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O locutor Dez reais

Ele é versátil. Dança na porta da loja, microfone na mão, passinhos para cá, para lá, mas
ninguém vê. Os vendedores estão ocupados enquanto clientes entram e saem sem notar
aquele sujeito com voz empostada, começando as frases sempre com “Muito bem”, ou “É
isso aí”.Entre imitações do Silvio Santos e uma ou outra piadinha, ele repete promoções,
fala sobre “ofertas incríveis” e valoriza que o celular está barato.
Do outro lado da rua um carro de som não deixa duvidas: “Auto escola “Y” a mais barata!”.
O volume está tão alto que até a Dona Carmem que mora no décimo andar do edifício da
esquina perdeu o fim da receita da Ana Maria Braga na TV. “Que povo mal educado!” Ela
resmunga. “Será que ninguém tem mais direito a sossego?”.
O que Dona Carmem não sabe é que, seja na porta de loja, no carro de som, no super
mercado ou mesmo nas rádios, eles estão lá: O locutor dez reais.

Essa espécie, cada vez menos rara, sobrevive às custas de um volume de trabalho que
justifica o baixo preço. Com a possibilidade de qualquer um acoplar um microfone no
computador, baixar um software e sair gravando, criou-se um novo mercado nivelado
completamente por baixo.
Os argumentos são muitos: “Se não for assim o cliente não aceita”, “Tem muita
concorrência”, “Esse mercado é pequeno”,“Eu ganho no volume”, e por aí vai, sempre
criando uma falsa sensação de que não há remédio, que esse é o valor correto e pronto.

Tem também o “locutor genérico”, que vive de imitações do Jorge Ramos (o do cinema),
Dirceu Rabelo (TV Globo) e outras vozes conhecidas, sem ao menos disfarçar sua
motivação em “Fazer igual cobrando menos”. Mas quem faz assim, nunca chega aos pés do
original que, não a toa, cobra bem mais.

E os “Waguinho´s Cover” que pipocam em todos os lugares, tentando fazer igual ao meu
amigo que hoje está na 89 FM/SP, mas obviamente cobrando menos?

Essas espécies não são fenômenos desconectados de uma razão maior. Talvez parte da
explicação esteja no próprio rádio que continua se desvalorizando como veículo, perdendo
espaço, permitindo a perda de anunciantes até para panfletos publicitários.

É assim porque perdemos o foco. Nos esquecemos que trabalhamos com a possibilidade de
criar mundos na cabeça do ouvinte, de explorarmos sua imaginação, de adaptarmos nossa
linguagem aos seus anseios, suas vontades, suas projeções. O rádio virou burocrático, os
departamentos artístico e comercial falam línguas opostas, são distantes um do outro, em
muitos casos até competem entre si, esquecendo-se que o artístico é o barco, mas o
comercial seu motor. Quantas vezes vejo diretores artísticos que fazem questão de serem
inimigos do comercial, e vice versa.

Se por um lado os financeiros querem sempre diminuir custos (e eles tem suas razões para
tal) o artístico bate o pé achando que “sem dinheiro não dá”. Por que não? Talvez seja mais
difícil exigir de sua criatividade, driblar as dificuldades com boas idéias e fazer mesmo com
pouco investimento. É mais fácil criar com dinheiro, mas é possível criar sem.
O fato é que basicamente vivemos um problema de visão. Nos enxergamos como o patinho
feio da comunicação e tocamos nosso negócio sem entusiasmo, sem margem para ousar,
sem nenhuma criatividade. Faz-se rádio como se fazia em tempos pré internetianos e tenta-
se colher um resultado que desse jeito não virá.

Dizer que os tempos estão mudados e que precisamos de conteúdo, não é suficiente se você
não agir conforme discursa. Rádios colocam conteúdos no ar somente com o argumento de
que se “A rádio tal fez, é porque deve ser bom”. (Você nem imagina quantas vezes já ouvi
coisas assim!).

Enquanto isso, eles, os “locutores dez reais” pipocam para todos os lados, desvalorizando o
mercado e, de certa forma, ocupando essa brecha que o rádio abriu com sua falta de visão,
com seu método de gerir baseado na implosão.

É claro que isso não é somente um fenômeno mercadológio. Sei que as novas tecnologias
mudam o jeito de conduzir qualquer negócio e que o acesso a um “home estúdio” facilitou
as coisas, mas não da para olhar para o fulano da loja com voz de Silvio Santos cover, nem
o “locutor dez reais” como algo desconectado da nossa realidade, da nossa falta de visão e
identificarmos nisso tudo reflexos da maneira como estamos levando nosso negócio.

A culpa é nossa também e, enquanto não fizermos nada, iremos conviver com um cenário
cada fez mais “prostituído” e desvalorizado.

Pense nisso e faça sua parte.

Nota: Voltei a dar palestras e consultorias para profissionais de rádios em todo o país.
Falo sobre minhas experiências nos mais diversos estilos de rádios em SP e em grandes
Capitais, além de ajudá-los a lidar com suas limitações em praticar o rádio da nova
década. É minha contribuição para ajudar a melhorar nosso negócio. Interessados,
escrevam para flaviosiqueira@rocketmail.com ou através do www.flaviosiqueira.com