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Desempenho econômico através

do tempo*
Economic performance through
time
Douglass C. North**

Resumo
Este ensaio é sobre as instituições e o tempo. Ele não fornece uma teo-
ria da dinâmica econômica comparável à teoria de equilíbrio geral. Ainda
não temos tal teoria. Em vez disso, fornece a base inicial de um quadro
analítico capaz de aumentar a nossa compreensão da evolução histórica
das economias e um guia não refinado para política na tarefa em curso de
melhora do desempenho econômico das economias. O quadro analítico é
uma modificação da teoria neoclássica. O que se mantém é o pressuposto
fundamental da concorrência e, consequentemente, da escassez e das fer-
ramentas analíticas da teoria microeconômica. O que se modifica é o pres-
suposto da racionalidade. O que se acrescenta é a dimensão do tempo.

Palavr as-chave
instituições — teoria neoclássica — racionalidade — desenvolvimento eco-
nômico

* Referência: “Lecture to the memory of Alfred Nobel, December 9, 1993”, Douglass North — Pri-
ze Lecture. Tradução de Antonio José Maristello Porto.
** Professor do Department of Economics da Washington University, em St. Louis, Missouri. Sou
agradecido a Robert Bates, Lee e Alexandra Benham, Avner Greif, Margaret Levi, Randy Nielsen,
John Nye, Jean-Laurent Rosenthal, Norman Schofield e Barry Weingast por seus comentários em
versões preliminares deste ensaio e a Elisabeth Case pelo trabalho de edição.

ISSN 0034.8007 – rda – revista de Direito Administrativo, Rio de Janeiro, v. 255, p. 13-30, set./dez. 2010
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Abstr act
This essay is about institutions and time. It does not provide a theory of
economic dynamics comparable to general equilibrium theory. We do not
have such a theory. Rather it provides the initial scaffolding of an analytical
framework capable of increasing our understanding of the historical evo-
lution of economies and a necessarily crude guide to policy in the ongoing
task of improving the economic performance of economies. The analyti-
cal framework is a modification of neo-classical theory. What it retains is
the fundamental assumption of scarcity and hence competition and the
analytical tools of microeconomic theory. What it modifies is the rationali-
ty assumption. What it adds is the dimension of time.

Key-words
institutions — neoclassical theory — rationality — economic develop-
ment

A história econômica versa sobre o desempenho das economias ao longo


do tempo. O objetivo da pesquisa no campo não é apenas esclarecer o passado
econômico, mas também contribuir para a teoria econômica, fornecendo um
quadro analítico que nos permita entender a mudança econômica. Uma teoria
da dinâmica econômica comparável em precisão à teoria do equilíbrio geral
seria a ferramenta ideal de análise. Na ausência de tal teoria, podemos des-
crever as características das economias passadas, analisar o desempenho das
economias em vários momentos e nos envolvermos em uma análise estática
comparativa, mas falta uma compreensão analítica do caminho pelo qual as
economias evoluem ao longo do tempo.
Uma teoria da dinâmica econômica é também crucial para o campo do
desenvolvimento econômico. Não há mistério quanto às razões da não evo-
lução do campo do desenvolvimento durante as cinco décadas posteriores ao
fim da Segunda Guerra Mundial. A teoria neoclássica é simplesmente um ins-
trumento inadequado para analisar e prever as políticas que induzirão o de-
senvolvimento. Ela está preocupada com o funcionamento dos mercados, não
com a forma como os mercados se desenvolvem. Como prescrever políticas,
quando não se compreende como as economias se desenvolvem? São os atuais

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métodos utilizados pelos economistas neoclássicos que têm ditado o assunto


e pesado contra o desenvolvimento. Essa teoria, em sua forma original que
lhe garantiu precisão matemática e elegância, modelou um mundo estático
e sem atrito. Quando aplicada à história econômica e ao desenvolvimento,
essa teoria se concentra no desenvolvimento tecnológico e, mais recentemen-
te, no investimento em capital humano, mas ignora a estrutura de incentivos
incorporada em instituições que determinam a medida de investimento social
nesses fatores. Na análise do desempenho econômico através do tempo estão
contidos dois errôneos pressupostos: um, que as instituições não importam, e,
dois, que o tempo não tem importância.
Este ensaio é sobre as instituições e o tempo. Ele não fornece uma teoria
da dinâmica econômica comparável à da teoria de equilíbrio geral. Ainda
não temos tal teoria. Em vez disso, fornece o andaime inicial de um quadro
analítico capaz de aumentar a nossa compreensão da evolução histórica das
economias e um guia não refinado para política na tarefa em curso de melhora
do desempenho econômico das economias. O quadro analítico é uma modifi-
cação da teoria neoclássica. O que se mantém é o pressuposto fundamental da
concorrência e, consequentemente, da escassez e das ferramentas analíticas
da teoria microeconômica. O que se modifica é o pressuposto da racionalida-
de. O que se acrescenta é a dimensão do tempo.
Instituições formam a estrutura de incentivos de uma sociedade, e as
instituições políticas e econômicas, em consequência, são os determinantes
subjacentes do desempenho econômico. O tempo, no entanto, que se refere à
mudança econômica e social é a dimensão em que o processo de aprendiza-
gem do ser humano molda a forma como as instituições evoluem. Isto é, as
crenças que os indivíduos, grupos e sociedades creem e que determinam as
escolhas são consequências do aprendizado ao longo do tempo — não apenas
na extensão da vida do indivíduo ou de uma geração de uma sociedade, mas
o aprendizado incorporado em indivíduos, grupos e sociedades que é cumu-
lativo através do tempo e que passa de uma geração para outra através da
cultura de uma sociedade.
As próximas duas seções deste ensaio resumem o trabalho que eu e ou-
tros temos feito sobre a natureza das instituições e da forma que afetam o
desempenho econômico (II) e, em seguida, caracteriza a natureza da mudança


Na verdade, essa teoria é pouco provável. Remeto o leitor para a previsão de Frank Hahn so-
bre o futuro da teoria econômica (HAHN, Frank. The next hundred years. The Economic Journal,
n. 101, p. 47-50, Jan. 1991).

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institucional (III). As quatro seções restantes descrevem uma abordagem das


ciências cognitivas para o aprendizado humano (IV); fornece uma abordagem
institucional/cognitiva para a história econômica (V); indica as implicações
dessa abordagem para melhorar a nossa compreensão do passado e, final-
mente, (VI) sugere implicações para as políticas atuais de desenvolvimento
(VII).

II

Instituições são as constrições humanamente concebidas que estrutu-


ram a interação humana. Elas são feitas de restrições formais (regras, leis,
constituições), de restrições informais (normas de comportamento, conven-
ções e códigos de conduta autoimpostos) e de suas respectivas característi-
cas impositivas. Juntas, elas definem a estrutura de incentivos das sociedades
e, especificamente, das economias. As instituições e a tecnologia empregada
determinam os custos de transação e de transformação que se somam aos
custos de produção. Foi Ronald Coase quem fez a ligação crucial entre ins-
tituições, custos de transação e a teoria neoclássica. O resultado neoclássico
dos mercados eficientes somente é obtido quando não existem custos para
se transacionar. Somente quando as condições de negociação são gratuitas é
que os atores alcançarão uma solução que maximiza o rendimento agregado,
independentemente dos arranjos institucionais. Quando se tem custo para
transacionar, as instituições são importantes. E é custoso transacionar. Em um
estudo empírico, Wallis e North demonstraram que 45% do PIB dos Estados
Unidos em 1970 foi dedicado ao setor de transações. No mundo real, os mer-
cados eficientes são criados quando a concorrência é forte o suficiente, através
da arbitragem e realimentação eficiente de informação, para se aproximar das
condições de custo de transação zero de Coase e as partes podem perceber os
benefícios do comércio inerentes ao argumento neoclássico.
Mas os requisitos informativos e institucionais necessários para alcançar
tais mercados eficientes são rigorosos. Os jogadores não devem ter apenas


Essas duas seções resumem o material contido em NORTH, Douglass C. Institutions, institutional
change, and economic performance. New York: Cambridge University Press, 1990.

COASE, Ronald. The problem of social cost. Journal of Law and Economics, v. 3, n. 1, p. l-44, 1960.

WALLIS, John J.; NORTH, Douglass C. Measuring the transaction sector in the American econo-
my. In: ENGERMAN, S. L.; GALLMAN, R.E. (Eds.). Long term factors in American economic crowth.
Chicago: University of Chicago Press, 1986.

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objetivos, mas devem saber a maneira correta de alcançá-los. Mas como é que
os jogadores sabem a maneira correta de atingir os seus objetivos? A resposta
da racionalidade instrumental é que mesmo quando os atores tenham, inicial-
mente, modelos errôneos e distintos, o processo de realimentação de informa-
ção e os agentes de arbitragem corrigirão os modelos que inicialmente eram
incorretos, punirão os comportamentos desviantes e levarão os jogadores so-
breviventes a corrigir os modelos.
Um requisito implícito ainda mais rigoroso do modelo de mercado
competitivo é que quando existem custos de transação significativos, as ins-
tituições consequentes do mercado serão projetadas para induzir os agentes
a adquirir a informação essencial que irá levá-los a corrigir seus modelos.
A implicação não é apenas que as instituições são projetadas para alcançar
resultados eficientes, mas que elas podem ser ignoradas na análise econô-
mica porque as mesmas não têm um papel independente no desempenho
econômico.
Esses são requisitos estritos que somente são cumpridos excepcional-
mente. Os indivíduos normalmente agem com informações incompletas e
com modelos derivados subjetivamente que com frequência são errôneos, a
realimentação de informação é normalmente insuficiente para corrigir esses
modelos subjetivos. As instituições não são necessária ou mesmo comumente
criadas para serem socialmente eficientes, mas elas, ou pelo menos as regras
formais, são criadas para servir aos interesses daqueles que têm o poder de
barganha para criar novas regras. Em um mundo com custos de transação
igual a zero, a força de barganha não afetaria a eficiência dos resultados, mas,
em um mundo de custos de transação positivos, ela afeta.
É excepcional encontrar mercados econômicos que se aproximam das
condições necessárias para a eficiência e é impossível de se encontrar mer-
cados políticos que delas se aproximam. A razão é muito clara. Os custos de
transação são os custos de se especificar o que está sendo trocado e os custos
de execução dos acordos consequentes. Em mercados econômicos, o que está
sendo especificado (mensurado) são os atributos valiosos — os direitos de
propriedade e dimensões físicas — dos bens e serviços ou o desempenho dos
agentes. Apesar de a mensuração, muitas vezes, ser custosa, existem alguns
critérios que servem como referência: as dimensões físicas têm características
objetivas (tamanho, cor, peso etc.) e as dimensões dos direitos de proprie-
dade são definidas em termos legais. A concorrência também desempenha
um papel fundamental na redução dos custos de execução. O sistema judi-
cial proporciona a execução coerciva. Ainda assim, os mercados econômicos

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do passado e do presente, normalmente, são imperfeitos e cercados por altos


custos de transação.
Medir e fazer cumprir os acordos nos mercados políticos é muito mais
difícil. O que está sendo trocado (entre os eleitores e legisladores em uma
democracia) é a promessa de votos. O eleitor tem pouco incentivo para se
informar porque a probabilidade de que seu voto seja importante é infinitesi-
mal; ademais, a complexidade das questões produz uma incerteza genuína.
A execução de acordos políticos é cercada de dificuldades. A competição é
muito menos eficaz do que nos mercados econômicos. Para uma variedade
de políticas elementares, fáceis de medir e importantes para o bem-estar do
eleitor, este pode estar bem informado, mas intrincado a tal clareza das ques-
tões políticas, sobrevive um estereótipo ideológico que (como argumentarei
a seguir, na seção IV) modela o consequente desempenho das economias. É
a política que define e aplica os direitos de propriedade e, em consequência,
não é surpreendente que a eficiência dos mercados econômicos seja tão ex-
cepcional.

III

É a interação entre as instituições e as organizações que modela a evolu-


ção institucional de uma economia. Se as instituições são as regras do jogo, as
organizações e seus empresários são os jogadores. As organizações são consti-
tuídas por grupos de indivíduos unidos por um objetivo comum para atingir
certos objetivos. Organizações incluem organismos políticos (partidos políti-
cos, o Senado, um conselho municipal, órgãos reguladores etc.), organismos
econômicos (empresas, sindicatos, agricultores familiares, cooperativas etc.),
organismos sociais (igrejas, clubes, associações atléticas etc.) e organismos de
ensino (escolas, universidades, centros de formação profissional etc.).
As organizações que existem refletem as oportunidades propiciadas pela
matriz institucional. Ou seja, se o quadro institucional recompensa a pirataria,
então as organizações de pirataria existirão, e se o quadro institucional recom-
pensa as atividades produtivas, então organizações — empresas — existirão
para se engajar em atividades produtivas.


Veja, do autor, “A transaction cost theory of politics” para uma abordagem da ineficiência rela-
tiva dos mercados políticos através dos custos de transação. (NORTH, Douglass C. A transaction
cost theory of politics. Journal of Theoretical Politics, v. 2, n. 4, p. 355-367, 1990)

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A mudança econômica é um processo ubíquo, incremental e contínuo


que é resultado das escolhas que os atores individuais e os empresários das
organizações fazem todo dia. Embora a grande maioria dessas decisões seja
rotineira, algumas envolvem alterar “contratos” existentes entre indivíduos
e organizações. Às vezes, essa repactuação pode ser realizada dentro da es-
trutura existente de direitos de propriedade e regras políticas, mas, às vezes,
formas novas de contratação exigem uma alteração nas regras. Da mesma for-
ma, as normas de comportamento que guiam as trocas serão gradualmente
modificadas ou enfraquecidas. Em ambos os casos, as instituições estão sendo
alteradas.
As modificações ocorrem porque os indivíduos percebem que poderiam
sair-se melhor reestruturando as trocas (políticas ou econômicas). A fonte das
percepções alteradas pode ser exógena à economia — por exemplo, uma alte-
ração do preço ou qualidade de um produto competitivo em outra economia,
que altera as percepções dos empresários na economia em questão sobre opor-
tunidades de lucro. Mas a fonte de mudanças de longo prazo mais fundamen-
tal é o aprendizado dos indivíduos e dos empresários das organizações.
Embora a curiosidade ociosa resulte em aprendizagem, a taxa de apren-
dizado vai refletir a intensidade da concorrência entre as organizações. Con-
corrência, refletindo escassez ubíqua, induz as organizações a se dedicarem a
aprender para sobreviver. O grau de concorrência pode variar e varia. Quanto
maior o grau de poder de monopólio, menor o incentivo para aprender.
A velocidade da mudança econômica é uma função da taxa de aprendi-
zagem, mas a direção dessa mudança é uma função do pay-off esperado para
a aquisição de diferentes tipos de conhecimento. Os modelos mentais que os
jogadores desenvolvem configuram as percepções sobre os pay-offs.

IV

É necessário desfazer o pressuposto de racionalidade subjacente à teoria


econômica para podermos abordar de forma construtiva a natureza da apren-
dizagem humana. A história demonstra que as ideias, as ideologias, os mitos,
os dogmas e os preconceitos são pontos importantes, e uma compreensão da


NELSON, Richard; WINTER, Sidney G. An evolutionary theory of economic change. Cambridge:
Harvard University Press, 1982.

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forma como evoluem é necessária para avançar no desenvolvimento de uma


estrutura para compreender as mudanças sociais. A estrutura da escolha ra-
cional assume que os indivíduos sabem o que lhes beneficia e agem em con-
formidade com esse conhecimento. Isso pode ser correto para indivíduos que
tomam decisões em mercados altamente desenvolvidos de economias moder-
nas, mas é patentemente falso quando fazem escolhas em condições de incer-
teza — as condições que têm caracterizado as escolhas econômicas e políticas
que moldaram (e continuam moldando) a mudança histórica.
Herbert Simon expressa essas questões de forma sucinta:

Se [...] aceitarmos a proposição de que tanto o conhecimento como o


poder computacional do decisor são severamente limitados, então é
preciso distinguirmos entre o mundo real e a percepção que o ator tem
do mundo real, assim como seu raciocínio sobre o mesmo. Isto é, temos
de construir uma teoria (e testá-la empiricamente) do processo de de-
cisão. Nossa teoria deve incluir não apenas os processos de raciocínio,
mas também os processos que geram a representação subjetiva do ator
sobre o problema de decisão, a estrutura de cada ator.

O quadro analítico que temos de construir deve ser originário de um en-


tendimento de como ocorre a aprendizagem humana. Temos um longo cami-
nho a percorrer antes que possamos construir essa teoria, mas a ciência cog-
nitiva tem progredido imensamente nos últimos anos — avanços suficientes
para sugerir uma abordagem experimental que pode nos ajudar a compreen-
der a tomada de decisões sob incerteza.
Conhecimento implica o desenvolvimento de uma estrutura através da
qual os sinais variados recebidos pelos sentidos são interpretados. A arquite-
tura inicial da estrutura é genética, mas o andaime subsequente é um resulta-
do das experiências do indivíduo. As experiências podem ser classificadas em
dois tipos — aquelas provenientes do ambiente físico e aquelas provenientes
do ambiente linguístico sociocultural. As estruturas consistem em categorias


No entanto, ver as anomalias nos estudos de Kahneman, Tversky e outros (HOGARTH, Robin
M.; REDER, Melvin W. (eds.). Rational choice. Chicago/London: The University of Chicago Press,
1986.

SIMON, Herbert. Rationality in psychology and economics. In: HOGARTH; REDER (Eds.), op.
cit., p. 210-211.

Para uma excelente introdução à literatura da ciência cognitiva, veja HOLLAND, John H. et al.
Induction: processes of inference, learning, and discovery. Cambridge: MIT Press, 1986.

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— classificações que evoluem gradualmente desde a infância para organizar


nossas percepções e manter o controle da nossa memória dos resultados ana-
líticos e das experiências. Com base nessas classificações, formamos modelos
mentais para explicar e interpretar o ambiente — geralmente de maneira re-
levante para algum objetivo. Tanto as categorias quantos os modelos mentais
evoluirão, refletindo o feedback proveniente de novas experiências: feedback
que às vezes fortalece nossas categorias iniciais e modelos e às vezes conduz a
alterações — em suma, aprendizagem. Dessa forma, os modelos mentais po-
dem ser continuamente redefinidos diante de novas experiências, incluindo o
contato com as ideias de outros indivíduos.
Neste momento, o processo de aprendizagem do ser humano se afasta do
de outros animais (como a lesma-do-mar — o membro favorito dos cientistas
cognitivos) e, em especial, afasta a analogia feita com o computador, que do-
minou os primeiros estudos da inteligência artificial. A mente parece ordenar
e reorganizar os modelos mentais em suas origens com o fim especial de tor-
ná-los sucessivamente mais abstratos, para que sejam capazes de processar
outras informações. O termo usado por Clark e Karmiloff-Smith10 é redescri-
ção (redescription) representacional. A capacidade de generalizar do particular
para o geral e de usar a analogia é parte desse processo de redescrição. É
essa capacidade que é a fonte não só do pensamento criativo, mas também
das ideologias e dos sistemas de crenças que fundamentam as escolhas feitas
pelos humanos.11
Uma herança cultural comum facilita a redução das diferenças nos mo-
delos mentais das pessoas de uma sociedade, e constitui o meio para a trans-
ferência entre gerações de uma percepção unificada. Nas sociedades pré-
modernas, o aprendizado cultural fornecia o meio de comunicação interno,
assim como fornecia explicações para os fenômenos compartilhados fora das
experiências imediatas dos membros da sociedade sob a forma de religiões,
mitos e dogmas. Tais estruturas de crenças não estão, contudo, confinadas às
sociedades primitivas, são também parte essencial das sociedades modernas.
As estruturas de crenças se transformam em estruturas sociais e econô-
micas através das instituições — tanto por regras formais quanto por normas

10
CLARK, Andy; KARMILLOF-SMITH, Annette. The cognizer’s innards: a psychological and
philosophical perspective on the development of thought. In: Mind and language. 1993.
11
Ideologias são estruturas compartilhadas dos modelos mentais que grupos de indivíduos pos-
suem e que fornecem uma interpretação do ambiente e uma prescrição de como esse ambiente
deve ser ordenado.

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informais de comportamento. A relação entre os modelos mentais e as insti-


tuições é íntima. Os modelos mentais são representações internas que cada
sistema cognitivo cria para interpretar o ambiente, as instituições são os meca-
nismos externos (à mente) que os indivíduos criam para estruturar e ordenar
o ambiente.

Não há garantia de que as crenças e instituições que evoluem com o


tempo produzirão crescimento econômico. Deixe-me colocar a questão que o
tempo nos apresenta através de uma breve história institucional/cognitiva de
mudanças econômico/políticas de longo prazo.
Porque tribos surgiram em ambientes físicos diferentes, elas também de-
senvolveram diversas línguas, e com diferentes experiências, variados mode-
los mentais para explicar o mundo ao seu redor. As línguas e os modelos men-
tais formavam as restrições informais que definiam a estrutura institucional
da tribo e eram transmitidos entre as gerações como costumes, tabus e mitos
que proporcionavam continuidade cultural.12
Com a crescente especialização e divisão do trabalho, as tribos evoluíram
para organizações políticas e econômicas, a diversidade de experiências e de
aprendizagem cada vez mais produziram sociedades e civilizações diferentes
com variados graus de sucesso na solução do problema econômico funda-
mental de escassez. Isso ocorre porque, conforme aumenta a complexidade
do ambiente em decorrência de os seres humanos se tornarem cada vez mais
interdependentes, são necessárias estruturas institucionais mais complexas
para capturar os ganhos potenciais do livre comércio. Essa evolução exige
que a sociedade desenvolva instituições que permitam trocas impessoais anô-
nimas ao longo do tempo e do espaço. Na medida em que a cultura e as ex-
periências locais produziram diversas instituições e sistemas de crenças em
relação aos ganhos com a cooperação, a possibilidade de criar as instituições
necessárias para capturar os ganhos com o comércio utilizando contratações
mais complexas foi heterogênea. Na verdade, a maioria das sociedades ao

12
Ronald Heiner (1983), em um artigo que quebrou paradigmas, não só fez a conexão entre a
capacidade mental dos seres humanos e o ambiente externo, mas também sugeriu as implicações
que esta conexão tinha sobre o progresso econômico. Ver: HEINER, Ronald. The origins of pre-
dictable behavior. American Economic Review, n. 75, p. 560-595, 1983.

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longo da história ficou “presa” a uma matriz institucional que não evoluiu
para a troca impessoal, que é essencial para capturar os ganhos de produtivi-
dade proveniente da especialização e da divisão do trabalho que tem produ-
zido a riqueza das nações.
A chave para a história vista é o tipo de aprendizagem que os indivíduos
de uma sociedade adquirem no decorrer do tempo. Tempo, nesse contexto,
implica não somente experiências atuais e aprendizagem, mas também a ex-
periência acumulada nas gerações passadas, que se materializa na cultura.
Aprendizagem coletiva — um termo usado por Hayek — consiste nas expe-
riências que passaram pelo lento teste do tempo e são incorporadas em nossa
língua, instituições, tecnologia e formas de fazer as coisas. É “a transmissão
no tempo de nosso estoque acumulado de conhecimento”.13 É a cultura que
fornece a chave para o caminho da dependência (path dependence) — um termo
usado para descrever a influência do passado sobre o presente e o futuro. O
aprendizado atual de qualquer geração ocorre dentro do contexto das per-
cepções derivadas da aprendizagem coletiva. Portanto, aprendizagem é um
processo incremental filtrado pela cultura de uma sociedade que determina a
percepção dos pay-offs, mas não há garantia de que as experiências passadas
acumuladas por uma sociedade necessariamente se encaixarão para resolver
novos problemas. Sociedades que ficam “presas” incorporam sistemas de
crenças e instituições que não conseguem enfrentar e resolver os novos pro-
blemas da complexidade social.
Precisamos entender muito mais sobre o aprendizado cumulativo de uma
sociedade. O processo de aprendizagem parece ser uma função 1) da maneira
pela qual uma determinada estrutura de crença filtra as informações obtidas
a partir de experiências e 2) das diferentes experiências que os indivíduos e as
sociedades confrontam em épocas diferentes. A percepção da taxa de retorno
(privado) pode ser elevada para tecnologia militar (na Europa medieval), para
a busca e aperfeiçoamento do dogma religioso (Roma, durante e depois de
Constantino) ou para a pesquisa por um cronômetro preciso para determinar
a longitude no mar (para o qual uma recompensa substancial foi oferecida
durante a época dos descobrimentos).
Os incentivos para a aquisição do conhecimento puro, que é a base es-
sencial do crescimento econômico moderno, são afetados por recompensas
e punições monetárias; também são fundamentalmente influenciados pela

13
HAYEK, Friedrich A. The constitution of liberty. Chicago: The University of Chicago Press, 1960.

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tolerância da sociedade sobre a evolução criativa, conforme uma longa lis-


ta de indivíduos criativos, de Galileu a Darwin, pode atestar. Embora exista
uma ampla literatura sobre as origens e o desenvolvimento da ciência, muito
pouco desta literatura trabalha com as relações entre a estrutura institucional,
sistemas de crenças e os incentivos e desincentivos para adquirir conhecimen-
to puro. Um fator importante no desenvolvimento da Europa Ocidental foi a
percepção progressiva da utilidade da pesquisa em ciência pura.
Como quer que definamos o desempenho econômico, o registro histórico
é claro, os incentivos que formam parte do sistema de crenças, expressos nas
instituições, determinam o desempenho econômico através do tempo. Du-
rante a maior parte da história e para a maioria das sociedades do passado
e do presente, o desempenho econômico tem sido tudo, menos satisfatório.
Os seres humanos têm, por tentativa e erro, aprendido a fazer as economias
obterem melhor desempenho, mas não só esse aprendizado levou 10 milênios
(desde a primeira revolução econômica), como também escapou do alcance
de quase metade da população mundial. Além do mais, a radical melhoria
do desempenho econômico, mesmo quando estritamente definida como bem-
estar material, é um fenômeno moderno dos poucos últimos séculos e con-
finada, até as últimas décadas, a uma pequena parte do mundo. Explicar o
ritmo e o caminho da evolução econômica ao longo da história representa um
grande enigma.
Representemos a experiência humana para datar como um relógio de 24
horas, em que o início do tempo (aparentemente na África entre 4 e 5 milhões
de anos atrás) consiste do momento em que o homem se separou dos outros
primatas. Em seguida, o início da, assim chamada, civilização ocorre com o
desenvolvimento da agricultura e assentamento permanente em cerca de 8
mil a.C., no Crescente Fértil — nos últimos três ou quatro minutos do relógio.
Para as outras 23 horas e 56 ou 7 minutos, os seres humanos permaneceram
como caçadores e coletores, e o crescimento da população ocorreu em um
ritmo muito lento.
Agora, se fizermos um novo relógio de 24 horas para o tempo da civiliza-
ção — os 10 mil anos do desenvolvimento da agricultura até o presente —, o
ritmo da mudança parece ser muito lento para as primeiras 12 horas, embora
o nosso conhecimento arqueológico seja muito limitado. Demógrafos históri-
cos especulam que a taxa de crescimento populacional pode ter dobrado em
relação à época anterior, mas ainda era muito lenta. O ritmo da mudança au-
menta nos últimos 5 mil anos com a ascensão e posterior declínio das econo-
mias e civilizações. A população pode ter crescido de cerca de 300 milhões de

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pessoas na época de Cristo para cerca de 800 milhões no ano de 1750 — uma
aceleração substancial em relação às taxas anteriores de crescimento. Os últi-
mos 250 anos — apenas 35 minutos no nosso novo relógio de 24 horas — são
a era do crescimento econômico moderno acompanhado de uma explosão po-
pulacional que agora coloca a população mundial acima de 5 bilhões.
Se nos concentrarmos agora nos últimos 250 anos, vemos que por 200
desses anos o crescimento foi muito restrito à Europa Ocidental e às extensões
no exterior da Grã-Bretanha.
Não só o ritmo tem variado ao longo dos tempos, mas também a mudan-
ça não tem sido unidirecional. Isso não é simplesmente uma consequência do
declínio das civilizações individuais; houve períodos de aparente estagnação
secular — o mais recente é a longa pausa entre o fim do Império Romano no
oeste e o renascimento da Europa Ocidental, cerca de 500 anos depois.

VI

Como pode uma abordagem cognitiva/institucional contribuir para me-


lhorar a nossa compreensão do passado econômico? Antes de tudo, essa abor-
dagem deveria fazer sentido fora do padrão muito desigual de desempenho
econômico descrito na seção anterior. Não há nada automático na evolução
das condições que permitirão baixos custos de transação nos mercados impes-
soais que são essenciais para as economias produtivas. A teoria dos jogos ca-
racteriza o problema. As pessoas geralmente acham que vale a pena cooperar
com as outras nas trocas quando o jogo é repetido, quando possuem informa-
ções completas sobre o desempenho passado do outro jogador e quando há
um número pequeno de jogadores. É difícil de sustentar a cooperação quando
o jogo não se repete (ou é finito), quando falta informação sobre os outros
jogadores e quando há um grande número de jogadores. Criar as instituições
que alterarão a relação de custo/benefício em favor da cooperação em trocas
impessoais é um processo complexo, porque implica não só a criação de ins-
tituições econômicas, mas exige que elas sejam sustentadas por instituições
políticas adequadas.
Estamos apenas começando a explorar a natureza deste processo histó-
rico. O notável desenvolvimento da Europa Ocidental, a partir do relativo
atraso do século X, para a hegemonia econômica mundial por volta do século
XVIII, é a história de um sistema de crenças que gradativamente evoluiu no
contexto da concorrência entre unidades políticas/econômicas fragmentadas,

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que produziram instituições econômicas e estruturas políticas que criaram


o crescimento econômico moderno.14 E mesmo na Europa Ocidental houve
sucessos (Holanda e Inglaterra) e fracassos (Espanha e Portugal), refletindo
diversas experiências ambientais externas.15
Em segundo lugar, a análise institucional/cognitiva deve explicar a de-
pendência da trajetória, uma das regularidades marcantes da história. Por
que as economias, uma vez no caminho do crescimento ou da estagnação,
tendem a persistir? Trabalhos pioneiros sobre esse assunto começam a nos
dar indícios sobre as fontes de dependência da trajetória.16 Mas há muita coisa
que ainda não sabemos. O pressuposto de racionalidade da teoria neoclássica
sugere que os empresários políticos das economias em estagnação poderiam
simplesmente alterar as regras e mudar o rumo das economias fracassadas.
Não é que os governantes têm estado inconscientes do mau desempenho. Pelo
contrário, a dificuldade de mudar a direção das economias é uma função da
natureza dos mercados políticos sublinhada pelos sistemas de crenças dos
atores. O longo declínio da Espanha, por exemplo, das glórias do Império
Habsburgo do século XVI ao seu estado lastimável sob Franco no século XX
foi caracterizado por inúmeras autoavaliações e frequentes propostas bizarras
de solução.17
Em terceiro lugar, esta abordagem contribuirá para o entendimento da
complexa interação entre instituições, tecnologia e demografia no processo
global de mudança econômica. Uma teoria completa do desempenho econô-
mico possibilitaria uma abordagem integrada da história econômica. Certa-
mente, ainda não colocamos todos os pedaços juntos. Por exemplo, o traba-
lho inovador de Robert Fogel sobre a teoria demográfica18 e suas implicações
históricas para reavaliar o desempenho econômico do passado ainda não foi

14
Para as notas deste crescimento, veja NORTH, Douglass C.; THOMAS, Robert P. The rise of the
Western world: a new economic history. Cambridge: Cambridge University Press, 1973; JONES,
E.L. The European miracle. Cambridge: Cambridge University Press, 1981; ROSENBERG, Nathan;
BIRDZELL, L.E. How the West grew rich: the economic transformation of the industrial world.
New York: Basic Books, 1986.
15
Para uma breve discussão sobre os caminhos contrastantes da Holanda e Inglaterra por um lado
e da Espanha por outro, ver NORTH, Institutions, institutional change, and economic performance,
op. cit., Parte III.
16
ARTHUR, Brian. Competing technologies, increasing returns, and lockin by historical events.
Economic Journal, n. 99, p. 116-131, Mar. 1989; DAVID, Paul A. Clio and the economics of QWER-
TY. American Economic Review, n. 75, p. 332 -37, May 1985.
17
De Vries tem uma descrição das soluções bizarras que foram propostas por uma Comissão Real
para reverter o declínio da Espanha. Ver: DE VRIES, Jan. The economy of Europe in an age of crises,
1600-1750. Cambridge/New York: Cambridge University Press, 1976. p. 28.
18
Veja a palestra proferida por Fogel ao receber o prêmio Nobel.

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totalmente integrado com a análise institucional. O mesmo é verdade para a


mudança tecnológica. As importantes contribuições de Nathan Rosenberg19 e
Joel Mokyr (1990),20 explorando a dinâmica e as consequências das mudanças
tecnológicas, têm implicações em curso, que precisam ser integradas com a
análise institucional. Um ensaio de Wallis e North21 é o início da integração da
análise institucional e tecnológica. No entanto, a tarefa principal da história
econômica é integrar essas distintas vertentes de pesquisa.

VII

Não podemos explicar a ascensão e queda da União Soviética e do comu-


nismo mundial com as ferramentas da análise neoclássica, mas deveríamos
poder fazer utilizando uma abordagem institucional/cognitiva para os pro-
blemas contemporâneos do desenvolvimento. Para fazê-lo, no entanto — e
para fornecer uma estrutura analítica para compreender a mudança econômi-
ca —, devemos ter em conta as seguintes implicações dessa abordagem:
1. É a mistura de regras formais, normas informais e as características de
sua implementação que modela o desempenho econômico. Embora as regras
possam ser alteradas do dia para a noite, as normas informais geralmente mu-
dam gradualmente. Uma vez que são as normas que dão “legitimidade” a um
conjunto de regras, uma mudança revolucionária nunca será tão revolucionária
quanto seus partidários desejam e o desempenho será diferente daquele pre-
visto. E as economias que adotam as regras formais de outra economia terão
características de desempenho muito diferentes daqueles obtidos pela primeira
economia, por conta das diferentes normas informais e da implementação. A
implicação é que a transferência de regras políticas e econômicas formais das
exitosas economias de mercado do Ocidente para o Terceiro Mundo e Leste eu-
ropeu não é uma condição suficiente para o bom desempenho econômico. Pri-
vatização não é uma panaceia para resolver um desempenho econômico fraco.
2. As políticas moldam significativamente o desempenho econômico
porque elas definem e aplicam as regras da economia. Portanto, uma parte

19
ROSENBERG, Nathan. Perspectives on Technology. Cambridge: Cambridge University Press,
1976.
20
Mokyr, Joel. The Lever of Riches. New York/Oxford: Oxford University Press, 1990.
21
WALLIS, John J.; NORTH, Douglass C. Institutional change and technical change in American
economic growth: a transactions costs approach. Journal of Institutional and Theoretical Economics.
(no prelo).

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essencial da política de desenvolvimento é a criação de organizações polí-


ticas que criem e façam valer os direitos de propriedade eficientes. No en-
tanto, sabemos muito pouco sobre como criar essas políticas porque a nova
economia política (a nova economia institucional aplicada à política) tem
sido amplamente focada nos Estados Unidos e as políticas desenvolvidas.
Uma necessidade premente de pesquisa é modelar as políticas do Terceiro
Mundo e do Leste europeu. No entanto, a análise anterior tem algumas
implicações:
a. As instituições políticas serão estáveis somente se sustentadas por
organizações com interesse na sua perpetuação.
b. Ambas as instituições e os sistemas de crenças devem mudar para
que a reforma seja bem-sucedida, uma vez que são os modelos mentais dos
atores que moldarão as escolhas.
c. Desenvolver normas de comportamento que apoiem e legitimem
as novas regras é um processo moroso, e na ausência de tais mecanismos de
reforço as políticas tendem a ser instáveis.
d. Embora o crescimento econômico possa ocorrer no curto prazo
com regimes autocráticos, o crescimento econômico de longo prazo implica o
desenvolvimento do estado de direito (rule of law).
e. Restrições informais (normas, convenções e códigos de conduta)
favoráveis ao crescimento por vezes podem produzir crescimento econômico
mesmo quando existem regras políticas instáveis ou adversas. A chave é o
grau no qual as regras adversas são aplicadas.
3. É a eficiência adaptativa e não a eficiência alocativa a chave para o
crescimento de longo prazo. Sistemas políticos/econômicos bem-sucedidos
desenvolvem estruturas institucionais flexíveis que podem sobreviver a cho-
ques e mudanças que fazem parte da evolução de sucesso. Mas esses sistemas
são um produto de longa gestação. Não sabemos como criar eficiência adap-
tativa em curto prazo.
Apenas iniciamos um longo caminho para conseguirmos uma compre-
ensão do desempenho da economia ao longo do tempo. A pesquisa em curso
contendo novas hipóteses que confrontem a evidência histórica não só criará
um marco analítico que nos permitirá entender as mudanças econômicas ao
longo do tempo; neste processo a teoria econômica vai se enriquecer, permi-
tindo enfrentar eficazmente uma ampla gama de questões contemporâneas
que atualmente estão além do alcance da teoria econômica. A promessa está
aí. O reconhecimento desta promessa pelo Comitê do Nobel deve ser um estí-
mulo essencial para nos mover por esse caminho.

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Douglass C. North | Desempenho econômico através do tempo 29

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