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07/09/2019 online (13).

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Tribunal de Justiça do Estado da Bahia


PODER JUDICIÁRIO
SALVADOR
7ª VSJE DO CONSUMIDOR (MATUTINO) - PROJUDI

PADRE CASIMIRO QUIROGA, 2403, 3º ANDAR (FÓRUM IMBUÍ), IMBUÍ - SALVADOR


ssa-7vsje-consumo@tjba.jus.br - Tel.: (71) 3372 7354
PROCESSO N.º: 0089124-15.2019.8.05.0001

AUTORES:
LEANDRO VACONCELOS DE REZENDE

RÉUS:
OCEANAIR LINHAS AEREAS S A AVIANCA
SUBMARINO VIAGENS LTDA

SENTENÇA

Dispensado o relatório integral, nos termos do art. 38 do CDC, pelo que passo ao
breve escorço da lide.

As acionadas, apesar de devidamente intimadas, conforme demonstram os eventos


processuais 08 e 09, não se fizeram presentes à audiência UNA realizada no evento 12, razão
pela qual decreto a sua revelia, na forma do art. 20, da Lei 9.099/95.

Diante da revelia, presumem-se verdadeiros os fatos afirmados pela parte autora,


nos termos do art. 344 do CPC, não implicando, contudo, em necessária procedência da ação,
cabendo, assim, a análise das consequências jurídicas deles decorrentes, bem como da
documentação apresentada pela parte autora.

Decido.

A parte autora pleiteia reparação civil pelos danos morais e materiais que afirma ter
sofrido em razão da má-qualidade dos serviços contratados junto às acionadas. Alega que houve
cancelamento unilateral da passagem, já pouco antes do dia determinado para a viagem, que
tinha por finalidade a realização de prova de concurso público, o que lhe trouxe aborrecimentos
excessivos e prejuízo material.

É o breve relatório, passo a decidir.

Ab initio, verifica-se que a presente demanda trata de relação de consumo nos


termos dos arts. 2º e 3º do CDC, o que torna competente este juízo para o julgamento da lide
mediante aplicação dos preceitos afirmados neste diploma.

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Infere-se dos autos que se tem por incontroversas as alegações sobre a ausência de
embarque da parte autora no voo contratado que foi unilateralmente cancelado poucos dias antes
da viagem, o que é comprovado pelos elementos dos autos, persistindo, todavia, controvérsia
acerca do motivo para tanto, a fim de verificar a existência de dano moral e material passível de
indenização, como indicado na inicial.

Sucede que, as empresas de navegação aérea que prestam serviço no Brasil,


concessionárias de serviço público (art. 22, XII, c, da CF/88), estão sujeitas à responsabilidade
objetiva, conforme previsão do art. 37, § 6º da Constituição Federal.

Não bastasse isso, tendo em vista que a relação pautada entre a empresa aérea e o
passageiro é de prestação de serviço, incidentes, também, as disposições do Código de Defesa
do Consumidor.

Nessa senda, a responsabilidade da empresa aérea, bem como da empresa de


turismo responsável pela venda das passagens, independe da existência da culpa, somente
podendo ser elidida a sua responsabilidade por culpa exclusiva da vítima, fato de terceiro, caso
fortuito ou força maior.

A conta do exposto, pela análise do que está nos autos, não verifico prova, nem
razão alguma capaz de afastar o dever de indenizar da primeira acionada, OCEANAIR LINHAS
AEREAS S A AVIANCA. O ônus, sem dúvida, era da primeira acionada, responsável pelo
cancelamento, seja em razão de se tratar de fato impeditivo do direito do autor (art. 373, II, do
CPC), ou, seja em virtude inversão do ônus da prova, decorrente da verossimilhança das
alegações contidas na inicial e da evidente hipossuficiência do consumidor em relação às
prestadoras de transporte aéreo de passageiros (art. 6º, VIII do CDC).

Cabia ao primeiro réu a demonstração de que não houve cancelamento unilateral


das passagens adquiridas pela parte autora, uma vez que esta demonstrou a confirmação da
compra e o recebimento de email da reserva, bem como ter sido surpreendido com o aviso de
cancelamento unilateral apenas pouco antes do dia previsto para a viagem, formulado reclamação
administrativa sem êxito no remanejamento para outro voo.

Não se olvide que o passageiro, ao adquirir o bilhete de passagem mediante o


pagamento do respectivo preço, espera e confia que a empresa aérea que preste o serviço
dispense todos os cuidados necessários para que o ajuste seja adimplido na forma pactuada. O
rompimento dessa confiança, sem sombra de dúvida, torna defeituosa a prestação do serviço e
abala a relação de consumo, justificando a incidência das normas contidas na lei consumerista.

Diante desse quadro, forçoso reconhecer que ocorreu defeito na prestação do


serviço, caracterizado pelo descumprimento da obrigação de resultado pela primeira ré, que o
assumiu quando da contratação. Além disso, tem-se por violado o princípio da confiança que deve
permear toda e qualquer relação de consumo.

Registre-se, ainda, que o cancelamento da passagem se deu já pouco antes do dia


fixado para a realização da viagem, e sem que fosse possibilitado o remanejamento, de imediato,
para outro voo ou para voo de outra companhia aérea no mesmo horário, a fim de permitir a
realização da sua viagem como planejado, frustrando as expectativas da parte autora, que teve
frustrado o seu objeto de participar do concurso público na forma programada.

Evidente, portanto, os danos morais suportados pela parte autora, ao não embarcar
no voo desejado e contratado, causando-lhe transtornos com a frustração de sua viagem e
aborrecimentos, passíveis de indenização, já que o cancelamento do trecho mudou o quanto
esperado, não tendo a primeira ré cumprido a parte do contrato que lhe cabia, violando, assim, a
confiança depositada.
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Ressalte-se que tal fato não constitui mero dissabor ou aborrecimento, mas
verdadeiro constrangimento e ofensa à segunda autora, sendo suficiente para configurar o dano
moral e, por conseguinte, o dever de indenizar.

Quanto ao montante a ser arbitrado pelos danos morais, no entanto, deve ser fixado
com moderação, observando os princípios da proporcionalidade e razoabilidade, evitando-se o
enriquecimento sem causa.

No que tange ao pedido de indenização por danos materiais, faz jus a parte autora
ao reembolso do valor despendido com a compra das passagens (R$ 652,72), não usufruídas por
culpa exclusiva da primeira ré, e com a inscrição do concurso público (R$ 280,00), também não
realizado por culpa exclusiva da primeira ré.

Não assiste razão à parte autora, contudo, no que se refere aos demais valores
pretendidos a título de danos materiais, pois houve efetiva aquisição de diversos e variados livros,
de material de estudo e utilização dos serviços de locação de cabine de estudos, mas sem provas
de que em virtude única e exclusivamente do concurso frustrado em virtude dos fatos objeto da
lide.

Ademais, os livros, material de estudo e serviços contratados foram efetivamente


usufruídos pelo autor ¿ e no caso dos livros e material de estudo ainda continuarão sendo,
inclusive para outras provas ¿, de modo que o deferimento da indenização pretendida a este título
consubstanciaria verdadeiro enriquecimento ilícito do autor.

No que se referente à segunda ré, não se vislumbra dos autos qualquer


responsabilidade desta pelos fatos objeto da lide, não tendo contribuído de qualquer forma para o
cancelamento unilateral e abusivo realizado pela primeira ré.

Pelo exposto, na forma do art. 487, I, do CPC, com base no artigo 5º, X, da
Constituição Federal, combinado com o art. 6º, inciso VI do Código de Defesa do Consumidor e
art. 186, 927 e 944, todos do Código Civil, JULGO PARCIALMENTE PROCEDENTE a ação para
condenar a primeira acionada, OCEANAIR LINHAS AEREAS S A AVIANCA, a indenizar a parte
autora, a título de danos morais, a quantia de R$ 5.000,00 (cinco mil reais), com correção
monetária pelo INPC, incidente a partir desta decisão, na forma da súmula 362, do STJ e,
havendo relação contratual entre as partes, acrescida de juros de 1% ao mês a contar da citação,
conforme previsto pelos arts. 240 do CPC e 405 do CC.

Condeno a primeira acionada, OCEANAIR LINHAS AEREAS S A AVIANCA, ainda, a


indenizar a parte autora, a título de danos materiais, a quantia de R$ 932,72 (novecentos e trinta e
dois reais e setenta e dois centavos), com juros de mora da citação e correção monetária do
desembolso.

Indefiro os demais pedidos, pelas razões anteriormente aduzidas.

Havendo recurso tempestivo e acompanhado das custas devidas,


independentemente de intimação (art. 42, § 2º, da Lei nº 9.099/95), recebo-o, desde já, no efeito
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devolutivo, intimando-se a outra parte para contrarrazões, no prazo de 10 (dez) dias. Após,
remetam-se à Turma Recursal.

Fica a parte autora intimada para que, com o trânsito em julgado, caso tenha
interesse, promova a execução da sentença através de petição que deverá preencher os
requisitos do art. 524 do CPC.

Havendo pedido de cumprimento de sentença, intime-se a acionada para efetuar o


pagamento. Advertindo-se que se não efetuado no prazo de 15 (quinze) dias, contados da sua
intimação do pedido de execução, o montante da condenação será acrescido de multa no
percentual de 10% (dez por cento).

Inexistindo pedido de execução, arquivem-se os autos.

P.R.I.

Salvador, 23 de agosto de 2019.

RILTON GOES RIBEIRO


Juiz de Direito
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