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Defesa da concorrência (cap 21),

regulação econômica (cap 22)


do livro Economia Industrial de Kupfer e
Hasenclever, Ed.Campus, 2005.

UFRGS
Teoria Econômica e
Economia A
1 Defesa da concorrência
• Uma política de defesa da concorrência tem por
finalidade garantir a existência de condições de
competição, preservando ou estimulando a
formação de ambientes competitivos com vistas
a induzir o aumento da eficiência econômica,
como resultado do funcionamento dos mercados
• Em princípio, a concorrência deve ser promovida
e defendida em vários âmbitos de atuação do
Estado, mas existem sistemas legais específicos,
as leis de defesa da concorrência (ou antitruste)
Sherman Act (1890)
• Essa lei buscou consolidar e sistematizar
questões que já eram discutidas anteriormente
no âmbito do judiciário sob o prisma do direito
privado (reclamatórias de empresas lesadas,
pex)
• A lei é composta por duas seções:
– 1ª Proíbe “contratos, combinações em forma de
truste ou de outro tipo, conspirações para restringir o
comércio...” (Cartéis explícitos)
– 2ª Proíbe tentativas de monopolizar mercados, por
iniciativa individual ou combinada (o que não implica
a proibição dos monopólios em si, quando alcançado
por meios competitivos normais)
Lei Clayton (1914)
• Proibiu nos EUA:
– Discriminação de preços com efeitos
anticompetitivos
– Práticas de venda casada (tie-ins) e de acordos de
exclusividade (exclusive dealing), quando gere
prejuízos à concorrência
– Fusões que possam prejudicar a concorrência
– Controle de empresas competidoras por meio de
participação cruzadas nas respectivas direções
executivas (interlocking directorates)
• Cf Site Eles mandam, para a propriedade cruzada de
empresas no Brasil
Defesa da concorrência e lei
antitruste no Brasil
• A lei antitruste brasileira (Lei 8.884/94) decorre de norma
constitucional que determina a repressão ao “...abuso do
poder econômico que vise à dominação dos mercados, à
eliminação da concorrência e ao aumento arbitrário dos
lucros” (CF, art. 173, §4)
• “Livre concorrência” também é um princípio constitucional
da Ordem Econômica (CF., art 170, IV), sendo uma diretriz
geral que deve orientar todas as ações dos poderes
públicos (tanto a produção legislativa quanto as ações de
governo e as decisões judiciais)
• Portanto, a defesa da concorrência não se resume apenas
à Lei Antitruste e ao seu arcabouço institucional, mas a
todas as ações do Estado relacionadas a ela
A defesa da concorrência no
âmbito Executivo
• Autoridades antitruste, os órgãos do executivo
encarregados da aplicação da legislação
antitruste são
– Conselho Administrativo de Defesa da Econômica
(CADE), autarquia competente para julgar os casos,
aplicar multas e autorizar/negar fusões e aquisições
– Secretaria de Direito Econômico do Ministério da
Justiça (SDE), com a função de investigar e instruir
processos
– Secretaria de Acompanhamento Econômico do
Ministério da Fazenda (SEAE), responsável pelos
pareceres econômicos sobre os casos analisados
2 Defesa da concorrência: objetivos
• A política de defesa da concorrência busca limitar o exercício do
poder de mercado, pois, em princípio, empresas que detém esse
poder são capazes de prejudicar o processo competitivo, gerando
ineficiências econômicas e sociais como resultado do seu exercício
• A lei antritruste não torna o poder de mercado – nem os
monopólios – ilegais, mas apenas tenta controlar a forma pela qual
esse poder é adquirido e mantido.
• A lei busca reprimir o exercício abusivo de poder de mercado, e
não o poder em si
• Dois padrões básicos:
– Voltado às condutas dos agentes no processo competitivo. Ações em
geral de caráter repressivo.
– Relacionado às estruturas que condicionam tais condutas. Controle
preventivo dos atos de concentração
Características da política
antitruste
• Duas características peculiares à política
antitruste
– O objetivo de defender o processo de concorrência
implica a necessidade de reprimir qualquer tipo de
prática que provoque o efeito de restringir esse
processo. Será esse efeito que irá caracterizar um
ato como proibido perante a lei antitruste
– As imposições decorrentes da lei são,
substancialmente, abstenções (não produzir efeitos
anticompetitivos.
3 Conceitos básicos de lei
antitruste
• Toda análise antitruste gira em torno da
noção de poder de mercado
– Danos ou restrições à concorrência só podem ser
causados por empresas detentoras desse poder,
que é, portanto, condição necessária para haver
ilicitude perante a lei.
– Mas não é suficiente, pois a ilicitude depende
ainda da constatação de efeitos anticompetitivos
(efetivos ou potenciais) que decorram de uma
conduta ou um ato de concentração
3.1 Mercado relevante
• Delimitar o mercado relevante é um passo prévio
essencial da análise antitruste, pois é em relação a ele
que se calculam os indicadores de concentração e se
analisam todas as demais condições necessárias para
caracterização do poder de mercado e ao seu exercício e
os danos à concorrência
• O mercado relevante é definido como o lócus em que o
poder de mercado possa (hipoteticamente) ser exercido.
– Os principais conceitos utilizados para isso são as
elasticidades-preço da demanda e da oferta.
– “todos os produtos/serviços considerados substituíveis entre si
pelo consumido, devido às suas características, preço e
utilização” (Resolução 15/98 do CADE)
3.2 Poder de mercado
• Poder de mercado está associado à
capacidade de restringir a produção e
aumentar preços de modo a, não atraindo
novos competidores ou afastando os velhos,
obter lucros extraordinários
– É definido como poder de fixar preços
significativa e persistentemente acima do nível
competitivo, isto é, dos custos médios
– Este poder não se expressa apenas através de
preços.
3.3 Eficiências e o princípio da
razoabilidade
• Condutas ou atos de concentração restritivos da
concorrência também podem promover
eficiências compensatórias, que devem ser
analisadas caso a caso.
• O que importa são os efeitos líquidos sobre a
eficiência econômica de todo o processo
• A lei busca coibir a ineficiência econômica, de
modo que se o efeito da eficiência resultante da
concentração for maior do que os danos
devidos a ela, a lei não impedirá o ato de
concentração
4 Padrões de ações antitruste
Condutas Atos de concentração
I - Verificação da existência de poder de mercado
1 Delimitação do mercado relevante Identificar os mercados relevantes

2 Análise da posição das empresas envolvidas Cálculo de market-share Indicadores de concentração

3 Análise das condições de exercício do poder de mercado Formas de concorrência e grau de rivalidade nos mercados
relevantes
Avaliação das barreiras à entrada
Possibilidade de concorrência por importações
Conclusão: há poder de mercado e condições para seu
exercício?
Não Os envolvidos não detêm poder de mercado
Sim É possível que a conduta provoque efeitos restritivos.
Identificar
II – Identificação dos efeitos anticompetitivos Diversificados e variáveis, conforme o tipo de conduta

III – Identificação das eficiências geradas pelo ato/conduta Também são variáveis, conforme o tipo de conduta. São típicas
as economias de custos de transação
IV Conclusão: efeitos líquidos
Se positivos Não há infração à ordem econômica. O ato pode ser aprovado
Se negativos Há infração; ordem para cessar a prática e penalidades (multas
e outros)
4.1 Condutas anticompetitivas
• Costuma-se dividir as condutas
anticompetitivas em horizontais e verticais
– Horizontais são as condutas que reduzem a
concorrência entre empresas de um mesmo
mercado
– Verticais são as que ocorrem no âmbito das
relações entre as empresas que se
relacionam como compradoras e vendedoras
ao longo da cadeia produtiva
Acordos entre concorrentes
Horizontais
• Cartéis – acordos explícitos ou tácitos entre concorrentes
que afetam parte substancial do mercado relevante,
envolvendo o estabelecimento de preços, quotas de
produção e distribuição e divisão territorial
• Outros acordos entre empresas – costuma-se distinguir
dos cartéis aquelas “restrições que envolvem apenas
parte do mercado ou esforços conjuntos temporários
voltados à busca de maior eficiência, especialmente
produtiva ou tecnológica”
• Acordos de associações profissionais – práticas que
limitem injustificadamente a concorrência entre
profissionais, principalmente pelo tabelamento de preços.
O CADE tem condenado sistematicamente práticas de
tabelamento promovidas por associações e sindicatos de
profissionais liberais
Acordos entre concorrentes
Verticais
• As condutas verticais consistem em restrições
praticadas por ofertantes de bens/serviços de
um mercado (origem) que afetam outro
mercado relacionado verticalmente – a
montante ou a jusante – denominado mercado-
alvo.
– Fixação de preço de revenda
– Restrições territoriais e de base de clientes
– Acordos de exclusividade
– Recusa de venda/negociação (boicote)
– Venda casada
– Discriminação de preços
4.2 Atos de concentração
• Situações típicas de atos que apresentam potencial
anticompetitivo – e suas respectivas eficiências :
– Concorrentes reais ou potenciais se fundem para melhor
aproveitar economias de escala, baixando custos mas
possivelmente aumentando preços e lucros;
– Concorrentes potenciais se juntam em joint-venture para
desenvolver um novo produto ou eliminar investimentos
duplicados em P&D e evitar os custos de uma “corrida para
chegar em primeiro”; isto pode retardar a introdução da
inovação no mercado;
– Concorrentes multiproduto combinam especializar-se,
fornecendo um ao outro os insumos necessários; reduzem,
assim, os custos e aumentam a especialização de equipamento
e pessoal, mas à custa de eliminar a concorrência em qualidade
e preços
Conclusão e temas para
discussão
• Diferentemente da Lei Antitruste, que possui um
caráter predominantemente defensivo, existem
várias possibilidades de políticas que podem visar
tanto à conformação de ambientes competitivos
como também do fortalecimento da competitividade
(no sentido de capacidade para concorrer) das
empresas
• Ambos – agente e ambiente – são necessários para
haver, de fato, a concorrência cujos efeitos são
reconhecidamente positivos do ponto de vista social.
• O último escândalo da República e os cartéis
Regulação econômica (cap. 22)
• Define-se regulação como qualquer ação do governo no
sentido de limitar a liberdade de escolha dos agentes
econômicos
– Dessa forma, quando um agente regulador (uma agência
responsável por algum setor da economia, como eletricidade,
telecomunicações etc.) fixa uma tarifa para um determinado
serviço, está restringindo a liberdade que uma empresa tem de
estabelecer o preço pela atividade
– Pela definição, depreende-se que o campo da regulação é
muito mais extenso do que apenas a regulação de preços
(tarifária)
– A regulação se estende às quantidades (limites mínimos de
produção ou da limitação do número de empresas que podem
atuar em determinado setor), regulação de qualidade (garantia
de presença de determinadas características no serviço ou
produto a ser ofertado), regulação de segurança no trabalho,
fitosanitárias, contra incêndio, entre outras.
O monopólio natural
• Monopólio natural com um produto
– Os custos serão menores quando produzidos por uma única
empresa do que seriam se fossem produzidos por duas ou mais
empresas
• Monopólio natural multiproduto
– Além da subaditividade de custos, as economias de monopólios
multiproduto advém de economias de escopo
• Indústrias de rede
– São um caso especial do monopólio natural. Exploram a
multiplicidade de relações transacionais entre os agentes
econômicos situados em diferentes nós da rede, envolvendo
um princípio de organização espacial e territorial (eletricidade,
gás, telecomunicações, água e saneamento básico)
– O que marca as indústrias de rede são a existência de
externalidades (externalidades de rede), a importância das
economias de escala e a articulação em torno da infraestrutura
propriamente dita
Formas de regulação dos preços
• Regulação por taxa de retorno
• Preço teto (price cap)
• Regra do componente de preço
eficiente
• Regulação de monopólio multiproduto
• Tarifa em duas partes
A regulação na prática
• Antecedentes de regulação econômica:
modelos básicos europeu e norte-americano
• As reformas dos anos 80 e a nova fase da
regulação
• Regulação no Brasil
– Indústria elétrica
– Telecomunicações
– Petróleo e gás