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Título original inglês: ---SurelyYoure Joking Mr. Feynman!

"
@ 1985 Richard P. Feynman e Ralph Leighton
TraduçÃo: Isabel Neves
RevisÃo de texto: Manuel Joaquim Vieira
Capa: Armando Lopes
FotocomposiçÃo, paginaçÃo e fotolitos: Textype -Artes
Gráficas, L.da
ImpressÃo e acabamento: Tipografia GuerralViseu
Direitos reservados para Portugal a:
Gradiva -PublicaÇÕES, L.da
Rua de Almeida e Sousa, 21, r/c-esq. -Telefs. 3 97 40 67 / 8
1300 Lisboa
3.' ediçÃo: Junho de 1998
Depósito legal n.' 124 507/98

+NDICE
Uma nota de introduçÃo 7
Prefácio 13
IntroduçÃo 15
Dados biográficos 17
1ª PARTE -DE FAR ROCKAWAY AO MIT
Ele conserta rádios pensando! 21
FeijÃo verde 30
Quem roubou a porta? 34
Latim ou italiano? 45
Sempre a tentar escapar 47
O químico principal de pesquisa da CorporaçÃo Metaplast
54
2ª PARTE -OS ANOS DE PRINCETON
"Está a brincar, Sr. Feynman!" 63
Euuuuuuuuuu! 68
Um mapa do gato? 71
Cérebros enormes 78
Misturando tintas 82
Uma caixa de ferramentas diferente 84
Leitores da mente 87
O cientista amador 89
3ª PARTE -FEYNMAN, A BOMBA E OS MILITARES
Detonadores que só assobiam 99
Testando cÃes de caça 104
Los Alamos a partir de baixo 106
Arrombador de cofres encontra arrombador de cofres
134
O Tio Sam nÃo precisa de si! 152
4ª PARTE -DE CORNELL A CALTECH, COM UM POUCO DE BRASIL
O digno professor 163
Alguma pergunta? 172
Quero o meu dólar! 176
É só pedir-lhes? 179
Números de sorte 186
O americano outra vez! 192
Homem de mil línguas 211
Certamente, Sr. Grande! , 212
Uma oferta que deve recusar 222
5ª PARTE -O MUNDO DE UM F+SICO
Você resolveria a equaçÃo de Dirac? 229
A soluçÃo de 7 por cento 238
Treze vezes 245
Parece-me grego! 247
Mas isto é arte? 248
A electricidade é fogo? 265
Avaliando os livros pelas capas 272
O outro erro de Alfred Nobel 286
Trazendo cultura aos físicos 294
Descobertos em Paris., 299
Estados alterados 309
A ciência do culto da carga 316

Uma nota de introduçÃo


Quando enviei ao meu amigo Guilherme Valente, da Gradiva, um
exemplar do livro de Richard Feynman, sugerindo-lhe a
publicaçÃo em português, acrescentei um parágrafo à carta,
dizendo-lhe, sem mais rodeios, que eu queria escrever a
introduçÃo. Atrevimento que venho agora justificar ao
materializar esse desejo que manifestei ao editor.
O livro andava havia tempos pelas livrarias sem eu o topar.
Foi o Alex, um amigo de biologia, que, no print-out das
anedotas que regularmente me envia do seu laboratório,
insistiu, em nota por ele garatujada ao longo da página: YOU
MUST read it 21
As recomendaÇÕES do Alex nunca falharam e por isso fui de
agarrar de um exemplar. Li-o em velocidade acelerada. No fim,
ainda embalado, registei brevissimamente a minha impressÃo
global neste termos que agora traduzo: "Que tipo! Do gênero
'Sim, eu sei que sou grande, mas isso nÃo é nada de especial.
Eu sou um ser humano e nÃo acho razÃo nenhuma para me armar em
Deus ou sequer seu sacerdote! Humano, demasiado humano
(Nietzsche)'."
Ao relê-lo agora, antes de escrever este prefácio, sinto o
mesmo a propósito do livro e da personalidade de Richard
Feynman, que ressalta desta série de histórias por ele
contadas a um amigo, que as passou ao papel. Admito, porém,
que o meu entusiasmo possa estar aqui reforçado pelo contacto
com essa jóia de literatura científica que é o
1 Há um grupo de cientistas espalhado pelo país que, quando
conhece uma anedota nova, a lança no computador. Sempre que um
membro do grupo o deseja, obtém uma cópia impressa das últimas
anedotas que, entretanto, foram dando entrada no file.
Frequentemente surgem sugestSes de leitura obrigatória, como
aconteceu dessa vez com o livro de Feynman.
2 Tens de lê-lo.
7

livro The Character of Physical Law, em que Feynman se revela


um grande escritor, possuidor de um estilo elegante, que
consegue transmitir com uma simplicidade transparente,
cristalina mesmo, profundos conceitos científicos. Depois,
tenho também essa imagem de Richard Feynman ele próprio
filmado ao vivo (em vídeo) a dar essas liÇÕES que constituem o
livro: uma inteligência fulgurante a imanar-lhe do corpo
inteiro, superiormente descontraído e sem pose e com um
sorridente sentido de humor a iluminar-lhe as palavras. Tudo
menos a imagem-cliché de um Prêmio Nobel. Mas creio ser mesmo
essa imagem que dele nos dá este livro.
Aliás, ele dispensa quaisquer introduÇÕES, sobretudo esta. Mas
nÃo resisto a vir chamar a atençÃo para alguns pormenores
culturais que eu vejo como virtude e em Portugal serÃo por nÃo
poucos vistos como defeitos. Na verdade, Richard Feynman
surge-nos como a quinta-essência prototípica e paradigmática
do cientista contemporâneo. Um profissional
(superprofissional) que se assume apenas como cientista e
somente na área da sua especialidade. NÃo se evade às suas
responsabilidades de cidadÃo. Leva a sério, mais do que
ninguém, a missÃo que lhe é entregue de, por exemplo, avaliar
a qualidade de livros didácticos e demite-se quando vê que,
afinal, esse ofício nÃo era para ser tomado assim tÃo a sério.
Mas Feynman nÃo transfere para outras áreas a convicçÃo de
competência. No resto, é um cidadÃo como os outros, com plena
consciência de nÃo se dever meter em áreas fora do seu saber.
É capaz de desenvolver hobbies e tornar-se até perito neles,
como acontece com a sua diabólica habilidade de decifrar
códigos e a sua perícia em tocar tambor na bateria de uma
escola de samba. Mas nÃo tem qualquer rebuço em dizer que nÃo
sabe quando nÃo sabe ou admitir candidamente o que muitos
considerariam fraqueza, como aquela de confessar que foi
hipnotizado, apesar de ter procurado resistir. Recordo-me de,
nos anos sessenta, ter lido algures um texto de Jorge de Seria
em que, numa nota, esboçava um pouco caricatamente o professor
universitário americano como alguém que trabalhava
intensamente das nove da manhà às cinco da tarde, mas que
depois deixava de ser universitário e ia para casa cortar a
relva do jardim. Esses traços, a que ainda hoje ouço
referências em Portugal, eram exagerados. Reflectiam o olhar
do intelectual europeu (e em que elevado grau representava
Jorge de Sena esse modo de ser!), sobretudo das letras e
humanidades, que, exceptuando esse grupo de umas quantas
personalidades invulgares, como era Jorge de Seria, chama
"cultura" a uma série de conhecimentos diletantes e
superficiais sobre tudo ou quase tudo e aponta
8
displicentemente o especialista norte-americano como uma
deformaçÃo quase aberrante. Mas trata-se apenas de estilos,
maneiras de ser, preferências, porque o universitário
norte-americano, por hábito cultural, coíbe-se de falar fora
da sua área. Deixa isso para outros, o que nÃo significa que
nÃo leia sobre temas alheios aos seus interesses
profissionais. É bom que, do outro lado do Atlântico,
determinado tipo de preconceituosos se apercebam disto. O
especialista norte-americano desconfia do erudito verboso,
pronto a discorrer sobre o universo inteiro com convencimento
e presunçÃo, como se possuidor de privilegiado acesso aos
mistérios das coisas. Naturalmente que os exageros de
caracterizaçÃo habitam os dois lados, mas o ponto a vincar
aqui é o de essas diferenças constituírem paradigmas
tradicionalmente estabelecidos e cultivados com apreço.
Revelam concepÇÕES diferentes sobre a sociedade, o indivíduo
e, acima de tudo, sobre o papel do cientista, do
universitário, ou do scholar, já que a palavra "intelectual"
para englobar todo esse grupo nÃo é geralmente usada nos
Estados Unidos. Numa sociedade onde há especialistas em tudo,
os amadores assumem-se como amadores nas áreas em que o sÃo.
Respeitam o seu interlocutor e nÃo o maçam com banalidades
sobre coisas que toda a gente sabe. Até porque ele(a) nÃo sabe
se esse(a) interlocutor(a) é até especialista no próprio
assunto sobre que ele(a) se atreve a dizer umas balelas. Mas,
se esses especialistas em cultura geral, sabedores de tudo e
leitores de tudo (do gênero de sabença de ouvido ou de leitura
em diagonal dos semanários em fim-de-semana), ainda por cima
se pSem ares de importância, entÃo é que Feynman vai às
nuvens: "Fico doido com palermas pomposos! "
A tolerância, o respeito pela área onde os outros sÃo
especialistas, o gosto pela frontalidade no diálogo, como
troca livre de pontos de vista, o estilo nott-sense, uma
grande dose de reconhecimento das limitaÇÕES de conhecimento
humano, sÃo características que ressaltam ao longo destas
páginas, personificadas num modelo ou modo de estar que é
emulado pelo profissional das ciências e da universidade
liberal da melhor tradiçÃo americana. Feynman nÃo seguiu as
pisadas de tantos Nobel sobre quem o prêmio tem efeitos
sacramentais: como que eleva o premiado a um estatuto quase
religioso, meio profético meio metafísico, e impele-o a fazer
declaraÇÕES grandiosas sobre o mundo,
3
a história, o universo. To go off the deep end ~ como é
conhecida a
atitude.
3 Caminhar pelo precipício fora.
9

Einstein comparou-se uma vez a uma criança que entrara numa


biblioteca enorme com livros escritos em variadíssimas
línguas, de onde apenas tirara um volume e conseguira traduzir
algumas páginas. Newton falou de si em termos semelhantes:
sentia-se como um garoto a brincar na orla de um vasto oceano
de verdade, entretendo-se a apanhar um seixo macio ou uma
concha.
Apetece aqui citar o parágrafo final do já referido livro de
Richard Feynman, The Charater of Physical Law. Após umas
consideraÇÕES em epílogo sobre o fascinante período de
descobertas em que se vive hoje e os padrSes em que se
processam as descobertas científicas, fecha a última liçÃo
nestes termos: "O que é que na natureza permite que as coisas
se passem assim, de modo que seja possível prever, a partir do
lado em que estamos, o que se vai passar no outro lado? Essa é
uma pergunta nÃo científica: eu nÃo sei respondê-la e,
portanto, vou dar uma resposta nÃo científica. Eu penso que é
porque a natureza possui uma simplicidade e, consequentemente,
uma grande beleza 4."
Quando, há cerca de um ano, uma comissÃo nacional investigava
as razSes do malogro do vaivém espacial Challenger, à frente
dela estava nem mais nem menos do que Richard Feynman.
Lembro-me de vê-lo na televisÃo, com um àvontade
impressionante, a explicar aos políticos no Senado, em
Washington, e, através da TV, ao país inteiro o que apurara o
grupo de cientistas sobre as causas da fractura no grande anel
de borracha à volta da Challenger. Como sempre, fê-lo com a
simplicidade arrasadora de quem sabe profundamente das coisas
e consegue falar delas agarrando o essencial, graças a um
poder de comunicaçÃo invulgar, a que quase nunca é alheio um
finíssimo humor. Feynman pediu um copo com água e gelo e uma
dessas argolas de elástico de segurar maços ou rolos de
papéis. Esticou o elástico diante dos circunstantes. Tudo
normal. Mergulhou-o depois no copo e deixou-o por algum tempo.
Retirou-o entÃo e dobrou-o. O elástico partiu-se. Feynman
concluiu para os presentes mais ou menos nestes termos e com o
ar que CristóvÃo Colombo deveria ter tido na história
provavelmente apócrifa de pôr o ovo em pé: "Foi o que
aconteceu com o anel da Challenger. Estava demasiado frio no
Cabo Canaveral a quando do lançamento da nave espacial. Com a
trepidaçÃo, o anel de borracha da base,
' The Character of Physical Law, Cambridge, Mawchusetts, The
M. 1. T. Press, 1965, p. 173.
10
sem elasticidade, partiu-se. " Tomas 5, meu ex-professor de
Filosofia e agora, reformado, companheiro de cavaqueio
frequente, comentou-me assim essa história, que ele seguira
igualmente pela TV: "A câmara nÃo mostrou o interior dos
rostos estupefactos daqueles sisudos senadores escutando
atentamente o relatório de Feynman. Esperando, com certeza,
uma liçÃo complexíssima com terminologia científica
impenetrável misturada de fórmulas, ao depararem com uma
explicaçÃo tÃo lucidamente simples, imagino uns quantos a
exclamarem de si para si: "Deve estar a brincar, Sr. Feynman!"
ONÉSImo TEOTóNio ALMEIDA
Providence, Rliode Island Junho de 1987
5 NÃo vá o tipógrafo pôr acento agudo no "a". NÃo é
luso-americano. É uma americanizaçÃo do polaco "Tomaski," que
os seus antepassados tiveram de fazer numa altura em que na
América a conformidade à ideologia do melling por nÃo fazia
contemplaÇÕES.
11
Prefácio
As histórias deste livro foram recolhidas intermitente e
informalmente ao longo de sete anos de uma convivência muito
agradável com Richard Feynman. Achei cada história por si só
divertida e, tomadas em conjunto, espantosas: custa por vezes
a acreditar que durante a vida de uma só pessoa tenham
acontecido tantas coisas maravilhosamente loucas. Que uma
única pessoa tenha conseguido imaginar tantas travessuras
inocentes durante a vida é certamente uma inspiraçÃo!
RALPH LEIGHTON

IntroduçÃo
Espero que estas nÃo sejam as únicas memórias de Richard
Feynman. Com certeza que as presentes recordaÇÕES dÃo uma
imagem verdadeira de grande parte da sua personalidade -a sua
necessidade quase compulsiva de resolver quebra-cabeças, a sua
traquinice provocadora, a sua impaciência indignada perante a
presunçÃo e a hipocrisia e o seu talento para se sobrepor a
quem se lhe tenta impor! Este livro é uma óptima leitura:
ofensivo, chocante e, ao mesmo tempo, terno e muito humano.
Apesar disso, apenas aflorou a pedra angular da sua vida: a
ciência. Vêmo-la aqui e ali, como pano de fundo num ou noutro
episódio, mas nunca como o foco da sua existência, que
geraÇÕES de alunos e colegas seus sabem que ela constitui.
Talvez nÃo seja possível outra coisa. Pode nÃo haver nenhuma
maneira de construir outra série de histórias deliciosas sobre
ele próprio e sobre o seu trabalho: o desafio e a frustraçÃo,
a excitaçÃo que envolve a descoberta, o prazer profundo do
entendimento científico, que tem sido a fonte de felicidade da
sua vida.
Lembro-me como era entrar nas suas conferências, quando era
seu aluno. Encontrava-se geralmente em frente da entrada,
sorrindo-nos à medida que íamos entrando, enquanto os seus
dedos batiam um ritmo complicado na superfície negra da
bancada que atravessava a entrada da sala de conferências.
Enquanto os últimos a chegar se sentavam, pegava no giz e
começava a rodá-lo rapidamente entre os dedos, como um jogador
profissional a brincar com as cartas, continuando a sorrir
alegremente como se pensasse nalguma piada secreta. E depois
sempre sorrindo -falava-nos sobre a física, ajudando-nos, com
os seus diagramas e as suas equaÇÕES, a compartilhar os seus
conhecimentos.
15

16
NÃo era nenhuma piada secreta que lhe provocava o sorriso e o
brilho dos olhos, era a física. A alegria da física! Essa
alegria era contagiosa. Nós, os que contraímos essa doença,
somos afortunados. Agora aqui está a sua oportunidade de
experimentar a alegria de viver no estilo de Feynman.
ALBERT R. HIBBS Membro superior do pessoal técnico,
Laboratório de PropulsÃo a Jacto,
Instituto de Tecnologia da Califórnia
' Massachuseus Institute of Technology. (N. da T.)

Dados biográficos
Alguns factos sobre a minha vida: nasci em 1918, numa
cidadezinha chamada Far Rockaway, nos arredores de Nova
Iorque, perto do mar. Vivi aí até 1935, tinha entÃo 17 anos.
Frequentei o MIT 1 durante quatro anos e depois fui para
Princeton, por volta de 1939. Enquanto estive em Princeton
comecei a trabalhar no Projecto Manhattan e fui finalmente
para Los Alamos em Abril de 1943, até alturas de Outubro ou
Novembro de 1946, quando fui para Cornell.
Casei-me com Arlene em 1941 e ela morreu com tuberculose
enquanto eu estava em Los Alamos, em 1946.
Estive em Cornell mais ou menos até 1951. Visitei o Brasil no
VerÃo de 1949 e passei lá meio ano em 195 1, indo depois para
Caltech, onde tenho estado desde entÃo.
Estive no JapÃo umas semanas em 1951 e voltei lá passado um
ano ou dois, logo depois de ter casado com a minha segunda
mulher, Mary Lou.
Agora estou casado com Cweneth, que é inglesa, e temos dois
filhos, Carl e Michelle.
R. P. F.
17

1ª Parte
The Far Rockaway ao MIT

Ele conserta rádios pensando!


Quando tinha 11 ou 12 anos, instalei um laboratório em minha
casa. Consistia num velho caixote de madeira em que coloquei
prateleiras. Tinha um fogareiro e passava o tempo a pôr lá
gordura e a fritar batatas. Tinha também uma bateria e uma
série de lâmpadas.
Para instalar as lâmpadas fui ao armazém e arranjei uns
encaixes que se podiam aparafusar numa base de madeira e
liguei-os com bocados de fio eléctrico. Sabia que podia
conseguir diferentes voltagens fazendo combinaÇÕES diferentes
de interruptores -em série ou em paralelo. Mas o que nÃo
tinha percebido era que a resistência de uma lâmpada depende
da sua temperatura, e por isso os resultados dos meus cálculos
nÃo foram iguais ao que saiu do circuito. Mas estavam bastante
bem e, quando as lâmpadas estavam em série, todas semiacesas,
brilhaaaaaaaaaavam, muito bonito -era formidável!
Tinha um fusível no sistema, de modo que, se provocasse um
curto-circuito, o fusível rebentava. Mas precisava de um
fusível mais fraco do que o da casa, pelo que construí os meus
próprios fusíveis enrolando folha de estanho num fusível
antigo já queimado. Tinha uma lâmpada de 5 W ligada ao
fusível, de modo que, quando o fusível rebentava, a carga do
carregador que alimentava constantemente a bateria acendia a
lâmpada. A lâmpada estava no painel de controlo, atrás de um
papel de chocolate castanho (fica vermelho quando tem uma luz
por trás) -pelo que, se alguma coisa disparasse, olhava para
o painel e lá estava uma grande luz vermelha no sítio do
fusível que tinha rebentado. Era divertido!
Eu gostava de rádios. Comecei com um aparelho de cristais que
comprei no armazém e costumava ouvi-lo à noite, na cama, antes
de adormecer, com um par de auscultadores. Quando a minha mÃe
e o meu
21

pai saíam de noite até tarde, vinham ao meu quarto e


tiravam-me os auscultadores -e preocupavam-se com o que me
entrava na cabeça enquanto dormia.
Mais ou menos por essa altura inventei um alarme contra
ladrSes, de concepçÃo muito simples: era apenas uma pilha e
uma campainha ligadas por um arame. Quando a porta do meu
quarto se abria, encostava o arame à pilha e fechava o
circuito e a campainha disparava.
Uma noite, os meus pais chegaram a casa e muito, muito
devagar, para nÃo incomodarem o filho, abriram a porta para
entrar no meu quarto e tirar os auscultadores. De repente,
aquela tremenda campainha começou a tocar, fazendo uma
barulheira dos diabos -BONG BONG BONG BONG!!! Saltei da cama
a gritar "Funcionou! Funcionou!"
Tinha uma bobina Ford -uma bobina de igniçÃo de um automóvel
-e tinha os terminais da igniçÃo na parte superior do painel
de controlo. Punha um tubo Raytheon RH, com gás árgon dentro,
entre os terminais, e a faísca produzia um brilho púrpura no
vácuo -era mesmo formidável!
Um dia estava a brincar com a bobina Ford, fazendo buracos num
papel com as faíscas, e o papel incendiou-se. Depressa deixei
de o poder segurar porque ardia perto dos meus dedos, pelo que
o deitei num cesto de papéis em metal, o qual tinha lá dentro
uma quantidade de jornais. Os jornais ardem depressa, como
sabem, e a chama parecia bastante grande dentro do quarto.
Fechei a porta para que a minha mÃe -que estava a jogar
brídege com umas amigas na sala -nÃo descobrisse que havia
fogo no meu quarto, peguei numa revista que estava perto e
pu-Ia sobre o cesto de papéis para abafar o fogo.
Depois de o fogo se apagar tirei a revista, mas nessa altura o
quarto começou a encher-se de fumo. 0 cesto de papéis ainda
estava quente de mais para lhe poder tocar, pelo que lhe
peguei com um alicate, o levei através do quarto e o segurei
do lado de fora da janela para que o fumo se dissipasse.
Mas, como corria uma brisa lá fora, o vento voltou a acender o
fogo, e agora nÃo tinha a revista ao meu alcance. Por isso
voltei a trazer o cesto de papéis para dentro através da
janela, para pegar na revista, e reparei que havia cortinas na
janela -era muito perigoso!
Bem, peguei na revista, apaguei outra vez o fogo, e desta vez
nÃo larguei a revista enquanto sacudia o cesto de papéis para
fazer cair as cinzas incandescentes para a rua, dois ou três
pisos abaixo. EntÃo saí do meu quarto, fechei a porta atrás de
mim e disse à minha mÃe: "Vou brincar lá para fora", e o fumo
saiu devagar pela janela.
22
Também fiz umas coisas com motores eléctricos e construí um
amplificador para uma célula foteléctrica que comprei e que
podia fazer tocar uma campainha quando punha a mÃo à sua
frente. NÃo conseguia fazer tanto como gostaria, porque minha
mÃe estava sempre a mandar-me já para fora brincar. Mas eu
estava muitas vezes dentro de casa, entretido com o meu
laboratório.
Comprava rádios em bazares. NÃo tinha dinheiro, mas nÃo saía
caro -eram rádios velhos e estragados e eu comprava-os e
tentava consertá-los. Normalmente, a avaria que tinham era
muito simples -um fio solto em evidência, ou uma bobina
partida ou parcialmente desenrolada -, pelo que conseguia pôr
alguns deles a funcionar. Num desses rádios consegui uma noite
apanhar o WACO, de Waco, no Texas -era tremendamente
excitante!
Nesse mesmo rádio de tubos conseguia ouvir no meu laboratório
um posto de Schenectady chamado WGN. Nessa altura, eu e todos
os outros miúdos -os meus dois primos, a minha irmà e os
miúdos da vizinhança -ouvíamos no rádio do andar de baixo um
programa chamado Clube do Crime Eno -os sais efervescentes
Eno. Descobri que podia ouvir o programa lá em cima, no meu
laboratório, no WGN, uma hora antes de ser transmitido em Nova
Iorque! Assim descobria o que ia acontecer, e depois, quando
estávamos todos sentados lá em baixo em volta do rádio a ouvir
o Clube do Crime Eno, dizia: "Sabem, há muito tempo que nÃo
ouvimos falar de fulano. Aposto que ele chega e salva a
situaçÃo."
Passados dois segundos, lá vinha ele! Ficaram todos muito
entusiasmados com isto e eu fiz mais algumas previsSes. EntÃo
eles perceberam que devia haver algum truque -que eu devia
ter qualquer maneira de saber. Por isso confessei qual era: eu
ouvia o programa uma hora antes lá em cima.
Sabem qual foi o resultado, naturalmente. Já nÃo conseguiam
esperar pela hora normal. Tinham todos de se sentar lá em cima
no meu laboratório, com aquele radiozinho cheio de ruídos
durante meia hora, a ouvir o Clube do Crime Eno, emitido de
Schenectady.
Nessa altura vivíamos numa grande casa; tinha sido deixada
pelo meu avô aos filhos e eles nÃo tinham muito dinheiro além
da casa. Era uma casa de madeira, muito grande, e eu passava
fios a toda a volta do lado de fora, e tinha tomadas em todas
as divisSes, de modo que Podia sempre ouvir os meus rádios,
que estavam lá em cima no meu laboratório. Tinha também um
altifalante -nÃo o altifalante comPleto, apenas a parte que
nÃo tem a grande campânula.
23

Um dia, quando tinha os auscultadores postos, liguei-os ao


altifalante e descobri uma coisa: pus um dedo no altifalante e
consegui ouvi-lo nos auscultadores; arranhava o altifalante e
ouvia-o nos auscultadores. Descobri assim que o altifalante
podia funcionar como microfone, nem sequer precisando de
pilhas. Um dia, na escola, estávamos a falar de Alexander
Graham Bell e eu fiz uma demonstraçÃo com o altifalante e os
auscultadores.
Nessa altura eu nÃo sabia, mas acho que era o tipo de telefone
que ele usou originalmente.
Eu tinha agora um microfone e podia emitir do segundo piso
para o primeiro e do primeiro para o segundo, usando os
amplificadores dos meus rádios comprados em bazares. Nessa
altura, minha irmà Joan, que tinha menos nove anos do que eu,
devia ter uns 2 ou 3 anos e havia um tipo na rádio chamado Tio
Don que ela gostava de ouvir. Cantava cançSezinhas sobre
"meninos bons", etc., e lia postais mandados pelos pais
contando que "Mary Fulana dá uma festa de aniversário este
sábado no n.'25 da Avenida Flatbush".
Um dia, o meu primo Francis e eu sentámos a Joan e
dissemos-lhe que havia um programa especial que ela tinha de
ouvir. Depois corremos lá para cima e começámos a emitir:
"Daqui fala o Tio Don. Conhecemos uma menina muito simpática
chamada Joan que vive em New Broadway; vem aí o seu
aniversário -nÃo é hoje, mas em tantos de tal. É uma rapariga
engraçada. " Cantámos uma cançÃozinha e depois fizemos música:
"Plim plim plim, tra Ia la, pli plim plim plum, tra Ia Ia li
... " Fizemos aquilo tudo e depois viemos cá para baixo e
perguntámos:
"Que tal foi? Gostaste do programa?"
"Foi bom", disse ela, "mas porque é que vocês fizeram a música
com a boca?"
Um dia recebi um telefonema:
"Oiça, o senhor é Richard Feynman?"
"Sou"
"Estou a falar de um hotel. Temos um rádio que nÃo funciona e
queríamos mandá-lo consertar. Ouvimos dizer que você se
encarrega disso."
"Mas eu sou apenas um rapazinho", disse eu, "nÃo sei como ...
"
"Sim, nós sabemos, mas mesmo assim queríamos que viesse até
cá."
Era um hotel que a minha tia dirigia, mas eu nÃo sabia. Fui
até lá, levando -eles ainda contam a história -uma grande
chave de para
24
fusos no bolso de trás. Bem, eu era pequeno, por isso qualquer
chave de parafusos parecia grande no meu bolso de trás.
Aproximei-me do rádio e tentei arranjá-lo. NÃo sabia nada
sobre ele, mas havia também um ajudante no hotel e um de nós
notou um botÃo solto no reóstato -que servia para aumentar o
volume do som -, e era por isso que a seta nÃo rodava. Ele
limou qualquer coisa e prendeu-a, e assim o aparelho passou a
funcionar.
O próximo rádio que tentei arranjar nÃo funcionava mesmo nada.
Foi fácil, nÃo estava bem ligado. + medida que as reparaÇÕES
se tornavam mais complicadas, eu melhorava e tornava-me mais
minucioso. Comprei um miliamperímetro em Nova Iorque e
transformei-o num voltímetro usando os comprimentos adequados
(que eu calculei) de fio de cobre muito fino. NÃo era muito
preciso, mas chegava para indicar se as coisas estavam como
deviam nas várias ligaÇÕES desses aparelhos de rádio.
A principal razÃo por que as pessoas me contratavam era a
DepressÃo. NÃo tinham dinheiro para mandar arranjar os seus
rádios e ouviam falar do tal miúdo que os consertava por menos
dinheiro. Assim, eu subia aos telhados para consertar antenas
e fazia de tudo. Tive uma série de liÇÕES de dificuldade
sempre crescente. Por fim arranjei um trabalho do gênero de
transformar um aparelho de DC em AQ era muito difícil evitar o
zumbido no sistema e nÃo o construí lá muito bem. NÃo me devia
ter metido naquilo, mas nÃo sabia.
Surgiu um trabalho realmente sensacional. Nessa altura eu
trabalhava para um impressor e um homem que o conhecia sabia
que eu tentava arranjar trabalho a consertar rádios, pelo que
mandou um tipo à loja para me ir buscar. Notava-se
perfeitamente que o tipo era pobre -o carro dele era um
destroço completo -e fomos a sua casa, que era numa parte
pobre da cidade. No caminho perguntei: "Qual é o problema do
rádio?"
Ele respondeu: "Quando o ligo, faz um barulho e, passado um
bocado, o barulho pára e fica tudo bem, mas nÃo gosto do
barulho ao princípio. "
Eu pensei: "Que diabo! Se ele nÃo tem dinheiro, bem podia
aguentar um barulhinho durante um bocado."
Durante todo o tempo até chegarmos a sua casa, ele ia dizendo
coisas como: "Você percebe alguma coisa de rádios? Como é que
pode perceber de rádios se é apenas um rapazinho?"
Foi todo o caminho a depreciar-me e eu a pensar: "O que se
passa com ele? Com que entÃo faz um barulhinho."
25

Mas, quando chegámos, fui até ao rádio e liguei-o. Um


barulhinho? Meu Deus! NÃo admira que o pobre homem nÃo o
pudesse aguentar. A coisa começou a rugir e a abanar: VUH BUH
BUH BUH BUH. Um barulho enorme. Depois acalmou e tocou bem.
EntÃo comecei a pensar: "Como é que isto pode acontecer?"
Comecei a andar para trás e para diante, a pensar, e
compreendi que uma maneira de aquilo acontecer era os tubos
aquecerem pela ordem errada -isto é, o amplificador está
quente, os tubos prontos a funcionar e nÃo há nada que os
alimente, ou há um circuito secundário que introduz a
corrente, ou qualquer problema na parte inicial -a parte RF -,
e por isso ele faz imenso barulho ao captar qualquer coisa. E,
quando o circuito RF está finalmente a funcionar e as
voltagens da rede estÃo ajustadas, fica tudo bem.
EntÃo o tipo diz: "Que está a fazer? Veio consertar o rádio,
mas só o que faz é andar para trás e para diante!"
Eu disse: "Estou a pensar! " EntÃo disse para mim mesmo:
"Muito bem, tira os tubos e inverte completamente a ordem no
aparelho." (Nesses dias, muitos aparelhos de rádio usavam os
mesmos tubos em lugares diferentes -eram 212, penso eu,
212-A.) EntÃo mudei os tubos todos, fui até à parte da frente
do rádio, liguei-o e estava manso como um cordeirinho: esperou
até aquecer e depois tocou perfeitamente nenhum barulho.
Quando uma pessoa nos trata de modo negativo e depois fazemos
uma coisa assim, essa pessoa mostra-se normalmente cem por
cento da maneira oposta, como que para compensar. Ele
arranjou-me outros trabalhos e estava sempre a contar a toda a
gente que tremendo gênio eu era, dizendo: "Ele conserta rádios
pensando!" A ideia de pensar para consertar um rádio -um
rapazinho pára, pensa e descobre como se faz -nunca lhe
passara pela cabeça.
Nessa época, os circuitos de rádio eram muito mais fáceis de
entender porque estava tudo à vista. Depois de abrirmos o
aparelho (era um grande problema descobrir os parafusos
certos) podíamos ver que isto era uma resistência, aquilo um
condensador, aqui era isto, ali era aquilo; estava tudo
rotulado. E, se pingasse cera do condensador, estava quente de
mais e víamos que o condensador estava queimado. Se houvesse
carvÃo numa das resistências, sabíamos qual era o problema.
Ou, se nÃo conseguíssemos descobrir o que se passava apenas
olhando, verificávamos com o nosso voltímetro se passava
voltagem. Os aparelhos eram simples, os circuitos nÃo eram
complicados. A voltagem nas redes era sempre aproximadamente
entre 1,5 V e 2 V e as voltagens nas placas
26
eram 10OV ou 20OV, DC. Por isso eu nÃo tinha dificuldade em
consertar um rádio compreendendo o que se passava lá dentro,
notando que qualquer coisa nÃo funcionava bem e arranjando-a.
+s vezes levava bastante tempo. Lembro-me de uma ocasiÃo em
que levei toda a tarde para encontrar uma resistência queimada
que nÃo estava à vista. Dessa vez tratava-se de uma amiga da
minha mÃe, pelo que tinha tempo -nÃo havia ninguém atrás de
mim a dizer: "O que estás a fazer?" Em vez disso, diziam:
"Queres um pouco de leite, ou bolo?" Consegui finalmente
arranjá-lo porque tinha, e continuo a ter, persistência.
Quando começo um quebra-cabeças, nÃo consigo parar. Se a amiga
da minha mÃe dissesse: "Deixa, estar, dá muito trabalho", eu
ficaria furioso, porque queria vencer o maldito problema, já
que tinha chegado àquele ponto. NÃo posso largar uma coisa
depois de ter descoberto tanto sobre ela. Tenho de continuar
até acabar por descobrir o que se passa.
É o impulso dos quebra-cabeças. É o que justifica o meu desejo
de decifrar os hieróglifos maias, de tentar abrir cofres.
Lembro-me que no liceu, durante o primeiro tempo, vinha ter
comigo um tipo com um quebra-cabeças de Geometria, ou qualquer
trabalho atribuído na sua aula de Matemática Adiantada. E nÃo
parava enquanto nÃo descobrisse a maldita coisa -o que me
levava quinze ou vinte minutos. Mas durante o dia vinham ter
comigo outros tipos com o mesmo problema e, para esses, eu
resolvia-o num relâmpago. Assim, para um tipo, eu levava vinte
minutos a resolvê-lo, enquanto havia cinco tipos que me
achavam um supergénio.
Assim consegui uma bela reputaçÃo. Durante o liceu devem
ter-me vindo parar às mÃos todos os quebra-cabeças conhecidos
pela espécia humana. Qualquer adivinha louca e diabólica
inventada por alguém, eu conhecia-a. EntÃo, quando fui para o
MIT, houve um baile e um dos seniores tinha lá a namorada, que
sabia uma data de quebra-cabeças; ele disse-lhe que eu tinha
muito jeito para isso. EntÃo, durante o baile, ela veio ter
comigo e disse: "Dizem que és um tipo esperto, Por isso aqui
vai uma: 'Um homem tem oito medidas de lenha para cortar...'"
E eu disse: "Ele começa por cortar todas em três partes",
porque já conhecia aquela.
EntÃo ela ia-se embora e voltava sempre com outra que eu
conhecia.
Isto continuou durante um bocado e, finalmente, quase no fim
do baile, ela veio ter comigo, com o ar de que dessa vez me ia
apanhar com certeza, e disse: "Uma mÃe e uma filha viajavam
pela Europa ... "
27
"A filha tinha apanhado peste bubónica."
Ela teve um ataque! Quase nÃo havia pistas para descobrir a
resposta daquela: era uma longa história sobre uma mÃe e uma
filha que ficaram num hotel em quartos separados e no dia
seguinte a mÃe vai ao quarto da filha e nÃo está lá ninguém,
ou está uma outra pessoa, e diz: "Onde está a minha filha?", e
o gerente do hotel responde: "Que filha?", e no registo só
está o nome da mÃe, etc., e há um grande mistério sobre o que
aconteceu. A resposta é que a filha apanhou peste bubónica e o
hotel, nÃo querendo ter de fechar, faz desaparecer a filha,
limpa o quarto e apaga todas as provas de ela lá ter estado.
Era uma longa história, mas eu já a tinha ouvido, pelo que,
quando ela começou com "Uma mÃe e uma filha viajavam pela
Europa", eu conhecia uma coisa que começava dessa maneira,
resolvi adivinhar e acertei.
Tínhamos uma coisa no liceu chamada equipa de Ãlgebra, que
consistia em cinco miúdos, e deslocávamo-nos a outras escolas
como uma equipa para entrar em competiÇÕES. Sentávamo-nos numa
fila de cadeiras e a outra equipa noutra. Uma professora que
dirigia o concurso tirava um envelope onde se lia "quarenta e
cinco segundos". Abria-o, escrevia o problema no quadro e
dizia: "Partida" -assim, tínhamos na realidade mais de
quarenta e cinco segundos, porque podíamos pensar enquanto ela
escrevia. 0 jogo era o seguinte: tínhamos um bocado de papel e
podíamos escrever nele qualquer coisa, fazer qualquer coisa. A
única coisa que contava era a resposta. Se esta fosse "seis
livros", tínhamos de escrever "6" e traçar um grande círculo à
volta. Se o que estava dentro do círculo estava certo,
ganhávamos; se nÃo estava, perdíamos.
Uma coisa era certa: era praticamente impossível resolver o
problema de qualquer maneira convencional e directa, como
escrever "A é o número de livros vermelhos, B é o número de
livros azuis", cálculos, cálculos, cálculos, até chegar a
"seis livros". Isso levaria cinquenta segundos, porque as
pessoas que marcam os tempos para a resoluçÃo dos problemas
fazem-nos sempre um pouco mais curtos. Por isso tínhamos de
pensar: "Há alguma maneira de o ver?" +s vezes conseguíamos
vê-lo num relâmpago e outras vezes tínhamos de inventar outra
maneira de o resolver e depois fazer os cálculos o mais
rapidamente possível. Era uma óptima prática, e eu fui
melhorando até que acabei por me tornar o chefe da equipa.
Assim, aprendi a fazer cálculos muito depressa, e isso foi-me
muito útil na faculdade. Quando tínhamos um problema de
cálculo, eu era muito rápido a ver aonde ia dar e a fazer as
contas.
28
Outra coisa que eu fazia no liceu era inventar problemas e
teoremas. Quer dizer, se eu estivesse a fazer qualquer coisa
de Matemática, tinha sempre de arranjar um exemplo prático em
que ela pudesse ser útil. Inventei um conjunto de problemas
sobre triângulos rectângulos. Mas, em vez de dar os
comprimentos de dois lados para achar o terceiro, dava a
diferença dos dois lados. Um exemplo típico era: há um pau de
bandeira e uma corda que desce a partir do topo do pau. Quando
seguramos a corda a direito na vertical, ela tem mais três pés
de comprimento do que o pau, e quando a esticamos
horizontalmente, fica a quinze pés da base do pau. Qual é a
altura deste?
Desenvolvi algumas equaÇÕES para resolver problemas deste
gênero e como resultado reparei nalguma relaçÃo -talvez fosse
sen2 + COS2 = = 1 -que me recordou a trigonometria. Ora,
alguns anos antes, talvez quando tinha 11 ou 12 anos, eu lera
um livro de trigonometria que requisitei na biblioteca, mas já
nÃo o tinha há muito tempo. Só me lembrava de que a
trigonometria tinha qualquer coisa a ver com as relaÇÕES entre
os senos e os co-senos. EntÃo comecei a tentar descobrir as
relaÇÕES desenhando triângulos e demonstrei sozinho cada uma
delas. Além disso, calculei o seno, o co-seno e a tangente dos
ângulos de cinco em cinco graus, começando com o seno de cinco
graus como dado, por adiçÃo de fórmulas de semiângulos que eu
tinha construido.
Alguns anos depois, quando estudava Trigonometria na escola,
ainda tinha os meus apontamentos e vi que as minhas
demonstraÇÕES eram muitas vezes diferentes das dos livros. Por
vezes, quando nÃo descobria um modo simples de fazer uma
coisa, dava voltas ao miolo até o conseguir. Outras vezes, a
minha maneira era mais inteligente -a demonstraçÃo normalmente
utilizada nos livros era muito mais complicada! Assim, umas
vezes era eu que os vencia, outras vezes era ao contrário.
Enquanto fazia toda esta trigonometria, eu nÃo gostava dos
símbolos para seno, co-seno, tangente, etc. Para mim, "sen f"
parecia s vezes e vezes n vezes f! Por isso inventei outro
símbolo, parecido com o sinal da raiz quadrada, que era um
sigma com um braço estendido, debaixo do qual eu punha of Para
a tangente era um tau com a parte de cima prolongada e para o
co-seno fiz uma espécie de gama, que se parecia um pouco com o
sinal da raiz quadrada.
Para a funçÃo inversa do seno tinha o mesmo sigma, mas da
esquerda Para a direita, começando com a linha horizontal com
o valor por baixo e a seguir o sigma. Era essa a inversa do
seno, NÃO sen-1 f-isso era uni disparate! E escreviam aquilo
nos livros! Para mim, sen-I que
29
ria dizer I/sen, a recíproca. Por isso os meus símbolos eram
melhores.
NÃo gostava de fix) -parecia-me f vezes x. Também nÃo gostava
de dy1dx -temos tendência para cortar os dês -, pelo que fiz
um sinal diferente, qualquer coisa no gênero do sinal &. Para
o logaritmo era um grande L prolongado para a direita, com o
número de que tiramos o logaritmo lá dentro, etc.
Achava os meus símbolos tÃo bons como, se nÃo melhores do que,
os símbolos normais -nÃo tem importância que símbolos usamos,
mas descobri mais tarde que tem importância. Uma vez em que
estava a explicar qualquer coisa a outro miúdo no liceu
comecei a traçar estes símbolos sem pensar e ele disse: "Que
raio é isso?" Percebi entÃo que, se quero falar com as outras
pessoas, tenho de usar os símbolos normais, pelo que acabei
por desistir dos meus símbolos.
Também tinha inventado um conjunto de símbolos para a máquina
de escrever, COMO FORTRAN tem de fazer, de modo a poder
escrever equaÇÕES à máquina. Também consertava máquinas de
escrever, com clips e elásticos (os elásticos nÃo se partiam
como aqui em Los Angeles), mas nÃo era um profissional;
limitava-me a arranjá-las para que funcionassem. Mas era todo
o problema de descobrir a avaria e encontrar maneira de a
consertar que me interessava, tal como um quebra-cabeças.
FeijÃo verde
Eu devia ter 17 ou 18 anos quando trabalhei durante um VerÃo
num hotel dirigido pela minha tia. NÃo sei quanto ganhava
-vinte e dois dólares por mês, penso eu -e alternava onze
horas de trabalho num dia com treze no outro como empregado da
recepçÃo e ajudante no restaurante. Durante a tarde, quando se
estava de serviço na recepçÃo, era preciso levar leite lá
acima a Mrs. D, uma inválida que nunca nos dava gorjeta. Era
assim o mundo: trabalhava-se todos os dias longas horas e nÃo
se ganhava nada.
Era um hotel concorrido, perto da praia, nos arredores de Nova
Iorque. Os maridos iam trabalhar para a cidade e deixavam as
mulheres a jogar às cartas, pelo que tínhamos sempre de trazer
cá para fora as mesas de brídege. Depois, à noite, os tipos
queriam jogar poker, pelo
30
que tínhamos de preparar as mesas para eles -limpar os
cinzeiros, etc. Ficava sempre levantado de noite até tarde,
por exemplo até às duas da manhÃ, pelo que eram realmente
treze e onze horas por dia.
Havia certas coisas de que eu nÃo gostava, como as gorjetas.
Achava que devíamos ser mais bem pagos e nÃo ter de receber
gorjetas. Mas, quando propus isto à patroa, só recebi risos.
Ela contou a toda a gente: "Richard nÃo quer as suas gorjetas,
ih, ih, ih; ele nÃo quer as gorjetas, ah, ah, ah." O mundo
está cheio destes espertalhSes parvos que nunca percebem
nada.
Seja como for, a certa altura havia um grupo de homens que,
quando voltavam do trabalho na cidade, queriam logo gelo para
as bebidas. Ora o outro tipo que trabalhava comigo era
realmente um empregado de recepçÃo. Era mais velho do que eu e
muito mais profissional. Uma vez disse-me: "Ouve, estamos
sempre a levar gelo a esse tal Ungar e ele nunca nos dá
gorjeta, nem sequer dez cêntimos. Da próxima vez, quando
pedirem gelo, nÃo faças nada. Eles hÃo-de voltar a chamar-te,
e nessa altura dizes: 'Oh, desculpem. Esqueci-me. Todos nós
nos esquecemos às vezes."
Assim fiz e Ungar deu-me quinze cêntimos! Mas agora, quando
volto a pensar nisso, compreendo que o outro empregado, o
profissional, soube realmente o que devia fazer -dizer ao
outro tipo que se arriscasse a arranjar sarilhos. Deu-me a mim
o trabalho de ensinar aqueles tipos a dar gorjetas. Ele nunca
disse nada; fez com que eu dissesse.
Eu, como ajudante da cozinha, tinha de limpar as mesas da casa
de jantar. Empilhava todas as coisas das mesas num tabuleiro
ao lado e, quando ficava com altura suficiente, levava-o para
a cozinha. EntÃo arranjava outro tabuleiro, nÃo é? Devia fazer
isso em dois passos -tirar o tabuleiro antigo e pôr um novo-,
mas eu pensei: "Vou fazer tudo de uma vez só." EntÃo tentei
fazer deslizar o tabuleiro novo por baixo e puxar o tabuleiro
antigo ao mesmo tempo, e ele escorregou -BUM! Foi tudo parar
ao chÃo. E entÃo, naturalmente, a pergunta foi: "Que estavas a
fazer? Como é que isso caiu?" Bem, como é que eu podia
explicar que estava a tentar inventar uma nova maneira de
lidar com os tabuleiros?
Entre as sobremesas havia um bolo de café que vinha muito
bonito em cima de um guardanapo de papel, num pratinho. Mas,
se fôssemos lá atrás, víamos um homem a quem chamavam o homem
da copa. O problema dele era preparar as coisas para as
sobremesas. Ora este homem devia ter sido mineiro, ou coisa
parecida -maciço, com dedos grossos e redondos. Pegava na
pilha de guardanapos, que eram feitos
31

por qualquer processo de estampagem, todos pegados, e tentava


separá-los com os seus dedos grossos, para os pôr nos pratos.
Ouvia-o sempre dizer "Malditos guardanapos!" enquanto fazia
isto e lembro-me de pensar: "Que contraste -a pessoa sentada
à mesa recebe este lindo bolo num prato com um guardanapo,
enquanto o homem da copa lá atrás, com os seus grossos
polegares, diz: "Malditos guardanapos! " Era assim a diferença
entre o mundo real e o que ele parecia.
No meu primeiro dia de trabalho, a senhora da copa explicou
que fazia geralmente uma sanduíche de presunto, ou qualquer
outra coisa, para o tipo que ficava no último turno. Eu disse
que gostava de sobremesas e que, portanto, se sobrasse alguma
do jantar, era o que eu gostaria de comer.
Na noite seguinte eu estava no último turno, até às duas horas
da manhÃ, com aqueles tipos do jogo do poker. Estava para lá
sentado sem nada que fazer, a aborrecer-me, quando de repente
me lembrei de que havia uma sobremesa para eu comer; fui ao
frigorífico, abri-o e vi que ela tinha lá deixado seis
sobremesas! Havia um pudim de chocolate, um bocado de bolo,
fatias de pêssego, pudim de arroz, geleia -havia de tudo!
EntÃo sentei-me e com as seis sobremesas -foi sensacional!
No dia seguinte ela disse-me: "Deixei-te uma sobremesa ... "
"Era maravilhosa", disse eu, "absolutamente
maravilhosa",
"Mas deixei-te seis sobremesas porque nÃo sabia de qual
gostavas mais."
EntÃo, a partir dessa altura, passou a deixar sempre seis
sobremesas. Todas as noites eu tinha seis sobremesas. NÃo eram
sempre diferentes, mas eram sempre seis sobremesas.
Uma vez, quando prestava serviço na recepçÃo, uma rapariga
deixou um livro ao pé do telefone enquanto ia jantar e eu
dei-lhe uma vista de olhos. Era A Vida de Leonardo e nÃo pude
resistir: a rapariga emprestou-mo e li-o todo.
Eu dormia num quartinho nas traseiras do hotel e havia uma
certa preocupaçÃo com o apagarmos as luzes quando saíamos do
quarto, o que eu sempre me esquecia de fazer. Inspirado pelo
livro de Leonardo, fiz um aparelho que consistia num sistema
de fios e de pesos -garrafas de Coca-Cola cheias de água-que
entravam em funcionamento quando eu abria a porta,
acendendo-se a luz ao ser puxada uma corrente. Abria-se a
porta, as coisas começavam a actuar e acendiam a luz; depois
fechava-se a porta e a luz apagava-se. Mas o meu verdadeiro
feito veio mais tarde.
32
Eu costumava cortar vegetais na cozinha. O feijÃo verde tinha
de ser cortado em bocados com uma polegada. o modo como
devíamos proceder era: segurávamos dois feijSes com uma mÃo e
a faca com a outra e empurrávamos a faca contra os feijSes e o
polegar, quase nos cortando. Era um processo lento. Por isso
me concentrei nele e tive uma ideia bastante boa. Sentei-me a
uma mesa de madeira fora da cozinha, pus uma tigela no colo e
espetei uma faca muito afiada na mesa, afastada de mim a um
ângulo de quarenta e cinco graus. Depois pus uma pilha de
feijSes de cada lado, peguei num com cada mÃo e aproximei-o de
mim com velocidade suficiente para que ficasse cortado às
fatias, e os bocados deslizaram para a tigela que estava no
meu colo.
Encontrei-me assim a cortar os feijSes uns atrás dos outros -
chig, chig, chig, chig, chig-e toda a gente a dar-me os
feijSes e eu a despachá-los alta velocidade, quando a patroa
chega e diz: "Que estás a fazer?"
Eu respondo: "Veja a minha maneira de cortar feijSes! ", e
precisamente nessa altura pus um dedo em vez de um feijÃo.
Começou a cair sangue para cima dos feijSes e houve uma grande
agitaçÃo: "Olha a quantidade de feijSes que estragaste! Que
maneira estúpida de fazer as coisas!", e por aí fora. Por isso
nÃo pude fazer nenhum melhoramento, o que teria sido fácil com
uma protecçÃo, ou coisa assim-, mas nÃo, nÃo houve
oportunidade para melhoramentos.
Fiz outra invençÃo, que teve uma dificuldade semelhante.
Tínhamos de cortar batatas cozidas em fatias, para uma
qualquer salada de batatas. Eram pegajosas, húmidas e difíceis
de manejar. Pensei num conjunto de facas, dispostas
paralelamente num suporte, que desciam e cortavam tudo em
fatias. Pensei nisto durante muito tempo, e finalmente tive a
ideia de arames num suporte.
EntÃo fui ao ferro-velho para comprar facas ou arames e vi
exactamente o aparelho que queria: servia para cortar ovos às
fatias. Na próxima vez em que apareceram as batatas peguei no
meu cortador de ovos, cortei as batatas todas num instante e
mandei-as outra vez ao cozinheiro. O cozinheiro era um alemÃo,
um tipo muito grande que era o Rei da Cozinha e que apareceu
como uma tempestade, com as veias do pescoço salientes, muito
vermelho: "Que se passa com as batatas?", perguntou. "NÃo
estÃo cortadas!"
Eu tinha-as cortado, mas estavam todas pegadas. Ele disse:
"Como é que as posso separar?"
"Meta-as em água", sugeri eu.
33

"EM ÃGUA? ÃGHHHHM~HHW"


Outra vez tive uma ideia verdadeiramente boa. Quando prestava
serviço na recepçÃo, tinha de atender o telefone. Quando
chegava uma chamada, zumbia qualquer coisa e descia uma placa
no painel para que pudéssemos saber qual era a linha. Por
vezes, quando estava a ajudar as mulheres com as mesas de
brídege ou sentado no alpendre a meio da tarde (quando havia
muito poucas chamadas), encontrava-me a alguma distância do
painel, quando de repente ele dava sinal. Vinha a correr para
o apanhar, mas, devido ao modo como estava a secretária, para
chegar ao painel tínhamos de andar uma grande distância para
diante, depois à volta, por detrás, e depois outra vez para
trás para ver de onde vinha a chamada, o que levava demasiado
tempo.
Por isso tive uma ideia: atei fios às placas do painel e
passei-os por cima da secretária e depois por baixo e na ponta
de cada fio atei um bocadinho de papel. Depois pus o telefone
propriamente dito em cima da secretária, de modo a poder
alcançá-lo pela parte da frente. Agora, quando chegava uma
chamada, eu sabia qual era a placa que estava em baixo vendo
qual o papel que tinha subido, e podia atender correctamente o
telefone da parte da frente, para poupar tempo. Claro que
ainda tinha de dar a volta para fazer a ligaçÃo, mas pelo
menos já estava a atender. Dizia. "Só um momento" e dava a
volta para ligar.
Eu achava que isto estava perfeito, mas um dia veio a patroa e
queria ser ela a atender o telefone, mas nÃo consçguia
descobrir como -era demasiado complicado. "O que estÃo a fazer
aqui estes papéis? Porque é que o telefone está deste lado?
Porque é que tu... raaaaaaaa!"
Tentei explicar -era a minha tia -que nÃo havia razÃo para
nÃo fazer aquilo, mas isso é das coisas que nÃo se podem dizer
a uma pessoa que é esperta, que dirige um hotel! Aprendi ali
que a inovaçÃo é uma coisa muito difícil no mundo real.
Quem roubou a porta?
No MIT, as várias fraternidades tinham todas smokers(1) onde
tentavam convencer os novos caloiros a ser seus membros, e no
VerÃo, antes de ir para o MIT, fui convidado para uma reuniÃo
da Fi Beta
(1)Quando os mais velhos descobriram que o meu par era uma
criada, ficaram horrorizados. Disseram que aquilo nÃo era
possível; eles iam arranjar-me um par "como deve ser".
Fizeram-me sentir como se me tivesse extraviado, como se
tivesse procedido mal. Decidiram tomar conta da situaçÃo.
Foram ao restaurante, falaram com a criada, convenceram-na a
desistir e arranjaram-me outra rapariga. Estavam a tentar
educar o seu "filho transviado", por assim dizer, mas nÃo
tinham razÃo, acho eu. Nessa altura eu era apenas um caloiro e
nÃo tinha ainda a confiança suficiente para os impedir de
desfazerem o meu encontro.
Quando me tornei membro, eles tinham vários meios de nos
baralhar. Uma das coisas que eles faziam era levar-nos,
vendados, para muito longe, no campo, no pino do Inverno, e
deixar-nos ao pé de um lago gelado, a uns cem pés de
distância. Encontrávamo-nos num sítio completamente deserto -
sem casas, nem nada -e tínhamos de descobrir o caminho de
volta para a fraternidade. Estávamos um pouco assustados,
porque éramos novos, e nÃo falávamos muito -excepto um tipo
chamado Maurice Meyer: nÃo era possível impedi-lo de dizer
piadas, fazer trocadilhos disparatados e de ter esta atitude
confiante: "Ah, ah, nÃo há motivo para preocupaÇÕES. Como isto
é divertido!"
NMkm.
Convívios. (N. da T.)
34
Delta, uma fraternidade judia. Nesses dias, quem era judeu ou
educado numa família judia nÃo tinha hipótese noutras
fraternidades. Mais ninguém olharia para ele. NÃo tinha um
desejo especial de me juntar a outros judeus e os tipos da
fraternidade Fi Beta Delta nÃo queriam saber se eu era muito
ou pouco judeu -de facto, eu nÃo acreditava em nada dessas
coisas e certamente nÃo era de maneira nenhuma religioso. De
qualquer modo, alguns tipos da fraternidade fizeram-me umas
perguntas e deram-me alguns conselhos -que eu devia fazer o
exame de Cálculo do primeiro ano para nÃo ter de fazer o
curso-, conse, lhos que aconteceu serem bons. Gostei dos
rapazes que vieram da fraternidade a Nova Iorque e dos dois
tipos que me convenceram a fazer parte dela, sendo mais tarde
companheiro de quarto deles.
Havia outra fraternidade judia no MIT, chamada SAm; eles
tencionavam dar-me uma boleia até Bóston e eu podia ficar com
eles. Aceitei a boleia e nessa primeira noite fiquei lá em
cima num dos quartos.
Na manhà seguinte olhei pela janela e vi os dois tipos da
outra fraternidade (que eu tinha encontrado em Nova Iorque) a
subir os degraus. Uns tipos da Sigma Alfa Mu saíram a correr
para falar com eles e houve uma grande discussÃo.
Gritei da janela: "Eh, é com esses tipos que eu devo estar! ",
e saí precipitadamente da fraternidade sem compreender que
eles estavam todos em competiçÃo, cada um a trabalhar para que
eu me tornasse membro da sua fraternidade. NÃo tive nenhum
sentimento de gratidÃo pela boleia, absolutamente nada.
A fraternidade Fi Beta Delta quase se tinha desmembrado no ano
anterior, porque duas facÇÕES diferentes a tinham dividido em
duas partes. Havia um grupo de personalidades sociáveis, que
gostavam de ir a bailes e depois dar umas voltas nos seus
carros, etc., e havia um grupo de tipos que nÃo faziam nada
além de estudar e nunca iam a bailes.
Precisamente antes de eu entrar para a fraternidade, eles
haviam tido uma grande reuniÃo e estabelecido um importante
compromisso. Iam juntar-se e ajudar-se mutuamente. Todos
deviam ter um determinado nível final, no mínimo. Se
estivessem a atrasar-se, os tipos muito estudiosos
ensinavam-nos e ajudavam-nos no trabalho. Por outro lado,
tinham todos de ir a todos os bailes. Se um tipo nÃo sabia
arranjar um par, os outros arranjavam-lhe um par. Se um tipo
nÃo sabia dançar, eles ensinavam-no a dançar. Um dos grupos
ensinava o outro a pensar, enquanto os outros tipos os
ensinavam a ser sociáveis.
Aquilo estava mesmo bem para mim, porque eu nÃo era muito bom
em sociedade. Era tÃo tímido que, quando tinha de ir buscar o
correio
35

e passar perto de alguns dos mais velhos, sentados nos degraus


com raparigas, ficava petrificado: nÃo sabia como havia de
andar ao passar por elas! E nÃo ajudava nada quando uma delas
dizia: "Oh, ele é giro! "
Foi pouco tempo depois que os do segundo ano trouxeram as
namoradas e as amigas das namoradas para nos ensinarem a
dançar. Muito mais tarde, um dos tipos ensinou-me a guiar o
seu carro. Eles trabalharam muito para que nós, os
intelectuais, nos tornássemos mais sociáveis e descontraídos e
vice-versa. Era um bom equilíbrio.
Eu tinha uma certa dificuldade em compreender o que queria
exactamente dizer ser "sociável". Pouco tempo depois de estes
tipos sociáveis me ensinarem a conhecer raparigas vi uma
criada simpática num restaurante onde me encontrava um dia a
comer sozinho. Com grande esforço consegui finalmente a
coragem necessária para lhe pedir que fosse o meu par no
próximo baile da fraternidade e ela disse que sim.
De volta à fraternidade, quando estávamos a falar sobre os
pares para o próximo baile, eu disse aos tipos que desta vez
nÃo precisava de um par -eu tinha arranjado um sozinho. Estava
muito orgulhoso de mim próprio.
36
Estávamos a ficar furiosos com o Maurice. Caminhava sempre um
pouco atrás, rindo-se da situaçÃo, enquanto nós nÃo sabíamos
como iríamos sair daquela.
Chegámos a um cruzamento nÃo longe do lago -continuava a nÃo
haver casas nem nada-e, quando estávamos a discutir se
devíamos seguir por este lado ou por aquele, o Maurice
alcançou-nos e disse: "Vamos por este lado."
"Que raio sabes tu, Maurice?", dissemos nós, desesperados.
"Estás sempre com brincadeiras. Porque havíamos de ir por este
lado?"
"É simples: vejam os fios telefónicos. A direcçÃo com mais
fios é a da estaçÃo central."
Este tipo, que parecia nÃo ligar a nada, havia tido uma ideia
formidável! Fomos para a cidade sem um único engano.
No dia seguinte ia haver um mudeo 1 -várias formas de luta e
competiÇÕES que têm lugar na lama -entre os caloiros e os do
segundo ano, ao nível da escola. Durante a noite, já tarde,
entrou na nossa fraternidade um grande grupo de alunos do
segundo ano -alguns da nossa fraternidade e outros de fora -
e raptaram-nos. Queriam que estivéssemos cansados no dia
seguinte para eles poderem ganhar.
Os do segundo ano amarraram todos os caloiros com relativa
facilidade, excepto a mim. Eu nÃo queria que os tipos da
fraternidade descobrissem que eu era "efeminado". (Nunca tive
jeito para desportos. Tinha sempre muito medo que uma bola de
ténis passasse por cima da vedaçÃo e caísse perto de mim,
porque nunca conseguiria fazê-la passar por cima da vedaçÃo -
normalmente desviava-se mais ou menos um radiano da direcçÃo
em que devia seguir.) Achei que estava numa situaçÃo nova, num
mundo novo e que podia construir uma nova reputaçÃo. Assim,
para nÃo parecer que nÃo sabia lutar, lutei como um filho da
mÃe o melhor que podia (sem saber o que fazia) e foram
necessárias a três ou quatro tipos muitas tentativas antes que
finalmente me conseguissem amarrar. Os do segundo ano
levaram-nos para uma casa, muito longe, no bosque, e
prenderam-nos todos a um chÃo de madeira com grandes agrafes
em U.
Tentei todas as maneiras de fugir, mas havia alunos do segundo
ano a guardar-nos e nenhum dos meus truques resultou.
Lembro-me distintamente de um rapaz que eles tiveram medo de
prender por estar muito aterrorizado: tinha a cara
amarelo-esverdeado-pálida e tremia. Descobri uma hora depois
que ele era da Europa -estávamos no prin
' Palavra composta de mud, "lama", mais deo (de rodeo). (N. da
T.)
37

cípio dos anos 30 -e nÃo compreendia que todos aqueles tipos


presos ao chÃo era uma espécie de brincadeira; ele sabia o que
se passava na Europa. Causava medo olhar para ele, de tÃo
assustado que estava.
Quando a noite acabou, só havia três do segundo ano a
guardarem-nos, mas nós nÃo sabíamos. Eles tinham feito os
carros entrar e sair algumas vezes, para parecer que havia
muita actividade, e nós nÃo reparámos que eram sempre os
mesmos carros e as mesmas pessoas. E assim nÃo ganhámos
daquela vez.
Aconteceu que meus pais apareceram nessa manhà para ver como o
filho se estava a dar em Bóston e os da fraternidade estiveram
a empatá-los até que eu voltasse do meu sequestro.
Estava tÃo enlameado por ter lutado tanto para fugir e nÃo ter
dormido que eles ficaram realmente horrorizados ao descobrir o
aspecto do filho no MIT!
Tinha, além disso, apanhado um torcicolo e lembro-me de estar
na fila para a inspecçÃo nessa tarde, no ROTC, sem conseguir
olhar para a frente a direito. O comandante agarrou-me a
cabeça e voltou-a, gritando: "Endireita-te! "
Encolhi-me, enquanto os meus ombros formavam um ângulo: "NÃo
posso evitar! "
"Oh, desculpa!", disse ele apologeticamente.
De qualquer modo, o facto de eu ter lutado tanto e durante
tanto tempo para nÃo ser preso deu-me uma reputaçÃo fantástica
e nunca mais tive de me preocupar com essa história de ser
efeminado-um enorme alívio.
Eu escutava muitas vezes os meus companheiros de quarto -eram
ambos finalistas -a estudar o seu curso de Física Teórica. Um
dia eles estavam a ter muita dificuldade com uma coisa que me
parecia bastante clara, pelo que disse: "Porque nÃo usam a
equaçÃo de Baronalai?
"O que é isso?", exclamaram. "De que estás a falar?"
Expliquei-lhes o que queria dizer e como se aplicava neste
caso e ela resolveu o problema. Afinal, eu estava a falar da
equaçÃo de Bernoulfi, mas eu lera tudo aquilo na enciclopédia
sem falar com ninguém a esse respeito, pelo que nÃo sabia como
pronunciar.
Mas os meus companheiros de quarto ficaram muito entusiasmados
e a partir dessa altura discutiram sempre os seus problemas de
Física comigo -nÃo tive a mesma sorte com muitos deles -e no
ano seguinte, quando iniciei o curso, progredi rapidamente.
Era uma óptima maneira
38
1
de aprender, estudar os problemas dos mais velhos e aprender a
pronunciar as palavras.
Eu gostava de ir a um lugar chamado Sala de Baile Raymor e
Playmor -duas salas de baile ligadas entre si -nas noites de
terça-feira. Os meus irmÃos de fraternidade nÃo iam a esses
bailes "abertos"; preferiam os seus próprios bailes, onde as
raparigas que traziam eram raparigas da alta sociedade que
eles tinham conhecido "como deve ser". Eu nÃo queria saber,
quando conhecia alguém, de onde vinha, ou quais eram os seus
antecedentes, pelo que ia a esses bailes -embora os meus
irmÃos de fraternidade nÃo aprovassem (nessa altura eu já
estava no terceiro ano e eles nÃo me podiam impedir)-e me
divertia muito.
Uma vez dancei com uma certa rapariga várias vezes e nÃo falei
muito. Por fim ela disse-me: "Ocê ança uuito beem."
Eu nÃo consegui perceber muito bem -ela tinha dificuldade em
falar-, mas pensei que tinha dito: "Você dança muito bem."
"Obrigado", disse eu. "Foi uma honra."
Fomos até uma mesa onde uma amiga dela tinha encontrado um
rapaz com quem estava a dançar e sentámo-nos juntos os quatro.
Uma das raparigas ouvia muito mal e a outra era quase
completamente surda.
Quando as duas raparigas conversavam, faziam rapidamente uma
grande quantidade de sinais para trás e para a frente e
grunhiam um pouco. Isso nÃo me incomodava; a rapariga dançava
bem e era simpática.
Depois de mais umas danças, estamos outra vez sentados à mesa
e há uma grande quantidade de sinais para trás e para a
frente, para trás e para a frente, para trás e para a frente,
até que, por fim, ela me diz qualquer coisa, que eu calculei
querer significar que ela queria que as levássemos para um
hotel qualquer.
Pergunto ao outro tipo se quer ir.
"Para que querem elas que vamos para esse hotel?", pergunta
ele.
"Sei lá! NÃo sei. NÃo falámos suficientemente claro! " Mas nÃo
tenho de saber. É divertido ver o que vai acontecer; é uma
aventura!
O outro tipo tem medo e por isso diz que nÃo. EntÃo levo as
duas raparigas de táxi para o hotel e descubro que há lá um
baile organizado pelos surdos-mudos, por estranho que pareça.
Pertenciam todos a um clube. Acontece que muitos deles
conseguem sentir o ritmo suficiente para dançar acompanhando a
música e aplaudir a orquestra no fim de cada número.
Foi muito, muito interessante. Senti-me como se estivesse num
país estrangeiro e nÃo soubesse falar a língua: eu falava, mas
ninguém me
39
podia ouvir. Todos falavam uns com os outros por sinais e eu
nÃo conseguia perceber nada! Pedi à minha rapariga que me
ensinasse alguns sinais e aprendi uns quantos, como se aprende
uma língua estrangeira, só por brincadeira.
Estavam todos muito felizes e descontraídos uns com os outros,
brincando e sorrindo o tempo todo; nÃo pareciam ter nenhuma
dificuldade de qualquer espécie em comunicar entre si. Era o
mesmo que com qualquer outra linguagem, excepto numa coisa:
enquanto faziam sinais entre si, estavam sempre a virar a
cabeça de um lado para o outro. Compreendi o que era. Quando
alguém quer fazer um comentário ou interromper, nÃo pode
dizer: "Eh, Jack!" Só pode fazer um sinal, que só será captado
se os outros têm o hábito de olhar sempre à volta.
Estavam completamente à vontade uns com os outros. Era meu o
problema de me sentir à vontade. Foi uma experiência
maravilhosa.
0 baile continuou durante muito tempo e, quando acabou, fomos
a uma pastelaria. Todos eles encomendavam coisas apontando
para elas. Lembro-me de alguém me perguntar por sinais: "De
onde é?", e de a minha rapariga soletrar: "N-o-v-a
I-o-r-q-u-e." Ainda me lembro de um tipo me dizer por sinais:
"É fixe! ", e levantar o polegar para significar "fixe". É um
belo sistema.
Estavam todos sentados em círculos, a fazer brincadeiras e a
procurar introduzir-me no seu mundo com muita simpatia. Eu
queria comprar uma garrafa de leite, pelo que fui até ao tipo
do balcÃo e formei com a boca a palavra "leite", sem dizer
nada.
0 tipo nÃo percebeu.
Fiz o sinal para "leite", que é mover os punhos como se se
estivesse a ordenhar uma vaca, e ele também nÃo percebeu isso.
Tentei apontar para o cartaz que mostrava o preço do leite,
mas ele continuou a nÃo perceber.
Por fim, alguém que estava perto pediu leite e eu apontei para
ele.
"Oh! Leite! ", disse ele, enquanto eu fazia um sinal
afirmativo com a cabeça.
Deu-me a garrafa e eu disse: "Muito obrigado!"
"SeU FILHo da mÃE!, disse ele, a sorrir.
Eu gostava frequentemente de pregar partidas às pessoas quando
estava no MIT. Uma vez, na aula de Desenho Mecânico, um
brincalhÃo pegou na curva francesa (uma peça de plástico para
desenhar cur
40
vas suaves -uma coisa retorcida e de aspecto engraçado) e
disse: "Será, que as curvas desta coisa têm alguma fórmula
especial?"
Pensei por um momento e disse: "Claro que têm. SÃo curvas
muito especiais. Deixa-me mostrar-te." E peguei na minha curva
francesa e comecei a rodá-la devagar. "A curva francesa é
construída de modo que, no ponto inferior de cada curva, seja
qual for a posiçÃo, a tangente é horizontal."
Todos os tipos da aula seguravam as suas curvas francesas em
angulos diferentes, encostando os lápis no ponto mais baixo e
movendo-o, descobrindo que, com certeza, a tangente era
horizontal. Ficaram todos muito excitados com esta
"descoberta" -embora já tivessem estudado bastante Cálculo e
já tivessem "aprendido" que a derivada (tangente) do mínimo
(ponto inferior) de qualquer curva é zero (horizontal). NÃo
foram capazes de juntar dois e dois. Nem sequer sabiam o que
"sabiam".
NÃo sei o que se passa com as pessoas: nÃo aprendem
compreendendo; aprendem de qualquer outro modo -decorando, ou
qualquer coisa assim. O seu conhecimento é tÃo frágil!
Fiz o mesmo gênero de truque quatro anos depois em Princeton,
quando falava com uma pessoa experiente, um assistente de
Einstein, que trabalhava certamente com a gravidade nessa
altura. Apresentei-lhe um problema: você é lançado num
foguetÃo que tem um relógio a bordo e há um relógio em terra.
A ideia é que tem de estar de volta quando o relógio em terra
disser que passou uma hora. Mas você quer que tudo se passe de
modo que, quando voltar, o seu relógio esteja o mais adiantado
possível. Segundo Einstein, se você subir muito alto, o seu
relógio andará mais depressa, porque quanto mais alto se
encontra qualquer objecto num campo gravitacional, mais
depressa anda o respectivo relógio. Mas, se tentar subir de
mais, como só dispSe de uma hora, terá de ir tÃo depressa para
lá chegar que a velocidade atrasará o relógio. Por isso nÃo
pode subir de mais. A pergunta é: qual o programa exacto de
velocidade e altitude que deve seguir para alcançar o tempo
máximo no seu relógio?
Este assistente de Einstein estudou durante bastante tempo o
problema antes de compreender que a resposta é o movimento
real da matéria. Se se disparar um objecto para cima
normalmente, de modo que o tempo que o projéctil leva a subir
e a descer seja uma hora, é esse o movimento correcto. É o
princípio fundamental da gravidade de Einstein -isto é, aquilo
a que se chama o "tempo próprio" tem o seu máximo para a curva
real. Mas, quando lho apresentei, a propó
41

sito de um foguetÃo com um relógio, ele nÃo o reconheceu. Foi


exactamente como os tipos da aula de Desenho Mecânico, mas
desta vez nÃo era um caloiro parvo. Assim, este gênero de
fragilidade é, de facto, bastante comum, mesmo em pessoas com
mais conhecimentos.
Quando estava no terceiro ou no quarto ano, costumava comer
num certo restaurante em Bóston. Ia lá sozinho, muitas vezes
em noites seguidas. As pessoas acabaram por me conhecer e era
sempre a mesma criada que me servia.
Reparei que elas andavam sempre apressadas, a correr de um
lado para o outro, pelo que, um dia, só por piada, deixei a
minha gorjeta, que era geralmente dez cêntimos (o normal
nesses dias), em duas moedas, debaixo de dois copos: enchi
cada um mesmo até à borda, deixei cair lá dentro uma moeda e,
com um cartÃo por cima, virei-o ao contrário em cima da mesa.
Depois tirei o cartÃo, fazendo-o escorregar por baixo do copo
(nÃo sai água porque nÃo pode entrar ar. -a borda está
demasiado próxima da mesa para isso).
Pus a gorgeta debaixo de dois copos porque sabia que elas
estavam sempre com pressa. Se a gorgeta fosse uma moeda num
copo, a criada, com a pressa de arranjar a mesa para o próximo
cliente, levantava o copo, a água entornava-se e era tudo. Mas
depois de ter feito isto ao primeiro copo, que há-de ela fazer
ao segundo? NÃo tem coragem de o levantar agora!
+ saída disse à minha criada: "Tenha cuidado, Sue. Os copos
que me deu hoje sÃo estranhos: sÃo tapados na parte de cima e
têm um buraco no fundo!"
No dia seguinte voltei e tinha outra criada. A criada do
costume nÃo queria nada comigo. "A Sue está muito zangada
consigo", disse a minha nova criada. "Depois de ter levantado
o primeiro copo e a água se ter espalhado por todos os lados
chamou o patrÃo. Pensaram um bocado, mas nÃo podiam passar
todo o dia a tentar descobrir o que fazer, por isso levantaram
o outro e a água voltou a sair e escorreu para o chÃo. Foi uma
confusÃo terrível; a Sue depois escorregou na água. EstÃo
todos furiosos consigo."
Ri-me.
Ela disse: "NÃo tem graça nenhuma! Como reagiria o senhor se
lhe fizessem uma coisa semelhante? o que faria o senhor?"
"Arranjava um prato de sopa, fazia deslizar o copo com muito
cuidado por cima da beira da mesa e deixava a água escorrer
para o prato
42
de sopa -nÃo precisa de escorrer para o chÃo. Depois apanhava
a moeda. "
"Oh, é boa ideia", disse ela.
Nessa noite pus a minha gorgeta debaixo de uma chávena de
café, que deixei voltada ao contrário na mesa.
Fui lá na noite seguinte e tinha a mesma criada nova.
"Que ideia foi aquela de deixar a chávena voltada da últiva
vez?"
"Bem, eu pensei que, apesar de estar com pressa, você voltaria
à cozinha e traria um prato de sopa; depois, devagaaaar e com
cuidado, faria deslizar a chávena por cima da borda da mesa
... "
"Eu fiz isso", queixou-se ela, "mas a chávena nÃo tinha água!"
A minha obra-prima, quanto a travessuras, ocorreu na
fraternidade. Uma manhà acordei muito cedo, por volta das
cinco horas, e nÃo consegui voltar a adormecer, pelo que desci
as escadas e descobri uns cartazes pendurados em fios que
diziam coisas COMO: A PORTA! A PORTA! QUEM ROUBOU A PORTA? Vi
que alguém tinha tirado uma porta dos gonzos e em seu lugar
pusera um Cartaz que dizia: FECHE A PORTA, POR FAVOR! -o
cartaz que costumava estar na porta desaparecida.
Descobri logo qual era a ideia. Nesse quarto, um tipo chamado
Pete Bernays e mais outros dois entregaram-se por completo ao
trabalho e exigiam silêncio. Se alguém passasse pelo quarto
para procurar qualquer coisa, ou para lhes perguntar como
havia resolvido determinado problema, quando saía ouvia sempre
os tipos gritar: "Feche a porta, por favor! "
Alguém se tinha cansado disto, sem dúvida, e havia levado a
porta. Ora acontece que este quarto, do modo como estava
construído, tinha duas portas, pelo que tive uma ideia: tirei
a outra porta dos gonzos, levei-a para baixo e escondi-a na
cave, atrás do depósito do petróleo. Depois voltei a subir as
escadas em silêncio e deitei-me.
Mais tarde, nessa manhÃ, fingi ter acordado e vim para baixo
um pouco atrasado. Os outros tipos andavam às voltas e Pete e
os amigos estavam todos preocupados: as portas do quarto deles
tinham desaparecido e precisavam de estudar, blá, blá, blá,
blá. Quando descia as escadas, eles perguntaram: "Feymnan!
Foste tu que tiraste as Portas? "
"Ah, pois! ", disse eu. "Fui eu que tirei a porta. Vejam os
arranhSes que fiz nos nós dos dedos quando as minhas mÃos
rasparam na parede ao levá-la para a cave."
NÃo ficaram satisfeitos com a minha resposta; de facto, nÃo
acreditaram em mim.
43

Os tipos que tinham levado a primeira porta haviam deixado


tantas pistas -a letra dos cartazes, por exemplo -que
depressa foram descobertos. A minha ideia era que, quando se
descobrisse quem roubara a primeira porta, todos iriam pensar
que eles também tinham roubado a outra. Resultou
perfeitamente: os tipos que tinham levado a primeira porta
foram sovados, torturados e pressionados por todos, até que,
por fim, com muito sofrimento e muita dificuldade, convenceram
os seus carrascos de que só tinham levado uma porta, por muito
incrível que parecesse.
Ouvi isto tudo e fiquei contente.
A outra porta continuou desaparecida durante uma semana
inteira e tornou-se cada vez mais importante para os tipos que
tentavam estudar nesse quarto encontrar a outra porta.
Finalmente, para tentar resolver o problema, o presidente da
fraternidade, à mesa do jantar, diz: "Temos de resolver este
problema da outra porta. NÃo o consegui resolver sozinho, pelo
que gostaria que vocês me dessem sugestSes sobre o modo de
resolver o assunto, porque Pete e os outros precisam de
estudar."
Alguém faz uma sugestÃo. Depois surge outra de outra pessoa.
Ao fim de algum tempo levanto-me e faço também uma sugestÃo.
"Muito bem", digo com uma voz sarcástica, "tu, que roubaste a
porta, sejas quem fores, sabemos que és uma maravilha. És tÃo
esperto! NÃo conseguimos descobrir quem és, pelo que deves ser
uma espécie de supergénio. NÃo tens de nos dizer quem és; só
queremos saber onde está a porta. Por isso, se nos deixares um
recado em qualquer sítio a dizer onde está a porta,
honrar-te-emos e admitiremos para sempre que és uma
supermaravilha, que és tÃo esperto que foste capaz de levar a
outra porta sem nós conseguirmos descobrir quem és. Mas, por
amor de Deus, basta deixares o recado em qualquer lado, e
ficar-te-emos sempre gratos."
O próximo tipo apresenta a sua sugestÃo: "Tenho outra ideia",
diz ele. "Acho que tu, o presidente, devias perguntar a cada
um, sob palavra de honra da fraternidade, se ele tirou ou nÃo
a porta."
O presidente diz: "Essa é uma ideia muito boa. Sob a palavra
de honra da fraternidade! " EntÃo ele dá a volta à mesa e
pergunta a todos os tipos, um por um:
"Jack, tu tiraste a porta?"
"NÃo, senhor, nÃo tirei a porta."
"Tim, tu tiraste a porta?"
"NÃo, senhor! NÃo tirei a porta!"
44
"Maurice, tu tiraste a porta?"
"NÃo, nÃo tirei a porta."
"Feynman, tu tiraste a porta?"
"Sim, fui eu quem tirou a porta."
"Pára com isso, Feynman; isto é a sério! Sam! Tu tiraste a
porta ... "-deu a volta toda. Estavam todos escandalizados.
Devia haver um autêntico safado entre eles que nÃo respeitava
a palavra de honra da fraternidade!
Nessa noite deixei uma mensagem com um desenho do depósito do
petróleo com a porta ao pé e no dia seguinte eles encontraram
a porta e voltaram a pô-la no seu lugar.
Algum tempo depois confessei, finalmente, que tinha tirado a
outra porta e todos me acusaram de ter mentido. NÃo
conseguiram lembrar-se do que eu tinha dito. Só se lembravam
da conclusÃo que haviam tirado depois do presidente da
fraternidade dar a volta à mesa, de que ninguém confessara ter
tirado a porta. Lembravam-se da ideia, mas nÃo das palavras.
As pessoas pensam muitas vezes que sou mentiroso, mas sou
geralmente honesto, de certa maneira -de.tal maneira que
muitas vezes ninguém acredita em mim!
Latim ou italiano?
Havia um posto de rádio italiano em Brooklyn e eu passava todo
o tempo a ouvi-lo quando era rapaz. Eu aDorava os SONS ROLANdo
sobre mim, como se estivesse no mar e as ondas nÃo fossem
muito altas. Costumava sentar-me e deixar a água passar sobre
mim, neste LINdo iTALiano. Nos programas italianos existia
sempre qualquer espécie de situaçÃo familiar em que havia
discussSes e desacordos entre mÃe e pai:
Voz aguda: "Nio teco TIEto capeto TUtto ... "
Voz grave e alta: "DRo tone pala Tuttoffi> (com um estalar de
mÃo).
Era fantástico! Assim aprendi a reproduzir todas essas
emoÇÕES: sabia rir, sabia chorar, etc. o italiano é uma língua
maravilhosa.
Havia uma quantidade de italianos que viviam perto de nós em
Nova Iorque. Uma vez, quando ia na minha bicicleta, um
condutor de camiÃo italiano irritou-se comigo, inclinou-se
para fora do camiÃo e, gesticulando, gritou qualquer coisa
como: "me aRRucha LAmpe etta TIche!"
45

Senti-me confundido. Que é que ele me tinha dito? Que lhe


devia eu gritar por minha vez?
Por isso, na escola, perguntei a um amigo meu italiano e ele
disse: " Diz só: 'A te! A te!', que quer dizer: 'O mesmo para
ti! O mesmo para ti!'. "
Achei a ideia óptima. Responderia "A te! A te!" -gesticulando,
claro. Depois, à medida que ganhei confiança, desenvolvi ainda
mais as minhas capacidades. Se ia na minha bicicleta e uma
senhora a conduzir um carro se metesse à minha frente, dizia:
"puzzia a Ia maLoche!", e ela encolhia-se! Um horrível rapaz
italiano tinha-lhe lançado uma praga terrível!
NÃo era assim tÃo fácil reconhecer aquilo como italiano a
fingir. Uma vez, quando estava em Princeton, dirigia-me para o
parque de estacionamento na minha bicicleta e meteu-se alguém
à minha frente. O meu hábito era sempre o mesmo: gesticulo
para o tipo, "oREzze caBoNca miche!", batendo com as costas da
mÃo uma na outra.
E mais para diante, do outro lado de uma grande zona de relva,
está um jardineiro italiano a dispor umas plantas. Ele pára,
acena e grita alegremente, "REzza ma Lia!"
Eu respondo: "RoNte BALta!", devolvendo a saudaçÃo. Ele nÃo
sabia que eu nÃo sabia e eu nÃo sabia o que ele tinha dito.
Mas estava tudo bem! Era fantástico! Dá resultado! Afinal,
quando ouvem a entoaçÃo, reconhecem-no imediatamente como
italiano -talvez seja de MilÃ( em vez de Roma, nÃo faz mal.
Mas é UM iTALiano! Por isso é mesmo fantástico. Mas é preciso
ter confiança absoluta. Se se seguir em frente nÃo há problema
nenhum.
Uma vez vim a casa passar férias da Faculdade e a minha irmÃ
parecia infeliz, quase a chorar: o seu grupo de escuteiros ia
da: um banquete para pais e filhas, mas o nosso pai andava em
viagen a vender uniformes. Por isso eu disse que ia com ela,
visto ser seu ir mÃo (tenho mais nove anos que ela, pelo que
nÃo era assim tÃo disparatado).
Quando lá cheguei, sentei-me entre os pais durante um bocado,
mas depressa me fartei deles. Todos aqueles pais levam as
filhas àquele belo banquete e só falam da bolsa de valores -
nÃo sabem falar com os próprios filhos, e muito menos com os
amigos dos filhos.
Durante o banquete, as raparigas divertiram-nos fazendo
pequenas rábulas, recitando poesia, etc. De repente trazem uma
coisa esquisita, parecida com um avental, com um buraco na
parte de cima para enfiar a cabeça-As raparigas anunciam que
agora os pais as vÃo divertir a elas.
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Assim, cada pai tem de se levantar, enfiar a cabeça e dizer
qualquer coisa -um tipo recita Mary Tem Um Cordeirinho -, mas
eles nÃo sabem o que fazer. Eu também nÃo sabia, mas, quando
lá cheguei, disse-lhes que ia recitar um pequeno poema, que
lamentava nÃo ser em inglês, mas que tinha a certeza de que
mesmo assim eles iam gostar:
A TUZZO LANTO
-Poici di Pare
TANto SAca TULna TI, na PUta Tuchi Puti Ti Ia. RUMO cAta
cHANto cHANta mAjvto cHi Ia Ti da. YALta cAra suLda mi Ia
cHAta Picha Pino TUO BRALda pe te cnina nana cHuNda Iala
cHiNda Iala CHuNda! ROMO Piti CA le, a TANto cHiNto quinta
LALda 0 Ia TINta dalla LALta, YENta Pucha lafla TALta!
Faço isto durante três ou quatro estâncias, passando por todas
as emoÇÕES que tinha ouvido na rádio italiana, e as miúdas,
percebendo tudo, rebolavam-se nas alas, rindo de alegria.
Quando o banquete acabou, a chefe das escuteiras e uma
professora vieram ter comigo e disseram-me que tinham estado a
discutir o meu poema. Uma delas pensava que era italiano e a
outra pensava que era latim. A professora pergunta: "Qual de
nós tem razÃo?"
Eu respondo: "Têm de perguntar às raparigas -elas perceberam
logo que língua era."
Sempre a tentar escapar
Quando estudava no MIT, só me interessava por ciência; nÃo
tinha jeito para mais nada. Mas no MIT havia uma regra: têm de
se fazer alguns cursos de Humanidades para se adquirir mais
"cultura". Além das aulas de Inglês exigidas havia duas de
opçÃo, pelo que percorri a lista e encontrei logo
Astronomia-como curso de Humanidades' Assim, nesse ano
consegui escapar com a Astronomia. No ano seguinte ri
novamente a percorrer a lista, passei adiante a Literatura
Francesa e outros cursos assim e encontrei Filosofia. Era a
coisa mais próxima da ciência que eu podia encontrar.
47

Antes de vos contar o que aconteceu em Filosofia, deixem-me


falar-vos da aula de Inglês. Tínhamos de escrever um certo
número de temas. Por exemplo, Mill escrevera qualquer coisa
sobre a liberdade e nós tínhamos de a criticar. Mas, em vez de
me concentrar na liberdade política, como Mifi, escrevi sobre
a liberdade em ocasiSes sociais -o problema de se ter de
fingir e mentir para se ser bem educado e se este jogo
permanente de fingir em situaÇÕES sociais conduz à "destruiçÃo
da fibra moral da sociedade". Uma questÃo interessante, mas
nÃo aquela que devíamos discutir.
Outro trabalho que tínhamos de criticar era de HuxIey, "Sobre
um pedaço de giz", em que ele descreve como um vulgar pedaço
de giz que ele segura é o resto de ossos animais, como as
forças do interior da Terra o levantaram de modo a fazer parte
dos Rochedos Brancos e como foi depois extraído e é agora
utilizado para transmitir ideias através da escrita no quadro.
Mas de novo, em vez de criticar o trabalho que nos tinha sido
atribuído, escrevi uma paródia chamada "Sobre um pedaço de
poeira", sobre como a poeira produz as cores do pôr do Sol e
faz cair a chuva, e assim por diante. Fui sempre um fingido,
sempre a tentar escapar-me.
Mas, quando tivemos de escrever um tema sobre o Fausto, de
Goethe, nÃo havia nada a fazer! O trabalho era demasiado longo
para parodiar ou inventar qualquer outra coisa. Andava como
uma tempestade, para trás e para diante, na fraternidade,
dizendo: "NÃo o consigo fazer. NÃo o faço, pronto. NÃo o faço!
"
Um dos meus companheiros de fraternidade disse: "Está bem,
Feynman, nÃo o fazes. Mas o professor vai pensar que nÃo o
fazes porque nÃo queres fazer o trabalho. Devias escrever um
tema sobre qualquer coisa, com o mesmo número de palavras, e
entregá-lo com uma nota a dizer que nÃo entendes o Fausto, que
nÃo tens coragem para isso, que te é impossível escrever um
tema sobre ele."
Assim fiz. Escrevi um longo tema, "Sobre as limitaÇÕES da
razÃo". Tinha pensado em técnicas científicas para resolver
problemas e em como existem certas limitaÇÕES: os valores
morais nÃo podem ser decididos por métodos científicos, blá,
blá, blá, etc.
EntÃo, outro companheiro de fraternidade deu outro conselho:
"Feynman", disse ele, "entregares um tema que nÃo tem nada a
ver com o Fausto nÃo vai resultar. O que tens de fazer é meter
o que escreveste dentro do Fausto."
"Ridículo!", respondi eu.
Mas os outros tipos da fraternidade acham que era uma boa
ideia.
48
"Está, bem, está bem!", disse eu, contrariado. "Vou tentar."
Por isso juntei meia página ao que já tinha escrito, dizendo
que Mefistóféles representa a razÃo, Fausto representa o
espírito e Goethe tenta mostrar as limitaÇÕES da razÃo.
Dei-lhe umas voltas, encaixei tudo e entreguei o meu tema.
O professor chamou cada um de nós individualmente para
discutir os nossos temas. Eu entrei, esperando o pior, e
disse:
"O material introdutório é bom, mas o material de Fausto é
breve de mais. Tirando isso, está muito bem -B +. " Voltei a
escapar!
Agora quanto à aula de Filosofia. O curso era dado por um
professor velho, com barba, chamado Robinson e que estava
sempre a resmungar. Eu ia para a aula e ele resmungava o tempo
todo, pelo que eu nÃo percebia uma única coisa do que ele
dizia. Os outros deviam percebê-lo melhor, mas nÃo pareciam
prestar atençÃo. Por acaso, eu tinha uma pequena broca, com
aproximadamente um dezasseis avos de polegada, e, para passar
o tempo nessa aula, torcia-a entre os dedos e abria buracos na
sola do meu sapato, semana após semana.
Finalmente, um dia, no fim da aula, o Prof. Robinson fez "uga
muga muga uga uga ... " e todos ficaram excitados! Estavam
todos a falar uns com os outros e a discutir, pelo que
imaginei que ele dissera qualquer coisa interessante, graças a
Deus! Perguntei a mim mesmo o que seria.
Perguntei a alguém e disseram-me: "Temos de escrever um tema e
entregá-lo dentro de quatro semanas."
"Um tema sobre o quê?"
"Sobre aquilo de que ele tem andado a falar durante todo o
ano."
Fiquei paralisado. A única coisa de que me recordava de ter
ouvido durante todo o período era:
"mugaugacorrentedeconsciênciamugauga", e pum! -voltou a
mergulhar no caos.
Esta "corrente de consciência" recordou-me um problema que o
meu pai me apresentara há muitos anos. Ele tinha dito: "SupSe
que desciam uns marcianos na Terra e que os marcianos nunca
dormiam, estando, em vez disso, permanentemente activos. SupSe
que eles nÃo tinham este fenômeno maluco que nós temos chamado
sono. Por isso, eles fazem-te a pergunta: O que se sente ao
adormecer? O que acontece quando se adormece? Os pensamentos
param de repente, ou movem-se cada veezz mmeeennnoooossss
rraaaapppppTddddaaaaaammmmmeeeeeeeennnnteeeeeeeeeeecee? Como é
que na realidade a mente se desliga?'."
Fiquei interessado. Agora tinha de responder a esta pergunta:
como acaba a corrente de consciência, quando se adormece?
49

Assim, todas as tardes, durante as quatro semanas seguintes,


eu trabalhei no meu tema. Baixava as persianas do meu quarto,
apagava as luzes e ia dormir. E observava o que acontecia
quando adormecia.
Depois, à noite, voltava a adormecer, pelo que podia fazer
observaÇÕES duas vezes por dia -o que era muito bom!
Ao princípio reparei em muitas coisas subsidiárias que tinham
pouco a ver com o acto de adormecer. Reparei, por exemplo, que
pensava bastante, falando interiormente comigo mesmo. Também
conseguia imaginar as coisas visualmente.
Depois, quando começava a ficar cansado, reparei que conseguia
pensar em duas coisas ao mesmo tempo. Descobri isto ao falar
interiormente comigo próprio sobre qualquer coisa, e, enquanto
o fazia, imaginava indolentemente duas cordas ligadas aos pés
da minha cama, passando através de umas roldanas e
enrolando-se num cilindro em rotaçÃo, levantando suavemente a
cama. NÃo tinha consciência de estar a imaginar essas cordas
até começar a recear que uma das cordas tocasse na outra e que
nÃo se enrolassem com suavidade. Mas, interiormente, disse:
"Oh, a tensÃo encarrega-se disso", e isto interrompeu o
primeiro pensamento que estava a ter e fez-me tomar
consciência de que estava a pensar em duas coisas ao mesmo
tempo.
Reparei também que, à medida que adormecemos, as ideias
continuam, mas se tornam cada vez menos ligadas logicamente.
NÃo reparamos que elas nÃo estÃo ligadas logicamente até
perguntarmos a nós próprios: "Que é que me fez pensar nisto?",
e tentamos voltar para trás, sendo frequente nÃo nos
lembrarmos que raio nos fez pensar naquilo!
Assim, temos todas as ilusSes da ligaçÃo lógica, mas o que
realmente acontece é que os pensamentos se vÃo tornando cada
vez mais baralhados, até estarem completamente desmembrados, e
a seguir a isso adormecemos.
Depois de quatro semanas a dormir a toda a hora, escrevi o meu
tema e expliquei que todas estas observaÇÕES tinham sido
feitas enquanto me via adormecer a mim próprio e que, na
realidade, nÃo sei como é adormecer quando nÃo me estou a ver
a mim próprio. Concluí o tema com uns versos que fiz, que
focavam este problema da introspecçÃo:
Pergunto-me porquê. Pergunto-me porquê.
Pergunto-me porque me pergunto.
Pergunto-me porque me pergunto porque
Pergunto-me porque me pergunto!
50

Entregámos os nossos temas e, na próxima vez que a nossa aula


se reuniu, o professor lê um deles: "Mum hum uga mum bum ... "
NÃo sei o que o tipo escreveu.
Lê outro tema: "Muga uga mum bum uga uga ... " Também nÃo sei
o que esse tipo escreveu, mas no fim diz:
Uga um um. Uga um um.
Uga muga muga muga.
Uga um um uga uga
Um uga um uga.
"Ah, ah!", digo eu. "É o meu tema!" Honestamente, nÃo o
reconheci até à parte final.
Depois de ter escrito o tema continuei com curiosidade e
prossegui esta observaçÃo de mim próprio ao adormecer. Uma
noite, enquanto sonhava, compreendi que me estava a observar a
mim próprio no sonho. Tinha conseguido introduzir-me no
próprio sono!
Na primeira parte do sonho estou no tejadilho de um comboio e
aproximamo-nos de um túnel. Assusto-me, baixo-me e entramos no
túnel -vuuuu! Digo para mim mesmo: "EntÃo conseguimos ter o
sentimento do medo e ouvir a mudança do som quando se entra no
túnel. "
Reparei também que podia ver as cores. Há quem diga que
sonhamos a branco e preto, mas nÃo, eu estava a sonhar a
cores.
Nesta altura estou dentro de uma das carruagens e consigo
sentir os solavancos do comboio. Digo para mim mesmo: "EntÃo
podemos ter a sensaçÃo de movimento num sonho. " Ando com
alguma dificuldade até ao fim da carruagem e vejo uma grande
janela, como a montra de uma loja. Atrás dela estÃo, nÃo
manequins, mas três raparigas de carne e osso em fato de banho
e com muito bom aspecto!
Continuo a andar até à carruagem seguinte, agarrando-me às
correias por cima da minha cabeça enquanto avanço, quando digo
para mim mesmo: "Eh! Seria interessante ficar excitado ...
sexualmente ... pelo que penso em voltar para a outra
carruagem. Descubro que posso voltar-me e andar em sentido
contrário ao longo do comboio -conseguia controlar a direcçÃo
do meu sonho. Volto para a carruagem, que tem a janela
especial, e vejo três velhotes a tocar violino -mas voltam a
transformar-se em raparigas! Portanto, eu podia modificar a
direcçÃo do meu sonho, mas nÃo com perfeiçÃo.
Bem, começo a ficar excitado, tanto intelectualmente como
sexualmente, a dizer coisas como: "Uau, está a dar
resultado!", e acordo.
51

Faço mais algumas observaÇÕES enquanto sonho. Além de


perguntar
sempre a mim mesmo: "Estou realmente a sonhar a cores?"
Interroguei-me: "Com que nitidez se vêem as coisas?"
Na vez seguinte em que tive um sonho havia uma rapariga
estendida em relva alta e que tinha cabelo vermelho. Tentei
ver se conseguia distinguir cada cabelo. Sabem que há uma
pequena área de cor precisamente onde o sol se reflecte, o
efeito da difracçÃo -eu conseguia ver isso! Conseguia ver cada
cabelo tÃo nítido quanto quisesse: visÃo perfeita!
De outra vez tive um sonho em que estava uma tacha espetada na
ombreira de uma porta. Vejo a tacha, passo os dedos pela
ombreira da porta e sinto a tacha. Portanto, o "departamento
da visÃo" e o "departamento do tacto" do cérebro parecem estar
ligados. EntÃo digo para mim mesmo: "Será possível que nÃo
tenham de estar ligados?" Olho novamente para a ombreira da
porta e nÃo está lá a tacha. Passo o dedo pela ombreira da
porta e sinto a tacha!
De outra vez, estou a sonhar e oiço "pam-pam; pam-pam".
Acontecia qualquer coisa no sonho que fazia com que este bater
se ajustasse, mas nÃo perfeitamente -parecia como que
estranho. Pensei: "É absolutamente garantido que este bater
vem de fora do meu sonho e que inventei esta parte do sonho
para se ajustar a ele. Tenho de acordar e descobrir que diabo
isto é."
O bater continua, acordo e... silêncio profundo. NÃo havia
nada. Portanto, nÃo estava relacionado com o exterior.
Houve outras pessoas que me contaram que incorporaram barulhos
exteriores nos seus sonhos, mas, quando tive esta experiência,
"observando de baixo" cuidadosamente, e estava certo de que o
barulho vinha do exterior do sonho, nÃo vinha.
Durante o tempo em que fiz observaÇÕES nos meus sonhos, o
processo de acordar era bastante assustador. Quando se começa
a acordar, há um momento em que nos sentimos rígidos e presos,
ou debaixo de muitas camadas de pasta de algodÃo. É difícil de
explicar, mas há um momento em que se tem a sensaçÃo de que
nÃo podemos sair; nÃo se tem a certeza de poder acordar. Por
isso tinha de dizer a mim próprio depois de acordar -que
isso é ridículo. NÃo há nenhuma doença que eu conheça em que
uma pessoa adormeça naturalmente e nÃo possa acordar.
Pode-se sempre acordar. E, depois de falar assim comigo mesmo
muitas vezes, fui tendo cada vez menos medo, e na verdade
achei o processo de acordar bastante excitante -um pouco como
uma mon
52
tanha russa: depois de algum tempo já nÃo temos tanto medo e
começamos a divertir-nos um pouco.
Vocês poderÃo querer saber como parou este processo de
observar os meus sonhos (o que aconteceu em grande parte; só
voltou a dar-se algumas vezes desde entÃo). Uma noite estou a
sonhar como de costume, fazendo observaÇÕES, e vejo na parede
à minha frente um galhardete. Respondo pela vigésima quinta
vez: "Sim, estou a sonhar a cores", e entÃo compreendo que
tenho estado a dormir com a parte de trás da cabeça de
encontro a um varÃo de metal. Ponho a mÃo na parte de trás da
cabeça e sinto-a mole. Penso: "Ah, ah! É por isso que tenho
conseguido fazer todas estas observaÇÕES nos meus sonhos: o
varÃo de metal perturbou o meu córtice visual. Basta-me dormir
com um varÃo de metal debaixo da cabeça para poder fazer estas
observaÇÕES sempre que quiser. Por isso acho que vou deixar de
fazer observaÇÕES neste e entrar num sono mais profundo."
Mais tarde, quando acordei, nÃo havia nenhum varÃo de metal,
nem a parte de trás da minha cabeça estava mole. Tinha-me de
algum modo cansado de fazer estas observaÇÕES e o meu cérebro
inventara razSes falsas para eu nÃo as continuar a fazer.
Como consequência destas observaÇÕES, comecei a construir uma
pequena teoria. Uma das razSes por que eu gostava de ver os
sonhos era o intrigar-me o facto de podermos ver uma imagem
(de uma pessoa, por exemplo) quando temos os olhos fechados e
nÃo entra nada. Dizemos que podem ser descargas nervosas
irregulares, ao acaso, mas nÃo conseguimos que os nervos,
quando estamos a dormir, produzam descargas formando
exactamente os mesmos padrSes delicados que formam quando
estamos acordados, a olhar para qualquer coisa. EntÃo, como
podia eu "ver" a cores, e com maior detalhe, quando estava a
dormir?
Decidi que deve haver um "departamento de interpretaçÃo".
Quando estamos realmente a olhar para qualquer coisa -um
homem, um candeeiro ou uma parede-, nÃo nos limitamos a ver
manchas de cores. Há algo que nos diz o que aquilo é; tem de
ser interpretado. Quando estamos a dormir, este "departamento
de interpretaçÃo" continua a funcionar, mas está baralhado.
Diz-nos que estamos a ver um cabelo humano com o maior
detalhe, quando isso nÃo é verdade. Está a interpretar a
tralha aleatória que entra no nosso cérebro como uma imagem
clara.
Outra coisa acerca dos sonhos. Eu tinha um amigo chamado
Deutsch, cuja mulher pertencia a uma família de psicanalistas
de Viena.
53
Uma noite, durante uma longa discussÃo sobre sonhos, ele
contou-me que os sonhos têm significado: há neles símbolos que
podem ser interpretados psicanaliticamente. Eu nÃo acreditava
na maior parte destas coisas, mas nessa noite tive um sonho
interessante: estamos a jogar numa mesa de bilhar com três
bolas -uma bola branca, uma verde e uma cinzenta-, sendo
titsies o nome do jogo. Tentamos meter as bolas na bolsa: a
bola branca e a verde sÃo fáceis de enfiar, mas com a cinzenta
nÃo consigo nada.
Acordo e o sonho é muito fácil de interpretar: o nome do jogo
denuncia-o, claro -raparigas! A bola branca foi fácil de
descobrir, porque eu saía, às escondidas, com uma mulher
casada que trabalhava nessa altura como empregada da caixa num
café e usava uniforme branco. A verde também foi fácil, porque
eu tinha ido uma ou duas noites antes a um filme no drive-in
com uma rapariga de vestido verde. Mas a cinzenta -que raio
era a cinzenta? Sabia que tinha de ser alguém, sentia-o. É
como quando tentamos recordar um nome e o temos debaixo da
língua, mas nÃo o conseguimos alcançar.
Levei meio dia até me lembrar de que me tinha ido despedir de
uma rapariga de quem gostava muito e que tinha ido para Itália
havia uns dois ou três meses. Era uma rapariga muito simpática
e eu decidira que, quando ela regressasse, a voltaria a ver.
NÃo sei se ela usava um fato cinzento, mas tornou-se
perfeitamente claro, assim que pensei nela, que ela era a
cinzenta.
Fui ter novamente com o meu amigo Deutsch e contei-lhe que ele
devia ter razÃo -há qualquer coisa na análise dos sonhos.
Mas, quando ele ouviu contar o meu interessante sonho, disse:
"NÃo, esse era demasiado perfeito -demasiado conveniente.
Normalmente, temos de fazer um pouco mais de análise."
O químico principal de pesquisa
da CorporaçÃo Metaplast
Depois de ter acabado no MIT queria arranjar um emprego para o
VerÃo. Tinha-me candidatado duas ou três vezes aos
Laboratórios Bell e havia lá ido algumas vezes de visita. Bill
Shockley, que me conhecia do laboratório do MIT, mostrava-me
sempre as instalaÇÕES e eu apreciava imenso essas visitas, mas
nunca arranjei lá emprego.
54
Recebi cartas de professores meus para duas companhias
específicas. Uma era para a Companhia Bausch & Lonib, para
analisar a passagem de raios através de lentes; a outra era
para os Laboratórios de Testagem Electrónica, em Nova Iorque.
Nessa altura, as pessoas nem sequer sabiam o que era um físico
e nÃo havia lugares na indústria para os físicos. Engenheiros,
estava bem: mas físicos -ninguém sabia o que fazer com eles.
O que é interessante é que pouco depois, a seguir à guerra,
deu-se exactamente o oposto: por todo o lado as pessoas
queriam físicos. Por isso eu nÃo conseguia nada como físico à
procura de emprego no final da DepressÃo.
Mais ou menos por essa altura encontrei um velho amigo meu
numa praia da nossa cidade natal, Far Rockaway, onde havíamos
crescido juntos. Tínhamos andado ao mesmo tempo na escola, por
altura dos onze ou doze anos, e éramos muito amigos.
Possuíamos ambos espírito científico. Ele tinha um
"laboratório" e eu tinha um "laboratório". Brincávamos muitas
vezes juntos e juntos discutíamos os problemas.
Costumávamos apresentar espectáculos de magia -magia química -
para os miúdos do bairro. O meu amigo era um homem de
espectáculo bastante bom e eu também gostava um bocado
daquilo. Fazíamos os nossos truques em cima de uma mesinha,
com bicos de Bunsen sempre acesos nas extremidades. Nos bicos
tínhamos vidros de relógio (discos planos de vidro) com iodo,
que produzia um findo vapor de cor púrpura, que se elevava de
cada lado da mesa enquanto decorria o espectáculo. Fazíamos
uma data de truques, como transformar "vinho" em água e outras
alteraÇÕES químicas de cores. Para o final fazíamos um truque
utilizando uma coisa que tínhamos descoberto. Punha as mÃos
(em segredo) primeiro num recipiente com água e depois em
benzina. EntÃo, "acidentalmente", roçava num dos bicos de
Bunsen e uma das minhas mÃos acendia-se. Batia as mÃos, e
entÃo ficavam ambas a arder. (NÃo queima porque arde depressa
e a água conserva as mÃos frescas.) EntÃo agitava as mÃos e
dava voltas a correr, gritando "FOGO! FOGON, e ficavam todos
excitados. Saíam a correr da sala e era o fim do espectáculo!
Mais tarde, na Faculdade, contei esta história aos meus
companheiros da fraternidade e eles disseram: "Que disparate!
NÃo se pode fazer isso! "
(Tive frequentemente o problema de demonstrar aos tipos
qualquer coisa em que eles nÃo acreditavam -como daquela vez
em que comeÇámos a discutir se a urina se limitava a sair
devido à gravidade e eu
55

tive de demonstrar que nÃo era assim, mostrando-lhes que se


pode fazer chichi de cabeça para baixo. Ou como da vez em que
alguém afirmou que, se tomássemos aspirina com Coca-Cóla,
ficaríamos imediatamente inconscientes. Disse-lhes que achava
aquilo uma grande treta e ofereci-me para tomar aspirina
juntamente com Coca-Cola. EntÃo começaram a discutir se se
devia tomar a aspirina antes da Coca-Cola, logo a seguir, ou
misturada com ela. Por isso tomei seis aspirinas e três
Coca-Colas, umas atrás das outras. Primeiro tomei duas
aspirinas e uma Coca-Cola a seguir, depois dissolvemos duas
aspirinas numa Coca-Cola e tomei-a e finalmente tomei uma
Coca-Cola seguida de duas aspirinas. De cada uma das vezes, os
idiotas que acreditavam naquilo estavam à minha volta,
preparados para me agarrar quando desmaiasse. Mas nÃo
aconteceu nada. Lembro-me que nÃo dormi muito bem nessa noite,
pelo que me levantei e fartei de pensar, desenvolvendo algumas
das fórmulas para aquilo que se chama a funçÃo de
Riemann-Zeta.)
"Muito bem, rapazes", disse eu. "Vamos sair e comprar
benzina." Prepararam a benzina, meti as mÃos na água da tina e
a seguir na benzina e acendi-a... e doeu como um raio! É que
entretanto me tinham crescido pêlos nas costas das mÃos, que
funcionaram como mechas e agarraram a benzina enquanto ardia,
ao passo que, quando fazia isto anteriormente, nÃo tinha pêlos
nas costas das mÃos. Depois de ter feito a experiência para os
meus companheiros da fraternidade, também nÃo tinha pêlos nas
costas das mÃos.
Bem, o meu companheiro e eu encontrámo-nos na praia e ele
contou-me que tinha um processo para metalizar plásticos. Eu
disse que isso era impossível, porque nÃo há condutibilidade;
nÃo se pode ligar um fio. Mas ele respondeu que podia
metalizar qualquer coisa, e ainda me lembro de ele pegar num
caroço de pêssego que estava na areia, dizendo que podia
metalizar aquilo -para me impressionar.
O que foi agradável foi ter-me ele oferecido um emprego na sua
pequena companhia, situada no último andar de um edifício em
Nova Iorque. Havia só umas quatro pessoas na companhia. O pai
dele era quem reunia o dinheiro e era, penso eu, o
"presidente". Ele era o "vice-presidente", juntamente com
outro tipo que era o encarregado das ven das. Eu era o
"químico principal de pesquisa" e o irmÃo do meu amigo, que
nÃo era muito esperto, era o lavador de garrafas. Tínhamos
seis banhos de metalizaçÃo.
Tinham um processo para metalizar plásticos, com o seguinte
esquema: primeiro depositavam prata no objecto, precipitando-a
a partir de um banho de nitrato de prata com um agente redutor
(como se
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faz com Os espelhos); em seguida enfiavam o objecto, com a
prata a servir de condutor, num banho de metalizaçÃo eléctrica
e a prata metalizava-se
O problema que se punha era: será que a prata se agarra ao
objecto?
NÃo agarra. Sai facilmente. Por isso havia um passo
intermédio, fazer a prata agarrar-se melhor ao objecto. Isso
dependia do material. Para coisas como a baquelite, que era um
plástico importante nesses dias, o meu amigo tinha descoberto
que, se fosse primeiro tratada com um jacto de areia, e depois
mergulhada durante muitas horas em hidróxido de estanho, que
entrava nos poros da baquelite, a prata se agarrava muito
satisfatoriamente à superfície.
Mas só resultava para alguns plásticos, e estavam sempre a
aparecer novos tipos de plástico, como o metacrilato de metilo
(a que agora chamamos plexigiass), que, ao princípio, nÃo
conseguíamos metalizar directamente. E o acetato de celulose,
que era muito barato, era outro que nÃo conseguíamos metalizar
ao princípio, embora tenhamos descoberto que, metendo-o em
hidróxido de sódio durante pouco tempo antes de utilizar o
cloreto de estanho, ele se metalizava muito bem.
Tive bastante sucesso na companhia como "químico". A minha
vantagem era que o meu companheiro nÃo tinha feito nada no
campo da química; nÃo fizera nenhuma experiência; só sabia
fazer qualquer coisa uma vez. Lancei-me ao trabalho, pondo
muitos botSes diferentes dentro de garrafas e deitando lá
dentro toda a espécie de produtos químicos. Tentando tudo e
registando tudo, encontrei maneiras de metalizar uma gama de
plásticos maior do que o que ele tinha conseguido antes.
Consegui também simplificar o seu processo. Procurando em
livros, mudei o agente redutor de glucose para formaldeído e
consegui recuperar imediatamente 100% da prata, em vez de ter
de recuperar mais tarde a prata deixada em soluçÃo.
Também consegui que o hidróxido de estanho se dissolvesse em
água, adicionando-lhe um pouco de ácido hidroclórico -uma
coisa que recordava de um curso de Química da Faculdade -, e,
assim, uma fase que Costumava levar horas levava agora
aproximadamente cinco minutos.
As minhas experiências estavam sempre a ser interrompidas pelo
encarregado das vendas, que voltava com qualquer plástico de
um cliente em perspectiva. Tinha as garrafas todas alinhadas,
com tudo marcado, quando, de repente: "Tem de parar a
experiência para fazer um 'trabalho especial' para o
departamento de vendas! " Por isso, tive de começar várias
experiências mais de uma vez.
57

Uma ocasiÃo arranjámos um sarilho dos diabos. Havia um artista


qualquer que estava a tentar fazer uma gravura para a capa de
uma revista sobre automóveis. Construíra muito cuidadosamente
uma roda de plástico e, nÃo sei como, o encarregado das vendas
tinha-lhe dito que nós podíamos metalizar qualquer coisa, pelo
que o artista queria que metalizássemos o centro, para que
ficasse um centro de prata brilhante. A roda era feita de um
plástico novo que nÃo sabíamos muito bem como metalizar -de
facto, o encarregado das vendas nÃo sabia muito bem o que
podíamos metalizar, pelo que estava sempre a prometer coisas
-, e da primeira vez nÃo deu resultado. Por isso, para a
arranjar, tínhamos de tirar a prata antiga, o que nÃo
conseguimos facilmente. Resolvi usar ácido nítrico
concentrado, o que, na verdade, tirou a prata, mas também fez
buracos no plástico. Desta vez estávamos mesmo com água pela
barba! De facto, tivemos uma data de experiências do tipo de
"dar água pela barba".
Os outros tipos da companhia decidiram que devíamos pôr
anúncios na revista Plásticos Modernos. Algumas das coisas que
metalizávamos eram muito bonitas. Ficavam com bom aspecto nos
anúncios. Tínhamos também algumas coisas num expositor, à
frente, para os clientes potenciais verem, mas ninguém podia
pegar nas coisas dos anúncios ou do expositor para ver se a
camada de metal era resistente. Talvez alguns fossem, de
facto, trabalhos bastantes bons. Mas eram feitos
especialmente; nÃo eram produtos regulares.
Logo após ter deixado a companhia, no fim do VerÃo, para ir
para Princeton, eles receberam uma boa proposta de alguém que
queria metalizar canetas de plástico. Agora as pessoas
poderiam ter canetas de prata leves, práticas e baratas. As
canetas venderam-se imediatamente, por todo o lado, e era
bastante excitante ver as pessoas andarem por toda a parte com
essas canetas e sabermos de onde vinham.
Mas a companhia nÃo tivera muita experiência com aquele
material -ou talvez com o "enchimento" usado no plástico (a
maior parte do
plásticos nÃo sÃo puros, têm um "enchimento", que nesses
tempos
nÃo era muito bem controlado) -e as malditas coisas formavam
bolhas. Quando temos qualquer coisa na mÃo que tem uma bolha e
começa a pelar, nÃo podemos impedir-nos de brincar com ela.
Por isso toda a gente brincava com os farrapos que saíam das
canetas.
Agora a companhia tinha este problema de emergência de
arranjar as canetas e o meu companheiro decidiu que precisava
de um grande microscópio, etc. Ele nÃo sabia o que ia ver, ou
porquê, e a sua companhia gastou uma data de dinheiro nesta
pesquisa a fingir. Como
58
resultado, ficaram em apuros: nunca resolveram o problema e a
companhia faliu, por o seu primeiro grande trabalho ter sido
um tal falhanço.
Alguns anos depois eu estava em Los Alamos, onde havia um
homem chamado Frederic de Hoffman, que era uma espécie de
cientista; tinha, além disso, muito jeito para administraçÃo.
NÃo tendo muita experiência, gostava de matemática e
trabalhava muito; compensava a sua falta de experiência com
muito trabalho. Mais tarde veio a ser presidente ou
vice-presidente da General Atomics e tornou-se uma grande
personalidade da indústria. Mas nessa altura era só um rapaz
entusiástico, cheio de energia e observador, colaborando no
projecto o melhor que podia.
Um dia estávamos a comer no Fuller Lodge e ele disse-me que
tinha trabalhado em Inglaterra antes de vir para Los Alamos.
"Que tipo de trabalho fazia lá?", perguntei.
"Trabalhava num processo de metalizar plásticos. Era um dos do
laboratório. "
"Como é que correu?"
"Dava-me bem, mas tínhamos os nossos problemas."
"Sim?"
"Precisamente quando começávamos a desenvolver o nosso
processo, havia uma companhia em Nova lorque ... "
"Que companhia em Nova Iorque?"
"Chamava-se Corporaçâo Metaplast. Estavam mais adiantados do
que nós."
"Como é que sabiam?"
"Estavam sempre a anunciar na Plásticos Modernos, com anúncios
que ocupavam uma página inteira, mostrando todas as coisas que
metalizavam, e percebemos que eles tinham avançado mais do que
nós."
"Vocês tinham algum material deles?"
"NÃo, mas podíamos ver pelos anúncios que eles estavam muito à
nossa frente. O nosso processo era bastante bom, mas nÃo valia
a pena tentar competir com um processo americano como aquele."
"Quantos químicos tinham vocês a trabalhar no laboratório?"
"Tínhamos seis."
"Quantos químicos pensa que tinha a CorporaçÃo Metaplast?"
"Oh! Devia ter um verdadeiro departamento de química!"
"Quer descrever-me o aspecto que, segundo pensa, teria o
químico Principal de pesquisa da CorporaçÃo Metaplast e como
funcionaria o seu laboratório?"
59

"Diria que devem ter vinte e cinco ou cinquenta químicos e que


o químico principal de pesquisa tem o seu próprio escritório
-especial, com vidro. Sabe, como se vê nos filmes -com tipos
sempre a entrar com projectos de pesquisa que têm entre mÃos,
para lhe pedirem conselho, e a sair a correr, para fazerem
mais pesquisas, e pessoas sempre fora e dentro. Com vinte e
cinco ou cinquenta químicos, como podíamos nós competir com
eles?"
"Vai interessá-lo e diverti-lo saber que está neste momento a
falar com o químico principal de pesquisa da CorporaçÃo
Metaplast, cujo pessoal consistia num lavador de garrafas!"
2. a PARTE
Os anos de Princeton

"Está a brincar, Sr. Feynman!"


Quando andava no MIT, antes de me licenciar adorava-o.
Achava-o uma óptima escola e queria licenciar-me lá também,
claro. Mas, quando fui ter com o Prof. Slater e lhe contei as
minhas intenÇÕES, ele disse: "NÃo o deixamos cá ficar."
"O quê?"
Siater perguntou: "Porque acha que se deve licenciar no MIT?"
"Porque o MIT é a melhor escola do país no campo da ciência."
"Pensa isso?"
"Penso."
"É por isso que devia ir para outra escola. Devia descobrir
como é o resto do mundo."
E assim decidi ir para Princeton. Acontece que Princeton tinha
uma certa aparência de elegância. Era, em parte, uma imitaçÃo
de uma escola inglesa. Por isso os tipos da fraternidade, que
conheciam os meus modos informais, um pouco rudes, começaram a
fazer comentários do gênero: "Esperem até eles verem quem lhes
aparece em Princeton! Esperem até eles verem o erro que
cometeram!" Por isso decidi tentar ser simpático quando
cheguei a Princeton.
O meu pai levou-me a Princeton no seu carro, indicaram-me o
meu quarto e ele deixou-me. Ainda nÃo estava lá há uma hora
quando um homem se me apresentou: "Sou o mestre das
residências aqui e gostava de lhe dizer que o deÃo dá um chá
esta tarde e gostaria que viessem todos. Talvez pudesse ter a
gentileza de informar o seu companheiro de quarto, o Sr.
Serette."
Foi a minha apresentaçÃo ao "colégio" de licenciatura de
Princeton, onde viviam todos os estudantes. Era como uma
imitaçÃo de Oxford ou de Cambridge -com pronúncias e tudo.
Havia um porteiro
63

lá em baixo, todos tinham quartos agradáveis e tomávamos as


refeiÇÕES em conjunto, usando togas acadêmicas, numa grande
sala com janelas de vitrais.
Assim, na mesma tarde em que cheguei a Princeton fui ao chá do
deÃo, e nem sequer sabia o que era um "chá", qual a sua razÃo!
NÃo possuía nenhumas atributos sociais, nem tinha experiência
destas coisas.
Deste modo, chego à porta, e lá está o deÃo Eisenhart a
cumprimentar os novos alunos: "Oh, é o Sr. Feynman", diz ele.
"Estamos contentes por o ter cá. " Isso ajudou um pouco, o ele
ter-me reconhecido, nÃo sei como.
Entro pela porta e vejo algumas senhoras e raparigas. É tudo
muito formal e estou a pensar onde me sentar, e se me devo ou
nÃo sentar ao pé de certa rapariga, e como me devo comportar,
quando oiço uma voz atrás de mim:
"Quer natas ou limÃo com o chá, Sr. Feynman?" É a Sr.'
Eisenhart servindo o chá.
"Quero as duas coisas, obrigado", respondo eu, ainda a
procurar um sítio para me sentar, quando, subitamente, oiço:
"Eli-eli-eli-eli-eli. Deve estar a brincar, Sr. Feynman."
A brincar? A brincar? Que raio tinha eu acabado de dizer?
EntÃo percebi o que tinha feito. Foi assim a minha primeira
experiência no que respeita ao chá.
Mais tarde, depois de ter estado mais tempo em Princeton,
acabei por perceber este "Eh-eh-eh-eh-eh". De facto, foi nesse
primeiro chá, ao ir-me embora, que percebi que queria dizer:
"Está a cometer um erro social. " Porque da próxima vez que
ouvi este mesmo cacarejo, "Eli-eli-eli-eli-eli ", à Sr.`
Eisenhart, alguém lhe beijava a mÃo à saída.
De outra vez, talvez passado um ano, noutro chá, eu estava a
falar com o Prof. Wildt, um astrónomo que tinha desenvolvido
uma teoria qualquer sobre as nuvens de Vénus. Supunha-se que
eram de formaldeído (é maravilhoso conhecer aquilo com que
dantes nos preocupávamos) e ele tinha tudo pensado, como o
formaldeído se precipitava, e assim por diante. Era
extremamente interessante. Estávamos a falar sobre todas estas
coisas, quando veio uma senhora pequenina e disse: "Sr.
Feynman, a Sr.' Eisenhart queria falar consigo."
"Está bem, só um minuto ... ", e continuei a falar com Wildt.
A senhora pequenina voltou e disse: "Sr. Feynman, a Sr.'
Eisenhart queria falar consigo."
"Está bem, está bem! ", e vou ter com a Sr.' Eisenhart, que
está a servir o chá.
64
"Quer tomar café ou chá, Sr. Feynman?"
"A Sr.' Fulana diz que a senhora quer falar comigo."
"Eli-eli-eli-eli-eli. Quer tomar café ou chá, Sr. Feynman?"
"Chá", disse eu, "obrigado."
Alguns momentos depois chegou a filha da Sr.' Eisenhart com
uma colega e fomos apresentados um ao outro. O significado
deste "eh-eh-ch-eh-eh" era: a Sr.' Eisenhart nÃo queria falar
comigo, queria-me ali a tomar chá quando chegasse a filha com
a amiga, para que elas tivessem com quem falar. Era assim que
funcionava. Nessa altura eu já sabia o que devia fazer quando
ouvia "Eh-eh-eh-eh-eh". NÃo disse: "O que quer dizer com esse
'Eli-eli-eli-eli-eliV; sabia que o "eh-eh-eh" queria dizer
"erro" e que o melhor que tinha a fazer era emendá-lo.
Todas as noites usávamos as togas acadêmicas para jantar. Na
primeira noite isso assustou-me bastante, porque nÃo gostava
de formalidades. Mas depressa compreendi que as togas eram uma
grande vantagem. Os tipos que estivessem lá fora a jogar ténis
podiam ir a correr ao quarto, pegar na toga e vestí-la. NÃo
tinham de perder tempo a mudar de roupa ou a tomar duche.
Assim, debaixo das togas havia braços nus, camisolas, tudo.
Além disso, havia a regra de que nunca se podia limpar a toga,
pelo que se conseguia distinguir um homem do primeiro ano de
um do segundo, de um do terceiro e de um porco! Nunca se
limpava nem consertava a toga, razÃo por que os do primeiro
ano tinham togas com bom aspecto, relativamente limpas, mas,
quando se chegava ao terceiro ano, ou coisa assim, nÃo
passavam de uma espécie de cartÃo nos ombros com farrapos
pendu ' rados.
Quando cheguei a Princeton, fui a esse chá de domingo à tarde
e jantei à noite com uma toga acadêmica. no "Colégio". Mas, na
segunda-feira, a primeira coisa que queria fazer era ver o
ciclotrÃo.
0 MIT construíra um novo ciclotrÃo enquanto eu lá estudava e
era mesmo lindo! 0 ciciotrÃo propriamente dito estava numa
sala, com os controlos noutra sala. Estava muito bem
construido. Os fios desciam em tubos do ciclotrÃo para a sala
de controlo, onde havia uma consola cheia de botSes e de
medidores. Era o que eu chamaria um cielotrÃo forrado a ouro.
Ora eu lera uma data de textos sobre experiências com o
ciclotrÃo e nÃo havia muitos do MIT. Talvez estivessem apenas
a começar. Mas havia muitos resultados de lugares como
CornelI, Berkeley e sobretudo Princeton. Portanto, o que eu
queria realmente, o que eu estava ansioso por ver, era o
CICLOTRÃO DE PRINCETON. Devia ser qualquer coisa!
65

Assim, a primeira coisa que fiz na segunda-feira foi entrar no


edifício de Física e perguntar: "Onde está o ciclotrÃo? Qual é
o edifício?"
"É lá em baixo na cave, ao fim do corredor."
Na cave? Era um edifício antigo. nÃo havia espaço na cave para
um ciciotrâo. Fui até ao fim do corredor, atravessei a porta e
em dez segundos soube porque é que Princeton estava bem para
mim -o melhor lugar para eu estudar. Nesta sala havia fios
estendidos por toda aparte! Havia interruptores pendurados nos
fios, a água para o arrefecimento pingava das válvulas, a sala
estava cheia de coisas, tudo à vista. Havia por toda a parte
mesas apinhadas de ferramentas; era a confusÃo mais horrorosa
que alguma vez se viu. o ciclotrÃo estava todo ali, numa sala,
e era o caos, absoluto e completo!
Recordava-me o meu laboratório, em casa. Nada no MIT me tinha
recordado o meu laboratório. De repente compreendi por que
razÃo Princeton obtinha resultados. Eles trabalhavam com o
instrumento. Tinham construído o instrumento; sabiam onde
estavam todas as coisas, sabiam como tudo funcionava, nÃo
havia nenhum engenheiro envolvido, a nÃo ser que também lá
trabalhasse. Era muito mais pequeno do que o ciclotrÃo do MIT
e "forrado a ouro"? -era exactamente o oposto. Quando queriam
arranjar um vazio, deitavam-lhe gliptal, pelo que havia gotas
de gliptal no chÃo. Era maravilhoso. Porque trabalhavam com
ele. NÃo tinham de estar noutra sala a carregar em botSes! Por
acaso houve um fogo nessa sala, por causa da confusÃo caótica
que reinava -demasiados fios-, e isso destruiu o ciclotrÃo.
Mas é melhor nÃo falar no assunto.
(Quando cheguei a Corneli, fui ver o ciclotrÃo de lá. Mal
precisava de uma sala: tinha mais ou menos uma jarda de secçÃo
-o diâmetro total. Era o ciclotrÃo mais pequeno do mundo, mas
tinham tido resultados fantásticos. Possuíam toda a espécie de
técnicas e truques especiais. Se queriam mudar qualquer coisa
nos "dês" -os semicírculos em forma de D onde circulam as
partículas -, pegavam numa chave de parafusos, tiravam os dês
com a mÃo, consertavam-nos e voltavam a pô-los. Em Princeton
era bastante mais difícil e no MIT tinha de se trazer um
guindaste e baixar o gancho através do tecto, o que dava um
trabalho dos diabos.)
Aprendi uma porçÃo de coisas diferentes em diferentes escolas.
0 MIT é um sítio muito bom; nÃo estou a querer depreciá-lo. Eu
adorava-o. Desenvolveu um espírito muito próprio, de modo que
cada membro dele pensa que é o melhor sítio do mundo -é, de
algum modo, o centro do desenvolvimento científico e
tecnológico dos Estados Uni
66
dos, se nÃo do mundo. É como a opiniÃo sobre Nova Iorque de um
seu habitante: esquecem-se do resto do país. E, ao mesmo tempo
que nÃo se possui lá um bom sentido das proporÇÕES, tem-se uma
excelente sensaçÃo de se fazer parte dele e de se sentir
motivaçÃo e desejo de continuar -a sensaçÃo de que se é
especialmente escolhido e afortunado por lá estar.
Assim, o MIT era bom, mas Slater tinha razÃo ao aconselhar-me
a ir para outra escola fazer a licenciatura. E dou
frequentemente o mesmo conselho aos meus alunos. Aprender como
é o resto do mundo. A variedade vale a pena.
Fiz uma vez uma experiência no laboratório do ciclotrÃo de
Princeton que teve resultados assustadores. Havia um problema
no livro de Hidrodinâmica que estava a ser discutido por todos
os estudantes de Física. O problema era o seguinte: temos uma
máquina de regar em forma de S -um cano em forma de S e um
eixo -e a água jorra formando ângulos rectos com o eixo e faz
com que ele gire numa certa direcçÃo. Toda a gente sabe em que
sentido ele gira; no sentido contrário ao da água que sai. Ora
a pergunta é: se tivermos um lago, ou uma piscina -uma grande
reserva de água-, se cobrirmos completamente a máquina de água
e aspirarmos a água em vez de a fazer jorrar, para que lado
girará? Girará no mesmo sentido em que gira quando a água
jorra para o ar, ou girará no sentido contrário?
A resposta é perfeitamente clara à primeira vista. O problema
era que um tipo achava que era perfeitamente clara num sentido
e outro achava que era perfeitamente clara no outro sentido.
Por isso, toda a gente o discutia. Lembro-me em particular de
uma reuniÃo, ou um chá, em que alguém foi ter com o Prof. John
Wheeler e perguntou: "Em que sentido pensa o senhor que ela
gira?"
Wheeler respondeu: "Ontem, Feynman convenceu-me de que girava
para trás. Hoje convenceu-me igualmente de que gira no outro
sentido. NÃo sei do que me irá convencer amanhÃ!"
Vou dar-vos um argumento que vos fará pensar que é de uma
maneira e outro que vos fará pensar que é da outra maneira, de
acordo?
Um argumento é que, quando aspiramos a água, é como se a
estivéssemos a puxar com o bico, razÃo por que ele avança na
direcçÃo da água que entra.
Mas entÃo vem outro tipo que diz: "Vamos supor que a seguramos
e nos perguntamos de que espécie de torçÃo necessitamos para a
segurar. No caso em que a água sai sabemos todos que temos de
a segurar no exterior da curva, devido à força centrífuga da
água ao descrever
67
aquela. Ora, quando a água descreve a curva no outro sentido,
continua a exercer a mesma força centrífuga na direcçÃo do
exterior da curva. Portanto, os dois casos sÃo iguais e a
máquina gira do mesmo modo, quer estejamos a fazer jorrar a
água, quer a aspirá-la."
Depois de pensar um bocado decidi, finalmente, qual era a
resposta e, para a demonstrar, queria fazer uma experiência.
No laboratório do ciclotrÃo de Princeton tinham um grande
garrafÃo -uma garrafa de água enorme. Achei que era o ideal
para a experiência. Arranjei um bocado de tubo de cobre e
dobrei-o em forma de S. Depois fiz um buraco no meio,
enfiei-lhe um bocado de uma mangueira de borracha e fi-lo
passar por um buraco feito numa rolha que tinha posto na parte
de cima da garrafa. A rolha tinha outro buraco, no qual pus
outro bocado de mangueira de borracha, que liguei à reserva de
pressÃo de ar do laboratório. Fazendo entrar ar na garrafa,
podia empurrar água para dentro do tubo, exactamente como se a
estivesse a aspirar. Ora o tubo em forma de S nÃo ia rodar,
mas ia torcer-se (devido à mangueira de borracha, flexível), e
eu ia medir a velocidade do fluxo de água medindo a distância
a que ele jorraria do topo da garrafa.
Preparei tudo, liguei o ar e aquilo fez "Puup!" A pressÃo do
ar tinha atirado com a rolha da garrafa. Amarrei-a muito bem,
para que nÃo saltasse. Agora a experiência estava a correr
bastante bem. A água estava a sair e a mangueira a torcer-se,
pelo que aumentei um pouco a pressÃo, dado que, a maior
velocidade, as mediÇÕES seriam mais precisas. Medi o ângulo
com muito cuidado, assim como a distância, e voltei a aumentar
a pressÃo, e de repente aquilo rebentou tudo, atirando vidro e
água em todas as direcÇÕES pelo laboratório fora. Um tipo que
tinha vindo assistir ficou todo molhado e teve de ir a casa
mudar de roupa (foi um milagre nÃo se ter cortado com o vidro)
e uma porçÃo de fotografias da câmara de nevoeiro que tinham
sido tiradas pacientemente usando o ciclotrÃo molharam-se
todas, mas, por qualquer razÃo, eu estava suficientemente
afastado, ou em qualquer posiçÃo em que nÃo me molhei muito.
Mas lembrar-me-ei sempre como o grande Prof. Del Sasso, que
era o encarregado do ciclotrÃo, veio ter comigo e disse
severamente: "As experiências dos caloiros deviam ser feitas
no laboratório dos caloiros!"
68
Euuuuuu!
+s quartas-feiras vinham várias pessoas fazer palestras ao
"colégio" de licenciatura de Princeton. Os oradores eram
frequentemente interessantes e nos debates depois das
palestras costumávamos divertirnos imenso. Por exemplo, um
tipo da nossa escola era profundamente anticatólico, pelo que
distribuiu antecipadamente perguntas para as pessoas fazerem a
um orador refigioso e fizemos o orador passar um mau bocado.
De outra vez, alguém fez uma palestra sobre poesia. Falou
sobre a estrutura do poema e as emoÇÕES que o acompanham;
dividiu tudo em determinados tipos de classes. No debate que
se seguiu disse: "NÃo se passa o mesmo com a matemática, Dr.
Eisenhart?"
O Dr. Eisenhart era o deÃo do "colégio" de licenciatura e um
grande professor de Matemática. Era também muito esperto.
Disse: "Gostava de saber o que Dick Feynman pensa
sobre isso
em relaçÃo à física teórica." Estava sempre a colocar-me neste
tipo de situaÇÕES.
Levantei-me e disse: "Sim, tem uma relaçÃo muito próxima. Na
física teórica, o análogo da palavra é a fórmula matemática, o
análogo da estrutura do poema é a inter-relaçÃo entre o
isto-e-aquilo teórico como o etc.-e-tal" -e analisei tudo,
fazendo uma analogia perfeita. Os olhos do orador brilhavam de
felicidade.
EntÃo continuei: "Parece-me que, seja o que for que diga sobre
poesia, eu consigo arranjar maneira de construir uma analogia
com qualquer assunto, tal como fiz com a física teórica. NÃo
acho que essas analogias tenham sentido."
Na grande sala de jantar com janelas de vitral, onde comíamos
sempre, com as nossas togas acadêmicas em decadência
constante, o deÃo Eisenhart começava cada jantar dando graças
em latim. Depois do jantar levantava-se frequentemente e fazia
algumas comunicaÇÕES. Uma noite levantou-se e disse: "Daqui a
duas semanas vem cá um professor de Psicologia fazer uma
palestra sobre a hipnose. Ora este professor pensou que seria
muito melhor termos uma verdadeira demonstraçÃo' de hipnose do
que falar apenas nela. Portanto, queria que algumas pessoas se
oferecessem para ser hipnotizadas ... "
Fico todo entusiasmado. Tenho absolutamente de saber como é a
hipnose. Vai ser fantástico!
O deÃo Eisenhart continuou a dizer que seria bom que se
oferecessem três ou quatro pessoas para que o hipnotizador
pudesse experimentá-las primeiro para ver quais conseguia
hipnotizar, pelo que
69
queria insistir muito para que nos candidatássemos. (Está a
perder este tempo todo, por amor de Deus!)
Eisenhart encontrava-se num extremo da sala e eu no outro, lá
atrás. Estavam ali centenas de tipos. Sabia que todos iam
querer entrar naquilo e estava cheio de medo de que ele nÃo me
visse por estar tÃo para trás. Eu tinha mesmo de participar na
demonstraçÃo!
Finalmente, Eisenhart disse: "E por isso queria perguntar se
há alguns voluntários ... "
Levantei a mÃo e saltei do lugar, gritando tÃo alto quanto
podia, para ter a certeza de que ele me ouvia: EUUU!"
Ele ouviu-me bastante bem, porque nÃo houve mais ninguém. A
minha voz ecoou por toda a sala -foi muito embaraçoso. A
reacçÃo imediata de Eisenhart foi: "Sim, com certeza, eu sabia
que o senhor se ia oferecer, Sr. Feynman, mas queria saber se
havia mais alguém. "
Finalmente ofereceram-se mais alguns tipos, e uma semana antes
da demonstraçÃo o homem veio treinar connosco, para ver se
algum de nós era bom para a hipnose. Eu conhecia o fenômeno,
mas nÃo sabia como era ser hipnotizado.
Ele começou a trabalhar-me e depressa cheguei a uma situaçÃo
em que ele disse: "Você nÃo consegue abrir os olhos."
Disse para comigo: "Aposto que podia abrir os olhos, mas nao
quero perturbar a situaçÃo. Vamos ver até onde isto vai."
Era uma situaçÃo interessante. Estamos apenas ligeiramente
confusos e, apesar de termos cedido um pouco, temos a certeza
de que podíamos abrir os olhos. Mas, claro, nÃo abrimos os
olhos, pelo que, num sentido, nÃo os podemos abrir.
Fez uma série de coisas e decidiu que eu era bastante bom.
Quando chegou a altura da verdadeira demonstraçÃo, ele fez-nos
ir para o palco e hipnotizou-nos em frente de todo o "colégio"
de licenciatura de Princeton. Desta vez o efeito foi mais
forte; penso que tinha aprendido a ficar hipnotizado. O
hipnotizador fez várias demonstraÇÕES, mandando-me fazer
coisas que eu normalmente nÃo conseguiria fazer, e no fim
disse que, depois de eu sair da hipnose, em vez de voltar
directamente para o meu lugar, o que seria normal, eu ia dar a
volta à sala e dirigir-me ao meu lugar de costas.
Durante toda a demonstraçÃo, eu estava vagamente consciente do
que se passava, mas desta vez decidi: "Diabos o levem, já
chega! Vou direito para o meu lugar."
Quando chegou a altura de me levantar e sair do palco, comecei
a dirigir-me para o meu lugar. Mas entÃo tive uma sensaçÃo
aborrecida:
70
senti-me tÃo incomodado que nÃo pude continuar. Dei a volta a
toda a sala.
Fui hipnotizado noutra situaçÃo, algum tempo depois, por uma
mulher. Quando estava hipnotizado, ela disse: "Vou acender um
fósforo, apagá-lo e tocar imediatamente as costas da sua mÃo
com ele. NÃo sentirá nenhuma dor."
Pensei: "Tretas!" Ela pegou num fósforo, acendeu-o, apagou-o e
tocou com ele as costas da minha mÃo. Sinto um ligeiro calor.
Tenho os olhos fechados enquanto isto se passa, mas penso: "É
fácil. Ela acendeu um fósforo, mas tocou a minha mÃo com
outro. Aquilo nÃo é nada, é uma aldrabice!"
Quando saí da hipnose e olhei para as costas da mÃo, tive a
maior das surpresas: havia uma queimadura nas costas da minha
mÃo. Depressa se formou uma bolha, mas nunca doeu nada, mesmo
quando rebentou.
Por isso achei a hipnose uma experiência muito interessante.
Durante todo o tempo dizemos a nós próprios: "Eu podia fazer
aquilo, mas nÃo quero"-o que é apenas outro modo de dizer que
nÃo podemos.
Um mapa do gato?
Na sala de jantar do "colégio" de licenciatura de Princeton,
cada um de nós sentava-se sempre com o seu grupo. Eu
sentava-me com os físicos, mas ao fim de algum tempo pensei:
"Era. agradável ver o que faz o resto do mundo, e por isso vou
sentar-me durante uma semana ou duas em cada um dos outros
grupos. "
Quando me sentei com os filósofos, ouvi-os discutir com muita
seriedade um livro chamado Processo e Realidade, de Whitehead.
Utilizavam as palavras de maneira estranha e eu nÃo conseguia
perceber muito bem o que diziam. Ora eu nÃo queria interromper
a conversa deles para estar sempre a pedir que me explicassem
qualquer coisa e, nas poucas ocasiSes em que o fiz, eles
tentavam explicar-me, mas eu continuava a nÃo perceber. Por
fim convidaram-me a ir ao seu seminário.
Tinham um seminário que era como uma aula. Reunia-se uma vez
por semana para discutir um novo capítulo de Processo e
Realidade um tipo fazia uma exposiçÃo sobre ele e em seguida
havia um debate. Fui ao seminário, prometendo a mim mesmo
ficar de boca fechada, lembrando-me de que nÃo sabia nada
sobre o assunto e que ia lá só para observar.
71

O que lá aconteceu foi típico -tÃo típico que era


inacreditável, mas verdadeiro. Ao princípio sentei-me sem
dizer nada, o que é quase ina creditável, mas também
verdadeiro. Um aluno fez uma exposiçÃo sobre o capítulo a
estudar nessa semana. Nesse capítulo, Whitehead usava
frequentemente as palavras "objecto essencial" dum modo
técnico particular, que tinha presumivelmente definido, mas
que eu nÃo compreendia.
Depois de alguma discussÃo sobre o significado de "objecto
essencial", o professor que dirigia o seminário disse algo com
o intuito de clarificar as coisas e desenhou no quadro
qualquer coisa semelhante a raios. "Sr. Feynman", disse ele,
"diria que um electrÃo é um 'objecto essencial?"
Bem, agora é que eu estava em apuros. Admiti que nÃo tinha
lido o livro, pelo que nÃo fazia ideia do que Whitehead queria
dizer com a frase; eu só ia para observar. "Mas", disse eu,
"vou tentar responder à pergunta do professor se me
responderem primeiro a uma outra pergunta, para que eu possa
ter uma ideia melhor do que significa ,objecto essencial. Um
tijolo é um objecto essencial?"
A minha intençÃo era descobrir se eles achavam que as
construÇÕES teóricas eram objectos essenciais. O electrÃo é
uma teoria que utilizamos; é tÃo útil para compreender o modo
como funciona a natureza que quase podemos dizer que é real.
Queria tornar clara a ideia de teoria com uma analogia. No
caso do tijolo, a minha próxima pergunta ia ser: "E o interior
do tijolo?" -e entÃo salientaria que nunca ninguém viu o
interior de um tijolo. Cada vez que partimos um tijolo vemos
apenas uma superfície. O facto de o tijolo ter um interior é
uma simples teoria que nos ajuda a compreender melhor as
coisas. A teoria dos electrSes é análoga. Por isso comecei por
perguntar: "Um tijolo é um objecto essencial?"
EntÃo vieram as respostas. Um indivíduo levantou-se e disse:
"Um tijolo é um tijolo específico, individual. É esse o
significado de objecto essencial para Whitehead.
Outro afirmou: "NÃo, nÃo é o tijolo individual que é um
objecto essencial; é a característica geral que todos os
tijolos têm em comum -a sua 'qualidade de serem tijolos'-,
isso é que é o objecto essencial "
Outro tipo levantou-se e disse: "NÃo, nÃo está nos próprios
tijolos. 'Objecto essencial significa a ideia que temos no
nosso espírito quando pensamos em tijolos."
Outro tipo levantou-se, e outro, e digo-vos que nunca ouvi
antes maneiras tÃo diferentes e engenhosas de encarar um
tijolo. E, exacta
72
mente como seria de esperar em todas as histórias sobre
filósofos, acabou num caos completo. Em todas as discussSes
anteriores, nem sequer se tinham interrogado se um objecto tÃo
simples como um tijolo era um "objecto essencial", quanto mais
um electrÃo.
Depois disso, à hora de jantar dirigi-me para a mesa da
biologia. Tinha-me sempre interessado por biologia e os tipos
falavam de coisas muito interessantes. Alguns deles
convidaram-me para um curso que iam ter sobre a fisiologia das
células. Eu sabia umas coisas de biologia, mas este curso era
de licenciatura. "Acham que eu consigo? O professor
deixar-me-á entrar?", perguntei eu.
Perguntaram ao instrutor, E. Newton Harvey, que tinha
pesquisado imenso sobre bactérias produtoras de luz. Harvey
respondeu que eu podia participar neste curso avançado e
especial com uma condiçÃo: que eu fizesse o trabalho todo e
relatórios escritos, como todos os outros.
Antes da primeira reuniÃo da turma, os tipos que me tinham
convidado para o curso queriam mostrar-me umas coisas ao
microscópio. Tinham lá umas células de plantas e conseguíamos
ver uns pontos verdes chamados cloroplastos (produzem açúcar
quando a luz incide neles), que circulavam. Olhei para eles e
depois para cima: "Como é que eles circulam? O que é que os
faz andar?", perguntei.
Ninguém sabia. Acontece que, nessa altura, o fenômeno nÃo era
compreendido. Assim, descobri logo uma coisa sobre biologia:
era muito fácil encontrar uma pergunta que fosse muito
interessante e de que ninguém soubesse a resposta. Em física
tínhamos de aprofundar um pouco mais até encontrar uma
pergunta interessante que as pessoas nÃo conhecessem.
Quando o curso se iniciou, Harvey começou por fazer no quadro
um grande desenho de uma célula, rotulando todas as coisas que
numa célula existem. Falou em seguida sobre elas e eu percebi
a maior parte do que ele disse.
Depois da liçÃo, o tipo que me tinha convidado perguntou:
"Bem, que lhe pareceu?"
"Gostei bastante", disse eu. "Só nÃo compreendi aquela parte
sobre a lecitina. 0 que é a lecitina?"
O tipo começa a explicar com voz monótona: "Todos os seres
vivos, plantas ou animais, sÃo feitos de objectos parecidos
com tijolos chamados 'células' ... "
"Oiça", disse eu, com impaciência, "eu sei isso tudo; de outro
modo, nÃo estaria no curso. O que é a lecitina?"

"NÃo sei."
Tive de fazer relatórios escritos como todos os outros e o
primeiro que me foi atribuído era sobre o efeito da pressÃo
sobre as célulasHarvey escolheu esse tópico para mim porque
estava relacionado com a física. Apesar de eu compreender o
que fazia, pronunciei tudo mal quando li o trabalho e a turma
desatava à gargalhada quando eu falava de "blastosferas" em
vez de "blastómeros", ou qualquer outra coisa.
O próximo trabalho que me destinaram era de Adrian e Bronk.
Demonstravam eles que os impulsos nervosos eram fenômenos de
pulsar único, pontual. Tinham feito experiências com gatos em
que mediram as voltagens dos nervos.
Comecei a ler o trabalho. Ia falando de extensores e de
flexores, do músculo gastrocnémio, e assin por diante.
Mencionavam este e aquele músculo, mas eu nÃo fazia a mínima
ideia de onde eles se localizavam em relaçÃo aos nervos ou ao
gato. Por isso fui ter com a bibliotecária da secçÃo de
biologia e pedi-lhe que me arranjasse um mapa do gato.
"Um mapa do gato?", perguntou ela, horrorizada. "Quer dizer
uma carta zoológica!" A partir dessa altura falava-se de um
estúpido estudante de licenciatura de Biologia que andava à
procura de um "mapa do gato".
Quando chegou a altura de apresentar a minha exposiçÃo sobre o
assunto, iniciei-a fazendo um esboço do gato e comecei a
nomear os vários músculos.
Os outros alunos da turma interromperam-me: "Nós sabemos isso
tudo!"
"Oh", disse eu, "sabem? EntÃo nÃo admira que eu consiga
alcançá-los tÃo depressa depois de terem feito quatro anos de
Biologia." Tinham perdido o tempo todo a decorar coisas assim,
quando elas podiam ser encontradas em quinze minutos.
Depois da guerra, eu fazia todos os VerSes uma viagem de carro
a qualquer parte dos Estados Unidos. Um ano, depois de ter
estado em Caltech, pensei: "Este VerÃo, em vez de ir para um
lugar diferente, vou para um campo diferente."
Foi logo a seguir à descoberta da espiral do ADN, por Watson e
Crick. Havia biólogos muito bons em Caltech porque Delbrück
tinha lá o seu laboratório, e Watson foi a Caltech fazer
conferências sobre os sistemas de código do ADN. Fui às suas
conferências e a seminários no Departamento de Biologia e
fiquei cheio de entusiasmo. Era um tempo muito excitante para
a biologia e Caltech era um lugar maravilhoso para estar.
74
NÃo me achava capaz de fazer uma autêntica pesquisa em
biologia, pelo que, para a minha visita de VerÃo ao campo da
biologia, pensei que ia apenas andar pelo laboratório de
biologia a "lavar pratos", enquanto observava o que eles
faziam. Fui até ao laboratório de biologia contar-lhes o meu
desejo e Bob Edgar, um jovem recém-doutorado que era quem
dirigia aquilo, declarou que nÃo me deixava fazer isso. Disse
ele: "Tem de fazer realmente alguma pesquisa, exactamente como
um estudante de licenciatura, e nós damos-lhe um problema para
investigar." Aquilo veio mesmo a calhar.
Tirei um curso sobre fagos, que nos ensinou o modo de fazer
pesquisa sobre os bacteriófagos (um fago é um vírus que tem
ADN e ataca as bactérias). Descobri logo que o facto de saber
alguma física e alguma matemática me poupava muitos
aborrecimentos. Eu sabia como os átomos actuavam nos líquidos,
pelo que nÃo havia nada de misterioso no modo como funcionava
a centrifugadora. Sabia o suficiente de estatística para
compreender os erros estatísticos ao contar pontinhos num
prato. Por isso, enquanto todos os tipos de biologia tentavam
compreender essas coisas "novas", eu podia passar o tempo a
aprender a parte da biologia.
Aprendi nesse curso uma técnica de laboratório útil, que ainda
uso. Ensinaram-nos a segurar um tubo de ensaio e a tirar a
tampa com uma mÃo (usa-se o dedo médio e o indicador),
deixando livre a outra mÃo para fazer qualquer outra coisa
(como segurar uma pipeta com que aspiramos cianido). Agora sou
capaz de segurar a escova de dentes com uma mÃo e com a outra
mÃo segurar o tubo da pasta de dentes, desenroscar a tampa e
voltar a pô-la.
Tinham descoberto que os fagos podiam sofrer mutaÇÕES que
afectavam a sua capacidade de atacar as bactérias. Alguns
fagos que sofriam a mutaçÃo inversa ficavam exactamente como
antes. Outros nÃo: havia uma ligeira diferença no seu efeito
sobre as bactérias -actuavam mais depressa ou mais lentamente
do que o normal. Por outras palavras, havia "mutaÇÕES
inversas", mas nem sempre eram perfeitas; por vezes o fago
recuperava apenas parte da capacidade que tinha perdido.
Bob Edgar sugeriu que eu fizesse uma experiência tentando
descobrir se as mutaÇÕES inversas ocorriam no mesmo lugar que
a espiral do ADN. Com muito cuidado e um trabalho fastidioso
consegui encon trar três exemplos de mutaÇÕES inversas que
tinham ocorrido muito próximas -mais próximas do que qualquer
coisa que eles tinham visto até essa altura -e que
restauraram parcialmente a capacidade do fago para actuar. Era
um trabalho lento. Era como que acidental: tínha

mos de ficar à espera até termos uma mutaçÃo dupla, que era
muito rara.
Estava sempre a tentar pensar em meios de fazer com que um
fago sofresse mutaÇÕES com maior frequência e de detectar as
mutaÇÕES mais rapidamente, mas, antes de eu conseguir arranjar
uma boa técnica, o VerÃo acabou e nÃo me apetecia continuar
com esse problema.
Contudo, o meu ano sabático aproximava-se, pelo que decidi
trabalhar no mesmo laboratório de biologia, mas sobre um
assunto diferente. Trabalhei até certa altura com Matt
Meselson e depois com um tipo simpático de Inglaterra chamado
J. D. Smith. O problema tinha que ver com os ribossomas, o
"mecanismo" da célula que produz as proteínas a partir do que
agora chamamos o ARN mensageiro. Usando substâncias
radiactivas, demonstrámos que o ARN pode sair dos ribossomas e
voltar a ser posto lá dentro.
Fiz um trabalho muito cuidadoso, medindo e tentando controlar
tudo, mas levei oito ' meses a compreender que havia um passo
escorregadio. Nesses dias, ao preparar a bactéria para extrair
os ribossomas, esmagávamo-la com alumina num almofariz. Tudo o
resto era químico e completamente controlado, mas nunca
podíamos repetir o modo como tínhamos rodado o pilÃo ao
esmagar a bactéria. Por isso a experiencia nunca resultava.
A seguir, acho que tenho de contar sobre aquela vez em que,
com Hildegarde Lanifrom, tentei descobrir se as ervilheiras
podem usar os mesmos ribossomas que as bactérias. A pergunta
era se os ribossomas das bactérias podem produzir as proteínas
dos seres humanos ou de outros organismos. Ela tinha acabado
de desenvolver um esquema para extrair os ribossomas das
ervilheiras e fornecer-lhes ARN mensageiro, para que
produzissem a proteína das ervilheiras. Compreendemos que uma
pergunta muito dramática e importante era se os ribossomas das
bactérias, ao receberem o ARN mensageiro das ervilheiras,
produziriam a proteína das ervilheiras ou a proteína das
bactérias. Ia ser uma experiência muito dramática e
fundamental.
Hildegarde disse: "Vou precisar de muitos cromossomas de
bactérias."
Meselson e eu tínhamos extraído enormes quantidades de
ribossomas de E. coli para outra experiência. Eu disse: "Ora,
vou mas é dar-lhe os ribossomas que nós temos. Temos uma data
deles no meu frigorífico, no laboratório."
Teria sido uma descoberta fantástica e vital se eu fosse um
bom biólogo. Mas eu nÃo era um bom biólogo. Tínhamos uma boa
ideia, uma
76
boa experiência, o equipamento certo, mas estraguei tudo:
dei-lhe ribos somas infectados -o erro mais crasso que se
podia fazer numa experiência daquelas. Os meu ribossomas
tinham estado no frigorífico quase um mês e haviam sido
contaminados por outros seres vivos. Se eu tivesse preparado
prontamente os ribossomas e lhos tivesse dado de modo sério e
cuidadoso, com tudo controlado, a experiência teria resultado
e teríamos sido os primeiros a demonstrar a uniformidade da
vida: o mecanismo que produz as proteínas, os ribossomas, é o
mesmo para todas as criaturas. Estávamos no sítio certo,
fazíamos as coisas certas, mas procedia como um
amador-estúpido e descuidado.
Sabem o que isto me recorda? O marido de Madame Bovary, no
livro de Flaubert, um obtuso médico de província que tinha uma
vaga ideia de como tratar o pé boto e que só martirizava as
pessoas. Eu era parecido com esse cirurgiÃo sem prática.
Nunca registei por escrito o outro trabalho sobre os fagos
-Edgar estava sempre a pedir-me que o escrevesse, mas nunca me
dispus a isso. É o problema de nÃo estarmos no nosso campo:
nÃo o levamos a sério.
Na realidade, escrevi informalmente qualquer coisa sobre ele.
Mandei-o a Edgar, que se riu quando o leu. NÃo estava na
forma-padrÃo utilizada pelos biólogos -primeiro,
procedimentos, e por aí adiante. Gastei imenso tempo a
explicar coisas que todos os biólogos sabiam. Edgar fez uma
versÃo reduzida, mas eu nÃo a consegui entender. NÃo me parece
que eles a tenham publicado. Eu nunca a publiquei
directamente.
Watson achou que o que eu fizera sobre os fagos tinha
interesse, pelo que me convidou para Harvard. Fiz para o
Departamento de Biologia uma conferência sobre as mutaÇÕES
duplas que ocorriam tÃo próximas. Disse-lhes que a minha
conjectura era que uma das mutaÇÕES produzia uma alteraçÃo na
proteína, como mudar o pH de um aminácido, enquanto a outra
mutaçÃo produzia a mudança oposta num aminácido diferente da
mesma proteína, de modo que compensava parcialmente a primeira
mutaçÃo -nÃo perfeitamente, mas o suficiente para que o fago
voltasse a actuar. Pensava que se davam duas mudanças na
proteína que se compensavam quimicamente.
Acabou por se verificar que nÃo era assim. Alguns anos depois,
pessoas que sem dúvida desenvolveram uma técnica para produzir
e detectar rapidamente as mutaÇÕES, descobriram que o que
acontecia era que a primeira mutaçÃo era uma mutaçÃo na qual
desaparecia uma base do ADN completa. Assim, o "código" ficava
trocado e já nÃo podia ser "fido". A segunda mutaçÃo era uma
em que se voltava a introdu

zir uma base extra, ou em que se tiravam outras duas. Agora o


código podia ler-se novamente. Quanto mais próximo a segunda
mutaçÃo ocorresse da primeira, menor quantidade da mensagem
seria alterada pela mutaçÃo dupla e mais completamente o fago
recuperaria as suas capacidades. O facto de haver três
"letras" para codificar cada aminácido fica assim demonstrado.
Durante a semana em que estive em Harvard, Watson fez uma
sugestÃo e fizemos uma experiência juntos durante uns dias.
Foi uma experiência incompleta, mas aprendi algumas técnicas
de laboratório com um dos melhores homens nesse campo.
Mas foi o meu grande momento: realizei um seminário no
Departamento de Biologia em Harvard! Faço sempre assim, entro
num assunto e vejo até onde posso ir.
Aprendi imensas coisas de biologia e ganhei muita experiência.
Melhorei a pronunciar palavras, a saber o que nÃo devia
incluir num texto ou num seminário e a detectar uma técnica
fraca numa experiência. Mas adoro a física e adoro voltar para
ela.
Cérebros enormes
Quando ainda era estudante de licenciatura em Princeton,
trabalhei como assistente de investigaçÃo sob a orientaçÃo de
John Wheeler. Ele deu-me um problema para investigar, o
problema complicou-se e eu nÃo conseguia avançar. Por isso
voltei a uma ideia que tivera há tempos, no MIT. A ideia era
que os electrSes nÃo actuam sobre si próprios, mas apenas
sobre outros electrSes.
Havia o problema seguinte: quando excitamos um electrÃo, ele
irradia energia, e por isso dá-se uma perda. Isso quer dizer
que ele deve ter uma força. E a força que tem quando está
carregado deve ser diferente da que tem quando nÃo está
carregado. (Se a força fosse exactamente a mesma quando está
carregado e quando nÃo está carregado, num caso ele perdia
energia e no outro nÃo. NÃo podemos ter duas respostas
diferentes para o mesmo problema.)
A teoria-padrÃo era que o electrÃo, actuando sobre si próprio,
produzia essa força (chamada "força de reacçÃo da radiaçÃo"),
e eu só tinha electrSes actuando sobre outros electrSes. Por
isso compreendi que nessa altura estava com algumas
dificuldades. (Quando estava no
78
MIT, tive a ideia sem reparar no problema, mas, quando cheguei
a Princeton, conhecia o problema.)
O que pensei foi: excito este electrÃo. Ele fará excitar
qualquer electrÃo próximo, e o efeito a partir do electrÃo
próximo originaria a força de reacçÃo da radiaçÃo. Por isso
fiz uns cálculos e levei-os a Wheeler.
Wheeler disse imediatamente: "Bem, isto nÃo está certo porque
varia inversamente com o quadrado da distância dos outros
electrSes, ao passo que nunca devia depender de nenhuma dessas
variáveis. Depende também do inverso da massa do outro
electrÃo; será proporcional à carga do outro electrÃo."
O que me aborreceu foi pensar que ele devia ter feito os
cálculos.
Só mais tarde compreendi que um homem como Wheeler pode ver
tudo' aquilo imediatamente quando lhe damos o problema. Eu
tinha de calcular, mas ele conseguia ver.
A seguir disse: "E vai sofrer uma demora -a onda volta
atrasada e, por isso, o que descreveu é luz reflectida."
"Oh! Claro", disse eu.
"Mas espere", volveu ele. "Vamos supor que volta por ondas
adiantadas -reacÇÕES que retrocedem no tempo -, e assim volta
no tempo certo. Vimos que o efeito variava inversamente com o
quadrado da distância, mas suponha que há uma data de
electrSes por todo o espaço: o número é proporcional ao
quadrado da distância. Assim, talvez consigamos fazer com que
tudo se compense."
Descobrimos que podíamos fazer isso e tudo correu muito bem.
Era uma teoria clássica que podia estar certa, embora
diferisse da teoria-padrÃo de MaxwelI, ou da de Lorentz. NÃo
tinha problemas com a infinidade de auto-acçÃo e era
engenhosa. Tinha acÇÕES e atrasos, avanços e recuos no tempo -
chamámos-lhe "potenciais semiadiantados e semiatrasados".
Wheeler e eu pensámos que o próximo problema era dedicarmo-nos
à teoria quântica da electrodinâmica, que tinha dificuldades
(pensava eu) com a auto-acçÃo do electrÃo. Achámos que, se
conseguíssemos primeiro livrar-nos da dificuldade na física
clássica e depois, a partir daí, construir uma teoria dos
quanta, conseguiríamos também endireitar a teoria dos quanta.
Quando acertámos a teoria clássica, Wheller disse: "Feynman,
você é novo, devia fazer um seminário sobre este assunto.
Precisa de experiência a dar conferências. Entretanto, resolvo
a parte da teoria dos quanta e mais tarde realizo um seminário
sobre a matéria."
79
Portanto, ia ser a minha primeira conferência técnica e
Wheeler tomou disposiÇÕES, com Eugene Wigner, para a colocar
no plano normal de seminários.
Um dia ou dois antes da conferência encontrei-me com Wigner à
entrada. "Feynman", disse ele, "acho que o trabalho que está
a fazer com Wheeler é muito interessante, pelo que convidei
Russell para o seminário." Henri Norris Russeli, o famoso, o
grande astrónomo do dia, vinha à conferência!
Wigner continuou: "Acho que o Prof. von Neumann também pode
estar interessado." Johnny von Neumann era o maior matemático
que havia por lá. "E o Prof. Pauli vem visitar-nos da Suíça,
por acaso, pelo que o convidei -Pauli era um físico muito
famoso -e nesta altura estou a ficar amarelo. Finalmente,
Wigner disse: "O Prof. Einstein raramente vem aos nossos
seminários semanais, mas o seu trabalho é tÃo interessante que
lhe fiz um convite especial, pelo que ele também vem. "
Por esta altura devo ter ficado verde, porque Wigner disse:
"NÃo, nÃo! NÃo se preocupe! No entanto, vou só avisá-lo: se o
Prof. Russell adormecer -e vai adormecer, sem dúvida-, nÃo
quer dizer que o seminário seja mau; ele adormece em todos os
seminários. Por outro lado, se o Prof. Pauli estiver todo o
tempo a acenar com a cabeça e parecer que está a concordar
enquanto decorre o seminário, nÃo ligue. O Prof. Pauli sofre
de paralisia."
Fui ter com Wheeler e disse-lhe que grandes e famosas
personalidades vinham à conferência que ele me convencera a
realizar e o quanto isso me fazia sentir pouco à vontade.
"NÃo faz mal", respondeu ele. "NÃo se preocupe. Eu respondo a
todas as perguntas."
Portanto, preparei a conferência e, quando chegou o dia, fiz o
que fazem frequentemente os jovens que nÃo têm experiência de
realizar conferências: escrevi demasiadas equaÇÕES no quadro.
Compreendem, um tipo novo nÃo consegue dizer: "Claro, aquilo
varia inversamente, e isto vai assim ... ", porque todos os
que ouvem já o sabem; conseguem vê-lo. Mas ele nÃo sabe. Só
consegue apresentar os resultados fazendo os cálculos -e daí
as resmas de equaÇÕES.
Enquanto eu escrevia as equaÇÕES adiantadamente no quadro,
Einstein entrou e disse prazenteiramente: "Olá, venho ao seu
seminário. Mas, primeiro, onde está o chá?"
Dei-lhe a informaçÃo e continuei a escrever as equaÇÕES.
EntÃo chegou a altura de dar a conferência, e aqui estÃo todos
estes cérebros enormes à minha frente, à espera! A minha
primeira confe
80
rência técnica, e tenho esta audiência! Quer dizer, sÃo
capazes de me espremer! Lembro-me muito nitidamente de ver
tremer as minhas mÃos quando tiravam os apontamentos de dentro
de um sobrescrito castanho.
Mas entÃo aconteceu um milagre, como tem sempre sucedido na
minha vida, o que é uma sorte para mim: no momento em que
começo a pensar na física, e tenho de me concentrar no que
estou a explicar, nada mais ocupa o meu espírito -fico
completamente imune ao nervosismo. De modo que, depois de ter
começado, nem sequer sabia quem estava na sala. Estava apenas
a explicar a ideia, é tudo.
Depois chegou o fim do seminário, e era a altura das
perguntas. Primeiro, Pauli, que estava sentado ao lado de
Einstein, levanta-se e diz: "NÃo me parece que esta teoria
possa estar certa, por isto, e isto, e isto", e volta-se para
Einstein e prossegue: "NÃo concorda, Prof. Einstein?"
Einstein responde: "NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃo", um "nÃo" simpático, com
som alemÃo -muito educado. "Acho apenas que seria muito
difícil conceber uma teoria correspondente para a interacçÃo
gravitacional." Referia-se à teoria geral da relatividade, que
era o seu bebé. Continuou: "Como neste momento nÃo temos uma
grande quantidade de provas experimentais, nÃo estou
completamente certo da teoria gravitacional correcta. "
Einstein admitia que as coisas podiam ser diferentes do que o
que a sua teoria afirmava; era muito tolerante para com as
outras ideias.
Desejava lembrar-me do que disse Pauli, porque descobri, anos
mais tarde, que a teoria nÃo era satisfatória no que dizia
respeito à construçÃo da teoria dos quanta. É possível que
aquele grande homem tenha imediatamente reparado na
dificuldade e ma tenha explicado na pergunta, mas eu estava
tÃo aliviado por nÃo ter de responder às perguntas que nÃo as
ouvi realmente com atençÃo. Lembro-me de subir as escadas da
Biblioteca Palmer com Pauli, que me disse: "O que vai dizer
Wheeler sobre a teoria dos quanta quando der a sua
conferência? "
Respondi: "NÃo sei. NÃo me disse. Está a trabalhar nela
sozinho. "
"Sim?" disse ele. "O homem trabalha e nÃo diz ao seu
assistente o que está a fazer sobre a teoria dos quanta?
Aproximou-se de mim e disse numa voz baixa, em segredo:
"Whe--ler nunca fará esse seminário."
E foi verdade. Wheeler nÃo fez o seminário. Pensou que ia ser
fácil desenvolver a parte dos quanta,-pensou que quase tinha
conseguido. Mas nÃo tinha. E, quando chegou a altura do
seminário, compreen

deu que nÃo sabia como realizá-lo, e, portanto, nÃo tinha nada
para dizer.
Também nunca a resolvi -uma teoria quântica dos potenciais
semiadiantados e semiatrasados -, e trabalhei nela durante
anos.
Misturando tintas
A razÃo por que digo que sou "inculto" ou "anti-intelectual"
vem provavelmente desde o tempo em que andava no liceu.
Preocupava-me sempre com ser efeminado; nÃo queria ser
demasiado delicado. Para mim, nenhum homem verdadeiro prestava
alguma vez atençÃo à poesia e a coisas assim. Como alguma vez
se escreveu poesia, foi coisa que nunca entendi! Por isso
desenvolvi em mim uma atitude negativa para com o tipo que
estuda literatura francesa, ou demasiada música, ou poesia -
todas essas coisas " finas". Admirava mais o homem que
trabalha com aço, o soldador, ou o homem da oficina. Sempre
achei que o homem que trabalhava na oficina e fazia coisas é
que era um tipo a valer!
Era essa a minha atitude. Ser um homem prático era sempre,
para mim, uma virtude positiva, fosse como fosse, e ser
"culto" ou "intelectual" nÃo era. A primeira estava certa,
claro, mas a segunda era um disparate.
Continuava a ter este sentimento quando andava a licenciar-me
em Princeton, como vÃo ver. Costumava comer frequentemente num
restaurantezinho agradável chamado Papa's Place. Um dia,
quando lá me encontrava a comer, um pintor, com o seu fato de
trabalho, desceu da sala que tinha estado a pintar, lá em
cima, e sentou-se ao pé de mim. Metemos conversa, nÃo sei
como, e ele começou a falar da quantidade de coisas que se têm
de aprender para estar no negócio das pinturas. "Por exemplo",
disse ele, "neste restaurante, que cores usaria para pintar as
paredes, se fosse o senhor a fazer o trabalho?"
Disse que nÃo sabia e ele prosseguiu: "Pomos uma tira escura a
esta altura, porque, está a ver, as pessoas que se sentam às
mesas roçam os cotovelos nas paredes, pelo que nÃo queremos
uma linda parede branca nesse sítio. Suja-se com demasiada
facilidade. Mas, mais acima, queremos que seja branca para dar
uma impressÃo de limpeza ao restaurante."
82
O tipo parecia saber o que fazia e eu ali estava, bebendo as
suas palavras, quando ele disse: "E, além disso, temos de
saber de cores: como conseguir cores diferentes ao misturar as
tintas. Por exemplo, que cores misturaria o senhor para obter
amarelo?"
Eu nÃo sabia como obter amarelo misturando tintas. Se for luz,
misturamos verde e vermelho, mas sabia que ele estava a falar
de tintas. Por isso disse: "NÃo sei como conseguir amarelo sem
usar amarelo."
"Bem", disse ele, "se misturarmos vermelho e branco, obteremos
amarelo."
"Tem a certeza de que nÃo quer dizer cor-de-rosa?"
"NÃo", disse ele, "dá amarelo" -e acreditei que ele conseguia
amarelo, porque era um pintor profissional e eu admirava
sempre tipos assim. Mas continuava a pensar em como ele o
faria.
Tive uma ideia. "Deve ser qualquer transformaçÃo química.
Usava qualquer tipo especial de pigmentos que produzem uma
transformaçÃo química?"
"NÃo", disse ele, "quaisquer pigmentos servem. Vá ao armazém
comprar tinta, só uma lata normal de tinta vermelha e uma lata
normal de tinta branca, que eu misturo-as e ensino-o a obter
amarelo. "
Nesta altura penso: "Há aqui qualquer disparate. Conheço o
suficiente sobre tintas para saber que nÃo se produz o
amarelo, mas ele deve saber que isso épossível, pelo que tem
de acontecer algo de interessante. Tenho de ver o que é! "
Por isso disse: "Está bem, vou buscar as tintas."
O pintor voltou lá para cima para acabar a pintura e o dono do
restaurante veio ter comigo e exclamou: "Que ideia é essa de
discutir com aquele homem? Ele é um pintor; tem sido pintor
toda a vida, e ele diz que consegue amarelo. EntÃo para quê
discutir com ele?"
Senti-me embaraçado. NÃo sabia o que dizer. Finalmente,
respondi: "Tenho estudado a luz durante toda a vida e acho que
com vermelho e branco nÃo se consegue amarelo, só se consegue
cor-de-rosa."
Assim, fui ao armazém comprar a tinta e trouxe-a para o
restaurante. O pintor desceu as escadas e o dono do
restaurante também estava presente. Pus as latas de tinta em
cima de uma cadeira velha e o pintor começou a misturar a
tinta. Pôs um pouco mais de vermelho, pôs um pouco mais de
branco -continuava a parecer-me cor-de-rosa -e voltou a
misturar. EntÃo murmurou qualquer coisa como: "Costumava ter
aqui um tubinho de amarelo para avivar um pouco -e entÃo fica
amarelo."
83

"Oh!", disse eu. "Claro! Junta amarelo e consegue amarelo, mas


nÃo o podia fazer sem o amarelo. "
O pintor voltou a subir as escadas para pintar.
O dono do restaurante comentou: "Este tipo tem lata, a
discutir com um tipo que estudou a luz durante toda a vida!"
Mas isto mostra quanto eu confiava nestes "tipos de verdade".
O pintor dissera-me tantas coisas razoáveis que eu estava
pronto a admitir a hipótese de haver algum estranho fenômeno
que eu nÃo conhecia. Esperava cor-de-rosa, mas o conjunto dos
meus pensamentos era: "A única maneira de conseguir amarelo
tem de ser qualquer coisa nova e interessante e eu tenho de
ver isso."
Cometi frequentemente erros na minha física por pensar que a
teoria nÃo é tÃo boa como na realidade é e que há muitas
complicaÇÕES que estragam tudo -a atitude de que tudo pode
acontecer, apesar daquilo de que estamos certos que deve
acontecer.
Uma caixa de ferramentas diferente
No "colégio" de licenciatura em Princeton, os Departamentos de
Física e de Matemática compartilhavam um salÃo comum e todos
os dias, às quatro horas, tomávamos chá. Era uma maneira de
nos descontrairmos a meio da tarde, para além de imitar um
colégio inglês. As pessoas sentavam-se a jogar Go ou a
discutir teoremas. Nesses dias, a topologia era o grande
assunto.
Ainda me lembro de um tipo sentado num sofá a pensar
intensamente e outro de pé à sua frente a dizer: "E portanto
isto assim-e-assim é verdadeiro. "
"Por que razÃo?", pergunta o do sofá.
"É trivial! É trivial!", diz o que está de pé, que desbobina
rapidamente uma série de passos lógicos: "Primeiro admitimos
isto-assim, depois temos o isto-e-aquilo de Kerchoff; a seguir
há o teorema de Waffestoffer e substituímos isto e construímos
aquilo. Agora pomos o vector que roda aqui e depois isto-assim
... " O tipo do sofá luta para compreender tudo isto, que
continua a alta velocidade durante aproximadamente quinze
minutos.
Finalmente, o tipo de pé chega ao fim e o do sofá diz: "Sim,
sim. É trivial."
84
Nós, os físicos, rimos, tentando entendê-los. Decidimos que
"trivial" quer dizer "provado". Por isso brincamos com os
matemáticos: "Temos um novo teorema -que os matemáticos só
conseguem provar teoremas triviais, porque todos os teoremas
provados sÃo triviais."
Os matemáticos nÃo gostaram do teorema e eu arreliava-os com
ele. Dizia que nunca há surpresas, que os matemáticos só
provam coisas óbvias.
A topologia nÃo era de modo nenhum óbvia para os matemáticos.
Havia toda a espécie de possibilidades esquisitas que eram
"contra-intuitivas". EntÃo tive uma ideia. Desafiei-os:
"Aposto que nÃo há um único teorema que me possam enunciar
-quais sÃo as premissas e qual é o teorema em termos que eu
possa entender -de que eu nÃo vos possa dizer imediatamente
se é verdadeiro ou falso."
Frequentemente era assim: eles explicavam-me: "Temos uma
laranja, está bem? Agora cortamos a laranja num número finito
de bocados, voltamos a juntá-los e fica tÃo grande como o Sol.
Verdadeiro ou falso?"
"Sem buracos?"
"Sem buracos."
"Impossível! NÃo existe tal coisa."
"Ah! Apanhámo-lo! Juntem-se todos! É o teorema de Fulano da
medida nÃo mensurável!"
Mesmo quando eles pensam que me apanharam, lembro-lhes: "Mas
vocês disseram uma laranja! NÃo se pode cortar a casca da
laranja mais fina do que os átomos."
"Mas temos a condiçÃo da continuidade: podemos continuar a
cortar!"
"NÃo, vocês falaram de uma laranja, pelo que parti do
princípio de que queriam dizer uma laranja verdadeira."
Assim, eu ganhava sempre. Se acertava, óptimo. Se nÃo
acertava, podia sempre encontrar qualquer coisa que faltasse
na sua simplificaçÃo.
Na realidade, havia alguma qualidade genuína nas minhas
descobertas. Tinha um esquema, que ainda uso hoje quando
alguém me explica qualquer coisa que tento perceber: vou
construindo exemplos. Por exemplo, os matemáticos vinham com
um teorema fantástico, todos entusiasmados. + medida que me
enunciam as condiÇÕES do teorema, construo qualquer coisa que
se ajuste a todas elas. Sabem, temos um conjunto (uma bola) -
disjunto (duas bolas). A seguir, as bolas mudam de cores,
crescem-lhes cabelos, ou qualquer coisa, na minha cabeça,
enquanto eles acrescentam condiÇÕES. Finalmente apresentam o
teo
85

rema, que é qualquer coisa oculta sobre a bola que nÃo é


verdadeira para a minha bola verde cabeluda, pelo que digo:
"Falso!"
Se é verdadeiro, ficam todos entusiasmados e deixo-os
continuar durante um bocado. EntÃo indico o meu
contra-exemplo.
"Oh! Esquecemo-nos de dizer que é o homomórfico de classe 2 de
Hausdorff."
"Bem, entÃo", digo eu, "é trivial! É trivial!" Por essa altura
eu já sei em que sentido se vai, mesmo que desconheça o que
quer dizer homomórfico de Hausdorff.
Acertei a maior parte das vezes porque, apesar de os
matemáticos' pensarem que os seus teoremas da topologia sÃo
contra-intuitivos, nÃo eram, na realidade, tÃo difíceis como
pareciam. Conseguimos habituar-nos às estranhas propriedades
desta história dos cortes ultrafinos e adivinhar facilmente o
que vai resultar.
Apesar de ter dado muito trabalho aos matemáticos, eles foram
sempre muito simpáticos para mim. Formavam um grupo alegre de
rapazes que desenvolviam coisas e que se entusiasmavam imenso
com isso. Discutiam os seus teoremas "triviais" e tentavam
sempre explicar-nos qualquer coisa se fizéssemos uma pergunta
simples.
Paul Olum e eu partilhávamos uma casa de banho. Chegámos a ser
bons amigos e ele tentou ensinar-me matemática. Levou-me até
aos grupos homotópicos, mas nesse ponto desisti. Contudo, até
aí percebi tudo bastante bem.
Uma coisa que nunca aprendi foi a integraçÃo de perfil.
Aprendera a resolver integrais por vários métodos demonstrados
num livro que o meu professor de Física do liceu, o Sr. Bader,
me tinha dado.
Um dia mandou-me ficar depois da aula. "Feynman", disse ele,
"falas de mais e fazes demasiado barulho. Sei porquê.
Aborreces-te. Por isso te vou dar um livro. Vais lá para trás,
para o canto, estudas este livro e, quando souberes tudo o que
está nele, podes voltar a falar."
Assim, em todas as aulas de Física, eu nÃo ligava ao que se
passava com a lei de Pascal ou com o que quer que fizessem.
Estava lá atrás com o tal livro: Cálculo Adiantado, de Woods.
Bader sabia que eu estudara um pouco o Cálculo para o Homem
Prático, pelo que me deu o trabalho a sério -era para um curso
do terceiro ou quarto ano da Faculdade. Tinha séries de
Fourier, funÇÕES de Bessel, determinantes, funÇÕES elípticas -
toda a espécie de coisas maravilhosas de que eu nÃo sabia
nada.
Esse livro também ensinava a diferençar parâmetros sob o sinal
de integral -é uma operaçÃo determinada. Ora isto nÃo se
ensina muito
86
nas universidades; nÃo lhe dÃo ênfase. Mas eu descobri como
utilizar esse método e usava e voltava a usar essa ferramenta.
Assim, por ter aprendido sozinho usando esse livro, tinha
métodos peculiares de resolver as integrais.
O resultado foi que, quando os tipos do MIT ou de Princeton
tinham dificuldade em resolver uma determinada integral, isso
se devia ao facto de nÃo poderem resolver o problema com os
métodos normais que tinham aprendido na escola. Se fosse
integraçÃo de perfil, eles tê-lo-iam encontrado; se fosse a
expansÃo de uma série simples, tê-lo-iam encontrado. EntÃo eu
chego e tento diferençá-lo sob o sinal de integral, e isto
resulta frequentemente. Assim, consegui grande fama a resolver
integrais, apenas porque a minha caixa de ferramentas era
diferente da de todos os outros e eles tinham tentado todas as
suas ferramentas antes de me darem o problema.
Leitores da mente
O meu pai estava permanentemente interessado em magia e em
truques de Carnaval e a querer ver como funcionavam. Uma das
coisas sobre as quais tinha alguns conhecimentos eram os
leitores da mente. Quando rapazinho, a viver numa pequena
cidade chamada Patchogue, no meio de Long Island, um dia foi
anunciado em cartazes espalhados por todo o lado que na
quarta-feira seguinte vinha um leitor da mente. Nos cartazes
dizia-se que cidadÃos respeitáveis -o presidente da Câmara,
um juiz, um banqueiro -pegariam numa nota de cinco dólares e
escondê-la-iam em qualquer parte, e, quando o leitor da mente
viesse, ele encontrá-la-ia.
Quando ele chegou, as pessoas juntaram-se à sua volta para o
ver trabalhar. Pega nas mÃos do banqueiro e do juiz, que
tinham escondido a nota, e começa a descer a rua. Chega a um
cruzamento, volta a esquina, desce outra rua, depois outra,
até à casa certa. Entra com eles na casa, sempre a
segurar-lhes as mÃos, sobe ao segundo piso, entra na sala
certa, vai até uma secretária, larga-lhes as mÃos, abre a
gaveta certa, e lá está a nota de cinco dólares. Muito
espectacular!
Nesses dias era difícil conseguir uma boa educaçÃo, pelo que o
leitor da mente foi contratado como tutor para o meu pai. Bem,
o meu Pai, depois de uma das suas liÇÕES, perguntou ao leitor
da mente como
87

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é que ele conseguiu descobrir o dinheiro sem ninguém lhe dizer
onde estava.
O leitor da mente explicou que seguramos as mÃos do parceiro,
sem apertar, e, ao andarmos, balançamos um bocado. Chegamos a
um cruzamento, onde podemos ir para a frente, para a esquerda,
ou para
direita. Balançamos um pouco para a esquerda e, se o movimento
for incorrecto, sentimos uma certa resistência, porque eles
nÃo esperam que nos movamos nessa direcçÃo. Mas, quando nos
movemos na direcçÃo certa, como eles pensam que o conseguimos
fazer, cedem mais facilmente e nÃo há resistência. Por isso
devemos sempre balançar um pouco, experimentando qual parece
ser a direcçÃo mais fácil.
O meu pai contou-me a história e disse que pensava que além
disso, era preciso ter muita prática. Ele próprio nunca tinha
tentado.
Mais tarde, quando me estava a licenciar em Princeton, decidi
experimentar com um tipo chamado Bill Woodward. Subitamente
anunciei que era um leitor da mente e conseguia ler a mente
dele. Disse-lhe que entrasse no "laboratório" -uma grande sala
com filas de mesas cobertas com equipamento de vários tipos,
com circuitos eléctricos, ferramentas e tralha por todo o lado
-, que escolhesse determinad objecto, em qualquer lado, e
saísse. Expliquei: "Agora vou ler a sua mente e levá-lo
direito
ao objecto."
Ele entrou no laboratório, reparou num objecto particular e
saíu.
Peguei na sua mÃo e comecei a balançar. Descemos esta
depois aquela, direitos ao objecto. Tentámos três vezes. Uma
vez
descobri log o objecto -e estava no meio de uma quantidade de
coisas. Outra vez fui ao sítio certo, mas falhei o objecto por
umas polegadas -objecto errado. Da terceira vez, qualquer
coisa correu mal. Mas resultou melhor do que eu pensava. Foi
muito fácil.
Algum tempo depois, quando tinha mais ou menos vinte e seis
anos meu pai e eu fomos a Atlantic City, onde havia várias
manifestaÇÕES carnavalescas na rua. Enquanto meu pai andava a
tratar de negócios fui ver um leitor da mente. Ele estava
sentado no palco de costas voltadas para a assistência,
vestido com mantos e usando um grande tur bante. Tinha um
assistente, um tipo baixinho que corria pelo meio do público
dizendo coisas como: "Oh, grande mestre, qual é a cor desta
agenda?"
"Azul!", dizia o mestre.
"E, oh, ilustre senhor, qual é o nome desta mulher?"
"Marie!"
Um tipo levanta-se e pergunta: "Como é que eu me chamo?"
88
"Henry."
Levanto-me e também pergunto: "Como é que eu me chamo?"
Ele nÃo responde. O outro tipo era obviamente um comparsa, mas
eu nÃo conseguia descobrir como o leitor da mente fazia os
outros truques, como o de dizer a cor da agenda. Teria
auscultadores debaixo do turbante?
Quando me encontrei com o meu pai, contei-lhe. Ele disse:
"Devem ter um código estabelecido, mas nÃo sei qual é. Vamos
lá descobrir.
Voltámos lá e o meu pai disse-me: "Aqui tens cinquenta
cêntimos. Vai ler a sina naquela barraca ali e encontramo-nos
dentro de meia hora."
Eu sabia o que ele ia fazer. Ia contar uma história ao homem,
e tudo correria melhor se nÃo estivesse lá o filho a dizer
"oh, oh!" durante todo o tempo. Tinha de me tirar do caminho.
Quando voltou, contou-me todo o código: "Azul é 'oh, grande
mestre', verde é 'oh, maior dos sabedores'", e por aí fora. E
explicou: "Depois fui ter com ele e disse-lhe que dava um
espectáculo em Patchogue e que tínhamos um código, mas que
este nÃo dava para muitos números e a gama das cores era
menor, pelo que lhe perguntei: Como é que transmite tanta
informaçÃo?'"
O leitor da mente tinha tanto orgulho no seu código que se
sentou e explicou todo o mecanismo ao meu pai. O meu pai era
um negociante. Conseguia provocar uma situaçÃo daquelas. Eu
nÃo consigo fazer coisas assim.
O cientista amador
Quando era miúdo, tinha um "laboratório". NÃo era um
laboratório no sentido de fazer mediÇÕES ou experiências
importantes. Em vez disso, brincava: fazia um motor, fazia um
dispositivo que disparasse quando alguma coisa passasse por
uma célula fotoeléctrica, divertia-me com selênio, estava
sempre a distrair-me com ninharias. Fiz alguns cálculos para a
série de lâmpadas, formada por interruptores e lâmpadas em
série que usava como resistências para controlar voltagens.
Mas era tudo para ser aplicado. Nunca fiz nenhuma espécie de
experiências de laboratório.
Tinha também um microscópio e adorava ver coisas nele.
Requeria Paciência: punha uma coisa no microscópio e
observava-a intermina
89

velmente. Vi muitas coisas interessantes, como toda a gente vê


-uma diatomácea progredindo lentamente através da lâmina,
etc.
Um dia estava a ver uma paramécia e vi uma coisa que nÃo vinha
nos livros da escola -nem mesmo nos da Faculdade. Estes
livros sim-~ plificam sempre as coisas de modo que o mundo
seja mais como eles,,. querem que seja: quando falam sobre o
comportamento dos animais,., começam sempre assim: "A
paramécia é extremamente simples; simples também o seu
comportamento. Volta-se enquanto a sua forma de, chinelo se
move através da água até bater em qualquer coisa, altura em
que recua, volta em ângulo e torna a partir."
NÃo está realmente certo. Em primeiro lugar, como toda a gente
sabe, as paramécias, de vez em quando, unem-se -encontram-se
e trocam os núcleos. Como é que elas decidem que chegou a
altura de fazer isso? (Deixem lá; nÃo é essa a minha
observaçÃo.)
Observava as paramécias batendo em qualquer coisa, recuando,
voltando-se segundo um ângulo e partindo novamente. A ideia de
isso ser mecânico, como um programa de computador, nÃo me
parece ser correcta. Percorrem distâncias diferentes, recuam
distâncias diferentes e voltam-se segundo ângulos que, em
muitos casos, sÃo também diferentes; nÃo voltam sempre para a
direita; sÃo muito irregulares. Parece ao acaso, porque nÃo
sabemos em que é que batem; nÃo sabemos que produtos químicos
cheiram.
Uma das coisas que queria observar é o que acontece à
paramécia quando a água em que ela está seca. Afirmava-se que
a paramécia era capaz de secar até se transformar numa espécie
de semente endurecida. Tinha uma gota de água na lâmina do
microscópio e na gota de água havia uma paramécia e alguma
"erva" -à escala da paramécia parecia uma rede de pauzinhos
chineses. + medida que a gota de água se evaporava, durante
quinze ou vinte minutos, a paramécia ia ficando mais apertada:
fazia cada vez mais movimentos para trás e para a frente, até
que mal se podia mover. Estava presa entre os "paus", quase
comprimida.
EntÃo observei uma coisa que nunca tinha visto ou ouvido
contar: a paramécia perdeu a sua forma. Conseguia dobrar-se,
como uma ameba. Começou a comprimir-se de encontro a um dos
paus e a dividir-se em duas partes, até a divisÃo estar a
meio, e nessa altura decidiu que essa ideia nÃo era muito boa
e voltou atrás.
Por isso, a minha impressÃo sobre estes animais é que o seu
comportamento vem demasiado simplificado nos livros. NÃo é tÃo
completamente mecânico ou unidimensional como eles dizem.
Deviam des
crever correctamente o comportamento destes animais simples.
Até vermos quantas dimensSes de comportamento tem até mesmo um
animal unicelular, nÃo seremos capazes de compreender
completamente o comportamento dos animais mais complexos.
Também gostava de observar insectos. Possuía um livro sobre
insectos quando tinha aproximadamente treze anos. Dizia o
livro que as libélulas nÃo eram perigosas, que nÃo picavam. Lá
na vizinhança era bem sabido que as "agulhas danadas", como
lhes chamávamos, eram muito perigosas quando picavam. Por
isso, se estivéssemos no exterior a jogar baseball, ou
qualquer outra coisa, e uma dessas libélulas aparecesse,
corríamos todos a abrigar-nos, a abanar os braços, gritando:
"Uma agulha danada! Uma agulha danada!"
Assim, um dia, eu estava na praia e tinha acabado de ler o tal
livro que dizia que as libélulas nÃo picam. Apareceu uma
agulha danada e toda a gente começou a gritar e a correr e eu
limitei-me a ficar ali sentado. "NÃo se preocupem! ", disse
eu, "as agulhas danadas nÃo picam! "
A coisa aterrou no meu pé. Estavam todos a gritar e foi uma
grande confusÃo, porque a agulha danada estava pousada no meu
pé. E ali estava eu, a maravilha científica, a dizer que ela
nÃo me ia picar.
Vocês estÃo certos de que esta é uma história em que ela vai
acabar por me picar -mas nÃo picou. o livro tinha razÃo. Mas
transpirei um bocado.
Eu tinha também um pequeno microscópio de mÃo. Era um
microscópio de brinquedo e eu tirava-lhe a peça de aumentar e
segurava-a na mÃo como uma lupa, apesar de ser um microscópio
com uma amplificaçÃo de quarenta ou cinquenta vezes. Com
cuidado podíamos manter o foco. Assim, eu podia andar e
observar as coisas mesmo na rua.
Uma vez, quando estava a licenciar-me em Princeton, tirei-o do
bolso para ver umas formigas que se movimentavam num ramo de
hera. NÃo pude evitar uma exclamaçÃo, de tÃo entusiasmado que
fiquei. O que vi foi uma formiga e um afídeo, de que as
formigas cuidam -levam-nos de uma planta para outra se a
planta em que eles estÃo está a morrer. Em troca, a formiga
recebe o suco parcialmente digerido do afidio. Eu sabia
aquilo; o meu pai havia-me contado, mas eu nunca tinha visto.
Portanto, lá estava o afídio, e veio uma formiga que lhe foi
dando pancadinhas com as patas -a toda a volta do afidio,
tap, tap, tap, tap, tap. Era terrivelmente excitante! EntÃo
começou a sair o suco da parte de trás do afídio. E, como
estava aumentado, parecia uma grande e linda bola cintilante,
como um balÃo, devido à tensÃo superficial. Como

o microscópio nÃo era muito bom, a gota estava um pouco


colorida pela distorçÃo cromática das lentes-era uma coisa
maravilhosa!
A formiga agarrou a bola com as duas patas da frente,
levantou-a do afídio e pegou nela. O mundo é tÃo diferente a
essa escala que podemos levantar água e segurá-la!
Provavelmente, as formigas têm uma substância gorda ou untuosa
nas patas que nÃo quebra a tensÃo superficial da água quando
pegam nela. EntÃo a formiga rompeu a superfície da gota com a
boca e a tensÃo superficial fez escorregar a gota mesmo para
dentro da goela. Era muito interessante ver tudo isto
acontecer!
No meu quarto em Princeton tinha uma varanda envidraçada com
uma soleira em forma de U. Um dia saíram umas formigas para
cima da soleira e vaguearam por lá um pouco. Tive curiosidade
em saber como encontravam as coisas. Perguntei a mim próprio:
"Como é que elas sabem para onde ir? ConseguirÃo dizer umas às
outras onde está a comida, como as abelhas? TerÃo algum
sentido da geometria?"
Isto é tudo amador. Toda a gente sabe a resposta, mas eu nÃo a
sabia, pelo que a primeira coisa que fiz foi esticar um fio
através do U da janela e pendurar nele um bocado de cartÃo
dobrado com açúcar. A ideia era isolar o açúcar das formigas,
para que elas nÃo o encontrassem acidentalmente. Queria ter
tudo controlado.
A seguir fiz uma quantidade de tirinhas de papel com uma
dobra, para poder pegar nas formigas e transportá-las de um
lugar para outro. Pus as tiras de papel dobradas em dois
lugares: umas estavam perto do açúcar (pendurado do fio) e as
outras perto das formigas, em determinado sítio. Sentei-me ali
durante toda a tarde, a ler e a observar, até que uma formiga
entrou por acaso num dos meus transportes de papel. EntÃo
levei-a até ao açúcar. Depois de várias formigas terem sido
transportadas para o açúcar, uma delas entrou acidentalmente
num dos transportes que estava perto e transportei-a de volta.
Queria ver quanto tempo passaria até as outras formigas
receberem a mensagem para irem para o "terminal dos
transportes". Comecei devagar, mas aumentei rapidamente a
velocidade até andar maluco a transportar formigas para trás e
para diante.
Mas, de repente, quando estava tudo no máximo, comecei a
transportar as formigas do açúcar para um ponto diferente.
Agora a pergunta era se a formiga aprende a voltar ao sítio de
onde acabou de sair, ou se vai para onde foi da primeira vez.
Ao fim de algum tempo nÃo ia praticamente nenhuma formiga para
o primeiro sítio (que as levaria para o açúcar), ao passo que
havia muitas

formigas no segundo sítio, às voltas, tentando encontrar o


açúcar. Portanto, calculei até aí que elas iam para onde
tinham acabado de sair.
Noutra experiência espalhei várias lâminas de vidro do
microscópio e fiz com que as formigas andassem sobre elas,
para trás e para a frente, na direcçÃo de um pouco de açúcar
que eu pusera na soleira. EntÃo, substituindo uma lâmina
antiga por uma nova, ou mudando a disposiçÃo das lâminas,
consegui demonstrar que as formigas nÃo tinham nenhum sentido
da geometria: nÃo conseguiam descobrir onde estava qualquer
coisa. Se se dirigiam para o açúcar por um caminho e havia um
caminho mais curto para voltar, nunca descobriam o caminho
mais curto.
Tornou-se também bastante claro, mudando a disposiçÃo das
lâminas, que as formigas deixavam uma espécie de rasto. Por
isso seguiram-se uma data de experiências fáceis para
descobrir quanto tempo leva um rasto a secar, se ele pode ser
facilmente limpo, etc. Descobri também que o rasto nÃo era
direccional. Se pegasse numa formiga num pedaço de papel, lhe
desse várias voltas e depois a voltasse a pôr no rasto, ela
nÃo sabia que ia na direcçÃo errada até encontrar outra
formiga. (Mais tarde, no Brasil, reparei numas formigas
cortadoras de folhas e tentei a mesma experiência com elas.
Elas conseguiam saber, em poucos passos, se iam na direcçÃo da
comida ou na direcçÃo contrária presumivelmente a partir do
rasto, que podia ser uma série de cheiros com um padrÃo: A, B,
espaço, A, B, espaço, etc.)
Tentei num ponto fazer com que as formigas andassem em
círculo, mas nÃo tive a paciência para preparar isso. NÃo via
nenhuma razÃo, para além da falta de paciência, para que nÃo
pudesse ser feito.
Uma coisa que tornava as experiências difíceis era que
respirar para cima das formigas as fazia fugir. Deve ser uma
coisa instintiva contra qualquer animal que as come ou as
perturba. NÃo sei se era o calor, a humidade, ou o cheiro da
minha respiraçÃo que as incomodava, mas tinha sempre de reter
a respiraçÃo e como que olhar para o lado para nÃo atrapalhar
a experiência ao transportar as formigas.
Uma questÃo que me intrigava era a de saber por que razÃo os
rastos das formigas parecem tÃo direitos e bem feitos. As
formigas aparentam saber o que estÃo a fazer, ter um bom
sentido da geometria. Contudo, as experiências que fiz
tentavam demonstrar que o seu sentido da geometria nÃo
funcionava.
Muitos anos depois, quando estava em Caltech e vivia numa casa
pequena em Alameda Street, apareceram umas formigas à volta da
banheira. Pensei: "É uma grande oportunidade. " Pus um pouco
de açú
93
car no outro extremo da banheira e sentei-me ali durante toda
a tarde, até que finalmente uma formiga encontrou o açúcar. É
só uma questÃo de paciência.
No momento em que a formiga encontrou o açúcar peguei num
lápis de cor que tinha preparado (fizera anteriormente
experiências que indicavam que as formigas nÃo ligam a marcas
de lápis -passam por cima delas a direito-, pelo que sabia
que nÃo estava a perturbar nada) e tracei uma linha atrás da
formiga, de modo a saber onde estava o seu rasto. A formiga
vagueou um pouco até voltar para o buraco, razÃo por que a
linha era bastante hesitante, ao contrário de um rasto de
formiga típico.
Quando a próxima formiga a encontrar o açúcar começou a
voltar atrás, marquei o seu rasto com outra cor. (A propósito,
seguiu o rasto de volta da primeira formiga, em vez do seu
próprio rasto de chegada. A minha teoria é que, quando uma
formiga encontra comida, deixa um cheiro muito mais forte do
que quando anda apenas a vaguear.)
Esta segunda formiga estava com muita pressa e seguiu,
com bastante aproximaçÃo, o rasto original. Mas, como ia tÃo
depressa, ia a direito, como se estivesse a costear, quando o
rasto era hesitante. Frequentemente, quando a formiga
"costeava", voltava a encontrar o rasto. Notava-se já que o
regresso da segunda formiga era ligeiramente mais a direito.
Com formigas sucessivas aconteceu o mesmo "melhoramento" do
rasto por o "seguirem" apressada e descuidadamente.
Segui oito ou dez formigas com o lápis até que os seus
rastos se tornaram uma linha nítida ao longo da banheira. É um
pouco como fazer um esboço: desenhamos primeiro uma linha mal
feita; depois passamos sobre ela umas vezes e ao fim de um
bocado temos uma linha bem feita.
Lembro-me de, quando era miúdo, o meu pai me dizer como
as formigas eram maravilhosas, como cooperavam. Eu observava
cuidadosamente três ou quatro formigas levando um bocado de
chocolate para o ninho. Ao primeiro relance parece uma
cooperaçÃo eficiente, maravilhosa, brilhante. Mas, se virmos
cuidadosamente, verificamos que nÃo é nada disso: comportam-se
todas como se o chocolate estivesse seguro por qualquer outra
coisa. Puxam-no de um lado ou do outro. Uma formiga é capaz de
rastejar por cima dele enquanto as outras o puxam. Vacila,
hesita, as direcÇÕES estÃo todas baralhadas. O chocolate nÃo
se move com regularidade para o ninho.
As formigas cortadoras de folhas brasileiras, que em
outros aspectos sÃo tÃo maravilhosas, têm uma estupidez muito
interessante asso-
94
ciada a elas, que me surpreende nÃo ter sido eliminada pela
evoluçÃo. Dá um trabalho considerável à formiga cortar o arco
de círculo que lhe permite conseguir um bocado de folha.
Quando acaba de cortar, há cinquenta por cento de
probabilidades de a formiga puxar do lado errado, deixando
cair no chÃo o bocado que acabou de cortar. Durante metade do
tempo, a formiga abana e empurra, volta a abanar e a empurrar
a parte errada da folha, até que desiste e volta a cortar
outro bocado. NÃo faz nenhuma tentativa para apanhar um bocado
que ela, ou qualquer outra formiga, tenha já cortado. Por isso
é bastante evidente, se as observarmos com muita atençÃo, que
nÃo é uma actividade fantástica de cortar folhas e
transportá-las; vÃo até uma folha, cortam um arco e pegam
metade do tempo no lado errado, enquanto o bocado certo cai.
Em Princeton, as formigas encontraram o meu
guarda-comida, onde tinham geleia, pÃo e outras coisas e que
estava a uma certa distância da janela. Uma longa linha de
formigas andava pelo chÃo através da sala. Isto sucedeu
durante o tempo em que fazia estas experiências com as
formigas, pelo que pensei para comigo: "Que posso eu fazer
para as impedir de irem ao meu guarda-comida sem matar
algumas? Nada de veneno. Temos de ser humanos para com as
formigas!"
Fiz o seguinte: como preparaçÃo, pus um pouco de açúcar,
de que elas nada sabiam, a umas seis ou sete polegadas do seu
ponto de entrada na sala. EntÃo voltei a fazer os transportes,
e qualquer formiga que voltasse com comida entrava no seu
transportezinho e eu levava-a e punha-a no açúcar. Qualquer
formiga que se dirigisse ao guarda-comida e entrasse num
transporte também a levava para o açúcar. Eventualmente, as
formigas encontravam o caminho do açúcar para o seu buraco, e,
assim, este novo rasto estava sem dúvida a ser reforçado,
enquanto o rasto antigo estava a ser usado cada vez menos. Eu
sabia que, dentro de meia hora ou coisa assim, o rasto antigo
ia secar e numa hora estavam fora do meu guarda-comida. NÃo
lavei o chÃo; nÃo fiz mais nada além de transportar formigas.
95

3ª Parte
Feynman, a bomba e os militares

Detonadores que só assobiam


Quando começou a guerra na Europa, mas ainda nÃo tinha sido
declarada nos Estados Unidos, falava-se muito de nos
prepararmos e de sermos patrióticos. Os jornais traziam
grandes artigos sobre homens de negócios que se ofereciam como
voluntários para ir para Plattsburg, em Nova Iorque, fazer
treino militar, etc.
Comecei a pensar que também devia contribuir de algum modo.
Depois de ter acabado o MIT, um amigo meu da fraternidade,
Maurice Meyer, que estava no Corpo de TransmissSes do
Exército, levou-me a ver um coronel nos gabinetes de Nova
Iorque do Corpo de TransmissSes.
"Queria ajudar o meu país e, como tenho espírito técnico,
talvez haja um modo de isso ser possível."
"Bem, o melhor é ir para Plattsburg, para o campo de recrutas,
e submeter-se ao treino básico. Depois poderemos utilizá-lo",
disse o coronel.
"Mas nÃo existe nenhum modo de poder utilizar mais
directamente os meus conhecimentos?"
"NÃo; o exército está organizado desta maneira. Vá pelo
caminho normal."
Saí para o exterior e sentei-me no parque para pensar no
assunto. Pensei e tornei a pensar: "Talvez a melhor maneira de
contribuir seja alinhar com o modo deles." Mas, felizmente,
pensei um pouco mais e disse: "Que vá para o diabo! Vou
esperar um pouco. Pode ser que aconteça qualquer coisa em que
me possam usar com mais eficácia."
Fui para Princeton trabalhar na licenciatura e na Primavera
fui outra vez aos Laboratórios Beil, em Nova Iorque,
candidatar-me a um tra
99

balho de VerÃo. Adorava a visita aos Laboratórios Beil. Bill


Shockley, o tipo que inventou os transistores, guiava-me.
Lembro-me da sala de alguém onde tinham feito marcas numa
janela. A Ponte George Washington estava a ser construída e os
tipos do laboratório estavam a observar o seu avanço. Tinham
feito o plano da curva original quando o cabo principal foi
levantado primeiro e podiam medir as pequenas diferenças à
medida que a ponte ia sendo suspensa nele e a curva se tornava
uma parábola. Era justamente o tipo de coisa que eu gostaria
de ser capaz de pensar fazer. Admirava esses tipos; estava
sempre a desejar poder trabalhar com eles um dia.
Uns tipos do laboratório levaram-me a almoçar a um
restaurante de mariscos e estavam todos satisfeitos porque iam
comer ostras. Eu vivia perto do mar e nem podia olhar para
essas coisas; nÃo conseguia comer peixe, quanto mais ostras.
Pensei para comigo: "Tenho de ser corajoso. Tenho de comer uma
ostra."
Comi uma ostra e era absolutamente horrível. Mas disse para
comigo: "Isso nÃo prova que és um homem. NÃo sabias como ia
ser horrível. Era bastante fácil quando era incerto."
Os outros continuavam a dizer como as ostras eram boas, pelo
que comi outra ostra, e foi na verdade mais difícil que a
primeira.
Desta vez, que deve ter sido a quarta ou a quinta que visitei
os Laboratórios BelI, eles aceitaram-me. Fiquei muito
contente. Nesses dias era difícil arranjar um trabalho em que
pudesse estar com outros cientistas.
Mas entÃo houve uma grande excitaçÃo em Princeton. O general
Trichel, do Exército, veio falar connosco: "Precisamos de
físicos! Os físicos sÃo muito importantes para nós no
Exército! Precisamos de três físicos! "
Têm de compreender que, nesses dias, as pessoas mal sabiam o
que era um físico. Einstein era conhecido como matemático, por
exemplo portanto, era raro alguém precisar de físicos. Pensei:
"Esta é a minha oportunidade de contribuir", e ofereci-me para
trabalhar para o Exército.
Pedi nos Laboratórios Bell que me deixassem trabalhar para o
Exército nesse VerÃo e eles disseram que também tinham
trabalho de guerra, se era isso que eu queria. Mas eu fora
apanhado por uma febre patriótica e perdi uma boa
oportunidade. Teria sido muito mais inteligente trabalhar nos
Laboratórios Beli. Mas uma pessoa fica um bocado parva nessas
alturas.
100
Fui para o Arsenal Francoforte, em Filadélfia, e trabalhei num
dinossauro: um computador mecânico para dirigir a artilharia.
Quando os aviSes voavam perto, os artilheiros observavam-nos
com um telescópio e o computador mecânico, com engrenagens,
rodas, etc., tentava predizer onde o aviÃo ia estar. Era uma
máquina muitíssimo bem projectada e construída e uma das
características importantes que tinha eram engrenagens nÃo
circulares -engrenagens que nÃo eram circulares, mas que
mesmo assim engrenavam. Devido ao raio variável das
engrenagens, cada eixo girava em funçÃo do outro. Contudo,
esta máquina estava por acabar. Pouco tempo depois apareceram
os computadores electrónicos.
Depois de dizer todas estas coisas sobre como os físicos eram
tÃo importantes para o Exército, a primeira coisa que me
mandaram fazer foi verificar desenhos de engrenagens para ver
se os números estavam certos. Isto continuou durante certo
tempo. EntÃo, gradualmente, o tipo encarregado do departamento
começou a ver que eu era útil para outras coisas e, à medida
que o VerÃo avançava, passava mais tempo a discutir coisas
comigo.
Havia um engenheiro mecânico em Francoforte que estava sempre
a tentar projectar coisas e nunca conseguia fazer tudo certo.
Uma vez projectou uma caixa de engrenagens, uma das quais era
uma grande roda com oito polegadas de diâmetro que tinha seis
raios. O tipo diz com entusiasmo: "EntÃo, chefe, como é que
isto está? Como é que isto está?"
"Mesmo bem! ", responde o chefe. "Só tem de especificar uma
passagem para o eixo em cada um dos raios, para que a roda da
engrenagem possa rodar! " O tipo tinha projectado um eixo que
passava entre os raios!
O chefe continuou, dizendo que existiam mesmo passagens para
eixos (pensei que ele estava a brincar). Tinham sido
inventadas pelos AlemÃes durante a guerra para impedir os
draga-minas ingleses de agarrar os cabos que mantinham as
minas alemÃs a flutuar debaixo de água a certa profundidade.
Com essas passagens para eixos, os cabos alemÃes podiam
permitir a passagem dos cabos ingleses como se passassem
através de uma porta giratória. Portanto era possível pôr
passagens para eixos em todos os raios, mas o chefe nÃo queria
dizer que os mecânicos se deviam dar a esse trabalho; em vez
disso, o tipo devia voltar a projectá-las e pôr o eixo noutro
sítio.
De vez em quando, o Exército mandava um tenente ver como as
coisas corriam. O nosso chefe disse que, como éramos uma
secçÃo civil,

o tenente tinha patente mais alta do que qualquer de nós. "NÃo


digam nada ao tenente", disse ele. "Se ele começa a pensar que
sabe o que estamos a fazer, vai dar-nos toda a espécie de
ordens e lixar tudo."
Nessa altura eu estava a projectar umas coisas, mas, quando o
tenente se aproximou, fingi que nÃo sabia o que estava a
fazer, que estava apenas a seguir ordens.
"O que está a fazer, Sr. Feynman?"
"Bem, desenho uma sequência de linhas com ângulos sucessivos e
a seguir tenho de medir a partir do centro diferentes
distâncias segundo esta tabela e planear ... "
"Bem, o que é?"
"Acho que é um excêntrico." Na realidade, eu tinha-o
projectado, mas agi como se alguém me tivesse apenas dito
exactamente o que fazer.
O tenente nÃo conseguiu obter informaÇÕES de ninguém e
continuámos alegremente a trabalhar no computador mecânico,
sem nenhuma interferência.
Um dia o tenente chegou e fez-nos uma pergunta simples:
"Suponham que o observador nÃo está no mesmo local que o
artilheiro, como resolvem isso?"
Apanhámos um choque terrível. Tínhamos projectado tudo usando
coordenadas polares, usando ângulos e a distância do raio. Com
coordenadas X e Y é fácil fazer a correcçÃo para um observador
deslocado. É simplesmente uma questÃo de adiçÃo ou subtracçÃo.
Mas com coordenadas polares é uma confusÃo terrível!
Assim, o tenente que queríamos impedir de nos dizer coisas
acabou por nos dizer uma coisa muito importante de que nos
tínhamos esquecido no projecto do aparelho: a possibilidade de
a estaçÃo de tiro e a de observaçÃo nÃo estarem no mesmo
local! Era uma grande confusÃo remediar aquilo.
Perto do fim do VerÃo deram-me o meu primeiro autêntico
projecto: uma máquina que produziria uma curva contínua a
partir de um conjunto de pontos -entrando um ponto em cada
quinze segundos-, a partir de um novo invento desenvolvido em
Inglaterra para seguir o rasto dos aviSes, chamado "radar".
Era a primeira vez que eu fazia um projecto mecânico, pelo que
estava com um pouco de medo.
Fui ter com um dos outros tipos e disse: "Você é um engenheiro
mecânico; eu nÃo sei fazer engenharia mecânica e tenho este
trabalho ... "
102
"NÃo tem nenhuma dificuldade", disse ele. "Olhe, vou
mostrar-lhe. Há duas regras que precisa de saber para
projectar estas máquinas. Primeiro, a fricçÃo em cada ponto de
apoio é de assim-e-assim e nas junÇÕES das engrenagens de
assim-e-assim. A partir daí pode calcular a força necessária
para impelir a coisa. Segundo, quando temos uma razÃo da
engrenagem, por exemplo de 2 para 1, e queremos saber se
devíamos fazê-la de 10 para 5, ou 24 para 12, ou 48 para 24,
aqui está o modo de decidir: procuramos no CatdIogo de
Engrenagens de Bóston e escolhemos as engrenagens que estÃo no
meio da lista. As da parte mais elevada têm tantos dentes que
sÃo difíceis de fazer. Se conseguissem fazer engrenagens com
dentes ainda mais finos, faziam a lista ainda mais elevada. As
engrenagens da parte mais baixa têm tÃo poucos dentes que se
partem com facilidade.
Por isso os melhores projectos sÃo os que usam engrenagens do
meio da lista."
Diverti-me imenso a projectar aquela máquina. Seleccionando
simplesmente as engrenagens do meio da lista e adicionando os
momentos com os dois números que ele me deu, podia ser
engenheiro mecânico!
O Exército nÃo queria que eu voltasse para Princeton para
trabalhar no meu grau acadêmico depois do VerÃo. Estavam
sempre com aquelas coisas patrióticas e ofereceram-me um
projecto inteiro que eu podia dirigir, se ficasse.
O problema era desenhar uma máquina como a outra -o que eles
chamavam um director-, mas desta vez pensei que o problema era
mais fácil, porque o artilheiro seguia atrás, noutro aviÃo à
mesma altitude. O artilheiro introduzia na minha máquina a sua
altitude e uma estimativa da distância a que seguia atrás do
outro'aviÃo. A minha máquina elevaria automaticamente a arma
com o ângulo correcto e armaria o detonador.
Como director do projecto, ia fazer viagens a Aberdeen. para
arranjar as tabelas de disparo. Contudo, eles já tinham alguns
dados preliminares. Reparei que para a maior parte das
altitudes mais elevadas a que estes aviSes iriam voar nÃo
havia dados. Por isso telefonei para saber porque nÃo havia
dados e verificou-se que os detonadores que iam usar nÃo eram
detonadores de relógio, mas de rastilho de pólvora, que nÃo
funcionavam a essas altitudes -no ar rarefeito apenas
assobiavam.
Pensei que tinha só de fazer correcÇÕES para a resistência do
ar a várias altitudes. Em vez disso, o meu trabalho era
inventar uma

máquina que fizesse o projéctil explodir no momento certo,


quando o detonador nÃo arde!
Resolvi que era difícil de mais para mim e voltei para
Princeton.
Testando cÃes de caça
Quando estava em Los Alamos e arranjava algum tempo livre, ia
muitas vezes visitar minha mulher, que estava num hospital em
Albuquerque, a algumas horas de distância. Uma vez fui
visitá-la e nÃo pude entrar logo, pelo que fui ler para a
biblioteca do hospital.
Li na Sciênce um artigo sobre cÃes de caça que dizia que eles
tinham um faro muito bom. Os autores descreviam as várias
experiências que tinham feito -os cÃes conseguiam identificar
os objectos que tinham sido tocados por pessoas, etc. -e
comecei a pensar: é realmente notável o modo como os cÃes têm
jeito para cheirar e conseguem seguir o rasto das pessoas, e
por aí fora -mas até que ponto somos nós realmente capazes do
mesmo?
Quando chegou a altura de poder visitar minha mulher, fui
vê-la e disse: "Vamos fazer uma experiência. Aquelas garrafas
de Coca-Cola ali (ela tinha uma embalagem de seis garrafas
vazias de CocaCola, que estava a guardar para devolver), nÃo
lhes tocas há uns dias, pois nÃo? "
"É verdade."
Agarrei na embalagem sem tocar nas garrafas e disse: "Muito
bem. Agora vou sair e tu pegas numa das garrafas, segura-a
durante uns dois minutos e depois voltas a colocá-la no mesmo
sítio. Em seguida eu entro e tento descobrir qual foi a
garrafa."
Portanto saí e ela pegou numa das garrafas, segurou-a durante
um bocado -durante muito tempo, porque nÃo sou um cÃo de
caça! Segundo o artigo, eles eram capazes de saber se uma
pessoa tinha apenas tocado no objecto.
A seguir voltei e a coisa era absolutamente óbvia! Nem tive de
cheirar, porque, claro, a temperatura era diferente. E também
era óbvio pelo cheiro. Assim que aproximámos a garrafa da cara
pudemos sentir, cheirando-a, que estava húmida e mais quente.
Portanto, esta experiência nÃo resultou porque era demasiado
óbvia.
A seguir olhei para a prateleira dos livros e disse: "Há uns
tempos que nÃo vês esses livros, pois nÃo? Desta vez, quando
eu sair, tira um
104
livro da prateleira e abre-o, só isso, e volta a fechá-lo;
depois torna a pô-lo no seu lugar. "
Portanto voltei a sair, ela abriu um livro, fechou-o e voltou
a arrumá-lo. Tornei a entrar-e nÃo custou nada! Foi fácil.
Basta cheirar os livros. É difícil de explicar, porque nÃo
estamos habituados a falar disto. Aproximamos cada livro do
nariz, fungamos várias vezes e sabemos. É muito diferente. Um
livro que ali esteve durante um certo tempo tem uma espécie
de cheiro sem interesse, seco. Mas, quando foi tocado por uma
mÃo, há uma humidade e um cheiro muito diferentes.
Fizemos mais umas experiencias e descobri que, ao passo que os
cÃes de caça têm na realidade muitas capacidades, os seres
humanos nÃo têm tÃo poucas como pensam: o que acontece é que
andam com o nariz muito longe do chÃo!
(Reparei que o meu cÃo consegue distinguir correctamente que
caminho segui dentro de casa, especialmente se estou descalço,
cheirando as minhas pegadas. Portanto, tentei fazer isso:
rastejei de gatas pela carpete, fungando, para ver se
distinguia a diferença entre os sítios onde tinha andado e
onde nÃo tinha andado, e achei impossível. Portanto, o cÃo é
muito melhor do que eu.)
Muitos anos depois, quando me encontrava pela primeira vez em
Caltech, houve uma festa em casa do Prof. Bacher, onde se
encontravam muitas pessoas de Caltech. NÃo sei como aconteceu,
mas conteilhes a história de cheirar as garrafas e os livros.
NÃo acreditaram numa palavra, naturalmente, porque sempre
acharam que eu era um mentiroso. Tive de fazer uma
demonstraçÃo.
Tirámos cuidadosamente oito ou nove livros da prateleira sem
lhes tocar directamente com as mÃos e depois saí. Três pessoas
diferentes tocaram em três livros diferentes: pegaram num,
abriram-no, fecharam-no e voltaram a pô-lo no lugar.
A seguir voltei, cheirei as mÃos de toda a gente, assim como
todos os livros -nÃo me lembro do que fiz primeiro -e achei
os três livros certos; errei numa pessoa.
Ainda assim nÃo acreditaram em mim; acharam que era qualquer
truque de magia. Continuaram a tentar descobrir como o tinha
feito. Há um truque famoso deste gênero, em que temos um
comparsa no grupo que nos dá sinais sobre o que interessa, e
estavam a tentar descobrir quem era o comparsa. A partir daí
pensei muitas vezes que seria um bom truque de cartas pegar
num baralho e pedir a uma pessoa que tirasse uma carta e a
voltasse a pôr no baralho enquanto estávamos noutra sala.
Dizíamos.-"Agora vou dizer-lhe qual é a carta, porque sou
105

um cÃo de caça: vou cheirar todas as cartas e dizer qual foi


aquela em que pegou." Claro que, com este tipo de conversa, as
pessoas nÃo acreditariam nem por um minuto que era o que
estávamos realmente a fazer!
As mÃos das pessoas têm cheiros diferentes -é por isso que os
cÃes conseguem identificá-las! Todas as mÃos têm uma espécie
de cheiro húmido e uma pessoa que fuma tem nas mÃos um cheiro
muito diferente do da que nÃo fuma; as senhoras têm muitas
vezes vários tipos de perfumes, etc. Se alguém, por acaso,
tivesse moedas nos bolsos e lhes estivesse a mexer, sentíamos
o cheiro.
Los Alamos a partir de baixo'
Quando digo "Los Alamos a partir de baixo", quero significar
isso mesmo. Embora eu seja presentemente, no meu campo, um
homem um pouco famoso, naquela altura a minha fama nÃo era
nenhuma. Quando comecei a trabalhar com o Projecto Manhattan,
nem sequer tinha um grau acadêmico. Muitas das outras pessoas
que falam de Los Alamos -pessoas em escalSes mais altos-
preocupavam-se com as grandes decisSes. Eu andava sempre de um
lado para o outro, cá por baixo.
Estava um dia a trabalhar no meu quarto em Princeton quando
Bob Wilson entrou e disse que fora financiado para fazer um
trabalho que era segredo, que ele nÃo devia contar a ninguém,
mas que me ia contar porque, assim que eu soubesse o que ele
ia fazer, ia ver que tinha de participar. Por isso me falou do
problema de separar os diferentes isótopos do urânio para no
fim se fazer uma bomba. Ele tinha um processo para separar os
isótopos do urânio (diferente do que foi usado no fim) que
queria tentar desenvolver. Contou-me qual era e disse: "Há uma
reuniÃo ... "
Eu disse que nÃo queria fazer isso.
Adaptado de uma conferência proferida nas Primeiras
Conferências Anuais de Santa Bárbara sobre a Ciência e a
Sociedade na Universidade de Califémia, em Santa Bárbara, em
1975. "Los Alamos a partir de baixo" foi uma das nove
conferências de uma série publicada como Reminiscences of Los
Alamos, 1943-1945, editada por L. Badash et al., pp. 105-132.
Copyright 1980 por D. Reidel Publishing Company, Dordrecht,
Holanda.
Ele retorquiu: "Está bem, há uma reuniÃo às três horas.
Encontramo-nos lá. "
Eu volvi: "NÃo faz mal teres-me contado o segredo porque nÃo
vou contar a ninguém, mas nÃo vou fazer isso. "
Portanto, voltei ao trabalho na minha tese, durante uns três
minutos. Depois comecei a andar para trás e para diante e a
pensar naquilo. Os AlemÃes tinham Hitler e a possibilidade de
desenvolverem uma bomba atómica era óbvia, e o poderem vir a
desenvolvê-la antes de nós era muito assustador. Por isso
resolvi ir à reuniÃo às três horas.
Por volta das quatro horas já tinha uma secretária numa sala e
estava a tentar calcular se determinado método era limitado
pela quantidade total de corrente que se obtém num feixe de
iSes, e por aí fora. NÃo vou entrar em detalhes. Mas tinha uma
secretária, e tinha papel, e trabalhava o mais que podia, e o
mais depressa que podia, para que os tipos que estavam a
construir a aparelhagem pudessem fazer'a experiência ali
mesmo.
Era como esses filmes em que se vê uma parte do equipamento
fazer bruuuuuup, bruu~up, bruuuuuup. Cada vez que levantava os
olhos, aquilo aumentava. 0 que estava a acontecer, claro, era
que todos os rapazes tinham decidido trabalhar naquilo e parar
as suas pesquisas científicas. A ciência parou toda durante a
guerra, excepto o pouco que se fazia em Los Alamos. E isso nÃo
tinha muito de ciência; era, na maior parte, engenharia.
Estava a juntar-se todo o equipamento de diferentes projectos
de pesquisa para formar a nova aparelhagem para a experiência
-tentar separar os isótopos do urânio. Parei o meu trabalho
pela mesma razÃo, apesar de ter tirado umas férias de seis
semanas ao fim de certo tempo e de ter acabado de escrever a
minha tese. E consegui o meu grau académico mesmo antes de ir
para Los Alamos -pelo que nÃo estava tÃo abaixo na escala
como vos fiz acreditar.
Uma das primeiras experiências interessantes que tive neste
projecto em Princeton foi encontrar homens importantes. Nunca
tinha encontrado homens muito importantes. Mas havia uma junta
de avaliaçÃo que tinha de tentar apoiarnos e ajudar-nos no fim
a decidir de que modo íamos separar o urânio. Esta junta tinha
homens como Compton, Tolman, Smyth, Urey, Rabi e Oppenheimer.
Eu participava porque compreendia a teoria de funcionamento do
nosso processo para separar isótopos, e por isso eles me
faziam perguntas e falavam sobre ele. Nessas discussSes, um
homem explicava uma opiniÃo. A seguir, Compton, por exemplo,
explicava um ponto de vista diferente. Dizia

que devia ser deste modo e estava perfeitamente certo. Outro


tipo dizia, bem, talvez, mas existe contra isso esta outra
possibilidade que temos de considerar.
Portanto, está toda a gente em desacordo à volta da mesa.
Surpreende-me e perturba-me que Compton nÃo repita a sua
opiniÃo, dando-lhe ênfase. Por fim, quando tinham acabado,
Tolman, o presidente, dizia: "Bem, depois de ouvir todos estes
argumentos, parece-me que, na verdade, o de Compton é o melhor
de todos, e agora temos de prosseguir."
Foi um enorme choque para mim ver que os homens de uma junta
podiam apresentar todo um conjunto de ideias, cada um pensando
numa nova faceta, recordando ao mesmo tempo o que tinha dito o
outro tipo, de modo que, no fim, se pudesse decidir qual das
ideias era melhor -adicionando tudo-, sem ter de dizer as
coisas três vezes. Eram na verdade homens muito importantes.
Decidiu-se finalmente que este projecto nÃo iria ser o
utilizado para separar o urânio. Disseram-nos entÃo que íamos
parar, porque em Los Alamos, no Novo México, iam começar o
projecto que iria realmente fazer a bomba. íamos todos para lá
fazê-la, Teríamos de fazer experiências e trabalho teórico. Eu
estava no trabalho teórico. Todos os outros estavam no
trabalho experimental.
A pergunta era: o que fazer agora? Los Alamos ainda nÃo estava
pronto. Bob Wilson tentou utilizar este tempo, mandando-me a
Chicago descobrir tudo o que pudéssemos sobre a bomba e os
problemas, entre outras coisas. A seguir, nos nossos
laboratórios, podíamos começar a construir equipamento,
calculadores de vários tipos, etc., que seriam úteis quando
chegássemos a Los Alamos. Assim, nÃo se perdeu tempo.
Mandaram-me a Chicago com instruÇÕES para me encontrar com
cada grupo, dizer-lhes que ia trabalhar com eles e conseguir
que falassem do problema com o detalhe suficiente para que eu
pudesse realmente sentar-me e começar a trabalhar nele. Assim
que chegasse a esse ponto, devia ir ter com outro tipo e pedir
outro problema. Desse modo ia perceber todos os pormenores.
Era uma ideia muito boa, mas a minha consciência incomodava-me
um pouco, porque eles iam todos ter muito trabalho a
explicar-me as coisas e eu ia-me embora sem os ajudar. Mas
tive muita sorte. Quando um dos tipos estava a explicar um
problema, eu disse: "Porque nÃo o resolvem diferenciando sob o
sinal de integral?" Em meia hora ele tinha-o resolvido e
estavam a trabalhar nele há três meses. Portanto,
fiz uma coisa, usando a minha "caixa de ferramentas
diferente". Depois voltei de Chicago e descrevi a situaçÃo -
quanta energia era libertada, como ia ser a bomba, e por aí
fora.
Lembro-me que um amigo que trabalhava comigo, Paul Olum, um
matemático, veio ter comigo depois e disse: "Quando fizerem um
filme sobre este assunto, pSem o tipo a regressar de Chicago
para fazer o seu relatório sobre a bomba aos homens de
Princeton. Vai usar fato, trazer uma pasta, etc. -e aqui está
você com uma camisa suja e apenas a contar-nos precisamente
tudo, apesar de ser uma coisa tÃo séria e dramática. "
Parecia que continuava a haver um atraso e Wilson foi a Los
Alamos ver o que estava a atrasar as coisas. Quando chegou lá,
descobriu que a companhia de construçÃo estava a trabalhar
muito e tinha acabado o teatro e mais uns edifícios que
entendia, mas nÃo tinha recebido instruÇÕES claras sobre o
modo de construir o laboratório -quantos canos para gás,
quantos para água. Por isso, Wilson ficou por lá e decidiu,
simplesmente, quanta água, quanto gás, etc., e disse-lhes que
começassem a construir os laboratórios.
Quando voltou para o pé de nós, estávamos todos prontos para
ir e começávamos a ficar impacientes. Por isso se juntaram
todos e decidiram que, de qualquer modo, íamos para lá, mesmo
apesar de nÃo estar pronto.
Fomos recrutados, a propósito, por Oppenheimer e outros e ele
era muito paciente. Interessava-se com os problemas de toda a
gente. Preocupava-se com a minha mulher, que tinha
tuberculose, e com haver ou nÃo haver lá um hospital, etc. Foi
a primeira vez que contactei com ele de modo tÃo pessoal; era
um homem maravilhoso.
Disseram-nos que tivéssemos muito cuidado -nÃo comprar os
bilhetes do comboio em Princeton, por exemplo, porque a
estaçÃo de Princeton era muito pequena e, se toda a gente
comprasse bilhetes de comboio para Albuquerque, no Novo
México, em Princeton, iria haver suspeitas de que se passava
qualquer coisa. Por isso, toda a gente comprou os bilhetes
noutro sítio, excepto eu, porque achei que se toda a gente
comprasse os bilhetes noutro sítio...
Portanto fui para a estaçÃo do comboio e disse: "Quero ir para
Albuquerque, no Novo México", e o homem respondeu: "Oh, entÃo
estas coisas todas sÃo para si!" Tínhamos andado a embarcar
caixotes cheios de calculadoras durante semanas, esperando que
eles nÃo reparassem que o endereço era Albuquerque. Assim,
pelo menos, expliquei a razÃo de embarcarmos tantos caixotes.
Eu ia partir para Albuquerque.
109

Bem, quando chegámos, as casas e os dormitórios e coisas assim


nÃo estavam prontos. De facto, mesmo os laboratórios nÃo
estavam completamente prontos. Ao chegarmos antes do tempo,
estávamos a apressá-los. Por isso ficaram malucos e alugaram
casas de rancho em toda a vizinhança. Ao princípio ficámos
numa casa de rancho e de manhà vínhamos de carro. A primeira
manhà em que entrei foi tremendamente impressionante. A beleza
do cenário, para uma pessoa do este que nÃo tinha viajado
muito, era sensacional. Há os grandes rochedos que viram
provavelmente em fotografias. Chegávamos vindos de baixo e
ficávamos surpreendidos ao ver a alta mesa. O que mais me
impressionou foi que, quando subia, disse que talvez tivessem
vivido ali índios e o tipo que ia a guiar parou o carro,
voltou a esquina e apontou umas grutas índias que podíamos
inspeccionar. Foi muito excitante.
Quando cheguei ao local pela primeira vez, vi que havia um
área técnica que no fim deveria ter uma vedaçÃo, mas ainda
estava aberta. Depois era para haver uma cidade, e depois uma
grande vedaçÃo mais para fora, à volta da cidade. Mas ainda
estavam a construir, e o meu amigo Paul Olum, que era meu
assistente, estava ao pé do portilo com uma prancha com papel
a verificar os camiSes que entravam e saíam e dizendo aos
motoristas que caminho seguir para entregarem os materiais nos
diferentes lugares.
Quando entrava no laboratório, encontrava homens de que tinha
ouvido falar por ter visto os seus trabalhos na Physical
Revue, etc. Nunca os encontrara antes. "Este é John Williams",
diziam. EntÃo um tipo levanta-se de uma secretária coberta de
planos, com as mangas arregaçadas, e grita pelas janelas
ordens aos camiSes e outros veículos que vÃo em diferentes
direcÇÕES com material de construçÃo. Por outras palavras, os
físicos experimentais nÃo tinham nada que fazer até que os
edifícios e a aparelhagem estivessem prontos, pelo que
construíam os edifícios -ou ajudavam a construí-los.
Os físicos teóricos, por outro lado, podiam começar
imediatamente a trabalhar, pelo que se decidiu que nÃo iam
viver nas casas de rancho, mas no local. Começámos a trabalhar
imediatamente. NÃo havia quadros negros, excepto um com rodas,
e nós andávamos com ele e Robert Serber explicava-nos tudo o
que tinha pensado em Berkeley sobre a bomba atómica, a física
nuclear e todas estas coisas. Eu nÃo sabia muito do assunto.
Andara a fazer outro gênero de coisas. Por isso tive de
trabalhar muitíssimo.
Passava todos os dias a estudar e a ler. Foi um tempo muito
febril. Mas tive sorte. Todos os manda-chuvas, excepto Hans
Bethe, estavam
lio
fora nessa altura e o que Bethe precisava era de alguém com
quem falar, para poder discutir as suas ideias. Bem, ele chega
ao pé deste jovem descarado que se encontra num gabinete e
começa a argumentar, explicando a sua ideia. Eu digo: "NÃo,
nÃo, você está maluco. Vai ser assim." E ele diz: "Só um
momento", e explica como nÃo é ele que está maluco, mas eu. E
continuamos neste tom. Compreendem, quando oiço falar de
física, só penso na física, e por isso digo coisas impensadas
como "nÃo, nÃo, nÃo tem razÃo" ou "está maluco". Mas era disso
exactamente que ele precisava. Consegui subir um pouco em
virtude disso e acabei como chefe de grupo, abaixo de Bethe,
com quatro tipos abaixo de mim.
Bem, quando lá cheguei, como disse, os dormitórios nÃo estavam
prontos. Mas os físicos teóricos tinham de ficar lá de
qualquer modo. O primeiro lugar onde nos puseram foi numa
escola velha -uma escola de rapazes que ali existira antes.
Eu vivia numa coisa chamada PavilhÃo da Mecânica. Estávamos
todos apertados em beliches e aquilo nÃo se encontrava muito
bem organizado, dado que Bob Christy e a mulher tinham de ir
para a casa de banho através do nosso quarto. Por isso era
muito desconfortável.
Por fim, o dormitório ficou construido. Fui ao sítio onde
atribuíam os quartos e disseram-me que podia escolher o meu.
Sabem o que fiz? Fui ver onde era o dormitório das raparigas e
escolhi um quarto mesmo em frente -apesar de mais tarde ter
descoberto que havia uma grande árvore mesmo defronte da
janela desse quarto.
Disseram-me que ia haver duas pessoas em cada quarto, mas que
isso seria apenas temporário. Cada dois quartos partilhavam
uma casa de banho e havia beliches duplos em cada quarto. Mas
eu nÃo queria duas pessoas no quarto.
Na noite em que cheguei nÃo estava lá mais ninguém e decidi
tentar ficar com o quarto só para mim. A minha mulher estava
doente com tuberculose em Albuquerque, mas eu tinha umas
caixas com coisas dela. Por isso tirei para fora uma camisa de
dormir e, abrindo a parte de cima da cama, atirei-a
descuidadamente para lá. Tirei para fora uns chinelos e atirei
um pouco de pó para o chÃo da casa de banho. Fiz com que
parecesse que estava lá mais alguém. Portanto, o que
aconteceu? Bem, devia ser um dormitório de homens, estÃo a
ver? Por isso chego a casa nessa noite e o meu pijama está bem
dobrado e posto debaixo da almofada e os meus chinelos bem
arrumados aos pés da cama. A camisa de dormir de senhora está
bem dobrada debaixo da almofada, a cama está toda arranjada e
feita e os chinelos bem arru
111

mados. O pó da casa de banho foi limpo e nÃo há ninguém a


dormir na cama de cima.
Na noite seguinte, a mesma coisa. Quando acordo, amarroto a
cama de cima, atiro para lá desmazeladamente a camisa de
dormir, espalho o pó na casa de banho, etc. Continuei assim
durante quatro noites até todos estarem instalados e já nÃo
haver perigo de porem outra pessoa no quarto. Todas as noites
encontrava tudo muito bem arrumado, apesar de ser um
dormitório de homens.
Nessa altura eu nÃo sabia, mas esta pequena habilidade
envolveu-me na política. Havia lá todos os tipos de facÇÕES,
claro-a facçÃo das donas de casa, a facçÃo dos mecânicos, a
facçÃo dos técnicos, etc. Bem, os solteiros e as solteiras que
viviam nos dormitórios acharam que também deviam ter uma
facçÃo, porque tinha sido promulgada uma nova regra: Nada de
Mulheres no Dormitório dos Homens. Bem, isto é absolutamente
ridículo! No fim de contas, somos gente adulta! Que disparate
é este? Tínhamos de ter actividade política. Por isso
debatemos o assunto e eu fui eleito para representar as
pessoas do dormitório no conselho da cidade.
Depois de já lá estar aproximadamente há ano e meio, um dia
falei com Hans Bethe sobre qualquer coisa. Ele nessa altura
estava no grande conselho directivo e entÃo contei-lhe o
truque com a camisa de dormir e os chinelos de quarto da minha
mulher. Ele começou a rir: "EntÃo foi assim que entrou para o
conselho da cidade", disse ele.
Afinal o que aconteceu foi isto. A mulher que limpa os quartos
no dormitório abre a porta e de repente há sarilho: está
alguém a dormir com um dos tipos! Ela informa a
mulher-a-dias-chefe, a mulher-a-dias-chefe informa o tenente,
o tenente informa o major. A informaçÃo sobe, através dos
generais, até à comissÃo directiva.
O que hÃo-de fazer? O que vÃo fazer é pensar no assunto! Mas,
entretanto, que instruÇÕES descem através dos capitÃes, dos
majores, dos tenentes, da chefe das mulheres-a-dias, da
mulher-a-dias? "Ponham só as coisas onde estavam, façam a
limpeza e vejam o que acontece. " No dia seguinte, a mesma
informaçÃo. Durante quatro dias preocuparam-se com o que
haviam de fazer. Finalmente promulgaram uma regra: Nada de
Mulheres no Dormitório dos Homens! E isso causou tal desagrado
lá em baixo que tiveram de eleger alguém para representar
os...
Gostaria de vos falar da censura que lá tivemos. Decidiram
fazer uma coisa completamente ilegal e censurar a
correspondência das pessoas dentro dos Estados Unidos -o que
nÃo tinham o direito de fazer. Por
112
isso teve de ser estabelecida muito deficadamente como uma
coisa voluntária. Concordávamos voluntariamente em nÃo fechar
os sobrescritos das cartas que enviávamos e nÃo fazia mal eles
abrirem as cartas que chegavam para nós; aceitámos isso
voluntariamente. Deixávamos as cartas abertas; e eles
selavam-nas se estivessem bem. Se, na sua opiniÃo, nÃo
estivessem bem, devolviam-nos a carta com uma nota dizendo que
tinha uma violaçÃo de determinado parágrafo do nosso
"entendimento".
Portanto, muito delicadamente, entre todos estes cientistas de
espírito liberal instalou-se finalmente a censura, com muitas
regras. Permitiam-nos comentar o carácter da administraçÃo, se
quiséssemos, pelo que podíamos escrever ao nosso senador e
dizer-lhe que nÃo gostávamos do modo como as coisas eram
dirigidas, e coisas assim. Disseram que nos informavam se
houvesse alguma dificuldade.
Assim, ficou tudo preparado, e surge o primeiro dia de
censura: telefone! Briiing!
Eu: "O que é?"
"Venha, cá abaixo, por favor."
Desço.
"O que é isto?"
"É uma carta do meu pai. "
"Bem, isto o que é?"
Trata-se de papel pautado com linhas acompanhadas de pontos
quatro pontos abaixo, um ponto acima, dois pontos abaixo, um
ponto acima, ponto debaixo de ponto...
"O que é isto?"
"É um código."
Eles insistiram: "Sim, é um código, mas o que é que ele diz?"
"NÃo sei o que ele diz."
Eles tornaram: "EntÃo qual é a chave do código? Como é que o
decifra?""
"Bem, nÃo sei", respondi eu.
A seguir perguntaram: "O que é isto?"
"É uma carta da minha mulher-diz TJXYWZTWIX3."
"O que é isso?"
"Outro código", respondi.
"Qual é a chave dele?"
"NÃo sei."
"Você recebe códigos e nÃo sabe a chave?"
113

"Precisamente. Tenho um jogo. Desafio-os a mandar-me um código


que eu nÃo consiga decifrar, estÃo a ver? Por isso eles estÃo
a inventar códigos do outro lado e mandam-mos, e nÃo me dizem
qual é a chave. "
Ora uma das regras da censura era nÃo interferir em nada que
fizéssemos normalmente na correspondência. Por isso disseram:
"Bem, vai pedir-lhes, por favor, que mandem a chave juntamente
com o código."
Respondi: "Eu nÃo quero ver a chave!"
"Bom, está bem, nós tiramos a chave."
Portanto fizemos essa combinaçÃo. Está bem? Muito bem. No dia
seguinte recebo uma carta da minha mulher que diz: "É muito
difícil escrever porque sinto que -está a olhar por cima do
meu ombro. " E onde estava a palavra havia uma mancha feita
com apagador de tinta.
Por isso fui até ao escritório e disse: "Vocês nÃo devem tocar
na correspondência que chega se nÃo vos agrada. Podem vê-la,
mas nÃo devem apagar nada."
Eles responderam: "NÃo seja ridículo. Acha que é assim que os
censores trabalham -com apagador de tinta? Eles cortam as
coisas com uma tesoura."
Concordei. Por isso escrevi uma carta à minha mulher em que
disse: "Usaste apagador de tinta na tua carta?" Ela respondeu:
"NÃo, nÃo usei apagador de tinta na minha carta, deve ter sido
-", e tinham feito um buraco no papel.
Por isso tornei a ir ter com o major que devia dirigir todo
este serviço e queixei-me. Sabem, levou algum tempo, mas
sentia-me como se fosse representante encarregado de
esclarecer as coisas. O major tentou explicar-me que as
pessoas que eram os censores tinham sido ensinadas a
desempenhar essas funÇÕES, mas nÃo compreendiam esta nova
maneira de ser tÃo delicados com tal matéria.
Portanto, de qualquer modo, ele disse: "O que é que se passa,
acha que nÃo tenho boa vontade?"
Respondi: "Sim, tem muito boa vontade, mas acho que nÃo tem
poder. " Porque, estÃo a ver, ele já estava naquele trabalho
há três ou quatro dias.
Ele retorquiu: "Vamos ver isso!" Agarra no telefone e fica
tudo esclarecido. As cartas nÃo voltaram a ser cortadas.
Contudo, houve mais umas quantas dificuldades. Por exemplo, um
dia recebi uma carta da minha mulher e uma nota do censor que
dizia: "Estava incluído um código sem a chave, por isso o
tirámos."
114
Por isso, nesse dia, quando fui ver minha mulher a
Albuquerque, ela perguntou: "EntÃo onde estÃo as coisas?"
"Que coisas?"
"Litargírio, glicerina, cachorros quentes, roupa lavada."
"Espera aí-era uma lista?"
"Sim."
"Era um código", disse eu. "Pensaram. que era um
códigolitargírio, glicerina, etc." (Ela queria litargírio e
glicerina para fazer cimento para consertar uma caixa de
ônix.)
Tudo isto se passou nas primeiras semanas antes de tudo
esclarecido. Seja como for, um dia em que estou entretido com
a máquina de calcular reparo numa coisa muito peculiar: se
dividirmos 1 por 243, obtemos 0,004 115 226 337... Isto é
bastante engraçado: a operaçÃo fica um pouco baralhada,
enquanto a efectuamos, depois de 559, mas corrige-se
rapidamente a si própria e repete-se de modo correcto. Achei
divertido.
Bem, ponho aquilo na correspondência, mas é-me devolvido. NÃo
passa e há uma nota: "Veja o parágrafo 17B." Vou ver o
parágrafo 17B. Diz: "As cartas devem ser escritas apenas em
inglês, russo, espanhol, português, latim, alemÃo e por aí
fora. A autorizaçÃo para utilizar qualquer outra língua deve
ser obtida por escrito. " E depois dizia: "NÃo sÃo permitidos
códigos."
Por isso escrevi ao censor uma pequena nota na minha carta que
dizia que eu achava que aquilo nÃo podia, evidentemente, ser
um código, porque, se dividirmos realmente 1 por 243, obtemos
de facto tudo aquilo, e portanto nÃo há mais informaçÃo no
número 0,004 115 226 337... do que no número 243 -o que
dificilmente chega a ser alguma informaçÃo. E por aí fora.
Pedi por isso autorizaçÃo para utilizar números árabes nas
minhas cartas. Assim consegui ultrapassar o problema.
Havia sempre qualquer dificuldade com as cartas que iam e as
que vinham. Por exemplo, a minha mulher estava sempre a
mencionar o facto de se sentir desconfortável ao escrever com
a sensaçÃo de que o censor estava a olhar por cima do seu
ombro. Ora, como regra, nÃo devemos mencionar a censura. Nós
nÃo devemos, mas como podem eles dizer-lhe isso, a ela? Por
isso continuam a mandar-me notas: "A sua mulher mencionou a
censura. " Com certeza que a minha mulher mencionou a censura.
Finalmente, mandaram-me uma nota que dizia: "Por favor informe
a sua mulher de que nÃo deve mencionar a censura nas suas
cartas." Por isso começo a minha carta: "Deram-me ins
115

truÇÕES para te informar de que nÃo deves mencionar a censura


nas tuas cartas." Puum, puum, volta imediatamente para trás!
Por isso escrevo: "Deram-me instruÇÕES para informar a minha
mulher de que nÃo deve mencionar a censura. Como diabo hei-de
fazer isso? Mais ainda, porque é que tenho de lhe dizer que
nÃo mencione a censura? EstÃo a esconder-me alguma coisa?"
É muito interessante que o próprio censor tenha de me dizer
que diga à minha mulher que nÃo diga que ela... Mas eles
tinham uma resposta. Disseram que sim, que se preocupavam com
a possibilidade de a correspondência ser interceptada à vinda
de Albuquerque e de alguém poder descobrir que havia censura
se vissem a correspondência, e que ela, por favor, actuasse de
modo mais normal.
Por isso, da próxima vez que fui a Albuquerque falei com ela e
disse: "Olha, agora vamos deixar de mencionar a censura." Mas
tínhamos tido tantos problemas que, por fim, estabelecemos um
código, uma coisa ilegal. Se eu pusesse um ponto no fim da
minha assinatura, isso queria dizer que eu tinha tido
problemas outra vez e ela seguiria para o movimento seguinte
que tinha preparado. Ela ficava ali sentada todo o dia, porque
estava doente, e pensava em coisas para fazer. A última coisa
que fez foi mandar-me um anúncio que achou perfeitamente
legítimo. Dizia: "Mande ao seu namorado uma carta num puzzle.
Nós vendemos-lhe a carta em branco. Você escreve-a, corta-a
aos bocados, mete-a num saquinho e pSe-na no correio." Recebi
a carta com uma nota que dizia: "nÃo temos tempo para jogos.
Por favor dê instruÇÕES à sua mulher para se limitar às cartas
vulgares."
Bem, estávamos preparados com o tal ponto a mais, mas eles
emendaram-se mesmo a tempo e nÃo tivemos de o usar. O que
tínhamos pronto para a próxima começava: "Espero que te tenhas
lembrado de abrir esta carta com cuidado porque incluí o pó
peptobismol para o teu estômago, como combinámos." Seria uma
carta cheia de pó. Calculávamos que no gabinete a abririam
depressa, o pó iria parar todo ao chÃo e eles ficariam
preocupados porque nÃo deviam modificar nada. Tinham de
apanhar todo o pepto-bismol... Mas nÃo tivemos de usar este
truque.
Como resultado de todas estas experiências com o censor, eu
sabia exactamente o que podia passar e o que nÃo podia passar.
Mais ninguém sabia tÃo bem como eu. E assim consegui ganhar
algum dinheiro com isto fazendo apostas.
Um dia descobri que os trabalhadores que viviam mais longe, no
exterior, e queriam entrar tinham demasiada preguiça para dar
a volta
116
e entrar pelo portÃo, pelo que haviam cortado um buraco na
vedaçÃo. por isso saí pelo portÃo, fui até ao buraco e entrei,
voltei a sair, etc., até o sargento que estava ao portÃo se
começar a interrogar sobre o que estava a acontecer. Como pode
este tipo estar sempre a sair sem nunca entrar? E, claro, a
sua reacçÃo natural foi chamar o tenente e tentar meter-me na
prisÃo por estar a fazer isto. Expliquei que havia um buraco.
Percebem, estava sempre a tentar emendar as pessoas. E assim
apostei com alguém que conseguia falar do buraco da vedaçÃo
numa carta e pô-la no correio. E, na verdade, consegui. E
consegui dizendo: "Devias ver o modo como administram este
lugar [era o que nos permitiam dizer]. Há um buraco na vedaçÃo
a setenta e um pés do lugar tal, com estas e estas medidas e
que podemos atravessar.
Ora o que podem eles fazer? NÃo me podem dizer que nÃo existe
tal buraco. Quero dizer, o que vÃo eles fazer? O problema é
deles se há esse buraco. Deviam consertá-lo. Por isso consegui
passar essa.
Também consegui fazer passar uma carta que contava como um dos
rapazes que trabalhavam num dos meus grupos, John Kemeny, fora
acordado a meio da noite e atormentado com luzes em frente dos
olhos por uns idiotas do exército de lá, porque tinham
descoberto qualquer coisa sobre o pai dele, que parecia que
era comunista, ou coisa assim semelhante. Kemeny é agora um
homem famoso.
Houve outras coisas. Tal como o buraco na vedaçÃo, eu estava
sempre a tentar apontar estas coisas de modo indirecto. E uma
das coisas que queria apontar era isto: que mesmo no princípio
tínhamos segredos terrivelmente importantes; havíamos
desenvolvido muito trabalho sobre as bombas e o urânio e sobre
como isto funcionava, etc.; e tudo isto constava em documentos
que estavam em ficheiros de madeira que tinham cadeados
comuns, pequenos e vulgares. Claro que havia várias coisas
feitas pela loja, como uma vara que descia e depois um cadeado
para a segurar, mas era sempre só um cadeado. Para mais,
conseguíamos tirar as coisas sem sequer abrir o cadeado.
Bastava inclinar o ficheiro para trás. A gaveta inferior tem
uma pequena vara que deve prender os papéis e por baixo há uma
grande abertura na madeira por onde podemos puxar os papéis.
Por isso passava o tempo a forçar as fechaduras e a salientar
que aquilo era muito fácil de fazer. E, cada vez que nos
reuníamos todos, levantava-me e dizia que tínhamos segredos
importantes e que nÃo os devíamos guardar naquelas coisas;
precisávamos de fechaduras melhores. Um dia, durante a
reuniÃo, Teller levantou-se e disse-me: "Eu nÃo
117

guardo os meus segredos mais importantes no meu ficheiro;


guardo-os na gaveta da minha secretária. NÃo é melhor?"
Respondi: "NÃo sei. NÃo vi a gaveta da sua secretária."
Ele estava sentado perto da fila da frente e eu encontrava-me
mais atrás. Portanto, a reuniÃo continua e eu saio
dissimuladamente e vou ver a gaveta da secretária dele.
Nem sequer tenho de forçar a fechadura. Acontece que, se
pusermos a mÃo na parte de trás, por baixo, podemos puxar os
papéis para fora, como naqueles distribuidores de papel de
toilette. Puxamos um, ele puxa outro, esse puxa outro...
esvaziei toda a gaveta, arrumei tud
a um lado e voltei para cima.
A reuniÃo tinha justamente acabado e estavam todos a sair;
juntei-me ao grupo, corri para alcançar Teller e disse: "Oh, a
propósito, deixe-me ver a gaveta da sua secretária."
"Com certeza", disse ele, e mostrou-me a secretária.
Olhei para ela e disse: "Parece-me bastante boa. Vamos ver o
que lá tem."
"Teria, muito gosto em lha mostrar", disse ele, metendo a
chave e abrindo a gaveta, "se você mesmo nÃo a tivesse já
visto."
O problema de pregar uma partida a um homem altamente
inteli-gente como o Sr. Teller ~ que o tempo que ele leva a
pensar, desde
momento em que vê que qualquer coisa está errada até
compreender exactamente o que aconteceu, é demasiado pequeno
para nos dar qualquer prazer!
Alguns dos problemas especiais que tínhamos em Los Alamos eram
bastante interessantes. Uma coisa tinha que ver com a
segurança das instalaÇÕES de Oak Ridge, no Tennessee. Los
Alamos ia fazer a bomba, mas em Oak Ridge estavam a tentar
separar os isótopos do urânioo urânio 238 e o urânio 235, o
que é explosivo. Eles começavam justamente a conseguir
quantidades infinitesimais de um 235 experimental e, ao mesmo
tempo, praticavam a química. Ia haver grandes instalaÇÕES,
eles iam ter cubas do elemento e iam pegar no elemento
purificado e voltar a purificá-lo, preparando-o para a fase
seguinte. (Temos de o purificar em várias fases.) Assim, eles
praticavam, por um lado, e, por outro, conseguiam
experimentalmente um bocadinho de U235 de uma das peças da
aparelhagem. E estavam a tentar aprender como o analisar, para
determinar a quantidade de urânio 235 nele contido. Apesar de
lhes mandarmos instruÇÕES, nunca conseguiram acertar.
118
Por isso, finalmente, Emil Segrè disse que a única maneira de
se conseguir acertar era ele ir ver o que eles estavam a
fazer. O pessoal do exército disse: "NÃo, a nossa política é
manter toda a informaçÃo sobre Los Alamos num único lugar."
As pessoas de Oak Ridge nÃo sabiam para que é que aquilo ia
servir, só sabiam o que estavam a tentar fazer. Isto é, as
pessoas de mais categoria sabiam que estavam a separar o
urânio, mas nÃo sabiam qual ia ser o poder da bomba, ou
exactamente como trabalhava, ou qualquer outra coisa. As
pessoas mais abaixo nem sequer sabiam o que estavam a fazer. E
o exército queria manter as coisas neste pé. NÃo havia
intercâmbio de informaçÃo. Mas Segrè insistiu em que eles
nunca acertariam as análises e que tudo se iria desfazer em
fumo. Por isso foi finalmente ver o que eles estavam a fazer
e, quando andava por lá, viu-os a empurrar sobre rodas um
tanque de água, água verde -que é uma soluçÃo de nitrato de
urânio.
Ele disse: "Um, também lhe vÃo mexer assim quando estiver
purificado? É isso que vÃo fazer?"
"Com certeza, porque nÃo?", responderam eles.
"NÃo irá explodir?", perguntou ele.
Huh! Explodir?
EntÃo o exército disse: "Está. a ver! NÃo lhes devia ter
deixado chegar nenhuma informaçÃo! Agora estÃo todos
preocupados."
Acontece que o exército tinha compreendido que quantidade do
elemento precisávamos para fazer a bomba -vinte quilos ou lá o
que era -e eles perceberam que nunca haveria nas instalaÇÕES
esta quantidade de material purificado, pelo que nÃo havia
perigo. Mas eles nÃo sabiam que os neutrSes eram muitíssimo
mais eficazes quando se encontravam com a velocidade diminuída
pela água. Na água é preciso menos de um décimo -nÃo, um
centésimo -da quantidade de material necessário para provocar
uma reacçÃo que produza radiactividade. Mata as pessoas em
redor, etc. Era muito perigoso e eles nÃo tinham ligado
nenhuma à segurança.
Por isso é enviado um telegrama de Oppenheimer para Segrè:
"Percorra as instalaÇÕES todas. Repare onde devem estar todas
as concentraÇÕES, com o processo como eles o projectaram.
Entretanto calcularemos que quantidade de material se pode
juntar antes que haja uma explosÃo."
Começaram a trabalhar nisso dois grupos. O grupo de Christy
estudou as soluÇÕES em água e o meu grupo estudou o pó seco em
caixas. Calculámos a quantidade de material que eles podiam
acumular com
119

1
i
. i
i
segurança. E Christy ia dizer a todos em Oak Ridge qual era a
situaçÃo, porque falhara tudo e agora tínhamos de lá ir pô-los
ao corrente. Por isso, dei com alegria todos os meus números a
Christy e disse-lhe:, "Tem o material todo, por isso vá."
Christy apanhou uma pneumonia; tive de ir eu.
Eu nunca viajara de aviÃo. Amarraram os segredos numa coisinha
às minhas costas! 0 aviÃo, nesses tempos, era como um
autocarro,' exceptuando o facto de as estaÇÕES serem mais
afastadas. Parava-se de vez em quando e esperáva-se.
Havia um tipo sentado ao meu lado balançando uma corrente e
dizendo coisas como: "Deve ser terrivelmente difícil voar de
aviÃo nestes dias sem uma prioridade."
NÃo pude resistir e respondi: "Bern, nÃo sei. Eu tenho uma
prioridade. "
Um pouco mais tarde tentou novamente: "Vêm uns generais. VÃo
tirar alguns de nós, os números três."
"NÃo faz mal", disse eu, "eu sou um número dois."
Provavelmente ele escreveu ao seu membro do Congresso -se é
que ele mesmo nÃo era um membro do Congresso -a perguntar: "O
que é que eles estÃo a fazer, a espalhar por aí estes miúdos
com prioridades número dois no meio da guerra?"
Seja como for, cheguei a Oak Ridge. A primeira coisa que fiz
foi pedir-lhes que me levassem às instalaÇÕES e nÃo disse
nada, só olhei para tudo. Descobri que a situaçÃo era ainda
pior do que Segrè relatara, porque ele tinha reparado em
certas caixas em grandes pilhas numa sala, mas nÃo reparou
numa pilha de caixas noutra sala do outro lado da mesma parede
-e coisas assim. Ora, estÃo a ver, se temos demasiado material
junto, rebenta.
Por isso percorri todas as instalaÇÕES. Tenho muito má
memória, mas, quando trabalho intensamente, a memória melhora
a curto prazo, pelo que consegui lembrar-me de coisas malucas
como edifício 90-207, cuba número isto-eaquilo, e por aí fora.
Fui para o meu quarto nessa noite e analisei detidamente todo
o problema, verificando onde estavam todos os perigos e o que
era preciso fazer para remediar a situaçÃo. É bastante fácil.
Pomos cádmio nas soluÇÕES para absorver os neutrSes na água e
separamos as caixas umas das outras, de acordo com certas
regras.
No dia seguinte ia haver uma grande reuniÃo. Esqueci-me de
dizer que, antes de sair de Los Alamos, Oppenheimer me disse:
"Agora, as pessoas tecnicamente capazes lá em Oak Ridge sÃo: o
Sr. Julian Webb,
120
o Sr. Fulano, etc. Quero que se certifique de que essas
pessoas estÃo na reuniÃo, que lhes diga como aquilo pode ser
tornado seguro, de modo que eles realmente compreendam."
"E se eles nÃo estÃo na reuniÃo? Que devo fazer?", perguntei.
Ele volveu: "EntÃo deve dizer: 'Los Alamos nÃo pode aceitar a
responsabilidade pela segurança das instalaÇÕES de Oak Ridge,
a menos que ... !'"
"Quer dizer que eu, o pequeno Richard, vou entrar lá e dizer
... ?"
"Sim, pequeno Richard, vai e faz isso", respondeu ele.
Realmente cresci depressa!
Quando cheguei, de facto, os importantes da companhia e o
pessoal técnico que eu queria estavam lá, tal como os generais
e toda a gente que estava interessada neste problema muito
sério. Isto foi bom porque as instalaÇÕES teriam explodido se
ninguém tivesse prestado atençÃo a este problema.
Havia um tenente Zumwalt, que se encarregou de mim.
Informou-me de que o coronel dissera que eu nÃo os devia pôr
ao corrente de como funcionam os neutrSes e todos esses
detalhes, porque queremos manter as coisas separadas, pelo que
bastava dizer o que deviam fazer para manter a segurança.
Eu volvi: "Na minha opiniÃo, é impossível que eles obedeçam a
uma porçÃo de regras sem saberem como a coisa funciona. Estou
convencido de que só vai resultar se eu lhes disser: 'Los
Alamos nÃo pode aceitar a responsabilidade pela segurança das
instalaÇÕES de Oak Ridge, a menos que eles estejam
completamente informados do seu funcionamento!'"
Foi óptimo. O tenente leva-me ao coronel e repete o meu
comentário. O coronel diz: "Só cinco minutos", e depois vai
até à janela, pára e pensa. É para isso que eles têm muito
jeito -para tomar decisSes. Achei notável que o problema de a
informaçÃo sobre o modo de funcionamento da bomba dever ou nÃo
estar nas instalaÇÕES de Oak Ridge tivesse de ser decidido e
pudesse ser decidido em cinco minutos. Por isso tenho bastante
respeito por esses tipos militares, porque eu nunca consigo
decidir qualquer coisa muito importante num determinado espaço
de tempo, seja ela qual for.
Ao fim de cinco minutos ele disse: "Muito bem, Sr. Feynman,
avance."
Sentei-me e contei-lhes tudo sobre neutrSes: como funcionavam,
dá dá, tá, tá, tá, há demasiados neutrSes juntos, é preciso
manter o material separado, o cádmio absorve, e os neutrSes
lentos sÃo mais efica
121

zes do que os neutrSes rápidos, e blá, blá, blá -tudo coisas


que e elementares em Los Alamos, mas de que eles nunca tinham
ouvid falar, pelo que lhes pareceu que eu era um grande gênio.
O resultado foi eles decidirem organizar pequenos grupos para
pro cederem aos seus próprios cálculos para aprender como
fazê-lo. Começaram a projectar de novo instalaÇÕES, e
estavam lá os que tinham pro jectado as instalaÇÕES, os que
projectavam as construÇÕES, engenheiros, e engenheiros
químicos para as novas instalaÇÕES que ia lidar com o material
separado.
Disseram-me que voltasse dentro de alguns meses, e por isso
voltei quando os engenheiros tinham acabado o projecto das
instalaÇÕES Agora competia-me vê-las.
Como é que se vêem instalaÇÕES que ainda nÃo estÃo
construídas. NÃo sei. O tenente Zuniwalt, que estava sempre
comigo, dado que eu tinha de ser acompanhado por uma escolta
por toda a parte, leva-me para uma sala onde estÃo dois
engenheiros e uma loooooonga mes coberta com uma pilha de
plantas representando os vários pisos da
instalaÇÕES projectadas.
Dei Desenho Mecânico quando andava na escola, mas nÃo tenho
jeito para ler plantas. Portanto, eles desenrolam a pilha de
plantas começam a dar-me explicaÇÕES, pensando que sou um
gênio. Ora uma das coisas que eles tinham de evitar nas
instalaÇÕES era a acumulaçÃo Tinham problemas como quando está
a trabalhar um evaporador, que tenta acumular o material, e,
se
a válvula se encrava, ou qualquer coisa semelhante, acumula-se
demasiado material e ele explode. Por isso explicaram que
estas instalaÇÕES estavam projectadas de modo que nad
acontecesse se uma válvula qualquer se encravasse. SÃo
precisas, pelo menos, duas válvulas em todos os sítios.
A seguir explicam como a coisa funciona. o tetraclorido de
carbon entra por aqui, o nitrato de urânio daqui entra aqui,
sobe e desce, sobe
através do chÃo, sobe através dos tubos, que sobem do segundo
piso, bluuuuurp -percorrendo a pilha de planos, para cima e
para baixo, para cima e para baixo, falando muito depressa,
explicando as complicadíssimas instalaÇÕES químicas.
Estou completamente confundido. Pior, nÃo sei o que significam
símbolos da planta! Há uma coisa que eu a princípio penso que
é uma janela. É um quadrado com uma cruzinha no meio, e isto
por todo o lado. Penso que é uma janela, mas nÃo, nÃo pode ser
uma janela, porque nÃo está sempre na borda. Quero
perguntar-lhes o que é.
122
Já devem ter estado numa situaçÃo semelhante, em que a
pergunta nÃo surge imediatamente. Imediatamente é que deveria
ter sido. Mas agora já estÃo a falar há muito tempo. Hesitámos
demasiado. Se lhes perguntarmos agora, eles dizem: "Para que é
que se demorou tanto a fazer-me perder tempo?"
O que vou fazer? Tenho uma ideia. Talvez seja uma válvula.
Ponho o dedo numa das misteriosas cruzinhas no meio de uma das
plantas, na página três, e digo: "O que acontece se esta
válvula se encravar?", imaginando que eles vÃo dizer: "NÃo é
uma válvula, é uma janela."
Por isso um deles olha para o outro e diz: "Bem, se essa
válvula se encravar ... ", e percorre a planta para cima e
para baixo, para cima e para baixo, o outro tipo percorre-a
para cima e para baixo, para trás e para a frente, para trás e
para a frente, e olham um para o outro. Voltam-se para mim e
abrem a boca como peixes espantados e dizem: "Tem toda a
razÃo."
Por isso enrolaram as plantas, foram-se embora e nós saímos. E
o Sr. Zuniwalt, que me tinha seguido sempre, comentou: "É um
gênio. Fiquei com a ideia de que você era um gênio quando
percorreu as instalaÇÕES uma vez e na manhà seguinte foi capaz
de lhes falar do evaporador C-21 no edifício 90-207, mas o que
acabou de fazer é tÃo fantástico que eu quero saber como, como
faz isso?"
Disse-lhe que era tentando descobrir se era ou nÃo uma
válvula.
Outro tipo de problema em que trabalhei foi o que segue.
Tínhamos de fazer uma porçÃo de cálculos e para isso
utilizávamos máquinas de calcular Marchant. A propósito, só
para vos dar uma ideia de como era Los Alamos: tínhamos estes
computadores Marchant -calculadoras manuais com números.
Carregávamos e elas multiplicavam, dividiam, somavam, etc.,
mas nÃo tÃo facilmente como agora. Eram aparelhos mecânicos,
que falhavam frequentemente e tinham de ser enviados à fábrica
para serem reparados. Depressa ficámos com falta de máquinas.
Alguns de nós começámos a tirar as tampas. (NÃo devíamos. As
regras diziam: "Se tirarem as tampas, nÃo nos podemos
responsabilizar...") Assim, tirámos as tampas e tivemos uma
bela série de liÇÕES sobre a maneira de as consertar, e fomos
melhorando à medida que íamos tendo mais reparaÇÕES e mais
complicadas. Quando surgia alguma coisa demasiado complicada,
mandávamos a máquina para a fábrica, mas fazíamos as
reparaÇÕES fáceis e mantínhamos as coisas a funcionar. Acabei
por tratar dos computadores todos e havia um tipo na oficina
que tratava das máquinas de escrever.
123

De qualquer modo, decidimos que o grande problema -que era


calcular exactamente o que acontecia durante a implosÃo da
bomba, de
modo a podermos saber rigorosamente quanta energia era
libertada,~ etc. -exigia muito mais cálculo do que o que
éramos capazes de fazer.., Um tipo esperto chamado Stanley
Frankel compreendeu que possivelmente isso poderia ser feito
em máquinas IBM. A companhia IBM tinha máquinas para fins de
negócios, máquinas de somar chamadas tabuladoras para registar
somas e uma multiplicadora em que se metiam cartSes e ela
tomava dois números de um cartÃo e multiplicava-os. Também
havia comparadoras, classificadoras, etc.
Assim, Frankel imaginou um belo programa. Se tivéssemos um
número suficiente dessas máquinas, podíamos pegar nos cartSes
e fazê-los passar por um ciclo. Todas as pessoas que fazem
actualmente cálculos numéricos sabem exactamente do que estou
a falar, mas nessa altura isto era uma novidade -produçÃo em
massa com máquinas. Tínhamos feito coisas deste gênero em
máquinas de somar. Normalmente, vamos passo a passo, fazendo
tudo nós mesmos. Mas isto era diferente: íamos primeiro à
máquina de somar, depois à de multiplicar, depois à de somar,
etc. Por isso, Frankel projectou este sistema e encomendou as
máquinas à companhia IBM, porque percebeu que era uma boa
maneira de resolver os nossos problemas.
Precisávamos de um homem para consertar as máquinas, para as
manter em funcionamento. E o exército estava sempre para
mandar um tipo, mas havia sempre um atraso. Ora nós estávamos
sempre com, pressa. Tudo o que fazíamos, tentávamos fazer o
mais depressa possível. Neste caso particular preparávamos
todos os passos numéricos que as máquinas deviam fazer -
multiplicar isto, e depois fazer isto, e subtrair aquilo.
Depois preparávamos o programa, mas nÃo tínhamos uma máquina
para o testar.
Por isso arranjámos uma sala onde instalámos algumas
raparigas. Cada uma delas tinha uma Marchant: uma
multiplicava, outra somava. Outra ainda calculava o cubo -a
única coisa que fazia era determinar o cubo de um número numa
tabela e entregá-lo à rapariga seguinte.
Percorremos deste modo o nosso ciclo até eliminarmos todos os
defeitos. Verificou-se que o conseguíamos fazer com uma
velocidade muitíssimo maior do que da outra maneira, em que
cada uma das pessoas fazia todos os passos. Com este sistema
conseguimos uma velocidade que era a prevista para a máquina
IBM. A única diferença é que as máquinas IBM nÃo se cansavam e
podiam trabalhar três turnos. Mas as raparigas cansavam-se ao
fim de certo tempo.
124
De qualquer modo, eliminámos os defeitos durante este processo
e finalmente chegaram as máquinas, mas nÃo o mecânico. Estas
máquinas eram das mais complicadas da tecnologia desses dias,
grandes coisas que vinham parcialmente desmontadas, com uma
quantidade de fios e plantas indicando o que fazer. Fomos lá e
montámo-las, Stan Frankel, eu e outro tipo, e tivemos as
nossas dificuldades. A maior parte das dificuldades eram os
importantSes a entrar constantemente e a dizer: "VÃo partir
qualquer coisa!"
Umas vezes montávamo-las bem e elas funcionavam e outras
montávamo-las mal e nÃo funcionavam. Um dia em que estava a
trabalhar numa máquina de multiplicar vi lá dentro uma parte
dobrada, mas tive medo de a endireitar porque se podia partir
-estavam sempre a dizer-nos que íamos estragar
irreversivelmente qualquer coisa. Quando chegou finalmente o
mecânico, consertou as máquinas que nÃo estavam prontas e
ficou tudo a funcionar. Mas teve dificuldades com aquela com
que eu também tinha dificuldades. Ao fim de três dias ainda
estava a trabalhar nessa última máquina.
Fui até lá e disse: "Oh, reparei que aquilo estava dobrado."
Ele volveu: "Oh, claro. É só isso!" Dobrado! Ficou tudo bem. E
pronto.
Bem, o Sr. Frankel, que tinha iniciado o programa, começou a
sofrer da doença dos computadores, doença que qualquer pessoa
que trabalhe com computadores conhece. É uma doença muito
séria e interfere completamente com o trabalho. O problema com
os computadores é que brincamos com eles. SÃo tÃo
maravilhosos! Temos estes interruptores -se é um número par,
fazemos isto, se é um número ímpar, fazemos aquilo -e
depressa conseguimos fazer coisas cada vez mais elaboradas com
uma máquina, se formos suficientemente espertos.
Ao fim de algum tempo, o sistema desmoronou-se. Frankel nÃo
prestava nenhuma atençÃo; nÃo supervisionava ninguém. O
sistema funcionava muitíssimo devagar -enquanto ele estava
sentado numa sala a imaginar como fazer com que um tabulador
imprimisse automaticamente o arco-tangente de X e depois
começasse a trabalhar e imprimisse colunas e depois bitsi,
bitsi, bitsi, e calculasse automaticamente o arco tangente por
integraçÃo enquanto prosseguia, fazendo uma tabela completa
numa operaçÃo.
Absolutamente inútil. Tínhamos tabelas de arco-tangente. Mas,
se alguma vez se trabalhou com computadores, compreende-se a
doença o prazer de se conseguir ver quanto se pode fazer. Mas
o pobre tipo que inventou a coisa foi o primeiro a apanhar a
doença.
125

Pediram-me que interrompesse o trabalho que estava a fazer no


meu grupo e me encarregasse do grupo MM, e tentei evitar a
doença. E, embora eles tenham resolvido só três problemas em
nove meses, eu possuía um grupo muito bom.
O verdadeiro problema era que nunca ninguém tinha dito nada
àqueles tipos. O exército havia-os seleccionado em todo o país
para uma coisa chamada Destacamento Especial de Engenheiros -
rapazes espertos do liceu que possuíam capacidades para
engenharia. Mandaram-nos para Los Alamos. Puseram-nos em
casernas. E nÃo lhes diziam nada.
Depois começaram a trabalhar, e o que tinham de fazer era
lidar com máquinas IBM-perfurando cartSes, com números que
nÃo compreendiam. Ninguém lhes dava nenhuma explicaçÃo. Aquilo
avançava muito devagar. Eu disse que a primeira coisa que
tinha de acontecer era estes técnicos saberem o que estavam a
fazer. Oppenheimer falou com a segurança e conseguiu uma
licença especial para que eu lhes pudesse fazer uma bela
conferência sobre o que estávamos a fazer, e eles ficaram
todos entusiasmados: "Estamos a lutar uma guerra! Vemos o que
é! " Sabiam o significado dos números. Se a pressÃo subisse,
isso queria dizer que se libertava mais energia, e por aí
fora. Sabiam o que estavam a fazer.
TransformaçÃo completa! Começaram eles próprios a inventar
maneiras de fazer melhor as coisas. Melhoraram o esquema.
Trabalhavam de noite, durante a qual nÃo precisavam de ser
supervisionados; nÃo necessitavam de nada. Compreendiam tudo;
inventaram vários dos programas que usámos.
Os meus rapazes produziram realmente trabalho e a única coisa
que foi preciso fazer foi dizer-lhes do que se tratava. Como
resultado, apesar de antes terem levado nove meses a resolver
três problemas, resolvemos nove problemas em três meses, o que
é quase dez vezes mais rápido.
Mas uma das maneiras secretas que tínhamos de resolver os
problemas era esta. Os problemas consistiam num monte de
cartSes que tinham de passar por um cicio. Primeiro somar,
depois multiplicar e assim passava pelo ciclo de máquinas da
sala, devagar, enquanto dava voltas. Por isso inventámos uma
maneira de pôr um conjunto de cartSes de cor diferente a
passar também por um ciclo, mas desfasado. Resolvíamos dois ou
três problemas de cada vez.
Mas isto conduziu-nos a outro problema. Perto do fim da
guerra, por exemplo, mesmo antes de termos de fazer um teste
em Albuquerque, punha-se a pergunta: quanto se libertaria?
Tínhamos estado a cal
126
cular a libertaçÃo partindo de vários projectos, mas nÃo
tínhamos feito os cálculos para o projecto específico que foi
finalmente utilizado. Por isso, Bob Christy apareceu e disse:
"Gostaríamos de ter os resultados do modo como isto vai
funcionar dentro de um mês" -ou um período de tempo muito
curto, como três semanas.
"É impossível", respondi.
Ele teimou: "Olhe, vocês estÃo a deitar cá para fora quase
dois problemas por mês. Só sÃo precisas duas ou três semanas
para cada problema."
Eu disse: "Eu sei. Na realidade, leva muito mais tempo a
resolver um problema, mas estamos a resolvê-los em paralelo.
Ao passarem, levam muito tempo, e nÃo há maneira de os fazer
circular mais depressa. "
Ele continuou e eu comecei a pensar: "Haverá um modo de os
fazer circular mais depressa? E se nÃo fizéssemos mais nada na
máquina, para que mais nada interferisse?" Escrevi no quadro
um desafio aos rapazes -CONSEGUIREMOS? Começam todos a gritar:
"Sim, trabalhamos em turnos duplos, fazemos horas
extraordinárias ", e mais coisas do género. "Vamos tentar.
Vamos tentar!"
E a regra foi: fora com todos os outros problemas. Apenas um
problema e concentremo-nos nele. E assim começaram a
trabalhar.
A minha mulher, Arlene, estava doente com tuberculose
-realmente muito doente. Parecia poder acontecer alguma coisa
a qualquer momento, pelo que combinei antecipadamente com um
amigo do dormitório levar-lhe o carro emprestado numa
emergência para poder chegar rapidamente a Albuquerque.
Chamava-se Maus Fuchs. Tratava-se do espiÃo e usava o seu
automóvel para levar segredos atómicos de Los Alamos para
Santa Fé. Mas ninguém sabia.
A emergência chegou. Pedi o carro de Fuchs e levei duas
pessoas que estavam a pedir boleia, para o caso de acontecer
alguma coisa ao carro no caminho para Albuquerque. De facto,
mesmo quando íamos a entrar em Santa Fé, tivemos um furo. Os
dois tipos ajudaram-me a mudar o pneu e mesmo quando estávamos
a sair de Santa Fé tivemos outro furo. Empurrámos o carro até
uma bomba de gasolina perto.
O tipo da bomba de gasolina estava a arranjar o carro de outra
pessoa e ia levar um certo tempo até nos poder ajudar. Nem
pensei em dizer nada, mas os dois tipos foram ter com o homem
da bomba de gasolina e contaram-lhe a situaçÃo. Em breve
tínhamos um pneu novo (mas nenhum sobresselente -era difícil
conseguir pneus durante a guerra).
127
A umas trinta milhas de Albuquerque tive um terceiro furo,
pela que deixei o carro na estrada e fomos de boleia o resto
do caminho. Telefonei para uma garagem para irem buscar o
carro enquanto ia ao hospital ver minha mulher.
Arlene morreu algumas horas depois de eu ter chegado. Entrou
uma enfermeira para preencher a certidÃo de óbito e voltou a
sair. Passei um pouco mais de tempo com minha mulher. Depois
olhei para o relógio que lhe dera sete anos antes, quando ela
tinha adoecido com tuberculose. Era uma coisa que nesses dias
era muito boa: um relógio digital, cujos números mudavam
mecanicamente. O relógio era muito delicado e parava
frequentemente por uma razÃo ou por outra -eu tinha de o
consertar de vez em quando -, mas mantive-o em funcionamento
durante todos esses anos. Agora parara outra vez, às 9.22, a
hora da certidÃo de óbito!
Recordei aquela vez em que estava na minha casa da
fraternidade quando, sem nenhuma razÃo, me ocorreu a ideia de
que a minha avó tinha morrido. Logo a seguir houve uma chamada
telefónica, sem mais nem menos. Era para Pete Bernays -a minha
avó nÃo tinha morrido. Portanto, recordei aquilo para o caso
de alguém me contar uma história que acabasse de outro modo.
Calculei que essas coisas podem por vezes acontecer por sorte
-no fim de contas, a minha avó era muito velha-, apesar de as
pessoas poderem pensar que acontecem devido a qualquer
fenômeno sobrenatural.
Arlene tivera aquele relógio ao lado da cama durante todo o
tempo em que tinha estado doente e agora ele parara no momento
da sua morte. Posso compreender como uma pessoa que tem
tendência para acreditar na possibilidade dessas coisas, e que
nÃo tem um espírito céptico -principalmente numa
circunstância daquelas -, nÃo tenta imediatamente descobrir o
que aconteceu, mas, em vez disso, explica que ninguém tocou no
relógio e que nÃo havia possibilidade de uma explicaçÃo por
fenômenos normais. O relógio parou, simplesmente. Tornar-se-ia
um exemplo dramático destes fenômenos fantásticos.
Vi que a luz do quarto era fraca, e entÃo lembrei-me de que a
enfermeira tinha pegado no relógio e o havia voltado para a
luz, para ver melhor o mostrador. Isso podia facilmente tê-lo
feito parar.
Fui andar um pouco lá fora. Talvez me estivesse a enganar a
mim mesmo, mas admirava-me de nÃo sentir o que as pessoas
devem sentir naquelas circunstâncias. NÃo estava satisfeito,
mas nÃo me sentia terrivelmente perturbado, talvez por ter
sabido durante sete anos que ia acontecer uma coisa do gênero.
128
NÃo sabia como ia enfrentar todos os meus amigos em Los
Alamos. NÃo queria pessoas com ar sério a falarem-me do
assunto. Quando voltei (tive ainda mais um furo no caminho),
perguntaram-me o que acontecera.
"Morreu. E como vai o programa?"
Perceberam logo que eu nÃo queria lamentaÇÕES.
(É evidente que eu fizera qualquer coisa a mim próprio
psicologicamente: a realidade era tÃo importante -eu tinha de
compreender o que realmente acontecera fisiologicamente a
Arlene -que nÃo chorei até muitos meses depois, quando estava
em Oak Ridge. Um dia em que passava por um armazém com
vestidos na montra pensei que ela havia de gostar de um deles.
Isso foi de mais para mim.)
Quando voltei ao trabalho no programa de cálculo, encontrei-o
numa confusÃo: havia cartSes brancos, havia cartSes azuis,
havia cartSes amarelos, e eu comecei a dizer: "NÃo deviam
resolver mais de um problema-apenas um problema!" Eles
responderam: "Vá-se embora, vá-se embora, vá-se embora.
Espere, que nós explicamos tudo."
Por isso esperei e o que se passou foi isto: à medida que os
cartSes iam passando, a máquina fazia por vezes um erro, ou
eles punham um número errado. Quando isso acontecia, o que
costumávamos ter de fazer era voltar atrás e repetir tudo. Mas
eles repararam que um erro num certo ponto de um ciclo apenas
afecta os números próximos, no ciclo seguinte afecta os
números próximos, etc. Percorre a pilha de cartSes. Se
tivermos cinquenta cartSes e fizermos um erro no cartÃo número
trinta e nove, ele afecta o trinta e sete, o trinta e oito e o
trinta e nove. 0 seguinte, o cartÃo trinta e seis, trinta e
sete, trinta e oito, trinta e nove e quarenta. Na vez seguinte
espalha-se como uma doença.
Portanto, eles encontraram um erro e tiveram uma ideia.
Processariam apenas um pequeno conjunto de dez cartSes à volta
do erro. E, como dez cartSes podem passar pela máquina mais
rapidamente do que o conjunto de cinquenta cartSes, eles
passavam rapidamente este outro conjunto enquanto continuavam
com os cinquenta cartSes com a doença a espalhar-se. Mas a
outra coisa processava-se rapidamente e eles confirmavam tudo
e corrigiam. Muito inteligente.
Era assim que aqueles tipos trabalhavam para conseguir
velocidade. NÃo havia outro modo. Se tivessem de parar para
tentar emendar, teríamos perdido tempo. NÃo teríamos
conseguido. Era isso que estavam a fazer.
Claro, sabem o que aconteceu quando estavam a fazer isto.
Encontraram um erro no conjunto azul. E, por isso, tinham um
conjunto
129

amarelo com um pouco menos de cartSes; circulava mais depressa


do que o conjunto azul. Quando estÃo mesmo a ficar malucos
-porque depois de emendarem isto têm de tratar do conjunto
branco-, entra o c h efe.
"Deixe-nos sozinhos", dizem eles. Deixei-os sozinhos e tudo
resultou. Resolvemos o problema a tempo e foi assim.
Ao princípio eu era um subordinado. Mais tarde tornei-me um
dirigente de grupo. E encontrei homens muito importantes. Uma
das grandes experiências da minha vida é ter encontrado todos
estes físicos maravilhosos.
Havia, claro, Enrico Fermi. Veio uma vez de Chicago para
trocar impressSes e ajudar-nos se tivéssemos alguns problemas.
Tivemos um encontro com ele; eu fizera uns cálculos e obtivera
alguns resultados. Os cálculos eram tÃo elaborados que a coisa
se tornava muito difícil. Ora eu era normalmente especialista
no assunto; conseguia sempre dizer qual ia ser a resposta, ou,
quando a obtinha, podia explicar porquê. Mas isto era tÃo
complicado que eu nÃo conseguia explicar porque era assim.
Por isso disse a Fermi que estava a resolver este problema e
comecei a descrever os resultados. Ele pediu: "Espere, antes
de me dizer o resultado deixe-me pensar. Vai ser assim (tinha
razÃo), e vai ser assim por isto e por aquilo. E há uma
explicaçÃo perfeitamente evidente para isto ... "
Ele estava a fazer dez vezes melhor aquilo para que eu devia
ter jeito. Foi uma liçÃo para mim.
Depois havia John Von Neumann, o grande matemático.
Costumávamos dar passeios ao domingo. Passeávamos nos canyons,
muitas vezes com Bethe e Bob Bacher. Era um grande prazer. E
Von Neumann deu-me uma ideia interessante: que nÃo temos de
ser responsáveis pelo mundo em que vivemos. Assim, desenvolvi
um sentimento muito poderoso de irresponsabilidade social como
resultado do conselho de Neumann. Tornou-me um homem muito
feliz a partir daí. Mas foi Von Neumann quem plantou a semente
que desenvolveu a minha irresponsabilidade activa!
Encontrei também Nieis Bolir. Nesses dias chamava-se Nicholas
Baker e veio para Los Alamos com Jim Baker, o seu filho, cujo
nome é realmente Aage Bolir. Vieram da Dinamarca e eram
físicos muito famosos, como sabem. Mesmo para os importantSes,
Bolir era um grande deus.
130
Estivemos uma vez numa reuniÃo, quando ele veio pela primeira
vez, e todos queriam ver o grande Bolir, pelo que havia muita
gente presente; discutíamos os problemas da bomba e eu estava
lá atrás, em qualquer lugar num canto. Ele chegou e foi-se
embora, e tudo o que pude ver dele foi entre as cabeças das
pessoas.
Na manhà do dia em que ele devia vir pela segunda vez recebo
uma chamada telefónica.
"Está... Feynman?"
"Sim."
"Fala Jim Baker." É o filho dele. "O meu pai e eu gostaríamos
de falar consigo. "
"Eu? Sou Feynman, sou apenas um ... "
"Está bem. +s oito horas, pode ser? "
Assim, às oito da manhÃ, antes de alguém acordar, vou lá.
Entramos num escritório na área técnica e ele diz: "Estivemos
a pensar em como poderíamos tornar a bomba mais eficiente e
tivemos a seguinte ideia."
Eu digo: "NÃo, nÃo vai resultar. NÃo é eficiente... blá, blá,
blá."
EntÃo responde: "E se for assim e assim?"
"Parece um pouco melhor, mas tem esta ideia disparatada",
torno eu.
Isto continuou durante umas duas horas, percorrendo para trás
e para a frente montes de ideias, para trás e para a frente, a
discutir. O grande Nieis estava sempre a acender o cachimbo;
apagava-se sempre. E falava de um modo incompreensível -
mumble, mumble, difícil de perceber. Conseguia perceber melhor
o filho.
"Bem", disse ele finalmente, acendendo o cachimbo, "acho que
agora podemos mandar entrar os importantSes." EntÃo chamaram
todos os outros tipos e tiveram um debate com eles.
EntÃo o filho contou-me o que acontecera. A última vez que lá
tinha estado, Bolir dissera ao filho: "Lembras-te do nome
daquele rapaz ali atrás? É o único tipo que nÃo tem medo de
mim e que, quando eu tiver uma ideia disparatada, o dirá. Por
isso, da próxima vez que quisermos discutir ideias, nÃo o
vamos poder fazer com estes tipos, que dizem a tudo sim, sim,
Dr. Bolir. Vai chamar esse tipo e falamos com ele primeiro."
Fui sempre parvo nesse aspecto. Ignorava sempre com quem
estava a falar. Só me preocupava com a física. Se uma ideia
parecia péssima, eu dizia que parecia péssima. Se parecia boa,
dizia que parecia boa. Simples proposiçÃo.
131

Procedi sempre deste modo. É bom, é agradável -se o pudermos


fazer. Na minha vida tenho a sorte de poder fazer isto.
Depois de termos feito os cálculos, a coisa que aconteceu a
seguir, claro, foi o teste. Na realidade, eu estava em casa
numas curtas férias nessa altura, depois da morte da minha
mulher, e recebi uma mensagem que dizia: "Espera-se o bebé
para o dia tal."
Voei para lá e cheguei precisamente quando os autocarros
começavam a partir, pelo que me dirigi directamente para o
local e esperei lá, a vinte milhas de distância.
Tínhamos um rádio e eles deviam dizer-nos quando aquilo ia
explodir e tudo isso, mas o rádio nÃo funcionava, e por isso
nÃo sabíamos o que estava a acontecer. Mas, mesmo uns minutos
antes do momento previsto para a explosÃo, o rádio começou a
funcionar e eles disseram-nos que faltavam vinte segundos mais
ou menos para as pessoas que estavam muito longe como nós.
Havia outros mais perto, a seis milhas.
Deram-nos óculos escuros para a podermos observar com eles.
óculos escuros! A vinte milhas de distância nÃo se podia ver
nada com óculos escuros. Por isso achei que a única coisa que
podia realmente fazer mal aos olhos (a luz brilhante nunca
pode fazer mal aos olhos) eram os ultravioletas. Fui para trás
do pára-brisas de um camiÃo, porque os ultravioletas nÃo
atravessam o vidro, de modo que assim seria seguro, e eu podia
ver aquilo.
Chega a altura e o tremendo relâmpago lá longe é tÃo brilhante
que eu me baixo e vejo uma mancha avermelhada no chÃo do
camiÃo. Digo: "NÃo é isto. Isto é uma pós-imagem." Por isso
volto a olhar para cima e vejo uma luz branca a mudar para
amarela e depois para cor de laranja. Formam-se nuvens que
voltam a desaparecer -devido à compressÃo e expansÃo da onda
de choque.
Finalmente, uma grande bola cor de laranja, com o centro muito
brilhante, começa a elevar-se e a ondular um pouco e a
tornar-se ligeiramente negra nas bordas, e entÃo vemos que é
uma grande bola de fumo com relâmpagos no interior, com o
calor do fogo a expandir-se para fora.
Tudo isto levou aproximadamente um minuto. Foi uma série do
brilhante ao escuro e eu tinha-a visto. Devo ser o único tipo
que verdadeiramente viu a coisa -o primeiro teste de Trinity.
Todos os outros tinham óculos escuros e as pessoas que estavam
a seis milhas nÃo puderam ver porque lhes disseram que se
deitassem no chÃo. Sou provavelmente o único tipo que a viu
com os olhos humanos.
132
Finalmente, ao fim de aproximadamente minuto e meio, há
repentinamente um tremendo barulho, BANG, e depois um
ribombar, como um trovÃo -e foi isso que me convenceu.
Ninguém dissera uma palavra durante isto tudo. Apenas
observávamos calmamente. Mas este som libertou toda a gente-
libertou-me particularmente porque a solidez do som a essa
distância significava que a coisa tinha realmente resultado.
O homem que estava a meu lado perguntou: "O que foi aquilo?"
Eu respondi: "Foi a BOMBA."
0 homem era William Laurence. Estava ali para redigir um
artigo a descrever toda a situaçÃo. Era eu quem o devia
acompanhar. Depois descobriu-se que aquilo era demasiado
técnico para ele, e por isso mais tarde veio H. D. Smyth e eu
guiei-o. Uma das coisas que fizemos foi entrar numa sala onde
estava, no alto de um estreito pedestal, uma bola metálica
prateada. Podíamos pôr a mÃo sobre ela. Estava quente. Era
radiactiva. Era plutónio. E nós ficámos à porta da sala a
falar sobre ele. Era um novo elemento que era produzido pelo
homem, que nunca existira antes na Terra, excepto
possivelmente mesmo no início, durante um período de tempo
muito curto. E aqui estava ele isolado, radiactivo e com estas
propriedades. E nós tínhamo-lo produzido. E por isso era
tremendamente valioso.
Entretanto, sabem o que as pessoas fazem enquanto falam
balançam, etc. Ele estava a dar pontapés no calço da porta e
eu disse: "Sim, o calço é certamente apropriado para esta
porta." O calço era um hemisfério de dez polegadas de um metal
amarelado -ouro, na realidade.
O que tinha acontecido era que precisávamos de fazer uma
experiência para ver quantos neutrSes eram reflectidos por
diferentes materiais; para poupar os neutrSes nÃo usámos muito
material. Testámos muitos materiais diferentes. Testámos
platina, testámos zinco, testámos latÃo, testámos ouro. Por
isso, ao fazermos os testes com o ouro, tínhamos aqueles
bocados de ouro e alguém teve a brilhante ideia de usar aquela
grande bola de ouro como calço para a porta da sala que
continha o plutónio.
Depois da explosÃo houve um tremendo entusiasmo em Los Alamos.
Toda a gente deu festas, andámos todos agitados. Sentei-me num
jeep e toquei tambor, etc. Mas lembro-me que um homem, Bob
Wilson, apenas estava sentado, cabisbaixo.
Eu perguntei: "Porque está com esse ar cabisbaixo?"
Resposta dele: "Fizemos uma coisa terrível."
133

Eu retorqui: "Mas foi você quem a começou. Você é que nos


meteu nisto."
EstÃo a ver, o que me aconteceu -o que aconteceu a todos nós
foi que começámos por uma boa razÃo, depois trabalhámos muito
para realizar uma coisa e foi um prazer, um entusiasmo. E
parámos de pensar, sabem. Parámos apenas. Bob Wilson era o
único que naquele momento ainda pensava naquilo.
Voltei à civilizaçÃo pouco tempo depois e fui ensinar para
Cornell, e a minha primeira impressÃo foi muito estranha. Já
nÃo a consigo compreender, mas nessa altura senti-a muito
fortemente. Sentava-me num restaurante em Nova Iorque, por
exemplo, olhava para os edifícios, lá fora, e começava a
pensar, sabem, sobre quanto era o raio da destruiçâo da bomba
em Hiroxima e por aí fora... A que distância daqui fica a 34.'
Rua?... Todos aqueles edifícios esmagados, etc. E ia andando e
via pessoas a construir uma ponte, ou entÃo uma estrada nova,
e eu pensava, sÃo doidos, nÃo compreendem, nÃo compreendem.
Porque estÃo a fazer coisas novas? É tÃo inútil!
Mas, felizmente, tem sido inútil durante quase quarenta anos,
nÃo tem? Por isso eu nÃo tinha razÃo ao pensar que era inútil
fazer pontes e ainda bem que as outras pessoas tiveram o bom
senso de seguir em frente.
Arrombador de cofres encontra
arrombador de cofres
Aprendi a forçar fechaduras com um tipo chamado Leo Lavatelli.
Acontece que forçar fechaduras de canhÃo vulgares -como as
fechaduras Yale -é fácil. Tentamos rodar a fechadura metendo
uma chave de parafusos no buraco (temos de empurrar de lado de
modo a deixar o buraco aberto). NÃo roda porque há lá dentro
uns pinos que têm de ser levantados exactamente à altura certa
(pela chave). Como nÃo é feita com perfeiçÃo, a fechadura está
mais presa por um pino do que pelos outros. Ora, se
empurrarmos um instrumentozinho de arame -pode ser um clip com
uma pequena curva na extremidade -e o balançarmos para trás e
para a frente dentro da fechadura, acabaremos por empurrar o
pino que prende melhor à altura certa. A fechadura cede um
pouco, pelo que o primeiro pino fica levantado -fica preso na
134
borda. Agora, a maior parte da carga é suportada por outro
pino, e repetimos o mesmo procedimento ao acaso durante uns
minutos mais, até todos os pinos estarem levantados.
O que acontece frequentemente é que a chave de parafusos
escorrega e ouvimos tic-tic-tic, e ficamos furiosos. Há umas
pequenas molas que voltam a empurrar os pinos para baixo
quando se tira a chave, e podemos ouvi-los estalar quando
soltamos a chave de parafusos. (Por vezes soltamos
intencionalmente a chave de parafusos para ver se estamos a
conseguir alguma coisa -podíamos estar a empurrar no sentido
errado, por exemplo.) O processo é um pouco como Sísifo:
estamos sempre a escorregar pela encosta abaixo.
É um processo fácil, mas a prática ajuda muito. Aprendemos com
que força devemos empurrar as coisas -com a força suficiente
para que os pinos fiquem levantados, mas nÃo com tanta força
que eles comecem por nÃo se levantar. O que realmente a maior
parte das pessoas nÃo compreendem é que estÃo permanentemente
a fechar-se com fechaduras em toda a parte e nÃo é muito
difícil forçá-las.
Quando começámos a trabalhar no projecto da bomba atómica em
Los Alamos, as coisas eram feitas todas tÃo à pressa que nÃo
estavam realmente prontas. Todos os segredos do projecto -
tudo sobre a bomba atómica -eram guardados em ficheiros, que,
se é que tinham fechaduras, eram fechados com cadeados que
tinham talvez três pinos: nada mais fácil de abrir.
Para melhorar a segurança, a firma guarnecia cada ficheiro com
uma vara comprida que atravessava as pegas das gavetas e se
prendia com um cadeado.
Um tipo disse-me: "Veja esta coisa nova que a firma pôs... é
capaz de abrir o ficheiro agora?
Olhei para a parte de trás do ficheiro e vi que as gavetas nÃo
tinham um fundo sólido. Havia em cada uma uma fenda com uma
barra de arame que segurava uma peça que deslizava (que
prendia os papéis dentro da gaveta). Meti a mÃo por trás, fiz
deslizar a peça para trás e comecei a puxar os papéis para
fora através da fenda. "Veja!", disse eu. "Nem sequer tenho de
forçar a fechadura."
Los Alamos era um sítio em que havia muita cooperaçÃo e
sentíamos que tínhamos a responsabilidade de apontar as coisas
que deviam ser melhoradas. Eu estava sempre a queixar-me de
que as coisas nÃo estavam seguras e, apesar de toda a gente
pensar que estavam seguras porque havia barras de aço e
cadeados, isso nÃo queria dizer nada.
135

Para demonstrar que as fechaduras nÃo queriam dizer nada, cada


vez que queria o relatório de alguém e esse alguém nÃo
estivesse nas imediaÇÕES, eu ia ao seu gabinete, abria o
ficheiro e tirava-o. Quando acabava, devolvia-o ao tipo:
"Obrigado pelo seu relatório."
"Onde o arranjou?"
"No seu ficheiro."
"Mas eu fechei-o à chave!"
"Eu sei que o fechou à chave. As fechaduras nÃo prestam."
Por fim vieram uns ficheiros que tinham fechaduras de
combinaçÃo feitas pela Mosler Safe Company. Tinham três
gavetas. Puxando a gaveta de cima soltavam-se as outras por
meio de um trindo. A gaveta de cima abria-se rodando uma roda
de combinaçÃo para a esquerda, para a direita e para a
esquerda, para a combinaçÃo, e depois para a direita até ao
número dez, o que fazia recuar um ferrolho lá dentro. Podia
fechar-se o ficheiro todo fechando primeiro as gavetas de
baixo, depois a gaveta de cima e girando a roda de combinaçÃo
de modo a desviá-la do número dez, o que empurrava o ferrolho.
Estes novos ficheiros foram um desafio imediato, naturalmente.
Eu adorava quebra-cabeças. Um tipo tenta fazer qualquer coisa
para manter outro tipo afastado; deve haver um modo de vencer
a dificuldade!
Primeiro tinha de compreender como funcionava a fechadura,
pelo que desmontei a do meu gabinete. Funcionava deste modo:
há três discos num único eixo, uns atrás dos outros; cada um
deles tem um entalhe num lugar diferente. A ideia é alinhar os
entalhes de modo que quando giramos a roda até ao dez, o
pequeno impulso resultante da fricçÃo puxará o ferrolho para
dentro da fenda pelos entalhes dos três discos.
Ora, para rodar os discos, há um pino saliente na parte de
trás da roda de combinaçÃo e outro no primeiro disco ao mesmo
raio. Dentro de uma volta da roda de combinaçÃo apanhámos o
primeiro disco.
Na parte de trás do primeiro disco há um pino ao mesmo raio de
um da parte da frente do segundo disco, pelo que, quando
tivermos girado duas vezes a roda de combinaçÃo, também
apanhámos o segundo disco.
Se continuarmos a girar a roda, um pino da parte de trás do
segundo disco prenderá um pino da parte da frente do terceiro
disco, que poremos entÃo na posiçÃo certa com o primeiro
número da combinaçÃo.
Temos entÃo de girar a roda de combinaçÃo no outro sentido uma
volta inteira para prender o segundo disco do outro lado e
depois con
136
tinuar para o segundo número da combinaçÃo para acertar o
segundo disco.
Invertemos novamente a direcçÃo e pomos o primeiro disco na
posiçÃo certa. Agora os entalhes estÃo alinhados e, girando a
roda para o dez, abrimos o ficheiro.
Bem, eu lutava, mas nÃo conseguia chegar a lado nenhum.
Comprei uns livros sobre arrombadores de cofres, mas eram
todos a mesma coisa. No princípio do livro havia umas
histórias dos feitos fantásticos do arrombador de cofres, como
a da mulher presa num frigorífico para carne que está a morrer
gelada, mas o arrombador de cofres, pendurado de cabeça para
baixo, abre-o em dois minutos. Ou há peles preciosas ou ouro
em barras debaixo de água, no mar, e o arrombador de cofres
mergulha e abre a arca.
Na segunda parte do livro ensina-se a arrombar um cofre. Há
toda a espécie de coisas parvas, simplórias, como: "Pode ser
boa ideia tentar uma data como combinaçÃo, porque muitas
pessoas gostam de usar datas. " Ou: "Pense na psicologia do
dono do cofre e no que ele pode usar para a combinaçÃo." E: "A
secretária tem muitas vezes o problema de se esquecer da
combinaçÃo do cofre, pelo que é possível que a escreva num dos
seguintes lugares: ao longo da beira da gaveta da secretária,
numa lista de nomes e moradas ... ", etc.
Disseram-me de facto algumas coisas sensatas sobre a maneira
de abrir cofres vulgares e é fácil de compreender. Os cofres
vulgares têm mais uma pega, pelo que, se empurrarmos a pega
para baixo enquanto giramos a roda de combinaçÃo, como as
coisas sÃo desiguais (como com as fechaduras), a força da pega
a tentar empurrar o ferrolho para dentro dos entalhes (que nÃo
estÃo alinhados) é aguentada mais por um disco do que pelos
outros. Quando o entalhe desse disco fica debaixo do ferrolho,
há um pequeno estalido que podemos ouvir com um estetoscópio,
uma ligeira diminuiçÃo da fricçÃo, que podemos sentir (nÃo
temos de lixar as pontas dos dedos), e sabemos: "Aqui está um
número! "
NÃo sabemos se é o primeiro, o segundo ou o terceiro número,
mas podemos a esse respeito ter uma ideia bastante boa
descobrindo quantas vezes temos de girar a roda no outro
sentido para ouvir outra vez o mesmo estalido. Se é um pouco
menos de uma vez, é o primeiro disco; se é um pouco menos de
duas vezes, é o segundo disco (temos de fazer uma correcçÃo
para a espessura dos pinos).
Este útil truque só resulta em cofres vulgares, que têm a pega
a mais, e por isso esbarrei.
137

Tentei toda a espécie de truques auxiliares com os ficheiros,


como descobrir como soltar os trincos das gavetas de baixo sem
abrir a gaveta de cima, tirando um parafuso da frente e
sondando com um bocado de arame.
Tentei girar a roda de combinaçÃo muito rapidamente e depois
ir para o 10, provocando assim uma ligeira fricçÃo, que eu
esperava que, de qualquer modo, fizesse parar um disco no
ponto certo. Tentei toda a espécie de coisas. Estava
desesperado.
Também fiz uma certa quantidade de estudo sistemático. Por
exemplo, uma combinaçÃo típica era 69-32-21. A que distância
podia estar um número quando abríamos o cofre? Se o número
fosse 69, 68 resultaria? 67 resultaria? Nas fechaduras que
tínhamos, a resposta era sim para ambos, mas 66 nÃo resultava.
Podíamos desviar-nos dois números em cada direcçÃo. Isso
queria dizer que só tínhamos de tentar um número em cada
cinco, e, assim, podíamos tentar 0, 5, 10, 15, etc. Com vinte
números numa roda de cem, eram oito mil possibilidades, em vez
de um milhÃo que teríamos se precisássemos de tentar todos os
números.
Agora a pergunta era: quanto tempo me levaria a tentar as oito
mil combinaÇÕES? Vamos supor que acertei os primeiros dois
números de uma combinaçÃo que estou a tentar apanhar.
Admitamos que os números sÃo 69-32, mas eu nÃo sei -tenho-os
como 70-30. Agora posso tentar as vinte possibilidades para o
terceiro número sem ter de colocar os primeiros dois números
de cada vez. Vamos agora supor que só acertei o primeiro
número da combinaçÃo. Depois de tentar os vinte números do
terceiro disco desloco um pouco a segunda roda e depois tento
outros vinte números na terceira roda.
Pratiquei durante todo o tempo no meu cofre para poder
realizar este processo o mais depressa possível, sem me
esquecer do número que estava a empurrar e baralhar o primeiro
número. Como um tipo que pratica truques com as mÃos, consegui
um ritmo absoluto, de modo que podia tentar os quatrocentos
últimos números possíveis em menos de meia hora. Isso queria
dizer que eu podia abrir um cofre num máximo de oito horas-com
um tempo médio de quatro horas.
Havia outro tipo em Los Alamos, chamado Staley, que também se
interessava por fechaduras. Falávamos nisso de vez em quando,
mas nÃo avançávamos muito. Depois de ter tido esta ideia de
como abrir um cofre num tempo médio de quatro horas, queria
mostrar a Staley como se fazia, pelo que fui ao gabinete de um
tipo no Departamento de Cálculo e pedi: "NÃo se importa que
use o seu cofre? Queria mostrar uma coisa a Staley."
138
Entretanto, uns tipos do Departamento de Cálculo
aproximaram-se e um deles disse: "Eh, vejam todos; Feynman vai
mostrar a Staley como se abre um cofre, ali, ah, ali! " Eu nÃo
ia realmente abrir o cofre; ia só mostrar a Staley este modo
de tentar rapidamente os últimos dois
números sem perder o lugar e ter de colocar novamente o
primeiro número.
Comecei: "Vamos supor que o primeiro número é 40 e que estamos
a tentar 15 para o segundo número. Vamos para trás e para a
frente, dez; mais cinco para trás e para a frente, dez; etc.
Tentámos todos os possíveis terceiros números. Agora tentamos
20 para o segundo número: vamos para trás e para a frente,
dez; outros cinco para trás e para a frente, dez; outros cinco
para trás e para a frente, CLIC" Caiu-me o queixo: o primeiro
e o segundo números, por acaso, estavam certos!
Ninguém viu a minha expressÃo, porque tinha as costas voltadas
para eles. Staley pareceu muito surpreendido, mas ambos
compreendemos muito rapidamente o que se tinha passado, pelo
que puxei a gaveta de cima com um floreado e disse: "E aí tem!
"
Staley comentou: "Estou a ver o que quer dizer; é um esquema
muito
bom", e saímos. Ficaram todos espantados. Foi pura sorte.
Agora é que eu tinha realmente a reputaçÃo de abrir cofres.
Levei aproximadamente ano e meio a chegar a esse ponto (claro,
também estava a trabalhar na bomba!), mas calculei que tinha
vencido os cofres, no sentido em que, se houvesse uma
dificuldade real -se alguém se perdesse, ou morresse, e mais
ninguém soubesse a combina
çÃo, mas as coisas do ficheiro fossem precisas-, eu podia
abri-lo. Depois de ler as coisas absurdas que os arrombadores
de cofres afirmavam, achei que era um feito bastante
respeitável.
NÃo havia nenhuma distracçÃo em Los Alamos e tínhamos de nos
entreter de algum modo, pelo que divertir-me com a fechadura
Mosler do meu ficheiro era uma das minhas distracÇÕES. Um dia
observei uma coisa interessante: quando a fechadura está
aberta, a gaveta foi puxada para fora e a roda deixada no 10
(que é o que as pessoas
fazem quando abrem o seu ficheiro e tiram de lá papéis), o
ferrolho continua para baixo. Ora o que quer isto dizer, o
ferrolho continuar para baixo? Quer dizer que o ferrolho está
na fenda feita pelos três discos, que ainda estÃo bem
alinhados. Ahhhh!
Agora, se eu girar a roda um pouco para fora do 10, o ferrolho
sobe; se eu voltar imediatamente para o 10, o ferrolho volta
para baixo, porque ainda nÃo perturbei a fenda. Se continuar a
desviar-me do 10 em passos de cinco, em determinado ponto nÃo
volta a descer quando eu
139

voltar ao 10: a fenda acabou de ser perturbada. O número


imediatamente anterior, que ainda deixava descer o ferrolho, é
o último número da combinaçÃo!
Compreendi que podia fazer a mesma coisa para achar o segundo
número: assim que sei o último número, posso girar a roda no
outro sentido e novamente, em grupos de cinco, empurrar o
segundo disco pouco a pouco até o ferrolho nÃo descer. O
número imediatamente anterior é o segundo número.
Se fosse muito paciente, poderia apanhar todos os três números
desse modo, mas a quantidade de trabalho envolvida em apanhar
o primeiro número da combinaçÃo com este esquema elaborado
seria muito maior do que tentar apenas os vinte possíveis
primeiros números com os dois outros números que já
conhecíamos, com o ficheiro fechado.
Pratiquei e voltei a praticar até conseguir tirar os últimos
dois números de um ficheiro aberto, mal olhando para o
mostrador. Depois, se estava no gabinete de alguém a discutir
algum problema de física, encostava-me ao seu ficheiro aberto
e, exactamente como um tipo que brinca com as chaves, sem
pensar, enquanto fala, eu fazia oscilar o mostrador para trás
e para a frente, para trás e para a frente. Por vezes punha o
dedo no ferrolho, para nÃo ter de olhar para ver se ele subia.
Deste modo apanhei os dois últimos números de vários
ficheiros. Quando voltava para o meu gabinete, escrevia os
dois números num bocado de papel, que guardava dentro da
fechadura do meu ficheiro. De cada vez que ia buscar o papel
desmontava a fechadura -achei que era um lugar muito seguro.
Ao fim de algum tempo, a minha reputaçÃo começou a ir de vento
em popa, porque aconteciam coisas assim: alguém dizia: "Eh,
Feynman! Christy está fora e precisamos de um documento do seu
cofre. É capaz de o abrir? "
Se era um cofre de que eu sabia que nÃo tinha os dois últimos
números, dizia simplesmente: "Desculpem, mas agora nÃo posso;
tenho este trabalho para fazer." Caso contrário, dizia: "Está
bem, mas tenho de ir buscar as minhas ferramentas. " NÃo
precisava de ferramentas, mas ia ao meu gabinete, abria o meu
ficheiro e via no meu bocadinho de papel: "Christy -35, 60. "
EntÃo pegava numa chave de parafusos, ia até ao gabinete de
Christy e fechava a porta. Evidentemente que nÃo ia deixar
toda a gente saber como fazia aquilo!
Ficava lá sozinho e abria o cofre em poucos minutos. Só tinha
de tentar o primeiro número no máximo vinte vezes, depois
ficar sentado, a ler uma revista ou qualquer coisa, durante
quinze ou vinte minutos.
NÃo valia a pena tentar fazer com que parecesse fácil de mais;
alguém havia de descobrir que havia algum truque! Ao fim de um
bocado abria a porta e dizia: "Está, aberto."
As pessoas pensavam que eu abria os cofres partindo do
princípio. Agora podia manter a ideia, que começou com aquele
acaso com Staley, de que conseguia abrir cofres nas calmas.
Ninguém descobriu que eu apanhava os dois últimos números dos
seus cofres, apesar de -talvez mesmo por isso -eu estar
sempre a fazê-lo, como um viciado do jogo que anda sempre com
um baralho de cartas.
Ia frequentemente a Oak Ridge verificar a segurança das
instalaÇÕES do urânio. Era sempre tudo a correr porque era
tempo de guerra, e uma vez tive de ir lá num fim-de-semana.
Era domingo e nós estávamos no gabinete de um tipo um general,
um presidente ou vice-presidente de uma companhia, mais uns
tipos importantes e eu. Estávamos reunidos para discutir um
relatório que se encontrava no cofre do tipo -um cofre
secreto-, quando, de repente, ele percebeu que nÃo sabia a
combinaçÃo. A secretária era a única pessoa que a sabia, pelo
que ele lhe telefonou para casa, mas ela tinha ido para um
piquenique.
Enquanto tudo isto se passava, perguntei: "Importam-se que eu
me entretenha com o cofre?"
"Ah, ah, ah, de modo nenhum! " Assim, fui até ao cofre e
comecei a mexer nele.
Começaram a discutir como podiam arranjar um carro para tentar
encontrar a secretária e o tipo estava a ficar cada vez mais
embaraçado porque tinha toda aquela gente à espera e ele era
tÃo palerma que nÃo sabia abrir o seu próprio cofre. Estavam
todos tensos e a ficar furiosos com ele, quando CLIC! e o
cofre se abriu.
Em dez minutos tinha aberto o cofre que continha todos os
documentos secretos sobre as instalaÇÕES. Ficaram espantados.
Os cofres nÃo eram aparentemente muito seguros. Foi um choque
terrível: todo o material "só para olhar", ultra-secreto,
fechado neste maravilhoso cofre secreto, e este tipo abre-o em
dez minutos!
Claro que consegui abrir o cofre devido ao meu hábito
permanente de tirar os últimos dois números. Quando me
encontrava em Oak Ridge no mês anterior, estivera no mesmo
gabinete quando o cofre estava aberto e tirar os números
disfarçadamente -estava sempre a praticar a minha obsessÃo.
Apesar de nÃo os ter escrito, conseguia recordá-los vagamente.
Primeiro tentei 40-15, depois 15-40, mas nenhum resultou.
Depois tentei 10-45 com todos os primeiros números e abriu-se.

Aconteceu uma coisa semelhante noutro fim-de-semana em que


visitei Oak Ridge. Tinha escrito um relatório que tinha de ser
aprovado por um coronel e que estava no seu cofre. Todas as
outras pessoas guardavam os documentos em ficheiros, como os
de Los Alamos, mas ele era um coronel, pelo que tinha um
cofre muito mais elegante, com duas portas e com grandes pegas
que puxavam quatro ferrolhos de aço com 3/4 de polegada de
espessura para fora da estrutura. As grandes portas de metal
abriram-se e ele tirou o meu relatório para ler.
Como nunca tivera oportunidade de ver cofres realmente bons,
disse-lhe: "NÃo se importa que eu veja o seu cofre enquanto lê
o meu relatório?"
"à vontade", disse ele, convencido de que eu nÃo podia fazer
nada. Olhei para a parte de trás de uma das sólidas portas de
metal e descobri que a roda de combinaçÃo estava ligada a uma
pequena fechadura que tinha exactamente o mesmo aspecto que a
pequena unidade que estava no meu ficheiro em Los Alamos. A
mesma companhia, o mesmo pequeno ferrolho, excepto que, quando
o ferrolho descia, as grandes pegas do cofre podiam entÃo
movimentar as barras para os lados, e com um grupo de
manivelas podíamos puxar para trás todas aquelas barras de aço
de 3/4 de polegada. O sistema completo de manivelas, segundo
parecia, dependia do mesmo pequeno ferrolho que fechava os
ficheiros.
Apenas pela perfeiçÃo profissional, para ter a certeza de que
era a mesma coisa, tirei os dois números da mesma maneira que
com os cofres dos ficheiros.
Entretanto, ele lia o relatório. Quando acabou disse: "Muito
bem, está óptimo. " Pôs o relatório no cofre, agarrou as
grandes pegas e juntou as grandes portas. Soa tÃo bem quando
fecham, mas eu sei que é apenas psicológico, porque nÃo passa
da mesma fechadura.
NÃo consegui evitar espicaçá-lo um pouco (senti sempre
qualquer coisa em relaçÃo aos militares, com aqueles uniformes
tÃo maravilhosos), pelo que disse: "Pelo modo como fecha o
cofre fico com a ideia de que pensa que as coisas estÃo
seguras lá dentro."
"Claro!"
"A única razÃo por que pensa que estÃo seguras lá dentro é
porque os civis lhe chamam um 'cofre"." (Meti a palavra
"civis" para lhe dar a ideia de que ele fora enganado pelos
civis.)
Ficou muito zangado. "O que quer dizer? NÃo é seguro?"
' A palavra inglesa para "cofre", safe, significa também
"seguro". (N. da T.)
142
"Um bom arrombador de cofres conseguia abri-lo em trinta
minutos."
"Você pode abri-lo em trinta minutos? "
"Eu disse um bom arrombador de cofres. Eu levaria uns quarenta
e cinco."
"Bem!", disse ele-"A minha mulher está à minha espera em casa
com o jantar, mas vou ficar aqui a vê-lo e você vai sentar-se
ali e trabalhar naquilo durante quarenta e cinco minutos e nÃo
o vai abrir! " Sentou-se na sua grande cadeira de couro, pôs
os pés em cima da secretária e começou a ler.
Com confiança absoluta, peguei numa cadeira, levei-a até ao
cofre e sentei-me em frente dele. Comecei a girar a roda ao
acaso, só para fazer alguma coisa.
Ao fim de uns cinco minutos, que é bastante tempo quando
estamos apenas sentados à espera, ele impacientou-se um pouco:
"EntÃo, está a fazer alguns progressos?"
"Com uma coisa destas, ou se abre ou nÃo."
Achei que mais um ou dois minutos já chegavam, pelo que
comecei a trabalhar a sério e dois minutos depois
CLIC-abriu-se.
O queixo do coronel caiu e os olhos saltaram-lhe.
"Coronel", disse eu, num tom sério, "deixe-me dizer-lhe uma
coisa sobre estas fechaduras; quando se deixam abertas as
portas do cofre ou a gaveta de cima do ficheiro, é muito fácil
uma pessoa tirar a combinaçÃo. Foi o que fiz enquanto lia o
meu relatório, apenas para demonstrar o perigo. Devia insistir
em que todos mantivessem as gavetas dos ficheiros fechadas
enquanto estÃo a trabalhar, porque, quando estÃo abertas, sÃo
muito, muito vulneráveis."
" Sim! Estou a ver! É muito interessante! " Depois disso
ficámos do mesmo lado.
Na próxima vez que fui a Oak Ridge, todas as secretárias e as
pessoas que sabiam quem eu era me diziam: "NÃo passe por aqui!
NÃo passe por aqui!"
O coronel tinha feito circular uma nota para todas as pessoas
das instalaÇÕES que dizia: "Durante a sua última visita, o Sr.
Feynman alguma vez esteve no seu gabinete, perto do seu
gabinete, ou passou pelo seu gabinete?" Umas pessoas disseram
que sim, outras que nÃo. As que disseram que sim receberam
outra nota: "Por favor mude a combinaçÃo do seu cofre."
Era esta a soluçÃo dele: eu é que era o perigo. Por isso
tiveram todos de mudar as suas combinaÇÕES por minha causa. É
uma chatice mudar
143

uma combinaçÃo e decorar a nova, razÃo por que estavam todos


furiosos comigo e nÃo queriam que me aproximasse deles: podiam
ter de mudar novamente a combinaçÃo. Claro que os ficheiros
continuaram a estar abertos quando eles trabalhavam!
Havia uma biblioteca em Los Alamos que possuía todos os
documentos com que tínhamos trabalhado: era uma sala sólida,
de cimento, com uma linda porta, grande e com uma roda de
metal que girava como uma cave-cofre-forte. Durante a guerra
eu tentara vê-la de perto. Conhecia a rapariga que era a
bibliotecária e pedi-lhe que me deixasse brincar um bocadinho
com a porta. Fascinava-me: era a maior fechadura que eu jamais
tinha visto! Descobri que nÃo podia usar o meu método de
apanhar os dois últimos números para entrar. De facto, ao
rodar o puxador enquanto a porta estava aberta, fiz a
fechadura fechar-se e ficou saída, e nÃo conseguiram voltar a
fechar a porta até que a rapariga veio e voltou a abrir a
fechadura. Isso acabou com o meu entretenimento com essa
fechadura. NÃo tive tempo de descobrir como funcionava: estava
muito para além das minhas capacidades.
Durante o VerÃo, depois da guerra, tinha uns documentos para
escre ver e trabalho para acabar, pelo que voltei de Cornell,
onde tinha ensinado durante o ano, para Los Alamos. No meio do
meu trabalho tive de me referir a um documento que escrevera
anteriormente, mas que nÃo conseguia recordar e que estava na
biblioteca.
Fui lá abaixo buscar o documento e estava lá um soldado a
andar para trás e para diante, com uma arma. Era sábado, e
depois da guerra a biblioteca fechava aos sábados.
EntÃo lembrei-me do que um grande amigo meu, Frederic de
Hoffman, fizera. Estava na SecçÃo de DesclassificaçÃo. Depois
da guerra, o exército deliberou desclassificar alguns
documentos e ele tinha de andar tanto para trás e para diante
na biblioteca -ver este documento, ver aquele documento,
verificar isto, verificar aquilo -que estava a ficar doido!
Por isso tinha uma cópia de cada documento -todos os segredos
da bomba atómica -em nove ficheiros no seu gabinete.
Fui ao seu gabinete e encontrei as luzes acesas. Parecia que a
pessoa que lá estava -talvez a secretária -tinha saído por
alguns minutos, pelo que esperei. Enquanto esperava comecei a
entreter-me com a roda de combinaçÃo de um dos ficheiros. (A
propósito, eu nÃo tinha os dois últimos números para os cofres
de de Hoffinan; foram postos depois da guerra, depois de eu me
ter ido embora.)
Comecei a brincar com uma das rodas de combinaçÃo e pus-me a
pensar nos livros de arrombadores de cofres. Pensei para
comigo:
144
"Nunca me impressionei muito com os truques descritos nesses
livros, e por isso nunca os tentei, mas vamos ver se se pode
abrir o cofre de de Hoffinan seguindo o livro."
Primeiro truque, a secretária: tem medo de esquecer a
combinaçÃo, por isso a escreve em qualquer lado. Comecei a
procurar em alguns dos lugares mencionados no livro. A gaveta
da secretária estava fechada à chave, mas tinha uma fechadura
vulgar como as que Leo Lavatelli me tinha ensinado a abrir
-ping! Procurei ao longo da borda: nada.
EntÃo procurei entre os papéis da secretária. Encontrei uma
folha que todas as secretárias tinham, com todas as letras
gregas cuidadosamente escritas -para as poderem reconhecer em
fórmulas matemáticas -e com os seus nomes. E aí, escrito
descuidadamente na parte de cima do papel, estava pi 3,141 59.
Ora sÃo seis algarismos, e para que é que uma secretária tem
de saber o valor numérico de pi? Era evidente; nÃo havia outra
razÃo!
Fui até aos ficheiros e tentei o primeiro: 31-41-59. NÃo se
abriu. Depois tentei 59-41-31. Também nÃo deu resultado. A
seguir, 95-1413. Para trás, para a frente, de cima para baixo,
volta para este lado, volta para aquele -nada!
Fechei a gaveta da secretária e comecei a dirigir-me para a
porta, quando pensei novamente nos livros de arrombadores de
cofres: a seguir tentei o método da psicologia. Disse para mim
mesmo: "Freddy de Hoffinan. é mesmo do gênero de tipos capazes
de usar uma constante matemática para a combinaçÃo de um
cofre."
Voltei ao primeiro ficheiro e tentei 27-18-28-CLic! Abriu-se.
(A constante matemática que se segue a pi em importância é a
base dos logaritmos naturais, e.-2,718 28 ... ) Havia nove
ficheiros e abri o primeiro, mas o documento que queria estava
noutro -estavam por ordem alfabética por autores. Tentei o
segundo ficheiro: 27-18-28 CLic! Abriu-se com a mesma
combinaçÃo. Pensei: "Isto é maravilhoso! Abri os segredos da
bomba atómica, mas, se quero contar esta história, tenho de me
certificar de que as combinaÇÕES sÃo realmente todas as
mesmas! " Alguns dos ficheiros estavam na sala ao lado, pelo
que tentei 27-18-28 num deles e ele abriu-se. Já tinha aberto
três cofres, todos da mesma maneira.
Pensei para comigo: "Agora eu podia escrever um livro de
arrombadores de cofres melhor do que qualquer outro. Começaria
por contar como tinha aberto cofres com conteúdos mais
valiosos do que os dos abertos por qualquer outro arrombador e
como os tinha batido a todos, pois, em vez de cofres com peles
e barras de ouro, abrira os
145

cofres que continham todos os segredos da bomba atómica: as


tabelas para a produçÃo do plutónio, os processos de
purificaçÃo, a quantidade de material necessária, como
funciona a bomba, como se geram os neutrSes, o projecto, as
dimensSes -a informaçÃo completa conhecida em Los Alamos:
tudo!"
Voltei ao segundo ficheiro e tirei o documento que queria.
EntÃo peguei num lápis encarnado e num bocado de papel amarelo
que estava no gabinete e escrevi: "Levei emprestado o
documento ri.' LA4312Feynman, o arrombador de cofres." Pus a
nota em cima dos papéis, dentro do ficheiro, e fechei-o.
EntÃo fui até ao primeiro que tinha aberto e escrevi outra
nota: "Este nÃo foi mais difícil de abrir do que o outro
-EspertalhÃo", e fechei o ficheiro.
Depois, no outro ficheiro, na outra sala, escrevi: "Quando as
combinaÇÕES sÃo todas iguais, nÃo é mais difícil abrir um do
que outro O Mesmo Tipo", e fechei esse. Voltei para o meu
gabinete e escrevi o meu relatório.
Nessa noite fui jantar à cantina. Estava lá Freddy de
Hoffinan. Disse que ia trabalhar para o seu gabinete, e por
isso fui com ele só para me divertir.
Começou a trabalhar e em breve foi à outra sala abrir um dos
ficheiros que lá havia -uma coisa com que eu nÃo contara -e
por acaso abriu primeiro o ficheiro em que eu tinha posto a
terceira nota. Abriu a gaveta e viu lá dentro algo estranho
-um papel amarelo-vivo com qualquer coisa escrita com lápis
vermelho.
Eu tinha lido nos livros que, quando uma pessoa tem medo, a
sua cara empalidece, mas nunca o tinha visto antes. Bem, é
absolutamente verdade. A cara dele ficou cinzenta,
verde-amarelado -realmente assustava ver. Pegou no papel e a
mÃo tremia-lhe. "V-v-veja isto! ", disse ele, a tremer.
A nota dizia: "Quando as combinaÇÕES sÃo todas iguais, nÃo é
mais difícil abrir um do que o outro-O Mesmo Tipo."
"O que é que isso quer dizer?", perguntei eu.
"As c-c-combinaÇÕES dos meus cofres sÃo todas iguais! ",
gaguejou ele.
"NÃo é uma grande ideia."
"A-agora s-sei isso!", disse ele, completamente abalado.
Outro efeito da expulsÃo do sangue da cara deve ser o cérebro
nÃo trabalhar bem. "Ele assinou quem era! Ele assinou quem
era!", disse ele.
146
"O quê?" (NÃo tinh
a posto o meu nome naquele.)
"Sim", disse ele, "é o mesmo tipo que tem tentado entrar no
Edifício ómega!"
Durante toda a guerra, e mesmo depois, havia sempre estes
boatos: "Alguém tentou entrar no Edifício ómega!" EstÃo a ver,
durante a guerra eles faziam experiências para a bomba nas
quais queriam juntar o material suficiente para que a reacçÃo
em cadeia apenas começasse. Deixavam cair um bocado de
material através de outro e, quando o atravessava, a reacçÃo
começava e eles mediam a quantidade de neutrSes que
conseguiam. O bocado caía tÃo rapidamente que nada se deveria
formar e explodir. Contudo, começava uma reacçÃo suficiente
para que eles soubessem que as coisas estavam na verdade a
começar correctamente, que as proporÇÕES estavam certas e que
tudo estava de acordo com as previsSes -uma experiência muito
perigosa!
Naturalmente, nÃo faziam esta experiência no centro de Los
Alamos, mas a várias milhas de distância, num canyon passadas
várias mesas, completamente isolado. Este Edifício ómega tinha
à volta a sua própria vedaçÃo com torres de guarda. No meio da
noite, quando está tudo calmo, sai do mato algum coelho que
bate contra a vedaçÃo e faz barulho. O guarda dispara. O
tenente encarregado aproxima-se. O que vai dizer o guarda -
que era apenas um coelho? NÃo. "Estava alguém a tentar entrar
no Edifício ómega, mas eu afugentei-o!"
Portanto, de Hoffinan estava pálido e a tremer e nÃo
compreendia que havia uma falha lógica: nÃo era claro que o
mesmo tipo que tentara entrar no Edifício ómega era o mesmo
indivíduo que estava ao lado dele.
Perguntou-me o que fazer.
"Bem, veja se faltam alguns documentos."
"Parece tudo bem", disse ele. "NÃo vejo nenhuma falta."
Tentei dirigi-lo para o ficheiro de onde tinha tirado o meu
documento: "Bem, hum, se as combinaÇÕES sÃo todas iguais,
talvez tenha levado alguma coisa de outra gaveta."
"Tem razÃo! ", disse ele, e voltou ao seu gabinete, abriu o
primeiro ficheiro e descobriu a segunda nota que eu tinha
escrito: "Este nÃo foi mais difícil de abrir do que o outro
-EspertalhÃo. "
Nessa altura já nÃo lhe fazia nenhuma diferença que fosse "O
Mesmo Tipo" ou "EspertalhÃo": era completamente claro para ele
que era o mesmo tipo que estava a tentar entrar no Edifício
ómega. Por isso foi Particularmente difícil persuadi-lo, a
abrir o ficheiro que tinha lá dentro a minha primeira nota, e
nÃo sei como o consegui.
147

Começou a abri-lo, pelo que comecei a descer o corredor,


porque tinha um certo medo de que, quando ele descobrisse quem
lhe tinha feito aquilo, me cortasse o pescoço!
De facto, ele veio a correr atrás de mim pelo corredor, mas,
em vez de se zangar, abraçou-me, praticamente, por estar tÃo
completamente aliviado por o terrível fardo do roubo dos
segredos atómicos ser apenas uma travessura minha.
Uns dias depois de Hoffman contou-me que precisava de uma
coisa do cofre de Kerst. Donald Kerst fora para o ilinois e
era difícil contactá-lo "Se consegue abrir todos os meus
cofres usando o método psicológico", disse de Hoffman (eu
contara-lhe como o tinha feito), "talvez possa abrir o cofre
de Kerst dessa maneira."
Por esta altura, a história tinha circulado, e por isso vieram
várias pessoas observar o processo fantástico por meio do qual
eu ia abrir o cofre de Kerst nas calmas. NÃo precisava de
estar sozinho. NÃo tinha os últimos dois números do cofre de
Kerst e, para usar o método. da psicologia, precisava de ter à
volta pessoas que conhecessem Kerst.
Fomos todos para o gabinete de Kerst e verifiquei as gavetas à
procura de pistas: nÃo havia nada. Depois perguntei-lhes: "Que
espécie de combinaçÃo usaria Kerst-uma constante matemática?
"
"Oh, nÃo! ", disse de Hoffinari, Kerst faria qualquer coisa
muito simples. "
Tentei 10-20-30, 20-40-60, 60-40-20, 30-20-10. Nada.
EntÃo disse: "Acham que ele usaria uma data?"
"Sim!", disseram eles. "É mesmo o gênero de tipo capaz de
usar uma data."
Tentámos várias datas: 8-6-45, quando a bomba explodiu;
86-1945; esta data; aquela data; quando o projecto começou.
Nada resultou.
Nessa altura, a maior parte das pessoas já tinha saído aos
poucos. NÃo tinham paciência para me ver a tentar isto, mas o
único modo de resolver uma coisa destas é a paciência!
EntÃo decidi tentar tudo desde cerca de 1900 até agora. Parece
muito, mas nÃo é: o primeiro número é um mês, de 1 até 12, e
posso tentá-lo usando apenas três números: 10, 5, e 0. 0
segundo número é um dia, de 1 até 31, que posso tentar com
seis números. 0 terceiro número é o ano, que nessa altura era
apenas quarenta e sete números, que podia tentar com nove
números. Por isso, as oito mil combinaÇÕES ficaram reduzidas a
cento e sessenta e duas, uma coisa que podia tentar em quinze
ou vinte minutos.
148
infelizmente comecei com a parte mais alta dos números para os
ineses, porque, quando finalmente o abri, a combinaçÃo era
0-5-35
Voltei-me para Hoffinan: "O que aconteceu a Kerst por volta de
5 de Janeiro de 1935?"
"A filha dele nasceu em 1936", disse de Hoffinan. "Deve ser o
seu aniversário."
Já tinha aberto dois cofres nas calmas. Estava a melhorar.
Agora era um profissional.
Nesse mesmo VerÃo, depois da guerra, os tipos da secçÃo de
propriedade estavam a tentar recuperar algumas das coisas que
o governo tinha comprado, para as voltar a vender como sobras.
Uma das coisas era o cofre de um capitÃo. Sabíamos todos da
existência desse cofre. O capitÃo, quando chegou, durante a
guerra, decidiu que os ficheiros nÃo eram suficientemente
seguros para os segredos que ele ia ter, e por isso requisitou
um cofre especial.
O gabinete do capitÃo era no segundo piso de uma das frágeis
construÇÕES de madeira onde todos tínhamos os nossos gabinetes
e o cofre que ele encomendou era um pesado cofre de aço. Os
trabalhadores tiveram de montar plataformas de madeira e usar
alavancas especiais para o levar pelos degraus acima. Como nÃo
havia muitas distracÇÕES, todos observámos o grande cofre a
ser levado com grande esforço para o seu gabinete e todos
dissemos piadas sobre o tipo de segredos que ele ia lá
guardar. Uns tipos disseram que nós devíamos meter as nossas
coisas no cofre dele e deixá-lo meter as coisas dele nos
nossos. Portanto, toda a gente sabia deste cofre.
O homem da secçÃo de propriedade queria-o como sobra, mas
antes tinha de ser esvaziado, e a única pessoa que sabia a
combinaçÃo era o capitÃo, que estava em Bikini, e Alvarez, que
a tinha esquecido. O homem pediu-me que o abrisse.
Subi ao antigo gabinete e disse à secretária: "Porque nÃo
telefona ao capitÃo e lhe pergunta a combinaçÃo?"
"NÃo o quero incomodar", disse ela.
"Bem, vai-me incomodar a mim, talvez durante oito horas. NÃo o
faço sem ao menos você fazer uma tentativa para lhe
telefonar."
"Está bem, está bem!", disse ela. Pegou no telefone e eu fui
para a outra sala olhar para o cofre. Ali estava ele, aquele
enorme cofre de aço, com as portas completamente abertas.
Voltei para a secretária: "Está aberto."
"Maravilhoso! ", disse ela, e pousou o telefone.
"NÃo", disse eu, "já estava aberto."
149

"Oh! Se calhar a secçÃo de propriedade conseguiu abri-lo,


afinal. Fui ter com o homem da secçÃo de propriedade: "Fui lá
acima vi lá acima v o cofre e já estava aberto."
"Oh, sim", disse ele; "desculpe nÃo lhe ter dito. Mandei o
nosso próprio serralheiro lá acima perfurá-lo, mas ele tentou
abri-lo antes de perfurar e conseguiu."
E pronto! Primeira informaçÃo: agora Los Alamos tinha um serra
lheiro próprio. Segunda informaçÃo: este homem sabe perfurar
cofres uma coisa de que eu nÃo sei nada. Terceira informaçÃo:
ele conseguiu abrir um cofre nas calmas em poucos minutos.
Este
é um profissional autêntico, uma verdadeira fonte de
informaçÃo. Tenho de travar
conhecimento com este tipo.
Descobri que ele era um serralheiro que eles tinham contratado
depois da guerra (quando nÃo estavam preocupados com a
segurança) para tratar dessas coisas. Acontecia que ele nÃo
tinha trabalho suficiente abrir cofres, pelo que também
consertava as calculadoras Mérchant qu tínhamos usado. Durante
a guerra eu consertava sempre essas coisas
por isso tinha um modo de o conhecer.
Ora eu nunca usei subterfúgios ou truques para conhecer fosse
que fosse; vou apenas direito à pessoa e apresento-me. Mas
neste caso era muito importante conhecer este homem e eu sabia
que, antes que ele me contasse alguns dos seus segredos para
abrir cofres, eu próprio tinha de dar provas.
Descobri onde era o quarto dele -na cave da secçÃo de física
teórica, onde eu trabalhava -e sabia que ele trabalhava à
noite, quando as máquinas nÃo estavam a ser usadas. Por isso,
ao princípio eu passava pela porta dele à noite, a caminho do
meu gabinete. É tudo; passava apenas.
Passadas umas noites, apenas um "Olá!". Ao fim de algum tempo
quando via que era o mesmo tipo que passava, ele dizia: "Olá!"
o "Boa noite!".
Umas semanas deste lento processo e vejo que ele está a
trabalhar nas calculadoras Marchant. NÃo digo nada sobre elas;
ainda nÃo é altura.
Gradualmente, dizemos um pouco mais: "Olá! Vejo que está a
trabalhar muito!"
"Sim, muito", este gênero de coisas.
Finalmente, uma aberta: convida-me para comer sopa. Agora está
a correr muito bem. Todas as noites comemos sopa juntos. Agora
começo a falar um pouco das máquinas de somar e ele conta-me
que
150
tem um problema. Tem estado a tentar voltar a pôr uma
sucessÃo de rodas carregadas por molas num eixo e nÃo tem a
ferramenta adequada, ou qualquer coisa; tem estado a trabalhar
naquilo durante uma semana. disse-lhe que costumava trabalhar
naquelas máquinas durante a guerra e propus: "Vamos fazer uma
coisa: esta noite deixa a máquina fora e amanhà eu dou-lhe uma
olhadela."
"Está bem", disse ele, porque estava desesperado.
No dia seguinte olhei para a máquina e tentei carregá-la
segurando as rodas na mÃo. Estava sempre a saltar. Pensei para
comigo: "Se ele está a tentar a mesma coisa há uma semana e eu
estou a tentar e nÃo consigo, nÃo é desta maneira que se faz!"
Parei e olhei para ela com muito cuidado e reparei que cada
roda tinha um buraquinho -apenas um buraquinho. EntÃo fez-se
luz: coloquei a primeira; a seguir enfiei um bocado de arame
pelo buraquinho. Depois coloquei a segunda e enfiei nela o
arame. Depois a próxima, e a próxima -como enfiar contas num
fio -e prendi tudo na primeira tentativa, alinhei tudo, tirei
o arame e ficou tudo bem.
Nessa noite mostrei-lhe os buraquinhos e como tinha feito e a
partir daí falávamos muito de máquinas; tornámo-nos bons
amigos. Ora ele tinha no seu gabinete uma quantidade de
compartimentos que continham fechaduras meio desmontadas e
peças de cofres também. Oll, eram maravilhosos! Mas eu
continuava a nÃo dizer uma palavra sobre fechaduras e cofres.
Finalmente, achei que estava a chegar o dia, e por isso decidi
abrir-me um pouco sobre cofres: contar-lhe-ia a única coisa
com algum valor que sabia sobre eles-que se podem tirar os
dois últimos números quando estÃo abertos. "Eh! ", disse eu,
olhando para os compartimentos. "Vejo que está a trabalhar com
cofres Mosler."
"Sim!"
"Sabe, estas fechaduras sÃo fracas. Se estÃo abertas, podemos
tirar os dois últimos números ... "
"Podemos?", disse ele, mostrando finalmente algum interesse.
"Sim!"
"Mostre-me como se faz", pediu ele. Mostrei-lhe e ele
voltou-se para mim: "Como se chama?" Durante todo este tempo
nunca nos tínhamos apresentado.
"Dick Feynman", disse eu.
"Meu Deus! É Feynman! ", disse ele, espantado. "O grande
arrombador de cofres! Ouvi falar de si; há tanto tempo que o
queria conhecer! Quero aprender consigo a arrombar um cofre."
151

"O que quer dizer? Você sabe abrir cofres nas calmas."
"NÃo sei."
"Ouça, eu ouvi falar do cofre do capitÃo e tenho ttídoo
mmuuiittoo trabalho todo este tempo porque o queria conhecer.
E você diz-me que nÃo sabe abrir um cofre nas calmas."
"É verdade."
"Bem, deve saber perfurar um cofre."
"Também nÃo sei."
"O QU-?", exclamei. "O tipo da secçÃo de propriedade ddisse
que você pegou nas ferramentas e foi perfurar o cofre do
capitÃo."
"Suponha que tem um emprego de serralheiro", disse ele, i vem
um tipo e pede-lhe que perfure um cofre. O que é que você
fazia?"
"Bem", repliquei, "reunia as minhas ferramentas, pegava nelas
levava-as para junto do cofre. Depois encostava a broca ao
cofre num sítio ao acaso e fazia vvvvvvvvvvv para salvar o meu
emprego. "
"Era exactamente o que eu ia fazer."
"Mas abriu-o! Deve saber arrombar cofres."
"Ah, sim. Sabia que as fechaduras vêm da fábrica reguladas
para
25-0-25 ou 50-25-50, pelo que pensei: 'Quem sabe; pode ser que
o tipo nÃo se tenha dado ao trabalho de mudar a combinaçÃo', e
a segunda hipótese resultou. "
Portanto, aprendi realmente alguma coisa com ele -que
arrombava
cofres pelos mesmos métodos miraculosos que eu. Mas ainda mais
engraçado era que o capitÃo cheio de importância teve
necessidade de um super, supercofre, e fez com que as pessoas-
tivessem todo o trabalho de o içar para o seu gabinete e nem
se preocupou em estabelecer a composiçÃo.
Fui de gabinete em gabinete no meu edifício, tentando aquelas
duas combinaÇÕES de fábrica, e abri aproximadamente um cofre
em
cada cinco.
O Tio Sam nÃo precisa de si!
Depois da guerra, o exército esfarrapava-se todo para
conseguir tipos para as forças de ocupaçÃo na Alemanha. Até
essa
altura, o exército desmobilizava pessoas por outras razSes que
nÃo o exame médico.
152
(a mim desmobilizaram-me por estar a trabalhar na bomba), mas
agora tinha invertido o processo e faziam a toda a gente um
exame médico.
Nesse VerÃo encontrava-me a trabalhar para Hans Bethe na
General Electric em Schenectady, Nova Iorque, e lembro-me de
que tive de me deslocar a alguma distância -acho que foi até
Albany -para fazer o exame médico.
Cheguei ao lugar da mobilizaçÃo e entregaram-me uma data de
impressos para preencher, após o que comecei a percorrer todas
as diferentes cabinas.
Verificaram a visÃo numa, a audiçÃo noutra, tiraram uma
amostra de sangue ainda noutra, e por aí fora.
De qualquer modo, chego finalmente à cabina número treze: o
psiquiatra. Ali espero, sentado num dos bancos, e entretanto
vejo o que se passa à minha volta. Há três secretárias, com um
psiquiatra atrás de cada uma, e o "réu" senta-se em frente
dele
e responde a várias perguntas.
Nessa altura havia muitos filmes sobre psiquiatras. Por
exemplo, SpelIbound, em que uma mulher que fora uma grande
pianista tem as mÃos presas numa posiçÃo desajeitada, nÃo as
podendo mover, e a família chama um psiquiatra para a tentar
ajudar; este vai com ela para uma sala, no andar superior, e
vemos a porta fechar-se atrás deles; em baixo, a família
discute o que se vai passar, e entÃo ela sai da sala, com as
mÃos ainda presas na posiçÃo horrível, desce dramaticamente as
escadas, vai até ao piano, senta-se, levanta as mÃos até ao
teclado e, de repente, plum, plim, plim, plum, plum, plum,
consegue tocar nova~ mente. Bem, nÃo suporto estes disparates,
e decidira que os psiquiatras sÃo uns aldrabSes, nÃo querendo
nada com eles. Por isso era essa a minha disposiçÃo quando
chegou a minha vez de falar com o psiquiatra.
Sento-me à secretária e o psiquiatra começa a ver os meus
papéis. "Olá, Dick!", diz ele numa voz alegre. "Onde é que
trabalha?"
Penso para comigo: "Quem pensa ele que é para me chamar pelo
meu nome próprio?", e digo friamente: "Schenectady."
"Para quem trabalha, Dick?", pergunta o psiquiatra, sorrindo
novamente.
"General Electric."
"Gosta do seu trabalho, Dick?", diz ele, com o mesmo grande
sorrisO no rosto.
"Assim-assim." Eu nÃo ia mesmo ter nada a ver com ele.
153

Três perguntas simpáticas e a seguir vem a quarta, que é


completamente diferente: "Pensa que as pessoas falam de si?",
pergunta num tom baixo, sério.
anímo-me e digo: "Claro! Quando vou a casa, a minha mÃe
conta-me muitas vezes que falou de mim às amigas." Ele nÃo
está a
ou a explicaçÃo; em vez disso, escreve qualquer coisa no meu
papel.
Depois novamente, num tom baixo, sério, continua: "Pensa que
pessoas olham para si?"
Estou pronto a dizer que nÃo, quando ele diz: "Por exemplo, p
que algum dos rapazes que aguardem a sua vez sentados nos
bancos
está a olhar para si agora?"
Enquanto aguardava a minha vez de falar com o psiquiatra
reparara que havia aproximadamente doze tipos nos bancos à
espera
dos três psiquiatras e nÃo tinham mais nada para ver, pelo que
di doze por três -o que dá três grupos de quatro -, mas eu
sou con vador, pelo que digo: "Sim, talvez dois deles estejam
a olhar para
nós."
Ele diz: "Bem, volte-se e olhe" -e ele próprio nem se
incomodou a
olhar.
Por isso volto-me, e de facto estÃo dois tipos a olhar A im' p
ar s' to-os e digo: "Sim... aquele tipo e o outro ali estÃo
a olhar para nós Claro, quando me volto e aponto da maneira
como o fiz, co e outros tipos a olhar para nós e eu digo: "E
agora aquele, e aquele ali -e agora todo o grupo. " Ele
continua a nÃo levantar os olhos para verificar. Está ocupado
a
escrever mais coisas no meu papel.
Depois diz: "Alguma vez ouve vozes na sua cabeça?"
"Muito raramente", e estou para lhe descrever as duas vezes em
que
isso aconteceu, quando ele continua: "Fala consigo mesmo?"
"Sim, por vezes, quando me estou a barbear ou a pensar; de vez
em
quando." Ele continua a escrever.
"Vejo que a sua esposa faleceu-fala com ela?"
Esta pergunta aborreceu-me verdadeiramente, mas contive-me
disse:
"Por vezes, quando subo uma montanha e penso nela."
Escreve mais. Depois pergunta: "Tem alguém da sua família numa
instituiçÃo para doentes mentais?"
"Sim, tenho uma tia num manicómio."
"Porque é que lhe chama manicómio?", pergunta ele com resse
mento. "Porque nÃo lhe chama uma instituiçÃo para doentes
mentais.
"Pensava que era o mesmo."
"O que pensa que é a loucura?", pergunta ele, zangado.
154
"É uma doença estranha e peculiar nos seres humanos", respondo
eu honestamente.
"NÃo tem nada mais estranho ou peculiar do que a apendicite!",
replica ele.
"NÃo acho. Na apendicite compreendemos melhor as causas e um
pouco do mecanismo, ao passo que com a loucura é muito mais
complicado e misterioso." NÃo vou contar a discussÃo toda; o
essencial é que eu queria dizer que a loucura é
fisiologicamente peculiar e ele pensou que eu queria dizer que
é socialmente peculiar.
Até esta altura, embora tivesse sido antipático para o
psiquiatra, fora honesto em tudo o que tinha dito. Mas, quando
ele me pediu que estendesse as mÃos, nÃo resisti a pregar uma
partida de que um tipo na "linha dos sugadores de sangue" me
tinha falado. Calculei que ninguém iria ter a oportunidade de
fazer isto e, como já estava meio enterrado, ia fazê-lo eu.
Por isso estendi as mÃos com uma palma para cima e outra para
baixo.
O psiquiatra nÃo repara e diz: "Volte-as."
Volto-as. A palma que estava para cima fica para baixo e a que
estava para baixo fica para cima, e ele continua a nÃo
reparar, porque está sempre a olhar muito atentamente para uma
das mÃos para ver se ela está a tremer. Por isso a partida nÃo
resultou.
Por fim, após todas estas perguntas,,ele torna-se novamente
amigável. Anima-se e diz: "Vejo que é doutorado, Dick. Onde
estudou?"
"No MIT e em Princeton. E onde estudou o senhor!"
"Em Yale e em Londres. E o que estudou, Dick?"
"Física. E o que estudou o senhor?"
"Medicina. "
"E isto é medicina?"
"Bem, é. o que pensa que é? Vá sentar-se ali e espere uns
minutos! "
Assim, sento-me novamente no banco e um dos outros tipos que
estÃo à espera desliza até junto de mim e diz: "Ena! Esteve lá
vinte e cinco minutos! Os outros tipos só lá estiveram cinco!"
"Sim?"
"Eh! ", diz ele. "Quer saber como se engana o psiquiatra?
Basta roer as unhas, assim."
"EntÃo porque é que você nÃo faz isso?"
"Oh!", responde ele, "eu quero entrar no exército!"
"Quer enganar o psiquiatra?", pergunto. "Diga-lhe isso mesmo!"
Ao fim de algum tempo chamaram-me para uma secretária
diferente para falar com outro psiquiatra. Enquanto o primeiro
psiquiatra era
155

bastante jovem e com aspecto inocente, este tinha cabelo


grisalho aspecto distinto-era evidentemente o psiquiatra mais
categorizado
Calculo que vai ser tudo esclarecido, mas,
aconteça o que acontecer nÃo me vou tornar amigável.
O novo psiquiatra olha para os meus papéis, pSe um grande
sorriso no rosto e diz: "Olá, Dick. Vejo que trabalhou em Los
Alamos durante a guerra. "
"Sim!"
"Havia lá uma escola de rapazes, nÃo havia?"
"É verdade."
"Havia muitos edifícios na escola?"
"Só alguns."
Três perguntas -a mesma técnica -e a seguinte é completamente
diferente! "Disse que ouve vozes dentro da cabeça. Descreva
isso, por favor. "
"Acontece muito raramente, quando antes estive a prestar
atençÃo a uma pessoa com pronúncia estrangeira. Quando começo
a
adorm cer, consigo ouvir a sua voz com muita nitidez. A
primeira vez que aconteceu foi quando estudava no MIT.
Consegui ouvir o velho professor Vallarta dizer: O campo
eléctrico.' E a outra vez foi em Chicago durante a guerra,
quando o Prof. Teller me estava a explicar como fu cionava a
bomba. Como me interesso por todos os tipos de fenóm nos,
perguntava a mim mesmo como podia ouvir estas vozes com
pronúncias tÃo correctas, quando nÃo as conseguia imitar tÃo
bem... acontece a toda a gente uma coisa assim de vez em
quando?"
O psiquiatra pôs a mÃo na cara e consegui ver entre os seus
deddos um ligeiro sorriso (nÃo respondeu à pergunta).
A seguir o psiquiatra verificou mais uma coisa: "Disse que
fala com a sua falecida esposa. Que lhe diz?"
Zanguei-me. Acho que ele nÃo tem nada a ver com isso e
respondo "Digo-lhe que a amo, se nÃo se importa! "
Depois de mais umas trocas de palavras azedas ele continua:
"Acr dita no sobrenormal?"
"NÃo sei o que é o sobrenormal'", respondo eu.
"O quê? Você, doutorado em Física, nÃo sabe o que é o sobre
normal?"
"É verdade."
"É aquilo em que Sir Oliver Lodge e a sua escola acreditam."
NÃo era uma grande pista, mas eu sabia do que se tratava:
"Quer
dizer o sobrenaturaL"
156

"Pode chamar-lhe assim se quiser."


"Está bem, é o que vou fazer."
"Acredita na telepatia?"
"NÃo. E o senhor acredita?"
"Bem, mantenho um espírito aberto."
"O quê? O senhor, um psiquiatra, mantém um espírito aberto?
Ali! " Continuou assim durante um bom bocado.
Depois, perto do fim, ele continua: "Que valor dá à sua vida?"
"Sessenta e quatro."
"Porque é que disse sessenta e quatro?"
"Como é que se há-de medir o valor da vida?"
"NÃo! Quero saber porque disse sessenta e quatro, em vez de
,setenta e três', por exemplo?"
"Se eu tivesse dito setenta e três, teria feito a mesma
pergunta!" O psiquiatra acabou com três perguntas amigáveis,
entregou-me os meus papéis e eu fui até à cabina seguinte.
Enquanto espero na bicha, olho para o papel que tem o resumo
de todos os testes que fiz até essa altura e só por piada
mostro o meu papel ao tipo que está ao meu lado e pergunto-lhe
com uma voz bastante estúpida: "Eh! O que é que teve em
'Psiquiátrico'? Oli! Teve um W. Eu tive um W nos outros todos,
mas tive um 'D' em 'Psiquiátrico'. O que é que isso quer
dizer?" Eu sabia o que queria dizer: "n é normal e "D" é
deficiente.
O tipo dá-me uma palmadinha no ombro e diz: "Está
perfeitamente bem, pá. NÃo quer dizer nada. NÃo se preocupe
com isso! " Depois vai até ao outro canto da sala, assustado:
é um maluco!
Comecei a olhar para os papéis que os psiquiatras tinham
escrito e parecia tudo bastante sério! O primeiro tipo
escrevera:
Pensa que as pessoas falam dele.
Pensa que as pessoas olham para ele.
AlucinaÇÕES auditivas hipnogógicas.
Fala consigo mesmo.
Fala com a esposa falecida.
Tia materna em instituiçÃo para doentes mentais.
Olhar muito peculiar. (Sabia o que aquilo era -foi quando eu
perguntei: "E isto é medicina?")
O segundo psiquiatra era evidentemente mais importante, porque
a sua escrita era mais difícil de ler. Os seus apontamentos
diziam coi
157

sas como "alucinaÇÕES auditivas hipnegógicas confirmadas"


("hipnogógicas" significa que surgem ao adormecer).
Escreveu muitos outros apontamentos com aparência técnica e eu
dei-lhes uma olhadela: tinham muito mau aspecto. Achei que, de
qualquer modo, tinha de esclarecer tudo com o Exército.
No fim do exame médico completo há um oficial do exército que
decide se entramos ou nÃo. Por exemplo, se temos algum
problema de audiçÃo, ele é que tem de decidir se é
suficientemente sério para nos impedir de entrar no exército.
E, como o exército estava a esfarrapar-se todo para arranjar
novos recrutas, este oficial nÃo ia tirar nada a ninguém. Era
duro como pregos. Por exemplo, o tipo à minha frente tinha
dois ossos salientes na parte de trás do pescoço -alguma
vértebra deslocada, ou qualquer outra coisa-e o oficial do
exército teve de se levantar da secretária e apalpá-los para
se certificar de que eram autênticos!
Penso que é aqui que vou esclarecer todo este mal-entendido.
Quando chega a minha vez, entrego os meus papéis ao oficial e
estou pronto a explicar tudo, mas o oficial nÃo levanta os
olhos. Vê o "D" ao lado de "Psiquiátrico", pega imediatamente
no carimbo de rejeiçÃo, nÃo me faz nenhuma pergunta, nÃo diz
nada; apenas carimba os meus papéis COM "REJEITADO" e
entrega-me o meu papel 4-F, sempre a olhar para a secretária.
Por isso saí e apanhei o autocarro para Schenectady e, quando
ia no autocarro, pus-me a pensar na coisa maluca que
acontecera e comecei a rir alto, dizendo para comigo: "Meu
Deus! Se eles me vissem agora, iam ter a certeza!"
Quando, finalmente, cheguei a Schenectady, fui ter com Hans
Bethe. Estava sentado atrás da secretária e disse-me com voz
brincalhona: "EntÃo, Dick, passou?"
Pus um ar sério e abanei a cabeça lentamente: "NÃo!"
EntÃo, de repente, ele sentiu-se pessimamente, pensando que me
tinham descoberto qualquer problema de saúde sério, pelo que
disse com voz preocupada: "o que se passa, Dick?"
Toquei com o dedo na testa.
Ele disse: "NÃo!"
"Sim!"
Ele gritou: "NÃ-Ã-Ã-Ã-Ão!!!", e riu-se tanto que o tecto da
General Electric Company quase caiu.
Contei a história a muitas outras pessoas e todos se riram,
com poucas excepÇÕES.
158

Quando voltei para Nova Iorque, meu pai, minha mÃe e minha
irmÃ
foram-me buscar ao aeroporto e, quando íamos de carro para
casa, contei-lhes a história toda. No fim a minha mÃe disse:
"Bem, o que devemos fazer, Mel?"
"NÃo sejas ridícula, Lucille. Isso é absurdo! ", respondeu meu
pai.
E foi tudo, mas mais tarde a minha irmà contou-me que, quando
chegámos a casa e eles ficaram sozinhos, o meu pai disse:
"Ora, Lucille, nÃo devias ter dito nada à frente dele. Agora,
que devemos fazer?"
Nessa altura minha mÃe já tinha recuperado e disse: "NÃo sejas
ridículo, Mel! "
Houve outra pessoa que se incomodou com a história. Num jantar
de convívio da Sociedade de Física, o Prof. Slater, meu antigo
professor no MIT, disse-me: "Eh, Feynman! Conte-nos aquela
história que ouvi sobre a mobilizaçÃo!"
Contei a história inteira a todos aqueles físicos -nÃo
conhecia :nenhum deles, excepto Slater -e todos se riam
enquanto a contava, mas, no fim, um tipo disse: "Bem, talvez o
psiquiatra tivesse qualquer ideia. "
Eu perguntei resolutamente: "E qual é a sua profissÃo?" Claro
que ,era uma pergunta parva, porque éramos todos físicos, num
encontro profissional. Mas surpreendeu-me que um físico
dissesse uma coisa daquelas.
Ele respondeu: "Bem, hum, na realidade eu nÃo devia estar
aqui, mas vim como convidado do meu irmÃo, que é um físico. Eu
sou um ,psiquiatra." Desmascarei-o logo!
, Ao fim de algum tempo comecei a preocupar-me. Eis aqui um
tipo ,que foi desmobilizado durante toda a guerra por estar a
trabalhar na bomba e a comissÃo de mobilizaçÃo recebe cartas
dizendo que ele é 'importante, e agora apanha um "D" em
"Psiquiátrico" -afinal é um doido! É evidente que nÃo é um
doido; está apenas a tentar fazer-nos acreditar que é um doido
-vamos apanhá-lo!
A situaçÃo nÃo me parecia boa, pelo que tinha de encontrar uma
,.saída. Ao fim de uns dias descobri uma soluçÃo. Escrevi uma
carta à -comissÃo de mobilizaçÃo que dizia mais ou menos o
seguinte:
Caros Senhores.
NÃo sou de opiniÃo de que deva ser mobilizado porque estou a
ensinar estudantes de Ciência, e é em parte naforça dos
nossos futuros cientistas que reside o bem-estar da naçÃo. No
entanto, podem
159

decidir que eu nÃo devo ser mobilizado devido ao resultado do


meu relatório médico, nomeadamente por ser psicologicamente
incapaz.~~ Penso que nÃo deve ser atribuída nenhuma
importância a este relatório porque considero que ele é um
erro grosseiro.
Chamo a vossa atençÃo para este erro porque sou
suficientemente louco para nÃo desejar aproveitar-me dele.
Sinceramente,
R. P. Feynman
Resultado: "Desmobilizado. 4F. Motivos médicos".
4. a PARTE
De Cornell a Caltech,
com um pouco de Brasil
160

O digno Professor
NÃo acho que consiga realmente passar sem ensinar. A razÃo é
que preciso de ter alguma coisa que me ocupe o tempo, de modo
que, quando me falham as ideias e nÃo estou a tentar alcançar
qualquer objectivo, possa dizer a mim mesmo: "Pelo menos vivo;
pelo menos faço qualquer coisa; dou alguma contribuiçÃo" -é
apenas psicológico.
Quando estava em Princeton, nos anos 40, eu via o que
acontecia aos grandes cérebros do Instituto de Estudo
Avançado, os quais haviam sido especialmente seleccionados
pela sua grande inteligência e agora tinham a oportunidade de
viver numa linda casa perto dos bosques, sem aulas para dar,
sem qualquer obrigaçÃo. Os pobres diabos podiam agora
sentar-se sozinhos, a pensar claramente, nÃo é? Mas nÃo lhes
surge qualquer ideia durante um certo tempo: têm todas as
oportunidades de fazer qualquer coisa, mas nÃo têm nenhuma
ideia. Acredito que numa situaçÃo dessas se infiltre em nós
uma espécie de sentimento de culpa ou uma depressÃo e nos
comecemos a preocupar por nÃo ter ideias. E nada acontece.
Continuam a nÃo aparecer ideias.
NÃo acontece nada porque nÃo há actividade autêntica e desafio
suficientes: nÃo estarnos em contacto com os tipos
experimentais. NÃo temos de pensar como responder a perguntas
dos alunos. Nada!
Em qualquer processo de pensamento há momentos em que vai tudo
bem e temos ideias maravilhosas. Ensinar é uma interrupçÃo, e
por isso é a maior chatice do mundo. E depois há os períodos
de tempo mais longos em que nÃo nos aparece muita coisa. NÃo
temos ideias e, se nÃo fazemos absolutamente nada, damos em
doidos! Nem sequer podemos dizer: "Estou a dar as minhas
aulas."
Se estivermos a dar aulas, podemos pensar nas coisas
elementares que conhecemos muito bem. Essas coisas sÃo como
que divertidas e
163

deliciosas. NÃo faz nenhum mal pensar nelas de novo. Existirá


um modo melhor de as apresentar? ExistirÃo novos problemas
relacionados com elas? Poderemos ter novos pensamentos sobre
as mesmas? Éfácil pensar nas coisas elementares; se nÃo
pudermos ter um pensamento novo, nÃo faz mal; o que tínhamos
pensado antes é suficientemente bom para a aula. Se pensarmos
realmente numa coisa nova, ficamos bastante satisfeitos por
termos um novo modo de a encarar.
As perguntas dos alunos sÃo muitas vezes uma fonte de nova
pesquisa. Fazem frequentemente perguntas profundas em que por
vezes pensei e depois abandonei, por assim dizer, durante
algum tempo. NÃo me fazia mal nenhum pensar nelas novamente e
ver se agora consigo avançar mais. Os alunos podem nÃo ser
capazes de ver o que eu quero responder, ou as subtilezas em
que eu quero pensar, mas lembram-me um problema fazendo
perguntas nas proximidades desse problema. NÃo é fácil
lembrarmos a nós próprios essas coisas.
Por isso acho que o ensino e os alunos mantêm a vida em
movimento e nunca aceitaria um cargo em que alguém me tivesse
arranjado uma boa situaçÃo, mas em que nÃo tivesse de ensinar.
Nunca.
Uma vez ofereceram-me essa situaçÃo.
Durante a guerra, quando ainda estava em Los Alamos, Hans
Bethe arranjou-me um emprego em CornelI por 3700 dólares por
ano. Recebi uma oferta maior de outro lado, mas gostava de
Bethe, decidira ir para Cornell e nÃo me preocupava com
dinheiro. Mas Bethe estava sempre atento ao que me dizia
respeito e, quando descobriu que outros me ofereciam mais,
conseguiu que Cornell me aumentasse para $4000 mesmo antes de
eu começar.
De Cornell informaram-me de que ia ensinar um curso de Método
Matemáticos da Física e disseram-me em que dia eu devia chegar
-6 de Novembro, acho eu, mas parece estranho que pudesse ser
tÃo tarde no ano. Tomei o comboio de Los Alamos para ítaca e
passei a maior parte do tempo a escrever relatórios finais
para o Projecto Manhattan. Ainda me lembro de que foi no
comboio nocturno de Búfalo para ítaca que comecei a trabalhar
no meu curso.
Têm de compreender as pressSes em Los Alamos. Fazíamos tudo o
mais depressa possível; toda a gente trabalhava muito, muito;
e era tudo acabado no último minuto. Por isso, trabalhar no
meu curso no comboio um dia ou dois antes da primeira aula
parecia-me natural.
Os Métodos Matemáticos da Física era um curso ideal para eu
ensinar. Era o que eu tinha feito durante a guerra -aplicar a
matemática à física. Conhecia os métodos que eram realmente
úteis e os que nÃo
164
eram. Possuía imensa experiência nessa altura, pois tinha
trabalhado muito durante quatro anos usando truques
matemáticos. Por isso pla-' neei os diferentes assuntos de
matemática e o modo de os orientar ainda tenho os papéis, os
apontamentos que fiz no comboio.
Saí do comboio em ítaca, levando ao ombro a minha pesada mala,
como de costume. Um tipo gritou: "O senhor quer um táxi?"
Nunca tinha querido tomar um táxi: era um tipo novo, com pouco
dinheiro e querendo ser independente. Mas pensei para comigo:
"Sou um professor, tenho de ter dignidade. " Por isso tirei a
mala do ombro conservei-a na mÃo e disse: "Sim."
"Para onde?"
"Para o hotel."
"Que hotel?"
"Um dos hotéis que vocês têm em ítaca."
"Tem uma reserva?"
"NÃo."
"NÃo é assim tÃo fácil arranjar um quarto."
"Basta irmos de hotel em hotel. Fique à minha espera."
Tentei o Hotel ítaca: nÃo havia quartos. Fomos até ao
Traveller's Hotel: também nÃo tinham quartos. Digo ao tipo do
táxi: "NÃo vale a pena andarmos a dar a volta à cidade; vai
custar uma data de dinheiro. Vou a pé de hotel para hotel. "
Deixo a minha mala no Traveller's Hotel e começo a deambular,
à procura de quarto. Isso mostra a preparaçÃo que eu, novo
professor, tinha.
Encontrei outro tipo também a deambular à procura de quarto.
Acontecia que o problema de quartos de hotéis era
completamente impossível. Ao fim de algum tempo subimos uma
espécie de colina e compreendemos gradualmente que nos
estávamos a aproximar do terreno da Universidade.
Deparou-se-nos qualquer coisa que parecia uma casa de
alojamento, com uma janela aberta, e podíamos ver beliches lá
dentro. Nessa altura era noite, pelo que decidimos perguntar
se podíamos dormir ali. A porta estava aberta, mas nÃo havia
ninguém lá dentro. Entrámos num dos quartos e o outro tipo
disse: "Vamos, dormimos aqui!"
NÃo achei lá muito bem. Parecia-me um roubo. Alguém tinha
feito as camas; podiam voltar e encontrar-nos a dormir nas
suas camas e nós ficávamos em apuros.
Por isso saímos. Andamos mais um pouco e vemos, debaixo de um
candeeiro, um enorme monte de folhas que tinham sido apanhadas
-era Outono-dos relvados. Digo: "Eh! Podíamos meter-nos nestas
165

folhas e dormir aqui! " Tentei fazer isso; eram bastante


macias. Estava cansado de andar e, se o monte de folhas nÃo
estivesse debaixo de um candeeiro, teria sido perfeito. Mas
nÃo queria meter-me logo em sarilhos. Lá em Los Alamos as
pessoas tinham-me arreliado (quando eu tocava tambor, etc.)
falando do tipo de "professor" que Cornell ia ter. Disseram
que eu ia arranjar logo fama fazendo qualquer disparate, pelo
que estava a tentar ter um pouco de dignidade. Abandonei
relutantemente a ideia de dormir no monte de folhas.
Vagueámos mais um pouco e encontrámos aquilo que nos pareceu
ser um edifício importante do terreno desportivo. Entrámos e
vimos dois sofás no vestíbulo. O outro tipo diz: "Eu vou
dormir aqui!", e atirou-se para cima do sofá.
Eu nÃo queria arranjar sarilhos, pelo que descobri um porteiro
na cave e lhe perguntei se podia dormir no sofá, tendo ele
respondido: "Com certeza."
Na manhà seguinte acordei, procurei um sítio para tomar o
pequeno-almoço e comecei a andar de um lado para o outro o
mais depressa que podia para saber quando ia ser a minha
primeira aula. Entrei a correr no Departamento de Física: "A
que horas é a minha primeira aula? Perdi-a?"
"NÃo tem nada que se preocupar. As aulas nÃo começam antes de
oito dias", responderam-me.
Aquilo foi um choque para mim! A primeira coisa que disse foi:
"EntÃo porque é que me disseram que estivesse cá uma semana
antes?"
"Pensei que gostaria de vir para se familiarizar com tudo
isto, encontrar um lugar para viver e se instalar antes de as
aulas começarem."
Tinha voltado à civilizaçÃo.
O Prof. Gibbs enviou-me à UniÃo dos Estudantes a fim de
descobrir um lugar para morar. É um sítio muito espaçoso, com
muitos estudantes de um lado para o outro. Dirijo-me a uma
grande secretária onde se lê ALOJAMENTo e digo: "Sou novo aqui
e ando à procura de quarto."
O tipo sentado à secretária diz: "A situaçÃo de alojamentos em
ítaca está difícil. De facto, está tÃo difícil que, pode nÃo
acreditar, houve um professor que dormiu esta noite num sofá,
neste átrio!"
Olho à volta e é o mesmo átrio. Volto-me para ele e digo:
"Bem, esse professor sou eu e nÃo quero voltar a fazer o
mesmo!"
Os primeiros dias que passei em Cornell como professor foram
muito interessantes e por vezes divertidos. Poucos dias depois
de lá chegar, o Prof. Gibbs entrou no seu gabinete e
explicoume que normalmente
166
nÃo se aceitavam alunos numa altura tÃo adiantada do período,
mas que nalguns casos, quando o candidato é mesmo muito bom,
podíamos aceitá-lo. Entregou-me uma candidatura e pediume que
a examinasse.
"EntÃo, o que acha?", perguntou passado algum tempo.
"Acho que é de primeira categoria e que devíamos aceitá-lo.
Penso que temos sorte em o receber cá."
"Sim, mas viu o retrato dele?"
" Que diferença pode isso fazer?", exclamei.
"Absolutamente nenhuma! Alegra-me ouvi-lo dizer isso. Queria
ver que tipo de homem tínhamos como nosso novo professor. "
Gibbs gostou do modo como reagi imediatamente sem pensar para
comigo: "Ele é o chefe do Departamento e eu sou novo cá, por
isso é melhor ter cuidado com o que digo." NÃo consigo pensar
tÃo velozmente; a minha primeira reacçÃo é imediata e digo a
primeira coisa que me vem à cabeça.
A seguir entrou outro tipo no meu gabinete. Queria falar
comigo sobre filosofia, mas nÃo me lembro bem do que disse, e
desejava que eu me juntasse a uma espécie de clube de
professores. Tratava-se de uma espécie de clube anti-semítico
que pensava que os nazis nÃo eram assim tÃo maus. Tentou
explicar-me como havia demasiados judeus a fazer isto e aquilo
-uma coisa disparatada. Portanto, esperei até ele acabar de
falar e disse-lhe: "Sabe, está a cometer um grande erro: eu
fui educado numa família judia." Ele saiu e foi o começo da
minha falta de respeito por alguns dos professores de
Humanidades e outras áreas da Universidade de Cornell.
Estava a recomeçar, depois da morte da minha mulher, a querer
conhecer raparigas. Nesses dias havia muitos bailes em Cornell
para as pessoas se reunirem, especialmente os caloiros e
outros que voltavam à escola.
Lembro-me do primeiro baile a que fui. NÃo dançava há três ou
quatro anos, o tempo que passara em Los Alamos; nem sequer
tinha feito vida de sociedade. Por isso fui a este baile e
dancei o melhor que pude, o que pensei ser razoavelmente bem.
Normalmente sentimos se uma pessoa que dança connosco se sente
realmente bem.
Enquanto dançávamos, falava um pouco com a rapariga; ela fazia
umas perguntas a meu respeito e eu fazia algumas a respeito
dela. Mas, quando queria dançar pela segunda vez com uma
rapariga, tinha de a procurar.
"Quer dançar outra vez?"
167

"NÃo, desculpe; preciso de tomar ar." Ou: "Bem, tenho de ir à


casa de banho" -esta ou outra desculpa de duas ou três
raparigas de seguida! O que é que eu tinha? Eu dançava mal? A
minha personalidade desagradava?
Dancei com outra rapariga e vieram novamente as perguntas do
costume: "É estudante ou está a doutorar-se?" (Havia muitos
estudantes com aspecto mais velho, porque tinham estado no
Exército.)
"NÃo, sou professor."
"Oh! Professor de quê?"
"Física Teórica."
"Suponho que trabalhou na bomba atómica."
"Sim, estive em Los Alamos durante a guerra."
"É um grandessíssimo mentiroso!", disse ela, afastando-se.
Senti-me bastante aliviado, pois tudo se explicava. Tinha
estado a contar a todas as raparigas a verdade, simples e
estúpida, e nÃo sabia qual era o problema. Era perfeitamente
evidente que eu estava a ser evitado pelas raparigas, umas a
seguir às outras, quando fazia tudo de modo perfeitamente
agradável e natural, era bem educado e respondia às perguntas.
Parecia tudo muito agradável, e depois tuuop -nÃo dava
resultado. NÃo tinha compreendido até, por sorte, aquela
mulher me chamar um grandessíssimo mentiroso.
Por isso, a seguir tentei evitar todas as perguntas, e isso
teve o efeito oposto: "É um caloiro?"
"Bom, nÃo."
"Está a doutorar-se?"
"NÃo."
"EntÃo o que é você?"
"NÃo quero dizer."
"Porque é que nÃo nos diz o que é?"
"NÃo quero ... ", e elas continuavam a falar comigo!
Acabei com duas raparigas em minha casa e uma delas disse-me
que, na verdade, eu nÃo me devia sentir pouco à vontade por
ser um caloiro. Havia imensos tipos da minha idade que estavam
a começar a faculdade e realmente isso nÃo tinha importância.
Elas eram segundanistas e estavam as duas a ser bastante
maternais. Trabalharam bastante a minha psicologia, mas eu nÃo
queria que a situaçÃo se tomasse tÃo distorcida e mal
entendida, pelo que lhes disse que era professor. Ficaram
muito aborrecidas por as ter enganado. Tive uma quantidade de
problemas em ser um jovem professor em Cornell.
168
Seja como for, comecei a ensinar a cadeira de Métodos
Matemáticos em Física e acho que também ensinei outra cadeira,
talvez Electricidade e Magnetismo. Também tencionava fazer
pesquisa. Antes da guerra, quando me estava a doutorar, tinha
muitas ideias: inventara novos métodos de fazer mecânica
quântica com integrais de percurso e havia uma porçÃo de
coisas que queria fazer.
Em Cornell trabalhava na preparaçÃo das minhas cadeiras,
frequentava muito a biblioteca, onde lia Arabian Nights, e
deitava uma olhadela às raparigas que passavam. Mas, quando
chegava a altura de fazer qualquer pesquisa, nÃo conseguia
começar a trabalhar. Sentia-me um pouco cansado e com falta de
interesse; nÃo conseguia fazer pesquisa! Isto continuou
durante o que me pareceu serem alguns anos, mas, quando me
recordo e calculo o tempo, acho que nÃo pode ter durado tanto.
Talvez actualmente eu nÃo pensasse que era tanto tempo, mas
nessa altura era essa a convicçÃo que tinha. Eu simplesmente
nÃo conseguia começar nenhum problema: lembro-me de ter
escrito uma ou duas frases a respeito de um problema qualquer
sobre raios gama e depois nÃo conseguir continuar. Estava
convencido de que, devido à guerra e tudo o mais (a morte da
minha mulher), me tinha simplesmente esgotado.
Agora percebo muito melhor o que se passou. Primeiro, um jovem
nÃo compreende quanto tempo leva preparar boas aulas,
especialmente pela primeira vez-e dar as aulas, e fazer
problemas para exame, e verificar se sÃo razoáveis. Eu estava
a dar boas cadeiras, o tipo de cadeiras em que cada aula é
muito pensada. Mas nÃo compreendia que isso representa muito
trabalho! Por isso ali estava eu, "queimado", lendo Arabian
Nights e sentindo-me deprimido.
Durante esse período recebia ofertas de diferentes lugares
-universidades e indústria -com salários mais altos do que o
meu. E, cada vez que recebia uma oferta, ficava um pouco mais
deprimido. Dizia para comigo: "Olha, estÃo a fazer-me estas
ofertas maravilhosas, mas nÃo compreendem que estou acabado!
Claro que nÃo as posso aceitar. Esperam que eu realize
qualquer coisa, e eu nÃo consigo realizar nada! NÃo tenho
ideias ... "
Finalmente, chegou no correio um convite do Instituto de
Estudo Avançado: Einstein... von Neumann... Wy1... todos
aqueles grandes cérebros! Eles escreviam-me a convidar-me para
ser lá professor! E nÃo apenas um professor normal. NÃo sei
como, conheciam a minha opiniÃo sobre o Instituto: que é
demasiado teórico; que nÃo existe actividade autêntica e
suficientes desafios. Por isso escrevem: "Compreen
169

i
demos que tem um interesse considerável em experiências e em
ensinar, razÃo por que fizemos preparativos para criar um tipo
especial de professorado, se desejar: metade professor na
Universidade de Princeton e metade no Instituto. "
Instituto de Estudo Avançado! ExcepçÃo especial! Uma posiçÃo
ainda melhor que a de Einstein! Era ideal; era perfeito; era
absurdo!
Era mesmo absurdo. As outras ofertas tinham-me feito sentir
pior, até certo ponto. Esperavam que eu realizasse qualquer
coisa. Mas esta oferta era tÃo ridícula, era tÃo difícil para
mim estar à altura dela, estava tÃo ridiculamente
desproporcionada! As outras eram apenas enganos; esta era um
absurdo! Ri-me, pensando nela enquanto me barbeava.
E depois pensei para comigo: "Sabes, o que eles pensam de ti é
tÃo fantástico que te é impossível corresponder e nem tens
disso obrigaçÃo! "
Era uma ideia brilhante: nÃo temos obrigaçÃo de corresponder
ao que os outros esperam de nós. É um erro deles, e nÃo uma
falha nossa.
NÃo era um fracasso da minha parte o Instituto de Estudo
Avançado esperar que eu fosse tÃo bom; era impossível. Era
claramente um erro -e no momento em que considerei a
possibilidade de eles estarem enganados compreendi que isso
também era verdadeiro acerca de todos os outros lugares,
incluindo a minha própria Universidade. Sou o que sou, e se
eles esperavam que eu fosse bom e me oferecem dinheiro por
isso, é pouca sorte deles.
Depois, nesse dia, por qualquer estranho milagre -talvez me
ouvisse falar do assunto, ou talvez apenas me compreendesse -,
Bob Wilson, que era o chefe do laboratório em Cornell,
chamou-me para falar comigo. Disse, com um tom sério:
"Feynman, está a ensinar bem as suas aulas; está a fazer um
bom trabalho e estamos muito satisfeitos.
E quaisquer outras expectativas que possamos ter sÃo uma
questÃo de sorte. Quando contratamos um professor, corremos
todos os riscos. Se se sai bem, óptimo. Se nÃo, é uma pena.
Mas você nÃo se devia preocupar com o que faz ou nÃo faz." Ele
disse aquilo muito melhor do que eu o estou a dizer e isso
aliviou-me do sentimento de culpa.
Depois tive outro pensamento: "Agora a física desagrada-me um
pouco, mas dantes eu gostava de fazer física. Porque é que eu
gostava? Costumava brincar com ela. Costumava fazer o que quer
que me apetecesse -nÃo tinha nada que ver com o facto de ser
ou nÃo importante para o desenvolvimento da física nuclear,
mas de ser ou nÃo interessante e divertido para eu brincar.
Quando andava no liceu, via a
170
água que corria da torneira estreitar-se e perguntava a mim
mesmo se seria capaz de descobrir o que provoca aquela curva.
Achava que era bastante fácil. NÃo tinha de o fazer; nÃo era
importante para o futuro da ciência; já fora feito por outra
pessoa qualquer. Isso nÃo tinha importância: eu inventava
coisas e brincava com as coisas para minha própria distracçÃo.
Assim, adquiri esta nova atitude. Agora, que estou acabado e
nunca realizarei coisa alguma, tenho esta bela situaçÃo na
Universidade a dar aulas que me agradam bastante e, do mesmo
modo que li Arabian Nights por prazer, vou brincar com a
física sempre que me apetecer, sem me preocupar com a
importância que isso possa ou nÃo possa ter.
Na mesma semana, um dia em que me encontrava na cantina, um
tipo, a brincar, atirou um prato ao ar. Enquanto o prato subia
no ar, vi-o oscilar e reparei que o medalhÃo vermelho de
Cornell do prato rodava. Foi bastante evidente para mim que o
medalhÃo rodava mais rápido do que a oscilaçÃo.
Como nÃo tinha nada que fazer, comecei a determinar o
movimento do prato em rotaçÃo. Descobri que, quando o ângulo é
muito pequeno, o medalhÃo roda duas vezes mais depressa do que
a razÃo da oscilaçâo -dois para um. Isso vinha de uma equaçÃo
complicada! Depois pensei: "Existirá alguma maneira de eu
poder ver de modo mais fundamental, considerando as forças ou
a dinâmica, porque é de dois para um?"
NÃo me recordo como o fiz, mas finalmente descobri qual é o
movimento da massa de partículas e como as aceleraÇÕES se
equilibram para fazer com que seja de dois para um.
Ainda me lembro de ir ter com Hans Bethe e dizer: "Eh, Hans!
Reparei numa coisa interessante. Aqui o prato roda desta
maneira e a razÃo por que é de dois para um é ... ", e
mostrei-lhe as aceleraÇÕES.
Ele diz: "Feynman, isso é muito interessante, mas que
importância tem? Porque está a fazer isso?"
"Ah!", digo eu. "NÃo tem absolutamente nenhuma importância.
Faço-o apenas para me divertir. " A sua reacçÃo nÃo me
desencorajou; eu tinha decidido que ia apreciar a física e
fazer o que me apetecesse.
Prossegui desenvolvendo equaÇÕES para as oscilaÇÕES. Depois
pensei como as órbitas dos electrSes se começam a mover na
relatividade. Depois há a equaçÃo de Dirac na electrodinâmica.
E depois a electrodinâmica quântica. E, antes que desse por
isso (foi um período de tempo muito curto), estava a "brincar"
-a trabalhar, na realidade-com o mesmo velho problema de que
tanto gostava, em que tinha deixado
171

de trabalhar quando fui para Los Alamos: os meus problemas


tipo tese; todas essas coisas maravilhosas e antiquadas.
NÃo fazia esforço. Era fácil brincar com estas coisas. Era
como tirar a rolha a uma garrafa: corria tudo para fora sem
esforço. Eu quase tentava resistir! Aquilo que eu fazia nÃo
tinha importância, mas por fim teve. Os diagramas e todo o
assunto que me fizeram ganhar o Prémio Nobel originaram-se
nesse meu entretenimento com o prato oscilante.
Alguma pergunta?
Quando estava em Cornell, pediram-me que fizesse uma série de
conferências uma vez por semana num laboratório de aeronáutica
em Búfalo. Cornell fizera uma combinaçÃo com o laboratório que
incluía conferências nocturnas sobre física para serem dadas
por alguém da Universidade. Havia já um tipo qualquer a
fazê-las, mas existiam reclamaÇÕES, pelo que o Departamento de
Física veio ter comigo. Eu era nessa altura um professor jovem
e nÃo tinha muita facilidade em dizer nÃo, pelo que concordei.
Para ir para Búfalo mandavam-me por uma pequena linha aérea
que consistia de apenas um aviÃo. Chamava-se Linhas Aéreas
Robson (tornou-se mais tarde Linhas Aéreas Mohawk) e lembro-me
que, da primeira vez que voei para Búfalo, o Sr. Robson era o
piloto. Ele sacudiu o gelo das asas e levantámos voo.
Na generalidade, nÃo me agradava a ideia de ir para Búfalo
todas as quintas-feiras à noite. A Universidade pagava-me mais
35 dólares juntamente com as minhas despesas. Eu era um miúdo
da DepressÃo e pensei em poupar os 35 dólares, que era uma
razoável quantidade de dinheiro nesses dias.
De repente tive uma ideia: compreendi que o objectivo dos 35
dólares era tornar a viagem a Búfalo mais atraente e o modo de
isso acontecer é gastar o dinheiro. Por isso, decidi gastar os
35 dólares a divertir-me cada vez que fosse a Búfalo e ver se
podia fazer com que a viagem valesse a pena.
NÃo tinha muita experiência com o resto do mundo. Sem saber
como começar, pedi ao motorista do táxi que tomei no aeroporto
que me guiasse na tarefa de me divertir em Búfalo. Ajudou-me
muito e ainda
172
me lembro do seu nome, Marcuso; guiava o carro n. 1 169.
Pedia sempre que fosse ele a ir buscar-me quando chegava ao
aeroporto nas noites de quinta-feira.
Quando ia dar a minha primeira conferência, perguntei a
Marcuso: "Onde há um bar interessante em que se passem muitas
coisas?", eu pensava que se passavam coisas nos bares.
"O Alibi Roorn", disse ele. "É um lugar animado onde se podem
encontrar muitas pessoas. Eu levo-o lá depois da sua
conferência."
Depois da conferência, Marcuso foi-me buscar e levou-me ao
Alibi Rocim. No caminho digo: "Ouça, vou ter de pedir qualquer
bebida. Qual é o nome de um bom uísque?"
"Peça Black and White, acompanhado de água", aconselhou ele.
O Alibi Room era um lugar elegante com muita gente e imensa
actividade. As mulheres vestiam peles, as pessoas eram todas
simpáticas e os telefones estavam sempre a tocar.
Fui até ao bar e pedi o meu Black and White acompanhado de
água. O empregado do bar era muito atencioso e encontrou
rapidamente uma linda mulher para se sentar ao meu lado,
apresentando-ma. Ofereci-lhe bebidas. Gostei do lugar e decidi
voltar na semana seguinte.
Todas as noites de quinta-feira eu vinha para Búfalo e era
transportado no carro n.I 169 para a minha conferência e
depois para o Alibi Rooni. Entrava no bar e pedia o meu Black
and White acompanhado de água. Ao fim de umas semanas desta
rotina cheguei ao ponto de, assim que entrava, antes de chegar
ao bar, já lá estar um Black and White, acompanhado de água, à
minha espera. "O costume, senhor?", era a saudaçÃo do
empregado do bar.
Eu bebia o copo todo de uma vez, para mostrar que era um tipo
duro, como tinha visto nos filmes, e depois ficava sentado
durante uns vinte segundos antes de beber a água. Ao fim de
algum tempo já nem precisava da água.
O empregado do bar encarregava-se sempre de fazer com que a
cadeira vaga ao meu lado fosse rapidamente ocupada por uma
mulher bonita, e começava tudo muito bem, mas, mesmo antes de
o bar fechar, tinham todas de ir para qualquer lado. Pensei
que isso acontecia por eu já estar a ficar bastante bêbado por
essa altura.
Uma vez, quando o Alibi Rocim estava a fechar, a rapariga a
quem eu estava a oferecer bebidas nessa noite sugeriu que
fôssemos a outro lugar onde conhecia uma data de pessoas. Era
no segundo piso de outro edifício qualquer onde nÃo havia
nenhum indício de haver um bar lá em cima. Todos os bares em
Búfalo tinham de fechar às duas horas
173

e todas as pessoas que se encontravam nos bares eram


absorvidas para aquela grande sala no segundo piso e
continuavam -ilegalmente, claro.
Tentei descobrir uma maneira de poder ficar nos bares e
observar o que se passava sem ficar bêbado. Uma noite reparei
que um homem que ia lá muitas vezes foi ao bar e pediu um copo
de leite. Todos sabiam qual era o seu problema: o pobre tipo
tinha uma úlcera. Isso deu-me uma ideia.
Na próxima vez em que entrei no Alibi Rooni, o empregado do
bar disse: "O costume, senhor?"
"NÃo, Coca-Cola. Só Coca-Cola simples", disse eu, com um ar
desapontado.
Os outros tipos juntaram-se à minha volta, compadecidos: "Sim,
eu estive a seco há três semanas", disse um. "É mesmo duro,
Dick, é mesmo duro", confirmou outro.
Todos me respeitaram. Eu agora estava "a seco" e tinha coragem
de entrar naquele bar, com todas as suas "tentaÇÕES", e pedir
apenas uma Coca-Cola -porque, claro, tinha de ver os meus
amigos. E continuei assim durante um mês! Era um verdadeiro
duro.
Uma vez encontrava-me na casa de banho dos homens do bar e
estava um tipo no urinol. Estava mais ou menos bêbado e
disse-me com voz maldosa: "NÃo gosto da sua cara. Acho que a
vou amolgar."
Fiquei verde de medo. Repliquei com voz igualmente maldosa:
"Saia do meu caminho, ou mijo mesmo para cima de si!"
Ele disse mais qualquer coisa e eu achei que aquilo se estava
a aproximar muito de uma luta. Eu nunca tinha tido uma luta.
NÃo sabia muito bem o que fazer e receava magoar-me. Pensei
foi uma coisa: afastei-me da parede, porque achei que, se ele
me batesse, o faria pelas costas.
Depois senti uma espécie de pancada esquisita no olho -nÃo
doeu muito -e, quando dei por mim, estava a devolver a
pancada ao filho da mÃe, automaticamente. Foi notável para mim
descobrir que nÃo tinha de pensar; o "mecanismo" sabia o que
fazer.
"Muito bem. Há um a um", disse eu. "Quer continuar?"
O outro tipo recuou e foi-se embora. Matávamo-nos um ao outro
se ele fosse tÃo parvo como eu.
Fui lavar-me; tinha as mÃos a tremer e deitava sangue das
gengivas -tenho uma zona fraca nas gengivas -e doía-me o
olho. Depois de me ter acalmado voltei para o bar e disse em
ar de basófia para o empregado: "Urn Black and White
acompanhado de água. " Achei que aquilo me acalmaria os
nervos.
NÃo reparei que o indivíduo a quem tinha batido na casa de
banho dos homens estava noutro sítio do bar a falar com outros
três tipos. Em breve os três -uns tipos duros, grandes -
vieram para perto do lugar onde eu estava sentado e se
inclinaram para mim. Olharam-me com ar ameaçador e disseram:
"Que ideia foi essa de provocar uma luta com o nosso amigo?"
Bem, sou tÃo parvo que nÃo percebo que me querem intimidar; só
sei o que está bem e o que está mal. Volto-me de repente e
digo com mau modo: "Porque é que nÃo descobrem primeiro quem é
que começou o quê, antes de começarem a arranjar sarilhos?"
Os tipos grandes ficaram tÃo surpreendidos por a sua
intimidaçÃo nÃo resultar que recuaram e foram-se embora.
Ao fim de algum tempo, um dos tipos voltou e disse-me: "Tem
razÃo, o Curly está sempre a fazer isso, a meter-se em lutas e
a pedir-nos que arranjemos as coisas."
"Claro que tenho razÃo, com um raio! ", disse eu, e o outro
tipo sentou-se ao meu lado.
Curly e os outros dois tipos vieram e sentaram-se do meu outro
lado, a dois lugares de distância. Curly disse qualquer coisa
sobre o meu olho nÃo ter muito bom aspecto e eu respondi que o
dele também nÃo parecia na melhor das formas.
Continuo a falar com dureza, porque acho que é dessa maneira
que um homem verdadeiro se deve comportar num bar.
A situaçÃo está a ficar cada vez mais tensa e as pessoas que
se encontram no bar preocupam-se com o que vai acontecer. O
empregado do bar diz: "Nada de lutas aqui, rapazes.
Acalmem-se!"
Curly diz entre dentes: "Está bem; apanhamo-lo quando sair."
EntÃo aparece um gênio. Todos os campos têm os seus peritos de
primeira classe. Este tipo vem ter comigo e diz: "Eh, Dan! NÃo
sabia que estavas por cá! Alegra-me ver-te!"
Depois diz para Curly: "Olha, Paul! Queria apresentar-te um
bom amigo meu, aqui o Dan. Acho que vocês os dois devem gostar
um do outro. Porque é que nÃo dÃo um aperto de mÃo?"
Apertamos as mÃos. Curly diz: "Uh, prazer em conhecê-lo."
EntÃo o gênio inclina-se para mim e segreda muito baixo:
"Agora saia daqui depressa!"
"Mas eles disseram que iam ... "
"Vá!", diz ele.
Peguei no meu casaco e saí rapidamente. Andei ao longo das
paredes dos edifícios, para o caso de eles tentarem
procurar-me. Ninguém
175

saiu e eu fui para o meu hotel. Por acaso era a noite da


última conferência, pelo que nunca mais voltei ao Alibi Roorn,
pelo menos durante uns anos.
(De facto voltei ao Alibi Roorn uns dez anos depois e
encontrei tudo diferente. NÃo estava bonito e brilhante como
dantes; via-se muito desmazelo e havia pessoas com aspecto
miserável. Falei com o empregado, do bar, que era um tipo
diferente, e falei-lhe dos velhos tempos. "Oh, sim!", disse
ele. "Era neste bar que costumavam estar os corretores de
apostas e as suas raparigas. " Compreendi entÃo por que razÃo
havia lá tantas pessoas simpáticas e de aspecto elegante e
porque é que os telefones estavam sempre a tocar.)
Na manhà seguinte, quando me levantei e me vi ao espelho,
descobri que um olho negro leva umas horas a escurecer
completamente. Quando nesse dia voltei a ítaca, fui entregar
umas coisas no gabinete do deÃo. Um professor de Filosofia viu
o meu olho negro e exclamou: "Oh, Sr. Feynman! NÃo me diga que
arranjou isso batendo numa porta?"
"De modo nenhum", disse eu. "Arranjei-o numa luta na casa de
banho dos homens de um bar, em Búfalo."
"Ah, ali, ah!", riu-se ele.
Depois houve o problema de dar a aula à minha classe habitual.
Entrei na sala com a cabeça baixa, a estudar os meus
apontamentos. Quando estava pronto para começar, levantei a
cabeça, olhei-os a direito e disse o que dizia sempre antes de
começar a aula -mas desta vez com um tom de voz mais duro:
"Há alguma pergunta?"
Quero o meu dólar!
Quando estava em Cornell, ia frequentemente a minha casa, em
Far Rockaway. Uma vez em que, por acaso, eu estava em casa
toca o telefone: é uma INTERURBANA, da Califórnia. Nesses
dias, uma chamada interurbana significava que era qualquer
coisa muito importante, especialmente uma chamada interurbana
desse lugar maravilhoso, a Califórnia, a um milhÃo de milhas
de distância.
0 tipo do outro lado diz: "É o Prof. Feynman, da Universidade
de Cornell?"
"Sou."
176
"Daqui fala Fulano, da Companhia de Aeronaves tal e tal. Era
uma das grandes companhias de aviaçÃo da Califórnia, mas
infelizmente nÃo me lembro qual. 0 tipo continua: "Estamos a
planear fundar um laboratório sobre aviSes-foguete de
propulsÃo nuclear. Terá um orçamento anual de tantos milhSes
de dólares ... " Grandes números.
"Espere um momento; nÃo sei porque me está a contar isso
tudo", respondi eu.
"Deixe-me só falar consigo", continuou ele. "Deixe-me só
explicar tudo. Por favor deixe-me fazer as coisas à minha
maneira." Assim ele continuou mais um pouco e diz quantas
pessoas vai haver no laboratório, tantas pessoas neste nível e
tantos doutorados naquele nível...
"Desculpe", digo eu, "mas acho que está a falar com a pessoa
errada.
"Estou a falar com Richard Feynman, Richard P. Feynman?"
"Sim, mas o senhor ... "
"Porfavor, deixe-me apresentar o que tenho para dizer, e entÃo
falaremos sobre o assunto."
"Está bem!" Sento-me e fecho os olhos para ouvir aquilo tudo,
todos os detalhes sobre aquele grande projecto, e continuo sem
fazer a mínima ideia da razÃo por que ele me está a dar todas
estas informaÇÕES.
Finalmente, quando acabou, disse: "Estou a contar-lhe os
nossos planos porque queremos saber se o senhor quer ser o
director do laboratório. "
"Estará realmente a falar com o tipo certo?", pergunto eu. "Eu
sou um professor de Física Teórica. NÃo sou um engenheiro de
foguetes, nem um engenheiro de aviSes, nem nada do género."
"Temos a certeza de que é o tipo certo. "
"EntÃo onde arranjaram o meu nome? Porque é que decidiram
falar comigo?"
"O seu nome está na patente dos aviSes com propulsÃo de
foguetes e energia nuclear."
"Oh!", disse eu, e compreendi porque é que o meu nome estava
na patente; tenho de vos contar a história. Disse ao homem:
"Lamento, mas quero continuar como professor na Universidade
de Cornell."
O que tinha acontecido foi que, durante a guerra, em Los
Alamos, havia um tipo muito simpático encarregado do gabinete
das patentes para o Governo, chamado capitÃo Smith. Smith fez
circular um aviso que dizia qualquer coisa como: "Nós, no
gabinete de patentes, gostaríamos de conceder uma patente a
todas as ideias que tiverem para o Governo dos Estados Unidos,
para o qual estÃo agora a trabalhar. Mesmo que pensem que
qualquer ideia que tenham sobre a
177

energia nuclear ou sobre a sua aplicaçÃo é conhecida de toda a


gente, isso pode nÃo acontecer: venham ao meu gabinete e
contem-me a ideia."
Vejo Smith ao almoço e, enquanto regressamos à área técnica,
digo-lhe: "A propósito daquele aviso que fez circular: parece
um pouco disparatado fazer-nos ir lá contar todas as ideias."
Discutimos o assunto em todos os pormenores -nessa altura já
nos encontrávamos no seu gabinete -e eu disse: "Há tantas
ideias perfeitamente óbvias sobre energia nuclear, que eu
ficaria aqui todo o dia a falar-lhe no assunto."
"POR EXEMPLO?"
"É fácil! ", digo eu. "Exemplos: reactor nuclear... debaixo de
água... entra água... sai vapor do outro lado... pshshshsh -é
um submarino. Ou: reactor nuclear... entra ar pela frente... é
aquecido pela reacçÃo nuclear ... sai por trás... Boom! Pelo
ar -é um aviÃo. Ou: reactor, nuclear ... fazemos passar
hidrogénio através daquilo... Zoom! -é um foguete. Ou:
reactor nuclear... só que, em vez de usar urânio vulgar,
usamos urânio enriquecido com óxido de berilio a alta
temperatura para o tornar mais eficiente... é uma instalaçÃo
de energia nuclear. Há um; milhÃo de ideias!", disse eu ao
sair a porta.
NÃo aconteceu nada.
Três meses depois, Smith chama-me ao seu gabinete e diz:
"Feynman, o submarino já estava registado. Mas as outras três
ideias sÃo suas." Por isso, quando os tipos da companhia de
aviSes da Califórnia estÃo a planear o laboratório e tentam
descobrir quem é perito em tudo o que meta propulsÃo por
foguetes, nÃo se preocupam: procuram quem tem patente nesse
campo!
Seja como for, Smith mandou-me assinar uns papéis pelas três
ideias que eu dava ao Governo para patente. Ora -e isto nÃo
passa de qualquer palermice legal -, quando damos a patente ao
Governo, o documento que assinamos nÃo é legal, a menos que
haja alguma troca, pelo que o papel que assinei dizia: "Pela
quantia de um dólar, eu, Richard P. Feynman, dou esta ideia ao
Governo ... "
Assino o papel.
"Onde está o meu dólar?"
"É apenas uma formalidade", diz ele. "NÃo temos fundos
estabelecidos para dar um dólar."
"Têm tudo estabelecido para eu assinar pelo dólar", digo eu.
"Quero o meu dólar! "
"Isto é um disparate", protesta Smith.
"NÃo, nÃo é", digo eu. "É um documento legal. Fez com que eu o
assinasse e sou um homem honesto. Se assino qualquer coisa que
diz que devo receber um dólar, tenho de receber um dólar. NÃo
pode haver brincadeiras a este respeito."
"Está bem, esta bem", diz ele, exasperado. "Eu dou-lhe um
dólar do meu bolso!"
"Está bem!"
Pego no dólar e vejo logo o que vou fazer. Vou à mercearia e
compro um dólar -o que nessa altura era bastante -de bolinhos
e doces, aqueles doces de chocolate com marshmallow dentro,
uma quantidade de coisas.
Volto para o laboratório teórico e distribuo tudo o que
comprara: "Vejam todos, recebi um prêmio! Comam um bolinho!
Recebi um prémio! Um dólar pela minha patente! Recebi um dólar
pela minha patente!"
Todas as pessoas que têm dessas patentes -muitas pessoas
tinham estado a enviá-las-vÃo ter com o capitÃo Smith: querem
os seus dólares!
Ele começa a pagá-los do seu bolso, mas depressa compreende
que vai ser uma sangria! Andou como doido a tentar estabelecer
um fundo onde pudesse arranjar os dólares que os tipos
insistiam em receber. NÃo sei como se arranjou.
É só pedir-lhes?
Quando fui para Cornell, correspondia-me com uma rapariga que
conhecera no Novo México, quando trabalhava na bomba. Comecei
a pensar, quando ela mencionou outro tipo qualquer que
conhecia, que o melhor que tinha a fazer era ir lá rapidamente
no fim do ano lectivo para tentar salvar a situaçÃo. Mas,
quando lá cheguei, descobri que
era tarde de mais, pelo que acabei num motel em Albuquerque,
com um VerÃo livre e nada que fazer.
O Motel Casa Grande era na Route 66, a estrada principal que
atravessa a cidade. Na mesma estrada, um pouco mais abaixo,
havia um pequeno clube nocturno que tinha espectáculo. Como
nÃo tinha nada que fazer e gostava de observar as pessoas nos
bares e de as conhecer, ia muitas vezes a esse clube.

kbibl
Quando fui lá pela primeira vez, a certa altura, estando a
falar com um tipo no bar, reparámos numa mesa inteira cheia de
lindas jovens -acho que eram hospedeiras da TWA -que estavam
a fazer uma espécie de festa de aniversário. O outro tipo
disse: "Venha, vamos arranjar coragem e convidá-las para
dançar."
Portanto, convidámos duas delas para dançar e depois elas
convidaram-nos para nos sentarmos à mesa com as outras
raparigas. Depois de umas bebidas, aproximou-se o criado:
"Alguém quer alguma coisa?"
Eu gostava de imitar um bêbado, pelo que, apesar de estar
completamente sóbrio, me voltei para a rapariga com quem
tinha estado a dançar e lhe perguntei com voz de bêbado: "Você
quer alguma coisa?"
"oO que é que podemos tomar?", pergunta ela.
"Tuuuuuuuuuuuuudo o que quiserem, TUDO!"
"Está bem! Tomamos champanhe!", diz ela alegremente.
Por isso digo numa voz alta, que toda a gente que está no bar
pode ouvir: "Está bem! Ch-Ch-champanhe para tooodos!"
Depois ouço o meu amigo a falar com a minha rapariga, dizendo
que era indecente "apanhar-lhe toda aquela massa por ele estar
bêbado", e começo a pensar que talvez tenha cometido um erro.
Bem, de modo simpático, o criado aproxima-se de mim,
inclina-se e diz em voz baixa: "Custa dezasseis dólares cada
garrafa. "
Decido desistir da ideia do champanhe para toda a gente, pelo
que digo em voz ainda mais alta do que antes: "DEIXE LÃ!"
Fiquei por isso bastante surpreendido quando, uns momentos
depois, o criado volta com todas aquelas coisas requintadas -
um guardanapo no braço, um tabuleiro cheio de taças, um balde
de gelo cheio de gelo e uma garrafa de champanhe. Ele pensou
que eu queria dizer: "Deixe lá o preço", quando eu queria
dizer: "Deixe lá o champanhe!"
O criado serviu champanhe a todos, eu paguei os dezasseis
dólares e o meu amigo ficou furioso com a minha rapariga
porque pensou que ela me tinha feito pagar toda aquela massa.
Mas, no que me diz respeito, a coisa acabou aí, embora mais
tarde tenha sido o início de uma nova aventura.
Eu ia bastantes vezes àquele clube e, à medida que as semanas
passavam, os espectáculos mudavam. Os artistas andavam num
circuito que passava por Amarfilo e por muitos outros lugares
no Texas, e sabe Deus por que outros sítios. Havia também uma
cantora permanente do clube, chamada Tamara. Cada vez que
chegava um novo grupo de artistas ao clube, Tamara
apresentava-me uma das raparigas do grupo.
180
A rapariga sentava-se à minha mesa, eu oferecia-lhe uma bebida
e comversávamos. Claro que eu gostaria de fazer mais do que
apenas conversar, mas acontecia sempre qualquer coisa no
último momento. Por isso eu nÃo conseguia compreender porque é
que a Tamara se dava ao trabalho de me apresentar todas
aquelas raparigas simpáticas e depois, apesar de as coisas
começarem muito bem, eu acabava sempre por oferecer bebidas e
passar a noite a conversar, mas mais nada. O meu amigo, que
nÃo tinha a vantagem das apresentaÇÕES de Tamara, também nÃo
conseguia nada-éramos ambos uns falhados.
Ao fim de umas semanas de espectáculos diferentes e de
diferentes raparigas, veio um novo espectáculo e, como de
costume, Tamara apresentou-me uma rapariga do grupo e
passou-se tudo como habitualmente ofereço-lhe bebidas,
conversamos e ela está a ser muito simpática. Foi fazer o
espectáculo e depois voltou para a minha mesa, e senti-me
bastante bem. As pessoas olhavam e pensavam: "Que terá o tipo
que faz com que esta rapariga vá ter com ele?"
Mas depois, em qualquer ocasiÃo perto do fim da noite, ela
disse uma coisa que por essa altura eu já ouvira muitas vezes:
"Gostava que viesse ao meu quarto esta noite, mas temos uma
festa, por isso talvez amanhà à noite ... " -e eu sabia o que
este "talvez amanhà à noite" significava: NADA.
Bem, reparei ao longo da noite que esta rapariga -chamava-se
Gloria-falava muitas vezes com o mestre-de-cerimónias durante
o espectáculo e quando ia e voltava da casa de banho das
senhoras. Por isso, uma vez, quando ela estava na casa de
banho e o mestre-de-cerimônias passou perto da minha mesa,
deitei-me de repente a adivinhar e disse-lhe: "A sua mulher é
muito simpática."
Ele respondeu: "Pois é, muito obrigado", e começámos a
conversar um pouco. Ele pensou que ela me tinha dito. Por isso
conversaram os dois comigo um bocado e convidaram-me a ir a
casa deles nessa noite, depois de o bar fechar.
+s duas da manhà fui com eles para o seu motel. Claro que nÃo
havia nenhuma festa e conversámos durante muito tempo.
Mostraram-me um álbum com fotografias de Gloria quando o
marido a conheceu em lowa, uma mulher gorducha; depois outras
fotografias dela à medida que ia emagrecendo, e agora estava
mesmo elegante! Ele tinha-lhe ensinado todo o gênero de
coisas, mas ele nÃo sabia ler nem escrever, o que era
particularmente interessante, porque lhe competia, como
mestre-de-cerimónias, ler os nomes dos números e dos artistas
que faziam parte do concurso de amadores e eu nem tinha
reparado que
181

ele nÃo sabia ler o que estava "a ler"! (Na noite seguinte vi
o que ele co, olhava p faziam. Quando ela trazia ou levava uma
pessoa do palco, olhava para o papel que ele tinha na mÃo e
segredava-lhe, ao passar, os nomes dos próximos artistas e o
título do número.
Eram um casal muito interessante e simpático e tínhamos muitas
conversas interessantes. Recordei como os tinha conhecido e
pergunto-lhes por que razÃo Tamara me estava sempre a
apresentar novas raparigas.
Gloria replicou: "Quando Tamara estava para nos apresentar,
dis 'Agora vou apresentar-te o verdadeiro mÃos-largas cá do
sítio!'"
Tive de pensar um momento antes de compreender que a garral
o vig
de champanhe de dezasseis dólares comprada com um tá 1 oroso
mal compreendido "deixe lá!" fora afinal um bom investimento.
E tinha aparentemente a fama de ser uma espécie de excêntrico
que vinha sempre sem estar vestido a rigor, sem um fato
decente,
mas sempre pronto a gastar montes de dinheiro com as
raparigas.
Finalmente disse-lhes que havia uma coisa que me intrigava:
"Sou razoavelmente inteligente", disse eu, "mas provavelmente
só para física. Naquele bar há uma data de tipos inteligentes
-tipos do petr leo, tipos dos minerais, homens de negócios
importantes, etc. -que estÃo sempre a pagar bebidas às
raparigas, sem receberem nada em troca!" (Nesta altura tinha
eu
deduzido que os outros todos també nÃo conseguiam nada com
todas aquelas bebidas.) "Como é possível perguntei eu, "que um
tipo 'inteligente' possa ser tÃo palerma quand entra num bar?"
o mestre disse: "Disto percebo eu. Sei exactamente como tudo
funciona. Vou dar-lhe umas liÇÕES, para que daqui em diante
você possa conseguir alguma coisa de uma rapariga num bar
destes. Mas antes de lhe dar liÇÕES tenho de lhe demonstrar
que
sei realmente do que estou
a falar. Para isso, Gloria vai conseguir que um homem lhe
pague a um cocktail de champanhe."
"Está bem", digo eu, embora pense: "Como é que eles vÃo fazer
isto?"
o mestre continuou: "Agora tem de fazer exactamente o que lhe
dissermos Amanhà à noite deve sentar-se no bar, a alguma
distância de Gloria, e, quando ela lhe fizer sinal, bástalhe
passar perto dela.
"Sim", diz Gloria. "Vai ser fácil."
Na noite seguinte entro no bar e sento-me num canto, onde po
ir olhando para Gloria a uma certa distância. Ao fim de algum
tempo de facto, está um tipo sentado com ela e, passado mais
um bocadinho
182
o tipo está todo contente e Gloria pisca-me um olho.
Levanto-me e passo com ar indiferente. Quando vou mesmo a
passar, Gloria volta-se e diz com uma voz verdadeiramente
amigável e animada: "Oh, olá, 1)ick! Quando é que voltou? Onde
esteve?"
Neste momento o tipo volta-se e vê quem é este "Dick", e vejo
nos seus olhos algo que compreendo completamente, por me ter
encontrado tantas vezes nessa posiçÃo.
Primeiro olhar: "Oh, oli, vem aí um competidor. Vai levá-la
depois de eu lhe ter pago uma bebida! 0 que vai acontecer?"
Olhar seguinte: "NÃo, é só um amigo casual. Parecem
conhecer-se há algum tempo." Eu via isto tudo. Lia-o na cara
dele. Sabia exactamente o que ele sentia.
Gloria volta-se para ele e diz: "Jim, quero apresentar-lhe um
velho amigo meu, Dick Feynman."
Olhar seguinte: "Já sei o que vou fazer. Vou ser simpático
para este tipo para ela gostar mais de mim. "
Jim volta-se para mim e diz: "Olá, Dick. Que tal uma bebida?"
"óptimo!", digo eu.
"O que quer tomar?"
"Seja o que for que ela está a tomar."
"Empregado, outro cocktail de champanhe, por favor."
Portanto foi fácil; nÃo custou nada. Nessa noite, depois de o
bar fechar, fui novamente ao motel onde estavam Gloria e o
mestre. Estavam sorridentes, contentes com o modo como tudo
tinha corrido. "Muito bem", disse eu, "estou absolutamente
convencido de que vocês os dois sabem muito bem do que estÃo a
falar. E agora, quanto às liÇÕES?"
"Está bem", diz ele. "O princípio completo é este: o tipo quer
ser um cavalheiro. NÃo quer que o tomem por indeficado, por
rude ou especialmente por sovina. A rapariga, conhecendo tÃo
bem os motivos do tipo, nÃo tem dificuldade em o orientar na
direcçÃo em que quer que ele vá.
"Portanto", continuou ele, "nÃo seja em nenhuma circunstância
um cavalheiro! Deve desrespeitar as raparigas. Mais, a
primeira de todas as regras é: nÃo pague nada a uma rapariga
-nem sequer um maço de cigarros -antes de lhe ter perguntado
se vai dormir consigo e de estar convencido de que ela vai e
nÃo está a mentir."
"Uh... quer dizer... nÃo se... uh... basta pedir-lhes?"
"Está bem", diz ele, "eu, sei que é a sua primeira liçÃo e é
possível que lhe custe ser tÃo brusco. Por isso pode
comprar-lhe uma coisa
183
qualquer coisinha, apenas -antes de pedir. Mas, por outro
lado, i só vai dificultar as coisas."
Bem, basta que me dêem o princípio, que eu completo a ideia.
Durante todo o dia seguinte construí a minha psicologia de
modo diferente: adoptei a atitude de que aquelas raparigas de
bar sÃo todas u pegas, que nÃo valem nada, que só lá vÃo para
nos fazer pagar-I uma bebida e nÃo nos tencionam dar
absolutamente nada: nÃo vou um cavalheiro para aquelas pegas
que nÃo valem nada, etc. Estu aquilo até se tornar automático.
EntÃo, nessa noite, estava pronto para experimentar. Entro no
bar como de costume e o meu amigo diz logo: "Eh, Dick! Espere
até ver a rapariga que arranjei esta noite! Teve de ir mudar
de
roupa~ volta já. "
"Sim, sim", digo eu, sem me impressionar, e sento-me a outra
mesa
para ver o espectáculo. A rapariga do meu amigo entra na
altura em que está a começar o espectáculo e eu penso:
"Estou-me nas tintas para a beleza dela; só vai conseguir que
ele
lhe pague bebidas e nÃo lhe dar nada!"
Depois da primeira parte o meu amigo diz: "Eh, Dick! Que
apresentar-lhe a Ann. Ann, este é um grande amigo meu, Di
Feynman."
Digo "Olá" e continuo a olhar para o espectáculo.
Uns momentos depois Ann diz-me: "Porque nÃo vem sentar-se aqui
à mesa connosco?"
Penso para comigo: "É mesmo uma pega: ele é que lhe paga as
bebidas e ela convida outra pessoa para a mesa. " Digo: "Vejo
bem
daqui
Um pouco depois entra um tenente de uma base militar próximma
usando um belo uniforme. Dentro de pouco tempo vemos Ann se
tada do outro lado do bar com o tenente!
Nessa noite, mais tarde, estou sentado no bar, Ann dança com
tenente e, quando ele está de costas para mim e ela de frente,
ela sorrime agradavelmente. Penso novamente: "Grande pega!
Agora está fazer o mesmo truque, até com o tenente! "
EntÃo tenho uma boa ideia: nÃo olho para ela até que ele me
possa ver também, e entÃo devolvo-lhe o sorriso, para que o
tenente saiba o que se está a passar. Assim, o truque dela nÃo
resultou durante um
tempo.
Uns minutos depois, ela já nÃo está com o tenente; está a
pedir empregado do bar o casaco e a bolsa, dizendo em voz alta
e clar "Apetece-me dar um passeio. Alguém quer dar um passeio
comigo?
184
penso para comigo: "Podemos dizer que nÃo e repeli-las, mas
nÃo o podemos fazer permanentemente, ou nÃo conseguimos nada.
Chega uma altura em que temos de alinhar." Por isso digo
friamente: "Eu dou um passeio consigo. " Saímos. Descemos a
rua um bocado, vemos um café e ela diz: "Tenho uma ideia:
vamos comprar café e sanduíches e vamos para minha casa
comê-las."
A ideia parece bastante boa e, por isso, entramos no café, ela
pede três cafés e três sanduíches e eu pago-os.
Quando saímos do café, penso: "Há qualquer coisa errada: sÃo
sanduíches a mais!"
A caminho do motel ela diz: "Sabe, nÃo vou ter tempo de comer
as sanduíches consigo, porque há um tenente que vem ... "
Penso para comigo: "Pronto, fiz asneira. O mestre ensinou-me o
que fazer e eu fiz asneira. Comprei-lhe 1 dólar e 10 cêntimos
de sanduíches, nÃo lhe pedi nada e agora sei que nÃo vou
apanhar nada! Tenho de recuperar, quanto mais nÃo seja pelo
brio do meu professor."
Paro de repente e digo-lhe: "Você... é pior do que uma
PROSTITUTA!"
"O que é que quer dizer com isso?"
" Você fez-me comprar estas sanduíches e o que é que eu recebo
em troca? Nada!"
"Bem, seu sovina!", diz ela, "se é assim que pensa, eu
pago-lhe as sanduíches! "
Desafiei-a: "EntÃo, pague."
Ficou atónita. Pegou no porta-moedas, tirou o pouco dinheiro
que tinha e deu-mo. Peguei na minha sanduíche e no meu café e
fui-me embora.
Depois de ter acabado de comer voltei ao bar para contar ao
mestre. Expliquei-lhe tudo e disse-lhe que lamentava ter feito
asneira, mas tinha tentado recuperar.
Ele disse muito calmamente: "Está bem, Dick; está tudo bem.
Como acabou por nÃo lhe pagar nada, ela vai dormir consigo
esta noite."
"O quê?"
"É verdade", disse ele, confiante; "vai dormir consigo. Eu
sei."
"Mas ela nem sequer está aqui! Está em casa dela com o
tenente. ...
"
"Está bem."
Chegam as duas horas, o bar fecha e Ann nÃo aparece. Pergunto
ao mestre e à mulher se posso ir novamente a casa deles. Eles
dizem: "Com certeza."
185

Quando íamos mesmo a sair do bar, aparece Ann, atravessando a


correr a Route 66 na minha direcçÃo. Dá-me o braço e diz:
"Venha, vamos a minha casa."
O mestre tinha razÃo. A liçÃo fora óptima!
Um dia, no Outono, quando me encontrava novamente em Cornell,
estava a dançar com a irmà de um estudante que tinha vindo de
Virgínia fazer uma visita. Era muito simpática e de repente
tive esta ideia: "Vamos a um bar tomar uma bebida", disse eu.
A caminho do bar tentei arranjar coragem para experimentar a
liçÃo do mestre numa rapariga vulgar. No fim de contas, nÃo
nos sentimos tÃo mal a desrespeitar uma rapariga de bar que
tenta fazer-nos pagar-lhe bebidas-mas uma rapariga sulista,
simpática e vulgar?
Entrámos no bar e, antes de me sentar, disse: "Ouça, antes de
lhe oferecer uma bebida quero saber uma coisa: vai dormir
comigo esta noite? "
"Sim."
Por isso dava resultado até com uma rapariga vulgar! Mas, por
muito eficaz que a liçÃo fosse, na realidade nÃo a voltei a
usar depois disso. NÃo me agradava proceder dessa maneira. Mas
foi interessante saber que as coisas funcionavam de modo muito
diferente do que me tinham ensinado.
Números de sorte
Um dia, em Princeton, estava eu sentado na sala e ouvi uns
matemáticos a falar da série para e,,,, que é 1+X+X2 /2! +X3
/3! Obtemos cada termo multiplicando o termo precedente por x
e dividindo-o pelo número seguinte. Por exemplo, para obter o
termo a seguir a X4 /4! multiplicamos esse termo por x e
dividimos por 5. É muito simples.
Quando eu era miúdo, entusiasmava-me com as séries e brincava
com essas coisas. Tinha calculado e usado essa série e tinha
visto a rapidez com que os novos termos se tornam muito
pequenos.
Murmurei qualquer coisa sobre como era fácil calcular e
elevado a qualquer expoente usando essa série (basta
substituir x pelo expoente).
"Ah, sim?", disseram eles. "Bem, entÃo quanto é e elevado a
3,3?" perguntou um brincalhÃo -acho que era Tukey.
186
l~ '
1
1
"É fácil. É 27,11 ", respondo eu.
Tukey sabe que nÃo é assim tÃo fácil fazer todos estes
cálculos de cabeça. "Eh! Como é que faz isso?"
Outro tipo diz: "Vocês conhecem Feynman, está só a fingir. NÃo
está realmente certo."
VÃo buscar uma tabela e entretanto acrescento mais uns
algarismos: "27,1126", digo eu.
Encontram o número na tabela. "Está certo! Mas como é que faz
isso?"
"Foi só somar a série."
"Ninguém. pode somar a série tÃo depressa. Devia saber essa
por acaso. E se for e elevado a 3?"
"Olhem", digo eu, "é muito complicado! Só uma por dia!"
"Ah! É aldrabice!", dizem eles, satisfeitos.
"Está bem", respondo eu, "é 20,085."
Vêem no livro enquanto eu acrescento mais alguns algarismos.
Agora estÃo todos entusiasmados, porque acertei outra.
Aqui estÃo todos estes grandes matemáticos da altura
intrigados com o modo como consigo calcular e elevado a
qualquer expoente! Um deles diz: "Ele nÃo pode estar a
substituir e a somar -é demasiado difícil. Há algum truque.
NÃo conseguia fazer um número qualquer, como e elevado a 1,4."
Eu respondo: "Dá muito trabalho, mas, por ser para si, está
bem. É 4,05."
Enquanto eles procuram, acrescento mais uns algarismos e digo:
"E é a última por hoje!", e saio.
O que aconteceu foi isto: por acaso eu sabia três números -o
Iogaritmo de 10 na base e (necessário para converter números
da base 10 para a base e), que é 2,3026 (por isso sabia que e
elevado a 2,3 é muito próximo de 10), e, por causa da
radiactividade (vida média e semívida), sabia o lagaritmo de 2
na base e, que é 0,69315 (por isso sabia também que e elevado
a 0,7 é aproximadamente igual a 2). Também sabia o valor de e
(elevado a 1), que é 2,718 28.
O primeiro número que me deram era e elevado a 3,3, que é e
elevado a 2,3 -dez -vezes e, ou 27,18. Enquanto eles se
esforçam por descobrir como eu tinha feito, eu fazia a
correcçÃo para o extra 0,0026 -2,3026 é um pouco alto.
Sabia que nÃo conseguiria fazer outra; fora pura sorte. Mas,
nessa altura, o tipo disse e elevado a 3: isto é, e elevado a
2,3 vezes e elevado a 0,7, ou dez vezes dois. Por isso sabia
que era 20 qualquer coisa
187

e, enquanto eles se preocupavam em saber como eu conseguira,


fiz o ajustamento para os 0,693.
Agora eu tinha a certeza de que nÃo podia fazer outra, porque
a última fora novamente pura sorte. Mas o tipo disse e elevado
a 1,4, que é e elevado a 0,7 a multiplicar por si próprio. Por
isso tudo o que tinha a fazer era compor 4 um bocadinho!
Nunca conseguiram descobrir como eu tinha feito.
Quando estava em Los Alamos, descobri que Hans Bethe era um ás
a fazer cálculos. Por exemplo, uma vez estávamos a introduzir
números numa fórmula e chegámos a 48 ao quadrado. Estendo a
mÃo para a calculadora Marchant e ele diz: "É 2300." Começo a
carregar nos botSes e ele acrescenta: "Se quer com exactidÃo,
é 2304."
A máquina diz 2304. "Ena! Notável!", digo eu.
"NÃo sabe calcular o quadrado de números próximos de SO?",
pergunta ele. "Elevamos 50 ao quadrado -é 2500 -e subtraímos
100 vezes a diferença entre 50 e o seu número (neste caso é
2), e assim temos 2300. Se queremos a correcçÃo, adicionamos o
quadrado da diferença. Dá 2304."
Uns minutos depois precisávamos de calcular a raiz cúbica de 2
1/2. Ora para fazer raizes cúbicas na Marchant tínhamos de
usar uma tabela para a primeira aproximaçÃo. Abro a gaveta
para tirar a tabela -desta vez leva mais algum tempo -e ele
diz: "É aproximadamente 1,35."
Experimento na Marchant e está certo. "Como é que fez esta?",
pergunto. "Tem um segredo para calcular a raiz cúbica dos
números?"
"Oh", diz ele, "o logaritmo de 2 1/2 é tantos. Ora um terço
desse logaritmo está entre os logaritmos de 1,3, que é este, e
de 1,4, que é aquele, por isso interpolei."
Portanto descobri uma coisa: primeiro, ele sabe as tábuas de
logaritmos; segundo, só a quantidade de aritmética que ele fez
para fazer a interpolaçÃo levar-me-ia mais tempo do que pegar
na tabela e carregar nos botSes da calculadora. Fiquei muito
impressionado.
Depois disso tentei fazer essas coisas. Decorei alguns
logaritmos e comecei a reparar em certas coisas. Por exemplo,
se uma pessoa diz: "Quanto é que 28 ao quadrado?", reparamos
que a raiz quadrada de 2 é 1,4 e 28 é 20 vezes 1,4, pelo que o
quadrado de 28 deve ser aproximadamente 400 vezes 2, ou 800.
Se vem uma pessoa que quer dividir 1 por 1,73, podemos
dizer-lhe imediatamente que é 0,577, porque reparamos que 1,73
é próximo da raiz quadrada de 3, portanto V1,73 deve ser um
terço da raiz quadrada
188
de 3. E, se é 1/1,75, é igual ao inverso de V4, e decorámos as
dizimas periódicas para os sétimos: 0,571428...
Diverti-me imenso tentando fazer a aritmética rapidamente, por
meio de truques, com Hans. Era muito raro ver alguma coisa que
ele nÃo tivesse visto e batê-lo na resposta, e ele ria-se com
o seu riso cordial quando eu conseguia uma. Ele era quase
sempre capaz de obter a soluçÃo de qualquer problema com uma
margem de um por cento. Era fácil para ele -todos os números
estavam próximos de alguma coisa que ele conhecia.
Um certo dia encontrava-me cheio de genica. Era a altura do
almoço na zona técnica e nÃo sei como tive aquela ideia, mas
anunciei: "Sou capaz de descobrir em sessenta segundos a
soluçÃo de qualquer problema que alguém me possa apresentar em
dez segundos, com uma margem de dez por cento! "
As pessoas começaram a dar-me problemas que pensavam serem
difíceis, tais como integrar uma funçÃo como 1/(1 + X4) , que
dificilmente mudava na classe que eles me davam. O mais
difícil que me deram foi o coeficiente binomial de x10 em (1 +
X)20; consegui essa mesmo a tempo.
Estavam todos a dar-me problemas e eu a sentir-me muito bem
quando Paul Olum entrou na sala. Paul trabalhara comigo
durante algum tempo, em Princeton, antes de vir para Los
Alamos, e foi sempre mais esperto do que eu. Por exemplo, um
dia eu estava a brincar distraidamente com uma dessas fitas
métricas que saltam para a mÃo quando carregamos num botÃo. A
fita dava sempre um estalo e batia-me na mÃo, e isso
magoava-me um pouco. "Bolas! ", exclamei. "Que parvo que eu
sou. Estou sempre a brincar com isto e magoo-me sempre."
Ele disse: "É que nÃo a segura bem", e pegou na maldita coisa,
puxou a fita para fora, carregou no botÃo, e aquilo voltou
logo para trás. NÃo se magoou.
"Uau! Como é que faz isso?", exclamei.
"Descubra!"
Durante as duas semanas seguintes ando por Princeton a fazer
estalar a fita até a minha mÃo estar completamente esfolada.
Finalmente, nÃo consigo aguentar mais: "Paul! Desisto! Como é
que a segura para que nÃo o magoe?
"Quem diz que nÃo magoa? A mim também magoa!"
Senti-me muito estúpido. Ele conseguira que eu andasse por ali
a magoar a minha mÃo durante duas semanas!
189
190
Paul passa pelo lugar do almoço e os tipos estÃo todos
entusiasmados. "Eh, Paul! ", chamam. "Feynman está formidável!
Damos-lhe um problema que pode ser apresentado em dez segundos
e num minuto ele consegue a resposta a dez por cento. Porque
nÃo lhe dá um?"
Quase sem parar, ele diz: "A tangente de 10 com 100 casas
decimais."
Fui-me abaixo: era preciso dividir por pi com 100 casas
decimais! NÃo havia esperança.
Uma vez gabei-me: "Posso resolver por outros métodos uma
integral que qualquer outra pessoa só consiga resolver com
integraçÃo de perfil."
EntÃo Paul apresenta a tremenda integral que obtivera
começando com uma funçÃo complexa de que ele conhecia a
resposta, tirando-lhe a parte real e deixando só a parte
complexa. Tinha-a desdobrado de modo que só era possível por
integraçÃo de perfil! Estava sempre a pôr em causa as minhas
gabarolices. Era um tipo muito esperto.
A primeira vez que estive no Brasil, estava certa ocasiÃo a
tomar uma refeiçÃo do meio-dia nÃo sei a que horas -
encontrava-me sempre nos restaurantes na altura errada -e era
o único cliente presente. Estava a comer arroz com bife (que
adorava) e havia uns quatro criados à volta.
Entrou um japonês no restaurante. Eu já o vira a deambular por
ali; tentava vender ábacos. Começou a falar com os criados e
desafiou-os: disse que conseguia somar números mais depressa
do que qualquer deles.
Os criados nÃo queriam ficar mal colocados, pelo que disseram:
"Está bem, está bem. Porque nÃo vai ali desafiar aquele
cliente?"
o homem aproximou-se. Protestei: "Mas eu nÃo falo bem
português! "
Os criados riram. "Os números sÃo fáceis", disseram.
Trouxeram-me lápis e papel.
O homem pediu ao criado que dissesse alguns números para
somarmos. Venceu-me completamente, porque, enquanto eu
escrevia os
números, ele já os ia somando.
Sugeri que o criado escrevesse duas listas idênticas de
números e as entregasse ao mesmo tempo a ambos. NÃo fez grande
diferença. Mesmo assim venceu-me por um bocado.
Contudo, o homem ficou um pouco entusiasmado: queria exibir-se
mais. "MultiplicaçÃo!" 1, disse ele.
' Em português no original. (N. da T.)
Alguém escreveu um problema. Voltou a vencer-me, mas nÃo por
muito, porque sou bastante bom a multiplicar.
EntÃo o homem cometeu um erro: propôs que seguíssemos para a
divisÃo. O que ele nÃo sabia era que, quanto mais difícil
fosse o problema, maiores eram as minhas hipóteses.
Fizemos ambos um longo problema de divisÃo. Foi um empate.
O japonês ficou muitíssimo chateado, pois, parecendo ter muita
experiência com o ábaco, se encontrava ali quase vencido por
um cliente num restaurante.
"Raios cúbicos!" 1 diz ele com ar vingativo. Raizes cúbicas!
Quer calcular aritmeticamente raizes cúbicas! É difícil
encontrar um problema fundamental de aritmética mais difícil.
Deve ter sido o seu mais brilhante exercício nos domínios do
ábaco.
Escreve um número num papel -um número qualquer -e ainda me
lembro qual era: 1729,03. Começa a trabalhar com ele,
murmurando e resmungando: ~~magm~brrr" -trabalha como um
demónio! Pensa intensamente, achando a sua raiz cúbica.
Eu, entretanto, apenas fico ali sentado.
Um dos criados pergunta: "O que está a fazer?"
Aponto para a minha cabeça: "A pensar!", digo. Escrevo 12 no
papel. Ao fim de pouco tempo tenho 12,002.
O homem do ábaco limpa o suor da testa: "Doze!", diz ele.
"Oh, nÃo!", respondo eu. "Mais dígitos! Mais dígitos!" Sei que
ao tirar aritmeticamente uma raiz cúbica, cada novo dígito dá
ainda mais trabalho do que o anterior. É uma tarefa difícil.
Enfronha-se novamente, grunhindo "Rrrrgrrrrmmmmmm ... ",
enquanto eu junto mais dois dígitos. Finalmente, levanta a
cabeça para dizer: "12,0!"
Os criados ficam todos entusiasmados. Dizem ao homem: "Veja!
Ele só usa a cabeça e você precisa do ábaco! Ele tem mais
dígitos! "
Sentiu-se completamente derrotado e saiu humilhado. Os criados
felicitaram-se uns aos outros.
Como é que o cliente venceu o ábaco? O número era 1729,03.
Acontece que eu sabia que um pé cúbico contém 1728 polegadas
cúbicas, pelo que a resposta é um pouco mais do que 12. 0
excesso, 1,03, é apenas uma parte em quase 2000, e eu
aprendera em cálculo que, para fracÇÕES pequenas, o excesso da
raiz cúbica é um terço do excesso do número. Por isso só tinha
de descobrir a fracçÃo 1/1728 e multiplicar
' Em português no original. (N. da T)
191
192
por 4 (dividir por 3 e multiplicar por 12). Dessa maneira
consegui extrair uma quantidade de dígitos.
Umas semanas mais tarde, o homem entrou um dia na sala de
cocktails do botei em que eu estava. Reconheceu-me e
aproximou-se: "Diga-me", pediu ele, "como conseguiu resolver
tÃo depressa aquele problema de raiz cúbica?"
Comecei a explicar que era um método aproximado e que tinha
que ver com a percentagem de erro. "Suponha que me tinha dado
28. OOrra a raiz cúbica de 27 é 3 ... "
Ele pega no ábaco: zzzzzzzzzzzzzzz "Oh, sim", diz ele.
Compreendi uma coisa: ele nÃo conhece os números. Com o ábaco
nÃo é preciso decorar uma data de combinaÇÕES aritméticas;
basta aprender a empurrar as continhas para cima e para baixo.
NÃo temos de decorar 9 + 7 = 16; sabemos apenas que, quando
somamos 9, empurramos uma conta de dez para cima e empurramos
uma conta de um para baixo. Portanto, nós somos mais lentos na
aritmética básica, mas conhecemos os números.
Além disso, a ideia de um método aproximado ultrapassava-o,
apesar de, muitas vezes, a raiz cúbica nÃo poder ser calculada
exactamente,, por nenhum método. Por isso nunca consegui
ensinar-lhe como calculava as raízes cúbicas nem explicar-lhe
a sorte que tivera por ele escolher 1729,03.
0 americano outra vez!'
Uma vez dei boleia a uma pessoa que me disse que a América do
Sul era muito interessante e que eu devia lá ir. Queixei-me de
a língua ser diferente, mas ele respondeu que bastava
aprendê-la -nÃo é assim tÃo difícil. Por isso pensei: "É boa
ideia, vou à América do Sul."
Em Cornell havia aulas de línguas estrangeiras que seguiam um
método usado durante a guerra, no qual pequenos grupos com uns
dez estudantes e um professor da nacionalidade fala
(1)Em português no original. (N. da T.)
vam apenas a língua estrangeira -mais nada. Como em Cornell eu
era um professor com um aspecto bastante jovem, decidi
frequentar a aula como se fosse um aluno normal. E, como ainda
nÃo sabia aonde iria parar na América do Sul, decidi aprender
o espanhol, porque lá a grande maioria dos países falam esta
língua.
Por isso, quando chegou a altura de me inscrever e nos
encontrávamos lá fora, prontos para entrar na aula, aparece
uma loura cheia de curvas. Sabem aquela sensaçÃo que temos de
vez em quando, UAU? Tinha um aspecto fantástico. Disse para
comigo: "Talvez ela vá para a aula de Espanhol -isso seria
óptimo!" Mas nÃo, entrou na aula de Português. Por isso
pensei: "Que raio, também posso aprender português!"
Comecei a andar atrás dela, quando esta minha atitude
anglosaxónica disse: "NÃo, nÃo é uma boa razÃo para decidir
que língua devo aprender." Por isso voltei para trás e
inscrevi-me na aula de Espanhol com enorme pesar.
Algum tempo depois, num encontro da Sociedade de Física, em
Nova Iorque, encontrei-me sentado ao lado de Jaime Tiomino, do
Brasil, e ele perguntou: "Que vai fazer no próximo VerÃo?"
"Estou a pensar visitar a América do Sul."
"Oh! Porque nÃo vai ao Brasil? Arranjo-lhe uma colocaçÃo no
Centro de Pesquisa Física."
Portanto, eu agora tinha de converter todo aquele espanhol em
português!
Descobri em Cornell um estudante português, o qual passou a
dar-me liÇÕES duas vezes por semana, e assim consegui
modificar o que tinha aprendido.
No aviÃo para o Brasil comecei por me sentar ao lado de um
tipo da Colômbia que só falava espanhol; por isso, nÃo quis
falar com ele, para nÃo ficar outra vez baralhado. Mas à minha
frente iam dois tipos a falar português. Nunca ouvira
português verdadeiro, só tivera aquele professor que falava
muito devagar e com muita clareza. E ali estavam aqueles dois
tipos a falar com enorme rapidez, brrrrrr-a-ta brrrrrr-a-ta, e
eu sem sequer distinguir a palavra para "eu" nem a palavra
para "o", nem nada.
Por fim, quando parámos em Trinidad para meter combustível,
fui ter com os dois tipos e disse muito devagar em português,
ou no que eu pensava que era português: "Desculpem...
conseguem perceber... o que vos estou a dizer agora?"
193

"Pois nÃo, porque nÃo?" 1 -"Claro, porque nÃo? " -,


replicaram. Assim, expliquei o melhor que podia que andava a
aprender português já há alguns meses, mas que nunca o tinha
ouvido em conversaçÃo, e que os tinha estado a escutar no
aviÃo, mas sem conseguir perceber uma palavra do que diziam.
"Oh!", disseram eles, rindo, "NÃo é português! É ladrÃo!
Judeu!"2 0 que eles tinham estado a falar era para o português
o que o yiddish é para o alemÃo, pelo que podem imaginar um
tipo que tenha andado a estudar alemÃo sentado atrás de dois
tipos a falarem yiddish e tentando perceber o que eles dizem.
É evidentemente alemÃo, mas nÃo resulta. NÃo deve ter
aprendido muito bem o alemÃo.
Quando voltámos para o aviÃo, eles indicaram-me outro tipo que
falava realmente português, pelo que me sentei ao lado dele.
Tinha estado a estudar Neurocirurgia em Maryland, pelo que era
muito fácil falar com ele -desde que fosse sobre cirurgia
neural, o cérebro 3 e outras coisas "complicadas" como essas.
As palavras compridas sÃo na realidade bastante fáceis de
traduzir para português, porque a única diferença é a
terminaçÃo: "-tion" em inglês é "-çÃo" em português; "-Iy" é
"-mente", etc. Mas, quando ele olhava pela janela e dizia
qualquer coisa simples, eu ficava perdido: nÃo conseguia
decifrar "o céu é azul".
Saí do aviÃo no Recife (o Governo Brasileiro ia pagar a viagem
do Recife até ao Rio) e tinha à minha espera o sogro de César
Lattes, que era o director do Centro de Pesquisa Física do
Rio, a mulher dele e outro indivíduo. Enquanto os homens
tratavam da minha bagagem, a senhora começou a falar comigo em
português: "Fala português? Que bom! Como é que aprendeu?"
Respondi devagar, com grande esforço. "Primeiro comecei a
aprender espanhol... depois descobri que vinha para o Brasil
... " Agora queria dizer: "Por isso aprendi português", mas
nÃo conseguia descobrir a maneira de dizer "por isso".
Contudo, sabia construir palavras GRANDES, pelo que acabei a
frase desta maneira: "consequentemente, aprendi português!" "
Quando os dois homens voltaram com a bagagem, ela disse: "Oh,
ele fala português! E com que palavras maravilhosas:
consequentemente!"
(1)Em português no original. (N. da T.)
(2)ld.
(3)Id
(4)Id.
194
EntÃo veio um aviso pelo altifalante. O voo para o Rio fora
cancelado e só havia outro na terça-feira seguinte, e eu tinha
de estar no Rio segunda-feira, o mais tardar.
Fiquei muito preocupado. "Talvez haja um aviÃo de carga. Faço
a viagem num aviÃo de carga", disse eu.
"Professor! ", disseram eles, "isto aqui no Recife é realmente
muito agradável. Nós mostramo-lhe a terra. Porque nÃo se
descontrai? Está no Brasil!"
Nessa noite fui dar um passeio pela cidade e deparou-se-me um
pequeno grupo de pessoas à volta de um grande buraco
rectangular na estrada -tinham-no feito para canos de esgoto,
ou qualquer coisa assim -e precisamente lá dentro estava um
carro. Era extraordinário: ajustava-se com uma perfeiçÃo
absoluta ao buraco, com o tejadilho ao nível da estrada. Os
trabalhadores nÃo se tinham incomodado a pôr sinais no fim do
dia e o tipo tinha simplesmente metido o carro pelo buraco
dentro. Reparei numa diferença: quando nós cavávamos um
buraco, havia toda a espécie de sinais de desvio e de luzes
intermitentes para nos proteger. Ali cavavam o buraco e,
quando acabavam o trabalho do dia, iam-se embora e pronto.
Seja como for, o Recife era de facto uma cidade agradável, e
esperei mesmo até à terça-feira seguinte para voar para o Rio.
Quando cheguei ao Rio, encontrei César Lattes. A rede nacional
de televisÃo queria filmar o nosso encontro, pelo que
começaram a filmar, mas sem som. O homem da câmara disse:
"Façam de conta que estÃo a falar. Digam alguma coisa,
qualquer coisa."
EntÃo Lattes perguntou-me: "Já encontrou um dicionário de
dormir?"
Nessa noite, os espectadores de TV brasileiros viram o
director do Centro de Pesquisa Física receber o professor
visitante dos Estados Unidos, mas mal eles sabiam que o
assunto da conversa deles era descobrir uma rapariga com quem
passar a noite!
Quando cheguei ao centro da cidade, tivemos de decidir quando
ia dar as minhas aulas -de manhà ou de tarde.
Lattes disse: "Os estudantes preferem à tarde."
"EntÃo vamos dá-las à tarde."
"Mas, como a praia é agradável à tarde, porque nÃo dá as aulas
de manhÃ, para poder aproveitar a praia à tarde?"
"Mas o senhor disse que os estudantes preferem ter as aulas à
tarde."
"NÃo se preocupe com isso. Faça o que for mais conveniente
para si! Goze a praia à tarde."
195

Assim aprendi a olhar a vida de modo diferente daquele do


sítio de onde venho. Primeiro, nÃo tinham a mesma pressa que
eu. Em seguida, se é melhor para si, deixe lá! Por isso dei as
aulas de manhà e gozei a praia à tarde. E, se tivesse
aprendido aquela liçÃo mais cedo, teria em primeiro lugar
aprendido português, em vez de espanhol.
Ao princípio pensei dar as minhas aulas em inglês, mas reparei
numa coisa: quando os estudantes me explicavam qualquer coisa
em português, eu nÃo conseguia perceber muito bem, apesar de
saber algum português. NÃo tinha a certeza se eles tinham dito
"aumento", ou "diminuiçÃo", ou "nÃo aumento", ou "nÃo
diminuiçÃo", ou "diminuiçÃo lenta". Mas, quando eles se
esforçavam em inglês, diziam ahp' ou doon 2 e eu sabia o que
queriam significar, apesar de a pronúncia ser péssima e a
gramática estar toda deturpada. Por isso compreendi que, se
queria falar com eles e ensiná-los, era melhor falar em
português, mesmo sendo fraco. Ser-lhes-ia mais fácil
compreender.
Durante aquela primeira vez que estive no Brasil, que durou
seis semanas, fui convidado a fazer uma conferência na
Academia Brasileira de Ciências sobre um trabalho de
electrodinâmica quântica que acabara de realizar. Pensei fazer
a conferência em português e dois estudantes do Centro
disseram que me ajudariam. Comecei a escrever a minha
conferência num português péssimo. Escrevi-a eu próprio,
porque, se eles a tivessem escrito, teria demasiadas palavras
que eu nÃo conhecia e nÃo sabia pronunciar correctamente. Por
isso escrevi-a eu e eles corrigiram a gramática e a ortografia
e melhoraram-lhe a forma, mas continuava a um nível em que eu
podia ler com facilidade e saber mais ou menos o que dizia.
Praticaram comigo para conseguir a pronúncia absolutamente
correcta: o "de" tinha de estar entre "deh" e "day" -tinha de
ser mesmo assim.
Cheguei ao encontro da Academia Brasileira de Ciências e o
primeiro orador, um químico, levantou-se e fez a sua
conferência -em inglês. Estaria a tentar ser delicado, ou o
quê? NÃo consegui perceber o que ele dizia porque tinha uma
pronúncia muito má, mas talvez todos os outros tivessem a
mesma pronúncia e por isso o conseguissem enten
(1)Up, "para cima", (N. da T.)
(2)Down, "para baixo", (N. da T.)
196
der; nÃo sei. EntÃo, o tipo seguinte levanta-se e faz a sua
conferência em inglês!
Quando chegou a minha vez, levantei-me e disse: "Desculpem;
nÃo sabia que a língua oficial da Academia Brasileira de
Ciências era o inglês. Por isso peço desculpa, mas vou ter de
fazer a minha conferência em português."
Portanto li tudo e toda a gente ficou satisfeita.
O tipo que se levantou a seguir disse: "Seguindo o exemplo do
meu colega dos Estados Unidos, também vou fazer a minha
conferência em português." Assim, tanto quanto sei, modifiquei
a tradiçÃo da língua utilizada na Academia Brasileira de
Ciências.
Alguns anos depois conheci um brasileiro que me citou as
frases exactas que utilizei no início da minha conferência na
Academia. Por isso deduzi que, aparentemente, os havia
impressionado bastante.
Mas a língua foi sempre difícil para mim e continuei a
trabalhá-la durante todo o tempo, lendo o jornal, etc.
Continuei a dar as minhas aulas em português aquilo a que eu
chamo "português de Feynman", que eu sabia nÃo ser o mesmo que
o português autêntico, porque eu percebia o que dizia, ao
passo que nÃo conseguia perceber o que as pessoas diziam na
rua.
Como gostei muito daquela primeira estada no Brasil, voltei um
ano depois, mas agora por dez meses. Dessa vez dei aulas na
Universidade do Rio, que me devia pagar, mas nunca pagou, pelo
que o Centro continuou a dar-me o dinheiro que eu devia
receber da Universidade.
Acabei por ficar num hotel chamado Miramar, mesmo na praia de
Copacabana. Durante algum tempo tive um quarto no décimo
terceiro piso, de onde podia olhar pela janela para o mar e
ver as raparigas na praia.
Por acaso, este hotel era aquele em que os pilotos e as
hospedeiras das Pan American Airlines ficavam quando
"pernoitavam " -um termo que sempre me incomodou um pouco. Os
quartos deles eram sempre no quarto piso e a meio da noite
havia muitas vezes umas quantas subidas e descidas
sub-reptícias no elevador.
Uma vez ausentei-me durante umas semanas num passeio e, quando
voltei, o gerente disse-me que tivera de pôr outra pessoa no
meu quarto, porque era o último quarto livre de que dispunha,
e tinha mudado as minhas coisas para um quarto novo.
Era um quarto mesmo por cima da cozinha, em que as pessoas nÃo
costumavam ficar muito tempo. O gerente deve ter pensado que
eu era o único tipo capaz de ver as vantagens daquele quarto
com clareza suficiente para tolerar os cheiros sem me queixar:
era no quarto piso, perto das hospedeiras. isso evitava uma
data de problemas.
O pessoal das linhas aéreas, por estranho que pareça,
aborrecia-se um pouco com aquela vida e à noite ia muitas
vezes para os bares beber uns copos. Gostava de todos eles e,
para ser sociável, ia com eles ao bar tomar umas bebidas
várias noites por semana.
Um dia, por volta das 3.30 da tarde, passava por um bar no
passeio oposto à praia de Copacabana. Tive de repente uma
sensaçÃo tremendamente forte: "É mesmo o que eu quero; calha
mesmo bem. Adorava tomar uma bebida agora! "
Comecei a entrar no bar e de repente pensei para comigo:
"Espera aí! Estamos a meio da tarde. NÃo está cá ninguém. NÃo
há nenhuma razÃo social que me leve a beber. Porque é que tens
entÃo uma sensaçÃo tÃo terrivelmente forte de que tens de
tomar uma bebida? " -e assustei-me.
A partir daí nunca mais voltei a beber. Suponho que na
realidade nÃo corria perigo, porque achei muito fácil parar.
Mas aquela sensaçÃo forte que nÃo compreendia assustou-me.
EstÃo a ver, divirto-me tanto a pensar qe nÃo quero destruir
esta máquina muitíssimo agradável que torna a vida tÃo
divertida. É a mesma razÃo por que, mais tarde, tive
relutância em tentar experiências com o LSI), apesar da minha
curiosidade pelas alucinaÇÕES.
Perto do fim daquele ano no Brasil levei uma das hospedeiras -
uma rapariga muito bonita com tranças -ao museu. Ao passarmos
pela secçÃo egípcia, dei por mim a dizer-lhe coisas como: "As
asas do sarcófago significam isto e aquilo, e nestes vasos
costumavam pôr as entranhas, e à volta do canto devia haver
uma coisa assim e assim ... ", e pensei para comigo: "Sabes
onde aprendeste todas estas coisas? Com Mary Lou"-e tive
saudades dela.
Conheci Mary Lou em Cornell e mais tarde, quando vim para
Pasadena, descobri que ela viera para Westwood, que era perto.
Gostei dela durante algum tempo, mas discutíamos um bocado;
finalmente decidimos que nÃo havia nada a fazer e
separámo-nos. Mas, ao fim de um ano a sair com aquelas
hospedeiras sem realmente chegar a lado nenhum, eu sentia-me
frustrado. Por isso, quando estava a contar àquela rapariga
todas aquelas coisas, pensei que Mary Lou era realmente
maravilhosa e que nÃo devíamos ter tido todas aquelas
discussSes.
Escrevi-lhe uma carta a declarar-me. Uma pessoa sensata
poderia ter-me dito que aquilo era perigoso: quando estamos
longe e temos apenas papel, e nos sentimos sós, lembramo-nos
de todas as coisas boas
198
e nÃo nos conseguimos lembrar das razSes por que discutimos. E
nÃo resultou. As discussSes recomeçaram imediatamente e o
casamento só durou dois anos.
Havia um homem na Embaixada dos Estados Unidos que sabia que
eu gostava de samba. Acho que lhe disse que, quando estivera
no Brasil pela primeira vez, tinha ouvido uma banda de samba a
praticar na rua e queria aprender mais sobre a música
brasileira.
Ele disse que um pequeno grupo, chamado um "regional",
praticava no seu apartamento todas as semanas e eu podia ir lá
ouvi-los tocar.
Havia três ou quatro pessoas -uma delas era o porteiro da
casa de apartamentos -e tocavam música bastante calma no
apartamento; nÃo tinham outro lugar para tocar. Um dos tipos
tinha uma pandeireta, a que chamavam pandeiro, e outro tinha
um pequeno violÃo. Eu estava sempre a ouvir o bater de um
tambor em qualquer lado, mas nÃo havia nenhum tambor!
Finalmente descobri que era a pandeireta, que o tipo tocava de
um modo complicado, torcendo o pulso e batendo na pele com o
polegar. Achei aquilo interessante e aprendi mais ou menos a
tocar o pandeiro.
EntÃo começou a aproximar-se a estaçÃo do Carnaval. É a altura
em que é apresentada a nova música. Eles nÃo estÃo sempre a
publicar nova música e discos; publicam-nos todos durante o
Carnaval e isso é muito excitante.
Acontecia que o porteiro era o compositor de uma pequena
"escola" de samba -uma escola nÃo no sentido de educaçÃo, mas
no sentido dos peixes -da praia de Copacabana, chamada
Farçantes de Copacabana, um nome que estava mesmo bem para
mim, e convidou-me para fazer parte dela.
Ora esta escola de samba era uma coisa aonde os tipos das
favelas -a parte pobre da cidade -desciam e se encontravam,
atrás de um lote onde estavam a ser construidos uns prédios de
apartamentos, e aí praticavam a música nova para o Carnaval.
Escolhi para tocar uma coisa chamada "frigideira", uma
frigideira metálica de brinquedo, com umas seis polegadas de
diâmetro e um pauzinho de metal para lhe bater. É um
instrumento de acompanhamento que faz um barulho rápido, de
tilintar, que acompanha a música e o ritmo principais do samba
e os completa. Assim, tentei tocar aquela coisa e tudo corria
bem. Estávamos a praticar, a música soava bastante alto e
íamos a grande velocidade quando, de repente, o chefe da
secçÃo de percussÃo, um grande negro, gritou, "PAREM! Esperem,
199
esperem, aguentem um minuto! " E pararam todos. "Passa-se
qualquer coisa com as frigideiras!", berrou ele. "O americano
outra vez! " 1
Aquilo fez-me sentir pouco à vontade. Estava permanentemente a
praticar. Costumava caminhar ao longo da praia segurando dois
paus que tinha apanhado, exercitando o movimento de torçÃo dos
pulsos, praticando, praticando, praticando. Continuava a
trabalhar naquilo, mas sentia-me sempre inferior, sentia que
era uma espécie de empecilho e nÃo estava realmente à altura.
Bem, estava a aproximar-se a época de Carnaval e uma noite
houve uma conversa entre o chefe da banda e outro indivíduo;
depois o chefe começou a andar à roda, escolhendo pessoas:
"Você!", disse ele a um trompetista. "Você! ", disse a um
cantor. "Você! ", e apontou para mim. Pensei que estávamos
arrumados. Ele disse: "Saiam na frente!"
Fomos para a parte da frente do local de construçÃo -éramos
cinco ou seis -e vimos lá um velho Cadillac descapotável, com
a capota para baixo. "Entrem!", disse o chefe.
NÃo havia espaço suficiente para todos, pelo que alguns
tiveram de se sentar na parte superior traseira. Eu disse ao
tipo que ia ao meu lado: "O que é que ele está a fazer? Está a
pôr-nos fora?"
"NÃo sé, nÃo sé." ("NÃo sei.")
Subimos por uma estrada que acabava perto da borda de um
penhasco sobranceiro ao mar. o carro parou e o chefe disse:
"Saiam!", e fizeram-nos andar mesmo até à beira do penhasco.
E, na realidade, ele disse: "Agora alinhem-se! Você primeiro,
você a seguir, você depois! Comecem a tocar! Agora marchem!"
Teríamos marchado para fora da borda do penhasco se nÃo fosse
um carreiro íngreme que descia. Assim, o nosso grupinho desce
o carreiro -o trompete, o cantor, o violÃo, o pandeiro e a
frigideira -para ir a uma festa ao ar livre nos bosques. NÃo
tínhamos sido escolhidos por o chefe se querer desembaraçar de
nós; ele mandava-nos àquela festa privada que queria música de
samba! E depois recebeu dinheiro para pagar uns fatos para a
nossa banda.
Depois disso senti-me um pouco melhor, porque compreendi que,
quando ele escolheu o tocador de frigideira, me escolheu a
mim!
Aconteceu outra coisa que aumentou a minha confiança. Algum
tempo depois veio um tipo de outra escola de samba, no Leblon,
uma praia mais adiante. Queria entrar para a nossa escola.
o chefe disse: "De onde é?"
(1)Em português no original. (N. da T.)
200
"Do Lebion."
"O que é que toca?"
"Frigideira."
"Muito bem. Deixe-me ouvi-lo tocar frigideira."
EntÃo o tipo pega na frigideira e no pauzinho de metal e...
"brrra-dup-dup; chic-a-chic." Ena pá! Era óptimo!
O chefe disse-lhe: "Vá para ali e fique ao pé do americano, e
aprenderá a tocar frigideira! "
A minha teoria é que isto é como uma pessoa que fala francês e
vem para a América. Ao princípio faz toda a espécie de erros e
dificilmente a compreendemos. Depois continua a praticar até
falar bastante bem, e descobrimos que há um toque delicioso no
seu modo de falar -a pronúncia é bastante agradável e
adoramos ouvi-la. Por isso devo ter uma "pronúncia" qualquer a
tocar frigideira, porque nÃo poderia competir com aqueles
tipos que passaram a vida a tocar; devia ser alguma
"pronúncia" estranha. Mas, fosse o que fosse, tornei-me um
tocador de frigideira com bastante sucesso.
Um dia, pouco tempo antes do Carnaval, o chefe da escola de
samba disse: "Muito bem, vamos praticar a marcha na rua."
Saímos todos do local de construçÃo para a rua, que estava
cheia de trânsito. As ruas de Copacabana eram sempre uma
grande confusÃo. Podem nÃo acreditar, mas havia uma linha de
carros eléctricos em que estes iam num sentido e os automóveis
em sentido contrário. Ali estávamos nós, na hora de ponta, em
Copacabana, a preparar-nos para marchar pelo meio da Avenida
Atlântica.
Disse para comigo: "Meu Deus! O chefe nÃo arranjou uma
licença, nÃo combinou com a polícia, nÃo fez nada. Decidiu
apenas que vamos sair."
Começámos portanto a sair para a rua e as pessoas, à nossa
volta, entusiasmaram-se. Alguns voluntários de um grupo de
assistentes pegaram numa corda e formaram um grande quadrado à
volta da nossa banda, para que os peSes nÃo atravessassem as
nossas linhas. As pessoas começaram a debruçar-se das janelas.
Todos queriam ouvir a nova música de samba. Era muito
excitante!
Assim que começámos a marchar, vi um polícia lá no fim da rua.
Ele olhou, viu o que se passava e começou a desviar o
trânsito! Era tudo informal. Ninguém preparou nada, mas
resultou tudo lindamente. As pessoas seguravam as cordas à
nossa volta, o polícia desviava o trânsito, os peSes
acotovelavam-se e o trânsito estava encravado, mas nós
201
seguíamos em grande! Descemos a rua, voltámos as esquinas,
percorremos Copacabana toda, ao acaso!
Por fim fomos ter a uma pequena praça onde vivia a mÃe do
chefe. Parámos ali a tocar e a mÃe do tipo, a filha, etc.,
desceram. Tinham aventais postos; tinham estado a trabalhar na
cozinha e víamos o entusiasmo delas -quase choravam. O
aspecto humano daquilo era realmente agradável. E as pessoas
todas inclinadas das janelas -era fantástico! E lembrava-me
da primeira vez que estivera no Brasil e vira uma destas
bandas de samba -como tinha gostado da música e quase tinha
endoidecido com ela -, e agora fazia parte de uma dessas
bandas!
A propósito, nesse dia, quando marchávamos pelas ruas de
Copacabana, vi num grupo parado no passeio duas jovens da
Embaixada. Na semana seguinte recebi uma nota da Embaixada
dizendo: "O que está a fazer é muito importante, blá, blá, blá
... ", como se o meu objectivo fosse melhorar as relaÇÕES
entre os Estados Unidos e o Brasil! Portanto, eu estava a
fazer uma coisa muito "importante".
Bem, para ir a estes ensaios, eu nÃo queria vestir as roupas
normais que usava na Universidade. As pessoas da banda eram
muito pobres e só tinham roupas velhas e esfarrapadas. Por
isso vestia uma camisola interior velha, uns calÇÕES velhos e
por aí fora, para nÃo me destacar muito. Mas entÃo nÃo podia
sair do meu luxuoso hotel, na Avenida Atlântica, em
Copacabana, atravessando o átrio. Por isso descia sempre no
elevador até ao fim e saía pela cave.
Pouco antes do Carnaval ia haver uma competiçÃo especial entre
as escolas de samba das praias Copacabana, lpanema e Leblon;
havia três ou quatro escolas e nós éramos uma delas. +amos
marchar mascarados pela Avenida Atlântica. Por nÃo ser
brasileiro, senti-me pouco à vontade para marchar vestindo um
desses fatos de Carnaval. Mas tínhamos de ir vestidos de
gregos, pelo que pensei que era tÃo bom grego como eles.
No dia da competiçÃo, estando a comer no restaurante do hotel,
o chefe dos criados, que me tinha visto muitas vezes bater o
ritmo na mesa quando tocavam música de samba, veio ter comigo
e disse: "Sr. Feynman, esta noite vai haver uma coisa que vai
adorar! É típico brasileiro(1). Vai haver uma marcha das
escolas de samba mesmo em frente do hotel! E a música é tÃo
boa -tem de a ouvir. "
Eu disse: "Bem, estou um pouco ocupado esta noite. NÃo sei se
conseguirei."
(1)Em português no original. (N. da T.)
202
"Oh! Mas ia gostar tanto! NÃo deve perder! É típico
brasileiro!"
Ele insistiu muito e, como eu lhe continuava a dizer que nÃo
pensava lá estar para ver, ficou desapontado.
Nessa noite vesti a minha roupa velha e desci pela cave, como
de costume. Vestimos os fatos no lote em construçÃo e
começámos a marchar pela Avenida Atlântica, cem gregos
brasileiros com fatos em papiermaché e eu atrás, a tocar
frigideira.
Havia uma grande multidÃo ao longo de ambos os lados da
Avenida; toda a gente estava debruçada das janelas e nós íamos
chegando ao Hotel Miramar, onde me encontrava hospedado. As
pessoas estavam de pé nas mesas e nas cadeiras. íamos tocando
com toda a força, quando a nossa banda começou a passar em
frente do hotel. De repente vi um dos criados dar um salto no
ar, apontando com o braço, e, através de todo aquele barulho,
gritar: "O PROFESSOR! " Por isso, o criado-chefe descobriu
porque é que eu nÃo podia estar lá para ver a competiçÃo -
participava nela!
No dia seguinte vi uma senhora que conhecia por a encontrar
sempre na praia e que tinha um apartamento que dava para a
Avenida. Tinha lá uns amigos para ver a parada das escolas de
samba e, quando passámos, um dos amigos exclamou: "Ouçam
aquele tipo tocar frigideira -ele é bom!" Tinha vencido.
Gostava imenso de ter sucesso numa coisa que nÃo se supunha eu
fosse capaz de fazer.
Quando chegou a altura do Carnaval, nÃo apareceram muitas
pessoas da nossa escola. Havia uns fatos especiais feitos de
propósito para a ocasiÃo, mas nÃo havia pessoas suficientes.
Talvez tivessem a opiniÃo de que nÃo podíamos ganhar contra as
escolas de samba verdadeiramente grandes da cidade; nÃo sei.
Pensei que estávamos a trabalhar dia após dia, praticando e
marchando para o Carnaval, mas, quando este chegou, grande
parte da banda nÃo compareceu e nÃo competimos muito bem.
Mesmo quando marchávamos pela rua, alguns membros da banda
foram-na abandonando. Resultado estranho! Nunca o compreendi
realmente muito bem, mas talvez o entusiasmo e a diversÃo
principais fossem tentar ganhar o concurso das praias, que a
maioria das pessoas sentia estar mais ao seu nível. E, diga-se
de passagem, ganhámos mesmo.
Durante a estada de dez meses no Brasil interessei-me pelos
níveis de energia dos núcleos mais leves. Desenvolvi toda a
teoria a esse respeito no meu quarto de hotel, mas queria
verificar o aspecto dos dados obtidos nas experiências. Eram
coisas novas que estavam a ser desen
203
volvidas no Laboratório Kelogg pelos peritos de Caltech, pelo
que os contactei -os tempos foram todos combinados por rádio
amador. Encontrei um operador de rádio amador no Brasil e ia a
casa dele mais ou menos uma vez por semana. Ele contactava um
operador de rádio amador em Pasadena, e entÃo, como havia
naquilo qualquer coisa de ligeiramente ilegal, ele dava-me uma
designaçÃo em letras e dizia: "Agora passo-o a WKWX, que está
aqui ao meu lado e queria falar consigo. "
EntÃo eu dizia: "Aqui WKWX. Diga-me, por favor, os espaços
entre os níveis certos no boro, de que falámos na semana
passada", etc. Usava os dados das experiências para ajustar as
minhas constantes e verificar se estava no bom caminho.
O primeiro tipo foi de férias, mas indicou-me outro rádio
amador aonde ir. Este segundo tipo era cego e operava a sua
estaçÃo. Foram ambos muito simpáticos e o contacto que tive
com Caltech por rádio amador foi muito eficiente e útil para
mim.
Quanto à física propriamente dita, fiz um bom trabalho e que
fazia sentido. Foi mais tarde desenvolvido e verificado por
outras pessoas. No entanto, decidi que tinha tantos parâmetros
a ajustar -demasiado "ajustamento fenomenológico de
constantes" para fazer corresponder tudo -que nÃo podia estar
certo de que era muito útil. Queria um conhecimento bastante
profundo dos núcleos e nunca me convenci realmente de que era
muito significativo, pelo que nunca fiz nada com aquilo.
No que diz respeito à educaçÃo no Brasil, tive uma experiência
muito interessante. Ensinava um grupo de alunos que por fim se
tornariam professores, uma vez que no Brasil nÃo havia muitas
oportunidades para uma pessoa altamente treinada em ciência.
Os estudantes já tinham feito muitas cadeiras e esta ia ser a
sua cadeira mais avançada sobre electricidade e magnetismo -
as equaÇÕES de Maxwell, etc.
A Universidade estava distribuída por vários edifícios de
escritórios pela cidade e a cadeira que ensinei era dada num
edifício com vista para a baía.
Descobri um fenómeno muito estranho: eu fazia uma pergunta e
os alunos respondiam imediatamente. Mas, quando voltava a
fazer a pergunta -o mesmo assunto e a mesma pergunta, tanto
quanto sabia -, eles nÃo conseguiam responder de modo nenhum!
Por exemplo, uma vez estava eu a falar de luz polarizada e dei
a todos umas tiras de polaroid.
204
O polaroid só deixa passar a luz cujo vector eléctrico se
encontra numa determinada direcçÃo, pelo que expliquei como se
podia saber em que direcçÃo a luz é polarizada vendo se o
polaroid está claro ou escuro.
Pegámos primeiro em duas tiras de polaroid e rodámo-las até
deixarem passar a maior quantidade de luz. Ao fazer isto
sabíamos que as

duas tiras admitiam agora luz polarizada na


mesma direcçÃo -o que passava através de um bocado de
polaroid conseguia passar através do outro. Mas entÃo
perguntei-lhes como é que se podia saber a direcçÃo absoluta
da polarizaçÃo a partir de um único bocado de polaroid.
NÃo faziam ideia.
Sabia que aquilo necessitava de algum engenho, pelo que lhes
dei uma pista: "Vejam a luz reflectida da baía, lá fora. "
Ninguém disse nada.
EntÃo continuei: "Já ouviram falar do ângulo de Brewster?"
"Sim! O ângulo de Brewster é o ângulo a que a luz reflectida
de um meio com um índice de reflexÃo é completamente
polarizada."
"E em que sentido é polarizada a luz quando se reflecte?
"A luz é polarizada perpendicularmente ao plano da reflexÃo."
Mesmo agora tenho de pensar; eles sabiam aquilo nas calmas!
Até sabiam que a tangente do ângulo é igual ao índice!
Eu disse: "EntÃo?"
Ainda nada. Tinham acabado de me dizer que a luz reflectida de
um meio com um índice, como a baía, lá fora, era polarizada;
até me tinham dito em que sentido era polarizada.
Eu disse: "Olhem lá para fora, para a baía, através do
polaroid. Agora rodem o polaroid."
"Oh, está polarizada!", disseram.
Depois de muita investigaçÃo descobri finalmente que os
estudantes tinham decorado tudo, mas nÃo sabiam o significado
de nada. Quando ouviram "a luz é reflectida de um meio com um
índice", nÃo sabiam que significava um material como a água.
NÃo sabiam que a "direcçÃo da luz" é a direcçÃo na qual vemos
uma coisa quando olhamos para ela, etc. Estava tudo
completamente decorado, e no entanto nada tinha sido traduzido
para palavras com significado. Por isso, se eu perguntasse: "O
que é o ângulo de Brewster?", estaria a entrar no computador
com as palavras-chave certas. Mas se dissesse: "Olhem para a
água", nÃo aconteceria nada -nÃo tinham nada em "Olhem para a
água! "
205
Mais tarde assisti a uma aula na Escola de Engenharia. A aula
era assim, traduzida para inglês: "Dois corpos... sÃo
considerados equivalentes... se momentos iguais... produzem...
aceleraÇÕES iguais. Dois corpos sÃo considerados equivalentes
se momentos iguais produzem aceleraÇÕES iguais." Os alunos
estavam todos ali sentados a fazer o ditado e, quando o
professor repetia a frase, verificavam-na para ter a certeza
de que a tinham escrito bem. Depois escreviam a frase
seguinte, e assim por diante. Eu era o único que sabia que o
professor estava a falar sobre momentos de inércia, o que era
difícil de descobrir.
NÃo via como eles podiam aprender alguma coisa daquela
maneira. Ali estava ele a falar de momentos de inércia, mas
nÃo se discutia a dificuldade em abrir uma porta,
empurrando-a, quando pusemos pesos na parte de fora, comparada
com a dificuldade que temos em a abrir se os pesos estiverem
perto dos gonzos -nada!
Depois da aula falei com um aluno: "Vocês escrevem todos esses
apontamentos-o que fazem com eles?"
"Oh, estudamo-los", diz ele. "Vamos ter um exame."
"Como vai ser o exame?"
"Muito fácil. Posso dizer-lhe agora uma das perguntas. " Olha
para o caderno e diz: "'Quando é que dois corpos sÃo
equivalentes? E a resposta é: 'Dois corpos sÃo considerados
equivalentes se momentos iguais produzem aceleraÇÕES iguais.'"
Por isso, estÃo a ver, eles podiam passar nos exames e
"aprender" todas aquelas coisas, e nÃo saberem nada, excepto o
que decoraram.
Depois fui a um exame de admissÃo para alunos que pretendiam
entrar na Escola de Engenharia. Era um exame oral e
autorizaram-me a assistir. Um dos estudantes era absolutamente
fantástico: respondia a tudo com muito estilo! Os examinadores
perguntaram-lhe o que é o diamagnetismo e ele respondeu com
perfeiçÃo. Depois perguntaram: "Quando a luz atravessa,
formando um ângulo, uma folha de material com determinada
espessura e um certo índice N, o que acontece à luz?"
"Sai paralelamente a si própria-deslocada."
"E de quanto é a deslocaçÃo?"
"NÃo sei, mas posso calcular. " EntÃo calculou. Ele era muito
bom. Mas eu, nessa altura, tinha as minhas suspeitas.
Depois do exame fui ter com o jovem brilhante e expliquei-lhe
que era norteamericano e que lhe queria fazer umas perguntas
que nÃo afectariam em nada o resultado dos seus exames. A
primeira pergunta foi: "Pode dar-me um exemplo de uma
substância diamagnética?"
"NÃo!"
A seguir perguntei: "Se este livro fosse feito de vidro e eu
quisesse ver através dele qualquer coisa na mesa, o que
aconteceria à imagem se eu inclinasse o livro?"
"Seria deflectida segundo o dobro do ângulo da rotaçÃo do
livro."
Eu continuei: "NÃo confundiu com um espelho, pois nÃo?"
"NÃo, senhor! "
Ele tinha acabado de me dizer no exame que a luz seria
deslocada paralelamente a si própria, e portanto a imagem
mover-se-ia para um dos lados, mas nÃo rodaria segundo um
ângulo. Ele tinha mesmo calculado quanto ela se deslocaria,
mas nÃo compreendeu que um bocado de vidro é um material com
um índice e que os seus cálculos se aplicavam à minha
pergunta.
Ensinei uma cadeira na Escola de Engenharia sobre Métodos
Matemáticos na Física, na qual tentei demonstrar como resolver
problemas por tentativa e erro. É uma coisa que as pessoas
normalmente nÃo aprendem, pelo que comecei com exemplos
simples da aritmética para ilustrar o método. Surpreendeu-me
que apenas uns oito dos aproximadamente oitenta alunos
apresentassem o primeiro trabalho. Por isso lhes fiz um forte
sermÃo sobre a necessidade de realmente tentarem, e nÃo apenas
se limitarem a ver como eu faço.
Depois disso, alguns alunos vieram ter comigo numa pequena
delegaçÃo e disseram-me que eu nÃo compreendia os seus
antecedentes, que eles podiam estudar sem fazer os problemas,
que já tinham aprendido aritmética e que estas coisas estavam
abaixo deles.
EntÃo continuei com a aula e, por muito complicado ou
evidentemente adiantado que o trabalho se estivesse a tornar,
nunca entregaram fosse o que fosse. Claro que eu percebia o
que se passava: eles nÃo conseguiam fazê-lo!
Outra coisa que eu nunca consegui que eles fizessem foi
perguntas. Por fim, um aluno explicou-me o motivo: "Se eu lhe
fizer uma pergunta durante a aula, toda a gente me diz: Torque
é que nos fazes perder tempo na aula? Estamos a tentar
aprender alguma coisa, e estás a interrompê-lo ao fazeres uma
pergunta.'"
Era uma espécie de competiçÃo em que ninguém sabe o que se
passa e rebaixa os outros como se soubesse. Fingem todos que
sabem e, se um aluno admite por um momento que alguma coisa o
confunde, fazendo uma pergunta, os outros tomam uma atitude
arrogante, fazendo de conta que nÃo é nada confuso e
dizendo-lhe que está a fazê-los perder tempo.
207
Expliquei como é útil trabalhar em conjunto, discutir as
perguntas, debater o assunto, mas eles também nÃo queriam
fazer isso, porque estariam a desprestigiar-se se tivessem de
perguntar a outra p~. Fazia pena! Pessoas inteligentes, faziam
todo o trabalho, mas tinham-se colocado naquele estranho
estado de espírito, esta espécie esquisita de "educaçÃo" de
autotransmissÃo, que nÃo faz sentido absolutamente nenhum!
No fim do ano lectivo, os alunos pediram-me que fizesse uma
conferência sobre as minhas experiências ao ensinar no Brasil.
Na conferência nÃo estariam apenas estudantes, mas também
professores e funcionários do Governo, pelo que os fiz
prometer que podia dizer o que quisesse. Eles disseram:
"Claro. Com certeza. Estamos num país livre."
Portanto, entrei, levando o livro de Física Elementar que eles
usavam no primeiro ano da Faculdade. Pensavam que este livro
era especialmente bom porque tinha vários tipos de letra -
negro-carregado para as coisas mais importantes a recordar,
mais leve para as coisas menos importantes, etc.
Alguém disse imediatamente: "NÃo vai dizer mal do livro, pois
nÃo? O homem que o escreveu está cá e toda a gente pensa que é
um bom livro."
"Vocês prometeram que eu podia dizer tudo o que quisesse : "
A sala de conferências estava cheia. Comecei por definir a
ciência como uma compreensÃo do comportamento da natureza. A
seguir perguntei: "Qual é uma boa razÃo para o ensino da
ciência? Claro, nenhum país se pode considerar civilizado a
menos que... blá, blá, blá." Estavam todos ali sentados a
acenar com a cabeça, porque eu sei que é isso que eles pensam.
EntÃo digo: "Claro que isso é absurdo, pois por que razÃo
haveríamos de sentir que temos de estar ao nível de outro
país? Temos de o fazer por uma boa razÃo, uma razÃo que faça
sentido; nÃo apenas porque os outros países o fazem. " A
seguir falei sobre a utilidade da ciência e sobre a sua
contribuiçÃo para o melhoramento da condiçÃo humana, etc. -na
realidade arreliei-os um pouco.
Continuo: "O principal objectivo da minha conferência é
demonstrar-vos que no Brasil nÃo se ensina nenhuma ciência!"
Vejo-os agitarem-se, pensando: "O quê? Nenhuma ciência? Isto é
um completo disparate! Temos estas aulas todas."
Por isso lhes conto que uma das primeiras coisas em que
reparei quando vim para o Brasil foi ver miúdos das escolas
elementares nas livrarias a comprar livros de física. Há
tantos miúdos a aprender física no Brasil, começando muito
mais cedo de que nos Estados Unidos, que
1
+,é espantoso nÃo encontrarmos muitos físicos no Brasil -por
que razÃo? 14á tantos miúdos a trabalhar com interesse e nÃo
se vêem resultados! . EntÃo fiz uma analogia com um erudito de
grego que ama a língua grega e que sabe que no seu próprio
país nÃo há muitas crianças a estudar grego. Mas chega a um
país onde fica encantado por descobrir toda a gente a estudar
grego -até os miúdos mais pequenos nas escolas elementares.
Vai ao exame de um aluno que se quer graduar em Grego e
pergunta-lhe: "Quais eram as ideias de Sócrates sobre a
relaçÃo entre a Verdade e a Beleza? ", e o aluno nÃo sabe
responder. Depois pergunta ao aluno: "O que disse Sócrates a
PlatÃo no Terceiro Simpósio?". O rosto do aluno ilumina-se e
ele faz "Brrrrrrrrr-up"-diz, palavra por palavra, tudo o que
Sócrates disse num grego maravilhoso.
Mas o assunto sobre o qual Sócrates falava no Terceiro
Simpósio era a relaçÃo entre a Verdade e a Beleza!
O que este erudito grego descobre é que os alunos no outro
país aprendem grego aprendendo primeiro a pronunciar as
letras, depois as palavras e depois as frases e os parágrafos.
Sabem recitar, palavra por palavra, o que Sócrates disse, sem
compreenderem que aquelas palavras gregas na realidade
significam alguma coisa. Para o aluno, elas sÃo sons
artificiais. Nunca ninguém as traduziu para palavras que os
alunos possam perceber.
Eu disse: "E isso que me parece quando vos vejo ensinar aos
miúdos 'ciência' aqui no Brasil." (Grande bomba, nÃo?)
EntÃo peguei no livro de física elementar que eles usavam:
"NÃo se mencionam resultados elementares em nenhum sítio deste
livro, excepto num lugar em que há uma bola descendo por um
plano inclinado e onde se diz que distância percorreu a bola
ao fim de um segundo, dois segundos, três segundos, etc. Os
números têm 'erros'-isto é, se olhamos para eles, pensamos
que estamos a olhar para resultados experimentais, porque os
números estÃo um pouco acima, ou um pouco abaixo, dos valores
teóricos. O livro até fala na necessidade de corrigir os erros
experimentais -óptimo. O problema é que, quando calculamos o
valor da aceleraçÃo constante a partir desses valores, obtemos
a resposta correcta. Mas uma bola descendo por um plano
inclinado, se isso realmente acontece, tem uma inércia ao
rodar, e, se fazemos a experiência, o resultado será cinco
sétimos da resposta correcta, devido à energia
-excedente necessária para a rotaçÃo da bola. Portanto, este
único exemplo de 'resultados' experimentais é obtido a partir
de uma experiência a fingir. Ninguém fez rolar a bola, ou
nunca teriam obtido aqueles resultados!
209
"Descobri mais uma coisa", continuei. "Folheando as páginas ao
acaso e pondo o dedo e lendo as frases nessa página, posso
demonstrar-vos o que se passa -que nÃo é ciência, mas
memorizaçÃo, em todas as circunstâncias. Portanto, tenho a
coragem suficiente para folhear estas páginas agora, em frente
desta assistência, pôr o dedo, ler e demonstrar-vos."
Assim fiz. Brrrrrrrup -enfiei o dedo e comecei a ler:
"Triboluminescencia. Triboluminescência é a luz emitida quando
os cristais sÃo esmagados ... "
Perguntei: "E aqui, temos ciência? NÃo! Disseram apenas o
significado de uma palavra em termos de outras palavras. NÃo
disseram nada sobre a natureza que cristais produzem luz
quando os esmagamos, porque produzem luz. Viram algum
estudante ir para casa e experimentar? Nenhum pode.
"Mas se, em vez disso, escrevessem: 'Quando tomamos um torrÃo
de açúcar e o esmagamos com um alicate no escuro, vemos um
clarÃo azulado. Alguns outros cristais fazem o mesmo. Ninguém
sabe porquê. O fenómeno chama-se triboluminescência'. EntÃo,
alguém irá para casa experimentar. Haverá entÃo uma
experiência sobre a natureza." Usei esse exemplo como
demonstraçÃo, mas o sítio onde pus o dedo no livro nÃo tinha a
mínima importância; era assim em toda a parte.
Por fim disse que nÃo concebia que alguém pudesse ser educado
por este sistema de autotransmissÃo, no qual as pessoas passam
em exames e ensinam outras a passar em exames, mas ninguém
sabe nada. "Contudo", disse, "devo estar enganado. Há dois
alunos na minha aula com resultados muito bons e um dos
físicos que conheço foi inteiramente educado no Brasil. Assim,
deve ser possível para algumas pessoas progredirem através do
sistema, mesmo sendo mau."
Bem, depois de fazer a conferência, o director do Departamento
de EducaçÃo Científica levantou-se e disse: "O Sr. Feynman
disse-nos algumas coisas que nos custa muito ouvir, mas revela
amar realmente a ciência e ser sincero na sua crítica.
Portanto, acho que devíamos ouvi-lo. Vim aqui sabendo que
tínhamos uma doença no nosso sistema educativo; o que aprendi
é que temos um cancro!"-e voltou a sentar-se.
Isso deu às outras pessoas liberdade para falar e houve grande
excitaçÃo. Toda a gente se levantava e fazia sugestSes. Os
estudantes tinham uma comissÃo para duplicar as aulas com
antecedência e tinham outras comissSes organizadas para fazer
isto e aquilo.
EntÃo aconteceu uma coisa totalmente inesperada para mim. Um
dos alunos levantou-se e disse: "Eu sou um dos alunos que o
Sr. Feyn
210
man referiu no fim da conferência. NÃo fui educado no Brasil,
fui educado na Alemanha e só vim para o Brasil este ano."
O outro aluno que se saíra bem nas aulas tinha uma coisa
semelhante para dizer. E o professor que eu tinha mencionado
levantou-se e disse: "Eu fui educado no Brasil durante a
guerra, quando, felizmente, todos OS professores tinham
deixado a Universidade, pelo que aprendi tudo só por meio de
leitura. Portanto, nÃo fui realmente educado no sistema
brasileiro. "
NÃo esperava aquilo. Sabia que o sistema era mau, mas cem por
cento... era péssimo!
Como tinha ido para o Brasil num programa patrocinado pelo
Governo dos Estados Unidos, o Departamento de Estado pediu-me
que escrevesse um relatório sobre as minhas experiências no
Brasil, pelo que escrevi as partes essenciais do discurso que
acabara de fazer. Descobri mais tarde, por portas e travessas,
que a reacçÃo de uma pessoa do Departamento de Estado foi:
"Isto prova como é perigoso mandar ao Brasil uma pessoa tÃo
ingénua. Que tipo tÃo palerma; só consegue arranjar sarilhos.
NÃo compreendeu os problemas. " Exactamente o contrário! Acho
que esta pessoa do Departamento de Estado é que foi ingénua em
pensar que, porque via uma universidade com uma lista de
cadeiras e de descriÇÕES, ela era isso mesmo.
Homem de mil línguas
Quando estive no Brasil, esforcei-me por aprender a língua
local e decidi dar as minhas aulas de Física em português.
Pouco depois de vir para Caltech fui convidado para uma festa
dada pelo Prof. Bacher. Antes de eu chegar à festa, Bacher
disse aos seus convidados: "Este Feynman pensa que é esperto
por ter aprendido um pouco de português, mas vamos tramá-lo:
aqui a Sr. Smith (que é completamente de raça branca) cresceu
na China. Vamos pedir-lhe que cumprimente Feynman em chinês."
Entro na festa inocentemente e Bacher apresenta-me aquelas
pessoas todas: "Sr. Feynman, este é o Sr. Fulano."
"Prazer em conhecê-lo, Sr. Feynman."
"E este é o Sr. Cicrano."
"Muito prazer, Sr. Feynman."
211
"E esta é a Sr.ª Smith."
"Ai, choong, ngong fia! ", diz ela, fazendo uma vénia.
Isto surpreende-me de tal maneira que penso que a única coisa
a fazer é responder no mesmo espírito. Curvo-me delicadamente
diante dela e, com toda a confiança, digo: "Ah ching, jong,
jien!"
"Oh, meu Deus! ", exclama ela, perdendo toda a compostura.
"Sabia que isto havia de acontecer -falo mandarim e ele fala
cantonês! "
Certamente, Sr. Grande!
Todos os VerSes costumava atravessar os Estados Unidos no meu
automóvel, tentando chegar ao oceano Pacífico. Mas, por várias
razSes, encalhava sempre em qualquer lado-normalmente em Las
Vegas.
Lembro-me de que particularmente da primeira vez gostei muito
da cidade. EntÃo, como agora, Las Vegas ganhava o seu dinheiro
com as pessoas que jogavam, pelo que o problema dos hotéis era
arranjar pessoas que fossem lá jogar. Por isso tinham
espectáculos e jantares muito baratos -quase de graça. NÃo
era preciso fazer reservas para nada: podia-se entrar, sentar
a uma das muitas mesas vazias e gozar o espectáculo. Era mesmo
maravilhoso para um homem que nÃo jogava, porque aproveitava
todas as vantagens -os quartos eram baratos, as refeiÇÕES
quase de graça, os espectáculos eram bons e as raparigas muito
atraentes.
Um dia em que me encontrava na piscina do motel veio ter
comigo um tipo que começou a conversar. NÃo me lembro como
principiou, mas a ideia dele era que eu presumivelmente
trabalhava para viver, o que era uma grande parvoíce. "Veja
como é fácil para mim", disse ele. "Limito-me a andar todo o
tempo pela piscina e a gozar a vida em Las Vegas. "
"Como é que consegue fazer isso sem trabalhar?"
"É simples: aposto nos cavalos."
"NÃo percebo nada de cavalos, mas nÃo sei como se pode viver
apostando nos cavalos", disse eu, céptico.
"Claro que se pode", disse ele. "É assim que eu vivo! Vamos
fazer o seguinte: eu ensino-lhe como se faz. Vamos até lá e eu
garanto-lhe que vai ganhar cem dólares."
"Como é que consegue?"
212
"Aposto consigo cem dólares que ganha", disse ele. "Por isso,
se ganhar, nÃo lhe custa nada, e, se perder, recebe cem
dólares!"
Assim, penso: "Ena! É verdade! Se ganho cem dólares nos
cavalos e tenho de lhe pagar, nÃo perco nada; é só um
exercício -é apenas uma prova de que o sistema dele funciona.
Se falha, ganho cem dólares. É realmente maravilhoso!"
Leva-me até um lugar de apostas onde têm uma lista de cavalos
e pistas de corrida em todo o país. Apresenta-me a outras
pessoas que dizem: "Ena, ele é óptimo! Ganhei cem dólares!"
Compreendo a pouco e pouco que tenho de pôr algum do meu
próprio dinheiro nas apostas e começo a ficar um pouco
nervoso. "Quanto dinheiro tenho de apostar?", pergunto.
"Oh, trezentos ou quatrocentos dólares! "
NÃo tenho tanto. Além disso, começo a preocupar-me: "E se
perder todas as apostas?"
EntÃo ele diz: "Vamos fazer uma coisa: o meu conselho vai
custar-lhe só cinquenta dólares e apenas se resultar. Se nÃo
resultar, dou-lhe os cem dólares que teria ganho, de qualquer
modo."
Penso: "Uau! Agora ganho dos dois modos -ou cinquenta ou cem
dólares! Como diabo consegue ele fazer isso?" EntÃo compreendo
que, se temos um jogo razoavelmente equilibrado esqueçamos de
momento as pequenas perdas das apostas para melhor compreender
-, a probabilidade de ganhar cem dólares contra a de perder os
quatrocentos dólares é de quatro para um. Assim, em cinco
vezes que ele tenta isto com alguém, quatro vezes eles vÃo
ganhar cem dólares e ele recebe duzentos (e fá-los notar como
é esperto); na quinta vez tem de pagar cem dólares. Assim
recebe, em média, duzentos, quando paga cem! Percebi
finalmente como ele podia fazer aquilo.
Este processo continuou durante uns dias. Ele inventava um
esquema que ao princípio soava como um negócio fantástico,
mas, depois de pensar nele um bocado, eu descobria lentamente
como funcionava. Finalmente, como que em desespero, ele diz:
"Está bem, vamos fazer assim: você paga-me cinquenta dólares
pelo conselho e, se perder, eu devolvo-lhe todo o seu
dinheiro."
Agora com aquilo nÃo posso perder! Por isso digo: "Está bem,
negócio fechado! "
"óptimo!", diz ele. "Mas, infelizmente, tenho de ir a SÃo
Francisco este fim-de-semana, pelo que você só tem de me
mandar os resultados pelo correio e, se perder os seus
quatrocentos dólares, eu mando-lhe o dinheiro. "
213
Os primeiros esquemas estavam projectados para ele ganhar
algum dinheiro com aritmética honesta. Agora vai estar fora da
cidade. O único modo de ele ganhar dinheiro com este esquema é
nÃo o mandar, ser um autêntico batoteiro.
Por isso nunca aceitei nenhuma das suas ofertas. Mas foi muito
divertido ver como ele actuava.
A outra coisa divertida em Las Vegas era conhecer as raparigas
dos espectáculos. Creio que elas tinham de andar pelo bar
entre os espectáculos para atrair os clientes. Conheci várias
delas assim, falei com elas e achei-as simpáticas. As pessoas
que dizem: "Raparigas de espectáculo, eh?", já decidiram o que
elas sÃo! Mas em qualquer grupo, se olharmos para ele, há
grande variedade. Por exemplo, havia a filha de um deÃo de uma
universidade do Leste. Tinha talento para a dança e gostava de
dançar; tinha o VerÃo livre e era difícil arranjar trabalho de
dança, pelo que trabalhava como corista em Las Vegas. A maior
parte das raparigas do espectáculo eram pessoas muito
simpáticas e amigáveis. Eram todas lindas e eu adoro raparigas
lindas. De facto, as raparigas do espectáculo eram a minha
verdadeira razÃo para gostar tanto de Las Vegas.
Ao princípio tinha um certo medo: as raparigas eram tÃo
bonitas, tinham uma fama tÃo grande, etc. Tentava conhecê-las
e engasgava-me um pouco quando falava. Ao princípio foi
difícil, mas foi-se tornando gradualmente mais fácil, e por
fim tinha a confiança suficiente para nÃo ter medo de ninguém.
A minha maneira de entÃo arranjar aventuras é difícil de
explicar: era como pescar, em que atiramos a linha e depois é
preciso paciência. Quando contava a um tipo algo sobre as
minhas aventuras, ele poderia dizer: "Oh, vamos, vamos fazer
isso!" Assim, íamos a um bar ver se acontecia alguma coisa e
ele perdia a paciência após uns vinte minutos. Normalmente
temos de gastar alguns dias até acontecer alguma coisa. Passei
muito tempo a falar com as raparigas do espectáculo. Uma delas
apresentava-me a outra e ao fim de certo tempo acontecia
frequentemente alguma coisa interessante.
Lembro-me de uma rapariga que gostava de beber Gibsons.
Dançava no Hotel Flamingo e conheci-a bastante bem. Quando eu
vinha à cidade, mandava pôr um Gibson na sua mesa antes de ela
se sentar, para anunciar a minha chegada.
Uma vez aproximei-me, sentei-me ao pé dela e ela disse: "Esta
noite estou com um homem, um texano que joga forte." (Já tinha
ouvido falar no tipo, Cada vez que ele jogava, toda a gente o
rodeava para
214
o ver.) Voltou para a mesa onde estávamos sentados e a
rapariga apresentounos.
A primeira coisa que ele me disse foi: "Sabe uma coisa? Perdi
aqui ,sessenta mil dólares a noite passada."
Eu sabia o que fazer: voltei-me para ele, absolutamente nada
impressionado, e disse: "Isso é para ser tomado como
esperteza, ou como estupidez?"
Estávamos a tomar o pequeno-almoço na sala de jantar. Ele
disse: "Olhe, deixe-me assinar a sua conta. Eles nÃo me cobram
todas estas coisas porque eu jogo muito aqui."
"Tenho dinheiro que chega para nÃo precisar de me preocupar
com quem paga o meu pequeno-almoço, obrigado. " Estava sempre
a dar-lhe para trás cada vez que ele tentava impressionar-me.
Ele tentava tudo: como era rico, quanto petróleo tinha no
Texas, e nada resultava, porque eu conhecia a fórmula!
Acabámos por nos divertir bastante os dois.
Uma vez em que estávamos sentados no bar ele disse-me: "Está a
ver aquelas raparigas ali naquela mesa? SÃo prostitutas de Los
Angeles. "
Tinham muito bom aspecto; tinham uma certa classe.
Ele disse: "Olhe, vou apresentar-lhas e depois pago-lhe a que
você
quiser. "
NÃo me apetecia conhecer as raparigas e sabia que ele dizia
aquilo para me impressionar, pelo que comecei a dizer-lhe que
nÃo. Mas depois ,pensei: "Isto é qualquer coisa! Este tipo
está a tentar tanto impressionar-me, que está disposto a
pagar-me isto. Se conto a história ... " Por isso digo-lhe:
"Bom, está bem, apresente-me."
Fomos até à mesa delas e ele apresentou-me às raparigas, após
o que se afastou por um momento. Aproximou-se uma criada e
perguntou-nos o que queríamos beber. Pedi água e a rapariga
que estava ao meu lado perguntou: "Posso beber champanhe?"
"Pode tomar o que quiser", repliquei com frieza, "porque é
você
que paga. "
"O que é que você tem?", disse ela. "É avarento, ou quê?"
"Isso mesmo."
"O que nÃo é é um cavalheiro!", disse ela, indignada.
"Topou-me imediatamente! ", repliquei. Tinha aprendido há
muitos anos no Novo México a nÃo ser um cavalheiro.
Passado muito pouco tempo elas ofereciam-se para me pagar
bebidas -a situaçÃo tinha-se invertido completamente! (A
propósito, o homem do petróleo do Texas nunca mais voltou.)
215
Ao fim de algum tempo, uma das raparigas disse: " Vamos até ao
El Rancho. Talvez lá as coisas estejam mais animadas. "
Entrámos no carro delas. Era um bom carro e elas eram
simpáticas. No caminho perguntaram o meu nome.
"Dick Feynman."
"De onde é, Dick? O que faz?"
"Sou de Pasadena; trabalho em Caltech."
Uma das raparigas disse: "Oh, nÃo é aquele lugar de onde vem o
cientista Pauling?"
Tinha estado muitas vezes em Las Vegas e nunca encontrara
ninguém que soubesse alguma coisa de ciência. Falara com
homens de negócios de todos os tipos e, para eles, um
cientista nÃo era ninguém. "Sim!", disse eu, espantado.
"E há um tipo chamado Gellan, ou coisa assim, um físico." NÃo
podia acreditar. Ia num carro cheio de prostitutas e elas
sabiam todas estas coisas! .
"Sim! Chama-se Ge11-Mann! Como é que sabem isso?"
"As vossas fotografias vinham na revista Time. " É verdade,
publicaram fotografias de dez cientistas americanos na revista
Time, por qualquer razÃo. Eu vinha lá e também Pauli e
Gell-Mann.
"Como é que se recordam dos nomes?", perguntei.
"Bem, estávamos a ver as fotografias e escolhemos os mais
novos e os mais atraentes!" (Ge11-Mann é mais novo do que eu.)
Chegámos ao Hotel El Rancho e as raparigas continuaram a
brincadeira de agirem para comigo como toda a gente age
normalmente para com elas: "Quer jogar? ", perguntaram. "Nós
pagamos e você pode ficar com metade dos ganhos. " Joguei um
pouco com o dinheiro delas e divertimo-nos todos bastante.
Ao fim de algum tempo disseram: "Olhe, estamos a ver um
interessado, por isso temos de o deixar agora", e voltaram ao
trabalho.
Uma vez estava sentado num bar e reparei em duas raparigas com
um homem mais velho. Finalmente ele foi-se embora e elas
vieram sentar-se junto de mim: a mais bonita e mais activa ao
meu lado e a sua amiga, menos interessante, chamada Pam, do
outro lado.
As coisas começaram logo a correr muito bem. Ela era muito
amigável. Dentro de pouco tempo estava encostada a mim e pus
um braço à sua volta. Entraram dois homens e sentaram-se a uma
mesa próxima. Depois, antes de vir a criada, saíram.
"Viu aqueles homens?", disse a minha nova amiga.
216
"Sim."
"SÃo amigos do meu marido."
"Oh! O que é isto?"
"Está a ver, acabei de me casar com John Grande" -mencionou
,um nome famoso -"e tivemos uma pequena discussÃo. Estamos na
nossa lua-de-mel e John está sempre a jogar. NÃo me presta
atençÃo, pelo que saio e me divirto, mas ele está sempre a
mandar alguém espiar ,o que eu faço. "
Pediu-me que a levasse até ao seu quarto do motel, pelo que
fomos o meu carro. No caminho perguntei-lhe: "Bem, e John?"
Ela respondeu: "NÃo se preocupe. Basta procurar um carro verme
lho com duas antenas. Se nÃo o vir, ele nÃo está por perto."
Na noite seguinte levei a "rapariga do Gibson" e uma amiga
dela
espectáculo tardio do Silver Slipper, que tinha um espectáculo
mais
de do que todos os outros hotéis. As raparigas que trabalhavam
nos ,outros espectáculos gostavam de lá ir e o
mestre-de-cerimónias anunciava a chegada das várias bailarinas
à medida que elas entravam. Entrei e braço dado com as duas
lindas bailarinas e ele disse: "E aqui vêm Miss Fulana e Miss
Beltrana, do Flamingo!" Todos se voltaram para ver quem
entrava. Senti-me lindamente!
Sentámo-nos a uma mesa perto do bar e ao fim de algum tempo
ouve uma certa agitaçÃo -os criados a mudarem mesas, guardas
de segurança, armados, a entrarem. Estavam a arranjar espaço
para uma celebridade. John Grande ia chegar!
Foi até ao bar, mesmo ao lado da nossa mesa, e imediatamente
dois ipos quiseram dançar com as duas raparigas que eu tinha
trazido. oram dançar e eu estava sozinho, quando John se
aproximou e se sentou à minha mesa. "Como está?", disse ele.
"O que faz em Las Vegas?"
Tinha a certeza de que ele tinha descoberto o que se tinha
passado comigo e com a mulher: "Ando por aí ... " (Tenho de
parecer duro, o é?)
"Há quanto tempo cá está?" "Há quatro ou cinco noites."
"Conheço-o", disse ele. "NÃo o vi na Florida?" "Bem, na
realidade nÃo sei ... "
Tentou este lugar e aquele e eu nÃo sabia onde ele queria
chegar. Já sei", disse ele. "Foi no El Morocco." (O El Morocco
era um grande clube nocturno de Nova Iorque frequentado por
muitos grandes empresários -como os professores de Física
Teórica, nÃo é?)
217
"Deve ser isso", disse eu. Estava a pensar em quando ele
chegaria à questÃo. Finalmente inclinou-se para mim e disse:
"Olhe, apresenta-me às raparigas que estÃo consigo quando elas
voltarem de dançar?"
Era só isso que ele queria; nÃo me conhecia de lado nenhum!
Apresentei-o, mas as minhas amigas disseram que estavam
cansadas e queriam ir para casa.
Na tarde seguinte vi John Grande no Flamingo, no bar, a falar
com o empregado acerca de máquinas fotográficas e de tirar
fotografias. Deve ser fotógrafo amador: possui toda aquela
cangalhada de lâmpadas e máquinas fotográficas, mas diz sobre
elas as coisas mais parvas. Cheguei à conclusÃo de que afinal
nÃo era um fotógrafo amador; era apenas um tipo rico que
comprava máquinas fotográficas.
Por essa altura eu calculava que ele nÃo sabia que eu tinha
andado com a mulher dele; só queria falar comigo por causa das
raparigas que me acompanhavam. Por isso pensei divertir-me um
pouco. Ia inventar um papel para mim: o de assistente de John
Grande.
"Olá, John", disse eu. "Vamos tirar umas fotografias. Eu
levo-lhe as lâmpadas do flash."
Pus as lâmpadas no bolso e começámos a tirar fotografias. Eu
entregava-lhe as lâmpadas e dava-lhe um conselho ou outro; ele
gosta destas coisas.
Fomos até ao Last Frontier jogar e começámos a ganhar. Os
hotéis nÃo gostam que as pessoas que jogam forte se vÃo
embora, mas eu percebia que ele queria partir. O problema era
como sair com elegância.
"John, agora temos de nos ir embora", disse eu em voz séria.
"Mas estou a ganhar."
"Sim, mas temos um compromisso esta tarde."
"Está bem, vá buscar o meu carro."
"Certamente, Sr. Grande!" Ele deu-me as chaves e disse-me como
era o carro (nÃo revelei que já sabia).
Fui até ao parque de estacionamento e, de facto, lá estava o
tal carro grande e maravilhoso com as duas antenas. Trepei
para dentro dele e dei a volta à chave, mas ele nÃo pegou.
Possuía transmissÃo automática; tinha acabado de ser posta no
mercado e eu nÃo sabia nada sobre ela. Ao fim de algum tempo
mudei acidentalmente para PARK e ele pegou. Conduzi-o com
muito cuidado, como um carro de um milhÃo de dólares, para a
entrada do hotel, onde saí; fui lá dentro, até à mesa onde ele
continuava a jogar, e disse: "O carro está pronto, senhor! "
"Tenho de parar", anunciou ele, e saiu.
218
Quis que eu guiasse o carro: "Quero ir ao El Rancho", disse
ele. "Conhece lá algumas raparigas?"
Conhecia bastante bem uma das raparigas de lá, pelo que disse:
"Conheço." Por esta altura já eu estava suficientemente seguro
de que o único motivo por que ele alinhava com aquela espéce
de jogo que eu inventara era querer conhecer raparigas, pelo
que abordei um assunto delicado: "Uma noite destas conheci a
sua mulher ... "
"A minha mulher? A minha mulher nÃo está aqui em Las Vegas."
Falei-lhe da rapariga que tinha encontrado no bar.
"Oh! Já sei de quem está a falar; conheci uma rapariga e uma
amiga dela em Los Angeles e trouxe-as para Las Vegas. A
primeira coisa que fizeram foi usar o meu telefone durante uma
hora para falar com as suas amigas no Texas. Fiquei furioso e
corri com elas! EntÃo ela tem andado a dizer a toda a gente
que é minha mulher, hem?"
Assim aquilo ficou esclarecido.
Entrámos no El Rancho e o espectáculo ia começar dali a quinze
minutos. A casa estava cheia; nÃo havia nem um lugar. John
aproximou-se do chefe dos criados e disse: "Quero uma mesa."
"Sim, Sr. Grande! Estará pronta daqui a poucos minutos."
John deu-lhe uma gorjeta e foi jogar. Entretanto dei a volta
para a parte de trás, onde as raparigas se estavam a arranjar
para o espectáculo, e perguntei pela minha amiga. Ela saiu e
eu expliquei-lhe que John Grande estava comigo e que queria
companhia depois do espectáculo.
"Com certeza, Dick", disse ela. "Trago umas amigas e vou ter
consigo depois do espectáculo."
Dei a volta até à parte da frente para procurar Jolin.
Continuava a jogar. "Continue sem mim", disse ele. "Daqui a um
minuto estou lá. "
Havia duas mesas mesmo na frente, junto ao palco. Todas as
outras mesas estavam cheias. Sentei-me sozinho. O espectáculo
começou antes de John entrar e as raparigas saíram. Viam-me à
mesa, completamente só. Antes pensavam que eu era um professor
sem importância; agora viam que eu era uma PESSOA IMPORTANTE.
Finalmente, John entrou e pouco tempo depois sentaram-se umas
pessoas na mesa ao lado da nossa -a "mulher" de John e a sua
amiga Pam, com dois homens!
Inclinei-me para John: "Ela está na outra mesa."
"Pois!"
Ela viu que eu estava a tomar conta de Jolin, pelo que se
inclinou para mim da outra mesa e pediu: "Posso falar com
John?"
219
Eu nÃo disse uma palavra. John também nÃo disse nada.
Esperei um pouco e depois inclinei-me para John: "Ela quer
falar consigo."
EntÃo ele, após alguns momentos, disse: "Está bem!"
Esperei um pouco mais e depois inclinei-me para ela: "John vai
falar consigo agora."
Ela veio para a nossa mesa. Começou a trabalhar "Johnnie",
sentando-se muito perto dele. Eu via que as coisas começavam a
melhorar um pouco.
Adoro ser maldoso e, por isso, cada vez que os via de acordo
eu lembrava a John qualquer coisa: "O telefone, John ... "
"Sim!", disse ele. "Que ideia foi essa de passar uma hora ao
telefone?"
Ela disse que Pam é que tinha telefonado.
As coisas melhoraram mais um pouco, pelo que salientei que a
ideia de trazer Pam tinha sido dela.
"Pois!", disse ele. (Eu estava a divertir-me imenso com aquela
brincadeira, que continuou durante um bom bocado.)
Quando acabou o espectáculo, as raparigas do El Rancho vieram
para a nossa mesa e conversámos com elas até terem de voltar
para o espectáculo seguinte. EntÃo John disse: "Conheço um
barzinho agradável nÃo muito longe daqui. Vamos até lá."
Conduzi-o até ao bar e entrámos. "Está a ver aquela
mulher ali?",
disse ele. "É uma óptima advogada. Venha, vou apresentar-lha
+."
John apresentou-nos e desculpou-se para ir à casa de banho.
Nunca mais voltou. Acho que queria voltar para a sua "mulher"
e eu começava a atrapalhar.
Eu disse "Olá" à mulher e pedi uma bebida para mim
(continuando com o jogo de nÃo me deixar impressionar nem ser
um cavalheiro).
"Sabe", disse-me ela, "sou um dos melhores advogados aqui em
Las Vegas. "
"Oh, nÃo, nÃo é", repliquei friamente. "Pode ser advogada
durante o dia, mas sabe o que é neste momento? É apenas uma
mosca de bar num pequeno bar de Las Vegas."
Ela gostou de mim e fomos dançar a uns quantos sítios. Ela
dançava muito bem e eu adoro dançar, pelo que nos divertimos
imenso juntos.
EntÃo, de repente, no meio de uma dança, começaram a doer-me
as costas. Era uma dor muito forte e começou de repente. Agora
sei
220
que era: com estas aventuras loucas, tinha estado levantado
três dias três noites e estava completamente exausto.
Ela disse que me levava para casa. Assim que entrei na cama
dela, BONG! Desliguei.
Na manhà seguinte acordei naquela linda cama. O Sol brilhava e
havia sinais dela. Em vez disso havia uma criada. "O senhor
está acordado?", disse ela. "Tenho o pequeno-almoço pronto."
"Bem, uh ... "
"Eu trago-lho. O que deseja?", e percorreu uma lista completa
de pequenos-almoços.
Pedi o que queria e comi na cama -na cama de uma mulher que o
conhecia; nÃo sabia quem ela era nem de onde vinha!
Fiz algumas perguntas à criada e ela também nÃo sabia nada
sobre aquela mulher misteriosa: acabara de ser contratada e
era o seu primeiro dia. Pensou que eu era o dono da casa e
achou curioso que fosse a fazer-lhe perguntas a ela.
Finalmente vesti-me e saí. Nunca mais voltei a ver a mulher
misteriosa.
A primeira vez que estive em Las Vegas sentei-me e calculei as
probabilidades para tudo, descobrindo que as probabilidades
para o jogo dos dados eram qualquer coisa como 0,493. Se
apostasse um dólar, só lhe custaria 1,4 cêntimos. Por isso
pensei para comigo: "Porque terei tanta relutância em apostar?
Quase nÃo custa nada! "
EntÃo comecei a apostar e perdi imediatamente 5 dólares
seguidos: 2, 3, 4, 5. Devia ter desembolsado apenas 7
cêntimos; em vez disso, tinha deixado 5 dólares! Nunca mais
joguei (isto é, com o meu próprio dinheiro). Tive muita sorte
em ter começado por perder.
Certo dia, a uma hora calma da tarde, encontrava-me a almoçar
com uma das raparigas do espectáculo. NÃo havia o grande
movimento habitual e ela disse: "Está a ver aquele homem ali,
a atravessar a relva? É Nick, o grego. É jogador
profissional."
Ora eu sabia muitíssimo bem quais eram as probabilidades em
Las Vegas, pelo que respondi: "Como pode ele ser um jogador
profissional?"
"Eu chamo-o."
Nick aproximou-se e ela apresentou-nos. "Marilyn diz-me que é
um jogador profissional."
"É verdade. "
"Bem, gostava de saber como é possível ganhar a vida a jogar,
porque, na mesa, as probabilidades sÃo 0,493."
221
"Tem razÃo", disse ele, "mas eu explico-lhe. NÃo aposto na
mesa, nem em coisas assim. Só aposto quando as probabilidades
estÃo a meu favor. "
"Huh! Quando é que as probabilidades estÃo alguma vez a seu
favor?", perguntei com incredulidade.
"É realmente muito fácil", disse ele. "Fico à volta da mesa e
um tipo diz: 'Vai sair o nove! Tem de ser o nove!' O tipo está
excitado; pensa que vai ser um nove e quer apostar. Ora eu
conheço por dentro e por fora as probabilidades de todos os
números e, por isso, digo-lhe: 'Aposto consigo quatro contra
três que nÃo é o nove', e acabo por ganhar. NÃo aposto na
mesa; aposto com as pessoas à volta da mesa que têm
preconceitos -ideias supersticiosas sobre números da sorte. "
Nick continuou: "Agora, que tenho fama, é ainda mais fácil,
porque as pessoas apostam comigo, mesmo sabendo que as
probabilidades nÃo sÃo muito boas, só para terem a
oportunidade de contar a história, se ganharem, do modo como
venceram Nick, o Grego. Assim, ganho realmente a vida a jogar
e é maravilhoso!"
Assim, Nick, o Grego, era na realidade uma pessoa culta. Era
um homem muito simpático e atraente. Agradeci-lhe a
explicaçÃo; agora compreendia. Tenho de compreender o mundo,
percebem?
Uma oferta que deve recusar
Em Cornell havia todos os tipos de departamentos que nÃo me
interessavam muito. (Isto nÃo quer dizer que houvesse neles
qualquer coisa errada; apenas nÃo sentia muito interesse por
eles.) Havia a Ciência Doméstica, a Filosofia (os tipos deste
departamento eram particularmente fúteis) e havia as coisas
culturais -Música, etc. Claro que havia algumas pessoas com
quem eu gostava de falar. No Departamento de Matemática, os
Profs. Kac e Feller; na Química, o Prof. Calvin; e um tipo
fantástico no Departamento de Zoologia, o Dr. Griffin, que
descobriu que os morcegos se orientam produzindo ecos. Mas era
difícil encontrar um número suficiente destes tipos com quem
conversar e havia todas as outras coisas que eu qualificava de
disparates de baixo nível. E ítaca era uma terra pequena.
O tempo nÃo era lá muito bom. Um dia em que eu ia a conduzir o
carro veio uma daquelas tempestades de neve para as quais, por
ines
222
peradas, nÃo estamos preparados, pelo que pensamos: "Oh, nÃo
vai ser nada de grave; vou continuar."
Mas depois a neve torna-se suficientemente funda para que o
carro comece a resvalar um pouco, pelo que temos de pôr as
correntes. Saímos do carro, pomos as correntes lá fora na
neve, e estáfrio, e começamos a tremer. Depois fazemos recuar
o carro para cima das correntes e temos o problema -ou
tínhamos naqueles dias; hoje nÃo sei o que há -de haver lá
dentro um gancho que temos de prender primeiro. Como as
correntes devem ficar bastante apertadas, é difícil prender o
gancho. Depois temos de empurrar a mola para baixo com os
dedos, que nesta altura já estÃo quase gelados. Como nos
encontramos na parte de fora do pneu e o gancho está na parte
de dentro, e as mÃos estÃo frias, é muito difícil de
controlar. Está sempre a escorregar, é]ria, a neve cai,
tentamos empurrar a mola, dói-nos a mÃo, e a maldita coisa nÃo
desce -bem, lembro-me que era nesse momento que eu chegava à
conclusÃo de que aquilo era uma loucura; deve haver uma parte
do mundo onde nÃo haja este problema.
Recordei as vezes em que visitei Caltech, a convite do Prof.
Bacher, que estivera anteriormente em Cornell. Foi muito
prestável quando o visitei. Conhecia-me por dentro e por fora,
pelo que me disse; "Feynman, tenho este carro a mais, que lhe
vou emprestar. Ora é deste modo que se vai para Hollywood e
para Sunset Strip. Divirta-se."
Assim, todas as noites eu ia no carro para Sunset Strip-para
os clubes nocturnos, os bares e a acçÃo. Era o tipo de coisas
de que eu gostava em Las Vegas -raparigas bonitas, grandes
empresários, etc. Por isso Bacher sabia como me fazer
interessar por Caltech. Conhecem a história do burro que está
exactamente entre dois montes de feno e nÃo vai para nenhum
deles, porque estÃo equilibrados? Bem, isso nÃo é nada.
Cornell e Caltech começaram a fazer-me ofertas e, assim que eu
me movia, pensando que Caltech era realmente melhor, subiam a
oferta em Cornell; e, quando eu pensava ficar em Cornell, eles
subiam qualquer coisa em Caltech. Portanto, podem imaginar o
tal burro entre as duas pilhas de feno, ainda com a
complicaçÃo de que, assim que ele se move em direcçÃo a uma
delas, a outra fica mais alta. Isso torna as coisas muito
difíceis!
O argumento que finalmente me convenceu foi a minha licença
sabática. Queria ir novamente ao Brasil, desta vez por dez
meses, e tinham acabado de me conceder a minha licença
sabática em Cornell. NÃo queria perdê-la e, por isso, agora
que tinha inventado uma razÃo para tomar uma decisÃo, escrevi
a Bacher e disse-lhe o que tinha decidido.
223
De Caltech responderam: "Contratamo-lo imediatamente e
damos-lhe o seu primeiro ano como ano sabático." Era assim que
eles faziam: fosse qual fosse a minha decisÃo, eles estragavam
tudo. Portanto, o meu primeiro ano em Caltech foi na realidade
passado no Brasil. Vim ensinar para Caltech no meu segundo
ano. Foi assim que aconteceu.
Estou em Caltech desde 1951 e tenho-me sentido cá muito feliz.
É o ideal para um tipo parcial como eu. Há todas aquelas
pessoas próximas do topo, que estÃo muito interessadas no que
fazem e com quem posso conversar. Por isso me tenho sentido
muito bem.
Mas um dia, quando ainda nÃo estava há muito tempo em Caltech,
tivemos um grande ataque de smog. Era pior do que é agora -
pelo menos os olhos ardiam muito mais. Encontrava-me numa
esquina, com os olhos a chorar, e pensei para comigo: "Isto é
um disparate! É uma LOUCURA completa! Lá em Cornell é que eu
estava bem. Vou sair daqui. "
Por isso telefonei para Cornell e perguntei-lhes se achavam
possível eu regressar. Eles disseram: "Claro! Preparamos as
coisas e voltamos a falar-lhe amanhÃ."
No dia seguinte tive a maior das sortes ao tomar uma decisÃo.
Deus deve ter arranjado as coisas para me ajudar a decidir.
Dirigia-me para o meu gabinete e um tipo veio ter comigo a
correr e disse: "Eh, Feynman! Já sabe o que aconteceu? Baade
descobriu que há duas populaÇÕES diferentes de estrelas! Todas
as medidas que tínhamos estado a tirar das distâncias às
galáxias se baseavam nas variáveis de Cephid de um tipo, mas
há outro tipo, pelo que o universo é duas, ou três, ou até
quatro vezes mais velho do que pensávamos!"
Eu conhecia o problema. Naqueles dias, a Terra parecia ser
mais velha do que o universo. A idade da Terra era de 4500
milhSes de anos e a do universo era só de 2000 ou 3000
milhSes. Era um grande quebra-cabeças. E esta descoberta
resolvia tudo: poderia agora demonstrar-se que o universo era
mais velho do que o que se pensava anteriormente. E eu recebi
logo a informaçÃo -o tipo veio a correr ter comigo para me
contar tudo.
Ainda nÃo tinha acabado de atravessar o campo de desportos
para chegar ao meu gabinete, quando apareceu outro tipo -Matt
Meselson, um biólogo que fizera Física como cadeira
secundária. (Eu tinha feito parte do júri para o seu
doutoramento.) Ele construíra a primeira das chamadas
centrifugadoras de gradiente de densidade, que media a
densidade das moléculas. Disse: "Veja os resultados da
experiência que tenho andado a fazer! "
224
Tinha provado que, quando uma bactéria origina uma nova
bactéria, há uma molécula inteira que passa intacta de uma
bactéria para a outra uma molécula que agora conhecemos como
ADN. EstÃo a ver, nós pensamos sempre em tudo a dividir-se, a
dividir-se. Por isso julgamos que tudo na bactéria se divide e
dá metade à nova bactéria. Mas isso é impossível: em qualquer
ponto, a menor molécula que contêm a informaçÃo genética nÃo
se pode dividir em duas; tem de fazer cópias de si mesma e
mandar uma para a nova bactéria e guardar outra para a antiga.
E ele tinha provado aquilo deste modo: primeiro desenvolveu as
bactérias em azoto pesado e mais tarde desenvolveu-as todas em
azoto vulgar. + medida que prosseguia, pesava as moléculas na
sua centrifugadora de gradiente de densidade.
A primeira geraçÃo de novas bactérias tinha todas as suas
moléculas cromossomas a um peso exactamente entre o peso das
moléculas feitas com o azoto pesado e o das moléculas feitas
com o azoto vulgar um resultado que podia ocorrer se tudo se
dividisse, incluindo as moléculas cromossomas.
Mas, nas geraÇÕES seguintes, quando se poderia esperar que o
peso das moléculas cromossomas fosse um quarto, um oitavo, um
dezasseis avos da diferença entre o das moléculas vulgares e o
das pesadas, os pesos das moléculas caíam em apenas dois
grupos. Um dos grupos tinha o mesmo peso que a primeira nova
geraçÃo (exactamente entre .as moléculas mais leves e as mais
pesadas) e o outro grupo era mais leve -tinha o peso das
moléculas desenvolvidas em azoto normal. A percentagem de
moléculas mais pesadas reduzia-se a metade em cada uma das
geraÇÕES seguintes, mas nÃo os seus pesos. Isto era
tremendamente excitante e muito importante -era uma
descoberta fundamental. E compreendi, quando finalmente
cheguei ao meu gabinete, que era ali que eu devia estar. Onde
as pessoas dos diferentes campos da ciência me diziam coisas,
o que era muito excitante. Na realidade, era exactamente o que
eu queria. Por isso, quando, um pouco mais tarde, me
telefonaram de Cornell a dizer que estavam a preparar tudo e
que estava quase tudo pronto, eu disse: "Desculpem, voltei a
mudar de ideias." Mas entÃo decidi nunca mais voltar a
decidir. Nada, absolutamente nada, voltaria a fazer-me mudar
de ideias.
Quando somos novos, temos várias coisas com que nos preocupar
,se devemos ir a determinada parte, que se passa com a nossa
mÃe. E preocupamo-nos, tentamos decidir, mas depois aparece
outra coisa qualquer. É muito mais fácil pura e simplesmente
decidir. NÃo importa -nada nos fará mudar de ideias. Fiz isso
uma vez quando estava
225

a estudar no MIT. Fartei-me de ter de decidir que tipo de


sobremesa comer na cantina, pelo que decidi que seria sempre
gelado de chocolate, e nunca mais me preocupei com isso -
tinha a soluçÃo para aquele problema. Decidi que, de qualquer
modo, seria sempre Caltech.
Uma vez tentaram fazer-me mudar de ideias sobre Caltech. Fermi
morrera há pouco tempo e a Faculdade de Chicago andava à
procura de alguém para o substituir. Vieram duas pessoas de
Chicago e pediram para ir a minha casa visitar-me -eu nÃo
sabia para quê. Começaram a dizer-me todas as boas razSes por
que eu deveria ir para Chicago: podia fazer isto, podia fazer
aquilo, tinham lá imensas pessoas importantes, eu tinha a
oportunidade de fazer toda a espécie de coisas maravilhosas.
NÃo lhes perguntei quanto me pagariam e eles estavam sempre a
insinuar que mo diriam se eu perguntasse. Finalmente
perguntaram-me se eu queria saber qual o salário. "Oh, nÃo!",
disse eu. "Já decidi ficar em Caltech. Mary Lou, a minha
mulher, está na sala ao lado e, se ouve quanto é o salário,
temos uma discussÃo. Além disso, decidi nÃo voltar a decidir;
fico em Caltech de vez." Por isso nÃo os deixei dizer o
salário que ofereciam.
Mais ou menos um mês depois, eu encontrava-me numa reuniÃo e
aproximou-se Leona MarshalI, que disse: "É estranho nÃo ter
aceitado a nossa oferta de Chicago. Ficámos muito desapontados
e nÃo conseguimos entender como pôde recusar uma oferta tÃo
boa."
"Foi fácil", disse eu, "porque nunca os deixei dizer-me qual
era a oferta."
Uma semana depois recebi uma carta dela. Abri-a e a primeira
frase era: "O salário que oferecíamos era ... ", uma enorme
quantidade de dinheiro, três ou quatro vezes o que eu ganhava.
Atordoador! A carta continuava: "Disse-lhe qual o salário
antes de poder continuar a ler. Talvez agora queira
reconsiderar, porque me disseram que o cargo continua vago e
gostaríamos muito de cá o ter."
Respondi-lhe numa carta que dizia: "Depois de saber qual o
salário decidi que devia recusar. A minha razÃo para recusar
um salário destes é que poderia fazer o que sempre desejei -
arranjar uma linda amante, pô-la num apartamento, comprar-lhe
coisas bonitas... Com o salário que me ofereceram poderia
realmente fazê-lo e sei o que me aconteceria. Iria
preocupar-me com ela, com o que ela fazia; teria discussSes
quando chegasse a casa, etc. Toda esta maçada me iria tornar
inquieto e infeliz. NÃo seria capaz de trabalhar bem em física
e seria uma grande confusÃo! O que sempre quis fazer seria mau
para mim, pelo que decidi que nÃo posso aceitar a vossa
oferta."
226

5ª PARTE
O mundo de um físico

Você resolveria a equaçÃo de Dirac?


Perto do fim do ano em que estive no Brasil recebi uma carta
do Prof. Wheeler dizendo que ia haver um encontro
internacional de físicos teóricos no JapÃo e perguntando se eu
gostaria de ir. O JapÃo teve físicos famosos antes da guerra -
o Prof. Yukawa, com um Prémio Nobel, Tomonaga e Nishina -, mas
isto era o primeiro sinal do regresso à vida do JapÃo depois
da guerra e pensámos todos que devíamos ir e dar uma ajuda.
Wheeler incluiu um livro de frases utilizado no exército e
escreveu que seria bom que todos aprendêssemos um pouco de
japonês. Descobri no Brasil uma japonesa para me ajudar na
pronúncia. Treinei-me a levantar bocados de papel com
pauzinhos e li muito sobre o JapÃo. Nessa altura, o JapÃo era
muito misterioso para mim e achei que seria interessante ir a
um país tÃo estranho e maravilhoso, pelo que trabalhei muito.
Quando lá chegámos, esperavam-nos no aeroporto e levaram-nos a
um hotel em Tóquio projectado por Frank Lloyd Wright. Era uma
imitaçÃo de um hotel europeu, mesmo até o indivíduo vestido
com um fato como o do tipo de Philip Morris. NÃo estávamos no
JapÃo; tanto podíamos estar na Europa como na América! O tipo
que nos conduziu aos quartos andou a empatar, puxando as
persianas para cima e para baixo, à espera de uma gorjeta. Tal
e qual como na América.
Os nossos anfitriSes tinham tudo organizado. Naquela primeira
noite, o jantar foi servido lá em cima no último andar do
hotel por uma mulher vestida à japonesa, mas as ementas
estavam em inglês. Eu tivera imenso trabalho para aprender
umas frases em japonês, pelo que quase no fim da refeiçÃo
disse à criada: "Kohi-o motte kite kudasai. " Ela fez uma
vénia e foi-se embora.
229
O meu amigo Marshak perguntou: "O quê? O quê?"
"Eu falo japonês", disse eu.
"AldrabÃo! Anda sempre a brincar, Feynman."
"Do que é que está a falar?", perguntei com ar sério.
"Está bem", disse ele. "O que pediu?"
"Pedi-lhe que nos trouxesse café."
Marshak nÃo me acreditou. "Faço uma aposta consigo", disse
ele. "Se ela nos trouxer café ... "
A criada apareceu com o nosso café e Marshak perdeu a aposta.
Afinal, eu era o único que tinha aprendido um pouco de japonês
-até Wheeler, que dissera a todos que deviam aprender
japonês, nÃo aprendera nada-e eu nÃo aguentei mais. Tinha
lido alguma coisa sobre os hotéis de estilo japonês, que
deviam ser muito diferentes do hotel em que estávamos.
Na manhà seguinte chamei ao meu quarto o japonês que
organizava tudo. "Queria ficar num hotel de estilo japonês."
"Receio que seja impossível, Prof. Feynman."
Tinha lido que os Japoneses sÃo muito delicados, mas muito
obstinados. É preciso insistir para os convencer. Por isso
decidi ser tÃo obstinado como eles e igualmente delicado. Era
uma batalha entre argumentos e que durou trinta minutos.
"Porque quer ir para um hotel de estilo japonês?"
"Porque neste hotel nÃo sinto que estou no JapÃo."
"Os hotéis de estilo japonês nÃo prestam. As pessoas têm de
dormir no chÃo. "
"É isso que eu quero; quero ver como é."
"E nÃo há cadeiras à mesa sentamo-nos no chÃo."
"NÃo faz mal. Será delicioso. É isso que procuro."
Finalmente, ele admite o verdadeiro problema: "Se estiver
noutro hotel, o autocarro terá de fazer mais uma paragem no
caminho para o encontro. "
"NÃo, nÃo! ", digo eu. "De manhà eu venho para este hotel e
entro no autocarro aqui."
"Bem -entÃo pode ser. Está bem." Foi só isto -excepto termos
levado meia hora para chegar ao verdadeiro problema.
Ele dirige-se ao telefone para fazer uma chamada para o outro
hotel, quando de repente pára; fica tudo bloqueado novamente.
SÃo precisos mais quinze minutos para descobrir que desta vez
se trata do correio. Se há mensagens do encontro, já
organizaram a respectiva entrega.
230
"NÃo faz mal", digo eu. "Quando vier de manhà apanhar o
autocarro, vejo se há alguma mensagem para mim neste hotel."
"Pronto. Está bem." Vai telefonar e finalmente estamos a
caminho do hotel de estilo japonês.
Assim que lá cheguei vi que valia a pena: era tÃo bonito!
Havia um sítio na parte da frente para tirarmos os sapatos;
depois surge furtivamente uma rapariga vestida com o fato
tradicional -o obi e sandálias e pega na bagagem; seguimo-la
por um corredor com esteiras no chÃo, passando portas de
correr feitas de papel, e ela avança com passos miúdos,
fazendo cht-cht-cht-cht. Era tudo maravilhoso!
Entrámos no meu quarto e o tipo que tratava de tudo dobrou-se
todo e tocou com o nariz no chÃo; ela dobrou-se e tocou com o
nariz no chÃo. Senti-me muito desajeitado. Deveria tocar
também com o nariz no chÃo?
Saudaram-se mutuamente, ele aceitou o quarto para mim e
saíram. Era um quarto realmente maravilhoso. Tinha todas as
coisas que agora conhecemos como típicas, mas que eram novas
para mim. Havia uma pequena alcova com uma pintura, uma jarra
com flores de salgueiro com uma linda disposiçÃo, uma mesa
rente ao chÃo com uma almofada perto e ao fim do quarto havia
duas portas de correr que abriam para um jardim.
A senhora que se deveria encarregar de mim era uma mulher de
meia idade. Ajudou-me a despir e deu-me um yukata, uma túnica
simples, azul e branca, para usar no hotel.
Abri as portas e admirei o lindo jardim, sentando-me depois à
mesa para trabalhar um pouco.
NÃo estava lá há mais de quinze ou vinte minutos quando algo
me chamou a atençÃo. Levantei os olhos, olhando em direcçÃo ao
jardim, e vi, sentada à entrada da porta, uma jovem japonesa
muito bela, com um fato lindíssimo.
Tinha lido bastante sobre os costumes no JapÃo e fazia uma
ideia do motivo por que a tinham enviado ao meu quarto.
Pensei: "Isto poderá ser muito interessante!"
Ela sabia um pouco de inglês. "Gostaria de ver o jardim?",
perguntou.
Calcei os sapatos que condiziam com o yukata que usava e
saímos para o jardim. Deu-me o braço e mostrou-me todo o
jardim.
Afinal, como ela sabia um pouco de inglês, o gerente do hotel
pensara que eu gostaria que ela me mostrasse o jardim -e foi
tudo. Fiquei
231
um pouco desapontado, claro, mas era um encontro de culturas e
eu sabia que era fácil enganar-me.
Algum tempo depois, a mulher que tratava do meu quarto entrou
e disse qualquer coisa -em japonês -sobre um banho. Sabia que
os banhos japoneses eram interessantes e estava ansioso por
experimentá-los, pelo que disse: "Hai."
Tinha lido que os banhos japoneses sÃo muito complicados. Usam
uma quantidade de água que é aquecida do exterior, e nÃo
devemos pôr sabÃo na água do banho para nÃo a estragar para o
tipo seguinte.
Levantei-me e dirigi-me para a secçÃo de banhos, onde estava a
tina, e ouvi um tipo na secçÃo seguinte, com a porta fechada,
a tomar banho. Subitamente, a porta abre-se: o homem que está
a tomar banho olha para ver quem é o intruso. "Professor!",
diz-me ele em inglês. "É um erro muito grave entrar numa casa
de banho quando outra pessoa está a tomar banho!" Era o Prof.
Yukawa!
Ele disse-me que, sem dúvida, a mulher tinha perguntado se eu
queria tomar um banho e que, se eu quisesse, ela o prepararia
e me diria quando a casa de banho estivesse livre. Mas de
todas as pessoas do mundo com quem cometer aquele sério erro
social, foi uma sorte ser o Prof. Yukawa!
Aquele hotel de estilo japonês era delicioso, especialmente
quando alguém me ia lá visitar. Os outros tipos entravam no
meu quarto, sentávamo-nos no chÃo e começávamos a conversar.
NÃo passavam mais de cinco minutos e a mulher que tratava do
meu quarto entrava com um tabuleiro com doces e chá. Era como
se tivéssemos convidados na nossa própria casa e o pessoal do
hotel nos ajudasse a recebê-los. Aqui, quando temos convidados
no nosso quarto de hotel, ninguém liga; temos de pedir o
serviço de quartos, etc.
As refeiÇÕES no hotel também sÃo diferentes. A rapariga que
traz a comida fica connosco enquanto comemos, para nÃo
estarmos sozinhos. NÃo conseguia conversar muito bem com ela,
mas nÃo fazia mal. E a comida era maravilhosa. Por exemplo, a
sopa vem numa tigela tapada. Levantamos a tampa e há um lindo
desenho: bocadinhos de cebola a flutuar na sopa colocados com
exactidÃo; é lindo. O aspecto da comida no prato é muito
importante.
Eu tinha decidido viver o mais possível à maneira japonesa.
Isso significava comer peixe. Nunca gostara de peixe enquanto
crescia, mas descobri no JapÃo que isso era uma criancice:
comi bastante peixe e gostei. (Quando voltei para os Estados
Unidos, a primeira coisa que fiz foi ir a um restaurante de
peixe. Foi horrível -exactamente como
232
antes. NÃo o podia suportar. Descobri mais tarde a razÃo: o
peixe tem de ser muito, muito fresco; se nÃo é, ganha um certo
gosto que me desagrada.)
Um dia em que comia no hotel de estilo japonês serviram-me uma
coisa dura e redonda, aproximadamente do tamanho de uma gema
de ovo, numa taça com um líquido amarelo. Até aí tinha comido
tudo no JapÃo, mas aquilo assustou-me: tinha muitas
convulsSes, como um cérebro. Quando perguntei à rapariga o que
era, ela respondeu "kuri". Aquilo nÃo ajudava muito. Pensei
que fosse provavelmente um ovo de polvo, ou coisa assim.
Comi-o, com certa desconfiança, porque queria estar o mais
possível no JapÃo. (Decorei também a palavra kuri, como se a
minha vida dependesse disso -passados trinta anos ainda nÃo a
esqueci.
No dia seguinte, na conferência, perguntei a um tipo japonês o
que era aquela coisa com convulsSes. Contei-lhe que a tinha
achado muito difícil de comer. Que raio era kuri?
"Quer dizer 'castanha'", respondeu.
Algum do japonês que aprendi teve bastante utilidade. Uma vez,
quando o autocarro estava a demorar muito para partir, alguém
disse: "Eh, Feynman! Você sabe japonês; diga-lhes que comecem
a andar! "
Eu disse: "Hayaku! Hayaku! Ikimasho! Ikimasho!", que
significa: "Vamos! Vamos! Depressa! Depressa!"
Percebi que nÃo controlava o meu japonês. Tinha aprendido
aquelas frases num livro de frases militar e deviam ser muito
duras, porque todos no hotel começaram a correr de um lado
para o outro como ratos, dizendo: "Sim, senhor! Sim, senhor!
", e o autocarro partiu imediatamente.
O encontro no JapÃo era em duas partes: uma em Tóquio e outra
em Quioto. No autocarro a caminho de Quioto falei ao meu amigo
Abraham Pais sobre o hotel de estilo japonês e ele quis
experimentar. Ficámos no Hotel Miyako, que tinha quartos de
estilo americano e quartos de estilo japonês, e Pais partilhou
um quarto de estilo japonês comigo.
Na manhà seguinte, a rapariga que tratava do nosso quarto
prepara o banho, que era mesmo no quarto. Algum tempo depois
volta com um tabuleiro com o pequeno-almoço. Estou
semivestido. Ela volta-se para mim e diz, delicadamente:
"Ohayo, gozai masu", que quer dizer: "Bom dia."

Pais vem mesmo a sair do banho, encharcado e completamente nu.


Ela volta-se para ele e com igual compostura diz: "Ohayo,
gozai masu", e pousa o tabuleiro para nós.
Pais olha para mim e exclama: "Meu Deus, como somos pouco
civilizados! "
Compreendemos que na América, se a criada trouxesse o
pequeno-almoço e o tipo estivesse ali em pêlo, haveria
gritinhos e um grande estardalhaço. Mas no JapÃo estavam
completamente habituados a isso e sentimos que eram muito mais
evoluídos e civilizados em relaçÃo a essas coisas do que nós.
Nessa altura tinha estado a trabalhar na teoria do hélio
líquido e descobrira como as leis da dinâmica quântica
explicam os estranhos fenómenos da superfluidez. Estava muito
orgulhoso deste feito e ia fazer uma conferência sobre o meu
trabalho no encontro de Quioto.
Na noite anterior à minha conferência houve um jantar e o
homem que se sentou ao meu lado era nada mais nada menos que o
Prof. Onsager, um excelente perito em física do estado sólido
e nos problemas do hélio líquido. Era um desses tipos que
falam pouco, mas que, cada vez que falam, o que dizem é muito
significativo.
"Bem, Feynman", disse ele em voz áspera, "consta-me que pensa
ter compreendido o hélio líquido."
"Bem, sim ... "
"Hum!" E foi tudo o que me disse durante o jantar inteiro! NÃo
foi muito encorajador.
No dia seguinte fiz a minha conferência e expliquei tudo sobre
o hélio líquido. No fim lamentei haver ainda uma coisa que nÃo
tinha conseguido descobrir: se a transiçÃo entre as fases do
hélio líquido era de primeira ordem (como quando um sólido
funde ou um líquido ferve -a temperatura é constante) ou de
segunda ordem (como acontece por vezes no magnetismo, em que a
temperatura muda continuamente).
EntÃo o Prof. Onsager levantou-se e disse em voz severa: "Bem,
o Prof. Feynman é novo no nosso campo e acho que precisa de
ser educado. Há uma coisa que ele tem de saber e nós devemos
dizer-lhe."
Pensei: "Meu Deus! Onde é que eu errei?"
Onsager disse: "Devemos dizer a Feynman que nunca ninguém
descobriu a ordem de nenhuma transiçÃo correctamente a partir
dos primeiros princípios, pelo que o facto de a sua teoria nÃo
lhe permitir descobrir correctamente a ordem nÃo significa que
nÃo tenha compreendido satisfatoriamente todos os outros
aspectos do hélio líquido." Afinal,
234
era um elogio, mas, pelo modo como começou, pensei que ia
ouvir das boas!
Um dia depois, estando eu no meu quarto, ouvi tocar o
telefone. Era a revista Time. O tipo do outro lado do fio
disse: "Estamos muito interessados no seu trabalho. Tem uma
cópia que nos possa mandar?"
Nunca tinha aparecido na Time e fiquei muito entusiasmado.
Estava orgulhoso do meu trabalho, que fora bem recebido no
encontro, pelo que disse: "Claro!"
"óptimo! Por favor, mande-a para o nosso escritório de
Tóquio." O tipo deu-me a morada. Sentia-me importante.
Repeti a morada e o tipo disse: "Isso mesmo. Muito obrigado,
Sr Pais."
"Oh, nÃo! ", disse eu, sobressaltado. "NÃo sou Pais; é com
Pais que quer falar? Desculpe. Eu digo-lhe que quer falar com
ele quando ele voltar. "
Pais entrou umas horas depois: "Eh, Pais! Pais! ", disse eu
com voz excitada. "Falaram da revista Time! Querem que lhes
mande uma cópia do trabalho que está a apresentar. "
"Oh!", diz ele. "Porcaria de publicidade!"
Fiquei muitíssimo surpreendido.
Desde entÃo descobri que Pais tinha razÃo, mas nesses dias
pensava que seria maravilhoso ter o meu nome na revista Time.
Aquela foi a minha primeira estada no JapÃo. Estava ansioso
por voltar e disse que iria para qualquer universidade onde me
quisessem. Por isso os Japoneses dispuseram as coisas de modo
que eu passasse alguns dias em cada um de uma série de
lugares.
Nessa altura estava casado com Mary Lou e, onde quer que
fôssemos, tínhamos recepÇÕES. Num sítio organizaram uma
cerimônia completa com dança, que era normalmente executada
para um grande número de turistas, especialmente para nós.
Noutro lugar fomos recebidos logo no barco por todos os
alunos. Ainda noutro fomos recebidos pelo presidente da
câmara.
Um, em especial, dos lugares em que ficámos era um lugar
pequeno, modesto, cercado de bosques e onde o imperador ficava
quando visitava a regiÃo. Era um lugar muito bonito, perto de
um ribeiro, cuidadosamente escolhido. Tinha uma certa
quietude, uma elegância calma. O facto de o imperador
ficar
nesse lugar demonstrava, penso eu, uma sensibilidade à
natureza maior do que aquela a que estávamos habituados no
Ocidente.
Em todos esses lugares, toda a gente que trabalhava em física
me dizia o que estava a fazer e discutíamos o seu trabalho.
Eles descreviam-me o problema geral em que trabalhavam e
começavam a escrever um monte de equaÇÕES.
"Espere um minuto", dizia eu. "Existe algum exemplo particular
para este problema geral?"
"Sim, claro."
"óptimo. Dê-me um exemplo. " Estava bem para mim: nÃo consigo
compreender uma coisa na generalidade se nÃo conhecer um
exemplo específico que veja desenvolver-se. Há pessoas que a
princípio pensam que sou um bocado lento e nÃo compreendo o
problema, porque faço uma data destas perguntas "estúpidas":
"O cátodo é mais ou menos? 0 aniÃo é desta maneira, ou
daquela?"
Mas depois, quando o tipo está no meio de um monte de
equaÇÕES, diz qualquer coisa e eu atalho: "Espere aí! Há um
erro! Isso nÃo pode estar certo!"
O tipo olha para as equaÇÕES e, de facto, ao fim de algum
tempo, encontra o erro e admira-se: "Como pode este tipo, que
ao princípio tinha dificuldade em compreender, ter encontrado
aquele erro no meio desta confusÃo de equaÇÕES?"
Ele pensa que eu estou a seguir os passos matematicamente, mas
nÃo é isso o que acontece. Tenho o exemplo físico, específico
do que ele tenta analisar e conheço instintivamente e por
experiência as propriedades. Por isso, quando a equaçÃo aponta
determinado comportamento e eu sei que o mesmo é errado, salto
e digo: "Espere! Há um erro! "
Por isso, no JapÃo nÃo conseguia compreender ou discutir o
trabalho de ninguém, a menos que me pudessem dar um exemplo
físico, e a maior parte deles nÃo conseguia descobrir nenhum.
Dos que conseguiam, era frequentemente um exemplo fraco, que
podia ser resolvido por um método de análise muito mais
simples.
Como eu estava continuamente a pedir, nÃo equaÇÕES
matemáticas, mas circunstâncias físicas do que eles tentavam
desenvolver, a minha visita foi resumida num jornal
policopiado que circulava entre os cientistas (era um sistema
de comunicaçÃo modesto, mas eficaz, que eles tinham inventado
depois da guerra) com o título, Os Bombardeamentos de Feynman
e as Nossas ReacÇÕES.
Depois de visitar umas quantas universidades passei uns meses
no Instituto Yukawa, em Quioto. Gostei realmente de trabalhar
lá. Era tudo tÃo simpático: chegávamos do trabalho, tirávamos
os sapatos e
236
vinha alguém servir-nos chá durante a manhÃ, quando nos
apetecia. Era muito agradável.
Enquanto estive em Quioto tentei arduamente aprender japonês.
Esforcei-me muito mais e cheguei a um ponto em que podia
circular de táxi e fazer coisas. Tive liÇÕES com um japonês
uma hora todos os dias.
Um dia, ele estava a ensinar-me a palavra para "ver". "Muito
bem", disse ele. "Agora como diz 'Posso ver o seu jardim?'"?
Construí uma frase com a palavra que tinha acabado de
aprender.
"NÃo, nÃo!", disse ele. "Quando dizemos a alguém: 'Gostaria de
ver o meu jardim?', usamos o primeiro 'ver'. Mas quando
queremos ver o jardim de outra pessoa, devemos usar outro
'ver', que é mais delicado."
No primeiro caso estaríamos a dizer essencialmente: "Gostaria
de dar uma vista de olhos ao meu medíocre jardim?", mas,
quando queremos ver o jardim de outro tipo, devemos dizer
qualquer coisa como: "Posso observar o seu esplêndido jardim?"
Assim, devemos usar duas palavras diferentes.
Depois deu-me outra frase: "Vai a um templo e quer ver os
jardins ... "
Construí uma frase, desta vez com o "ver" delicado.
"NÃo, nÃo! ", disse ele. "No templo, os jardins sÃo muito mais
elegantes. Por isso devemos dizer qualquer coisa que seria
equivalente a: "Posso prender os meus olhos aos seus
primorosíssimos jardins?"
Três ou quatro palavras diferentes para uma ideia, porque,
quando sou eu que faço, é miserável; quando é você que faz, é
elegante.
Estava a aprender japonês principalmente para coisas técnicas,
pelo que decidi verificar se existia o mesmo problema entre os
cientistas.
No dia seguinte, no Instituto, disse aos tipos do gabinete:
"Como diriam em japonês: 'Eu resolvo a equaçÃo de Dirac'?"
Disseram uma determinada frase.
"Muito bem. Agora quero dizer: 'Você resolveria a equaçÃo de
DiracV-como é que digo isto?"
"Bem, tem de usar uma palavra diferente para 'resolver'",
dizem eles.
"Porquê?", protestei. "Quando eu a resolvo, faço exactamente a
mesma coisa que você, quando é você que a resolve! "
"Bem, sim., mas é uma palavra diferente, é mais delicada."
Desisti. Decidi que nÃo era uma língua boa para mim e parei de
aprender japonês.
237
A soluçÃo de 7 por cento
O problema era descobrir as leis correctas para a degradaçÃo
beta. Parecia haver duas partículas, que se chamavam tau e
teta. Pareciam ter quase exactamente a mesma massa, mas uma
delas desintegrava-se, originando dois mesSes pi e a outra
três. NÃo só pareciam ter a mesma massa, mas tinham também o
mesmo tempo de vida, o que é uma coincidência estranha. Por
isso andavam todos preocupados com o problema.
Num encontro a que fui relataram que, quando essas duas
partículas eram produzidas num ciclotrÃo com ângulos
diferentes e energias diferentes, eram sempre produzidas nas
mesmas proporÇÕES -tantas partículas tau para tantas
partículas teta.
Ora, claro que uma das possibilidades era que fosse a mesma
partícula, que por vezes se degradava em dois mesSes pi e
outras vezes em três mesSes pi. Mas ninguém o admitia, porque
há uma lei chamada "regra da paridade", que se baseia na
suposiçÃo de que todas as leis da física têm a simetria de uma
imagem no espelho e diz que uma coisa que pode dividir-se em
dois mesSes pi nÃo pode dividir-se também em três mesSes pi.
Nessa altura eu nÃo andava completamente a par do que se
passava: andava sempre um pouco atrasado. Parecia-me que os
outros todos eram espertos e eu nÃo os acompanhava. Bem, eu
partilhava um quarto com um tipo chamado Martin Block, um
experimentador. E uma noite ele disse-me: "Porque é que vocês
insistem tanto nessa regra da paridade? Talvez tau e teta
sejam a mesma partícula. Quais seriam as consequências se a
regra da paridade estivesse errada?"
Pensei por um minuto e disse: "Isso significaria que as leis
da natureza sÃo diferentes para a mÃo direita e para a mÃo
esquerda, que existe um modo de definir a mÃo direita por meio
de fenómenos físicos. NÃo sei se isso é assim tÃo terrível,
apesar de dever ter algumas más consequências, mas nÃo sei.
Porque é que amanhà nÃo pergunta aos peritos?"
Ele respondeu: "NÃo, eles nÃo me darÃo ouvidos. Pergunte você.
"
Por isso, no dia seguinte, no encontro, quando estávamos a
discutir o quebra cabeças tau-teta, Oppenheimer disse:
"Precisamos de ouvir ideias novas, menos ortodoxas,
relativamente a este problema."
EntÃo levantei-me e disse: "Faço esta pergunta em nome de
Martin Block: quais seriam as consequências se a regra da
paridade estivesse errada? "
238
Murray Gell-Mann arreliou-me muitas vezes por causa disto,
dizendo que eu nÃo tinha coragem de fazer as perguntas em meu
nome. Mas nÃo foi essa a razÃo. Pensei que podia mesmo ser uma
pergunta importante.
Lee, de Lee e Yang, deu qualquer resposta complicada e, como
de costume, eu nÃo compreendi muito bem. No fim do encontro,
Block perguntou-me o que ele tinha dito e eu respondi que nÃo
sabia, mas, tanto quanto podia saber, continuava em aberto -
ainda havia uma possibilidade. NÃo me parecia provável, mas
pensava que era possível.
Norm Rainsey perguntou-me se eu pensava que ele devia fazer
uma ,experiência procurando infracÇÕES à lei da paridade e eu
repliquei: ,"A melhor maneira de explicar isso é: 'Aposto
consigo cinquenta contra, um que nÃo encontra nada'."
Ele disse: "Isso basta-me." Mas nunca fez a experiência.
Seja como for, a descoberta da infracçÃo da lei da paridade
foi feita, experimentalmente, por Wu, e isto abriu uma
quantidade de novas possibilidades para a teoria da degradaçÃo
beta. Desencadeou também uma ,~série de experiências
imediatamente a seguir. Algumas mostraram electrSes saindo do
núcleo com rotaçÃo para a esquerda e outros para a direita;
fizeram-se todos os tipos de experiências, todos os tipos de
descobertas interessantes sobre a paridade. Mas os dados
obtidos eram tÃo perturbadores que ninguém conseguiu tirar
conclusSes.
A certa altura houve um encontro em Rochester -a Conferência
Anual de Rochester. Eu continuava sempre atrasado, e Lee ia
apresentar o seu trabalho sobre a infracçÃo à paridade. Ele e
Yang tinham chegado à conclusÃo de que a paridade era
infringida, e agora ele ia apresentar a teoria sobre isso.
Durante a conferência eu ficava com a minha irmà em Siracusa.
Trouxe o trabalho para casa e disse-lhe: "NÃo consigo
compreender estas coisas que Lee e Yang dizem. É tudo tÃo
complicado."
"NÃo", disse ela. "O que tu queres dizer nÃo é que nÃo
compreendes, mas que nÃo foste tu quem inventou. NÃo
descobriste à tua maneira, ouvindo uma sugestÃo. O que deves
fazer é imaginar que és novamente um estudante, levar o
trabalho lá para cima, lê-lo linha a linha e verificar as
equaÇÕES. EntÃo conseguirás compreendê-lo com toda a
facilidade."
Segui o seu conselho, verifiquei tudo e achei que era muito
evidente e simples. Tinha tido medo de o ler, pensando que era
difícil.

Aquilo recordou-me uma coisa que fizera há muito tempo com


equaÇÕES assimétricas à direita e à esquerda. Agora tornava-se
bastante claro, quando olhava para as fórmulas de Lee, que a
soluçÃo para aquilo tudo era muito mais simples: sai tudo
associado para a esquerda. Para o electrÃo e o mesÃo miu, as
minhas previsSes eram as mesmas que as de Lee, exceptuando ter
mudado alguns sinais. Na altura nÃo me apercebi, mas Lee
tomara apenas o exemplo mais simples de associaçÃo com mesSes
miu e nÃo havia provado que todos os mesSes miu seriam
completos à direita, ao passo que, de acordo com a minha
teoria, todos os mesSes miu teriam de ser automaticamente
completos. Portanto, eu tinha, de facto, uma previsÃo acima da
dele. Tinha sinais diferentes, mas nÃo me apercebi de que
tinha também esta quantidade correcta.
Previ umas coisas para que ninguém ainda tinha experiências,
mas, quando chegou a vez do neutrÃo e do protÃo, nÃo consegui
que isso se integrasse bem no que se sabia nessa altura sobre
a associaçÃo de protSes e de neutrSes: era um pouco confuso.
No dia seguinte, quando voltei ao encontro, um homem muito
simpático chamado Ken Case, que ia apresentar um trabalho
sobre uma coisa qualquer, deu-me cinco minutos do tempo que
lhe fora atribuído para apresentar a minha ideia. Eu disse que
estava convencido de que tudo estava associado à esquerda e
que os sinais para o electrÃo e para o mesÃo miu estavam
invertidos, mas que eu lutava com o neutrÃo. Mais tarde, os
experimentadores fizeram-me perguntas sobre as minhas
previsSes e depois fui passar o VerÃo ao Brasil.
Quando voltei aos Estados Unidos, quis saber qual era a
situaçÃo com a degradaçÃo beta. Fui ao laboratório da Prof.'
Wu, em Coffimbia, e ela nÃo estava lá, mas estava outra
senhora que me mostrou todo o tipo de dados obtidos, todo o
tipo de números caóticos que nÃo se ajustavam a nada. Os
electrSes, que no meu modelo deveriam sair rodando para a
esquerda na degradaçÃo beta, saíam nalguns casos para a
direita. Nada se ajustava.
Quando voltei para Caltech, perguntei a alguns
experimentadores qual era a situaçÃo quanto à decadência beta.
Lembro-me de que três tipos, Hans Jensen, Aaldert Wapstra e
Felix Boelim, me fizeram sentar num banquinho e me começaram a
contar todos estes factos: os resultados experimentais de
outras partes do país e os seus próprios resultados
experimentais. Como conhecia aqueles tipos e sabia como eram
cuidadosos, prestei mais atençÃo aos seus resultados do que
aos outros. Os seus resultados, por si sós, nÃo eram tÃo
inconsistentes; eram os outros todos juntamente com os deles.
240
Finalmente enchem-me com todas aquelas coisas e dizem: "A
situaçÃo é tÃo confusa que estÃo mesmo a questionar algumas
das coisas que estabeleceram há anos -como a degradaçÃo beta
do neutrÃo ser S e T. Murray dizer que poderá mesmo ser V e A,
tal é a confusÃo."
Salto do banco e digo: "EntÃo percebo TUUUUUDO!"
Pensaram que eu estava a brincar. Mas o que me perturbara no
encontro de Rochester-a desintegraçÃo do protÃo e do neutrÃo,
ajustava-se tudo menos isso, e se fosse V e A em vez de S e T,
também isso se ajustaria. Tinha portanto a teoria completa!
Nessa noite fiz toda a espécie de cálculos com essa teoria. A
primeira coisa que calculei foi a proporçÃo da desintegraçÃo
do miu e do neutrÃo. Deveriam estar interligados, se esta
teoria estivesse correcta, por uma determinada relaçÃo, que
estava correcta a 9 por cento. É uma boa aproximaçÃo, 9 por
cento. Deveria ser mais perfeita, mas era uma aproximaçÃo
suficiente.
Continuei e verifiquei algumas outras coisas que se ajustavam,
e todas as novas coisas se ajustavam; estava muito
entusiasmado. Foi a primeira vez na minha carreira, e a
última, que conheci uma lei da natureza que mais ninguém
conhecia. (Claro que isto nÃo era verdade, mas o descobrir
mais tarde que, pelo menos, Murray Ge11-Mann -e também
Sudarshan e Marshak -tinham descoberto a mesma teoria nÃo
estragou o meu divertimento.) Tudo o que tinha feito
anteriormente era pegar na teoria de outra pessoa e melhorar o
método de cálculo, ou pegar numa equaçÃo, como a equaçÃo de
SchrSdiriger, para explicar um fenómeno, como o hélio.
Conhecemos a equaçÃo e conhecemos o fenómeno, mas como
funciona?
Pensei em Dirac, que tinha a sua equaçÃo há algum tempo -uma
nova equaçÃo que descrevia o comportamento de um electrÃo -, e
eu tinha esta nova equaçÃo para a degradaçÃo beta, que nÃo era
tÃo vital como a equaçÃo de Dirac, mas era boa. Foi a única
vez que descobri uma nova lei.
Telefonei para minha irmÃ, em Nova Iorque, a agradecer-lhe ter
feito com que eu me sentasse a analisar aquele trabalho
apresentado por Lee e Yang na Conferência de Rochester. Depois
de me ter sentido pouco à vontade e atrasado, agora estava por
dentro; tinha feito uma descoberta, partindo exactamente do
que ela tinha sugerido. Conseguia novamente entrar na física,
por assim dizer, e queria agradecer-lhe por isso. Contei-lhe
que tudo se ajustava, excepto os 9 por cento.
Estava muito entusiasmado e continuei a fazer cálculos, e as
coisas que se ajustavam continuavam a surgir: ajustavam-se
automaticamente,
241
sem esforço. Por essa altura já tinha começado a esquecer os 9
por cento, porque tudo o resto estava a sair bem.
Trabalhei arduamente pela noite fora, sentado a uma mesinha
perto da janela, na cozinha. Estava a ficar cada vez mais
tarde -eram umas duas ou três da manhÃ. Estou a trabalhar
muito, consolidando todos aqueles cálculos com coisas que se
ajustam, estou a pensar, a concentrar-me, há escuridÃo, e
sossego... quando de repente se ouve UM TAC-TAC-TAC-TAC na
janela. Olho e vejo uma cara branca, mesmo na janela, a poucas
polegadas, e eu grito com o choque e a surpresa!
Era uma senhora minha conhecida que estava zangada comigo
porque eu voltara de férias e nÃo a tinha visitado
imediatamente para lhe dizer que regressara. Mandei-a entrar e
tentei explicar-lhe que naquela altura estava muito ocupado,
que tinha acabado de descobrir uma coisa que era muito
importante. Disse: "Por favor vá-se embora e deixe-me acabar
isto. "
Ela disse: "NÃo o quero incomodar. Sento-me aqui na sala de
estar."
Eu volvi: "Bem, está bem, mas é muito difícil."
O que ela fez nÃo foi exactamente sentar-se na sala de estar.
A melhor maneira de o descrever é dizer que ela como que se
acocorou num canto, com as mÃos juntas, nÃo me querendo
"incomodar". Claro que a sua intençÃo era incomodarme e muito!
E conseguiu -nÃo a podia ignorar. Fiquei muito zangado e
perturbado e nÃo suportava aquilo. Tinha de fazer aqueles
cálculos; estava a fazer uma grande descoberta e sentia-me
terrivelmente entusiasmado, e, de qualquer modo, aquilo era
mais importante para mim do que aquela senhora -pelo menos
nesse momento. NÃo me lembro de como, finalmente, me vi livre
dela, mas foi muito difícil.
Depois de trabalhar mais um bocado, já era muito tarde e eu
estava com fome. Subi a rua principal até um restaurantezinho
a uns cinco ou dez blocos de distância, o que tinha feito
anteriormente várias vezes, a altas horas da noite.
Nas primeiras ocasiSes aconteceu frequentemente a polícia
mandar-me parar, porque eu ia pensando enquanto andava e
depois parava às vezes vem uma ideia que é tÃo difícil que nÃo
podemos continuar a andar; temos de nos certificar de qualquer
coisa. Por isso parava e por vezes levantava as mÃos, dizendo
para comigo: "A distância entre eles é deste modo, e depois
isto roda desta maneira ... "
Estava de pé no meio da rua, a mover as mÃos, quando aparecia
a polícia: "Como se chama? Onde vive? 0 que está a fazer?"
242
"Oh! Estava a pensar. Desculpem; vivo aqui e vou muitas vezes
ao restaurante ... " Ao fim de algum tempo já sabiam quem eu
era e nÃo me voltaram a mandar parar.
EntÃo fui ao restaurante e, enquanto comia, estava tÃo
entusiasmado que disse a uma senhora que tinha acabado de
fazer uma descoberta. Ela começa a falar: é mulher de um
bombeiro, ou de um guarda-florestal, ou coisa assim, e
sente-se muito só -todas aquelas coisas que nÃo me interessam
nada. Portanto, aquilo acontece.
Na manhà seguinte, quando fui trabalhar, encontrei-me com
Wapstra, Boelim e Jensen e disse-lhes: "Tenho tudo resolvido.
Ajusta-se tudo."
Christy, que também lá estava, disse: "Que constante de
degradaçÃo beta usou9"
"A do livro de Fulano."
"Mas descobriu-se que essa está errada. As medidas recentes
mostram que se afasta 7 por cento. "
Recordei entÃo os 9 por cento. Foi para mim como que uma
previsÃo: fui para casa e construí aquela teoria que diz que a
degradaçÃo dos neutrSes deveria afastar-se 9 por cento e na
manhà seguinte dizem-me que, na realidade, há uma mudança de 7
por cento. Mas muda de 9 para 16, o que é mau, ou de 9 para 2,
que é bom?
Mesmo nessa altura telefona-me a minha irmà de Nova Iorque: "E
os 9 por cento -que aconteceu?"
"Acabei de descobrir que há dados novos: 7 por cento ... "
"Em que sentido?"
"Estou a tentar descobrir. Depois telefono-te."
Estava tÃo entusiasmado que nÃo conseguia pensar. É como
quando vamos a correr para apanhar um aviÃo e nÃo sabemos se
estamos ou nÃo atrasados e nÃo conseguimos, quando uma pessoa
diz: "A hora foi mudada! " Sim, mas em que sentido? Com a
excitaçÃo nÃo conseguimos pensar.
EntÃo Christy foi para uma sala e eu para outra, cada um de
nós para estar sossegado, de modo a podermos pensar em tudo:
isto move-se neste sentido, isto naquele -na realidade, nÃo é
muito difícil, é só excitante.
Christy saiu, eu saí, e ambos concordámos: é 2 por cento que
está bem dentro do erro experimental. No fim de contas, se
acabaram de mudar a constante em 7 por cento, os 2 por cento
podiam ter sido um erro. Telefonei à minha irmÃ: "Dois por
cento." A teoria estava certa.
243
(Na realidade, estava errada: desviava-se, de facto, 1 por
cento, por uma razÃo que nÃo tínhamos considerado e que só foi
compreendida mais tarde por Nicola Cabibbo. Por isso, aqueles
2 por cento nÃo eram de modo nenhum experimentais.)
Murray Gell-Mann e eu comparámos e conjugámos as nossas ideias
e escrevemos um trabalho sobre a teoria. A teoria era bastante
clara; era relativamente simples e ajustava-se a uma data de
coisas. Mas, como vos disse, havia imensos dados caóticos. E,
em alguns casos, fomos ao ponto de afirmar que as experiências
estavam erradas.
Um bom exemplo disto foi uma experiência feita por Valentine
Telegdi, em que ele mediu o número de electrSes que saem em
cada direcçÃo quando um neutrÃo se desintegra. A nossa teoria
tinha previsto que o número seria o mesmo para todas as
direcÇÕES, ao passo que Telegdi descobriu que saíam mais 11
por cento numa direcçÃo do que nas outras. Telegdi era um
excelente experimentador e muito cuidadoso. E uma vez, estando
a fazer uma conferência nÃo sei onde, referiu-se à nossa
teoria e disse: "O problema com os teóricos é que nunca
prestam atençÃo às experiências!"
Além disso, Telegdi enviou-nos uma carta, que nÃo era
exactamente ofensiva, mas que, mesmo assim, mostrava que ele
estava convencido de que a nossa teoria estava errada.
Murray diz: "Que havemos de fazer? Sabe, Telegdi é bastante
bom. "
Eu retorqui: "Esperemos."
Dois dias depois chega outra carta de Telegdi. Convertera-se
completamente. Descobrira, a partir da nossa teoria, que nÃo
considerara a possibilidade de o retrocesso do protÃo a partir
do neutrÃo nÃo ser o mesmo em todas as direcÇÕES. Tinha
suposto que era o mesmo. Fazendo as correcÇÕES que a nossa
teoria previa, em vez das que ele tinha estado a usar, os
resultados emendavam-se e estavam em completo acordo.
Sabia que Telegdi era excelente e teria sido difícil ir contra
ele. Mas nessa altura já estava convencido de que devia haver
qualquer erro na sua experiência e que ele o descobriria -
tinha muito mais capacidade para o encontrar do que nós. Foi
por isso que disse que nÃo devíamos tentar descobrir o que se
passava, mas apenas esperar.
Fui ter com o Prof. Bacher e contei-lhe o nosso sucesso e ele
disse: "Sim, vocês aparecem e dizem que a associaçÃo de
neutrSes é V em vez de T. Toda a gente pensava que era T. Onde
está a experiência fundamental que diz que é T? Porque é que
nÃo olham para as primeiras experiências e nÃo procuram que
erro elas têm?"
244
Saí e descobri o artigo original sobre a experiência que dizia
que a associaçÃo neutrÃo-protÃo é T e houve uma coisa que me
chocou. Lembrei-me de ter lido anteriormente aquele artigo
(naqueles dias em que lia todos os artigos da Physical Review
-era suficientemente pequena para isso). E, quando voltei a
ler o artigo, lembrei-me de olhar para a curva e pensar: "Isso
nÃo prova nada!"
EstÃo a ver, dependia de um ou dois pontos mesmo na fronteira
da classe dos dados, e há um princípio que estabelece que um
ponto na fronteira da classe dos dados -o último ponto -nÃo
é muito bom, porque, se fosse, teriam outro ponto mais
afastado. E eu nÃo tinha percebido que toda a ideia de a
associaçÃo protÃo-neutrÃo ser T se baseava no último ponto,
que nÃo era muito bom, e portanto nÃo estava provada.
Lembrei-me de ter reparado nisso!
E, quando me interessei directamente pela degradaçÃo beta, h
todos aqueles relatórios feitos pelos "peritos em degradaçÃo
beta" que diziam que é T. Nunca fui ver os dados originais;
apenas li esses relatórios, como um palerma. Se tivesse sido
um bom físico, quando, na Conferência de Rochester, pensei na
ideia original, teria imediatamente investigado "com que
segurança sabemos que é T" -isso teria sido a coisa sensata a
fazer. Teria reconhecido imediatamente que já tinha reparado
que nÃo estava provado de modo satisfatório.
A partir dessa altura nunca mais prestei atençÃo a qualquer
coisa feita por "peritos". Faço eu próprio todos os cálculos.
Quando as pessoas disseram que a teoria dos quarks era
bastante boa, fiz com que dois graduados, Finn Ravndal e Mark
Kislinger, percorressem todo o trabalho comigo, para que eu
pudesse verificar que aquilo estava realmente a dar resultados
que se ajustavam bastante bem e que era uma teoria
significativamente boa. Nunca mais volto a cometer o erro de
ler as opiniSes dos peritos. Claro que temos só uma vida, e
cometemos todos os nossos erros, e aprendemos o que nÃo
devemos fazer, e depois é o fim.
Treze vezes
Uma vez, um professor de Ciências do liceu oficial local veio
pedir-me que fizesse lá uma conferência. Ofereceu-me cinquenta
dólares, mas eu disse-lhe que nÃo estava preocupado com o
dinheiro. "É o liceu oficial, nÃo é?"
245

"É."
Pensei na quantidade de papelada com que normalmente tinha de
me haver quando lidava com o governo, pelo que me ri e disse:
"Tenho muito gosto em fazer a conferência. Ponho apenas uma
condiçÃo" escolhi um número ao acaso e continuei -, "nÃo ter
de assinar mais de treze vezes e isso inclui o cheque."
0 tipo riu-se também: "Treze vezes! NÃo há problema."
EntÃo começa. Primeiro tenho de assinar uma coisa que diz que
sou leal ao governo, senÃo nÃo posso falar no liceu oficial. E
tenho de assinar em duplicado, está bem? Depois tenho de
assinar uma espécie de contrato com a câmara nÃo me lembro o
que era. Bem depressa os números começam a subir.
Tive de assinar uma declaraçÃo de que estava convenientemente
empregado como professor -para assegurar, claro, como se
trata de um assunto oficial, que nenhum nabo lá no outro lado
estava a contratar a mulher ou um amigo para vir e nem sequer
fazer a conferência. Havia todo o tipo de coisas a assegurar e
as assinaturas continuavam a aumentar.
Bem, o tipo que tinha começado por rir estava a ficar bastante
nervoso, mas conseguimos à justa. Assinei exactamente doze
vezes. Havia mais uma para o cheque, pelo que fui e fiz a
conferência.
Uns dias depois, o tipo veio dar-me o cheque e estava mesmo
aflito
NÃo me podia dar o dinheiro, a menos que eu assinasse um pape
dizendo que tinha realmente feito a conferência.
Eu disse: "Se assino o papel, nÃo posso assinar o cheque. Mas
você estava lá. Ouviu a conferência; porque é que nÃo assina
você?"
"Olhe lá", disse ele. "NÃo acha isto tudo bastante
disparatado?"
"NÃo. Foi um acordo que fizemos ao princípio. NÃo pensávamos
que chegasse realmente a treze, mas concordámos, e acho que
devemos manter o acordo até ao fim."
"Esforcei-me imenso e falei com toda a gente. Tentei tudo e
eles dizem-me que é impossível. NÃo pode mesmo receber o
dinheiro se nÃo assinar o papel."
"NÃo faz mal", disse eu. "Só assinei doze vezes e fiz a
conferência. NÃo preciso do dinheiro."
"Mas detesto fazer-lhe isto."
"NÃo faz mal. Fizemos um acordo. NÃo se preocupe."
No dia seguinte ele telefonou-me: "NÃo podem nÃo lhe dar o
dinheiro! Já destinaram o dinheiro e puseram-no de parte, por
isso têm de lho dar! "
246
"Está bem, se têm de me dar o dinheiro, que me dêem o
dinheiro. "
"Mas tem de assinar o papel."
"NÃo assino o papel!"
Ficaram encravados. NÃo tinham nenhum lugar onde pôr o
dinheiro a que um homem tem direito, mas pelo qual nÃo quer
assinar.
Finalmente arranjou-se tudo. Levou muito tempo e foi muito
complicado -mas usei a décima terceira assinatura para
levantar o meu cheque.
Parece-me grego!
NÃo sei porquê, mas sou sempre muito descuidado, quando viajo,
no que diz respeito à morada, ao número do telefone, ou a
qualquer coisa das pessoas que me convidaram. Imagino que
alguém me irá esperar, ou que outra pessoa saberá onde vamos;
hei-de arranjar-me, seja como for.
Uma vez, em 1957, fui a uma conferência sobre a gravidade na
Universidade da Carolina do Norte. Ia como um perito num campo
diferente que se debruça sobre a gravidade.
Aterrei no aeroporto com um dia de atraso para a conferência
(nÃo consegui ir no primeiro dia) e dirigi-me para o sítio
onde estavam os táxis. Disse ao expedidor: "Quero ir para a
Universidade da Carolina do Norte."
"Qual delas", disse ele, "a Universidade do Estado da Carolina
do Norte, em Raleigli, ou a Universidade da Carolina do Norte
em Chapel Hill?"
É escusado dizer que nÃo fazia a mínima ideia. "Onde sÃo as
duas?", perguntei, pensando que deviam ser próximas uma da
outra.
"Uma delas fica para norte e a outra para sul, aproximadamente
à mesma distância."
NÃo tinha comigo nada que permitisse saber qual delas era e
nÃo ia mais ninguém para a conferência com um dia de atraso
como eu.
Isso deu-me uma ideia. "Ouça", disse eu ao expedidor. "O
encontro principal começou ontem, por isso devem ter passado
ontem por aqui uma data de tipos que iam ao encontro. Vou
descrever-lhos: deviam andar com a cabeça como que no ar e a
conversar uns com os outros, sem ligarem para onde iam,
dizendo uns aos outros coisas como 'Gê-miu-niu. Gê-iniu-niu'."
247
A cara dele iluminou-se: "Ah, sim", disse ele. "Quer dizer
Chapel Hill!" Chamou o primeiro táxi da fila: "Leve este
senhor à Universidade, em Chapel Hill."
"Obrigado", disse eu, e fui à conferência.
Mas isto é arte?
Certo dia encontrava-me numa festa a tocar bongos e estava a
sair-me bastante bem. Um dos tipos presentes ficou
particularmente inspirado com o ritmo e entÃo entrou na casa
de banho, tirou a camisa, espalhou creme de barbear formando
desenhos esquisitos por todo o peito e saiu a dançar
loucamente, com cerejas penduradas nas orelhas. Naturalmente,
aquele maluco e eu tornámo-nos imediatamente bons amigos.
Chama-se Jirayr Zorthian; é um artista.
Tivemos muitas vezes longas discussSes sobre arte e ciência.
Eu dizia coisas como: "Os artistas andam perdidos. NÃo têm
nenhum assunto! Dantes tinham os temas religiosos, mas
perderam a religiÃo e agora nÃo têm nada. NÃo compreendem o
mundo tecnológico em que vivem; nÃo sabem nada sobre a beleza
do mundo real -o mundo científico -e, i por isso, nÃo têm
nos seus coraÇÕES nada para pintar."
Jerry respondia que os artistas nÃo precisavam de ter um
assunto físico; há muitas emoÇÕES que se podem expressar
através da arte. Além disso, a arte pode ser abstracta. Mais
ainda, os cientistas destroem a beleza da natureza quando a
decompSem e a transformam em equaÇÕES matemáticas.
Uma vez estive em casa de Jerry pelo seu aniversário e uma
destas discussSes parvas durou até às três da madrugada. Na
manhà seguinte telefonei-lhe: "Ouça, Jerry. O motivo por que
temos estas discussSes que nÃo chegam a lado nenhum é que você
nÃo percebe nada de ciência e eu nÃo percebo nada de arte. Por
isso, em domingos alternados, eu dou-lhe uma liçÃo de ciência
e você dá-me uma liçÃo de arte."
"Está bem", disse ele. "Ensino-o a desenhar."
"Isso será impossível", disse eu, porque, quando andava no
liceu, a única coisa que conseguia desenhar eram pirâmides no
deserto que consistiam principalmente em linhas rectas -e de
vez em quando tentava uma palmeira e punha um Sol. NÃo tinha
talento absolutamente nenhum. Ao meu lado estava sentado um
tipo que tinha a mesma habi
248
lidade que eu. Quando lhe permitiam desenhar alguma coisa,
fazia dois borrSes planos, elípticos, como dois pneus
empilhados, com uma haste saindo da parte de cima, rematada
por um triângulo verde. Afirmava ser uma árvore. Por isso
apostei com Jerry que ele nÃo conseguiria ensinar-me a
desenhar.
"Claro que tem de trabalhar", disse ele.
Prometi trabalhar, mas mesmo assim apostei que ele nÃo me
conseguiria ensinar a desenhar. Queria muito aprender a
desenhar, por uma razÃo que guardava para mim: queria
transmitir a emoçÃo que sinto sobre a beleza do mundo. É
difícil de descrever porque é uma emoçÃo. É análoga ao
sentimento que se tem em religiÃo e que tem a ver com um deus
que controla tudo no universo inteiro: sentimos um aspecto de
generalidade quando pensamos como as coisas que parecem tÃo
diferentes e se comportam de maneira tÃo diversa sÃo todas
dirigidas de "detrás do palco" pela mesma organizaçÃo, as
mesmas leis físicas. É uma apreciaçÃo da beleza matemática da
natureza, de como ela funciona por dentro; uma compreensÃo de
que os fenómenos que vemos resultam da complexidade dos
mecanismos internos que relacionam os átomos; um sentimento de
como isto é espectacular e maravilhoso. É um sentimento de
veneraçÃo -veneraçÃo científica -que eu pensava poder
comunicar, através de um desenho, a uma pessoa que também
tivesse sentido essa emoçÃo. Poderia recordar-lhe, por um
momento, este sentimento sobre as glórias do universo.
Jerry revelou-se um professor muito bom. Primeiro disse-me que
fosse para casa e fizesse um desenho qualquer. EntÃo tentei
desenhar um sapato; depois tentei desenhar uma flor num vaso.
Foi uma baralhada!
Quando nos voltámos a encontrar, mostrei-lhe as minhas
tentativas: "Oh, olhe! ", disse ele. "Está a ver, na parte de
trás, a linha do vaso nÃo toca na folha." (Eu tinha pretendido
que a linha chegasse até à folha.) "Isto está muito bem. É uma
maneira de indicar a profundidade. Foi muito inteligente da
sua parte. E o facto de nÃo ter feito todas as linhas da mesma
grossura (o que nÃo fora a minha intençÃo) é bom. Um desenho
com todas as linhas da mesma grossura é monótono." E continuou
no mesmo tom: usava tudo o que eu pensava que era erro para me
ensinar alguma coisa de um modo positivo. Nunca disse que
estava errado; nunca me rebaixava. Por isso eu continuava a
tentar e fui melhorando gradualmente, mas nunca estava
satisfeito.
Para praticar mais inscrevi-me também num curso por
correspondência, na International Correspondence Schools, e
devo dizer que eram
249

muito bons. Começaram por me mandar desenhar pirâmides e


cilindros, sombreá-los, etc. Cobrimos muitas áreas: desenho,
pastel, aguarela e pintura. Perto do fim falhei: fiz uma
pintura a óleo para eles, mas nunca a mandei. Estavam sempre a
mandar-me cartas insistindo em que eu continuasse. Eram muito
bons.
Pratiquei constantemente o desenho e fiquei muito interessado.
Se me encontrasse numa reuniÃo que nÃo avançasse nada -como
aquela em que Carl Rogers viera a Caltech discutir connosco se
Caltech deveria criar um Departamento de Psicologia-, eu
desenhava as outras pessoas. Tinha sempre comigo um pequeno
bloco de papel e praticava desenho onde quer que estivesse.
Por isso, enquanto Jerry me ensinava, eu esforçava-me muito.
Jerry, por outro lado, nÃo aprendeu muita física. A sua
atençÃo, desviava-se com demasiada facilidade. Tentei
ensinar-lhe qualquer coisa de electricidade e de magnetismo,
mas, assim que mencionava "electricidade", ele falava-me de um
motor qualquer que tinha e que nÃo funcionava e de como
poderia consertá-lo. Quando tentei demonstrarlhe o
funcionamento de um electríman fazendo uma pequena bobina de
arame e pendurando um prego num fio, fiz passar a corrente, o
prego, oscilou dentro da bobina e Jerry disse: "Oh! É tal e
qual como fornicar!" E assim a coisa acabou.
Agora temos nova discussÃo: se ele é melhor professor do que
eu, ou se eu sou melhor aluno do que ele.
Desisti da ideia de tentar conseguir que um artista
compreendesse o meu sentimento em relaçÃo à natureza para que
ele o pudesse expressar. Teria agora de redobrar os meus
esforços para aprender a desenhar, de modo a poder ser eu a
fazê-lo. Era um empreendimento muito ambicioso e guardei a
ideia completamente para mim, porque o mais natural era nunca
conseguir pô-la em prática.
Quando comecei a aprender a desenhar, uma senhora minha
conhecida viu as minhas tentativas e disse: "Devia ir ao Museu
de Arte de,' Pasadena. Têm lá aulas de desenho com modelos,
modelos nus."
"NÃo", disse eu; "nÃo desenho suficientemente bem:
sentir-me-ia muito embaraçado."
"É suficientemente bom. Devia ver alguns dos outros!"
Por isso arranjei a coragem suficiente para lá ir. Na primeira
liçÃo falaram-nos do papel -folhas muito grandes de papel de
baixa qualidade, do tamanho do de jornal -e das várias
espécies de lápis e de carvÃo que devíamos arranjar. Para a
segunda aula veio um modelo, que começou com uma pose de dez
minutos.
250
Comecei a desenhar o modelo, mas na altura em que acabei uma
perna haviam-se esgotado os dez minutos. Olhei em volta e
verifiquei que todos os outros já tinham completado o desenho,
com sombras e tudo.
Compreendi que estava fora do meu elemento. Mas, no fim, o
modelo ia posar durante trinta minutos. Trabalhei muito e, com
grande esforço, consegui desenhar todo o contorno. Desta vez
já estava meio esperançado. Por isso agora nÃo tapei o
desenho, como fizera todas as vezes anteriores.
Demos uma volta para ver até onde os outros tinham ido e
descobri o que eles realmente conseguiam fazer: tinham
desenhado o modelo, com detalhes e sombras, a carteira que
estava no banco onde ela estava sentada, a plataforma, tudo!
Tinham feito todos zip, zip, zip, zip, zip com o carvÃo, por
todo o lado, e eu penso que sou um caso desesperado,
absolutamente desesperado.
Volto atrás para tapar o meu desenho, que consiste nalgumas
linhas amontoadas no canto superior esquerdo do papel -até
essa altura só tinha desenhado em papel mais pequeno -, mas
alguns dos outros estavam perto: "Oh, olhem para este", diz um
deles. "Todas as linhas sÃo importantes! "
NÃo sabia ao certo o que aquilo significava, mas senti-me
suficientemente encorajado para ir à aula seguinte.
Entretanto, Jerry continuava a dizer-me que os desenhos
demasiado cheios nÃo prestam. O trabalho dele era ensinar-me a
nÃo me preocupar com os outros, e por isso me dizia que eles
nÃo eram assim tÃo bons.
Reparei que o professor nÃo falava muito com as pessoas (a
única coisa que me disse foi que o meu desenho era demasiado
pequeno para a folha). Em vez disso, tentava levar-nos a
experimentar novas abordagens. Pensei no modo como ensinamos a
Física: temos tantas técnicas -tantos métodos matemáticos -
que nunca paramos de dizer aos alunos como fazer as coisas.
Por outro lado, o professor de Desenho tem medo de dizer seja
o que for. Se as nossas linhas sÃo demasiado pesadas, o
professor nÃo pode dizer: "As suas linhas sÃo demasiado
pesadas", porque algum artista pode ter descoberto o meio de
fazer grandes quadros usando linhas pesadas. O professor nÃo
quer empurrar-nos numa direcçÃo determinada. Por isso, o
professor de Desenho tem o problema de comunicar como se
desenha por osmose, e nÃo por instruçÃo, enquanto o professor
de Física tem o problema de ensinar sempre técnicas, de
preferência ao espírito, de como resolver problemas de física.
251

1
Estavam sempre a dizer-me que me "soltasse", que me tornasse
mais descontraído em relaçÃo ao desenho. Achei que isso nÃo
fazia mais sentido do que dizer a uma pessoa que está a
aprender a conduzir que se "solte" ao volante. NÃo resulta. Só
nos podemos começar a descontrair depois de o sabermos fazer
cuidadosamente. Por isso resisti a esta permanente coisa da
descontracçÃo.
Um exercício que tinham inventado para nos descontrair era
desenhar sem olhar para o papel. NÃo tire os olhos do modelo;
olhe para ele e trace as linhas no papel sem olhar para o que
está a fazer.
Um dos tipos diz: "NÃo posso evitar. Tenho de fazer batota.
Aposto que estÃo todos a fazer batota!"
"Eu nÃo estou a fazer batota!", digo eu.
"Ah, conversa!", dizem eles.
Acabo o exercício e eles vêm ver o que eu tinha desenhado.
Descobrem que, de facto, eu NÃO estava a fazer batota; mesmo
no início, a ponta do meu lápis tinha-se quebrado e no papel
apenas havia sulcos.
Quando, finalmente, pus o lápis em condiÇÕES de trabalhar,
tentei novamente. Descobri que o meu desenho tinha uma espécie
de força -uma força estranha, quase no estilo de Picasso -que
me atraía. A razÃo por que aquele desenho me agradava era que
eu sabia que era impossível desenhar bem desse modo e,
portanto, o desenho nÃo tinha de ser bom -e a descontracçÃo
era isso mesmo. Tinha pensado que "soltarmonos" significava
"fazer desenhos desleixados", mas na realidade significava
descontrairmo-nos e nÃo nos preocuparmos com
modo como o desenho vai sair.
Progredi muito na aula e estava a sentir-me muito bom. Até à
última sessÃo, todos os modelos que tivemos tinham sido
bastante pesados e desproporcionados; era muito interessante
desenhá-los. Mas na última aula tivemos um modelo que era uma
loura elegantíssima, perfeitamente proporcionada. Foi nessa
altura que descobri que ainda nÃo sabia desenhar: nÃo
conseguia nada que fosse parecido com aquela linda rapariga!
Com os outros modelos, se desenhássemos qualquer coisa um
pouco grande ou um pouco pequena de mais, nÃo tinha
importância porque, de qualquer modo, estava tudo
desproporcionado. Mas, quando tentamos desenhar urna coisa tÃo
bem feita, nÃo nos podemos iludir: tem de sair mesmo certo!
Durante um dos intervalos ouvi um tipo que sabia mesmo
desenhar perguntar ao modelo se posava em privado. Ela disse
que sim. "óptimo. Mas ainda nÃo tenho um estúdio, pelo que
tenho de resolver primeiro esse problema. "
252
Achei que podia aprender muito com este tipo e que nunca teria
outra oportunidade de desenhar aquele modelo tÃo elegante se
nÃo fizesse alguma coisa. "Desculpe", disse-lhe eu, "tenho lá
em casa uma sala que podia servir de estúdio."
Concordaram ambos. Levei alguns dos desenhos do tipo ao meu
amigo Jerry, mas ele ficou horrorizado. "NÃo sÃo assim tÃo
bons", disse ele. Tentou explicar porquê, mas nunca percebi
verdadeiramente.
Até ter começado a aprender a desenhar, nunca me interessara
muito ver arte. Tinha muito pouca consideraçÃo pelas coisas
artísticas e apenas muito raramente procurava vê-las, como de
uma vez em que estive num museu no JapÃo. Vi uma pintura de um
bambu, feita em papel castanho, e o que ela tinha de belo para
mim era estar perfeitamente entre ser apenas umas pinceladas e
ser um bambu -podia considerá-la tanto uma coisa como outra.
No VerÃo a seguir às aulas de Desenho estive em Itália para
uma conferência científica e pensei ver a Capela Sistina.
Cheguei lá de manhà muito cedo, comprei o bilhete antes de
qualquer outra pessoa e corri pelas escadas acima assim que
abriu. Tive portanto o invulgar prazer de ver a capela inteira
durante um momento, em admiraçÃo silenciosa, antes que
entrasse mais alguém.
Depressa chegaram os turistas, e havia uma multidÃo de gente
às voltas, falando línguas diferentes, apontando para isto e
para aquilo. Dei uma volta, olhando durante algum tempo para o
tecto. Depois olhei um pouco mais para baixo e vi uns grandes
quadros, emoldurados, e pensei: "Nunca ouvi falar destes!"
Infelizmente, tinha deixado o meu guia no hotel, mas pensei
para comigo: "Sei porque é que estes painéis nÃo sÃo famosos;
nÃo prestam. " Mas entÃo olhei para outro, e disse: "Oh! Este
é dos bons!" Olhei para os outros: "Este é bom, este também,
mas aquele é uma porcaria." Nunca tinha ouvido falar daqueles
painéis, mas decidi que eram todos bons, tirando dois deles.
Entrei num lugar chamado Sala de Rafael e reparei no mesmo
fenómeno. Pensei para comigo: "Rafael é irregular. Nem sempre
obtém sucesso. Umas vezes é muito bom. Outras vezes é só
tralha."
Quando voltei ao meu hotel, procurei no guia. Na parte
referente à Capela Sistina: "Por baixo das pinturas de Miguel
Ãngelo há catorze painéis de Botticelli, Perugino" -ambos
grandes artistas -"e dois de Fulano, que nÃo sÃo
significativos. " Isto foi terrivelmente excitante: ser capaz
de distinguir uma maravilhosa obra de arte de uma que o nÃo é,
e nÃo saber defini-la. Como cientistas, pensamos sempre que
253

sabemos o que fazemos, pelo que temos tendência para


desconfiar do artista que diz: "É óptimo", ou: "NÃo presta", e
depois nÃo consegue explicar porquê, como Jerry fez com os
desenhos que lhe levei. Mas ali estava eu, vencido: também
fazia o mesmo!
Na Sala de Rafael verifiquei que o segredo residia no facto de
apenas alguns dos quadros terem sido pintados pelo grande
mestre; o resto fora-o por discípulos. Tinha gostado dos de
Rafael. Isto espicaçou muito a minha autoconfiança na minha
capacidade de apreciar a arte.
De qualquer modo, o tipo da aula de Arte e o modelo elegante
vieram a minha casa um certo número de vezes e eu tentei
desenhá-la e aprender com ele. Depois de muitas tentativas fiz
finalmente o que achei ser um desenho bastante bom -um desenho
da cabeça dela -e fiquei muito entusiasmado com este primeiro
sucesso.
Tinha a confiança suficiente com um velho amigo meu, Steve
Demitriades, para lhe pedir que autorizasse a sua linda mulher
a posar para mim, dando-lhe eu em troca o retrato. Ele riu:
"Se ela quer perder tempo a posar para si, nÃo me importo
nada, ali, ali, ah!"
Trabalhei muito no retrato dela e, quando ele o viu, virou-se
completamente para o meu lado: "É absolutamente maravilhoso!",
exclamou. "Consegue arranjar um fotógrafo que faça umas cópias
dele? Quero mandar uma para a minha mÃe, na Grécia!" A mÃe
dele nunca tinha visto a rapariga com quem ele casara. Foi
muito excitante para mim pensar que tinha melhorado ao ponto
de alguém querer um dos meus desenhos.
Aconteceu uma coisa semelhante numa pequena exposiçÃo de arte
que um tipo organizou em Caltech, para a qual contribuí com
dois desenhos e uma pintura. Ele disse: "Devíamos
atribuir-lhes um preço aos desenhos. "
Eu pensei: "Que disparate! NÃo estou a tentar vendê-los."
"Torna, a exposiçÃo mais interessante. Se nÃo se importa de se
separar deles, atribua-lhes um preço. "
Depois da exposiçÃo, o tipo disse-me que uma rapariga tinha
comprado um dos meus desenhos e queria falar comigo para saber
mais sobre ele.
O desenho chamava-se O Campo Magnético do SoL Para este
desenho tinha-me servido de uma das belas fotografias das
protuberâncias solares tirada no laboratório solar de
Colorado. Como eu compreendia a razÃo por que o campo
magnético do Sol mantinha as chamas tÃo elevadas e tinha, por
essa altura, desenvolvido uma técnica para desenhar as linhas
de um campo magnético (semelhantes ao cabelo solto
254
de uma rapariga), queria desenhar uma coisa bela que nenhum
artista pudesse pensar em desenhar: as linhas bastante
complicadas e retorcidas do campo magnético, juntas aqui e
espalhando-se mais adiante.
Expliquei-lhe tudo isto e mostrei-lhe a fotografia que me
tinha dado a ideia.
EntÃo contou-me a seguinte história: ela e o marido tinham ido
à exposiçÃo e haviam ambos gostado muito do desenho. "Porque
nÃo o compramos?", sugeriu ela.
O marido era daquele tipo de homens que nÃo sÃo capazes de
tomar uma decisÃo imediatamente. "Vamos pensar um pouco",
disse ele.
Ela apercebeu-se de que o aniversário dele era daí a alguns
meses, pelo que voltou no mesmo dia e comprou o desenho.
Nessa noite, quando ele voltou do trabalho, sentia-se
deprimido. Finalmente, ela conseguiu arrancar-lhe o motivo:
tinha pensado que seria bom oferecer-lhe o desenho, mas,
quando voltou à exposiçÃo, disseram-lhe que já tinha sido
vendido. Assim, ela tinha-o para lhe fazer uma surpresa no seu
aniversário.
O que aprendi com esta história foi uma coisa completamente
nova para mim: compreendi para que serve verdadeiramente a
arte, pelo menos em certos aspectos. Dá a uma pessoa,
individualmente, prazer. Podemos fazer uma coisa de que uma
pessoa goste tanto que fique deprimida, ou contente, por causa
dela! A ciência é como que geral: nÃo conhecemos os indivíduos
que a apreciaram directamente.
Compreendi que vender um desenho nÃo é ganhar dinheiro, mas
ter a certeza de que ele está em casa de uma pessoa que o quer
verdadeiramente; uma pessoa que se sentiria mal se nÃo o
tivesse. Isto era interessante.
Por isso decidi vender os meus desenhos. Contudo, nÃo queria
que comprassem os meus desenhos porque "nÃo se esperava que o
professor de Física tivesse jeito para o desenho, nÃo é
maravilhoso?" pelo que arranjei um pseudónimo. O meu amigo
Duciley Wright sugeriu "Au Fait", que em francês significa
"Está Feito". Escrevi-o O-fe-y, que afinal era um nome que os
negros usavam para "branco". Mas, no fim de contas, eu era
branco, pelo que nÃo fazia mal.
Um dos meus modelos queria que eu fizesse um desenho para
ficar com ele, mas nÃo tinha dinheiro. (Os modelos nÃo têm
dinheiro; se tivessem, nÃo seriam modelos.) Ofereceu-se para
posar três vezes de graça se eu lhe desse um desenho.
"Ao contrário", disse eu. "Dar-lhe-ei três desenhos se posar
uma vez de graça."
255

Ela pôs um dos desenhos que lhe dei na parede da sua pequena
sala e depressa o namorado reparou nele. Gostou tanto que quis
encomendar-me um retrato dela. Pagar-me-ia sessenta dólares.
(Agora o dinheiro estava a aumentar.)
EntÃo, ela teve a ideia de ser minha agente: ela podia ganhar
um pouco de dinheiro extra procurando vender os meus desenhos,
dizendo: "Há um novo artista em Altadena ... " Era divertido
estar num mundo diferente! Conseguiu expor alguns dos meus
desenhos na Bullock's, a loja mais elegante de Pasadena. Ela e
a senhora da secçÃo de arte escolheram uns desenhos -desenhos
de plantas que tinha feito mais no início (de que nÃo gostava)
-e mandaram-nos emoldurar. EntÃo recebi um documento assinado
da Bullock's dizendo que tinham os desenhos tal e tal à
comissÃo.
Claro que ninguém comprou nenhum, mas, tirando isso, fiz um
grande sucesso: tinha os meus desenhos à venda na Bullock's!
Era divertido tê-los lá, só para poder dizer um dia que tinha
atingido os pináculos do sucesso no mundo da arte.
Consegui a maior parte dos meus modelos através de Jerry, mas
também tentei arranjar modelos só para mim. Sempre que
encontrava uma jovem que parecia ser interessante para
desenhar, pedia-lhe que posasse para mim. Acabava sempre por
lhe desenhar a cara, porque nÃo sabia exactamente como abordar
o assunto de ela posar nua.
Uma vez em que estava em casa de Jerry disse a sua mulher,
Dabney: "Nunca consigo que as raparigas posem nuas; nÃo sei
como é que Jerry o consegue!"
"Bem, alguma vez lhes pediu?"
"Oh! Nunca pensei nisso."
A próxima rapariga que conheci e quis que posasse para mim era
aluna de Caltech. Perguntei-lhe se posaria nua. "Certamente",
disse ela, e pronto! EntÃo era fácil. Acho que tinha tantas
ideias na cabeça que pensava que de algum modo era errado
pedir.
Tenho desenhado muito até agora, e acabei por gostar mais de
desenhar nus. Tanto quanto sei, nÃo é exactamente arte; é uma
mistura. Quem sabe quais as percentagens?
Um dos modelos que conheci através de Jerry tinha sido uma
rapariga do Playboy. Era alta e linda. Todas as raparigas do
mundo, ao vê-la, ficariam com inveja. Contudo, achava-se alta
de mais. Quando entrava numa sala, curvava-se. Tentei
ensiná-la, quando posava, afazer o favor de se endireitar,
porque era tÃo elegante e fascinante. Finalmente, consegui
convencê-la.
256
EntÃo teve outra preocupaçÃo: tinha "mossas" perto da virilha.
Tive de ir buscar um livro de anatomia para lhe mostrar que se
tratava da ligaçÃo dos músculos ao ílio e lhe explicar que nÃo
se podem ver aquelas mossas em toda a gente; para as ver, tem
de estar tudo certo, em perfeita proporçÃo, como nela. Aprendi
com ela que todas as mulheres se preocupam com o seu aspecto,
por muito bonitas que sejam.
Queria fazer um quadro deste modelo a cores, em pastel, só
para experimentar. Pensei fazer primeiro um esboço a carvÃo,
que depois cobriria com pastel. Quando acabei o desenho a
carvÃo que tinha feito sem me preocupar como ficaria, percebi
que era um dos melhores desenhos que eu já fizera. Decidi
deixá-lo assim e desisti do pastel para aquele.
A minha "agente"'olhou para ele e quis levá-lo.
"NÃo pode vender esse", disse eu, "é em papel do tipo de
jornal. "
"Oh, nÃo faz mal", disse ela.
Umas semanas depois voltou com o quadro numa linda moldura de
madeira com uma faixa vermelha e uma borda dourada. Uma coisa
engraçada que deve, em geral, desagradar aos artistas é o
quanto um desenho melhora quando lhe pomos uma moldura à
volta. A minha agente disse-me que houve uma senhora que ficou
toda entusiasmada com o desenho e que o levaram para
emoldurar. O homem disse-lhes que havia técnicas especiais
para montar desenhos feitos naquele tipo de papel: impregná-lo
com plástico, fazer isto, fazer aquilo... EntÃo a senhora tem
aquele trabalho todo com o desenho que eu tinha feito e depois
manda a minha agente trazer-mo. "Acho que o artista gostaria
de ver como está lindo emoldurado", disse ela.
Gostei, realmente. Houve outro exemplo do prazer directo que
alguém conseguiu com um dos meus quadros. Por isso me deu
realmente muito gozo vender os desenhos.
Houve um período em que havia restaurantes de topless na
cidade: podíamos ir lá almoçar ou jantar e as raparigas
dançavam nuas da parte de cima e, passado um bocado, sem nada
vestido. Um destes lugares ficava apenas a milha e meia da
minha casa, pelo que ia lá muitas vezes. Sentava-me numa das
cabinas e fazia qualquer trabalho de física nas toalhinhas de
papel de bordas arrendadas, e por vezes desenhava uma das
bailarinas ou um dos clientes, só para praticar.
A minha mulher, Gweneth, que é inglesa, aceitava bem o facto
de eu ir àquele lugar. Dizia: "Os Ingleses vÃo aos seus
clubes. " Portanto, era como se fosse o meu clube.
Havia quadros pendurados, mas eu nÃo gostava muito deles.
Tinham aquelas cores fluorescentes em veludo negro -bastante
feias-, uma rapariga a tirar a camisola, ou qualquer coisa
assim. Bem, eu fizera um desenho bastante bonito do meu modelo
Kathy e dei-o ao dono do restaurante para o pendurar na
parede, e ele ficou encantado.
O ter-lhe dado o retrato acabou por dar resultados úteis. O
dono ficou muito meu amigo e estava sempre a dar-me bebidas de
graça. Agora, cada vez que entrava no restaurante, vinha uma
criada trazer-me o meu 7-Up grátis. Via dançar as raparigas,
fazia um pouco de física, preparava uma aula, ou desenhava um
pouco. Se ficava um pouco cansado, via o espectáculo durante
algum tempo e depois trabalhava um pouco mais. O dono sabia
que eu nÃo queria ser incomodado, pelo que, se algum bêbado se
aproximasse e começasse a falar comigo, vinha imediatamente
uma criada tirá-lo dali. Se se aproximasse uma rapariga, ele
nÃo fazia nada. Dávamo-nos muito bem. Chamava-se Gianonni.
O outro efeito do meu desenho em exposiçÃo era as pessoas
fazerem perguntas sobre ele. Um dia um tipo veio ter comigo e
disse: "Gianonni disse-me que foi você quem fez aquele
quadro."
"Pois fui."
"óptimo. Queria encomendar um desenho."
"Muito bem. O que é que queria?"
"Quero um quadro de uma toureira nua a ser carregada por um
touro com cabeça de homem. "
"Bem, hum, ajudar-me-ia um pouco saber para que é o desenho."
"Quero-o para o meu estabelecimento. "
"Que espécie de estabelecimento? "
"É um salÃo de massagens: sabe, raparigas massagistas, está a
perceber?"
"Pois, estou a perceber." NÃo queria desenhar uma toureira nua
a ser carregada por um touro com cabeça de homem, pelo que
tentei fazê-lo desistir. "Que efeito pensa que isso poderá
causar nos clientes e como fará sentirem-se as raparigas? Os
homens entram e você fá-los ficar todos excitados com o
quadro. É assim que quer que eles se sintam perante as
raparigas?"
NÃo fica convencido.
"Suponha que entra a polícia e vê o quadro e você afirma que é
um salÃo de massagens."
"Está bem, está bem", diz ele. "Tem razÃo. Tenho de o alterar.
O que quero é um quadro que, se os polícias olharem para ele,
esteja
258
perfeitamente adequado a um salÃo de massagens, mas que, se um
cliente olhar para ele, lhe dê ideias."
"Está bem", disse eu. Combinámo-lo por sessenta dólares e
comecei a trabalhar no desenho. Primeiro tinha de descobrir
como fazê-lo. Fartei-me de pensar e várias vezes senti que
mais valia desenhar a toureira nua!
Finalmente descobri como fazê-lo: desenharia uma escrava numa
Roma imaginária, massajando qualquer romano importante -um
senador, talvez. Como é uma escrava, tem na cara uma certa
expressÃo. Sabe o que vai acontecer a seguir, e está como que
resignada.
Trabalhei muito naquele quadro. Usei Kathy como modelo. Mais
tarde arranjei outro modelo para o homem. Fiz uma porçÃo de
estudos e depressa o preço dos modelos ia em oitenta dólares.
NÃo me importava com o dinheiro; agradava-me o desafio de ter
de satisfazer uma encomenda. Por fim acabei com um quadro de
um homem musculoso deitado numa mesa com a escrava a
massajá-lo: ela usa uma espécie de toga que cobre um seio -o
outro está nu -e apanhei mesmo bem a expressÃo de resignaçÃo
no seu rosto.
Estava quase pronto para entregar a minha obra-prima
encomendada no salÃo de massagens, quando Gianonni me disse
que o tipo fora preso e estava na cadeia. Por isso perguntei
às raparigas do restaurante de topless se sabiam de bons
salSes de massagens na regiÃo de Pasadena que quisessem
pendurar o meu desenho no átrio.
Deram-me nomes e localizaÇÕES de casas em Pasadena e nos
arredores e disseram-me coisas como: "Quando for ao salÃo de
massagens tal, pergunte por Frank, é bom tipo. Se ele nÃo
estiver lá, nÃo entre. " Ou: "NÃo fale com Eddie. Eddie nunca
compreenderia o valor de um desenho. "
No dia seguinte enrolei o meu quadro, pu-lo na parte de trás
da minha carrinha e minha mulher, Gweneth, desejou-me sorte
quando eu me preparava para visitar os bordéis de Pasadena
para vender o meu desenho.
Justamente antes de me dirigir ao primeiro lugar da minha
lista pensei para comigo: "Antes de ir a qualquer outro lugar
é melhor ver na casa que ele tinha. Talvez ainda esteja aberta
e talvez o novo gerente queira adquirir o meu desenho. " Fui
até lá e bati à porta. Esta abriu-se um pouco e pude ver um
olho de rapariga: "Nós conhecemo-lo?", perguntou ela.
"NÃo, nÃo conhecem, mas nÃo quer comprar um desenho apropriado
para o seu salÃo de entrada?"
259

"Lamento", disse ela, "mas já contratámos um artista para nos


fazer um desenho e ele está a fazê-lo."
"Sou eu o artista", disse eu, "e o vosso desenho está pronto!"
Afinal o tipo, quando ia para a cadeia, contou à mulher a
nossa combinaçÃo. Assim, entrei e mostrei-lhes o desenho.
A mulher e a irmà do tipo, que agora dirigiam a casa, nÃo
ficaram inteiramente satisfeitas com ele; queriam que as
raparigas o vissem. Pendurei-o na parede, na entrada, e as
raparigas saíram todas das várias salas das traseiras e
começaram a fazer comentários.
Uma das raparigas disse que nÃo gostava da expressÃo da cara
da escrava: "NÃo parece feliz", disse ela. "Devia estar a
sorrir."
Disse-lhe: "Diga-me: quando massaja um tipo e ele nÃo olha
para si, você está a sorrir?"
"Oh, nÃo! ", disse ela. "Sinto-me exactamente como ela parece
sentir-se. Mas nÃo está certo pôr isso no quadro."
Deixei lá o quadro, mas, ao fim de uma semana de hesitaçÃo,
decidiram que nÃo o queriam. Afinal a verdadeira razÃo por que
nÃo o queriam era o seio nu. Tentei explicar que o meu desenho
era uma oitava abaixo do pedido original, mas elas disseram
que nÃo tinham as mesmas ideias que o tipo sobre o assunto.
Pensei que a ironia de pessoas que dirigiam um estabelecimento
daqueles se escandalizarem com um seio nu era divertida e
levei o desenho para casa.
O meu amigo Dudley Wright, que é um homem de negócios, viu o
desenho e contei-lhe a história. Ele disse: "Deve triplicar o
preço. Com a arte ninguém está certo do que as coisas valem,
pelo que as pessoas muitas vezes pensam: Se o preço é mais
alto, deve ser mais valioso!'. "
Eu disse: "Está doido! ", mas, só por piada, comprei uma
moldura de vinte dólares e encaixilhei-o para que estivesse
pronto para o cliente seguinte.
Um tipo da meteorologia viu o desenho que eu tinha dado a
Gianonni e perguntou se eu tinha outros. Convidei-o e à sua
mulher para visitarem o "estúdio" em minha casa e
interrogaram-me sobre o desenho acabado de emoldurar. "Este
custa duzentos dólares. " (Tinha multiplicado sessenta por
três e adicionado vinte para a moldura.) No dia seguinte
voltaram e compraram-no. Portanto, o desenho para o salÃo de
massagens acabou no escritório de um meteorologista.
Um dia houve uma rusga da polícia na casa do Gianonni e
algumas das bailarinas foram presas. Havia quem quisesse
impedir Gianormi de apresentar espectáculos de dança em
topless e Gianonni nÃo queria
260
parar. EntÃo houve uma grande questÃo em tribunal por causa
disso; veio tudo nos jornais locais.
Gianormi andou a pedir a todos os clientes que testemunhassem
a seu favor. Tinham todos uma desculpa: "Dirijo um campo de
dia e, se os pais sabem que vou a este lugar, nÃo mandam os
miúdos para o meu campo ... " Ou: "Estou neste negócio e, se
se torna público que eu venho aqui, perdemos clientes."
Penso para comigo: "Sou aqui o único homem livre. NÃo tenho
nenhuma desculpa! Gosto deste lugar e gostava que continuasse.
NÃo vejo nada de mal na dança em topless." Por isso disse a
Gianonni: "Sim, tenho muito gosto em testemunhar."
No tribunal, a grande pergunta era: "A dança em topless é
aceitável para a comunidade -os padrSes da comunidade
permitem-na?" O advogado de defesa tentava fazer de mim um
perito nos padrSes da comunidade. Perguntou-me se ia a outros
bares.
Vou."
"E quantas vezes por semana ia normalmente à casa de
Gianonni?"
"Cinco ou seis vezes por semana. " (Isso foi para os jornais:
o professor de Física de Caltech vai ver dança em topless seis
vezes por semana.)
"Que secÇÕES da comunidade lá estavam representadas?"
"Quase todas: havia tipos do negócio de propriedades, um tipo
da câmara, trabalhadores do posto de gasolina, tipos de firmas
de engenharia, um professor de Física ... "
"Diria entÃo que o espectáculo de topless é aceitável para a
comunidade, dado que tantas das suas secÇÕES o vêem e o
apreciam?"
"Preciso de saber o que entende por 'aceitável para a
comunidade'. NÃo há nada que seja aceite por toda a gente,*
portanto, que percentagem da comunidade deve aceitar uma coisa
para que ela seja 'aceitável para a comunidade'?"
O advogado sugere um número. O outro advogado objecta. O juiz
ordena um intervalo e recolhem-se todos durante quinze minutos
até decidirem que "aceitável para a comunidade" significa
aceite por 50% da mesma. Apesar de os ter levado a serem
precisos, eu nÃo tinha números correctos como prova, pelo que
disse: "Creio que a dança em topless é aceite por mais de 50%
da comunidade, sendo portanto aceitável para a mesma."
Gianonni perdeu temporariamente a questÃo e esta, ou outra
muito semelhante, acabou por ir ao Supremo Tribunal.
Entretanto, a casa continuou aberta e eu recebi ainda mais
7-Ups grátis.
261

Por essa altura houve mais umas tentativas para desenvolver um


interesse pela arte em Caltech. Alguém contribuiu com o
dinheiro para converter um velho edificio de umas instalaÇÕES
científicas em estúdios de arte. Forneceram equipamento
necessário aos estudantes e contrataram um artista da Ãfrica
do Sul para coordenar e apoiar as actividades artísticas na
zona de Caltech.
Vieram várias pessoas dar aulas. Consegui que Jerry Zorthian
desse aulas de Desenho e veio um tipo ensinar Litografia, que
tentei aprender.
O artista sul-africano veio uma vez a minha casa ver os meus
desenhos. Disse que seria divertido eu fazer uma exposiçÃo
individual. Desta vez eu estava a fazer batota: se nÃo fosse
professor em Caltech, nunca teria pensado que os meus quadros
mereciam ser expostos.
"Alguns dos meus melhores desenhos já foram vendidos e nÃo me
sinto bem a pedir às pessoas", disse eu.
"NÃo tem de se preocupar, Sr. Feynman", sossegou-me ele. "NÃo
terá de lhes pedir. Nós trataremos de tudo e organizaremos a
exposiçÃo oficialmente e como deve ser."
Dei-lhe uma lista das pessoas que tinham comprado desenhos
meus e em breve elas receberam uma chamada telefónica dele:
"Consta-nos que tem um Ofey."
"Oh, sim! "
"Estamos a planear fazer uma exposiçÃo de Ofeys e gostaríamos
de saber se estaria disposto a emprestar-nos o seu." Claro que
ficaram encantados.
A exposiçÃo foi feita na cave do Athenaeum, o clube da
Faculdade de Caltech. Era tudo como nas exposiÇÕES a sério:
todos os quadros possuíam títulos e os que haviam sido
emprestados pelos donos tinham o devido reconhecimento:
"Emprestado pelo Sr. Gianonni", por exemplo.
Um dos desenhos era um retrato de uma linda loura, modelo da
aula de Arte, que eu originariamente tencionava que fosse um
estudo do sombreado: colocara uma luz à altura das pernas, um
pouco de lado e apontando para cima. Como ela estava sentada,
tentara desenhar as sombras tal como as via -o nariz lançava
a sua sombra de modo pouco natural através da cara-, de modo a
nÃo parecerem tÃo mal. Desenhara também o tronco, pelo que se
viam igualmente os seios e a sombra que faziam. Meti-o com os
outros desenhos na exposiçÃo e chamei-lhe Madame Curie
Observando as RadiaÇÕES do Rádio. A mensagem que pretendia
transmitir era que ninguém pensa em Madame Curie
262
como mulher, feminina, com um lindo cabelo, seios nus, e tudo
isso.
Só pensam na sua ligaçÃo ao rádio.
Um proeminente projectista industrial chamado Henry Dreyfuss
convidou várias pessoas para uma recepçÃo em sua casa depois
da exposiçÃo: a mulher, que tinha contribuído com dinheiro
para apoiar as artes, o presidente de Caltech e a mulher, etc.
Um desses amantes da arte aproximou-se e começou a conversar
comigo: "Digame, professor Feynman, desenha a partir de
fotografias ou de modelos?"
"Desenho sempre directamente a partir de um modelo vivo."
"Bem, como é que conseguiu que Madame Curie lhe servisse de
modelo?"
Por essa altura, o Museu de Arte do Estado de Los Angeles teve
uma ideia semelhante à que eu tivera: de que os artistas
estavam muito longe de compreender a ciência. A minha ideia
era que os artistas nÃo compreendiam a generalidade e a beleza
subjacentes na natureza e nas suas leis (e portanto nÃo as
podiam transmitir na sua arte). A ideia do Museu era que os
artistas deviam saber mais sobre a tecnologia: deviam
familiarizar-se mais com as máquinas e as outras aplicaÇÕES da
ciência.
O Museu de Arte organizou um esquema em que alguns dos
artistas verdadeiramente bons iam para várias empresas que
ofereciam
tempo e dinheiro para o projecto. Os artistas visitavam essas
empresas e iam bisbilhotando até verem qualquer coisa
interessante que pudes
sem usar no seu trabalho. O Museu pensou que seria uma boa
ajuda que alguém que soubesse qualquer coisa sobre tecnologia
pudesse ser uma espécie de ligaçÃo com os artistas, quando, de
vez em quando, eles visitavam as empresas. Como sabiam que eu
tinha bastante jeito para explicar as coisas às pessoas e nÃo
era um idiota chapado no que diz respeito à arte (de facto,
penso que sabiam que eu estava a tentar aprender a desenhar),
pediram-me que fizesse isso e eu concordei.
Foi muito divertido visitar as empresas com os artistas. O que
acontecia normalmente era um tipo mostrar-nos um tubo que
descarregava
faíscas de um lindo azul, formando padrSes. Os artistas
ficavam todos entusiasmados e perguntavam-me como podiam usar
aquilo numa exposiçÃo. Quais eram as condiÇÕES necessárias
para o fazer
funcionar?
Os artistas eram pessoas muito interessantes. Alguns deles
eram uns completos aldrabSes: afirmavam ser artistas e toda a
gente concordava,
263

mas, quando começávamos a falar com eles, o que diziam nÃo


fazia nenhum sentido. Um tipo em particular o maior aldrabÃo,
vestia-se sempre de modo estranho e tinha um enorme chapéu de
feltro preto. Respondia às perguntas de modo incompreensível
e, quando tentávamos descobrir mais coisas sobre o que ele
tinha dito, fazendo-lhe perguntas sobre algumas das palavras
que usava, lá partia ele noutra direcçÃo! A única coisa com
que contribuiu, por fim, para a exposiçÃo sobre arte e
tecnologia foi um retrato de si próprio.
Outros artistas com quem falei diziam coisas que a princípio
nÃo faziam sentido, mas faziam grandes esforços para me
explicar as suas ideias. Uma vez fui a qualquer lado,
enquadrado neste esquema, com Robert lrwin. Foi uma viagem de
dois dias e, depois de um grande esforço de discussÃo,
compreendi finalmente o que ele me tentava explicar e achei
que era muito interessante e maravilhoso.
Depois havia os artistas que nÃo faziam a mínima ideia do que
era o mundo real. Pensavam que os cientistas eram uma espécie
de grandes mágicos que podiam fazer fosse o que fosse e diziam
coisas como: "Quero fazer um quadro a três dimensSes em que a
figura está suspensa no espaço, brilha e cintila." Inventavam
o mundo que queriam e nÃo faziam ideia do que era razoável ou
nÃo fazer.
Finalmente realizou-se uma exposiçÃo e pediram-me que fizesse
parte de um júri para avaliar as obras de arte. Apesar de
haver algumas coisas boas inspiradas pelas visitas dos
artistas às empresas, achei que a maioria das boas obras de
arte eram coisas que apareciam no último minuto por desespero
e, na realidade, nÃo tinham nada a ver com a tecnologia. Todos
os outros membros do júri discordaram e encontrei algumas
dificuldades. NÃo tenho jeito para criticar arte e nem sequer
deveria ter feito parte do júri.
Havia um tipo no Museu de Arte do estado, chamado Maurice
Tuchman, que sabia realmente o que dizia a respeito de arte.
Ele sabia que
eu fizera aquela exposiçÃo individual em Caltech. Disse-me:
"Sabe, nunca mais vai voltar a desenhar."
"O quê? Isso é ridículo! Porque havia eu de ... "
"Porque teve uma exposiçÃo individual e é apenas um amador."
Apesar de ter realmente desenhado depois disso, nunca mais me
esforcei tanto, com a mesma energia e intensidade, como antes.
E também nÃo voltei a vender nenhum desenho. Era um tipo
esperto e aprendi muito com ele. Poderia ter aprendido muito
mais se nÃo fosse tÃo tei moso!
A electricidade é fogo?
No início dos anos 50 contraí temporariamente uma doença da
meia-idade: comecei a fazer conferências filosóficas sobre a
ciência -como a ciência satisfaz a curiosidade, como nos dá
uma nova visÃo do mundo, como dá ao homem a capacidade de
fazer coisas, como lhe dá poder e a questÃo é se, em face do
recente desenvolvimento da bomba atómica, será boa ideia dar
ao homem tanto poder. Pensei também na relaçÃo entre a ciência
e a religiÃo e foi por essa altura que fui convidado para uma
conferência em Nova Iorque em que se ia discutir "a ética da
igualdade".
Já tinha havido uma conferência com pessoas mais velhas, em
qualquer parte de Long Island, e nesse ano decidiram convidar
algumas pessoas mais novas para discutir os relatórios da
conferência anterior.
Antes de lá chegar enviaram a todos uma lista de "livros que
poderá achar de leitura interessante e, por favor, mande-nos
quaisquer livros que queira que os outros leiam, e
guardá-los-emos na biblioteca para que os outros os possam
ler".
Começo pela primeira página da lista: nÃo lera nenhum dos
livros e sinto-me muito pouco à vontade -dificilmente me
integro. Olho para a segunda página: nÃo lera um único. Depois
de ver toda a lista descobri que nÃo tinha lido nenhum dos
livros. Devo ser um idiota, um iletrado! Havia lá livros
maravilhosos, como On Freedom, de Thomas Jefferson, e coisas
do gênero, e havia alguns autores que eu já tinha lido. Havia
um livro de Heisenberg, um de SchrSdinger e um de Einstein,
mas eram coisas como My Later Years, de Einstein, e What Is
Life, de SchrSdinger -diferentes do que eu lera. Por isso
sentia que nÃo estava no meu elemento e que nÃo me devia ter
metido naquilo. Talvez pudesse sentar-me sossegado e escutar
apenas.
Vou ao primeiro grande encontro de apresentaçÃo e um tipo
levanta-se e explica que temos dois problemas a discutir. O
primeiro é um pouco confuso -qualquer coisa sobre ética e
igualdade, mas nÃo percebo qual é exactamente o problema. E o
segundo é: "Vamos demonstrar com os nossos esforços um modo
de podermos ter um diálogo entre pessoas de campos diferentes.
" Havia um advogado internacional, um historiador, um padre
jesuíta, um rabi, um cientista (eu), etc.
Bem, o meu espírito lógico diz imediatamente: nÃo tenho de me
preocupar com o segundo problema, porque, se resultar, resulta
e, se nÃo
265

resultar, nÃo resulta -nÃo temos de provar que conseguimos


dialogar e de discutir a possibilidade de um diálogo se nÃo
tivermos nenhum diálogo acerca de que falar! Por isso, o
problema primário é o primeiro, que nÃo compreendi.
Estava preparado para levantar a mÃo e dizer: "Poderá, por
favor, definir melhor o primeiro problema?", mas pensei: "NÃo,
eu é que sou o ignorante, é melhor ouvir. NÃo quero começar já
a arranjar sarilhos. "
O subgrupo de que eu fazia parte devia discutir a "ética, da
igualdade na educaçÃo". Nas reuniSes do nosso subgrupo, o
padre jesuíta estava sempre a falar da "fragmentaçÃo do
conhecimento". Dizia: "O verdadeiro problema na ética da
igualdade em educaçÃo é a fragmentaçÃo do conhecimento." Este
jesuíta relembrava o século xiii, quando a igreja católica
controlava toda a educaçÃo e o mundo inteiro era simples.
Havia Deus e tudo vinha de Deus; estava tudo organizado. Por
isso o conhecimento se tinha fragmentado. Eu sentia que "a
fragmentaçÃo do conhecimento" nÃo tinha nada a ver com
"aquilo", mas, como "aquilo" nunca tinha sido definido, nÃo
havia nenhuma maneira de o demonstrar.
Finalmente perguntei: "Qual é o problema ético associado à
fragmentaçÃo do conhecimento? " Ele só me respondia com
grandes rodeios e eu dizia: "NÃo compreendo", e os outros
todos diziam que compreendiam e tentavam explicar-me, mas nÃo
conseguiam!
Por isso os outros me mandaram escrever a razÃo por que eu
pensava que a fragmentaçÃo do conhecimento nÃo era um problema
ético. Voltei para o meu quarto e escrevi cuidadosamente, o
melhor que podia, o que eu pensava que deveria ser o assunto
"a ética da igualdade na educaçÃo" e dei alguns exemplos de
tipos de problemas de que eu pensava que deveríamos falar. Por
exemplo, na educaçÃo aumentamos as diferenças. Se alguém é bom
nalguma coisa, tentamos desenvolver as suas capacidades, o que
resulta em diferenças, ou desigualdades. Portanto, se a
educaçÃo aumenta a desigualdade, isso é ético? EntÃo, depois
de ter dado mais alguns exemplos, continuei, dizendo que
enquanto a "fragmentaçÃo do conhecimento" é uma dificuldade
devida ao facto de a complexidade do mundo fazer com que seja
difícil aprender as coisas, à luz da minha definiçÃo do
domínio do tema nÃo conseguia entender como a fragmentaçÃo do
conhecimento poderia ter alguma coisa a ver com qualquer
aproximaçÃo do que poderia ser a ética da igualdade na
educaçÃo.
No dia seguinte levei o que tinha escrito para a conferência e
o tipo disse: "O Sr. Feynman levantou algumas questSes muito
interessantes
266
que deveremos discutir; reservá-las-emos para uma possível
discussÃo futura." NÃo perceberam absolutamente nada da minha
intençÃo. Eu estava a tentar definir o problema e em seguida
demonstrar que "a fragmentaçÃo do conhecimento" nÃo tinha nada
a ver com ele. E a razÃo de nÃo se ter chegado a lado nenhum
nessa conferência foi nÃo terem definido claramente o tema "a
ética da igualdade na educaçÃo", e portanto ninguém saber
exactamente do que se estava a falar.
Havia um sociólogo que escrevera um trabalho para todos lermos
uma coisa que ele tinha escrito adiantado. Comecei a ler
aquilo e os olhos saltavam-me: nÃo percebia absolutamente
nada! Pensei que isso acontecesse por nÃo ter lido nenhum dos
livros da lista. Tinha aquele sentimento incómodo de "nÃo
sirvo para isto", até que, finalmente, disse para comigo: "Vou
parar e ler umafrase devagar, para poder descobrir que raio
ela significa."
Por isso parei -ao acaso -e li muito cuidadosamente a frase
seguinte. NÃo a recordo com precisÃo, mas era muito parecida
com isto: "O membro individual da comunidade social recebe
frequentemente a sua informaçÃo via canais simbólicos e
visuais." Percorri-a em todos os sentidos e traduzi-a. Sabem o
que significa? "As pessoas lêem."
Passei à frase seguinte e compreendi que podia também
traduzi-la. EntÃo tornou-se como que uma coisa vazia: "Algumas
vezes as pessoas lêem; outras vezes as pessoas ouvem rádio",
etc., mas escrito de modo tÃo arrevezado que ao princípio nÃo
consegui perceber, e, quando finalmente a decifrei, nÃo tinha
nada de especial.
Nesse encontro só aconteceu uma coisa agradável, ou divertida.
Na conferência, todas as palavras ditas por todos os tipos na
sessÃo plenária eram tÃo importantes que tinham lá um
estenógrafo a anotar absolutamente tudo. No segundo dia, o
estenógrafo veio ter comigo e perguntou-me: "Qual é a sua
profissÃo? De certeza que nÃo é professor. "
"Mas sou", disse eu.
"De quê?"
"De Física, ciência."
"Oh! Deve ser essa a razÃo", disse ele.
"RazÃo para quê?"
Ele disse: "Sabe, sou estenógrafo e anoto tudo o que se diz
aqui. Ora, quando os outros falam, escrevo tudo o que dizem,
mas nÃo percebo nada. Mas, cada vez que você se levanta e faz
uma pergunta ou diz alguma coisa, percebo exactamente o que
quer dizer -qual é a per
267

gunta e o que está a dizer-, pelo que pensei que nÃo podia ser
professor! "
A certa altura houve um jantar especial e o director da secçÃo
de Teologia, um homem muito simpático, acentuadamente judeu,
proferiu um discurso. Foi um bom discurso e ele era um orador
muito bom, pelo que, embora agora, que vos estou a contar,
pareça loucura, nessa altura a sua ideia principal pareceu
absolutamente óbvia e verdadeira. Falou das grandes diferenças
de qualidade de vida entre os vários países, diferenças que
causam invejas, conduzem a conflitos e, agora, que temos as
armas atómicas, a qualquer guerra e estaremos condenados;
portanto, a saída consiste em lutar pela paz, certificando-nos
de que nÃo existem grandes diferenças entre as várias regiSes,
e, como temos tanto nos Estados Unidos, deveríamos dar o
suficiente aos outros países para ficarmos equilibrados.
Ouvíamos todos isto e estávamos todos prontos a sacrificar-nos
e a pensar que o deveríamos fazer. Mas voltei a mim a caminho
de casa.
No dia seguinte, um dos tipos do nosso grupo disse: "Acho que
aquele discurso de ontem à noite foi tÃo bom que devíamos
todos subscrevêlo, e seria o resumo da nossa conferência."
Comecei a dizer que a ideia de distribuir tudo igualmente se
baseava na teoria de que há apenas uma quantidade X de
materiais no mundo, de que, de algum modo, os tirámos aos
países mais pobres e de que deveríamos, portanto, devolvê-los.
Mas esta teoria nÃo tem em conta a verdadeira razÃo das
diferenças entre os países -isto é, o desenvolvimento de
novas técnicas para a produçÃo de alimentos, o desenvolvimento
de maquinaria para produzir alimentos e outras coisas e o
facto de toda esta maquinaria exigir a concentraçÃo do
capital. O importante nÃo sÃo os materiais, mas o poder para
os produzir. Mas agora compreendo que aquelas pessoas nÃo
estavam ligadas à ciência; nÃo a compreendiam. NÃo
compreendiam a tecnologia; nÃo compreendiam o seu tempo. A
conferência enervou-me tanto que uma rapariga que eu conhecia
em Nova Iorque teve de me acalmar: "Olhe", disse ela, "está, a
tremer! Ficou completamente maluco! Acalme-se, nÃo leve isso
tÃo a sério. Analise as coisas e encare-as como sÃo. " Por
isso pensei na conferência, como tinha sido disparatada, e
fiquei um pouco melhor. Mas, se alguém me pedisse que voltasse
a participar numa coisa daquelas, fugia como doido! NÃo!
Decididamente, nÃo! E ainda hoje recebo convites para esse
tipo de coisas.
Quando chegou a altura de os outros disseram quanto tinham
aproveitado
268
fazer a avaliaçÃo final da conferência como tinha sido um
sucesso, etc. Quando me perguntaram, eu disse: "Esta
conferência foi pior do que um teste de Rorschach: há um
borrÃo sem sentido e os outros perguntam-nos o que pensamos
ver, mas, quando lhes dizemos, começam a discutir connosco!"
Pior ainda: no final da conferência iam realizar outro
encontro, mas desta vez com a presença de público, e o
indivíduo encarregado do nosso grupo tem o descaramento de
dizer que, em virtude de produzirmos tanto, nÃo haverá tempo
para discussÃo pública, pelo que apenas contaremos ao público
tudo o que produzimos. Os meus olhos esbugalharam -se: achava
que nÃo tínhamos produzido absolutamente nada!
Finalmente, quando discutíamos a questÃo de termos ou nÃo
criado um processo de diálogo entre pessoas de disciplinas
diferentes -o nosso segundo "problema" básico-, eu disse que
tinha reparado em qualquer coisa interessante. Cada um de nós
falava do que pensava ser a "ética da igualdade" do nosso
ponto de vista, sem prestar atençÃo ao ponto de vista do
outro. Por exemplo, o historiador propunha que o modo de
compreender os problemas éticos é ter uma visÃo histórica de
como eles evoluíram e se desenvolveram; o advogado
internacional sugeriu que o meio de o conseguir era ver como,
na realidade, as pessoas agem em diferentes situaÇÕES e tomam
as suas disposiÇÕES; o padre jesuíta estava sempre a
referir-se à "fragmentaçÃo do conhecimento"; e eu, como
cientista, propunha que isolássemos o problema de um modo
análogo às técnicas experimentais de Galileu; e por aí fora.
"Assim, na minha opiniÃo", disse eu, "nÃo tivemos nenhum
diálogo. Tivemos apenas caos! "
Claro que fui atacado de todos os lados: "NÃo acha que a ordem
pode nascer do caos?"
"Uh, bem, como princípio geral, ou..." NÃo percebia o que
fazer com uma pergunta como: "Poderá a ordem nascer do caos?"
Sim, nÃo...
Havia uma data de idiotas naquela conferência, idiotas
pomposos, e os idiotas pomposos pSem-me fora de mim. Os
idiotas normais nÃo sÃo maus; podemos falar com eles e tentar
ajudá-los. Mas os idiotas pomposos -tipos que sÃo idiotas e
estÃo sempre a disfarçar e a querer mostrar às pessoas como
sÃo maravilhosos com toda aquela charlatanice -, ISSO É QUE
NÃO SUPORTO! Um idiota nÃo é aldrabÃo; um idiota honesto nÃo é
mau. Mas um idiota desonesto é horrível! E foi o que me
apareceu na conferência, um monte de idiotas pomposos, e
fiquei muito aborrecido. NÃo tenciono voltar a aborrecer-me
desse
269

modo, pelo que nÃo tornarei a participar em conferências


interdisciplinares.
Um apontamento: enquanto durou a conferência, fiquei no
Seminário Teológico Judeu, onde estudavam jovens rabis -acho
que eram ortodoxos. Como tenho antecedentes judeus, sabia
algumas das coisas que me disseram sobre o Talmude, mas nunca
tinha visto o Talmude. Foi muito interessante. Tem grandes
páginas e num pequeno quadrado no canto da página está o
Talmude original e depois, numa espécie de margem em forma de
L, à volta do quadrado, há comentários escritos por diversas
pessoas. O Taimude evoluiu e foi tudo discutido várias vezes,
muito cuidadosamente, num tipo de raciocínio medieval. Penso
que os comentários acabaram por volta do século xiv, ou xv, ou
Xvi nÃo tem havido comentários modernos. O Talmude é um, livro
maravilhoso, uma enorme miscelânea de coisas: questSes
triviais
e questSes difíceis -por exemplo, problemas de professores e
de com ensinar -e depois mais algumas trivialidades, ete. Os
estudantes contaram-me que o Talmude nunca foi traduzido, o
que achei curioso, por o livro ser tÃo valioso.
Um dia, dois ou três dos jovens rabis vieram ter comigo e
disseram: "Aperceberno-nos de que nÃo podemos estudar para ser
rabis no mundo moderno sem saber um pouco de ciência, pelo que
gostaríamos de lhe
fazer umas perguntas."
Claro que há milhares de lugares para aprender coisas sobre a
ciên cia e a Universidade de Colúmbia ficava mesmo ali perto,
mas eu queria saber em que gênero de perguntas eles estavam
interessados.
E, assim, perguntaram: "Bem, por exemplo, a electricidade é
fogo?
"NÃo", disse eu, "mas... qual é o problema?"
Eles volveram: "No Talmude diz que nÃo devemos fazer fogo
sábado e, por isso, a nossa pergunta é: 'Podemos usar coisas
eléctricas ao sábado?'"
Fiquei chocado. NÃo estavam nada interessados na ciência! A
influência que a ciência exercia nas suas vidas traduzia-se
apenas na possibilidade de interpretarem melhor o Talmude!
NÃo estavam interessados no mundo exterior, nos fenômenos
naturais;

só lhes interessava
resolver alguma questÃo levantada pelo Talmude.
E depois, um dia -acho que era sábado -, eu queria subir no
elevador e estava um tipo junto dele. O elevador chega, eu
entro e ele ven comigo. Eu pergunto; "Para que andar? ", e a
minha mÃo está pronta para carregar num dos botSes.
"NÃo, nÃo!", diz ele, "eu. é que devo carregar nos botSes por
si."
270
"O quê?"
"Sim! Os rapazes daqui nÃo podem carregar nos botSes ao
sábado, pelo que tenho de fazer isso por eles. Percebe, eu nÃo
sou judeu, razÃo por que nÃo faz mal eu carregar nos botSes.
Fico ao pé do elevador, eles dizem-me para que andar querem ir
e eu carrego no botÃo por eles. "
Bem, aquilo irritou-me mesmo, pelo que decidi apanhar os
estudantes numa discussÃo lógica. Tinha sido educado num lar
judeu e, por isso, sabia que tipo de isco lógico usar, e
pensei: "Isto vai ser divertido!"
O meu plano era assim: começaria por perguntar: "O ponto de
vista judeu é um ponto de vista que qualquer homem pode ter?
Porque, se nÃo é, nÃo é certamente uma coisa com verdadeiro
valor para a humanidade... blá, blá, blá."
E entÃo eles teriam de dizer: "Sim, o ponto de vista judeu é
bom para todos os homens."
EntÃo empurrava-os mais um bocadinho, perguntando: "Será ético
um homem contratar outro homem para fazer uma coisa que para
ele nÃo é ético? Contratariam um homem para roubar por vós,
por exemplo? " E continuaria a dirigi-los, muito devagar e
muito cuidadosamente, até os ter ... encurralado.
E sabem o que aconteceu? Estavam a estudar para rabis, nÃo
estavam? Eram dez vezes melhores do que eu! Assim que viram
que os podia encurralar, torceram-se, voltaram-se, torceram-se
-nÃo me lembro como-e libertaram-se! Pensei que tinha
arranjado uma ideia original-qual quê! Já tinha sido discutida
no Talmude há séculos! Por isso deitaram-me abaixo com a maior
das facilidades -safaram-se imediatamente.
Finalmente, tentei assegurar aos estudantes que a faísca
eléctrica que os incomodava quando carregavam nos botSes do
elevador nÃo era fogo. Disse: "A electricidade nÃo éfogo. NÃo
é um processo químico, como o fogo."
"Oh!", disseram eles.
"Claro, no fogo há electricidade nos espaços entre os átomos."
"Ah!"
"E em todos os outros fenômenos que ocorrem no mundo."
Até propus uma soluçÃo prática para eliminar a faísca: "Se é
isso que os incomoda, podem pôr um condensador no interruptor
para que a electricidade se ligue e desligue sem qualquer
faísca... seja onde for. " Mas, por qualquer motivo, também
nÃo gostaram desta ideia.
Foi na realidade um desapontamento. Ali estavam eles,
despertando lentamente para a vida, apenas para interpretarem
melhor o Talmude.
271

Imaginem! Em tempos modernos como estes há tipos que estÃo a


estudar para fazer parte da sociedade e fazer alguma coisa
-serem rabis e o único modo de admitirem que a ciência poderá
ser interessante é devido ao facto de os seus problemas
antigos, provincianos e medievais estarem a ser ligeiramente
confundidos com alguns fenômenos novos.
Aconteceu mais uma coisa nessa altura que vale a pena
mencionar aqui. Uma das questSes que os estudantes para rabi e
eu discutimos com uma certa demora foi saber qual a razÃo por
que, em assuntos académicos, como a Física Teórica, a
proporçÃo de miúdos judeus é maior do que a sua proporçÃo na
populaçÃo em geral. Os estudantes para rabi pensavam que era
por os Judeus terem uma história de respeito pela
aprendizagem: respeitam os seus rabis, que na realidade sÃo
professores, e respeitam a educaçÃo. Os Judeus transmitem
sempre esta tradiçÃo às suas famílias, de modo que, se um
rapaz é bom aluno, isso é tÃo bom como ser um bom jogador de
futebol, se nÃo for melhor.
Nessa mesma tarde recordaram-me como isso era verdadeiro. Fui
convidado a ir a casa de um dos estudantes para rabi e ele
apresentou-me sua mÃe, que acabara de voltar de Washington, D.
C. Juntou as, mÃos em êxtase e disse: "Oh!, o meu dia está
completo. Hoje conheci
um general e um professor! "
Compreendi que nÃo há muitas pessoas que pensem que é tÃo
importante, e tÃo agradável, conhecer um professor como
conhecer um general. Por isso acho que aquilo que eles tinham
dito tem alguma verdade.
Avaliando os livros pelas capas
Depois da guerra pediam muitas vezes aos físicos que fossem a
Washington aconselhar várias secÇÕES do Governo, especialmente
o Exército. Creio que o que aconteceu foi que, como nós, os
cientistas, fizemos aquelas bombas tÃo importantes, os
militares acharam que tínhamos utilidade para alguma coisa.
Uma vez pediram-me que fizesse parte de uma junta que devia
avaliar várias armas para o Exército e respondi com uma carta
em que explicava que era apenas um físico teórico e nÃo sabia
nada sobre armas para o Exército.
272
Responderam-me que, na sua experiência, tinham descoberto que
os físicos teóricos lhes eram muito úteis para tomarem
decisSes, pedindo-me, por isso, o favor de reconsiderar a
minha posiçÃo.
Voltei a escrever dizendo que nÃo sabia realmente nada de
armas para o Exército e que duvidava que os pudesse ajudar.
Finalmente, recebi uma carta do secretário do Exército a
propor um compromisso: eu iria ao primeiro encontro, onde
poderia ouvir e ver se podia ou nÃo contribuir. Depois poderia
decidir se devia continuar.
Disse que ia, claro. Que mais podia fazer?
Parti para Washington e a primeira coisa a que compareci foi a
um cocktail para conhecer toda a gente. Havia generais e
outras personalidades importantes do Exército e todos
conversavam. Foi bastante agradável.
Um tipo fardado veio ter comigo e disse-me que no Exército
estavam muito satisfeitos por os físicos os aconselharem,
porque tinham muitos problemas. Um dos problemas era os
tanques gastarem muito depressa o combustível e, portanto, nÃo
poderem ir muito longe. Por isso a questÃo era como
reabastecê-los enquanto avançavam. Ora este tipo tinha a ideia
de que, como os físicos conseguem obter energia a partir do
urânio, talvez eu conseguisse desenvolver um meio de usar
dióxido de silício -areia, terra -como combustível. Se isso
fosse possível, bastaria que o tanque tivesse por baixo uma
pequena escavadora e, enquanto avançava, apanhava terra e
usava-a como combustível! Ele achava que era uma óptima ideia
e que eu só tinha de estudar os detalhes. Era desse tipo de
problemas que eu pensava que iríamos falar no encontro do dia
seguinte.
Fui ao encontro e reparei que um tipo que me tinha apresentado
a toda a gente no cocktail estava sentado ao meu lado. Segundo
parecia, era algum ajudante a quem incumbia andar sempre
comigo. Do meu outro lado estava um grande general de que já
tinha ouvido falar.
Na primeira sessÃo do encontro falaram sobre uns assuntos
técnicos e eu fiz alguns comentários. Mas mais tarde, perto do
fim do encontro, começaram a discutir um problema de
logística, de que eu nÃo sabia nada. Tinha a ver com calcular
a quantidade de materiais que se deviam ter em vários lugares
em alturas diferentes. E, apesar de eu ter tentado ficar de
boca fechada, quando se está numa situaçÃo destas, sentado à
volta de uma mesa com todas aquelas "pessoas importantes" a
discutirem todos aqueles "problemas; importantes", nÃo é
possível ficar calado, mesmo nÃo sabendo absolutamente nada!
Por isso fiz alguns comentários também naquela discussÃo.
273

Na pausa para o café que se seguiu, o tipo encarregado de


tomar conta de mim disse: "Fiquei muito impressionado com o
que disse durante a discussÃo. Foi sem dúvida uma contribuiçÃo
importante."
Pensei na minha "contribuiçÃo" para o problema logístico e
compreendi que um homem como o tipo que encomenda as coisas
para
Natal num grande armazém seria mais apto do que eu para
resolver problemas daqueles. Por isso concluí: a) se tinha
dado uma contribuiçÃo importante, era por pura sorte; b)
qualquer outra pessoa poderia ter feito o mesmo, mas a maioria
das pessoas poderia ter feito melhor, e c) esta lisonja
deveria despertar-me para o facto de nÃo ser capaz de dar uma
grande contribuiçÃo.
Logo a seguir, no encontro, foi decidido que seria melhor
discutir a organizaçÃo da pesquisa científica (como, por
exemplo, deverá' o desenvolvimento científico ser
supervisionado pelo Corpo de Engenheiros ou pela DivisÃo de
Contramestres?) do que tem mais técnicos específicos. Eu sabia
que, se ia haver qualquer esperança de eu dar uma contribuiçÃo
autêntica, seria só num tema técnico específico, e nÃo
certamente no modo de organizar a pesquisa no Exército.
Até essa altura nÃo tinha mostrado os meus sentimentos ao
presidente do encontro -o manda-chuva que me tinha
convidado. Quando nos preparávamos para partir, ele disse-me,
todo sorrisos: "Estará entÃo connosco no próximo encontro ...
"
"NÃo, nÃo estarei." Vi a cara dele mudar de repente.
Surpreen-~ deu-o muito eu dizer que nÃo, depois de dar todas
aquelas "contribuiÇÕES".
No início dos anos 60, muitos dos meus amigos continuavam a
aconselhar o Governo. Entretanto, eu nÃo tinha nenhum
sentimento de responsabilidade social e resistia o mais
possível a ofertas para ir a Washington, o que nesses tempos
exigia uma certa coragem.
Nessa altura eu estava a dar uma série de aulas de IniciaçÃo
de Física e, depois de uma delas, Tom Harvey, que me ajudava a
preparar as demonstraÇÕES, disse: "Devia ver o que se passa
com a Matemática nos livros escolares! A minha filha chega a
casa com uma data de disparates! "
NÃo prestei muita atençÃo ao que ele disse.
Mas no dia seguinte recebi um telefonema de um advogado
bastante famoso de Pasadena, o Sr. Norris, que nessa altura
pertencia à Junta de EducaçÃo do Estado. Pediu-me que fizesse
parte da ComissÃo Curricular do Estado, que devia escolher os
novos livros escolares para o
274
estado da Califórnia. Sabem, o estado tem uma lei segundo a
qual todos os livros escolares usados por todos os miúdos em
todas as escolas oficiais têm de ser escolhidos pela Junta de
EducaçÃo do Estado, pelo que formam uma comissÃo para ver os
livros e aconselhar que livros eles devem escolher.
Acontecia que muitos dos livros usavam um novo método de
ensinar aritmética, a que eles chamavam "matemática moderna",
e, como normalmente as únicas pessoas que vêem os livros sÃo
os professores ou os administradores da educaçÃo, eles
pensaram que seria boa ideia que uma pessoa que usa
cientificamente a matemática, que sabe qual é o produto final
e para que a queremos ensinar, ajudasse a avaliar os livros
escolares.
Por esta altura, eu devia ter um sentimento de culpa por nÃo
cooperar com o Governo, dado que aceitei fazer parte da
ComissÃo.
Comecei imediatamente a receber cartas e telefonemas dos
editores. Diziam coisas como: "Ficámos muito satisfeitos ao
saber que o senhor pertence à comissÃo porque queríamos
realmente um homem de ciência ... " e "É maravilhoso ter um
cientista na comissÃo, porque os nossos livros têm uma
orientaçÃo científica ... " Mas também diziam coisas como:
"Gostaríamos de lhe explicar a intençÃo do nosso livro ... " e
"Teremos muito gosto em o ajudar no que pudermos a avaliar os
nossos livros ... " Aquilo afigura-se-me um disparate. Sou um
cientista objectivo e parecia-me que, como a única coisa que
os miúdos iam receber na escola eram os livros (e os
professores recebiam o manual do professor, que eu também
receberia), qualquer explicaçÃo extra seria uma distorçÃo. Por
isso nÃo quis falar com nenhum dos editores e respondi sempre:
"NÃo precisam de explicar; estou certo de que os livros
falarÃo por si."
Eu representava um certo distrito, que compreendia a maior
parte da área de Los angeles, excepto a cidade de Los Angeles,
que era representada por uma senhora muito simpática do
sistema escolar de Los Angeles, a Sr.' Whitehouse. O Sr.
Norris sugeriu que eu me encontrasse com ela para ficar a
saber o que a ComissÃo fazia e como funcionava.
A Sr.' Whitehouse começou por me falar das coisas que iam
debater na próxima reuniÃo (já tinham tido uma reuniÃo; eu
fora nomeado mais tarde). "VÃo falar sobre os números de
contagem. " Eu nÃo sabia o que aquilo era, mas afinal era o
que eu costumo chamar números inteiros. Tinham nomes
diferentes para tudo, pelo que tive imensos problemas logo de
início.
275

Ela cOntou-me como os membros da ComissÃo apreciavam os novos


livros escolares. Arranjavam um número relativamente grande de
exemplares de cada livro e davam-nos a vários professores e
administradores do seu distrito. Depois recebiam relatórios
do que essas pessoas pensavam sobre os livros. Como nÃo
conheço uma data de professores ou administradores, e como
achava que, lendo os livros sozinho, podia formar uma opiniÃo
sobre o que me pareciam, resolvi ler os livros todos sozinho.
(Havia algumas pessoas no meu distrito que tinham esperado ver
os livros e queriam uma oportunidade de dar a sua opiniÃo. A
Sr. a Whitehouse ofereceu-se para incluir os relatórios deles
no dela, para que se sentissem melhor e eu nÃo tivesse de me
preocupar com as suas queixas. Eles ficaram satisfeitos e eu
nÃo tive muitos problemas.)
Uns dias depois, um tipo do depósito de livros telefonou-me e
disse: "Estamos prontos para lhe mandar os livros Sr Feynman

Fiquei estarrecido.
"NÃo se preocupe, Sr. Feynman; arranjamos alguém para o ajudar
a lê-los."
NÃo conseguia perceber como se podia fazer isso: ou se lêem ou
nÃo se lêem. Mandei pôr uma estante especial lá em baixo no
meu escritório (os livros ocuparam dezassete pés) e comecei a
ler todos os livros que íamos discutir no próximo encontro.
+amos começar com os livros para a escola elementar.
Era uma tarefa muito grande e passei o tempo todo ocupado nela
lá em baixo no rés-do-chÃo. A minha mulher diz que durante
esse período era como viver por cima de um vulcÃo. Estava
sossegado durante algum tempo, mas depois, de repente,
"BUUUUUUUMMMMMM!!!!", havia uma enorme explosÃo do "vulcÃo"
lá em baixo.
A razÃo era os livros serem tÃo maus. Eram falsos. Eram
apressados. Tentavam ser rigorosos, mas usavam exemplos (como
automóveis na rua para "conjuntos") que estavam quase bem, mas
havia sempre subtilezas. As definiÇÕES nÃo eram precisas. Era
tudo um pouco ambíguo -nÃo tinham a esperteza suficiente para
compreender o que se entendia por "rigor". Fingiam-no. Estavam
a ensinar uma coisa que nÃo compreendiam e que nessa altura
era de facto inútil para a criança.
Compreendi o que eles estavam a tentar fazer. Muitas pessoas
pensavam que estávamos atrasados em relaçÃo aos Soviéticos
depois do Sputnik e pediram a alguns matemáticos que
aconselhassem o modo de ensinar Matemática usando alguns dos
interessantes conceitos moder
276
nos dessa disciplina. O objectivo era tornar mais interessante
a Matemática para as crianças, que a achavam enfadonha.
Eis um exemplo: falavam de diferentes bases numéricas -cinco,
seis, etc. -para mostrar as suas possibilidades. Isso seria
interessante para um miúdo que conseguisse compreender a base
dez -uma coisa para lhe divertir o espírito. Mas o que eles
tinham feito, naqueles livros,
era que todas as crianças tivessem de aprender outra base! E
depois vinha o horror habitual: "Traduza estes números, que
estÃo escritos
na base sete, para a base cinco." Traduzir de uma base para
outra é uma coisa completamente inútil. Se se consegue
fazê-lo, talvez seja divertido; se nÃo se consegue, é melhor
esquecer. NÃo tem nenhum interesse.
Seja como for, estou a ler todos aqueles livros e nenhum diz
seja o que for sobre a aplicaçÃo da matemática à ciência. Se
há alguns exemplos da aplicaçÃo da matemática (a maior parte
das vezes é
aquele disparate abstracto moderno), sÃo sobre coisas como
comprar selos.
Finalmente, aparece um livro que diz: "A matemática é aplicada
na
ciência de várias maneiras. Vamos dar um exemplo da
astronomia, que é a ciência das estrelas. " Volto a página e
leio: "As estrelas vermelhas têm uma temperatura de cinco mil
graus ... " -até aí tudo bem. Continua: "As estrelas verdes
têm uma temperatura de sete mil graus, as estrelas azuis têm
uma temperatura de dez mil graus e as estrelas
roxas têm uma temperatura de... [um número grande]. " NÃo há
estrelas verdes nem roxas, mas os números para as outras estÃo
aproximadamente correctos. Está vagamente certo -mas logo a
seguir sarilhos! E
isto era
geral: era tudo escrito por pessoas que nÃo faziam ideia
daquilo de que
estavam a falar, pelo que havia sempre algo errado! E nÃo
percebo
como havemos de ensinar bem usando livros escritos por pessoas
que
nÃo entendem bem aquilo de que estÃo a falar. NÃo sei porquê,
mas
os livros SÃo péssimos, UNIVERSALMENTE PÉSSIMOS!
Seja como for, estou contente com este livro, porque é o
primeiro
exemplo da aplicaçÃo da aritmética à ciência. Fico um pouco
descon
tente quando leio as temperaturas das estrelas, mas nÃo fico
muito des
contente porque está mais ou menos correcto -é só um exemplo
de
erro. Depois vem a lista de problemas. Diz ela: "John e o pai
saíram
para olhar para as estrelas. John vê duas estrelas azuis e uma
estrela
vermelha. O pai vê uma estrela verde, uma estrela roxa e duas
estrelas amarelas. Qual é a temperatura total das estrelas
vistas por John e pelo pai?", e eu explodia, horrorizado.
277

A minha mulher falava do vulcÃo lá em baixo. Isto é só um


exemplo: era perpetuamente assim. Perpétuo absurdo! NÃo há
nenhum interesse em adicionar a temperatura de duas estrelas.
Nunca ninguém o faz, excepto, talvez, para em seguida calcular
a temperatura média das estrelas! Era horrível! Era apenas um
jogo para nos pôr a somar e nÃo sabiam do que falavam. Era
como ler frases com alguns erros tipográficos e, de repente,
surgir uma frase completa que está escrita ao contrário. A
matemática era assim. Era mesmo sem esperança!
EntÃo fui à minha primeira reuniÃo. Os outros membros tinham
atribuído uma espécie de pontuaçÃo a alguns dos livros e
perguntaram-me quais eram as minhas pontuaÇÕES. Muitas vezes a
minha pontuaçÃo era diferente da deles e eles perguntavam:
"Porque deu uma, pontuaçÃo tÃo baixa a esse livro?"
Eu dizia que o problema daquele livro era isto e aquilo na
página tal -tinha os meus apontamentos.
Descobriram que eu era uma espécie de mina de ouro:
dizia-lhes,: em detalhe, o que havia de bom e de mau em todos
os livros; tinha uma razÃo para cada pontuaçÃo.
Perguntava-lhes porque tinham dado uma pontuaçÃo tÃo alta a
determinado livro e eles diziam: "Diga-nos o que pensou do
livro tal." Eu nunca descobria porque é que eles tinham
pontuado uma coisa de determinada maneira. Em vez disso,
estavam sempre a perguntar-me o que eu pensava.
Chegámos a um certo livro que fazia parte de um conjunto de
três livros suplementares publicados pela mesma editora e
perguntaram-me o que pensava dele.
Eu disse: "O depósito de livros nÃo me mandou esse livro, mas
os outros dois eram bons."
Alguém tentou repetir a pergunta: "O que pensa do livro?"
"Já disse que nÃo me mandaram esse, pelo que nÃo tenho opiniÃo
sobre ele. "
O homem do depósito de livros estava lá e disse: "Desculpem;
posso explicar isso. NÃo lho mandei porque esse livro ainda
nÃo estava com-pleto. Há uma regra segundo a qual as
entradas têm de ser todas até uma certa altura e o editor
atrasou-se uns dias. Por isso nos foi enviado apenas com as
capas e o interior em branco. Da companhia mandaram uma nota
pedindo desculpa e dizendo esperar que pudessem considerar o
conjunto dos três livros, apesar de o terceiro vir atrasado."
Verificou-se que o livro em branco tinha pontuaçÃo de alguns
dos outros membros! NÃo acreditavam que estivesse em branco,
porque
278
tinham uma pontuaçÃo. Na realidade, a pontuaçÃo para o livro
que faltava era um pouco mais alta do que para os outros dois.
O facto de nÃo haver nada no livro nÃo tinha nada a ver com a
pontuaçÃo.
Creio que a razÃo de tudo isto é o sistema funcionar deste
modo: quando enchemos as pessoas de livros, elas ficam
ocupadas, ficam descuidadas e pensam: "Bem, há muita gente a
ler estes livros, pelo que nÃo faz diferença." E pSem um
número qualquer -algumas, pelo menos; nÃo todas, mas algumas.
EntÃo, quando recebemos os relatórios, nÃo sabemos porque é
que um determinado livro tem menos relatórios do que os outros
-isto é, talvez um livro tenha dez e este só seis pessoas a
apresentar relatório -, pelo que fazemos uma média das
pontuaÇÕES entregues; nÃo fazemos a média com as pessoas que
nÃo fizeram relatório, razÃo por que obtemos um número
razoável. Este processo de estar sempre a achar médias deixa
escapar o facto de nÃo haver absolutamente nada entre as capas
do livro!
Construí esta teoria porque vi o que se passou na comissÃo
curricular: para o livro em branco só seis dos dez membros
apresentaram relatório, ao passo que, com os outros livros,
oito ou nove em dez apresentaram relatório. E, quando fizeram
a média dos seis, conseguiram uma média tÃo boa como com os
oito ou os nove. Ficaram muito embaraçados ao descobrir que
estavam a dar pontuaÇÕES àquele livro e isso deu-me um pouco
mais de confiança. Afinal os outros membros da ComissÃo tinham
tido muito trabalho, entregando os livros e recolhendo os
relatórios, e haviam ido a sessSes em que os editores
explicavam os livros antes de eles os lerem; eu era o único
tipo na ComissÃo que tinha lido todos os livros e nÃo havia
recebido nenhuma informaçÃo dos editores, excepto o que estava
nos próprios livros, as coisas que no fim iriam para as
escolas.
Esta questÃo de tentar descobrir se um livro é bom ou mau
lendo-o cuidadosamente ou recebendo os relatórios de uma
quantidade de pessoas que o lêem descuidadamente é como este
famoso problema antigo: ninguém podia ver o imperador da China
e a pergunta era: qual o comprimento do nariz do imperador da
China? Para o descobrir, percorremos todo o país, perguntando
às pessoas que comprimento julgam ter o nariz do imperador da
China e calculamos a média. E o cálculo seria muito "preciso"
porque considerámos muitas pessoas. Mas esta nÃo é maneira de
descobrir seja o que for; quando temos um grupo muito grande
de pessoas que se pronunciam sem ter analisado cuidadosamente
o assunto, nÃo é fazendo uma média que melhoramos o nosso
conhecimento da situaçÃo.
279

A princípio nÃo deveríamos falar do custo dos livros.


Disseram-me quantos livros podíamos escolher, pelo que
projectámos um programa que incluía uma quantidade de livros
suplementares, dado que tod os novos livros de texto tinham
falhas de um tipo ou de outro. As falhas mais sérias eram nos
livros de "matemática moderna". nÃo havia aplicaÇÕES; nÃo
havia problemas com palavras em número suficiente. NÃo se
falava sobre a venda de selos; em vez disso, falava-se
demasiado spoabrr,,
ic
comutaçÃo e coisas abstractas e nÃo havia transferência
suficiente situaÇÕES da vida real. O que fazemos: adicionamos,
subtraímos, mul tiplicamos ou dividimos? EntÃo sugerimos
alguns livros que tinham u pouco disso como suplementares -um
ou dois para cada aula-, em conjunto com um livro de texto
para
cada aluno. Depois de muita dis cussÃo, tínhamos tudo
resolvido para que houvesse equilíbrio.
Quando apresentámos as nossas recomendaÇÕES à Junta de
EducaçÃo, disseram-nos que nÃo tinham tanto dinheiro como
haviam
pen sado, pelo que tínhamos de voltar a ver tudo e a fazer
alguns cortes considerando agora os custos e estragando o que
era um programa razoavelmente equilibrado, no qual o professor
tinha uma oportunidade de encontrar exemplos das coisas de
que necessitava.
Agora, que tinham mudado as regras sobre o número de livros
que
podíamos recomendar e que já nÃo conseguiríamos um equilíbrio,
era um programa bastante mau. Quando a comissÃo orçamental do
Senado se atirou a ele, ficou ainda mais cortado. Agora era
realmente mau Pediram-me que me apresentasse diante dos
senadores do estado quando a questÃo estava a ser discutida,
mas recusei: nessa altura, depois de ter discutido tanto
aquele assunto, estava cansado. Tínhamos preparado as nossas
recomendaÇÕES para a Junta de EducaçÃo achei que apresentá-las
ao Senado era trabalho para eles, o que era legalmente certo,
mas nÃo politicamente seguro. NÃo devia ter desistido tÃo
cedo, mas ter trabalhado tanto e haver discutido tanto todos
aqueles livros para delinear um programa razoavelmente
equilibrado, e depois estragarem-nos tudo no fim, era
desencorajador! Foi tudo um esforço desnecessário e podia ter
sido feito ao contrário: começar com o custos dos livros e
comprar o que pudéssemos.
O que acabou com tudo e fez com que eu, por fim, me demitisse
foi o facto de no ano seguinte irmos discutir os livros de
ciência. Pensei que talvez com a ciência fosse diferente, pelo
que a alguns dos livros.
Acontecia o mesmo: havia alguma coisa que ao princípio parecia
boa e depois, para o fim, se tornava intragável. Por
exemplo, havia um livro que começava com quatro figuras:
primeiro um brinquedo
280
de corda; a seguir um automóvel; depois um rapaz a andar de
bicicleta; e depois outra coisa qualquer. E por baixo de cada
figura lia-se: "O que o faz mover? "
Era o tipo de coisas de que o meu pai teria falado: "O que o
faz mover? Tudo se move por o Sol brilhar." E depois
divertíamo-nos a discutir o assunto:
"NÃo, o brinquedo move-se porque a mola está enrolada", dizia
eu.
"Como é que a mola se enrolou?", perguntava ele.
"Eu enrolei-a."
"E como é que consegues mover-te?"
"A partir do que como."
"E a comida só cresce porque o Sol brilha. Por isso é por o
Sol brilhar que todas estas coisas se movem." Isso
transmitiria o conceito de que o movimento é simplesmente a
transformaçÃo da energia do Sol.
Voltei a página. A resposta era, para o brinquedo de corda: "É
a energia que o faz mover." E para o rapaz na bicicleta: "É a
energia que o faz mover." Para tudo: "É a energia que o faz
mover."
Ora isto nÃo quer dizer nada. Suponhamos que se trata de
"vacalixis." Este é o princípio geral. "É a vacalixis que o
faz mover." NÃo se introduz nenhum conhecimento. A criança nÃo
aprende nada; é apenas uma palavra!
O que deviam ter feito era examinar o brinquedo de corda, ver
que tem molas dentro, procurar saber coisas sobre as molas,
assim como a respeito das rodas, e nÃo fazer caso da
"energia". Mais tarde, quando as crianças soubessem alguma
coisa sobre o verdadeiro modo de funcionamento do brinquedo,
poderiam discutir os princípios, mais gerais, da energia.
Além disso, nem sequer é verdade que "a energia é que o faz
mover", porque, se pára, podemos igualmente dizer que "a
energia é que o faz parar". Do que eles estavam a falar era de
a energia concentrada ser transformada em formas mais
diluídas, o que é um aspecto muito subtil da energia. Nestes
exemplos, a energia nÃo aumenta nem diminui; apenas muda de
uma forma para outra. E, quando as coisas param, a energia
transforma-se em calor, em caos generalizado.
Mas sucedia assim com todos os livros: diziam coisas que eram
inúteis, baralhadas, ambíguas, confusas e parcialmente
incorrectas. NÃo sei como é que alguém pode aprender ciência
naqueles livros, porque aquilo nÃo é ciência.
Por isso, quando vi todos aqueles livros horrorosos com o
mesmo tipo de erros que tinham os de matemática, senti que o
meu processo
281

vulcânico iria recomeçar. Como estava exausto de ler todos os


livros de matemática e desencorajado por ter sido um esforço
inútil, nÃo pude
aguentar aquilo outro ano e tive de me demitir.
Algum tempo depois ouvi dizer que a ComissÃo Curricular da
Junta
de EducaçÃo ia recomendar o livro de "é a energia que o faz
mover pelo que fiz um último esforço. O público podia fazer
comentários durante as reuniSes da ComissÃo e, por isso,
levantei-me e disse por que razÃo pensava que o livro era mau.
O indivíduo que me tinha substituído na ComissÃo disse: "Esse
livro foi aprovado por sessenta e cinco engenheiros da
Companhia de Aeronaves Tal!"
Eu nÃo duvidava que a Companhia tivesse engenheiros bastante
bons mas admitir sessenta e cinco engenheiros é adquirir uma
grande g de capacidades -e incluir necessariamente alguns
tipos bastante fracos! Foi novamente o problema de calcular a
média do comprimento do nariz do imperador, ou as pontuaÇÕES
de um livro sem nada ent as capas. Teria sido muito melhor a
companhia decidir quais eram os seus melhores engenheiros e
fazê-los ler o livro. Eu nÃo podia afirmmar que era mais
esperto
do que os outros sessenta e cinco tipos, mas que a média dos
outros sessenta e cinco tipos era com certeza!
NÃo consegui fazer-me entender e o livro foi aprovado pela
Junta
Quando ainda fazia parte da ComissÃo, tive de ir várias vezes
a S Francisco para algumas reuniSes e, ao regressar a Los
Angeles da primeira viagem, parei no gabinete da ComissÃo para
ser reembolsado das minhas despesas.
"Quanto gastou, Sr. Feynman?"
"Bem, como fui de aviÃo para SÃo Francisco, é a passagem aérea
mais o estacionamento no aeroporto enquanto estive ausente."
"Tem o bilhete?"
Por acaso tinha o bilhete.
"Tem o recibo do estacionamento? "
"NÃo, mas paguei $2.35 para estacionar o carro."
"Mas precisamos do recibo."
"Eu disse-lhe quanto custou. Se nÃo confiam em mim, porque é
que
me permitem que diga o que é bom ou mau nos livros escolares?
Aquilo deu um grande sarilho. Infelizmente, estava habituado a
fazer conferências para empresas, universidades e pessoas
normais, nÃo para o Governo. Habitualmente era assim: "Quais
foram as suas despesas?"
-"Foi tanto."-"Aqui tem, Sr. Feynman."
282
EntÃo decidi que nÃo lhes daria recibo de nada.
Depois da segunda viagem a SÃo Francisco voltaram a pedir-me o
bilhete e os recibos.
"NÃo tenho nada."
"Isto nÃo pode continuar, Sr. Feynman."
"Quando aceitei fazer parte da ComissÃo, disseram-me que me
iam pagar as despesas."
"Mas esperávamos ter recibos para provar as despesas."
"NÃo tenho nenhuma prova, mas sabem que vivo em Los Angeles e
vou a estas outras cidades; como pensam que lá chego?"
Eles nÃo cederam e eu também nÃo. Acho que, quando estamos
numa situaçÃo destas, em que escolhemos nÃo nos submeter ao
sistema, devemos sofrer as consequências se nÃo resultar. Por
isso fiquei completamente satisfeito, mas nunca cheguei a
receber as ajudas de custo para as viagens.
É um dos meus jogos. Eles querem um recibo? NÃo lhes dou um
recibo. EntÃo nÃo recebe o dinheiro. Muito bem, nÃo recebo o
dinheiro. NÃo confiam em mim? Que se danem; nÃo têm de me
pagar. Claro que é absurdo! Sei que é assim que o Governo
trabalha; bem, que se lixe o Governo! Acho que os seres
humanos deviam tratar os seres humanos como seres humanos. E,
a menos que seja assim tratado, nÃo quero ter nada a ver com
eles! Desagrada-lhes? Desagrada-lhes. Também me desagrada a
mim. Só temos de deixar andar. Sei que estÃo a "proteger o
contribuinte", mas vejam se acham que o contribuinte está a
ser bem protegido na situaçÃo que se segue.
Havia dois livros sobre os quais nÃo nos conseguíamos decidir
depois de muita discussÃo; eram de valor muito aproximado. Por
isso deixámos a questÃo em aberto, para que a Junta de
EducaçÃo decidisse. Como a Junta estava agora a considerar os
custos e os dois livros se assemelhavam tanto, decidiu abrir
os orçamentos e escolher o mais baixo.
EntÃo levantou-se a seguinte questÃo: "As escolas receberÃo os
livros na altura normal, ou poderÃo, talvez, recebê-los um
pouco mais cedo, ainda a tempo de apanhar o próximo período?"
Um dos representantes das editoras levantou-se e disse:
"Ainda bem que aceitaram o nosso orçamento; podemos pô-lo cá
fora ainda a tempo de apanhar o próximo período."
Um representante de uma editora que tinha perdido levantou-se
e disse: "Como o nosso orçamento foi apresentado baseado no
tempo-limite mais longo, penso que devíamos ter uma
oportunidade.de apre
283

sentar um novo para o tempo-limite mais curto, porque também


nós
o podemos cumprir."
O Sr. Noffis, o advogado de Pasadena que fazia parte da Junta,
iam os voss guntou ao tipo da outra editora: "E quanto nos
custariam os livros na primeira data?"
E ele deu um número: Era menor!
O primeiro tipo levantou-se: "Se ele altera o seu orçamento'
eu tenho o direito de alterar também o meu! " -e o orçamento
dele era ainda menor!
Norris perguntou: "Mas entÃo como é isto? Temos os livros mais
cedo e é mais barato?"
"Sim", diz um dos indivíduos. "Podemos utilizar um método
especial de offset que normalmente nÃo utilizaríamos ... " -
uma desculpa qualquer para justificar sair mais barato.
O outro tipo concordou: "Quando é mais rápido, custa menos
dinheiro! "
Aquilo foi mesmo um choque. Acabou por custar menos do'
milhSes de dólares. Norris ficou verdadeiramente enfurecido
com aquela mudança súbita.
O que tinha acontecido, claro, era que a incerteza sobre a
data era a possibilidade de estes tipos licitarem um contra o
outro. Normalmente quando os livros sÃo escolhidos sem
considerar o custo, nÃo há razSes para baixar o preço; os
editores podem estabelecer os preços como quiserem. NÃo há
qualquer vantagem em competir baixando os preços a maneira de
competir é impressionar os membros da ComissÃo curricular.
A propósito, cada vez que a nossa ComissÃo tinha uma reuniÃo,
havia editores que convidavam membros da mesma para almoçar e
lhe falavam dos seus livros. Eu nunca fui.
Agora parece evidente, mas eu nÃo sabia o que se estava a
passar
quando um dia recebi uma embalagem de frutos secos e nÃo sei
quê
mais entregue pela Western Union com uma mensagem que dizia
"Da nossa família para a sua, Feliz Dia de AcçÃo de Graças -
Os P milios."
Era de uma família de Long Beach, de que nunca ouvira falar,
certamente alguém que queria mandar aquilo à família de um seu
amigo e que se enganara no nome e na morada. Telefonei à
Western
Union deram-me o número do telefone das pessoas que tinham
mandado coisas e telefonei-lhes.
"Está? Sou o Sr. Feynman. Recebi uma embalagem ... "
284
"Oh, olá, Sr. Feynman, daqui fala Pete Pamilio", e diz aquilo
de um modo tÃo amigável que eu penso que deveria saber quem
ele é! Sou habitualmente tÃo distraído que nunca consigo
recordar quem sÃo as pessoas.
Por isso disse: "Desculpe, Sr. Pamilio, mas nÃo me lembro bem
quem o senhor é ... "
Afinal era um representante de uma das editoras cujos livros
eu tinha de julgar na comissÃo curricular.
"Estou a ver. Mas isso pode ser mal interpretado."
"É apenas de uma família para outra."
"Sim, mas estou a julgar um livro que vocês publicam e talvez
alguém possa interpretar mal a sua amabilidade! " Eu sabia o
que se passava, mas agi de modo a parecer um idiota completo.
Aconteceu uma coisa semelhante quando um dos editores me
mandou uma pasta de couro com o meu nome gravado a ouro.
Disse-lhes o mesmo: "NÃo posso aceitar; estou a avaliar alguns
dos livros que vocês publicam. Acho que nÃo estÃo a perceber!
"
Um dos membros da ComissÃo, que era o que lá estava há mais
tempo, disse: "Nunca aceito as coisas; aborrece-me muito. Mas
é sempre, o mesmo. "
Mas perdi realmente uma oportunidade. Se tivesse pensado com a
rapidez suficiente, podia ter-me divertido muito naquela
ComissÃo. Cheguei à noite ao hotel em SÃo Francisco para
participar na reuniÃo do dia seguinte e decidi sair para dar
um passeio pela cidade e comer qualquer coisa. Ao sair do
elevador vi dois tipos sentados num banco na sala de entrada
do hotel, os quais se levantaram de um salto e disseram: "Boa
noite, Sr. Feynman. Onde vai? Há alguma coisa que lhe possamos
mostrar em SÃo Francisco?" Eram de uma editora e eu nÃo queria
nada com eles.
"Vou sair para comer."
"Podemos levá-lo a jantar."
"NÃo, quero estar sozinho."
"Bem, seja o que for que quiser, podemos ajudá-lo."
NÃo pude resistir. Disse: "Bem, vou sair para me meter em
sarilhos."
"Acho que o podemos ajudar nisso também."
"NÃo. Vou eu próprio procurar resolver o assunto." Depois
pensei: "Que erro! Devia ter deixado aquilo tudo funcionar e
fazer um diário, para que as pessoas do estado da Califórnia
descobrissem até que ponto os editores estÃo dispostos a ir!"
E quando soube da diferença de dois milhSes de dólares... Deus
sabe quais sÃo as pressSes!
285

O outro erro de Alfred Nobel


No Canadá há uma grande associaçÃo de estudantes de Física.
Fazem reuniSes, apresentam trabalhos, etc. Uma vez, o capítulo
de Vancôver quis que eu fosse lá falar. A rapariga que o
dirigia combinou com a minha secretária e veio de aviÃo a Los
Angeles sem me dizer. Limitou-se a entrar pelo meu gabinete.
Era mesmo gira, uma linda loura. Isso ajudou. NÃo devia, mas
ajudou.) E fiquei impressionado por os estudantes de Varicôver
terem financiado tudo.
Trataram-me tÃo bem em Vancôver que agora já sei o segredo de
ser realmente bem recebido e fazer conferências: esperar que
os estudantes nos convidem.
Uma vez, alguns anos depois de ter ganho o Prêmio Nobel, uns
miúdos do clube de física dos estudantes de Irvine vieram
pedir-me que falasse lá. Eu disse: "Gostaria imenso. O que eu
desejo é precisamente falar no clube de física. Mas -nÃo quero
ser imodesto -diz-me a experiência que vai haver sarilho. "
Contei-lhes como todos os anos costumava ir a um liceu local
falar ao clube de física sobre relatividade ou sobre o que
eles quisessem, EntÃo, depois de receber o Prêmio, voltei lá,
como de costume, sem preparaçÃo, e puseram-me em frente de uma
assembleia de trezentos miúdos. Foi uma confusÃo!
Tive esse choque umas três ou quatro vezes, porque sou um
idiota
e nÃo percebi logo. Quando fui convidado para fazer uma
conferênci em Berkeley sobre qualquer tema de física, preparei
uma coisa bastant técnica, esperando apresentá-la ao grupo
habitual do Departamento de

Física. Mas, quando lá cheguei, aquele enorme salÃo de


conferências , estava cheio de gente! E sei que nÃo há assim
tantas pessoas em Ber keley com os conhecimentos de física
suficientes para acompanhar a minha conferência. O meu
problema é que gosto de agradar às pessoas que me vêm ouvir e
nÃo o posso fazer se toda a gente quiser ouvir nessa altura
nÃo conheço a minha assistência.
Depois de os estudantes compreenderem que nÃo posso
simplesmente
chegar a um sítio e fazer uma conferência para o clube de
física disse "Vamos inventar um título com aparência enfadonha
e um nome de um professor com aparência enfadonha, e entÃo só
os
miúdos verdadeira mente interessados na física se darÃo ao
trabalho de vir, e sÃo esses mesmo que nós queremos, nÃo é
assim? Vocês nÃo estÃo a querer vender nada."
286
Apareceram uns quantos cartazes na Universidade de Irvine: "O
Prof. Henry Warren, da Universidade de Washington, vai fazer
uma conferência sobre a estrutura do protÃo no dia 17 de
Maio, às 3 horas, na sala D102."
EntÃo apareci eu e disse: "O professor Warren teve problemas
pessoais e nÃo lhe foi possível vir falar-vos hoje, pelo que
me telefonou e pediu que vos falasse sobre o tema, uma vez que
tenho estado a trabalhar nesse campo. Por isso aqui estou."
Resultou plenamente.
Mas depois, de um modo ou de outro, o consultor da faculdade
do clube descobriu o truque, zangou-se muito com eles e
disse-lhes: "Sabem, se se soubesse que o professor Feynman
vinha cá, teria havido muita gente a querer ouvi-lo."
Os estudantes explicaram: "Mas foi por isso mesmo!" Mas o
consultor estava furioso por nÃo o terem incluído na
brincadeira.
Tendo sabido que os estudantes estavam mesmo metidos em
sarilhos decidi escrever uma carta ao consultor explicando que
a culpa era
toda minha, que eu nÃo teria feito a conferência se aquilo nÃo
tivesse sido combinado; que dissera aos estudantes que nÃo
contassem a ninguém; lamento muito; desculpe-me, por favor,
blá, blá, blá... O tipo de coisas que eu tenho de aturar por
causa do maldito Prémio
Ainda no ano passado fui convidado a fazer uma conferência
pelos alunos da Universidade do Alasca, em Fairbanks, e foi
maravilhoso, excepto as entrevistas na televisÃo local. NÃo
preciso de entrevistas; nÃo servem para nada. Venho falar aos
estudantes de Física, mais nada. Se toda a gente da cidade
quer saber isso, que seja o jornal da escola a dizer-lhes. É
por causa do Prêmio Nobel que tenho de dar uma entrevista-sou
uma pessoa importante, nÃo sou?
Um amigo meu que é rico -inventou uma espécie qualquer de
interruptor digital simples -fala-me dessas pessoas que
contribuem com dinheiro para prêmios e conferências: "Olhamos
sempre para elas cuidadosamente para ver se descobrimos de que
malandrice estÃo a ten
tar redimir a consciência."
O meu amigo Matt Sands estava uma vez para escrever um livro
que iria ter o título de O Outro Erro de A lfred Nobel.
Durante muitos anos, quando estava a chegar a altura da
atribuiçÃo do Prêmio, eu congeminava quem o iria receber. Mas
ao fim de
algum tempo perdi a noçÃo de quando era a altura do evento.
NÃo fazia portanto a mínima ideia da razÃo por que alguém me
estava a telefonar às três e meia ou quatro horas da manhÃ.
"Professor Feynman?"
287

"Sim! Porque é que me vem incomodar a esta hora da manhÃ?"


"Pensei que gostaria de saber que ganhou o Prêmio Nobel."
"Sim, mas estou a dormir! Seria melhor ter-me telefonado de
manhÃ", e desliguei.
A minha mulher perguntou: "O que era?"
"Disseram-me que ganhei o Prêmio Nobel."
"Oh, Richard, quem era?" Costumo pregar-lhe umas partidas, mas
ela é tÃo esperta que nunca se deixa enganar; contudo daquela
vez apanhei-a.
O telefone volta a tocar: "Professor Feynman, ouviu ... "
(Com voz desapontada) "Sim."
EntÃo comecei a pensar: "Como é que eu vou acabar com isto?"
Por isso, a primeira coisa que fiz foi desligar o telefone,
porque as chamadas vinham umas a seguir às outras. Tentei
voltar a adormecer, mas nÃo consegui.
Fui até ao escritório para pensar: "O que vou fazer? Talvez
nÃo aceite o Prêmio. Nesse caso o que aconteceria? Talvez nÃo
seja possível."
Volto a pôr o auscultador no gancho e o telefone toca
imediatamente. É um tipo da revista Time. Disse-lhe: "Ouça,
tenho um problema, por isso nÃo quero que isto seja publicado.
NÃo sei como sair disto. Há, algum meio de nÃo aceitar o
Prémio?"
Ele disse: "Receio que nÃo haja nenhum meio de o fazer sem
causar ainda mais confusÃo do que deixando as coisas como
estÃo." Era~ evidente. Tivemos uma grande conversa, durante
quinze ou vinte minutos, e o tipo da Time nunca publicou nada
sobre ela.
Agradeci ao tipo da Time e desliguei. O telefone tocou
imediatamente: era do jornal.
"Sim, pode vir cá a casa. Sim, está bem. Sim, sim, sim ... "
Um dos telefonemas foi de um indivíduo do consulado sueco. Ia
dar uma recepçÃo em Los Angeles.
Achei que, já que ia aceitar o Prêmio, tinha de me sujeitar
àquilo tudo.
O cônsul disse: "Faça uma lista das pessoas que gostaria de
convidar e nós faremos uma lista das pessoas que vamos
convidar. Depois vou ao seu gabinete para compararmos as
listas e vermos se há alguma repetiçÃo, e fazemos depois os
convites ... "
Por isso fiz a minha lista. Tinha umas oito pessoas: o meu
vizinho da frente; o meu amigo Zorthian, o artista; etc.
0 cônsul veio ao meu gabinete com a sua lista: o governador do
estado da Califórnia; Fulano; Beltrano; Getty, o do petróleo;
algumas
288
actrizes -eram trezentas pessoas! E, escusado será dizer, nÃo
havia nem uma única repetiçÃo!
EntÃo comecei a ficar um pouco nervoso. A ideia de conhecer
todos aqueles dignitários assustava-me.
O cônsul viu que eu estava preocupado: "Oh, nÃo se preocupe",
disse ele. "A maior parte nÃo vem."
Bem, nunca tinha organizado uma festa para que convidava
pessoas sabendo que devia esperar que nÃo viessem! NÃo tenho
de obsequiar as pessoas dando-lhes o prazer de as honrar com o
convite para que o possam recusar; é uma estupidez!
Quando cheguei a casa, estava realmente aborrecido com aquilo
tudo. Telefonei ao cônsul e disse: "Voltei a pensar no assunto
e compreendi que nÃo posso prosseguir com essa recepçÃo."
Ficou encantado e disse: "Tem toda a razÃo." Acho que ele
estava na mesma situaçÃo-ter de preparar uma festa para este
nabo era mesmo uma chatice. Afinal, acabou por ficar toda a
gente satisfeita. Ninguém queria ir, incluindo o convidado de
honra. O anfitriÃo também ficou muito melhor!
Durante todo este período tive uma certa dificuldade
psicológica. Compreendem, o meu pai ensinara-me a ser contra a
realeza e a pompa (estava no negócio de uniformes, pelo que
conhecia a diferença entre um homem com uniforme e sem
uniforme -é o mesmo homem). Na realidade, eu tinha aprendido a
ridicularizar aquilo durante toda a vida, e isso estava tÃo
entranhado em mim que nÃo me poderia aproximar de um rei sem
um grande esforço. Sei que era uma criancice, mas fui assim
educado -por isso era um problema.
As pessoas disseram-me que havia uma regra na Suécia segundo a
qual, depois de recebermos o Prêmio, tínhamos de nos afastar
do rei recuando, sem lhe voltar as costas. Descemos uns
degraus, aceitamos o Prêmio e depois voltamos a subir os
degraus. EntÃo disse para comigo: "Muito bem, eles vÃo ver! ",
e treinei-me a saltar pelas escadas acima, de costas, para
mostrar como era ridículo aquele costume. Andava com uma
péssima disposiçÃo! Claro que aquilo era uma estupidez e uma
parvoíce.
Descobri que aquilo já nÃo era uma regra; podíamos voltar-nos
ao deixar o rei e andar como um ser humano normal, na direcçÃo
em que pretendíamos ir, com o nariz para a frente.
Agradou-me saber que nem todas as pessoas na Suécia tomam as
cerimónias reais com a seriedade que poderíamos supor. Quando
lá chegamos, descobrimos que estÃo do nosso lado.
289

Os estudantes, por exemplo, tinham uma cerimônia especial em


que concediam a cada pessoa que recebia o Prêmio Nobel a
"Ordem da RÃ". Quando se recebe a pequena rÃ, tem de se fazer
um ruído imitando o animal.
Quando era mais novo, era anticultura, mas o meu pai possuía
alguns livros bons. Um deles incluía a peça grega As RÃs e uma
vez dei-lhe uma vista de olhos e vi lá que uma rà falava.
Estava escrito como "brek, kek, kek". Pensei: "Nunca nenhuma
rà produziu um som assim; é um modo disparatado de o
descrever! " Por isso experimentei e, depois de praticar um
pouco, compreendi que é com muita precisÃo o que uma rà diz.
Portanto, a minha vista de olhos ao acaso por um livro de
Aristófanes veio a ser útil mais tarde: consegui fazer um bom
ruído de rà na cerimônia dos estudantes para os galardoados
com o Prêmio Nobel! E o saltar para trás também deu jeito. Por
isso gostei dessa parte; aquela cerimônia correu bem.
Enquanto me divertia imenso, continuava a sentir aquela
dificuldade psicológica. O meu maior problema era o discurso
de agradecimento que se tem de proferir no jantar do rei,
Quando nos dÃo o prêmio, entregam-nos uns livros muito bem
encadernados sobre os anos anteriores, e lá vêm escritos todos
os discursos de agradecimento, como se fossem uma coisa
importante. Por isso começamos a pensar que aquilo que
dissermos no discurso de agradecimento tem uma certa
importância, porque vai ser publicado. Só nÃo compreendi que
dificilmente alguém o iria ouvir com atençÃo e que ninguém o
ia ler! Tinha perdido o meu sentido das proporÇÕES: nÃo podia
limitar-me a dizer muito obrigado blá-blá-blá-blá-blá; teria
sido tÃo fácil fazer isso, mas nÃo, tenho de o fazer com
honestidade. E a verdade é que eu nÃo queria realmente aquele
Prêmio, razÃo por que nÃo posso dizer obrigado por uma coisa
que nÃo quero receber.
A minha mulher diz que eu estava uma pilha de nervos,
preocupando-me com o que ia dizer no discurso, mas descobri
finalmente o modo de fazer um discurso perfeitamente
satisfatório, mas, no entanto, completamente honesto. Tenho a
certeza de que quem ouviu o discurso nÃo fez ideia daquilo que
eu passara para o preparar.
Comecei por dizer que já tinha recebido o meu prêmio,
traduzido no prazer que tivera em fazer a descoberta que fiz,
no facto de outras pessoas utilizarem o meu trabalho, etc.
Tentei explicar que já recebera tudo o que esperava e que o
resto nÃo era nada comparado com isso. Já tinha recebido o meu
prêmio.
290
Mas depois disse que recebera, de uma só vez, uma grande pilha
de cartas -disse-o muito melhor no discurso -, que me
recordavam todas aquelas pessoas que conhecera: cartas de
amigos de infância que, quando leram o jornal da manhÃ, deram
um salto e gritaram: " Conheço-o! É o miúdo com quem costumava
brincar! ", etc.; cartas assim, que me davam muito apoio e
expressavam o que eu interpretava como uma espécie de amor.
Era isso que lhes agradecia.
O discurso correu bem, mas eu estava sempre com pequenas
dificuldades com a realeza. Durante o jantar do rei estava
sentado ao lado de uma princesa que frequentara a universidade
nos Estados Unidos. Parti do princípio, incorrectamente, de
que
ela tinha as mesmas opiniSes que eu. Achei que ela era apenas
uma miúda como todas as outras. Comentei que o rei e toda a
realeza tinham de ficar de pé durante muito tempo, apertando a
mÃo aos convidados todos, na recepçÃo antes do jantar. "Na
América", disse eu, "poderíamos tornar isto mais eficiente.
Projectávamos uma máquina de apertar mÃos."
"Sim, mas aqui nÃo haveria grande mercado para essa máquina",
disse ela, pouco à vontade. "NÃo há assim tanta realeza."
"Pelo contrário, haveria um mercado muito grande. Ao
princípio, apenas o rei teria uma máquina e poderíamos dar-lha
de graça. Claro que, depois, as outras pessoas também
quereriam uma máquina. A questÃo agora é: a quem será
permitido ter uma máquina? O primeiro-ministro poderá comprar
uma, a seguir o presidente do Senado e depois os deputados
superiores mais importantes. Assim, haverá um mercado muito
grande em expansÃo e depressa deixará de ser preciso passar
pela linha de recepçÃo dando apertos de mÃo às máquinas; basta
mandar a sua máquina! "
Estava também sentado ao lado de uma senhora encarregada da
organizaçÃo do jantar. Veio uma criada encher o meu copo de
vinho e eu disse: "NÃo, obrigado, nÃo bebo."
A senhora atalhou: "NÃo, nÃo, deixe-a deitar a bebida."
"Mas eu nÃo bebo."
"NÃo faz mal. Olhe. Está a ver, ela tem duas garrafas. Sabemos
que o número oitenta e oito nÃo bebe. " (Nas costas da minha
cadeira estava o número oitenta e oito.) "Têm exactamente o
mesmo aspecto, mas uma delas nÃo tem álcool."
"Mas como é que sabem?", perguntei.
Ela sorriu: "Agora veja o rei", disse ela. "Ele também nÃo
bebe."
Ela contou-me alguns dos problemas que tinham tido
particularmente nesse ano. Um deles era onde se deveria sentar
o embaixador russo.
291

Em jantares assim, o problema é sempre decidir quem se senta


mais perto do rei. Habitualmente, os galardoados sentam-se
mais perto do rei do que o corpo diplomático. E a ordem por
que se sentam os diplomatas é determinada segundo o período de
tempo que já passaram na Suécia. Ora, nessa altura, o
embaixador dos Estados Unidos estava na Suécia há mais tempo
do que o embaixador da UniÃo Soviética. Mas, nesse ano, quem
tinha ganho o Prêmio Nobel da Literatura fora o Sr. Sholokov,
um soviético, e o embaixador soviético queria ser o seu
intérprete -e portanto sentar-se ao seu lado. O problema era
como deixar o embaixador soviético sentar-se mais perto do rei
sem ofender o embaixador dos Estados Unidos e o resto do corpo
diplomático.
Ela disse: "Devia ter visto a barulheira que fizeram -cartas
para trás e para a frente, telefonemas, etc. -até eu ter a
permissÃo de sentar o embaixador ao lado do Sr. Sholçolov.
Combinou-se, por fim, que nessa noite o embaixador nÃo
representaria oficialmente a Embaixada da UniÃo Soviética; ia
antes ser apenas o intérprete do Sr. Shokolov."
Depois do jantar fomos para outra sala, onde decorriam
conversas diferentes. Havia uma princesa nÃo-sei-quem da
Dinamarca sentada a uma mesa com um certo número de pessoas à
volta e, como vi uma cadeira vazia na mesa deles, sentei-me.
Ela voltou-se para mim e disse: "Oh! O senhor é um dos
galardoados com o Prêmio Nobel. Em que campo trabalha?"
"Em física", disse eu.
"Oh! Bem, ninguém sabe nada sobre isso, portanto creio que nÃo
poderemos falar sobre física."
"Pelo contrário", respondi. "É por alguém saber alguma coisa
sobre ela que nÃo podemos falar de física. As coisas que
podemos discutir sÃo aquelas sobre as quais ninguém sabe nada.
Podemos falar sobre o tempo; podemos falar sobre problemas
sociais; podemos falar sobre psicologia; podemos falar sobre
as finanças internacionais -nÃo.podemos falar sobre
transferência de ouro, porque essas sÃo compreendidas;
portanto, aquilo sobre que podemos falar é um assunto de que
ninguém sabe nada! "
NÃo sei como o conseguem. Há um meio de formar gelo na
superfície do rosto e ela fez isso! Voltou-se para falar com
outra pessoa.
Ao fim de algum tempo vi que estava completamente fora da
conversa, pelo que me levantei e comecei a afastar-me. O
embaixador japonês, que também estava sentado a essa mesa,
levantou-se de um salto e seguiu-me: "Professor Feynman",
disse
ele, "queria dizer-lhe uma coisa sobre a diplomacia."
292
Começou a contar uma longa história sobre um rapaz no JapÃo
que vai para a universidade e estuda relaÇÕES internacionais
porque pensa que pode servir o seu país. No segundo ano começa
a ter algumas dúvidas sobre o que aprende. Depois da
universidade consegue a sua primeira colocaçÃo numa embaixada
e tem ainda mais dúvidas sobre a sua compreensÃo da
diplomacia, até que, finalmente, se apercebe de que ninguém
sabe nada sobre relaÇÕES internacionais. Nessa altura pode
tornar-se embaixador! "Por isso, professor Feynman", disse
ele, "na próxima vez que der exemplos de coisas de que toda a
gente fala e de que ninguém percebe inclua, por favor, as
relaÇÕES internacionais!"
Era um homem muito interessante e começámos a conversar.
Sempre me interessara saber por que motivo os diferentes
países e os diferentes povos se desenvolvem de forma
diferente. Disse ao embaixador que havia uma coisa que sempre
me parecera um fenômeno notável: o facto de o JapÃo se ter
desenvolvido tÃo depressa que se tornara um moderno e
importante país. "Qual é o aspecto e o carácter do povo
japonês que lhe permitiram conseguir isso?", perguntei.
O embaixador respondeu de um modo que me agradou: "NÃo sei",
disse ele. "Poderia fazer uma suposiçÃo, mas nÃo sei se é
verdadeira. As pessoas no JapÃo acreditaram que só tinham uma
maneira de progredir: fazer com que os seus filhos recebessem
mais educaçÃo do que eles; que era muito importante que se
afastassem do seu provincianismo para se educarem. Por isso
tem havido uma grande energia por parte das famílias no
sentido de encorajarem as crianças a terem sucesso na escola e
de as fazerem avançar. Devido a esta tendência de estar sempre
a aprender, as novas ideias do mundo exterior espalham-se com
muita facilidade pelo sistema educativo. Talvez seja essa uma
das razSes por que o JapÃo avançou tÃo rapidamente."
Levando tudo em linha de conta, devo dizer que acabei por
gostar da visita à Suécia. Em vez de voltar imediatamente para
casa, fui ao CERN, o Centro Europeu de Pesquisa Nuclear, na
Suíça, fazer uma conferência. Apresentei-me aos meus colegas
com o fato que tinha usado no jantar do rei -nunca fizera uma
conferência usando um fato -e comecei por dizer: " Sabem, é
engraçado; na Suécia estávamos todos a discutir se o facto de
termos ganho o Prêmio Nobel iria produzir alteraÇÕES e, de
facto, parece-me que já vejo uma mudança: estou a gostar
bastante deste fato."
Todos dizem "BUUUUU!" e Weisskopf levanta-se de um salto,
arranca o casaco e diz: "NÃo vamos usar fatos nas
conferências!"
293

Tirei o casaco, desapertei a gravata e disse: "Enquanto andava


pela Suécia, comecei a gostar destas coisas, mas agora, que
estou de volta ao mundo, está tudo bem outra vez. Obrigado por
me corrigirem! " NÃo queriam que eu mudasse. Foi portanto
muito rápido: no CERN desfizeram tudo o que tinham feito na
Suécia.
Foi bom ter recebido dinheiro -pude comprar uma casa na
praia-, mas, ao cabo e ao resto, acho que teria sido muito
melhor nÃo ter ganho o Prêmio -nunca mais se consegue ser
levado a sério em nenhuma situaçÃo pública. De certo modo, o
Prêmio Nobel tem sido um pouco uma maçada, apesar de uma vez
me ter divertido graças a ele.
Pouco tempo depois de ter ganho o Prêmio, Gweneth e eu
recebemos um pedido do Governo Brasileiro para sermos os
convidados de honra nas celebraÇÕES do Carnaval do Rio.
Aceitámos com muito gosto e divertimo-nos imenso. Andámos de
baile em baile e voltámos a ver o grande desfile na rua,
apresentando as famosas escolas de samba tocando os seus
maravilhosos ritmos e música. Havia sempre fotógrafos dos
jornais e das revistas a tirar fotografias -"Aqui, o
professor, da América está a dançar com Miss Brasil. "
Era divertido ser uma "celebridade", mas, evidentemente,
nÃo éra
mos as celebridades certas. Naquele ano ninguém estava muito
entusiasmado com os convidados de honra. Mais tarde descobri
como
tinha,
surgido o nosso convite. Quem devia ser o convidado de honra
era Ginw,
Lollobrigida, mas, mesmo antes do Carnaval, disse que nÃo. O
ministro do Turismo, a quem cabia a organizaçÃo do Carnaval,
tinha
am+-'~
gos no Centro de Pesquisa Física que sabiam que eu tocara numa
banda ~
de samba, e, como eu ganhara recentemente o Prémio Nobel,
tinha sidw
algo falado nas notícias. Num momento de pânico, o ministro e
os seus;
amigos tiveram a ideia maluca de substituir Gina Lollobrigida
por um,
professor de Física!
Escusado será dizer que o ministro fez um trabalho tÃo mau
nesse Carnaval que perdeu o seu cargo no Governo.
Trazendo cultura aos j'lslcos
Nina Byers, que era professora na UCLA, tornou-se a
responsável pelo colóquio de física no início dos anos 70. Os
colóquios sÃo habitualmente lugares onde os físicos de outras
universidades vÃo falar dos
294
assuntos puramente técnicos. Mas, em parte como resultado da
atmosfera desse particular período, ela teve a ideia de que os
físicos precisavam de mais cultura, pelo que pensou preparar
qualquer coisa nesse sentido: como Los Angeles fica perto do
México, ela organizaria um colóquio sobre a matemática e a
astronomia dos Maias -a antiga civilizaçÃo do México.
(Lembrem-se da minha atitude em relaçÃo à cultura: uma coisa
daquelas teria dado comigo em doido se fosse na minha
universidade!)
Ela começou a procurar um professor que fizesse uma
conferência sobre o assunto e nÃo conseguiu encontrar na UCLA
ninguém que fosse suficientemente perito no assunto. Telefonou
para vários sítios, mas continuou a nÃo encontrar ninguém.
EntÃo lembrou-se do Prof. Otto Neugebauer, da Universidade de
Brown, o grande perito em matemática babilónica'. Ela
telefonou-lhe para Rliode Island e perguntou-lhe se conhecia
alguém na Costa Oeste que pudesse fazer con ferências sobre a
matemática e a astronomia maias.
"Sim", disse ele, "conheço. NÃo é antropólogo nem historiador
profissional; é um amador. Mas sabe de certeza muito sobre o
assunto. Chama-se Richard Feynman."
Ela quase morreu! Queria levar cultura aos físicos e o único
modo era arranjar um físico
A única razÃo de eu saber alguma coisa sobre matemática maia é
o facto de eu ter começado a ficar exausto na minha lua-de-mel
no México com a minha segunda mulher, Mary Lou. Ela
interessava-se muito por história da arte, particularmente a
do México. Por isso fomos passar a nossa lua-de-mel ao México
e subimos e descemos pirâmides; ela queria que eu fosse com
ela a todos os sítios. Mostrou-me coisas muito interessantes,
como certas relaÇÕES no desenho de várias figuras, mas, depois
de uns dias (e noites) de andar para cima e para baixo em
selvas quentes e húmidas, eu estava exausto.
' Quando eu era um jovem professor em Cornell, o Prof.
Neugebauer tinha lá ido um ano fazer uma série de
conferências, chamada Conferências Messenger, sobre a
matemática babilónica. Foram maravilhosas. No ano seguinte foi
Oppenheimer quem fez as con
ferências e lembro-me de pensar para comigo: "Que bom seria
vir cá um dia e ser capaz de fazer conferências assim!" Alguns
anos depois, quando recusava convites para fazer
conferências em vários lugares, fui convidado para fazer as
Conferências Messenger em Cornell. Claro que nÃo podia
recusar, porque tinha aquilo metido na cabeça, pelo que
aceitei um convite para ir passar um fim-de-semana a casa de
Bob
Wilson e discutimos várias ideias. O resultado foi uma série
de conferências chamada "O carácter da lei física".
295

Numa cidadezinha perdida da Guatemala fomos a um museu que,


tinha em exposiçÃo um manuscrito cheio de estranhos símbolos,
figuras, traços e pontos. Era uma cópia (feita por um homem
chamad
Villacorta) do Código de Dresden, um livro original feito
pelos Maias, encontrado num museu em Dresden. Eu sabia que os
traços e os pontos eram números. O meu pai tinha-me levado em
miúdo à Feira Mundial de Nova Iorque, onde haviam reconstruido
um templo maia. Lembro-me de ele me contar que os Maias tinham
inventado o zero e

tinham feito muitas coisas interessantes.


O museu possuía cópias do Código para venda, pelo que comprei
uma. Cada página tinha, à esquerda, a cópia do Código e, à
direita, uma descriçÃo e traduçÃo parcial em espanhol.
Adoro quebra-cabeças e códigos, pelo que, quando vi os traços
e, os pontos, pensei: "Vou-me divertir um pouco!" Tapei o
espanhol com um bocado de papel amarelo e comecei o jogo de
tentar decifrar os traços e pontos maias, sentado no quarto do
hotel, enquanto minha mulher subia e descia pirâmides durante
todo o dia.
Descobri rapidamente que um traço equivalia a cinco pontos,
qual: era o símbolo para o zero, etc. Levei um pouco mais de
tempo a descobrir que os traços e os pontos se prolongavam
sempre até vinte da primeira vez, mas que se prolongavam até
dezoito da segunda vez (formando ciclos de 360). Descobri
também todo o tipo de coisas sobre vários aspectos:
significavam certamente determinados dias e semanas.
Depois de voltarmos para casa continuei a trabalhar no
assunto. No seu conjunto, é divertidíssimo tentar decifrar uma
coisas daquelas, porque, quando começamos, nÃo sabemos nada
-nÃo temos nenhuma pista para nos guiar. Mas entÃo reparamos
em certos números que aparecem com frequência e somados com
outros números, etc.
Havia uma parte do Código onde o número 584 era muito
proeminente. Este 584 estava dividido em períodos de 236, 90,
250 e 8. Outro. número proeminente era 2920, ou 584 x 5
(também 365 x 8). Havia uma tabela de múltiplos de 2920 até 13
x 2920, depois havia durante um bocado múltiplos de 13 x 2920
e depois... uns números estranhos! Tanto quanto sabia, eram
erros. Só muitos anos depois descobri o que eram.
Como os números que representavam dias estavam associados a
este 584, que se encontrava dividido de forma tÃo peculiar,
pensei que, se nÃo era uma espécie de período mítico, poderia
ser qualquer coisa astronómica. Finalmente, fui à biblioteca
de astronomia procurar e desco
296
bri que 583,92 dias é o período de Vénus tal como se apresenta
visto da Terra. Depois, os números 236, 90, 250 e 8
tornaram-se evidentes: devem ser as fases por que Vénus passa.
É uma estrela da manhÃ, depois nÃo se vê (está do outro lado
do Sol), depois é uma estrela da tarde e, por fim, volta a
desaparecer (está entre a Terra e o Sol). O 90 e o 8 sÃo
diferentes porque Vénus atravessa o céu mais lentamente quando
está do outro lado do Sol, em comparaçÃo com a sua velocidade
quando está entre a Terra e o Sol. A diferença entre 236 e 250
poderia indicar uma diferença entre o horizonte oriental e o
ocidental do território maia.
Descobri outra tabela próxima que tinha períodos de 11,959
dias. Verificou-se ser uma tabela para prever eclipses da Lua.
Havia ainda outra tabela com múltiplos de 91 por ordem
decrescente. Nunca conseguiria perceber aquela (nem ninguém
conseguiu).
Quando tinha descoberto o maior número de coisas possível,
decidi finalmente olhar para o comentário espanhol, para ver o
que tinha sido capaz de descobrir. Era um disparate completo.
Este símbolo era Saturno e este era um deus -nÃo fazia o
mínimo sentido. Por isso nÃo precisava de ter tapado o
comentário; de qualquer modo, nÃo teria aprendido nada com
ele.
Depois disso comecei a ler muito sobre os Maias e descobri que
o grande homem nesse assunto era Eric Thompson, de quem agora
possuo alguns livros.
Quando Nina Byers me falou, apercebi-me de que tinha perdido a
minha cópia do Código de Dresden. (Havia-a emprestado à Sr.'
H. P. Robertson, que encontrara um código maia num velho baú
de um negociante de antiguidades de Paris. Tinha-o trazido
para Pasadena para eu o ver ainda me lembro de vir a guiar
para casa trazendo-o no meu carro, à frente, e pensar: "Tenho
de guiar com cuidado; trago o Código novo" -, mas, assim que o
observei cuidadosamente, vi logo que era uma completa
falsificaçÃo. Com pouco trabalho descobri de que parte do
Código de Dresden tinha sido tirada cada uma das figuras do
novo Código. Por isso emprestei-lhe o meu livro para lhe
mostrar e acabei por me esquecer de que ela o tinha.) Por
isso, os bibliotecários da UCLA esforçaram-se muito para
descobrir outro exemplar da versÃo de Villacorta do Código de
Dresden e emprestaram-mo.
Voltei a fazer todos os cálculos e de facto avancei um pouco
mais do que antes: descobri que aqueles "números estranhos"
que antes tinha pensado serem erros eram, na realidade,
múltiplos inteiros de qualquer
297

coisa mais próxima do período correcto (583,923) -os Maias


tinham percebido que 584 nÃo estava absolutamente correcto!'
Depois do colóquio na UCLA, a Prof.' Byers ofereceu-me umas
lindas reproduÇÕES a cores do Código de Dresden. Alguns meses
depois, em Caltech, quiseram que eu fizesse a mesma
conferência pública em Pasadena. Robert Rowan, um
proprietário, emprestou-me umas esculturas de pedra muito
valiosas de deuses maias e umas figuras de cerâmica para a
conferência de Caltech. Provavelmente era muitíssimo ilegal
fazer sair coisas daquelas do México e eram tÃo valiosas que
contratámos guardas de segurança para as proteger.
Uns dias antes da conferência de Caltech houve um grande
estardalhaço no New York Times, que noticiava que tinha sido
descoberto um novo código. Havia apenas três códigos (de dois
deles era difícil extrair alguma coisa) conhecidos nessa
altura -os padres espanhóis tinham queimado centenas de
milhares deles como "obras do Diabo". A minha prima trabalhava
para a AP e arranjou-me uma fotocópia brilhante do que o New
York Times tinha publicado. Eu fiz dela um diapositivo para
incluir na minha conferência.
Este novo Código era uma falsificaçÃo. Na minha conferência
salientei que os números eram no estilo do Código de Madrix,
mas eram 236, 90, 250 e 8 -uma grande coincidência!
Conseguimos um fragmento da centena de milhares de livros
originalmente feitos, que têm escritas as mesmas coisas que os
outros fragmentos! Evidentemente que era outra vez uma
daquelas montagens que nÃo continham nada de original.
Estas pessoas que copiam coisas nunca têm a coragem de fazer
algo verdadeiramente diferente. Se encontramos qualquer coisa
que é realmente nova, tem de ter algo de diferente. Uma
verdadeira burla seria pegar em qualquer coisa como o período
de Marte, inventar uma mitologia a condizer e depois fazer
desenhos associados a essa mitologia com números apropriados
para Marte -nÃo de modo evidente; arran
1 Enquanto estudava esta tabela de correcÇÕES para o período
de Vénus, descobri um ligeiro exagero do Sr. Thompson. Tinha
escrito que, olhando para a tabela, podemos deduzir como os
Maias calcularam o período correcto de Vénus-usando quatro
vezes este número e uma a diferença, conseguimos uma precisÃo
de um dia em 4000 anos, o que é notável, principalmente porque
os Maias fizeram observaÇÕES apenas durante umas centenas de
anos.
Thompson escolheu por acaso uma combinaçÃo que se ajustava ao
que ele pensava ser o período correcto de Vénus, 583,92. Mas,
quando pomos um número mais exacto, qualquer coisa como
583,923, verificamos que os Maias se desviaram mais. Claro
que, escolhendo uma combinaçÃo diferente, podemos conseguir
que os números da tabela nos dêem 583,923 com a mesma precisÃo
notável!
298
jar antes tabelas de múltiplos do período com alguns "erros"
misteriosos, etc. Os números teriam de ser um pouco
trabalhados. EntÃo as pessoas diriam: "Ena! Isto diz respeito
a Marte! " Juntamente com isto, deveria haver um certo número
de coisas incompreensíveis, que nÃo fossem exactamente como o
que já se tinha visto. Isso é que daria uma boa falsificaçÃo.
Diverti-me imenso ao fazer a minha conferência com o título
"Decifrando os hieróglifos maias". Ali estava eu a ser
novamente aquilo que nÃo era. As pessoas iam enchendo o
auditório, passavam pelos expositores de vidro e admiravam as
reproduÇÕES a cores do Código de Dresden e os autênticos
artefactos maias vigiados por um guarda armado e fardado;
ouviram uma conferência de duas horas sobre a matemática e a
astronomia maias feita por um perito amador nessa matéria (que
até lhes disse como se descobre um código falso) e depois
saíram, admirando novamente os expositores. Murray Gell-Manri
ripostou nas semanas seguintes, fazendo um maravilhoso
conjunto de seis conferências sobre as relaÇÕES linguísticas
entre todas as línguas do mundo.
Descobertos em Paris
Fiz uma série de conferências sobre física que a Companhia
AddisonWesley transformou num livro e certo dia, ao almoço,
discutimos como seria a capa do livro. Pensei que, como as
conferências eram uma combinaçÃo do mundo real e da
matemática, seria boa ideia ter a fotografia de um tambor e
por cima uns diagramas matemáticos -círculos e linhas para os
oscilantes nodos da pele do tambor, os quais eram discutidos
no livro.
O livro saiu com uma capa vermelha simples, mas, por qualquer
razÃo, tinha no prefácio uma fotografia minha a tocar tambor.
Acho que a puseram lá para satisfazer a ideia que tinham de
que "o autor quer um tambor em qualquer sítio". Seja como for,
todos se admiraram de ver uma fotografia minha a tocar tambor
no prefácio das Conferências de Feynman, porque nÃo tem
diagramas, nem qualquer outra coisa que a explique. (É verdade
que eu gosto de tocar tambor, mas isso é outra história.)
Em Los Alamos andava tudo bastante tenso com tanto trabalho e
nÃo havia nenhuma maneira de nos divertirmos: nÃo havia
cinema, nem
299

nada do gênero. Mas descobri uns tambores que a escola de


rapazes que ali tinha existido antes havia recolhido: Los
Alamos ficava no meio do Novo México, onde havia muitas
aldeias índias. Por isso me divertia umas vezes só, outras com
outro tipo -apenas a fazer barulho, tocando aqueles tambores.
NÃo conhecia nenhum ritmo em especial, mas os ritmos dos
índios eram bastante simples, os tambores eram bons e eu
divertia-me.
Por vezes levava os tambores para o bosque, bastante afastado
para nÃo incomodar ninguém, e tocava-os com um pau e cantava.
Lembro-me de uma noite andar à volta de uma árvore, olhando
para a Lua e tocando o tambor, a fingir que era um índio.
Um dia veio um tipo ter comigo e perguntou: "Por volta do Dia
de AcçÃo de Graças nÃo andou pelo bosque a tocar tambor, pois
nÃo?"
"Andei, sim", disse eu.
"Oh! EntÃo a minha mulher tinha razÃo! " A seguir contou-me
esta história:
Uma noite ouviu música de tambor ao longe, subiu as escadas e
foi ter com o outro indivíduo que vivia na mesma casa duplex
com eles, e o outro também ouvira. Lembrem-se que estes tipos
eram todos do Leste. NÃo percebiam nada de índios e ficaram
cheios de interesse: os índios deviam estar a realizar
qualquer cerimônia, ou qualquer coisa excitante, e os dois
homens resolveram sair para ver o que era.
A música ia-se tornando mais alta à medida que se aproximavam
e começaram a ficar nervosos. Admitiram que os índios tinham
provavelmente colocado sentinelas para se assegurarem de que
ninguém perturbaria a cerimônia. Por isso se deitaram de
barriga para baixo e rastejaram pelo carreiro até o som estar
aparentemente por detrás do monte próximo. Rastejaram pelo
monte acima e descobriram com surpresa que havia apenas um
índio a realizar a cerimônia: dançava à volta de uma árvore,
batia no tambor com um pau e cantava. Os dois tipos recuaram
devagar, porque nÃo o queriam incomodar: provavelmente estava
a preparar algum feitiço ou coisa semelhante.
Contaram às suas mulheres o que tinham visto e elas disseram:
"Oh, deve ter sido o Feynman, ele gosta de tocar tambor."
"NÃo sejam ridículas!", disseram os homens. "Nem mesmo o
Feynman seria tÃo doido!"
Por isso, na semana seguinte começaram a tentar descobrir quem
era o índio. Havia índios das reservas próximas a trabalhar em
Los Alamos, pelo que perguntaram a um deles, que trabalhava na
área técnica, quem poderia ser. O índio perguntou aos outros,
mas ninguém
300
sabia quem poderia ser, excepto um índio que lá havia, a quem
ninguém podia falar. Esse é que era um índio que conhecia a
sua raça: usava duas grandes tranças pelas costas abaixo e
andava de cabeça bem levantada; sempre que ia a qualquer lado
caminhava com grande dignidade, sozinho; e ninguém podia falar
com ele. As pessoas tinham medo de se lhe dirigir a perguntar
qualquer coisa; tinha demasiada dignidade. Era um homem
solitário. Por isso nunca ninguém teve coragem de perguntar a
este índio e decidiram que devia ter sido ele. (Gostei de
saber que tinham descoberto um índio tÃo típico, tÃo
maravilhoso, e que pensaram que eu fosse esse homem. Era uma
grande honra ser tomado por tal homem.)
Por isso, o tipo que falara comigo estivera apenas a
certificar-se daquilo que pensava -os maridos gostam sempre de
provar que as mulheres nÃo têm razÃo -e descobriu, como
acontece muitas vezes aos maridos, que a mulher tinha toda a
razÃo.
Consegui tocar tambores bastante bem e tocava-os quando
tínhamos festas. NÃo sabia o que estava a fazer; limitava-me a
marcar os ritmos -e ganhei fama: toda a gente em Los Alamos
sabia que eu gostava de tocar tambores.
Quando acabou a guerra, e íamos voltar para a "civilizaçÃo",
as pessoas costumavam meter-se comigo, dizendo que nÃo poderia
continuar a tocar tambores porque faziam demasiado barulho. E,
como estava a tentar tornar-me um digno professor em ítaca,
vendi o tambor que tinha comprado uma vez quando estava em Los
Alamos.
No VerÃo seguinte regressei ao Novo México para trabalhar num
relatório qualquer e, quando tornei a ver os tambores, nÃo
aguentei. Comprei outro tambor e pensei: "Desta vez vou
levá-lo comigo só para poder olhar para ele."
Em Cornell, nesse ano, eu tinha um pequeno apartamento dentro
de uma casa maior. Tinha lá o tambor só para olhar para ele,
mas um dia nÃo consegui resistir e disse: "Bem, faço muito
pouco barulho ... "
Sentei-me numa cadeira, segurei o tambor com as pernas e
toquei-o levemente com os dedos: bup, bup, budle bup. Depois
um pouco mais alto -no fim de contas estava a tentar-me!
Comecei a tocar um pouco mais alto e BUUW, tocou o telefone.
"Está?"
"Fala a senhoria. Está aí em baixo a tocar tambor?"
"Estou; desculpe. ... "
"Soa tÃo bem! NÃo se importa que eu vá aí abaixo para ouvir
mais de perto?"
301

A partir dessa altura, a senhoria descia sempre que eu tocava


tambor. Aquilo é que era liberdade. Desde aí passei óptimos
bocados a tocar tambor.
Por essa altura conheci uma senhora do Congo Belga que me deu
uns discos etnológicos. Nesses dias, discos assim eram raros,
com música de tambores dos Watusi e de outras tribos de
Ãfrica. Eu admirava imenso os tocadores de tambor Watusi e
costumava tentar imitá-los -nÃo com muita precisÃo, mas apenas
para conseguir um som parecido com o deles-, e como resultado
desenvolvi um grande número de ritmos.
Uma noite, já tarde, estando eu na sala de convívio, peguei
num cesto de lixo e comecei a bater-lhe no fundo. Um tipo veio
lá de baixo a correr e disse: "Eh! Você toca tambor! " Esse
tipo, afinal, sabia realmente tocar tambores e ensinou-me a
tocar bongos.
Havia um indivíduo no Departamento de Música que tinha uma
colecçÃo de música africana e a casa de quem eu costumava ir
tocar tambor. Ele fazia a gravaçÃo e depois, nas festas,
propunha um jogo a que chamava "Ãfrica ou ítaca?", em que
passava gravaÇÕES de música de tambores, sendo o objectivo
adivinhar se o que se estava a ouvir era feito no continente
africano ou localmente. Portanto, nessa altura eu devia imitar
a música africana bastante bem.
Quando fui para Caltech, costumava frequentar assiduamente
Sunset Strip. Uma vez, num dos clubes nocturnos, encontrava-se
a tocar esta maravilhosa música de tambor -apenas percussÃo -
um grupo de tocadores de tambor dirigidos por um grande tipo
da Nigéria chamado Ukonu. O subchefe, que era particularmente
simpático para mim, convidou-me a ir ao palco tocar um pouco
com eles. Assim, lá fui durante um bocado tocar tambor com o
grupo.
Perguntei ao segundo tipo se Ukonu dava liÇÕES e ele disse que
sim. Assim, passei a ir a casa de Ukonu, perto do Century
Boulevard (onde mais tarde se deram os motins Watts), para
receber liÇÕES de tambor. As liÇÕES nÃo eram muito eficazes:
ele distraía-se muito, falava com outras pessoas e
interrompia-se com todo o tipo de coisas. Mas, quando
resultavam, eram muito excitantes e aprendi imenso com ele.
Nos bailes perto da casa de Ukonu. havia muito poucos brancos,
mas o ambiente era muito mais descontraído do que hoje. Uma
vez fizeram um concurso de tambor e eu nÃo me saí lá muito
bem: disseram que a minha maneira de tocar tambor era
"demasiado intelectual"; a deles era muito mais instintiva.
302
Um dia, quando me encontrava em Caltech, recebi um telefonema
muito sério.
"Está?"
"Daqui fala o Trowbridge, mestre da Escola Politécnica. " A
Escola Politécnica era uma pequena escola particular que
ficava do outro lado da rua, diagonalmente em relaçÃo a
Caltech. Trowbridge continuou com uma voz muito formal: "Está
aqui um amigo seu que gostaria de falar consigo."
"Está bem."
"Olá, Dick! " Era Ukonu! Afinal o mestre da Escola Politécnica
nÃo era tÃo formal como fingia ser e tinha um grande sentido
de humor. Ukonu estava de visita à Escola para tocar para os
miúdos, pelo que me convidou a lá ir tocar com ele no palco.
Assim, tocámos juntos para os miúdos: eu toquei bongos (que
tinha no meu gabinete) e ele o seu grande tambor.
Ukonu fazia isto com regularidade: ia a várias escolas falar
sobre os tambores africanos e o seu significado e sobre a
música. Tinha uma personalidade fantástica e um sorriso
maravilhoso; era um homem muitíssimo simpático. Era mesmo
sensacional com os tambores -tinha discos gravados -e estava
cá a estudar Medicina. Voltou para a Nigéria quando a guerra
lá começou -ou antes de começar -e nÃo sei o que lhe
aconteceu.
Depois de Ukonu partir nÃo toquei muito tambor, excepto uma
vez ou outra em festas, para divertir um pouco as pessoas. Uma
vez em que me encontrava a jantar em casa dos Leightons, o
filho de Bob, Ralph, e um amigo perguntaram-me se queria tocar
tambor. Pensando que eles queriam que eu tocasse a solo, disse
que nÃo. Mas depois começaram a bater numas mesinhas de
madeira e nÃo pude resistir: agarrei também numa e tocámos os
três naquelas mesinhas, que produziam inúmeros sons
interessantes.
Ralph e o seu amigo Tom Rutishauser gostavam de tocar tambores
e começámos a encontrar-nos todas as semanas só para
improvisar, desenvolvendo ritmos e criando material. Estes
dois tipos eram músicos autênticos: Ralph tocava piano e Tom
violoncelo. Eu só tinha praticado ritmos e nÃo sabia nada de
música, que, tanto quanto sabia, era apenas percussÃo com
notas. Mas produzimos uma quantidade de bons ritmos e tocámos
várias vezes em algumas escolas para divertir os garotos.
Também tocámos ritmos para uma aula de Dança de uma faculdade
local -uma coisa que eu tinha verificado ser divertida quando
estive a trabalhar durante algum tempo em Brookhaven-e chamá
303

vamo-nos a nós próprios Os Três Quarks, pelo que podem


calcular quando isso se passou.
Uma vez fui a Vancôver falar para os estudantes de lá e eles
fizeram uma festa com um verdadeiro conjunto de rock a tocar
na cave. Os tipos do conjunto eram muito simpáticos: tinham lá
um chocalho a mais e encorajaram-me a tocá-lo. EntÃo comecei a
tocar um pouco e, como a música deles era muito rítmica (e o
chocalho é apenas um acompanhamento -nÃo o podemos esquecer),
fiquei verdadeiramente inflamado.
Depois de a festa acabar, o tipo que a tinha organizado
contou-me que o dirigente do conjunto dissera: "Quem era
aquele tipo que veio tocar o chocalho? Consegue mesmo bater um
ritmo com aquilo! E, a propósito, o tal manda-chuva para quem
deveria ser a festa, sabem, nÃo veio cá abaixo; nunca cheguei
a ver quem era!"
Em Caltech há um grupo de teatro. Alguns dos actores sÃo
alunos de Caltech; outros sÃo de fora. Quando há um papel
pequeno, como o de um polícia que deve prender alguém,
arranjam um dos professores para o fazer. É sempre
divertidíssimo: o professor entra, prende uma pessoa e volta a
sair.
Há uns anos, o grupo estava a representar Guys and Dolls e
havia uma cena em que o actor principal levava a rapariga para
Havana e iam a um clube. O encenador pensou que seria boa
ideia eu fazer o homem que estava a tocar bongos no palco do
clube.
Fui ao primeiro ensaio e a senhora que dirigia o espectáculo
apontou para o director da orquestra e disse: "Jack
mostrar-lhe-á a música. "
Bem, aquilo petrificou-me. NÃo sei ler música; tinha pensado
que bastava ir para o palco fazer barulho.
Jack estava sentado ao piano e apontou para a música e disse:
"Muito bem, começa aqui, está a ver, e faz isto. Depois eu
toco plonk,
plonk, plonk", e tocou algumas notas no piano. Voltou a
página. "Depois toca isto, e agora fazemos ambos uma pausa
para uma fala, está a ver, aqui" -voltou mais umas páginas e
disse: "Finalmente, toca isto."
Mostrou-me a "música" escrita num padrÃo esquisito de pequenos
XX nos traços e nas linhas. Continuou a dizer-me todas estas
coisas,
pensando que eu era recordar fosse o que fosse.
Felizmente, adoeci no dia seguinte e nÃo pude ir ao próximo
ensaio.
Pedi ao meu amigo Ralph que fosse em meu lugar; como ele é
músico,
deveria perceber do que se tratava. Ralph voltou e disse: "NÃo
é assim
um músico, e era-me completamente impossível
304
tÃo mau. Mesmo no princípio tem de fazer uma coisa
absolutamente certa porque está a iniciar o ritmo para o resto
da orquestra, que se lhe juntará. Mas, depois de entrar a
orquestra, é uma questÃo de improvisar; vai haver alturas em
que é preciso parar para as falas, mas acho que seremos
capazes de as descobrir a partir das deixas do director da
orquestra. "
Entretanto eu tinha conseguido que o encenador aceitasse
também Ralph, pelo que estaríamos os dois no palco. Ele tocava
um grande tambor e eu tocava bongos -assim as coisas eram
muito mais fáceis para mim.
Ralph mostrou-me o ritmo. Devia ser só umas vinte ou trinta
pancadas, mas tinham de ser dadas com exactidÃo. Nunca tivera
de tocar nada com exactidÃo e custou-me muito acertar. Ralph
explicava pacientemente: "MÃo esquerda, mÃo direita, duas à
esquerda, depois à direita ... " Esforcei-me muito e, por fim,
muito lentamente, comecei a acertar com o ritmo. Levei imenso
tempo -muitos dias -a consegui-lo.
Uma semana depois fomos ao ensaio e descobrimos que havia um
novo tocador de tambores -o do costume tinha saído da
orquestra para fazer outra coisa qualquer -e nós
apresentámo-nos:
"Olá. Somos os tipos que vÃo estar no palco para a cena de
Havana. "
"Olá. Deixem-me procurar aqui a cena ... ", e voltou-se para a
página onde estava a nossa cena, pegou na baqueta do tambor e
disse: "Começam a cena com ... ", e, batendo com a baqueta de
encontro ao lado do tambor, fez bing, bong, bang-a-bang,
bing-a-bing, bang, bang, a toda a velocidade, enquanto olhava
para a música! Que choque aquilo foi para mim. Tinha
trabalhado durante quatro dias para tentar apanhar aquele
maldito ritmo e ele conseguia batê-lo imediatamente!
Depois de praticar vezes sem conta consegui finalmente fazê-lo
bem e toquei-o no espectáculo. Teve bastante sucesso; todos se
divertiam por ver um professor no palco a tocar bongos e a
música nÃo era má: a parte improvisada era diferente em todos
os espectáculos e era fácil, mas aquela parte no início, essa
tinha de ser a mesma, essa era difícil.
Na cena do clube de Havana, alguns dos estudantes tinham de
fazer uma espécie de dança que tinha de ser coreografada. Por
isso, o encenador conseguira que a mulher de um dos tipos de
Caltech, que era coreógrafa e trabalhava nessa altura para os
Universal Studios, fosse ensinar os rapazes a dançar. Ela
gostou de nos ouvir tocar e, quando os espectáculos acabaram,
perguntou-nos se gostaríamos de ir tocar tambor a SÃo
Francisco para um bailado.
305

"O QU-?"
Sim. Ia para SÃo Francisco e estava a coreografar um bailado
para uma pequena escola de dança de lá. Tinha a intençÃo de
criar um bailado em que a música fosse apenas percussÃo.
Queria que Ralph e eu fôssemos a sua casa antes de ela se ir
embora e tocássemos os diferentes ritmos que conhecíamos, e a
partir daí ela faria uma história que se adaptasse aos ritmos.
Ralph tinha um certo receio, mas eu encorajei-o a participar
naquela aventura. Contudo, insisti em que ela nÃo contasse a
ninguém que eu era professor de Física e que tinha ganho o
Prêmio Novel, ou qualquer coisa do gênero. NÃo queria tocar
tambor se o fizesse, porque, como disse Samuel Jolinson, se
vemos um cÃo a andar nas patas de trás, nÃo é o facto de ele o
fazer bem que conta, mas simplesmente o facto de o fazer. Eu
nÃo quereria fazê-lo se fosse simplesmente um professor de
Física; éramos apenas uns músicos que ela tinha descoberto em
Los Angeles e que iam lá tocar aquela música de tambor que
tinham composto.
Portanto, fomos a casa dela e tocámos vários ritmos que
tínhamos criado. Ela tomou uns apontamentos e pouco tempo
depois, nessa mesma noite, inventou uma história e disse:
"Muito bem. Quero cinquenta e duas repetiÇÕES disto; quarenta
compassos daquilo; nÃo sei quantos disto, daquilo, disto,
daquilo..."
Fomos para casa e na noite seguinte gravámos uma fita em casa
de Ralph. Tocámos todos os ritmos durante uns minutos e depois
Ralph fez uns cortes e umas colagens com o seu gravador para
conseguir os vários comprimentos. Ela levou uma cópia da nossa
fita quando se foi embora e começou a ensaiar os bailarinos
com ela em SÃo Francisco.
Entretanto tivemos de treinar o que estava na fita: cinquenta
e dois ciclos disto, quarenta ciclos daquilo, etc. O que antes
tínhamos feito (e colado) espontaneamente tínhamos agora de
aprender com exactidÃo. Tínhamos de imitar o raio da nossa
própria fita!
O grande problema era a contagem. Pensei que Ralph o saberia
fazer, porque é músico, mas descobrimos ambos uma coisa
estranha. Nos nossos cérebros, o "departamento para tocar" é
também o "departamento para falar", para a contagem -nÃo
conseguíamos tocar e contar ao mesmo tempo!
Quando chegámos ao primeiro ensaio em SÃo Francisco,
descobrimos que, observando os bailarinos, nÃo precisávamos de
contar porque eles percorriam determinados movimentos.
306
Aconteceram-nos umas quantas coisas porque deveríamos ser
músicos profissionais e eu nÃo era. Por exemplo, uma das cenas
era sobre uma pedinte que se arrasta pela areia de uma praia
das Caraíbas onde as senhoras da sociedade, que tinham saído
no início do bailado, tinham estado. A música que a coreógrafa
tinha usado para criar esta cena era tocada num tambor
especial que Ralph e o pai tinham feito há muitos anos de modo
bastante amador e do qual nunca tínhamos conseguido obter um
bom tom. Mas descobrimos que, se nos sentássemos em cadeiras
um em frente do outro e puséssemos aquele "tambor maluco" nos
joelhos, entre ambos, com um a bater
bida-bida-bida-bida-bida-bida, rapidamente com dois dedos,
constantemente, o outro podia carregar no tambor com as duas
mÃos, em diferentes sítios, e mudar o tom. Agora fazia
buda-buda-buda-bida-bida-bida-buda-budabuda-bada-bida-bida-bid
a-bada, criando uma quantidade de sons interessantes.
Bem, a bailarina que representava a pedinte queria que as
subidas e as descidas coincidissem com a sua dança (a nossa
fita fora feita arbitrariamente para esta cena), pelo que ela
começou a explicar-nos o que ia fazer: "Primeiro faço quatro
destes movimentos assim; depois dobro-me e arrasto-me assim
pela areia durante oito tempos; depois levanto-me e volto-me
assim. " Eu sabia muito bem que nÃo podia decorar isto, pelo
que a interrompi:
"Vá dançando, que eu toco a acompanhá-la."
"Mas nÃo quer ver como é a dança? Está a ver, depois de me ter
arrastado pela segunda vez, vou nesta direcçÃo durante oito
tempos." NÃo servia de nada; eu nÃo conseguia lembrar-me de
nada e queria interrompê-la novamente, mas entÃo surgiu este
problema: iria dar a ideia de que nÃo era um músico
verdadeiro!
Bem, Ralph encobriu-me muito discretamente, dizendo: "O Sr.
Feynman tem uma técnica especial para este tipo de situaçÃo:
prefere desenvolver a dinâmica directamente e por intuiçÃo à
medida que a vê dançar. Vamos tentar uma vez dessa maneira e,
se nÃo ficar satisfeita, podemos corrigir."
Bem, ela era uma bailarina de primeira categoria e
conseguíamos antecipar o que ia fazer. Se ela fosse escavar a
areia, preparava-se para entrar na areia; cada movimento era
suave e esperado, pelo que foi bastante fácil fazer com as
mÃos os bzzzzs, os bshshs, os buudas e os bidas apropriados ao
que ela fazia, e ela ficou muito satisfeita. Assim conseguimos
ultrapassar o momento em que o nosso disfarce podia ter sido
descoberto.
307

[ i
O bailado foi uma espécie de sucesso. Apesar de nÃo haver
muitas pessoas a assistir, as que foram ver os espectáculos
gostaram muito.
Antes de irmos para SÃo Francisco para os ensaios e os
espectáculos nÃo estávamos muito seguros daquela ideia. Isto
é, pensávamos que a coreógrafa estava doida: primeiro, o
bailado só tinha percussÃo; segundo, era certamente um
disparate pensar que éramos suficientemente bons para fazer
música para um bailado e receber dinheiro por isso! Para mim,
que nunca tivera "cultura" nenhuma, acabar como músico
profissional para um bailado era realmente o ponto máximo da
realizaçÃo.
NÃo pensámos que ela conseguisse encontrar bailarinos que
estivessem dispostos a dançar com a nossa música de percussÃo.
(Na realidade, houve uma prima-dona do Brasil, a mulher do
cônsul português, que achou que dançar aquilo nÃo estaria à
sua altura.) Mas os outros bailarinos pareciam gostar muito e
o meu coraçÃo alegrou-se quando tocámos para eles pela
primeira vez no ensaio. O prazer que sentiram quando ouviram
os nossos ritmos, como eles eram na realidade (até aí tinham
usado a nossa fita tocada num gravador pequeno), era genuíno,
e fiquei muito mais confiante quando vi como eles reagiram
quando tocámos realmente. E, pelos comentários das pessoas que
foram aos espectáculos, percebemos que éramos um êxito.
A coreógrafa queria fazer outro bailado com a nossa percussÃo
na Primavera seguinte, pelo que seguimos o mesmo processo.
Fizemos uma fita com mais uns ritmos e ela fez outra história,
desta vez passada em Ãfrica. Falei com o Prof. Munger em
Caltech e arranjei umas frases africanas autênticas para
cantar no princípio (GAwa baNYuma GA wa Wo, ou qualquer coisa
parecida) e pratiquei-as até as saber na perfeiçÃo.
Mais tarde fomos a SÃo Francisco para uns ensaios. Quando lá
chegámos, descobrimos que eles tinham um problema. NÃo
conseguiam descobrir a maneira de fazer presas de elefante que
ficassem bem no palco. As que tinham feito de papel prensado
eram tÃo más que alguns dos bailarinos tinham vergonha de
dançar em frente delas.
NÃo propusemos nenhuma soluçÃo, preferimos esperar para ver o
que aconteceria quando chegassem os espectáculos na semana
seguinte. Entretanto combinei visitar Werner Erhard, que
conhecera quando participei numas conferências que ele tinha
organizado. Eu estava sentado na sua bonita casa, ouvindo
alguma filosofia ou qualquer ideia que ele me procurava
explicar, quando de repente fiquei hipnotizado.
"O que é?", perguntou ele.
308
Os olhos esbugalharam-se-me, ao mesmo tempo que exclamei:
"Presas!" Atrás dele, no chÃo, estavam umas enormes, maciças,
maravilhosas presas de marfim!
Ele emprestou-nos as presas. Ficaram muito bem no palco (com
grande alívio dos bailarinos); autênticas presas de elefante,
tamanho gigante, por gentileza de Werner Erhard.
A coreógrafa mudou-se para a Costa Leste e apresentou lá o seu
bailado das Caraíbas. Soubemos mais tarde que ela entrara com
esse bailado num concurso para coreógrafos de todos os Estados
Unidos e que tinha ficado em primeiro ou segundo lugar.
Encorajada por este sucesso, entrou noutra competiçÃo, desta
vez em Paris, para coreógrafos de todo o mundo. Levou uma fita
de alta qualidade que tínhamos gravado em SÃo Francisco e
treinou alguns bailarinos para dançarem uma pequena parte do
bailado lá em França -e foi assim que entrou no concurso.
Saiu-se muito bem. Chegou à final, em que já só havia dois um
grupo latino, que fazia um bailado normal, com os seus
bailarinos habituais, ao som de uma linda música clássica, e
um tresmalhado da América, apenas com dois bailarinos que ela
treinava em França, dançando um bailado que nÃo tinha mais
nada além da nossa percussÃo.
Ela era a favorita da assistência, mas nÃo se tratava de um
concurso de popularidade, e os juizes decidiram dar a vitória
aos latinos. Mais tarde, ela foi ter com os juízes para
saber qual era o ponto fraco do seu bailado.
"Bem, Madame, a música nÃo era verdadeiramente satisfatória.
NÃo era suficientemente subtil. Faltavam crescendos
controlados ... "
E assim fomos finalmente descobertos: quando tratámos com
pessoas verdadeiramente cultas em Paris, que conheciam música
de percussÃo, espalhámo-nos.
Estados alterados
Costumava fazer uma conferência todas as quartas-feiras na
Companhia de Aeronaves Hughes; um dia cheguei lá um pouco
adiantado
e pus-me a namoriscar a recepcionista, como de costume, quando
entraram umas seis pessoas -um homem, uma mulher e mais
alguns. Nunca os tinha visto. O homem perguntou: "é aqui que o
professor Feynman faz umas conferências?"
309

"É aqui mesmo", replicou a recepcionista.


O homem perguntou se o seu grupo podia assistir às
conferências.
"NÃo me parece que gostem muito delas", disse eu, "pois sÃo um
pouco técnicas. "
Rapidamente a mulher, que era muito esperta, descobriu:
"Aposto que é o professor Feynman!"
Afinal o homem era John Lilly, que tinha feito anteriormente
um trabalho com golfinhos. Ele e a mulher estavam a fazer
pesquisa sobre a privaçÃo dos sentidos e tinham construído uns
tanques.
"NÃo é verdade que se terÃo alucinaÇÕES nessas circunstâncias?
", perguntei, entusiasmado.
"É realmente verdade."
Tinha sentido sempre esta fascinaçÃo pelas imagens dos sonhos
e as outras imagens que vêm ao espírito sem ter uma fonte
sensorial directa, e pelo modo como isso funciona no cérebro,
e queria ver alucinaÇÕES. Uma vez tinha pensado em tomar
drogas, mas tive um certo medo: adoro pensar, e nÃo quero
estragar a máquina. Mas parecia-me que ficar apenas num tanque
de privaçÃo de sentidos nÃo apresentava perigo fisiológico,
pelo que estava muito ansioso por experimentar.
Aceitei rapidamente o convite dos Lilly para usar os tanques,
um convite muito simpático da parte deles, e eles foram ouvir
a conferência com o seu grupo.
Na semana seguinte fui entÃo experimentar os tanques. O Sr.
Lilly apresentou-me os tanques como deveria ter feito com as
outras pessoas. Havia uma quantidade de lâmpadas, como luzes
de néon, com diferentes gases lá dentro. Mostrou-me a tabela
periódica e inventou uma data de aldrabices místicas sobre as
diferentes influências dos diferentes tipos de luz. Ensinou-me
a preparar-me para entrar no tanque, olhando a minha imagem no
espelho com o nariz levantado e encostado ao espelho -toda a
espécie de maluquices e de tretas. NÃo liguei muito às tretas,
mas fiz tudo, porque queria entrar nos tanques, e também
porque pensei que talvez aqueles preparativos pudessem tornar
mais fácil ter alucinaÇÕES. Por isso fiz tudo do modo que ele
indicou. A única coisa que se revelou difícil foi escolher a
cor de luz que queria, especialmente porque o tanque deveria
ser escuro por dentro.
Um tanque de privaçÃo de sentidos é como uma grande banheira,
mas com uma tampa que desce. É completamente escuro por dentro
e, como a tampa é espessa, nÃo há sons. Há uma pequena bomba
que bombeia o ar para dentro, mas na realidade nÃo precisamos
de nos preocupar com isso porque o volume de ar é muito grande
e só lá estamos
310
duas ou três horas, e de facto nÃo consumimos muito ar quando
respiramos normalmente. O Sr. Lilly disse que as bombas
estavam lá para as pessoas se sentirem à vontade, pelo que
achei que devia ser só psicológico, e pedi-lhe que desligasse
a bomba, porque fazia barulho.
A água que está dentro do tanque contém sais Epsom para a
tornar mais densa do que a água normal, razÃo por que
flutuamos com muita facilidade. A temperatura é mais ou menos
a do corpo -tinha tudo calculado. NÃo devia haver luz, nem
som, nem sensaçÃo de temperatura, nada! De vez em quando
podíamos flutuar para o lado e dar uma ligeira pancada, ou
entÃo, devido à condensaçÃo da água no tecto, podia cair uma
gota, mas estes ligeiros distúrbios eram muito raros.
Devo ter lá ido umas doze vezes, passando em cada uma delas
duas horas e meia no tanque. Na primeira vez nÃo tive nenhuma
alucinaçÃo, mas, depois de ter estado no tanque, os Lilly
apresentaram-me um homem que declararam ser um médico e que me
falou de uma droga chamada cetamina, usada como anestésico.
Sempre me interessei pelas questSes relacionadas com o que
acontece quando se adormece ou se fica inconsciente, pelo que
me mostraram os papéis que vinham com o remédio e me deram um
décimo da dose normal.
Tinha uma sensaçÃo estranha que nunca consegui entender cada
vez que tentava caracterizar o efeito. Por exemplo, a droga
teve um grande efeito sobre a minha visÃo; sentia que nÃo
podia ver com clareza. Mas, quando me esforçava por olhar para
qualquer coisa, ficava bem. Era como se nÃo me interessasse
olhar para as coisas; fazemos isto e aquilo indolentemente,
sentindo-nos um pouco zonzos, mas, assim que olhamos e nos
concentramos, fica tudo bem, pelo menos por um momento. Peguei
num livro que eles tinham sobre química orgânica e olhei para
uma tabela cheia de substâncias complicadas e, para minha
surpresa, fui capaz de as ler.
Fiz muitas outras coisas; como aproximar as mÃos uma da outra,
a partir de certa distância, para ver se os meus dedos se
tocavam e, apesar de ter uma sensaçÃo de desorientaçÃo
completa, uma sensaçÃo de incapacidade para fazer praticamente
fosse o que fosse, nunca encontrei uma coisa específica que
nÃo pudesse fazer.
Como já disse, na primeira vez que estive no tanque nÃo tive
alucinaÇÕES. Mas os Lilly eram pessoas muito interessantes;
apreciei mesmo muito estar com eles. Muitas vezes davam-me
almoço, etc., e ao fim de algum tempo discutíamos as coisas a
um nível diferente daquelas primeiras coisas das luzes.
Compreendi que as outras pessoas tinham achado o tanque de
privaçÃo de sentidos de algum modo assustador,
311

mas para mim era uma invençÃo bastante interessante. NÃo tinha
medo porque sabia o que era: era apenas um tanque de sais
Epsom.
Na terceira vez havia lá um homem a visitá-los -encontrei lá
muitas pessoas interessantes-que se chamava Baba Ram Das. Era
um tipo de Harvard que fora para a índia e escrevera um livro
popular chamado Be Here Noiv. Relatava como o seu guru na
índia lhe tinha ensinado como ter uma "experiência de saída do
corpo" (palavras que tinha visto escritas muitas vezes no
boletim): "Concentre-se na respiraçÃo, na maneira como o ar
entra e sai do nariz enquanto respira."
Achei que tentaria qualquer coisa para ter uma alucinaçÃo e
entrei no tanque. A certa altura apercebo-me subitamente de
que -é difícil de explicar -estou uma polegada para o lado.
Por outras palavras, o sítio por onde entra e sai a minha
respiraçÃo nÃo está centrado: o meu ego está um pouco desviado
para um dos lados, mais ou menos uma polegada.
Pensei: "Ora onde está localizado o ego, na realidade? Sei que
todos pensam que a sede do pensamento está no cérebro, mas
como é que sabem isso?" Já sabia, por coisas que tinha lido,
que isso nÃo era tÃo evidente para as pessoas antes de terem
sido feitos muitos estudos psicológicos. Os Gregos pensavam
que a sede do pensamento era o fígado, por exemplo.
Interroguei-me: "Será, possível que as crianças aprendam a
localizaçÃo do pensamento vendo as pessoas levar a mÃo à
cabeça quando dizem: 'Deixa-me pensar? Portanto, a ideia de
que o ego está localizado cá em cima, atrás dos olhos, pode
ser convencional! " Achei que, se podia mover o meu ego uma
polegada para a direita, podia movê-lo ainda mais. Isto foi o
princípio das minhas alucinaÇÕES.
Tentei, e ao fim de algum tempo consegui que o meu ego
descesse pelo pescoço até ao meio do peito. Quando uma gota de
água caiu e me bateu no ombro, senti-a "lá em cima", acima de
onde "eu" estava. Cada vez que caía uma gota, eu
sobressaltava-me um pouco e o meu ego voltava a saltar através
do pescoço para o lugar habitual. EntÃo tinha de me esforçar
para voltar a descer. Ao princípio dava muito trabalho descer,
mas gradualmente foi-se tornando mais fácil. Consegui descer
até aos pulmSes, para um lado, mas durante bastante tempo nÃo
consegui ir mais longe.
Foi de outra vez em que estava no tanque que decidi que, se
podia mover-me para os pulmSes, deveria ser capaz de sair
completamente do corpo. Assim consegui "sentar-me para um
lado". E difícil de explicar -movia as mÃos e agitava a água
e, apesar de nÃo as poder ver, sabia onde estavam. Mas, ao
contrário da vida real, em que as
312
mÃos se encontram uma de cada lado, meio abaixo, estavam ambas
do mesmo lado! A sensaçÃo nos dedos e tudo o mais era
o'normal, apenas o meu ego estava sentado de fora,
"observando" tudo isto.
A partir daí tive alucinaÇÕES quase todas as vezes e consegui
mover-me cada vez para mais longe fora do corpo. Aquilo
desenvolveu-se de modo que, quando movia as mÃos, as via como
se fossem coisas mecânicas que subiam e desciam -nÃo eram de
carne, eram mecânicas. Mas continuava a ser capaz de sentir
tudo. As sensaÇÕES eram exactamente coerentes com o movimento,
mas eu tinha também aquela sensaçÃo de "ele é aquilo". "Eu"
chegava mesmo a sair da sala, por fim, e andava por aí, indo a
alguma distância, a sítios onde tinham acontecido coisas que
eu já tinha visto noutro dia.
Tive muitos tipos de experiências de saída do corpo. Uma vez,
por exemplo, pude "ver" a parte de trás da minha cabeça, com
as minhas mÃos encostadas a ela. Quando movia os dedos, via-os
mexer, mas entre os dedos e o polegar via o céu azul. Claro
que aquilo nÃo estava correcto; era uma alucinaçÃo. Mas o que
interessa é que, quando movia os dedos, o seu movimento era
exactamente coerente com o movimento que eu imaginava ver. O
conjunto completo das imagens aparecia e era coerente com o
que sentíamos e fazíamos, de modo muito semelhante ao que
acontece quando acordamos lentamente de manhà e estamos a
tocar alguma coisa (e nÃo sabemos o que é), e de repente
torna-se claro o que é. Assim, o conjunto de imagens completo
aparecia de repente, excepto ser inabitual, no sentido de que
imaginamos normalmente o ego localizado à frente da parte de
trás da cabeça, mas, em vez disso, temo-lo atrás da parte de
trás da cabeça.
Uma coisa que permanentemente me incomodava, psicologicamente,
enquanto tinha uma alucinaçÃo era poder ter adormecido e estar
portanto apenas a sonhar. Já tinha tido alguma experiência com
os sonhos e queria uma experiência nova. Era um pouco palerma,
porque, quando temos alucinaÇÕES, ou coisas do gênero, nÃo
estamos muito espertos e, por isso, fazemos aquelas coisas
parvas que temos na ideia, como verificar que nÃo estamos a
sonhar. Por isso eu estava permanentemente a verificar que nÃo
estava a sonhar esfregando os meus polegares um no outro, para
os sentir -porque tinha muitas vezes as mÃos atrás da cabeça.
Claro que poderia ter estado a sonhar aquilo, mas nÃo estava:
sabia que era verdade.
Depois do princípio de tudo, quando a excitaçÃo de ter uma
alucinaçÃo fazia com que elas "saltassem para fora", ou
parassem de se dar, consegui descontrair-me e ter longas
alucinaÇÕES.
313
Uma semana ou duas mais tarde pus-me a pensar afincadamente no
modo de funcionamento do cérebro comparado com o de um
computador -particularmente no modo de armazenar a
informaçÃo. Um dos problemas interessantes nesta área é saber
como as recordaÇÕES sÃo armazenadas no cérebro: podemos
alcançá-las a partir de muitas direcÇÕES, em comparaçÃo com
uma máquina -nÃo temos de chegar directamente à memória com o
endereço correcto. Se quero chegar à palavra "renda", por
exemplo, posso estar a fazer palavras cruzadas e procurar uma
palavra de cinco letras, começando com "r" e acabando em "a";
posso estar a pensar em tipos de rendimento, ou em actividades
como os empréstimos; isto, por sua vez, pode conduzir a todo o
gênero de memórias ou informaÇÕES relacionadas. Estava a
pensar no modo de fazer uma "máquina de imitar", que
aprendesse uma língua tal como uma criança: falaríamos com a
máquina. Mas nÃo conseguia descobrir como armazenar o material
de modo organizado para que a máquina o pudesse extrair para a
sua própria utilizaçÃo.
Quando nessa semana me meti no tanque e tive a minha
alucinaçÃo, tentei pensar em recordaÇÕES muito antigas. Estava
sempre a dizer para comigo: "Tem de ser mais antigo; tem de
ser mais antigo" -nunca ficava satisfeito, nunca achava que
as recordaÇÕES eram suficientemente antigas. Quando tinha uma
recordaçÃo muito antiga digamos, da minha cidade natal, Far
Rockaway -, seguia-se imediatamente uma série completa de
recordaÇÕES, todas da cidade de Far Rockaway. Se depois
pensava em qualquer coisa de outra cidade -Cedarhurst, ou
outra qualquer -, vinham uma data de coisas associadas a
Cedarhurst. E assim compreendi que os assuntos estÃo
armazenados de acordo com o lugar onde tivemos a experiência.
Alegrei-me muito com esta descoberta, saí do tanque, tomei um
duche, vesti-me e meti-me no carro, dirigindo-me para a
Companhia de Aeronaves Hughes a fim de fazer a minha
conferência semanal. Foi portanto uns quarenta e cinco minutos
depois de sair do tanque que me apercebi de repente de que nÃo
fazia a mínima ideia de como as recordaÇÕES se armazenam no
cérebro; tinha apenas tido uma alucinaçÃo sobre o modo como as
recordaÇÕES sÃo armazenadas no cérebro! O que tinha
"descoberto" nÃo tinha nada a ver com o modo como as memórias
sÃo armazenadas no cérebro; tinha a ver com o modo como eu
brincava comigo mesmo.
Nas nossas numerosas discussSes sobre alucinaÇÕES nas minhas
visitas anteriores, eu tentara explicar a Lilly e a outros que
imaginar que as coisas sÃo reais nÃo significa que elas sejam
verdadeiramente reais. Se
314
vemos globos dourados, ou qualquer coisa, várias vezes, e eles
falam connosco durante a nossa alucinaçÃo e nos dizem que sÃo
outra inteligência, isso nÃo significa que sejam outra
inteligência; significa apenas que tivemos essa determinada
alucinaçÃo. E entÃo ali estava eu com aquela tremenda sensaçÃo
de ter descoberto como as recordaÇÕES sÃo armazenadas, e é
surpreendente que tenha levado quarenta e cinco minutos até me
aperceber do erro que tinha andado a tentar explicar a toda a
gente.
Uma das questSes em que pensei era se as alucinaÇÕES, como os
sonhos, sÃo influenciadas pelo que já temos no espírito -por
outras experiências durante o dia, ou anteriormente, ou por
coisas que esperamos ver. Creio que a razÃo por que tive uma
experiência de saída
do corpo foi havermos estado a discutir as experiências de
saída do corpo mesmo antes de eu entrar no tanque. E penso que
a razÃo por que tive uma alucinaçÃo sobre o modo como as
recordaÇÕES sÃo armazenadas no cérebro foi eu ter estado a
pensar nesse problema durante
toda a semana.
Tive discussSes consideráveis com as várias pessoas de lá
sobre a realidade das experiências. Argumentavam que, na
ciência experimental, uma coisa é considerada verdadeira se a
experiência pode ser reproduzida. Assim, se muitas pessoas
vêem vezes seguidas globos dourados
que falam com elas, esses globos devem ser verdadeiros. Eu
afirmava que nessa situaçÃo haveria alguma discussÃo sobre os
globos dourados antes da entrada no tanque e que, por isso,
quando a pessoa tinha
uma alucinaçÃo, com o espírito já a pensar em globos dourados
ao entrar no tanque, vê qualquer coisa aproximada -talvez
sejam azuis,
ou qualquer coisa assim -e pensa que está a reproduzir a
experiência. Eu sentia que podia compreender a diferença entre
o tipo de concordância entre pessoas cujos espíritos estÃo
predispostos a concordar e o tipo de concordância que se obtém
no trabalho experimental. É engraçado ser tÃo fácil saber a
diferença, mas tÃo difícil defini-la
Creio que nÃo há nada nas alucinaÇÕES que tenha alguma coisa a
ver com algo exterior ao estado psicológico interior da pessoa
que tem
a alucinaçÃo. Mas existem, contudo, uma quantidade de
experiências
feitas por muitas pessoas que acreditam haver autenticidade
nas alucinaÇÕES. A mesma ideia geral pode explicar o relativo
sucesso
que têm
os intérpretes dos sonhos. Por exemplo, há psicanalistas que
interpretam os sonhos falando do significado de vários
símbolos. E
depois nÃo
é completamente impossível que esses símbolos apareçam de
facto nos
sonhos que se seguirem. Por isso penso que talvez a
interpretaçÃo das
315

alucinaÇÕES e dos sonhos seja um processo de autopropagaçÃo:


temos nela um sucesso mais ou menos geral, principalmente se a
discutimos antes cuidadosamente.
Normalmente levava quinze minutos a começar uma alucinaçÃo,
mas em algumas ocasiSes, quando fumava anteriormente um pouco
de mariJuana, ela vinha rapidamente. Mas quinze minutos era
uma boa velocidade para mim.
Uma coisa que acontecia frequentemente era que, quando a
alucinaçÃo começava, aparecia o que podemos descrever como
"lixo": havia imagens simplesmente caóticas -tralha
completamente aleatória. Tentei recordar alguns dos assuntos
dessa tralha para os poder caracterizar novamente, mas era
particularmente difícil. Acho que me estava a aproximar do
tipo de coisas que acontecem quando se começa a adormecer: há
conexSes lógicas aparentes, mas, quando tentamos recordar o
que nos fez pensar no que estamos a pensar, nÃo conseguimos.
De facto, esquecemos depressa o que é que estamos a tentar
recordar. Só me consigo lembrar de coisas como um cartaz
branco com uma bolha, em Chicago, e que depois desaparece.
Sempre esse tipo de coisas.
O Sr. Lilly tinha um certo número de tanques diferentes e nós
tentámos uma série de experiências também diferentes. NÃo
pareciam diferir muito no que diz respeito às alucinaÇÕES e
convenci-me de que o tanque era desnecessário. Agora, que
sabia o que fazer, compreendi que bastava sentar-me sossegado
-porque havia de ser preciso ter tudo absolutamente segundo as
regras?
Por isso, quando voltava para casa, apagava as luzes e
sentava-me na sala, numa cadeira confortável, e tentava, e
voltava a tentar, mas nunca resultou. Nunca consegui ter uma
alucinaçÃo fora dos tanques. Claro que gostaria de o ter
conseguido em casa e nÃo duvido que podemos meditar e
consegui-la se treinarmos, mas eu nÃo treinei.
A ciência do culto da carga,
Durante a Idade Média havia todo o tipo de ideias
disparatadas, como, por exemplo, a de que um bocado de chifre
de rinoceronte aumentava a potência. Depois descobriu-se um
método para separar
1 Adaptado do discurso de abertura feito em Caltech em 1974.
316
as ideias e que era experimentar uma para ver se resultava e,
se nÃo resultassse, eliminá-la. Este método, claro,
organizou-se, formando a ciência. E desenvolveu-se muito bem,
tanto que nos encontramos agora na idade científica. De facto,
é de tal modo uma idade científica, que nos custa a acreditar
que alguma vez tenham existido curandeiros, quando nada do que
eles preconizavam -ou muito pouco -resultava
verdadeiramente.
Mas mesmo nos dias de hoje encontro uma quantidade de pessoas
que mais cedo ou mais tarde me metem numa conversa sobre
OVNIs, ou astrologia, ou qualquer forma de misticismo,
percepçÃo alargada, novos tipos de consciência, PES e por aí
fora. E eu concluí que nÃo é um mundo científico.
A maioria das pessoas acreditam em tantas coisas maravilhosas
que decidi investigar a razÃo de isso acontecer. E o que tem
sido referido como a minha curiosidade pela investigaçÃo
meteu-me numa dificuldade em que encontrei tanta tralha que
fiquei confundido. Primeiro comecei por investigar várias
ideias do misticismo e experiências místicas. Entrei em
tanques de isolamento e tive muitas horas de alucinaÇÕES, pelo
que sei alguma coisa sobre o assunto. Depois fui a Esalen, que
é um viveiro para esse tipo de pensamento (é um lugar
maravilhoso; deviam visitá-lo). EntÃo fiquei confundido. NÃo
me tinha apercebido da quantidade que havia.
Em Esalen havia uns grandes banhos alimentados por nascentes
quentes situadas numa saliência uns trinta pés acima do
oceano. Uma das experiências mais agradáveis foi sentar-me num
desses banhos e observar as ondas a esmagarem-se lá em baixo
na orla rochosa, olhar o claro céu azul por cima de mim e
estudar uma linda rapariga nua que aparece calmamente e se
instala no banho comigo.
Uma vez sentei-me num banho onde estava uma rapariga muito
bonita e um tipo que nÃo parecia conhecê-la. Comecei logo a
pensar: "Como hei-de começar a conversar com esta linda miúda
nua?"
Tento descobrir como meter conversa, quando o tipo lhe diz:
"Eu, hum, ando a estudar massagem. Posso treinar em si?"
"Claro", diz ela. Saem do banho e ela deita-se numa mesa de
massagens próxima.
Penso para comigo: "Que linhas tÃo elegantes! Nunca consigo
pensar numa coisa daquelas!" Ele começa a esfregar-lhe o dedo
grande do pé. "Acho que o estou a sentir", diz ele. "Sinto uma
espécie de mossa-será a pituitária?"
Atalho abruptamente: "Está bem longe da pituitária, homem!"
317

Eles olharam para mim horrorizados -tinha estragado o meu


disfarce-e disseram: "É reflexologia!"
Fechei rapidamente os olhos e fingi meditar.
Isto é apenas um exemplo do tipo de coisas que me ultrapassam.
Também me debrucei sobre a percepçÃo extrasensorial e sobre os
fenómenos Psi, e, aí, a última mania era Uri Geller, um homem
que diziam ser capaz de dobrar chaves esfregando-as com um
dedo. EntÃo, a seu convite, fui ao seu quarto de hotel para
ver uma demonstraçÃo da leitura da mente e da dobragem de
chaves. NÃo fez nenhuma leitura da mente com sucesso; calculo
que ninguém possa ler a minha mente. E o meu rapaz pegou numa
chave e Geller esfregou-a e nÃo aconteceu nada. EntÃo ele
disse-nos que dava mais resultado debaixo de água, e podem
imaginar todos nós, de pé, na casa de banho, com a água a
correr e a chave debaixo e ele a esfregá-la com o dedo. NÃo
aconteceu nada. Por isso nÃo consegui investigar esse
fenômeno.
Depois comecei a pensar em que mais acreditávamos nós. (E
entÃo lembrei-me dos curandeiros e de como teria sido fácil
investigá-los, verificando que nada resultava
verdadeiramente.) Assim, encontrei coisas em que ainda um
maior número de pessoas acreditam, tal como o sabermos alguma
coisa de educaçÃo. Há grandes escolas de métodos de leitura e
de métodos de matemática e por aí fora, mas, se repararmos,
verificamos que as pontuaÇÕES da leitura continuam a descer
-ou dificilmente sobem -, apesar de usarmos constantemente
estas mesmas pessoas para melhorar os métodos. Aí está um
remédio de curandeiro que nÃo resulta. Deveria ser analisado;
como sabem eles que o seu método deveria resultar? Outro
exemplo é o modo de tratar os criminosos. É evidente que nÃo
fizemos progressos -muita teoria, mas nenhuns progressos -na
diminuiçÃo da quantidade de crimes pelo método que usamos para
lidar com os criminosos.
Contudo, estas coisas sÃo consideradas científicas.
Estudamo-las. E acho que as pessoas vulgares com ideias
sensatas se sentem intimidadas por esta pseudociência. Uma
professora que faça uma boa ideia de como ensinar as suas
crianças a ler é forçada pelo sistema escolar a fazê-lo de
outro modo -ou é mesmo capaz de se deixar enganar pelo
sistema a ponto de pensar que o seu método nÃo é
necessariamente um bom método. Ou uma mÃe de rapazes maus que,
depois de os disciplinar de um ou de outro modo, se sente
culpada para o resto da vida porque nÃo fez "o que se deve
fazer", segundo os peritos.
Por isso devíamos realmente verificar o que se passa com as
teorias que nÃo resultam e com a ciência que nÃo é ciência.
318
Acho que os estudos educacionais e psicológicos que mencionei
sÃo exemplos do que eu gostaria de chamar a ciência do culto
da carga. Nos mares do Sul há povos que têm um culto da carga.
Durante a guerra
viam aterrar aviSes com uma quantidade de bons materiais e
queriam que o mesmo acontecesse agora. Por isso resolveram
fazer coisas como construir pistas de aterragem, dispor
fogueiras ao longo dos lados das
mesmas, fazer uma cabana de madeira para um homem se sentar lá
dentro, com dois bocados de madeira na cabeça a imitar
auscultadores e dois paus de bambu a imitar antenas -é o
controlador -, e esperar que aterrem aviSes. Fazem tudo como
deve ser. A forma é perfeita. Tem exactamente o mesmo aspecto
que tinha. Mas nÃo resulta. NÃo aterra nenhum aviÃo. Por isso
eu chamo a essas coisas ciência do culto da carga, porque
seguem todos os preceitos e formas aparentes da investigaçÃo
científica, mas falta-lhes qualquer coisa essencial, porque os
aviSes nÃo aterram.
Agora compete-me, claro, dizer-vos o que lhes falta. Mas teria
quase a mesma dificuldade em explicar aos habitantes das ilhas
dos mares do Sul como têm de preparar as coisas para que
consigam que entre alguma riqueza no seu sistema. NÃo é uma
coisa simples como dizer
-lhes como melhorar a forma dos auscultadores. Mas há um
aspecto que eu reparei faltar normalmente na ciência do culto
da carga. É a ideia que todos esperamos que tenham aprendido
ao estudar a ciência na escola -nunca dizemos explicitamente
qual é, apenas esperamos que a extraiam de todos os exemplos
de investigaçÃo científica. Tem portanto interesse revelá-la
agora e falar dela explicitamente. É uma espécie de
integridade científica, um princípio do pensamento científico
que
corresponde a uma honestidade absoluta -uma espécie de
sustentaçÃo ao contrário. Por exemplo, se estamos a fazer uma
experiência, devemos relatar tudo o que pensamos que a pode
invalidar -nÃo apenas o que pensamos que ela tem de correcto:
outras causas que possi
velmente poderiam explicar os resultados; e as coisas em que
pensámos e que eliminámos com qualquer outra experiência, e
como
resultaram -para nos certificarmos de que o outro tipo fica a
saber que foram eliminadas.
Os detalhes que podem lançar dúvidas sobre a nossa
interpretaçÃo devem ser apresentados, se os conhecemos.
Devemos fazer o melhor
possível -se sabemos seja o que for que está errado, ou que
pode estar -para o explicar. Se construímos uma teoria, por
exemplo, e a anunciamos, ou a publicamos, devemos também
registar todos os factos que estÃo em desacordo com ela, ao
mesmo tempo que registamos
319

os que a apoiam. Há, além disso, um problema mais subtil.


Quando conjugamos uma quantidade de ideias para construir uma
teoria complexa, queremos certificar-nos de que as coisas a
que ela se ajusta nÃo sÃo apenas aquelas que nos deram a ideia
da teoria e também de que a teoria acabada faz com que mais
alguma coisa dê certo, em adiçÃo.
Em resumo, a ideia é tentar dar toda a informaçÃo que ajude os
outros a avaliar a nossa contribuiçÃo, e nÃo apenas a
informaçÃo que orienta a opiniÃo numa ou noutra direcçÃo
determinada.
O modo mais fácil de explicar esta ideia é estabelecer o
contraste com a publicidade, por exemplo. A noite passada ouvi
dizer que o óleo Wesson nÃo ensopa a comida. Bem, é verdade.
NÃo é desonesto; mas aquilo de que estou a falar nÃo é apenas
uma questÃo de nÃo ser desonesto, é uma questÃo de integridade
científica, que se coloca a outro nível. O facto que deveria
acrescentar-se à afirmaçÃo do anúncio é que nenhum óleo ensopa
a comida, se for utilizado a certa temperatura. Se utilizados
a outra temperatura, todos ensopam -incluindo o óleo Wesson.
Assim, foi a implicaçÃo que foi transmitida, e nÃo o facto,
que é verdadeiro, e é com essa diferença que temos de nos
haver.
Aprendemos com a experiência que a verdade acabará por
aparecer. Outros experimentadores repetirÃo a nossa
experiência para descobrir se estávamos certos ou errados. Os
fenómenos naturais irÃo estar de acordo ou em desacordo com a
nossa teoria. E, embora possamos ganhar alguma fama e
excitaçÃo temporárias, nÃo adquiriremos uma boa reputaçÃo como
cientistas se nÃo tentarmos ser muito cuidadosos neste tipo de
trabalho. E é este tipo de integridade, esta espécie de
cuidado em nÃo nos enganarmos a nós próprios, que falta em
grande escala em muita da pesquisa da ciência do culto da
carga.
Grande parte das suas dificuldades provêm, claro, da
dificuldade do assunto e da impossibilidade de aplicar o
método científico ao mesmo. Contudo, deve salientar-se que
esta nÃo é a única dificuldade. É a razÃo para os aviSes nÃo
aterrarem -mas nÃo aterram.
Aprendemos muito com a experiência sobre o modo de resolver
algumas das formas de nos enganarmos a nós próprios. Um
exemplo: MilHkan mediu a carga de um electrÃo numa experiência
com gotas de óleo que caíam e obteve uma resposta que sabemos
agora nÃo ser absolutamente correcta. É um pouco desviada,
porque ele tinha um valor incorrecto para a viscosidade do ar.
É interessante observar a história das mediÇÕES da carga do
electrÃo depois de Miffikari. Se as traçarmos como funçÃo do
tempo, veremos que uma é um pouco maior que a de Milli
320
IL
kan, a seguinte um pouco maior que essa e a seguinte um pouco
maior, até que finalmente se fixam num número mais alto.
Por que razÃo nÃo descobriram imediatamente que o novo número
era mais alto? É uma coisa de que os cientistas se envergonham
-esta história-, porque se torna evidente que as pessoas
fizeram coisas deste gênero: quando obtinham um número
demasiado acima do de Millikan, pensavam que algo devia estar
errado, e entÃo procuravam e encontravam uma razÃo para algo
estar errado. Quando obtinham um número mais próximo do valor
do de Millikari, nÃo se esforçavam tanto a procurar. E assim
eliminavam os números que se afastavam demasiado e faziam
outras coisas deste tipo.
Nos dias de hoje aprendemos esses truques e agora nÃo sofremos
desse género de doença.
Mas esta longa história de aprendermos a nÃo nos enganarmos a
nós próprios -de termos uma integridade científica absoluta -
é, lamento dizê-lo, uma coisa que nÃo incluímos
especificamente numa cadeira determinada que eu conheça.
Esperamos, apenas, que a tenham aprendido por osmose.
O primeiro princípio é que nÃo nos devemos enganar a nós
próprios -e somos a pessoa mais fácil de enganar. Por isso
temos de ter muito cuidado com isto. Depois de nÃo nos termos
enganado é fácil nÃo enganar os outros cientistas. Em seguida
basta sermos honestos de modo convencional.
Gostaria de juntar qualquer coisa que nÃo é essencial para a
ciência, mas em que eu acredito, e que é nÃo devermos enganar
os leigos quando falamos como cientistas. NÃo estou a querer
dizer-lhe o que fazer quanto a enganar a sua mulher, ou a
aldrabar a sua namorada, ou qualquer coisa assim, quando nÃo
está a querer ser cientista, mas apenas um ser humano normal.
Deixaremos esses problemas para si e para o seu rabi. Estou a
falar de um tipo específico de integridade que consiste em nos
expormos, mostrando como podemos estar enganados, e que
devemos ter quando actuamos como cientistas. E é esta a nossa
responsabilidade como cientistas, para com os outros
cientistas certamente e penso que também para com os leigos.
Por exemplo, fiquei um pouco surpreendido quando conversei com
um amigo que ia falar na rádio. Ele trabalha em astronomia e
em cosmologia e queria saber como explicar as implicaÇÕES do
seu trabalho. "Bem", disse eu, "nÃo há nenhuma." Ele
respondeu: "Pois nÃo, mas assim nÃo receberemos apoio para
mais pesquisa deste tipo." Isto parece-me desonesto. Se
estamos a representar-nos a nós próprios como
321

cientistas, devemos explicar aos leigos o que fazemos -e, se


eles nÃo querem apoiar-nos nessas circunstâncias, a decisÃo é
deles.
Um exemplo do princípio é este: se resolvemos testar uma
teoria, ou queremos explicar uma ideia, devemos sempre decidir
publicá-la, seja como for que resulte. Se só publicarmos
resultados de um certo tipo, podemos fazer com que o argumento
pareça bom. Devemos publicar os resultados de ambos os tipos.
Sou de opiniÃo que isso também é importante ao dar certos
tipos de conselhos ao Governo. Vamos supor que um senador nos
pede conselho sobre se deve ser feita uma perfuraçÃo no seu
estado; e nós decidimos que seria melhor noutro estado. Se nÃo
publicamos tal resultado, parece-me que nÃo estamos a dar um
conselho científico. Estamos a ser usados. Se, por acaso, a
nossa resposta se encontra na direcçÃo que agrada ao governo
ou aos políticos, podem usá-la como argumento a seu favor; se
é ao contrário, nem sequer a publicam. Isso nÃo é dar um
conselho científico.
Há outros tipos de erro que sÃo mais característicos da
ciência pobre. Quando me encontrava em Comell, falava muitas
vezes com as pessoas do Departamento de Psicologia. Uma das
alunas contou-me que queria fazer uma experiência que era mais
ou menos assim: outras pessoas tinham descoberto que, sob
certas circunstâncias, X, os ratos faziam determinada coisa,
A. Ela tinha curiosidade em saber se, mudando as
circunstâncias para Y, eles continuariam a fazer A. Portanto,
a proposta dela era fazer a experiência sob as circunstâncias
Y para ver se eles continuavam a fazer A.
Expliquei-lhe que primeiro era necessário repetir no seu
laboratório a experiência da outra pessoa -fazê-la sob as
condiÇÕES X para ver se também conseguia obter o resultado A e
depois mudar para Y e ver se A mudava. EntÃo ela saberia que a
verdadeira diferença era aquilo que pensava ter sob controlo.
Ela gostou muito desta nova ideia e foi ter com o seu
professor. E a resposta dele foi: "NÃo, nÃo pode fazer isso,
porque a experiência já foi feita e estaria a perder tempo."
Isto passou-se por volta de 1947, e nessa altura parece que a
política geral era nÃo tentar repetir as experiências
psicológicas, mas apenas mudar as condiÇÕES e ver o que
acontecia.
Hoje em dia corre-se um certo risco de se passar o mesmo, até
no famoso campo da física. Fiquei chocado quando soube de uma
experiência feita no grande acelerador do Nacional Accelerator
Laboratory, em que uma pessoa usou deutério. Para poder
comparar os seus resul
322
tados com o hidrogénio pesado com o que poderia acontecer com
o hidrogénio leve, teve de usar dados obtidos numa experiência
sobre o hidrogénio leve feita por outra pessoa e com uma
aparelhagem diferente. Quando lhe perguntaram porquê, disse
que era por nÃo ter conseguido tempo no programa (porque há
tÃo pouco tempo e é uma aparelhagem tÃo cara) para fazer a
experiência com hidrogénio leve na sua aparelhagem, porque nÃo
iria haver resultados novos. E, assim, os homens que dirigem
os programas no NAL estÃo tÃo ansiosos por novos resultados,
de modo a obterem mais dinheiro para continuarem em
funcionamento com objectivos de relaÇÕES públicas, que estÃo,
possivelmente, -a destruir o valor das próprias experiências,
que é o verdadeiro objectivo. Muitas vezes, os
experimentadores desse laboratório têm dificuldade em
completar o seu trabalho de acordo com as exigências da sua
integridade científica.
Contudo, nem todas as experiências de psicologia sÃo deste
tipo. Por exemplo, tem havido muitas experiências que fazem
passar ratos através de labirintos de todo o tipo, etc. -com
poucos resultados claros. Mas, em 1937, um homem chamado
Yoting fez uma muito interessante. Tinha um corredor comprido
com portas de um lado, por onde entravam os ratos, e portas do
outro lado, onde estava a comida. Ele queria ver se conseguia
treinar os ratos a entrarem na terceira porta, partissem eles
de onde partissem. NÃo. Os ratos iam imediatamente para a
porta onde tinha estado a comida na vez anterior.
Agora a questÃo era descobrir como é que os ratos sabiam, uma
vez que o corredor era tÃo bem construido e tÃo uniforme, que
era a mesma porta? Havia evidentemente qualquer coisa na porta
que a tornava diferente das outras. EntÃo pintou as portas com
muito cuidado, fazendo com que as texturas das suas
superfícies fossem exactamente as mesmas. Mesmo assim, os
ratos sabiam. EntÃo pensou que talvez os ratos sentissem o
cheiro da comida, pelo que usou produtos químicos para mudar
os cheiros depois de cada passagem. Mesmo assim, os ratos
sabiam. EntÃo percebeu que os ratos poderiam ser capazes de
saber por verem as luzes e a disposiçÃo do laboratório, como
qualquer pessoa com bom senso faria. Por isso tapou o
corredor, e mesmo assim os ratos sabiam.
Descobriu, finalmente, que eles sabiam pelo modo como o chÃo
soava quando corriam por cima dele. E só conseguiu remediar
isso cobrindo o seu corredor com areia. Assim, foi cobrindo
umas atrás das outras todas as pistas possíveis, e finalmente
conseguiu enganar os ratos,
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para que tivessem de aprender a entrar na terceira porta. Se


descuidasse alguma destas condiÇÕES, os ratos sabiam.
Ora, do ponto de vista científico, esta é uma experiência de
primeiríssima ordem. É a experiência que torna as experiências
de passagem de ratos sensatas, porque revela as pistas que o
rato realmente usa -nÃo as que pensamos que usa. E é a
experiência que diz exactamente quais as condiÇÕES que devemos
usar para sermos cuidadosos e controlar tudo numa experiência
com passagem de ratos.
Verifiquei a história posterior desta pesquisa. Na experiência
seguinte, e na seguinte, nunca se reportaram ao Sr. Young.
Nunca usaram nenhum dos seus critérios de cobrir o corredor
com areia, ou de ter muito cuidado. Continuaram apenas a fazer
passar os ratos pelos labirintos da mesma maneira antiga e nÃo
ligaram à grande descoberta do Sr. Young, e os seus trabalhos
nÃo foram citados, porque nÃo descobriu nada sobre os ratos.
Na realidade, descobriu todas as coisas que temos de fazer
para descobrir qualquer coisa sobre os ratos. Mas nÃo prestar
atençÃo a experiências destas é característico da ciência do
culto da carga.
Outro exemplo sÃo as experiências sobre PES feitas pelo Sr.
Rhine e outras pessoas. Como várias pessoas têm feito críticas
-e eles próprios têm feito críticas das suas experiências -,
melhoram as técnicas para que os efeitos sejam menores, cada
vez menores, até desaparecerem gradualmente. Todos os
parapsicólogos procuram uma experiência que possa ser repetida
-que se possa fazer de novo e obter o mesmo resultado-, nem
que seja estatisticamente. Fazem andar um milhÃo de ratos -
nÃo, desta vez sÃo pessoas-, fazem uma quantidade de coisas e
obtêm determinado resultado estatístico. Na próxima vez que
tentem já nÃo obtêm o mesmo resultado. E agora ouvimos um
homem dizer que é irrelevante esperar uma experiência
repetível. Isto é ciência?
Este homem também fala de uma nova instituiçÃo, num discurso
no qual se demitia de director do Instituto de Parapsicologia.
E, ao indicar às pessoas o que têm de fazer em seguida, diz
que uma das coisas é certificarem-se de que apenas treinam
estudantes que demonstraram a sua capacidade de obter
resultados PSI numa extensÃo aceitável -nÃo perder tempo com
aqueles estudantes ambiciosos e interessados que só obtêm
resultados aleatórios. É muito perigoso ter tal política no
ensino -ensinar apenas aos estudantes como obter determinados
resultados, em vez de os ensinar a fazer uma experiência com
integridade científica.
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Por tudo isto, desejo-vos apenas uma coisa: a sorte de estarem
num sítio onde tenham a liberdade de manter o tipo de
integridade que descrevi e onde nÃo se sintam forçados, pela
necessidade de manter a vossa posiçÃo na organizaçÃo, ou de
apoio financeiro, ou por qualquer outra coisa, a perder a
vossa integridade. Possam vocês ter essa liberdade.
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