida.

Bel, alheia e unida a tudo isso, resolveu então levantar-se e continuar sua vida naquele
dia, permitindo-se uma semente de esperança começar a brotar no chão escuro, duro e
árido de seu peito que ela veio arando naqueles últimos tempos. A magia faria as coisas
crescerem rápido.

Ela permitiu-se crer que Bogomil construiria em um dia um lar de justiça que levaria
anos para erguer, que ele lhe traria no dia seguinte uma poesia de esperança. E ambos os
tempos necessários, paradoxalmente, estavam sendo preparados poeticamente no reino
de Altair dentro do âmago mágico da Luz Serena.

26 - Nigromancência

Assim que o sol se pôs no horizonte ao leste do reino de Altair, os magos Lucano e
Bogomil se encaminharam para o espaço reservado da ala sul do templo da Luz Serena.
Podiam sentir no ar a diferença do ambiente, um silêncio incomum dominava os
corredores e jardins por onde passavam.

Qualquer adepto que por ali inadvertidamente passasse perceberia a diferença no ar.
Mas a ala sul já estava isolada desde o meio do dia para uma “purificação do ambiente
em todo perímetro”, e assim nenhum membro da seita teve a chance de respirar aqueles
ares estranhos.

Em completo silêncio os magos atravessaram o pátio gramado descobertos que servia


de ligação do edifício da ala sul. Enquanto caminhavam sob o céu do inicio da noite
Bogomil com um certo grau de melancolia observou o céu e pode ver que estava
começando a ficar encoberto por pesadas nuvens negras.

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Passando por duas sentinelas de guarda que estavam prostrados na porta da entrada
reservada, os magos se reuniram então com outros nove mestres dos magos que já os
aguardavam em uma sala onde fariam uma frugal refeição e vestiriam ali suas
paramentas compostas de longos mantos brancos com capuzes inteiriços para o rosto
que o ritual exigia.

O cronosnauta, isto é, Bogomil, se vestiria comumente, trajaria em especial somente


um sobretudo de sua propriedade que já providenciara, era o que necessitava na sua
missão no passado. No demais imponderável que se mostrava as necessidades em tal
caso, sobre as particularidades que por ventura se dariam no tempo passado, a própria
conveniência da situação devia se impor ao cronosnauta quando nelas ele se inserisse.
Ou seja, ele deveria se virar conforme as necessidades que ocorressem.

Não adiantava querer pensar e se prover de nenhum paramento ou objeto. A filosofia


prática da viagem no tempo orientava que aquele que seria lançado no passado levasse
consigo apenas as roupas do corpo convenientes ao costume do tempo ao qual viria a
retroceder, e Bogomil não iria cobrir uma distância tão grande que exigisse fantasias.

A orientação não fazia menção de se levar armas, material de notas, alimentação e


coisas afins, isto tudo estaria sempre à mão em qualquer época.

Bogomil ao interpelar sobre o que deveria usar ouviu do mago Lucano sobre a
parcimônia das vestes e que devia agradecer à magia da Luz Serena “por não ter que
retornar nu!”.

A conclusão do feitiço, o momento em que o cronosnauta seria lançado de volta no


tempo se daria exatamente às onze horas da noite, assim o ritual em si iniciaria meia
hora antes.

Porém, uma hora antes, o teatro de operações do lançamento do feitiço seria iniciado,
mas duas horas antes eles já estariam instalados e incomunicáveis dentro do Salão
Sempiterno, concentrando-se.

Assim, era a nona hora da noite quando Bogomil atravessou o pórtico grosso do Salão
Sempiterno, e com ele os outros demais dez mestres dos magos que executariam o
Feitiço do Decágono Paradoxal. A Ordem do Decágono estava reunida enfim ali dentro.

O portal do salão foi trancado internamente com todos eles lá dentro. Eram onze
magos, um mago menor e dez magos superiores, altos sacerdotes, oito homens e duas
mulheres.

Dentro da sala já havia instalado um grande espelho de cerca de dois metros de altura
por metro e meio de largura. Esse espelho era montado por dez peças individuais
triangulares de vidro reflexivo e sua forma inteira era de um grande decágono.

Bogomil o analisou e pode reparar que as partes formantes convergiam para o centro
em um pequeno ângulo parabólico, causando uma pequena distorção reflexiva no ponto

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central onde os pedaços de vidro se encaixavam perfeitamente. Era nesse espelho que
Bogomil devia se concentrar no momento do salto temporal, aliás, Bogomil, o
cronosnauta, iria justamente saltar na direção daquele espelho decagonal no momento
crucial da execução do feitiço, onde a magia desencadeada o levaria ao seu destino no
passado.

Graças à iluminação propiciada ali dentro apenas por oito archotes dispensados em
dupla pelas quatro paredes do salão, o qual era abastecido de ar por dutos externos,
Bogomil pode divisar que no chão do salão havia incrustado em pedra verde uma
grande estrela de dez pontas. Cada ponta dessa estrela apontava os locais onde cada um
dos dez magos da Ordem do Decágono deveriam se posicionar no ritual para lançarem o
feitiço. No centro raiado do decagrama ficariam o cronosnauta e o espelho, onde estava
colocado já, e posicionava-se a uma distância de cerca de um metro do ponto central,
mas totalmente no interior do traçado da estrela de dez pontas, que tinha ao todo cerca
de seis metros de comprimento quadrado.

Bogomil começou a sentir um forte cheiro de incenso, pois estavam sendo acesas
quatro urnas incensarias que ficavam dispostas em um quadrado perfeito fora do grande
decagrama estelar.

Ali era queimado um composto especial feita de diversas substâncias mágicas.


Bogomil sabia apenas de alguns ingredientes usados neste Incenso Astratemporal, a
maioria dos ingredientes era mantida em segredo pela Ordem do Decágono como parte
dos mistérios velados que a seita guarda sobre a consecução de seus feitiços mais
poderosos.

O mago menor sabia de algumas substâncias componentes do incenso porque nas


instruções que teve com o mago Lucano durante a tarde, lhe fora dito que o Incenso
Astratemporal era composto de certas substâncias iluminógenas, pois a mente dos
participantes do ritual e principalmente a mente e o corpo do cronosnauta deviam ser
postos em um estado incomum, alterado para se permitir assim fluírem do
subconsciente certas energias necessárias para a efetuação do feitiço.

O incenso tinha propriedades que permitiam um relaxamento corporal incomum e a


emersão em um estado alterado de consciência particular.

Então estariam misturados naquele pó, que já se incinerava e era inalado por todos,
doses de cipó rústico, cogumelos azuis, meimendro, pós de rãs mumificadas, bezoares
de poderosos defuntos e certas espécies de rosas. Demais substâncias usadas no
composto, muitas delas raras e intricadamente manufaturadas não foram dado ao
conhecimento do mago menor. E para Bogomil bastava, ele já estava familiarizado às
técnicas xamânicas de estados alterados e entendia perfeitamente aquela parte na
dinâmica do feitiço.

Mas naquela hora antes do início do ritual, e no profundo silêncio dentro daquele
salão, onde cada mago já conduzia seu estado mental para a função ritual, Bogomil

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estava perscrutando mentalmente qual seria a mecânica em si do feitiço do Decágono
Paradoxal.

Afinal, qualquer magia era baseada até no ponto onde poderia descrever, sobre certos
parâmetros físicos, “energéticos condensados” para ser mais exato. A causalidade só era
desafiada, ou melhor, parecia ser desafiada, porque quando o poder do feitiço começava
a operar no nível do desconhecido era só porque lá era onde atuava justamente esse
reino mágico e inconceituável da estranheza total, mas não do desnatural.

O ponto onde a ciência mágica começava a ser efetivamente magia oculta em si era
onde as palavras não podiam mais explicar nada.

Aprendiam os magos que com o desenvolvimento científico se desenvolveria


necessariamente novas palavras para se conceitualizar novos fenômenos antes obscuros,
era para onde o aprofundamento do conhecimento levava a consciência dos seres
humanos. Na medida em que se penetra com a intelecção nesses reinos desconhecidos, a
conceitualização vai surgindo. Assim, palavra é poder! E as palavras que não estão
desgastadas pelo uso, são as mais poderosas ainda, e aquelas que nunca foram ditas
ainda, comungavam do próprio silêncio e poder da Eternidade.

Por seus anos de estudo e conhecimentos adquiridos, e com o que estava vendo ali no
Salão Sempiterno, Bogomil podia começar a compreender que o Feitiço do Decágono
Paradoxal agia no nível físico pela indução reflexiva de energias, e principalmente da
luz, era isso que indicava o grande espelho decagonal. O feitiço agrega também níveis
sutilíssimos de energia psíquica, isso era percebido pelo uso do Incenso Astratemporal
que tinha a função de atuar nas vias psíquicas e corporais, nas secreções glandulares,
para a emanação dessas energias.

A parte mental seria agregada pela parte ritual do feitiço. O Grande Decagrama,
aquela estrela decagonal no chão demarcava um mapa físico onde se geraria um vácuo
espacial, somando à verbalização do feitiço em si, o vácuo absorveria a energia
vibracional da voz humana corretamente pronunciada. Palavras antigas seriam
proferidas de uma forma especial.

A instância paradoxal referente no feitiço era da alçada do próprio cronosnauta. Com


ele ali instalado no centro da estrela decagonal surgiria então como o décimo primeiro
vértice daquela figura geométrica de dez lados. Dentro do espaço mágico invocado
surge o vórtice de dilatação central emanando uma nova ponta exatamente onde o
cronosnauta está. Aquela ponta da estrela criada astralmente se verga com o túnel de luz
levando o corpo do cronosnauta que salta para o espelho.

A figura astral proporcionada naquele momento seria um hecadecágono onde o feitiço


se realiza em sua plenitude.

A soma de tudo isso era a materialização de um túnel de luz astral manipulável no


qual o cronosnauta saltaria dentro. Tal túnel de luz, refletido no espelho com seu ângulo

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especial, lançá-lo-ia fisicamente ao ponto no passado onde a vontade evocada do
cronosnauta estivesse concentrada. E pronto!

Essa era a parte prática e mecânica do Feitiço do Decágono Paradoxal. Era o poder
interior coordenado dos magos exteriorizado e dirigido.

Para além dessa ordem, o caos natural atuante no Granatmos agiria, abrigando em
suas incertezas o segredo final de se vencer o fluxo do tempo.

Revisando esse processo Bogomil não viu o tempo passar. Ele se concentrara naquele
assunto não para revisar os processos ou para aumentar sua fé no sucesso do feitiço,
fizera para não ter que ficar pensando mais em Bel e nem nas consequências colaterais
do feitiço, como passar pelo isolamento ou a paradoxal certeza que não passaria por
aquele mesmo isolamento, sabe lá o Verdadeiro Deus por quê!

Desta forma chegara o momento de não se pensar mais em nada.

A um comando imperceptível do mago Mopso que ali estava, todos os demais nove
magos da Ordem do Decágono cobriram a cabeça com o capuz de suas veste e rumaram
automaticamente cada um para o ponto no decagrama que lhes cabia.

Bogomil por sua vez sabia o que fazer. Dirigiu-se com um enorme frio na barriga para
o centro do decagrama, e ali ereto se pôs a fitar o centro convergente do espelho
decagonal que lhe distorcia sua auto-imagem.

Uma espessa fumaça já enchia o salão como uma tênue névoa, e enchia também a
mente de cada um ali dentro causando um estado de consciência alterada que
estranhamente aumentava muito a atenção de todos afetados. A alucinação que o
incenso causava era a de clarear terrivelmente a percepção da realidade circundante. Os
olhos verdadeiramente se abriam para a realidade e viam dobras, ranhuras e risco no
espaço em volta.

Ao estarem todos instalados em sua posição, respiraram profundamente e


sincronizaram a respiração, e o ritual iniciava-se então.

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27 - O Feitiço do Decágono Paradoxal

(Posicionados nas pontas da Estrela Decagonal estavam os dez magos alto-sacerdotes.


Ao centro o cronosnauta Bogomil e diante dele a um metro de distância o Grande
Espelho. Os dez magos nos pontos coordenavam sua sincronia de execução do feitiço
na sequência Um, Oito, Sete, Seis, Cinco, Quatro, Três, Dois, Dez, Nove e finalmente
Onze. O décimo primeiro era o cronosnauta no centro da estrela)

(O mago na posição Um conclama então de braços abertos)

Mago Um:

- Ouça, oh! Cronosnauta, e que te adentre e reverta a luz do Sol, pois o Sol é a fonte do
tempo, e as tuas sombras, Cronosnauta, a medida do tempo que passa. Torna então as
tuas sombras luz, para que o tempo você possa reverter, e pela visão e o entendimento,
quando a luz penetrar no espelho do presente, o futuro espante, não conspirando nesse
recinto a promessa de luz do devir, e que só contigo, com tuas sombras, barganhe para
ao passado retornar!

(Lançando as mãos para frente, ele bate palma fortemente e diz:)

- Hocus pocus!

- Locus focus!

- Lux ofusca!

- Nox gnosis!

- Zoskos pocus!

- Tempus focus!

- Afocus lócus!

O Cronosnauta diz:

85
- Abracadrus!

(A fumaça do Incenso começa a girar no sentido anti-horário e os magos declamam)

Mago Um:

- Hocus pocus!

Mago Três:

- Locus luxus!

Mago Sete:

- Hocus rocus!

Mago Nove:

- Noxcus tempus!

Mago Quatro:

- Hocus doscus!

Mago Oito:

- Ciclus vocus!

Mago Dez:

- Hocus cotrus!

Mago Cinco:

- Ciclus noxus!

Mago Dois:

- Tocus luxus!

Mago Seis:

- Vacus cronus!

Cronosnauta:

- Abracadraus!

(A fumaça e o ambiente começa a se iluminar, o mago Um conclama:)

86
- Na tua frente o rumo do Sol. Nas tuas costas o infinito mar obscuro do tempo. À tua
direita o ciclone da visão. À tua esquerda o redemoinho da compreensão. Que o túnel de
luz se abra e o viajante possa regressar. Abracadraum!

(A fumaça se divide em dois redemoinhos opostos, o da direita gira para esquerda e o da


esquerda gira para direita, uma chama astral de luz azul dança aos pés do cronosnauta
no canal central entre os dois redemoinhos, os magos continuam:)

Mago Um:

- Na tua frente...

Mago Nove:

- O rumo do Sol...

Mago Dez:

- À tuas costas...

Mago Dois:

- Mar temporal...

Mago Três:

- Na tua destra...

Mago Quatro:

- Ciklon olhar...

Mago Cinco:

- Na contraria...

Mago Seis:

- Ciklon cegar...

Mago Sete:

- O túnel de luz...

Mago Oito:

- Que vá Cronau...

Cronosnauta:

- Abracadraum!

87
(Na linha central entre os dois ciclones a chama azul se condensa em uma luz horizontal
formando um túnel circular de dois metros de altura por todo o perímetro do salão até o
espelho onde reflete. Continuam a invocação:)

Mago Um:

- Na tua frente...

Cronosnauta:

- Na minha frente...

Mago Oito:

- O rumo do Sol...

Cronosnauta:

- A estrada da estrela...

Mago Sete:

- Nas tuas costas...

Cronosnauta:

- Nas minhas costas...

Mago Seis:

- O infinito mar obscuro do tempo...

Cronosnauta:

- O infinito mar do tempo...

Mago Cinco:

- À tua direita...

Cronosnauta:

- À minha direita...

Mago Quatro:

- O ciclone da visão...

Cronosnauta:

- O vórtice da gnosis...

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Mago Três:

- À tua esquerda...

Cronosnauta:

- À minha esquerda...

Mago Dois:

- O remoinho da compreensão...

Cronosnauta:

- O nexion da gnosis...

Mago Dez:

- Que o túnel de luz se abra...

Cronosnauta:

- Abra-te túnel de luz...

Mago Nove:

- E o viajante possa regressar...

Cronosnauta:

- E que eu regresse a...

(O cronosnauta Bogomil concentrando-se em seu destino no tempo salta rumo ao


espelho enquanto ao mesmo tempo os Dez conclamam:)

Os Dez juntos:

- Abracadraum!

(O Mago Um devia declamar para finalizar o Feitiço do Decágono Paradoxal:

- Consumado está este feitiço do tempo regresso!)

Mas isso o Cronosnauta não ouviu, ele já viajava...

89
Parte II:

O Espaço Que a Tudo Separa

1 – Tear da Transmigração

Uma escuridão profunda é o estofo do espaço.

Não havia nada que B. pudesse distinguir. Tudo é só uma espessa sombra radical e um
silêncio absoluto. Sensação nenhuma ou pensamento manifesto é tudo que acontecia por
um indelével momento do qual nada nem ninguém pode falar algo, palavras nunca irão
ser engendradas para isso.

O primeiro sentimento que surgiu nesse escuro total foi o de que muito tempo se
passara até algo poder perceber que muito tempo se passara.

Depois da sensação temporal exótica que já era uma saudade atemporal, emanou do
meio daquela saudade uma desolação gerando uma tontura. Era só a mente de B. que
deslocava espiralmente. Depois de rápidos instantes pode-se perceber que a espiral
convergia para um centro, deslocando-se em uma linha curva exponencial aguda e de
alta inércia oposta, à medida que convergia esticava-se na mesma proporção na tangente
oposta.

A mente de B. que percebia isso então sentiu-se esticar, e nessa abrangência onde se
convergiam um sentimento de um extenso tempo se passando, da deslocação espiralada
e de um espaço emanando por elasticidade, a matéria-coisa que esticava tornou-se
lembrança.

A lembrança primeira que se apresentou foi a de uma teia de aranha. E como se essa
teia tivesse também a propriedade de prender coisas, um sucinto entendimento de peso
foi percebido, como se a teia vergasse recolhendo os insetos da memória. E lembranças
começaram a se cumular e gerando ondas de espasmos na teia, vibrando, criando ondas
de idéias.

A teia enfim ganha conceitos e então uma precisa lembrança, uma última-primeira
lembrança que se manifesta permitindo com ela desencadear memória.

Na mente de B. a teia ganha contornos de lembranças e transmuta-se sem transmutar-


se. A teia era um espelho trincado por um impacto.

Aquela quase-lembrança-visão permaneceu e permaneceu se cristalizando em vidro


partido na memória. A memória seguinte foi uma sensação de choque, de impacto de
algo contra outra coisa, então veio a primeira intelecção completa criada no circuito
mental de B., e essa intelecção deu forma total àquela memória, que era focalmente o
rosto de B. chocando-se à um espelho, trincando-o.

90
Ao formatar tal memória a mente de B. finalmente centrou-se e ganhou dimensão,
sentia como se fosse uma esfera que girando virasse as “costas” a uma lembrança, se
dirigisse na direção oposta, voltando-se para uma sensação efetiva, uma mudança ao
inverso na linha temporal que seguia.

De costas para o ponto temporal de onde partiu a mente de B. se instalou de frente


para o espaço que deveria chegar.

Depois de um instante onde a escuridão começou a esvanecer e assumir propriedades


de sombras esfumaçadas escuras, B. sentiu como se entrasse rapidamente por uma fresta
trincada na realidade onde a luz começava a se condensar eletricamente, faiscando,
clareando mais um pouco ainda as sombras esfumaçadas já efervescentes.

B. teve a sensação de se instalar em um ponto como um mínimo relâmpago atingindo


o para-raio do tamanho de uma célula sem dimensão.

Veio então uma forte deslocação e B. poderia dizer que se sentiu vergado de pé, em
um puxão para frente, imediatamente depois ele poderia dizer que fora puxado
curvando-se para traz, pondo-se sentado.

Uma explosão sem som ocorreu e a luz inundou o campo de sua “visão”, aquela luz
se coagulando eletricamente foi difundindo cores e depois profundidade e depois formas
torvelineas.

B. sentiu então um extenso formigar, e um choque correu aracnidiamente, primeiro


descendo do ponto que seria a base de sua cabeça até ao que seria a base de sua coluna
vertebral, foi uma primeira sensação plenamente física e dimensional. Depois veio a
sensação de como se em volta desse fio eletrificado uma grossa manta emborrachada e
macia se desdobrasse praticamente agasalhando aquele fio.

A corrente elétrica aracnídea se espalhou em todas as direções e retornou ao ponto de


partida e um calor derramando-se foi percebido, e B. sentiu-se como se fora vestido por
uma roupa de carne, e os limites do corpo tridimensional contornaram a realidade
corporal onde finalmente a mente de B. pousou.

Ele chegara!

Um peso indescritível o afundou e então recobrou instantaneamente toda sua


consciência, e a vida lhe atingiu de encontro como uma grande fome que surgisse de um
instante para o outro. A vida inundou-lhe de fome, sons, cheiros, gostos, sensações
diversas em um turbilhão de pensamentos desconexos interconectados.

Então ele enfim viu-se abrindo os olhos e a luz correu das coisas em sua frente até o
fundo de seu cérebro, causando um jorro impactante de formas objetivas, como se uma
grossa agulha se cravasse dentro da cabeça.

Ele existia!

91
Mas alguma coisa lhe dizia instintivamente que algo estava errado. E o erro consistia
nesse primeiro instante no entendimento do que ele via em comparação ao achava que
deveria ver.

Ele deveria ver um salão vazio, mas via uma sala cheia de moveis e objetos.

2 – Bipossessão

Nos instantes posteriores à sua chegada B. sentiu todo o mundo em sua volta girar,
como o ataque de bestas estranhas e demônios infernais se lançassem sobre ele
desnorteando-o.

Naqueles momentos A. sentiu sua consciência se esvaindo e voltando, como se


estivesse ficando insano de uma forma evanescente. Uma estranha euforia saiu de suas
entranhas e ele dava risadas desconexas que acrescida a uma sensação latente de
náuseas crescia e diminuía. Parecia que um fio cindia seu cérebro e de um lado uma
febre ardia e do outro lado um calafrio incessante o assombrasse.

Foram necessários vários infinitos minutos para que a náusea e o desnorteamento


passassem, não sem um esforço de consciência. Nos primeiros instantes lhe parecia que
sua cabeça e suas mãos não obedeciam às suas ordens. Ecoava no pensamento
ressonância de vociferação que B. não sabia como estava gerando. Quando se levantou
da cadeira onde estava sentado ele caiu direto no chão.

Esborrachado no tapete A. se assustou como se acordasse de um desmaio rápido.


Suas mãos tremiam e por um instante ele viu sua mão em frente ao rosto se transformar
em um leque de mãos movendo-se de instantâneo em instantâneo. Uma força que não
era sua queria tornar a levantar.

Levantando-se, a cabeça girou novamente e ele se sentou, agarrando-se à mesa na


frente de sua cadeira. Uma memória do instante passado o assaltou B. e ele não sabia
nem como havia se levantado, sentiu que um olho estava cego.

“Convulsões!” A. tinha certeza que um colapso físico era iminente, ele iria morrer
sozinho ali naquele lugar. “Um flash-back!”, só podia ser, enfim ele veio, mas uma voz
tornava a falar em sua mente.

“Alguma coisa está muito errada!” disse em voz alta e estranhou sua voz, estranhou o
que ouviu sair de sua boca. Era como se vomitasse sapos. Baixou a cabeça apoiando-a
na mesa e no caminho vomitou no colo. Ao gosto amargo seguiu um peso na cabeça,
então B. cobriu a cabeça com as mãos. Não sentia a própria cabeça e tentou levantá-la
para batê-la forte de novo na mesa.

Sentiu o baque forte na fronte duas vezes. Um fedor do vômito chegou ao nariz e lhe
embrulhou o estomago novamente. “Ataque cardíaco!”, uma voz dissonante lhe

92
cogitava todos os erros de seu passado. Seria isso? Não! Era um discurso sem sentido.
“Intoxicação?”

Passou dez longos minutos nessa posição esperando os enjôos passarem,


raciocinando confusamente, “o feitiço me mandou a um tempo errado!”, “a minha alma
está se dividindo”, sentiu a morte lhe devorando e o próprio demônio da dissolução
cingindo seu corpo. “Concentre-se Bogomil!”

Repassou mentalmente os momentos anteriores que lhe pareciam tão distantes no


tempo. Ele em princípio se esforçou para lembrar a sequência de fatos dentro do Salão
Sempiterno. Então finalmente firmando a mente ele se lembrava de tudo, de cada
momento, do ritual, da invocação, do espelho.

A. começou a querer chorar. Alucinava, e então teve certeza que uma molécula de
LSD bombardeava de novo um lado apenas de seu cérebro. Devia se agarrar a vida,
assim poderia ter chance de escapar sem danos profundos na cabeça.

Mas a mente apagava e retornava e cada vez que voltava uma série de alucinações
surgia em forma de voz autônoma e pensamentos tresloucados.

Firmou a mente afastando os pensamentos idiossincráticos, tinha que lembrar do que


pensara nos instantes que dava um passo largo rumo ao espelho para a conclusão do
feitiço. Ele tinha certeza que estava concentrado apenas no ritual, que tinha em mente o
dia exato para onde deveria retroceder, não se lembrava de nenhuma distração lhe
ocorrer na mente, apenas firme e precisa mentalização.

Emergindo de um sonho rápido A. tinha certeza que não escaparia daquele evento
sem alguma sequela então. Fluíam pensamentos coordenados que não eram seus. Um
misto de sentimentos o inundou, arrependimento era o principal.

B. afastou o estranho sentimento de arrependimento, ele devia assumir todos seus


erros. Voltou a tentar repassar a cadeia de eventos no Salão Sempiterno e julgou que
poderia estar alucinando no efeito do Incenso Astratemporal ainda. Isso lhe acalmou um
pouco, bastaria dar um tempo que passaria. Se concentrou na sensação que o incenso lhe
causara, e não havia alucinações naqueles momentos, apenas uma luz astral e um vento
movimentando em torvelinho a fumaça do incenso. Tudo aquilo era efeito do feitiço,
sua mente era clara e concentrada. Mas agora ele divergia estranhamente.

Nunca tinha tido essa espécie de fantasia. Uma voz ditava um evento e A. acreditou
então estar sendo possesso por um espírito. Enfim aconteceu, a punição por anos
brincando com o oculto. Sentiu um medo tremendo e o reto fez menção de defecar. O
medo entretanto era mais forte que a vontade de esvaziar-se, e ele procurou na mente
uma oração para proteger-se.

Segurando uma vontade de defecar B. fechou forte todos os orifícios do corpo, fechou
até o olho fortemente, já bastava o vômito. De olhos fechados pensou que ao abri-los
novamente estaria onde e quando deveria estar, mas sua decepção foi instantânea. Ele

93
estava em um outro lugar, um lugar muito diferente de qualquer lugar que um dia
conhecera e uma voz horrorizada parecia se dirigir à ele como um demônio invasor.

Ele reconhecera a artimanha do demônio e imprecou vagamente uma conjuração de


proteção. A conjuração rápida pareceu surtir efeito e ele sentiu a voz na cabeça definhar
e calar-se. Podia recompor-se, observar e tentar entender o que via em sua volta.

Havia ali uma mesa onde dispunham dezenas de pequenos objetos. Do outro lado, na
parede estavam dispensados muitos objetos que ele percebeu serem livros em uma
estante de madeira. Havia duas porta no ambiente e a mesa sobre a qual estava instalado
um objeto completamente estranho de cor bege, parecendo uma caixa com um lado de
vidro. Acima dele um lume reluzente brilhava sem nenhum recipiente para queimar
óleo.

“O que que é isso!? Estou perdendo a compreensão da realidade?”, A. se exasperou


ao perceber que a voz que lhe possuía sem sua permissão desconhecia as coisas em
volta e ele sentia que ele próprio desconhecia o significado das coisas. Uma espécie de
amnésia fracionada o atingia.

Tentando manter o controle, B. esforçou-se para continuar olhando as coisas em volta.


Resolveu ignorar a voz cheia de medo dentro da cabeça. À medida que ia olhando para
todas as coisas, entretanto uma profunda sensação de reconhecimento vinha à sua
cabeça, como se um pensamento imediato lhe contrariasse a ignorância e ele passava a
“saber” o que era que via. Parecia-lhe que aqueles objetos estranhos não eram tão
estranhos assim. De uma forma como nunca pensara antes ele podia conceber o nome e
a utilidade de cada coisa estranha que nunca tinha visto. Assim viu surgir na mente para
seu espanto maior ainda os nomes daquelas coisas, tais como computador, esferográfica,
CD, lâmpada elétrica, e tantas outras coisas fluíam de repente para seu entendimento.

“Que magia é essa?”, gritou assustado e encantado com o que lhe ocorria. Só podia ser
aquilo! Ele havia retornado a um tempo de grande magia onde coisas daquele tipo eram
possíveis, talvez as coisas em volta falassem com ele, talvez estivesse em eras míticas
das quais nunca ouvira falar nos livros de estudo da Luz Serena.

Instantes se passaram e A. sentiu sendo sugado, como se o que pensasse aderisse


àquele tipo de invasor transmitindo o que pensava. “Ou é um surto psicótico ou é um
vampiro próximo!”, ele pensou expondo a loucura que começava a aflorar em cada
célula de seu corpo.

Nunca passara por aquilo e em tudo que estudara sobre drogas nunca havia lido
nada parecido, por isso sentia que algo do cunho espiritual se passava. Ele então tinha
quase certeza que morria e os primeiros deuses raivosos se aproximavam para lhe
carregar para o inferno enfim.

“O que lhe falara aquilo? Por que não conseguia esconjurar aquela voz tola?”. Mas
para cada coisa que falava ou pensava um pensamento dissidente aparecia em sua
mente, contestando o que pensara ou dissera, deixando surgir um turbilhão de idéias

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inconcebíveis para ele. Havia uma presença local naquele ambiente, deste lugar e época
falando com ele dentro de sua cabeça. “Enlouqueci!”, repetiu diversas vezes. “Está tudo
perdido!”

B. tentou levantar-se de novo, mas uma força contrária o impediu. Esticou as mãos
diante os olhos e começou a perceber que não reconhecia aquelas mãos, não eram suas
mãos. Tocou o rosto, os cabelos, tudo lhe parecia estranho. Olhou para baixo e reparou
que seu corpo mudara também, suas vestes, tudo. Era como se ele fosse outra pessoa.

Pensamento dissonante agudo. Neurose. Aquilo não iria passar nunca? Pensar isso
assustou muito mais A. “Se aquilo não passasse nunca...”, lembrou de sentir isso em
experiência com drogas, temia e tremia de novo por cogitar uma solução final
inevitável, suicido!

A voz na cabeça começava a lhe exasperar novamente. Concentrou-se então, de olhos


fechados invocou um feitiço de autodomínio, um subterfúgio simples para enquadrar a
mente e centralizar seu pensamento. Sentiu-se fortalecer psiquicamente e dominar “seu”
corpo. Em um jogo de pensamento místico invocou proteção astral para seu corpo e
baniu mentalmente qualquer força que lhe acometesse. Respirou fundo e levantou-se
então, mais corajoso.

...

Rumou em direção a uma das portas e abriu, dando em o que viu ser um sanitário. Ao
constatar isso vacilou novamente. B. fora até ali decido a ir ao sanitário, mas como
podia saber que lá era isso, e pior, encaminhara-se até ali para fazer uso exclusivo de
algo que se encontrava lá dentro, era como se já soubesse que ali teria um espelho para
se olhar.

Deixando de lado a incerteza para não abrir espaço para a voz tresloucada,
encaminhou-se ao espelho para quase desmaiar de surpresa.

“Sou eu... sou eu... ahahahahah...”

A fase refletida não era a dele, era outro homem. Agarrou-se a pia para não despencar.
Ao mesmo tempo em que ele negava ser aquela pessoa refletida no espelho outra coisa
parecia lhe falar que aquele era ele, ou melhor, que aquela imagem refletida era a coisa
que pensava junto com ele. Outra pessoa.

B. teve que se concentrar novamente, o outro enlouquecia em prantos, pensou em


invocar novamente todos seus pequenos feitiços novamente, mas não havia razão para
repetir, uma verdade desconcertante começava a se instalar em sua mente dissonante.

Só podia ser aquilo! B. encarnara no corpo de outra pessoa ao retornar no tempo.


Alguma coisa havia dado muito errado mesmo! Pensamentos leves como o vento
assopravam a mente: “E n c a r n a ç ã o...!?”

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Ele passou ali alguns minutos encarando o reflexo, tocando a face e o espelho,
pensando, como se encarasse seu receptor. Havia a questão do pensamento duplo
também, então B. não só encarnara em um corpo de outro homem, mas dividia
milagrosamente a tela da mente com a consciência desta outra pessoa. Por isso sabia de
coisas que não sabia, ele sabia através da consciência daquele outro que habitava aquele
lugar.

Mas lhe parecia que o outro não fazia menção de quem era “Bogomil”. Percebia no
pensamento do outro um sentimento de estranheza resignada, como se o outro pensasse
que estava enlouquecendo também, mas vitima de uma momentânea identidade dupla
dissonante e mais forte que ele, por efeito latente de alguma espécie de substância
química, como se um espírito fantasma o possuísse. Na verdade não era muito diferente
disso o que estava acontecendo mesmo, concluiu B.

“Se for isso então que está acontecendo, então o feitiço saiu mais errado do que
pensei”.

Bogomil resolveu aquietar-se finalmente. Limpou um pouco do vômito nas calças na


pia e retornou à cadeira onde estava sentado e raciocinando febrilmente chegou à
conclusão que era o momento de ter um pouco de respostas. A última conjuração de
proteção parecia surtir efeito, aquela outra consciência se aquietara.

Reuniu forças novamente na mente e em profunda concentração formou a imagem


mental de um espaço negro que era o “dentro de „sua‟ cabeça”, ali imaginou a si mesmo
e então imaginou perto de si um outro homem, e definiu magicamente então que cada
um daquelas formas era uma pessoa diferente, cada um tinha uma consciência própria.

Pronto! Havia erguido uma realidade astral onde poderia se relacionar com a
consciência que “falava” consigo, dividindo a mente. Ali poderiam “conversar” cara a
cara, e Bogomil enfim começar a ter alguma resposta.

Procedendo no nível imaginário-mágico, Bogomil chamou seu misterioso parceiro


para participar daquela brincadeira.

3- Conhece a ti mesmo

A. havia aceitado a brincadeira de B.

- Por favor, acalme-se e responda-me, quem é você? – foi o que perguntou Bogomil
para começar a conversa astral.

- Eu me chamo Ariel Bogari... E você?

- Sou Bogomil, do reino de Altair, sou um mago. Onde estou?

- Ora, no interior de minha loja! Você é meu alter-ego?

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- Não! Sou um viajante do tempo!

- Então você veio do passado? Por isso esse seu comportamento?

- Em que tempo você vive?!

- No ano de dois mil e doze. De que época você veio?

- Eu sou do futuro, três anos à frente... Não! Espere! Não sei nada desse seu
calendário. Pertenço à época do ducentésimo vigésimo terceiro ano do reinado da Casa
dos Arox.

- Não sei nada desse seu calendário. Nunca ouvi falar deste reino nos livros, fica em
que continente?

Bogomil recolhera-se. Estava tudo errado, a não ser que o outro estivesse brincando
mais ainda com ele, o que ele não considerava mediante seus poderes e confusão do
outro. Sentia-se bastante forte magicamente. Ele devia ser mais direto, tinha que
conseguir respostas e não mais duvidas que lhe enchesse a cabeça.

Então ele pediu:

- Ariel Bogari, por favor, abra toda sua mente para mim e deixe fluir as coisas que
você sabe.

O outro à sua frente pareceu vacilar, dando um passo atrás no ambiente astral.
Bogomil percebeu que o outro indivíduo receava abrir a mente e ter sua personalidade e
vida invadida, como se desnudasse diante um desconhecido.

- Lhe garanto que irei de encontro apenas com informações temporais, históricas,
quero saber o que está se passando, onde estou, não irei invadir o âmago de seu ego.
Depois lhe responderei o que quiser sobre mim. – disse Bogomil o mais complacente
que pode pensar.

Ariel pareceu resignar-se, achava ainda que estava sendo vitima de um flash-back de
ácido ou coisa parecida, mas era o encanto de Bogomil que tinha certa ação sobre ele,
assim cedeu.

Então a mente de Ariel se abriu para Bogomil, e através de um processo mágico de


metagnomia todo seu arquivo existencial-histórico estava disponível e um jorro de
informações inundou a consciência de Bogomil. Vieram ordenadas e na forma de uma
cosmogonia astral, que Bogomil assistia e sentia ao mesmo tempo, era saber
condensado puro sendo adquirido.

Universo, planeta Terra, continentes, nações, sociedade, civilização, povo, tempo,


espiritualidade, línguas, tudo vinha e fluindo de um para outro e Bogomil ficou
abismado do quanto começava a entender e a saber sobre tudo e todas as coisas desse
mundo e como as coisas ali eram. Quando dados científicos populares começaram a ser

97
transmitidos Bogomil percebeu o grau de sabedoria de toda aquela humanidade e suas
buscas e descobertas, suas aventuras pelas épocas e desenvolvimento.

Assim em poucos instantes Bogomil pode se localizar satisfatoriamente. E ele


reconheceu que estava perdido! Estava mais perdido do que poderia imaginar.

Aquele era outro mundo. Outro tempo. Talvez ele viajasse através do espaço pelo
universo e quiçá do tempo também e sua consciência caíra nas proximidades de uma
estrela distante onde ao redor funambulava um planeta onde outros homens e mulheres
viviam suas vidas. Ele podia perceber algumas similaridades com seu próprio mundo, as
pessoas tinham a mesma formação física, havia astros correlativos, Sol, Lua, planetas.
Havia também conceitos e idéias similares, mas havia também algo estranho que
chamara a atenção de Bogomil.

Havia no desenrolar de fatos históricos próximos coisas muito similares entre seu
mundo e aquele. Bogomil não sabia dizer ao certo o que era, mas estava ali, o
incomodando. Era muita informação que tinha que assimilar raciocinando. Não fazia
sentido, mas aquela percepção apontava para um conjunto de similaridades relevantes.

Pensando nisso foi que Bogomil começou a perceber algo que havia ignorado, talvez
pelo susto e desnorteamento que vinha sentindo naqueles primeiros momentos seus
neste mundo. Era o espelho, o espelho do banheiro. Ali ele vira algo muito diferente do
que pensara que iria ver, mas...

No ambiente astral então Bogomil se aproximou do corpo astral de Ariel e percebeu


que ele até que lhe lembrava alguém. Encarou a face de Ariel e lhe parecia que olhava
em um espelho um pouco infiel então.

Era aquilo, só podia ser, o rosto de Ariel lembrava muito ao seu próprio rosto, como
se fosse um duplo imperfeito, ou melhor, a semelhança que ele começava a notar era
como a semelhança de um irmão. Bogomil pensou então que qualquer um que os visse
diria de imediato que eram irmãos, nascido da mesma mãe e talvez do mesmo pai, não
haveria como duvidar.

“O que aquilo significaria? Seria só ilusão?” perguntava-se Bogomil. Estaria apenas


iludido pela situação e pela reflexão astral. Não! Em sua memória ele repassava a visão
do rosto no espelho, eles eram parecidos, muito parecidos. Então, o que significava?

Bogomil se pôs a meditar profundamente novamente. Passou pela cabeça


pensamentos agregados, ele podia pensar de seu ponto de vista e também acrescido com
o que havia “aprendido” de Ariel. Esse homem não era mal informado, havia lido
bastante, tinha estudo, sua visão de mundo era ampla graças a muitos livros e revistas
que lera, e Bogomil agora sabia de tudo também.

Ponderando e cruzando informações uma idéia foi surgindo na mente de Bogomil, e


era uma idéia que nem seus mais ousados sonhos de saber alcançaram quando
esparramados pelas bordas de seu mundo, seu granatmos, seu universo.

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Todo encadeamento de idéias e informações foi se interligando e dando base a uma
teoria plausível, fantástica, mas que explicava o que via, sentia e entendia.

Bogomil chegou a uma conclusão reconhecidamente genial. E como aprendera que


quando nada fazia sentido em magia ele só poderia entender o que se passava pelo viés
do gênio, ele mesmo condecorou sua idéia como genial. Poderia ser aquilo a primeira
resposta efetiva. “Genial!”

Ele não havia apenas viajado no tempo, havia viajado no espaço, mas em um espaço
tão imenso que ele só podia estar em uma outra dimensão! Provavelmente ele estaria em
uma realidade paralela ao seu mundo então.

Era isso? Genial ou néscio total?

Realidade paralela! Aquilo explicaria muitas coisas. Principalmente as similaridades


que percebia. Por algum motivo que desconhecia, o feitiço provavelmente o havia
jogado em uma dimensão paralela da sua realidade.

Outras questões mais profundas então surgiam disso. Bogomil afundava-se em


dilemas com as verdades que teorizava. Como por exemplo, lera no livro da “Clavicula
Æterna”, onde no saber da Igreja da Luz Serena se fazia menção ao “campo
unidimensional da realidade”! Se o que passava fosse mesmo real, então sua sabedoria
da realidade estava no mínimo incompleta e falsamente indicada na visão de mundo que
a Luz Serena reconhecia.

Como provar aquilo tudo? Como ter certeza? E mais então, como poderia voltar ao
seu mundo? E sua missão? “Bel! Meu Deus! E Bel?!” Não precisava dizer mais nada,
não precisava se preocupar com mais nada, já tinha mil preocupações se avultando às
suas costas.

“Mais conhecimento, mais sabedoria.” Era só no que Bogomil pensou que poderia lhe
ajudar.

Para ter mais sabedoria ele viu então que necessitaria de mais controle do corpo que
estava hospedado. Como e por que havia parado naquele corpo? Pelas similaridades
físicas? Cada pensamento levava a outras questões.

Resolveu que teria que possuir o controle daquele corpo, seria o básico para descobrir
respostas. Tinha que tomar uma atitude agora mesmo, pois era urgente ele ter a maior
quantidade possível de informação que pudesse o ajudar.

Rapidamente Bogomil forjou um plano. Ele deveria ter que trair a promessa feita no
astral para aquele Ariel Bogari. Ele não poderia perder tempo respondendo as questões
daquele outro que achava provavelmente que estaria ficando completamente louco com
aquela situação. Bogomil tinha que usar seus poderes, suas técnicas de controle e tomar
posse daquele veículo de “seu” corpo pelo tempo necessário para resolver seus

99
problemas. Para isso ele já concebia usar um poderoso encanto de controle mental para
então conseguir controlar o corpo deste Ariel Bogari. “Pode dar certo!”

Começou fazendo certos gestos no ambiente astral para tomar a atenção mental de
Ariel. Sussurrava um encanto ao mesmo tempo. Ele visava adormecer Ariel o mais
profundamente possível em sua mente e daí se por a trabalhar por adquirir sabedoria.

Passando instantes da conjuração do encanto, Bogomil pode perceber que lograra


êxito em seu ardil. A consciência de Ariel Bogari representada ali em seu corpo astral
parecia desvanecer e submergir em letargia. Bogomil então urdiu com a imaginação-
mágica uma poderosa cela para aprisionar Ariel fundo dentro de sua mente. Ele não
queria seu mal, apenas queria estar livre de impedimentos para agir, e assim o fez.

Bogomil tinha que ser firme, por isso invocou poderosos protetores astrais para
fundirem-se e guardar a cela de Ariel. Ele não podia mais vacilar, havia muitas coisas
em jogo. Finalmente a luz da consciência de Ariel submergiu por completo no oceano
profundo que Bogomil o jogara. Tão logo ele devolveria o controle, depois de ter
sucesso na sua busca.

Agora Bogomil era Bogari externamente, e a consciência de Bogomil comandava o


corpo do outro. Feito isso Bogomil viu que o melhor agora era por aquele corpo para
dormir também e sondar novamente todas as paragens de conhecimento que possuía,
para se inteirar completamente do saber humano disponível em cada célula sua, até sua
memória genética, então Bogomil estaria inicialmente preparado para sua aventura
naquela realidade.

“Durma Ariel! Durma e sonhe seus sonhos de compreensão para espantar meus
pesadelos de extraviado e de exilado do tempo e do espaço aos quais pertenço!”

4 – Anarete Terra

Naquela noite de sono aconteceu à Ariel o que Bogomil já previa, sua alma não se
esparramou pelo seu universo, se é que as almas dos seres deste lugar tinham tal
propriedade transcendental natural, mas ela estava aprisionada astralmente no oceano
profundo do inconsciente mesmo.

Por seu lado, com a consciência plenamente ativa, Bogomil sorveu


metagnomicamente do circuito de memória de Ariel nos mínimos detalhes os mais de
mil livros que ele havia lido em sua vida. Apossou-se também dos milhares de artigos
de revistas, documentários assistidos, notícias, e tudo mais. Bogomil se inteirou do
saber de Ariel, que não era pouco. Era como dar um vôo bruxaliante em volta do mundo
nas costas de uma vassoura voadora mágica acessando toda criptomnésia humana ali
disponível, sua abrangente cornucópia sapiencial.

100
O mago agora possuía em seu estofo de compreensão tomos de filosofia, ocultismo,
ciências, literatura, psicologia, física, mitologia, produzidos ao longo da história por
aquela humanidade.

Bogomil se deparou com instâncias de conhecimento sofisticadas possuídos por Ariel,


e percebeu muitos correlatos com a cultura de seu próprio mundo, em especial com sua
ciência mágica, filosofia, espiritualidade, saberes parecidos conquistados por uma mente
puramente humana. Psicologia, física quântica, astrologia, química, esoterismo, havia
muitos pontos em comum que se autocomplementavam, era impressionante!

Outras instâncias do conhecimento de Ariel e da humanidade deste mundo eram mais


sofisticadas ainda, e faziam sentido só para alguém como Ariel. Pensamentos que
tinham nascido dentro de sua formação e seus processos históricos próprios, coisas
como certas religiões deste mundo, a economia, os campos de concentração, a política e
a democracia, as rações para animais, o tecnicismo, a pornografia, a bomba nuclear,
entre outras coisas tão sofisticadas.

O mago foi se inteirando pouco a pouco sobre tudo isso. Foi formando em sua mente
uma perspectiva do que era realmente a vida destas pessoas que habitam este mundo, e
de sua perspectiva alienígena Bogomil percebeu que apesar do grande desenvolvimento
intelectual e tecnológico desta humanidade, uma mancha escura impregnava seu mundo.
Afinal religiosidade não significava espiritualidade e lhe parecia quanto mais os povos
deste mundo se desenvolviam materialmente, mas retrocediam espiritualmente.

A magia havia sido praticamente extinta dos circuitos das relações humanas, e apesar
de manipularem inconscientemente forças sutis, este povo preferiu marginalizar e tornar
a magia uma coisa vista como maléfica, enquanto religiões dogmáticas serviam de base
para o pensamento intelectual, para a moral e a ética, religiões que agora naquele
momento da história desta humanidade haviam sido desligadas de suas raízes mágicas e
ocultas, tornando-se uma simples mercadoria de consumo das massas cada vez mais
infelizes em um mundo incapaz de lhes realizar qualquer felicidade.

“Será que era aquilo que estava em curso em seu mundo de Alleghoria e
principalmente em Altair com a afluência das crenças cômodas?”, pensava o mago.

Havia, entretanto na Terra, a influência significativa das ciências, mas essas não
tinham a força mística-poética o suficiente para atingir um grau de mentora popular para
influir eticamente esta civilização. A força das superstições era avassaladora, e isso
aderido a um ego selvagem que os seres humanos possuem, as ciências tinham uma
influência bastante restrita, decaindo na esfera inevitável do religioso.

Assim, o científico era sinônimo de ateísmo. Dentro desse circuito de dominação


religiosa tão forte, a ciência deste mundo, apesar de profundamente avançada em suas
descobertas físicas e aparelhamento, era vista como reduto do ateísmo e do mal. O que
muitos cientistas ajudavam a fazer parecer mesmo, pois a maior parte da tecnologia

101
desenvolvida nas buscas cientificistas era convertida em poderosas armas de destruição.
E as guerras por motivos inacreditavelmente banais abundavam neste planeta.

Bogomil pode entender como a física de ponta aqui chamada Física Quântica tinha a
capacidade de desvendar os meandros da realidade fundamental. Aquilo partiu desde
pensadores muito antigos que começaram a filosofar sobre o que seria o mundo e
desenvolveu-se até o que nesses dias eram teorias incrivelmente sofisticadas, como a
própria quântica, a teoria das super-cordas, a busca pela teoria de Campo Unificado e
conhecimentos afins.

Para Bogomil era claro que diferentemente do que ocorreu no desenvolvimento da


história de Alleghoria, na Terra a ciência não conseguiu fazer chegar à mente das
pessoas comuns seus conceitos e linguagem. O povo deste mundo não pensava
cientificamente, mas devocionalmente, e pior, dogmaticamente religioso. Tudo se
tornava religioso neste planeta, tudo era visto pelo viés de uma revelação de fé. Família,
trabalho, propriedade, nação, economia, política, arbítrio, amor, sexo, ciência, em tudo
havia a premissa divina, apesar de agirem como se Deus não existisse.

O alienígena exilado de seu tempo e realidade via assim o vulto, a mácula que
obsessava este mundo.

Essa mácula era o espírito do controle e da exploração alheia, o segregacionismo


cultural sócio-racial, a mancha escura da desunião. Havia vestígios dessa mancha se
formando no mundo de Bogomil, mas ela estava primeiramente instalada naquilo que
Bel quisera fazê-lo notar e ele não deu muita importância, o embate das forças
masculinas e femininas em cada homem e mulher mais do que nas guerras entre três
reinos. Talvez aqui também, tal desunião ancestral tivera o mesmo fundamento, mas
para certificar-se disso Bogomil teria que estudar mais sobre este mundo, para além do
que Ariel sabia.

Ele sentia como se sua consciência tivesse que regredir para entender sobre como tudo
aquilo atuava na mente das pessoas deste mundo. Lhe parecia que seu próprio ego era
diferente do de Ariel.

E tal diferenciação Bogomil teria que por de lado dado a urgência que o mago tinha
em adquirir conhecimentos que lhe auxiliassem a entender sua situação particular, de
alienígena, e mais importante ainda, de como retornar ao seu próprio mundo. Aqueles
fatos notórios apreendidos lhe serviam apenas para entender em que tipo de mundo ele
estava, e isso muito em sua própria perspectiva de exilado de um mundo mágico.

No fundo, “mundo” não é um tal planeta que orbita em volta de uma estrela, o pedaço
de rocha espacial onde a vida um dia surgiu e evoluiu ou degradou sabe-se lá porque e
adquiriu miríades de avanços tecnológicos fantásticos, o mundo na verdade é o ser
humano, o que ele pensa, sua conduta. Isso é o mundo, a realidade. Observado desse
modo, os mundos que possam existir então não seriam diferentes, apenas os seres
humanos o são.

102
O que difere os mundos possíveis, e os mundos dentro dos mundos, é a capacidade
que os seres que ali interagem tem de apreciar a beleza e a poesia e a submeterem ao
crivo existencial. De viverem em beleza e a garanti-la a todos, ou não. O que, por
exemplo, diferenciava o mundo de Altair do de Eusorama, era, na visão de Bogomil,
justamente o fato de as pessoas em seu reino estarem dirigidas por um pensamento
mágico e através disso buscarem contato não com um deus exterior, mas uma divindade
que se manifesta com uma Chama Dupla de Luz Serena dentro de cada um.

Este mundo da Terra parecia a Bogomil ter a capacidade afiada de fazer com que os
sistemas criassem vida própria e aí se voltarem contra aqueles que os idealizaram, tudo
se tornava domínio ali. A própria Civilização deste mundo em que o mago se vê então
caído tinha ganhado vida própria e se tornado um animal feroz autodestrutivo e inimigo
da humanidade e da natureza.

Pensando na conformação mental das pessoas deste mundo, Bogomil estendeu suas
elucubrações a respeito do planeta Terra a partir de sua perspectiva gnóstica que lhe
influenciara desde seu próprio mundo. E aquilo bem que poderia explicar o pensamento
e a conduta adoecida desta humanidade na qual ele estava mergulhado agora. Para ele
então este mundo também era criação de um Arkonte tirano e louco, um ditador
cósmico, talvez o mesmo cosmocrator que a Luz Serena reconhecia como o cópio-
criador de seu mundo. Esta humanidade havia se voltado totalmente para as
perspectivas funestas impostas pelos Senhores dos Mundos afins então.

Aqui havia também um pensamento gnóstico, na história do pensamento humano


havia sábios que perceberam esse caráter obscuro do mundo, eles chamavam os
Arkontes de Éons, os seres deste mundo tinham fé justamente em um deus que
justificava suas próprias ações de domínio, poder, sofrimento, punição, pecado,
salvação externa, cegueira espiritual e social, desequilíbrio, soberba, divisão classicista,
assim no seu céu como na sua terra.

A maioria dos seres humanos deste mundo desconhecia plenamente as pulsões


psíquicas onde tais Éons penetram e perpetram sua influência no mundo, e assim
disfarçadamente, em um jogo de esconde-esconde, tais Senhores avançam para as
paragens do particular, do isolado, do sangue, da raça.

E o que são os Éons senão uma forte pulsão de realização do desejo pessoal, da
arrogância produzida pelo desconhecimento da totalidade das coisas. Neste mundo até
se dava o nome de “Criança Desobediente” ao Éon Supremo, designado por antigos
sábios gnósticos deste mundo por Yaldaboath. No mundo de Bogomil o significado do
nome do cosmocrator, Doogheh, significando algo como “Destino Egóico”, um
conceito de palavras antigas que remetia à idéia de “cão cego”.

Neste mundo onde havia caído, o oponente universal de Yaldaboath era um deus
chamado Abraxas, que similarmente no mundo de Bogomil tinha um paralelo em
Abracax, o Senhor da Abertura, invocado nos rituais mais poderosos de magia, como o
próprio feitiço que o havia lançado neste mundo, na palavra de poder “Abracadraus”.

103
Enfim, esse era o mundo no qual Bogomil se viu lançado. Um mundo muito similar
ao seu, mas também muito diferente ao mesmo tempo. Em termos de pensamentos
fundamentais ambos os mundos tinham no seio de seu conhecimento espiritual-
psicológico o vislumbre revelado a respeito de um Mal Supremo, o Demiurgo, o
imitador do Verdadeiro Deus, o Éon Supremo, confundido ao longo da história desta
humanidade como o Adversário de Deus, ou Satã. Isso era a visão gnóstica em ação, era
uma forma mitológica ou arquetípica de se falar sobre o próprio Ego humano onde o
“mal supremo” não seria nada mais que a ignorância e a estupidez humana.

Bogomil entendeu que da fonte desse conhecimento foi que surgira a religião que
mais tinha seguidores neste mundo, chamado de “Cristianismo”, que era muito parecido
com o Vorismo de seu mundo. Reza a lenda daqui que o cristianismo fora fundado por
um homem elevado à condição de Filho de Deus, sendo assim o próprio Deus. Ele fora
chamado Cristo, que quer dizer “O Ungido”. A coisa não era bem assim, mas essa era a
história oficial aceita agora.

Esta religião chamara a atenção de Bogomil por motivos evidentes, e ele se debruçou
um pouco mais sobre o que Ariel sabia dela para ter sua própria opinião então. Correu o
olho da memória sobre seu livro sagrado oficial.

5 - Com a morte na alma

O mago de outras paragens tomou ciência do conteúdo total da Bíblia, no início de sua
primeira parte a história complicada e lúdica da criação do mundo e do ser humano e de
sua queda. Depois a história mística de um povo escolhido, suas agruras e lutas até que
eu seu seio surgisse o supra-sumo genético de um homem chamado “Jesus Filho de
José”.

De imediato Bogomil percebeu na estória do nascimento desse homem indicações


subliminares de processos mágicos que ele mesmo conhecia, tais como nascimento de
uma virgem, espécie de filho de uma viúva, no caso de Jesus, de um viúvo também, sua
concepção que parecia um processo mágico que Bogomil conhecia como “geração a
partir da besta”, um animal, no caso de Jesus uma pomba, e sua vida mágica.

Bogomil de forma simplória, ou não, percebeu que na vida de Jesus, em sua atuação
social, ele preconizara várias passagens que hoje podia se reconhecer como as diversas
formas de cristianismo espalhadas no mundo.

Havia assim o Jesus bebê fugitivo das forças que queriam matá-lo, tornando-se um
exilado em outras terras. Havia o Jesus menino que debatera com velhos sábios em seus
templos. Havia o Jesus rapaz, que transformara água em vinho em uma festa ou
alimentara uma multidão com poucos peixes e poucos pães. O Jesus curandeiro que
sanara as moléstias dos enfermos. Havia o Jesus exaltado que chicoteara comerciantes
no templo de seu Pai. Havia o Jesus amoroso que fora ungido por mulheres. Havia o
Jesus pessimista predizendo que sempre existiriam pobres no mundo aos quais poderia

104
se dar esmolas. O Jesus tremente que chorara lágrimas de sangue em profundo medo. O
Jesus traído por seus discípulos. O Jesus manipuladamente julgado e condenado pelos
seus irmãos de sangue. O Jesus interpolado por um governante sobre o que seria a
Verdade. O Jesus torturado, crucificado e morto. O Jesus ressurreto e transcendental.
Havia o Jesus espiritual com suas chagas tocadas. E depois houve o Jesus dos
estrangeiros. Agora a o Jesus senhor de tudo e de todos.

Assim Bogomil pode perceber que esses diversos “Jesuses” serviriam para formar
diversas seitas diferentes dentro do chamado cristianismo posterior.

Três desses “Jesuses” chamaram mais a atenção de Bogomil, pois um era o que mais
influenciara o mundo cristão atual que ele via.

A princípio o homem-deus que muito agradou Bogomil fora aquele que em ira
chicotara comerciantes e cambista na porta de um grande templo.

Um outro era o Jesus que Bogomil, em sua visão entendia como o mais próximo de
uma fé nesse homem que ele poderia ter. Mas todos esses modelos “jesusíticos”
continham a morte na alma, sua doação paradoxal à humanidade aos que quisessem
seguir um homem assim, um homem-deus cuja alma reside em uma completude.

Aquele primeiro desses Jesus era o visto de um ponto de vista religioso no mínimo
indigesto.

Bogomil via uma sórdida e quase cômica relação da religião cristã dominante desde
tempos antigos no que chamavam de Ocidente com um fato muito peculiar. Onde quer
que essa tal religião chegava ela tinha uma relação com um certo animal, o porco.

Esse animal era citado em muitas outras tradições religiosas mundo afora, mas
naquela que dominou a Europa, e agora era dominante nas Américas dos tempos atuais,
tinha a sutil relação com os suínos. Claro, essa era visão de uma pessoa alienígena ao
mundo, vindo de outra cultura distante.

Bogomil tomara conhecimento de como o Cristo tinha expulsado espíritos malignos


de pessoas possessas os lançando em uma manada de porcos, e aquilo para Bogomil
seria o ponto inicial mais forte da relação daquela crença com os suínos. A história da
expansão daquela doutrina, totalmente desviada dos ensinos originais de Jesus, tratava
muitas vezes dos porcos.

Ele lera, quer dizer, Ariel lera e Bogomil sabia de algumas histórias sintomáticas. Ele
sabia do caso quando os devotos, em nome daquela crença, cruzaram os oceanos
encontrando as sociedades nativas das assim chamadas Américas, eles trouxeram para
seu deguste o animal em questão, e os nativos estranharam muito tal animal, pois só
conheciam espécies mais selvagens do bicho. Contam os anais da história que em certos
lugares onde os sacerdotes dessa fé começavam a doutrinar levando consigo seus porcos
houve vez de se destruírem monumentos sagrados e contendores de importantes

105
informações religiosas e culturais dos nativos para simplesmente se construírem
chiqueiros. E coisas parecidas.

Para Bogomil, aqueles sacerdotes de antigamente, como os de hoje, não passavam


afinal de criadores de porcos, e seus templos limpos e inteligentes pareciam-lhe pocilgas
sofisticadas, onde os fieis faziam a vez da linha de engorda materialista, consumindo as
sobras dos donos das pocilgas.

Havia paralelamente ensinamentos ocultistas espalhados ali que advertiam que a carne
dos porcos era imprópria para consumo humano, pois aquela carne era entendida como
de uma vibração baixa, estando receptiva a toda porcaria espiritual que paira no ar em
forma de energias.

Assim, para Bogomil, à medida que os sacerdotes iam prosperando em sua edificação
de uma pocilga universal espiritual, a humanidade ia revivendo de forma irônica a
fundação primordial de sua crença quando demônios foram expulsos de pessoas se
arrojando em porcos e dali para um precipício. E não havia ninguém para pagar os
prejuízos.

Essa era o “Jesus” que a maioria das religiões cristãs atuais mais populares tinha como
base fundante. Um Deus que lutava contra o mal, fazendo exorcismo, sacrificando
porcos assustados.

O outro Jesus que mais fascinara Bogomil depois do irado chicoteador, foi aquele que
aos doze anos debateu com anciãos dentro de uma Sinagoga. Essa Criança Sábia era o
protótipo do novo que destrói o velho, era a representação da insolência juvenil que
quer tomar seu lugar no mundo decrépito e fazer florescer coisas novas.

O infante era mesmo uma personagem mágica no ideário místico que Bogomil seguia.
Na Luz Serena havia referência à Criança Divina que deve florescer dentro do homem
velho para que ele rejuvenesça e prospere em força e coragem, enfrentando qualquer
tipo de obscuridade que queira estagnar a alma eterna, a centelha divina.

Esse Jesus Menino representava a morte do velho homem. As crenças cristãs atuais
não lhe prestavam atenção, homens velhos e velhacos dirigiam os destinos dos fieis sem
considerarem esse Cristo Infante dentro do templo de cada corpo querendo falar por si
mesmo, a partir de sua própria sabedoria rebelde, esse Jesus que jamais criaria porcos,
mas com certeza chicotearia os velhacos com o açoite do desmascaramento do espírito,
aquele que cinde a diferença entre as coisas da matéria e as do espírito.

Bogomil viu que poderia seguir esse Cristo Infante Terrível, um Bebê do Abismo
desse mundo. Mesmo que ele guardasse um critica que o aproximasse do próprio
cosmocrator, diferenciando-se por aquele ser cego, e este Jesus ter os bons olhos de um
jovem.

Mas só um seguidor não significaria mudanças no panorama geral deste mundo. O


Mago deveria mesmo era se concentrar em seus próprios problemas e não sucumbir a

106
qualquer cogitação de influência neste mundo com a alma cercada de morte por todos os
lados.

Mas aquela graça de um menino em disposição à todas as outras fases da vida daquele
homem que marcou o tempo neste mundo não poderia deixar submergir o que
evidentemente se dá na disposição das consciências das pessoas.

Aquele tal cristianismo andava de mãos dadas com a morte, desde seu apelo ao
sacrifício e à ressurreição, haviam mensagens secretas espalhadas por toda a lenda em
torno do homem que fora Jesus, O Cristo.

Este epíteto mesmo que as pessoas entendiam como um termo que se referia ao
“ungido”, ou o “escolhido”, comportava já a chave da morte, pois como Bogomil podia
evidenciar, tal palavra, “cristo”, mergulhava na história da edificação dos termos e ia se
confundindo com outro termo muito interessante que era “cripto”, que dá a idéia de
ocultamento, mas refere-se justamente à “cripta”, tumba.

Desse modo Bogomil, que era versado na leitura oculta do significado mórfico das
palavras pode compreender aquilo e agregar na sua concepção do cristianismo. Ele
aprendera a proceder nesse tipo de interpretação em seu treinamento mágico, onde
aprendeu que por mais que as palavras mudassem em seu sentido referente original, elas
sempre carregariam para o subconsciente seus “valor” real, e tudo que girasse em torno
de tal conceito acabaria cedo ou tarde tendo a significância existencial original de cada
referência.

Por isso em sua hermenêutica mágico-transcendental, Bogomil não podia deixar de


pensar no cristianismo, e por extensão o vorismo, como uma visão de mundo que
comportava dentro de si os impulsos da morte. Era por isso mesmo que o cristianismo
podia falar tanto de amor, mas com o tempo ir mergulhando em uma situação de
destruição e ruína para junto de seus adeptos.

No discurso básico de seus lideres podia se constatar tal coisa, pois ao apelarem às
promessas de riqueza, relacionamentos de sucesso e vida eterna, eles disponibilizavam a
continuação da exploração do outro, a única forma de se ter pessoas ricas, preconizavam
a alienação pessoal pois só assim é possível resolver uma questão de relacionamento
onde o todo social é o mais fundamental, e quanto à vida eterna, bem, Bogomil achava
aquilo uma falácia descabida, pois a confusão dos que discursavam sobre isso parecia
não resolver, por não se poder, se essa vida eterna é no mundo material ou em outro, um
mundo igual à este em tudo, mas onde somente o espírito ia.

E isso era incompreensível para o mago, pois ele não conseguia enxergar a diferença
entre corpo e espírito. Assim para ele, essa religião em sua propensão linear para
explicar a realidade, circulava de volta ao ponto de partida, usando de um jogo
semântico de má-fé para dissimular a totalidade das coisas em si, o que ao fim para
Bogomil se explicava pelo fato de entender que a morte não existia, e que a morte em si
era uma outra coisa à qual a mente aferrada em coisas da vida e do ego não se permitia

107
por em questão, que era justamente as volições reflexivas da Eternidade, como uma vez
constatara no poema que uniu sua vida à de Bel.

Assim Bogomil não podia conceber como as pessoas podiam se indispor com algo
que atuava justamente para nos ensinar a amar, ou seja, para nos fazer cada vez
melhores. Ele via com grande preocupação que o cristianismo instalou uma outra forma
de morte no mundo, aquela que se poderia justamente amar, e esse era o fundamento do
perigo para aquele mundo. Só em lugar onde as pessoas podiam pensar assim poderia
existir aquelas sofisticações que abismaram o mago.

6 - Avatara ao inverso

Bogomil deixando de lado essa longa digressão religiosa passou a contemplar então a
vida que Ariel levava, pois suas vidas estavam agora permanentemente misturadas.

Ariel tinha seus compromissos, seus negócios, suas obrigações. Mas apesar de tudo,
aquele homem levava uma vida simples e solitária, e isso facilitou para Bogomil não ter
que se dedicar a nenhum dos negócios ou relações do outro, podendo se dedicar assim
apenas aos seus próprios interesses. Isso evitaria muitos problemas para ambos, já que
Ariel poderia cair no julgo popular de que estaria ficando louco ou coisa pior.

O mago pensava que infelizmente teria que ser assim, para que aquela situação se
resolvesse o mais rápido possível, e Bogomil não queria nem pensar no que iria fazer se
ele não encontrasse um modo de retornar a seu mundo, ficando preso então três vezes,
naquela realidade, no corpo de Ariel e na sua vida paralisada.

Bogomil preferia pensar que seria uma espécie de “pseudo-avatara” efêmero aqui
neste mundo. Uma encarnação provisória dotada de uma missão extraviada e que com
certeza não deixaria nenhuma marca na face da Terra. De certo modo ele estaria agindo
de acordo com a agenda do cronosnauta no tocante a passar despercebido, ficando nas
sombras para não ser notado.

Ele não dimensionava os perigos que correria a consciência de Ariel Bogari ficando
tanto tempo afastado do controle mental de seu corpo. Aquilo era o preço que o mais
fraco na situação tinha que pagar. Mas Bogomil percebia os perigos para sua própria
consciência existindo naquele mundo, ele temia ser contaminado pela doença de “morte
na alma” que os seres ali eram acometidos, mas como pretendia que tudo fosse breve na
sua situação, ele não ergueu mais barreiras mágicas para se proteger do que o normal.

O mago estava confiante como muitas poucas vezes estivera em suas capacidades
mágicas que eram mais forte naquele mundo de sonâmbulos. Sua sabedoria especial
naquelas paragens podia muito bem o tornar um mestre destes homens, mas para ele
bastava ser o carcereiro de uma alma só, pois aquele mundo não precisava de mais um
déspota espiritual.

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Desta forma, como Bogomil não tinha propensão nenhuma para suinocultor, ele não
cairia no erro de ser um mestre espiritual neste mundo onde estava exilado. Ficaria
longe das pocilgas seguindo sua linha de ação primária que estava definida, e já
encontrava o caminho para chegar ao seu objetivo.

Mas para além de todas essas particularidades ele devia se concentrar em resolver sua
situação. E onde poderia ter um esclarecimento?

O mago não encontrou nada no banco de memória de Ariel Bogari que pudesse ajudar
diretamente. Seu saber sobre magia era paradigmático ao que sua civilização atual sabia
e acreditava, ou melhor, do que esquecera ou lhes fora escondido. Havia menções vagas
a certas ordens ocultistas que ainda se relacionavam com as forças esotéricas desta
realidade, mas tais ordens pareciam mais clubes de hedonistas ou agremiações de
prestidigitadores mancomunados com jogos de encantamentos visando fortuna e
respeito temeroso.

Para além das influências instaladas naquele planeta, Bogomil entendeu que poderia
contar só consigo mesmo para chegar às suas metas, afinal ele tinha conhecimentos
mais profundos e independentes do que os magistas dessas paragens, seus poderes
mágicos pareciam até estarem mais fortes aqui.

Deveria, pois haver algo neste mundo ainda, que somado à seus conhecimentos, algo
que o pudessem ajudar. Aqui em algum lugar devia ainda florescer uma esperança para
este mundo em via de destruição, uma esperança que pudesse dar a Bogomil também os
meios de voltar à seu mundo e para Bel.

Deveria haver um motivo para ele ter vindo a este mundo, e esse motivo seria também
o portador de respostas para o ajudar a sair dele.

Com uma força de confiança que até então não tivera nessas suas poucas horas neste
lugar, Bogomil se energizava e começava a trabalhar em um plano de ação. No
conhecimento que ele aderiu a si cedido por Bogari, ele poderia encontrar as linhas de
referência que o levassem enfim a encontrar pessoas e métodos capazes de ajudá-lo, ele
deveria até mesmo já saber, apenas não notou as referências.

Revisaria então sua linha de pensamento, consultaria fontes exteriores, livros,


indicações. Havia mesmo um sinal de esperança na alma de Ariel que falava de saberes
que conclamavam um mundo diferente, uma evolução para sua raça em um tempo que
havia de se iniciar logo, bastava Bogomil seguir naquela senda para encontrar.

Quando não se encontra respostas é porque a solução já está evidente. Quando um


mundo chega a requerer seu fim é porque uma encruzilhada está sendo urdida no tecido
da realidade. Quando coisas estranhas acontecem, é porque tem que acontecer. Bastava
a Bogomil, ele sabia, deixar a própria resposta falar.

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7 – Litania das incertezas

Atuam no mundo, em qualquer mundo, para além do percebido, forças misteriosas


que muitas vezes falam ao ouvido sem falar. Falam por sincronias, falam em forma de
presságios, independentes do que os seres humanos acreditem. Para cima e além, há
sempre mais, mundos dentro de mundos, seres dentro de seres, sonhos dentro de sonhos,
uma ampla hierarquia das coisas atua sem atuar e sem ser hierarquia.

Luz, vida, trigo, farinha, pão, fome, nutrição, digestão, atividade, obração, escalas
paralelas de uma litania infinita desapercebida por sonâmbulos, desapercebidos e
vagantes por todos os lados.

Para os que prestam atenção e zelam pela integralidade, nenhum mundo está perdido,
nenhuma situação é definitiva, nenhum beco é sem saída. Toda certeza flui daquilo que
justamente lhe é mais estranho, as incertezas. Há abundância de indeterminado nos
mundos, e eles atuam de sua forma incompreensível à mente comum, pois a mente
comum é o colapso da consciência. A mente comum é um sistema orgânico acionado
para poupar o ser humano de se perder em uma paixão intensa que lhe foi ensinado ser
inconveniente para viver em um mundo onde todas as coisas têm suas extensões
prolongadas ao infinito.

Desta forma, Bogomil ignorava muitas coisas a respeito de sua situação. Mas não
podia se dar ao luxo de fechar os olhos e ouvidos à ladainha das incertezas. E ela já lhe
mandara recados sobre a senda que devia abrir e construir suas pontes até seu destino
neste mundo. Bastava ele olhar para perceber.

Com sua recente mente expandida pelos conhecimentos adquiridos pelo saber que o
ser humano chamado Ariel Bogari havia lhe cedido desta realidade de mundo, e com as
incertezas que ele expôs em seu conturbado diálogo astral com o mago, Bogomil podia
vislumbrar um caminho interessante. Não era uma chuva de sapos, mas era uma
referência prodigiosa que esse mundo ainda nutria em seu âmago atormentado, como
uma rosa velada por uma serpente muito sábia.

O fato era que Bogomil, como um simples mago desassossegado por um amor quase
impossível, adepto de uma seita dedicada à magia e a filosofia, tinha a propensão de
pensar demais, para ele a intuição surgia como um fogo brusco depois de ajuntar muita
lenha até que um relâmpago ali caísse, enchendo-o de mais amor por tudo, pois à luz
estética de um raio a beleza é sempre mais impactante. E as sombras, por serem tão
reluzentes, são muitas vezes ignoradas por ele. Sombras essas que poderiam lhe indicar
o nodo da realidade onde se cumulam indicações mais precisas sobre a existência do
que o próprio raio arrebatador. Ele se deixava levar até que o relâmpago enfim o
fustigasse a ver.

Assim, se ele não fosse tão profundamente um homem de fé na poesia, ele poderia
perceber mais rápido a fé que a poesia tem nele como seu escriba.

110
Pessoas assim costumam ignorar quando estão sendo manipulados, principalmente
quando os fios do teatro de marionetes estão sendo puxadas interrealidades. Mas ele
viria a descobrir isso no momento decisivo, enquanto ele podia achar que ainda era o
“momento certo”.

Dessa forma, quando pela manhã, ele caminhava pelo mundo novo que visitava com o
corpo de Ariel Bogari, deixando de lado toda preocupação com os compromissos com
que o dono verdadeiro do corpo tinha que lidar com sua lida cotidiana, Bogomil
observava a disposição local da cidade onde Ariel vivia e ganhava a vida como
vendedor de livros.

O local tinha o correlativo sugestivo nome de Alto-Paraíso, nome que evocava mais
uma vez similaridades com sua própria realidade. Ali neste lugar perdido no meio de
um continente, em um país chamado Brasil, ele pode perceber a aura especial e mágica
da cidade. Parou e sentou-se no banco de concreto de uma praça e deixou o olho se
cansar com o que via através da familiarização com o ambiente.

Depois ali sentado e só, se entregou a um jogo mágico que aprendera e gostava de
fazer quando queria acessar sua capacidade intuitiva. Na Luz Serena chamavam isso de
“imaginação ativa”, e em certo momento desse jogo mental ele deveria quebrar o fluxo
da realidade imaginada introduzindo algo extraordinário e anômalo dentro da situação
pensada.

Fazer aquilo exigia concentração e tempo. Era como gerar um sonho programado, mas
o sonhador tinha que estar atento ao que sonhava e ao que se passava à sua volta no
mundo real. Dessa forma, nem dormindo nem desperto, ele propiciava que as incertezas
lhe falassem.

Primeiro Bogomil imaginou-se conversando com Bel, da forma como muitas vezes
faziam, isolados de tudo. Ele e Bel discutiam a relação, pois em sua imaginação eles
eram um casal de amantes profundamente apaixonados. Conversavam sobre como a
vida deles era boa e se amavam, e tudo que um casal recém apaixonado dizia um ao
outro, promessas de amor, recordações, planos, e por aí vai. Então ele pensava no que
Bel lhe responderia em cada inferência. A coisa fluía normalmente, sem muita ou
nenhuma interseção da consciência, apenas acontecia.

Em dado momento da conversa ele sugeriu a Bel que ela lhe lembrava outra mulher, a
primeira namorada de Bogomil, e debateram por alguns momentos o quanto uma
mulher não gostava de ouvir aquilo, ou não, dependendo de sua maturidade. A certa
altura então ele falou com ela:

- E se eu te dissesse Bel, que na verdade você não existe. Que você é fruto de minha
imaginação, e que essa conversa que estamos tendo é irreal?

Ele havia jogado o extraordinário no sistema, impulsionando o colapso do sistema,


dali as incertezas gerariam as sincronicidades às quais Bogomil deveria estar atento.

111
Em sua imaginação livre Bel vacilou, expedindo uma contorção física estranha. Ela
lhe diria então:

- O que isso Bogomil? O que você está falando? O que é isso que eu senti?

Ela vacilava não na improbabilidade do que ele dissera na situação, mas expusera o
incomodo de um jogador virtual que percebesse ser parte de um jogo maior.

Na rua da cidade, no “mundo real” passara ali na frente de Bogomil uma mulher em
uma bicicleta, ela o olhara nos olhos e Bogomil sentiu que a atração que unira os olhos
dos dois era algo maior, parecia um olhar de cumplicidade que só surge na paixão.
Aquela mulher passara ali naquele instante, com todas as variantes infinitas possíveis no
mundo, justamente no instante que a sua amada em sua imaginação queria se provar
real, não como um ser humano existente, mas como um ser autônomo que percebera a
estranheza no âmago da situação causada por Bogomil.

Aquela mulher de bicicleta era a personificação da energia que Bel representava, uma
mulher, possibilidade de amor, uma alma existente, uma fêmea que nutria em si a
capacidade de contentamento em um relacionamento.

Ao seu lado naquela manhã passou por ele depois duas pessoas discutindo sobre um
filme que assistiram e que o acharam tão bom, não obstante ser uma produção simples,
pela originalidade como a trama do filme foi criado. A palavra “originalidade” foi o
estopim para a mente vigilante de Bogomil.

Então o circuito da intuição tomou Bogomil. Relacionando a mulher de bicicleta com


a sua imaginária Bel ele percebeu que toda é qualquer coisa só faz sentido quando
lançamos um olhar ao passado. Era esse o limite do poder de saber.

Ele mesmo era a prova disso quando em fé ele propôs viajar no tempo para desvendar
o mistério da morte de uma mulher. E mais.

De posse de conceitos de conhecimentos deste mundo ele avançou na intuição. Só


com isso ele pode pensar, usando um termo que o fascinara em sua abrangência e ele
agora intuitivamente o entendia mais:

“Quântico é isso! Quântico quer dizer originalidade, a fonte de tudo!”, concluiu em


pensamento.

“Sincronicidades são apenas o elo presentificado de um fluxo de consciência que está


dirigida não ao futuro, mas ao passado. Ela só pode ser assim, a consciência.”

Ele viu então que os processos imaginativos paradoxais podiam facilmente “causar”
eventos sincrônicos, vide que quando eles “surgem”, eles geralmente vêm em
“conjunto”, em vários eventos e raramente em um só, mesmo porque não as notaríamos
se viessem isoladas.

112
Bogomil chegou à conclusão de que a realidade ao longo de seu desenrolar na verdade
não passa das “sincronias isoladas”, e as “sincronias conjuntas” davam a imanência de
transcendental da vida, do mágico, do poético. Isso é o que ele entendia como a “risada
cósmica” que os seres humanos arrogam contra os Arkontes no início do
desmascaramento de seu controle na vida das pessoas.

Revelação? Epifania? Gnose? Pode-se dar o nome que quiser, entendeu Bogomil, mas
essa transcendência se pareceria mais com o estado de êxtase produzido pela indução
das plantas de poderes que acometiam os magos quando as ingeriam em seus rituais.

“Seria esse êxtase então a consciência expandida ad-æternum que gera o orgasmo
permanente da gnose, o paraíso, os tempos bons dentro de cada um, o fundir-se à
Chama Dupla da Luz Serena!”

Bogomil não sabia o quanto aquela sua linha de pensamento era premonitória sobre o
porquê de sua presença neste mundo. As sincronicidades teriam que lhe empurrar até
aquele reconhecimento. Por hora ele se atinha a colher os frutos que havia procurado ao
se jogar naquele processo mágico. Ele já havia entendido o que era necessário naquele
momento.

Em sua chegada naquele mundo, quando ele e Ariel lutavam pelo controle da mente e
daquele corpo como uma interferência que surgia e desaparecia em um rádio, Ariel
fizera menção às substâncias expansivas que conhecia, certas “drogas” que havia
tomado. Aquilo poderia o ajudar a tirar o véu que obscurecia sua visão e enxergar mais
amplamente sua verdadeira situação.

No estofo de conhecimentos de Ariel havia muitas referências àquelas substâncias,


algumas sintéticas e perigosas, outras naturais e mais confiáveis. Bogomil lembrou-se
então de uma que poderia ajudar bastante, chamada Ayahuasca, ele até sabia então que
em seu mundo havia tal substância correlata, como ele conhecia sob o nome de
Bahedariox.

Bogomil então tinha a certeza que aquela era uma opção à qual devia dar valor. Usar
tal iluminógeno poderia ajudar a ver mais amplamente. Ele iria nessa direção.

O mago estava feliz consigo mesmo. Conseguira dar um segundo passo, as coisas
então caminhavam. O que ele ignorava era no que pensava seguir esse caminho por
vontade própria graças à sua intuição mágica, ele estava sendo guiado por forças alheias
para aquele rumo.

8 - O Vinho das Almas

Na memória de Ariel havia referência a um homem que distribuía o elixir que


Bogomil achava poder ajudá-lo.

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A bebida em si se tratava de uma espécie de chá onde se cozinhava de forma
apropriada em água um tipo de cipó e as folhas de um arbusto, dando resultado a um
líquido muito especial, capaz de abrir a consciência, dos que tem a coragem de bebê-la,
para a realidade maior do mundo, podendo assim acessar informações veladas à mente
comum. Pode-se também sob o efeito da bebida em êxtase entrar em contato com seres
astrais de grande sabedoria e poder, sempre dispostos a ajudar no aconselhamento de
problemas quaisquer. Era isso que Bogomil sabia das vezes que fizera uso dela em seu
próprio mundo.

Essa bebida sagrada, comumente referida como um sacramento vegetal da natureza


tinha muitos nomes, cada um concernente à cultural local onde era consumido. No
mundo de Altair na Igreja da Luz Serena a bebida sagrada era referida como Bahedariox
ou Bædariox, os mestres dos magos daquele mundo se referiam ao seu efeito como uma
“Químio-Gnose”, isso porque o enteógeno tinha a capacidade de proporcionar uma
gnose através de sua química especial. Aquele que a bebia e sorvia de suas capacidades
iluminadoras era chamado de Psiconauta.

Neste mundo onde Bogomil estava agora seu nome mais comum, e da forma como é
conhecida mundialmente, chama-se Ayahuasca, e a pessoa que a produzia e fazia uso de
suas propriedades na busca de ajudar as pessoas era o Ayahuasqueiro.

Pois então esse homem em questão que Ariel conhecia era um desses ayahuasqueiros.
Seu nome era José Raimundo Rosa, mas preferia ser chamado de Mestre Raimundo.

E foi ao encontro deste homem que Bogomil rumou naquela noite. Ele sabia onde
encontrá-lo porque Ariel sabia, e assim se dirigiu para uma casa simples em uma
chácara na periferia da cidade.

Chegando ao local indicado, Bogomil chamou e foi recebido por uma mulher de
feições indígenas. Cordialmente ela recebeu o visitante e o conduziu a uma sala ampla,
de paredes de madeira onde instalou o mago em um rústico sofá e foi chamar o marido,
que era o homem com o qual Bogomil deseja falar, o mestre Raimundo.

A casa onde mestre Raimundo vivia e conduzia seus trabalhos ayahuasqueiros apesar
de simples, era fascinante para Bogomil. Havia diversos quadros com figuras místicas e
fantásticas nas paredes, em uma estante repousavam livros velhos e surrados além de
diversas obras de arte em madeira, argila e cipó, remetendo a uma cultura indígena.
Havia muitos discos antigos feitos de vinil comportados em uma prateleira, além de
muitas outras curiosidades. Aquela seria uma verdadeira residência de um mago que se
preze, pensava Bogomil enquanto esperava para ser atendido pelo ayahuasqueiro.

Enquanto aguardava a esposa do mestre trazer o dono da casa, Bogomil


amistosamente instalado na poltrona pode perceber em certo canto da sala grande uma
jarra de vidro contendo um liquido ocre. Daquele canto ele pode sentir a energia que
emanava da bebida, pulsando suas vibrações de conhecimento completo e misterioso.
Era a própria ayahuasca ali disponibilizada.

114
Após alguns poucos minutos então, um homem de meia idade, vestindo roupas
simples e descalço entra na sala e sorrindo se encaminha para Bogomil estendendo-lhe a
mão direita.

- Bem vindo meu rapaz, eu estava te esperando! - disse o ayahuasqueiro.

Bogomil ficou desconcertado e enquanto apertava a mão calejada do mestre


Raimundo e encarava seu sorriso franco e desarmado, pensava que talvez o homem
reconhecesse a Ariel, e assim provava sua amistosidade pela aparência. Mas Bogomil se
lembrou de que Ariel não conhecia pessoalmente a Raimundo Rosa, Ariel apenas sabia
de sua existência pelo seu interesse na bebida sagrada se informando com outras
pessoas que conheciam o ayahuasqueiro de fama naquela região.

Ariel conhecera e tomara o chá em muitas oportunidades em um grupo sincrético que


ficava em localidades distantes, primeiro em sua cidade de nascença e depois na cidade
de Alto-Paraíso, lá ele soube da existência de Raimundo, de sua sabedoria, e esperava
oportunidade para conhecê-lo, mas providencialmente para Bogomil, ele nunca o fizera
nos anos que estivera ali.

Assim, aquela recepção do ayahuasqueiro devia ter um sentido que só o homem sabia.
E era o que Bogomil iria descobrir.

Então o mago se apresentou como “Bogomil”, e só depois de dizer seu nome ele
tomou consciência que poderia ter cometido um erro dando aquele nome, e não de
Ariel, que era o possuidor daquele corpo, mas já estava feito pela força do hábito e o
mago relevou aquilo e seguiu nas amenidades de um começo de conversa.

- Obrigado por me receber mestre Raimundo! Eu ouvi falar muito bem do senhor! -
disse-lhe então Bogomil, da forma mais prosaica que conseguiu em tal situação.

O ayahuasqueiro, depois de ouvir Bogomil se apresentar o convidou a sentar


novamente e também se colocou confortavelmente em uma cadeira de tranças plástica
na frente de Bogomil. Assim que sentou foi logo dizendo:

- A dois ou três dias atrás... - foi dizendo mestre Raimundo aparentando puxar na
memória uma data certa - ...eu sonhei que uma pessoa vinha me visitar, rarara! Esse
homem me trazia dois copos, um vazio e um cheio de um caldo negro, e no sonho eu
enchia seu copo vazio de vinho, e o outro copo que estava cheio de sombras eu então
pegava e jogava essas sombras na raiz de um pé de cipó. Rarara!

O mestre Raimundo narrou a Bogomil aquele seu sonho estranho de forma


espontânea, aquilo espantou Bogomil, porque, se fosse verdade e não um truque para
demonstrar proeminência, aquele homem possuiria mesmo uma intuição aguçada, e era
justamente pelo uso daquela bebida mística. Bogomil já estava encantado com o
ayahuasqueiro, sentia que ali existia uma cumplicidade entre homens de poder, mas ele
devia testar o ayahuasqueiro para saber até onde ia sua intuição.

115
- Verdade! Puxa, que interessante. Isso deve ser comum mestre. - disse dando corda
ao ayahuasqueiro.

- Bom meu filho, na verdade eu sempre estou ligado à sonhos e visões e as vezes eles
se misturam, mas eu só sei de seus significados assim, quando eles batem em minha
porta. - disse Raimundo.

Aquilo era justamente o que Bogomil havia pensado naquela tarde sobre as
sincronicidades que levavam à gnose total, e o fato de o ayahuasqueiro se referir àquilo
era mais uma prova que o mago estava em uma trilha auspiciosa. Com sua munida
humildade o mago decidiu entrar nos meandros que o levara até ali.

- Mestre, eu vim lhe procurar porque estou precisando de uma ajuda muito especial, e
acho que precisarei mais do que vinho para conseguir entender certas coisas pelas quais
estou passando.

O ayahuasqueiro sorriu calmamente percebendo uma ansiedade pairando no que


Bogomil dizia e corrigiu qualquer engano que pudesse ter feito entender.

- Bom amigo, o único vinho que encherá seus copos nessa casa é o Vinho das Almas,
essa sagrada bebida que nos revela todos os segredos que mereçamos ter revelado.

Bogomil sabia daquela pecha da ayahuasca enfim, era uma forma poética de designar
a bebida pelas suas propriedades que revelavam uma certa comunhão especial que seu
bebedor tinha com o mundo espiritual.

- Então mestre! O fato é que não sei nem ao menos por onde e como começar, para
que o senhor possa me ajudar. - disse Bogomil vendo a confusão que poderia surgir por
simplesmente dizer toda a verdade.

Ele realmente não havia pensado naquilo, e assim como facilmente se confundira ao
se apresentar, agora ele não sabia como contar ao ayahuasqueiro qual era sua condição
naquele mundo. Bogomil pensava que se ele contasse a verdade tácita provavelmente
aquele homem na sua frente acharia que estava sendo vitima de uma pilheria. Não foi
sem alegria e até surpresa que Bogomil entendeu que aquele homem da Terra era
realmente muito mais sábio que podia conceber quando o ayahuasqueiro foi logo lhe
dizendo.

- Você não precisa me dizer nada meu amigo, pois quem vai lhe responder não sou eu,
será a hoasca! - Aquela frase cheia de humildade, usando o termo simples de se referir à
ayahuasca encheu Bogomil daquela confiança de estarmos diante de alguém realmente
sábio que nos ajudará a superar qualquer questão. O ayahuasqueiro então continuou
falando, sem poder deixar de notar no brilho do fogo da confiança que acendera nos
olhos de Bogomil.

- Você deve entender meu rapaz, que nas questões que mais nos importam, muitas
vezes as respostas vem antes das perguntas. Por isso lhe recebi falando do meu sonho.

116
Bogomil estava cada vez mais encantado e agora curioso. Mestre Raimundo
continuou.

- Acontece que nesse meu sonho, eu jogo aquele copo cheio de sombras em um pé de
cipó que não fica aqui nesse meu terreno, mas em um que eu vi em outro lugar. - disse o
ayahuasqueiro introduzindo um grau de mistério em suas palavras como convém a todo
sábio que respeite as poucas palavras que tem a dizer.

- Não fica aqui? Como o senhor interpreta isso mestre? - perguntou Bogomil deixando
o ayahuasqueiro chegar ao ponto da questão da qual ele tinha uma visão privilegiada,
afinal vieram em sonhos, e Bogomil como mago, respeitava muito isso. Aquilo
aumentava a cumplicidade entre ambos.

- Bom! Se você desejar, eu posso encher seu copo aqui no momento que quiser, com
muito prazer, você sabe? - disse sinceramente ao que Bogomil concordou sorrindo -
Mas me parece que para você chegar às respostas que quer, por mais difícil que seja
formular as questões, você terá que ir receber o Vinho das Almas em um lugar chamado
“Matrimônio Espiritual”.

- Matrimônio Espiritual? Do que se trata? Nunca ouvi falar! - disse Bogomil


concentrando para não dizer que “nunca ouvimos falar”, ele e Ariel, o que descobriria
depois não ser nem verdade.

- É uma comunidade ayahuasqueira que há aqui na Chapada, foi em uma visita lá que
eu vi o pé de cipó onde no meu sonho eu derramei o copo de sombras.

- Incrível! - disse Bogomil acenando afirmativamente com a cabeça.

Adiantando-se prestativamente a qualquer duvida do mago, o ayauasqueiro continuou


dizendo.

- Vou lhe passar o telefone de contato deles e você liga para saber quando pode ir
visitá-los e comungar a hoasca lá.

- Ficaria muito grato mestre Raimundo! - disse Bogomil pensando que as coisas
estavam caminhando, via bons augúrios desde o sonho de Raimundo até ao próprio
nome daquela comunidade.

O ayahuasqueiro se levantou e buscou uma agenda, papel e caneta, depois de folhear


algumas páginas anotou no pedaço de papel os números e nome da comunidade
ayahuasqueira.

Estendeu o papel dando-o a Bogomil dizendo:

- Aqui está o número, você liga e fale com uma das pessoas dirigentes da comunidade,
ela se chama Magda Helena, mas é mais conhecida como “Sacerdotisa Belatrix”!

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9 - Vésperas das sombras

Um estado de espírito especial se apossara de Bogomil depois de se despedir do


mestre Raimundo e partir. O mago exilado achara melhor não comungar a ayahuasca
com o mestre ayahuasqueiro tendo em mente a situação especial que se assomava
naquela noite.

Deveria estar preparado para abrir a mente no “Matrimônio Espiritual”, ali com
certeza poderia obter ajuda, era afinal o que apontava os augúrios todos. Desde o sonho
do mestre Raimundo ao nome da comunidade, muito belo e significante, até o próprio
moto da sacerdotisa dirigente da comunidade, que lhe trazia a lembrança de sua própria
amada Bel Arox.

Mas havia mais, ao que somava seu estado de entusiasmo. Parecia que o nome de
Belatrix não lhe era estranho. Talvez Ariel Bogari tivesse conhecimento da comunidade
então e tinha intenções de conhecê-la também. Aliás, no momento em que ouvira o
nome Belatrix Bogomil pode sentir uma convulsão em seu interior como se das
profundezas de seu cárcere astral, a consciência de Ariel se remexesse. Provavelmente
seria isso, o livreiro sabia da comunidade e dos trabalhos de Belatrix ali, dado seu
interesse pela ayahuasca também.

Parecia se clarear um pouco então o porquê, além de uma certa semelhança física,
Bogomil “caíra” ali no corpo de Ariel. Ele parecia girar em torno de tudo que
necessitasse para poder obter ajuda para voltar ao seu mundo. Pensar assim fez com que
Bogomil pela primeira vez percebesse então que poderia não estar sendo vitima de um
total erro em sua missão quando viajou no tempo pelo Feitiço do Decágono Paradoxal.

Talvez houvesse agindo ali uma força, ou uma mente (quem saberia?), que
coordenava os fatos, zelando e auxiliando-o de algum modo na empreita frustrada
original. O que não se permitia intuir era de que, apesar de talvez estar mesmo em uma
realidade paralela, ele não poderia estar cumprindo algum outro desígnio paralelo
também?

As palavras de despedida de mestre Raimundo para Bogomil talvez tivessem perdido


seu sentido na euforia que assaltava o mago, mas naquele momento na chácara o
ayahuasqueiro despachou o mago dizendo:

- Que o Divino Mestre o acompanhe meu amigo! Que as sombras sejam sorvidas no
chão daquilo que a tudo transforma, purifica e revivifica!

Bogomil achou naquele momento que aquelas palavras eram somente uma forma
categórica de um excêntrico sábio, como o era Raimundo, de manter a aura de mistério
que os sábios deixam soltas para um dia entrelaçarem.

Mas agora dentro de seu estado especial de consciência, como que propiciada só pela
proximidade da bebida mágica que não bebera enfim naquele dia, mas sorvera no hálito

118
das palavras que o ayahuasqueiro exalara para ele, Bogomil achava que podia haver ali
algum presságio final em todo aquele encontro.

Enfim, ele saberia de tudo que necessitasse ou tivesse que saber quando conhecesse
Belatrix no Matrimônio Espiritual.

Agora, precisava mais dar alimento e descanso ao corpo de Ariel Bogari. Aquele fora
seu primeiro dia completo naquele mundo, e parecia-lhe que tinha carregado a
existência por entre anos afins, estudando e meditando. O tanto que aprendera
finalmente era do teor de uma imensa fadiga para qualquer mente, se ela não estivesse
munida de poderes mágicos para auxiliar.

Até sua chegada a residência de Ariel na cidade de Alto-Paraíso, entretanto Bogomil


não pode deixar de cansar a própria consciência com muitos pensamentos que até então
não haviam lhe ocorrido, tais como se a vida em Altair seguiu sem ele, tendo as pessoas
que deixou lá, e principalmente Bel, lidando com o fato que o mago que se pusera a
ajudá-la estaria então desaparecido já a cerca de dois dias.

O que teria feito a princesa agoniada? Que atitudes estariam tomando agora ela e os
alto-sacerdotes da Luz Serena a respeito do fato de Bogomil ter desaparecido? O quem
sabe mesmo, seu corpo estaria lá, em um estado de latência ou até mesmo dado como
morto por falta de consciência aparente?

Pensar sobre essas coisas transformou o estado de espírito exaltado de Bogomil em


uma angustia indescritível. Quando se jogou na cama de Ariel ainda pensou no que
aconteceria até com sua bichana na ausência do dono. Não tinha deixado nenhuma
instrução quanto a isso na pressa de partir.

Tudo aquilo foi demais para mago. Ele se recolhera e entregara o corpo ao sono,
desligando a mente sem não antes conjurar um feitiço de controle externo para não
permitir nenhuma insurgência da consciência de Ariel.

Veria como se resolveria tudo quando pudesse estar no Matrimônio Espiritual. Talvez
houvesse respostas às duvidas que tinha mesmo antes de se questionar. Talvez, era o
que esperava, pudesse retornar antes que qualquer consequência de sua ausência
pudesse se manifestar. Era nisso que tinha que crer firmemente, e assim fechou consigo
próprio.

Naquela noite Bogomil foi se esparramar em um universo estranho um pouco


diferente seu Granatmos comum e ali vislumbrou grandes nuvens cerceando os limites
de sua visão e alcance, talvez por ser um estranho àquelas paragens e não lhe ser
permitido ali se intrometer. Ficou flanando por perto, sonhando com um dia onde uma
chuva molharia todo o seu corpo e lavasse de si nódoas transmundanas.

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10 - Toda distância será permutada

No outro dia cedo Bogomil teve que enfrentar algumas justas cotidianas alheias.
Problemas que eram e não eram dele, pois por sua causa a livraria de Ariel Bogari
estava fechada a dois dias, e conhecidos, vizinhos e clientes ligavam para saber o que
estava errado.

Acordando cedo com batidas na porta dos fundos da loja, onde dava para os cômodos
onde Ariel residia, ele teve que explicar a uma vizinha que estava tudo bem, inventou
um mal estar para a folga que estava tirando e iria se prolongar mais um pouco.
Procurou parecer o mais normal possível, para que não passasse que o livreiro não
estaria ficando louco ou coisa parecida aos olhos daquela mulher.

Depois de comer algo ouviu o telefone da loja chamar, era aquele aparelho mesmo
que Bogomil pretendia fazer uso para entrar em contato com o Matrimônio Espiritual.
Na chamada Bogomil atendeu um cliente que tinha uma encomenda e queria saber se o
livro já havia chegado. O mago despachou o cliente dizendo que ainda não e que estava
então muito doente e teria que ficar fechado alguns dias.

Tratar daqueles tipos de assuntos cotidianos, dos quais Bogomil nunca teve que tratar
em sua vida, deu lhe uma impressão de banalidade, de como a vida comum deveria ser
vivida pelas pessoas, e assim tão distante como se imaginava de sua casa, de seus
afazeres e das pessoas que conhecia, ele ponderou como seria difícil ter que viver para
sempre naquele mundo, vivendo exilado de sua própria existência.

Já havia pensado naquilo no dia anterior, mas ter que lidar com situações práticas o
fez se sentir acuado. Mas afinal era o preço que deveria pagar por estar fazendo o que
deveria ser feito. Havia uma frase conhecida por Ariel que Bogomil pode tirar muitas
conclusões, era “quando em Roma aja como os romanos”, e ele se pôs a cogitar que
finalmente estava então começando a criar porcos.

Aquilo o fez rir, pois constatou que apesar de seu preconceito ao julgar naquela vez as
religiões deste mundo, ele entendeu também que a própria humanidade no lugar de cada
individuo dela representante tinha que diariamente trabalhar e se esforçar na engorda de
seu rebanho se quisesse sobreviver em um mundo onde a maioria das pessoas era
escrava do sistema, tinha-se que trabalhar duro para sobreviver.

Em Altair, apesar de a vida também requerer suor e esforço continuo das pessoas
simples, não havia ainda aquele arrogo que há neste mundo pela necessidade de se
dedicar em um trabalho que era pura competição e servidão.

No seu mundo as pessoas ainda levavam uma vida simples onde a comunidade como
um todo provinha uma certa segurança social que no mundo de Ariel só era concebida
para mascarar o fato de que aquela civilização era construída com o sangue de escravos.
Nem sempre fora assim neste mundo, mas nessa época atual as coisas estavam nesse pé,
e o fato de a própria espiritualidade ter virado um mercado de engorda de porcos para o
abate mostrava a diferença dos dois mundos.

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No reino de Altair todos os núcleos espirituais da sociedade eram independentes,
cultivavam alimentos, criavam seus rebanhos e faziam permutas no mercado. Pagavam
suas obrigações com a realeza prestando serviços de acordo com sua função própria e
não em dinheiro ou mercadoria. Assim as pessoas tinham mais independência em
relação ao trabalho.

Mas as coisas vinham mudando naquele reino, o breve período de paz em que a Casa
Real de Arox se estabelecia de um período séculos de batalhas havia dado um
relaxamento à lida cotidiana, saiu rápido da memória das pessoas, em uma geração, os
esforços de guerra. Agora, Bogomil bem o sabia, uma ilusória riqueza momentânea
dava folga ao povo enquanto estoques de todos os tipos eram enchidos visando um
conflito iminente, pois todos sabiam que em Naltra as coisas também estavam indo
dessa forma, como atestavam espiões do rei de Altair.

É claro, Bogomil não tinha um completo entendimento de como operava a economia


de seu mundo, e muito menos a deste, ele a via com os olhos de uma pessoa comum que
se dedicava à outros assuntos. Lá havia pessoas pobres também, mas não miseráveis
como este mundo onde está exilado tem, isso porque o mundo de Altair, prostrado na
esfera celeste de Alleghoria era um lugar pequeno, e apesar de ter muitas similaridades
com a Terra, uma similaridade que não tinha era sua extensão de terras secas.

Bogomil pode constatar que o volume de terras de seu planeta era bem menor que a
Terra, e essa lição geológica mostrava-lhe como tal fato devia influenciar no grau de
desenvolvimento de seu mundo, que era composto de três grandes ilhas, uma dela era
onde ficava seu reino original e além das duas outras ilhas com seus consumados reino,
apenas umas pequenas ilhas selvagens em volta de seu globo planetário que estavam
sendo disputadas por Altair e Naltra. Seria por essa pequenas ilhas que todos pensavam
que a guerra seria deflagrada novamente, já que Eusorama havia sido dividida entre os
vencedores, mas se provou inviável governar totalmente pela sua extenção.

Recordar esses fatos geográficos fez Bogomil sentir pela primeira vez uma grande
saudade de seu mundo, sua safira globular, avançando na história de forma distinta da
Terra, mas não diferente, se fosse definir, diria que realmente Alleghoria estaria no
passado da Terra em termos históricos. Isso acrescido pela mentalidade mágica daquela
sua civilização fazia de Altair em comparação com a Terra um paraíso, apesar de ser um
paraíso que perdia seu encanto também, como fizera o constatar Bel.

Seu mundo rumava mesmo para ser um mundo como a Terra, porém lá não havia o
avanço cientifico presente deste planeta. Mas um mundo em guerra é sempre um mundo
em guerra, seja usando-se soldados e espadas, catapultas e fogo ou tanques e aviões
bombardeiros, armas químicas e nucleares. Tudo era formas de se cometer o crime
perfeito, mas ali, pelo menos em um mundo, a humanidade não estava em via de ser
totalmente eliminada.

Procurando se desvencilhar daquelas digressões matutinas desagraveis em qualquer


mundo, Bogomil tomou em mãos o pedaço de papel que mestre Raimundo havia lhe

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dado. Chegara a hora de entrar em contato com o número ali escrito. Que a força de sua
saudade fosse mais um aditivo para ele seguir rápido em frente.

Pois essa saudade de Bogomil era especial, estava além do tempo passado ou futuro,
não distinguia ritmos de chacinas e suas perdas, mas era uma saudade de melancolia
imponderável que talvez nenhum ser antes tivesse sentido, pois era uma saudade por
inteira na forma que uma saudade podia ser, ela trocava mutuamente mundos afins no
sentido paradoxal da diferença que une porque justamente distingue.

“Será que era isso que Bel sentia quando falou de sua “saudade”?”, se perguntou
Bogomil no fundo daquela melancolia toda, “uma saudade que permuta distâncias e
tempos?”

Pôs a saudade de lado. Tudo que fazia era para aplacá-la. Discou o número enfim,
como quem digita uma senha para acessar uma lembrança que fosse real o bastante que
ao o fazer esquecer poderia também, não lembrar, mas presentificar, que para ele era
algo como acordar enfim.

11 - A Luz Negra

Pelo telefone, quando ele esperava ser atendido por uma voz de mulher, teve depois
de se apresentar à voz de um homem, e dizer que o ayahuasqueiro Raimundo lhe dera o
número da comunidade. Bogomil disse ao homem que lhe atendia que gostaria de
conhecer sua organização e beber a ayahuasca com eles. O homem, de nome Ubaldo,
friamente lhe comunicou que se ele pudesse, no final de semana eles estariam
realizando um preparo de hoasca e ele poderia então participar das atividades, desde a
observância do pagamento de uma taxa estipulada.

Concordando com tudo, Bogomil então se resignou a esperar mais os dois dias que
faltavam para o referido preparo. Tomou nota da indicação da localidade para onde se
dirigir e agradeceu ao homem a atenção que se despediu friamente de Bogomil
desligando o telefone sem maiores demandas.

Aborrecido por ter que esperar o fim de semana, fato que só prolongaria então sua
saudade e a permanência no corpo e na função social designada a Ariel, Bogomil
decidiu então se dedicar a estudar os fartos volumes de livros nas estantes da loja de
Ariel. Apanhava um livro aqui e ali procurando informações que ainda não era do
conhecimento do livreiro, o que era raro, pois aquele homem lia bastante e os livros que
vendia ali eram todos com assuntos que giravam em volta dos interesses esotéricos dele.

Aproveitando a oportunidade forçada então, o mago procurou referências ao


“matrimônio espiritual”, encontrando indicações sobre o assunto em livros sobre
alquimia. De referência em referência Bogomil foi se inteirando sobre o assunto.

122
O mago não pode deixar de perceber o quanto as idéias alquímicas tinham uma
ligação simbólica e mágica com o pensamento gnóstico que conhecia. Ali nos livros
sobre alquimia que tinha a sua disposição se desvencilhavam processos mágicos que
retratavam processos psíquicos da alma humana.

A procura pela sabedoria, pelo poder da vida, da eterna juventude, a transmutação de


sentimentos inferiores em sentimentos superiores através da união co-salvadora dos
opostos no intuito de fazer nascer um ser humano superior capaz de recuperar por fim
sua dignidade fundante através de uma gnose e daí podendo regenerar todo o mundo à
sua volta. Tudo isso eram termos comuns do gnosticismo ensinado na Igreja da Luz
Serena.

Aquele termo, matrimônio espiritual, se referia à união dos opostos em um perfeito


enlace físico e psíquico. A diferença era que naquele mundo, Bogomil pode perceber, a
gnose tomara o rumo oculto da alquimia e daí fôra velado mais uma vez na poesia e na
literatura, perdendo seu status de conhecimento puro de fato, o que na Luz Serena se
tornara filosofia de vida aplicada, apesar dos esforços constantes exigidos para não
deixar o lobo material emergir em sua fome de devorar a carne que justamente deveria
se unir em harmonia para transformá-lo em homem-pensante.

Assim, a sabedoria alquímica e gnóstica guarda em si esse ensinamento poderoso das


núpcias entre os opostos.

Curiosamente Bogomil encontrou as referencias alquímicas mais interessantes ao


“matrimônio espiritual” em livros de psicologia deste mundo. Um autor em especial
começou a ter a admiração de Bogomil pelos seus estudos, chamava-se Carl Gustav
Jung, em um livro seu o mago encontrou tal passagem:

“Quando tentamos esclarecer os enigmas da Vita longa,


seguimos os passos de um processo psicológico que é o
segredo vital de todos aqueles que buscam a verdade. Nem
todos recebem a graça de uma fé que antecipa as soluções e
nem a todos é dado contentar-se, sem outros desejos, com o
sol da verdade revelada. Aquela luz que se acende no
coração per gratiam Spiritus Sancti, a mesma lúmen naturae,
por menor que seja, é para eles mais importante ou tão
importante quanto a grande luz que brilha na escuridão e
não foi compreendida por esta última. Eles achavam que
justamente que havia uma luz escondida na escuridão da
natureza, uma scintilla, sem a qual a própria escuridão não
seria negra.”1

Aquilo não era de forma nenhuma estranho ao pensamento no qual Bogomil era
formado. Ele entendia totalmente o que o psicólogo apontava quando falava da fé
inabalável em sua própria luz interna que a busca pela gnose finalmente ativava. Essa
1
C.G. Jung, “Estudos Alquímicos” in Obras Completas vol. 13 § 197, Editora Vozes, 2011.

123
luz dentro da escuridão da carne era para o gnóstico da Luz Serena o fundamento de
toda sua fé, era mesmo o que propunha o símbolo da “chama dupla” que emanava sua
Luz Serena nos confins mentais onde só os sonhos mais audaciosos alcançavam.

Era até pela comunhão com as sombras internas transmutadas que ele pode ousar
viajar no tempo, ou então como era seu caso, poder ser lançado em uma realidade
paralela ao seu mundo. Jung continuava:

“Paracelso pertencia a este grupo. Ele era um cristão de


boa vontade e humilde. Sua ética e profissão de fé eram
cristãs, mas sua paixão mais profunda e secreta, sua ânsia
criativa pertenciam ao lume naturae, à centelha divina
enterrada na escuridão, cujo sono letal não podia ser
superado nem mesmo pela própria revelação do filho de Deus.
A luz de cima escurecia ainda mais a escuridão, mas o lúmen
naturae é a luz da própria escuridão; ela clareia sua
própria obscuridade, e o escuro compreende esta luz; por
isso ela transforma o negro em claro, queima „todo
supérfluo‟ e deixa para trás nada mais do que „faecem et
escoriam et terram damnatam‟ (fezes e escória e a terra
maldita).”2

Se inteirando desse parágrafo na obra daquele magnífico mago da Terra Bogomil


pode entender como a alquimia naquele mundo pode se manter independente da religião
Cristã que dominava particularmente o Ocidente. Entendo profundamente a natureza
humana, eles puderam manter viva a chama da união dos opostos enquanto as
instituições organizadas e ditas “oficiais” se dedicavam à suinocultura, mexendo com
“fezes e escoria” na terra maldita dos chiqueiros que Bogomil havia observado.

Clamar e prometer prosperidade financeira, banir demônios, curar doentes, tais coisas
só mantinham os seres humanos alienados de sua própria natureza original, separados
assim da natureza, que em seus processos de transformação à tudo naturalmente
combina em harmonia, ela sempre ruma ao matrimônio, à união, e nunca ao isolamento.

Assim a própria “luz da natureza”, o “lumem naturae”, tinha o poder de guiar cada um
para as respostas e a salvação própria. Essa “luz negra” estava contida também na
substância vegetal que era a ayahuasca, bebendo-a pode-se revigorar a luz interna
iluminando as próprias sombras, pois como provava a própria apropriação de Bogomil
dos saberes de Ariel, talvez nos já saibamos de tudo, ou pelo menos, podemos ter acesso
a toda sabedoria que nos é necessária para nossa auto-salvação.

Essa é a função do “matrimônio alquímico” o casamento espiritual entre o corpo e a


alma, ou matéria e espírito.

2
Ibid.

124
Estas são as reflexões superficiais por que ia passando Bogomil enquanto estudava em
primeira mão sobre tais coisas. Naqueles momentos ele até se esqueceu da ânsia que
gerava a espera até poder estar junto ao Matrimônio Espiritual, e pensava como seria
interessante poder levar consigo aqueles livros preciosos que lia quando tivesse a
chance de retornar ao seu mundo. Mas sabia ser isso impossível, afinal nem possuía ali
seu próprio corpo, e então resolveu continuar lendo, pois tinha certeza que pelo menos
idéias poderia levar na consciência.

Provavelmente aqueles conhecimentos seriam parte da doutrina da comunidade do


Matrimônio Espiritual, por isso Bogomil buscou mais referências para se inteirar de
tudo o que eles provavelmente pregavam.

12 - O Sagrado Matrimônio Espiritual

Em alquimia, o matrimônio alquímico, é uma operação mágica que visa unir em


núpcias o Sol e a Lua, desse casamento é gerada uma prole andrógina que é em si a
verdadeira representação da união dos opostos complementares. Essa criança magnífica
é o ser perfeito, o Andrógino Universal.

Neste simbolismo o mago Bogomil percebia a função psicológica da transmutação das


energias positivas e negativas nos seres humanos dando vida a um ser harmônico
centrado em sua consciência renovada e em completude. Esta criança dupla é una e ao
mesmo tempo dois, ela é o paradoxo da totalidade humana unificada em uma só mente,
onde o masculino e o feminino finalmente se unem para a totalização.

O que se pode pensar resultar disso é a elevação do estado de existência humana, para
além dos empecilhos que impedem a todos de serem íntegros e respeitosos entre si e
para com toda a natureza, foi o que entendeu Bogomil em uma asserção simplória, mas
não sem sentido do propósito desse matrimônio.

Nos livros de alquimia esse casamento era referido como Hierósgamos, o “casamento
sagrado”, e se refere originalmente ao desejo apaixonado que o ser superior, o
Verdadeiro de Deus, como Bogomil o entendia, tem em desposar o ser inferior, o
mundo criado pelos Arkontes, reintegrando assim sua unidade primordial, pois tudo
derivou enfim Dele e pela Sua inescrutável vontade, e isso é o que o mago vê expresso
em diversos níveis de representação deste hierósgamos, desde o espiritual, passando
pelo sexual até o nível psicológico, comportando tanto o divino quanto o humano, e o
próprio humano entre si, e do indivíduo consigo mesmo.

O entendimento do “casamento sagrado” é profundo e envolve muitas instâncias, mas


a mensagem central representada em tal simbolismo Bogomil podia resumir
simplesmente em União, tão só união dos opostos em um nível superior.

Devia ser essa de alguma forma o estofo da doutrina do Matrimônio Espiritual. Ele o
saberia quando em contato com aquela comunidade e seus adeptos.

125
Levando em conta o estado de espírito da humanidade deste mundo, Bogomil via em
qualquer instituição, popular ou não, que abrangesse em seu seio tais tipos de
pensamento, uma chance imperdível para que esta humanidade saísse do chiqueiro. E só
de haver algo que propunha isso no seio da sociedade, provava que estavam então no
caminho de se elevarem.

Mas o mago preferiu relevar suas expectativas e só ter uma opinião concreta quando
conhecesse por dentro a comunidade do Matrimônio Espiritual. Lidando com um
pensamento tão profundo e intricado, poderia ser que aquela comunidade não passasse
de um teatro do que o hierósgamos realmente significava.

O casamento sagrado lidava com propensões muito obscuras, ainda mais para as
mentes destes tempos neste lugar, mas justamente por isso. Por isso mesmo, concluiu
Bogomil, tal circuito de pensamento era justamente pesado para esta humanidade fútil e
amante das superficialidades espirituais e profundamente materialista, e só o advento
dessa operação mágico-espiritual era o que podia fazê-los se elevarem.

O mago não esperava mesmo encontrar ali naquele mundo muitas mentes capazes de
se dedicarem com afinco na realização efetiva daqueles mistérios descritos em seus
livros que remetiam à um mundo já extinto. Talvez nem mesmo em seu mundo
houvesse muitos que se lançariam na aventura da Completude, mesmo porque ele se
lembrava da conversa com os seus superiores onde eles revelavam estar mais afeitos a
um poder temporal do que nas buscas psíquicas da Totalidade.

Mas em seu mundo havia ainda ativa a aura da poesia, e o mago aqui exilado
vislumbrou que essa via ainda era um ponto de esperança para que em seu mundo se
realizasse um dia uma espécie de sociedade verdadeiramente compromissada com essa
maior experiência da existência das humanidades, que a seu ver seria a união definitiva
entre as pulsões masculinas e femininas da realidade.

E, se por um lado sua humanidade cultivava a arte e a poesia como substrato para as
forças libertadoras, essa humanidade onde ele se encontrava cultivava o sentido
alquímico do paradoxo em suas ciências de ponta, principalmente ali na chamada física
quântica. Talvez aquela frente de conhecimento seja a alquimia do futuro com as
propriedades de libertar a mente humana de seus grilhões intelectuais nesse mundo.
Quem sabe?

Ponderando nas instâncias paradoxas esta humanidade iria ainda galgar uma evolução,
afinal estava em tudo ali os significados autocontraditórios, nas crenças, na sociedade,
na sua democracia, na economia, nas ciências, em tudo mais. Esta humanidade cultivava
secretamente para sua infelicidade e esperança, escondido na frente dos olhos de cada
um, bastavam querer ver, mas não querem, pois estão sendo enganados profundamente
com um propósito de escravizá-los para benesse de uma minoria.

Meditando profundamente, Bogomil em sua asserção entendeu que aquilo se daria


também no seu próprio mundo um dia, e assim, onde houvesse outros homens e

126
mulheres, estaria ali também as chaves para sua completude na tarefa de se tornarem
seres totais, superhumanos, como lera nas lembranças de Ariel, em livros deste mundo
ali e em livros de seu próprio mundo.

Mas para seu descontentamento, o mago tinha que reconhecer que dentro do espírito
das Eras, Alleghoria teria ainda que mergulhar nas trevas totais para só depois começar
a se voltar para tais impulsos, enquanto a Terra poderia estar passando pelo final de seu
próprio Zion, seu momento mais escuro e enfim poderia estar vendo nascer, ou renascer,
as propensões dessa totalização psicológica em seus habitantes.

Esse processo é a formação de uma índole inabalável dentro de cada um, criando seres
de extrema poesia e sabedoria, capazes de superar pela força de seu gênio qualquer
dificuldade, natural ou não.

Onde quer que existam consciências, o próprio fato dela ser consciente gerará os
paradoxos no seio de seu pensamento, pois qualquer coisa que se possa sentir ou pensar
gerarem o oposto do que se pensou. Essas analogias, Bogomil entendia, são naturais à
esse fenômeno chamado “consciência”, não há como ultrapassar esse limite da
existência nesse mundo, pois o próprio mundo, qualquer mundo, é erigido sobre uma
congruência de oposto que ao se disporem surge o paradoxo definitivo que é a
realidade.

Mas há, Bogomil aprendera isso na Luz Serena, uma série de conhecimentos especiais
que retirados da emanação paradoxal da realidade, servem de farol para se orientar
dentro do furacão do mundo, estes saberes são os dispostos sobre a efígie da Gnose,
pois estes são conhecimentos adquiridos diretamente sem a intermediação racional
aprisionada na dualidade. Sua fonte seria a própria Eternidade.

Afinal onde quer que existam homens que se deitem com mulheres e em amor e
respeito profundo, se unam em um só, sexualmente e espiritualmente, haverá o
florescimento do Andrógino Universal na forma de uma força que vence a pulsão de
morte, uma força assim que pode vencer tudo, vencer as engrenagens da causalidade, os
mares do tempo e do espaço, as cordilheiras dos preconceitos e a estupidez da miséria
total. Aquela era uma busca arquetípica irreversível para todas as humanidades dentro
de qualquer Era.

Em seu estupor mental ao longo daquele dia Bogomil fez diligência por diversos
livros de assuntos correlatos. Tarde da noite já, mergulhado em cansaço mental, um
livrinho afinal como que caiu em seu colo. Se chamava “Matrimônio do Céu e do
Inferno” de um tal William Blake.

A obra, sobre o olhar crítico de Bogomil, era um libelo poético, belo e enigmático,
como toda obra que consegue fazer conter em seu volume alguma gnose de verdade.
Bogomil puxou da memória de Ariel alguma informação sobre o livreto e sabia então
que era visto pela maioria da humanidade como um simples livro de literatura, mas ao
lê-lo o mago percebeu que aquela visão era totalmente errônea.

127
Aquele era para Bogomil um verdadeiro tratado gnóstico-poético. Aquele livrinho sim
deveria ser alçado por aquela humanidade ao grau de obra sagrada. Um a ser
compreendido e apreciado não só pela sua composição estética, mas pela sabedoria ali
exposta.

“Matrimônio do Céu e do Inferno” era a obra de um verdadeiro profeta, e Bogomil


entendia profetas não como adivinhos do futuro, mas homens e mulheres que falavam
de amor com “A” maiúsculo. E aquele era um livro que mereceria ser decorado por ele
para ser levado consigo para seu mundo e ele decidiu de imediato que era a isso que ele
dedicaria no dia seguinte enquanto esperava chegar a hora de ir de encontro com a
comunidade do Matrimônio Espiritual. Bogomil usaria para isso qualquer técnica
mágica de memorização que estivesse ao seu alcance inclusive.

Mas agora ele precisava dar descanso ao corpo de Ariel Bogari. E foi o que fez,
dormiu ali mesmo, debruçado sobre uma pilha de livro revirados sobre a mesa.

13 - Gnose Poética

No dia seguinte, bem cedo depois de comer pão e frutas, revitalizado pela noite de
sono, Bogomil seguiu adiante em seus estudos. Partiria donde havia parado, na
influência poética que fez surgir autores como William Blake e sua literatura gnóstica.

Essa influência se dava neste mundo, assim como no mundo de Bogomil, pelo fato de
que os parâmetros teológicos da premissa da revelação divina, não comportavam uma
amplidão de pensamento para chegar às profundezas onde residiam os fundamentos da
realidade. A razão não consegue mergulhar ali, só a imaginação humana consegue.

Os principais temas existenciais fundamentais para que o ser humano ache seu lugar
no mundo são referidos na teologia como conceitos a priori, ou seja, não passam de um
conjunto de pré-conceitos que o ser humano deve aceitar sem questionar, “assim se
constrói os chiqueiros”, pensava Bogomil. Mas quando a mente humana munida de sua
infinita criatividade lança olhar sobre conceitos fundamentais tais como a vida e a
morte, o amor, a realidade, o bem e o mal, a linguagem, o tempo, então se abrem
infinitas portas de acesso à verdade pela única graça que a Eternidade concedeu aos
seres humanos, a consciência propensa à gnose.

Bogomil entendia por sua formação que conhecimento só pode ser algo individual, do
bojo da experiência particular, enquanto que o dogmatismo sugere inevitavelmente a
supressão da vontade, como nos rebanhos. Por isso as religiões institucionais eram o
grande mal deste mundo, sua mácula.

Por essa razão a gnose é um êxtase. E os poetas são os melhores visionários desse
êxtase místico que é a gnose. Enquanto o poeta penetra na escuridão iluminada pela Luz
Negra e assim pode observar e predicar sobre os conceitos fundamentais, o crente
comum se cega com a luz ofuscante que tanto almeja e nunca consegue nada além do

128
que mais necessidade de luz para compreender os mistérios divinos, sem nunca
conseguir. A “luz serena” da Chama Dupla era justamente essa luz da sabedoria, que é o
que “gnose” quer dizer.

O “Matrimônio do Céu e do Inferno” de William Blake era a obra tardia de um poeta


gnóstico que enfim conseguiu dar expressão a condição do visionário tratando com
essas sombras dentro de si, suas próprias cintilâncias que faz sua escuridão enfim ser
negra, pois sua própria luz o ilumina internamente.

Bogomil entendia esse livrinho de Blake como uma ode à vida, que se dava porque ali
fora possível expressar uma reconciliação dos opostos que naquele mundo estavam
dogmaticamente separados, e agora as pessoas comuns já não tinham mais energia nem
parâmetros conceituais para admitir tal coisa.

O poeta admitia que pelos caminhos mundanos mais baixos fosse possível se conhecer
o Verdadeiro Deus também, pois afinal tudo se concatena nas “núpcias dos opostos”.
Bogomil lia em comentador que dessa forma Blake reivindica uma purificação até das
próprias pocilgas, quando em uma passagem de seus escritos se lê que a própria
Imaginação Poética criava lendas, mitos e “escrituras sagradas”, só que as religiões
roubavam para seus fins de domínio mental os dons dessa imaginação ao mesmo tempo
em que depreciavam a independência do indivíduo em relação a qualquer
espiritualidade, tomando assim na mão da instituição a proeminência de ser o guia das
pessoas.

Cada povo diferente assim assumia uma forma diferente de ver o sagrado e o divino
com base naquilo que o “gênio poético” dentro dela com seu “espírito de profecia”
falava e descrevia o que tirava de uma fonte eterna e universal. Assim mesmo sendo
todas religiões uma, as instituições religiosas eram muitas e logo se fechavam em torno
dos motivos egoístas dos seus lideres.

Bogomil mesmo podia acrescentar, meditando sobre o que lera, que a Espiritualidade
é uma, mas as religiões são muitas.

Desta forma o mago entendia Blake como um profeta visionário, um tipo como o
mestre psicólogo Jung, que fala de um amor além do amor, um homem compromissado
com a verdade além dos dogmas, um homem que via a unidade onde os outros
enxergavam o embate de idéias. Uma verdadeira forma de se falar do amor que não liga
para com o outro, mas para consigo mesmo, o amor pela centelha individual que não
deve se apagar diante da lama do mundo, mas incendiar a consciência para que a
liberdade paradoxal que surge com a união dos postos possa ser dentro de cada um.

No final do seu “Matrimônio” Blake propõem o que seja essa liberdade integral
quando canta:

129
“Não há mais Império! E agora, o Leão & o Lobo devem
desaparecer!”3

Era este o ímpeto gnóstico que Bogomil acalentava, que aprendera antes de cruzar
mundos, e que trabalharia agora com mais afinco do que nunca para realizar em si
mesmo. Interiormente isso queria dizer derrubar a força cruel que o consumia, e assim
dispensar a magnânima e a violência dentro de si, para poder ser realmente livre.

Parecia então a Bogomil que estava tomando consciência em si de certas pulsões que
lhe seriam necessárias para encarar de forma aberta e tirar o máximo de proveito de sua
experiência eminente com a ayahuasca.

Talvez se não tivesse se inteirado destas facetas do gnosticismo deste mundo ele
estaria incompleto para sua missão. Era como se seguisse uma estratégia oculta, mas
que quando a realizava ele então ia tomando conhecimento do plano.

Sem se inteirar conscientemente da função profética e sacerdotal do poeta, talvez ele


não seria o ser consciente propício para achar as respostas que devia achar. Ele viera a
este mundo como um mago menor, agora começava a entender pela reflexão paradoxal
da união dos opostos como deve estar sintonizado seu estado de espírito para tirar
proveito total de qualquer situação em que se visse mergulhado.

Na verdade uma sutil transformação conceitual começava a operar na mente de


Bogomil, isso só foi possível porque ele estudara com afinco aquelas linhas de
pensamento que em seu mundo ele não teria acesso, pois lá não foram pensadas como
neste mundo.

Ele não entendia essa concepção totalmente, mas o fato era que se ele fosse somente a
mente de um mago, ele correria o risco de não perceber que a influência libertadora
neste mundo não era o poder invocado, mas a liberdade aqui sobrevivia apenas na
conjunção paradoxal do matrimônio entre o “céu e o inferno”. Em seu mundo o inferno,
o inferior, não era parte do dogma, pois sua espiritualidade de referência não
comportava essa idéia, enquanto neste mundo ele era integrado ao pensamento das
pessoas. “Que paradoxo!”, pensava ele, “que caminhos escuros devemos percorrer para
ver a luz!”

Aquilo era mais do que uma concepção, era, como Bogomil descobrira, uma
consciência por detrás de sua condição neste mundo. O motivo de sua prisão aqui e a
sua chance de libertação total.

14 - Rosas & Penumbras

Na madrugada que insistia em não deixar o sol raiar Bogomil já se encontrava


acordado. Pensava sobre os sonhos da noite que passou.

3
In Blake, W. Matrimônio do Céu e do Inferno, p.59. Madras. 2004.

130
Dormindo ele teve sonhos estranhos, e juntamente com a ânsia de ver resolvido a
situação em que se encontrava, os últimos sonhos haviam o incomodado
profundamente.

Foram sonhos com um misto de idéias repetitivas e aporéticas, sonhadas


repetidamente momento após momento, e o mago não conseguia penetrar e descobrir o
significado, isso causava-lhe uma impressão de mistério que podia passar por mau
augúrio. Depois, sonhos que definitivamente não eram dele, talvez de Ariel, mas como
podia ser?

Será que Ariel estava conseguindo emergir? A última coisa neste dia com a qual
Bogomil gostaria de se preocupar seria ter que lutar com Ariel pelo controle do corpo
que ele tomara “emprestado” para a ação de sua própria consciência. Poderia também
ser o cansaço de dois dias de intensos estudos que talvez tenha enfraquecido o mago,
causando uma fadiga mental.

Ali deitado na imensa penumbra da quase manhã Bogomil refez suas conjurações de
controle corporal. Na forma de uma oração enviou uma mensagem para Ariel estar em
paz, que logo seria devolvido a ele sua vida. Dessa forma o efeito de tal ato serviu para
o próprio Bogomil assumir uma serenidade para vencer o dia que raiava.

Quando a manhã de sábado finalmente chegou, Bogomil ergueu o corpo de Ariel, deu-
lhe de comer e banhou-se. Sabia onde tinha que ir e queria estar logo lá.

Tomou um taxi. Ali dentro do veículo refletiu como era estranha aquela situação
também, contudo parecia que estava se esquecendo de algo. Mas deslocar-se em um
veículo deste mundo era uma experiência incomum, afinal de conta. Passado muitos
minutos, depois do taxi encaminhar-se para uma região rural de chácaras, chegaram à
porta de seu destino e o mago teve que usar de subterfúgios mágicos quando percebeu
que não tinha como retribuir ao motorista do taxi pela viagem. O motorista
normalmente lhe cobrou a viagem e Bogomil não tinha dinheiro, tomando ciência da
situação o mago hipnotizou o motorista despachando com a promessa de que lhe
pagaria no dia seguinte se ele fosse à livraria que Ariel era dono.

Sob o efeito do feitiço hipnótico de Bogomil o taxista aceitou e foi embora.

Agora, aliviado, Bogomil rumava para o portal da comunidade do Matrimônio


Espiritual. Já na entrada ele pode perceber a movimentação dentro da estância.

Plantas e rosas floresciam por todos os lados, havia grandes árvores e hortaliça. As
pessoas estavam atarefadas, indo para lá e para cá, e não se deram conta do visitante até
ele já estar na varanda da casa que ficava logo na entrada do terreno.

Alguém percebendo então sua aproximação veio finalmente recebê-lo. Era um jovem.
Foi logo sorrindo para Bogomil e falando:

- Bom dia! - mais perguntou do que desejou ao visitante.

131
- Bom dia! - respondeu-lhe Bogomil, e entendendo que o comprimento do outro era
mais “o que você quer” do que desejar mesmo um dia bom, ele não esperou e emendou
dizendo - Meu nome é... Bogomil! Eu liguei para o senhor Ubaldo e ele me permitiu vir
aqui hoje para conhecer a comunidade e participar das cerimônias...

Pronto. Já havia dado sua “credencial” de intruso convidado.

O jovem prestativo se alegrou mais ainda vendo que ali tinha mais um irmão.

- Ah! Legal! Bem vindo. Meu nome é João Gabriel. - apresentou-se. - Venha! Vou lhe
mostrar a chácara e te apresentar os irmãos.

Na próxima meia hora então João Gabriel ciceroneou Bogomil pelas instalações de
sua comunidade, apresentando pessoas, mostrando o preparo da ayahuasca que estava
sendo conduzido, mostrando cultivos de cipó e o salão onde ocorriam os rituais da
comunidade.

Bogomil seguiu de bom grado o jovem, tomando noção do espaço onde estavam
instalados os trabalhos da comunidade. Mas enquanto andava ele só pensava em
encontrar então a sacerdotisa Belatrix, tinha uma impressão sobre ela, mesmo sem fazer
idéia do que era, talvez não passasse de curiosidade. Porém conseguiu segurar a
expectativa e foi passeando com João Gabriel por aquele jardim de flores e pessoas
entusiasmadas dentro do espírito de irmandade.

O mago logo viu que a ocasião do preparo da sagrada bebida era festiva, apesar do
sentimento de seriedade e sacralidade em volta dos caldeirões ferventes onde o líquido
era preparado.

No final de sua turnê em volta do jardim, João Gabriel então conduzira Bogomil de
volta para a casa da entrada. Chegando lá convidou-o a sentar-se em um banco e disse:

- O senhor fique a vontade. Vou chamar a Mestra para lhe atender. - e partiu para
dentro da casa.

Então Bogomil entendeu que finalmente suas expectativas seriam finalmente sanadas.
Ele tinha certeza que o jovem João Gabriel iria chamar Bel...

Bogomil tomara um choque! Sentado no banco de madeira ele não podia acreditar no
que estava vendo ali, sorrindo na sua frente e lhe estendo a mão direita.

- Seja bem vindo meu irmão. Que bom que está aqui!

Era o que lhe dizia uma bela mulher. O choque de Bogomil se justificava porque tinha
diante de si uma pessoa que era a descrição de sua amada Bel, só que com alguns anos a
mais e a cor da pele bem mais clara. Bogomil estava fascinado.

- Belatrix? - disse em seu desconcerto.

A mulher riu assentindo que era a própria.

132
- E o senhor é? - disse percebendo um constrangimento no visitante.

- Ah! Me desculpe. Meu nome é Bogomil, de... Altair... - falou fitando o rosto da
mulher.

Bogomil perscrutava a face de Belatrix. Ela se parecia demais com Bel, mas também
havia outra coisa que ele não sabia distinguir. Traços no rosto e no corpo da mulher lhe
pareciam enigmáticos apesar da verossimilhança com a princesa de outro mundo. O
mago se perguntava onde estava a estranheza naquela semelhança. Aquele sorriso.
Aquele olhar. Bogomil estava sendo invadido por um paradoxo deja-vu que o paralisa.

Controlando o espanto e o enigma o mago inteirou:

- Obrigado por me receber! Eu vim de longe buscar respostas... - agora era ele que
parecia hipnotizado.

- Então o senhor veio ao lugar certo. De tarde poderemos conversar mais


tranquilamente. Agora tenho algumas tarefas pra resolver, depois então, na sombra de
alguma árvore, conversaremos melhor. Fique a vontade.

Depois da breve recepção Belatrix partiu deixando Bogomil com sua estranheza. “O
que ela teria pensado dele?”, pensava o inquieto mago. “Quem era aquela mulher?”. Ele
se exasperava. Ao ver-se só o mago encaminhou-se para junto de uma turma ali perto
que maceravam pedaços de cipó. Juntando-se a eles Bogomil pôs-se a executar aquela
tarefa que era parte do preparo da ayahuasca, e recolhido em si, começou a pensar.

A atenção de seus pensamentos, é claro, dirigiam-se a Belatrix. Ela lembrava-lhe a


própria Bel, talvez com uns dez anos a mais, mas lembrava-lhe outra pessoa também.
Como podia ser?

Repassando na cabeça as pessoas de seu mundo que eram do circulo pessoal, Bogomil
cogitou se ela não lembrava então a própria mãe de Bel, que ele vira uma vez? Não! Era
outra “coisa”. Talvez fizesse confusão com uma outra pessoa conhecida, um antigo
interesse seu, uma maga da Luz Serena? Não! Tinha certeza que não era nenhum desses
casos. Então quem?

De repente Bogomil teve um estalo. Devia ser alguém que Ariel conhecesse. Talvez
conhecesse até a própria Belatrix. Poderia ser. Mas Bogomil tinha respeitado as
memórias particulares de Ariel, e não queria quebrar aquela promessa feita ao homem
que agora ele aprisionava a alma. Talvez fosse mesmo isso finalmente. Belatrix era de
alguma forma conhecida de Ariel e Bogomil sentira isso.

Mas isso não tirava o mistério do fato dela ser tão semelhante a Bel. Realmente ele
deveria estar em uma realidade paralela onde os mundos de Alleghoria e da Terra se
entremeavam e faziam assim surgir essas semelhanças. Mas aquilo tinha que ter uma
explicação maior. Assim Bogomil viu suas duvidas aumentando em vez de diminuírem.

133
O mago podia sentir o caos se instalando sobre seus pés caso ele não tivesse firmeza
para seguir na linha tênue de seus planos que o levaram até ali. Ele percebeu que de um
momento para o outro poderia sucumbir a um tipo de insanidade por causa daquelas
particularidades todas nas quais ele estava mergulhado desde que partira de seu mundo
para uma missão que se tornou como um sonho descabido. Mas não havia para ele
muito ao que se agarrar para justificar e explicar aquilo. Ele deveria então ser como um
visitante, insensível aos detalhes, se quisesse sair dali com alguma resposta.

Perdido naqueles pensamentos, macerando com pancadas pedaços de cipó suculentos,


o mago nem viu o tempo passar, só se deu por si quando ouviu o jovem João Gabriel ao
seu lado lhe chamando para o almoço.

Acanhado o visitante seguiu ao refeitório na casa da entrada. Foi cumprimentado por


várias pessoas ali, dando lhe boas vindas. Serviu-se e sentou em um banco para comer.

Ali, engolindo a comida no contragosto de suas duvidas, o mago então teve outro
susto.

Saindo da fila da comida, vindo em sua direção, um homem forte estava a encará-lo.
Bogomil pensou que iria surtar.

- Olá! O senhor é o Bogomil! - disse o homem sentando ao seu lado. Bogomil o


encarou como se olhasse uma quimera, mas usou de grande força de pensamento para
conter sua inquietação.

- Sim! Sim! - respondeu enfiando uma garfada de arroz na boca.

- Eu sou o Ubaldo. Nos falamos no telefone.

- Ah! Claro. Obrigado viu! - respondeu Bogomil, suando frio.

O que Bogomil enfrentava era o fato daquele homem ao seu lado ser um sósia do
homem que era na verdade o motivo dele estar perdido neste mundo. Ali, na figura de
Ubaldo Bogomil via a cópia de Ialdo Brialdo, alguns anos mais velho sim, mas o
mesmo homem. Aquilo era demais para o mago.

Suas pernas levantaram-no impulsivamente, quase fazendo derrubar o prato que


segurava. Ubaldo se assustou, mas ficou sentado.

- Desculpe! Eu tenho que ir ao... banheiro! - foi escapando Bogomil, depositando seu
prato em cima de uma mesa, desceu cambaleando para o rumo onde João Gabriel lhe
havia mostrado ser os sanitários.

Passando direto pela porta do banheiro, Bogomil se lançou para dentro da mata no
fundo da chácara da comunidade, indo se recostar desesperado em uma bananeira, ele
esperava o vomito jorrar pela boca, tamanha era sua apreensão.

O que era aquilo tudo? De que feitiço ou castigo estaria sendo vitima. As coisas
pareciam começar a se dissolver e uma realidade macabra se apresentava? E se toda
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aquela aventura de Bogomil em outro mundo era real, então ele devia estar mesmo no
local onde deveria estar.

Bogomil olhou em volta, para a mata fechada e sombreada onde foi parar e percebeu
que as coisas a qualquer momento poderiam começar a lhe falar verdades, a lhe dizer
sobre o porquê de ter ido parar naquele mundo, tamanho era seu estado de confusão
mental.

Respirando fundo, foi para deter as lágrimas e não chorar que ele tirou do fundo de si
forças para restabelecer o comando de seu pensamento. Deveria acalmar-se e ver até
onde aquela brincadeira iria. Sim! Só podia haver alguém brincando com ele.

“Será que poderosos magos de seitas inimigas à sua haviam lançado algum feitiço
para atrapalhar os intuitos da Luz Serena?”, pois não eram possíveis tais coisas, tantas
similaridades. Aquilo devia significar algo. Mas quem poderia dizer para ele o quê?

Nisso ele teve mais uma revelação. Era isso mesmo! As similitudes! Primeiro ele
próprio e Ariel, que se dissesse ninguém duvidaria ser seu irmão. Depois aquele mundo
todo, as idéias, e então Belatrix e Bel, mas algo mais. Indo a Ubaldo e Ialdo. “Sim!
Belatrix!”, admitia o mago enfim entender todo o curso de suas loucas elucubrações
naquele momento.

“Belatrix é similar a Bel, mas com um misto daquela outra, o peso de seu coração, o
capitulo escuro em seu livro, a dor maior de sua alma, ah! Sheila!”, pensou Bogomil
abismado. A aparição de Ubaldo revelara esse mistério. Belatrix era um misto de Bel
Arox e Sheila Hagia, até cor de suas tez se misturavam para produzir a tez de Belatrix,
pois Sheila era branca.

O mundo de Bogomil invadindo esse mundo! Ou seria vice-versa, este mundo invadia
o dele. Bogomil não sabia. Não podia acreditar em tais coisas. Era para além de todos os
estranhos mistérios que presenciara ao longo de anos e anos vendo coisas mágicas
fantásticas aquilo que agora vivenciava. Só não diria que era vitima de uma fantasia
mágica urdida para lhe enganar porque tudo ali era muito real para ser um simulacro
mágico.

Ele viajara no tempo ou no espaço, cruzara mares inescrutáveis cavalgando poderes


incríveis, mas ali na sua frente mundos se concatenavam para enlouquecê-lo. Ele
pensava, sentindo-se pequeno diante disso tudo, tinha a certeza que falharia, que nunca
retornaria para seu mundo. Que destino lhe seria reservado ao ter que conviver com
Ariel lutando por um corpo indefinidamente?

Antes que enlouquecesse Bogomil cortou os pensamentos. Se quisesse sobreviver não


podia mais se dar ao luxo de espantar-se com nada. Firmaria a mente, incorporaria o
mago que é. Veria tudo como um sonho que se revelava, mesmo que a realidade fosse
tal como se apresentava a ele. Só assim sobreviveria às revelações que o dia lhe
prometia.

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E assim o fez, ali, debaixo das sombras daquelas árvores, pactuou com aquelas
penumbras frescas que ele usaria de todas as artimanhas para obter respostas. Seu
objetivo de voltar ao seu mundo agora parecia se tornar irrelevante diante destes outros
mistérios que via se desvincilhar diante de seus olhos. Mas esse objetivo era sua estrela
guia, mas teria que compreender tudo aquilo antes.

Ele não seria mais um espectador das surpresas. Seria um observador das revelações.

15 - O espelho de reflexão do tempo

Saindo da mata dos fundos da chácara como quem saísse de uma selva depois de
muitos dias perdido, Bogomil iria procurar um sinal de referência para voltar aos
lugares conhecidos.

Enquanto lentamente caminhava rumo à casa, se recompondo para não começar a


parecer mais estranho do que poderiam já estarem achando dele, Bogomil viu que não
precisaria ir de encontro a nada, já que a própria Belatrix descia pelo caminho pisado
rumo onde ele se encontrava.

- Irmão! Estava te procurando. - disse-lhe Belatrix. - Agora podemos conversar mais


tranquilamente. Venha, vamos para o quiosque perto do riacho, lá teremos privacidade.

Bogomil a seguiu por um caminho que não tinha notado antes e dava em um pequeno
quiosque com cobertura de palha e tocos de tronco de árvore para sentar. Enquanto
Belatrix andava à sua frente mostrando a direção Bogomil pode perceber em seus
passos firmes a força daquela mulher.

Ele percebeu que realmente estava junto de uma mulher especial, que andava de pés
descalços debaixo de sua saia longa sem temer o contato com o chão.

Chegando ao quiosque se instalaram de frente um para o outro e Belatrix depois de


lhe questionar sobre amenidades, se estava gostando do preparo, se tinha comido bem e
coisas do tipo, finalmente foi entrando em assuntos mais profundos.

- Nossa comunidade irmão é baseada na visão de equilíbrio entre tudo, homens e


mulheres, ser humano e natureza, espírito e matéria, nós estamos tentando fazer aqui um
lugar onde novos seres humanos possam florescer, onde o passado seja apagado dando
espaço para um presente de amor e concórdia. - foi dizendo-lhe ela, o mago a ouvia com
interesse, sem dizer nada.

Continuou Belatrix:

- Todos que estão aqui viviam outro tipo de vida antes de conhecer a comunidade.
Então aos que vem até nós é oferecido apenas uma coisa, um espaço para mudar.
Usamos a ayahuasca para fazer brotar seus sentimentos, sejam quais forem, e aí, com

136
nossa doutrina, conduzimos cada um a analisar esses seus sentimentos, e aí a luz os
iluminam e tudo pode ser diferente.

- É um processo entre si mesmo com seu interior? - perguntou Bogomil.

- É isso, mas é mais. Aprendemos que o passado de cada um é fundamental na


observação de uma perspectiva de mudança. Nós não fazemos lavagem cerebral como
os desinformados nos acusam, nós mostramos que tudo é uma coisa só. Assim o
passado de uma pessoa é uma coisa só em disposição com seu possível futuro diferente.
Como se nos víssemos retroativamente por um espelho. Entende? - aquiesceu Belatrix.

Bogomil entendia o que ela queria dizer. Era uma visão radical. Comentou com ela
que então não havia a dimensão de culpa ou a necessidade de purificação, mas que
havia uma visão ampla onde cada pessoa poderia então estar consciente de si mesma.
Bogomil se lembrou do que lera em Blake e citou para ela, que “a estrada dos excessos
levava ao palácio da sabedoria”.

- É isso mesmo! De qualquer forma estamos sempre indo rumo a Deus, nós nunca
estamos no controle, algo maior nos dirige, principalmente quando começamos a operar
com a hoasca. - disse Belatrix concordando com Bogomil.

- Então onde fica a liberdade? - perguntou intrigado o mago querendo saber qual
resposta ela lhe daria.

- Ora, a liberdade fica em todo lugar quando não se há do que se arrepender! - disse
ela sorrindo.

- É retroativo Belatrix? - falou Bogomil quase entusiasmado, pois se lembrava do que


pensara naquela tarde na praça dias antes.

- Isso mesmo! Quando você alcança a perspectiva em sua vida de que o que passou
fazia parte dos planos de algo maior, então você lança a verdadeira e única liberdade
possível do presente em reflexão para o passado, libertando-se retroativamente de tudo
que lhe aprisionava, abrindo assim caminho no agora para o si mesmo, para sua
autenticidade e significância enquanto ser humano.

Bogomil estava fascinado. Aquilo que Belatrix estava lhe propondo era algo
profundo, talvez nunca dito em nenhum livro de seu mundo e deste mundo mesmo.

- Por isso irmão - continuou ela - que o matrimônio é espiritual. Porque nosso,
digamos assim, acordo no presente, estende-se ao que passou. Nós somos matéria,
corpo, foi com este corpo que atravessamos os tempos que passaram, ele carrega as
marcas de nossa existência, e devemos trazer a ele o espírito que finalmente renova a
tudo, desde agora ao passado, e para o futuro.

Aquelas palavras de Belatrix eram como que sorvidas por Bogomil e refletidas como
luz em toda sua situação, não só de exilado naquele mundo, mas em sua própria vida no
outro mundo. Ele se perguntava por que ela fazia tantas referências temporais em sua

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fala, como se estivesse falando sobre outros fatos, sobre viagens no tempo reais, como o
mago bem sabia o que significava.

Seguiu-se um momento onde ficaram calados. Belatrix deixava que Bogomil refletisse
sobre o que ela disse. Logo finalmente tornou a falar.

- Deixe eu lhe contar sobre mim Bogomil. Eu percebi como o irmão ficou
desconcertado quando me viu! - Aquilo estava começando a assustar Bogomil, “o que
viria disso” pensou ele enquanto ela falava. - Como é do conhecimento de todos, na
minha juventude fui uma atriz pornô, fiz diversos filmes. Nesse meio a vida não é só
festa e prazer como as pessoas pensam, há muita humilhação e o perigo das drogas.

Então era isso! Diante daquela inusitada e surpreendente revelação de Belatrix,


Bogomil entendeu sobre o “desconcertado” a que ela se referiu. Belatrix achava que
Bogomil havia a reconhecido pelos filmes que fizera. Mas agora ele realmente
entendera a profundidade de seu desconcerto, como se do presente ele o tivesse
alcançado no passado, horas antes. Belatrix tinha realmente uma relação intrincada
entre-mundos com a cortesã Sheila Hagia. Era surpreendente ao máximo. Ele
continuava a ouvindo.

- Então, depois de ter passado por tudo que passei, as coisas que vivi, e o irmão pode
imaginar, um dia, assim como comecei, eu deixei aquela vida para trás. Depois de
algum tempo, eu fui iniciada como sacerdotisa em um grupo pagão, que lidava com um
tipo de xamanismo moderno, então eu comecei a ver que o meu presente começava a
redimir meu passado, e vi que eu tinha que ter passado por tudo aquilo que passei para
me encontrar comigo mesma, para ser quem eu realmente sou.

Bogomil sabia sobre esse xamanismo que ela se referia, um movimento neo-pagão
urbano deste mundo, espécies de feiticeiros que cultuavam os poderes da natureza. Era
uma espécie de religião onde o feminino era evidenciado. Bogomil tinha uma duvida.

- Nesse grupo você bebeu a ayahuasca?

- Sim! Um mestre xamã nos instruía e realizava rituais com diversas plantas de poder,
até que um dia eu bebi ayahuasca, e tive uma outra guinada em minha vida. O chá abriu
minha mente finalmente para um caminho onde eu poderia agregar as pessoas entorno
de um instrumento mais poderoso, onde eu poderia proporcionar a outras pessoas o
despertar do sentimento necessário para que elas se entendessem também.

Belatrix relembrava sua vida depois da ayahuasca. Contou a Bogomil como ela e um
grupo pequeno, quatro pessoas, três mulheres e um homem, decidiram fundar aquela
comunidade em torno do conhecimento que ela, como sacerdotisa iniciada, coordenava
para ir agregando mais participantes. Como ali naquele núcleo de pessoas um
conhecimento foi sendo desenvolvido, lidando com as forças da natureza e as forças
espirituais que são abertas com o uso do enteógeno, destilando um rol de saberes que
formavam o cerne do conhecimento do Matrimônio Espiritual.

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A aventura daquela mulher, desprovida então das amarras que poderiam subjugar
qualquer mulher a ficar na obscuridade, escondida pela vergonha de sua vida pregressa,
mas que com Belatrix tinha sido diferente. Ela se erguera de sua condição e sobre as
pechas sociais e partira com coragem de se por em posição de ensinar. Ali eles
estudaram a si e aos mistérios revelados por outros mestres, foram agregando
conhecimentos que atestavam a veracidade de seu caminho, brindando este mundo onde
prosperavam chiqueiros espirituais com um jardim de flores raro no meio espiritual.

Bogomil tentava vislumbrar qual seria o futuro de uma comunidade assim neste
mundo, os desafios permanentes que tinham que passar para se afirmar, e muito mais
Belatrix, tendo que comparecer diante das pessoas como uma outrora prostituta que
agora era uma líder espiritual. Este fato devia ser enfrentado em certas situações pelos
adeptos da comunidade. O mago pode perceber então que uma grande coragem por
parte de todos ali aquiescia suas pulsões.

A grandeza de Belatrix ia além, admitia então Bogomil. Ela encarnava a Sagrada


Sophia, sua Xokmah, a Sabedoria do Mundo, prostítuida pelo ímpeto dos Éons. Talvez
a Sabedoria fosse isso mesmo em qualquer mundo, uma prostituta violada por todos,
mas que em grande ventura, continuava a ensinar e ensinar.

Aquela mulher encarnava esses mistérios arquetípicos. “Ela teria noção disso?”, se
perguntava Bogomil. O mago queria se inteirar de tudo que ela tinha a lhe dizer, mas
precisava retornar a seus propósitos. Por enquanto ele se inteirava de questões de caráter
existenciais, mas aquilo poderia lhe levar a ter suas respostas? Assim resolveu ampliar
do pessoal para o abrangente sua conversa com Belatrix.

- E o que você acha da magia Belatrix? - perguntou então Bogomil. Ele queria saber
até onde ia a mente daquela mulher sobre questões de controle da realidade.

- Eu creio que existem poderes que podemos controlar e poderes que nos controlam
irmão. Durante minha vida eu pude entender que coisas como os sonhos tem grande
influência sobre nós, e quando eu conheci a ayahuasca eu tive certeza que podemos
barganhar com o sobrenatural em nosso favor, desde que esteja de acordo com seus
planos.

- Quer dizer que você acredita que podemos conseguir saberes capazes de nos libertar
com o uso de ayahuasca? - tornou Bogomil.

- O que sei é que quando a mente penetra no mundo que a ayahuasca abre, ali se pode
quase tudo. - disse ela, e continuou. - Veja! Eu te disse sobre sonhos, porque não
conheço melhor forma de descrever o que os poderes espirituais fazem a não ser
entendo-os através dessa realidade onírica. Os sonhos, assim como a expansão da
consciência, são uma forma onde nosso espírito retorna do futuro ao nosso passado,
ligando as pontas. Uma forma de magia está à disposição ali.

139
Aquilo girava em torno do entendimento dela sobre o futuro do passado, o presente,
definindo aquilo que mudou na linha temporal. Bogomil tinha muito a refletir, mas
Belatrix não lhe dava tempo.

- Talvez irmão Bogomil, o tempo não exista. Eu penso assim: que passado, presente e
futuro sejam um ato mágico puro, onde tudo é possível. Assim magia seria a própria
substância do tempo, magia é o que faz com que as coisas se disponibilizem e pareçam
diferentes, desta forma, manipular poderes ocultos, magia, é da mesma essência daquilo
que nos proporciona essa liberdade que lhe falei. Estamos fazendo magia o tempo todo.

Mais uma vez Bogomil entendia o que ela queria dizer, mas sua visão mágica da vida
implicava que só as pessoas que rumavam conscientemente para aquele tipo de
autenticidade é que faziam magia. Ela tinha magia na conta da originalidade, enquanto o
mago a via como principio de poder. No fundo afinal, isso poderia ser a mesma coisa,
mas precisaria se estar de uma certa forma desperto para perceber.

- Estamos fazendo magia o tempo todo quando nos pomos no caminho da libertação?
- aquiesceu Bogomil.

- Sim! Mas, diante do que lhe contei, pode me dizer quem é que não está no caminho
da libertação? - lhe perguntou sagazmente Belatrix.

- Talvez você tenha aprendido que magia é algo oculto, reservado às seitas, que faz
uso de fórmulas para dobrar o curso natural das coisas... - Bogomil ouvia e dizia para si
mesmo que sim, era isso que ele entendia que era magia, era o que vivia cada dia de sua
vida, mas Belatrix continuava em sua linha de pensamento. - ...e eu não digo que não
seja isso, há pessoas que fazem uso disso assim ainda, mas isso acabou em nosso
mundo, passou a época de ser assim, e agora esse pensamento se debruça sobre seu
passado e nos diz que se perdeu esse poder no mundo, agora a magia é existência, agora
os bruxo saltitam como coelhos sobre os campos psíquicos, é mais importante agora
nesse mundo se entender o interior, consumar uma união interna pessoal. Não podemos
voltar atrás na evolução da mente, não podemos permitir mais subterfúgios nem
disparidades de poderes.

O mago via que Belatrix resumia a condição deste mundo, era a explicação dela do
porque este mundo perdeu a função da magia como influência no cotidiano. “O senhor
que se fingia de servo para ser servido”, foi assim que a alquimia atravessou os séculos,
carregando em seu estofo o saber gnóstico para seduzir o presente. Arquétipos
existenciais.

- É como se dizer que o amante deve libertar o amado. - disse Bogomil.

- Só pode ser assim. - rebateu Belatrix.

Naquela altura, achegava-se de onde eles estavam um carrancudo Ubaldo. Belatrix


sorriu, ela achou providencial o que Bogomil dissera com a chegada de Ubaldo ali.
Bogomil não percebeu nada, mas ela sim.

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O homem veio dizendo que a procurava, chamou-a de “Magda Helena”, por toda
parte. Só então Bogomil pode perceber o ciúme que o outro estava sentindo dela. Ele a
chamara pelo nome de nascença.

Belatrix disse que estavam conversando e que Ubaldo não se preocupasse.


Encomendou-lhe que cuidasse da ordem no preparo e lhe desse mais um tempo com
Bogomil, que logo ela iria para a casa de preparo para beberem o chá para testar seu
grau. De mau gosto Ubaldo partiu, deixando claro sua consternação com aquela
situação, mas foi-se.

A mulher não precisou explicar nada. Ela percebera o constrangimento de Bogomil e


procurou relaxá-lo dizendo que Ubaldo só se preocupava com o bem e a segurança dela.
Bogomil percebeu que eles tinham uma história juntos, mas não quis entrar em detalhes,
mas aquele fato lhe esclareceu muitas coisas e lhe pôs a pensar como as coisas estavam
se revelando.

Ora, ele se proporá a voltar no tempo para descobrir as verdades do fato sobre a
possível morte de Sheila Hagia. E eis que agora ironicamente ele estava em um mundo
onde um homem ciumento rondava a vida de uma mulher que era visivelmente a cópia
desta Sheila, e este homem era justamente o duplo do presumido assassino. Bogomil se
perguntava que ironia era aquela, que ao viajar no tempo não viajara, mas estava em
volta da mesma situação que fora resolver? Será que aquele Ubaldo representava perigo
á vida de Belatrix? Não estaria então Bogomil diante de um espelho mágico distorcido
observando o que devia mesmo observar para então cumprir sua promessa a Bel de
trazer a verdade que lhe salvasse a vida. E Belatrix como duplo de Bel e Sheila estaria
mesmo na situação delas, pois Ialdo ao arrogar sobre a vida de Sheila não tinha também
determinado o risco de vida da própria Bel?

O espelho distorcido que Bogomil observava, paradoxalmente o esclarecia e o


confundia em seu jogo de reflexões que era esta realidade.

A visão no espelho que Belatrix sugeria como forma de se encarar o passado como
parte do presente assombrava agora Bogomil muito mais do poderia pensar ao usar tal
analogia.

Bogomil sentia que respostas poderiam ser observadas naquele espelho, mas havia
outra questão, a qual divergia daquele conhecimento reflexivo. Ele procurava se
esclarecer sobre outras questões também, mais práticas. Como abordar Belatrix sobre
sua condição neste mundo?

16 - Os sonhos da realidade

Sentados naquele recanto, a tarde avançava e Bogomil viu que era o momento da
virada em direção à sua questão prática. Não foi sem surpresa quando se viu prescindido
pela iluminada Belatrix para entrar no assunto.

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- Mas então irmão, o que lhe trouxe aqui? O que veio procurar ver no espelho das
águas claras dos tempos? - ela lhe perguntou providencialmente.

Bogomil tinha tramado que seria ao mesmo tempo direto e indireto quando do revelar
de sua procura, então sem temores, se abriu com ela.

- Belatrix, o que procuro eu só tenho um modo de dizer, então lhe peço para ter a
mente aberta e procurar entender e me ajudar com essa sua profunda sabedoria. - foi
dizendo, preparando espírito dela para a situação.

- Eu sou como um exilado em um mundo que não é meu. Eu parti de minha terra com
a missão de descobrir certas verdades para que eu pudesse salvar a vida da mulher que
amo, mas as coisas deram erradas, e eu me perdi e não sei como voltar. Assim preciso
de ajuda que me indiquem onde devo procurar pelo poder que possa me ajudar.

Falando isso, contando tudo e não dizendo nada, Bogomil se calou, não conseguia
olhar nos olhos de Belatrix com medo de revelar o que pareceria sua insanidade.
Belatrix refletia sobre o que ouvira, ela por sua vez olhava para Bogomil, medindo-o
sem poder ver seus olhos, mas ela pensava que de alguma forma aquele estranho
visitante estava de sua forma sendo sincero. Ela entendia que suas palavras eram vagas,
mas que o que elas queriam dizer não era.

Belatrix em sua sabedoria poderia cogitar que se aquele homem dispusesse de outras
palavras para dizer o que tinha realmente para lhe dizer, ele o faria, mas talvez lhe
faltassem palavras novas e puras o suficiente para dizer. Então, em sua experiência de
vida, ela primeiro acreditou que aquilo era o que realmente se passava com Bogomil,
não importando o significado literal de suas palavras.

Sendo assim ela meditou sobre a forma como poderia ajudar alguém que tinha a
necessidade de se expressar assim, sobre sua situação existencial. Ele pedia ajuda
sincera então, e ela então só via uma forma de ajudá-lo, o que ela tinha disponível era
sua experiência de vida também.

Assim, antes que o silêncio fosse mal interpretado ela falou, pois tinha consigo essa
experiência da reflexão que a verdade surge quando rumamos para ela, e a única
verdade que ela tinha para ele era a reflexão de sua vida. Ela disse:

- Irmão Bogomil, vou lhe contar algo sobre minha vida. Sobre sonhos que tive, e é por
causa deles que eu te disse que sei que um poder maior é que controla nossas vidas.
Ouça...

Belatrix então foi lhe contado este sonho que se misturava com sua vida.

Quando ela era muito jovem ainda, uma moça, ainda vivia com sua família, seus pais
que em seu amor lhe deram o nome de Magda Helena. Até então ela levava uma vida
que toda moça leva, estudava, apaixonava-se, tinha uma vida simples e comum.

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Então certo dia, sem nenhuma explicação, ela adoeceu, sofria de um mal
desconhecido que os médicos diagnosticaram como depressão. O fato é que ela não
tinha motivos para se deprimir, e a doença era física, teve febre altíssima, e então caíra
de cama por dias afim. Ali convalescendo então teve um sonho estranhíssimo, “sem por
que”, dizia ela.

Ela confidenciou a Bogomil como sonhou que seres estranhos, que lhe disseram
serem Grandes Mestres do Espírito Humano, mas que não eram seres humanos, eram na
verdade nuvens carregadas no céu, e elas é que ensinavam as pessoas através de seus
trovões e relâmpagos. Então no sonho, uma dessas nuvens chegou até ela durante uma
tarde ensolarada e soou um trovão que dizia “BELATRIX!”. Era como o som de um
raio caindo: Cabrum!, mas se ouvia “belatrix”. Ela disse então que naquele sonho, no
momento daquele estranho trovão, ela viu tudo que deveria fazer na vida depois daquele
momento, foi lhe passado naquele sonho em um instante, rápido como um raio.

Depois daquele sonho ela melhorou da doença que lhe acometia. Depois de
recuperada logo saiu de casa, cheia de coragem para enfrentar a vida e vencer, ganhar
dinheiro e ser feliz. Para isso ela foi ser atriz de teatro e acabou praticamente se
prostituindo. Tomando o nome de guerra Belatrix ela fez carreira pornô curta, passou
por degradações, e na vida real se sentiu perdida, exilada da vida que pretendia ter, de
sua vontade de vencer na vida e ser feliz, tudo jogado no fogo da culpa pela depravação
que viveu.

Então um dia, quando se achava mergulhada totalmente naquele estilo de vida ela
adoeceu novamente. A noticia que correu, e que ela mesmo achou ser verdade, é que
tinha alguma doença venérea. Chegou a pensar que convalescia de AIDS ou coisa
parecida. Doente, internada em um hospital ela teve aquele sonho de novo.

Ela se lembrava perfeitamente que sonhou que era uma noite sem lua e que uma
nuvem chegou próxima de onde estava e como um trovão roncou “BELATRIX!”, como
o som inverso de um raio ao cair: Bumcra! Depois disso então, ela disse a Bogomil que
sabia exatamente o que devia fazer.

Ela deixou a vida de atriz, procurou uma comunidade espiritualista e conheceu o


xamanismo, ali então se purificou, e o resto da história já havia contado a ele. Ela achou
seu caminho de volta ao lar da felicidade, descobriu grandes conhecimentos e agora era
feliz.

Depois de abandonar a vida de atriz pornô ela estudou e descobriu sobre a condição
do feminino neste mundo, sobre o mito de Sophia, Eva, Helena de Tróia, Maria
Madalena, e muitas outras mulheres paradigmáticas e como aquilo girava na psique
humana. Ela viu em si mesma a disposição de tais forças e quando a ayahuasca lhe abriu
definitivamente a mente ela tomou conhecimento de outras facetas desse mistério que
encarnava em sua existência.

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- Estou lhe contando tudo isso irmão, e nem sei se entendeu sobre tudo que lhe disse...
- disse Belatrix ao fascinado Bogomil.

- Sim! Entendo Belatrix! Eu posso dizer que sou um gnóstico! - disse lhe ele fazendo
entender que ele entendia sobre a reflexão dela.

- Então! O que quero lhe dizer, a respeito do seu pedido de ajuda é que aqui no
Matrimônio Espiritual nos pudemos constatar então que essas Grandes Nuvens, esses
seres que me influenciaram em sonhos, eles são realmente entidades reais, muitos
membros de nossa comunidade, dentro do êxtase da ayahuasca, já contataram-os,
receberam orientações deles. Se há algum poder nesse mundo que o possa ajudar são
eles.

Bogomil viu de imediato então que era aquilo pelo que procurava. Seres com o poder
para ajudá-lo. Enfim suas esperanças tomavam forma, ele realmente viera ao lugar
certo.

- Olhe, fique aqui. Vou chamar alguém que pode lhe esclarecer melhor sobre esses
seres. Nosso irmão Ednael teve uma experiência muito forte com esses seres, ele tem
uma teoria interessante sobre o assunto e irá esclarecer para você.

Belatrix se levantou e rumou para cima na chácara. Bogomil pode perceber que a
tardia caia, o sol ali corria rumo ao oeste, e só agora ele se dera conta de tal fato. Aquilo
o maravilhou, mas o que Belatrix havia acabado de contar era muito mais fascinante do
que uma noite que surgia pelo lado contrário do que em seu mundo.

Toda aquela sua narrativa de suas experiências de vida eram fantásticas, Bogomil
acreditava na força dos sonhos, e o relato de Belatrix se encaixava em sua visão mágica
de mundo. Afinal talvez seus dois mundos não fossem tão diferentes, se é que estes
mundos estão mesmo separados, pois com tudo o que vira naquele dia naquele simples
espaço da comunidade do Matrimônio Espiritual, seus dois mundos estava de certa
forma reflexivamente mergulhados um no outro.

Em seu mundo Bogomil tivera chance de várias vezes invocar seres espirituais, que na
verdade ele entendia como entidades de outras dimensões, seres vigilantes que
acompanham paralelamente a sua humanidade na distância sutil das vibrações diferentes
da energia que condensa-se e dissolve, formando a matéria e o espírito.

Naquele recinto o mago pode ver que muito mais do que uma simples seita estava se
desenvolvendo, ali já reinava os poderes místicos que atuam na realidade dos mundos
para transformá-los. Havia esperança naquele mundo, não importava o tempo que
levaria para se desenvolver, o principal era que nem todos estavam cegos.

Dentro da tarde Bogomil escutava os pássaros cantarem e o vento correr. Depois de


alguns minutos um homem se aproximava do quiosque onde passara quase toda a tarde.
Ele vinha timidamente, parecia acabrunhado em passos trôpegos pelo chão de terra,
carregava na mão um livro ou caderno.

144
“Deve ser o tal Ednael!”, pensou Bogomil.

O homem que chegava até o quiosque cumprimentou Bogomil com entusiasmo.


Belatrix já havia lhe incumbido de falar a Bogomil sobre as tais “nuvens”, os seres que
contatavam as pessoas durante o êxtase ayahuaski.

Ednael se apresentou, sentou-se ali na frente de Bogomil, aparentemente


desconcertado, disse ao visitante que a “sacerdotisa Belatrix” havia lhe pedido para
relatar a ele sobre sua estranha experiência com alguns seres que ele chamava de
“Grandes Sombras”. Para isso Ednael preferiu então recorrer ao seu caderno de nota
onde havia descrito a experiência, e se Bogomil assim o quisesse ele poderia lê-lo e
depois conversarem sobre qualquer duvida que o outro tivesse então.

Bogomil aceitou de bom grado a condição do tímido Ednael. Recebeu de suas mãos já
em determinado ponto aberto o caderno de anotações dele, e se pôs a ler a narração, que
em estilo de um conto poético, até podia se iniciar com “era uma vez” ou “debaixo de
toda roseira há uma serpente, e acima dela existe... „As Grandes Sombras‟”.

17 - As Grandes Sombras

“Viajavam no céu noturno de maio, como sempre viajam, três „grandes sombras‟.

Seres soturnos, sem explicabilidade, singram juntos ou sós, as imensidões


atmosféricas sempre a Oeste, para onde a noite vai.

Lá no alto, pouco abaixo das poucas nuvens de uma noite de quase Inverno, longe,
iam as três, os três, em três. Jambalalauum, Godagarumnam e Blooommuk, três
sombras, três coisas mais escuras que o céu da noite, três seres sem explicação.

Atravessavam mansas um planalto, acima de várias paragens esparsas, pequenas


fazendas, um imenso pasto total, duas cidades próximas, três rios pequenos, quatro
estradas que se cruzam e a soma de toda natureza esparramada pelo chão que naqueles
momentos o oceano da noite banha com sua ausência de luz em descanso, parte natural
das coisas, o complemento do dia.

Há de se dizer sobre esses seres que existem às centenas neste nosso mundo. Pouco se
sabe de sua natureza, como nascem, como crescem, como morrem. Os meios de se
saber tais coisas são inescrupulosos e há poucos que pagam tal preço de obsessão, uma
nutrição psíquica profunda.

De sua natureza de caráter são mansos como bois, mais entendido pela sua lentidão
geral em se mover, como se estivessem em câmera lenta. De seu caráter real só se sabe
de sua curiosidade impessoal e até destemida, de uma intrepidez transcendental em
desvendar e vencer as resistências daqueles com os quais eles se decidem comunicar,
têm um senso de humor estranho para nossos parâmetros humanos e sabem muito bem
fazer-nos ver suas observações sobre coisas erradas, não um moralismo, mas um

145
impacto de constatação lógica e sentimental ao mesmo tempo, que desfalece qualquer
argumento.

Xamãs, pajés, médiuns das matas, feiticeiros, ocultistas, estudiosos do misterioso


afins as definem como se fossem bisões a cruzar os céus, não só pelo seu tamanho,
também por sua mansidão, mas principalmente por sua indiferença por tudo mais a não
ser quando querem realmente entrar em contato com quem os interessa.

Não que sejam mesmo mansos, mas para padrões humanos e da natureza selvagem
em geral, não são realmente violentos, esses seres tem sua característica
personalidade, se é que se pode se incluir criaturas tão estranhas em tais parâmetros
humanamente conhecidos. Eles tem um ímpeto superior, indiferente à tudo que não lhe
devem motivos, são mesmo como sombras que seguem sempre para onde a noite vai, e
isso revela mais de suas personalidades do que qualquer outra coisa.

Às vezes, no entanto, algo ou alguém chama sua atenção, e eu tomei conhecimento


desses seres em uma dessas situações onde eu fui alvo dessa sua atenção intensa e
narrarei mais adiante, uma aventura dentro de um deles, e ele dentro de mim mesmo.

Aquilo que chama a atenção deles em uma pessoa seria um estado peculiar de
consciência, aquele estado em que a mente fica depois de passado o efeito de um tal
veneno conhecido como “veneno para o ego”, chamado de Ayahuasca, e popularmente
difundido sob a alcunha de hoasca, o “vinho dos mortos”.

Depois de se ingerir tal substância, o individuo fica cerca de algumas horas na


embriaguez psíquica produzida pela bebida, e depois de se passar o forte do efeito,
durante algum tempo ainda ficam os ecos ressonantes das experiências vividas durante
o transe referido, ainda tendo o indivíduo o que se chama do sombreamento causado
pelo efeito de tal experiência, um ressabiamento colateral. É sob estas situações que as
grandes sombras têm sua atenção desperta para com um ser humano, nesse êxtase e no
pós-êxtase particular que chamam muito sua atenção.

Voando em grandes alturas elas podem sentir tal emanação da mente humana, é
como se elas sentissem de longe o odor de tal químio-gnose, como animais mais
dotados de grande poder olfativo sentem o cheiro do cio das fêmeas de sua espécie,
outros sentem o cheiro da morte em cadáveres e outros são atraídos pelo odor de
flores. Para essas sombras, tal estado da mente é um convite irresistível para se
aproximarem e intercambiar com tal pessoa.

A mente em tal estado está na situação favorável para a conexão que tais sombras
podem conseguir, e nisso elas tiram proveito, como uma diversão, ou um estudo, ou até
como um ato de nutrição para elas próprias. A mente humana, assim estando,
proporciona para essas grandes sombras a possibilidade de uma simbiose onde elas
podem saber o que a pessoa contatada sabe, ter acesso à sua memória, vivenciar seus
sentimentos, fruir por entre sonhos e pesadelos, ver pelos olhos desses à quem elas se
incorporam pelas vias expandidas da mente embriagada pelo transe ayahuaski.

146
Esse interagir tem dois lados bem diferentes.

A pessoa obsedada pode apenas ver de relance o forma disforme total da sombra,
mas sente plenamente sua presença manifesta através de percepções nunca antes
sentidas do meio em que está envolto, como se todo um mistério noturno ganhasse
coragem de se apresentar também aos olhos do individuo, mas na verdade estes
mistérios se apresentam aos olhos das sombras que normalmente os enxergam mesmo
nas distâncias das alturas e na escuridão da noite. Podemos perceber então aquilo que
se esconde nas sombras, nos relances, na fumaça, no fogo, dentro do torvelinho,
escutamos as sobras dos estrondos e os odores das alturas vencidas em chuvas de
serenos, entramos como que empurrados nas mediações da noite enoitecida pelos
próprios seres que só vivem aí, com a pouca luz e calor doados por uma estrela que
agora ilumina outra parte da esfera planetária, a natureza das costas do planeta...

Os conhecimentos que uma pessoa pode em retribuição ter em uma jornada tal são os
conhecimentos da penumbra, os conhecimentos dos sonhos despertos de uma criatura
fantástica, raramente notada e com suas pulsões próprias. Adentramos em um saber de
ser sem intenções maiores, como o saber particular de cada animal, de existência
vertical, mas no caso de um ser como essas grandes sombras há algo a mais, uma
consciência de amplidões catatônicas, um saber intra-real, pós-experiência, uma
intermediação sensorial plena.

No caso da grande sombra o que ela ganha, ou toma posse, é deveras mais
interessante. Não podendo ver o dia, elas nutrem-se da memória da pessoa das coisas
desses dias, da luz do sol, estranha a eles, pois ao mesmo tempo essa luz quer dizer sua
fuga e sua cova, sua impossibilidade de existir, mas a possibilidade do ser humano e
das coisas da natureza existirem, um estranho alinhamento de perigo e aviso sempre
renovado para se manterem distantes, mesmo que as coisas no final dependam de tal
luz.

Além dessa memória em particular, as sombras acessam os sentimentos humanos, tão


caros para quem não os tenham, pois podem se deleitar em sentir essas coisas como
quem assiste a um filme ou lê um livro, um ser tão imenso e complexo brincando de
catarse com uma criatura tão simples como os homens.

As grandes sombras parecem também se alimentarem nessa simbiose, elas sugam


restos finos do liquido misterioso circulante nas veias e intestinos dos indivíduos, além
da energia particular que perpassa na mente do psiconauta. Talvez mesmo por isso é
que são atraídas justamente por essa situação especifica, ao assediarem um individuo
em plena fruição da gnose ayahuaski faz com que tais sombras se compenetrem em
plena miração extática, revelando muito de sua presença e de seu ser, mas sempre de
acordo com sua vontade.

Há de se fazer notar que alguns conhecedores da existência desses seres especulam


sobre suas intenções e sua natureza. Uns crêem que eles fogem do dia por não poderem
existir à plena luz, sendo desintegradas, pois sendo elas um reflexo, uma idéia de uma

147
interseção, aquilo que as desmascarasse as faria inexistentes, que um dia por um fator
especial, uma interposição de corpos impares e luzes desconhecidas, tenham surgido
suas sombras e por um ímpeto de algo exterior, fez-se necessário, ou não, elas serem. E
desde então correm da aurora, sempre dentro da noite do mundo, vão pastando luares,
bebendo sonhos humanos e animais, migrando com os ciganos, sempre.

Porém existem também aqueles que digam que na verdade elas procuram o dia,
perseguindo-o, mas procuram justamente um dia especial em si, aquele onde a luz que
as criou retorne para que elas possam então penetrarem em tal disposição das coisas e
serem outras, talvez evoluírem, talvez descasarem. Vão assim perseguindo o crepúsculo
de sua completude, até encontrarem o fim do dia em especial em que terão algo de sua
própria natureza, algo que tenha um sentido só para elas. Talvez ainda cumpram uma
missão e tenha que permanecer na sombra de toda consciência.

Caminham então séculos e séculos dentro da sombra da Terra, seguindo uma sina de
sombras dentro da sombra, nem felizes nem tristes, nem temerosas nem esperançosas,
pois também morrem de velhas e nascem em novidades, de cópulas auto-induzidas e
parição de aparições, são.

Talvez nesses particulares de sua estranha natureza, o pouco que sabemos sobre
elas, possamos entender sua função, seus porquês, como vivem e questões desse naipe.
O caso é que respostas para tais questões são impossíveis de se ter, ficando tudo nas
conjecturas e suposições, e assim como não recebemos respostas às perguntas que
fazemos aos animaizinhos de estimação que agarramos em nossos braços, são elas, as
grandes sombras que arrancam respostas de nós, por uma ciência da simbiose
transcendente, que naturalmente elas fazem uso.

Pois então um desses seres, aquele de nomeação Blooooommmuk, que no inicio citei,
em uma noite de Maio, quando eu e mais dois amigos voltávamos de uma jornada
ayahuaski na área rural de nossa cidade, ela nos interceptou. Nesse dia, nessa noite
adentro, aquilo que para mim eram estórias de pajés contadores de mitos indígenas, se
tornou uma experiência intrigante, onde pude começar a entender os motivos
ensombreados destes seres.

Havíamos ido tomar ayahuasca em uma chácara à cerca de uns trinta quilômetros do
centro da cidade. Lá, por volta das oito horas da noite tomamos uma boa dose do
liquido em volta de uma mesa sob um teto de palhas de coqueiro e por horas vagamos
livres por entre paragens mentais e nos astrais da porta entreaberta pelo elixir da
desintegração das amarras psíquicas, vendo lugares fantásticos, assistindo desdobrar
de cenas indescritíveis e recebendo ensinos dos mestres dos astrais, nossos guias e
auxiliares espirituais e tantos outros guias dos sonhos que tem a permissão de nos
ensinar.

Depois de findada aquele ritual arquetípico, passado o grosso do efeito do chá das
mirações, voltamos então para a cidade em meu velho carro. Eu na direção indo levar
meus dois companheiros para o outro lado da cidade, para a claridade apagada das

148
nossas casas em repouso na hora do sono das coisas, vi no céu as três grandes
sombras. Eram como três anti-reflexos arranhados no céu escuro.

Na estrada escura, ao terminar de subir uma extensa ribanceira leve, tive na minha
frente a visão ampla do grande planalto que servia de contra-forte ao acesso das
imediações da cidade, sem que porém ainda as luz da cidade interferissem em qualquer
visão do céu ou dos arredores. Era tudo noite sem luzes artificiais.

Percebi pelo canto do olho, dispostos à minha esquerda, como se rumando à


nordeste, onze horas do ponto de vista em que eu estava, a procissão ínfima daquelas
sombras. Foi de relance, mas instantaneamente tomei ciência de suas presenças lá, pois
nesse exato momento elas também tomaram ciência de mim e de minha percepção
delas. Estava dado, pois, o contato.

Aquelas três “coisas” podiam ser qualquer coisa. Podia ser uma nuvem, podia ser
um OVNI, podia ser um avião, mas a sensação indiscutível de quando as percebemos
não deixa duvidas, há uma espécie de vida sentida ali, para ser mais preciso, uma
existência, uma grande e sombria presença.

Meus dois companheiros dormiam, exauridos pelo baque posterior da forte dose
ayahuaski que tínhamos tomado, mas no momento que tive toda a percepção das
sombras murmurei que tinha notado algo, disse uma frase como “- Olha só!!!”,
engolindo o comentário posterior que pareceria estranho até à mim se o dissesse em
voz alta, mas o que pensei como complemento daquela interjeição fora algo como “-
São três grandes seres lá ao longe... seres sombras...”.

Usando o poder latente da ayahuasca para me concentrar na estrada, no ato de


dirigir, o fato de perceber as grandes sombras fez com que minha consciência se
expandisse novamente, abrindo o sinalizador para que uma dessas grandes sombras
seguisse o sinal até mim.

Em sua imutabilidade Bllloooommuuk me pressentiu e desgarrando-se das demais


sombras ela fez uma manobra densa, uma enorme volta baldeando por quilômetros e
quilômetros, e lentamente veio emparelhar à grande altitude sobre meu carro, isso
quando já havíamos nos aproximados dos bairros mais periféricos da cidade. Ali em
cima de nós, ela voou vários minutos sentindo o odor psíquico que exalava nosso pós-
êxatse, já emanando em nossa direção também seus ecos de sombreamento, no que
pude perceber uma alteração sutil da iluminação em volta do carro, só sendo possível
ver isso graças ao estado de percepção e acuidade causado pela ingestão da
ayahuasca.

Foi como se no volante, percebesse uma diferenciação de iluminação da própria


estrada, parecendo diminuir o grau de escuridão natural de estrada não iluminada,
uma diferença de luz como se de repente uma noite de lua crescente se tornasse noite
de lua nova.

149
Tal penumbra se abateu sobre nós com o pouso da grande sombra sobre nosso
entorno, penetramos no próprio ser e sonho da sombra, seu corpo feito de efeito óptico
e intersecção, sua própria existência... seu mistério próprio...

E de imediato ela fez sua conexão quase mística conosco, e a partir deste ponto só
posso falar por mim. Meus amigos em seus sonos mais se aprofundaram e a grande
sombra mergulhara também em seus sonhos e pesadelos, lembranças e sentimentos
sonâmbulos em suas vivências oníricas. Ao mesmo tempo a grande sombra
estabelecera sua ligação comigo, e se por um lado ela dormia e sonhava junto a meus
companheiros, por outro ela via e sentia comigo, enquanto por sua vez me doava um
estado de consciência impar, extravasando ambos estados fisioquímicos e psíquicos que
geraram em mim a atenção da penumbra, o encanto do eclipse perene, o dom da noite.

Minhas veias e espírito alterados, tornados rubro-escuro o meu corpo e alma. Tudo
se tornara outra coisa, nem aquilo nem isso era algo que era, mas entretanto não era
mais até que o beijo sombrio do ser sombra me abandonasse.

Fui guinado e sendo guiado e posso dizer que não agradava à grande sombra o semi-
ato de guiar um maquinário, a desagradava o fado de ser conduzido, mas a isso de
certa forma, de sua forma, se resignou tendo-a como uma experiência a mais.

Eu de minha forma aquietei um certo pânico e uma certa repugnância de obsessão e


me quedei no estado estranho que me causava uma percepção diferenciada do mundo.
Naquele momento eu sabia que ali ao meu lado, em mim, havia aquele ser que eu
notara no céu e que atrairá sua atenção, no momento do contato eu me lembrei das
histórias e de tudo que eu sabia sobre elas, além de ela própria me esclarecer sobre sua
presença junto a mim, de certa forma para me acalmar, como se dizendo que nossa
permuta seria mais do que justa para comigo.

Fui então seguindo na estrada.

Em minha mente eu ouvia uma espécie de canção, como se fosse uma ventilação de
idéias da própria grande sombra que cantarolava sua cantiga de estrada, um fio
condutor de tranquilidade, ela cantava algo assim:

“... blooooooooooooommmuuuuuuuukuuuuuuuummmooooooooooooolb...”

E variava tão palavra, seu próprio nome, como um mantra, alterando sonoramente a
altura de cada som, e intercalava versos, que ouvi na nossa língua:

“... bloooommuk... aqui/ali/lugar-nenhum para a ti ver/sentir/cheirar/ouvir...

... emanações de escuro/claro/penumbra de mente/corpo/nódoa presença nossa...

... você(s) flor(es)/planta(s)-inversa(s) blooommmuk inversa-presença...”

150
E assim ia e se repetia tal cantiga de nuvem-sombra onde um termo quereria dizer
várias coisas e seu próprio contrário ao mesmo, uma intelecção da noite em sua
natureza expandida até aquele ser.

Depois de algum tempo se calou e fomos nesse silêncio pela senda obscurecida pelos
meus próprios olhos. Atravessamos a cidade assim e pouco reparei na soma total das
coisas, mas apenas certos detalhes fantásticos que a vida toda se tornara.

Bloooommmuuk tinha mais de 300 anos e suas lembranças viam à todo momento se
fundir com algum detalhe da estrada ou das coisas da cidade. Uma curva da estrada
era então uma curva da estrada de minha cidade e era a curva de uma estrada nos
confins do Peru onde serpenteava rumo ao litoral desde os Andes; uma qualquer árvore
era uma árvore qualquer, mas era também uma árvore de uma floresta sem nome que
fora consumida no calor de uma noite de verão por um incêndio de diversos dias e
quase todas as árvores foram durante alguns instantes árvores em chamas ardentes
vistas de cima e pelos olhos de um índio em comunhão de yagé pelas matas onde fugia.

Tudo que eu via ganhava um apêndice temporal e memorável da memória da grande


sombra ou talvez de diversas grandes sombras e assim o caminho se tornou uma
jornada ao profundo esquecido dos tempos e lugares onde a memória da grande
sombra mais parecia um redemoinho de conexões e amplidões dimensionais.

A certa altura chegamos à cidade e o luminar elétrico fez fugir de lugares profundos
lembranças das primeiras cidades assim iluminadas e como com o passar dos anos e o
sobrevôo das grandes sombras para cada vez mais longe de seus centros luminosos, as
luzes cresciam como um fungo na superfície da terra.

Um poste de luz de concreto se tornou uma fascinante recordação de antigos postes


de luz à gás e postes de madeira, assim como de diversos outros tipos, mas a luz era o
ponto perene entre todas as recordações e nisso inserido um certo receio que se fosse
sentido por mim eu chamaria de sentimento ancestral de medo.

Passamos por um grupo de pessoas que andavam tarde da noite pelas ruas, talvez um
pouco embriagadas e vi emanar delas certos eflúvios que diria serem espiritual, um
miasma metafísico dissonante espalhando por toda rua como uma certa decepção
material onde a própria matéria gritava de revolta contra o desperdício de tempo e
energia por aqueles seres ali, se matando de uma forma lenta e dolorida.

Em frente a certas casas eu via suas fachadas se transformarem e se remeter ao


passado e de suas portas via sair seres, ecos de lembranças da grande sombra por onde
outra hora passeou pelos escuros das ruas das noites do passado. Um relance, um
susto, um sentimento qualquer, todos repousando no mesmo lugar, guardados na
memória da sombra.

Cruzamos a cidade assim e ao chegar à casa de um de meus amigos, a dificuldade em


despertá-lo foi grande, se ergueu como um morto, tenso, pesado e meio sonâmbulo saiu
do carro, adentrando na sua residência.

151
Andando mais uns poucos quilômetros deixei o outro companheiro e ao contrário de
outras noites onde sempre fazia esse itinerário e ali com este amigo, meu xará, sempre
prolongávamos nossas conversas, desta vez ele se despediu sonolento, e foi logo para
dentro de sua residência sem sequer dar atenção aos seus cachorros.

Sozinho, então tomei caminho o rumo de minha própria casa que não estava a menos
de uns sete quilômetros de onde eu deixara meu último passageiro do sombreio, peguei
caminho e uma efusão então tomou conta de mim, como se a grande sombra
concentrasse então toda sua presença e atenção sobre mim.

Pelas ruas escuras os cães latiam insistentemente para mim enquanto passava e
gatos corriam desesperados ao me ver de longe, corujas e outros seres da noite ficavam
confusas ao me verem passar e se espantavam ou recolhiam quietos à qualquer refugio
de bichos.

Ao longe, em uma avenida muito comprida e reta, parecendo mais reta e comprida do
que de costume, pude visualizar um bando de cães na rua e ao me aproximar vi que
eram três cães e tive a impressão que comigo, naquela noite eu não havia visto três
grandes sombras no céu, mas vira três cães e um deles me perseguiu desde o mato até
ali; mas então lembrei que eu não havia visto três cães no mato, mas vira três grandes
peixes em um lago e um desses peixes me seguira pela margem do lago; mas me
confundi, eu na verdade vira três abutres magníficos que voavam em torno de três
cadáveres que se moviam pelas estradas do mundo rumo à suas sepulturas... e fui assim
durante breves momentos em cerca de duzentos metros tendo essas reminiscências
violentas e fantásticas onde eu vivenciava cada uma dessas experiências diferentes ao
longo do caminho, antes ou depois dele...

E aquilo era um forte desnorteamento de tempo, lugar, espaço, e sentia meu próprio
corpo e alma plenamente confundidos da sua mesma existência onde a estrada nada
mais era do que a ilusão do movimento e o tempo a percorrê-la uma fantasmagoria de
fuga de outros planos e hemisférios do cosmos. Talvez de outras realidades paralelas.

Nisso, Bloooommmuk me disse então que era o fator da desintegração, a despedida, o


futuro começo de uma mahapralaya que eu buscava incessantemente em minhas
aventuras psiconaúticas pelas matas e nas substâncias do mundo, ele potencializara
essa própria experiência como um dejeto de sua experiência pelas ruas sujas da
humanidade.

Diminui instintivamente a marcha do carro, ou a grande sombra fez isso. Ao longe


ainda, no fim daquela avenida, pude observar um eflúvio estranho, fumaça saia de um
monte de coisas que queimava na noite, talvez um monte de capim e entulhos de um
terreno baldio, mas pude ver de forma clara, dentro daquela fumaça, coisas muito mais
estranhas que a forma da fumaça sendo levada pelos ventos noturnos.

Pude ver, e quando vi acreditei ser real, que estava por detrás da fumaça uma
manada de elefantes correndo, e seguindo-os uma manada de cavalos selvagens sem

152
ninguém os montando e cogitei rapidamente que alguém devia ter soltados os elefantes
e os cavalos de seus currais.

Aquelas esdrúxulas constatações, que por alguns instantes pareciam serem muito
plausíveis e sérias para mim, foram interrompidas por algo mais estranho ainda, e só
posso pensar que a gargalhada de Bllooommmuk seria o som mais estranho que já
ouvira, mas essa impressão logo se perdeu no reconhecimento chocante que aquela
última visão na fumaça havia sido nada mais do que uma piada da grande sombra, uma
forma dele descontrair-se e despedir-se de mim, e foi como o fez.

Logo após tal fenômeno muito insólito também, tão ou mais insólito que tudo que vivi
naquela noite, o senso de humor da grande sombra deu o toque finalizador em nossa
simbiose, me aliviando do peso daquela possessão.

Nem tristeza nem alegria senti, apenas tive a sensação de como se um enjôo
passasse. Cheguei em casa e só no outro dia, depois de desperto e sob a luz do sol
comecei a me lembrar desta aventura. Muito tempo depois só a comentei com meus
outros dois companheiros e deles não colhi impressões nenhuma daquela noite. Eles
apenas dormiram e sonharam sonhos que não se lembravam.

Quanto à essas grandes sombras, tenho comigo sempre o risco de poder encontrar
outras delas pelos céus noturnos após um ritual de ayahuasca, e sei da inevitabilidade
de fugir delas, então prefiro não pensar do quando tal experiência ocorrerá de novo,
mas me mantenho atento e firme, pois posso qualquer hora dessas ser tomado
novamente, e tenho que praticar a memória, pois esse é o único ganho que nós
humanos temos ao sermos possessos por esses estranhos seres.”

18 - Interseção

Pacientemente Ednael esperava que Bogomil terminasse de ler. Ele finalizara a leitura
no caderno e ficara realmente intrigado com o relato do homem. Quando terminou os
dois se olharam seriamente, Ednael ao manter a seriedade para confirmar a veracidade
de seu relato e Bogomil sério para tentar transmitir ao outro que acreditava no que lera,
para que ambos estivessem em comum acordo sobre o que ali fora relato.

- Então? O que você acha que são mesmo elas? - perguntou por fim Bogomil em
referência às Grande Sombras.

Ednael ruminou o pensamento, parecendo escolher as palavras.

- Bom. Aqui no Matrimônio, eu aprendi que elas são seres psíquicos que observam o
mundo de uma posição privilegiada. - disse Ednael.

- Entendo.

153
- Outros irmãos tiveram experiências com elas, aqui mesmo, dentro do salão ritual.
Nós fomos ligando os pontos, e as entendemos como entidades muito sábias que agem
com seus próprios propósitos. - continuou Ednael.

- E quais seriam tais propósitos? - perguntou Bogomil encabulado.

Ednael meneou a cabeça negativamente, pensativo, até que por fim respondeu.

- Parece que com cada pessoa elas têm um propósito diferente. A um elas dão
mirações, a outros elas falam sobre questões de suas vidas, enfim, são como instrutoras,
mas a opinião de quem elas contatam é que parece ter um propósito definido, girando
em volta, ligando pontas soltas, tomando informações, revelando segredos.

- Será que foram estes seres que influenciaram Belatrix, em sua vida. - perguntou
Bogomil sem saber se o outro entenderia do que ele estava falando.

- Isso só ela sabe. Há uma coisa que nós percebemos a respeito de toda experiência
ayahuaski, que é que quando contamos aos outros sobre visões ou ensinamentos que
recebemos, logo esse processo para e perdemos aquela linha de comunicação, por isso
somos cautelosos em relatar sobre nossas experiências no êxtase. O senhor terá que
perguntar a ela. - disse Ednael com toda a cautela possível.

Bogomil entendia ao que ele se referia. Parecia ser um fato tácito na permuta com
seres astrais essa forma de proceder, onde se quebra o encanto ao se falar futilmente das
experiências trocadas com eles.

Por fim Bogomil tinha uma última e crucial pergunta para Ednael.

- O senhor acha que essas grandes sombras podem nos atender se as convocarmos?
Quer dizer, se eu, em alta-químio-gnose as chamar para ter uma conversa, elas viriam a
mim?

- O que eu sei é que sempre são elas que vêm, por vontade própria. Acho que ninguém
que teve contato com elas cogitaria em chamá-las porque todos tem um certo medo
delas, sabe? - Ednael sorria com certo constrangimento, revelando ali os temores que
todos tinham do desconhecido, e ainda mais em se tratando de um ser tão estranho e
obscuro.

O mago entendia perfeitamente o que Ednael queria dizer. Ele se lembrou de imediato
do pavor expresso por Ariel Bogari naqueles primeiros momentos em que eles
dividiram o controle de seu corpo e mente. Aquele medo do desconhecido, que apesar
de insistentemente procurado, e que quando materializa, é fonte de profundo temor.

- Muito obrigado Ednael, por dividir comigo seu conhecimento. - disse-lhe Bogomil
com gratidão.

- Quê isso irmão! Aqui somos uma família. Espero que eu tenha ajudado ao senhor
com esse meu simples relato desvairado. - disse Ednael.

154
Ambos se levantaram ao mesmo tempo e apertaram as mãos. Saíram caminhando lado
a lado do quiosque, subindo em direção ao salão, Ednael se despediu silente e Bogomil
foi se sentar em uma cadeira confortável, ali do lado dos caldeirões onde estavam
preparando a ayahuasca e ficou a observar o borbulhante caldeirão e o fogo em sua
base.

Os membros da comunidade conduziam o preparo calados, observando distantes as


efluvescências dos dois caldeirões onde era conduzido a decocção da ayahuasca.
Bogomil sabia que eles estavam sobre o efeito do chá, pois era praxe dos que o
preparavam ir experimento para provar seu grau de eficácia.

A tarde que caia prometia que ali em torno do fogo eles entrariam noite adentro no
preparo. Do círculo em volta dos caldeirões Bogomil pode perceber que um deles o
olhava, afinal ele era um visitante preguiçoso que não estava ajudando naquela tarefa.

Mas Bogomil estava se interiorizando, preparando para ter que invocar aqueles seres,
pois achava que poderiam o ajudar. Antes disso ele precisaria comungar o chá, e torcia
para que o esforço daqueles homens em volta dos caldeirões tivesse resultado em uma
bebida concentrada o bastante para que sua mente pudesse se expandir às amplidões
concernentes ao contato com as Grandes Sombras.

Analisando em retrospectiva ali o relato de Ednael, Bogomil se lembrou do caráter


tresloucado da Grande Sombra que fora atraída por ele, e de como era peculiar sua
comunicação. Mas o mago sabia que só se inteiraria de todos os fatores particulares
quando conseguisse estar em contato com elas.

O mago procurava se lembrar se sabia de alguma referência sobre tais tipos de seres a
partir do conhecimento de seu mundo e se lembrou de algo. Havia referências nos livros
de magia da Luz Serena sobre certos seres que eram suscetíveis de consulta, se assim os
interessasse, eles apareciam na forma de uma sombra humana projetada em uma parede.
Os mestres dos magos os chamavam de Axionais, pois entendiam que eles habitavam o
centro da linha bidimensional das sombras do mundo. Talvez esses seres fossem de
alguma forma a mesma referente semelhança entre seu mundo e este.

Depois de um tempo ali meditando Bogomil percebeu que a noite já fizera morada na
chácara, ali onde estava só a luz do fogo iluminava ao redor. O som borbulhante que
vinha dos caldeirões era hipnótico e ele achou que poderia ficar ali horas escutando
aquela canção de fervura ayahuaski. Um cheiro especial enchia todo ambiente do salão
que era agora também casa de preparo, era o cheiro da ayahuasca cozida, um “cheiro de
luz”, Bogomil admitiu.

Passou-se uma eternidade borbulhante até que Bogomil enfim pôde ver Belatrix entrar
pelo salão rumo aos caldeirões. Seu vestido branco iluminava-se à luz ígnea do fogo.
Ele viu quando ela apanhou uma jarra com um líquido ocre em uma mesa ali adiante e
encheu um copo grande com o conteúdo da jarra. Depois de encher ela fez uma
reverência ao próprio copo e o bebeu de uma só vez, ao terminar de engolir de olhos

155
abertos, Belatrix fechou os olhos e tocou em sua própria fronte com o dedo indicador da
mão direita, como se efetuasse um gesto ritual sagrado. Depois encheu novamente o
mesmo copo, Bogomil estava hipnotizado a observando e chegou a crer que ela
entornaria o outro copo em sua boca novamente, mas ela apanhou o copo com a mão
direita e colocando a mão esquerda cerca de dois dedos acima da borda, veio na direção
onde Bogomil estava sentado observando.

Imediatamente ele soube para quem seria o outro copo cheio de ayahuasca. Enfim
havia chegado o momento da expansão. Bogomil de imediato se ergueu e esperou
Belatrix se aproximar. Ela estava sedutoramente séria e o olhava nos olhos.

Chegando perto disse-lhe:

- Irmão Bogomil, por causa do preparo não teremos uma sessão, mas quando a noite
chega, todos tem que comungar a sagrada bebida para penetrarmos juntos nos mistérios.

Ergueu o copo em direção de Bogomil e ele pode sentir o cheiro forte do chá. Aquele
era justamente o odor que a bebida tinha em seu mundo, e ele já sabia então o gosto que
sua boca iria provar, era o “gosto do mundo”, como costumava dizer. Tomou o copo da
mão de Belatrix com cuidado e respeito.

- Que o senhor encontre suas respostas irmão! Que encontre seu caminho de volta
para casa! - disse-lhe ela muito formalmente.

Bogomil então tornou o copo de uma só vez. Pensou que nunca acabaria o conteúdo
do copo, tão forte já era o impacto de seu sabor. Ao terminar já sentia todo corpo
arrepiar em repulsão ao gosto forte da ayahuasca, respirou pela boca e segurou a ânsia
normal de devolver para fora a bebida.

Belatrix recolhera gentilmente o copo de sua mão. Depois colocou a outra mão no
ombro para que ele se sentasse de novo.

- Fique em paz aqui meu irmão, pelo tempo que precisar, e lembre-se, se estiver no
escuro, é por aqui que a luz entra. - E ela tocou o dedo indicador da mão direita no
ponto central da testa de Bogomil, na altura do terceiro olho místico, centímetros acima
do nariz e entre os olhos.

Bogomil agradeceu e se acomodara na grande e confortável cadeira. Sentia-se


aconchegar na noite que rodeava o salão, viu-se protegido pelo fogo debaixo dos
caldeirões, e sentiu-se embalado pela cantiga do borbulhar.

Sentado ali o mago esperou o sabor forte em sua boca passar engolindo saliva. Depois
firmou a mente para quando a expansão começasse. Devia manter a mente firme para
tentar contatar as Grandes Sombras, não tinha tempo a perder.

Ele sabia o que o esperava na experiência de se beber aquele enteógeno. Se não


tivesse firmeza de pensamento seria levado à uma ciranda teatral de visões e ilusões que
apesar de extremamente belas não lhe seriam muito úteis em seus intentos. Deveria estar

156
atento para saber o momento em que sua mente estivesse ampla e destoada da matéria
para galgar ganhar os astrais e dali convocar humildemente um daqueles seres para lhe
ajudar. Se como disse o relato de Ednael, a mente em êxtase ayahuaski era a condição
propicia para esses seres perceberem nossa existência, então logo ele estaria na posição
de ser reconhecido por elas.

Agora era só esperar o que tinha de vir.

19 - Cantando ciranda na beira do mar

Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuummmmmmmmmm
mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm!
Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuumm
mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm!

Gira gira gira, abelhas elétricas mecânicas! Zum zuuuuummm!

“Eu estou aqui!”

- Hum?!?!

Shap shap shappppp... Eu eu eu eu eu euuuuuu... Ua! Ua ua! Uaaaaaa ua ua ua!

Uma fadinha metálica risca o espaço rápido como um raio, zap zip!

Milhões de elfos minúsculos como besouros mercuriais agitam-se como uma


infestação sonora diante da minha cara. Eles estão aqui. Eu estou lá.

Parem de me atormentar! Fiufiufiufiufiufiufiufiufiufiu...

“Calma! Estamos sintonizando!”

Vocês não são reais! Estão dentro de minha cabeça.

“Ah! É!” Pim im im im...

Arggg! Você mordeu meu dente sua louca!

“Nós não somos reais! Ahahahahahahaha!” Zuuuuuuuummmmmm...

Estão sintonizando. Calma, este tormento vai passar!

Lento, lento, diminuindo o zunido! Ali! Está vindo a luz serena, bruxuliante dançarina
espectral entre as realidade. Ela traz a serenidade astral.

Friiiiiiiiiiiiiooooooooooo! Ah! Fuu! Fuu!

Mire as mirações!

157
Um gato toca didgeridoo profundamente como um ronronar do som das esferas,
cobras fogem para os quatro cantos longe da sebe, e a Rosabel se despe encarnada de
cores arrancadas dos espinhos que se lançam fractalmente em uma cornucópia que
ventila auroras cantado ciranda na beira do mar.

Entorna-se um caldo de luz por entre hostes de anjos que guerreiam por tomar o lugar
de outros anjos que abandonaram suas posições na luta pelo controle do luar, um grande
olho se abre espargindo visão sobre a terra devastada pelos anjos enquanto do chão
brota cogumelos que são os alucinógenos da linguagem que canta ciranda na beira do
mar.

Fantoches de bodes em ternos risca-de-giz dançam uma rapsódia de conspiração


adentrando os próprios chapeis cônicos de feiticeiros hereges caindo de uma alta torre
feita de borracha que levanta poeira de micélios por todo o campo do horizonte de
eventos do fim do mundo onde um coro de cães negros canta ciranda na beira do mar.

... Ta chavax ok, (Ta zaqir ok.) “Chila x oh PE vi; Xa x oh paxin q ib,” X e ch‟a Chi k
ibil k IB. Are chi q‟atatat vi ki k‟ux Ri nima q‟axiq‟ol x e „iq‟ov vi ulok... cantando...
ciranda... na beira... do mar...

Mirações! São mirações! Concentre-se!

Na expansão eu vi... eu vejo... uma luz serena... é a chama dupla onde todos os sonhos
vão findar... Ooooohhhhhhhh!

Eu vejo... um jardim de algodão colorido, e um menino, esse menino sou eu... sou eu!
Aaaaaaaaahhh! Que... Saudade...! Que saudade de ti, criança!

Eu vejo... o céu acima, de nuvens de algodão... e o escuro do céu... Não é noite! É o


espaço entre... as estrelas!

Zoooooooooooooooooooooooommmmmmmmmmm! Velocidade.

Percorro rápido uma senda estelar. Zum, zum, zuuuuummmmmmmm! Vou rápido,
sou a própria luz, aqui, não, já ali, não lá... zoooooommmmm...

Vou, vou, vou, vou, vou... Um fio de luz, um fio de estrela esticada, zás trás. Pa!

Eu vejo... um imenso relampejar... incessante! É a mente de Deus!

Um espelho vem de lá! Um espelho girando no vazio! Ele tem mãos e pernas e
cabeça. E ele tem olhos e boca e ventre. Vem para mim...

Salve a jóia na flor de lótus! Me curvo diante de ti, mar da reflexão! Fala-me Mestra!

Tu és a minha Sabedoria Perene!

“Somos livres para decidir não mudar em relação ao nosso passado!”

Tu és a minha Guia!

158
“Não devemos cometer os mesmos erros da história em nossas vidas cotidianas!”

Tu és o meu Conforto!

“O que falhou neste mundo foi o espírito, não a matéria, por isso o matrimônio é
espiritual!”

Tu és o Logos!

“Eu sou o sim, e o não veio por minha causa!”

Tu és o Relicário!

“A luz é uma intrusa no mundo do Ser!”

Abra...

Trovões! Trovões por todos os lados! Eles cantam uma canção na beira do mar eterno
do silêncio...

Firmeza Bogomil! Firme a mente!

Respire!

Eu te amo tanto Bel!

Firme. Agora!

Mais ameno agora.

Por favor, se há aqui uma Grande Sombra... por favor, venha em meu aux...

20 - A Voz do Trovão

“Ouça mago de outro mundo! E apenas ouça! Sondarak, filho de Gamerotal e pai
de Blooofmunkt vai lhe falar. Então entenderás. Perguntas não precisas fazer, tudo
que deve saber vou lhe dizer. Teu feitiço requerido pelo cerne de teu amor, cobiça de
paixão, te lançara no tempo fúgido, e nós, como diz, Grandes Sombras, intervimos.
Nós que estamos nos eixos acima dos ângulos de toda visão. Nós lhe trouxemos para
uma realidade paralela, dimensão alternada, do entrelace de que os mundos são
feitos. Nós Observadores Entremundos, que nos posicionamos nas dobras das
realidades e vemos tudo, trouxemos-lhe até aqui, pois é aqui que devia vir. As
realidades se co-influenciam para criar os mundos, dez são as tranças dessa textura,
o tempo é tudo unido, o tempo é onze e é nada, o tempo é o fino líquen que condensa
uma borda nas lianas dos universos-realidades. Nós Observadores temos a função de
zelar por aspectos que acrescentem tempos ao tempo, conceitos de eras às eras
concentradas, assim a teia avança rumo à concreção infinita. Mas isso são mistérios
de mistérios que chamamos incompreensíveis a você ainda. Assim como um Poder

159
Superior nos deu a missão de zelar por esse avanço dos seres dentro do tempo, nós lhe
trouxemos aqui para zelar pela vida de IzoBelAtrix, pois elas são três que geraram
novos tempos e novos mundos dentro dos mundos. Ouça: a vida de Izobel foi tirada,
ela existe agora em idéia, disso você um dia saberá. A vida de Bel se esvai pela ação
reflexiva de uma morte, isso você irá sanar por reflexão, uma graça. A vida de
Belatrix perigo corre, e isso você não pode permitir. Roubamos-lhe do túnel de luz
para que viesse aqui proteger Belatrix, todos seus esforços para isso deve dirigir.
Encontraremos-nos de novo, quando forte for outra vez sua dissolução mental,
graças ao efeito do suco andrógino. Na noite de amanhã. Me chamará, sussurre nas
sombras da noite por Sondaarak, em mantra, e eu logo estarei contigo. Não conte a
ninguém o que Sondharaak aqui lhe disse. Quando realizar esta missão lhe
concederei voltar ao seu mundo e antes lhe darei as respostas que procura em sua
missão original. Pois a tudo observamos e muito sabemos. Agora, durma... até
acordar!”

Bogomil dormia sentado dentro do salão ritual, e uma forte chuva caia lá fora. O vento
esvoaçava tudo, arrefecendo o fogo e agitando em vagas as árvores altas lá fora. Raios
caiam ao longe, mas os trovões estalavam acima da cabeça de todos, que aturdidos com
a tempestade temiam pela segurança e a integridade de todos.

O mago acordou de um pulo quando um raio arrasou um eucalipto alto a uns vinte
metros de distância e o trovão fez o chão tremer. Ele estava em uma tempestade em
alto-mar e a ciranda da beira-mar não era mais ouvida, apenas os sussurros úmidos da
chuva e do vento atingiam seus ouvidos e todo seu corpo, lavando seu rosto e
despertando-o para um dia como ele nunca tinha visto neste mundo ainda. Bom dia
tempestade!

No escuro da noite ninguém percebeu seus olhos quase saltarem da órbita ao susto do
trovão. De pé ele acordou definitivamente para o que estava acontecendo à sua volta.
Quanto tempo apagara? O que era aquela experiência que ouvira no astral superior?
Ninguém ali havia percebido seu alto-transe? Claro que não!

“Meu Deus! Tudo se revelou!”, pensou. Procurou se recompor. Tinha que interpretar
tudo que ouvira, mas precisavam de sua ajuda agora.

Foi em direção dos caldeirões e perguntou se precisavam de ajuda. Os dois homens


ali, na penumbra do fogo, disseram que se pudesse o ajudar dali em diante ficariam
agradecidos. Um raio revelou que um deles era Ubaldo. Bogomil, sem não sentir uma
espécie de susto por encontrar Ubaldo ali, se pôs de pronto a seu serviço, pediu que o
instruísse no que devia fazer. Mas ele só pensava no que lhe fora dito no êxtase. Decidiu
que enquanto trabalhasse ali sua mente ordenaria tudo o que ficou sabendo.

Um intenso trovão regurgitava, e ele teve a impressão de ser a voz de “Sondarak” que
ainda falava, mas não era. O apenas trovão era incessante, como um roncar de cachoeira
que despencasse sobre si mesma, circularmente. Será que essa tempestade era seu
espírito exteriorizado? Ele queria admitir! Será que estava longe da beira-mar tentando

160
pescar uma baleia branca? Reminiscências do êxtase ayahuaski ainda passavam por sua
mente.

Bogomil olhava para os lados, percebendo presenças que não estavam ali. Seriam
efeitos da ayahuasca ainda? Ou sombras rápidas dos raios que estalavam e clareavam o
céu? Não seriam espectros da noite e da tempestade a se divertirem, presenciando o
temor dos vivos? Não seriam enteais que rondam a ayahuasca?

Foi lhe dado o trabalho de manusear uma longa varra, como o homem lhe instruíra,
devia prestar atenção em ficar apertando o cipó dentro do caldeirão, contendo o
borbulhar da fervura.

Quanta coisa ficara sabendo então. De toda a sua situação. Joguete nas mãos de seres
poderosos, guardiões da evolução dos mundos afins.

Ah! Sim! A vida de Belatrix corria perigo. Ela seria uma vitima em potencial de
Ubaldo então, do ciúme dele, como Sheila fora de Ialdo, e ele, um recém chegado
visitante, quase intruso, devia zelar por sua segurança, esse era o ponto fundamental.
Ele sabia. Assim como se lançara ao espelho decagonal para salvar a vida de Bel.
Quanta ironia paradoxal nisso tudo.

Conteve mais uma vez o borbulhar. Já era hora de retirar o líquido do caldeirão. O
preparo do líquido de luz não para nem com a tempestade das revelações. Pegando em
uma das alças quente ajudou o outro homem a tombar o recipiente em uma bacia de
alumínio para ali esfriar. Um raio clareou todo o salão. O trovão causou um tremular
com ondas de impacto dentro da bacia, o pequeno maremoto ali não causaria muita
destruição, era só uma tremura de salão.

O que ele iria fazer? Matar Ubaldo? E assim mandar Ariel para prisão? Se fosse
preciso, sim! Tinha que proteger a vida de Belatrix a qualquer custo. Na prisão ficaria
Ariel, sua consciência tornaria a seu mundo. Mas tinha que pensar melhor. Haveria
outro encontro com a Sombra. Ela deveria lhe passar as instruções do que deveria fazer,
como proceder.

Por que tais seres, tão poderosos não se encarregavam dessa missão, como vinham
dirigindo toda a vida de Magda Helena? Por que não fulminavam Ubaldo com um raio?
Por que não falavam com ele nas profundezas do êxtase? Com certeza porque devia
haver mais coisas implicadas, limites para seus poderes.

Agora, como Ariel preso nas profundezas de seu inconsciente, ele era refém de um ser
mais poderoso, preso em uma realidade paralela. Ah! A realidade. Mundos, universos
entrelaçados, se co-influenciando, formando assim as realidades. Quem diria? Dez
universos trançado, uma liana ultra-cósmica, fervendo dentro do caldeirão do tempo,
produzindo o suco magnético das realidades.

Quanto poder e sincronia seriam necessários para mover eventos entre-mundos que
possibilitassem aquela situação? Uma morte em outro mundo, uma princesa sensível,

161
um mago que saberia de um feitiço descomunal, e depois uma interseção. Quanta coisa
uma mente se põe a calcular para efetivar aquela equação?

O homem encheu de água novamente o caldeirão, puseram-no para cozinhar de novo


no fogo, uma segunda decocção. A água ainda fria fazia boiar na superfície do caldeirão
folhas cozidas retorcidas, frestas de cipó macerado, pó de casca, esperando a fervura
que lhe transmutaria em, como é mesmo que a Sombra chamou, “suco andrógino”?
Masculino e feminino unidos, formando um terceiro ser perfeito, como duas realidades
que se entrelaçam formando uma terceira, e assim por diante, elevado a décima potência
multiplicado pelo infinito do tempo que a tudo cozinha, retirando a substancia e a
ordenando de forma mais elevada.

E aquela referência à outra mulher, o que queria dizer? Mais mistérios, mais
complicações? Ventos contrários de todos os lados abrangiam o salão, em algum
momento aquilo irá parar e tudo seguirá, pensava Bogomil enquanto observava o fogo
que fugia de um lado e outro do caldeirão mostrando que ainda estava vivo e a ferver,
cedo ou tarde, tudo se revelaria e ele estaria fazendo o que devia fazer.

Vendo Ubaldo sentado ali do seu lado, observando o fogo, Bogomil pensou o que
devia passar na cabeça daquele homem. Seria necessário conhecê-lo melhor? Mas o
tempo esvaia, e o mago viu que não teria muitas chances de conversar com ele. Naquele
momento a tempestade estava ainda enfurecida e ficar em silêncio era o mais sábio.

Ubaldo mesmo parecia arredio, centrado em si, isolado, olhando o crespidar do fogo,
quando não mais afastado, de braços cruzados. Ele definitivamente não queria contato
com Bogomil, ou qualquer outra pessoa. Durante o tempo em que ali estão Bogomil
pode vê-lo várias vezes virando a cabeça para o salão e em volta. Estaria procurando
Belatrix? Ou só estaria cumprindo um dever de zelar por tudo em volta? Afinal, aquela
ali era sua comunidade também.

Agora o trovar do trovão parecia mais distante. O líquen do tempo que a tudo permeia
começaria a ferver novamente em calma cotidiana, ali os três homens cruzaram a noite
em volta do fogo e do tempo totalizando em mais ayahuasca andrógina no seu trabalho,
a tempestade esvaia em fraqueza e a ayahuasca tornava a ferver sobre o fogo que não
deixavam arrefecer. Logo seria um novo dia, mas Bogomil sabia que só pensaria na
próxima noite, para encontrar a Grande Sombra novamente.

Agora os trovões não mais cantavam loas aos raios caídos. Os raios mesmos se
esvaíram em sua descarregada fúria que a nada mudou, a não ser o marco de um
eucalipto rachado que cresceria novamente. A chuva era fina e o chão já bebia suas
poças e iguarias de lamas seriam secas no dia. O vento soprava em uma só direção tão
normal que parecia não soprar. Quem ouve o som do trovão e a fúria do vento a noite
inteira não tem muita sensibilidade para os carinhos da bonança.

162
21 - Quando lobos notívagos uivam juntos

Mas o olho do furacão estava centrado na consciência de Bogomil. A tempestade


permanecia ali dentro do cérebro emprestado. O eco do trovão da voz espectral de
Sondarak refletia fortemente. Trabalhar em volta do fogo a noite inteira lhe fizera bem,
a fome que sentia espantava o sono que poderia ter, a promessa do dia era tácita. Ele
permaneceria ali junto com aquelas pessoas.

A tempestade que se fora e o dia que anunciava a vinda parecia ter unido mais a
todos. Comprimentos de bom dia eram trocados a medida que os que conseguiram
dormir a noite iam despertando e se pondo a disposição para a lida do dia em volta do
apuro da ayahuasca.

Bogomil viu que logo seria dispensado de seu justo turno.

Sentia-se até menos armado contra Ubaldo depois do longo turno a seu lado. Apesar
de não terem trocado palavras além das ordens de auxilio no preparo, parecia já haver
uma camaradagem entre eles, uma espécie de camaradagem entre homens que cruzam
uma tempestade em um barco a deriva no rio raivoso da vida, que ao se verem
sobreviventes, são já como irmãos da tragédia.

Logo então, quando uns cinco novos irmãos se acercavam do fogo do preparo, foi
Ubaldo que chamou Bogomil a se retirar e irem tomar o café da manhã. O mago
entregou a vara de arrefeço à outra pessoa e foi seguindo atrás de Ubaldo, ali adiante
lançaram olhares e mãos sobre uma farta mesa servida de pães, bolos, frutas, sucos,
café, leite e outras iguarias. Tudo parecia apetitoso depois de uma noite de trabalho.

Comeram calados e de pé as primeiras porções. Depois procuraram uma cadeira para


cada um repousar o peso que começava a encher suas panças.

- Aí! Obrigado pela ajuda irmão! - disse inesperadamente Ubaldo, olhando para
Bogomil

Bogomil engoliu um pedaço de bolo de cenoura e depois de engolir com um gole de


café tornou:

- Não tem o que agradecer. Foi mesmo um prazer vencer a tempestade e a noite
fazendo isso! - respondeu Bogomil grato pela atenção do outro e silente do esforço do
outro em parecer gentil.

Enquanto riam consigo, Belatrix fazia sua entrada matutina no salão e rumara na
direção onde os dois conversavam. Desejou bom dia a eles e radiante lhes perguntou,
cheia de humor:

- Quem foi que trouxe essa chuva?

Os três riram e Ubaldo apontou no rumo do eucalipto que tinha sido atingido pelo
raio, e cheio de humor disse:

163
- Pergunte e ele! - A brincadeira dele causou mais risos em Belatrix e Bogomil.

Ela ria normalmente. Mas Bogomil ria com aquele sentimento de só ele saber do susto
que levou na hora do raio, Ubaldo cumplicimente também ria nesse mesmo sentido.

Belatrix pediu licença e foi ficar ao redor dos caldeirões, vendo o preparo que seguia
agora na fase de segunda fervura, quer dizer, eles agora referviam a ayahuasca que
haviam preparado a noite durante a tempestade, concentrado o líquido. Ela se inteirava
lá dessas coisas.

Alguns minutos de silêncio se passaram. Então Ubaldo, como se levado pela calma da
manhã e o saciamento da fome disse, olhando para Bogomil:

- Ela é mesmo uma mulher especial! - disse apontando Belatrix para Bogomil saber de
quem falava.

O mago aproveitou a oportunidade enfim surgida para se interar da relação de ambos


e lhe perguntou:

- Vocês são um casal? - e só depois de perguntar viu que poderia estar sendo
imprudente, que o outro interpretasse mal sua curiosidade. Não foi o que o cansado
Ubaldo sentiu, ele estava disposto à complacência depois que uma lição de humildade
do clima pode dar a qualquer um.

- Já fomos... em outros tempos! - falava como se relembrasse. - Mas os tempos


mudaram, mas eu a segui assim mesmo. Ela mudou e eu mudei também, mas se perdeu,
junto com a velha vida, qualquer intimidade, sabe?

Bogomil podia entender. Ele sentia na voz de Ubaldo um sentimento dolorido.

- Mas eu faço qualquer coisa por Magda Helena! - O mago pode perceber a mudança
no tom de voz do outro, demonstrando também uma leve mudança de sentimento. Havia
possessão ali, era a forma agora que Ubaldo tinha de possuir para si Belatrix.

Havia na forma de se referir a ela, a chamando de “Magda Helena”, uma conotação de


distinguir duas pessoas, a mulher que Ubaldo via agora e que zelava, da mulher que ela
fora, mas que insistia em se lembrar de quem era ao continuar usando um “nome de
guerra”.

Talvez a chamando pelo nome de nascença ele em sua mente fazia uma diferenciação
da mulher que queria amar da que um dia amou.

- Você só a chama de Magda! Não gosta do moto da sacerdotisa? - perguntou


Bogomil, sabendo que estava entrando em assuntos particulares, mas forçou a forma de
falar para parecer o mais inocente o possível a pergunta.

- Isso é do tempo que passou. Ela usa porque faz parte da vida dela, ela diz que é
porque a lembra sempre de quem é... - falava Ubaldo demonstrando perfeitamente que
não gostava de se lembrar da condição onde o nome Belatrix tinha se desenrolado. - Eu
164
sei que é da mística dela, de sua vida, mas eu prefiro protegê-la até disso. - Terminou de
falar como se aquilo encerrasse toda a questão. Bogomil pressentiu que surgia
indisposição no outro.

Mas o mago já tinha começado a esmiuçar aquela cama de gato e tinha que terminar,
para saber o território que teria que lidar se fosse seguir a admoestação da Grande
Sombra em seu êxtase. Ele poderia parecer intruso ou abusado, mas era aquilo que seria
mesmo se Ubaldo representasse algum perigo à ela.

- Deixa eu te perguntar Ubaldo... - disse Bogomil pisando em ovos. - Até onde acha
que iria para protegê-la, e que ameaças o senhor vê que ela pode correr?

Ubaldo olhou Bogomil no fundo dos olhos, medindo aquela curiosidade do visitante.
Ambos sabiam que agora ali, naquela conversa amena do inicio da manhã eles teriam
que ter seriedade, pois era isso que a pergunta de Bogomil requeria.

Mastigando restos de frutas e saliva, Ubaldo deixou o caldo doce descer para emergir
palavras tácitas, tão sérias como ele podia falar.

- Ela é uma mulher exposta irmão! Por tudo que passou, ela estará sempre na mira de
todos, ela não pode errar, e mesmo quando quiser fazer o certo, haverá maldades para
acusá-la. - dizia seriamente. - Eu mataria por ela... - disse finalmente, ciente da
severidade de suas palavras. - E não permitirei que ela sofra por nada, até se tiver que
arrancá-la de qualquer forma da exposição do mundo!

Estava dito. Ali diante de si Bogomil tinha um homem capaz de ir até as últimas
conseqüências. Ele seria até capaz de viajar no tempo por aquela mulher, pensou
Bogomil, ele era daquele tipo de homem que o mago bem conhecia, que era um lobo
louco para devorar a carne da pessoa amada, destruindo-a com seus próprios atos de
paixão. Bogomil entendeu que se preciso, Ubaldo tiraria a vida de Belatrix para não a
expor às contradições de sua vida, ele chegaria ao paradoxo de também matar por amor,
como o próprio Bogomil sabia que era capaz, mesmo por outros meios de dissimulação,
de causar tal mal a Bel, sua amada de outro mundo.

Enquanto o mago o avaliava assim ele ainda disse:

- E quanto ao resto, eu não sei o que faria se ela se aproximasse de outro homem!

Aquilo podia ser uma ameaça definitiva. Apesar do distanciamento que Ubaldo já
sensivelmente predispunha a partir daquele instante para com Bogomil, esse sabia que
ambos estavam unidos em uma situação paralelamente semelhante.

Procurando não deixar que os sentimentos de ambos ficassem naquele grau, Bogomil
viu que seria necessário também expor sua severa e profunda sinceridade a Ubaldo.

- Eu também faço isso por uma mulher em especial! - disse, jogando aquelas palavras
ao ar, como se para definir para o outro uma certa situação que ele mesmo passava,

165
entendesse como entendesse o outro, Bogomil disse de dentro do que a Sombra lhe
havia revelado que a ameaça ali não era ele.

Ubaldo fez um gesto afirmativo com a cabeça, sem olhar para Bogomil, observando o
espaço na sua frente, o límpido e distante espaço das constatações.

Em seguida se levantou e sem olhar mais para o visitante declarou que agora era hora
de dormir um pouco. Deu de costas e deixou Bogomil sozinho com sua situação em
particular para remoer, ele já tinha sua própria sina, era o que parecia a Bogomil.

Vendo-o se afastar pelo canto da visão, Bogomil também se recolheu e deixaria seu
corpo dormir ali mesmo, na cadeira reclinada onde se sentara para comer e conhecer
Ubaldo. Ele já sabia então tudo que precisaria saber em relação ao outro, uma ameaça a
Belatrix emanava do nodo paralelo que era Ubaldo. Naquele momento antes do sono
chegar Bogomil desejava ter conhecido mais do homem que era Ialdo Brialdo, talvez
isso o ajudasse a decidir como proceder em relação a Ubaldo, talvez não.

O lobo de Belatrix foi dormir. O lobo de Sheila estava aguardando seu julgamento. O
lobo de Bel sonambulava em sua distância e saudade invertidas. Haveria mais alguém
naquela matilha transmudana?

Bogomil desfaleceu e nem sequer iria sonhar, apenas descansar dentro da manhã
fresca pela digestão da tempestade que passou.

22 - Jardim de Espinhos e Flores

A manhã foi um adendo à noite. Por ela Bogomil se arrastou como quem esperasse só
pelo fim da noite que se prolongava na forma de dia.

Depois de dormir umas duas horas ele se sentiu revigorado e pronto para mais um dia
inteiro de tarefas, mas ao visitante foi dado uma salvaguarda por Belatrix e ele passou o
dia a conversar com os membros da comunidade, se inteirando da vida e do pensamento
de cada um. Aqui e ali, enquanto trocava idéias com um e outro, o mago se sentia
vigiado pela presença à distância de Ubaldo. Bogomil sentia a tensão vinda do olhar do
outro.

Em suas conversas o visitante viu a porta aberta dos demais irmãos para compreender
as atividades da comunidade e sobre a vida de cada um.

Dessa forma ele soube em primeira mão como muitos vieram a estar ali. As histórias
se pareciam em sua maioria. Eram pessoas que cultivavam sonhos profundos de
transformação, artistas, renegados pela sociedade, pessoas comuns, gente simples e
gente sofisticada se misturavam, mas na mente de todos reinava o espírito da alternativa
de vida, uma busca por um mundo melhor, mesmo sem ter a dimensão exata do que
poderiam fazer para realizar tal utopia.

166
Ali o espírito ainda era cultivado para que não sucumbisse à ambição requerida pelo
mundo lá fora em suas exigências por trabalho incessante no objetivo de ganhar
dinheiro.

Todos eles tinham uma profunda confiança na liderança de Belatrix, ela era a mentora
deles, trazendo-lhes palavras de grande sabedoria e conhecimentos práticos para ir
transformando suas próprias vidas.

Muitos ali tinham participado de outras comunidades alternativas, mas nenhuma igual
ao Matrimonio Espiritual. Passaram por seitas idealista sem uma base espiritualista
genuína, organizações sincréticas que só faziam imitar com outras cores as disposições
materialista do mundo. Alguns pertenceram às igrejas “oficiais” do “mundo lá fora”. E
todos tinham sido abusados em algum momento em qualquer das denominações por
onde passaram, como de certa forma o fora Belatrix ao passar pelo mundo do
“entretenimento”.

Pareceu a Bogomil que cada um deles fora um ator em um filme de terror ou comédia
onde não permaneceram mais porque a alma clamava por idéias realmente originais
para seus vôos, suas atuações no palco da vida pessoal como artistas principais.

O visitante pode saber também como ali no Matrimônio as coisas também tinham um
desenrolar às vezes desagradável, foram muitos os caso aos longos dos anos em que
surgiram ali problemas também. Pessoas vindas de fora cheias de coisas a ensinar e
pouco espaço para aprender, pessoas que queriam ser mestres dos outros enquanto não
conseguiam serem mestres de si mesmas, prontas para abusar dos outros no intuito de
estabelecerem uma distinção entre si e os demais.

O próprio Ubaldo há anos atrás fora convidado a se afastar da comunidade, Bogomil


ficara sabendo à boca miúda, fora por causa de seu caráter então truculento, sua
possessividade quanto à sacerdotisa e por tudo que ela dirigia. Depois amargou um
longo caminho de volta onde desculpas públicas foram exigidas para ele provar que
estava se transformando também.

Outros casos constrangedores que aconteciam invariavelmente era a aproximação de


curiosos atrás da ex-atriz de filmes pornográficos que ali doutrinava, na esperança de
encontrar naquela comunidade propensões à orgias e atividades nesse sentido. Quando
decepcionados ou rechaçados, partiam decepcionados. Nunca os dessa espécie
permaneciam. A própria ayahuasca expulsava todos os tipos de curiosos, era do saber
geral.

Assim aos poucos ia se arregimentando o núcleo forte da comunidade, com pessoas


realmente voltadas para uma visão de mundo especial que Belatrix e seus companheiros
mais próximos iam construindo.

Materiais como o de Ednael que Bogomil havia lido eram produzidos, e davam a
dimensão do pensamento ali cultivado. Tudo ia sendo revisto com o tempo, levando-se

167
em conta as experiências dos irmãos com a ayahuasca e com o trabalho interior de
autoconhecimento.

Havia homens e mulheres, velhos, jovens e crianças de todas as idades, se esforçando


cada um para edificar algo diferente. E apesar de suas condições materiais simples,
grandes sonhos eram cultivados e floresciam ali dentro.

Há alguns anos todos já se inteiravam da doutrinação de Belatrix e outros mestres que


observavam que novos tempos estavam fazendo notar sua iminência no mundo. Todos
entendiam a necessidade de se expor um ensinamento novo para revitalizar a condição
humana. Bogomil achava isso magnífico, principalmente vindo de um povo que não
publicava livros, não tinham a sua disposição espaço nos meios de comunicação deste
mundo, enfim, não eram amigos da realeza do mundo.

Todos esperavam por certas datas onde antigas profecias diziam que as coisas iriam
mudar, aquilo acrescido com a observância interna do fluir de certos conhecimentos era
a força vital dentro da cultura desta comunidade. Eram algo de grande audácia, levando-
se em conta a condição de todos ali. Bogomil tentava imaginar como eles esperavam
superar sua condição e as condições ditadas pelo mundo suíno lá fora, mas entre uma
conversa e outra, ele pode ver que aquelas pessoas eram conscientes das coisas.

Em uma dessas rodas de conversas que Bogomil agregou o dia inteiro, especulando
sobre o pensamento do Matrimônio, veio então participar a própria Belatrix. A conversa
girava em torno, pela proposição de Bogomil, a respeito da propagação do que eles
pensavam, para ganhar espaço no “mundo lá fora”. Nisso ficou sabendo então de
Belatrix:

- O que você deve ter sempre em mente irmão Bogomil... - disse ela já o tratando
como um membro da comunidade, - ...sempre mesmo, em cada raciocínio que for
propor a respeito desse mundo em que vivemos, para não julgá-lo mal, é a questão das
Idades. - disse ela tomando para si a atenção de todos na roda de conversa. E continuou:

- Estamos no período da Kali-Yuga, a Idade de Ferro. Nesses tempos não há como o


mundo ser diferente, ele é assim, pronto! Não devemos lutar contra os tempos, não
devemos lutar contra o mundo... - dizia ela reluzente. - Mas não devemos também ser
passivos ou indiferentes, aceitar tudo. A atitude certa nesses tempos é sermos pessoas da
próxima Era, a Idade de Ouro.

Bogomil se pegou em grande surpresa pela entrada em voga aquele assunto específico
sobre as Idades do Mundo. Ele se lembrou de imediato de um dia no passado, quando
em Altair se reuniram os iminentes representantes dos principais credos de seu mundo,
e lá travaram um embate conceitual e pragmático sobre o Tempo. Naquela oportunidade
ele conhecera pessoalmente a princesa Bel, dentro de um ambiente e um estado mental
que o mago sentia como ruim para suas próprias crenças. Depois daquele dia em
Alleghoria, o mundo não fora o mesmo, e agora estava ele ali, em outro mundo, diante
de uma mulher que tocava justamente naquele assunto.

168
Então Belatrix foi destilando sua visão pragmática e iluminada de ação. Ela lhes
passou que lutar com o mundo era parte do que o sistema queria, aquela Idade exigia
que houvessem pessoas contra ela, e essas ações e pensamentos faziam parte da própria
Era pela qual passavam, pois tudo nesses tempos devia ser embate e dissolução. E o
embate e dissolução serviam somente para essa Era se reinventar sobre si. Belatrix já
havia escutado da boca de muita gente inteligente e caridosa, em conversas na sociedade
que, por exemplo, o capitalismo era magnífico e superior, justamente pela sua
capacidade de se reinventar e seguir em frente em sua evolução na sociedade e na
cultura, como se com isso esse sistema fizesse algo de bom pelas pessoas.

Belatrix dizia que não duvidava de nada disso, mas ela sabia do ensinamento das
Idades do Mundo, e ela sabia onde estava ao contrário dessas pessoas inteligentes, mas
que não tinham esse conhecimento. Ao contrário delas ela sabia que coisas tais como o
sistema capitalista, assim como todos os sistemas sócio-econômicos que floresceram
neste mundo contemporâneo tinham uma função específica da mente humana,
ultralimitada pela fuligem da Idade de Ferro, o Kali-Yuga, como o chamavam na
tradição de sabedoria Oriental na Terra.

Todos ali deviam, disse Belatrix, estar cientes que a mente, ou o espírito, como
desejassem chamar, estava também limitados pela inerência dos tempos. Isso em
primeiro lugar. Em segundo lugar, todos deviam estar cientes então que aquilo, como
tudo, também iria passar. Mas o terceiro e mais importante ponto era que, apesar da
deficiência do espírito, apesar da conjunção dos tempos, afluía também para a realidade
os pensamentos inaugurais de novos tempos que tinham que ser notados e
principalmente vividos.

O motivo deles ali se reunirem em uma comunidade, o motivo de submeterem seu


corpo e mente ao baque de se comungar ayahuasca, o motivo de estudarem e debater
sobre conhecimentos esotéricos e científicos era que, apesar dos tempos terem seu
próprio caminho, mudando de Era para Era, o fato é que seria a mente humana, e não o
mundo material, que abria espaço para a intelecção das mudanças. Assim, e isso ela
admoestou ser sério e observável, os tempos só mudam porque há as mentes para
percebê-lo mudar.

- Nós estamos aqui meus irmãos, para sermos testemunhas e prova diante dos outros,
que um novo mundo é possível. Estamos aqui para dizer calmamente à todos que
acabou, que não será mais o ferro que criará correntes e marcará quente nossas testas e
nossas costas cansadas, mas que de agora em diante será a vez do ouro adornar nossas
cabeças e acariciar nossos corpos com sua nobreza. - dizia Belatrix a todos que ouviam-
na.

Bogomil entendia aspectos do que ela dizia, ele havia estudo sobre a teoria oriental
das Idades do Mundo, pela qual passava inexoravelmente o planeta e a humanidade,
como se girando em uma roda que ascendia e descia, elevando e derrubando a todos
juntos, e assim o mundo caminhava, acumulando saber e esquecendo-o. Mas o que ela
disse a seguir foi novidade para Bogomil.

169
- Nós que aqui nos reunimos, e muitos outros em volta do mundo, temos entretanto
uma outra missão mais prática nesse jogo dos deuses. Até hoje, pelo que podemos ver
se olharmos bem, muito mais está sendo perdido do que preservado com a passagem das
Idades. Agora nesse momento cabe a nós, esclarecidos pelos poderes com os quais
lidamos usando da sagrada ayahuasca, devemos tornar possível algo realmente novo,
que é preservar para a Era futura, a Idade de Ouro, o que de bom que a Idade de Ferro
gerou.

Aquilo era novidade para Bogomil, e lhe era estranho também. Ele esperou alguém no
circulo de conversa notar e dizer, mas quando viu que ninguém faria qualquer menção,
ele mesmo falou:

- Mas Belatrix, se na Idade de Ferro tudo é mal, o que há para se preservar?

Ela sorriu agradecida pela perspicácia daquele recém chegado. E com um sorriso
maior ainda respondeu a todos:

- O ser humano irmão! Ser humano é o que é bom em meio a todo o mal!

O mago aquiesceu. Sim! Porque, mesmo se não houvesse o ser humano, nada faria
sentido então. Se o ser humano se extinguisse, quem seria o ator no palco do mundo,
quem desfrutaria a Idade de Ouro falada por Belatrix? Mas ela provou que se
entendessem todos como Bogomil estaria pensando, ainda faltaria entender algo. E foi
em sua intuitiva presença que ela continuou, sem esperar perguntas.

- Mas vejam, quando eu digo que o ser humano deve permanecer, eu digo que também
deve permanecer as coisas boas que seu gênio criou! Afinal, que sentido faria o
dispêndio de energias que o mundo gastou até hoje, tanto suor e sangue derramado de
nossas veias e de nossos antepassados, se, ao entrarmos em uma nova era, nós
voltássemos as costas para as verdadeiras evoluções do espírito? - ela falou olhando
para os olhos de cada um por vez.

- Você está diferenciando evolução de progresso, não é, mestra? - perguntou uma


menina de nome Gabriela que estava na roda. Ela havia feito a lição de casa em estudar.

Belatrix sorrindo para ela a acariciou nos cabelos ruivos e seguiu.

- Justamente meu amor! - disse ternamente. - O progresso nos deu remédio e armas,
mas nossa evolução nos deu as dimensões da saúde e do conforto. O progresso nos deu
carros que poluem a natureza, mas a evolução nos deu possibilidade que temos de
conhecer todos os recantos do planeta. O progresso nos deu os métodos de controle da
população, mas a evolução nos deu o sentido de zelar por tudo que é vivo...

Com um gesto rápido das mãos ela fez perceber que poderia ficar citando um número
infinito de exemplos, mas queria chegar ao cerne de sua idéia, e assim tocou com a mão
a seguir no coração da jovem Gabriela e disse:

170
- Quando a Idade de Ouro estiver na iminência de se instalar definitivamente teremos
que dar a ela nossos espíritos evoluídos, nossa clareza de espírito, teremos que fazer
coisas sérias sem perder o carinho no coração, teremos que frear a impulso do progresso
material e deixarmos de ser tão cegamente exigentes e viver mais simplesmente, para
evitar a extinção da humanidade.

Como aquilo tinha implicâncias profundas, pensava Bogomil. O que estaria


definitivamente propondo? O que aquela mulher via que todas as pessoas pareciam não
ver? Ela estaria um passo à frente na visão da Idade de Ouro enfim. Seria aquilo
influência das Grandes Sombras, ou seria por aquilo que ela via ou sabia que as
Sombras queriam zelar? Uma visão vinda de um ponto de vista especial, na dobra dos
tempos?

- E como se daria isso Belatrix? - perguntou Bogomil interessado que ela avançasse
para desvendar o que pensava. - Qual novidade poderia sugerir às pessoas para efetivar
isso?

- Por hora, o que posso lhe dizer meu irmão, é que essa “novidade” que o senhor pede,
é algo que sempre esteve conosco, mas é sim uma novidade, poderíamos dizer! - disse
ela já parecendo querer encerrar o debate.

- Vamos deixar para chegar nesse ponto em uma ocasião mais propicia, dentro de um
ambiente iluminado pela ayahuasca. Lhe prometo que mais a frente, depois deste nosso
preparo, em um ritual calmo, com a mente propicia, nós falaremos sobre isso. - disse ela
por fim.

Nesse entremeio quando a conversa parecia ir se dispersando, aquela garota Gabriela


quis saber outra coisa de Belatrix, e perguntou:

- Então mestra, quando a Idade de Ferro acabar, a deusa Kali irá ceder seu lugar aos
deuses da vida?

O mago pode perceber a estranheza que Belatrix expressou ao ouvir tal pergunta e não
pode deixar de explicar algo muito preciso para todos ao que Gabriela lhe inquiria:

- Ora! Mas quem te disse que o Kali-yuga tem algo a ver com a deusa Kali? -
perguntou para a surpresa e o constrangimento de todos que escutavam.

Diante do silêncio de todos Belatrix viu que era melhor desfazer aquela confusão.

- Kali, a Negra, é a deusa da sabedoria, do tempo e de sua mudança, que quer dizer
“Kala”, ela é uma emanação da Sophia perene na época do Kali-yuga que está findando-
se. Mas o “kali‟ de Kali-yuga é referente ao demônio Kali, a divindade raivosa da
ignorância, da discórdia e da destruição. - Belatrix sorria da confusão expressa nas faces
dos que a escutavam.

- Esse é um erro freqüente aos que não se aprofundaram nos estudos sobre a
terminologia hindu e da questão sobre as Idades do Mundo.

171
Ela então explicou a todos que a palavra que se referia à deusa era dita em português
como algo parecido à “Kâalîi”, e o referido deus raivoso à “Kálí”. Tomou então como
exemplo a imagem popular da deusa negra-azulada de quatro braços, com armas e
cogumelos nas mãos e um colar de cabeças decepadas no pescoço. Ali ela representa a
sabedoria que consume os homens, que consume os intelectos e os egos, e que, ao
tropeçar no campo de batalha das idéias com seu amado consorte, Shiva, em sinal de
vergonha, ela põe a língua para fora, em uma brincadeira. Sua função assim é trazer
uma reconciliação com a morte, proporcionando aos que meditam nela, um
renascimento em vida.

- Então Kali, a deusa, quer dizer “Negra”, como a cor onde todas as outras se
destacam, ela é o que o Sol deixa para nosso alento, a noite onde meditamos em
sabedoria sobre as questões de nossa vida. Kali é a pulsão da inteligência nesta época
que está acabando, quando todo o passado vem acertar as contas com o presente, a
Deusa Negra nos anima a não ceder em nossas convicções, pois tudo é passageiro, e
precisamos estar forte para manter acesa a chama da sabedoria na consciência.

Todos ficaram maravilhados com aqueles ensinamentos passados por Belatrix e viram
que tinham muito a ainda aprender com a sacerdotisa.

O circulo foi se esfumaçando e todos saiam alegres e enaltecidos por aqueles


momentos que passaram e as palavras que ouviram de sua mestra Belatrix, pondo os
braços sobre os ombros uns dos outros, ou se cumprimentado como se houvesse
retornado de uma aventura onde descobriram um “velocimo de ouro”. Cada um agora
podia meditar mais claramente sobre aquele assunto que Belatrix esclarecera.

Bogomil por seu lado ficou pensando, depois que Belatrix se foi, que aquelas pessoas,
assim como ele, conscientes de tal fator influente no mundo e por consequência em suas
vidas, daquele Zion, como chamava, estavam por causa da lida diária, dos
entretenimentos da vida a não ponderar a partir deste ponto de vista. E como eram
pessoas de sorte por ter alguém como Belatrix para lhes esclarecer aquilo sem estarem
em um debate onde se impunham idéias no intuito de vencer em um campo de batalha
onde todos estavam sendo derrotados, tanto os melhores em argumentos quanto os
piores, mas podiam receber em paz tal sabedoria.

Essa era a diferença entre a Terra e Alleghoria, aqui todas as cartas já haviam sido
jogadas, as pessoas já podiam fazer seus lances, enquanto lá, a maioria esperava ainda
que os outros pensassem por si, e é claro, em uma situação dessas, tais pessoas
escolheriam a aceitar o que melhor lhes conviessem, no caso de Alleghoria, mas
escuridão, pois ela vinha mascarada em forma de promessas banais de uma luz que não
existia.

O que ficou para Bogomil em primeira mão foi a sensação de que talvez ele não
tivesse muito tempo ali, que não seguiria acompanhando o evoluir da sabedoria naquela
comunidade. Se fosse como ele vislumbrava, talvez tivesse que tomar decisões vitais
depois mesmo daquela noite. Mas não pode deixar de considerar que talvez tivesse

172
mesmo que permanecer na órbita de Belatrix, caso levasse adiante a necessidade de ter
que de alguma forma proteger a vida dela.

Aqueles momentos no jardim do Matrimônio, ele pode perceber que mesmo no


ambiente das idéias que desenvolviam, haviam belas flores, mas os espinhos estavam lá.
Havia farpas que só ele sabia, e havia as que ele mesmo distinguiam no horizonte de
suas vidas e de sua fé.

Ninguém ali teve uma vida fácil, como ele reconhecera nas conversas que tivera com
muitos, mas todos entretanto estavam sendo atraídos por uma mulher que era límpida no
que propunha para eles, fora o que Belatrix mesmo disse quando lhes falou que teriam
“que fazer coisas sérias sem perder o carinho no coração”. O que significaria
exatamente aquilo? Para ele só podia ser aceitar os fatos, aceitar e olhar o mundo como
era realmente, o Tempo porque passavam, só reconhecendo isso se poderia ultrapassá-lo
conduzindo para o outro lado a luz interior acesa.

O mago sabia que devia ficar ali para compreender. Mas não era nem sequer dono de
seu próprio corpo, quanto mais senhor do destino de estar ali naqueles momentos. Ele
era um extraviado, e agora era cooptado pelas palavras daquela maravilhosa mulher, em
todos os sentidos.

Que o êxtase ayahuaski da noite que se aproximava trouxesse um pouco de


esclarecimento, afinal, em seu próprio mundo galgava uma época diferente, que poderia
de uma hora para outra, piorar ainda mais.

23 - A sombra que te ilumina

As pessoas crêem em progresso. Sim, elas são devotas do progresso. Elas colocam
suas vidas nas mãos do progresso e instalam sua idéia em bandeiras e se fascinam todas
as noites em suas casas entretidas pelos nuances mais banais do desenvolvimento.

Mas será que as pessoas deste mundo crêem em evolução? Bogomil refletia sobre isso
sentado em uma cadeira perto do fogo que cozinhava cipó e folhas de chacrona em
caldeirões surrados. Afinal, evolução em certa época foi um conceito herege aqui.
Tendo estes pensamentos o mago percebeu o quanto mudara naqueles poucos dias que
estava nesta realidade.

Ele mudou de corpo, mudou a forma como via a realidade, depois acrescentou ao seu
saber informações que nunca tivera acesso antes, nunca cogitara, e disso tirou uma
opinião de todo um mundo, agora mudava sua forma de pensar novamente, mediante
poucas conversas que teve com uma mulher especial.

Assim ele acreditava em evolução, estava tendo uma experiência intensa de evolução
naqueles dias, e principalmente nas últimas horas desde que conheceu Belatrix. Toda

173
sua concepção de mundo e mundos e de realidade e realidades se transformou, evoluiu
forçosamente, mas evoluiu ascendentemente.

Ele acreditava em progresso por que conhecera este mundo, conhecera sua história e
dos homens e mulheres que caminham sobre este mundo. E ele observou que muitas
vezes progresso significa retrocesso. Mas ele acreditava muito mais em evolução. Mas
será que o povo deste mundo acreditava mesmo?

Afinal, ali na sua frente está sendo preparado da forma mais arcaica o possível uma
sofisticada substância que não teria outra explicação de existir se não se acreditasse em
que algo evolutivo tenha acontecido aos seres humanos para chegarem ao ponto de fazer
tal bebida e de querer bebê-la.

Pensar assim levava-o a muitas conclusões sobre a questão entre progresso e


evolução. Ele poderia pensar que progresso é algo que flui passivamente e linearmente,
enquanto evolução necessita um objetivo predefinido. Poderia dizer que progresso leva
a estagnação do “ao infinito”, como no caso do sistema que Belatrix se referiu como
parte da crença em sua eterna auto-reinvenção e evolução exigia um ponto convergente
onde uma espécie de novidade deveria surgir no cenário para sua consecução. O
progresso gerava crise e assim decaia. A evolução gerava misteriosos paradigmas, e
assim ascendia.

Bogomil chegara ao ponto da questão que diferenciava os crentes no progresso dos


visionários da evolução, era uma questão de como se concebia o próprio conceito
internalizado de tempo. O progresso lidava com um conceito de tempo linear, a
evolução lidava com um conceito de tempo cíclico. Assim os crentes do progresso
perseguiam no tempo linear em sua busca sem fim pela realização dos desejos do ego,
enquanto os visionários da evolução observavam o ponto no tempo cíclico onde o ego
finalmente iria ser amortizado em sua busca insaciável.

O progresso usava cada vez mais da tecnologia e necessitaria sempre da luz fria da
eletricidade para avançar, inventando mercadorias de consumo para dar ao ego o
entretenimento requerido para sua eterna fome existencial. Enquanto a evolução era
galgada nas sombras da não-querência, convulsionando o egoísmo na penumbra da alma
humana e dali, daquele estofo escuro, emergia um novo tipo de existência para
assombrar os seres humanos.

Havia, pois neste mundo, e talvez em qualquer mundo paralelo, duas formas diferente
de consciência, cada uma voltada para seu centro temporal. Ocidente e Oriente talvez
aqui dividiam polarmente estas visões de tempo, mas nesse estágio da história humana
já houve suficiente permutação entre as idéias para que se dispusesse dentro do espaço
físico do mundo pessoas, consciências, que conviviam entre si com estas mentalidades
diferentes.

Desta forma então, as pessoas em sua maioria desta parte do mundo não seriam
mesmo muito simpáticas à evolução temporal, pois ela é estranha ao próprio conceito de

174
vida moderna, a evolução seria para a maioria dos ocidentais como um raio que
cruzasse o céu de leste a oeste caindo nos pára-raios dos altos edifícios, a evolução é
como um ladrão que vêm na calada da noite e as pessoas já trancaram a casa com seus
sistemas eletrônicos de segurança.

Progresso seria um homem que expulsa todos os demônios para porcos que se lançam
em abismos e evolução seria um menino indolente que fugiu dos pais e debate com
anciãos na sinagoga.

Enquanto a noite caia o mago ia pensando nessas coisas. Os contrastes feitos notar por
Belatrix entre evolução e progresso era de uma profundidade tal que ele ficava cada vez
mais fascinado e ardia em vontade de poder debater com ela novamente, mas já havia
passado a hora da janta e agora todos se recolhiam no salão onde o preparo continuava,
e ali dentro o ambiente era de respeitoso silêncio, pois se evitava qualquer agitação
desnecessária perto da ayahuasca que está sendo produzida.

Desta forma Bogomil aproveitava aquele ambiente especial para filosofar, como se
sorvesse para dentro de seu corpo a sacralidade daquele lugar.

Volvendo suas próprias sombras existenciais para o pensamento, ele aguardava o


momento de comungar a ayahuasca e finalmente estar com a Grande Sombra
novamente.

Mas enquanto não chegava aquele momento, ele ia meditando que as pessoas
acreditavam tacitamente em progresso, mas por outro lado eles tinham forte consigo a
premissa da criação, a criação com “C” maior, Criação Divina, e apesar de que se crer
em criação não descartasse a possibilidade posterior da evolução, dentro desse sistema
de pensamento a evolução toma notoriedade de inferioridade.

Era aquele mesmo entendimento que logo Bogomil tivera antes, de que neste mundo
tudo se torna questão religiosa, e assim, em vista de um olhar religioso, a evolução era
uma quimera que espalhava símios semelhantes pelo caminho, fazendo isso a serviço do
diabo. Quando não denegrida assim, os adeptos da criação subjugavam a evolução para
a lista de mitos e lendas atéias, sendo da mesma forma má, para o rol da ciência comum
e profana.

Assim, na superfície do pensamento desta humanidade pairava a sedução irrefutável


do progresso, mas os conceitos evolucionários decaiam para as sombras assombradas
pelos fantasmas da alma.

Dessa forma, e é o que Bogomil gostaria saber de Belatrix a opinião, como a verdade
do fato de uma evolução acudir a consciência seria vista por toda esta humanidade. O
que será que os seres humanos pensariam? O que eles farão com uma “coisa” que de
repente assaltasse sua consciência conclamando algo da esfera do imponderável por
parte da maioria?

175
Belatrix poderia lhe iluminar nessas questões, mas o mago sabia que antes de isso ser
possível ele iria mergulhar ao encontro da luz negra da Grande Sombra.

“Quantos pensamentos, quantas questões...”, Bogomil exasperava-se constatando. Ele


nunca estivera tão distante de seu próprio mundo e de Bel. Os longos momentos sem
pensar nela faziam com que quando finalmente pensava ele sentisse que ela estava
compartilhando de todas aquelas suas idéias. O que ela pensaria daquilo? “Ah! Como
seria bom trocar idéias a respeito dessas coisas com ela...”, ele divagava
romanticamente.

A fiel e decidida Bel. A direta e contundente princesinha inquieta. “Puxa! Ela está
envolvida sim nisso tudo!”, tomou ciência o mago, já que a Grande Sombra havia a
citado. Bel estava envolvida intrinsecamente no cerne daquela trama toda, e Bogomil
prescindia de pensar o quanto ela era a responsável por aquilo tudo.

O que passava na qualquer coisa parecida como consciência daquela Sombra?


Bogomil clamava para seu Verdadeiro Deus uma resposta, e se pegou também levando
as coisas para o lado religioso. Riu de si e procurou esclarecer para si mesmo que a
forma de alguém de sua realidade pensar em religiosidade era diferente das pessoas
desta realidade, pelo menos ele achava.

Ele via em sua crença gnóstica um ponto evolucionário à frente das pessoas religiosas
deste mundo, já que ele partia da premissa que a criação era obra de um ser vil, que o
progresso era sua forma de manipular e estabelecer seu poder, e a evolução da
consciência era uma rebelião em andamento no seio de sua criação e uma crítica do
parco progresso que se desenvolvia em seu mundo ainda.

Talvez a fé gnóstica de seu mundo tenha retardado o progresso, mas vendo assim ele
tinha que concordar que ela também não deixou acontecer em sua cultura muitos fatores
de ajuda na vida cotidiana. Querendo fazer graça ele pensou que, por exemplo, eles não
tinham televisão ou computadores para ajudá-los a enfrentar as calamidades da vida,
eles não tinham os antibióticos ou os óculos de sol, e nem rios poluídos por nada mais
além de detritos de privadas. Em sua realidade a ciência era tida como sagrada, e isso
lhes permitia desenvolver uma visão de seu lugar no mundo onde o espiritual se
misturava ao material, só por isso ainda era possível crer que um feitiço poderia ser
eficaz na condenação de um criminoso.

Mas isso estava muito distante do mago agora, e por quanto tempo ainda estaria assim?
Bogomil entendia que podia falar para aquelas pessoas ali sobre sua visão de mundo, a
visão de um homem de outra realidade onde a magia das coisas ainda sobrevivia, mas
ele tinha decidido em não ensinar, em não falar, em não intervir. As coisas neste mundo
já iam como deveriam caminhar, e não precisavam de um ponto dissonante no palco das
coisas. Ali, a consciência de Bogomil era só uma alucinação dissonante no seio da
realidade, só isso, e para findar tal tipo de ilusão, ele precisava se entregar ao desvário
paradoxo de calar-se.

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Belatrix havia entrado no salão e Bogomil viu que chegara a hora, então deu um fim
naquela sequência de sua reflexão decidindo que o seu mundo tinha enfim o progresso
que desenvolvera até agora, e que a magia não era a responsável por qualquer atraso,
afinal ele tinha a posição privilegiada de comparar duas realidades um pouco distintas,
mesmo que em muitas coisas elas se interligavam.

Não era culpa de ninguém vivo se em seu mundo eles se voltaram para a crença da
evolução como um fator necessário da consciência para se observar a beleza das coisas,
e neste mundo as pessoas que no passado fizeram isso foram massacradas em cruzadas e
queimadas em fogueiras. Talvez fosse a esse fator humano que Belatrix disse que
deveria sobreviver, afinal, os mundos são mesmo as pessoas que nele habitam.

24 - A sombra que te acorda

Belatrix caminhava na direção de Bogomil com um grande copo cheio de ayahuasca.


Todo o corpo dele progrediu em tremor de repulsa antecipada, sua mente se exaltava
pela ânsia de iluminação. Assim tomou o copo da mão da sacerdotisa e o bebeu
matando sua sede de evolução das coisas. Faça-se luz finalmente!

Tomou o baque do corpo e sentou-se novamente, esperando a certeira expansão.


Esperaria um pouco e depois tinha um mantra inconcebível para recitar. Esperou.

Quando os insetos mecanizados chegaram, frutos da evolução dos astrais, ele saldou o
seu zunido característico como quem saldasse a chegada da tempestade. Que venha o
som das sombras!

Um enorme beija-flor revoava e zunia sobre o salão, indo longe e voltando.

Alguém pusera uma música para tocar e a mente de Bogomil embarcou em seu som e
letra:

“Bom dia dia dia... Mister Eco eco eco... Como você está hoje hoje hoje... Bom dia
dia dia... Mister Eco eco eco...Você não vai aliviar as minhas preocupações ações
ações ações... ”4.

Bogomil viu as notas musicais se materializando, um fio dourado se contorcendo em


forma de Clave de Sol, e a voz da cantora tornava-se vibrações materializadas como
bolhas disformes no espaço, a voz tinha a cor do eco.

“Sempre que eu tenho problemas... Eu sei exatamente o que fazer... Eles desaparecem
como uma bolha... Se eu contar uma novidade... Bom dia dia dia...”

4
Tradução livre da letra da música “Mister Echo”, de Bill e Belinda Putman.

177
Ali em meio ao brando torvelinho sonoro ele percebeu a luz serena chegando,
dançando bruxuliante como sempre acontecia quando comungava ayahuasca ou o
bahedariox de seu mundo. Era a deixa para ele firmar a mente e conclamar em eco a
Grande Sombra.

“Eu costumava pensar que alguém... Poderia resolver os meus problemas também...
Mas agora ele se foi e eu estou sozinho... Então eu volto para você... Bom dia dia dia...
Mister Eco eco eco...”

Não sem esforço ele mentalizou: Sondaraksondaraksondaraksondaraksondarak...,


deixando o som vibrar sutilmente em sua garganta causando um zunido recíproco ao
inseto que revoava sobre todo o salão acima de sua cabeça, bem acima, no astral.

sondaraksondaraksondaraksondaraksondaraksondaraksondaraksondaraksondaraksond...

“Então, quando eu estou me sentindo solitário... Tão solitário quanto posso ser...
Apelo ao Mister Eco... Porque ele sempre fala comigo... Bom dia dia dia...

Uma paisagem onírica se desvencilhou na frente de seus “olhos” que miravam


alucinadamente. Ela convergia nos sons da música, do zunido do beija-flor astral e no
ronronar da garganta de Bogomil, chão, céu e paisagem astral.

daraksondaraksondaraksondaraksondaraksondaraksondaraksondaraksondaraksondara...

Bogomil via-se em um lugar que parecia uma mata fechada, mas ele não conseguia
ver as árvores acima, ele só via as suas sombras projetadas no solo cheio de folhas
secas. As sombras moviam-se, balançando para frente e para trás, como se um vento
movesse os galhos das árvores que uma luz as iluminasse acima. Assim, Bogomil ia
saltado de sombra em sombra, saltando quando via que seus pés tocariam a parte
iluminado do chão. Ele era um saltador das sombras, como um vampiro fugindo sol
debaixo de uma mata em um vendaval.

ksondaraksondaraksondaraksondaraksondaraksondaraksondaraksondaraksondarakson...

Em um momento então ele parara de saltar e a visão em sua mente era só das sombras
das árvores embaladas pelo vento calmo, o mundo inteiro parecia o chão de uma mata
onde as sombras soluçavam um balanço preso a um determinado local.

daraksondaraksondaraksondaraksondaraksondaraksondaraksondaraksondaraksondara...

Assim que ele se acostumou com aquele embalar penumbroso, já gostando daquele
tom de luz e do silencioso farfalhoso do local, ele percebeu que se fosse como uma
daquelas árvores que projetavam sua sombra no chão começasse a caminhar. A sombra
criou vida e soergueu-se de seu mundo bidimensional ganhando volume.

ksondaraksondaraksondaraksondaraksondaraksondaraksondaraksondaraksondarakson...

Na frente de si o mago tinha agora um ser sombra, um espectro indefinido. Sondarak


chegara!
178
“Ouça mago de dois mundos! E apenas ouça, pois sei de todas as suas duvidas, e
apesar de no dia eu não o ter visto em suas agruras de pensamento, eu ouvi pelo
profundo escuro da inconsciência no qual todos os seres estão ligados! Precioso é o
tempo em que se abre a fresta da evolução na consciência. Na eternidade um instante
não difere de bilhões de anos, mas na finitude o que há de mais valor é a atenção no
instante da iluminação. Nosso tempo é pouco, pois a fração de junta que nos
aproxima é da natureza de um disseminar dissoluto. Encontra, pois, mago, sempre o
infinito no finito. Saiba e entenda que não cometerás mal definitivo contra nenhuma
vida, deves zelar por Belatrix através da vida e de Belatrix, eis uma palavra que
aprenderá a compreender. O perigo para Belatrix vem deste seu corpo, senão não lhe
poríamos no lugar onde está. Assim lidamos diretamente com a situação do perigo
que aflige contra ela. Abra todas as portas deste corpo e entenderá. Nós mesmo
Observadores participamos de um jogo em teremos nossas recompensas. Ao raiar a
nova Idade, nós poderemos optar pelo descanso, porque somos as sombras desta
própria Idade escura. Nós somos um eco antecipado em consciência de um mundo
novo e nós também evoluímos. Somos um eco que forma o som de uma palavra, não o
som de uma palavra que produz eco, somos um repetido som que se torna dito. Da
mesma forma que é necessário uma grande crise para que uma mentira se torne
necessária, assim é como a palavra que falamos, antes vem uma grande ilusão
rondando a mente, até que se possa pensar uma novidade real. Mas isso é para o
sombreio da próxima vez que nos encontrarmos, quando você, mago, decidir. Ali te
contarei da palavra que os ecos sustém, lá te darei o acesso a teu mundo de volta, mas
antes deverá julgar tua própria carne e salvar Belatrix de seu perigo. Só depois de ter
realizado isso volte a me chamar em mantra com a consciência expandida. Só então
poderás retornar. Tudo o mais que precisa saber tua intuição expandida lhe revelará,
não desconfie da mente que se abriu à evolução, assim chegarás ao progresso e nele
criará o fim de tudo. Por isso as coisas circulam em degeneração e elevação, por isso
se vai do oitavo ao nono, e dali ao décimo. O décimo primeiro no eixo te esperará no
dia e no lugar que me tornar a chamar. Agora, sonhe até acordar!”

As sombras das árvores então se espalharam em de pedaços de sombra como se um


vendaval carregasse para frente do sol sereno um mar de pequenas folhas em revoada.
Vuu vuuu vuuuuuu... Sombras esvoaçam... granuladas pela paisagem...

25 - O julgamento de toda carne

Bogomil abriu os olhos e enxergou o salão ultra-iluminado pela luz do fogo do


preparo. Ele tinha todo o corpo eletrizado e o zunido ainda agitava acima de sua cabeça,
ora a esquerda, ora a direita, nas suas costas. O efeito da ayahuasca era forte e nessa
embriaguez ele pensou com sentimento infantil que aquelas Sombras Volventes nunca
lhe permitia fazer qualquer pergunta, mas por outro lado sempre respondia tudo. “Como
pode? Como pode? Como podia? Como poderá?” Seus pensamentos ecoavam em
estâncias verbais diferentes demonstrando a grande confusão e esclarecimento que ele

179
estava. “Como pode tanta sombra fazer ver? Como pode tanta luz cegar? Como pode
tanta luz serena ...”, alucinava.

Então ele fechou os olhos novamente e logo as mirações retornaram, ele devia sonhar
com elas.

Viu-se em um largo recinto circular, um túnel vertical com paredes de um vermelho


escuro com ranhuras paralelas orbiculares em volta dele. Ele flutuava no centro do
túnel. Então ele caiu, ia descendo naquele túnel, ou o túnel movia-se para cima
ganhando um afunilamento acima de sua cabeça.

Quando parou a noção de movimento Bogomil se viu diante de uma grade em forma
de arco na parede. Ali dentro daquela cela tinha alguma coisa. Ele deu um passo rumo à
grade e pode ver que um homem estava sentado no chão, recostado na parede do
cárcere, seu corpo cuja cabeça pendia sobre os joelhos das pernas que abraçava formava
um perfeito ampersand, um “& humano”.

Bogomil viu que tudo se iluminava, então aquele homem levantou a cabeça e olhou
em sua direção, era o próprio Bogomil, ele percebeu. Não, não era! Ele se confundira
dentro de uma miração. Aquele era Ariel Bogari!

“O que devo fazer com você?”, perguntou Bogomil a Ariel dentro da miração que
tinha.

“O que devo fazer com você?”, perguntou Ariel a Bogomil dentro da miração que
tinha.

Era um eco pronunciado diante de um espelho. Bogomil aguardava que o espelho se


quebrasse, mas não quebrou, a ayahuasca agia tão forte que não permitia qualquer
emanação da imaginação, ali eles estavam na dimensão astral e não no mundo dos
sonhos. Como se chama um sonho que não é sonho? Realidade!

De frente um para o outro, Bogomil & Ariel, como de frente a um espelho, se


compenetraram. Ali um ser feito só de costas estava, de nenhum dos lados de seu corpo
se via uma face, apenas nuca, cacunda, costado, nádegas, panturrilhas e calcanhares.

Bogomil olhava dentro de Ariel. Seus pensamentos, sentimentos, pulsões, eram


nuvens esféricas em volta. Seus sentimentos dos últimos dias foram mais alucinantes do
que uma dose de ayahuasca, ele estava preso em um lugar estranho, dormia sonhando
que dormia sonhando. Depois vieram lianas de luz os remexer, foi quando Bogomil
bebera ayahuasca e os efeitos do iluminógeno chegaram até Ariel, afinal aquele era seu
corpo, então ele acordara em uma consciência ciente de suas amarras ali no fundo de si
mesmo.

Ele passara aqueles dias vendo e ouvindo o que Bogomil via e ouvia, como se fosse
uma alucinação.

180
O mago então olhou para outra nuvem esférica daquelas ali, a que seria as memórias
pessoais de Ariel. Ali seus sentimentos afluíram, solidão e ressentimento vieram em
primeiro lugar. Depois paixão e erotismo. Bogomil viu as lembranças de Ariel onde
estavam Belatrix, a forma de seu corpo nu, tendo relação sexuais com diversos homens,
tudo aquilo era de filmes e revistas que Ariel tinha visto, ele contorcia-se
masturbatoriamente em prazer por ela, ele a amava de sua forma, da única forma que
viu possível de tê-la.

Bogomil pode ver então o tanto de energia e tempo que Ariel dedicara a Belatrix, sua
musa, sua deusa, ela era o centro para onde convergia o sentido de tempo de Ariel. Ali
ele via que ela havia criado as pulsões de Ariel rumo àquela espiritualidade que o
aproximava dela, fantasiando beber ayahuasca para um dia então podê-la encontrar de
fato. Ela era uma sombra na vida de Ariel. Ele se encontrava em estado doentio por ela.

Se Bel era um livro para Bogomil, Belatrix era uma revista erótica para Ariel.

Ele pode ver como Ariel rasgara muitas revistas onde ela aparecia. Como nutria uma
mistura de amor e ódio por aquela atriz. Eternamente exilado de sua presença e tão perto
a ponto de poder usufruir de seus ensinamentos espirituais. Ariel queria sexo, não
filosofia. Ele queria prazer, não amor incondicional.

“Sou bem vindo à matilha Bogomil?”, ele assustara o mago perguntando com um tom
mórbido na voz. Bogomil teve que firmar a mente para não entrar em uma luta
selvagem de lobos com o outro. Os rosnados ecoavam por entre as nuvens do
pensamento de Ariel. Ele pode ver o lobo Ariel adentrando em sua própria mente
correndo rumo a uma Bel deitada na grama, em seu caminho havia apenas uma pequena
gata negra defendendo a princesa da aproximação da fera.

A miração se esvoaçou em asas de borboletas destroçadas em uma multicolorida


mandala estereoscópica.

“Eu te mato sua besta!”, gritou Bogomil dentro de sua cabeça, dentro da cabeça de
Ariel. E as nuvens esféricas da consciência de Ariel relampejaram.

Ele era louco, demente, doente, Bogomil podia ver. Ariel era um perigo a vida de
Belatrix.

Você é louco, demente, doente, Ariel confirmara em troca. Bogomil é um perigo a


vida de Bel.

Não, nós somos diferentes! Dizia Bogomil, mais implorando por ser verdade do que
com certeza disso.

Ariel ria irônico hilariantemente. “Que opções você deu a ela seu monstro!”, dizia
reverberantemente, julgando Bogomil, “Um amor por gratidão ou um frasco de
veneno?!”

181
“E você?” Bogomil julgava Ariel, “Um amor mórbido ou o interesse por ayahuasca,
que beberia só para estar perto dela!”

“Por sua causa estou preso aqui!” disse um e o outro falou a mesma coisa. Não
importa quem primeiro. Mas foi Bogomil que disse: “E só vai piorar!”, ou fora Ariel
quem dissera? Não importava.

Na miração começaram a se separar, como duas massas que se despregam uma da


outra elasticamente. Olharam-se nos olhos. Havia raiva e cansaço ali.

No instante seguinte que se encararam cada um partiu para um lado, deseperadamente


se jogaram a parede do fosso rubro que estavam no fundo tentando escalar a parede para
saírem dali. Estavam correndo desesperadamente para chegar à superfície para tomar
controle daquele corpo enfim. Com a simbiose anterior, agora Ariel sabia muita coisa de
Bogomil também, e tinha que tomar de volta seu corpo e a tela da mente.

Os dois corriam como lobos raivosos em direção a uma presa na boca do fosso...

Lá em cima, sentado na sua cadeira, Bogomil pode perceber que o efeito da ayahuasca
estava passando, já era só um sombreio, e agora em sua mente ele e Ariel lutavam
calados pelo controle daquele corpo. Ele conseguira sair de sua prisão astral que
Bogomil o aprisionara, soltara-se e se não fizesse algo logo estaria ali naquele salão
dentro da noite onde preparavam ayahuasca.

Ele emergiria e sabe-se lá que atitude tomaria, que loucura ele não estaria disposto a
fazer quando se desse conta de estar ali, e o que os outros poderiam fazer ao achar que o
seu querido recém chegado visitante estava surtando no meio de todos. O que Ubaldo
seria capaz em uma situação dessas, de um louco avançando suas mãos para cima de
Belatrix em desejo de realizar fantasias sexuais, tão ali ao seu alcance. Uma bobeira, um
vacilo, e a comunidade estaria esfacelada, acometida pelos olhares exteriores que
veriam que ali não acontecera um acidente ou uma contenda, mas um crime, de uma
pessoa ou outra assassinada ou espancada em meio ao uso de “drogas”. Esses
pensamentos rápidos passavam pela mente de Bogomil enquanto lutava para manter o
controle do corpo de Ariel.

Como que automaticamente Bogomil saltou da cadeira onde passara as últimas horas
em êxtase ayahuaski e fora correndo para fora do salão, rumo à mata ali perto. Ninguém
dentro do salão se incomodou com aquele ato brusco, todos pensavam que faziam idéia
do que estava acontecendo com o convidado.

E foi o que se confirmaria se tivessem ficado o observando. Bogomil logo que venceu
os poucos passos que separava o salão da árvore mais próxima, se apoiou no tronco
dela, pendeu a cabeça para baixo, longe do corpo, e vomitou copiosamente.

Vomitou uma, duas, três vezes. No ato de vomitar sua cabeça girava e os efeitos da
bebida cresciam como uma pancada de cada vez. Uma, duas, três vezes.

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Ele olhou para o local onde seu vômito caiu e alucinou ver ali algo de Ariel. Nisso ele
soube que vencera a investida de Ariel de tomar de volta o controle de seu corpo. Mas
até quando?

Bogomil viu então que devia tomar providências rápidas. Voltando para o salão,
trôpego e nauseado pelo sabor amargo na boca, ele já conjeturava suas providência.
Teria que partir imediatamente. Longe da comunidade, deveria pensar no que fazer
sobre a questão que então se iluminara para ele.

Ariel era o verdadeiro perigo a integridade de Belatrix, ele nutria sentimentos radicais
para com ela. Para Ariel Belatrix seria sempre a prostituta que ele cobiçava, ele só a
concebia assim, e o fato dela ser uma líder espiritual queria dizer a Ariel que era
inconcebível que ela existisse assim. Ele sentia que ela, depois de tê-lo seduzido e feito
escravo do poderoso julgo erótico feminino, agora se punha na posição inalcançável de
uma santa, e isso era pior ainda, pois continuava bela e formosa, esfregando em sua cara
o fato de ser mais inalcançável ainda, e aquilo era para Ariel a tortura definitiva a ser
vingada.

Por isso era imprescindível Bogomil partir, para conjecturar o que fazer a respeito
desta situação. No salão ele consultou as horas com um irmão que estava acordado, era
exatamente a meia-noite do domingo para a segunda-feira.

Pensando em como comunicar que devia partir imediatamente, Bogomil viu que seria
prudente ir falar com Ubaldo, afinal, ele devia até mesmo desculpas àquele homem que
julgara ser um assassino em potencial.

Ubaldo estava em volta dos caldeirões borbulhantes. Bogomil aproximou-se tímido,


como devia se portar um animal que queria desesperadamente comunicar que iria como
que fugir.

- Ubaldo! -chamou baixo. - Deixe eu lhe falar. - o outro se virou, como se desperto de
um sono. Olhou Bogomil ali cara a cara com ele, e esperou ele falar. - Eu preciso ir
embora. Tenho... compromissos de manhã. - falou, inventando uma desculpa.

O homem olhou para Bogomil com indiferença, mas este não pode deixar de imaginar
que um desprezo corria na face dele.

Ubaldo só aquiesceu com a cabeça, fazendo menção física que entendia os motivos de
Bogomil. Ele com certeza acreditava ser melhor que ele se fosse logo. Ele podia sentir
que talvez o baque da cena e do vômito de Bogomil tinha tirado, como era comum
nessas ocasiões, o ânimo de Bogomil em relação à ayahuasca naqueles momentos.

Vendo que Ubaldo não emitiria mais qualquer interpelação, Bogomil se levantou,
deixando-lhe ali com sua indiferença. Já havia lhe prestado qualquer consideração
possível. Agora ele torcia para não cruzar com Belatrix na missão nada fácil de chegar
até a saída da chácara da comunidade sem ter que prestar mais a qualquer explicação
que realmente devia prestar, já que fora recebi ali em calorosa confiança.

183
Enquanto subia pelo caminho que levava a casa na entrada, ele pode perceber as luzes
acesas ali. Na grande varanda que fazia às vezes de refeitório e ponto de encontro dos
desocupados de tarefas, ele pode ver que havia pessoas. Enfim, devia falar com elas.

Ali encontrou Ednael, de quem se sentia próximo.

- Irmão, eu tenho que ir, preciso trabalhar amanhã cedo. - lhe disse Bogomil.

Ednael achou totalmente normal as palavras dele, entendendo sua posição, mas pedia
que ficasse até mais cedo, pois aí alguém que fosse à cidade poderia o levar.

Bogomil estava desconcertado por aquela situação, mas mentiu a Ednael dizendo que
não precisava ele se preocupar com isso, que ele com certeza conseguiria carona na
estrada de volta à cidade. O outro desconfiava da confiança de Bogomil. Ele se
perguntava o que estava se passando.

- Mas me diga irmão Bogomil, conseguiu suas respostas? - perguntou para a surpresa
do mago, surpresa não, incomodo, pois afinal Bogomil tinha noção que ambos sabiam o
que Ednael tinha passado a ele e este devia imaginar a jornada ayahuaski que Bogomil
se propôs.

- Todas! - disse Bogomil esboçando um sorriso que pudesse demonstrar sua gratidão a
Ednael.

- Que bom, que bom! - disse satisfeito em participar daquilo, e tornou como se fosse
sua obrigação também. - Quer que eu chame a mestra Belatrix?

- Não! - quase gritou Bogomil. - Não a perturbe, deve estar dormindo. Amanhã
depois do serviço eu ligo, entro em contato para saber quando devo voltar. - falou
demonstrando complacência e deixando o desejo de ter as portas abertas.

- Faça isso, mas você sabe que pode voltar quando quiser, sem avisar. - disse-lhe
Ednael, denotando que agora ele já fazia parte da comunidade se quisesse.

Bogomil agradeceu e se pôs indolentemente a andar rumo à saída. Precisava partir


antes que outra coisa o atrasasse, mais uma conversa, ou o inconveniente de ter que
explicar a mais alguém suas necessidades.

Na estrada, já fora da chácara, Bogomil enfim se sentiu livre consigo mesmo. Tinha
muita coisa a pensar e voltar andando para a cidade que ficava a uns seis ou sete
quilômetros era uma oportunidade preciosa.

Mas ao se afastar uns trezentos metros da entrada da chácara do Matrimônio Espiritual


ele ouviu uma voz lhe chamando. Era Belatrix.

Ela caminhava em sua direção dentro da noite, com seu vestido branco esvoaçando
junto a seus cabelos negros soltos ao vento da madrugada, segurava algo nas mãos que
Bogomil não destingiu até ela estar ao seu lado.

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- Irmão Bogomil, espere! - ela dizia. - É pena que tenha que ir agora, mas leve esta
garrafa de hoasca, para durante a semana poder meditar.

Bogomil agradeceu profundamente a providência dela. Ele iria precisar realmente


beber o enteógeno na próxima vez que tivesse que encontrar com Sondarak, depois de
ter dado resolução nas questões que a Grande Sombra tinha lhe incumbido.

- Obrigado Belatrix, minha mestra! - viu-se na liberdade de dizer assim para ela, na
coragem que o falso isolamento da noite lhe proporcionava ali.

Ela sorriu.

- Seja seu próprio mestre irmão! E assim que quiser, entre em contato e podemos
conversar sobre suas experiências de ontem e hoje aqui.

- Vamos fazer isso sim Belatrix, me deixa só por minhas idéias no devido lugar.

- Isso! Não parta sem fazer isso. - ela disse e aquele dito encheu a noite de um
mistério inefável, ele sentia como se falassem da verdadeira realidade que Bogomil
entendia.

Como ele poderia saber do grau de consciência e intuição que Belatrix poderia ter de
toda sua situação. Ele achou melhor deixar as coisas no ar, daquela forma mágica como
ela pusera. Era a mesma cumplicidade que ele sentira com o mestre Raimundo antes, a
cumplicidade dos que estão em evolução, olhando não o progresso das coisas
individuais, mas a poesia do entrelaçar da realidade.

- Vá com Deus Bogomil, que Ele una em ti o que precisa ser unido, e desfaça o que
precisa ser desfeito. Que você ache seu caminho de volta pra casa! - disse ela e
imediatamente começos a andar de volta para a chácara.

Bogomil ainda a observou alguns instantes de costa. Estava maravilhado com suas
palavras e lágrimas começaram a correr de seus olhos, mas também sentiu-se grato por
vê-la se afastando do perigo que podia avançar sobre sua vida, ele mesmo, ou melhor,
aquele nó ali dentro deste próprio corpo. Partiu também.

26 - A noite escura do corpo

Bogomil caminhava só no meio da noite escura. Desde que partira da chácara do


Matrimonio Espiritual ele vinha pensando sobre a situação que enfrentava. E tinha
muitos quilômetros noite adentro para chegar a uma solução.

Bogomil não caminhava só na borda da noite clara. Desde que chegara à chácara do
Matrimônio Espiritual ele teve as respostas sobre a situação que enfrentava. Agora tinha
muitas horas noite afora para chegar a um consenso do que fazer com essas verdades.

185
No sombreio póstumo da ayahuasca a noite parecia ainda algo especial. Estrelas
tinham riscado entre suas distâncias caminhos retos curvados que as ligavam entre si.
Como se conversassem entre si através de uma língua de luz interestelar.

Cada passo de Bogomil na estrada produzia um som de inevitabilidade. Depois de


andar meia hora ele chamou para cima Ariel, e o homem deste mundo emergiu
causando uma longa aspiração, como se tivesse saído de uma água profunda onde se
afogava. Enquanto andava ele remexia os braços e olhava as próprias mãos como se
fossem uma novidade.

E Bogomil mergulhou, foi sondar os espaços internos da mente sem as amarras de um


corpo. Voou rápido sobre a cabeça de Ariel na estrada escuro, ele podia quase tocar as
estrelas e seus fios verbais. Bogomil era uma consciência livre de um corpo.

Ariel sentindo-se vivo novamente disparou correndo pela estrada, como uma criança
que andava pela primeira vez, ele experimentou a forças de suas pernas em uma
disparada.

Depois de alguns minutos Bogomil desceu de novo ao corpo de Ariel. Entrou como
um intenso arrepio que Ariel sentiu como o sinal que estava sendo invadido de novo.
Parou de correr, agora simplesmente andava, e nem sabia se era ele o outro que andava.

- Temos que conversar Ariel Bogari!

- Eu sei tudo que você sabe nesses últimos dias Bogomil. Você quase me
enlouqueceu, você possuiu meu corpo, possuiu minhas memórias, você me aprisionou
em um inferno de isolação, e agora quer conversar?

- Eu estava perdido, não sabia o que fazer, e as situações foram surgindo. O que você
faria diferente?

Ariel ficou calado então naquela conversa que ocorria dentro de sua cabeça.

- O que você quer agora? - por fim perguntou Ariel, não tendo resposta para pergunta
anterior de Bogomil, ele resignou-se e deu seguimento a conversa.

- Se você sabe tudo que sei então você sabe o que a Grande Sombra nos revelou.

- Sei que aquele ser tenebroso me vê como um perigo para Belatrix. Mas eu não! Eu
não sou um assassino!

Ariel estava perplexo com o que Sondarak revelara, Bogomil podia sentir isso em seu
pensamento.

- Eu nunca mataria ninguém, muito menos Belatrix. Eu só sou... só sou fascinado por
ela. Eu tenho a seguido à distância, mas nunca me aproximei, foi você que me levou até
lá.

- Você tem sentimentos distorcidos e dúbios sobre ela.

186
Ariel reconhecia o que Bogomil dizia, mesmo não admitindo ser um fanático, ele
entendia a preocupação do mago.

- Agora, depois desse fim de semana, Belatrix se aproximará de você Ariel, ela confia
neste corpo e nesta personalidade que eu... eu mostrei a ela.

- Hã! E o que você quer que eu faça agora? Não será culpa minha se ela se aproximar,
vir até onde este corpo está!

- Eu sei! Eu sei!

Bogomil tinha plena consciência da situação também.

- Se Sondarak disse, é porque ele sabe que você é um perigo real à vida dela. - disse
lhe Bogomil.

- Não! Eu não sou um assassino!

- Você tem que se afastar de Belatrix Ariel!

Então ele fez Ariel entender que fatos inconsequentes podiam acontecer. Acidentes
aconteciam em momentos de vacilo, coisas irreversíveis só dependiam de um ato de
certeza de controle, aí já é tarde. Até mesmo a influência em terceiros, como do
ciumento Ubaldo poderia causar danos irreversíveis. Não era Belatrix em si que correria
perigo, mas o fato de ela ser a portadora de uma mensagem que não podia ser maculada
pela imediação de um crime passional.

- Se você quiser se ver livre de mim Ariel, você tem que aceitar ir para longe, e nunca
mais encontrar-se com Belatrix.

O mago percebeu então o que pedia a Ariel. Nessa história toda, o grande sacrifício
era então exigido dele, sufocar sua paixão, exilar-se de tudo que o ligasse a ela,
acompanhar a distância enquanto aquela mulher magnífica se tornava o Sol deste
mundo, como havia dito a Grande Sombra.

Ciente dos pensamentos de Bogomil, Ariel retrucou em um indício de desespero:

- Como é possível evitar a luz do Sol então? Me diga! Ainda mais agora, que ela
nunca esteve tão perto quanto está!

- Resignação Ariel. Esse Sol brilhará graças ao seu sacrifício. Você, um desconhecido,
uma criatura anônima e obscura deste mundo, será paradoxalmente a fonte que
possibilitou fluir essa luz para mundo. - disse-lhe Bogomil, não poupando
grandiloquência, como ele realmente sentia a questão de Ariel.

Talvez Ariel se convencesse a proceder assim. Afinal ele próprio se resignara a passar
três anos nos porões do templo de sua seita para salvar Bel, ou não? Entretanto Bogomil
se ressentia também pela situação de Ariel, o mago teria sua recompensa quando
voltasse, mas a Ariel restaria uma distância.

187
Mas por outro lado, Bogomil fez Ariel entender, ele teria a Idade de Ouro aos seus
pés, ele e toda a humanidade deste mundo.

- Veja Ariel, você será o sacrifício em nome dos crimes de todos os homens, você será
a vítima simbólica geral para sanar os males da masculinidade contra o feminino, em
seu ato de recusa consciente de estar próximo de Belatrix estará representado o pedido
de desculpa de toda a humanidade contra a devastação da natureza, dos crimes contra os
fracos e indefesos, esse seu ato será a prova de que o ser humano é capaz de um grande
ato de atenção para com a evolução.

Andando dentro da noite calmamente Ariel ouvia tudo que Bogomil lhe dizia, no
começo ele encarou com desprezo, mas ao ir pensando no que seu duplo dizia, ele
começara a se emocionar.

- Será que tem essa dimensão mesmo Bogomil? - perguntou Ariel, com um embargo
que chegava até na sua pronuncia mental.

- Ariel, depois de tudo que vi e ouvi esses dias, e você também sentiu, então, com
sinceridade, só posso dizer que sim! É essa a verdade. É esta a dimensão do que estou
lhe pedindo.

“Eles” pararam de andar. Ariel olhou para o céu noturno e Bogomil olhou também.
Como era linda a gigantesca vulva no centro do céu escuro da noite.

- Há quem diga que ela é uma rã ou um crocodilo. - disse Ariel se referindo ao


conglomerado de estrelas do centro da Via Láctea, segundo tradições antigas deste
mundo.

- Sim! E quem pensava assim esperava que de dentro da boca dessa rã um dia
retornaria seu criador, de volta a esse mundo, para promover a próxima evolução da
consciência. - disse-lhe Bogomil se referindo a antigas crenças dos povos Maias ou de
povos mais antigos ainda que ficara sabendo através das coisas que Ariel sabia.

Ariel ria feliz em relação a aquilo que estavam pensando. Bogomil teve o respeito de
lhe perguntar do que ria, e não se intrometer em seu pensamento. Ariel respondeu-lhe:

- Um dia eu mergulhei louco no inferno de uma vagina... E ali eu atrai a morte para
mim e para quem eu amava. Agora Bogomil, eu bem que gostaria de ser alguém que
saísse renascido de lá de dentro, mesmo que vomitado por uma rã!

- Pois é Ariel, muitas vezes as vaginas também se dão ao luxo de ser por onde a vida
entra nesse mundo, sabia? - foi lhe dizendo Bogomil com muito bom humor também.

Às vezes as pessoas ouvem rumores de grandes coisas que vão acontecer, elas criam
expectativas sobre eventos singulares que irão mudar o mundo de vez, mal sabem elas
que muito do que se prevê e espera, às vezes acontece longe de todos os olhos, na beira
de uma estrada de chão às duas horas da manhã.

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Assim, Bogomil tendo a atenção de Ariel e vendo que estavam chegando a um acordo,
se puseram de novo no caminho de volta para a cidade. Mas Bogomil sentia que ainda
devia a Ariel uma explicação mais abrangente sobre aquela situação toda. Ele via que
Ariel estava propenso a aceitar o que ele estava lhe pedindo, mas não podia ser
superficial naquela conversa, ele precisava envolver o terráqueo em toda a situação para
realmente abrir a mente de Ariel para aquele sacrifício exigido.

27 - A água de rosas e espinhos

Por que eu e você estamos envolvidos nessa história toda Ariel?

Porque eu me incumbi de descobrir a verdade sobre certo fato, os motivos e os


meandros de um crime. Fiz isso por uma mulher chamada Bel.

Mas o que descobri neste mundo onde vim parar? Eu descobri que cada homem é um
assassino em potencial. Mas vendo desta forma eu tenho que reconhecer que muitas
vezes os homens não estão agindo, mas reagindo ao que as mulheres lhes impõem
também. No fim, não há culpados e nem inocentes nessa história toda entre homens e
mulheres.

Em meu mundo, nos círculos de sabedoria mais refinados, nós cremos, entretanto, que
um homem, um ser de corpo masculino, carrega em si uma alma feminina, e as
mulheres, um ser de corpo feminino, carrega em si uma alma masculina.

Isso é meio intricado, mas tem a ver com a visão de unidade dos opostos que se
complementam.

Sendo assim, quem estaria agredindo a quem? O masculino ao feminino ou o


feminino ao masculino? O que posso te dizer é que o masculino agride o masculino, e o
feminino agride o feminino. E não obstante de onde venha o ataque, o fato é que ele
deve cessar.

Veja! No preparo da ayahuasca, se dispõe um princípio masculino, o cipó, e um


princípio feminino, as folhas da chacrona. Cozendo-os em união, aqueles princípios se
tornam um terceiro principio diferente de todos os anteriores, eles se transmutam em
algo totalmente novo.

Ali se põe em ação para isso dois outros princípios masculinos e femininos, a água e o
fogo, e cada um faz sua parte. Eles fervem entre si, o fogo se esvai auto-esgotando-se
em calor, e a água recebe esse calor e se esvai também, evaporando-se e concentrando
os princípios das folhas e do cipó.

Todos esses princípios em ebulição, em conflito aqui e ali dentro do caldeirão da vida,
o espaço e o tempo, dão origem à novidade que é a ayahuasca. Na alquimia eles
chamam isso de Rebis, que quer dizer “revivido” ou “duplamente vivo”.

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O que se dá nessa preparação da ayahuasca são reações químicas, mas no nível
humano, essa correlação também acontece na relação entre o masculino e o feminino e
entre homens e mulheres.

O masculino é uma energia que desce, o feminino uma energia que sobe. Assim como
o cipó e o fogo, os homens entrelaçam, ardem, descem para o mundo, queimando e
esgotando-se.

O corpo do cipó é lianoso, é uma corda ou corrente natural, ele trepa em tudo, e ao
trepar e se espalhar vai arregimentando a própria mata, as árvores altas. A energia do
cipó é força, entrelace, escalada e descenso.

O corpo da chacrona é folhoso, é um arbusto, ela só nasce nas sombras, debaixo das
árvores. Mas sua energia é luz, é propagação, descida e escalada.

O corpo da água é maleável, ela se adapta e acolhe tudo dentro de si, nela há vida que
prospera, e sua energia é oxidação, ela é composta por dois dos elementos mais
corrosivos que existem, no entanto sem ela não há vida neste mundo.

O corpo do fogo é indomável, ele destrói tudo que toca, nada vive dentro dele, mas
sua energia é renovadora, ele aquece o chão, despertando e abrindo espaço para as
sementes brotarem.

Na mistura desse caldo todo, de corpo e alma, energia e candura, ondas e partículas,
surge então uma terceira coisa, uma novidade, e que quando se bebe, ela expande a
consciência, age como água e fogo não sendo nenhum deles; que é cipó e folha não
sendo nenhum deles; e tudo sendo ambos ao mesmo tempo, sua essência é eletricidade
líquida. Mas isso interage conosco.

É esse tipo de intersecção da matéria e do espírito, dos tempos e das idéias, que devem
refundar uma realidade sobre si mesmo para dar um novo impulso revitalizante às
consciências para que sigam a senda do aperfeiçoamento. A força misteriosa que age
por detrás da realização da ayahuasca, do Andrógino Duplamente Vivo é a força do
Amor.

Eu cruzei o tempo e o espaço para vir aprender isso e apelar isso a você Ariel. Eu parti
em uma missão falaciosa na busca de verdades não necessárias para a vida seguir
porque me era estranho resignar a um favor sem receber nada em troca, então, quando
fui seduzido por uma promessa de ver meus desejos realizados, eu me lancei ao
inconcebível em busca disso. Então eu não acreditava na força do amor.

Eu não percebi que eu lutava contra Bel e ela contra mim. Nossos corpos e almas
tramaram um embate obscuro, eles não deixaram se auto-ajudar, pois é assim que tem
que ser. O homem volta-se para as coisas do mundo, para a paixão, para a conquista, a
mulher volta-se para as idéias, para a sedução, para a geração. Enquanto o feminino no
homem clama pelas idéias e pela sedução e pela geração, o masculino na mulher clama
pelas coisas do mundo, para a paixão e para a conquista.

190
Assim, se eles se harmonizarem na fervura da vida, a mulher deve ser a salvação de
um homem, e o homem deve ser a proteção de uma mulher. E é pela mulher e pelo seu
próprio feminino interior que o homem volta ao paraíso, edificando-se. E é pelo homem
e por seu próprio masculino interior é que a mulher traz o paraíso ao mundo, edificando-
se.

Os contrários das coisas são as respostas da vida, no contrário está a solução para se
evitar que as coisas se degradem. O que se dá nesse processo de complementação é a
conciliação, mas um tipo elevado de conciliação.

Essa não é uma resposta fácil para as coisas. Mas é a proposta de quem não tem mais
a inocência, é a proposição de quem já muito perdeu e provavelmente irá perder mais,
mas o que ganhará não tem preço, terá a boa harmonia.

A questão das Idades do Mundo está intrincamente ligado à questão da evolução da


consciência e da harmonização entre o feminino e o masculino. Pois os erros espalhados
pela face da Terra são frutos desses fatores que estão em jogo e convergem entre si para
resolver os problemas humanos.

Quando cometemos um erro repetidas vezes, passamos a fazer aquilo até


inconscientemente, se torna um vício, um defeito de caráter que nem sequer
reconhecemos mais. Mas quando fazemos uma coisa boa, isso nos liberta, nos alegra, e
faz com que sigamos em frente vendo que ainda é bom viver, isso desperta um estado
de consciência leve, que lança sua luz sobre nossa vida, sobre o espaço que ocupamos
no mundo.

Imagine o que não faríamos e sentiríamos se puséssemos um fim nos conflitos que nos
acometem, se agíssemos com gratuidade?

E é isso que lhe proponho Ariel, uma trégua indefinida, um armistício, entre mim e
você, entre você e Belatrix, entre você e você mesmo, para que todos estejam livres
então para seguirmos nossos caminhos. Não lhe prometo recompensa nenhuma por seu
sacrifício, apenas prometo a paz de se fazer a coisa certa.

Nós já fervemos bastante no caldeirão da existência, e acho que já estamos


concentrados o bastante para ser uma água refrescante e iluminadora, não apenas corpos
e almas macerados ou dispersos na natureza selvagem, apenas reagindo ao invés de
agirmos. Podemos chegar a um acordo e rumarmos a sermos duplamente vivos então,
cada um no seu caminho, com suas renúncias e seus merecimentos.

28 - A mente perfeita e o koan do conflito

O caminho de volta para cidade fora vencido passo a passo. As ruas vazias da
madrugada da segunda-feira já comportavam os clamores da lida que por ali passaria no
corpo e na mente de cada pessoa que rumasse para seus afazeres.

191
No céu a Grande Vagina do centro da galáxia já se dispersava da visão pela chegada
do sol e o giro do planeta, levando o Buraco Negro que a tudo consumia ali para o outro
lado do mundo.

Ariel e Bogomil chegaram ao seu destino, o lar e a cama do dono da casa. Com as
pernas exaustas eles se permitiram deitar e repousar. Mas o sono não vinha, estavam
ambos excitados pelo diálogo que tiveram noite adentro e estrada afora. Podiam sentir
reciprocamente uma paz vinda um do outro. Passaram o último quilometro até o leito
calados, Ariel no comando do corpo e na digestão das idéias, Bogomil em seu próprio
mutismo cheio de saudades e silente de não ter mais o que dizer.

Deitado o corpo, as consciências soerguidas nas paragens do pensamento puro agora


miravam suas atenções um no outro. Em sonho ou em miração ayahuaski, no plano
astral ou oníricos viam-se um na frente do outro, seus sentimentos também eram
revelados como uma nudez mental sem nenhuma vergonha de estarem assim.

Bogomil não podia sair do corpo de Ariel, só podia mudar o ângulo de sua
consciência por um perímetro em volta do seu corpo, ele fez Ariel entender isso e
mostrou como ele podia conseguir a mesma coisa. Afinal sentir a consciência atrás dos
olhos era só uma coisa que fazemos por repetição, na verdade ela pode ocupar o lugar
no espaço imediato em volta que quisesse.

Ariel ficou maravilhado quando se conscientizou acima de seu corpo deitado na


cama, observando como em um filme, como o fazemos nas lembranças e no
pensamento. Ali, não sabendo por que, eles podiam se conscientizar de si. Talvez pela
influência da ação fraca da ayahuasca ainda, talvez porque devia ser assim naquele
momento.

Estavam em trégua finalmente, sentiam. Não há palavra melhor para definir aqueles
seus sentimentos. Aquele corpo deitado sobre a cama era o corpo de um homem e de
duas almas, duas pulsões psíquicas femininas. Sabiam que abdicavam então de qualquer
violência, Bogomil não faria mal ao corpo e a reputação de Ariel, não cometeria
suicídio, não enlouqueceria Ariel e não o exporia a qualquer julgo negativo de seus
semelhantes.

Ariel conscientizava-se de que Bogomil o encheria de amor e sabedoria, o amor e a


sabedoria de realidades paralelas, o sentimento verdadeiro e paradoxal advindo do seu
Verdadeiro Deus que não faz promessas de paraíso ou perdão dos pecados, mas o
sentimento de completude, o amor da liberdade, de uma maioridade infantil com que se
entra em uma nova Idade de Ouro.

Bogomil conscientizava-se que Ariel abraçava a idéia de caminhar em direção à essa


maturidade de uma nova era, encontrada dobrando a próxima esquina rumo ao porto
onde partiria na decisão consciente e verdadeiramente iluminada por uma luz serena,
emanada de uma chama dupla cuja a luz não cega e a sombra não escurece. Era o
máximo de bem que os dois poderiam almejar.

192
O mago, enquanto um espírito feminino tinha seduzido o homem por inteiro que é
Ariel Bogari. Mesmo com espírito de Ariel estar definhando e ser fraco, quase morto
pelo materialismo e pela sujeira das pocilgas espirituais e pelas suas atitudes
existenciais, ele ainda tinha uma consciência capaz de sentir o apelo da beleza e da
sedução.

Com respeito total ao ser humano que era Ariel, Bogomil como um sacerdote o
elevava ao altar onde celebrariam núpcias, o matrimônio entre o céu e o inferno, da
carne e da alma, do positivo e do negativo, do espaço e do tempo, do amor e do ódio, da
solicitude e da indiferença, da poesia e da técnica. As núpcias do amor das realidades
que se interconectam para então se verem livres dos perigos da maldade e das falhas de
caráter, lançando para longe as punições do exílio e da morte.

A noiva desse matrimônio seria a própria alma de Ariel, a noiva seria a nova idade em
que ele adentraria, a novidade que se daria no rebento dessas núpcias era a Idade de
Ouro trazida pelo corpo e pelo espírito de Belatrix viva, pecadora e santa, masculina e
feminina ela também, exuberante e feia, puta e mãe, de todos e de ninguém, como ela
deve, e só pode, ser.

A trégua então entre Ariel e sua alma, entre ele e Bogomil, e entre tudo mais, se
resumiria no paradoxal koan das núpcias que assumia então.

“Qual é o filho que nasce de um homem?” perguntou o sacerdote Bogomil à Ariel.

A pergunta não tem resposta. Mas como toda pergunta que não dá meios de solução,
pois ela inquire o além da dualidade, ela tem então diversas conclusões também. O filho
de um homem só é a própria noiva, é o próprio homem, é a novidade da consciência, é a
trégua, é o armistício, é o impensável que enfim rompe as barreiras de todas as
probabilidades e se realiza no mundo pelo ato da renúncia, a paz consciente, que é a paz
de consciência.

No pé do altar Ariel conscientiza-se que esse filho é o Original, o Autêntico. Assim


como a filosofia é a “Filha de Sofia”, o filho de um homem só é a Autenticidade, o
Fidedigno de tudo, pois ele o fez para merecer, digno de fé de toda Sabedoria.

Ela mesma, a Sofia Perene virá em um momento então confirmar isso, na vida de seus
dignitários, clamou o sacerdote.

A mente consciente de Ariel então começou a dançar sobre o altar onde Bogomil
oficiava, e ambos começaram a cantar um hino antigo, para embalar sua dança:

“Eu fui enviada pelo Poder


E para aqueles que refletem sobre mim eu vim
& tenho sido encontrada entre os que buscam por mim
...
Pois a primeira & a última sou
Eu sou a honrada & a zombada
A esposa & a virgem sou

193
Eu sou a puta & a sagrada
A mãe & a filha sou
...
Pois eu sou o conhecimento & a ignorância
Sou coragem & envergonhada
A cheia de pudor, a cheia de a arrogância
E eu sou a força & sou a amedrontada
Eu sou o conflito & a concordância
Em mim, prestai atenção respeitosa
Eu sou aquela que é desgraçada & majestosa
...
Recebei-me em vós mesmos fora da compreensão & da aflição.
Recebei-me em vós mesmos através da aflição & da compreensão.
Recebei-me em vós mesmos dos lugares que são ignóbeis & arruinados
& furtai daqueles que são bons apesar de estarem desfigurados.
Longe da vergonha, recebei-me em vós mesmo desavergonhadamente;
& com falta de vergonha & com vergonha,
repreendei meus membros em vós mesmos, conscientemente;
E vinde a mim, vós que me conhecem
& vós que meus membros reconhecem,
os grandiosos entre as primeiras criaturas ínfimas constituem,
Vinde à infância serena,
& não a desprezai por ser ínfima & pequena.
...
Eu sou o julgamento & a absolvição
Eu, eu sou a pura & terna
& a raiz do pecado é de minha emanação
Eu sou o desejo na aparência externa
& o autocontrole interno é de minha assimilação.
...
Pois muitas são as formas agradáveis
que existem em pecados infindáveis
& incontinências
& paixões infames
& prazeres efêmeros
que os homens abraçam inglórios
até se tornarem sóbrios
& aos lugares de repouso subirem.
E lá me encontrarão silente
& viverão & não morrerão novamente.” 5

E assim cantando eles dançaram por um longo tempo, exalando suas consciências
libertas no dia que ia raiando, afastados de todas as sombras e tempestades, celebrando
suas bodas em um ritual astral, fazendo loas à Sabedoria e à Consciência em seus ditos
paradoxais.

5
Excertos adaptados em rima de “O Trovão: A Mente Perfeita”, in A Biblioteca de Nag Hammadi, Org.
James M. Robinson, p.255 e seguintes. Madras Editora, 2007.

194
29 - Iminência da partida

A manhã chegou e Ariel acordou revigorado da noite em que firmou um acordo com
Bogomil. Sua cabeça estava leve e não sentia qualquer presença dissonante a confundir
seu pensamento. A consciência de Bogomil estava latente, dormindo um sono mental
espalhada neutra sobre o corpo de Ariel.

Ao levantar Ariel pôs água no fogo para o café e enquanto os ovos cozinhavam, ele
foi ao pequeno depósito de sua livraria e pegou uma grande caixa que estava dobrada.
Logo foi jogando ali dentro todo o material que possuía sobre e com Belatrix, revistas,
filmes, pôsteres e todo material afim que tinha. Encheu a caixa e então a lacrou com
uma fita adesiva larga. Mas tarde consumiria aquele material, em fogo se possível.

Depois de tomar seu café da manhã ele ligou seu computador e depois de carregado,
deletou todos os arquivos referentes à Belatrix e a pornografia em geral. Lembrou-se
então de arquivos gravados em disco e recolheu todos. Teve que abrir a caixa de novo e
jogou todos os discos lá dentro. Fechou de novo a caixa com mais fita.

Tomou um banho e vestiu roupa limpa e foi abrir seu comércio. Depois imprimiu uma
folha no computador onde dizia: “Grande promoção de Livros”, a quem perguntasse ele
iria dizer que estava fechando a loja, pois tinha que se mudar de volta para sua cidade
natal, em outro Estado.

Curiosamente seu primeiro “cliente” naquele dia foi um taxista querendo receber o
dinheiro de uma viagem. Ariel o pagou e agradeceu a compreensão do homem. Antes
dele sair da loja, Ariel lhe deu um livro de presente, à escolha do freguês. O taxista
passou os olhos nas estantes e puxou um livro de seu interesse. Agradeceu a Ariel e
partiu feliz.

Ariel tinha muitas providências a tomar, quitar contas principalmente. Começou a


tomar esses preparativos e na hora do almoço já estava tudo mais ou menos
encaminhado. Para ele era urgente partir daquela cidade.

Na parte da tarde ocorreu grande afluência de fregueses na loja, depois que


começaram a espalhar a noticia de sua queima de estoque. As estantes iam se
esvaziando sutilmente.

Ao final do expediente Ariel estava feliz e com a sensação de saltar no abismo da


liberdade enfim. Se as coisas andassem daquele modo em uma semana poderia partir
dali, deixando para trás tudo que devia abandonar. Sentia-se cheio de coragem e
centrado, como se fosse um novo homem.

Depois de preparar o jantar e comer, ele pode enfim sentar-se ocioso. Incomodava-lhe
não sentir a presença de Bogomil lhe falando na cabeça. Será que ele partira? Não, as
coisas não estavam concluídas ainda, sentia que faltava algo.

195
Ele viu então pousado em seu criado mudo uma garrafa plástica com cerca de meio
litro de um líquido ocre, era a ayahuasca que Belatrix dera a Bogomil na estrada na
noite passada.

Pegou a garrafa e ficou segurando e olhando o seu conteúdo. Desenroscou a tampa e


sentiu o cheiro forte da bebida sair, mas não afastou a garrafa de onde estava como seria
de se esperar. Aquele era, como Bogomil uma vez pensara, o cheiro da seriedade da
tomada de consciência. Mas o cheiro trazia mais recordações a Ariel, lembrava-se da
primeira vez que sentira aquele odor inconfundível ao comungar ayahuasca em uma
comunidade em sua terra logo depois de saber que sua musa havia se afastado da vida
de atriz e se convertera, como diziam os boatos, à uma seita que usava o enteógeno.

Era uma forma do maníaco Ariel se aproximar dela, ele pensava. Não entendeu na
época o que aquela mulher da vida via naquela bebida. Pensou muito sobre isso depois
da experiência de beber a primeira vez o licor vegetal. Nas mirações que teve naquela
primeira vez ele não vira Belatrix nem nenhuma cena orgástica, apenas sérias
admoestações de uma voz interior que lhe falava sobre correção, sobre purificação, e
mal estar. Ele vomitara muito na primeira vez e jurou nunca mais colocar aquilo na
boca.

Mas não fez, e depois descobriu que todos que diziam que nunca mais beberiam
ayahuasca depois da primeira vez eram justamente os que se tornavam fieis adeptos da
experiência de comungá-la.

Assim foi bebendo ayahuasca aqui e ali, onde o recebiam, sempre onde Belatrix não
estava, mas que ouvia falar sobre ela. Isso era para ele o caminho até chegar à mestra
que a fama já precedia nos centros ayahuasqueiros independentes.

Mudou-se para Alto-Paraíso porque fora ali em suas imediações que ela fixara sua
comunidade. Sim! Ele estava em uma lenta perseguição por aquela mulher. Era
inevitável o dia em que ele fosse bater em sua porta, trazendo consigo além dos livros e
o negócio que trouxera de sua cidade, traria também sua luxuria que nem a ayahuasca
conseguia arrefecer. A daí sabe-se lá mais o quê?

Deste ponto em diante não precisava mais pensar. Tudo mudara. Ele encontrara o que
nem estava procurando, uma renovação em sua vida. E de certa forma fora Belatrix que
lhe proporcionou isso. Quem sabe até mais.

Singelamente refletindo assim sobre sua vida, ele tomou a garrafa de ayahuasca na
mão novamente e disse alto:

- Um brinde mágico à nova vida! - e tornou na boca metade do conteúdo da garrafa.

O ato de Ariel convocou a consciência de Bogomil no mesmo instante. Agora ambos


iriam fluir pelos astrais sob o efeito do enteógeno. E calmamente ambos se
aconchegaram mentalmente esperando o que deveria vir.

196
E a primeira coisa que veio, logo que se reclinaram na poltrona para esperar o efeito
da ayahuasca, foi uma batida na porta da casa de Ariel: toc toc toc!

Meio nauseado ainda pelo baque da dose de ayahuasca, Ariel se levantou e abriu a
porta. Era Belatrix.

30 - Belatrix: a sombra do paradoxo

Não se percebeu nenhum tremor no corpo de Ariel ao abrir a porta e dar de cara com
Belatrix em sua frente. Na verdade ele levou alguns instantes para reconhecê-la. Quando
viu de quem se tratava ele chamou em pensamento por Bogomil, como se dissesse
“assuma as coisas daqui pra frente!”, mas Bogomil não se manifestou.

- Olá! - finalmente ele falou, abrindo um largo sorriso de surpresa.

- Olá! Boa noite Bogomil! - Aquilo que Belatrix falou causou um certo desconforto
em Ariel, era melhor Bogomil vir porque ela queria falar com ele.

- Boa noite Belatrix! Entre! - foi dizendo Ariel muito formalmente.

Belatrix riu olhando para o rosto de Ariel, como se procurasse algo.

- O que foi? - perguntou desconcertado Ariel.

- Desculpe! Você está diferente.

- Ah! Estou rouco pelo sereno que tomei... você sabe, voltando pra casa ontem... quer
dizer, hoje! - disse coçando a cabeça e tentando não olhar nos olhos dela. Onde estaria
Bogomil? Foi embora mesmo?

- Eu não estou dizendo da sua voz, é no jeito de falar. - olhando para os lados Belatrix
viu a garrafa de ayahuasca que havia lhe dado pela metade e conclui finalmente: - Você
bebeu ayahuasca agora?

- Sim! Sim! Acabei de tomar...

- Então é por isso, você já está entrando em transe. Me desculpe incomodar nessa
hora, eu só vim ver se você tinha chegado bem até a cidade. - disse ela fazendo menção
de já partir.

Vendo que ela já queria partir Ariel abriu passagem para ela de volta a porta, mas em
sua boca foi Bogomil que falou:

- Por que não se senta Belatrix, por favor.

Belatrix aceitou de imediato o convite de Bogomil, percebendo a firmeza na voz que


ela se lembrava dos dias passados.

197
- Aqui! Beba o restante da ayahuasca para podermos conversar. - Entregou a garrafa
de volta a quem a dera.

Belatrix o olhou nos olhos e viu que realmente era uma boa hora para comungar a
ayahuasca e conversarem. Afinal fora para isso que ela foi até ali naquele começo de
noite. Bebeu no bico o restante de ayahuasca e levou o dedo indicador à testa.

- Quer água? - perguntou Bogomil.

Ela fez que não com a cabeça enquanto engolia também o gosto ocre. Bogomil e Ariel
ficaram por alguns momentos observando a mulher sentada na sua frente, a realização
dos sonhos de qualquer homem, ali.

Belatrix relaxou no sofá, recostando-se na parte detrás. Os três permaneceram em


silêncio esperando que a ayahuasca fizesse efeito. Finalmente se incomodando com o
silêncio foi Ariel que falou.

- Foi bom você ter vindo aqui hoje, depois que parti eu refleti muitas coisas no meu
âmago, e tomei muitas decisões baseado nas coisas que vi durante os êxtases lá na
chácara.

- Que bom! Você teve as respostas que procurava então? - disse ela, mas em sua
intuição que começa a se expandir junto com sua consciência lhe parecia que falava
com outrem e com a mesma pessoa.

Foi Bogomil que retrucou então.

- Eu encontrei muitas respostas sim, e elas farão bem a mim e a outras pessoas
também.

As consciências dos três já alteradas agora adentravam no reino encantado da natureza


expansiva. O mundo em volta se alterava ao zunido tímido que vinha de lugar nenhum e
de todos os lados. Sombras começaram a se avolumar na periferia da visão deles e o
ambiente esfriara. Era a químio-gnose, perceberam.

O silêncio era elétrico e ensurdecedor ao mesmo tempo. Belatrix fechara os olhos não
suportando a pressão do ambiente, assim como o fez o corpo de Ariel, mas eles estavam
ligados. Um gato, que pode ver os fluxos energéticos rondarem na atmosfera perceberia
ali naquela sala que uma onda violeta de fios finos e luminosos giravam em torno do
homem e da mulher ali sentados, passando dentro de seus corpos, ligando um ao outro.
Tal gato hipotético veria também uma grande sombra sob suas cabeças, chegando como
uma tempestade escura e espectral que dissolvesse o teto da casa de Ariel e abrira ali um
vórtex por onde giravam muitas nuvens e outros seres astrais.

Dali em diante eles se comunicavam telepaticamente, fenômeno comum quando se


bebe ayahuasca.

198
A Grande Sombra foi que se pronunciou primeiro. Era Sondarak, e sem distinguir ali
quem fosse homem e quem fosse mulher, quem era Belatrix e quem era Bogomil e
quem era Ariel, ele lhes falou.

Contou então que Beatrix era uma encarnação zelada por eles para mudar o rumo do
julgo violento do masculino sobre o feminino, eles conspiravam com as vênias de Seres
Superiores, Guias da humanidade, para mudar o andamento de muitas realidades
confluentes para fazer ressurgir no seio dos tempos, espaços e realidades, uma nova
Idade de Ouro onde finalmente o feminino se reconciliaria com o masculino surgindo
uma nova era que se espalharia por muitas realidades afins no seu devido tempo, até a
de Bogomil, mas para isso era mister que Belatrix vivesse e cumprisse sua missão nesta
vida, que era dar surgimento integral a uma doutrina de reconciliação entre as forças
assim como a Fiel Sophia o quer.

A Grande Sombra Sondarak dominava o ambiente alterado da mente dos três


humanos ali, e eles iam fluindo no que ele dizia como se ouvissem aquela comum voz
interior que fala conosco no êxtase ayahuaski.

Ela lhes revelou então que em três realidades vizinhas, a de um mundo chamado
Alleghoria onde fica o reino de Altair, a da Terra, onde fica a nação chamada Brasil e
em uma outra realidade, um mundo chamado Carangula, que são as três realidade
mais próximas que se contorcem sobre si formando as realidades de seus universos co-
paralelos, nesses mundos ocorreram duas morte, em Altair morreu Sheila Hagia,
emanação decaída de Sophia, na realidade de Carangula morreu Izobel, emanação
pura de Sophia, uma princesa de nome Bel é a emanação pura de Sophia em Altair, e
uma mulher chamada Rhelena a emanação decaída de Sophia em Carangula, sendo
que ambas deviam prosseguir vivas em suas realidades paralelas para dar suporte às
reverberações temporais-existencias que Belatrix, a emanação integral de Sophia nessa
realidade paralela vizinha, devia ter para cumprir sua missão.

A existência de Rhelena estava garantida no mundo de Carangula, pois naquela


realidade paralela ela era agora uma rainha de um reino muito parecido com a antiga
Tróia da realidade da Terra. Agora com Bogomil tendo êxito em sua missão de garantir
o advento de Belatrix neste mundo ele ainda devia zelar pela vida de Bel, e seria agora
concedido a ele todos os meios para fazer isso.

O paradoxo em que Bogomil, Ariel e Belatrix estavam inseridos ali, tudo aquilo, era
apenas uma função transcendental projetada pelas Grandes Sombras para se cumprir a
missão de auto-salvação da psique humana, o nome mesmo “belatrix” é uma palavra
da língua das Grandes Sombras que significava “paradoxo”, não tendo qualquer
referencia erótica ao fato dela ter sido atriz, uma bela atriz, ou coisas assim.

Eles a haviam preparado de forma a emanar a energia do arquétipo de Sophia de


forma cônscia e superior, para “causar” de forma não-causal e não-local a
transformação em sua realidade e em outras. Quando eles revelaram essa palavra a
Magda Helena no passado, despertaram nela a semente imemorial dessa missão

199
espiritual, e tal energia reverberava em realidades paralelas próximas como eles bem
conheciam e agora estendia-se também na existência da amada de Bogomil, a princesa
Bel.

Belatrix era o paradoxo do qual surge a verdade que subjaz nas incertezas. Seu nome
era uma palavra nova e fundamental na disposição do advento de uma nova
consciência, explicava Sondarak, que quando, no futuro, os seres humanos tiverem que
dizer sobre a novidade que surgiu no mundo nesses dias, ao se referirem ao cerne do
paradoxo onde essa evolução surgiu, eles dirão “Belatrix!”, pois ela significará mais
do que a principio significou, “paradoxo”, passando a conceituar o momento do
grande retorno à Idade de Ouro, “reciproclemência”, o “amor de si”, o amor que não
se preocupa com o outro como objeto, mas consigo mesmo enquanto reflexo de tudo.

Essa palavra cruzará mundos e realidades, sua sombra será bem recebida em todos
os cantos, sendo a semente da Idade de Ouro, o sombrear que acontecerá na
consciência totalizada dos seres.

Agora, deviam prestar atenção Belatrix, Ariel e Bogomil, era o que dizia
compenetrado Sondarak. Na data do equinócio de verão deste ano, você Belatrix, deve
reunir seu povo em um novo ritual, vocês comungarão juntos a bebida sagrada, disse se
referendo a Bogomil/Ariel, e lá, tua pulsão feminina irá falar a todos iluminada pela
minha sombra de luz serena sobre coisas que revelarei só a ti. Bogomil irá lhe ajudar
na sessão e você abrirá espaço para ele falar, e ele te aclamará como ele sabe que deve
ser feito, nos mistérios gnósticos.

Depois disso, estarão livres para partir, eu o instruirei a parte nisso, disse a Grande
Sombra, se referindo tanto a Bogomil como a Ariel.

Quanto ao que falei essa noite para vocês, mantenha em segredo, isso é de seu
âmago, e só para vocês ficará. Agora cuidem de suas obrigações, saiba quem deve
saber que nenhum tempo urge enquanto não estiver livre, disse se referindo a Bogomil,
e sigam suas vidas até o renascer do Sol no horizonte de eventos das estações das eras.

Sondarak afrouxara seu laço opressivo na mente de Belatrix, Bogomil e Ariel. Como
se despertando de um sonho vivido, eles timidamente abriram os olhos e se entrevem.

Não havia o que conversar. Eles estavam abalados com a experiência e temiam em
trocar qualquer idéia do que passou, não ousavam se interpolarem sobre nada. Estavam
assombrados, Belatrix e Ariel muito mais do que Bogomil, e este temia ser visto como
um bruxo malévolo que causara aquilo, por isso ficou calado também.

Belatrix pensava naqueles instantes consigo que aquilo tudo que ouvira fora só uma
miração sua, não se permitia pensar que realmente aquele outro homem ali, Bogomil,
compartilhara daquilo tudo, mas por outro lado sentia que aquilo não era a verdade.
Estava amedrontada pela experiência, mas não havia confusão em sua mente, pois tinha
noção sobre aquele tal “ser” que se manifestara ali, ela já conhecia as Grandes Sombras,
e como.

200
- Já vou! - disse Belatrix se levantando, olhando de rabo de olho para Bogomil.

- Então... nos encontramos no equinócio... - disse-lhe Bogomil, sem ter noção da data
que mencionava.

Belatrix assentiu com a cabeça.

- Sim! Daqui onze dias! - disse ela convicta, e saiu pela porta.

Então era isso, faltava pouco mais de uma semana para o equinócio naquela parte do
mundo. “Como tudo convergia!”, observou Bogomil fascinado.

Vasculhou a mente a procura de Ariel, onde estaria?

Sentia a presença de Ariel em um canto da mente. Deixá-lo-ia ali com seus


pensamentos. A consciência de Ariel parecia chocada, mas no fundo ele se recolhera
para abraçar a gratuidade das palavras da Grande Sombra, que falara a ele daqueles
mistérios todos.

- Afinal, o mundo é um lugar mágico Bogomil! - pegou ele de surpresa o mago, com
tal declaração.

Bogomil, vendo Ariel sair de seu mutismo depois daquela experiência, sentiu-se
melhor, afinal, o homem não havia sucumbido a qualquer estado de catatonia pela
presença de Sondarak. Pensando no que Ariel disse, vendo ali uma referência ao próprio
mundo de Bogomil, o mago lhe responde:

- Todos os universos meu amigo... A magia sustém todos os universos!

Era hora de se recolherem para, a partir da manhã seguinte, vencerem juntos a


distância de mais onze dias no tempo. Ariel sabia que a data em questão era importante,
mesmo antes de Sondarak convocar para aquele dia tal ritual, mas não se lembrava no
momento do por quê.

Mais tarde, depois de Ariel se recolher ao leito Bogomil lhe avisou que dali em diante,
até quando fosse requisitado lá na comunidade do Matrimônio Espiritual, ele se
recolheria dentro de Ariel, meditando sobre o que Sondarak havia dito e sobre o que ele
deveria expor então, quando no ritual de equinócio, e se despediu de Ariel, por
enquanto.

Ele vagava ainda sob a forte influência da ayahuasca, e algo, uma luz fosca, o
chamava para mergulhar dentro de sua própria consciência no rumo do vórtex aberto
que ainda pairava astralmente sobre suas cabeças em êxtase ayahuaski.

Bogomil, em consciência, se lançara no vórtex então.

201
Parte III

A Eternidade Que Em Tudo Se Revela

1 - Do Vórtice ao Horto

O grande vórtex que Sondarak trouxera ainda girava lento e impassível em um canto
unidimensional da sala da casa de Ariel Bogari.

Este, não agüentando a pressão psicológica das energias que se intercambiavam


através desta abertura astral na realidade, rápido se retirou do ambiente depois da
partida de Belatrix. Ariel, que se encontrava baqueado em profundo êxtase ayahuaski,
ainda regurgitava o contato que todos eles tiveram com a Grande Sombra.
Estranhamente Bogomil pode ver o corpo de Ariel se afastando cambaleante para fora
daquele cômodo deixando-o para trás, ali na sala ele permaneceu em pura consciência já
atraído pelo vórtice.

Aquele vórtex o chamava, e ele sabia que Sondarak o mantinha aberto e ativo só para
que nele ele penetrasse.

Bogomil não podia adivinhar aonde o furacão astral iria o levar, mas alguma coisa no
ar, um pensamento transversal, muito provavelmente vindo de Sondarak o instruía a
saltar logo naquele “Misteryum” que era a porta do Subconsciente.

O mago concentrou-se em suas próprias volições incorpóreas já não resistindo à


atração do vórtice, pois lhe parecia que ele daquela forma e aquela efemeridade eram
feitos da mesma substância: mente.

Ao ceder à absorção ele transporia um ângulo da realidade, e assim o fez. E de agora


em diante, todas essas palavras são apenas aproximações!

Tudo em volta se tornou da cor de uma mistura de cinza e sépia, assim toda a extensão
daquele vórtice se coloria desta forma em diversos tons. Nos primeiros instantes
enquanto penetrava no redemoinho a consciência podia cônscio-sentir uma vibração
sonora vinda do ranger entre os níveis opostos de que o vórtice era formado, cada nível
girava para uma direção oposta da outra e isso fazia repercutir um som agudo de “Om”,
o zunido ecoava acusticamente nos vértices constantemente por todos os lados.

Girando lento, volumoso, esfumaçado e alternadamente o vórtice ia abrindo caminho


no espaço-tempo cravando um fulcro onde a consciência-bogomil adentrava já sem ter
como voltar. Ela passou deixando para trás estranhíssimos seres alados, que eram as
sentinelas do vórtex mental.

Quando passara no nível em que estas sentinelas estavam a consciência-bogomil pode


consciobservar que aqueles seres tinham asas negras longas, desproporcionais ao seu

202
corpo que era só uma grande cabeça de ave, parecida à uma redonda cabeça de um galo
negro, com apenas seu enorme bico e um par de patas pequenas em relação ao corpo.

Uma das sentinelas tocou com sua asa a consciência-bogomil e ela pode cônscio-
sentir o toque felpudo metálico, dócil e frio, resvalando-lhe com acaso, como se apenas
avisando que as sentinelas estavam rapinamente cientes de sua passagem por ali. O
mago pode cônscio-ver então que Sondarak barganhava com aquelas sentinelas aladas,
para que dessem um salvo conduto à sua consciência.

Ao alcançar o que poderia ser o meio do vórtice em sua extensão, a consciência


deixou de cônscio-notar que estava subindo e agora alternadamente descia. Alguma
coisa se distinguia enfim no final do vórtice, os movimentos circulares já não eram
perceptíveis e a consciência-bogomil atravessou então o limiar do vórtex. No mesmo
instante em que saiu do outro lado ele pode cônscio-sentir que tomava a forma de uma
esfera naquele outro ambiente aberto diante de si, parecendo que tudo ali conspirava
para que assumisse tal noção de forma, ele pode cônscio-ver que gigantescos filamentos
sólidos acima se vergavam sobre todas as coisas, fazendo assim que tudo fosse esférico.

E assim aquela pérola que era a consciência-bogomil pairou flutuando em algo que
não era nem ar nem uma atmosfera, mas que poderia se parecer com tudo isso. Ele pode
cônsciobservar que estava acima de uma grande mandala tridimensional cuja extensão
alçava-se ao infinito observável. No centro, deste que era o Mandalyon, ficava uma
cisterna que continha o vórtex pelo qual aquela consciência chegara até ali.

A intricada formação do Mandalyon era impossível de se abarcar e distinguir


totalmente em detalhes. Em suas disposições coloridas sobrepostas que mais pareciam
uma cidade ou o mapa técnico de um condutor de acelerador de partículas, como um
grande calendário circular do povo Maia, podia se entrever diversas paragens que
compunham “lugares” onde imponderáveis edificações se desvencilhavam em
formações labirínticas. Alguns desses pontos eram como monumentos, outros eram
hortos onde floresciam estranhas plantas.

Cônsciolhando do alto, todas as linhas distintas que formavam a mandala parecia uma
construção viva em constante mutação cromática e mórfica, como um cintilante
holograma mutante, tudo borbulhava como um formigueiro brilhante em constante
agitação animada. As formas emergiam e aprofundavam-se fractalmente, aquilo a
consciência pode apreender que era pura significância fluindo constantemente.

A consciência-bogomil se encontrava então em um estado de expansão definitivo, ele


acessara através do vórtice o infinito trans-tansmutável extático do Inconsciente
Coletivo humano, o qual agrega todos os golfos ancestrais e atuantes sem limitações de
todas as volições mentais conscientes já ousadas por todos os entes que disponibilizados
foram no tempo-espaço a terem acesso e contato co-influente com aquelas instâncias do
Ser e do Não-ser.

203
Nesta paragem que é o último e único “Além” de tudo que é psíquico, se manifestava
as pulsões que subjazem à todas as ações humanas, todos os motivos e referências
inconscientes que influenciavam desde ali os seres em todos os tempos e lugares.

Naquele grande infindo Mandalyon os Arquétipos permaneciam aqui e ali, dispostos


como monumentos marmóreos impessoais e transmorfos aos quais a consciência-
bogomil, a única essência do mago que havia transmigrado espaço e tempo através do
Espelho Decagonal, podia então se aproximar e acessar, e ser acessado, em
compreensão mútua e ampla.

2 - Sondando o Inconsciente

Na realidade cotidiana, o mundo material, Bogomil tinha tempo à sua disposição para
gastar, por isso ele usaria todo aquele tempo disponível para se aprofundar em uma
dimensão espaço-temporal latente à consciência comum que era limitada ao tempo e ao
espaço. Assim sondaria folgadamente o inconsciente coletivo onde estava.

Sem os limites físicos e sem as inquietações do pensamento, ele estava agora


totalmente livre para se dedicar à servir aos motivos profundos que as querências da
Grande Sombra dispunha-lhe pela força das sincronias transmundanas que o fizeram
estar naquela realidade paralela e agora naquele horto do inconsciente. Aquele era o
desejo mais profundo que Sondarak de sua forma sentia e impelia Bogomil, ele era a
única “coisa” deslocada de sua origem naquela história toda.

Exilado em sua própria consciência e se lançando sobre a imanência paradoxal da


pulsão de ser ele próprio em essência um ser mental, ultrapassando o portal da
subconsciência e concentrando-se em um ponto inaudito na interioridade de todos os
espaços e tempos do pensar, do poder e do existir, agora no horto do Misteryum
Æternum do Inconsciente Coletivo, Bogomil estava na posição para acessar qualquer
mente em qualquer ponto dos universos paralelos através de Arquétipos, e mais, através
de Símbolos que se disponibilizavam naquele horto como flores em um jardim.

Eu gostaria de poder ter palavras para descrever um tal funcionamento desse grande
inconsciente, mas não existem palavras para isso. Ah! Essa nossa velha questão...!
Poder escrever uma história com palavras novas, palavras que expressem mais do que as
simples, comuns e usadas palavras dizem, mas se eu assim o fizesse esta história teria
um sentido restrito, cairia em erros particulares, pois as palavras são o colapso de onda
das idéias e a profundidade que eu quereria alcançar tornar-se-ia tão obscura, distorcida
e imperfeita como aquilo que uma partícula de luz quereria iluminar, sendo isso menor
que ela ainda.

As bases pelas quais pensamos limitam nossa visão de mundo e por fim distorcem
tudo que vemos, a luz sem intermediação sábia da nossa consciência macula tudo no
real, até que enfim somos cegados por essa própria luz. Mas de onde provém a
emanação dos Arquétipos e dos Símbolos tudo é pura possibilidade ilimitada e essa

204
potências de tais coisas, de virem a ser alcança até a própria realidade, assim elas se
expõem à luz dos sonhos, das visões, das profecias, que uma luz serena.

Então, não obstante entendamos que definir é limitar, devemos também intuir sempre
que em certos momentos começamos a gerar paradoxos que extrapolam o rumo certo da
realidade, suas definições. Essa oportunidade de gerar alternadas formas novas de
pensar e existir e agir provêm dos Arquétipos e dos Símbolos como portadores de
definições e distinções que nos inspiram.

Os paradoxos não são uma erva daninha no horto do inconsciente onde a linguagem
também germina, os paradoxos são os cogumelos nesses campos da linguagem. À
consciência que ingeri-os em sua intelecção começará a sentir que as idéias se
dissolverão e ganharão então novas e fantásticas formas de serem entendidas, sentidas e
usadas.

No expansivo horto do inconsciente transmigram os esporos dos paradoxos e a


consciência que ali alcança é impregnada de imediato pelos esporos que flainam nos
ventos extáticos do puro conhecimento, exposta no inconsciente a consciência perde
grande parte de sua individualidade egóica e começa a ter a potência de ponderar sob a
imanência de símbolos que surgem, e a sua capacidade de permutar pelo uso da
linguagem eleva-se em contato com essa matriz onisciente em que se baseia a pulsão
conscientizante agora irrestrita.

Dessa forma é que a consciência de Bogomil pode cruzar livremente pelo grande
Mandalyon do Inconsciente Coletivo, como se fosse um pássaro no ar ou um peixe na
água, onde os símbolos são as iscas para capturar essas presas meta-mentais em seu
ambiente.

No inconsciente coletivo a consciência pode dispor de todo conhecimento


interrelacionado das coisas da consciência, um grande circuito de tudo que é ciente, das
formas mais simples de vida até as mais racionais, de tudo que sonha, de tudo que age e
reage, tudo que é vivo e existe de sua forma própria a partir de fundamentos tão arcaicos
como o próprio silencia e a escuridão, fundamentos do som e da claridade.

Tudo isso, este amplo e expansivo poder, a consciência-bogomil já compreendia e


operava. Ela cônsciobservava o fato de que as coisas do mundo material, em
pensamento, dali fluíam e refluíam bebendo inconscientemente naquela fonte. A
diferença era que ele estava ali sem intermediações.

Dali, dessa forma, se pode inclusive se predispor à um ângulo de influência


privilegiada da fonte transcendental do inconsciente, que é a própria Eternidade.

A consciência-bogomil flutua esfericamente rumo à um grande monumento em forma


de “Olho”, e da retina desse Arquétipo da Onisciência ele pode cônscio-ver o símbolo
“∞” surgir. Imediatamente à sua volta, no “chão” do horto, meta-plantas começam a
crescer e fazer florescer símbolos diversos:

205
,
e debaixo de todas aquelas “rosas” havia uma sábia Serpente.

Então o próprio Inconsciente começava a “falar” com a consciênca-bogomil.

3 - Æternum

Pensa-se que a disposição humana em relação à qualquer conhecimento e de


aprendizado. Mas há quem entenda sabiamente que tal disposição para com qualquer
conhecimento e com qualquer tipo de sabedoria é uma função de lembrança, ou seja,
tudo que homens e mulheres fazem ao aprender na verdade é apenas relembrar.

A memória humana assim comporta uma dimensão de sabedoria plena à priori, tudo
que se pode saber já está contido nela, seja fatores e fatos científicos, existenciais ou
espirituais. Tal coisa se dá justamente porque a consciência humana está ligada, ou pode
acessar, a fonte em que está armazena todas essas informações. Pode-se fazer isso
porque a consciência comporta uma instância que vêm de fora do mundo material
criado, e essa “fonte” acessível é chamado de Arquivo Akáshico.

É deste transcendente arquivo que agora a consciência-bogomil retira o fluxo de


informação que ele recorda graças em contrapartida ao influxo de energia dirigida que
ele dirige em cônscio-pensamento ao Grande Olho arquetípico que o mira. As rosas que
florescem no horto são disposições de acesso irrestrito à essa memória universal sobre a
“Eternidade”.

Com as portas sempre abertas do grande armazém das recordações, a consciência-


bogomil pode tomar ciência no momento presentificado de tudo o que desde o passado
se depositou no estofo dessa sabedoria. Deste modo ele pode cônscio-relembrar o que as
humanidades paralelas sabem ou deveriam saber agora sobre a eternidade.

Ele relembra então que a consciência, baseada a partir de certo momento no tempo e
no espaço, segue uma linha temporal evolutiva e/ou involutiva que emanou certa vez em
um momento do passado/futuro à partir da Eternidade mesma, que é a fonte do próprio
impulso da consciência em si. Ela “fez” isso em disposição ao próprio Infinito que se
predispunha diante de si.

Assim, se misturando no tempo-espaço pelo movimento começou-se a definir a


emanação da consciência nos universos que se desenvolveram em relação à própria
consciência pelo infinito. A consciência-bogomil pode cônscio-relembrar que através da
dualidade causada por essa emanação no tempo e pela emanação no espaço a
consciência começou a se entrelação consigo mesma nessas duas disposições
convergentes e interrelacionadas que o infinito e o movimento dispuseram.

206
Através de símbolos que iam surgindo na memória, a consciência-bogomil pode
cônscio-saber como então a própria consciência pode criar a realidade das coisas.
Simbolicamente isso era expresso por um sinal análogo, que abrangia desde o
arquetípico até o fisiológico da função de vir a ser das coisas vivas.

Isso pode dar à consciência-bogomil a lembrança de como acontecia dentro das Eras
ou Idades do Mundo a permanência humana e de tudo que era vivo. Mas aquilo era
muito interessante para quem podia pensar sobre tal coisa.

Ele pode cônscio-ver em símbolos no inconsciente que a consciência segue seu fluxo
espaço-temporal atrelada à manifestação física do corpo, uma emanação energética
condensada da própria essência do movimento tempo-espacial que se ligava ao infinito
“provindo” da Eternidade.

Nesse ponto pode-se ver que os símbolos “falam” mais do que as palavras.

A Eternidade inconcebível e inconceituável em quaisquer disposições, só pode ser


proximamente apreendida pela consciência graças ao conceito de Infinito, o que tem
como representação símbolo “∞”. Pode-se dizer distintamente que é o Infinito da
Eternidade que “desce” até às enteléquias conscientes, os seres finitos.

Deste modo o símbolo do Infinito tem como contraparte finita outro símbolo, o da
finitude, que assim a consciência-bogomil pode cônscio-aprender/relembrar:

- Infinito: - Finito:

Desta forma representando que a finitude onde os seres estão mergulhados se


desenrola em uma linha sucessória na representação inconsciente da evolução da
própria consciência nos corpos nos mundos materiais afins, algo similar à cadeia de
Ácido Desoxirribonucléico, o DNA, que é o substrato genético de todos os seres, o
arquivo de informações que guarda a “fórmula” para se construir cada ser vivo. Esse
DNA é o ácido que alucina a matéria e faz surgir as miríades de ilusões de formas onde
a consciência vai enfim adentrando para conhecer os mundos onde a vida e
consequentemente a consciência surge.

A consciência-bogomil pode cônscio-lembrar que assim se desdobra a consciência e


os corpos no tempo-espaço, criando o próprio tempo-espaço onde reside:

Isto é correlato à própria linha espaço-temporal que segue indefinidamente até que em
dado momento da história surge algo como uma anomalia em seu caminho. Essa
anomalia é ao mesmo tempo o paradoxo que a consciência cria para se desdobrar dentro
do espaço-tempo e é o sinal dos tempos, das Idades do Mundo que apontam o momento
em que as Eras vão se dispondo no seio da realidade. A anomalia faz o próprio tempo-

207
espaço torcer sobre seu próprio eixo e tomar um novo rumo ascendente ou descendente,
dependendo da Era no Infinito onde deve entrar, desvencilhando assim do Infinito para
continuar na finitude.

Quando a linha entrelaçada da consciência espaço-temporal onde as coisas existem é


inspirada por uma anomalia, ela faz um giro sobre o ponto central do curso que estava
seguindo no tempo, circulando entorno da anomalia, em tono do paradoxo, então nada é
mais como devia ser.

Tal anomalia faz seu advento como uma simples tomada de consciência dissonante,
uma idéia estranha cultivada ao longo do tempo que enfim brota. Ela é um fungo no
tempo que se concretiza e através da linguagem influi na vida dos seres cientes, e
principalmente dos que fazem uso da linguagem, do verbo, do logos.

O paradoxo em si não é uma novidade, pois é uma pulsão arquetípica latente à


realidade total, que só floresce no tempo certo dentro dos tempos. Ele espera que as
consciências lançadas para junto do estofo inconsciente e consciente esgotem suas
variações no mundo objetivo, espera as grandes decepções e as crises irreversíveis, e
então chega falando sobre novos tempos, novas eras. A anomalia significa ao mesmo
tempo o esgotamento de determinada “espécie” de Era e a vontade de se galgar
momentos diferentes, mas ela não vêm trazendo nada de Bem ou Mal, ela é apenas a
força dentro do tempo-espaço que é influenciada pela Eternidade através do Infinito
para dar inicio à consumação de uma época, de uma Idade.

Ela é em sua pulsão plausível a emanação da Eternidade na finitude, está em toda


parte e todo momento de uma época em particular, mas converge para o mundo
material, assumindo uma forma física.

O que se dá no mundo material, na realidade, depende do grau de atividade do


conjunto consciente-inconsciente, de como o movimento das coisas se dispõem. Assim
essa anomalia, este paradoxo se concretiza da forma que melhor convier à função
arquetípica do tempo e do lugar onde ela deve se manifestar, relembrava a consciência-
bogomil.

No mundo objetivo, várias pulsões conscientes æternas podem ser projetadas,


dependendo do momento em que o tempo e o grau de desvio se faz necessário para que
a linha temporal convirja. A anomalia leva também em conta as realidades paralelas que
estão entrelaçadas entre si, podendo assim traçar um “plano” de décadas, séculos ou
milênios para efetuar toda sua tarefa divergente dentro dessas realidades.

208
Nos universos paralelos da objetividade deste momento que a consciência-bogomil
conhecia ele pode entender que tal anomalia se projetava do mundo pneumático para o
mundo hilético, como a Grande Sombra Sondarak o revelara para ele, sobre os corpos
de três mulheres, dos quais dois ele conhecia objetivamente em Bel e Belatrix, e apesar
dele ainda não se lembrar-saber da terceira mulher ainda, ele podia ali cônscio-entender
que ela eram três corpos femininos com suas funções espirituais masculinas.

A influência desse paradoxo anômalo poderia se dar em qualquer corpo, masculino ou


feminino, isso ele já relembrava-sabia, pois o objetivo dessa anomalia é concretizar-se
na realidade fenomênica como Andróginas em sua totalização humana. E apesar de tal
fator anômalo poder penetrar na história como qualquer coisa, um pensamento, uma
filosofia, ciência ou espiritualidade, um evento da natureza ou um encontro de
civilizações, por exemplo, ela no momento crucial da mudança de Eras afluía como o
sumo da consciência no universo, ou seja, uma enteléquia, um ser humano ou
humanóide que fizesse uso das pulsões energéticas sexuais, pois essa é a maior força
dentro da matéria, assim se recordava a consciência-bogomil.

A partir desse ponto a consciência-bogomil ali exposta no Grande Mandalyon do


Inconsciente Coletivo já podia cônscio-relembrar-se e entender sobre a menção que
Sondarak fizera em seu encontro com ele, Ariel e Beltrix na casa do livreiro. Lá a
Grande Sombra falara sobre um outro mundo que era entrelaçado à realidade da Terra e
de seu próprio mundo Alleghoria. Ele se referira à “Carangula”, onde uma outra mulher
de nome “Izobel” era a emanação do Arquétipo da Sabedoria, a Sophia Penere, que
depois de morta fora substituída lá por outra mulher, de nome “Rhelena”, para lhe
substituir em função paradoxa para suster a emanação nessas três realidades paralelas
próximas o advento da anomalia paradoxal que Belatrix era o eixo.

Dessa forma a consciência-bogomil ia se inteirando para onde deveria dirigir suas


cônscio-volições ali no Inconsciente para saber/relembrar de tudo que Sondarak queria
que se inteirasse ao lhe enviar ali. Havia então muito mais coisas para que ele se
recordasse ou viesse a saber, e ele estava no único lugar que podia lhe conceder isso.

O que ele já se recordava era então que em todos os mundo, seja na Terra, em
Alleghoria, em Carangula, era que além das três mulheres nas quais o paradoxo dos
tempos aflui, fenômenos naturais, pequenos ou de magnitudes incríveis também
aconteciam em certas ocasiões da história dessas civilizações, no passado, no presente
ou no futuro para dar às consciências uma novidade em uma dimensão tal que tenha a
função das consciências e do mundo material dentro do espaço-tempo, e essa evolução
poderia ser ascendente ou descendente dependendo onde a realidade presente está
estabelecida.

Dependendo como a fonte primária e pré-definida da sintonia da Era está disposta,


essa anomalia se concretiza humanamente como um avatara andrógino de função
especifica. No final da Idade de Ferro onde o planeta Terra e sua civilização estão
instalados, cabe esse anômalo andrógino curvar a linha do tempo-realidade rumo à
Idade de Ouro.

209
Assim, a consciência-bogomil cônsciobservava que nesses tempos na Terra, enquanto
a consciência humana se atrofiava, o inconsciente se expandia e a pressão sobre a curva
da anomalia é mais radical, graças à velocidade que a realidade ganha ao atingir o
“fundo do poço” das Idades. Ali surgiu então um ser de alma androgenizada à força,
Belatrix, nos paradoxos de sua própria existência.

Em uma Idade de Ferro, quando o mundo se deteriora, junto com as funções da


própria consciência, também se alterna no corpo humano a própria morada do espírito,
como a função recíproca do Símbolo fisiológico que abarca esta função consciente das
pessoas. Assim a consciência-bogomil podia se lembrar/saber do detalhe que dizia que
em cada Idade diferente o espírito é visto em uma parte do corpo humano, e esse órgão
comportará também o paradigma precedente de cada Idade de forma arquetípica para
onde se volta a noção humana de base da consciência.

Os símbolos que floresciam no horto abaixo do Grande Olho Onisciente que “falava”
à consciência-bogomil ele pode entender/relembrar que ao entrar na Idade de Ferro, o
paradoxo fala aos entes ao, e pelo, Coração. Quando da passagem da Idade de Prata para
o Bronze ela fala aos Pulmões. Na passagem da Idade de Ouro para a de Prata ela fala
ao Cérebro. Nessa Idade de Ferro ela fala ao Timo. Desta forma Cérebro, Pulmão,
Coração, Timo, são as moradas físicas da Pneuma, do Espírito ou Alma durante os
quatro grandes ciclos infinitamente retornáveis das Idades no Tempo-Espaço, até
quando o Mahapralaya, a grande dissolução de tudo novamente acontecer. Esses órgãos
são os receptores das energias de todo o continuum da existência que vem da Eternidade
para se abrigarem na consciência humana.

4 - Um adendo sobre as Idades dos Mundos

No inconsciente há a afluência de muitos arquétipos dessa sabedoria das eras. Ela faz
parte de uma sabedoria perene que percorrer os mundos e diversos povos pensaram essa
premissa em suas doutrinas sobre o tempo e o espaço em diversas realidades. A mais
comum e ecoante pelos mundos dizem da existência de três ou quatro eras pelas quais
os seres e as consciências passam.

Na realidade da Terra, essa doutrina está disposta entre vários povos ao longo da
história. Gregos, Maias, Egípcios, Sumérios, interpretaram o mundo com base nas eras,
mas a interpretação dos Hindus é a que ascendeu à consciência da humanidade atual,
mesmo tendo muitas interpretações discordantes dentro da própria visão de tempo.

Ela reza que o mundo passa seguidamente por quatro Eras, ou Yugas diferentes.

A Idade de Ouro ou Era da Verdade, chamada em sua língua original de Satya-Yuga,


onde predomina a bondade entre a humanidade. A comunicação direta com Deus e a
pureza são predominantes, só existem sábios nessa época. O símbolo de Júpiter
(Sagitário) a caracteriza. Os seres humanos vivem milhares de anos e tem uma memória
incrível, sem precisar de livros para guardar seu conhecimento, pois o acesso ao arquivo

210
Akáshico é direto. Nessa era a Sabedoria penetra totalmente no organismo universal e
os humanos já nascem sabendo de suas obrigações e as cumprem com fidelidade e
alegria dia a dia harmoniosamente. É a época que passa mais lentamente, pela
proximidade com o Infinito e a amplidão da consciência humana. O paradoxo dessa era
é a própria Eternidade.

Mas finalmente essa época decai na Idade de Prata, ou Tetra-Yuga, onde predominam
a bondade e a paixão. Nesse período os reis e as conquistas são comuns, Deus só se
manifesta em casos raros e à pessoas escolhidas. O símbolo do Sol é o que caracteriza
esta época. A sociedade humana dá sinais de entrar em desordem, os deveres deixam de
ser espontâneos e naturais, deve-se então aprendê-los dos sábios, a memória começa a
ficar obscurecida ao longo da idade das pessoas que vivem centenas de anos. O tempo
começa a urgir e a velocidade aumenta. O paradoxo dessa era é Certeza.

A Idade de Bronze, ou Dwapara-Yuga, vem em seguida, e é uma idade onde


predomina a paixão e a ignorância conjuntamente. Nessa época as raças começam a
aumentar e aumentam-se também as provações da humanidade. Seu símbolo é a Lua. O
período de vida humana encurta-se. Nessa era a humanidade tem o desafio de equilibrar
as dualidades de imperfeição e perfeição, luz e trevas. A perfeição da ordem espiritual
não está mais à frente de tudo, os seres começam a ficar cegos pelas paixões e
mesquinharias materiais, dissolvendo o estado semi-divino da sociedade. Nesta era, a
santidade só pode ser alcançada por jejum, devoção e ascetismo e práticas religiosas,
coisas que requerem períodos maiores de tempo, assim a aceleração aumenta na medida
em que a consciência vai atrofiando com tantas observâncias. O paradoxo dessa era é a
Dualidade.

Finalmente chega a Idade de Ferro, ou Kali-Yuga, a mais baixa e feroz de todas as


Eras, é onde predomina a ignorância e a estupidez total. Tudo é invertido, a religião (fé)
se torna descrença, e a descrença se torna religião. Seu símbolo é para os Hindus o
planeta Rahu, que tem a órbita invertida em relação à da Terra. Apesar de se produzirem
milhões de livros para guardar a sabedoria, todos preferem os gibis e a televisão, e a
memória é curta. Há a necessidade da leis para dominar a sociedade e obrigar as pessoas
a agirem, e quanto mais leis, mais criminosos surgem, e então nessa idade chegará o
momento que a própria lei dos homens não será mais respeitada e tudo se diluirá em
conflito. Com o tempo urgindo rápido e as consciências atrofiadas, tudo é próximo da
morte. O paradoxo dessa era é a Incerteza.

Depois das convulsões da Idade de Ferro, a humanidade se regenera pelo sofrimento


causado sobre si mesma, e purificando-se vai ascendendo velozmente para a Idade de
Ouro novamente até o tempo-espaço ser refreado pelo esgotamento em fricção com a
insinuação da Eternidade.

Assim se dão as quatro eras dos mundos.

5 - Infinitum

Ali naquela aula de Recordação, a consciência-bogomil ia se inteirando daqueles


mistérios no seio do Misteryum que o Mandalyon Inconsciente proporcionava.

211
Aquilo tudo eram recordações enfim, a forma de se acessar as verdades contidas
dentro da própria consciência humana. Mas a consciência-bogomil não podia deixar de
raciocinar toda aquela disposição de saberes revelados/recordados tinha influencia sobre
o que ele pensava anteriormente.

Pela imanência dos Símbolos que ali lhe falavam ele pode reconhecer enfim como
certas formas de ele ver o mundo a partir de sua realidade em Alleghoria devia ser
corrigida ou pelo menos redefinida do presente até o passado então. Ele assim achava
pois agora confirmara, pois se recordara, que em sua realidade a Igreja da Luz Serena
tinha mesmo toda a razão em asseverar em um antigo debate promovido no reino de
Altair, onde o ponto de discussão era o próprio Tempo, ou seja, o tempo-espaço por
qual aquele mundo passava.

Era pois certo que o representante de sua seita tinha razão ao defender a idéia de que o
mundo adentrava ali no Zion, que era como nomeavam a “Idade de Ferro” na cultura
universal de Alleghoria. A princesa Bel Arox era então a anomalia que ali fazia-se de
eixo para o giro histórico no tempo-espaço da consciência, porém faltavam então,
reconhecia a consciência-bogomil naquele momento, afluir mais fatores para que se
provassem definitivamente às consciências e assim às pessoas daquele mundo tal fato,
ele então sabia que não se recordava do que era, mas sabia também que iria em algum
ponto daquela sua estadia no Mandalyon ficar saber, ou enfim, recordar.

Porém o fato de eles em Alleghoria entenderem as Eras como três e não quatro não
provava nenhum erro, pois eles pensavam o Meon como duas Eras diferentes, uma um
Meon descendente e uma um Meon ascendente, e era justamente nesse entendimento
das Eras que a consciência-bogomil entretanto já via um erro filosófico de seu mundo, e
talvez fosse por isso que na ocasião daquele debate público sobre o Tempo, que o
representante do Vorismo pode tão facilmente declarar inferências que derrotaram
diante a audiência os argumentos da Luz Serena.

Não fora então naquela ocasião porque tinha razão ou porque suas idéias eram mais
sedutoras ao olhar do público, mas porque a Luz Serena pensava sobre um argumento
falho desde a tese, podia agora entender em consciência o mago.

Para sua própria surpresa a consciência-bogomil podia reconhecer como estava


intuitivamente no caminho de reconhecer o cerne daquele erro lógico onde operavam, lá
naquela época, ele pode entender agora, que talvez já vinha sendo insuflado pelo que
veio a saber agora, e isso fora reformulando até o passado toda sua sabedoria, pois ele
então fora o único ente de Alleghoria até agora a saber que não havia enfim um Meon
ascendente do Zion para o Aion.

Ou seja, isso equivaleria dizer, como agora ele cônscio-aprendera/relembrara, que da


Idade de Ferro se vai diretamente à Idade de Ouro, e dessa se declina consequentemente
pelas Idades de Prata e de Bronze de volta à Idade de Ferro, e assim infinitamente.

212
Ele pode compreender então que talvez a realidade da Terra era mais propicia a se
entender isso por ali o símbolo do Infinito era mais preciso em revelar a confluência
histórico-fisica da disposição da consciência no espaço-tempo.

O erro lógico em que a humanidade de Alleghoria sustinha se devia justamente pelo


uso do símbolo do Infinito, que lá era assim:

Talvez, ponderava em consciência o mago, em algum momento no passado de


Alleghoria, acontecera algo de tamanha proporção e força no mundo cotidiano, que
instalou aquele símbolo na memória coletiva de sua humanidade este símbolo como
representação do Infinito, aquela imagem quase antropomórfica.

Ele se recordava que aprendera comumente que aquele sinal representava em sua
parte superior a perfeição do Aion disposta na curva arredondada perfeita. A parte
central representava o entrelace dos Meons que não se separavam conceitualmente. E a
parte inferior do grifo, pontuda, representava justamente a gravidade acentuada do Zion.

Ora, o que faltava ali neste símbolo, e que por algum motivo sua humanidade se
esqueceu, era representar dentro daquilo tudo o movimento infinito das coisas que o
símbolo do Infinito no mundo da Terra dispunha harmonicamente assim:

Ligando asserções a consciência-bogomil pode então chegar, para sua própria


cônscio-surpresa, que talvez os próprios magos, com o poder de viajar no tempo, um dia
alteraram precipitadamente a história de Alleghoria, cravando aquele símbolo no
inconsciente coletivo. Tal teoria revelava muito mais coisas à essência consciente do
mago Bogomil, revelava, ou melhor, lhe recordava, pois aquilo veio como uma certeza
relembrada ali no Inconsciente, que quando se torna possível voltar ou avançar no
tempo, se cria uma distensão na linha da realidade, e mesmo que um hipotético
cronosnauta nada mude no passado por exemplo, só pelo fato de ali naquele momento
do continuum tempo-espacial estarem dispostos dois entes da mesma enteléquia, tudo se
torna diferente no futuro.

Assim, como ele acreditava, que na história da humanidade de Alleghoria e da Luz


Serena houveram muitas dessas viagens no tempo ao passado, para que os magos
mexessem os “pauzinhos” do poder, eles provavelmente tinham causado um paradoxo
que agora eles mesmo pagavam ao serem humilhados por um seita espúria no palco da
sociedade. Isso podia acontecer em qualquer mundo, mas onde tal poder estava à
disposição para uma mente mágica, as coisas podiam desandar.

213
Na Terra a ciência reconhecera que era impossível se viajar no tempo, e com aquele
paradigma dominando o pensamento eles nunca galgariam à tal aventura, ou se tivessem
um dia a tecnologia para isso e a usaram, talvez a própria realidade já estava dissonante
em sua linha, mas o símbolo do Infinito ali parecia provar que tal fato não acontecera, e
o inconsciente coletivo e o arquivo akáshico interpelado sobre este ponto não revelava
nada.

Outro detalhe lógico sobre isso revelava/relembrava à consciência-bogomil um fator


importante. Ele podia cônscio-entrever que da Idade de Ferro, a mais baixa e obscura ali
disposta, se ascenderia à Idade de Ouro diretamente, e não em uma escala hieráquica, do
Ferro ao Bronze, do Bronze à Prata e dessa de volta ao Ouro.

Ele pode compreender que isso se deve ao fato de existirem mais coisas co-
influenciando permanentemente a emanação da temporalidade, que era a propria
manifestação física da consciência no mundo.

Tudo isso verga a linha temporal que já é circular por si só no final de uma Era. Esse
envergamento se dá por influência da aceleração do tempo, que por sua vez é causada
pelo permanente afunilamento da própria consciência dentro do tempo-espaço na
medida em que decai.

No símbolo do Infinito da realidade da humanidade da Terra a consciência-bogomil


pode perceber o que as palavras mal conseguem passar.

Ao se mudar o ângulo de observação do ∞ pode-se ver que ele tem a forma de quase
um duplo “U” unicursal tridimensional, onde nunca se torna na mesma vértice ao ponto
de partida:

Desta forma o fluxo de consciência e do inconsciente não seguem essa linha unicursal
dentro do tempo-espaço onde se manifestam. O símbolo representa o movimento eterno,
mas o conjunto conscientizante dá saltos de ponto em ponto onde o movimento se curva
infinitamente no espaço-tempo concernente.

Assim do alto da Idade de Ouro ela salta para o alto da Idade de Prata. Depois ela
mergulha saltando para a Idade de Bronze e depois mergulha mais ainda rumo à Idade
de Ferro. Quando lá chega a velocidade da consciência-realidade é tamanha que depois
de ricochetear no fundo do poço das Idades ele tem velocidade o bastante para saltar
para cima novamente, e assim ascender rumo à Idade de Ouro.

Em sua disposição no tempo-espaço, a consciência vai galgando assim o Infinito:

214
Cada anomalia predisposta pela Eternidade através do Infinito, em cada fase é tão só a
exegese da consciência dentro deste percurso Infinito, ∞, que vai aumentando em
velocidade no continuum espaço-temporal em que a consciência se estabelece para
enfim encontrar cada fase de sua guinada. Assim a linha espaço-temporal segue
indefinidamente, mesmo que parece seguir em linha reta, ela está sempre prosseguindo
em elíptica final, formando no Infinito um ziguezague sinuoso da consciência/realidade
dentro das Idades afins.

A consciência-bogomil pode cônscio-ver surgir no horto os símbolos sobrepostos


desta aventura da consciência no Infinito:

Ele pode ali naquele momento ratificar a memória que dizia que não era futilmente
que os sábios diziam que o “mundo é mente”. A realidade é a convulsão da
consciência/inconsciência através do Infinito, onde a consciência está involuindo ou
evoluindo, determinando a realidade objetiva das coisas, do mundo em disposição com
sua determinada Idade.

Isto que a consciência-bogomil colhia no Inconsciente Coletivo é uma informação de


algo tácito e irrevogável, uma lei cósmica que segue ordenando as coisas quando não
pertubado em sua linha natural, é a descrição de um “mecanismo” de concreção dentro
dos limites finitos que a Eternidade concatena em seu interesse próprio incognoscível e
que a ao longo dos mundos e dos tempos, a sabedoria da Gnose pode apontar algum

215
motivo plausível, pois tal meio de sabedoria é direto com a Eternidade, mas está
gravado já no arquivo Akáshico que isso se dá assim justamente para possibilitar à
consciência, ou seja, ao espírito humano, se libertar das maquinações causadas pelos
Arkontes. Mas isso era reflexão para outro momento, admitia a consciência-bogomil.

Ainda sobre a relação Eternidade, Infinito e finito, a consciência-bogomil pode


apreender/recordar mais algumas coisas ali diante do Olho Omniscente.

Ele recordou que em termos temporais, a finitude é entendida na variação passado-


presente-futuro. Em termos espaciais a finitude é entendida na variação do movimento,
os deslocamentos relativos que podem ser referidos com palavras como “lá”, “aqui”,
“ali”, “antes, “durante”, “depois”, entre outras. Ou seja, termos para se determinar um
“local” no espaço e no tempo.

As duas concepções de finitude, espaço e tempo, se interpenetram de modo tal que é


difícil se distinguir um do outro através de conceitos, elas se definem quando muito
dentro de um contexto. Necessita se criar palavras para se dizer sobre essa diferenciação
do movimento dentro do tempo e dentro do espaço. O conceito básico latente é o de
Movimento, assim, estar no tempo-espaço é estar sempre em movimento.

Estamos sempre em movimento, mesmo quando estamos estacionados. Desde os


átomos de nosso corpo até as galáxias que abrigam nossos planetas estão todos se
movendo, não há repouso total no tempo e no espaço, aqui o movimento é infinito,
aquiescia a consciência do mago.

Já a Eternidade, que é a idéia pela qual a consciência-bogomil perscruta, é a ausência


d tempo e espaço, consequentemente, é a própria ausência de movimento. É errôneo
conceitualizar negativamente a Eternidade, mas a consciência humana só pode se
aproximar um pouco da idéia do Eterno assim, então da Eternidade, pode-se dizer que é
um “eterno momento” uma instantaneidade.

Porém até os momentos se sucedem no seio do espaço-tempo, assim o termo humano,


ou seja, dualista, que se aproxima da Eternidade, é o “Nada”. Desta forma, apesar de
implicar que a Eternidade “seja” uma “coisa”, que é negativamente oposta ao “Tudo”, e
entendam “tudo” como espaço-tempo e os universos e todas as coisas neles
remanescentes, o conceito de “nada” guarda em si um sentido não-dimensional e
atemporal em relação às coisas.

A consciência-bogomil poderia reconhecer até disposto ali no horto do Mandalyon do


Inconsciente alguma forma-monumento que remetesse arquetipicamente ao Nada.

Entretanto, seguindo a linha conceitual de sua aprendizagem-rememorização que


dispunha ali ele continuou na asserção para cônscio-ver aonde ia dar.

A Eternidade é mais firmemente relacionada, em sua precária distinção, para com o


Tempo, sendo um de seus predicados à partir da consceitualização humana a

216
Intemporalidade. Já o conceito de Infinito que a Eternidade agrega revela sua afinidade
para com o Espaço.

O Infinito é o único ponto de acesso à Eternidade, por isso para se alcançar proezas de
todas as formas na finitude, vencer as leis do tempo e do espaço, atravessar realidade e
com a consciência observar o Inconsciente, usa-se da Luz, pois a luz é o que de material
está mais próximo do Infinito. Quando dizemos Iluminação, não estamos apenas
fazendo um jogo conceitual com a palavra, mas estamos indicando uma forma literal de
se vencer as amarras da finitude através da luz.

A consciência-bogomil neste ponto de sua intelecção rememorizante no inconsciente


pode saldar seu Arquétipo de Deus, representado pela Igreja da Luz Serena que traz no
símbolo da Chama Dupla o vislumbre da Eternidade em seu reflexo tranqüilo.

Desta forma, medianye o portal de luz que o Infinito proporciona, pode-se constatar
que o que quer que exista, o ser procede desta forma do nada, o infinito é em si o
paradoxo que nega a realidade do finito como tal, e o soluciona em si desde a origem.

Por isso a matemática e a imaginação poética são os meios que mais próximos
chegam de acessar o Infinito conceitualmente, e dali a Eternidade. Isso que a
consciência-bogomil apreendia era gnose pura armazenada no arquivo Akáshico do
inconsciente coletivo das humanidades.

O Infinito é o “nunca consumado”, sem fim como os números e infindável em relação


verbal com a ação e estado que a imaginação poética consegue extrapolar. O Infinito é
esse “nada consumado” já finalizado por ser este seu Ser.

Assim sendo, a Eternidade é o Não-Ser e o Ser, mas prosaicamente definido como “a


Eternidade é”, isso é tudo o que poderia ser dito Dela e cabe no espaço gráfico de uma
única idéia infinda que a consciência pode dispor: “É”!

Essa Eternidade tão tortuosa de se expor em idéias, é o que através do Infinito, sustém
o Arcano do tempo-espaço no desenrolar das Eras e Idades, indinitamente.

Assim a consciência-bogomil podia ver o fim de sua “aprendizagem” diante do Olho


Omniscente, e agora lhe interessava poder dispor de outros previlégios dos poderes do
Mandalyon do Inconsciente. E ao se fechar aquele “olho” ele já se remetia à outro, onde
poderia enfim abarcar a cônscio-visão de outras paragens que lhe interessava
imensamente.

Ele cônscio-queria agora ter um vislumbre da história da civilização de Carangula.

6 - Carangula

Era uma vez um mundo chamado Carangula.

217
Nessa realidade havia um povo que dera origem a uma grande civilização em um
universo imensamente interessante.

Durante milhões de milhares de milênios de anos de evolução, esse povo ao fim


edificou uma cultura mundial, com sua sociedade, seu sistema governante, mas o mais
interessante dessa humanidade é sua fé, eles cultuam os fenômenos cósmicos, pois ali
naquele universo era mais comum do que em qualquer outro os eventos brilhantes nos
céus conhecidos como Supernova, Pulsares e Quasares.

Uma Supernova, ou Nova, é uma estrela que graças às suas singularidades físicas, se
torna de forma brusca muito luminosa. Isso se dá porque ela explode. Um Pulsar é uma
estrela que de determinado em determinado intervalo de tempo, emana um grande
brilho também. Já um Quasar é mais misterioso, se crê que seja o núcleo de uma galáxia
ativa, podendo ser também um Buraco Negro localizado no centro de uma galáxia, ele é
uma miríade de estrelas compactas, o que lhe dá a aparência de “quase-estrela” no céu,
o fato é que ele imite em grau muito maior luz e radioatividade. Todos esses objetos
celestes junto com a irradiação de brilho emitem também diversas formas de energias
não percebíveis fisicamente, como os raios-x, por exemplo.

Ora, esse povo do mundo de Carangula acreditava que o espetáculo comum em seu
céu das supernovas, dos pulsares e dos quasares eram representações da atenção e da
comunicação de seu Deus para com eles, então eles criaram todo um sistema divinatório
sagrado para interpretar as ocorrências das novas, dos pulsares e dos quasares, vendo
assim nesses fenômenos o que Deus tinha a lhes dizer.

Seu calendário é baseado nas emissões desses fenômenos, eles fazem assim suas
festas sagradas sob o brilho intenso iminente de certas estrelas e galáxias. Seu ano é
marcado pelas explosões de vinte e três grandes pulsares mais próximos de seu planeta,
e a rotação de seu planeta gira em torno de uma “estrada celeste” iluminada onde onze
supernovas fixos no céu de seu mundo que apontam e relembram no espaço os eventos
principais que aconteceram em sua evolução através do tempo na época em que essas
estrelas explodiram e se tornaram seus marcos cósmicos. Os quasares distantes são o
fundo de seus mitos da criação.

O nome mesmo de seu planeta e a autodenominação deste povo, referia-se ao quinto


evento cósmico de uma supernova que eles chamavam de Quinto Portal, a Carangula
Sideral.

Eles registraram que na época que essa supernova explodiu aconteceu em seu mundo
o advento de um tipo de sabedoria que antes não existia entre seu povo. Ali cravaram a
criação de Carangula como seu mundo, no fim do que reconheceríamos como Idade de
Ferro.

Naqueles dias em sua história e evolução, quando as sociedades daquele mundo já


estavam estabelecidas com sua cultura e se convulsionavam em guerras e destruição,
uma impressionante supernova aconteceu. Essa supernova foi tão poderosa que eles
viram ali o sinal de que deviam promover uma guinada em sua história. Mas tal

218
fenômeno foi tão potente que atingiu a realidade paralela adjacente ao seu universo, que
é onde fica o universo do planeta Terra. E é aí que as histórias dessas duas civilizações
se entrecruzaram, de forma física.

Com a sincronia física deste fenômeno estelar, que foi tão intensa em Carangula que
atingiu outra realidade paralela, fluiu de uma realidade para outra, mutuamente diversas
energias-pensamento carregando informações sobre aquelas duas realidades paralelas.

Passou pelo Quinto Portal do povo de Carangula uma onda de pensamento advinda do
planeta Terra, acontecendo o mesmo na direção oposta.

Em Carangula aquela supernova foi vista como o maior sinal de esperança até então
demonstrada pelo Deus deles, e fluiu da realidade da Terra para lá uma energia-
pensamento de sabedoria e conhecimentos, coisas que giravam em torno da batalha de
Tróia, energias do pensamento de pensadores denominados na Terra de “Pré-
Socráticos”, e também influxos do pensamento reconhecidos como Arabismo e o
Taoísmo. Aquele povo que dava atenção ao brilho nos céus pôde recolher em sonhos
espalhados pelo seu incomum universo as irradiações dessas sabedorias.

Essa civilização não fazia isso intuitivamente, eles tinham desenvolvido uma técnica
de se sonhar de acordo com seu calendário, quando a conjunção de seu planeta e seus
principais observatórios estavam alinhados com os marcos siderais das supernovas
convertidas em nebulosas, com os pulsares, os distantes quasares e com o a estrela que
era seu sol, como o há uma para a realidade da Terra, e mesmo para de Alleghoria.

Nos períodos dedicados a se concentrar na sua Carangula Sideral, eles captavam os


eflúvios dos pensamentos advindos da Terra. Seus sacerdotes filtravam e interpretavam
esse conhecimento de acordo com seu conhecimento de pulsares e quasares e novas e
assim ia se desvencilhando em meio à civilização novos mitos, novos sistemas de
pensamentos, as novas filosofias, que agregadas à sua própria cultura estelar, faziam
nascer ali as idéias para uma época de grande prosperidade.

No período desse evento na realidade de Carangula, que marcou o reinício da


contagem de tempo em seu calendário sagrado renovado, houve também advento ao
poder de um governante mundial chamado Kalcimorg, e ele tinha por rainha uma
mulher de valor incrível, de nome Izobel.

Nos primeiros anos que Kalcimorg e Izobel ascenderam ao poder, eles seguiam as
diretrizes governamentais, na euforia reinante daquela supernova, eles ligaram seus
ditames temporais em relação ao fenômeno no espaço. Assim inauguraram uma era
cheia de promessas de justiça social e desenvolvimento cultural, mas sua sociedade
estava no auge das crises que caracterizam o fim de uma Idade de Ferro.

Assim não evitaram com o fato de ligarem seu governo à novidade no céu, de ganhar
mais inimigos. E uma grande guerra como nenhuma outra se desenrolou em seu mundo.
A grande explosão daquela estrela revelara o advento de grandes embates no mundo
também.

219
A proposta daqueles soberanos em zerar o tempo e inaugurar um novo mundo foi
vista com desdém e rancor pelos seguidores dos antigos governantes que tiveram a
autoridade contestada e o poder deposto pelo sinal no céu e o advento de novos homens
e mulheres com pensamentos de mais concordâncias entre os seres que surgiam naquela
época. A ferocidade de ambas as partes era enorme, só que alguns usavam de armas e
outros de idéias.

Em meio a toda intriga, jogo de poder e batalhas, a esposa de Kalsimorg, Izobel, fora
vitima de assassinato covarde, cometido por um homem fanático chamado Boktus
Kratuls.

A morte da sábia governante serviu de impulso para a comoção das pessoas daquele
mundo, e da comoção, agregada ao temor de massacres ordenados por parte de
Kalsimorg que amava intensamente sua esposa, uma trégua não declarada se instaurou.
Aquele mundo parou temendo o pior.

Kalsimorg então se recolheu na lamuria interior pela perda de Izobel. No peito remoia
um ódio imenso contra todo o mundo.

Naqueles dias ele se recolhera desolado em uma das construções que usavam como
observatório das estrelas e dos monumentos estelares que eram as supernovas. Ali no
observatório do Cavalo Branco, que era dirigido à supernova da Carangula Sideral, ele
meditou por muito tempo, observando a fabulosa formação no céu de seu mundo com
seus aparelhos ópticos poderosos, ele meditava sobre o que devia fazer a seguir como
governante detentor de todos os poderes daquela civilização que parte se insurgiu contra
ele e principalmente, de forma irrevogável, contra a vida da mulher que mais amava.

Eis que naqueles dias, uma mulher que outrora, nos tempos anteriores à grande
supernova, servia como uma espécie de cortesã na corte da linhagem dominante daquela
época em Carangula, e agora prestava serviços como vestal renovada no observatório de
Carangula Sideral.

Ela era chamada de Rhelenna, nome da época de cortesã que seguiu sendo chamada,
por costume. Rhelenna era uma entusiasta dos pensamentos que o novo governante se
esforçava em tornar a luz daquele mundo. Encontrando Kalsimorg por ali,
convalescendo em dor e rancor, ela pôde se aproximar do governante e novamente
inspirá-lo, como só uma mulher sábia sabe fazer.

Com debates inteligentes e troca de idéias dias a fio, ela seduziu a mente e o coração
de Kalsimorg, fazendo renascer em seu peito a força jovial do órgão que nele realmente
estava atrofiando, aquele no meio do plexo solar de todos os seres humanos, que em um
universo como o de Carangula, era o receptor das emanações proeminentementes
abundantes das luzes de todas as estrelas que fazia os dias daquele mundo serem mais
claros que em outros, e a noite um arco-íris sideral de notável resplandecência.

220
Rhelenna conseguirá ativar de novo o timo de Kalsimorg, que na visão da medicina
daquela civilização, era o órgão da vida e da sabedoria, pois por ele a palavra de Deus
vibrava no peito das pessoas.

Ela fora então desposada por Kalsimorg, e inspirando um ao outro, eles implantaram
na constrangida civilização decadente de Carangula, uma nova era. Quando o
governante maior de Carangula a desposou, ela tornou a ser chamada por seu nome de
nascimento, que era Kharinae, e foi com esse nome que ela entrou para a história
daquela civilização, sendo que ela mesma representava a radical conversão de todo
aquele mundo e dos seres humanos dali, a uma nova consciência.

Assim um período de grandes ajustes sociais se fez necessários naquele mundo, todo o
povo daquele travou uma luta com os impulsos negativos dentro da sua sociedade, cada
um pagando o preço exigido para a paz definitiva, que não foi baixo.

Com o advento de Kharinae à governante ao lado de Kalsimorg, novos tempos e


novos pensamentos influenciaram livremente a mente da humanidade de Carangula,
eles conduziram aquela civilização à um novo patamar de justiça e desenvolvimento
social, cultural e clemência universais, começando a instalar então a Idade de Ouro ali.

A cerimônia de matrimônio de Kalsimorg e Kharinae foi um grande evento em


Carangula. Se reuniram ali por vinte e três de seus dias, cada um dedicado ao
monumento celeste que prefiguravam seus meses. Quando as cerimônias culminaram no
templo do observatório do Quinto Portal, os sacerdotes e o casal governante vaticinaram
uma mensagem trazida em sonhos de muitas pessoas onde viam grandes nuvens
reluzentes lhes falarem. E com a força dos pensamentos das milhares de pessoas ali
presentes, eles enviaram mentalmente essa mensagem ao Quinto Portal, como um
agradecimento às mensagens em forma de pensamento que procederam de lá.

Essa mensagem chegou ao planeta Terra pelo pulsar dentro da nebulosa de


Caranguejo. A mensagem dizia:

“Suspendam toda vossa descrença. Quando Kharinae brilhar no céu de seu mundo,
uma Nova Era estará próxima de surgir pelo esforço da consciência de uma só mulher
e um só homem. Três mundos a verão, e como esposo e esposa, assumirão núpcias
entre a poesia e a razão, gerando a perfeição.”

7 - Um conto de dois mundos

Assim a lenda do mundo de Carangula foi recordada por Bogomil enquanto habitava
no lugar da confluência de toda recordação e saber no Grande Mandalyon do
Inconsciente Coletivo, onde grandes monumentos arquétipos emanavam a sabedoria
estocada no Arquivo Akáshico dos mundos paralelos.

221
Mas ali mesmo, depois de cônscio-saber da história de Carangula o fluxo de
informações não parou, e ele pode retirar da memória dos universos a história de como a
realidade de Carangula e da Terra se convergiam em um conto paralelo. Assim
recordou.

Por causa de misteriosos fatores de sincronicidade e da co-influência dos mundos


paralelos que se trançam entre si, quando o fenômeno cósmico que se deu na realidade
de Carangula inaugurando novos tempos, na Terra acontecia o ano de 1054 depois de
Cristo, onde um fenômeno sideral semelhante ocorreu também.

Houve vários registros terráqueos do fenômeno por volta do meio daquele ano. Ele foi
visto em todos os continentes, mas em alguns lugares mais do que em outros, os seres
humanos ali estabelecidos dedicaram tempo para registrar e interpretar o que seria
aquele brilho, já que nesse universo paralelo, apesar de tais eventos serem até comuns,
mas menos que no universo de Carangula, aquele evento causou fascínio.

Nesse momento da civilização da Terra, a ciência astronômica em geral estava


nascendo, sendo mais desenvolvida em uns lugares do que em outros, graças às culturas
diferentes.

Nesta época no planeta Terra se desenrolava no chamado Ocidente o período que se


denominou posteriormente como Idade Média, onde crescia e se arregimentava o
pensamento cristão, que tinha uma visão muito limitada das coisas da natureza,
baseando sua visão cientifica na sabedoria de um antigo sábio grego chamado
Aristóteles.

Cosmicamente em relação às Idades do Mundo, passava-se ali a guinada para a Idade


de Ferro rumo à uma ascendência ainda muito distante nos séculos adentro, mas não
graças somente ao Ocidente, mas também graças ao Oriente.

E o caso de aquele evento celeste ter tido pouca importância e registro dentro dos
anais da cristandade se deve ao fato de que as pessoas dominadas por esse pensamento
entendiam que o mundo, ou pelo menos, seu “mundinho” atolado em lama, era o centro
do universo, e o evento de uma estrela explodir nos confins da galáxia era uma novidade
para aquelas mentes pouco observadoras.

Os povos que viviam no centro da civilização cristã daquela época na Europa não
deram nenhuma atenção para o fato de uma nova estrela surgir no céu, e que, no período
de seu surgimento, pôde ser observada à plena luz do dia durante vinte e três dias.

O único relato desse fenômeno que sobreviveu no seio da cristandade está em certos
anais de monges do país chamado Irlanda. Ali, em textos agora corrompidos, os
“homens santos” daquelas paragens se referiram àquele brilho nos céus como uma
manifestação do Anticristo, o inimigo do fundador de sua Igreja e de toda humanidade
pia.

222
Observadores em outras localidades do planeta Terra registraram aquele fenômeno.
Onde futuramente se chamaria América, os homens ali registraram a supernova nas
paredes de suas cavernas sagradas. Também na Arábia e na China, civilizações mais
avançadas, e com astrônomos em seu rol sócio-cultural, observaram o fenômeno e o
registraram em seus livros, sem fazer nenhuma menção catastrófica ou impar para as
crenças que zelavam.

Só setecentos e vinte anos depois é que aquele fenômeno entrou para um catálogo de
registros de eventos siderais na Europa, pois aquele pulsar deixou um fabuloso e belo
monumento residual nos céus, uma nebulosa. Nesse catálogo foi designado o nome de
Nebulosa do Caranguejo para os restos siderais remanescentes daquela explosão nos
céus em 1054, dC.

Assim, como na Europa foi percebido que aquele sinal nos céus anunciava o advento
do Anticristo para certos monges na Irlanda, fluiu naquela ocasião da realidade de
Carangula uma onda de pensamento que circundaria o mundo e a certa altura
influenciaria no pensamento do então “temerário” Galileu Galilei, o homem que iniciou
a retomada da razão no mundo dominado pelo cristianismo.

Na verdade, na realidade Terra, dentro da civilização cristã, o primeiro problema que


o astrônomo Galileu enfrentou se deveu justamente ao fato dele temer poder observar
tal brilho nos céus, afinal ele aprendera e todos ali concordavam, que o universo era
imutável, e segundo a Igreja tudo girava em torno da Terra e nada de novo poderia
surgir no firmamento, já que segundo seu livro sagrado, a Bíblia, a obra de Deus estava
completa há muito tempo para que de repente surgisse uma nova estrela a brilhar no céu
do mundo.

O que se deu depois disso, dentro no pensamento cristão e dessa humanidade, sobre o
conhecimento da natureza e do mundo que fora sendo desvendado é parte da História. A
lenta história do vôo da razão. Uma questão que procede é como pode surgir, com essa
raiz nas pocilgas da inteligência humana, toda a ciência e tecnologia que nos dias de
hoje o mundo comporta? A resposta paradoxal é que um só individuo faz toda diferença
quando no seio das Idades, ele presta atenção em uma novidade, e pensa a partir dela.

Entretanto, na barganha inter-universos que foi possível com essa supernova, para
realidade de Carangula aquela supernova abriu a mente daquele povo para questões que
circulavam além dos limites da cristandade.

E de Carangula para a Terra, além do marco físico da supernova nos céus, veio então
os presságios de uma Idade de Ouro baseado no simples fato de se abrir a consciência
para observar as estrelas em um universo sempre em eterna criação ou
desenvolvimento.

Do período da explosão da supernova até Galileu, eventos históricos decisivos foram


travados na Europa para revelar a verdadeira alma da Igreja cristã baseada em Roma.

223
Entre esses eventos deve-se atentar para o massacre da última reminiscência
organizada dentro da sociedade do pensamento Gnóstico nesse mundo, se apagando nas
centenas de fogueiras que queimaram os últimos sobreviventes da fortaleza Cátara em
Montségur, no sul da França, depois de mais de cem anos de perseguições, massacres e
cruzadas contra gnósticos cristãos dentro da cristandade.

Desse momento em diante no planeta Terra o pensamento gnóstico mergulhou na


clandestinidade, sobrevivendo na sabedoria alquímica, e só renascendo em público
depois de mais de setecentos anos.

Contra as pessoas da religião cátara, Roma e seus príncipes ensaiaram a futura arma
doutrinal que dirigiriam contra a vida, a “Santa” Inquisição, que varreu da Europa
muitas das melhores mentes que esta época produziu. Galileu só escapou de ser
queimado na fogueira porque abjurou publicamente suas idéias, no intuito de preservar
sua vida e seguir em seu trabalho, mas Giordano Bruno foi mais radicou, e achando que
a razão incutida em homens poderosos que lhe conheciam lhe auxiliaria a escapar da
pena morte, ele padeceu na prisão e depois nas chamas.

Tudo isso está lá, gravado nos anais da história humana no planeta Terra, para quem
quiser ler.

Assim, em meio a fogueiras e sonhos, estupidez e verdadeira ciência, o Ocidente


atravessou o que foi chamado de Idade das Trevas, onde uma luz nebulosa nos céus,
uma sombra de outra realidade, lhe trouxe o ditame que por mais escura que seja a noite
da alma, ela irá piorar um pouco mais, até que as consciências no mundo não agüentem
mais a pressão da Idade do Mundo e circunde o ponto paradoxal no tempo, tornando a
subir rumo às estrelas douradas.

Este conto parcial não termina aqui.

8 - O Espelho de três mundos

Vasculhado com sua consciência, o mago Bogomil pôde vislumbrar a toda evolução
histórica do povo de Carangula. Ele via como quem observasse em um espelho todas
aquelas passagens da grande aventura no tempo e no espaço daquele povo. Assim como
pôde consciobservar os fatos relacionados na realidade da Terra. E podia ver também
certas ligações com seu mundo, Alleghoria. A consciência-bogomil agora
cônsciobservava em uma lâmina fosca de um cinza claro coisas e eventos que surgiam
dispostas no corpo daquela lâmina que era um arquétipo da visão clara dos profetas e
visionários.

Não surpreendeu sua consciência qual cônscio-viu o fato de que a governante


assassinada fosse um duplo de Bel, a princesa de Altair, e consequentemente de
Belatrix, da Terra. Assim ele observou também que Rhelenna era um duplo que
lembrava mais Sheila Hagia, mas também a Belatrix, principalmente quando de sua

224
ascensão ao poder quando casou-se com Kalsimorg, então com a pecha de Kharinae.
Era sobre aquele mundo de Carangula que a Grande Sombra Sondarak citara nas vezes
em que falou ao mago e depois com Ariel e Belatrix também.

Quanto às aparências, o governante Kalsimorg não lembrava tanto ele mesmo, mas
via no governante, nos momentos diferentes ao longo de sua vida, aspectos de Ariel
Bogari, mas concordando com isso, ele deveria admitir que talvez fisicamente eles
fossem parecidos. Apenas uma humildade dissimulada não permitia Bogomil se ver
naquele governante. Kalsimorg era um homem notável, capaz de destruir e construir na
mesma proporção.

Já o fato daquele assassino Boktus Kratuls se parecer com Ialdo e Ubaldo, fez
Bogomil cônscio-pensar sobre a situação do que seria então um individuo disponível
pelas realidades paralelas. Aquele fato de semelhanças físicas e psicológica parecia
indicar um certo determinismo latente nos mundo, onde forma física convergia também
para questões de caráter.

Visto pelo espelho imanente do inconsciente, aquilo poderia até ter um fundamento
para lá do fatalismo ou do pré-julgamento, pois assim como cada pessoa em qualquer
mundo assume, de acordo com suas escolhas, a viver certas pulsões psicológicas, e
como os mundos entrelaçados costuravam a teia co-influente da realidade, então uma
pessoa não deveria ser simplesmente um individuo comum, com seu próprio corpo.

Cada ser humano seria então um nexo espaço-temporal por onde podia, através de sua
consciência, deixar ou não fluir certos pensamentos e daí certas atitudes recordara-se a
consciência-bogomil. E como a mente pensante é que forma a realidade em que está, e o
pensamento é o fundamento de toda ação, era plausível que certas pessoas
representassem papéis semelhantes em mundos diversos.

O caso de serem parecidos ou não podia ser encarado como uma digital do próprio
Inconsciente na realidade. Dentro das probabilidades finitas da matéria ao longo de
milhões de anos, era aceitável que surgissem essas semelhanças em consciências que
representavam as mesmas pulsões. Na economia genética do sangue que carrega
consigo as emanações espirituais de um pleroma então, a gravidade espiritual fazia sua
vez na função de agregar os melindres da forma na carne.

Ficava no âmbito da liberdade pessoal, irrevogável como a morte biológica, decidir


sucumbir ao destino sugerido, ou dar uma guinada em outra direção.

Talvez houvesse mundos paralelos onde um duplo de Ialdo fosse um homem bom,
não um assassino. Na Terra mesmo, o perigo para Belatrix foi recair em um duplo de
Bogomil.

No espelho onde Bogomil cônsciobservava essas emanações das realidades, o bem e o


mal se confundiam na forma, parecendo querer firmemente ensinar que o que importa é
o que somos por dentro, não exteriormente. E mais, aquilo que está dentro é passível de
transmutação ad infinitum no tempo ao passado, pela predição de uma novidade,

225
enquanto que nossos atos passam a seguir uma linha no espaço diferente, ao decidirmos
agir diferente a partir de então.

Ele pode enfim cônscio-recordar que a Idade de Ouro está disponível a qualquer
homem e mulher em qualquer momento de sua existência, basta encontrar no seio da
realidade a senda que leva à maturidade e à felicidade, e com o esforço necessário, fazer
acontecer. Às vezes é exigida resignação, às vezes paciência, outras vezes coragem, e
outras vezes... , mas o que a própria Belatrix ensinava com sua vida, é que todos os
caminhos têm o potencial de nos levar à superação.

Em seu mergulho subconsciente, Bogomil vislumbrara outros lugares mais e outros


tempos onde os seres humanos agiam no mundo real para que a verdade fosse
observada, e nos momentos mais escuros, sempre havia a possibilidade de um fator da
natureza intervir para mostrar aos seres humanos de realidades afins que não são as
instituições ou os sistemas de pensamentos que acodem para a consciência evoluir, mas
são os homens e as mulheres que fazem isso acontecer em suas escolhas.

Pessoas semelhantes fisicamente em realidades paralelas não são nada mais que um
reflexo em um espelho tripartidamente trincado, é a consciência dessas pessoas que
fogem a qualquer dito da matéria e do tempo e do espaço, é a força intrépida alojada ali
dentro que vence a escuridão exterior. Essa força gera vida e consciência no intuito final
de se autoconhecer, e para isso ela dança uma dança descendente e ascendente pelas
bordas do infinito, evolucionando-se dentro do tempo e do espaço constante dos
universos.

O ponto final desta dança não importa agora. Enquanto não pudermos ter o hábito de
sequer limpar gratificantemente nossos próprios corpos de estigmas sócio-culturais,
enquanto não pudermos conscientemente zelar pela porta de nossas casas, não
estaremos preparados para entender para onde tudo ruma.

O espelho que Bogomil vê três mundos não revela reflexos, mas sim, possibilidades
de existência. Cada ser humano no mundo não é uma reflexão no espelho do
inconsciente, mas sim uma “enóia”, um conhecimento multifacetado.

É nessa altura do discernimento da consciência que a grande obra de união entre


masculino e feminino se ligam aos fatos do espírito dentro do saber das Idades do
Mundo.

9 - A ponderação de toda consciência

Depois da realização da cerimônia matrimonial entre Kalsimorg e Kharinae, os novos


regentes fizeram sua primeira proclamação como o Casal Governante de Carangula
convidando todas as pessoas daquela civilização a comemorarem com eles tal
acontecimento.

226
Para isso o Casal Regente concedeu anistia social para todos os que haviam lutado
contra o governante Kalsimorg. Cada prisioneiro e cada pessoa que era procurada por
crimes contra o Estado e o governo dele deveriam comparecer em público em uma corte
especial que fora criada e responder às acusações que eram feitas contra eles.

O Casal Regente prometera, entretanto que cada um a que ali comparecesse seria seu
próprio defensor e juiz, dando ele mesmo a punição que achasse devida em seu caso, o
que se cumpriria de imediato.

Nos primeiros dias, duvidando daquela proposta sem cabimento, nenhum dos antes
perseguidos compareceu ao “Tribunal de Ouro” instalado pelos regentes.

Sabendo que tal fato ocorreria, o Casal Regente já tinha programado levar àquele júri
especial primeiramente os prisioneiros de guerra. E a primeira pessoa conduzida
naquele tribunal dirigido pelos próprios Kalsimorg e Kharinae foi o assassino da regente
Izobel.

Assim um indiferente Boktus Kratuls compareceu pela primeira vez diante do homem
ao qual arrebatou em covarde crime a amada esposa de então.

Boktus ouviu a acusação que pesava contra ele: “o assassinato de uma mulher”. E
Kalsimorg pediu então ao homem que mediante a acusação ele proferisse se era culpado
ou não.

O assassino, diante aquela corte que lhe parecia um cômico teatro, pois todos ali
sabiam de sua culpa no crime, e não querendo parecer mais um louco, em um ato de
coragem se declarou culpado mesmo, pois “era evidente” seu crime.

Depois de tal declaração, então Kalsimorg mesmo lhe inquiriu qual devia ser sua pena
pelo crime que confessara culpa. A mente de Boktus era um redemoinho de incertezas
desvairadas, ele se sentia humilhantemente exposto por todo aquele insano julgamento.
Permaneceu muitos minutos em silêncio diante da audiência que aguardava seu auto-
julgamento.

Ali esperando, havia pessoas do povo, gente comum, que haviam sofrido as agruras de
toda a guerra civil e se chocara com o assassinato de Izobel, muitos queriam vingança e
alguns poucos queriam justiça mesmo, e em alguns aspectos eram concordantes em
pensamento com os mesmos sentimentos que Boktus estava sentindo.

Havia também muitos homens sábios, que estavam próximos do casal regente e
compartilhavam e entendiam o que o casal governante estava começando a propor
naqueles dias, e viam aquele julgamento como um momento impar na história de sua
humanidade, mas cada um tinha uma visão diferente do que resultaria aquilo tudo. Uns
acreditavam que a experiência daquele tribunal especial serviria para avançarem em
direção de uma justiça mais eficaz, e outros viam já nesse tipo de tribunal mesmo, a
justiça eficaz que o casal regente queria instalar.

227
Dentro disto tudo girava aquele assassino confesso e o casal regente.

Naquele dia então, com a insistência de Boktus em ficar calado e não dizer nada, a
regente Kharinae teve que se pronunciar no tribunal. E com imperturbável destreza ela
falou:

- Então, se o senhor, Boktus Kratuls, insiste em permanecer em silêncio, o senhor


indica assim que dispensa a faculdade de auto-julgar a si mesmo?

Ao ouvir a regente se pronunciar Boktus percebeu a seriedade que aquela situação


realmente representava. Todos ali que tinham poder de decidir por sua vida estavam
mesmo comprometidos com aquele julgamento especial. Havia mesmo alguma coisa
diferente pairando no ar daquele lugar, mesmo ele não entendendo o que seria.

E com a liberdade que se sentiu imerso ele teve então a coragem de falar algo:

- Qual pena que a senhora acha que eu, um assassino confesso, mereço? - disse
exasperado e gritando prosseguiu: - O que se passa aqui? Que tortura é essa que vocês
arquitetaram para mexer comigo? Minha pena? Todos sabem que pena eu mereço! -
disse e se calou mergulhado em lágrimas e rancor.

Uma comoção rondou a parte popular da audiência. Murmúrios começaram a se


levantar, mas com um gesto o próprio Kalsimorg pediu que cessasse tal burburinho que
sabia onde ia dar, em uma aclamação pela condenação e até pela morte do assassino. E
então foi sua vez de se pronunciar:

- Eu quero que o senhor saiba, e farei com que todos que vierem aqui livremente ou
trazidos das prisões saberem, que não há nenhuma comédia aqui! Que não há nenhuma
loucura ou simulação a fim de denegrir e maltratar ninguém. Aliás, todos os que vierem
até aqui são os únicos culpados pela sua própria degeneração e dor.

Todos dentro do tribunal ouviam Kalsimorg com grande atenção e respeito,


principalmente Boktus.

- O que estamos fazendo aqui, o que o senhor, Boktus Kratuls, está fazendo aqui é o
que estamos dizendo: o senhor está julgando a si mesmo. Então, primeiro o senhor
declarou sua culpa no assassinato de um ser humano, então agora, o justo é que
escutemos do senhor mesmo sua pena. - disse Kalsimorg.

- Mas... mas, o senhor não vê?! - respondera-lhe Boktus em profunda agonia, - Eu, eu
não sou capaz de me julgar, não! Eu não sou capaz de me imputar qualquer pena pelo
ato que cometi!

Kalsimorg, em profunda serenidade, como esteve durante todo aquele julgamento,


disse então ao assassino de sua esposa:

- É simples Boktus Kratuls. Ao senhor, que foi capaz de muitas coisas em sua vida,
cabe escolher dizer basicamente uma entre três sentenças. Que se entrega ao julgo de

228
seus regentes ou do povo, ou que se condena a um tal período de prisão à sua decisão ou
pena alternativa, ou que se dá clemência e fica livre.

A frase de Kalsimorg causou grande espanto em toda audiência. Mais nas pessoas
comuns que nos sábios, mais em Boktus Kratuls do que em todos juntos. Ele
simplesmente não podia crer no que ouvira.

Em pensamento ele mitigou sobre o que lhe dissera Kalsimorg, e resolveu ponderar
seriamente sobre cada instância da proposta do governante. Ele estava assim como
aquele assassino diante de uma audiência, e sua palavra era lei então. Mas aquilo era tão
diferente de tudo que já vivenciara em sua existência que custava-lhe inteligir a
abrangência do que Kalsimorg estava propondo.

Foi nesse momento que Broktus e todos ali começaram a entender a face dos novos
tempos que o casal regente vinha anunciando naqueles tempos. Era algo totalmente
novo em termos de justiça, era algo que mudava as perspectivas de vida, socialmente e
até culturalmente de toda sua civilização até então, aquilo era uma espécie de proposta
que só podiam fazer consciências muito avançadas ao seu tempo, mas significava
também que tais mentes avançadas queriam levar todos consigo para aqueles patamares
superiores.

Havia ali um estranho sentimento que as mentes comuns não conseguiam definir
naquele momento. Havia uma idéia absurda e inovadora que ninguém poderia saber o
que significava em sua precisão, e nem quais seriam suas conseqüências a curto, médio
e longo prazo.

Talvez só Kalsimorg e Kharinae tivessem em si o vislumbre de onde aquele ato que


estavam procedendo significava, calculando-o entre muitos fatores atuantes em uma
sociedade recém saída de um embate terrível por poder, eles estavam precisamente
prescindindo de todo poder de julgar, condenar ou absolver crimes, erros, atos quaisquer
que fossem. E sentia-se no ar a irredutibilidade do casal sobre aquela proposta, era algo
que se efetivaria ou morreria com eles próprios.

Os sábios, entretanto entendiam que o que propunha o casal governante não estava
confinado apenas àquele tribunal, mas sabiam que eles estavam impondo aquela
“novidade” a todo um modo de pensar de uma civilização, às pessoas que ali viviam,
estavam pondo em seu modo de pensar a realidade das coisas um fator grandioso e
capaz de causar grandes mudanças, se fosse recebido por todos da forma que
mostravam.

Naquele tribunal, eles não falaram em forças superiores, não mencionaram a vontade
do Deus, não apelaram a nada mais do que à própria consciência, no caso à própria
consciência de um assassino confesso. Era um homem só consigo mesmo que era
inquirido sobre a pena que devia receber por seus próprios erros.

Surpresa e decepção rondavam no pensamento da parte mais simples da audiência.


Aos que se surpreenderam, pois tinham mesmo sede de justiça, uma porta era aberta em

229
suas consciências para as idéias do casal regente, aos que se decepcionaram, pois
tinham sede de vingança, um sinal de aviso acendeu em suas mentes confusas e
enfurecidas.

Boktus Kratuls entretanto, era quem estava naquela encruzilhada onde tudo aquilo se
convergia em realidade plausível. Ele estava diante de si em um espelho de alucinante
veracidade, seu reflexo era do peso de suas culpas junto a uma proposta de...

Não sabia sequer o que lhe era proposto, não havia palavras para definir aquilo! A
proposta de Kalsimorg e Kharinae havia o transmutado em um homem por inteiro, não
sabia como, mas seu pensamento se tornara claro naqueles momentos então, ele podia
ponderar tudo que se referia ao seu caso, pode se colocar na posição da então regente
Izobel sendo agredida e brutalmente esfaqueada, pode sentir a dor fulminante e intensa
de Kalsimorg, pode sentir a fúria das pessoas contra ele e o júbilo falacioso e
imprudente dos inimigos dos regentes, entendeu que aqueles últimos eram inimigos dele
mesmo, Boktus.

Ponderar sobre isso tudo fez o assassino desmoronar em choro e angústia. Ele
encarava aquele espelho com dificuldade, mas não podia deixar de olhar a imagem
refletida ali.

- Sua sentença Boktus Kratuls?! - finalmente tornou, imperiosa, Kharinae.

Um silêncio de parto veio depois do choro do útero. A situação era mesma assim,
paradoxalmente inversa à parição.

- Meu senhor e minha senhora, eu vos peço clemência! - disse então ele.

Alguns na audiência pensaram, e só pensaram: “canalha!”, outros nada pensaram,


apenas queriam saber o que viria a seguir.

Foi a mesma Kharinae que declarou.

- Desculpe-nos Boktus Kratuls! O senhor não entendeu. - foi dizendo para o susto de
todos e principalmente do assassino. - O senhor tem que entender que a nossa clemência
o senhor já tem! Ou não entederam todos vocês até agora. - falava se dirigindo a Boktus
e a todos os presentes, para a sua surpresa maior ainda, mas não havia terminado suas
palavras.

- Então, pedimos ao senhor, que se sentencie do ponto de vista de sua própria pessoa,
usando a palavra adequada para sua sentença. - olhava para Boktus, tentando ver se ele
entendera o que ela queria dizer, e completou, - Diga “Eu”! - bateu em seu próprio peito
dando o exemplo, - Diga-nos: “EU... me concedo...”

A maioria não percebia, mas aquilo que se desenrolava ali era também um ato
simbólico, profundo, destinado a também atingir camadas inconscientes com aquela
decisão, que em sua força pudesse mudar tudo ao longo da linha do tempo, era isso que

230
em suas palavras Kharinae estava propondo ao indicar a forma de se pronunciar à
Boktus.

- Sua sentença Boktus Kratuls? - repetiu ela, serenamente.

Ele então parecia ter entendido. Meneou a cabeça, encarando-a nos olhos, e a mais
ninguém. O espelho tinha que ser encarado para ser quebrado enfim para ele. Encheu o
peito de ar e falou finalmente:

- EU... me concedo clemência! - e dizer “eu” desta forma foi quase uma dor para
Boktus naquele momento.

Um grande arrogo percorreu todo o tribunal. Algo havia sido manipulado ali,
remexido no fundo de todos.

Instantes se passaram sem quem ninguém dissesse nada, além de suspiros. Na face de
Kalsimorg e Kharinae fluía um sorriso.

Enquanto todos ponderavam a seu modo o que tudo aquilo significaria, puderam
observar então um gesto, um entretanto.

Boktus Kratuls erguia o braço, dirigindo uma chamada de atenção ao casal


governante. Um gesto da face com sorriso enigmático de Kharinae lhe concedeu
permissão de continuar.

- E como punição por ter tirado uma vida humana, EU me condeno a prestar detenção
de dez anos, em exercício no que melhor convier a meus governantes. - falou
mergulhado em lágrimas, e calou-se.

O assombro na audiência dessa vez fora maior, e muitos ali se puseram a chorar
também, enquanto outros incrédulos com o que ouviram se prostaram na atitude de
tentar entender a profundidade do ali se passara.

Aquele sorriso na face do casal governante se tornou ainda mais enigmático, agora
ele só se podia definir como quase nulo, um sorriso andrógino, diríamos, aquele sorriso
no rosto dos seres que alcançaram a iluminação depois de muito esforço. O sorriso
beatifico de um Desperto.

Assim terminara nesse dia aquele julgamento especial. Boktus Kratuls foi levado de
volta à prisão, lá recebera a instrução advinda dos governantes, que devia naqueles
primeiros anos da sentença que tinha imputado a si, auxiliar como enfermeiro para as
pessoas doentes. Mais tarde foi lhe permitido atuar na sociedade como enfermeiro em
geral, e até o fim de sua auto-pena ao longo de dez anos, ele trabalhou humildemente e
com afinco por zelar da saúde de quem necessitava, dando um novo sentido a sua
existência, tendo desaparecido ao longo do tempo no rol da história de uma nova e
superior civilização que ia sendo construída dia a dia.

231
Depois de seu julgamento, paulatinamente fora comparecendo ao Tribunal de Ouro de
Kalsimorg e Kharinae muitas outras pessoas, e ali cada um dava sua própria sentença.
Muitos agiam com consciência renovada e voltavam ao seio da sociedade com sua
devida pena auto-imposta, para cumprirem seus auto-desígnios, muitos se imputaram
penas diversas por seus crimes, e a maioria agiu dentro do novo pensamento que a
sociedade e a cultura nascente observava.

Alguns em má fé concediam a si clemência irrestrita e assim eram atendidos, mas


viram que o convívio social se tornava praticamente impossível graças à mentira para
qual eles apelaram. Nos primeiros tempos havia os que os rechaçavam, tornando sua
vida insuportável, e muitos cederam ao suicídio ou entre delitos agora cada vez mais
inaceitáveis, tornavam às garras da justiça, e nessa situação a sentença era definitiva: de
acordo com o crime que incorriam, penas pesadas que eram prontamente executadas em
solitária total, prisão perpétua e conforme o crime, tomada de bens e o exílio da pena
capital, morte.

Entre esses de má fé alguns iam se modificando com o tempo. Outros seguiram sua
má fé até o cadafalso auto-impingido, mesmo que indiretamente então.

O casal governante impeliu todos os esforços para construir uma sociedade justa, com
oportunidades para todos, pois só assim seu sistema podia funcionar. Reformas
profundas foram feitas nas instâncias da educação, do comércio de bens e serviços, e da
cultura de uma forma em geral.

Ao longo de uma década eles puderam edificar um grande avanço social sem
precedentes em sua história. Todas as coisas eram postas em seu devido lugar, com
firmeza irredutível de acordo com as concepções idealistas de Kalsimorg e Khariane.

O novo modo de pensar proposto por eles e depois adotado em todas as camadas da
sociedade gerou uma civilização que tinha o poder de construir a realidade na forma
mais justa e consciente o possível, à medida que iam formando novas bases para
instituições e projetos ainda mais elevados, que se sustentavam no tempo sobre as bases
precedentes.

Indivíduo, família, associações, produção de alimentos, sistemas educacionais,


religiosos, econômicos, governo, tudo ia evoluindo constantemente para melhor, tendo
em observância a vida, o ser humano, a comunidade integral daquela civilização e a
Natureza. Assim um dia chegariam ao ponto que era o auge de sua Idade de Ouro, onde
permaneceriam por um período indefinido de tempo, enquanto durassem ali, homens e
mulheres de coragem que a medida do avanço social, debruçassem sobre si mesmos, na
prática de intuir seu lugar digno no universo, e a influência do Divino dentro si.

A grande visão espiritual/material da Idade de Ouro em Carangula foi declarar que a


filosofia, e não outra coisa qualquer, era a regra da vida, e se, como se demonstrava na
interação deles com a realidade, todo o universo comportava um princípio antrópico de

232
vida e beleza, isso só podia propor que eles estendessem sua moralidade ao prisma da
própria Eternidade, e consequentemente da imortalidade.

A filosofia porque zelavam assim era a própria “Filautia”, que permitia fazer
convergir para a consciência todo o âmago da Natureza e do Humano, na forma de uma
Força que a tudo ia integrando e totalizando.

10 - Arcana Belatrix

Antes de submergir naquele vasto golfo mental pelo vórtex que o levou ao
Inconsciente Coletivo, e à disposição de se acessar o arquivo Akáshico dos saberes
humano universal, no qual vagava então há um tempo sem distinção, que pensava a
consciência-bogomil serem poucas horas, ou outras vezes pensava serem muitos dias,
repousava porém na intuição de que quando fosse o momento, ele tornaria à superfície
da mente para se dirigir à uma consecução material dos eventos.

Agora, aproveitando a sua condição especial transcendente, e como os monstros da


preocupação e os deuses da dificuldade se mantinham distantes no espaço-tempo do
inconsciente, a consciência-bogomil alçou um último vôo para o campo daquelas
representações onde convergia a imagem arquetípica de uma Mulher. Aquela imagem
irradiava uma luz que alcançava grande parte daquele universo arquétipo, o Mandalyon,
e desde que chegara ali para essa jornada de conhecimento, ele cônsciobservou que
orbitava em volta do centro daquela luz serena.

De lá um conjunto de símbolos de carne viva e perfumes distintos podia ser


cônsciosentido. Era nítida uma gigantesca Rosa de quatro pétalas e uma iridescência
central em meio às pétalas, tal colorido saia do caule capitular no meio da Rosa entre
suas pétalas.

A consciência-bogomil pode perceber que estava senda arrastado para esse símbolo
arquetípico novo, como quando em êxtase ayahuaski somos atraídos pelas cores e as
cornucópias sinestésicas, e aquela Rosa parecia à consciência-bogomil uma grande
sinestesia subconsciente de pessoas, saberes, tempos e sentimentos de esperança.

Ao se aproximar em consciência Bogomil pode distinguir então a totalidade daquele


símbolo que era aquela Rosa magnífica.

Nela, uma pétala era Bel, uma pétala era Sheila, uma pétala era Izobel, uma pétala era
Kharinae. No centro das quatro petalas, o x da questão, o paradoxo das sombras, a jóia
na flor de lótus, aquela que concretizou o andrógino na alma: Belatrix.

Diante dessa consciovisão da consciência-bogomil, a Rosa no horto de sua


inconsciência parecia não crescer, mas decrescer, como se quando a vira pela primeira
vez ela houvesse chegado ao auge de seu desenvolvimento e agora regressava, para se
tornar semente outra vez. Mas logo a consciência-bogomil cônscio-viu que o que se

233
passava era um efeito óptico, onde todas as quatro mulheres bordeadas nas pétalas
daquela rosa rejuvenesciam ou envelheciam e agregando-se iam moiréticamente
transfigurando-se em uma figura só, convergindo à Belatrix, e rejuvenescendo ela
mesma.

Na sua frente, a consciência-bogomil pode ver um ser humano, na altura de seus onze,
doze anos, por aí, que se não fosse devido à influência de sua visão anterior das cinco
mulheres, ele não saberia dizer se aquela pessoa ali seria um menino ou uma menina.
Mas na sua frente estava alguém como se fosse Belatrix aos doze anos de idade.

Nesse momento a consciência-bogomil percebeu que ganhava ele próprio contornos


humanos no reino Arquétipo, somente para no instante seguinte se ver à frente de uma
enorme fila onde outros seres humanos masculinos se punham enfileirados atrás de si,
toda conciência daquela visão tomou o horto em volta escurecendo tudo mais e fazendo
se entrever em volta apenas a criança, diante da qual uma infinita fila de homens se
dispunha.

Bogomil então concatenou toda aquela miríade de homens, como se o masculino de


três realidades se somassem nele, e sentiu grande repulsa e desolamento por tudo aquilo,
e não fosse pelo toque em sua mão dado pela menina Belatrix, talvez ele tivesse
emergido naquele mesmo instante para fora do inconsciente coletivo, mas ela tomou sua
atenção.

Aquela não era Belatrix, a Belatrix de carne e osso e pensamento do planeta Terra,
aquela era a Belatrix arquetípica, a Belatrix mítica, que penetra neste momento as
idades dos mundos em diversas realidades paralelas. E quando se diz “agora”, pode ser
o espaço-tempo de uma vida, ou mais séculos, milênios, dependendo da Idade em que
cada realidade passa.

Essa Belatrix é aquela vestida de sombras que ultrapassam as realidades, como que
contrabandeada por Grandes Nuvens de uma realidade para outra, onde semeia essa
idéia paradoxal que é “Belatrix”.

E ela vagarosamente abria sua boca, parecia que ia falar, parecia olhar dentro dos
milhões de olhos de Bogomil, parecia que o amaria, em desgosto e apreciação, parecia
que ela estava no centro de tudo, tudo.

“O que é ela?”, eles se perguntavam, mirando o rosto juvenil daquela criança,


abismados. “Quem é você?”, eles se perguntavam dentro dos milhões de homens,
perguntavam mais a ela do que entre si. “Quem será isso?”, abismavam-se cada vez
mais, em grande espanto. “Eu te conheço...”, distinguiam em ilusão a multidão, mirando
o rosto indolente e desafiador de Belatrix, de boca semi-aberta, em uma posição de
quase-falar eterna. “Eu sei quem tu és!”

A multidão então convulsionou dentro de Bogomil e ele achou que ocorreria o


apocalipse, no vasto deserto interior de seu ser habitado pelas exarcebâncias masculinas,
ele sentiu a morte chegar. Abriu os olhos e viu a menina Belatrix na sua frente, sorrindo,

234
irônica, como se observasse sua nudez parca, ali desbotada, a nudez de milhões de
humanidades que se contorcem na vergonha e na vergonha do glamour da forma da
carne.

“Como é vergonhoso e gratificante se ser o que se é, como são admiráveis as vontades


de viver e morrer, como são sedutoras as razões para manter e para destruir, como...” ia
assim hiper-pensando a multidão enlouquecida de um homem só, diante do sorriso de
Belatrix.

“O que você quer de mim, meu amor?”, enfim perguntou Bogomils a Belatrix, em
uma sincera frase que já era o inicio da revelação daquilo tudo.

“Venho lhe dar para carregar o pensamento da leveza mais leve!”, respondeu a
menina, séria.

“E o que seria tal pensamento?” perguntou a multidão, confusa.

“É a verdadeira fórmula da grandeza da humanidade!”, Belatrix falava rindo de outras


coisas, pois aquela multidão estava nua.

Bogomils ficaram calados, em silêncio de apreensão esperando então o


pronunciamento da criança, esperando algo como uma tempestade romper, e raios e
trovões esfacelarem tudo, eles esperavam estrondos, mas tiveram apenas as palavras
leves e doces de uma menininha.

“Queiram tudo diferente do que é! Nunca se conformem! Tanto no presente como no


futuro e no passado. Queiram a Eternidade e o Infinito. Ame o que mereça amor, e se
for tudo, que tudo fale a ti com amor recíproco.

“Por muito tempo foram iludidos com promessas de superioridade que nunca
alcançavam o cerne de seus corpos doentes e sifilíticos, criando lendas das filosofias
que seduzem os fanáticos, encantam os de boa-fé e amedrontam os covardes e fazem
um deus poder entrar no mundo apenas pela dor e pela degradação.

“Não há homens, então como pode haver o super-homens? Todo homem e toda
mulher é Masculino & Feminino, e só posso imaginar algo sobre-humano, além do bem
e do mal, no esforço de um pobre coitado que tenha dedicado sua vida a se auto-
conhecer e totalizar sua psique. E não a se dedicar à alguém pomposo e cheio de seu
Ego.

“Quando vocês se lançaram no mundo e viram irradiar diante seus olhos as ascensões
e declínios da Consciência, a ascensão e queda das civilizações e dos mundos e dos
universos, vocês viram que era melhor decidir amar esse eterno retorno dentro das eras,
do que se insurgir contra o que está no cerne de cada época, a Promessa da Queda.

“Mas eis que uma só vez, em uma Idade, não há a promessa da queda, mas a certeza
da ascensão, e nesse momento tudo se torna paradoxo, as bases do pensamento se

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contrapõem, a beleza de argumentos ferozes são despachados pelo sono de um bebê, e
então Eu falo a vocês que ascendem, em três mundos.

“Não trago o desprezo ao corpo nem ao espírito, mas sua consecução em núpcias; não
trago a resignação ou a rebeldia, mas sua união na sabedoria dos tempos; não temais
qualquer justiça ou qualquer irresponsabilidade, ambos estão atreladas na liberdade de
qualquer lei parcial. Venho lhe dar a opção!

“Em troca do Amor Fati, que nunca conseguiram mesmo ter e vieram zelando
falaciosamente por isso em forma de guerras e parafernália tecnológica, eu lhes dou o
Amor de Si.”

11 - Amor de Si

A criança Belatrix continuava a falar para a multidão de um homem só. Mas Bogomil
não se sentia mais sozinho em meio à multidão. Ele pode sentir ali de seu lado a
presença amiga de Ariel, como se ele descesse em um sonho para aquelas paragens
subconscientes.

Assim, daquele momento em diante eles, calados, deram sua atenção à Menina.

“Quando a consciência der seu próximo salto de evolução no planeta Terra, surgirá na
intersecção desse momento o grande pensamento da Filautia, uma velha nova maneira
de falarmos sobre pessoas muito especiais, pessoas de Virtude.

“Esses seres humanos belatrixiantes são aqueles que se apropriam do Bem, da Poesia
e da Beleza e se entregam à eles em devoção e lhes obedecem em tudo, tornando-se
assim um Filauta, um auto-amante, ou aqueles que têm o Amor de Si.

“Aqueles que amam a si mesmo, no verdadeiro sentido do amor, não desejam o


absoluto de nada, seja de saciação, de prazer, de favores, de atenção, de sucesso, de
lucro e de poder, mas querem a parte maior do bem e do belo, agindo livremente em
uma virtude paradoxal para o cumprimento dos deveres que sua natureza pessoal auto-
amorosa lhe revela.

“Esse Amor de Si é o único amor que pode salvar os seres humanos mergulhados nas
idades de trevas e pavor onde estão submetidos ao amor egoísta pelos frutos da
emanação do tempo, seus corpos, seus carros, seus cabelos, suas casas, sua conta
bancária, o sapato da moda, a posição no trabalho, coisas desse tipo que o amor próprio
adora amar e de sua forma esfregar na face dos outros.

“O Amor de Si ama-se nas emanações espirituais e psíquicas do indivíduo. Ama


aquilo que em sua capacidade de generosidade o faz uma pessoa melhor, mais livre e
bela. Ama aquilo que em sua coragem de defender o indefeso o faz igual ao defendido,
e nunca melhor que ele. Ama o sentimento de respeito pela natureza que o torna parte
harmônica dela. Ama o concílio que tem a capacidade imensa do perdão com

236
consciência. Enfim, as emoções emanadas do Amor de Si permitem que tudo nos seja
disponíveis, mas que não possuamos nada.

“O Amor de Si, ao contrário do amor egoísta e ao amor pela fatalidade, reverte para si
a relação entre sujeito e objeto, pois esse Amor de Si é voltado para os valores e não
para a possessão.

“É esse, machos e fêmeas, o sentimento que dominará docilmente a consciência, que


enquanto faz justiça com uma mão, ama com a outra, até o mundo se ajustar sobre o
chão da rosa e de seus espinhos.

“Saiba seres de carne e espírito, que o Amor de Si é aquele sentimento causado pela
graça e pela felicidade retroversa, que vêm sem nada exigir, do futuro para o presente e
se lança à todo passado, renovando todas as visões distorcidas do ego sobre o mundo.

“No Amor de Si os seres encontram seu estado natural. Todos os seres secientes dos
universos vivem em Amor de Si, menos os seres humanos. Mas o Amor de Si é o seu
verdadeiro estado natural, quando outrora ou no futuro, nas Idades de Ouro, a
consciência humana se reverte na consciência de um Semi-deus, um Fauno, um Sátiro,
uma Musa, um Herói, a emanação primeira de uma matriz, sua mente está nesse estado
de liberdade plena, no oposto das concepções da existência, o ser humano se abre à
inclusão, ao perdão, à harmonia, ao riso, antes de poder responder qualquer apelo dos
prejuízos e da seriedade que requer para que um ego seja levado mesmo à sério em suas
intenções distorcidas.

“Com o Amor de Si que trago a vocês e vocês devem o espalhar pelo mundo, eu quero
vos dizer que não devem mais crer por fé ou retribuição ou lei, não devem mais crer por
cultura ou hábito. Deixem disto! Devem retornar a tudo pela arte, a arte que redimirá a
mente das dualidades, sem que elas deixem de ser, em Amor de Si e então poderão crer
por lembrança, pois terão vivos na memória o sentimento primordial deste Amor.

“Ouçam: Só o Amor de Si é que é o mesmo quando paradoxal, só o Amor de Si é o


mesmo em quaisquer condições. Pois assim como a verdade, que não pode ser dividida
e não têm acessórios, o Amor de Si emana sua verdade das incertezas, pois paradoxo
não é nenhuma verdade, mas é simplesmente a certeza incerta que qualquer coisa pode
vir tornar a ser verdadeiro.

“E agora vos digo também: o Amor de Si está também além da vontade e da crença, e
livre para acreditar no que deseja, pois ele só pode enxergar a beleza e o bem, mas ele é
livre também para não acreditar mais em nada relacionado aos dogmas, pois a crença é a
grande tentadora daquilo que o ego ama amar.

“Sob meu olhar de Amor de Si por vocês, por toda humanidade, eu como o Arquétipo
da Liberdade e da Evolução da Consciência, vejo o ponto axial se aproximar no tempo
de sua Era... Sim, eu falo aos humanos de todos os mundos, mas principalmente aos que
estão no mundo da água, o planeta terra.

237
“O mundo do progresso e da ordem! O mundo que pensou se concretizar em saber e
moral. O mundo que achou conhecer a si mesmo diante dos painéis de computadores. O
mundo que persegue a verdade absoluta para estuprá-la, onde a vontade e o desejo
causam a realidade, onde existe uma grande ciência de ponta que só serviu para
descobrir finalmente que todo fato científico aponta seu oposto!

“O absoluto é o relativo. O relativo é o absoluto. Então a única ilusão que existe seria
a consciência egóica. É isso, vossas mentes rumam a se tornarem uma quimera no
tempo e no espaço, escapando pela linha tangencial do Infinito, indo se tornar nada. Eu
vejo que muitos tipos de pensamento tomarão este caminho mesmo, não resistindo à
inércia do próprio peso de sua estupidez, quando a consciência fizer sua curva no tempo
e no espaço, eles sairão em linha reta para o abismo do esquecimento total, serão o que
os Filautas chamarão „apenas crença‟, a verdadeira tentadora e enganadora da
humanidade.

“Eu disse e repito, a crença é o grande mal que assola os seres humanos, ela é a
própria tentadora, a espada tola e flamejante que fechou a porta de seu paraíso, a crença
maior que existe é „Deus‟. Crença e duvida andam juntas, são os parâmetros auto-
relativos que a mente tem para construir suas falácias do real. A crença em algo já
justifica em si a duvida em outra coisa, crer em um deus é duvidar de todos os outros, e
a duvida é a grande realização da fé, por isso todo fanático carrega escondido dentro de
si uma duvida, e a duvida é a causa da desunião, da abjeção, do escárnio, das maldições,
tudo na raiz da fé, da religiosidade. A decepção é o grande motor da fé, pois ela só
subsiste onde haja doença, traição, dificuldades, assim, a falta de fé, a descrença é
também um dos motivos para se procurar crer.

“A religiosidade dessa época é o que faz o tempo correr mais depressa, pois com a
religiosidade sofremos um atraso, um atrofiamento mental, e assim o tempo se esvai
entre vossos dedos como areia fina que não podem conter, pois tudo vai se atrofiando.
Toda crença é temporal, toda crença é amor próprio egoísta

“Assim, Eu sei que seria pedir demais aos seres de consciência para deixarem de crer,
pois crer é a função de uma consciência egoísta, crer é seu modo de se elevar sobre os
outros e destruí-los, crer é o único modo que a consciência tem de fugir de ser uma
ilusão, mas eu lhes pediria, ou melhor, eu lhes ensinarei a desaprender, e de onde se
quisessem ver livres, que parem de crer que estão presos, entendam, não creiam na
liberdade, em Amor de Si, busquem serem libertos da crença. Vivam!

“E agora, no giro das épocas, na consecução dos tempos, cabe a cada um promover a
solução no impasse que o tempo e o espaço jogaram as consciências ao longo de sua
aventura. Agora que o ego domina todas as relações do mundo, um novo fator adentrará
no palco de sua realidade para lhe dar uma nova função.

“O que vocês pensaram?! Que com o fim de uma Idade as coisas são destruídas e
começa-se do zero? Não? Não Meus queridos! Agora, cada um de vocês terá que entrar
em acordo com vossos egos e fazê-lo entender que o melhor de agora em diante é ele se

238
calar, se tornar um vigilante da consciência, se não quiserem deixar o palco da
existência.

“Assim, em Amor de Si, o ego será algo impar na consciência, ele terá somente o
paradoxo como base. Em primeiro lugar ele será um conhecedor das incertezas, e aí
reconhecerá o fundo, a raiz de todas as crenças: Medo! E medo é medo de não existir,
medo de não ser, medo da morte, medo de não mais poder ter medo, medo de poder ou
não poder.

“E a liberdade do Amor de Si virá na forma da não necessidade de se morrer. O Amor


de Si abrangerá na mente dos Filautas, com sua ciência gloriosa, sua magia poderosa,
sua transcendência própria: a não-resistência, a auto-clemência recíproca, o
adiantamento da morte em vida, a liberdade de tudo, a proeminência da vossa imensidão
sempre latente.

“Não mais adiantaria meus amigos me alongar nesse discurso de Amplidões. Tudo o
que há para saberem já foi dito, basta lembrar ou relembra, estão em seus livros, estão
nas mentes e nas consciências de pessoas que já vem evoluindo, em cada lugar do
mundo, pessoas que se livraram de muita coisa desnecessária para se viver e
compreender o mundo, pessoas que abriram um espaço no peito para o Amor de Si.
Procurem-nas por aí, estão em qualquer lugar, no alto de prédios trabalhando ou nas
ruas, mendigando, estão nas cidades e nos campos. Quando um paradoxo surge ele
sempre seduz aqueles que estão nas periferias do sistema, empurrados para lá ou para lá
se dirigindo em consciência, e é o periférico que avançará na evolução deixando para
traz a nau desgovernada do centro se chocar com o abismo.

Eles, os seres humanos filautas, estão prontos e acessíveis para lhe falar como
removeram suas concepções egoístas de liberdade e escravidão, quando em um
profundo amor de si meditaram em liberdade, e se aproximaram da idéia que puseram
em prática pelo „nem isto-nem aquilo‟.

“Amor! Esse amor falado nas igrejas e nos altares de onde sempre rolaram cabeças...
Esse amor é o que há de mais repulsivo, pois é Egoísmo. Ódio, ciúme, assassinato,
ganância, são todos atos desse amor, que foi capaz de gerar a idéia de pecado para
atormentar a si mesmo, para exigir um inferno eterno como punição.

“Amor de Si! Esse amor é puro e não tem associações com nada no mundo material, e
ele é tão grande amor que desiste de acreditar, em pureza e inocência, em simplicidade,
ele surge em indolente felicidade e sabedoria. Pois o Amor de Si é o ato simples de unir
a dualidade em uma coisa só, no ressurgente ser que não mais pode ferir a nenhuma
mente, pois é incólume: Rebis!

“Aquele que torna à vida depois da morte, é o que se basta, pois ele foi até o fim, se
adiantou e nasceu duas vezes na mesma vida, essa consciência é a que se basta!

239
“Mas aquele que tomou a morte nas mãos e decidiu que não precisaria padecer mais
por sua causa, este é Abençoado por Si Mesmo e pela Natureza, pois ele morreu em
vida e em vida ressurgiu.‟

Então a criança Belatrix calou-se, tomou um rápido fôlego e abrindo os braços rumo a
miríade de homens, ao bogomils, pronunciou:

“Pax, Konkx!”

E impulsivamente, como se ativado algo em suas memórias, todos responderam


juntos:

“Hay Kie!”

E houve grande silêncio enquanto o eco daquela multidão reverberava cada vez mais
distante.

12 - A Infância no fim de toda loucura

Durante todo aquele tempo em que aquela menina Belatrix falava com Bogomil e as
miríades humanas que nele e por ele vieram ouvir aquele arquétipo, de depois com a
companhia próxima de Ariel, eles todos puderam perceber como fora se aprofundando a
fala da menina.

No inicio eram palavras, saídas da boca dela, depois começaram a sair símbolos
mínimos, e em meio a palavras e símbolos começaram a emanar de sua boca feixes de
cores, de todas as cores e tons, e depois ao final, quando começou a falar mais
ludicamente, pode perceber que de sua boca começaram a sair só símbolos, intrincados
símbolos que por um milagre da própria fonte, era possível se entender o que falavam.

Mas quando foi chegando às ultimas palavras, a menina Belatrix parecia não mais se
importar em deixar se comunicar, talvez ela achasse que já dissera tudo que necessitava,
ou talvez não houvesse mais símbolos e palavras para se dizer o que ela desejava.

Mas Bogomil pode perceber que de alguma forma ela ia se anulando nas próprias
coisas que dizia, pois ao articular um pensamento ela tinha que ser paradoxalmente
coerente com aquele pensamento e daí em diante ela mudava o curso de seus
pensamentos corrigindo-os ad infinitum ao passado e desvencilhando-se no presente
rumo ao futuro que implicava aquele seu pensamento auto-corrigido.

Seu discurso tinha o rumo da ∞, ela ia até os limites e voltava trazendo de lá algo
novo, depois o concatenava e o instalava no centro e partia ao outro extremo trazendo
um novo argumento, e assim pode ele cônscio-ver que ela fizera muitas vezes, mas
aquele era um nível de consciobservação que estava além da comprovação.

240
Vendo daquela forma, ele pode perceber o quanto aquela criança tratara naquelas
palavras simples de imensidões de profundidade de pensamento, e que assim ela
demonstrava o que trazia à baila quando manifestava tal Arquétipo no mundo. Seria
aquilo que três mulheres e sinais nos céus teriam que tratar? Se fosse ele não invejava o
destino de nenhuma delas, mas queria estar próximo de pelo menos uma para aprender,
para ver, e para amar em si.

Os tempos anunciados desde ali daquele estofo subconsciente eram tempos incríveis,
fantásticos em seus perigos e esperanças, e na medida em que Bogomil se sentia
esvaziado pela multidão que se enfileirou nele, ele sentia também quantos poucos
homens estariam preparados para suportar em si a chave daquele “desaprendizado” que
falara a criança Belatrix.

Sim, pois era necessário se limpar espaço na consciência, esvaziá-la de muitas coisas,
para se poder ter domínio sobre a mente que pensa os princípios duais da concepção de
mundo, o que a Belatrix infante chamou de “nem isto - nem aquilo”.

Era fácil Bogomil entender tal principio, porque no seio da Igreja da Luz Serena eles
trabalhavam intelectualmente e magicamente com um conceito igual, ao que chamavam
de “Neither-Neither” ou “Nem - Nem”. Ele podia entender então que com certeza, a
partir de uma humanidade já ter aquele conceito em seu pensamento, era sinal que
findavam tempos terríveis de medos incalculáveis, para rumar a um patamar superior e
melhor. Seu mundo e a humanidade em Alleghoria entavam então no Zion, e a Terra e
sua humanidade estavam no ponto final do Kali-Yuga, enquanto que Carangula já havia
adentrado na Idade de Ouro.

As palavras daquela criança, ela era o/a próprio/a “Rebis”, tão conhecido/a como
desconhecido/a, tão desejado/a como repulsivo/a. Aquele arquétipo surgia como uma
sedutora e uma irmã ou mãe, ela era a palavra que convidava à não-palavra, ela é a
insinuação de que quando nos tornamos inconscientes das idéias, principalmente da
idéia mais poderosa que é a de “Deus”, nós nos tornamos tão poderosos como essa
criança paradoxal, que se afirma ao se negar, seja em palavras ou símbolos ou formas.

Como um afogado que o corpo torna à superfície, Bogomil ia emergindo pouco a


pouco do grande oceano do Inconsciente. Pesava-lhe as palavras leves do paradoxo das
sombras. Como ela havia dito tantas coisas profundas! Ela o estaria dizendo a mais
pessoas nessa época? Claro! À miríades de corpos e almas, masculinas-femininas dentro
do cerne do tempo que se desenrolava rumo às transformações que mudariam tudo em
todas as direções psíquicas.

Aos que crêem porque é absurdo, ela lhes dirá que o absurdo é crerem assim. Aos que
crerem por fé, ela lhe dirá que a fé que tem é em suas descrenças interiores. Aos que
crêem por obrigação, ela lhe dirá que são escravos do ego. Aos que crêem em esperança
de promessas e profecias a serem cumpridas, ela lhe dirá que esperarão até que a morte
realize para eles isso. Aos que crerem porque viram, ela lhe dirá que seus desejos são a
fonte de suas crenças. E assim a criança irá lhes refutando suas maiores crenças, e como

241
todos eles, tão porcamente diligentes ali na sua lama, mesmo vendo as pérolas, amaram
seu valor de troca, e não sua beleza natural.

Bogomil distanciava do Grande Mandalyon até que ele desapareceu como algo que
some dentro da distância, e finalmente parecia-lhe que chegara na superfície de onde
tinha partido, e parecia agora dormir e imediatamente acordar, sentia a noção de tempo
e espaço se instalarem na sua consciência.

Quanto tempo ficara lá mergulhado? Perguntou-se.

“14.400 minutos!”, respondeu Ariel de muito bom humor, ao ver a voz em sua cabeça
retornar finalmente. Ele bebera ayahuasca para buscá-lo fundo em si mesmo e ao chegar
lá ele mesmo, Ariel, quase é tragado pela correnteza em forma de sereia...

Era assim, pensava Bogomil, que Ariel tinha consciobservado a cena onde a criança
Belatrix falava.

O mago se restabelecia em sensação de tempo do período que passara no


Inconsciente. Dez dias que pareceram três ou quatro yugas, que pareceram um instante.
O momento da morte. Ou aquele que se decide morrer para continuar vivendo.

Toda aquela aventura inconsciente e todos os conhecimentos que adquiriu e recebeu


poderiam levar à loucura um homem comum. O conhecimento em geral mesmo
enlouquece as pessoas, o que se dirá do tipo de loucura que tal conhecimento arquétipo
poderia causar?

E como dizem, “depois da loucura se concluir, começasse a infância”, onde a loucura


é o não-existente, o sem-ego, o formante, onde tudo se agrega em uma pulsão de vida
recém ejaculada poderosa que é capaz de assimilar e fazer surgir toda a Informação de
dentro de seus genes, de forma inconsciente disso tudo. Findando a loucura no primeiro
impulso volitivo, mas tendo-a latente dentro de si na forma do ego para sempre, em
forma de morte, em forma de medo de não ter, não ser, não poder, etc.

Agora ele estava ali de volta, ao palco da vida cotidiana limitada, e se sentia como um
“prazer” que se tornasse de repente “dor”, e mais dolorido ficava quando podia se
recordar que ele sempre fora “dor”, e que ser “prazer” tinha sido apenas um sonho.

As coisas que consciouvira mergulhado no seu ponto de acesso ao inconsciente


coletivo, onde tudo começara a se transmutar pela presença da anomalia paradoxal da
existência de Belatrix, Carangula, a Supernova, o tráfico de saberes entre mundos, a
mensagem de Kalsimorg e Kharinae para os mundos adjacentes, os seres semelhantes
que se diferenciavam na distância ou proximidade de sua liberdade, a Eternidade, o
Infinito e as Idades dos Mundos no Tempo-Espaço, a Infante Terrible Belatrix, as
miríades masculinas ouvindo a paradoxa-fêmea-quintupla, o Amor de Si e finalmente
entre tantos mais e muito de tudo, o neither-neither.

242
Aquela loucura toda se agregava arquetipicamente em uma menininha. E que ele,
Bogomil, mantivesse sua sanidade meditando em tudo isso, meditando na finalidade de
que tudo isso não precisasse ser quando estivesse tudo visto pela premissa do Amor de
Si.

Tudo aquilo era um paradoxo tão indizível e quase impenetrável que se não fosse a
simplicidade dos Símbolos desvencilhados da boca de Belatrix, estaria mesmo o mago
totalmente louco. Mas superou a loucura na compreensão do memento more do
ressurgimento em vida, quando a duplamente viva Belatrix o iluminou.

E assim pode retornar como uma consciência ampliada à superfície cotidiana que
dividia com Ariel.

13 - A véspera do fim do mundo

Os perigos de contrair insanidade pelos quais o mago Bogomil passou se tornariam


nada quando naquele dia em especial, no qual seu duplo Ariel fora o chamar nas
profundezas do subconsciente onde ele contemplava manifestações arquetípicas na
encruzilhada dos tempos e das mentes, o mago emergiria para a histeria coletiva que
reinava nesta realidade muito mais insana que qualquer pesadelo ou sonhos.

De todas as loucuras e perdições que Bogomil podia imaginar para sua alma talvez ele
não estivesse preparado para a loucura com a qual flertavam estas terras nestes dias.
Afinal Bogomil é recente aqui, chegara nas costas de uma sombra que o arremessou do
alto para, na queda, se virar e ajustar no lugar onde devia dentro de outra pessoa.

E ali ele teve que traçar planos parcos para que sequer tivesse um meio de ação no
qual acreditar, e de dentro desse ente onde estava exilado ele pode descobrir este mundo
onde estava, e sorveu grande conhecimento alheio para dentro de si próprio através de
artimanhas e canais naturais.

E quando fora atrás de respostas na comunidade do Matrimônio Espiritual, ali enviado


pelo sonho de um ayahuasqueiro sábio ou louco, e por todo o pouco tempo que
caminhou pela superfície daquele planeta com as poucas pessoas que conviveu, ele não
teve tempo para se submeter à forma de apreciação de idéias predileta nesta altura do
Kali-yuga neste planeta de pocilgas e jardins.

Bogomil não teve a experiência de assistir televisão, e só tinha a idéia do que era isso
pela memória de Ariel. Mas afinal a televisão é o meio de comunicação de massa que
resulta da primazia perversa do Kali-yuga, enquanto degradação de todas as funções
morais, comportamentais, estéticas e humanas, e a “TV”, como era chamada, dava voz a
tudo isso. Aquele aparelho hipnótico na sala principal de todos os lares era o Kali-yuga
materializado em forma de entretenimento, a cores e em cem canais.

243
E como Bogomil não tivera tempo nem oportunidade de assistir, ele não sabia sobre o
assunto predileto na televisão naqueles últimos dias.

Em seus ciclos repetitivos de noticias a mídia enclausurava a mente da civilização


naquele momento da história do planeta Terra com um assunto totalmente espúrio, mas
que dava audiência. Além dos programas fixos na freqüência de se causar temor e
convulsão, onde permaneciam na grade noticiários de fatos ruins e desagradáveis em
geral, programas religiosos de pastores e padres midiáticos sem mediação, novelas
burras em toda sua argumentação, programas de humilhação humorística, aberrações
esportivas, etc., fazia carreira também na programação das últimas semanas na televisão
o “Fim do Mundo”.

A televisão e os meios de comunicação em geral são o Grande Agregador das Crenças


dessa humanidade. Ali elas se enrijecem e estão prontas para serem consumidas, pagas
ou de graça. Há pasteurização mental para todos os bolsos. Desde o que comer e como
arrumar as malas, até as descobertas recentes da ciência, passando pelo carro do ano e o
casamento infeliz da semana, os dias de vencimentos de impostos e a greve nos
aeroportos, de tudo a televisão consegue fazer uma repetitiva novidade, de forma
mascarada, usando subterfúgios de assistência social ou cultural, dizendo sobre a
necessidade de informar e divertir, sobre a necessidade de um quarto poder dentro da
sociedade, mas esse funesto meio de “descomunicação”, Bogomil pode ver pelos
poucos minutos que assistiu, carregava a bandeira do Kali-yuga: vender desejos, cevar o
medo, manter todos distraídos, e ganhar dinheiro, muito dinheiro.

Então, que o “próximo fim do mundo” fosse noticia não seria de se estranhar, mas o
mais estranho disso era que os meios de comunicação tratavam o assunto com certa
jocosidade, apresentando em suas reportagens pessoas totalmente despreparadas para
falar sobre tal assunto. Ou pelo contrário, seriam as mais preparadas, afinal, se falar de
algo tão espúrio, se necessitaria de gente muito comum, pois ninguém gostaria mesmo
de ouvir umas verdades na hora que antecede aos programas de vídeo-humilhação.

O mago não pode deixar de lembrar daquele antigo debate sobre o Tempo no reino de
Altair, quando a audiência aplaudiu entusiasticamente os argumentos descabidos da
nova crença, e para sua merecida humilhação, que todos não sabiam o porque mesmo,
praticamente vaiaram o sacerdote da Luz Serena que defendia idéias ao contrário do que
o vulgo comum gostaria de acalentar.

Mas agora Bogomil podia ver, através dos olhos de Ariel, enquanto comia uma
refeição, o assunto sobre o “fim do mundo” se desenrolando na televisão. E ao ver
aquele assunto todo vindo à baila daquela forma ele percebeu logo o que estava
acontecendo.

Afinal, ele não saíra das profundezas de sua própria consciência, lá onde ela tocava
todo o inconsciente, e onde consciosentira toda a força da anomalia espaço-temporal
que convergia na consciência de Belatrix neste mundo, para agora ser pego de surpresa
pela conversa de pessoas fúteis e tendenciosas fazendo graça naquela televisão.

244
Uma manobra de distração estava em andamento. Mas há quanto tempo? De alguma
forma os príncipes deste mundo sabiam o que advinha, o ego estava sendo assediado
para evoluir, de algum lugar no espaço-tempo uma anomalia vibrava e estava atuando.
As crenças tinham que se solidificar o mais rápido possível, toda voz dissonante devia
ser refutada e se possível humilhada na frente de todos. E tanto melhor essa paródia do
“fim do mundo” fosse disseminada, mais pessoas abrangeriam e também os que ouviam
a voz do paradoxo podiam ser contaminados por essa idéia distracional e se calarem.

Um desvio da questão principal era o plano, não o “fim do mundo” que importasse,
mas a mudança na Consciência. Assim, se falar em fim do mundo era a forma de se
evitar tratar de uma questão complicada para o “Mister Ego” que se apresentava lindo,
bem vestido e maquiado, no programa matutino de maior audiência.

Foi no meio dessa situação que Bogomil se viu despertar, emergir de seu sono de
conhecimento, exatamente na véspera do que todos achavam, sem acreditar, ser “o fim
do mundo”. Era vinte de dezembro do ano de dois mil e doze da era vulgar. Véspera de
um fim do mundo, último dia da conta longa do calendário do antigo povo Maia.

Na televisão pouco se falava dos Maias e sua civilização, quando faziam isso era só
para denegri-los, dizendo como um povo em um tempo tão distante no passado podia
saber qualquer coisa do presente, e argumentos “inteligentes” assim...

“Mas havia mesmo um „fim do mundo‟ em andamento, aliás, havia centenas de „fins
do mundo‟ em andamento neste momento neste planeta Terra”, essa idéia Ariel trocava
com Bogomil enquanto “comiam” vendo televisão

Bogomil interpolara Ariel para saber dele o que ele entendia sobre o assunto, o que já
havia lido.

O que Ariel sabia é o que tinha lido em uma boa dezena de livros. Com as leituras
afins ele conseguiu filtrar muita coisa em um esforço de entender o pensamento do povo
Maia em relação com esses tempos em que estamos vivendo, e não o contrário, como
fazia a mídia.

Deixando de lado toda critica fácil de se fazer aos meios de comunicação, Ariel
explicou a Bogomil que havia uma crença propagada no seio da civilização nas últimas
décadas, que o mundo acabaria no momento quando o antigo calendário do povo Maia
apontava para seu encerramento. E essa data fora calculada como sendo o dia vinte e um
de dezembro deste ano de dois mil e doze, e eles fizeram isso a cerca de três mil anos
atrás, para coincidir com eventos cósmicos raros.

Eles conscientemente lançaram a data final de seu calendário para coincidir com um
momento que no planeta Terra fosse o Solstício de Inverno no Hemisfério Norte do
planeta, e é claro, o Equinócio de Verão no Hemisfério Sul. Nesse dia em questão, aliás,
por um período de muitos anos, o Sol estaria atravessando no céu uma região que
apontava para o centro da galáxia onde o sistema solar em que está o planeta Terra gira.

245
Ali no centro da galáxia há o que se acha ser um enorme “Buraco Negro”, aquele que
Ariel e Bogomil invocaram na conversa de volta para casa dez dias atrás.

Isso representaria para os antigos Maias, algo de muita importância dentro de sua
visão espiritual de mundo e dentro de sua Mitologia da Criação. Foi em uma época
assim, como esses fatores celestes e terrestres coincidentes, que para os Maias seu
mundo fora criado. E mais, o criador do mundo, depois de fazê-lo, partiu para dentro do
grande Buraco Negro no centro da galáxia, e agora, no período que se iniciaria no dia
seguinte, esse deus Maia, “Hun Hunahpu”, ressurgiria, retornando de dentro do grande
abismo do Buraco Negro, de volta para o planeta Terra, para inaugurar um Novo
Tempo, onde a consciência humana seria liberta de muitos de seus grilhões.

Mas havia controvérsias, os próprios Maias atuais comemoraram a data há cerca de


três anos atrás, e o mundo não acabara naquela época também. Mas ao longo dos
últimos trinta anos a indústria ganhara muito dinheiro espalhando visões alarmantes de
apocalipses em livros, filmes e programas de televisão, onde nunca mencionaram o
nome de Hun Hunahpu. Da dezena de livro que Ariel lera, ele contava a Bogomil, talvez
dois citavam sobre a saga de Hun Hunahpu e seus filhos gêmeos.

De qualquer forma, para os dois, ou para Bogomil, amanhã seria mesmo um dia
especial, afinal estava marcada uma cerimônia na comunidade do Matrimônio
Espiritual, Ariel informara a Bogomil que o próprio Ubaldo ligara no dia anterior para
confirmar a presença do “amigo Bogomil” no que ele chamou de “Ritual do Final do
Tempo”.

Sim! Bogomil estava tão entusiasmado e ao mesmo tempo cansado pela aventura no
Inconsciente que ao voltar, ele se entregou ao descanso mental de retardamento causado
pela televisão. Então no dia seguinte, aqueles que todos chamavam comodamente de “o
dia do fim do mundo”, algo realmente importante aconteceria em suas vidas, na de
Bogomil e Ariel, e de toda aquela comunidade espiritual...

“Mas não é só isso Bogomil...”, intercedeu Ariel, “...a cidade inteira está em
polvorosa, muita gente tem vindo para cá para escapar ao fim do mundo”.

Aquela cidadezinha estava tendo a afluência de milhares de pessoas, vindas de todas


as partes deste mundo, buscando por proteção e por uma luz que as guiasse. Haveria
nisso só coincidência, ou seria mesmo sincronia que ali naquele momento, uma
sacerdotisa de uma comunidade espiritualista tenha sido convocada por grandes
sombras que habitam os crepúsculos, a falar, a dar uma boa nova à sua comunidade e ao
mundo? Bogomil podia começar a perceber certa tensão energética no ar.

Mas o que seria?

Haviam pessoas sérias e bem intencionadas gravitando no ambiente dessa indigestão


cultural sobre o fim do mundo de dois mil e doze. Havia alguns que até poderiam ser
chamados de verdadeiros Filautas entre as galeras de profetas do “fim do mundo”.

246
Alguns, mais sofisticados e influenciados pelas Plantas de Poder como a ayahuasca,
acreditavam que no final do período do calendário Maia, ia surgir no mundo uma
Grande Novidade6. Essa grande novidade seria um “objeto” que “acontecerá” no mundo
no dia do “fim do tempo”. Veja que nesse sistema de se ponderar sobre as revelações do
calendário Maia, não se fala em “fim do mundo”, mas em “fim do tempo”, e fala de
algo, um “Eschaton”, algo que agrega todos os fatores que devem se concatenar para o
momento mor em que o tempo fará sua guinada, é disso tudo que lhe falava Ariel.
Bogomil só podia ver como sendo a pessoa de Belatrix essa tal “novidade”.

“Então é isso que é hoje Bogomil de Altair! O último dia de um mundo que merece
mesmo acabar! E depois de amanhã, será o primeiro dia de outro mundo... quem sabe,
melhor um pouco, não é?”, brincou Ariel.

“É! Mas aposto que não falarão nada na tal de televisão sobre o dia depois de
amanhã!”, disse-lhe Bogomil, e desligaram o aparelho.

14 - 21/12/2012

Naquela manhã, a chácara da comunidade do Matrimônio Espiritual estava cheia de


gente, uma grande festa vinha sendo celebrada desde a noite do dia anterior quando as
pessoas começaram finalmente a chegar para celebrarem o Equinócio, e também, a
chegada de um “novo tempo”, como anunciaram os mestres lideres da comunidade,
entre eles, Belatrix.

A agitação era grande e constante e o espaço ficou pequeno. Havia ali pela manhã, na
hora em que Bogomil (e Ariel) chegou, cerca de cem pessoas, e mais iam chegando para
a sessão que se realizaria logo cedo, iniciando por volta das sete e meia da manhã.

No caminho para lá, Ariel pediu humildemente que Bogomil assumisse a volição de
seu corpo, ele não tinha nada a fazer lá, e se fosse por ele já estaria longe, pois tinha
resolvido todas suas pendências na cidade, estando de malas prontas há dias para
finalmente voltar à sua terra.

Bogomil aceitou constrangido, pois ele respeitava muito Ariel desde que eles
procederam juntos aquele seu ritual tão particular de “núpcias astrais” entre o corpo e o
espírito de Ariel, suas pulsões masculinas e femininas.

Agora rumavam juntos para um ponto desconhecido no tempo naquela manhã onde
não sabiam mesmo o que esperar. Eles tinham apenas a consciência que rumavam para
ver o que a sacerdotisa Belatrix teria a pronunciar naquele momento. Estavam ansiosos,
cada um por seus motivos próprios, e apesar da ansiosidade recíproca pela idéia de
estarem de partida, cada um para seu lugar de origem, eles também tinham a ânsia por

6
Vide as obras do botânico e pensador Terence Mckenna.

247
saber o que aquele dia lhes reservaria, afinal é dia vinte e um do mês de dezembro do
ano de dois mil e doze, o “dia final no tempo”.

Chegando à comunidade Bogomil foi entusiasticamente recebido. Logo na entrada o


jovem João Gabriel lhe acolheu, dentro do espírito festivo que todos estavam, e o mago
reparou que não estavam ali esperando uma catástrofe.

João Gabriel lhe contou então que durante o período que pela última vez ele vira
Belatrix até no dia de hoje, a sacerdotisa proclamou uma dieta especial para os membros
da comunidade, visando o dia em questão. Nos últimos dez dias todos os adeptos do
circulo interno permanente da comunidade comungaram ayahuasca todos os dias assim
que o Sol se punha. Mas Belatrix comungava o enteógeno quando o Sol se punha e
quando raiva pela manhã. Assim a sacerdotisa vinha galgando uma jornada particular no
mundo astral dos encantos da natureza, desvencilhando dali um grande estofo de
conhecimentos que ela prometera que no equinócio então revelaria aos membros da
comunidade e a todos que ali fossem comungar naquele dia a bebida expansiva.

“A expectativa de todos é grande!”, dizia-lhe o jovem. Expectativa aumentada pelas


muitas experiências de outros membros da comunidade ao longo daqueles dias,
inclusive ele próprio, João Gabriel, que como os outros, em sonhos e êxtases, tiveram
grandes intuições e visões fantásticas referente àquela data que Belatrix fez todos se
alinharem expansivamente.

Aquela foi uma semana intensa para essas pessoas, talvez na mesma proporção que
fora para Bogomil, que naqueles mesmos dias mergulhara fundo em seu inconsciente,
tendo ali seus encontros com mundos paralelos, saboreando sabedorias eternas e
encontrando lá o paradoxo anômalo que talvez fosse o que desencadeava tudo aquilo.

Da mesma forma que Bogomil percebia que a maioria daquela humanidade estava
totalmente alheia àqueles fatos, ele se via desconcertado por toda sua aventura desde
que decidira ajudar Bel em uma questão tão especifica e agora estava envolvido dessa
forma no eixo espaço-temporal mais importante daqueles aéons paralelos que viviam as
realidades.

Por isso ele sentia que devia esperar mais daquele dia. Mas intuía também que não
devia esperar nada além do que a conclusão daqueles estranhos mistérios. Eram
paradoxos seus sentimentos, porque ele acredita que o que de novo tiver que haver neste
dia, isso virá para esta humanidade do planeta Terra, e virá de forma quase anônima
pela pessoa de Belatrix.

Mas as coisas iam caminhando, e depressa, pois o tempo não parava. E para surpresa,
ou não, de Bogomil, o jovem João o levou direto a Belatrix, pois era essa a instrução
que o rapaz tinha. Assim depois de os porem frente a frente um com o outro no quarto
particular da sacerdotisa dentro da casa sede da chácara, ele se retirou.

Bogomil pode ver que Belatrix era um misto de radiância pessoal e cansaço físico.
Qual não devia ser o esforço daquela mulher nos últimos dias para transitar no meio da

248
realidade para o mundo astral onde a ayahuasca a jogava, refletiu Bogomil calado ao vê-
la, o que ela devia estar pensando e em que grau de consciência ela devia estar.

- Bem vindo irmão Bogomil! Finalmente estamos juntos novamente aqui! - disse ela
como se estivesse em transe, o mago pode perceber seu estado alterado de consciência,
talvez ela estivesse alterando entre o profundo de sua mente e a realidade superficial da
cotidiana. Ele podia esperar qualquer coisa dela.

- Saudações Belatrix! - disse ele então, saudando-a com uma formalidade que embutia
um respeito não simulado, mas que vinha do fundo de sua alma.

- Depois daquela noite em que comungamos hoasca juntos muitos portais se abriram
para mim meu irmão, e eu me deparei com coisas além da compreensão da mente
comum em que eu insistia em permanecer... - disse ela, como se confidenciasse a
Bogomil seu estado de espírito ampliado e escandaloso, permanecendo dentro de um
mistério que talvez só fosse confiado aos dois. - E agora irmão, eu só posso ser um
canal por onde devem fluir certas verdades que me possuem, e poderiam me destruir se
eu não as respeitasse no silêncio de não se precisar dizê-las todas. - Belatrix era então
um ser especial, ciente de muitas coisas que o mundo desconhecia então, assim como o
próprio Bogomil.

Como ela lidaria com aquilo tudo então, ponderava Bogomil, como daria vazão ou
acomodaria a mente superior em relação a tudo que devia fazer? Bogomil podia até
revelar uma pena daquela mulher, se ele mesmo não fosse um homem que lidava com
aqueles poderes e energias.

- O tempo nos convoca Belatrix, para fazermos o que nos é cabido! - finalmente lhe
disse o mago, como se assim dividissem o peso de saber o que só eles sabiam, e a
missão de fazer o que só eles podiam fazer então.

- Sim! O Tempo! Mas há tanto a dizer, tantas coisas, que a mente deve ser somente
Espaço, pois se cedêssemos à razão, pareceríamos mais Loucos de Deus do que seres
que almejam uma nova e elevada consciência. - disse Belatrix.

- E o que pretende então Belatrix? - perguntou-lhe Bogomil, tentando saber que rumo
as coisas tomariam naquela manhã.

- No tempo certo irmão! No tempo certo! - falou ela, acenando que tudo se daria
dentro do salão onde a sessão preparada se desenrolaria.

Assim se abraçaram, e rumaram, Belatrix na frente e Bogomil seguindo-a, finalmente


rumo ao salão onde as pessoas já acomodadas esperavam a sacerdotisa para o inicio da
sessão relativa ao Equinócio de Verão.

249
15 - O X entre o Alfa e o Ômega

O que se seguiria era um mistério para todos ali naquele salão.

Quando sua sacerdotisa entrou no salão o silêncio da manhã era aconchegante e


anunciador. Cerca de cento e cinqüenta pessoas estavam acomodadas apertadamente no
salão e em volta, sentados em cadeiras e no chão, na grama e sobre tocos e pedras.

Aproximava-se o momento em que o Sol no céu deixaria de se afastar do equador


terrestre e tornaria de volta, na verdade o próprio planeta tornaria a se reclinar,
abraçando de novo a estrela em seu eixo central.

Belatrix, auxiliada por mais dois mestres do Matrimônio Espiritual, comungaram


primeiro a ayahuasca, depois partiram para distribuir o iluminógeno para cada um ali
presente, no lugar em cada um se encontrava. Serviram à todos no mesmo copo, uma
cuia feita de uma cabaça, que comportava cerca de trezentos mililitros da bebida
sagrada. Todos foram comungando e recebendo o toque à altura do terceiro olho por
parte da sacerdotisa. Completaram essa parte do ritual cerca de quinze minutos antes do
momento do equinócio, e todos se puseram em silêncio e de olhos fechados esperando a
ayahuasca fazer efeito.

No momento exato do equinócio, Belatrix então se levantou e de braços abertos


cantou um Ícaro, um hino de sabedoria, onde ela dizia:

Luz do Sol,
Oh! Luz do Sol...
Luz do Sol,
Oh! Luz do Sol...
Vem iluminando... Vem iluminar...
Porque quem perdoa aprende
Que Perdão é perdoar.

Luz da Lua,
Ah! Luz da Lua...
Luz da Lua,
Ah! Luz da Lua...
Vem iluminar... Vem iluminando...
Porque quem ama entende
Que Amar é amando.

Luz Solar...
É Luz Solar!
Luz Lunar.
É Luz Lunar!
Vem nos clarear...
Porque Amar é Amor
E Perdão é Perdoar.

Chama que vem,

250
Chama que vem...
Chama que vem,
Chama que vem...
De dia e de noite
Chama que vem...
Esclarecer
Vem agora o Sol.

Aquele canto lançou a mente de todos os presentes em um estado radiante. O dia se


tornou mais claro, e o céu da manhã mais brilhante. Depois de terminado o canto
Belatrix permaneceu de pé, e quem teve força para abrir os olhos e a fitar, dentro do
êxtase ayahuaski que se iniciava fortíssimo, podia ver ali uma mulher sobre a qual o dia
despejava suas graças de iniciação.

Belatrix sentia o momento exato onde o planeta se reclinava de volta posicionando o


Sol no centro do mundo. E graças ao poder da ayahuasca ela pode levar todos os ali
presentes a atravessarem com ela o portal de equilíbrio do Equinócio. No céu, a estrela
posicionava-se diretamente no rumo do centro da galáxia, e a consciência alterada de
todos ali puderam ter a miração da estrela eclipsando a fratura negra no céu. Nesse
momento um grande zunido alcançou a todos, uma vibração contundente:
zuooooooooooooooommmmm!, que encheu a audição alterada.

O zunido do centro da galáxia era potencializado pelo Sol na sua frente, fazendo o
som convergir pela força gravitacional da estrela rumo à Terra.

Quando no auge do zunido na cabeça de todos a voz de Belatrix se confundiu com ele,
dizendo:

- Saudações a todos os viajantes do tempo! - disse ela docemente, e continuou: -


Agora, minhas irmãs e meus irmãos, nós estamos todos lançados no “xis” da questão
das eras, adentramos no momento central em que o tempo acaba e começa novamente!

- E o que viemos fazer aqui meus queridos? - perguntou ela, sem esperar respostas. -
Nós viemos nos apresentar ao Momento, viemos dizer quem somos e o que queremos
para toda a eternidade! Viemos aqui gritar nesse momento onde o tempo acaba, que o
tempo que começa deve ser melhor, e viemos nos oferecer ao Tempo que nasce, como
seu mensageiro ao mundo da novidade que queremos ver acontecer de agora em diante!
- ela discursava radiante e sem vacilar. Todos a ouviam silentes, enquanto que em sua
consciência expandida visualizavam o que Belatrix as influenciavam a enxergar.

A força da ayahuasca aumentou e circulou o salão e adjacências e todos vislumbravam


uma mesma visão da Idade de Ouro nascendo dentro de si.

Era a imagem de uma floresta imensa, acima no céu havia um magnífico eclipse
triplo, alinhava-se a Lua, o Sol e a Grande Fenda da Galáxia. A miração toda ganhava
uma iluminação serena e o meio-dia se tornara ao mesmo tempo Aurora e Crepúsculo.
Na mata abaixo, lá em qualquer lugar onde fosse seu centro, havia uma clareira onde

251
enormes árvores respiravam aquela luz serena em torno de uma estátua ao estilo grego,
em mármore branco, edificava-se um ser andrógino nu. Esse ser mirava seu braço
direito erguido, onde a mão segurava uma pequena esfera esmeraldina. Seu braço
esquerdo apontava com o dedo indicador da mão o solo rubro, como se dizendo que
aquela semente em sua outra mão provinha ou tivesse que ser plantada naquele chão aos
seus pés. Na miração então, um sem número de pássaros raros e muito coloridos,
conhecidos como Quetzals, revoavam em torno da estátua, consumindo toda a visão em
cores e gralhados ancestrais e novos.

Depois da miração engendrada, Belatrix tornou a falar como se cantasse um conto de


sabedoria profunda.

- Dêem boas vindas em Amor e Esclarecimento ao Paradoxo meus filhos! - dizia ela,
agora como uma mãe de todos ali, pois externava na voz esse carinho sem precedente de
uma genitora aos seus filhos que nasciam em consciência. E seguiu ensinando:

- O que é um paradoxo? O que é uma mulher paradoxal? O que é um homem


paradoxal? O que é uma sombra paradoxal? O que é uma luz paradoxal? O que é o
Paradoxo?

- Saibam que o paradoxo sempre revela a Realidade. O paradoxo, e não a causalidade


ou a graça divina, é sempre o fundamento do Real! E agora no inicio de um Novo
Tempo somos convidados a nos aproximarmos mais do Paradoxo e com ele aprender
sobre a nossa verdadeira essência na existência.

- Até hoje a humanidade atuou sobre três paradigmas existenciais na realidade


cotidiana. O Carma, a Graça e a Práxis, elas representam a visão de mundo do Oriente,
do Ocidente e do Materialismo. Agora no entanto vemos entrar nessa dialética histórica
a evolução do paradigma da realidade no Paradoxo.

- Ao longo da história humana a consciência se volveu para resolver sua questão mais
importante, “por que existimos?”. E não obstante ao longo do tempo fora possível para
a consciência obter explicações espirituais para esse fato, a sedução do mundo foi mais
forte e penetrou toda a espiritualidade enquanto a alma se instalava na carne.

- Os pensamentos mais antigos conseguiram instalar em seu princípio religioso a visão


ao mesmo tempo mística e mecânica da causalidade das coisas. Essa é uma visão ao
mesmo tempo racional e espiritual, mas começou a se fixar contundentemente não na
realidade das coisas, mas definindo isso justamente como Ilusão. Ou seja, apesar de
uma causa invariavelmente gerar um efeito relativo ao seu princípio, isso tudo não passo
de um jogo de reflexões ilusórias de um princípio maior.

- A reação histórica religiosa à isso foi a concepção da graça divina como princípio da
existência das coisas. Essa visão espiritual, entretanto falhou ao tentar explicar a origem
do mal no mundo, e fez uma grande confusão com isso tudo, causando grandes males à
consciência humana e à Natureza.

252
- E só em disposição com essas visões de carma e de graça poderia surgir o
materialismo. Voltando às costas principalmente às teorias que propunham falaciosas
explicações sobre o mal do mundo, a humanidade concluiu que o melhor era tirar
proveito da vida do que sofrer por causa de preconceitos espiritualistas. Foi então visto
que a única causa da existência era a matéria.

- Agora, graças ao próprio tempo, a consciência pode começar a ponderar que o


fundamento da existência é o Paradoxo, e não só pela sua significância filosófica,
espiritual e científica, mas pela sua originalidade arcaica, onde o paradoxo remete a
Incerteza. Este deve ser de agora em diante nosso paradigma da existência, do “por que
existimos?”, sua base está na Incerteza, no Paradoxo.

- E então hoje, viemos a instalar o princípio da incerteza como o fundamento de


nossas certezas. Tudo isso, em essência não é nada mais do que uma chance, uma
entrega, uma desistência. Um salto!

- Irão dizer que queremos instalar o Caos no mundo, irão nos criticar dizendo que só
queremos nos vingar do mundo e promover a anarquia, creiam mesmo que toda a
criação está contra nós. Mas o que fazemos nesse momento e o que faremos quando
levarmos nossa ampliada consciência para o mundo será mais do que perturbar a
disposição já instalada e rígida das idéias, das leis da sociedade e da visão religiosa do
mundo, nós simplesmente traremos de volta ao palco da vida seu fundamento de
incerteza. Assim seremos apenas originais, mesmo que as pessoas não reconheçam a
profundidade que isso implica.

- Por isso nesse momento minhas irmãs e meus irmãos, eu quero me concentrar em
apontar apenas um ponto, assim como o Sol lá fora aponta para o centro da Via Láctea.
Pois é a partir deste ponto que deveremos atuar em relação à vida e ao mundo, em
relação com as outras pessoas e em relação com nós mesmos.

- Tenham firmes na consciência, em espírito, que a Incerteza é o fundamento da


realidade. Sobre isso vocês já podem se informar, pois há até toda uma ciência
estudando essas coisas e já a convertendo em uma visão holística da realidade sobre
todo esse paradigma.

- Agora eu quero lhes falar ação. Nós temos que enfrentar a própria disposição deste
mundo não só para conosco, mas para com todo ser humano, e do ser humano para com
toda a natureza, e de nossa disposição para com nós mesmos. Não é possível mais
permanecermos dentro desta caverna que é o Sistema das coisas disposta para nos
aprisionar, nos iludir e distrair, e fazer-nos alienados de nossa verdadeira essência.

- No fundamento de todas as coisas ali erguidas está um sistema urgido para nos
enganar e fazer sofrer, e nós não devemos e nem precisamos esperar milênios para que
causas gerem efeitos de libertação, nem devemos esperar pela graça divina nos levar ao
paraíso quando morrermos e nem devemos dar as costas ao espírito e nos agarrarmos à
matéria como único meio de se construir o paraíso na Terra. O mundo irá nos enganar

253
sempre, fazendo-nos prolongar em promessas que nunca se realizarão. Devemos agir,
agora!

- Assim devemos criar um fator de incerteza dentro de nós, para que daí sim possamos
atingir e ativar nossa função de origem existencial. Devemos romper com o mundo!

- Mas esse “romper” é uma espécie paradoxal de rompimento. Nós não devemos
abandonar o mundo ou tentar mudá-lo à força. Não! Não há então palavras precisas
como eu possa lhes indicar o que seja esse tipo de rompimento que clamo à vocês, eu só
posso me aproximar disso lhes conclamando à Desistência! Renúncia!

- Todos vocês já podem imaginar o paradoxo do que estou lhes propondo nesse
momento, e saibam, as implicações disso são mais profundas que as simples e gastas
palavras podem se referir. Desistência é justamente o paradoxo de uma existência! Algo
que deixa de ser, mesmo continuando sendo!

- Isso porque o princípio universal das coisas não é nem a causalidade, nem a graça, e
nem a matéria, mas é a única coisa universal que existe é a Incerteza, e da incerteza se
dispõe a liberdade de escolha, e isso denota finalmente Vontade.

- O tempo inverteu todas as coisas de seu princípio, pois foi justamente com esse fim
que o mundo foi erigido, e a liberdade de escolha se viu diante de tão ampla capacidade
de alternativas que a liberdade perdeu sua premissa incerta para ganhar uma noção de
angústia diante das diversas opções. Sabemos que poder escolher causa agora angústia
porque isso aponta justamente que a liberdade é finita, mesmo que confrontada com o
número infinito de alternativas.

- Mas esse leque de opção foi disposto pelo mundo não para nos dar liberdade, mas
para enganosamente desviar-nos da Vontade, que é a centelha divina perfeita contida
em cada um de nós dentro desse mundo imperfeito. Assim temos que renunciar à essa
disposição do mundo voluntariamente.

- Vocês entendem o que quero dizer? Estou lhes falando que só podemos ser livres se
paradoxalmente desistirmos de ser livres. Eu lhes disse que para atuarmos com nossa
Vontade original devemos agir voluntariamente. Sim! É isso mesmo que entenderam!
As palavras apontam para o próprio paradoxo, tudo é escondido e exposto por elas, é
isso que a tão incerta palavra “re-velar” nos aponta.

- No mundo a única forma agora de alcançarmos nossa liberdade é sermos


voluntariosos, e mesmo que esse pensamento contradiga superficialmente a Vontade ela
na verdade a afirma. Isso é do cerne de nossa essência que agora tomamos nas mãos e
agimos sob seu prisma, a Incerteza.

- A Vontade paradoxalmente é o único caminho para uma espécie de trégua entre as


pessoas, um armistício dentre nossas agruras causadas pelas imposições de nossas
respectivas sociedades e culturas.

254
- Vontade é a lei universal, mas ela não é uma “Lei” como entendemos esse conceito.
Ela é mais próxima ao Amor do que do Direito.

- E o Amor só pode ser a base de ação humana se ele estiver sob a trégua da Vontade.
Podemos agir então, fazer nossa vontade, fazer o que quisermos e não ficar apenas
reagindo às coisas da vida. Se agirmos sob as bases da lei universal que é Vontade,
agiremos livremente, e ninguém poderá temer e odiar a ninguém, pois estamos agindo
pela liberdade verdadeira.

- Esse é o paradoxo final, o paradoxo paradigmático, o paradoxo paradoxal, liberdade


sobre liberdade, que é desejo sem desejo, amor sem amor, até maldade sem maldade.
Paradoxo sem paradoxo, paz sem paz, guerra sem guerra. É nudez sem nudez e
vergonha sem vergonha!

- Vontade é o inverso do reverso, e vocês descobrirão toda profundidade dessas coisas


que digo quando se puserem a meditar, estudar e agirem sobre estes pontos, eu não
tenho o poder de lhes fazer saber de uma só vez a significância disso tudo, mesmo
porque cada um deve aprender, ou recordar pelos seus próprios esforços o que isso tudo
quer dizer. Entrem em ação então!

- Agora quero lhes falar poeticamente, para acender o fogo em vossos peitos enquanto
estão em seu estado de consciência expandida. Conheceis aquele antigo poema
medieval que fala sobre o Amor? Eu vou o citar já comentando. O que ele diz é
justamente o lema da Vontade e da cessação, da desistência:

- Pois nasci e nunca vi o amor! E, no entanto ouço dele sempre falar... Mas sei que ele
me quer destruir, mas rogarei à minha vontade, que é o meu Senhor, que mostre o que
pode ao amor destruir, ou então se isso não há, que me Ampare de forma melhor, pois a
vontade minha não pode nunca me desamparar e nem maltratar aos outros!

- Amparo! Amparo é a verdadeira fé em um Verdadeiro Deus, e não a resignação ou a


fidelidade ou a revolução as manifestações desta fé, mas o Amparo que é a verdade, e
verdade é liberdade. Em Vontade o Amparo é a essência, o significado da mútua trégua!

- Nesse momento, onde o Sol eclipsa o fundo abismo sideral e de lá arranca de volta a
potência de nossa Origem, eu conclamo a todos a refletir sobre o Amparo. O amparo
que o chão dá à semente, o amparo que devemos ser de agora em diante para a nova
consciência, o amparo que devemos dispor ao mundo em desistência e trégua,
surpreendendo-o com essa novidade.

Então, depois de tudo isso falar, Belatrix se calou, deixando a mente expandida das
pessoas ali presentes pensarem sobre o que ela dissera, sobre aquela “nova idéia” que
ela trouxera para o centro do salão.

Belatrix assim fazia uma saudação à todo o amparo que podia ainda existir no mundo,
e em todos os mundos iluminados pela luz de um Sol que fluía justamente através do
peito do ser humano.

255
Amparo era na verdade o armistício que Bogomil propôs a Ariel, sua sedução.
Amparo é o campo da totalidade, da completude, o campo primaveril do sonho de Ariel,
onde se revela sua vergonha, e grandeza.

Aquele discurso impressionava Bogomil e à Ariel, que ouvia-o latente dentro de si, a
uma profundidade inimaginável para qualquer um, mas talvez para Belatrix, possuída
pela musa sacerdotisa de uma Nova, talvez observasse aquele corpo com suas duas
consciência de forma límpida, como se ambos estivessem nus e desvelados, como nunca
homen nenhum estiveram diante uma mulher, ela enxergava tudo ali além.

E o amparo é a idéia completa em torno do paradoxo em si, em torno de Belatrix.


Amparo é a função psicológica da feminilidade para com a masculinidade, sua própria
proposta de armistício, sua proposta de trégua, sua mútua entrega.

Olhando em volta, para todos que ali estavam, ela percorria com o olhar todas as
pessoas, e então se fixou em Bogomil, e por fim tornou a dizer:

- Eu te amparo e tu me amparas! - disse voltando por fim Belatrix à explanação de


suas idéias como se adivinhando os pensamentos do mago e talvez de muitas outras
pessoas ali dentro que meditavam em êxtase ayahuaski sobre o que ela dissera.

- Eu te amparo e tu me amparas, diz o feminino ao masculino. E, tu me amparas e eu


te amparo, diz o masculino ao feminino! - falou ela, com uma entonação emocionada na
voz, que disseminou um sentimento de união em todos os que a ouvia sob o sol da nova
manhã.

Passou-se vários minutos de intenso silêncio. O êxtase ayahuaski foi aumentando


dento do silêncio, e podia-se sentir a energia rondando a todos, no sentido que a própria
galáxia flui no espaço sideral, da esquerda para direita.

Então Belatrix impôs novamente seu corpo de braços abertos no centro do salão, e
cantou outro Ícaro de poder e conhecimento:

Ouuuçaaammmm...

É Meia-Noite... no mundo inteiro!


Brota do chão
A Rosa do Mundo...
Sagrado Feminino
Vem nos ensinar...

É A... Sabedoria Perene & Fiel


É Hoasca, Maria & Gaia...
É Barbelo, Perséfone & Sophia...
É Magdalena, Pachamama & Sulamita...
É Mãe, Irmã, Mulher & Amiga.

Fiel Sabedoria Perene,


Desce na escuridão,

256
Vem engendrada de Luz
Iluminando toda a Terra
É Meio-Dia... No mundo inteiro!
É noite inteira!
E aqueles que amam
Vem se completar!

Vem amparar
Oh! Divina Deusa Mãe
Pois é Meia-Noite no mundo inteiro
Vem amparar
Oh! Divino Deus Pai
Pois é Meio-Dia no mundo inteiro
E nos ensina
A sermos completos
Como Tu queres que sejamos!

A força da chamada de Belatrix levou o êxtase à níveis quase insuportáveis, pareciam


que todos iam se desfazer e serem reunidos na espiral de um torvelinho fractal em uma
coisa só. Belatrix olhava a audiência e a respiração de todos estava sincronizada, todos
estavam unidos em um só pensamento e em uma só energia de sabedoria profunda e
mágica. E ela mesma sentia crescer dentro de si a pulsão cósmica do momento que
incidia sobre sua consciência como um arquétipo de luz imensa. Ela era então o canal
que falava:

- Através de muitos homens e mulheres através dos tempos se condensaram em


pensamento e corpo uma sabedoria do Paradoxo, e ela sempre girou em torno do Amor.
Para nós os mistérios do paradoxo comportam a verdadeira verdade com a qual
devemos proceder no mundo. Esse é o caminho para uma nova Idade de Ouro onde
enfim a arquetípica Sophia finalmente completará sua diligente obra de consumação e
retorno ao seio do Verdadeiro Deus, desde que ela se lançou na sua jornada paradoxal
da Luz às sombras dessa própria Luz.

- É esse espírito de junto de Sophia que nos dará a exegese da paradoxal obra do
Artista, uma exegese que se lerá na carne e no espírito dos homens e mulheres que
penetrarem na Nova Era de Ouro destemidos, nus e sem vergonha, perdidos e cientes do
caminho de volta, loucos e sábios...

- Saibam meus amigos: nada é uma coisa só. Tudo é possibilidade. Tudo está em
aberto e na incerteza, por isso mesmo tudo está garantido e dentro do seio da Vontade.

- Quem isso dentro de si conseguir realizar, viverão novamente e nunca mais temerão
a morte e a destruição de nada.

Bogomil entendia, e fez Ariel entender. Belatrix, o paradoxo, era já sua Xokmah, a
Sophia Fiel. A Idade de Ouro havia começado.

257
A manhã já estava em sua metade, o alto-êxtase ayahuaski ainda persistia na
consciência e no corpo de todos os presentes. Todos mantinham os olhos fechado,
fascinados com visões e mirações de auroras ressurgente em plena luz do dia.

16 - Todo amparo que houver nesses mundos

Belatrix se sentara para descansar. Um outro mestre que estava sentado a seu lado,
que até então Bogomil não havia notado, mas era o mestre Raimundo Rosa, se
levantara, e meio inibido pela força da ayahuasca, convida a todos que quisessem repetir
a comunhão podiam se encaminhar em fila e em silêncio até ele.

Algumas pessoas se levantaram, e entre eles Bogomil, pois queria novamente


comungar a bebida sagrada das mãos do mestre.

Sorrindo-lhe silenciosamente o mestre Raimundo pegara um copo vazio e diante de


Bogomil fez o gesto de entornar alguma coisa de dentro do copo. O mago entendera o
gesto simbólico do homem, que então a cuia que todos comungavam comunitariamente
o enteógeno e a encheu e deu-a a Bogomil que comungou o líquido com respeito.

Depois de servir a todos que requisitaram o mestre Raimundo, aproveitando que


estava de pé e em sua forma simples de se expressar falou:

- Comunguem meus irmãos e irmãs, pois a bondade do Verdadeiro Deus é essa, a de


dar uma nova chance a quem quiser. O tempo sempre nos será disponível,
principalmente se formos disponíveis ao tempo, pois o tempo mesmo quer que nós o
transmutamos na beleza de nossas ações.

Ao ouvir suas palavras mais algumas pessoas se levantaram para receber novamente a
comunhão da ayahuasca, entre eles, Ubaldo se dirigiu calado para receber sua segunda
porção da bebida sagrada.

Depois de todos servir, o mestre Raimundo sentou-se novamente ao lado de Belatrix.

Passado alguns minutos então, a sacerdotisa se levantou novamente e se dirigiu a


todos:

- Quero vos dizer agora minhas irmãs e meus irmãos, algumas últimas palavras, nessa
manhã radiante. Uma mensagem final para que todos a levem para todos os cantos do
mundo onde forem viver depois de hoje, nesses novos tempos que nos foram
concebidos. - disse ela, e depois se pondo em concentração por alguns instantes, depois
falou em palavras de grande simbolismo e sabedoria profunda:

- De onde tudo provém, lá onde a Potência É, no Verbo inaudito da Voz do Silêncio,


vêm através da Fiel Sofia, uma mensagem de ouro para todos os seres.

258
- Fundamento de sentido que a tudo ampara, presente no mundo através das
incertezas, zelado no vazio do útero de toda a natureza, emana um novo modo de
pensar.

- A Sagrada Fonte Eterna, que é nosso Pai e Mãe, que é nossa Luz e Sombra, que é
Absurdo e Simples, nos conclama através do silêncio do trovão a acolher esse novo
advento.

Belatrix fez silêncio, concentrando forças e atraindo a atenção expandida de todos:

- Que do ponto em que em nós emana o amor, se faça presente a consciência do


amparo!

E deixou aquela frase circular na energia que rondava todo o salão, depois tornou:

- Saibam que cada ser vivo é o cerne de um paradoxo. Aliás, paradoxo deveria ser o
nome de todo ser. É o que na sabedoria de Sophia se revela como o sustentáculo de
todas as coisas.

- Todo nexo de consciência habita um campo de batalha que vai sempre pelejar pelo
equilíbrio. E é dessa luta que é feito a realidade que devemos amparar, e está nela
também a resposta para a Verdadeira Paz.

- Aprendamos com a Fiel Sophia que pela palavra Verdade devemos entender
Liberdade. Cedam espaço para pensarem assim e comecem a pensar e agir tendo em
vista o conceito de Trégua.

- Então liguem-se mais ao timo do que ao coração, importem-se mais com a nutrição
do que com a comilança, vise mais o desapego do que ao consumo, queiram sempre a
união do que a razão, prefiram então habitar sua mente no paradoxo das incertezas do
que nos dogmas da soberba do ego, reúnam-se aos seus iguais e fortaleça mais a
comunidade do que a classe.

- Ponderem principalmente no armistício entre o masculino e o feminino, porque o


oposto de tudo isso é destruição, sofrimento e morte.

- Trégua consigo mesmo: corpo e alma. Trégua com o outro: homem e mulher. Trégua
com o mundo: vida e morte. Trégua com a existência: objeto e sujeito. Até que sejamos
um só corpo em união com duas almas em harmônica paz e amor.

- Que nada seja mais importante que a Vontade de Ser: Vida em abundância para
todos e para tudo.

- Então nesse novo dia chegará em todos os horizontes do mundo uma fantástica
Aurora a brilhar. E nessa hora de mista mística penumbra: luz e sombras, o paradoxo da
harmonia em forma de riso ressoará como um trovão na mente perfeita da compreensão
humana. E esse será o primeiro dia da Idade de Ouro.

259
Depois de falar sobre esse ponto de vista mais pragmático, mas não menos místico,
Belatrix então se calara e sentou-se, como se estivesse extenuada.

A manhã já era então o próprio meio-dia. A luz e o calor do verão recém nascido
começavam a se fazer notar quando o frio ayahuaski foi abrandando. E aquele calor era
como o primeiro indicador do parto dessas novas pessoas que adentravam em luz
naquele novo tempo. O último se fora, agora era o primeiro dia. Não havia sombra
nenhuma estendida no horizonte.

As pessoas que estavam de fora do salão, começavam a se apinhar na sombra reta de


dentro do salão, sentando no chão em toda parte.

Bogomil cedera seu lugar a uma garota que desconfortavelmente se instalara ali do
lado, e ao se levantar chamou a atenção de Belatrix, que abrasava o calor já de olhos
abertos e com um leque de pano preto onde estava bordado um dragão em dourado.

Cochichara algo com mestre Raimundo, e depois de alguns instantes esse se levantou
para dizer:

- Meus irmãos, agora dando seguimento aos eventos desta data tão especial, nós
vamos abrir espaço para os demais irmãos que tiverem algo importante a dizer para
falarem. Eu gostaria de chamar aqui o irmão Bogomil.

17 - BelatriXirtaleB

Bogomil não se assustou tanto com a convocação. O susto maior foi do corpo de Ariel
que tremeu ao ver-se levantando e se dirigindo para frente de todos.

O êxtase ayahuaski agia com força ainda e a mente de Bogomil era só luz. Ele se
sentia muitos ao caminhar os poucos passos até o centro do salão, aquilo seria efeito da
bebida ou de suas viagens interiores, mas agora estava ali para atestar o que a
sacerdotisa dissera, pois ele era sua principal testemunha.

- Bom novo dia meus irmãos e irmãs... - foi dizendo mago sem pestanejar. - Eu vim
de longe para aqui aprender uma nova palavra.

- Para mim, ao dizer “belatrix”, eu agora estou dizendo paradoxalmente: “Eu te


amparo e tu me amparas!”, ao que vocês me dizem paradoxalmente: “Tu nos ampara e
nós te amparamos!” - Bogomil sorriu olhando nos olhos de cada um ali que lhe
encaravam. - “Belatrix!” - disse novamente.

- Eu vim de muito longe, na busca de uma salvação em um caso paradoxal, onde eu


vi, ao chegar aqui, que paradoxalmente eu não sabia nem pelo que eu procurava. Mas
tive fé nas incertezas que me guiavam passo a passo, no rumo da concretização de algo
ao qual só eu devia passar. Por isso, como muitos outros homens ao longo da história

260
humana em todos os tempos e espaços, eu aprendi, com minhas próprias incertezas
misteriosas o que tinha que aprender para descobrir finalmente quem sou.

- Sou um dentre muitos filhos de uma incerteza, de um paradoxo lançado ao mundo,


em carne, alma e espírito. Eu sou uma idéia escrita no papel que deve se desenrolar por
si só, na busca de uma verdade, e essa verdade servirá a muitos, essa verdade será capaz
de entortar a linha do tempo rumo a coisas melhores. Em paz, na trégua e no amparo, eu
devo me permitir isso. Sem medo de ser quem sou e o que devo fazer.

- Homens paradoxais conceberam idéias que foram suas estrelas guias e se revelaram
no céu noturno das concepções humanas. Destemidos eles penetraram no grande meio-
dia da história no seu devido momento.

- Lao Tse, mestre fundador da religião mais paradoxal do mundo, o Taoismo,


ensinava que deveríamos agir sem agir, que paradoxo! Para Lao Tse Deus era o “Tao”,
um caminho perfeito que só se realizava ao caminhar erraticamente por ele.

- O Buda Gautama, o mestre da compaixão ensinou que tudo é dor, mas que o nada
era prazer, mas para se chegar ao nada, ao Nirvana, devíamos percorrer a senda que
emanava dor, o Samsara, dizendo mesmo que Samsara é Nirvana. A existência finita é a
Eternidade! Que paradoxo!

- Agostinho de Hipona, apostata herege e ex-herege, pecador consumado e santo pai


da Igreja Católica, isso ou aquilo dependendo do ponto de vista da realidade de quem o
julgasse, mas ambas as coisas definitivamente, uma vez de sua realidade gnóstica
maniqueísta e outra vez de sua realidade Católica disse: “Ame e faça o que quiser!”.

- Frederich Nietzsche, ateu e crente, assassino de Deus e seu maior profeta, cristão e
anti-cristão, renovador do paganismo e interlocutor do cristianismo disse: “Tudo que é
feito com amor está além do bem e do mal!” Paradoxo sobre paradoxo!

- Aleister Crowley, nascido protestante e auto-criado pagão, se achava o Cristo de luz


e ao mesmo tempo o Anti-Cristo das trevas, caos das ordens ocultistas de sua época e do
futuro, escreveu seu lema: “Faze o que tu queres há de ser tudo da lei! Amor é a lei, mas
amor sob Vontade!”

- Na trilha dessas pessoas paradoxais outros pensadores paradoxais também


seguiram, independentemente ou influenciados. Antes o próprio Cristo Jesus, que para
seus seguidores era Deus, um Deus que paradoxalmente é Um e é Três, declarou ser ele
mesmo a reluzente Estrela da Manhã, que é Lúcifer, aquele que se rebelou contra esse
mesmo Trino Deus um dia antes do Tempo. Sendo que a Estrela da Manhã é Vênus, o
Segundo Sol do Amor.

- Já entre nós, Carl Jung, mestre contemporâneo da alma, a qual designou de Psique
como os gregos antigos, constatou que a unidade humana só se dava paradoxalmente
unindo as partes masculinas e femininas de nosso ser. No matrimônio alquímico entre a
as partes masculinas e femininas dispostas em corpos e psiques de homens e mulheres

261
se geraria o Andrógino, qualidade psíquica que se expandiria para tudo através seres
humanos.

- Relembrando o arquétipo de Merlin, ator fundante das Lendas do Graal, um filho do


demônio que executa impiedosamente as ordens de Deus, possibilitando assim
estabelecer no mundo a presença divina redentora dentro de todos os homens,
exteriorizada na saga da existência, na mítica Camelot Universal da irmandade humana
no seio do paradoxo do amor galante, onde um rei defendido por um bufão conquista a
chave da trégua: Pax! Que paradoxo para o ego!

- E quantos outros? Quantas outras? William Blake. Mestre Eckhart. Plotino. Kabir.
Helena Blavatsky. Galileu. Austin Osman Spare. Copérnico. Chaitanna. Einstein e
Bohr. Terence Mckenna... Quantos outros que viveram no cerne do paradoxo da
sabedoria de sua existência.

- E quantos mais ainda, em mundos pelo universo e pelos diversos universos paralelos
onde abrigadas foram as centelhas divinas originais provenientes do Verdadeiro Deus,
se desenvolveram sob a luz serena da Gnose que por seus próprios esforços não
encontraram finalmente essa verdade paradoxal, zelando por ela como uma pérola que
não foi entregue aos porcos, mas sim recebida e amparada nas mãos dos seres divinos
que nós realmente somos.

- Todos de uma forma e de outra vieram nos fazer entender que o ego devia ser
superado se quiséssemos mesmos entender nossa Realidade. São sombras da alma
humana que convulsionam. São luzes no mundo escuro da estupidez e da verdadeira
ignorância das coisas.

- Agora, nesse dia, ouvindo as palavras novas de Belatrix, podemos abrir caminho
desde o profundo de nós mesmos e realizarmos a convocação desse novo tempo.

- Eu vim de um mundo distante, para testemunhar o nascer do Sol de dentro do


abismo da Escuridão, e elevarei de volta comigo uma só palavra que quer dizer essa
liberação: Belatrix!

Bogomil calara-se. Dentro de si volvia em busca de Ariel, para que ele emergisse e
também falasse o que tinha a dizer. Como que empurrando um menino vergonhoso para
frente do palco onde uma peça se desenrolava, ele lançou Ariel para o domínio da
consciência.

Ao se ver ali, ele ficou desconcertado ao extremo. Não esperava por aquilo. Bogomil
se retirara completamente. Então ele se concentrou e manteve a calma, e disse a
primeira frase que lhe veio intuitivamente na mente, adaptando de lembrança ao
momento a citação de um livro antigo que certa vez lera, e assim ele disse:

262
- Minhas irmãs e irmãos... Aqueles que descansam à sombra de um homem ou de uma
mulher de posse da felicidade não se confundirão jamais. De fato, na mão daquele que
está unido à felicidade, os espinhos convertem-se em rosas!7

Dito isso Ariel/Bogomil agradeceu e foi se sentar no chão, na beira do salão.

Parecia que tudo estava consumado naquela sessão de equinócio. As pessoas todas
mergulharam em profunda meditação e músicas foram tocadas no salão. Ninguém mais
falou, pois nada mais havia para ser dito. Nenhuma pergunta foi feita, pois todos
perscrutavam seu interior na busca de suas próprias respostas.

Cabia agora a apenas quem iniciou tudo, encerrar também a sessão.

Belatrix então, parecendo parcialmente revigorada, levantou-se para proceder ao canto


de encerramento. Abriu seus braços como se flutuasse, e com voz firme cantou:

Completude...
Dividida em amor...
Pois só se repartindo
É possível unir...
Toda minha dor e todo meu amor...

E então como muitos haviam aprendido com ela quando chamado aquele ícaro, todos
cantaram junto o refrão, fazendo todo salão ressoar levemente ao som de suas vozes:

“Oh! dor! Oh Amor!”

Belatrix então começou a bailar pelo salão, enquanto cantava:

Ser completo
Divido por amor...
Para a possibilidade
de União, em União...
É Rebis
É a sobre-humana perfeição!

“Oooh! dor! Ooooh! Amor!”

Belatrix puxava com as mãos as pessoas sentadas que começavam a bailar


singelamente em torno dela.

E cantavam todos juntos a estrofe do ícaro:

Sós somos só metade


Partes de uma perfeição
Quem nos une é a Sabedoria
Quem nos une é a Expansão

7
Conf. “A história de um assassino” in A Linguagem dos Pássaros, pg. 97.

263
Cantavam e dançavam trançando toda a energia dispersa circularmente no salão em
uma simbólica orgia em profunda felicidade.

Bailando alegremente na ciranda com todos, Belatrix cantava:

Rebis
Reviva criatura
Duas vezes plena de amor
Duas vezes plena de dor
Duas vezes plena de paixão
És... Ayahuasca
Portal para a imensidão...

“Oh! dor! Oh! Amor!”,

cantavam e bailavam todos... Muitos já se levantavam e dançavam circularmente no


salão, enaltecidos e cantando aquele refrão paradoxal.

É Rebis!
Ser completo Feminino & Masculina
É nossa interioridade
Nossa Natureza Perfeita
Espiritual Maturidade
O Andrógino Universal.

“Oooooh! dor!”,

sentiam todos a dor de existirem...

“Oooooh! Amor!”,

exultavam-se todos girando em jubilo...

Todos no salão bailavam felizes e cantavam juntos o último refrão:

Sós somos só metade


Partes de uma perfeição
Quem nos une é a Sabedoria
Quem nos une é a Expansão

Oh! dor! Oh! Amor!

E assim giravam vezes mais, reverberando a palavra “amor” até se tornar um zunido
que girava junto com a ciranda:

... amor... amor... amor... amor... amor...

Até que por fim, como se obedecendo um comando invisível, foram todos diminuindo
o volume da voz e parando de girar, e ao final, quando a inércia dos giros cedera, todos
dentro do salão se abraçaram uns os outros, em extrema felicidade.

264
Estava findada a sessão.

18 - Uma antiga nova mensagem

Todos ali se dispersavam. Foram da terra ao centro da galáxia e voltaram. Suas


mentes estavam excitadas, como se algo novo germinasse dentro de suas consciências.
A felicidade e o entusiasmo eram gerais.

O mundo poderia ter acabado em choro e ranger de dentes que ninguém ali dentro
perceberia.

Todos os presentes carregavam dentro de si um pedaço da Eternidade. Adentraram


juntos em um Novo Tempo onde a própria Novidade era seu estado de consciência. A
volta no relógio cósmico do tempo fora dada, e tudo era possível mediante a vontade do
amor de si. Agora eram os seres de poder que deveriam temer o poder do ser que ali
fora relembrado e re-despertado.8

Aquele era também o momento em que os melhores se enchiam de convicção


enquanto os piores esvaziavam sua egoísta e intensa paixão 9. Tudo ali naquela

8
Alusão do autor ao poema de S. Williams.
9
Alusão do autor ao poema “A Segunda Vinda” de W. B. Yeats.

265
comunidade era o interior de um ser único que vivenciava aquele dia, o último dia, o
primeiro dia, de uma forma jubilosa e original.

Bogomil se aproximara de Belatrix e recebera outro grande abraço da sacerdotisa,


vieram se juntar a ele naquele abraço o mestre Raimundo, e logo estavam ali abraçados
Ubaldo e também... Ariel Bogari. Lágrimas se permitiam fluir nos olhos de todos sem
nenhuma censura.

Iam todos se dispersando. Um grande almoço fora preparado e estavam todos


famintos também por comida frugal.

Mas recém saído do abraço quíntuplo, Bogomil agora vacilava em uma torrente de
saudades de Bel, dos abraços que nunca dera nela, e saudades de seu mundo distante.
Pensava já no que viria a seguir então. Como devia proceder na espera da primeira noite
no tempo novo para encontrar as Grandes Sombras, pois afinal, depois de tudo
consumado no dia, ele ainda estava ali, junto a Ariel e ao mundo Terra.

Partir só lhe era concebível pela vontade de reencontrar Bel e poder falar para ela
sobre tudo que tinha aprendido naquele sonho de outra realidade. Ele levaria consigo as
palavras e as idéias dessa outra realidade, como se fosse uma supernova brilhando no
céu de Alleghoria. Mas havia de esperar o momento certo então, devia esperar as
sombras da noite se aproximar dele.

Agora Ariel também sentia a urgência de partir finalmente. Assentado nas mudanças
que sua vida dera naqueles últimos dias, ele também tinha uma vida nova a recomeçar
em um velho lugar. Tornar ao lar e ali agir como devia. Ele sabia que desculpas deviam
ser pedidas e erros reparados ao possível. Ele tinha também seu caminho de volta a
fazer e esperava somente a deixa de Bogomil para isso, mas intuía conscientemente que
faltava qualquer consecução a se executar. Só iria esperar então, ali dentro, quieto.

Belatrix dava atenção aos muitos convidados que a abraçavam e agradecia por todas
suas palavras de sabedoria naquela manhã. Todos os que partissem dali iriam também
profundamente mudados, com novas idéias germinando em suas cabeças para
confrontarem de modos mais sucintos cada um suas realidades de vida. Levariam dentro
de si uma paz causada por uma trégua indefinida.

Nas conversas paralelas com a sacerdotisa afinavam o pensamento com ela que os
admoestava a todos a perdoarem, porém sem esquecerem das coisas que passaram,
deviam ter a mente alerta para não se tornarem principalmente pessoas manipuláveis e
inertes no exercício de sua paz no mundo.

Uma linda mulher carregando uma criança a tiracolo se aproximara de Belatrix e


trocaram ambas um intenso abraço à três, então a jovem mãe, depois de solta dos braços
da sacerdotisa lhe perguntou no meio de um sorriso:

266
- Então a Idade de Ouro começou mestra? Acabou o Kali-Yuga? - disse ela feliz,
como se soubesse a resposta, mas em meio àquela sua precoce maturidade prestava
respeito à maestria de Belatrix fazendo tal pergunta.

A sacerdotisa sorrindo e a afagando os cabelos dourados da criança em seus braços,


olhando a mãe nos olhos e disse-lhe gentilmente:

- Acabou Deméter! - aquele era o nome da mãe. - Agora você pode zelar por
Dionísio... - e aquele era o nome da criança. - ...em um tempo onde a luz da beleza e
poesia irão sustentar-nos corajosamente a partir de uma nova consciência, meu amor!

Felizes se abraçaram de novo e foram dar atenção a outras pessoas.

Bogomil que as observava, entendeu a profundidade do significado daquelas palavras


ali trocadas, indicações sincronicas divinas para a própria questão que pensava, sobre
encontrar as sombras na noite, para finalmente retornar ao seu mundo e tempo. O
paradoxo Belatrix emanava todos esses pontos anômalos por onde quer que fosse então.

Aquele dia foi passando de forma festiva. Todos se agregavam em rodas de conversa e
trocas de idéias. Mas enquanto o dia ia correndo Bogomil ficava mais apreensivo. Certa
hora da tarde, não suportando mais aquela indefinição em que estava mergulhado, o
mago conseguiu se encontrar a sós com Belatrix.

Ela estava deitada em uma rede sob árvores altas, tinha conseguido ficar só ali depois
de simular sono, quando seus afoitos acólitos lhe deram um descanso. Bogomil,
entretanto se aproximou, pois vira que aquela seria sua única chance de conversar em
particular com ela na tarde.

- Eu estava esperando você se achegar irmão Bogomil. - disse Belatrix sorrindo, para
a surpresa de Bogomil.

Ele ficou em silêncio e se sentou ao lado da rede, sem olhar para ela, mas tinham a
noção da presença um do outro.

- Então! Você tem que partir não é? - perguntou a ele Belatrix, e ele ficou confuso
sem saber o grau de profundidade que a frase dela fazia menção.

- Sim! Eu preciso voltar Belatrix! - disse ele, deixando as palavras dizerem apenas o
que queriam dizer, para ver então como as coisas se concluiriam.

- Bogomil, eu não sei de onde o senhor veio, e nem sei qual seu nome inteiro, mas o
que sei é que o senhor é um homem muito especial e em uma situação especial. É isso
que a força da hoasca me diz a vosso respeito... - dizia magistralmente Belatrix, em seu
saber paradoxal. Ela afinal sabia tudo, mesmo sabendo pouco.

- Durante esses dias todos, depois daquela noite em que eu lhe procurei, eu vaguei por
vastidões astrais incríveis meu irmão. E nessa jornada iluminadora foi me dito algo em

267
relação ao senhor, sabe? - ela dizia a Bogomil, como que enfim contasse algum grande
segredo.

- Nessa minha jornada, na última noite, eu me vi encontrando o senhor diante uma


grande flor onde emanavam milhares de mulheres, e todas essas mulheres eram muito
parecidas comigo, como se fossem mulheres de mundos afins que em fila iam ao seu
encontro... - O coração de Bogomil disparou ao começar a ouvir aquele relato de
Belatrix, o que será que ela havia visto em sua jornada inconsciente com a ayahuasca?
Ele sentia que ela tinha algo final para ele.

- Então, aquele ser, sabe? Aquela sombra que nos falou temerariamente naquela noite
e me despertou lembrando-me de meus sonhos de adolescência, ela me disse que o
senhor traria uma mensagem de outro mundo para mim, e que essa mensagem seria uma
promessa que há muito tempo ronda este próprio mundo nosso, mas ninguém prestou
atenção ainda... - Belatrix se levantara da rede e fora ficar cara a cara com Bogomil
sentada no chão ali. Olhava-o nos olhos.

- E que em troca dessa mensagem, quando o senhor me desse-a, eu lhe diria então o
que essa Sombra me instruiu, para que o senhor pudesse voltar ao seu mundo enfim. -
Ela lhe encarava com o olhar que exalava uma esperança nunca antes vista.

- Essa mensagem, ele me disse, será sobre um sinal de esperança, para mim e para
toda humanidade deste mundo, quando ela se realizar no futuro, no céu do mundo, e
caberá a mim como caberá ao senhor, interpretar o que tanto a mensagem quanto as
ordens da sombra, significam.

Belatrix silenciou-se e ficou a fitar os olhos de Bogomil/Ariel, ela esperava então


ouvir a mensagem que ele captou e o mundo ainda não ouvira, mesmo estando
circulando por aí há muito tempo.

Bogomil sabia do que se tratava então, era aquela mensagem de Carangula, que no
momento do advento da Idade de Ouro lá, no matrimônio entre seus governantes, fora
lançada pela força do sonho daquela humanidade para dentro do portal da supernova da
Carangula Sideral e penetrando neste universo pelo pulsar da nebulosa do Caranguejo.

Ele então repetiu para Belatrix o conteúdo exato da mensagem, para que então ela
fosse sua portadora e decifradora:

- Me pareceu Belatrix, que lá na sessão a senhora já soubesse dessa mensagem, pois


já a mencionara lá em sua essência quando falou quando nos convidou a estarmos à
disposição da luz da “Fiel Sofia”. Mas enfim, tal mensagem que trago é esta: - Bogomil
tomou fôlego concentrando-se para tirar do fundo de suas lembranças as visões do
mundo de Carangula que obteve, e enfim disse: - “Suspendam toda vossa descrença.
Quando Kharinae brilhar no céu de seu mundo, uma Nova Era estará próxima de
surgir pelo esforço da consciência de uma só Mulher e um só Homem. Três Mundos a
verão, e como Esposo e Esposa, assumirão Núpcias entre a Poesia e a Razão, gerando
a Perfeição.”

268
Belatrix a ouviu e repetiu em pensamento, memorizando-a, fazendo um sinal singelo
de afirmativo com a cabeça. Dentro de sua consciência, suas volições interpretativas já
começavam a funcionar, para desvendar o que a mensagem quereria dizer, como já bem
predissera antes, mas agora ela colhera na fonte e esperaria, só como ela intuía, o
momento daquilo se desvelar diante seus olhos.

Depois de alguns instantes, em que ela pareceu cair de um rápido transe, então
Belatrix encarou Bogomil novamente e falou:

- O que tenho a lhe dizer então, meu amigo: “No primeiro dia do Novo Tempo, à
Meia-Noite beba Bahedariox no cume do Cavalo Branco, e lá lhe farei saltar na volta
ao seu mundo com a chave da vida de seu Amor!”

Bogomil entendia a mensagem em parte, mas sem ter tempo de interpolar, Belatrix foi
lhe dizendo:

- Eu lhe darei a hoasca. O morro do Cavalo é aquele...- e apontou na distância uma


serra que ficava a uns dez quilômetros de onde estavam.

Era isso então. Na noite que daria início ao próximo dia, era para lá que Bogomil
devia levar o corpo de Ariel, para finalmente ter com a Grande Sombra o seu último
encontro ali e voltar ao seu mundo.

Quando a tarde se foi e a noite chegou, Bogomil recebeu das mãos de Belatrix uma
garrafa de ayahuasca. Teria que se apressar para estar naquele lugar quando o próximo
dia começasse então.

Com um grande aperto no peito eles se abraçaram pela última vez, tanto Bogomil
quanto a Ariel. Sem nenhuma palavra eles se olharam nos olhos e deram-se um beijo
astral que as pessoas incomuns dão uns nos outros com seus espíritos. Belatrix o
observou saindo pela entrada da chácara e enviou-lhe uma benção em pensamento para
que Bogomil levasse consigo “toda a sorte que precisasse”.

E ele partiu pela última vez.

19 - Um salto no escuro claro do conhecimento

Ao sair da chácara do Matrimônio Espiritual, Bogomil logo conseguiu uma carona de


volta a cidade com um pessoal que também se ia da comunidade. Na carroceria da
camionete cheia de pessoas, o mago já traçava o plano de como chegar àquele morro.

Na cidade finalmente, por volta das nove horas da noite, ele e Ariel, muniram-se de
dinheiro, e tomaram um taxi rumo ao pé da tal serra.

Chegando lá, depois de transporem as porteiras de algumas fazendas, ele deixou para
trás todo o mundo e se pôs a andar para vencer a serra até o topo. Sua cabeça já não

269
pensava em nada, a não ser como a Sombra faria para que ele retornasse ao seu tempo e
espaço próprio.

Ao chegar lá em cima, tinha toda visão da cidade e dos arredores. Em toda parte havia
pontos de luzes que indicava minúsculas casas abaixo, e o horizonte noturno se perdia
na escuridão da noite firme e estrelada, seu horizonte era milhões de estrelas no céu.

Depois de descansar alguns minutos do esforço da caminhada íngreme, Bogomil


comungou a ayahuasca que Belatrix tinha lhe dado, e ficou ali no escuro, sentado sobre
o tronco de uma árvore seca, esperando efeito começar a surgir.

“O que ainda lhe estaria reservando aquela noite? Como se concluiria aquilo tudo?”
Pensava Bogomil muito apreensivo enquanto mergulhava no êxtase químico do
enteógeno. A noite parecia já mais clara e os sons mais audíveis. As estrelas se ligavam
em caminhos de fios de prata na velocidade da luz, formando uma intricada teia no
espaço sideral. Tudo ali em cima começou a ter o som da atmosfera zumbinante.

Bogomil então pode ver a uma grande distância, no céu noturno amplo, grandes
sombras espectrais se aproximarem. Nenhum trovão e nenhum relâmpago maculavam o
céu limpo e com seu silente zunido ayahuaski, somente aquelas sombras como ranhuras
no firmamento, se aproximavam, haviam dezenas delas.

De onde estava, Bogomil pode sentir lá embaixo a sacerdotisa Belatrix, dentro de sua
força paradoxal em químio-gnose também, a observar as grandes sombras revoarem
sobre a chácara do Matrimônio Espiritual em direção à serra que havia apontado para
Bogomil. O mago pode sentir o orgulho da sacerdotisa ao ver aqueles seres rumando
firmes para sua tarefa naquela noite.

As nuvens se aproximaram circulando ao alto o lugar onde Bogomil estava, e ele pode
ouvir sua louca canção, como no relato de Ednael que lera antes. Elas pareciam cantar
loas à sua própria imensidão de conhecimento e existência paradoxal.

“... Sondarak... srondaraker... sondrarark... zondarerk...” Bogomil podia ouvir sendo


triturado acima de sua cabeça.

Então aquilo que era a Grande Sombra Sondarak se destacou das demais Grandes
Sombras que a acompanhavam e desceu, tomando o ambiente em volta de Bogomil.
Quem à distância olhasse aquele local no cume daquela serra diria que uma neblina
espessa estacionara ali, embaçando a visão da ponta da serra.

Ali dentro, Bogomil exultava e tremia com a força do poder de Sondarak.

Parecia-lhe que aquele ser espectral estava de bom humor, pois a Grande Sombra fez
Bogomil entender, de seu modo alucinante, que reconhecia o êxito de Bogomil, ela
conseguia enxergar o âmago das pessoas, e o mago de outro mundo cumprira sua
missão naquela realidade paralela, ele seduzira a alma de Ariel Bogari, a transmutara e
removera o perigo que ele representava para Belatrix.

270
No cume então, Sondarak anuncia que irá revelar a ele como proceder para que a
justiça seja feita e que definitivamente em seu caso particular naquela sua missão, para
que o homem Ialdo seja incriminado e punido pelo seu crime em seu mundo. Era a
gratificação final ao esforço de Bogomil.

De um modo mágico, emanando mirações na consciência de Bogomil, dessa forma


que resolvera comunicar à mente dele sobre a essência da questão que envolvera Ialdo
Brialdo e Sheila Hagia.

Bogomil então observou uma miração sinestésica, onde imagens e sentimentos


podiam ser apreendidos pela mente.

Primeiro ele vira os corpos de Sheila e Ialdo, um sobre o outro em cópula enfurecida,
então os corpos de distanciaram e parecia que Sheila estava na terra e Ialdo no
firmamento, então um trovão abate-se sobre a terra toda, fazendo-a tremer. A figura de
Ialdo era o pleno trovão e a de Sheila era a própria terra, e os dois em grande
entusiasmo tremulavam em trovão e terra.

Então na visão de Bogomil, ambos sinestesicamente eram a forma que teria o


entusiasmo mal dirigido. Ele via a imagem que Sondarak projetava para ele: quatro
pássaros-rãs jogavam uma grande pedra sobre seis pássaros-rãs em pleno vôo,
atingindo-as todas. E toda a força sinestésica daquele sinal, se concatenou na voz
espectral de Sondarak em uma só frase:

“Ela lutou com o mais forte e atraiu a desgraça. Ele lutou com a mais forte e atraiu
a desgraça!”

Naquela frase paradoxal Bogomil pôde entender plenamente toda a questão dos dois,
enquanto os pássaros-rãs caiam do céu rumo a uma água negra que Bogomil via saindo
do âmago de Sheila e Ialdo.

Bogomil entendeu em sua consciência expandida, as personalidades de Ialdo e de


Sheila, como seus caracteres entusiasmados levaram ao conflito que gerou na morte
dela.

A Sombra o fazia entender claramente os argumentos que a acusação deveria usar no


júri para finalmente desmascarar Ialdo.

Então Bogomil passou a ter certas mirações de natureza diferente, era como se olhasse
o passado acontecendo. Sondarak possibilitava ele enxergar por mirações fortes que
antes de sua morte Sheila procurara a seita da Luz Serena para ser aceita no aprendizado
de magia, mas um alto conselheiro, fascinado e receoso do que uma mulher tão bela e
indolente pudesse causar no seio da comunidade não a aceitara, e a despachara
sumariamente. Ele sentiu a decepção e a vergonha da mulher.

Depois disso Bogomil, pode ver como se assistisse televisão, que Sheila Hagia tomava
o caminho da prostituição de luxo.

271
Bogomil não podia acreditar, mas aquilo lhe fazia entender ironicamente todo esse
caminho que deve que percorrer, ele também purificava os erros da Igreja da Luz
Serena afinal, redimia a ação preconceituosa de um dos dirigentes da seita.

Findada aquelas visões todas, Sondarak então fez o mago entender que já tinha tudo
que precisava saber. Todas as imagens se esvaneceram e até a força da ayahuasca
pareceu diminuir um pouco. Agora enfim ele estava livre para voltar, mas...

Vamos por parte.

Bogomil sentia como se sua consciência se descolasse do corpo de Ariel, como se ele
saltasse bruscamente para fora de seu corpo por um canal macio e lubrificado. Pode vê-
lo então ali, distante a uns passos, desabando em torpor no chão. Haviam se
desvencilhado em um forte arranco, e sentia que agora nada os prendia um ao outro.

Ariel Bogari se reclinava, parecia profundamente sedado, e a consciência-bogomil


estava livre, solta no ar embaçado acima do morro dentro da sombra e da noite.

A boca de Ariel tremia, como se quisesse sussurrar algo, talvez uma expressão de
medo. A consciência-bogomil chegou perto para ali “ouvir” aquilo que pensava
pudessem ser uma lamentação ou a despedida que Ariel emanava naqueles momentos
em que enfim se viu livre de Bogomil, e o mago ouviu, tremulante:

- E se eu te dissesse Bogomil... - falava o corpo como se tremesse de frio. - Que você


é uma criação do meu pensamento...

Bogomil entendera a brincadeira de Ariel e se despedira finalmente dele, agradecendo


por tudo. Nem desculpas nem promessas cabiam mais, agora apenas o espirituoso
humor agia para se despedirem.

E toda sua visão do mundo começou a se turvar, ou o mundo inteiro se turvava diante
sua percepção.

Sentiu aquela realidade se distanciar lentamente, à medida que todo som e luz
diminuíam enquanto galgava o espaço dentro de Sondarak.

“Adeus Ariel! Adeus Terra!” pensou ainda, enquanto parecia adormecer o sono da
dissolução.

272
Parte IV

A Finitude Onde Tudo Se Ajusta

1 - Quando eu voltei para seus braços

Eu sou uma consciência lançada!

E ouço uma voz que diz: “Lançado está este feitiço do tempo regresso”.

Eu sou um corpo que cai!

Sou uma face que se choca contra um pesado espelho e o trinca com o impacto e o
despedaça no chão de um salão escurecido por penumbra e fumaça.

Sinto minha face sendo cortada pelos pedaços de vidro que antes de estatelarem no
chão vem me fazer seu carinho frio e cortante, na face, nas mãos e no peito, rasgando o
pano de minhas roupas e a flor da pele sensível ao seu carinho de lâmina vítrea.

Com a violência que bato no espelho que se espatifa sou também jogado no chão
sobre os pedaços de vidro contundentes.

Saldo a dor dos cortes como quem salda o despertar de um sonho que já se tornava
longo na angústia de não poder terminar. Saldo minha dor com o prazer da certeza de
enfim ter retornado ao lar depois de percorrer um atalho mais longo do que o caminho
reto, onde me perdi em uma distração ao mesmo tempo edificante tanto quanto
perigosa. Paradoxalmente assim, como quem descobre que só há um caminho, e ele é
todo de mão dupla.

Procurando me situar, ignorando a dor dos cortes, olho em volta e posso ver as
pessoas me olhando com incredulidade refletida em suas faces.

Mas para mim, a alegria de reconhecer o cheiro e a forma de meu corpo inteiro a
minha disposição é maior do que o sinal de decepção nos olhos dos que me observam
sem me ajudar a levantar.

Tudo é um grande momento de espanto retroverso enquanto me ergo tonto, e limpo o


sangue das mãos cortadas na roupa rasgada.

Um tambor parece tocar em meus ouvidos, como se eu tivesse mergulhado em uma


profundidade tal que no fundo eu saíra como uma bolha de ar e pressão, que era aquele
lugar ali, o Salão Sempiterno no sul do templo principal da Igreja da Luz Serena.

Dez pares de olhos me observam em um misto de desapontamento e certeza conferida.


Por suas cabeças passavam o pensamento de que enfim o Feitiço do Decágono
Paradoxal não funcionara mesmo, como todas as evidências apontavam antes, pela
própria ausência dos fatores pré-requeridos da agenda do cronosnauta.

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Aqueles dez pares de olhos estavam alucinados pelos eflúvios do Incenso
Astratemporal, por isso demoraram a fazer menção em me ajudar a levantar do chão,
mas talvez eles esperassem ver refletido em meu rosto a vergonha e a decepção de ter
falhado em meu propósito. Mas eu não podia sentir nada disso afinal, e aquilo parecia
constranger os dez alto-sacerdotes que me viam erguer sozinho, sangrento e vitorioso,
do chão do salão.

O que eles estariam intuindo em sua profunda inteligência? Eu não sei o que
pensavam, o que passava pelas suas cabeças agora, eu só sabia que enfim voltara para
meu mundo, e não obstante ter a idéia que ficara fora por alguns dias, eu sentia também
que me ausentara por um período tão grande, quanto ao necessário para se conhecer
profundamente três mundos afins.

Mas só o fato de eu, ali retalhado e comendo vidro, talvez provasse a eles minha
pequenez total, não a deles, pois punham na equação de uma falha assim, milhares de
fatores paralelos, capazes de encher três mundos de escusas para a falha de seus
poderes.

Talvez eu devesse simular fraqueza diante deles, talvez eu devesse fingir um desmaio
e deixar o tempo passar até a manhã, mas não sei por que não o faço agora. Talvez eu
tenha que insinuar que eu tenha mudado naquele breve instante de um passo, em que
eles me observaram, no instante anterior que se passou, em que para eles eu me
encaminhei para me chocar vergonhosamente contra aquele grande espelho mágico.

Para mim demorou paradoxalmente um instante e demorou ao mesmo tempo uns


quinze dias e demorou ao mesmo tempo uma eternidade sem tempo, para ouvir a voz do
mago Mopso concluir, enquanto ele e o mago Lucano me acudiam sem saber
exatamente o que fazer. Ele falava:

- Falhou! - dizia para si mesmo e para todos, - O feitiço falhou! Onde erramos? -
perguntava ele aturdido.

Ninguém ali parecia propenso a responder, só me encaravam estranhamente. Então


percebi que era muito mais por verem minha face toda retalhada sangrando
copiosamente, do que pelo fato ao qual o mago Mopso se referia.

Senti dor profunda quando o mago Lucano levou um pano à minha face, no intuito de
limpá-la do sangue e dos sinais do malogro do feitiço.

Me assustei então com o sangue que vi no pano, aquele sangue que transbordava de
minha cara. Como eu devia estar? Mutilado para sempre?

Aquele pensamento sim me fez querer desmaiar sem simulação, somado à minha
carne líquida vermelha e viva encharcando o pano, eu senti finalmente a profunda
tontura anunciadora do desmaio.

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O que se passou depois dentro daquele salão está relegado à minha ausência de
consciência naqueles momentos.

Eu provavelmente fui acudido enfim por todos. Levaram-me a enfermaria do templo e


ali me trataram com ungüentos e agulhas, reparando minha face e as partes de meu
corpo que necessitassem serem costuradas. Provavelmente me anestesiaram com gases
de líquidos narcotizantes para melhor ajudar a suportar qualquer dor e assim passei
aquela noite em que retornei aos braços cortantes de minha realidade e do meu mundo
próprio.

Sem sonhos ou visões inconscientes que me lembrasse após abrir os olhos finalmente
na manhã seguinte.

2 - Ataduras da realidade cotidiana

Pela manhã Bogomil despertou em uma fina dor amortecida por pomadas que
untavam todas as partes de seu corpo, mas principalmente sua face. Ele estava envolto
em faixas de pano branco e leve, como uma múmia rediviva que fora exumada de sua
tumba atemporal.

Antes que qualquer pessoa pudesse falar com ele, o mago tateou a face e outras partes
do corpo, estava tudo velado pelos gases de algodão asséptico, mas estava vivo. Sua
própria dor geral demonstrava-lhe isso. Só lhe preocupava o tamanho dos danos e sua
reversibilidade e o tempo de convalescência que o afastaria de ver Bel finalmente.

Pensar em encontrá-la minimizava todas suas dores e danos do acidente. Mas o que
teria mesmo a dizer para ela, depois de explicar sua situação física? Nossa! Como tinha
coisas a lhe dizer!

Mas do mesmo modo teria muito a dizer para seus superiores na Luz Serena e para
Ordem do Decágono enfim. Bem! Quanto a esses últimos, eles que fizessem as
perguntas que quisessem, ele as responderia com a devida sinceridade, estando eles
preparados ou não para ouvir as respostas, na medida em que estivessem mesmo
interessados.

À Bel ele devia toda a verdade que possuía, e entregaria a ela de qualquer modo e
esforço para fazê-la entender tudo. E isso urgia em se efetuar. Mas agora Bogomil
estava parcialmente impedido por toda aquela situação.

Passados aqueles primeiros instantes, em que Bogomil concluiu que seria mais fácil
convergir ao corpo e à vida de outra pessoa do que voltar à sua própria vida e corpo
naquelas situações, ele finalmente se viu objeto de atenção de outra pessoa ali.

Um mago curador e seu auxiliar enfermeiro enfim tinham notado que ele acordara e
vieram ter com ele.

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- Meu rapaz, você teve muita sorte hein! - foi dizendo o médico, - Em um acidente
deste fosse poderia mesmo ter se ferido mortalmente.

“Ferir mortalmente! Que paradoxo!” pensou Bogomil ao olhar para a face séria do
médico a encará-lo. “Que contradição, isso sim!”, corrigiu a si mesmo antes de falar
qualquer coisa.

- Então senhor! Meu estado é muito grave? Quer dizer, estou definitivamente
mutilado, ou...? - perguntou a respeito de seu estado físico.

- Não! Creio que não ficara com nenhuma marca de mutilação! Só cicatrizes
superficiais na face. - foi dizendo o médico acalmando o paciente, - Com os ungüentos
que lhe aplicamos sua cicatrização será rápida e sem chances de infecção nenhuma.
Agradeça ao Verdadeiro Deus pela sua sorte! - dizia enquanto removia umas ataduras
para verificar o estado dos cortes na face de Bogomil.

As palavras do médico aliviaram profundamente Bogomil. Agora podia voltar sua


atenção ao que realmente lhe interessava, e não perdeu tempo em perguntar:

- Quando eu estarei liberado? Quer dizer, quando me dará alta e poderei voltar a
minha vida? - perguntou sem procurar demonstrar qualquer urgência latente, afinal,
sabia que “voltar à sua vida” não ia depender só do seu restabelecimento e da
autorização do médico, mas também instâncias superiores.

O médico então comunicou a Bogomil que pelo progresso da cicatrização adiantado,


graças aos ungüentos mágicos medicinais, e pelo fim de todo sangramento, se tivesse
precaução em evitar a luz do sol e contato forte com a pele da face, pelo final do dia
poderia remover todas as ataduras e ir voltando a seus afazeres paulatinamente. E assim
que os superiores que o internaram ali viessem para liberá-lo, como eles instruíram o
mago curador, ele poderia voltar aos seus aposentos e sua vida.

Então Bogomil foi deixado com seus pensamentos aguardando que alguém dentro os
magos da Ordem do Decágono viessem conversar enfim com ele para que ele pudesse ir
zelar de sua gata e correr para falar com Bel.

Um dia parecia-lhe um longo tempo a esperar, afinal Bel aguardava o contato dele, e
se ninguém tivesse interferido naquele meandro, ela provavelmente estaria naquela
manhã ansiosa por notícias por parte de Bogomil.

Mas o dia todo se passara sem que nenhum alto-sacerdote viesse tomar qualquer
relatório de Bogomil. O mago começava a se inquietar na medida em que as horas
passavam por não saber o que pensar daquela situação e do que estava se passando além
do seu conhecimento.

“O que estariam conversando agora aqueles alto-sacerdotes que presenciaram sua


aparente falha em viajar no tempo para executar a missão que tinham planejado?”
Pensava ele. Eles já deviam ter tomado todas as suas conclusões durante a noite mesmo,

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depois que encaminharam Bogomil à enfermaria. Talvez tivessem se reunido e revisado
se algo saíra errado na execução do feitiço, se pronunciaram alguma palavra de poder
errada, se a posição de alguém não se concentrou conforme o requerido.

Mas havia os efeitos visuais da emanação do poder do feitiço, os redemoinhos de


fumaça, e a luz astral emanada no ambiente. Então provavelmente a culpa seria do
cronosnauta mesmo, que não estava preparado para executar sua parte no feitiço. Talvez
a prova disso, pensava Bogomil, seria para eles o próprio fato do cronosnauta, ele, ter se
esborrachado contra o espelho e se cortado como punição divina, pelos seus erros.

Se fosse assim, tramava Bogomil consigo mesmo, como enganado estariam! Mas não
iriam nem colher dele qualquer impressão, será que seriam tão relapsos e orgulhosos?
Bogomil tendia a crer que sim. A lembrança da imagem de Sheila Hagia sendo
praticamente convidada a se prostituir depois de sair do recinto da Luz Serena o levava
a crer nessa possibilidade.

Aqueles fatos só o detinham muito mais na consecução do que realmente achava que
tinha que fazer naquele momento, que era encontrar Bel e da melhor forma lhe explicar
tudo. Ele estava mais que enfaixado ali, convalescendo, estava atado às decisões de
superiores orgulhosos.

Depois de tudo que vira e aprendera em sua viajem aos mundos paralelos e interiores,
Bogomil permitia-se cogitar uma missão muito maior, que era, assim como vira Belatrix
e o Casal Governante de Carangula fazerem, começar a revitalizar a sua própria
realidade para que pelo menos alguns atravessassem o seu Zion portando uma
mensagem de esperança. Mas essa idéia era grandiosa demais para uma múmia na
enfermaria ponderar. Ou não?

Lutando par